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AVISO Todo esforço foi feito para garantir a qualidade editorial desta obra, agora em versão digital. Destacamos, contudo, que diferenças na apresentação do conteúdo podem ocorrer em função das características técnicas específicas de cada dispositivo de leitura. Katia Puente-Palacios Adriano de Lemos Alves Peixoto Organizadores Ferramentas de diagnóstico para organizações e trabalho Um olhar a partir da psicologia Versão impressa desta obra: 2015 A Artmed é a editora oficial da Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho 2015 © Artmed Editora Ltda., 2015 Gerente editorial Letícia Bispo de Lima Colaboraram nesta edição: Coordenadora editorial Cláudia Bittencourt Assistente editorial Paola Araújo de Oliveira Capa Maurício Pamplona Preparação do original Camila Wisnieski Heck Leitura final Ivaniza Oschelski de Souza Projeto e editoração Bookabout – Roberto Carlos Moreira Vieira Produção digital Freitas Bastos F371 Ferramentas de diagnóstico para organizações e trabalho : um olhar a partir da psicologia [recurso eletrônico] / Organizadores, Katia Puente-Palacios, Adriano de Lemos Alves Peixoto – Porto Alegre : Artmed, 2015. e-PUB. Editado como livro impresso em 2015. ISBN 978-85-8271-225-2 1. Psicologia organizacional. I. Puente-Palacios, Katia. II. Peixoto, Adriano de Lemos Alves. CDU 159.9 Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 Reservados todos os direitos de publicação à ARTMED EDITORA LTDA., uma empresa do GRUPO A EDUCAÇÃO S.A. Av. Jerônimo de Ornelas, 670 – Santana 90040-340 – Porto Alegre, RS Fone: (51) 3027-7000 Fax: (51) 3027-7070 É proibida a duplicação ou reprodução deste volume, no todo ou em parte, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrônico, mecânico, gravação, fotocópia, distribuição na Web e outros), sem permissão expressa da Editora. SÃO PAULO Av. Embaixador Macedo Soares, 10.735 – Pavilhão 5 Cond. Espace Center – Vila Anastácio 05095-035 – São Paulo, SP Fone: (11) 3665-1100 – Fax: (11) 3667-1333 SAC 0800 703-3444 – www.grupoa.com.br AUTORES Katia Puente-Palacios. Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia pela Universidade de Brasília (UnB). Pós-doutorada na Universidad de Valencia, Espanha. Professora adjunta dos cursos de Graduação e Pós-graduação do Instituto de Psicologia da UnB. Adriano de Lemos Alves Peixoto. Psicólogo e administrador. Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ph.D. em Psicologia pelo Instituto de Psicologia do Trabalho da Universidade de Sheffield, Inglaterra. Pesquisador de Pós-doutorado pela CAPES no Instituto de Psicologia da UFBA. Ana Carolina de Aguiar Rodrigues. Psicóloga e administradora. Mestre e Doutora em Psicologia pela UFBA. Professora doutora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP). Ana Claudia Monteiro. Psicóloga. Mestre em Psicologia pela Universidade Salgado de Oliveira (Universo). Doutoranda em Psicologia na Universo. Consultora da FGV Projetos. Ana Cristina Portmann Borba. Psicóloga. Mestre em Psicologia pela UnB. Coordenadora de equipe da Divisão de Modernização Organizacional da Companhia Imobiliária de Brasília – Terracap. Antonio Virgílio B. Bastos. Psicólogo. Doutor em Psicologia pela UnB. Professor titular de Psicologia Social das Organizações do Instituto de Psicologia da UFBA. Pesquisador I-A CNPq. Coordenador da Área de Psicologia da CAPES. Superintendente de Avaliação e Desenvolvimento Institucional da UFBA. Carolina Villa Nova Aguiar. Psicóloga. Mestre em Psicologia pela UFBA. Professora assistente da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP). Danilo Batista Correia. Técnico judiciário. Especialista em Educação a Distância e em Arte, Educação e Cultura. Chefe da Educação a Distância do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região. Membro da Comissão de Educação a Distância do Poder Judiciário Trabalhista. Eliana Edington da Costa e Silva. Psicóloga. Especialista em Administração de Recursos Humanos. Mestre e Doutora em Psicologia Organizacional pela UFBA. Professora assistente de Psicologia e supervisora de Estágio de Psicologia Organizacional na EBMSP. Professora de cursos de MBA em Gestão de Pessoas e cursos de Especialização em Psicologia Organizacional na Universidade Salvador (UNIFACS) e na Faculdade Ruy Barbosa. Elisabeth Loiola. Economista. Mestre em Administração Pública pela Escola de Administração da UFBA (EAUFBA). Doutora em Administração pela EAUFBA. Professora associada IV do Núcleo de Pós-graduação da EAUFBA. Fabiana Queiroga. Psicóloga. Especialista em Matemática e Estatística. Doutora em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações. Professora efetiva do curso de Psicologia no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Flávio Sposto Pompêo. Cientista político. Mestre em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações pela UnB. Auditor federal de Controle Externo do Tribunal de Contas da União. Coordenador pedagógico de cursos voltados à Administração Pública no Instituto Serzedello Corrêa (ISC). Francisco Antonio Coelho Junior. Professor de Magistério Superior. Mestre e Doutor em Psicologia Social, do Trabalho e Organizacional pela UnB. Professor adjunto do Departamento de Administração da UnB. Professor e coordenador do Programa de Pós-graduação em Administração da UnB. Gardênia da Silva Abbad. Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia pela UnB. Professora dos Programas de Pós- graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações e em Administração da UnB. Coordenadora do Projeto de Pesquisa em Avaliação de Sistemas Instrucionais, apoiado pelo CNPq, e de Projeto Interdisciplinar na área de ensino na saúde, financiado pela CAPES, para formar mestres e doutores e rea lizar pesquisas sobre o assunto. Professora associada II e pesquisadora 1C do CNPq. Hugo Pena Brandão. Administrador. Especialista em Marketing pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Especialista em Elaboração e Análise de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Mestre em Administração e Doutor em Psicologia do Trabalho e das Organizações pela UnB. Gerente-executivo da Universidade Corporativa Banco do Brasil (UniBB). Jairo Eduardo Borges-Andrade. Psicólogo. Mestre e Doutor em Sistemas Instrucionais pela Florida State University, Estados Unidos. Estágios de pós-doutorado no International Food Policy Research Institute, na University of Sheffield e Rijksuniversiteit Gröningen e no Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa. Professor titular da UnB. Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq – Nível 1A. Janice Janissek. Psicóloga. Mestre em Administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Doutora em Administração pela UFBA. Professora do Instituto de Psicologia da UFBA. Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Indivíduo, Organizações e Trabalho da UFBA. Juliana B. Porto. Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia pela UnB. Professora adjunta do Instituto de Psicologia da UnB. Kátia Maria Rodrigues Bastos. Bancária. Especialista em Gestão Estratégica de Marketing pela FGV/RJ. Mestre em Administração pela UFBA. Gerente Executiva na Diretoria de Gestão de Pessoas do Banco do Brasil. Livia de Oliveira Borges. Psicóloga. Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutora em Psicologia pela UnB. Pós-doutorada na Universidade Complutense de Madrid, Espanha. Professora titular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Docente-orientadora no Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFMG. Bolsista de produtividade do CNPq. Luciana Mourão. Administradora e comunicadora social. Mestre em Administração pela UFMG. Doutora em Psicologia pela UnB. Professora do Programa de Pós-gra duação em Psicologia da Universo e da Associação Internacional de Educação Continuada (AIEC). Pesquisadora do CNPq. Marco Antônio Pereira Teixeira. Psicólogo. Mestre e Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor do Instituto de Psicologiade impacto de um curso, denominado Financiamento de Veículos, ofertado para funcionários lotados em unidades sediadas em todo o território nacional. O questionário aplicado nessa amostra continha 9 itens, após a eliminação dos itens 4 e 9 (Quadro 1.2). A maioria dos 742 respondentes era do sexo masculino (62,7%), metade (50,5%) tinha tempo de serviço entre zero e cinco anos, quase a metade residia na Região Sudeste (46,4%) e tinha graduação (47,3%) seguida de pós-graduação (33,4%). Entre aqueles que terminaram a graduação, o curso de Administração estava entre os mais cursados (30,7%), acompanhado de Direito (9,8%) e de Contabilidade (7,3%). Quanto ao local de trabalho, predominaram Unidades de Negócios, com 88,7% dos participantes. Vale destacar que, nesse contexto, a escala de atitudes foi aplicada em conjunto a itens de outros questionários de avaliação do treinamento, apresentados aos respondentes na seguinte ordem: Necessidade de utilização do treinamento; Impacto do treinamento no trabalho (em profundidade – auto e heteroavaliação); Impacto do treinamento no trabalho (em amplitude – auto e heteroavaliação), adaptado de Abbad (1999); Suporte à transferência de treinamento, adaptado de Abbad (1999); Atitudes em relação a EaD – E-ATAD. Os questionários foram aplicados pela intranet do banco. Em geral, os respondentes já haviam concluído o curso há mais de 90 dias. Essa coleta foi feita enviando-se o questionário digitalizado a uma amostra aleatória de participantes do curso, após carta organizada pela unidade responsável pela avaliação, que explicou os objetivos, os procedimentos e as instruções da avaliação aos participantes do curso. As respostas numéricas dos 742 participantes aos questionários foram registradas em um arquivo de dados eletrônico no programa SPSS (Statistical Package for Social Science), versão 16.0. A E-ATAD avalia as percepções de egressos sobre a facilidade de uso e a utilidade das tecnologias de ensino a distância. A escala contém 9 itens, com cargas fatoriais variando de 0,79 a 0,91 e Alpha de Cronbach de 0,95. Os resultados dessas análises mostram evidências de validade da escala, sendo recomendado o uso com esses 9 itens e estrutura unifatorial. APLICAÇÃO, APURAÇÃO DOS RESULTADOS E INTERPRETAÇÃO DA E-ATAD A E-ATAD é autoaplicável. Sugere-se sua aplicação antes ou no início do treinamento, de forma a propiciar informações sobre as atitudes que facilitem a tutoria, a interação entre estudante e tutor, bem como o acompanhamento do rendimento do participante durante o treinamento a distância. No caso da impossibilidade da aplicação antes ou no início do treinamento, a escala pode ser aplicada após seu término, com o objetivo de levantar informações úteis para os próximos treinamentos. A escala pode ser utilizada em pesquisas de avaliação da influência de variáveis atitudinais sobre resultados de treinamentos a distância, como reações, aprendizagem e transferência de treinamento. Atitudes desfavoráveis do estudante sobre a EaD também podem estar relacionadas à evasão. Por isso, esse instrumento pode ser aplicado como análise prévia do perfil do participante, objetivando a adoção de estratégias de mudança de atitudes desfavoráveis. Além disso, a escala pode ser adotada como análise de necessidades de treinamento, antes da implantação de treinamentos a distância e cursos mediados por novas tecnologias, buscando facilitar a composição de um perfil homogêneo de treinandos no que diz respeito à percepção de atitudes quanto à modalidade. A escala apresentada pode ser aplicada tanto em papel como pela internet, seja em um site específico para a pesquisa, seja por e-mail. Sugere-se, porém, que a aplicação ocorra no mesmo ambiente no qual o curso foi realizado, para que seja entendida como parte do processo. Nesse caso, no próprio ambiente do curso a pessoa encontraria um link para a pesquisa, o que evitaria o envio de respostas mais de uma vez e também a necessidade de identificação do respondente. Além disso, a aplicação no próprio ambiente do curso permite o cruzamento da E-ATAD com outras variáveis do desenvolvimento processual do curso, como número de acessos, grau de utilização dos recursos didáticos disponibilizados, resultados de avaliações do curso, etc. Em média, a E- ATAD leva cerca de 5 minutos para ser preenchida e pode ser aplicada em uma única organização ou em organizações diferentes, a fim de comparar as atitudes de seus membros quanto aos treinamentos a distância. Em uma mesma organização, a aplicação também pode ser feita para diferentes públicos, de forma a permitir a comparação das atitudes dos diferentes grupos em relação aos treinamentos a distância e subsidiar ações de gestão de pessoas específicas para os grupos que apresentam maior resistência a treinamentos a distância. No que diz respeito à apuração dos resultados, a E-ATAD é medida por uma escala de concordância, variando de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente), perfazendo um total de 7 pontos. Nessa escala, quanto mais alta a média, mais positiva a atitude do respondente em relação aos treinamentos a distância. Como a escala é unifatorial, deve ser considerado o escore médio obtido a partir da média das respostas aos 9 itens da escala. Valores médios entre 1 e 2,5 indicam resistência a treinamentos a distância, entre 2,5 e 4,5 indicam uma atitude medianamente favorável, e entre 4,6 e 7, uma atitude receptiva a treinamentos a distância. O gestor, de posse desses resultados, pode propor estratégias de sensibilização visando à diminuição da resistência em relação a treinamentos a distância ou, ainda, oferecer treinamentos sobre as novas tecnologias de informação, no caso de a atitude desfavorável ocorrer em função de lacunas de habilidades no uso de tais tecnologias em contexto de treinamento. Em relatórios de apresentação de resultados da avaliação dessas atitudes, recomenda-se a elaboração de tabelas que contenham resultados descritivos das respostas dos sujeitos à escala, entre os quais os percentuais, os valores mínimos e máximos, as médias aritméticas e os desvios-padrão obtidos, bem como as análises de variáveis antecedentes, consequentes e correlatas ao construto, a fim de que se possa utilizar a informação nos processos de tomada de decisão, permitindo melhorias para a área de treinamento, em específico, e para a área de gestão de pessoas de modo geral. Embora a escala tenha apresentado índices que atestam evidências de validade teórica e empírica em diferentes amostras, recomenda-se que em pesquisas futuras sejam apresentados o grau de precisão obtido (Alpha de Cronbach) e o resultado do estudo empírico, pois, em realidades específicas, os instrumentos apresentam estruturas distintas. ESCALA DE ATITUDES SOBRE TREINAMENTO A DISTÂNCIA – E-ATAD Prezado participante, Este instrumento contém nove afirmações sobre a educação a distância. Para cada afirmação, assinale a opção que melhor reflete a sua opinião de acordo com a escala abaixo. Itens Resposta 1. Considero fácil a minha interação com ambientes virtuais de aprendizagem a distância. 2. Em um curso a distância, aprendo facilmente a utilizar as ferramentas do ambiente virtual. 3. É fácil para mim adquirir novos conhecimentos por meio de cursos a distância. 4. Considero-me habilidoso como participante de cursos a distância. 5. Quando participo de um curso a distância, sinto-me capaz de aplicar, em diferentes situações, o que aprendi no curso. 6. Cursos a distância preparam-me para o trabalho em equipe. 7. Cursos a distância ajudam-me a resolver problemas relacionados ao meu trabalho. 8. Cursos a distância aumentam meus conhecimentos sobre assuntos importantes que preciso estudar. 9. Cursos a distância tornam meus estudos mais produtivos. REFERÊNCIAS Abbad, G. S. (1999). Um modelo integrado de avaliação do impacto do treinamento no trabalho – IMPACT (Tese de Doutorado). Universidade de Brasília, Brasília. Carvalho, R. (2003). Avaliação de treinamento à distância: reação, suporte à transferência e impactodo treinamento no trabalho (Dissertação de Mestrado). Universidade de Brasília. Chatzoglou, P. D., Sarigiannidis, L., Vraimaki, E., & Diamantidis, A. (2009). Investigating Greek employees’ intention to use web-based training. Computers and Education, 53(3), 877-889. Davis, F. D., Bagozzi, R. P., & Warshaw, P. 