Prévia do material em texto
W BA 09 24 _V 1. 0 IMAGINOLOGIA E EXAMES LABORATORIAIS APLICADOS AO PACIENTE CRÍTICO 2 Leticia Dominguez Campos Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2021 IMAGINOLOGIA E EXAMES LABORATORIAIS APLICADOS AO PACIENTE CRÍTICO 1ª edição 3 2021 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente de Pós-Graduação e Educação Continuada Paulo de Tarso Pires de Moraes Conselho Acadêmico Carlos Roberto Pagani Junior Camila Braga de Oliveira Higa Carolina Yaly Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Tayra Carolina Nascimento Aleixo Coordenador Camila Braga de Oliveria Higa Revisor Igor Lopes de Brito Editorial Alessandra Cristina Fahl Beatriz Meloni Montefusco Gilvânia Honório dos Santos Mariana de Campos Barroso Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)__________________________________________________________________________________________ Campos, Leticia Dominguez C198i Imaginologia e exames laboratoriais aplicados ao paciente crítico / Leticia Dominguez Campos, – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2021. 40 p. ISBN 978-65-5903-119-1 1. Interpretação de exames. 2. Avaliação. 3. Assistência fisioterapêutica. I. Título. CDD 616 ____________________________________________________________________________________________ Evelyn Moraes – CRB 010289/O © 2021 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. 4 SUMÁRIO Exames complementares laboratoriais ______________________ 05 Interpretação de exames de imagem ________________________ 19 Avaliação do eletrocardiograma _____________________________ 33 Uso de tecnologias para assistência fisioterapêutica ao paciente crítico ________________________________________________________ 46 IMAGINOLOGIA E EXAMES LABORATORIAIS APLICADOS AO PACIENTE CRÍTICO 5 Exames complementares laboratoriais Autoria: Leticia Dominguez Campos Leitura crítica: Igor L. Brito Objetivos • Apresentar os principais exames complementares laboratoriais realizados em pacientes críticos. • Elucidar a interpretação dos exames complementares laboratoriais. • Descrever as implicações dos achados laboratoriais para a Fisioterapia. 6 1. Exames complementares laboratoriais Neste tema, você irá conhecer como é feita a interpretação dos exames laboratoriais mais comumente realizados em pacientes sob cuidados intensivos. Mas, por que o fisioterapeuta deve saber interpretar estes exames? Pois são realizados para avaliar, de forma complementar, o estado geral de saúde do paciente. Os seus resultados oferecem informações importantes, que auxiliam o fisioterapeuta a traçar seu diagnóstico, objetivos e condutas terapêuticas, de forma mais segura. Isso, porque, muitos destes resultados podem implicar em alterações da função pulmonar e periférica, que o fisioterapeuta deve conhecer para realizar tomadas de decisão. Mas, atenção! É importante ressaltar que nenhum exame substitui a avaliação clínica do paciente! As informações devem ser complementares, e não analisadas de forma isolada. Ao longo deste tema, você irá estudar os seguintes exames: hemograma completo, marcadores inflamatórios, cardíacos e de função renal, principais eletrólitos e gasometria arterial, exame, este, fundamental para o fisioterapeuta em muitas condutas no ambiente de terapia intensiva. Vamos começar? 1.1 Hemograma completo Este é um exame realizado rotineiramente, especialmente em pacientes críticos, como os internados em UTI. O hemograma completo nada mais é do que um exame que realiza a contagem dos elementos figurados do sangue, ou seja, dos eritrócitos (série vermelha), leucócitos (série branca) e plaquetas. Na Figura 1, você encontra um exemplo de resultado de hemograma completo. Perceba que, na primeira coluna, são apresentados os valores do paciente e, na segunda coluna, os valores de referência. Estes valores de referência podem sofrer 7 pequenas alterações de acordo com a referência bibliográfica utilizada pelo laboratório, bem como se altera de acordo com o sexo e a idade do paciente. Figura 1 – Hemograma completo, normal, de um adulto do sexo feminino Fonte: acervo da autora. Agora que você conhece o exame, será apresentada a importância da avaliação de cada elemento figurado. Começando pela série vermelha, a sua contagem é fundamental para determinar a capacidade do sangue em transportar oxigênio. Lembre-se que a maior parte do oxigênio é transportada dos pulmões até os tecidos ligada à hemoglobina, uma proteína da hemácia. Assim, nos casos em que há redução da contagem de hemácias, o que é chamado de anemia, a capacidade de transporte de oxigênio estará reduzida, levando à hipóxia (WILKINS, 2009 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK, 2009). 8 O contrário também pode ocorrer, ou seja, a contagem de hemácias pode estar acima do normal, o que é chamado de policitemia. A causa mais comum da policitemia é a hipoxemia crônica, que ocorre, por exemplo, nos pacientes com doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) ou outras doenças pulmonares e cardíacas. Nestes casos, a hipoxemia crônica estimula a medula óssea a produzir células vermelhas extras, na tentativa de aumentar o carregamento de sangue para os tecidos. Além dos pacientes com doenças crônicas, indivíduos que vivem em alta altitude podem apresentar policitemia, pelo mesmo motivo, ou seja, hipoxemia crônica (mas, aqui, por conta da quantidade de oxigênio no ar inspirado, e não por uma doença pulmonar). Como consequência, dependendo do grau da policitemia, pelo aumento da viscosidade do sangue, pode haver aumento da pressão arterial (WILKINS, 2009 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK, 2009; ZIGAIB, 2020 apud TANAKA; FU, 2020). É importante ressaltar que a policitemia é uma adaptação do organismo que ocorre a longo prazo. Portanto, se no ambiente de terapia intensiva você encontrar um paciente com policitemia, pense que isso já deve estar ocorrendo há um tempo. Atente em entender a possível causa da hipoxemia crônica que levou à policitemia secundária. Esta causa pode determinar algumas de suas condutas e não a alteração do hemograma em si. Por exemplo: se o paciente apresenta hipoxemia crônica por DPOC, alguns cuidados adicionais com a ventilação mecânica e oxigenoterapia serão necessários. A série branca do hemograma, por sua vez, é composta por células do sistema imune, responsáveis por realizar reparo quando identificam lesões, como uma inflamação. O aumento da contagem de leucócitos é chamado de leucocitose, e pode indicar presença de processos inflamatórios, infecções, entre outros. Já a redução da contagem de leucócitos, segundo Zigaib (2020 apud TANAKA; FU, 2020) é chamada de leucopenia, que pode ocorrer em pacientes com infecções virais ou 9 quando há supressão do sistema imunológico por uma doença (por exemplo, AIDS) ou por um tratamento (por exemplo, quimioterapia). Retomando à Figura 1, observe que, além dos leucócitos totais, o hemograma também apresenta a contagem de cada tipo de leucócito, como neutrófilos, basófilos, eosinófilos e linfócitos. A análise do tipo de leucócito que está alterado pode auxiliar na interpretação de achados clínicos. Por exemplo, nas infecções bacterianas, geralmente háaumento importante de neutrófilos, enquanto nos processos alérgicos, há aumento dos eosinófilos (WILKINS, 2009 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK, 2009). Por fim, o hemograma também apresenta a contagem de plaquetas, chamada de série megacariocítica, de acordo com Zigaib (2020 apud TANAKA; FU, 2020). As plaquetas são elementos importantes para a coagulação sanguínea. Assim, a sua redução, conhecida por plaquetopenia, coloca o paciente em maior risco de hematomas e sangramentos. Já a plaquetose, ou seja, o aumento do número de plaquetas, aumenta o risco de formação de trombos (WILKINS, 2009 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK, 2009; ZIGAIB, 2020 apud TANAKA; FU, 2020). Os casos em que há redução dos três elementos figurados são chamados de pancitopenia. Ou seja, é observada a redução da série vermelha, série branca e plaquetas. 