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130 CONQUISTADORES DO para contar sua história com o máximo de nitidez e objetividade. Esses três colocados vistos de frente, olhando para o espectador, as mãos erguidas em oração, parecem mostrar que a humanidade tinha começado a preocupar-se com outros valores além da beleza terrena. Não é apenas nas obras religiosas do período de e queda do Império Romano que podemos observar algo dessa mudança de interesse. Parecia serem poucos os artistas que se importavam com o que fora a glória da arte grega, seu refinamento e harmonia. Os escultores já não tinham paciência para trabalhar o mármore com o cinzel e para tratá-lo com a delicadeza e o gosto que foram o orgulho dos artífices gregos. Tal como o pintor do mural da catacumba, eles usavam métodos rudimentares como, por exemplo, uma broca mecânica para marcar as características principais de um rosto ou corpo. Tem-se afirmado com que a arte antiga declinou nesses anos, e é certamente verdade que muitos segredos do melhor período perderam-se no torvelinho geral de guerras, invasões e revoltas. Mas vimos que essa perda de habilidade não constitui a história toda. ponto fundamental é que os artistas desse período já não estavam 85 satisfeitos com o mero virtuosismo do período helenístico e tentavam agora Retrato de um obter novos efeitos. Alguns dos retratos da época, sobretudo os dos séculos funcionário de IV e V, talvez revelem com superlativa clareza o que esses artistas se Afrodisiade, propunham realizar (Fig. 85). Para um grego do tempo de Praxiteles, tais obras teriam parecido toscas e bárbaras. De fato, as cabeças não são belas, se altura 176 Museu as aferirmos por padrões comuns. Um romano, acostumado à extraordinária Istambul semelhança dos retratos, como o de Vespasiano (p. 121, Fig. 76), poderia ter repudiado essas obras como realizações No entanto, para nós, essas figuras parecem dotadas de vida própria e de uma expressão muito intensa que se deve à firme acentuação das feições e ao cuidado que os artistas dedicaram a traços como a pele em redor dos olhos e as rugas da testa. Essas figuras retratam pessoas que testemunharam e finalmente aceitaram a ascensão do cristianismo, o que significou o fim do mundo antigo. Um pintor de "retratos em sua oficina, sentado junto ao estojo de tinta e cavalete, 100 d.C. De um sarcofago pintado encontrado na Criméiaconsiderações análogas começaram a influenciar a colocou arte quando a religião porque se propagou do Oriente Médio e também a arte a seu serviço. Quando artistas cristãos foram pela primeira vez solicitados a representar Salvador e Seus apóstolos, mais uma vez a tradição grega os ajudou. A Fig. o 83 mostra-nos uma das primeiras representações do Cristo, datando do século IV. Em vez da figura barbada a que nos habituamos através de ilustrações posteriores, vemos um Cristo em plena beleza juvenil, entronizado entre São Pedro e São Paulo, ambos exibindo a digna aparência de filósofos gregos. Há um detalhe, em especial, que nos lembra até que ponto essa representação ainda está intimamente ligada aos métodos da arte helenística para indicar que o Cristo está entronizado nas alturas, o escultor fez Seus pés descansarem no dossel do firmamento, sustentado pelo antigo deus do céu. As origens da arte remontam ainda mais longe do que esse exemplo, mas os monumentos mais primitivos nunca mostram o Cristo em pessoa. Os judeus de Dura tinham pintado cenas do Antigo Testamento em sua sinagoga, menos para adorná-la do que para narrar a história sagrada em espírito análogo. Pinturas como as dos "Três homens na fornalha ardente" forma visível. Os primeiros artistas chamados a pintar imagens para lugares (Fig. 84), provavelmente do século III, mostram que esses artistas estavam cristãos de sepultamento as catacumbas romanas agiram segundo um familiarizados com os métodos de pintura helenística usados em Pompéia. 84 Eles eram perfeitamente capazes de evocar mentalmente a idéia de uma 83 Os três homens na figura humana com meia dúzia de pinceladas mais ou menos irregulares. Cristo com fornalha ardente, Mas também sentimos que esses efeitos e estratagemas não lhes São Paulo, século III d.C. interessavam muito. A representação pictórica deixara de existir como uma Relevo em Mural; Catacumba de Roma coisa bela por si mesma. Seu principal intuito era recordar agora aos fiéis cripta de Roma um dos exemplos do poder e da misericórdia de Deus. Lemos na Bíblia (Daniel, III) a respeito de três altos funcionários judeus, no reinado de Nabucodonosor, que se recusaram a prostrar-se e a adorar uma gigantesca estátua de ouro do rei, erguida na planície de Dura, província de Como tantos cristãos do período em que essas pinturas foram feitas, eles tiveram que sofrer duro castigo por sua recusa. Os judeus foram jogados numa fornalha ardente "com seus mantos, túnicas, turbantes e vestes". Mas eis que o fogo não teve poder sobre seus corpos, "nem um só cabelo de suas cabeças queimou, nem qualquer sinal aparecia em seus mantos". O Senhor "enviou Seu anjo e libertou Seus servos". Só precisamos imaginar que o mestre de Laocoonte (p. 110, Fig. 69) teria feito de semelhante tema para nos darmos conta da diferente direção que a arte estava tomando. O pintor nas catacumbas não queria representar uma cena dramática apenas para agradar a si mesmo. Para apresentar o exemplo consolador de fortaleza de ânimo e de salvação, era mais do que suficiente que fossem reconhecíveis os homens em seus trajes persas, as chamas e a pomba um símbolo da ajuda Divina. Tudo o que não fosse estritamente relevante era melhor deixar de fora. Uma vez mais, as idéias de clareza e simplicidade começavam a superar os ideais de fiel Entretanto, existe algo de comovente no próprio esforço que o artista fezdramática. Os romanos eram um povo prosaico e pouco se importavam com deuses fantasiosos. Contudo, seus métodos pictóricos de narrar as façanhas de um herói provaram ser de grande valor para as religiões que entraram em contato com seu vasto império. Durante os primeiros séculos depois de Cristo, a arte helenística e romana desalojou drasticamente as artes dos reinos orientais, até mesmo em seus anteriores baluartes. Os egípcios ainda sepultavam seus mortos como múmias, mas, em vez de adicionarem as representações do rosto no estilo egípcio, agora 79 mandavam pintá-lo por artistas que Retrato de 1011 conhecessem os estratagemas da arte 100 d.C. grega de retratar (Fig. 79). Esses De uma encontrada em pintado retratos, que certamente eram em cera British Londres executados por humildes artífices a um baixo preço, ainda hoje nos espantam por seu vigor e realismo. Poucas obras de arte antigas se conservaram tão "modernas" quanto essas. 80 Os egípcios não foram os únicos a adaptar os novos métodos de arte às Gautama (Buda) suas necessidades religiosas. Mesmo na distante o modo romano de deixando casa, contar uma história e glorificar um herói foi adotado por artistas que se século II d.C. propuseram a tarefa de ilustrar a saga de uma conquista pacífica: a história Encontrado em Lonyan do Buda. Gandhara); xisto 48X54 Museu Indiano, A arte da escultura florescera na Índia muito antes de influência Calcutá helenística figura do chegado Buda região fronteiriça essa que passaram ter ao país; mas foi na de Gandhara que a surgiu pela primeira vez nos relevos a constituir o modelo para a arte budista posterior. A Fig. 80 representa o episódio da lenda do Buda designado como A Grande Renúncia. jovem Gautama está deixando o palácio dos pais a fim de se fazer eremita na floresta. Dirige-se nos seguintes termos ao seu cavalo favorito, Kanthaka: "Meu querido Kanthaka, carrega-me uma vez mais somente por esta noite. Quando me tiver tornado o Buda com a tua ajuda, trarei a salvação ao mundo de deuses e homens." Se Kanthaka tivesse apenas relinchado ou feito algum ruído com os cascos, a cidade teria acordado e a partida do príncipe seria descoberta. Por isso os deuses lhe abafavam a voz colocavam A as mãos sob os cascos do animal sempre que este dava e um passo. arte122 77 Coluna de Roma, c. 114 78 Detalhe da Fig. mostrando queda de uma cidade uma batalha contra os (centro) e soldados cortando trigo do lado de fortaleza (embaixo) Uma outra tarefa nova que o artista recebeu dos romanos reviveu um costume que conhecemos do antigo Oriente (p. 72, Fig. 45). Também eles quiseram proclamar suas vitórias e contar a história de suas campanhas militares. Trajano, por exemplo, erigiu uma coluna gigantesca para mostrar toda a crônica ilustrada de suas guerras e vitórias na Dácia (a moderna Romênia). Nessa coluna vemos legionários romanos pilhando, combatendo e conquistando (Fig. 78). Todo o engenho e as realizações de séculos de arte grega foram usados nessas autênticas façanhas de reportagem bélica. Mas a importância que os romanos atribuíam a uma reprodução exata dos detalhes e a uma clara narrativa que gravasse as façanhas de uma campanha, impressionando quem ficara em casa, modificou o caráter da arte. principal objetivo deixou de ser a harmonia, a beleza, a expressãograndes especialistas na arte da construção de abóbadas, graças a diversos expedientes de natureza mais maravilhoso dos seus edificios é o Panteão, um templo dedicado a todos os deuses. É o único templo da antiguidade clássica que sempre se conservou como local de culto - sendo convertido em igreja no início da era Por essa razão, nunca se permitiu que se desfizesse em ruínas. Seu interior (Fig. 75) é uma gigantesca rotunda com teto em abóbada e uma abertura circular no topo, através da qual se vê o céu aberto. Não tem janelas, mas do alto todo o recinto recebe luz abundante e uniforme. Conheço poucos que transmitam uma impressão de tão serena harmonia. Não existe a menor sensação de peso opressivo. enorme zimbório parece pairar livremente sobre nós como uma segunda abóbada celeste. Era típico dos romanos aproveitarem da arquitetura grega tudo que lhes agradava, aplicando-o às suas próprias necessidades. Fizeram o mesmo em todos os campos. Uma de suas principais necessidades era a de bons