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Nas práticas contemporâneas de gestão de pessoas, o subsistema de avaliação de desempenho está entre as questões centrais discutidas na literatura (ver Bhagat, Van Scotter, Stevenson, & Moustafa, 2005; Fletcher, 2002). Há, nos cenários internacional e nacional, um grande número de publicações sobre desempenho no trabalho (ver mapeamentos apontados por Sonnentag & Freese, 2002; Queiroga, 2009). Esse volume de publicações certamente está relacionado a sua importância. As organizações precisam do bom desempenho dos indivíduos para alcançar suas metas, entregar produtos e serviços nos quais elas são especializadas e, por fim, obter vantagem competitiva. Já existe certa concordância na literatura sobre a necessidade de diferenciar a conceituação de desempenho em termos de aspectos comportamentais e de resultados (Campbell, 1990; Campbell, McCloy, Oppler, & Sager, 1993).1 Os aspectos comportamentais referem-se ao que um indivíduo faz no contexto de trabalho, ou seja, ações como montar as partes do motor de um carro, vender computadores ou, ainda, realizar uma cirurgia cardíaca. Os aspectos de resultados referem-se às consequências desses comportamentos dos indivíduos. Eles podem trazer resultados como número de motores montados, valores das vendas ou, ainda, número de cirurgias bem-sucedidas. Em muitas situações, comportamentos e resultados se relacionam, mas não se sobrepõem completamente. Os resultados de desempenho dependem de outros fatores além dos comportamentos individuais (Campbell, 1990; Campbell et al., 1993; Sonnentag & Frese, 2002). Imagine-se, por exemplo, um vendedor no ramo das telecomunicações que demonstra um desempenho medíocre na interação com o cliente (aspecto comportamental do desempenho), mas ainda assim apresenta elevados valores de venda (aspecto de 1. resultado do desempenho), porque naquele período em que realizava as vendas havia alta demanda por telefones. Ou vice-versa. Embora a avaliação comportamental esteja no cerne da definição de desempenho, nem todo comportamento pertence ao conceito de desempenho, apenas aquelas ações que de alguma forma se relacionam com as metas organizacionais. A definição de desempenho deve ser direcionada não para a ação em si, mas para o julgamento e a avaliação do processo. Desempenho é o que alguém faz bem e foi, por isso, selecionado para fazê-lo (Campbell, 1990; Campbell et al., 1993). Na prática, essa característica conceitual torna difícil a descrição do aspecto comportamental do desempenho, sem que seja levado em conta algum aspecto de resultado como parâmetro. Portanto, como nem todas as ações são consideradas no desempenho, mas apenas aquelas que são relevantes para o alcance das metas organizacionais, faz-se necessário um critério para avaliar em que medida o desempenho indivi dual vai ao encontro das metas organizacionais. Além da concordância entre os autoresde que comportamento e resultado devem ser diferenciados, desde a década de 1990 Campbell expõe um modelo que procura categorizar os tipos de comportamentos no trabalho para melhor compreender o conceito de desempenho. Partindo da taxonomia proposta por esse autor, outros autores propuseram uma classificação mais simples, em que o conceito de desempenho pode ser distinguido em duas facetas: desempenho voltado para a tarefa e para o contexto (Neal & Griffin, 1999; Sonnentag & Frese, 2002). Desempenho voltado para tarefa refere-se à maneira como as atividades dos indivíduos podem contribuir para as questões técnicas da organi zação. Essa contribuição pode ser tanto direta (como é o caso de trabalhadores voltados para a produção) como indireta (como é o caso dos gestores). Trata-se de uma dimensão que inclui todos os aspectos específicos das atividades laborais de um cargo ou de uma função ocupacional, ou seja, aquilo que é esperado que o trabalhador realize porque é de sua responsabilidade. A segunda faceta, desempenho contextual, refere-se às atividades que não contribuem para os aspectos técnicos, mas estão inclusas no suporte da organização, nos ambientes social e psicológico nos quais as metas organizacionais são buscadas. Desempenho contextual inclui não apenas comportamentos como ajuda aos colegas da organização ou bem-estar dos seus membros, mas também o fornecimento de sugestões sobre como melhorar procedimentos de trabalho. É possível diferenciar dois tipos de desempenho contextual: comportamentos que visam, sobretudo, ao bom funcionamento da organização, uma vez que se referem ao momento presente, e comportamentos pró-ativos, que visam à mudança e ao refinamento de processos laborais e organizacionais (Sonnentag & Frese, 2002). Em resumo, basicamente três pressupostos são associados na diferenciação entre desempenho voltado à tarefa e ao contexto: atividades relevantes para o desempenho na tarefa variam entre os tipos de trabalho, ao passo que atividades de desempenho contextual são relativamente semelhantes entre os tipos de trabalho; 2. 3. desempenho voltado para a tarefa é relacionado a habilidades aprendidas, enquanto desempenho contextual é relacionado a fatores disposicionais (personalidade, motivação para trabalhar, comprometimento com a organização); desempenho voltado para a tarefa é mais prescrito e constitui um comportamento esperado de uma tarefa, enquanto desempenho contextual é mais flexível e menos estrito. Além de serem construtos que podem ser distinguidos no nível abstrato, existem também muitas evidências de que esses dois conceitos possam ser separados empiricamente, como argumentam Sonnentag e Frese (2002). Em face de todos esses elementos conceituais que permeiam a compreensão do desempenho no trabalho, uma questão fundamental é a mensuração desse construto. Ela está estreitamente relacionada à avaliação do desempenho nas organizações (Abbad & Borges-Andrade, 2004; Caetano, 1996; Peixoto & Caetano, 2013). Ao proporem a mensuração desse construto, observa-se que diversos autores tocam novamente na interface desse conceito com a expressão de competência no trabalho (ver, p. ex., Abbad & Borges-Andrade, 2004; Brandão, 2009; Brandão & Guimarães, 2001; Carbone, Brandão, Leite, & Vilhena, 2005). Ao se propor a avaliação de desempenho no ambiente organizacional, o objetivo principal está em aferir o trabalho que o empregado executa e que lhe é atribuído em razão de processos, objetivos e metas organizacionais (Brandão & Guimarães, 2001; Peixoto & Caetano, 2013). Assim, em consonância com o que é proposto por Sonnentag e Frese (2002), avaliar desempenho implica obter dados sobre o comportamento das pessoas no trabalho e os resultados advindos desse comportamento e compará-los com o que era esperado pela organização. No que concerne aos meios utilizados para aferir o desempenho dos indivíduos no trabalho, pode-se descrever diferentes métodos e instrumentos (incidentes críticos, avaliação por objetivos, escolha forçada, escalas gráficas de classificação e escalas comportamentais, entre outros) que surgiram e foram aprimorados ao longo das últimas décadas (Caetano, 1996; Shultz & Shultz, 2006). Uma mudança especialmente relevante diz respeito aos envolvidos na avaliação, de acordo com Caetano (1996). Os métodos evoluíram de modelos unilaterais, em que os subordinados eram avaliados em uma via descendente por seu superior, para modelos que envolvem mais de uma fonte de informação, entre elas a própria percepção dos empregados sobre seu desempenho no trabalho e a percepção de outros que possam conhecer esse desempenho, como colegas, clientes e chefes (p. ex., as avaliações 180º e 360º). Embora a avaliação dos resultados organizacionais também possa ser feita a partir de indicadores comportamentais de desempenho, o referencial teórico apresentado até aqui propõe uma distinção clara entre esses dois níveis. Enquanto os indicadores de desempenho organizacional preocupam-se fundamentalmente com o resultado, produto ou serviço gerado pela organização, os de desempenho de equipes e de indivíduos voltam-se para o comportamento necessário para produzir tais produtos ou serviços (Sonnentag & Frese, 2002). É sobre a mensuração desses comportamentos que recai o interesse da medida descrita a seguir. DESCRIÇÃO DA ESCALA GERAL DE DESEMPENHO NO TRABALHO – EGDT Foram desenvolvidos 20 itens para avaliar as duas facetas de avaliação, denominadas desempenho voltado para a tarefa e desempenho voltado para o contexto, a partir do referencial teórico de Campbell (1990) e Sonnentag e Frese (2002). Esses itens foram submetidos a validação psicométrica, e os respondentes utilizaram uma escala de frequência de 5 pontos cujos extremos variaram de 1 (nunca) a 5 (sempre). Validação psicométrica, aplicação da medida e apuração dos resultados Inicialmente 20 itens da Escala Geral de Desempenho no Trabalho foram submetidos a validação psicométrica com a utilização de uma amostra de 1.617 participantes, sendo 57,5% servidores de um banco e 42,5% empregados de uma sociedade anônima do ramo de petróleo (S/A). Em ambas as organizações, a maioria dos respondentes era do sexo masculino (aproximadamente 80%) e com ensino superior completo. Contudo, na S/A houve um grande percentual (cerca de 52%) de respondentes com pós-graduação (MBA ou especialização, mestrado ou doutorado). Os participantes do banco exerciam atividade remunerada há mais tempo (média de 25 anos e 9 meses) e também estavam lá há bastante tempo (cerca de 17 anos e 8 meses). Os respondentes da S/A estavam no mercado de trabalho há cerca de 10 anos e 6 meses e estavam há menos tempo na companhia (média de 3 anos e 7 meses). O número de fatores a serem extraídos da Escala de Autoavaliação de Desempenho foi identificado por meio do scree plot e da análise paralela de Horn,2 que indicou a presença de no máximo dois fatores. O primeiro deles contempla um tipo de desempenho mais direcionado ao contexto organizacional, com itens que focam a pró-atividade do funcionário e ações voltadas para agir de forma estratégica. Por isso, esse fator foi denominado contextual e pode ser definido como o conjunto de comportamentos que o indivíduo realiza no seu contexto de trabalho que são voltados estrategicamente para o alcance de metas da organização. Os itens desse Fator I apresentaram cargas fatoriais satisfatórias e que são bem mais baixas no Fator II, o que demonstra que se separam nitidamente dessa segunda dimensão. A consistência interna dos 11 itens do Fator I pode ser confirmada pelo Alpha de Cronbach elevado, de 0,88. O Fator II apresenta um conteúdo relacionado à “microexecução” do trabalho dos indivíduos. Trata-se de ações realizadas pelo sujeito que promovem bom desempenho de suas tarefas. Assim, o segundo fator foi denominado desempenho voltado para a tarefa e pode ser definido como o conjunto de comportamentos que a pessoa realiza no seu contexto de trabalho que são voltados para a execução de suas tarefas. Apesar de ser compostopor itens com cargas fatoriais igualmente elevadas, o Fator II apresentou itens que compartilham bastante variância com o Fator I. Ao fim das análises, três itens foram desconsiderados por serem “confusos” (que mensuram o construto dos dois fatores). Os nove itens que permaneceram para compor a segunda dimensão também apresentaram Alpha de Cronbach elevado, de 0,82. Os dois fatores explicam, juntos, 39,47% da variância do construto. Considera-se que a estrutura fatorial observada na EGDT é satisfatória e condizente com o modelo teórico que orientou a construção da medida, proposto por Sonnentag e Frese (2002). De acordo com esses autores, o desempenho voltado para o contexto contempla uma faceta sobre comportamentos voltados para o bom funcionamento da organização e outra com descrições de comportamentos sobre o fazer do trabalhador. A versão final da EGDT contém, portanto, 20 itens que podem ser aplicados tanto individual como coletivamente, e os resultados podem ser apurados considerando a média em cada um dos fatores. Os itens que formam cada um dos fatores são apresentados na Figura 2.1. Itens Tarefa Contexto 1. Executo minhas tarefas dentro dos prazos previstos. ■ 2. Executo adequadamente tarefas difíceis. ■ 3. Executo meu trabalho levando em conta a estrutura e as políticas da Organização. ■ 4. A realização do meu trabalho contribui para o alcance da missão e objetivos da Organização. • 5. Realizo o meu trabalho com economia de recursos (material, financeiro e humano). ■ 6. Procuro atualizar meus conhecimentos técnicos para realizar meu trabalho. • 7. Executo meu trabalho de acordo com o que é esperado pela Organização. ■ 8. Contribuo com alternativas para a solução de problemas e a melhoria de processos da Organização. • 9. Planejo a execução do meu trabalho definindo ações, prazos e prioridades. ■ 10. Planejo ações de acordo com minhas tarefas e rotinas organizacionais. ■ 11. Estabeleço contato com outras pessoas ou equipes para atingir os objetivos organizacionais. • 12. Tomo iniciativas para melhorar meus resultados no trabalho. • 13. Adapto minha rotina às alterações das metas da Organização. • 14. Soluciono dúvidas de meus colegas quando sou solicitado. • 15. Executo adequadamente tarefas rotineiras. ■ 16. Utilizo meu conhecimento teórico/prático para realizar meu trabalho. • 17. Busco novas soluções para problemas que possam surgir em meu trabalho. • 18. Executo minhas atribuições prevendo os seus resultados. • 19. Aproveito oportunidades que possam melhorar meus resultados de trabalho. • 20. Esforço-me para realizar as tarefas que me são destinadas. ■ Figura 2.1 Estrutura das dimensões desempenho voltado para tarefa e desempenho voltado para o contexto da EGDT. Como pode ser observado, os itens 4, 6, 8, 11, 12, 13, 14, 16, 17, 18 e 19 formam o fator denominado comportamentos voltados para o contexto, e os itens 1, 2, 3, 5, 7, 9, 10, 15 e 20 compõem o fator desempenho voltado para a tarefa. As médias obtidas entre 1 e 2,9 indicam ocorrência insatisfatória de comportamentos no trabalho. Valores entre 3 e 3,9 indicam que os comportamentos ocorrem com frequência mediana, e acima de 4, com frequência satisfatória. Utilização da EGDT em contexto organizacional As autopercepções de desempenho avaliadas pela EGDT foram correlacionadas às avaliações de desempenho realizadas pelas organizações dos respectivos respondentes (Queiroga, 2009). Quando as medidas de avaliações de desempenho por competência foram consideradas, as autopercepções de desempenho contextual avaliadas pela EGDT mostraram correlações moderadas com tais avaliações. Entretanto, as autopercepções se diferenciaram dos indicadores de resultados organizacionais quando estes foram correlacionados a elas. Tal discrepância confirma o que é esperado, de acordo com o quadro teórico que foi descrito no início deste capítulo. Em contrapartida, a correlação positiva e significativa encontrada entre a dimensão desempenho voltado para o contexto e a avaliação de competência levanta indícios de que essas avaliações não são antagônicas. Ainda que se compreenda que o desempenho possa ser representado por comportamentos no trabalho, ou seja, pela manifestação das competências dos indivíduos no trabalho (Brandão & Guimarães, 2001; Gilbert, 1978), o referencial teórico que orientou a elaboração da medida de autopercepção de desempenho define esse construto com indicadores e dimensões diferentes das dimensões que compõem as competências (os CHAs). Outra informação que merece ser destacada é a forte relação das dimensões de autopercepção de desempenho com a percepção de suporte organizacional, reforçando que esse componente acaba funcionando como um elemento que dá condições ao desempenho (poder fazer) (Abbad, Freitas, & Pilati, 2006). Foi encontrada, ainda, correlação significativa entre a motivação e as autoavaliações de desempenho dos indivíduos no trabalho, no estudo realizado por Queiroga (2009). Esse resultado, outra vez, corrobora o referencial teórico adotado para a mensuração de desempenho da EGDT, em que características motivacionais são fortemente relacionadas com a maneira como as pessoas percebem seu desempenho, especialmente quando seus comportamentos no trabalho são mais voltados para o contexto (Sonnentag & Frese, 2002). Ao se estruturar uma avaliação de desempenho, faz-se necessário ressaltar que há pelo menos duas formas de lidar com esse processo. A primeira delas é tomá-la como um mecanismo para exercer pressão e controle psicossocial sobre os trabalhadores (Brandão, 2009; Caetano, 1996). Embora seja o uso mais frequente em um contexto organizacional, trata-se do mau uso da ferramenta. A outra forma é compreender a avaliação como um processo que objetiva promover o desenvolvimento das pessoas e fornecer feedback sobre seu desempenho no trabalho. Ao direcionar o olhar para essa perspectiva, pode-se concluir que a avaliação do desempenho no trabalho tem o potencial de subsidiar decisões organizacionais, em especial no que concerne à gestão de pessoas (Carbone et al., 2005). Assim, os resultados da avaliação de desempenho, mesmo que com autopercepções, poderiam ser utilizados para identificar necessidades de treinamento e desenvolvimento e de seleção de pessoal e, ainda, auxiliar nas alocações internas de empregados. Entretanto, cabe ressaltar que nenhuma decisão deve ser embasada em apenas um único instrumento, especialmente àquelas relacionadas à concessão de promoções e recompensas. Por fim, é importante mencionar que as autoavaliações são mais informativas quando combinadas com outras fontes de avaliações. Considerá-las indicadores que compõem as avaliações organizacionais pode mostrar ao trabalhador a preocupação da organização em considerar sua opinião. Assim, ao mesmo tempo que elas servem para efetuar diagnósticos, pode-se fazer da própria avaliação uma estratégia de intervenção que atua positivamente na motivação para trabalhar e em seus construtos correlatos. ESCALA GERAL DE DESEMPENHO NO TRABALHO – EGDT Prezado participante, Os itens apresentados a seguir objetivam avaliar o que você pensa sobre o seu trabalho e com que frequência realiza algumas ações no seu cotidiano organizacional. Para responder às questões, assinale um número à direita de cada frase observando a escala de respostas apresentada a seguir. Itens Resposta 1. Executo minhas tarefas dentro dos prazos previstos. 1 2 3 4 5 2. Executo adequadamente tarefas difíceis. 1 2 3 4 5 3. Executo meu trabalho levando em conta a estrutura e as políticas da organização. 