1.2 Marcadores inflamatórios Marcadores são medidas que identificam um estado biológico ou que predizem a presença ou gravidade de um processo patológico/ doença. No caso dos marcadores inflamatórios, como o próprio nome diz, são marcadores que identificam a presença de inflamação. Os mais utilizados em terapia intensiva são a proteína C-reativa (PCR) e a velocidade de hemossedimentação (VHS). 10 A PCR é uma proteína que aumenta rapidamente no plasma diante de uma infecção, lesão tecidual ou distúrbios inflamatórios, em cerca de 4 a 6 horas após a lesão inicial. Seus valores permanecem aumentados durante a resposta de fase aguda, retornando à normalidade com a restauração da estrutura e função do tecido. Vale ressaltar, conforme Williamson (2018), que valores elevados de PCR são inespecíficos e podem ser influenciados por diversos fatores, como idade, estressem estilo de vida, entre outros. A VHS é a medida da distância, em milímetros, de sedimentação dos eritrócitos durante um determinado tempo (geralmente uma hora ou 30 minutos) em uma amostra de sangue venoso. Ainda segundo Williamson (2018), valores elevados sugerem presença de infecções, artrite inflamatória, doença renal, entre outros. De acordo com o autor, a PCR é superior à VHS, uma vez que esta apresenta baixa sensibilidade. Além disso, a PCR reflete uma alteração mais rápida na condição do paciente e, geralmente, é dosada de tempos em tempos para acompanhamento do caso. 1.3 Marcadores cardíacos Dentre os marcadores que indicam necrose cardíaca, ou seja, infarto agudo do miocárdio, os mais utilizados são: troponinas cardíacas e CK- MB. A troponina é um complexo proteico regulador da contração do músculo cardíaco e é formada por três subunidades, chamadas de T, I e C. Sua dosagem, como aponta Williamson (2018), é aceita como padrão ouro para detecção de necrose cardíaca e apresenta alta especificidade, sobretudo em pacientes de baixo risco. De acordo com Velasco et al. (2020), após 2 horas da necrose do cardiomiócito, começa a haver alteração do valor de troponina, que atinge o máximo após 24 a 48 horas e volta ao basal após 5 a 14 dias. 11 A CK-MB é uma proteína, fração da creatinoquinase. Sua presença na circulação sanguínea indica uma lesão do miocárdio, por exemplo, um infarto. De acordo com Zigaib (2020 apud TANAKA; FU, 2020), a CK-MB começa a aumentar após cerca de 3 horas da lesão, atingindo o pico entre 12 e 24 horas e retornando ao basal com cerca de 48 horas. 1.4 Função renal Os dois exames mais utilizados para avaliar a função renal são a creatinina e a ureia. A creatinina é um produto do metabolismo da creatinina fosfato, nos músculos esqueléticos. Já a ureia é o produto do metabolismo de proteínas. Tanto a creatinina quanto a ureia são filtradas pelos rins normais e eliminadas pela urina. Nos casos de estarem em níveis aumentados na circulação sanguínea, este achado pode sugerir um funcionamento inadequado dos rins (WILKINS, 2009 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK, 2009; ZIGAIB, 2020 apud TANAKA; FU, 2020). Ressalta-se que a creatinina e a ureia devem ser analisadas em conjunto para avaliar a função renal. A ureia, por exemplo, pode estar alterada diante de diversos outros fatores, como a ingestão de proteínas, alterações de hormônios e de hidratação, entre outros, não sendo específica, quando analisada de forma isolada, para avaliar problemas renais) 1.5 Eletrólitos As concentrações de eletrólitos dissolvidos no plasma são periodicamente avaliadas em pacientes críticos, tanto para identificar as condições gerais de saúde quanto, também, para avaliar os efeitos colaterais de certos medicamentos/condutas. 12 Os eletrólitos mais comumente avaliados são o sódio (Na+), o potássio (K+), o cloreto (Cl-) e o cálcio (Ca++). Mas, por que esta avaliação é importante? Pois bem, lembre-se que as concentrações normais de eletrólitos no meio intra e extracelular são fundamentais para manutenção da homeostase do organismo. No caso de alteração de eletrólitos, diversos efeitos colaterais podem ocorrer, como arritmias cardíacas, fraqueza muscular, confusão mental e, até mesmo, coma. Vamos dar início com as alterações do Na+. Primeiro de tudo, entenda que as alterações do Na+ estão relacionadas a alterações da água. Por exemplo, uma redução da concentração de Na+, que é chamada de hiponatremia, ocorre pela retenção excessiva de água, que dilui o Na+, e, desta forma, faz com que sua concentração fique reduzida, apesar do seu valor absoluto poder ser normal. Ao contrário, os casos de aumento da concentração de Na+, chamado de hipernatremia, ocorrem pela perda excessiva de água. A hiponatremia pode ocorrer, por exemplo, nos problemas renais ou pelo uso de diuréticos e em casos de diarreia. Conforme descreve WILKINS (2009 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK, 2009), pode ter como consequências a redução do nível de consciência, confusão mental, contrações musculares e convulsões. Situações de hipernatremia são menos comuns, mas também levam a consequências, dependendo da sua gravidade. Agora, com relação às alterações do K+, seu nível anormalmente baixo, chamado de hipocalemia ou hipopotassemia, ocorre por perda excessiva de fluidos contendo K+, como nas diarreias, vômitos, ou pela administração de diuréticos. Segundo Gomes et al. (2021), os sinais e sintomas de hipocalemia incluem distúrbios acidobásicos, fraqueza, câimbras, paresia e, até mesmo, falência respiratória e cardíaca. O aumento dos níveis de K+, chamado de hipercalemia ou hiperpotassemia, pode ocorrer em diversas patologias, como nas 13 doenças renais agudas ou crônicas ou nos traumas teciduais. Dentre os sinais e sintomas, são observados cansaço, fraqueza e náuseas (WILKINS, 2009 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK, 2009). Quanto aos distúrbios do Cl-, a redução da sua concentração pode ocorrer por vômitos prolongados (perda de HCl), acidose respiratória crônica e em determinadas doenças renais. O aumento da concentração de Cl-, hipercloremia, ocorre, geralmente, por diarreia prolongada, também em algumas doenças renais e em casos de hipertireoidismo. Por fim, com relação ao Ca++, é importante relembrar que sua homeostase é fundamental para funções importantes do organismo, como a coagulação sanguínea, a contração e relaxamento muscular e a transmissão neuronal (GOMES et al., 2021). Os casos de concentração aumentada são chamados de hipercalcemia, e podem estar associados a comprometimentos renais, cardíacos (como arritmias), neurológicos (ansiedade, depressão, letargia, convulsões, delírio e coma), entre outros. A concentração reduzida de Ca++ é chamada de hipocalcemia. Seus sinais e sintomas também incluem alterações neurológicas como confusão mental, convulsões, alterações extrapiramidais e outros. Ainda, alterações musculares, como fraqueza muscular, câimbras, tetania e laringoespasmo; alterações cardiovasculares, como hipotensão e insuficiência cardíaca, entre outros (GOMES et al., 2021). 1.6 Gasometria arterial Por último, mas, longe de ser menos importante, você vai estudar a gasometria arterial. Este é um exame que deve ser conhecidomuito bem, uma vez que, comumente, apresenta-se alterado em pacientes críticos. A interpretação correta da gasometria, associada à clínica do paciente, determina muitas condutas fisioterapêuticas na UTI. Vale ressaltar que os achados devem ser interpretados em conjunto 14 com os dados clínicos e de outros exames do paciente, de forma a se complementarem. O paciente é que deve ser tratado, e não seu exame. A gasometria, realizada a partir da coleta de sangue arterial, permite a avaliação dos distúrbios acidobásicos, sejam eles respiratórios ou metabólicos, bem como as alterações da oxigenação. A identificação destes distúrbios, faz-se importante porque a homeostase corporal depende de um equilíbrio refinado entre a quantidade de ácidos e de bases no organismo. Os desequilíbrios podem levar ao funcionamento inadequado de diferentes órgãos e sistemas (ZIGAIB, 2020 apud TANAKA; FU, 2020). Como descreve Machado, 2019, p. 193), as variáveis analisadas na gasometria arterial são: pH, pressão arterial de gás carbônico (PaCO2), concentração de bicarbonato (HCO3), excesso de bases (BE – base excess), pressão arterial de oxigênio (PaO2) e saturação arterial de oxigênio (SatO2). Para avaliação dos distúrbios acidobásicos, devem ser analisados o pH, a PaCO2, o HCO3 e o BE. Já para avaliação da oxigenação, são analisadas a PaO2 e a SatO2. O Quadro 1 mostra os valores de normalidade de cada variável da gasometria arterial para adultos. Quadro 1 – Valores de normalidade da gasometria arterial de adultos Parâmetro Normalidade pH 7,35 – 7,45 PaO2, mmHg 80 – 100 PaCO2, mmHg 35 – 45 HCO3 22 – 26 SatO2 ≥ 90% BE (base excesso ou excesso de base) ± 2 Fonte: adaptada de Machado (2019). 