retratos que representassem fielmente os modelos. Na religião primitiva dos romanos, 76 esses retratos haviam desempenhado um importante papel. Um dos seus Imperador Vespasiano, costumes era transportar imagens em cera dos ancestrais nas procissões 70 d.C. fúnebres. É quase certo que tal costume se relacionava com a crença de que Mármore, altura 135 cm; Museo Archeologico a representação em imagem preserva a alma, uma convicção que já Nazionale, conhecemos do antigo Egito. Mais adiante, quando Roma já se convertera num império, o busto de um imperador ainda era visto com religioso temor e reverência. Sabemos que todos os romanos deviam queimar incenso diante desse busto, como símbolo de sua lealdade e vassalagem, e que a perseguição aos cristãos ocorreu justamente porque eles se recusavam a cumprir tal exigência. fato curioso é que, apesar da significação solene dos retratos, os romanos permitiram que seus artistas os compusessem mais realistas e menos lisonjeiros do que os gregos jamais tentaram fazer. Talvez tenham usado, algumas vezes, máscaras mortuárias, assim adquirindo um profundo conhecimento da estrutura e características da cabeça humana. De 75 qualquer modo, conhecemos Pompeu, Augusto, Tito ou Nero, quase de como Interior do Panteão, estivéssemos vendo seus rostos na tela. Não existe a menor sombra Roma, 130 se adulação no busto de Vespasiano (Fig. 76) - nada que pudesse marcá-lo Pintura de G um deus. Poderia ser um próspero banqueiro ou um armador Statens Museum for Copenhague como Não obstante, nada existe de mesquinho nesses retratos romanos. qualquer. Os artistas conseguiram, de algum modo, ser naturais sem cair na trivialidade.73 o Coliseu, Roma, 80 d.C. Um anfiteatro romano 74 Arco triunfal de Tibério, Orange, sul da França, 14-37 d.C. aberturas mais estreitas. Era um arranjo que podia ser usado, para fins de composição arquitetural, como uma corda é usada para fins de composição musical. A mais importante característica da arquitetura romana é, porém, o uso de arcos. Essa invenção teve reduzida ou nenhuma importância nas edificações gregas, embora possivelmente não fosse desconhecida forma dos arquitetos gregos. Construir um arco com pedras separadas dominada em essa de cunha é uma dificílima façanha de engenharia. Uma vez ousados. construtor pode utilizá-la para projetos cada vez mais até fazer uso Pode arte, o pilares de uma ponte ou de um aqueduto, ou tornaram-se multiplicar desse recurso os para construir um teto abobadado. Os romanos5 CONQUISTADORES DO MUNDO Romanos, budistas, judeus e cristãos, séculos I a IV d.C. Vimos que Pompéia, uma pequena cidade romana, continha numerosos reflexos da arte helenística. Com efeito a arte permaneceu mais ou menos inalterada enquanto os romanos conquistavam o mundo e fundavam seu próprio império sobre as ruínas dos reinos helênicos. A maioria dos artistas que trabalhavam em Roma era grega, e a maioria dos colecionadores romanos adquiria obras dos grandes mestres gregos ou cópias dessas obras. Não obstante, em certa medida, a arte mudou, quando Roma se tornou senhora do mundo. Aos artistas foram confiadas diferentes tarefas, e eles tiveram, por conseguinte, que se adaptar aos novos métodos. A mais notável realização dos romanos ocorreu, provavelmente, na área da engenharia civil. Conhecemos tudo sobre as suas estradas, os seus aquedutos, os seus banhos públicos. Mesmo as ruínas dessas construções conservam ainda hoje um aspecto sobremaneira impressionante. Sentimo- nos formigas quando caminhamos entre os enormes pilares romanos. De fato, foram essas ruínas que tornaram impossível às gerações seguintes esquecer "a grandeza de O mais famoso desses é, talvez, a gigantesca arena conhecida como o Coliseu (Fig. 73). É uma característica construção romana, a qual suscitou muito admiração em épocas Em seu todo, constitui uma estrutura utilitária, com três ordens de arcos sobrepostos, destinados desses a sustentarem os assentos do vasto anfiteatro interior. Mas, na frente formas arcos, o arquiteto romano colocou uma espécie de cortina de gregas. Na verdade, ele aplicou todos os três estilos de construção do estilo dórico, usados sendo para conservados inclusive as métopas e os triglifos; o segundo Essa combinação é os templos gregos. andar térreo é uma variação andar e o terceiro e o quarto são meias colunas coríntias. teve uma influência de romanas com formas ou "ordens" gregas olhos pelas nossas enorme estruturas sobre os arquitetos posteriores. Se passarmos exemplos os de tal próprias cidades, poderemos facilmente encontrar influência. dessas criações arquitetônicas tenha causado erigiram impressão em todo Talvez nenhuma do os arcos triunfais que os romanos Norte e Asia. A mais arquitetura o seu duradoura império, grega na era Itália, que composta França Coliseu; geralmente (Fig. 74), mas África os de arcos unidades do triunfais idênticas, usam flanqueada que métodos foram que emolduram empregadas e acentuam até para o a grande portada central, que é por

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