1 2 3 4 5 4. A realização do meu trabalho contribui para o alcance da missão e objetivos da Organização. 1 2 3 4 5 5. Realizo o meu trabalho com economia de recursos (material, financeiro e humano). 1 2 3 4 5 6. Procuro atualizar meus conhecimentos técnicos para realizar meu trabalho. 1 2 3 4 5 7. Executo meu trabalho de acordo com o que é esperado pela Organização. 1 2 3 4 5 8. Contribuo com alternativas para a solução de problemas e a melhoria de processos da Organização.1 2 3 4 5 9. Planejo a execução do meu trabalho definindo ações, prazos e prioridades. 1 2 3 4 5 10. Planejo ações de acordo com minhas tarefas e rotinas organizacionais. 1 2 3 4 5 11. Estabeleço contato com outras pessoas ou equipes para atingir os objetivos organizacionais. 1 2 3 4 5 12. Tomo iniciativas para melhorar meus resultados no trabalho. 1 2 3 4 5 13. Adapto minha rotina às alterações das metas da Organização. 1 2 3 4 5 14. Soluciono dúvidas de meus colegas quando sou solicitado. 1 2 3 4 5 15. Executo adequadamente tarefas rotineiras. 1 2 3 4 5 16. Utilizo meu conhecimento teórico/prático para realizar meu trabalho. 1 2 3 4 5 17. Busco novas soluções para problemas que possam surgir em meu trabalho. 1 2 3 4 5 18. Executo minhas atribuições prevendo os seus resultados. 1 2 3 4 5 19. Aproveito oportunidades que possam melhorar meus resultados de trabalho. 1 2 3 4 5 20. Esforço-me para realizar as tarefas que me são destinadas. 1 2 3 4 5 REFERÊNCIAS Abbad, G., & Borges-Andrade, J. E. (2004). Aprendizagem humana em organizações de trabalho. In J. C. Zanelli, J. E. 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Psychological Bulletin, 99(3), 432-442. 1 Campbell (1990) chama a atenção, ainda, para a diferenciação do desempenho com outros conceitos, tais como produtividade (relação entre custo e resultados) e efetividade (análise de eficácia e eficiência de um sistema). 2 Esse procedimento é recomendado por Zwick e Velicer (1986), que apontam o método da análise paralela como o mais preciso para a verificação do número de fatores a serem extraídos em uma matriz de correlações, visto que em 92% dos casos o método indicou o número mais adequado de fatores. http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/8322/1/2009_HugoPenaBrandao.pdf http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/8437/1/2009_FabianaQueiroga.pdf 3 ESCALA DE PERCEPÇÕES SOBRE PRÁTICAS DE GESTÃO DE DESEMPENHO POR COMPETÊNCIAS Elisabeth Loiola Kátia Maria Rodrigues Bastos Hugo Pena Brandão Políticas de gestão de pessoas (GP) estabelecem referenciais teóricos e práticos para viabilizar o alcance dos objetivos das organizações. Novas políticas de gestão de pessoas e práticas correlatas, que buscam, em tese, promover a compatibilização entre interesses das organizações e de seus funcionários, estão em evidência, desafiando competências estabelecidas e promovendo a difusão de novas competências. Embora seja óbvia a ideia de que novas políticas e práticas relacionadas à gestão orientem-se para atender aos objetivos corporativos e de seus funcionários, parecem existir dificuldades para compatibilizar interesses díspares (Demo, Fogaça, Nunes, Edrei, & Francischeto, 2011). Entre essas novas políticas e práticas relacionadas à GP ressaltam-se aquelas ligadas ao conceito de competência. O modelo de gestão por competências procura vincular a mobilização das competências das pessoas no ambiente de trabalho aos objetivos estratégicos das organizações. Agrega valor ao negócio e subsidia decisões sobre promoções, planejamento de carreira e desenvolvimento de pessoas (Demo et al., 2012). O discurso sobre gestão por competências não tem sido, no entanto, acompanhado, em nível igual, por formulação, implementação e avaliação de políticas e práticas de gestão por competências nas organizações brasileiras. Ademais, a difusão de tais políticas e práticas correlacionadas realiza-se de modo e a ritmos diferenciados entre empresas, indústrias e setores produtivos. Nesse contexto, observa-se a necessidade de mais investimentos organizacionais na formulação, na implementação e, principalmente, na avaliação de sistemas de gestão por competências (Sant’Anna, 2008). O quadro anteriormente traçado justifica a apresentação, a descrição e a busca de evidências de validade da escala de avaliação do novo sistema de Gestão de Desempenho por Competência (Nova GDP) do Banco do Brasil. O dia a dia de qualquer indivíduo é marcado por necessidades de avaliação. Temos de decidir que roupa usar para ir ao trabalho, o que comer durante o dia, se vamos almoçar em casa ou no trabalho, se antes de retornar à casa vamos fazer exercícios, etc. Esse conjunto de atividades compõe o que a literatura comumente denomina avaliação informal. Avaliação informal difere, todavia, de avaliação formal – um conjunto de práticas sistemáticas de análise de sistemas de gestão, de produção e de operação de serviços, dos próprios produtos e serviços ofertados, de fatos ou coisas, de forma contextualizada, para compreendê-los e melhorá-los de forma contínua (Belloni, 20--?). Avaliação formal é atividade complexa, sistemática, que implica juízo de valor. Para tanto, envolve coleta e análise de informações sobre um determinado evento, as quais podem ser úteis para planejar e orientar decisões, assim como para mensurar a relevânciade seus resultados, efetividade e impacto de vários de seus componentes. A coleta de tais informações depende, por sua vez, de um plano de coleta, no qual estão definidos fontes primárias e secundárias, instrumentos adequados para tal fim e sistemática de tratamento dos dados (Worthen, Sanders, & Fitzpatrick, 2004). Em síntese, embora familiares aos indivíduos, atividades de avaliação formal requerem o domínio de competências de planejamento, de organização, de execução e também de avaliação. O Banco do Brasil, maior banco brasileiro, fundado em 1808, adotou, em 2006, novo sistema de Gestão de Desempenho por Competências (GDP). Esse sistema foi implantado após várias rodadas de avaliação do sistema de avaliação de desempenho anterior, acolhendo múltiplas sugestões de seus funcionários. Sua avaliação envolveu a coleta de informações junto aos funcionários cujo desempenho vinha sendo avaliado por meio da Nova GDP. O instrumento de coleta de informações foi definido à luz de críticas que os funcionários do Banco do Brasil haviam dirigido ao sistema anterior (GDP), registradas em documentos da organização, de pesquisa bibliográfica e por avaliação de especialistas para responder à seguinte questão: a Nova GDP apresenta maior qualidade sociotécnica em relação ao sistema de avaliação de desempenho por competência anterior, de acordo com a percepção de seus usuários? Ao responder a essa pergunta, a avaliação pode gerar informações que favoreçam novos aprimoramentos do sistema em foco (Worthen et al., 2004). Neste capítulo, apresentamos tão somente o processo de desenvolvimento e de teste da escala utilizada para avaliar a Nova GDP. Há muitas indefinições teórico-metodológicas no campo da avaliação de intervenções planejadas. Um dos maiores óbices no caso da avaliação da gestão por competências é a inexistência de escalas cujo uso esteja apoiado em evidências de validade, que assegurem confiabilidade, consistência e precisão aos resultados da avaliação (Demo et al., 2011). Em relação à avaliação de sistemas de organizações específicas, outra dificuldade agrega- se à anterior, tendo em vista que o sistema de avaliação deve ser customizado, isto é, focado em informações próprias a cada organização. Esta última diretriz impacta o processo de avaliação em termos de custos e limitações de generalização. Este capítulo contribui para a redução desses óbices na medida em que apresenta uma escala para avaliar a Nova GDP do Banco do Brasil, funcionando como fonte de aprendizagem e de ilustração sobre desenvolvimento e teste de escalas de avaliação de sistemas de gestão de desempenho por competências para estudantes, profissionais da área de gestão de pes soas, consultores, pesquisadores e professores. Nas próximas seções, são apresentados a revisão conceitual sobre competências e gestão por competências, os procedimentos de desenvolvimento e de teste da escala referida e as considerações finais. Nestas, são apresentadas sugestões para adequação da escala a outros contextos organizacionais. COMPETÊNCIAS E GESTÃO POR COMPETÊNCIAS O desenvolvimento de escalas requer respostas a três questões básicas: qual o domínio do construto, ou melhor, o construto está bem delimitado? Como esse construto pode ser medido? E qual a unidade de medida? (Templeton, Morris, Snyder, & Lewis, 2004). Esta seção apresenta e discute múltiplos conceitos de competência, além da abordagem denominada gestão por competências, com vistas a atender aos dois primeiros requisitos antes mencionados. Conceitos de competência Ampla literatura reconhece como primeira proposição estruturada do conceito de competências no ambiente empresarial e de sua inserção no contexto da gestão os trabalhos do psicólogo David C. McClelland, que atuava na área de treinamento e avaliação de recursos humanos (Fleury & Fleury, 2001, 2004; Dutra, 2004). Buscando a identificação de métodos mais efetivos para seleção de trabalhadores, McClelland (1973) criticou o uso de testes de personalidade e de quociente de inteligência (QI) e sua capacidade de identificar o potencial de empregados. Em substituição aos tradicionais testes de personalidade e de QI, paulatinamente foi se consolidando a utilização de um sistema de avaliação dos conhecimentos, das habilidades e das atitudes dos trabalhadores, tendo como referência os cargos e as funções a serem desempenhados (Fleury & Fleury, 2001). A partir da década de 1980, a temática das competências no mundo corporativo ganha novos contornos, e começam a aparecer muitos trabalhos abordando a gestão por competências (Ruzzarin, Amaral, & Simionovischi, 2002). A existência de pesquisas e os usos que são feitos da noção de competência não oferecem, entretanto, uma definição conclusiva. Sob a perspectiva de análise da psicologia organizacional e do trabalho, e da administração, o tema competências vem sendo estudado a partir de dois grandes eixos: individual e organizacional. À dimensão individual, foco exclusivo desta seção, associam- se definições de competência mais difundidas, articuladas em duas grandes correntes teóricas, a americana e a europeia e, nesta última, registram-se ainda diferenças entre o pensamento britânico e o francês (Dutra, 2004). No conjunto de estudiosos norte-americanos, destaca-se Boyatizis (1982), fortemente influenciado pelas ideias de McClelland (1973). De acordo com Boyatizis (1982), competências são características subjacentes a um indivíduo, expressas em termos de conhecimentos, habilidades, motivações, traços, etc., que resultam em eficiência ou desempenho superior no trabalho. A segunda abordagem, a europeia, é representada principalmente por autores franceses. Estes, em regra, associam competência às realizações dos trabalhadores em um determinado contexto, e não a um conjunto de atributos pessoais. Os teóricos franceses oferecem uma significativa contribuição ao apresentarem outras dimensões da competência, além dos atributos pessoais destacados no pensamento norte-americano e dos indicadores de desempenho ressaltados pela abordagem britânica. O pensamento francês reconhece que a posse de atributos necessários à função, assim como a definição do desempenho esperado, não garantem a mobilização adequada da competência pelo indivíduo. Ilustrativas da visão francesa são as proposições de Zarifian (2001) e Le Boterf (2003), que destacam como aspecto determinante da definição a mobilização da competência pelo trabalhador em seu contexto de trabalho. Outros pontos comuns entre esses teóricos referem-se à interação e à rede de relações entre as pessoas como recursos utilizados em situações de trabalho e, portanto, elementos integrantes das competências. Citam também o processo de comunicação como elemento acionado na construção e no desenvolvimento de competências e, ainda, a capacidade de agir diante do imprevisto, de lidar com situações inesperadas e adotar ações adequadas. No Brasil, Fleury e Fleury (2004) assinalam que competência não se limita a estoques de conhecimentos teóricos e empíricos detidos pelos indivíduos, enquanto de acordo com Ruas (2005) a noção de competência tem foco no desenvolvimento de capacidades que podem ser mobilizadas em situações geralmente pouco previsíveis. Fleury e Fleury (2004) acrescentam que competência não se encontra encapsulada na tarefa. Refere-se à capacidade de a pessoa assumir iniciativas em face de situações profissionais cada vez mais mutáveis e complexas. Consideram competência como saber agir responsável e com conhecimento e habilidade adequados aos requisitos do trabalho, que implica mobilizar, integrar, transferir conhecimentos, recursos, habilidades que agreguem valor econômico à organização e valor social ao trabalhador. Enfim, ao tempo em que acentua sua força social, a plasticidade do conceito de competência reflete influências derivadas das disciplinas que o abraçam, como a psicologia, a educação, a administração e a sociologia. A variabilidade de abordagens também é encontrada intradisciplinas, e, nesse caso, escolhas teórico-metodológicasde seus estudiosos explicam-na. Em ambos os casos, varia o modus operandi em termos de identificação, formação, articulação, mobilização, desenvolvimento e seleção de perspectivas de aproximação, definição e operacionalização do conceito de competência. Classificado como noção pouco tangível e de articulação complexa (Santos, 2001), “mosaico” ou conceito em construção (Fleury & Fleury, 2004), mais recentemente o termo “competência” vem ganhando delimitação mais precisa, designando a capacidade do trabalhador de realizar de forma apropriada seu trabalho. Operacionalmente, competência resulta da combinação sinérgica de conhecimentos, habilidades e atitudes, observável pelo desempenho dos indivíduos em situações de trabalho, que agrega valor tanto às pessoas como à organização (Brandão, 2012). Gestão do desempenho por competências A abordagem de gestão por competências busca a excelência nos padrões de desempenho, promovendo o alinhamento entre práticas de gestão de pessoas e estratégias organizacionais. Nessa abordagem, Prahalad e Hamel (1990) consideram as competências organizacionais – aquelas que se referem a atributos ou capacidades da organização ou de suas unidades produtivas, que influenciam e são influenciadas pelas competências individuais, de forma interdependente (Brandão, 2012) – críticas e imprescindíveis ao êxito das organizações. São essas competências que servirão de referência para o diagnóstico das competências individuais relevantes à organização. Sistemas de gestão por competências tendem a se inserir em níveis mais elevados da gestão organizacional, conectando-se com a estratégia para direcionar práticas e políticas de seleção, treinamento e desenvolvimento de competências (Brandão & Guimarães, 2002). Ao ser incorporado a modelos de gestão estratégica de pessoas, o conceito de competência repercute em diversas práticas, que passam a ser orientadas a partir dessa abordagem – avaliação do desempenho por competências, diagnóstico de necessidades de capacitação, planejamento educacional (trilhas de aprendizagem), recrutamento e seleção, retribuição, retenção de talentos e de competências, valendo-se de diferentes estratégias e instrumentos (Neri, 2005; Brandão, 2012). Embora já apresente relativo grau de maturação, e seja visível sua maior difusão em textos, disciplinas acadêmicas, cursos profissionalizantes e trabalhos de consultores, ainda persistem muitas inconsistências nas aplicações do conceito de competência, assim como lacunas de conhecimentos (Demo et al., 2012). Nesse contexto, avaliações de competências e, por consequência, de sistemas de gestão por competências podem ficar sujeitas a antigos “vieses de respostas”, que refletem tendências, ou melhor, atitudes, conscientes ou não, dos sujeitos ao responder ao instrumento de maneira alheia à semântica dos itens. São exemplos desses vieses: responder ao acaso; dar respostas estereotipadas (sempre nos extremos ou no ponto neutro de uma escala); dar respostas em função de suposta desejabilidade social; ou dar respostas com base em ideias preconcebidas do objeto em avaliação (Pasquali, 2011). Aqui vamos destacar dois dos vieses mencionados: leniência e efeito halo. Positivamente relacionado com a crença de que as pessoas são boas e que pouco diferem entre si, o efeito leniência deriva da tendência do avaliador de atribuir apenas escores altos aos empregados avaliados. Mani festa-se pelo uso indiscriminado do extremo favorável da escala de avaliação, evidenciando falha do avaliador em distinguir os avaliados quanto ao nível de eficácia de seus desempenhos (Siegel & Lane, 1982 apud - Abbad, 1991) ou defeitos da escala, que não apresenta congruência entre o atributo latente e sua operacionalização na forma de itens da escala (Pasquali, 2011). Normalmente considerado o mais grave e o mais difundido de todos os erros de avaliação, o efeito halo é, por sua vez, fruto da influência de ideias preconcebidas sobre o objeto em avaliação (Pasquali, 2011), refletindo inabilidade do avaliador de fazer discriminações entre as diferentes dimensões de um posto de trabalho, de forma independente de impressões