15 Com relação aos distúrbios acidobásicos, para compreendê-los, antes, é importante compreender como ocorre o equilíbrio ácido-base. Resumidamente, este equilíbrio depende da concentração dos íons de hidrogênio (H+), que é medida pela unidade chamada de pH. O pH normal do sangue apresenta valores entre 7,35 e 7,45. Os sistemas respiratório e renal, trabalham constantemente para manter o pH dentro da normalidade. Quando há uma alteração em um destes sistemas ou em ambos, o pH irá se alterar. Um pH menor que 7,35 corresponde a uma acidose, que pode ser causada por um excesso de ácido ou pela falta de base. Já um pH maior que 7,45 corresponde a uma alcalose, que pode ser causada por excesso de base ou por falta de ácido (ZIGAIB, 2020 apud TANAKA; FU, 2020). Estas informações estão resumidas na Figura 2. Figura 2 – pH normal e suas alterações Fonte: elaborada pela autora. Vamos entender melhor. Tenha em mente que a PaCO2 representa um ácido (por conta do ácido carbônico formado a partir do CO2), enquanto o HCO3 representa uma base (é a principal base do organismo). Tenha em mente, também, que a PaCO2 está relacionada ao sistema respiratório, já que ele é responsável por eliminar CO2 durante a expiração, enquanto o HCO3 está relacionado ao sistema renal, responsável por reabsorvê-lo ou excretá-lo pela urina. Portanto, segundo Machado (2019), o HCO3 relaciona-se com o componente metabólico do equilíbrio acidobásico, enquanto a PaCO2 relaciona- se com o componente respiratório: quando há um desequilíbrio acidobásico causado pela alteração HCO3, ele é chamado de metabólico, 16 enquanto quando há desequilíbrio causado da PaCO2, ele é chamado de respiratório. Como já mencionado, uma acidose pode ser causada pelo excesso de ácido e/ou pela falta de base? Ainda conforme o autor, se a PaCO2 representa ácido e o HCO3 representa base, isso significa que a acidose pode ser causada pelo aumento da PaCO2 (chamada de acidose respiratória), pela redução do HCO3 (acidose metabólica), ou ambas, ou seja, aumento da PaCO2 concomitantemente com a redução do HCO3, o que resulta em uma acidose mista. Agora, faça o mesmo raciocínio para a alcalose. A alcalose pode ser causada por um excesso de base, ou seja, aumento de HCO3, o que resulta em alcalose metabólica, ou por uma falta de ácido, ou seja, redução da PaCO2, o que resulta em alcalose respiratória. Nos casos em que ocorre alcalose por aumento de HCO3 e redução de PaCO2 concomitantemente, tem-se uma alcalose mista. Tendo conhecido os distúrbios primários do equilíbrio acidobásico descritos acima, você está pronto para entender as compensações que podem ocorrer. Sempre que houver alteração do pH por um componente, o oposto irá realizar alterações para tentar compensar e normalizar o pH. Por exemplo, se o paciente apresenta uma acidose metabólica, o sistema respiratório irá tentar compensar a alteração, aumentando a ventilação para, assim, reduzir a PaCO2. Lembre-se que a PaCO2 representa um ácido. Assim, de acordo com Machado (2019), se o paciente está em acidose e a quantidade de ácido no organismo diminui (eliminando o CO2), a tendência do pH, que está ácido, será aumentar, ou seja, tender a normalidade. Se, em outro exemplo, o paciente apresenta uma alcalose respiratória, os rins irão aumentar a eliminação de HCO3, de modo a reduzir a quantidade de bases circulantes e, assim, levar o pH para baixo, tendendo a normalidade. 17 Por fim, é preciso compreender as alterações da oxigenação avaliadas pela gasometria arterial. Valores de PaO2 e SatO2 abaixo da normalidade, sugerem hipoxemia, ou seja, redução da oxigenação, enquanto valores acima da normalidade, sugerem hiperóxia, ou seja, excesso de oxigênio. O Quadro 2 resume as características dos distúrbios acidobásicos, as compensações que podem ocorrer, bem como as alterações da oxigenação avaliadas à gasometria arterial. Quadro 2 – Características dos distúrbios ácido-básicos observados à gasometria arterial e resposta compensatória que pode ocorrer para corrigir o pH Distúrbio ácido- básico ou alteração da oxigenação Alterações observadas Resposta compensatória Acidose respiratória pH, PaCO2 [HCO3] Alcalose respiratória pH, PaCO2 [HCO3] Acidose metabólica pH, [HCO3] PaCO2 Alcalose metabólica pH, [HCO3] PaCO2 Hipoxemia PaO2 - Hiperóxia PaO2 - Fonte: adaptada de Machado (2019). Agora que conhecemos os principais exames complementares laboratoriais solicitados a pacientes críticos é importante, neste momento, recapitular alguns conceitos fundamentais: você deve conhecer bem estes exames e saber interpretá-los. Deve, também, se lembrar que as alterações laboratoriais podem, muitas vezes, interferir 18 na escolha das suas condutas terapêuticas, mas que os resultados dos exames sempre precisam ser relacionados à condição clínica do paciente. Referências GOMES, C. P. et al. Distúrbios do equilíbrio hidroeletrolítico e ácido-base: diagnóstico e tratamento. Barueri: Manole, 2021. MACHADO, M. G. R. Bases da fisioterapia respiratória: terapia intensiva e reabilitação. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. VELASCO, I. T. et al. Medicina de Emergência. Abordagem prática. 14. ed. Barueri: Manole, 2020. WILKINS, R. L. Interpretação clínica dos dados laboratoriais. In: WILKINS, R. L.; STOLLER, J. K.; KACMAREK, R. M. Egan: fundamentos da terapia respiratória. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. WILLIAMSON, A. M. Wallach: interpretação de exames laboratoriais. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. ZIGAIB, R. Exames complementares no paciente grave. In: TANAKA, C.; FU, C. Fisioterapia em terapia intensiva: princípios e práticas. Barueri: Manole, 2020. 19 Interpretação de exames de imagem Autoria: Leticia Dominguez Campos Leitura crítica: Igor L. Brito Objetivos • Conhecer os principais exames de imagem solicitados para pacientes críticos. • Compreender a interpretação dos exames de imagem de tórax e suas aplicações. • Saber correlacionar os achados dos exames de imagem ecocardiograma e cateterismo com a função do sistema cardiovascular. 20 1. Interpretação de exames de imagem A interpretação de exames de imagem é fundamental para o atendimento de pacientes críticos. Muitosdestes exames trazem informações importantes ao fisioterapeuta, tanto quanto à presença de alterações pulmonares, para exames de tórax, como, também, sobre a função cardiovascular, como é o caso do ecocardiograma e do cateterismo cardíaco. Para saber interpretar os exames corretamente, é necessário ter conhecimento básico sobre as diferentes técnicas utilizadas, sobre as vantagens e limitações de cada técnica e, também, sobre a aplicação dos achados para o atendimento fisioterapêutico. Ao longo do texto, você irá conhecer os seguintes exames de imagem: radiografia de tórax, tomografia computadorizada de tórax, ressonância magnética, ecocardiograma e cateterismo. Vamos começar? 1.1 Radiografia de tórax Apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas relacionados aos exames de imagem, com métodos que oferecem cada vez mais informações precisas ao avaliador, a radiografia de tórax, mesmo com suas limitações, continua sendo o exame de imagem mais solicitado para pacientes críticos. A imagem da radiografia de tórax é obtida por meio da passagem de um feixe de raio X (radiação ionizante) pelo tórax do paciente até um filme radiográfico, que cria a imagem. A quantidade de raio que atravessa os diferentes tecidos é o que faz com que a imagem seja formada: quanto maior a densidade do tecido, mais raios são absorvidos e, desta forma, menos raios chegam ao filme, formando uma imagem mais clara (por exemplo, a do tecido ósseo). Por outro lado, quanto menor a densidade 21 do tecido, mais raios atingem o filme, formando uma imagem mais escura (por exemplo, a do pulmão). Como apresentado na Figura 1, a imagem formada na radiografia apresenta diferentes tons de cinza, dependendo da densidade do tecido. O ar, como o dos pulmões ou do estômago, aparece mais escuro, o que é chamado de radiotransparência, enquanto tecidos mais densos, como os ossos, aparecem mais claros, sendo chamados de radiopacos. Tecidos de densidade intermediária, como os tecidos moles, aparecem mais claros que o ar, mas mais escuros que os ossos (SPECHT; STOLLER, 2009 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK). Figura 1 – Radiografia de tórax mostrando as tonalidades da imagem para tecidos de diferentes densidades: ar, tecido ósseo e tecido mole Fonte: acervo da autora. 22 A radiografia de tórax pode ser realizada em diferentes incidências, ou seja, a radiação pode entrar no corpo por diferentes pontos anatômicos. As mais utilizadas, como mostrado na Figura 2, são a posteroanterior (PA), a em perfil, ambas realizadas com o paciente em pé, e a anteroposterior (AP), mais utilizada em pacientes que não podem ficar em pé, como os que realizam o exame no leito, no ambiente de terapia intensiva (ZIGAIB, 2020, p. 42 apud TANAKA; FU). Figura 2 – Diferentes incidências de radiografia de tórax: A: posteroanterior (PA), B: em perfil, C: anteroposterior (AP) Fonte: acervo da autora. A radiografia geralmente é obtida com o paciente em inspiração, fornecendo, assim, a imagem de um maior volume pulmonar. Na incidência PA, o coração e demais estruturas do mediastino ficam mais próximas do filme radiográfico, evitando os efeitos de magnificação e sua distorção. Por isso, as radiografias em perfil, geralmente, são realizadas em perfil esquerdo, para que o coração fique mais próximo ao filme radiográfico. Além disso, a radiografia em PA, geralmente, é realizada com o indivíduo com os braços em abdução, com os ombros o mais para a frente possível. Desta forma, segundo Funari (2012) as escápulas projetam-se mais lateralmente ao tórax, minimizando sua interferência na observação dos pulmões. A radiografia em AP, como já mencionado, é a mais utilizada nos pacientes que realizam o exame no leito, por meio de um equipamento 23 portátil. As desvantagens da técnica em relação à PA, conforme Funari (2012), incluem: menor distância entre o foco e o filme, o que faz com que estruturas como o coração e o mediastino apareçam magnificadas; maior dificuldade no posicionamento do paciente; e qualidade do equipamento portátil geralmente ser inferior. Considerando as diferenças mencionadas nas imagens realizadas em PA e em AP, ao avaliar uma radiografia torácica, é importante que o fisioterapeuta reconheça qual a sua incidência, a fim de evitar interpretações errôneas. Por exemplo, o coração normalmente aparece maior na incidência AP do que na PA, podendo dar a falsa impressão de uma cardiomegalia. Em relação às principais indicações para realização da radiografia de tórax no ambiente de terapia intensiva, podem ser mencionadas: a investigação de alterações pulmonares em pacientes com sinais e sintomas respiratórios; o acompanhamento de doenças torácicas já diagnosticadas; monitoramento de pacientes com uso de equipamentos/ acessos de suporte à vida, como tubo endotraqueal ou aqueles submetidos à colocação de cateter venoso central, entre outros (SPECHT e STOLLER, 2009, p. 431 apud WILKINS; STOLLER; KACMAREK). As principais vantagens desta modalidade de exame são seu baixo custo e menor exposição à radiação ionizante em comparação com outros métodos, como a tomografia computadorizada, além da possibilidade de realização no próprio leito da UTI, dispensando o transporte do paciente, o que poderia significar risco, especialmente naqueles de maior gravidade clínica. Dentre as desvantagens, destaca-se a de se tratar de uma imagem bidimensional, com sobreposição de estruturas. Imagine que o corpo humano é tridimensional, ou seja, apresenta altura, largura e profundidade. No entanto, a imagem da radiografia de tórax é uma imagem bidimensional, que só apresenta altura e largura. Desta forma, certas alterações podem não ser identificadas com clareza, pois as estruturas se sobrepõem (FUNARI, 2012; SPECHT; STOLLER, 2009). 24 Ao analisar uma radiografia de tórax, é importante que os profissionais, incluindo o fisioterapeuta, adote uma sistemática, um passo a passo, para que o máximo de informações sejam retiradas da imagem. Isto porque algumas alterações, podem parecer obvias, como uma atelectasia completa de um dos pulmões. No entanto, outras, como uma fratura discreta de uma das costelas, pode passar despercebida se a análise não for realizada cuidadosamente (SPECHT; STOLLER, 2009). Ainda conforme os autores, para a análise sistemática, três passos são importantes: 1) observar a identificação da radiografia, que deve estar à direita do paciente, ou seja, à esquerda do avaliador (lembre-se que é como se você estivesse olhando para o paciente de frente, o lado direito dele será o seu esquerdo); 2) revisar a técnica e a qualidade do exame; 3) revisar sistematicamente as estruturas anatômicas na radiografia, incluindo ossos, tecidos moles, pulmões, pleuras, coração, grandes vasos e mediastino. O fisioterapeuta pode retirar informações preciosas para seu atendimento do exame radiográfico, por exemplo, como está o posicionamento do tubo endotraqueal, se o volume pulmonar está adequado, se existem alterações que contraindicam manobras torácicas, como a presença de fraturas de arcos costais, se existem alterações de parênquima, como atelectasias, sinais de pneumonia, de pneumotórax ou derrame pleural, o que pode guiar suas condutas. 1.2 Tomografia computadorizada A tomografia computadorizada (TC) helicoidal, mais comum, é realizada por meio de um equipamento com fonte de raio X, em forma circular, como exemplificado na Figura 3. Segundo Funari (2012), o paciente é colocado na parte interior do equipamento em uma maca e, então, a fonte de raio X gira em torno do paciente, ao mesmo tempo que a maca vai adentrando, de modo que a fonte de raio X realize imagens de 25 diferentes “fatias” do paciente, até que todo o tórax do paciente tenha sido escaneado. As imagens resultantes serão, assim, múltiplas “fatias” bidimensionais que, ao serem analisadas em conjunto, formam uma imagem tridimensional (Figura 4). Figura 3 – Equipamento para realização de tomografia computadorizadaFonte: nattrass/iStock.com. 26 Figura 4 – Cortes axiais (A) e cortes coronais (B) de uma tomografia computadorizada de tórax Fonte: acervo da autora. Por se tratar de uma análise tridimensional, as imagens de TC oferecem informações mais detalhadas do que a radiografia convencional. No entanto, apresenta potenciais limitações. Uma delas se refere à alta dose de radiação ionizante a que o paciente é submetido. De acordo com Funari (2012), a dose de radiação de uma TC é de cerca de 8 a 15 mSv, enquanto a radiografia de tórax convencional é de aproximadamente 0,15 mSv. Além disso, a TC não pode ser feita no leito do paciente, precisando que ele seja levado até o local do equipamento. Em pacientes graves e instáveis, o transporte pode oferecer risco ao paciente. Por se tratar de uma imagem digital, durante a análise, o contraste pode ser manipulado, facilitando a visualização de estruturas específicas na TC. Esta manipulação do contraste é conhecida como a criação de “janelas”. Pode ser criada, por exemplo, uma “janela” de pulmão, o que facilita a visualização do parênquima, ou, uma “janela” do mediastino, o que facilita a visualização de alterações mediastinais e a presença de derrame pleural. 27 1.3 Ressonância magnética O exame de ressonância magnética (RM), apresenta uma grande vantagem sobre a radiografia de tórax e a TC: não utiliza radiação ionizante para a obtenção das imagens. A imagem é obtida colocando- se o paciente em um campo magnético, que faz com que determinados átomos, ao serem estimulados por ondas de radiofrequência, sejam capazes de reemitir parte da energia absorvida. A RM utiliza as ondas dos átomos em realinhamento para gerar a imagem. Apesar de diferentes átomos apresentarem este efeito descrito, o mais utilizado na prática é o hidrogênio (H+), por ser o mais abundante no organismo, presente na água, nos açucares, gorduras e aminoácidos. A Figura 5 exemplifica uma imagem de RM. Apesar de as imagens obtidas por RM, por exemplo, de tecidos moles, terem alta qualidade, a análise de tecidos com baixa concentração de H+, como o tecido ósseo, por meio de RM, não é indicada. Além disso, no pulmão normal, a baixa densidade de H+ e a movimentação das estruturas torácicas pelos movimentos cardíacos e respiratórios constituem limitação para análise das estruturas do tórax, por isso é pouco utilizada. Quando realizada, as principais indicações são para obtenção de imagens do mediastino e de grandes vasos pulmonares. 