globais sobre o avaliado (Holzbach, 1978 apud Abbad, 1991). Pode também ser fruto de defeitos na escala e em seus itens, que podem não estar medindo o que pretendem medir (Pasquali, 2011). O conhecimento desses vieses é importante para que seus riscos sejam mitigados, seja por estratégia teórica, seja por estratégia de formalização das escalas. Neste último caso, cita-se que o formato das escalas pode reduzir a ocorrência de erros do tipo respostas extremadas ou neutras (Pasquali, 2011). No caso específico de sistemas de gestão por competência, aos problemas associados aos vieses antes mencionados, podem se somar outros novos: ausência de feedback, baixa utilização dos resultados para efeito de desenvolvimento, utilização do sistema para punição, pouca articulação entre estratégia e o mapeamento de competências, baixa difusão do modelo de avaliação 360º (Escola Nacional de Administração Pública [ENAP], 2000). Ademais, é pequena a utilização de instrumentos de avaliação validados (Demo et al., 2012). Muitos desses vieses e problemas foram identificados pelos funcionários do Banco do Brasil em relação ao antigo sistema de avaliação de desempenho utilizado, substituído pela Nova GDP. As críticas dos funcionários do banco relacionadas aos vieses e aos problemas identificados na literatura são tratadas na próxima seção. O CONTEXTO DA PESQUISA: O BANCO DO BRASIL E A GDP O Banco do Brasil avalia formalmente o desempenho de seus funcionários há mais de 70 anos e, ao longo desse tempo, vem investindo em mudanças nos sistemas para aprimorá- los. A Nova GDP do banco procura alinhar o desenvolvimento de competências individuais de seus funcionários às competências organizacionais. A implantação do novo modelo de gestão por competências, em 2005, procurou levar em consideração críticas feitas pelos seus funcionários ao sistema de avaliação anterior. Nesse conjunto de críticas, destacam-se: a avaliação exclusivamente de cima para baixo, isto é, dos subordinados pelos chefes; o uso do instrumento para punir e perseguir em lugar de desenvolver; a inexistência de instrumento de gestão do desempenho com foco no desenvolvimento do funcionário; a subjetividade da descrição dos comportamentos avaliados e das escalas de medidas (Banco do Brasil, 2005; Bastos, 2007; Bastos, Loiola, & Pereira, 2009). Com vistas a mitigar os problemas apontados pelos seus usuários, a Nova GDP incorporou quatro mudanças substantivas por sugestão de seus usuários e decisão de seu corpo de gestores. Primeiro, passou a contemplar três tipos de competências: fundamentais, que representam expectativas da organização em relação a todos os funcionários; específicas, mapeadas de acordo com o papel ocupacional e os processos sob responsabilidade das diversas unidades da empresa; e gerenciais, que representam expectativas em relação ao desempenho dos gestores de equipes. A segunda mudança substancial foi a introdução de avaliação por múltiplas fontes, também denominada 360º. Cada funcionário passou a fazer autoavaliação, sendo também avaliado pelo seu superior, por seus pares (colegas da equipe sorteados aleatoriamente pelo sistema) e pelos seus subordinados, no caso dos gestores. A terceira mudança referiu-se ao deslocamento de ênfase nas aplicações do sistema, incentivando-se a vinculação entre a Nova GDP e o desenvolvimento profissional. Ao fim do ciclo de avaliação, cada funcionário passou a elaborar seu Plano de Desenvolvimento de Competências (PDC), no qual são planejadas ações de aprendizagem de curto e longo prazos, a fim de eliminar lacunas identificadas em seu desempenho. A quarta e última grande mudança refere-se ao alinhamento do sistema com as estratégias do banco. Isso ocorreu com a vinculação do mapeamento das competências aos objetivos e indicadores de desempenho da estratégia corporativa (Banco do Brasil, 2005; Bastos, 2007; Bastos et al., 2009).A Nova GDP é conduzida por meio de um sistema totalmente informatizado, com avaliação semestral, em um ciclo contínuo composto de três etapas, que se sucedem e complementam. No Planejamento, ocasião que inicia o processo e coincide com o encerramento do período anterior, é realizado o “acordo de equipe”, com vistas à equalização das expectativas de desempenho. O Acompanhamento, que ocorre ao longo de todo o semestre, destina-se ao registro dos feedbacks e procura corrigir eventuais desvios ou reconhecer o bom desempenho das competências. O Encerramento, última etapa, destina-se à atribuição de conceitos e à elaboração do Plano de Desenvolvimento de Competências (Banco do Brasil, 2005; Bastos, 2007; Bastos et al., 2009). Partindo de experiência-piloto, o banco resolveu estender a Nova GDP a todas as suas unidades e funcionários. Este capítulo relata procedimentos de desenvolvimento e de teste de uma escala para avaliar a percepção dos funcionários sobre a Nova GDP, que assegure consistência e fidedignidade aos seus resultados. DESENVOLVIMENTO E TESTE DA ESCALA DE AVALIAÇÃO Construção da escala de avaliação A seção anterior detalhou as mudanças introduzidas pela Nova GDP do Banco do Brasil. Como visto, essas mudanças ocorreram em resposta às críticas dos funcionários dirigidas ao sistema de avaliação anterior, as quais são corroboradas por literatura especializada. O sistema substituído caracterizava-se por unilateralidade (avaliação de cima para baixo), efeito halo, leniência, uso para punição, ausência de feedback, baixa utilização de seus resultados para desenvolvimento dos avaliados, entre outros aspectos. A Nova GDP ancora-se em quatro pilares. O primeiro deles abarca a diferenciação entre competências fundamentais, em relação às quais todos os funcionários são avaliados, competências específicas, próprias a cada cargo, e competências gerenciais, que expressam as expectativas de desempenho em relação aos gestores. O segundo pilar é a avaliação 360º. O terceiro pilar consiste na vinculação entre os resultados da avaliação e o plano de desenvolvimento de cada avaliado, enquanto o quarto e último pilar consiste no alinhamento entre a Nova GDP e a estratégia corporativa. Essas mudanças introduzidas na Nova GDP refletem não apenas reivindicações dos funcionários do Banco do Brasil no sentido do aprimoramento do sistema de avaliação adotado, mas também acompanham avanços das discussões em termos de teoria e de medidas no campo da gestão por competência e suas formas de avaliação. A importância de sistemas de avaliação 360º já se encontra muito difundida, assim como a necessidade de classificação de competências em genéricas e em específicas, seja para o pessoal de linha, seja para os gestores, as quais são expressas em comportamentos observáveis e indicadores também específicos e relacionados aos comportamentos observáveis, facilitando o trabalho do avaliador e a relativa impessoalidade da avaliação. Também se torna cada vez mais consensual a proposição de que resultados de avaliação de desempenho por competências sirvam primordialmente ao desenvolvimento e à mobilidade profissional dos indivíduos em associação com objetivos e metas de crescimento e de desenvolvimento organizacional. O instrumento de coleta de informação para a avaliação da Nova GDP foi elaborado com base em análise documental, sobretudo com documentos de registro dos seminários internos de avaliação do sistema anterior, em análise do sistema da nova GDP e também em revisão de bibliografia, sobretudo em relação aos erros de vieses e problemas de escalas. A primeira versão do instrumento foi submetida à avaliação de especialistas. Os resultados dessa primeira avaliação resultaram em ajustes no sentido de dar mais clareza aos itens elaborados e eliminar redundâncias. Posteriormente, o instrumento foi aplicado a servidores do Banco do Brasil de diferentes cargos para promover novos ajustes. A versão final do instrumento foi aplicada a uma amostra não probabilística de funcionários (Bastos, 2007; Bastos et al., 2009) de agências do Banco do Brasil na Bahia. O instrumento de pesquisa compõe-se de quatro partes. A primeira apresenta aos respondentes os objetivos da pesquisa e orientações para resposta. Na segunda parte, constam seis itens relativos ao perfil do respondente. A terceira dispõe as seis dimensões e os 32 itens hipotetizados da escala (Tab. 3.1), descritos sob a forma de frases afirmativas, em relação às quais o respondente deveria assinalar seu grau de concordância ou discordância, utilizando a seguinte escala de respostas: 1 – discordo totalmente; 2 – discordo muito; 3 – discordo pouco; 4 – concordo pouco; 5 – concordo muito; e 6 – concordo totalmente (Bastos, 2007; Bastos et al., 2009). A definição das seis dimensões, conforme já registrado anteriormente, foi feita com base em revisão de literatura e em análise documental. Por exemplo, a dimensão D1 está balizada em críticas contundentes feitas pelos funcionários à natureza pouco democrática e participativa do sistema anterior de avaliação de desempenho por competência. De igual modo, a D3 reflete a crítica à generalidade e à ambiguidade da redação das competências avaliadas, as quais não se traduziam em comportamentos observáveis ao longo da realização das tarefas específicas de trabalho, ou seja, não refletiam conhecimentos, habilidades e atitudes mobilizados no trabalho, conforme preconizado pela literatura. A dimensão D4 também reflete críticas dos funcionários ao sistema anterior, que era, em sua opinião, mais usado para punição do que para desenvolvimento profissional. Tabela 3.1 DIMENSÕES HIPOTETIZADAS E NÚMERO DE ITENS DA ESCALA Dimensão hipotetizada Conteúdo Número de itens D1 Percepção sobre o caráter democrático e participativo do processo de avaliação de desempenho por competências 8 D2 Utilização de múltiplas fontes no processo de avaliação para reduzir sua subjetividade 3 D3 Adequação das competências avaliadas, de forma que sejam representativas da realidade de trabalho dos funcionários 4 D4 Acompanhamento do desempenho dos funcionários com foco no processo de desenvolvimento profissional 6 D5 Adequação de parâmetros do instrumento e objetivos da avaliação de desempenho por competências 7 D6 Uso do instrumento de avaliação para orientar o processo de autodesenvolvimento 4 Fonte: Elaborada com base em Bastos (2007); Bastos e colaboradores (2009). Na quarta e última parte do instrumento de coleta de dados, foi disponibilizado espaço para registro de observações e comentários pelo respondente. Procedimentos de teste da escala O instrumento formulado foi aplicado de forma presencial e não presencial. Neste último caso, foi utilizado o sistema interno de malotes da organização estudada. Todos os instrumentos respondidos foram encaminhados ao setor de RH da empresa, que centralizou seu recebimento e os repassou à equipe encarregada de fazer o tratamento do banco de dados e as análises de validação. Para extração dos fatores, empregou-se o método de fatoração dos eixos principais (Principal Axis Factoring), com rotação oblíqua (promax), uma vez que havia correlação entre eles. Uma variável (Q-09) foi eliminada porque não apresentou carga fatorial igual ou superior a 0,30 em nenhum dos três fatores. Os fatores extraídos explicam 55,22% da variância dos itens, percentual bastante razoável. Dois fatores apresentaram excelentes índices de confiabilidade ou consistência interna (Alphas de Cronbach superiores a 0,84). O terceiro fator revelou Alpha igual a 0,74, indicando boa consistência interna, embora esta esteja mais próximo do limite inferior de aceitabilidade (Hair Jr., Anderson, Tatham, Black, & Babin, 2005). A Tabela 3.2 apresenta a estrutura fatorial do questionário, indicando os três fatores extraídos, os itens que os compõem, suas cargas fatoriais e a consistência interna (α) dos fatores. Tabela 3.2 ESTRUTURA FATORIAL DO QUESTIONÁRIO Itens da escala Fatores extraídos e cargas fatoriais F1 F2 F3 A nova GDP estimula o diálogoentre os funcionários que integram a mesma equipe (pares). 0,90 A nova GDP me auxilia a identificar caminhos para desenvolvimento profissional a serem percorridos em minha carreira no banco. 0,82 A nova GDP me estimula a investir mais em ações de capacitação para meu desenvolvimento profissional. 0,82 A nova GDP tornou mais objetivos os feedbacks oferecidos pelos pares (colegas de equipe). 0,77 A nova GDP tem foco no desenvolvimento profissional dos funcionários. 0,75 Tenho mais acesso a oportunidades de capacitação (participação em cursos) após a implantação da nova GDP. 0,74 A nova GDP tornou mais objetivos os feedbacks oferecidos pelo superior aos seus subordinados. 0,74 A nova GDP permite identificar os funcionários que expressam o melhor desempenho profissional. 0,71 A nova GDP emprega critérios objetivos para a avaliação do meu desempenho. 0,70 As anotações (feedbacks) que recebi do meu superior foram suficientes para identificar pontos a aprimorar em meu desempenho. 0,69 A nova GDP estimula o diálogo entre o superior e os seus subordinados. 0,68 A nova GDP alinha os interesses dos funcionários aos objetivos do banco. 0,66 O novo modelo de GDP por competências contribui para o atingimento das metas organizacionais do banco. 0,61 O conteúdo dos cursos autoinstrucionais e presenciais disponibilizado pela Universidade Corporativa do Banco oferece conteúdo alinhado às competências pelas quais sou avaliado(a). 0,59 A nova GDP é clara quanto à expectativa do banco em relação ao meu desempenho em termos de conhecimentos, habilidades e atitudes. 0,50 Tenho registrado, sistematicamente, anotações (feedback) para meus avaliados (superior, pares e subordinados), durante a etapa de Acompanhamento. 0,44 O aplicativo GDP é de fácil navegação. 0,68 Tive facilidade para avaliar o meu próprio desempenho (autoavaliação). 0,67 As competências da nova GDP estão redigidas de forma clara. 0,65 Tenho facilidade em associar o conteúdo descrito pelas competências ao desempenho expresso pelos meus avaliados. 0,42 A escala de conceitos utilizada pela nova GDP é adequada à avaliação das competências. 0,42 As competências nas quais fui avaliado(a) contemplam as atividades da área em que atuo. 0,41 É adequado o número de competências a serem avaliadas para cada funcionário. 0,39 A nova GDP com avaliação por múltiplas fontes reduz seu uso como instrumento de poder. 0,60 A avaliação por múltiplas fontes (autoavaliação, superior, subordinados e pares), reduz a subjetividade do processo. 0,55 A avaliação por múltiplas fontes (autoavaliação, superior, pares e subordinados) viabiliza um resultado final mais coerente sobre o meu desempenho. 0,52 A autoavaliação é uma forma adequada de manifestar minha concordância ou discordância em relação aos conceitos atribuídos pelas demais fontes de avaliação. 0,47 É adequada a opção de anonimato oferecida a pares e subordinados no registro de anotações e na emissão de conceitos. 0,41 Os pesos de cada fonte de avaliação (autoavaliação, superior, pares e subordinados) devem ser equivalentes (iguais). 0,36 16 7 6 0,95 0,85 0,74 Notas: Apresentadas apenas as cargas fatoriais superiores a 0,30; variância total explicada = 55,22%; os conteúdos das dimensões originalmente hipotetizadas encontram-se descritos na Tabela 1.1. Interpretação dos fatores e cálculo dos escores fatoriais Pode-se observar, na Tabela 2.1, que as variáveis integrantes do Fator 1 dizem respeito a processo e efeitos (diálogo, orientação profissional, feedback, capacitação, alinhamento de interesses e consecução de metas, por exemplo) esperados com a implementação do novo modelo de gestão de desempenho. Por isso, recebeu a denominação simbólica de “Benefícios do sistema de gestão por competências”. Esse fator revelou excelente consistência interna (α = 0,95), e seus itens apresentaram ótimas cargas fatoriais (a maioria superior a 0,60). O Fator 2 agrega itens que, em sua maioria, se referem à utilização de competências como critério de avaliação de desempenho. Tais variáveis abordam questões como a adequação da redação das competências, de seu conteúdo, da escala de avaliação, do número de competências avaliadas e do aplicativo utilizado para avaliação. Em decorrência, esse fator recebeu a denominação simbólica de “Características técnicas do sistema de gestão por competências”. Apresentou ótima consistência interna (α = 0,85) e itens com boas cargas fatoriais (a maioria superior a 0,40). O Fator 3, por fim, também apresenta itens com boas cargas fatoriais (variando de 0,36 a 0,60) e boa consistência interna (α = 0,74), conforme mostra a Tabela 3.2. Eles versam sobre aspectos e contribuições da avaliação por múltiplas fontes (objetividade, coerência, adequação, anonimato e pesos das fontes de avaliação), razão pela qual o fator recebeu a denominação simbólica de “Características da avaliação por múltiplas fontes do sistema de gestão por competências ”. Também nesse caso a escala permite avaliar com fidedignidade as percepções dos funcionários do banco sobre o novo modelo de gestão do desempenho. Destaca-se que a análise fatorial revelou a existência de apenas três fatores (Tab. 3.2), em vez das seis dimensões originalmente hipotetizadas (Tab. 3.1). Essa discrepância parece indicar que a criação e a denominação de fatores e itens não são tarefas de solução única e que as dimensões latentes que emergiram possam refletir características do contexto em que o estudo de validade foi conduzido (implantação do novo modelo de GDP no Banco do Brasil) mais do que um modelo teórico geral que emerge da revisão teórica do campo. Como visto, as dimensões hipotetizadas foram estabelecidas com base em análise documental e bibliográfica, conforme evidenciado anteriormente. Já os fatores resultam da aplicação de testes estatísticos aos itens hipotetizados. Pasquali (2011, p. 65) refere-se ao fato de que a literatura não demonstra muita preocupação com a “... formulação de uma teoria clara, muito menos axiomatizada, sobre o atributo, a qual pudesse permitir uma elaboração mais bem delineada e planejada de uma escala de comportamentos pertinentes ao atributo.” Assim, aquela discrepância pode ser explicada por incompletudes teóricas que ainda persistem no campo de medidas psicométricas. Feita a interpretação dos fatores, procurou-se, então, extrair os escores fatoriais, calculando-se a média dos itens que compõem cada fator, conforme sugerido por Pasquali (2005). A Tabela 3.3 mostra as médias e desvios-padrão dos três fatores extraídos, bem como a interpretação simbólica, ou seja, o rótulo que foi atribuído a cada fator. É importante ressaltar que os três fatores reúnem itens que permitem verificar, com consistência e fidedignidade, a percepção dos funcionários do Banco sobre o instrumento e as práticas de gestão de desempenho utilizadas pela empresa. Os resultados dessa avaliação podem ser utilizados como instrumentos de gestão para aprimorar a Nova GDP, potencializando o uso do instrumento para orientar práticas de recrutamento e seleção, diagnóstico de necessidades de treinamento, práticas de retribuição, retenção de talentos, desenvolvimento profissional, alocação de pessoas e planejamento de carreira, e de seus efeitos tanto para a organização quanto para seus funcionários. Tabela 3.3 ESCORES FATORIAIS Fatores extraídos Média Desvio padrão Fator 1: Benefícios do sistema de gestão por competências 3,65 0,91 Fator 2: Características técnicas do sistema de gestão por competências 4,23 0,79 Fator 3: Características da avaliação por múltiplas fontes do sistema de gestão por competências 4,25 0,84 CONSIDERAÇÕES FINAIS A escola de avaliação do sistema de gestão por competência do Banco do Brasil (Nova GDP) foi desenvolvida com base em análise documental, pesquisa bibliográfica e avaliação de especialistas. Devido a sua natureza customizada, essa escala não pode ser aplicada a outras organizações ou segmentos profissionais sem que seus itens sejam previamente adaptados ao contexto em que serãoaplicados. Em função dessa particularidade, o processo de desenvolvimento e teste da escala foi descrito procurando-se oferecer aos interessados informações sobre procedimentos adotados, a fim de permitir-lhes identificar necessidades de adaptação dos itens da escala para realizar avaliações em outros contextos e organizações. No desenvolvimento de uma escala para avaliação de modelos ou práticas de gestão de desempenho, o passo inicial consiste na coleta e no exame de documentos relativos ao objeto de avaliação, ou seja, ao modelo e às práticas de gestão do desempenho que serão avaliados. Isso porque os itens da escala devem descrever adequadamente as características do modelo a ser avaliado, além de serem ajustados ao contexto e à cultura da organização em que serão aplicados. Pode-se enfrentar dificuldades nesse passo inicial, visto que nem sempre os documentos da organização contêm todas as informações necessárias ao desenvolvimento da escala. Nesses casos, a análise de escalas similares pode ser boa fonte de informações e insights, assim como de outras pesquisas realizadas sobre o objeto a ser avaliado. Outro recurso pode ser a realização de entrevistas exploratórias com funcionários e dirigentes da organização estudada, a fim de coletar informações adicionais sobre o processo que se quer avaliar e detalhes omitidos nos documentos organizacionais. Além disso, a pesquisa bibliográfica tende a dar grande suporte, na medida em que não só apresenta métodos e modelos de avaliação como também permite a delimitação de conceitos-chave e de procedimentos adequados à avaliação a ser realizada. A aplicação de escalas de avaliação deve ser feita, preferencialmente, de forma individual, para evitar que a percepção de um respondente influencie a de outros. Ao iniciar a aplicação, é necessário garantir que os respondentes tenham entendido as instruções e o modo de assinalar suas respostas. Além disso, recomenda-se que o ambiente de aplicação seja tranquilo e confortável e que cada um possa responder em seu ritmo. Como visto na Tabela 3.1, seus resultados são apurados em termos de médias aritméticas e desvios-padrão das respostas aos itens do questio nário. Se utilizada uma escala de respostas como aquela adotada nessa pesquisa (1 – discordo totalmente; 2 – discordo muito; 3 – discordo pouco; 4 – concordo pouco; 5 – concordo muito; e 6 – concordo totalmente), os resultados devem ser interpretados da seguinte forma: quanto mais elevada a média aritmética, maior a concordância dos respondentes em relação ao disposto no item ou fator avaliado (médias próximas ao ponto máximo da escala indicam elevado grau de concordância), e quanto menor o desvio padrão, menor a variabilidade das respostas em torno da média, o que sugere haver certo consenso entre os respondentes. Em escalas com 6 pontos de resposta, desvios-padrão inferiores a 1 podem ser interpretados como baixos, o que indica pouca dispersão das respostas. Pode-se perceber, então, pelo disposto na Tabela 3.1, que os respondentes da pesquisa, em geral, percebem como razoavelmente adequados os parâmetros e contribuições advindos da avaliação de competências (Fator 2) e da avaliação por múltiplas fontes (Fator 3), aspectos que obtiveram, respectivamente, médias iguais a 4,23 e 4,25. Em relação aos benefícios obtidos com a implementação do novo modelo de gestão do desempenho (Fator 1), no entanto, houve pequeno grau de concordância (média = 3,65; desvio padrão = 0,91), indicando que tais benefícios ainda são percebidos como limitados por grande parte dos respondentes. A escala testada pode contribuir para o diagnóstico e a implementação de melhorias nas práticas e nos instrumentos de gestão de desempenho adotados pelo Banco do Brasil, gerando subsídios não só para a área de gestão de pessoas da empresa como também para sua gestão estratégica. Informações coletadas sobre os processos de avaliação da GDP, com base em escala testada, podem dar suporte a decisões de seus gestores no sentido de conciliar objetivos organizacionais e expectativas dos funcionários. No desenvolvimento e nos testes de escalas similares em outras organizações, ou mesmo no caso de replicação dessa escala no Banco do Brasil, pode-se verificar se há diferenças significativas entre as percepções de grupos amostrais (homens e mulheres; gestores e não gestores; funcionários novos e antigos; entre outras) em relação aos três fatores extraídos, informações essas também valiosas para tomada de decisão e para aprimoramento do próprio sistema em avaliação. REFERÊNCIAS Abbad, G. S. (1991). Sistemas de avaliação de desempenho: Opiniões de avaliadores e de avaliados. (Dissertação de mestrado). Universidade de Brasília, Brasília. Banco do Brasil. (2005). Ecos do 4° Fórum: Novas perspectivas em gestão de pessoas e responsabilidade sócioambiental no Banco do Brasil. Fascículo PROFI – UniBB. Brasília. Bastos, K. M. R. (2007). Gestão por competências e desempenho profissional: Um estudo de caso do modelo de avaliação por múltiplas fontes do Banco do Brasil S. A. (Dissertação de mestrado). Universidade Federal da Bahia, Salvador. Bastos, K. M. R., Loiola, E., & Pereira, E. (2009, setembro). Gestão por competências: A percepção de funcionários sobre o sistema de avaliação de desempenho do Banco do Brasil. In XXXIII EnANPAD (pp. 1-16), São Paulo. Belloni, I. (20--?). Avaliação de políticas públicas. Recuperado de http://pt.slideshare.net/sergioaraujo709/avaliao-de- polticas-pblicas Boyatizis, R. (1982). The competent manager: A model for effective performance. 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Professor adjunto no Instituto de Psicologia da UFBA. Maycoln Teodoro. Psicólogo. Mestre em Psicologia Social pela UFMG. Doutor em Psicologia pela Albert-Ludwig-Universität Freiburg, Alemanha. Professor adjunto de Psicologia da UFMG. Bolsista de produtividade do CNPq. Mino Correia Rios. Psicólogo. Mestre em Psicologia Organizacional e do Trabalho pela UFBA. Professor no curso de Psicologia da União Metropolitana de Educação e Cultura (UNIME), de Psicologia e de Gestão Comercial na UNIFACS e da Pós-graduação em Consultoria de Carreira da Fundação Instituto de Administração (FIA). Pesquisador do grupo Emoções, Sentimentos e Afetos em Contextos de Trabalho da UFBA. Pedro F. Bendassolli. Psicólogo. Doutor em Psicologia Social pela USP. Professor adjunto de Psicologia Organizacional e do Trabalho no Departamento de Psicologia da UFRN. Rafael Dutra da Silva. Mestre em Psicologia Social e do Trabalho pela UnB. Sabrina Cavalcanti Barros. Psicóloga. Mestre em Psicologia Social pela UFMG. Sônia Maria Guedes Gondim. Psicóloga. Mestre em Psicologia Social pela Universidade Gama Filho (UGF). Doutora em Psicologia pela UFRJ. Professora da Graduação e da Pós-graduação no Instituto de Psicologia da UFBA. Atua no Centro Interdisciplinar de Desenvolvimento e Gestão Social da UFBA. Thaís Zerbini. Psicóloga. Mestre e Doutora em Psicologia pela UnB. Professora doutora em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto – USP (FFCLRP/USP). Professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia da FFCLRP/USP. Membro do Grupo de Trabalho de Psicologia Organizacional e do Trabalho na Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia. Bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq – Nível 2. Virgínia D. Carvalho. Professora. Mestre em Administração pela UFRN. Doutora em Psicologia Social pela UFRN. Professora adjunta do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal de Alfenas (Unifal-MG). SUMÁRIO Capa Nota Folha de Rosto Créditos Autores Uso de ferramentas de diagnóstico de gestão | Katia Puente-Palacios, Adriano de Lemos Alves Peixoto O que é o diagnóstico organizacional O que fazer com o diagnóstico organizacional Desenvolvimento de uma medida Objetivos e alcance desta obra Referências Leitura Sugerida 1. Atitudes sobre treinamento a distância | Flávio Sposto Pompêo, Gardênia da Silva Abbad, Thaís Zerbini, Luciana Mourão Descrição da medida Adaptação e validação da escala de atitudes sobre treinamento a distância – E- ATAD – segunda versão Aplicação, apuração dos resultados e interpretação da E-ATAD Referências 2. Desempenho no trabalho: escala de avaliação geral por meio de autopercepções | Fabiana Queiroga, Jairo Eduardo Borges-Andrade, Francisco Antonio Coelho Junior Descrição da Escala Geral de Desempenho no Trabalho – EGDT Validação psicométrica, aplicação da medida e apuração dos resultados Utilização da EGDT em contexto organizacional Referências 3. Escala de percepções sobre práticas de gestão de desempenho por competências | Elisabeth Loiola, Kátia Maria Rodrigues Bastos, Hugo Pena Brandão Competências e gestão por competências Conceitos de competência Gestão do desempenho por competências O Contexto da pesquisa: o Banco do Brasil e a GDP Desenvolvimento e teste da escala de avaliação Construção da escala de avaliação Procedimentos de teste da escala Interpretação dos fatores e cálculo dos escores fatoriais Considerações Finais Referências Leituras Sugeridas 4. Bases de poder social do colega de trabalho nas organizações | Maria do Carmo Fernandes Martins O poder e suas bases Fenômenos consequentes das bases de poder Adaptação e validação da escala de bases de poder do colega de trabalho – EBPCT Aplicação, apuração dos resultados e interpretação da EBPCT Referências 5. Comprometimento organizacional | Antonio Virgílio B. Bastos, Carolina Villa Nova Aguiar Construção e validação da medida de comprometimento organizacional Apresentação da medida: aplicação, apuração dos resultados e interpretação Aplicações da escala Referências Leitura Sugerida 6. Consentimento organizacional | Eliana Edington da Costa e Silva, Antonio Virgílio B. Bastos Descrição da medida Itens da escala e opções de resposta Escala de consentimento organizacional – ECO Aplicações da escala Referências Leituras Sugeridas 7. Entrincheiramento organizacional | Ana Carolina de Aguiar Rodrigues, Antonio Virgílio B. Bastos Construção e validação da medida de entrincheiramento organizacional – MEO Apresentação da medida: aplicação, apuração dos resultados e interpretação da MEO Aplicações da escala Referências 8. Estratégias de aprendizagem no trabalho | Hugo Pena Brandão, Jairo Eduardo Borges-Andrade Desenvolvimento e validação da Escala de Estratégias de Aprendizagem no Trabalho Aplicação, apuração dos resultados e interpretação da Escala de Estratégias de Aprendizagem no trabalho Referências 9. Medida de contrato psicológico de trabalho | Mino Correia Rios, Sônia Maria Guedes Gondim Estrutura fatorial das escalas no contexto brasileiro Como interpretar os resultados da medida de contratos psicológicos Contratos psicológicos na gestão de pessoas Gestão de contratos psicológicos e práticas de gestão de pessoas Cuidados éticos na aplicação do instrumento de medida de contratos psicológicos Referências 10. Interesses ocupacionais no trabalho | Mauro de Oliveira Magalhães, Marco Antônio Pereira Teixeira Descrição da medida Aplicações Referências Leitura Sugerida 11. Motivação para trabalhar | Fabiana Queiroga, Jairo Eduardo Borges-Andrade Descrição da Medida de Motivação para Trabalhar Validação psicométrica, aplicação da medida e apuração dos resultados Utilização da Medida de Motivação no Trabalho em contexto organizacional Referências 12. Autopercepção de Empregabilidade | Adriano de Lemos Alves Peixoto, Janice Janissek, Carolina Villa Nova Aguiar Evolução histórica do termo Múltiplas definições Medidas de Autopercepção de empregabilidade A Escala de Autopercepção de Empregabilidade (EAE) Uso e aplicação da Escala Referências Leituras Sugeridas 13. Potência em equipes de trabalho | Katia Puente-Palacios, Rafael Dutra da Silva, Ana Cristina Portmann Borba Potência: natureza do construto O papel da potência Adaptação e validação da escala de potência em equipes de trabalho Aplicação, apuração dos resultados e interpretação da escala de potência em equipes de trabalho Interpretação dos resultados e ações subsequentes Referências Leitura Sugerida 14. Resiliência no contexto de trabalho | Virgínia D. Carvalho, Maycoln Teodoro, Livia de Oliveira Borges Considerações conceituais acerca da resiliência Escala de Resiliência para Adultos: origens e validade no contexto do trabalho e das organizações Composição fatorial e interpretação dos resultados da RSA Aplicações da RSA no contexto de trabalho Referências 15. Escala do trabalho com sentido (ETS) | Pedro F. Bendassolli, Jairo Eduardo Borges-Andrade Sentido do trabalho Construção e validação da ETS Uso e aplicação da ETS Referências Leituras Sugeridas 16. Inventário de significado do trabalho para trabalhadores de baixa instrução | Livia de Oliveira Borges, Sabrina Cavalcanti Barros Conceitos básicos Origens do Inventário do Significado do Trabalho Evidências de Validade Modos de aplicação e apuração Interpretação e contribuições à atuação Referências Apêndice 1. Inventário dos atributos do significado do trabalho Objetivo Instruções de preenchimento Apêndice 2. Inventário dos atributos do significado do trabalho | Rotinade gestão mais avançadas? RAE-Eletrônica, 7(1), Art. 1. Santos, A. C. (2001). O uso do método Delphi na criação de um modelo de competências. Revista de Administração, 36(2), 25-32. Templeton, G. F., Morris, S. A., Snyder, C. A., & Lewis, B. R. (2004). Methodological and thematic prescriptions for defining and measuring the organizational learning concept. Information Systems Frontiers, 6(3), 263–276. Zarifian, P. (2001). Objetivo competência: Por uma nova lógica. São Paulo: Atlas. Worthen, B. R., Sanders, J. 