28 Figura 5 – Imagem coronal de ressonância magnética da região cervical. Os pulmões podem ser observados na parte inferior Fonte: acervo da autora. Além das limitações mencionadas, há que se pensar que, por gerar um campo magnético, a técnica não pode ser realizada em pacientes com marcapasso ou outros objetos metais, como clips cirúrgicos, nem mesmo em pacientes que estão em uso de equipamentos que apresentam metais em sua constituição, como ventiladores mecânicos comuns – para realizar RM em pacientes sob ventilação mecânica, é necessário um ventilador especial, sem peças em metal. 1.4 Ecocardiograma O ecocardiograma é uma ferramenta importante para avaliação da função cardíaca e de grandes vasos à beira do leito de pacientes críticos. De acordo com Velasco (2020), suas principais indicações são: avaliação da função sistólica do coração, avaliação da presença de derrame 29 pericárdico, identificação de dilatações significativas das câmaras cardíacas, guia para procedimentos, como pericardiocentese, entre outros. O exame, como descrito por Velasco (2020), é realizado por meio de um equipamento de ultrassonografia com um software específico para cardiologia (Figura 6). As imagens bidimensionais são obtidas por meio da colocação do transdutor em regiões transtorácicas, chamadas de janelas ecocardiográficas. As principais janelas são: paraesternal esquerda (eixo longo e eixo curto), apical de quatro câmaras e subcostal (ou subxifóidea). Figura 6 – Demonstração do exame ecocardiograma Fonte: DjelicS/iStock.com. Dentre as aplicações mais importantes do ecocardiograma, destaca- se a avaliação da função sistólica ventricular, tanto qualitativa, quanto 30 quantitativa. Segundo Mathias Junior (2016), a função sistólica do ventrículo esquerdo pode estar alterada em diferentes condições, como nas alterações de pré e pós carga, nas alterações de valvas cardíacas ou do pericárdio, podendo influenciar tanto o enchimento como a ejeção do ventrículo esquerdo. A fração de ejeção (FE) é o principal parâmetro utilizado para analisar a função do ventrículo esquerdo, e pode ser avaliada pelo método bidimensional ou por Doppler (VELASCO, 2020; MATHIAS JUNIOR, 2016). O Quadro 1 mostra os valores de normalidade da FE para homens e mulheres. Quadro 1 – Parâmetros de normalidade para a fração de ejeção do ventrículo esquerdo Homens Mulheres Valor normal ≥ 52% ≥ 54% Discretamente anormal 41 – 51% 41 – 53% Moderadamente anormal 30 – 40% 30 – 40% Redução importante Como parte da equipe multidisciplinar que presta assistência ao paciente crítico, é importante que você conheça este exame e saiba identificar suas alterações. Imagine se, durante seu atendimento, o paciente apresentar uma arritmia grave, com instabilidade hemodinâmica. Se você continuar submetendo o paciente ao esforço, poderá ter potencial risco de morte. Por isso, ao longo do texto, você irá conhecer as principais arritmias cardíacas e suas implicações para sua atuação. Antes conhecermos o exame eletrocardiográfico, em si, é fundamental relembrar alguns conceitos sobre a eletrofisiologia das células cardíacas. Uma vez feita esta revisão, o ECG será apresentado, incluindo suas formas de realização, interpretação do exame normal e interpretação das principais alterações. Bons estudos! 1.1 Fisiologia do músculo cardíaco A compreensão do ECG, requer o conhecimento da fisiologia da contração e relaxamento do músculo cardíaco, e do sistema de excitação e condução especial destas células. Com relação à composição muscular, basicamente, o coração é composto pelo músculo atrial, o ventricular, e as fibras excitatórias e condutoras, sendo que, as últimas, controlam os batimentos cardíacos. As células musculares cardíacas são interconectadas, o que dá a elas uma característica de sincício, fazendo com que, quando uma delas é excitada, o potencial de ação se espalhe facilmente por todas as outras. 35 De acordo com Hall (2011), o coração é composto, na verdade, por dois sincícios, o atrial e o ventricular, que são separados por um tecido fibroso. Normalmente, o potencial de ação não atravessa diretamente este tecido fibroso para atingir os ventrículos, permitindo que os átrios se contraiam antes. Esta característica é fundamental para que o bombeamento cardíaco seja eficiente. Lembre-se que as células, em repouso, apresentam uma carga elétrica negativa que, no caso das células musculares cardíacas, é de aproximadamente -85 mV. Ao ser excitada, a célula passa a ter uma voltagem positiva por conta da entrada de íons positivos durante o potencial de ação. Assim, ocorre uma despolarização (potencial de ação), sendo que, no músculo cardíaco, a voltagem chega a +20 mV. Em seguida, com o relaxamento, ocorre a repolarização do músculo, e a voltagem volta ao basal, ou seja, volta a ser de -85 mV. No coração, um sistema especial é responsável por gerar impulsos elétricos rítmicos que fazem com que o músculo despolarize e, então, contraia, assim como tem um sistema especial para conduzir esses impulsos rapidamente por todo o miocárdio. Como será visto, posteriormente, o ECG nada mais é do que o registro das ondas elétricas geradas por este sistema especial de excitação e condução. Como apresentado na Figura 1, os impulsos elétricos cardíacos normais são iniciados no nodo sinusal (ou nodo sinoatrial ou nodo S-A), que possui fibras com capacidade de autoexcitação, ou seja, de gerar descarga elétrica automática e rítmica. Uma vez gerado, o impulso elétrico (despolarização) se propaga pelos átrios, através das vias internodais, até o nodo atrioventricular (nodo A-V). O nodo A-V é uma parte importante do sistema de condução do impulso cardíaco, pois faz com que o impulso sofra um retardo antes de ser propagado para os ventrículos. Essa característica é importante para que os átrios se contraiam antes dos ventrículos, como já mencionado. 36 Uma vez que o impulso atinge o nodo A-V, ele é conduzido para o feixe A-V (também chamado de feixe de His) e, em seguida, para os ramos direito e esquerdo das fibras de Purkinje, que conduzem o impulso cardíaco para todas as partes dos ventrículos. Figura 1 – Sistema de excitação e contração do coração Fonte: adaptado de Silverthorn (2017, p. 456). 1.2 O eletrocardiograma normal A corrente elétrica dos impulsos gerados pelo sistema especial de excitação e condução do coração se propaga, também, por tecidos 37 adjacentes e podem ser registrados na superfície do corpo. O ECG corresponde ao registro dessa corrente elétrica, por meio da colocação de eletrodos na superfície do corpo do paciente. A Figura 2 apresenta o registro de um ECG normal. Como pode ser observado, cada batimento cardíaco que aparece no exame é formado pela onda P, pelo complexo QRS (que apresenta as ondas Q, R e S) e pela onda T. Essas ondas representam a despolarização ou a repolarização de segmentos específicos do coração, como será explicado. Figura 2 – Registro de um eletrocardiograma normal Fonte: adaptada de Hall (2011, p. 129). Vamos entender melhor? O batimento cardíaco normal, inicia- se pela contração dos átrios. Pois bem, a primeira onda do ECG, a onda P, representa a despolarização dos átrios. Após a contração dos átrios, inicia-se a contração dos ventrículos. Sendo assim, o complexo QRS representa a despolarização dos ventrículos. Após despolarizarem, os ventrículos repolarizam para restabelecer a sua voltagem basal. A repolarização dos ventrículos é representada pela onda T. Mas, você deve estar se perguntando, e a repolarização dos átrios? Qual onda a representa? A repolarização atrial não é vista no traçado 38 eletrocardigráfico, porque ela é encoberta pela atividade elétrica de despolarização dos ventrículos, que ocorre simultaneamente. Como você irá aprender mais para frente, além de avaliar cada uma destas ondas, é importante, também, que alguns segmentos sejam avaliados, ou seja, o intervalo entre uma onda e outra. Dois segmentos são especialmente importantes: intervalo P-R, que se refere ao tempo entre o início da despolarização atrial e o início da despolarização ventricular, ou seja, representa a passagem do impulso elétrico do nodo sinusal até o nodo A-V; e segmento S-T, que representa o tempo desde o fim da despolarização dos ventrículos até o início da sua repolarização. Com relação ao método de registro das ondas eletrocardiográficas, diversas derivações podem ser utilizadas. Derivações nada mais são do que pontos de vistas diferentes para a melhor visualização da atividade elétrica do coração. No ECG de repouso convencional são utilizadas 12 derivações, sendo 6 do plano frontal e 6 do plano horizontal, o que permite o registro da atividade elétrica em diferentes ângulos. O papel de registro do ECG é quadriculado e, no eixo horizontal define o tempo, enquanto no vertical define a voltagem. De forma padronizada, a velocidade do registro é de 25 mm/s e 1 mV é representado por 10 mm. Cada quadrado pequeno, de 1 mm, representa 0,04 s, de modo que cada quadrado grande, que contém cinco quadrados pequenos, representa 0,20 s (Figura 3). 