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Em publicação desse mesmo ano, os autores se propuseram a identificar, definir e classificar os principais tipos de poder envolvidos nas relações sociais segundo os efeitos que produzem. Eles postulavam que as relações entre as pessoas sustentam-se em trocas sociais e que essas trocas fundamentam-se em relações de poder. Por poder entende-se a capacidade de um indivíduo de influenciar outro. Poder e influência são fenômenos interdependentes presentes onde quer que haja relações entre duas pessoas. Essas relações podem ser vistas sob dois pontos de vista: O que determina o comportamento do agente que exerce poder? O que determina as reações de quem é alvo desse comportamento? (French & Raven, 1959). O interesse desses autores estava focado no ponto b, ou seja, no comportamento de quem era alvo do exercício de poder. Neste capítulo, poder e influência serão utilizados como sinônimos. O poder que uma pessoa exerce sobre outra pode ser definido como habilidade potencial de influência em determinado momento (French & Raven, 1959). Por isso, o influenciador tem capacidade de agir (força de ação) para exercer influência sobre o outro, e este pode resistir para se opor ao poder do influenciador. Assim, poder é o resultado desse embate de forças: se a força de ação de quem tenta influenciar (ou exercer poder) for maior do que a força de resistência de quem sofre a influência (ou recebe a força do poder), o primeiro exerce poder sobre o segundo. Se, ao contrário, a força de resistência for maior, é o potencial alvo do poder quem o exerce. Mas é preciso estar atento para o fato de que o poder é momentâneo, pois pode variar muito de um sistema para outro: quem é poderoso em certas circunstâncias não o é em outras, pois existem duas forças em jogo: a força da ação emitida por uma pessoa (A) para influenciar a outra (B) e a força de resistência de B em direção a A. Isso significa que o exercício do poder é um sistema de dependência dinâmica de um agente externo, neste capítulo designado A, sobre outro, aqui denominado B. Quanto maior for a dependência de B em relação a A, mais poderoso será A. O poder de A sobre B sustenta-se em algumas fontes. Como afirmam French e Raven (1959, p. 155), “... diversas variáveis qualitativamente diferentes ... são bases de poder.” Os autores distinguiram cinco bases nas quais uma pessoa se apoia para exercer poder sobre a outra. Bases de poder são insumos que geram dependência da outra parte. Existem cinco bases de poder: poder de recompensa, poder de coerção (ou coercivo), poder legítimo, poder de perícia e poder de referência. A base de recompensa é sustentada pela percepção do influenciado (B) de que o poderoso (A) é capaz de premiá-lo, de mediar uma recompensa para ele, de remover ou de diminuir possíveis punições que seriam designadas a ele. O poder coercivo é semelhante ao poder de recompensa, mas tem sentido oposto. Baseia-se na expectativa do influenciado de que poderá ser punido se não aceitar a influência de A, o poderoso. A força do poder de coer ção dependerá da ameaça que o poderoso representa para o influenciado e da capacidade que ele (o influenciado) acredita ter de evitar a punição. Pode ser difícil distinguir entre o poder de recompensa e o poder coer citivo. Não punir equivale a um prêmio, mas isso depende de como a punição é vista pelo influenciado (B). O poder de recompensa pode não depender do influenciador, no sentido em que o que leva o influenciado (B) a considerar algo como prêmio independe de A, mas o poder de coerção depende de A, não importando o que B valoriza. De outro modo, poder de recompensa funciona como força que atrai o poderoso para aquele que é alvo do poder exercido, mas o poder coercivo os afasta. Poder legítimo é uma base bastante complexa de poder. Legitimidade é uma dimensão de avaliação realizada pelo influenciado (B) que depende de normas que ele internalizou a partir dos seus valores. Essa avaliação pode levar quem é alvo do poder a acreditar que “pode”, “deve” ou “tem a obrigação” de reconhecer legitimidade no influenciador (A). Nesse caso, o influenciado (B) reconhece que o poderoso (A) tem o direito de influenciá-lo e que ele (B) tem a obrigação de aceitar essa influência. Um dos fundamentos da base de poder legítimo são os valores culturais, como idade, inteligência, classe social e características físicas. Outro fundamento é a estrutura social. Se o potencial influenciado aceitar “... a estrutura de seu grupo, organização ou sociedade, especialmente a estrutura social que envolve hierarquia de autoridade.” (French & Raven, 1959, p. 160), acatará a autoridade do influenciador se ele ocupar um posto superior ao seu nessa hierarquia,pois julga que ele tem o direito de lhe prescrever obrigações. Em estruturas organizacionais, o poder legítimo constitui uma relação entre postos hierárquicos, e não entre pessoas. Em estruturas organizacionais, é “natural” o superior hierárquico exercer poder sobre o subordinado, pois isso está prescrito nas normas sociais. O poder legítimo pode ser mais ou menos extenso, dependendo do fundamento no qual está assentado. Os fundamentos culturais sustentam poder legítimo bastante amplo, mas um cargo no Exército, por exemplo, sustenta poder legítimo muito mais restrito, pois a influência está bem limitada e definida. Assim, poder legítimo depende do influenciador, mas pode tornar-se independente dele, pois o reconhecimento da legitimidade baseia-se nos valores do influenciado, mas também depende do influenciador que invoca ou incita esses valores do influenciado. O poder de referência é sustentado pela identificação do influenciado (B) com o influenciador (A). Assim, o poderoso funciona como modelo pessoal ou profissional devido ao posto ocupado na hierarquia social ou organizacional (p. ex., um chefe adequado, um líder religioso, um bom professor), de modo que o influenciado deseja ser parecido com ele ou estar próximo dele. Então, isso depende de como B (o influenciado) percebe comportamentos, crenças e percepções do influenciador. A base do poder de referência é aquela que se sustenta no reconhecimento de uma pessoa de que a outra é um modelo, alguém a ser imitado. Então, poder de referência está associado ao reconhecimento do prestígio do influenciador pelo influenciado que faz este querer identificar-se com o poderoso. O poder de perícia depende do reconhecimento ou da percepção do influenciado (B) sobre o conhecimento do influenciador (A) em alguma área ou assunto. O influenciado reconhece que o poderoso domina um corpo de conhecimentos e compara o conhecimento dele com o seu e com alguns padrões, reconhecendo sua superioridade. Nesse caso, existe influência social primária do poderoso apenas sobre a estrutura cognitiva de quem recebe a influência, mas não em outras. O poder de referência constitui a base de poder mais limitada, pois é restrita ao sistema cognitivo e a áreas específicas. Mas o poder de perícia pode ser negativo: ele acontece quando o influenciado (B) desacredita o influenciador (A). Nesse caso, o potencial influenciado, por não acreditar nos conhecimentos do influenciador em uma área específica, não aceita nenhuma influência que venha dele nessa área. Assim, resumidamente, poder legítimo deve-se à posição que o poderoso ocupa; poder de coerção diz respeito ao controle do poderoso sobre punições; poder de recompensa refere- se ao controle do poderoso sobre prêmios; poder de perícia baseia-se no conhecimento ou na especialidade do poderoso e no reconhecimento, por parte do influenciado, de que esse poderoso é especialista em determinado aspecto; e poder de referência deve-se ao reconhecimento de que o influenciador serve como modelo de identificação para o influenciado. French e Raven (1959) classificaram como fontes pessoais de poder o poder de recompensa e de coerção, e, como fontes legítimas de poder, o de referência e o de perícia. Apesar de essa classificação das bases nas quais o poder se sustenta não ter sido proposta apenas para explicar a influência hierárquica dentro das organizações, vários estudos centraram seu foco nesse contexto. Sua contextualização no âmbito das organizações foi iniciativa de autores como Hinkin e Schriesheim (1989, 1994), Peiró e Meliá (2003), Pierro, Kruglanski e Raven (2012), Rahim, Antonioni e Psenika (2001), Raven, Schwarzwald e Koslowsky (1998), Raven (2008) e Ward (2001). Essa estrutura foi testada e confirmada ao longo de mais de 50 anos de estudos, como atestam Hinkin e Schriesheim (1989), Pierro e colaboradores (2012), Posdsakoff e Schriesheim (1985), Rahim e Afza (1993), Rodrigues e Assmar (2003). FENÔMENOS CONSEQUENTES DAS BASES DE PODER Essa classificação das bases de poder tem sido utilizada no âmbito do comportamento organizacional para se estudar as relações hierárquicas (entre supervisor e subordinado) de poder no trabalho. Estudos internacionais, como o de Johnson e Scollay (2000), demonstraram que bases de poder utilizadas pelo supervisor aumentam os níveis de conflitos e exercem impacto sobre a dinâmica da influência dentro dos grupos ou das organizações. Yukl (1994) identificou que bases de referência, perícia, poder legítimo e de recompensa têm impacto positivo no comprometimento e na confiança organizacionais, enquanto poder de coerção provoca resistência. Rahim (1989) encontrou que as bases de poder legítimo, de perícia e de referência associam-se positivamente com confiança do empregado. Como concluem Johnson e Scollay (2000), bases de poder de recompensa e de coerção estão associadas com resistência, constituindo formas de conflito. Associações positivas entre poder de perícia e de referência com satisfação e desempenho dos subordinados foram encontradas em outros estudos, como os de Hinkin e Schriesheim (1989, 1990), de Johnson e Payne (1997), de Rahim (1989), de Schriesheim, Hinkin e Podsakoff (1991), e de Yukl e Falbe (1991). No Brasil, estudos de Martins e colaboradores (2007) revelam que bases de poder fortes (hard), como recompensa e coerção, predizem a percepção de conflitos intragrupais. Martins (2008) identificou que a base de perícia prediz comprometimento com o trabalho e que a base de coerção prediz diminuição no comprometimento com o trabalho e com a organização. Em 2009, resultados do estudo de Resende e Martins revelaram que as bases de perícia e de poder legítimo impactam positivamente a satisfação no trabalho. Tizo e Martins (2011), em um estudo com pessoal do corpo de enfermagem de um hospital público do interior do Brasil, encontraram que a base de poder de coerção prediz estresse ocupacional. Já o estudo de Ferraz (2009) identificou que bases de poder predizem autoconceito profissional. Martins, Siqueira, Torres, Pieroni e Zampieri (2012), estudando impactos de bases de poder e de conflitos intragrupais em resiliência pessoal, identificaram que as bases de coerção e recompensa predizem inversamente espiritualidade, uma das dimensões de resiliência pessoal, e poder de perícia e recompensa predizem resignação, outra dimensão desse fenômeno, sendo que poder de perícia dos chefes prediz subordinados mais resignados e poder de recompensa, prediz subordinados menos resignados. Esses exemplos de achados empíricos ilustram a importância de identificar as bases de poder nas organizações, pois isso pode auxiliar a gestão das relações interpessoais nesse contexto. ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO DA ESCALA DE BASES DE PODER DO COLEGA DE TRABALHO – EBPCT A avaliação das bases de poder foi discutida ao longo dos anos por autores como Patchen (1974), Yukl (1981), Podsakoff e Schriesheim (1985), Hinkin e Schriesheim (1989) e Rahim, Antonioni, Krumov e Ilieva (2000). De acordo com Schriesheim, Hinkin e Podsakoff (1985), até então as medidas das bases de poder de French e Raven (1959) eram bastante criticadas, porque as escalas para sua avaliação não atendiam às exigências psicométricas adequadas (Martins, 2008). Propondo-se a contornar esse problema, Hinkin e Schriesheim (1989) desenvolveram e validaram um instrumento para avaliar as bases de poder do supervisor em relação aos seus subordinados, a partir de uma forma inicial publicada em 1985 por Schriesheim e colaboradores. Os autores testaram a estrutura fatorial da escala por análise fatorial confirmatória, cujos resultados revelaram níveis adequados de ajuste para o modelo, que reteve 20 itens reunidos nas cinco bases de poder social propostas por French e Raven (1959), com índices de confiabilidade aceitáveis. As medidas construí das para avaliar as bases de poder, porém, como os estudos realizados no contexto organizacional, também se voltaram para sua avaliação em relações sociais hierarquizadas de trabalho. Diante da ausência de instrumentos paraavaliar as trocas de poder horizontais (entre trabalhadores de mesmo nível hierárquico), Martins, Fernandes e Lima (2007) adaptaram a Escala de Percepção de Bases de Poder do Supervisor, de Hinkin e Schriesheim (1989), para as relações de poder horizontais que acontecem no contexto de trabalho. Esse processo deu origem à Escala de Bases de Poder do Colega de Trabalho descrita a seguir. A Escala de Bases de Poder do Supervisor (Hinkin & Schriesheim, 1989) apresenta 20 itens distribuídos em cinco bases de poder utilizadas pelos supervisores: perícia, referência, recompensa, coerção e poder legítimo. Garantida a equivalência entre os conteúdos das instruções e dos itens da escala de Hinkin e Schriesheim (1989) e os da escala produzida pelos trabalhos de adaptação, foram verificadas a clareza e a compreensão das instruções e dos 20 itens junto a 10 trabalhadores de escolaridade correspondente ao ensino fundamental. Algumas palavras das instruções foram substituídas, e alguns itens modificados a fim de obter maior clareza. Uma nova avaliação foi solicitada a uma das especialistas em línguas, que garantiu a equivalência entre ambas as formas. A nova escala manteve os 20 itens e as cinco bases de poder e foi denominada Escala de Percepção de Bases de Poder do Colega de Trabalho. Depois disso, solicitou-se a três especialistas da área da psicologia organizacional que fizessem a correspondência entre os itens e os fatores definidos em texto a eles fornecido, para avaliar sua adequação como indicador de cada uma das bases. Houve acordo de 100% entre os três avaliadores. Assim, a escala, traduzida e reelaborada, refere-se ao poder dos colegas de equipe ou do grupo de trabalho. Terminada essa fase, foram contatados trabalhadores de uma região de Minas Gerais, formalmente empregados, de ambos os sexos, maiores de 16 anos, sem restrição de raça ou credo religioso e com nível de escolaridade mínima correspondente ao ensino fundamental completo, dado o fato de que os sujeitos tiveram que responder a questionários escritos, que pressupunham boa capacidade de leitura e compreensão de frases e instruções simples. A aplicação dos instrumentos aconteceu no local de trabalho dos participantes. A escala foi respondida por 197 trabalhadores (59% mulheres e 41% homens) que voluntariamente se dispuseram a participar do estudo. Como se trata de um instrumento autoaplicável, os trabalhadores liam as instruções e respondiam a escala em tempo livre, depositando-a em uma caixa ao seu término. Esses trabalhadores tinham idade média correspondente a 30 anos (desvio padrão [DP] = 10), trabalhavam na mesma organização há 71 meses, em média (DP = 79, Moda = 12) e atuavam na mesma equipe de trabalho, em média, há 42 meses (DP = 49, Moda = 12). Do total, 37,6% dos trabalhadores eram casados; 48,2%, solteiros; 5,1%, divorciados; 3,6%, separados; 5,6%, de outras categorias. Apenas 2,5% deles tinham ensino fundamental completo, enquanto 16% cursavam o ensino médio. Todos os outros tinham escolaridade igual ou superior ao ensino médio completo. Atendentes, vendedores e assistentes administrativos somavam 35% do total dos participantes, mas havia garçons, gerentes, office boys, professores, vendedores, técnicos de laboratório, cozinheiros e operadores de caixa entre os participantes. O conjunto das respostas compôs um banco eletrônico de dados e foi submetido a técnicas de análise fatorial dos eixos principais (Principal Axis Factoring – PAF) e rotação oblíqua, considerando que as bases de poder são conceitos interdependentes. A solução fatorial identificada, tanto do ponto de vista teórico quanto do ponto de vista empírico, apontou a presença de cinco fatores que explicavam 63% da variância total. A precisão (ou fidedignidade) foi testada por meio do cálculo do Alpha de Cronbach, que avalia a consistência interna do conjunto de itens de um mesmo fator. O primeiro fator foi denominado poder de referência por reunir os quatro itens cujos conteúdos diziam respeito ao fato de a figura do colega exercer atração sobre o trabalhador, no sentido de representar pessoa que ele admira, o que o leva a tomá-lo como modelo a seguir. Esse fator apresenta Alpha de Cronbach de 0,81. O segundo fator, denominado poder de coerção (Alpha de Cronbach de 0,75), ficou composto pelos quatro itens cujos conteúdos referiam-se à capacidade dos colegas de produzir ações coercitivas e desagradáveis sobre o respondente. O fator três reuniu quatro itens referentes ao poder dos colegas de influenciar a organização e o chefe, de modo que estes fornecessem benefícios para o respondente. Por isso foi-lhe atribuído o nome de poder de recompensa (Alpha de Cronbach de 0,70). O fator quatro, chamado poder legítimo (Alpha de Cronbach igual a 0,81), reuniu cinco itens cujos conteúdos diziam respeito ao fato de os colegas apresentarem posição organizacional que lhes dá o direito de fazer o respondente perceber suas responsabilidades como membro organizacional. O fator cinco referiu-se ao poder de perícia (Alpha de Cronbach de 0,79), por ter reunido quatro itens com conteúdos voltados para a influência positiva exercida pela competência do colega no desempenho do respondente no trabalho. Assim, a análise fatorial exploratória e a análise de fidedignidade confirmaram que a Escala de Bases de Poder do Colega de Trabalho apresentava as mesmas cinco bases de poder classificadas por French e Raven (1959) e identificadas na Escala de Bases de Poder do Supervisor (Hinkin & Schriesheim, 1989): poder de referência, de coerção, de recompensa, legítimo e de perícia, que reuniram os mesmos 20 itens originais (Quadro 4.1). Quadro 4.1 DENOMINAÇÕES, DEFINIÇÕES, COMPOSIÇÃO E ÍNDICES DE PRECISÃO DOS FATORES DA ESCALA DE BASES DE PODER DO COLEGA DE TRABALHO – EBPCT Base de poder Definição sintética Itens Índice de precisão Base de poder de recompensa Percepção de uma pessoa de que a outra poderá recompensá-la pelos seus comportamentos desejáveis. 