39 Figura 3 – Representação do papel quadriculado para o registro eletrocardiográfico Fonte: elaborada pela autora. Agora que você conhece o exame eletrocardiográfico, é importante conhecer alguns parâmetros de normalidade, para que possa interpretar corretamente os achados. A onda P geralmente tem duração inferior a 80 ms (2 quadrados pequenos) e amplitude inferior a 2,5 mm. O complexo QRS, normalmente tem duração de 0,12 s. O intervalo P-R, que representa a condução atrioventricular, geralmente tem duração de 0,12 s a 0,20 s. Por fim, em um adulto, a frequência cardíaca normal geralmente é de 60 a 100 batimentos por minuto (bpm). 1.3 Interpretação do eletrocardiograma Mesmo que o responsável pelo laudo do ECG seja o médico, é importante que o fisioterapeuta saiba fazer uma interpretação rápida do ECG, para identificar possíveis alterações que podem ter repercussões no seu atendimento. 40 Para a avaliação do ECG, sugere-se que alguns passos sejam seguidos sistematicamente, para que nenhum achado passe despercebido. Os seguintes passos devem compor a análise: 1. Avaliar a frequência cardíaca (FC). 2. Avaliar se o ritmo é regular. 3. Observar se todas as ondas estão presentes, de forma reconhecível. 4. Identificar possíveis alterações. A FC pode ser estimada no traçado de ECG com base em algumas regras práticas. Na “regrados 300” calcula-se a FC dividindo 300 pelo número de 5 quadrados (que totalizam 0,20 s), que contém o intervalo R-R ou intervalo P-P. Já na “regra dos 1500”, a FC é obtida dividindo-se 1500 pelo número de quadrados menores (que representam 0,04 s) que contêm o intervalo R-R ou P-P. Vale lembrar que a estimativa da FC, tem como base a velocidade do registro do ECG, de 25 mm/s, citado anteriormente. 1.4 Arritmias cardíacas A análise do ECG deve incluir o reconhecimento de ritmos anormais. Isto porque a maior parte dos tipos de mau funcionamento do coração, decorre de um ritmo cardíaco anormal. Alterações da FC em ECG normais são chamadas de taquicardia e bradicardia (Figura 4). Taquicardia sinusal no adulto corresponde a uma FC maior que 100bpm, e pode ser causada por inúmeros fatores, como ansiedade, dor, febre, hipovolemia e hipoxemia. Já a bradicardia sinusal, corresponde a uma FC menor que 60 bpm no adulto, e pode ser causada por hipotermia ou anormalidades no nodo sinusal. Estes valores de normalidade, no entanto, podem sofrer variações em determinadas situações. Por exemplo, indivíduos com bom treinamento cardiovascular, como atletas, podem apresentar FC menor que 60 bpm em repouso, fisiologicamente. 41 Figura 4 – Eletrocardiograma mostrando taquicardia sinusal (A) e bradicardia sinusal (B) Fonte: adaptada de Hall (2011, p. 153). Arritmia sinusal é a denominação dada aos espaçamentos irregulares entre os complexos QRS do traçado. É avaliada pelo intervalo R-R, que, normalmente, não varia mais que 0,12 s. Quando a variação é maior que 0,12 s, observa-se uma arritmia sinusal. Na maioria dos casos é benigna. Alguns ritmos anormais do ECG decorrem de bloqueio do impulso pelas vias de condução cardíacas. Por exemplo, no bloqueio atrioventricular, ocorre um bloqueio da passagem do impulso pelo feixe de His, ou seja, o impulso não passa normalmente dos átrios para os ventrículos. Esta situação, como afirma Hall (2011), pode ser causada por isquemia das fibras do feixe de His (por insuficiência coronariana, por exemplo), por compressão ou inflamação do feixe de His ou por estimulação extrema do coração pelo nervo vago. O bloqueio atrioventricular incompleto é chamado de bloqueio cardíaco de primeiro grau, que mostra um intervalo P-R (ou P-Q) prolongado, que aumenta progressivamente a cada batimento, até que o impulso não é conduzido para os ventrículos, mostrando uma ausência de QRS. 42 Já o bloqueio de segundo grau é observado quando a condução do feixe de His fica lenta a ponto de aumentar o intervalo P-R para 0,25 s a 0,45 s. Mas, o potencial de ação, algumas vezes atravessa o feixe até os ventrículos – outras não. O ECG, portanto, mostra falhas de complexos QRS, geralmente em um ciclo a cada 3 (chamado de bloqueio 3:1) ou a cada 4 (4:1). Por fim, o bloqueio atrioventricular completo é chamado de bloqueio de terceiro grau, e decorre de uma condução anormal grave pelo feixe de His. Nestes casos, átrios e ventrículos são comandados por fontes independentes (geralmente os átrios pelo nodo sinusal e os ventrículos pelo nodo A-V). Geralmente, a frequência do batimento ventricular é mais lenta que a frequência atrial, sendo a frequência da onda P maior do que a dos complexos QRS. Trata-se de uma arritmia séria, geralmente causada por infarto agudo do miocárdio, e podendo tornar o coração incapaz de cumprir a demanda metabólica do organismo (HALL, 2011; SOROSEN; WILKINS, 2009). Além dos bloqueios, podem ser observadas também arritmias que constam de contrações ventriculares prematuras, chamadas de extrassístoles. Geralmente, são causadas por focos ectópicos, ou seja, quando o impulso inicial é gerado em outra região do sistema de condução do coração que não seja o nodo sinusal. O ECG é caracterizado por complexos QRS largos, sem ondas P precedentes. As taquicardias ventriculares (Figura 5) correspondem a uma série de três ou mais contrações ventriculares prematuras, exemplos de foco ectópico originado nos ventrículos. 43 Figura 5 – Eletrocardiograma mostrando taquicardia ventricular Fonte: acervo da autora. A fibrilação ventricular é a arritmia cardíaca mais grave e, se não corrigida, tende a ser fatal em 1 a 3 minutos. Pode ser desencadeada por inúmeros fatores, mas mais comumente decorre de choque elétrico súbito do coração ou isquemia do músculo cardíaco e/ou das fibras especiais de condução do impulso cardíaco. O traçado do ECG (Figura 6) mostra um processo de ativação ventricular caótico com ausência de complexos QRS identificáveis. Figura 6 – Eletrocardiograma mostrando fibrilação ventricular 44 Fonte: adaptada de Hall (2011, p. 161). A fibrilação atrial (Figura 7) ocorre da mesma forma que a ventricular, porém, o processo se apresenta somente na massa atrial. Geralmente é decorrente de aumento do volume atrial, como nas lesões de válvula que impedem o esvaziamento adequado dos átrios, ou por insuficiência ventricular, que leva ao acúmulo excessivo de sangue nos átrios. O ECG mostra numerosas pequenas ondas de despolarização ou nem mesmo mostra as ondas P e, geralmente, se não houver patologia dos ventrículos, os complexos QRS são normais. Figura 7 – Eletrocardiograma mostrando fibrilação atrial Fonte: adaptada de Silverthorn (2017, p. 459). O tratamento tanto da fibrilação atrial quanto da fibrilação ventricular envolve eletrochoque (cardioversão) para converter o ritmo normal. Por fim, o flutter atrial (Figura 8) é uma patologia causada pelo movimento em círculo dos átrios, causando rápida despolarização como resultado de um foco ectópico que despolariza em uma frequência de 200 bpm a 350 bpm. Geralmente ocorrem dois a três batimentos atriais para cada batimento ventricular. Ao ECG, as ondas P são fortes, mas o complexo QRS segue a onda P atrial em apenas parte dos batimentos. Figura 8 – Eletrocardiograma mostrando flutter atrial Fonte: adaptada de Hall (2011, p. 163). 