1, 7, 9, 10 0,70 Base de poder coercivo Percepção de uma pessoa de que a outra domina meios para puni-la ou para retirar prêmios a ela destinados, caso ela falhe ou não aceite sua influência. 4, 5, 13, 14 0,75 Base de poder legítimo Percepção de uma pessoa de que a outra tem o direito legítimo, devido à posição que ocupa, de determinar e controlar seu comportamento. 2, 6, 16,17 0,81 Base de poder de perícia Percepção de uma pessoa de que a outra tem conhecimentos e habilidades em determinada área superiores aos seus e que por isso pode determinar seu comportamento. 3, 8, 12, 18 0,79 Base de poder de referência Percepção de uma pessoa de que a outra exerce atração sobre ela; identificação e admiração de uma pessoa em relação à outra que a leva a tomar a outra como modelo a seguir. 11, 15, 19, 20 0,81 A EBPCT avalia as cinco bases de poder propostas por French e Raven (1959) e confirma a estrutura da escala original de Hinkin e Schriesheim (1989). A escala completa, com instruções, 20 itens e escala de respostas pode ser encontrada no fim deste capítulo. APLICAÇÃO, APURAÇÃO DOS RESULTADOS E INTERPRETAÇÃO DA EBPCT A aplicação da EBPCT pode ser feita de forma individual ou coletiva. Ao início da aplicação, é necessário garantir que os respondentes tenham entendido as instruções e o modo de marcar suas respostas. Além disso, recomenda-se que o ambiente de aplicação seja tranquilo e confortável e que o tempo de aplicação seja livre. Como a EBPCT avalia cinco bases de poder ou fatores (multifatorial), seus resultados são apurados por fator. Assim, serão obtidos cinco resultados (ou médias fatoriais), sendo um para cada um dos fatores. No final, haverá um resultado para cada uma das bases de poder avaliadas pela EBPCT. Para obter o resultado de cada base de poder, somam-se os valores marcados pelos respondentes em cada item de cada fator e divide-se o resultado total pelo seu número de itens, nesse caso, quatro para cada base. Assim, por exemplo, para o Fator 1, “Base de poder de recompensa”, somam-se os valores das respostasaos itens 1, 7, 9, 10 e divide-se o resultado por 4. Depois, somam-se as médias de cada respondente em cada fator e divide-se pelo número de respondentes; procede-se da mesma maneira para as outras quatro bases. Os resultados das médias fatoriais deverão ser sempre um número entre 1 e 5, que é a amplitude da escala de respostas. Para interpretar as médias das bases de poder, considera-se que quanto maior for o valor da média fatorial, mais o trabalhador percebe que seu colega a utiliza. Valores maiores que 4 indicam que a base de poder é bastante utilizada, e valores menores que 2,9 indicam que a base é pouco utilizada. Assim, quanto maior a média, mais utilizada é a base, e quanto menor, menos utilizada ela é. Com base nas informações obtidas, o gestor terá um esboço de como ocorrem as relações de poder entre os trabalhadores sob sua supervisão, podendo identificar quais são as bases que as sustentam. Considerando os resultados dos estudos nacionais e internacionais, é possível perceber que bases de poder legítimo, de perícia e de referência estão associadas a fenômenos mais positivos no trabalho, como comprometimento, satisfação, melhor desempenho e confiança na organização, enquanto as bases de coerção e recompensa mostram-se relacionadas a conflitos, resistência, estresse ocupacional e baixa resiliência. Assim, embora esses resultados devam ser tomados apenas como indicativos, são importantes para a gestão, pois permitem prospectar políticas que reforcem a utilização das bases de poder positivas e que, paulatinamente, restrinjam o uso das negativas. A EBPCT é resultante de um trabalho internacional realizado por Hinkin e Schriesheim (1989) e de um estudo brasileiro realizado por Martins e colaboradores (2007); ambos revelaram evidências de validade e fidedignidade. As características psicométricas que garantem a boa qualidade da escala só permanecem se ela for utilizada sem alteração de qualquer uma de suas partes. ESCALA DE BASES DE PODER DO COLEGA DE TRABALHO (continuação) A seguir, há uma lista de frases que podem ser usadas para descrever comportamentos que seus colegas de trabalho podem apresentar. Primeiro, leia cuidadosamente cada frase. Então, decida até que ponto você concorda que seus colegas de equipe poderiam fazer isso com você. Marque o número que representa como você se sente na coluna à direita de cada frase. Use os seguintes números para suas respostas: Meus colegas de equipe ou grupo de trabalho podem: 1. Influenciar nosso chefe para aumentar meu salário. 2. Fazer-me perceber que tenho compromissos a cumprir. 3. Dar-me boas sugestões técnicas sobre meu trabalho. 4. Deixar para mim tarefas de trabalho que ninguém quer. 5. Tornar meu trabalho difícil. 6. Fazer-me perceber como eu deveria cumprir as exigências do meu trabalho. 7. Influenciar a organização para conseguir um aumento de salário para mim. 8. Dividir comigo suas experiências importantes de trabalho ou de treinamentos. 9. Ajudar-me a conseguir benefícios especiais. 10. Influenciar a organização para me dar uma promoção. 11. Fazer com que eu me sinta importante para o grupo ou equipe de trabalho. 12. Repassar para mim conhecimento técnico necessário ao trabalho. 13. Tornar as coisas desagradáveis para mim no trabalho. 14. Tornar meu trabalho desagradável. 15. Fazer com que eu me sinta aceito(a) pelo grupo. 16. Fazer-me perceber que tenho responsabilidades para cumprir. 17. Fazer-me reconhecer que tenho tarefas para realizar. 18. Dar-me dicas relacionadas ao trabalho. 19. Fazer com que eu me sinta valorizado(a). 20. Fazer com que eu me sinta aceito(a) como pessoa. REFERÊNCIAS Ferraz, A. M. S. (2009). Assédio moral no trabalho: relações com bases de poder do supervisor, autoconceito profissional e satisfação no trabalho. (Dissertação de Mestrado). Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia. Recuperado de http://www.bdtd.ufu.br/tde_arquivos/21/TDE-2010-01-05T092849Z-1784/Publico/Ana.pdf French, J. R. P., & Raven, B. (1959). The bases of social power. In D. Cartwright (Ed.), Studies in social power (pp. 150-167). Ann Arbor: Institute for Social Research. Hinkin, T. R., & Schriesheim, C. A. (1989). Development and application of new scales to measure the French and Raven (1959) bases of power. Journal of Applied Psychology, 74(4), 561-567. Hinkin, T. R., & Schriesheim, C. A. (1990). Relationships between subordinate’s perceptions of supervisor’s influence tactics and attributed bases of supervisory power. Human Relations, 43(3), 221-237. Hinkin, T. R., & Schriesheim, C. A. (1994). 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Inúmeras formas de comprometimento no trabalho têm sido investigadas, considerando-se os diferentes focos – organização, carreira, trabalho, profissão, objetivos, sindicato, entre outros – e as diferentes bases – afetiva, instrumental, calculativa, normativa, afiliativa, entre outras. Essa diversidade coloca questões conceituais e de mensuração que, apesar da relativamente longa trajetória de pesquisa, ainda são atuais e dificultam o estabelecimento de definições claras e precisas para o fenômeno. Dentro do campo específico do comprometimento, o foco na organização tem despertado o maior interesse de pesquisadores. O volume de trabalhos que investigam as relações do comprometimento com atitudes e comportamento no ambiente de trabalho é expressivo a ponto de ensejar o desenvolvimento de diversas metanálises sobre o tema (Cooper-Hakim & Viswesvaran, 2005; Mathieu & Zajac, 1990; Meyer, Stanley, Herscovitch, & Topolnytsky, 2002) que buscam sistematizar o vasto conjunto de resultados empíricos de pesquisas sobre antecedentes, consequentes e correlatos do comprometimento organizacional. O interesse de pesquisadores e, em especial, de gestores, relaciona-se aos desafios continuamente postos aos gestores de construírem equipes de trabalho comprometidas com as metas e os valores organizacionais, pelas evidências de que o comprometimento está positivamente relacionado a resultados desejáveis pela organização, a exemplo de satisfação com o trabalho e produtividade, ao mesmo tempo que está negativamente relacionado a resultados indesejáveis, como absenteísmo, turnover, estresse e conflito trabalho-família. Embora não haja uma definição única para o comprometimento organizacional, os diferentes conceitos utilizados trazem em comum o fato de se tratar de um estado psicológico positivo que caracteriza a relação do indivíduo com a organização e que causa impacto em seu desempenho. Essa definição geral, como se sabe, não elimina a diversidade com que esse estado psicológico é conceituado, o que faz essa área de pesquisa ter a diversidade de conceitos e medidas como um traço característico. Em uma rápida visão retrospectiva, percebe-se que o impulso inicial das pesquisas sobre comprometimento organizacional ocorreu a partir do conceito e da medida a) b) c) desenvolvidos por Porter, Steers, Mowday e Boulian (1974) e, em seguida, consolidados no clássico trabalho de Mowday, Porter e Steers (1982). A partir dessas produções, os autores criaram a primeira importante matriz conceitual desse vínculo, definindo-o como uma forte relação entre um indivíduo e uma organização, sendo essa relação caracterizada pelo esforço exercido em benefício da organização, pela crença e aceitação dos valores e objetivos da organização e pelo forte desejo de manter-se membro dela. O conceito e a medida propostos por Mowday e colaboradores (1982) tiveram grande impacto na pesquisa da área, dominando as investigações. A escala de 15 itens, em sua versão completa, e de 9 itens, em sua versão reduzida, foi traduzida e validada para inúmeros países, sempre com ótimos indicadores psicométricos. O modelo proposto por Mowday e colaboradores (1982), no entanto, conviveu com outras linhas de pesquisas que analisavam o comprometimento a partir de referenciais teóricos distintos, como um vínculo instrumental, de natureza cognitiva, que resulta das trocas entre indivíduo e organização, ou, ainda, como um vínculo passivo decorrente da introjeção de normas que geram o sentimento de dever e obrigação para com a organização. A partir dessa pluralidade de perspectivas, Meyer e Allen (1991) propuseram um modelo tridimensional integrador, que se tornou a segunda importante matriz conceitual e que passou a dominar os estudos na área a partir dos anos de 1990. Tal modelo parte da premissa de que processos psicológicos distintos estariam na base de dimensões específicas que configuram o vínculo do trabalhador com sua organização. Três dimensões foram, então, definidas como componentes do comprometimento: base afetiva: pautada na crença e na aceitação dos valores e objetivos da organização, assim como na intenção de esforçar-se em prol dela e no desejo de manter o vínculo com a organização; base de continuação: envolve a avaliação cognitiva sobre a possível perda de investimentos feitos pelo empregado na organização e, ainda, sobre a escassez de alternativas no mercado de trabalho; base normativa: relaciona-se à adesão às normas e aos objetivos da organização, a partir de pressões normativas introjetadas pelo trabalhador, que ocorrem no processo de socialização primário e após a entrada na organização. Apesar da clara hegemonia alcançada pelo modelo nos cenários internacional e nacional, a investigação ancorada na perspectiva tridimensional do comprometimento tem sido, recentemente, marcada pelo surgimento de intensos debates que envolvem problemas conceituais e empíricos que apontam para a ambiguidade e a imprecisão do construto com a ampliação de seu significado. No que se refere às fragilidades conceituais, um dos principais pontos se refere ao que Osigweh (1989) chamou de “esticamento do conceito”: na tentativa de proporcionar maior extensão e abrangência ao comprometimento organizacional, a concepção científica acomodou diferentes elementos dentro do construto do comprometimento e acabou por se afastar da forma como gestores e demais atores sociais compreendem esse vínculo. Esse distanciamento já havia sido apontado por Bastos (1994) e pôde, mais recentemente, ser sistematicamente evidenciado por uma série de estudos brasileiros que fizeram essa confrontação entre as concepções científicas e práticas do que é “ser comprometido” (Bastos, Brandão, & Pinho, 1997; Brito & Bastos, 2001;Moscon, 2009; Rowe & Bastos, 2007). De modo geral, tem-se que os esquemas conceituais dos gestores acerca do comprometimento organizacional contemplam essencialmente aspectos da base afetiva e, em menor grau, da base normativa. Já os elementos constituintes da base de continuação (permanência por necessidade, cálculo racional dos ganhos e perdas associados à saída da organização) não são reconhecidos pelos profissionais como pertencentes ao vínculo do comprometimento. Do ponto de vista empírico, uma primeira fragilidade refere-se às altas correlações encontradas entre as bases afetiva e normativa, sugerindo a possibilidade de sobreposição e colocando em dúvida a real dimensionalidade das escalas desse modelo (Meyer & Allen, 1991; Meyer, Allen, & Smith, 1993). A isso, soma-se o fato de a base de continuação apresentar padrões de associações com outros construtos diferentes daqueles encontrados para as bases afetiva e normativa, o que coloca em dúvida a pertinência de se considerar as três bases como constituintes de um mesmo fenômeno (Cooper-Hakim & Viswesvaran, 2005). Outra inconsistência empírica que merece destaque refere-se aos índices de consistência interna alcançados pelas escalas em diferentes localizações geográficas. No que se refere a esse ponto, Meyer e colaboradores (2002) demonstraram preocupação no que diz respeito à capacidade de generalização do modelo. De fato, comparações realizadas entre os resultados obtidos por estudos norte-americanos e por estudos de outras localidades revelam a significativa perda da confiabilidade no último caso (Bandeira, Marques, & Veiga, 2000; Cooper-Hakim & Viswesvaran, 2005; Meyer et al., 2002; Ko, Price, & Mueller, 1997; Lee, Allen, Meyer, & Rhee, 2001; Medeiros & Enders; 1997). No Brasil, o modelo foi validado por Medeiros e Enders (1997) e por Bandeira e colaboradores (2000). Ambos os estudos encontraram índices apenas moderados de consistência interna para os três componentes da teoria. Diante desse quadro de fragilidades, iniciou-se uma agenda de pesquisa de estudos que objetivaram alcançar uma melhor delimitação do comprometimento organizacional. Seguindo as recomendações de Osigweh (1989), esses estudos buscaram definir o que o comprometimento organizacional “não é” a partir de sua diferenciação de outros construtos próximos, a exemplo do entrincheiramento e do consentimento organizacional (Rodrigues, 2009; Silva, 2009). Nesse sentido, Rodrigues (2009), mediante a importação do construto de entrincheiramento na carreira para o âmbito organizacional, propôs que a base de continuação do comprometimento e o entrincheiramento organizacional se referiam ao mesmo fenômeno psicossocial (ver Capítulo 7 neste livro). O principal indício da redundância conceitual entre os dois construtos está em sua própria base teórica: ambos partem da teoria de side bets, desenvolvida por Becker (1960 apud Rodrigues, 2009). Essa teoria sugere que, com o objetivo de alcançar metas e satisfação social, o ator organizacional se insere em linhas consistentes de ação. Dessa forma, uma vez que o indivíduo já tenha realizado investimentos e sacrifícios em prol do seu emprego em determinada organização, ele passa a considerar que deixá-la é um comportamento incongruente com a linha de ação seguida até então (Rodrigues, 2009). Considerando os problemas que cercam o modelo tridimensional do comprometimento organizacional, a autora defendeu a retirada da base de continuação como parte integrante do modelo do comprometimento organizacional, já que seus elementos estavam contemplados pelo entrincheiramento organizacional. De forma paralela aos estudos conduzidos por Rodrigues (2009), Silva (2009) se dedicou ao estudo de outro tipo de vínculo do indivíduo com a organização: o consentimento organizacional (ver Capítulo 6 neste livro). Na proposta da autora, duas dimensões são identificadas para compor o consentimento: obediência e aceitação íntima. O primeiro componente é caracterizado pelo cumprimento do indivíduo das ordens estabelecidas por seu superior hierárquico, representante da organização, sendo esse cumprimento justificado pelo entendimento de que este é o papel do trabalhador. Já a aceitação íntima é entendia a partir do cumprimento de normas e regras estabelecidas em função de uma concordância autêntica com elas. Depois de cumprir um percurso de proposição e validação de uma medida para mensurar o consentimento, Silva (2009) conduziu análises de validade discriminante entre o consentimento e o comprometimento organizacional e encontrou grande aproximação entre os dois construtos. De um lado, a base normativa do comprometimento organizacional apresentou forte correlação – a ponto de caracterizar sobreposição – com a dimensão obediência do consentimento, o que não causa espanto, uma vez que as duas definições estão intimamente relacionadas à noção de introjeção de normas sociais que conduzem ao cumprimento das normas e regras organizacionais. De outro lado, os itens de aceitação íntima revelaram uma tendência em se agrupar aos itens do comprometimento afetivo, o que pode ser entendido a partir do fato de ambas as dimensões estarem