45 Como você pôde observar ao longo do texto, o eletrocardiograma oferece informações valiosas sobre a função cardíaca. Nos pacientes em cuidados intensivos, a sua rápida interpretação pode ser crucial para que o tratamento seja realizado a tempo e o paciente apresente melhor prognóstico. Referências HALL, J. E. Guyton e Hall: Tratado de Fisiologia Médica. 12. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. SILVERTHORN, D. U. Fisiologia humana: uma abordagem integrada. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2017. SOROSEN, K. A.; WILKINS, R. L. Interpretação do eletrocardiograma. In: WILKINS, R. L.; STOLLER, J. K.; KACMAREK, R. M. Egan: fundamentos da terapia respiratória. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, cap. 17, p. 351-363. UCHIDA, A. H.; MURAD NETO, A.; NASCIMENTO, V. M. V. Eletrocardiograma simples: guia de bolso. Barueri: Manole, 2015. 46 Uso de tecnologias para assistência fisioterapêutica ao paciente crítico Autoria: Leticia Dominguez Campos Leitura crítica: Igor L. Brito Objetivos • Conhecer as novas tecnologias aplicadas à fisioterapia em terapia intensiva. • Compreender o uso da ultrassonografia para a fisioterapia. • Identificar as aplicações da tomografia de impedância elétrica ao paciente crítico. 47 1. Tecnologias para assistência fisioterapêutica ao paciente crítico As tecnologias que são usadas hoje, no dia a dia da prática clínica, não eram conhecidas no passado, por exemplo, ou, se já existiam, eram aplicadas apenas no contexto de pesquisa. É encantador observar o quanto evoluímos, tanto em relação à avaliação, quanto em relação ao tratamento dos pacientes em terapia intensiva. Ao longo do texto, serão apresentadas duas tecnologias que vêm sendo utilizadas cada vez mais rotineiramente na assistência ao paciente crítico: a ultrassonografia a beira do leito, e a tomografia de impedância elétrica. Ambas, podem facilitar a monitorização e, assim, a escolha de condutas mais assertivas para a fisioterapia. Como já mencionado, há alguns anos estas tecnologias não eram utilizadas na práticaclínica. Por isso, tenha em mente que é necessário manter-se sempre atualizado, seja por meio da literatura científica ou pela participação em cursos e eventos que trazem atualizações para a prática fisioterapêutica, pois novas técnicas são instituídas com frequência. Vamos começar a compreender essas tecnologias? 1.1 Ultrassonografia O uso da ultrassonografia (US) vem crescendo como forma de avaliar a função respiratória e ganhando espaço nas unidades de terapia intensiva. A técnica, tem como grandes vantagens ser de fácil realização, por meio de um equipamento portátil (portanto, pode ser realizado à beira do leito), não ser invasiva, não expor o paciente à radiação e permitir avaliação em tempo real (FU; MÓL: SANT’ANNA, 2020, p. 27 apud TANAKA; FU, 2020). 48 De acordo com Cavalheiro e Gobbi (2012), as aplicações do US na unidade de terapia intensiva incluem: avaliação de derrame pleural, com estimativa do seu volume e diagnóstico diferencial de lesões pleurais sólidas; diagnóstico emergencial de pneumotórax; avaliação do diafragma; incluindo sua mobilidade e avaliação morfofuncional, bem como a orientação de procedimentos invasivos, como colocação de cateteres e realização de biópsias. Há de se considerar que muitas destas aplicações podem ser avaliadas por meio de outros exames de imagem, como a radiografia de tórax. Porém, a US é tida como um bom método alternativo, por não utilizar radiação ionizante (associada a efeitos adversos), além de ser de fácil aplicação à beira do leito. Mas, a radiografia de tórax também pode ser realizada à beira do leito? Sim, porém, a incidência anteroposterior, utilizada nesta condição, apresenta desvantagens e pode dificultar a análise da imagem. Além disso, conforme Machado (2019), a radiografia produz uma imagem estática, enquanto o US produz uma imagem em tempo real, sem contar a exposição à radiação ionizante por meio da radiografia. O US, demonstrado na Figura 1, é realizado por meio da passagem de ondas sonoras de alta frequência pelas estruturas do corpo. A formação da imagem se dá pelas ondas sonoras que ecoam, ou seja, retornam ao equipamento (SPECHT; STOLLER, 2009). O aparelho necessário para o exame é simples e, geralmente, disponível nas instituições. Ele deve ter um transdutor convexo de 2,5-5,0 MHz e um transdutor linear de 7,5- 10,0 MHz. 49 Figura 1 – Equipamento utilizado para realizar a ultrassonografia Fonte: 7postman/iStock.com. ID: 502009744. A avaliação do diafragma por meio do US, tem sido utilizada desde a década de 1980, apesar de ter ganhado destaque apenas nas últimas décadas. Até 1997, acreditava-se que a técnica tinha baixa utilidade clínica, mas, a partir de então, passou a ser usada com maior frequência em diferentes contextos hospitalares, como na terapia intensiva e nas unidades de urgência e emergência. Ao exame ultrassonográfico, o músculo diafragma é observado como uma camada hipoecoica, ou seja, uma estrutura que se apresenta mais clara na imagem (Figura 2). Segundo Machado (2019), o exame permite a mensuração da espessura do músculo e a avaliação da sua mobilidade, conforme ocorrem os movimentos respiratórios. Desta forma, podem ser avaliadas tanto sua anatomia, quanto a sua função à ultrassonografia. 50 Figura 2 – Aspecto ultrassonográfico do diafragma Fonte: adaptada de Santana et al. (2020). O exame pode ser realizado por meio de diferentes janelas acústicas, sendo as mais utilizadas a que o transdutor é posicionado sobre a região subcostal, como mostra a Figura 3A, ou pela zona de aposição, como mostra a Figura 3B. Preferencialmente, o paciente deve estar na posição supina, uma vez que esta posição proporciona maior excursão diafragmática e permite maior reprodutibilidade entre as medidas. 51 Figura 3 – Janelas acústicas utilizadas para avaliação ultrassonográfica do diafragma: região subcostal (A) e da zona de aposição (B) Fonte: adaptada de Santana et al. (2020). A espessura do diafragma é avaliada por meio da janela acústica da zona de aposição. O transdutor é colocado no espaço intercostal, geralmente entre a 7ª e 8ª ou a 8ª e 9ª costelas, na linha axilar média. É importante que o espaço intercostal para realizar a avaliação seja padronizado, uma vez que as porções mais inferiores do diafragma são mais espessas do que as superiores, podendo alterar as medidas realizadas em momentos diferentes do mesmo paciente, não possibilitando comparação, por exemplo. Adicionalmente, Machado (2019) ressalta que o avaliador deve assegurar que o ângulo de incidência do feixe do ultrassom intersecte o diafragma em 90º, e não obliquamente, para que a medida seja mais precisa. O diafragma aparece como uma estrutura hipoecoica, delimitado por duas camadas hiperecoicas, que correspondem a pleura e o peritônio. O músculo, deve ser medido em repouso, ou seja, ao final da expiração, e após uma inspiração máxima, ou seja, na capacidade pulmonar total. 52 A Figura 4 mostra a diferença da espessura do diafragma nos dois momentos. Figura 4 – Espessura do diafragma à ultrassonografia durante o repouso (A) e durante a inspiração máxima (B) Fonte: adaptada de Machado (2019, p. 51). Segundo Machado (2019), em repouso, a espessura média do diafragma é de 0,34 cm, variando entre 0,12 cm e 1,18 cm. A relação entre a espessura no repouso e ao esforço inspiratório máximo, normalmente é maior que 1,2. A fração de espessamento (FE), ou porcentagem de espessamento, é calculada pela medida do diafragma durante a inspiração menos a medida durante o repouso, multiplicado por 100. A FE deve ser maior que 20%. A avaliação da espessura do diafragma é útil em terapia intensiva para identificar a presença ou não de atrofia diafragmática, comum em pacientes críticos, especialmente quando submetidos à ventilação mecânica por tempo prolongado. Para a mensuração da mobilidade diafragmática, preferencialmente é utilizada a janela acústica subcostal (anterior–preferível, posterior ou subxifoide), e a medida pode ser realizada em diferentes momentos: durante a respiração tranquila, durante a respiração profunda (em uma inspiração máxima), ou durante uma manobra denominada sniffing. 53 No geral, a visualização da hemicúpula direita é mais fácil do que a esquerda, pela presença do fígado. O transdutor é colocado na região subcostal e obtém-se uma curva, em que um ponto (na Figura 5 mostrado como “A”) representa o intervalo entre o final da expiração e o pico da inspiração em centímetros, e o outro ponto (na Figura 5 mostrado como “B”), representa o tempo de contração, em segundos. A velocidade do movimento é calculada pela divisão de A por B, oferecendo uma medida de cm/s. Figura 5 – Avaliação da excursão do diafragma à ultrassonografia Fonte: adaptada de Machado (2019, p. 52). De acordo com Machado (2019), em média, os homens apresentam uma excursão diafragmática de 18±3 mm, enquanto mulheres apresentam 16±3 mm. Ainda segundo a autora, são considerados valores patológicos aqueles menores que 10 mm para homens e menores que 9 mm para mulheres, sugerindo disfunção diafragmática. Além da avaliação do sistema respiratório por ultrassonografia, vale ressaltar seu uso para avaliação de musculatura periférica, por exemplo, 54 espessura de quadríceps. Esta avaliação é útil para definir condutas de mobilização precoce. 1.2 Tomografia de impedância elétrica A tomografia de impedância elétrica (TIE) é um método de avaliação e monitorização da ventilação e expansão pulmonar. Trata-se de uma técnica não invasiva, que não usa radiação ionizante e que pode ser realizada à beira do leito, o que confere à TIE grandes vantagens em relação à tomografia computadorizada convencional, por exemplo. A tomografia convencional, além de expor o paciente a altas doses de radiação, necessita de transporte até o serviço de radiologia, o que, em pacientes graves, pode configurar grande risco. Adicionalmente, a TIE tem a vantagem de permitir a reconstruçãode imagens em tempo real, garantindo a interpretação dos dados imediatamente e, assim, a condução de estratégias ventilatórias e outras manobras utilizadas em terapia intensiva. Para que a imagem seja obtida, uma série de eletrodos é colocada ao redor do tórax do paciente (16 ou 32, a depender do equipamento) e, por meio deles, é aplicada uma pequena corrente elétrica alternada, imperceptível por parte do paciente. As imagens são obtidas por meio de algoritmos matemáticos, a partir das medidas das voltagens resultantes, e representam a secção transversa do tórax no local de colocação dos eletrodos. A Figura 6 demonstra a colocação dos eletrodos ao redor do tórax do paciente para a obtenção das imagens. 55 Figura 6 – Posicionamento dos eletrodos para obtenção de imagens de tomografia de impedância elétrica Fonte: adaptada de Rosa et al. (2015, p. 408). A TIE avalia as mudanças da impedância do tecido pulmonar durante cada ciclo respiratório, gerando, assim, uma imagem da distribuição regional e estimando a ventilação total e o grau de colapso pulmonar. A imagem dinâmica gerada no monitor da TIE mostra a variação de ar local durante a ventilação em tempo real (ROSA et al., 2015). Barrientto et al. (2016) destacam que apesar de não gerar imagem nítida das estruturas torácicas, a TIE apresenta grandes aplicações na prática clínica, como para avaliar a ventilação pulmonar durante a ventilação mecânica, ou avaliar o efeito das manobras de fisioterapia respiratória na ventilação pulmonar. A Figura 7 demonstra uma imagem de TIE antes (A) e após (B) a aplicação de técnicas fisioterapêuticas de expansão pulmonar. Nas imagens, fica nítido o aumento da ventilação após a técnica, representado em azul. 56 Figura 7 – Imagens de tomografia de impedância elétrica em dois momentos: antes da aplicação de manobras de expansão pulmonar (A), e após a aplicação das manobras (B) Fonte: adaptada de Barrientto et al. (2016, p. 204). Uma grande aplicação da TIE, também, está relacionada à escolha da PEEP (pressão expiratória final positiva) ideal durante as manobras de recrutamento alveolar. Tais manobras são utilizadas em pacientes com síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), especialmente nos casos graves, com hipoxemia refratária, com o objetivo de expandir alvéolos colapsados. A partir do recrutamento alveolar, então, é aplicada uma “PEEP ideal” para evitar a perda do recrutamento alveolar. A aplicação destas manobras é desafiadora porque o comprometimento dos pulmões de pacientes com SDRA é bastante heterogêneo, de modo que, para recrutar áreas colpsadas, pode haver hiperdistensão de áreas ventiladas. Por isso, dá-se a grande importância da TIE, que oferece 57 informações em tempo real, durante a execução da manobra, para titular a melhor PEEP, de modo a recrutar áreas não ventiladas, mas não hiperdistender áreas bem ventiladas. As novas tecnologias apresentadas, como você pôde observar, oferecem informações valiosas para a adequada monitorização e tomadas de decisão em pacientes críticos. O grande desafio, por se tratar de técnicas novas, ainda é a disponibilidade nas instituições, além do treinamento adequado da equipe para condução correta das técnicas. Referências BARRIENTTO, L. et al. Monitorização da Expansão Pulmonar Após Manobras de Fisioterapia Respiratória por Meio do Tomógrafo de Impedância Elétrica. J Health Sci, Londrina, v. 18, n. 3, p. 201-205, 2016. Disponível em: https://pesquisa.bvsalud. org/portal/resource/pt/biblio-831807. Acesso em: 26 mar. 2021. CAVALHEIRO, L. V.; GOBBI, F. C. M. Fisioterapia hospitalar. Barueri: Manole, 2012. FU, C.; MÓL, C. G.; SANT’ANNA, G. N. Avaliação fisioterapêutica do paciente em terapia intensiva. In: TANAKA, C.; FU, C. Fisioterapia em terapia intensiva: princípios e práticas. Barueri: Manole, 2020, cap. 03, p.13-33. MACHADO, M. G. R. Bases da fisioterapia respiratória: terapia intensiva e reabilitação. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019. ROSA, R. G. et al. Uso da tomografia por impedância elétrica torácica como ferramenta de auxílio às manobras de recrutamento alveolar na síndrome do desconforto respiratório agudo: relato de caso e breve revisão da literatura. Rev Bras Ter Intensiva, São Paulo, v. 27, n. 4, p. 406-411, 2015. Disponível em: https:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0103-507X2015000400406&lng= en&nrm=iso&tlng=pt. Acesso em: 26 mar. 2021. SANTANA, P. V. et al. Ultrassonografia diafragmática: uma revisão de seus aspectos metodológicos e usos clínicos. J Bras Pneumol, Brasília, v. 46, n. 6, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1806-37132020000600501&script=sci_ abstract&tlng=pt. Acesso em: https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1806- 37132020000600501&script=sci_abstract&tlng=pt. Acesso em: 26 mar. 2021. SPECHT, N. L.; STOLLER, J. Uma revisão sobre radiologia torácica. In: WILKINS, R. L.; STOLLER, J. K.; KACMAREK, R. M. Egan: fundamentos da terapia respiratória. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, cap. 20, p. 431-454. https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-831807 https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-831807 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0103-507X2015000400406&lng=en&nrm=iso&tlng=pt https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0103-507X2015000400406&lng=en&nrm=iso&tlng=pt https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_abstract&pid=S0103-507X2015000400406&lng=en&nrm=iso&tlng=pt https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1806-37132020000600501&script=sci_abstract&tlng=pt https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1806-37132020000600501&script=sci_abstract&tlng=pt https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1806-37132020000600501&script=sci_abstract&tlng=pt https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1806-37132020000600501&script=sci_abstract&tlng=pt 58 BONS ESTUDOS! Sumário Exames complementares laboratoriais Objetivos 1. Exames complementares laboratoriais Referências Interpretação de exames de imagem Objetivos 1. Interpretação de exames de imagem Referências Avaliação do eletrocardiograma Objetivos 1. Avaliação do eletrocardiograma Referências Uso de tecnologias para assistência fisioterapêutica ao paciente crítico Objetivos 1. Tecnologias para assistência fisioterapêutica ao paciente crítico Referências