relacionadas à aceitação dos valores da organização. Com base nesses achados empíricos, optou-se pela retirada da base normativa como constituinte do comprometimento organizacional (tendo em vista que essa noção de obrigação e dever para com a organização já está presente no conceito de consentimento organizacional) e pela incorporação da aceitação íntima ao comprometimento afetivo, já que se verificou a sobreposição dessas dimensões. A partir dos resultados derivados dessa trajetória de pesquisa sobre o comprometimento organizacional e a pertinência de suas bases, sugere-se a retomada de uma definição mais restrita do construto, que volta a ser compreendido, portanto, a partir de uma perspectiva unidimensional, na qual apenas a base afetiva é considerada parte da essência do construto. Tal posicionamento já havia sido defendido por alguns pesquisadores no cenário internacional, a exemplo de Solinger, Olffen e Roe (2008) e Ko e colaboradores (1997). De acordo com Ko e colaboradores (1997), a escolha da base afetiva se justifica por ser a base com propriedades psicométricas mais satisfatórias, além de se configurar no componente do comprometimento que apresenta correlações mais fortes com outros construtos e comportamentos esperados (desejáveis). Outro argumento que ajuda a suportar essa escolha está no fato de o comprometimento afetivo ser o mais representativo daquilo que é considerado como “ser comprometido” para os diferentes atores organizacionais. Apesar da escala de Mowday e colaboradores (1982) estar validada para o Brasil na sua versão completa (Borges-Andrade, Afanasieff, & Silva, 1989) e na versão reduzida (Bastos, 1992), os avanços da pesquisa de comprometimento, ao longo das últimas duas décadas, requerem uma nova escala, que incorpore de forma mais precisa a aceitação íntima de valores e normas e realce a natureza afetiva desse vínculo que une o trabalhador à organização, algo não suficientemente contemplado no referido instrumento, em ambas as versões. Tal instrumento não deve, além disso, incorrer na falha de incluir intenções comportamentais, como na versão completa de Mowday e colaboradores (1982), até porque estudos mais recentes (Menezes, 2006, por exemplo) revelam que a intenção de permanência na organização não seria uma dimensão constituinte do comprometimento, e sim um possível consequente. Na realidade, no mundo do trabalho contemporâneo, o comprometimento torna-se preditor mais forte de melhor desempenho e esforço extra do que a permanência na organização. Diante do exposto, apresenta-se aqui uma nova escala para mensurar os níveis de comprometimento do trabalhador com sua organização, na expectativa de contribuir para diagnósticos que fomentem políticas e práticas de gestão congruentes com o fortalecimento de tal vínculo pelas consequências positivas que ele demonstra ter para a organização e para os própriostrabalhadores brasileiros. A nova medida de comprometimento organizacional, retomando a conceituação unidimensional que está na origem do uso desse conceito, traz para a pesquisa e para o mundo da gestão a possibilidade de maior precisão do diagnóstico desse vínculo dos trabalhadores com suas organizações, eliminando redundância e diferenciando-o de outros vínculos que podem ter impactos muito distintos sobre o desempenho do trabalhador e da organização. Essa medida constitui, portanto, além de uma ferramenta de pesquisa, uma ferramenta de gestão com robusta evidência de validade e precisão, capaz de gerar informações que ofereçam importante subsídio para o planejamento e a implementação de ações que visem à melhora do desempenho organizacional. CONSTRUÇÃO E VALIDAÇÃO DA MEDIDA DE COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL Com o objetivo de propor uma escala de comprometimento organizacional que sature os elementos teóricos que caracterizam a perspectiva unidimensional, o primeiro passo consistiu na revisão das escalas nacionais e estrangeiras previamente propostas e validadas para a mensuração do construto. A versão inicial da escala foi composta por itens originalmente presentes nas escalas de Meyer e Allen (1991), Mowday e colaboradores (1982), Rego (2003) e Medeiros (2003). Além disso, foram incorporados à medida três itens que inicialmente constituíam a dimensão de aceitação íntima do consentimento organizacional, como proposto por Silva e Bastos (2010). No total, 13 itens foram testados para a mensuração do comprometimento organizacional. O instrumento foi aplicado em uma amostra de 805 trabalhadores brasileiros de diferentes estados do Brasil e segmentos produtivos. Para a análise do comportamento dos itens, foi empregado, inicialmente, o procedimento de Análise Fatorial Exploratória, que resultou na retirada de um único item, justificada pelo valor alcançado (carga fatorial inferior a 0,30). Portanto, a versão completa da medida de Comprometimento Organizacional foi composta por 12 itens, com cargas fatoriais que variaram de 0,622 a 0,758. A análise da confiabilidade da medida foi realizada mediante o índice Alpha de Cronbach, sendo considerados satis fatórios indicadores acima de 0,70 (Pasquali, 1999). O resultado obtido foi de α = 0,915, o que assegura a boa confiabilidade da escala. Uma vez cumprida a etapa exploratória, optou-se pela condução de uma Análise Fatorial Confirmatória, mediante o uso de modelagem de equações estruturais. Para tal, um modelo hipotético unidimensional foi espe cificado e testado. Para a avaliação do ajuste do modelo, foram considerados os seguintes índices de ajuste do modelo: Comparative Fit Index (CFI), que deve ser superior a 0,90; Root Mean Square Error of Aproximation - (RMSEA), que deve ser inferior a 0,08; Goodness of Fit Index (AGFI), esperados acima de 0,90. A análise dos índices de ajuste do modelo hipotético revelou a necessidade de alterações, a fim de proporcionar maior adesão aos dados. Tomando como base os índices de modificação sugeridos e a avaliação semântica dos itens, foram inseridos dois novos parâmetros no modelo. No modelo reespecificado, todos os indicadores atingiram valores dentro dos intervalos considerados satisfatórios ou extremamente próximos a eles (CFI = 0,941; GFI = 0,929; AGFI = 0,894; RMSEA = 0,081). De forma complementar, optou-se por propor uma versão reduzida da escala, que possa ser utilizada de forma alternativa à versão completa, sem prejuízo da precisão e validade da medida. Uma versão reduzida torna-se importante para a medida do construto no âmbito de pesquisas ou diagnósticos mais amplos que envolvam muitos outros aspectos sendo avaliados, de forma a reduzir o tamanho do questionário. Para isso, foram analisados individualmente os 12 itens da medida geral e realizada a seleção daqueles considerados essenciais. Os critérios adotados para tal foram as análises das cargas fatoriais e dos conteúdos dos itens, sendo excluídos aqueles que apresentavam ideias próximas às contempladas por outros itens com cargas fatoriais mais satisfatórias. A versão reduzida da escala de comprometimento ficou composta por 7 itens. Na etapa exploratória, os itens selecionados alcançaram cargas fatoriais entre 0,622 e 0,753. O índice de confiabilidade foi de α = 0,861. Seguindo os mesmos procedimentos adotados para a validação da versão completa da medida, empregou-se a técnica de modelagem de equações estruturais para a realização de Análise Fatorial Confirmatória. A avaliação dos índices de ajuste indicou a parcimônia e a adequação dos dados ao modelo, sendo que todos os índices observados obtiveram valores bastante próximos ou dentro dos intervalos ideais (CFI = 0,957; GFI = 0,965; AGFI = 0,930; RMSEA = 0,089). Embora o RMSEA tenha apresentado valor discretamente acima da meta estipulada, julga-se adequado que o modelo seja testado em novas amostras antes da realização de modificações, a fim de evitar que ocorra um superajustamento do modelo a uma única amostra. APRESENTAÇÃO DA MEDIDA: APLICAÇÃO, APURAÇÃO DOS RESULTADOS E INTERPRETAÇÃO A utilização da escala de comprometimento organizacional, tanto para fins de pesquisa como de diagnóstico, deve ser precedida de todos os esclarecimentos necessários em relação ao uso dos seus resultados, garantindo sigilo absoluto aos respondentes quanto aos escores individuais. Essa conduta também minimiza os efeitos potenciais do fenômeno da desejabilidade social durante a resposta a cada item. Qualquer indivíduo que tenha algum tipo de vínculo de trabalho com uma organização estará apto a responder a escala. A aplicação pode ser feita de forma presencial ou em versão digital, sem a necessidade de identificação dos respondentes. No caso de aplicação com trabalhadores de baixa escolaridade, são recomendadas adaptações na coleta dos dados, com utilização de escalas gráficas e recursos visuais que assegurem a compreensão do conteúdo dos itens. Para qualquer situação de aplicação, é necessário assegurar que o ambiente seja tranquilo e - confortável. Por se tratar de escala com reduzido número de itens, a expectativa é que o instrumento possa ser respondido em poucos minutos. Contudo, o participante deve se sentir livre para utilizar o tempo que julgar necessário. Para sustentar as propriedades psicométricas da medida, é importante que as instruções, os conteúdos dos itens e a escala sejam preservados. Ainda assim, tendo em vista que se trata de uma escala cujo primeiro esforço de validação se encontra neste capítulo, recomenda-se que, para aplicações futuras, seja feita a verificação da consistência interna da medida. Quanto aos procedimentos de apuração dos resultados, por tratar-se de escala unifatorial, e considerando-se que não há itens invertidos na escala, é necessário apenas somar os valores obtidos e dividir o resultado pelo número de itens. Ou seja, no caso de utilização da versão completa da medida, deve-se somar o grau de concordância de cada indivíduo para cada uma das afirmações e, em seguida, dividir o resultado por 12. Já no caso de aplicação da versão reduzida, deve-se somar os escores individuais para cada frase e, em seguida, dividir o resultado total por 7. Para fins de interpretação dos níveis de comprometimento organizacional, partindo da escala likert de 6 pontos utilizada para mensurá-lo, recomenda-se que sejam considerados baixos valores entre 1,0 e 2,5; médios os valores superiores a 2,5 e inferiores a 4,5; e altos aqueles a partir de 4,5. Em algumas situações, os valores médios podem ser diferenciados entre médio inferior (maior de 2,5 e menor que 3,5) e médio superior (maior ou igual a 3,5 e menor que 4,5) (Fig. 5.1). Figura 5.1 Parâmetros para interpretação dos resultados obtidos a partir da Medida de Comprometimento Organizacional. MEDIDA DE COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL – VERSÃO COMPLETA Vamos apresentar para você várias frases sobre a sua realidade de trabalho e sobre a organização em que trabalha. Avalie, com base na escala abaixo, o quanto você concorda coma ideia apresentada. Quanto mais perto de 1, maior é a discordância; quanto mais perto de 6, maior é a concordância com o conteúdo da frase. 1 Eu me sinto orgulhoso dizendo às pessoas que sou parte da organização onde trabalho. 2 Conversando com amigos, eu sempre me refiro a essa organização como uma grande instituição para a qual é ótimo trabalhar. 3 Sinto os objetivos de minha organização como se fossem os meus. 4 A organização em que trabalho realmente inspira o melhor em mim para meu progresso no desempenho do trabalho. 5 A minha forma de pensar é muito parecida com a da empresa. 6 Eu acho que os meus valores são muito similares aos valores defendidos pela organização onde trabalho. 7 Sinto que existe uma forte ligação afetiva entre mim e minha organização. 8 Essa organização tem um imenso significado pessoal para mim. 9 Aceito as normas da empresa porque concordo com elas. 10 Eu realmente me interesso pelo destino da organização onde trabalho. 11 Se eu tivesse uma empresa, escolheria as mesmas normas da empresa em que trabalho. 12 Eu realmente sinto os problemas dessa organização como se fossem meus. MEDIDA DE COMPROMETIMENTO ORGANIZACIONAL – VERSÃO REDUZIDA Vamos apresentar para você várias frases sobre a sua realidade de trabalho e sobre a organização em que trabalha. Avalie, com base na escala abaixo, o quanto você concorda com a ideia apresentada. Quanto mais perto de 1, maior é a discordância; quanto mais perto de 6, maior é a concordância com o conteúdo da frase. Medida de Comprometimento Organizacional – Versão Reduzida 1 Conversando com amigos, eu sempre me refiro a essa organização como uma grande instituição para a qual é ótimo trabalhar. 2 Sinto os objetivos de minha organização como se fossem os meus. 3 A organização em que trabalho realmente inspira o melhor em mim para meu progresso no desempenho do trabalho. 4 A minha forma de pensar é muito parecida com a da empresa. 5 Sinto que existe uma forte ligação afetiva entre mim e minha organização. 6 Aceito as normas da empresa porque concordo com elas. 7 Eu realmente me interesso pelo destino da organização onde trabalho. APLICAÇÕES DA ESCALA Uma primeira decisão que o pesquisador ou o gestor precisa tomar é se deseja estudar e/ou diagnosticar apenas os níveis de comprometimento ou algo mais abrangente envolvendo outros vínculos, como é o caso do entrincheiramento e do consentimento. Com o uso das três escalas poderão ser feitas distinções importantes sobre a natureza e a intensidade dos vínculos e sobre como os trabalhadores os articulam. Como tais vínculos parecem ter impactos diferentes no desempenho dos indivíduos, as estratégias para lidar com as equipes de trabalho podem ser refinadas e mais bem ajustadas do que apenas se conhecendo o comprometimento. Isso não significa, todavia, que diagnósticos apenas do comprometimento organizacional não sejam importantes e não gerem informações relevantes para os gestores. Os resultados devem ser, sempre, tomados em termos de grupos, equipes, setores, departamentos e da própria organização como um todo. Assim, é possível, com os escores médios e com indicadores de variabilidade (p. ex., desvio padrão), comparar tais grupos ou segmentos dentro da organização, identificando-se onde o comprometimento é mais ou menos elevado, o que servirá como base para hipóteses explicativas associadas ao perfil do grupo, a características dos gestores, à natureza do trabalho realizado ou mesmo dos possíveis impactos diferenciais de práticas e políticas organizacionais. Quando a pesquisa ou o diagnóstico envolver outras variáveis, dados de associação devem agregar mais evidências diagnósticas comparativas entre os diferentes segmentos da organização (diferenças entre gênero, tempo de serviço, níveis de remuneração, percepção do suporte organizacional, percepção do gestor, oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional, entre tantos outros fatores associados a comprometimento). Com base nos indicadores obtidos, o gestor poderá planejar as ações necessárias para estimular a manutenção ou o crescimento do comprometimento organizacional. Para obter maior suporte na interpretação dos dados e no planejamento das intervenções, é evidente a necessidade da aplicação paralela de outras escalas que mensurem variáveis tradicionalmente relacionadas com o comprometimento organizacional, a exemplo de suporte e justiça organanizacional, avaliação das políticas de treinamento e desenvolvimento, entre outras. Com esses fatores também avaliados, o gestor terá mais elementos para direcionar sua ação e ajustar suas decisões no sentido de potencializar os níveis de comprometimento organizacional de sua equipe. Outro aspecto importante é que a medida de comprometimento, quando tomada ao longo do tempo, pode dar informações de grande relevância para a compreensão de sua dinâmica e dos fatores associados ao seu crescimento ou diminuição. Em termos de pesquisa, recomenda-se fortemente o uso de delineamentos longitudinais de investigação, visto que esses estudos permitem se aproximar de fatores causais ou determinantes do comprometimento. Em termos de diagnósticos gerenciais, o acúmulo de várias medidas de comprometimento ao longo do tempo (medidas anuais ou bianuais, a exemplo do que acontece com o clima) auxilia a organização e os gestores a acompanhar os impactos das políticas e práticas de gestão, verificando se elas estão contribuindo para aprofundar o comprometimento dos trabalhadores. Se o objetivo for um diagnóstico mais amplo dos vínculos do trabalhador, e não apenas o comprometimento, com o uso das escalas de consentimento e de entrincheiramento é possível, em um segundo nível de análise, a identificação de padrões de comprometimento, entrincheiramento e consentimento organizacionais, o que é feito por meio de um procedimento estatístico denominado análise de cluster ou aglomerados. Esse tipo de análise cumpre o objetivo de avaliar os diferentes tipos de vínculos do indivíduo com a organização de forma integrada, identificando grupos que se aproximam quanto à intensidade dos três vínculos. Ou seja, um trabalhador altamente comprometido e não entrincheirado diferencia-se de um trabalhador muito entrincheirado e pouco comprometido. Da mesma forma, um trabalhador apenas entrincheirado e obediente difere de outros que são entrincheirados, porém comprometidos; isto é, cada grupo de trabalhador com perfis distintos de vínculos irá requerer um tratamento especial e diferenciado por parte da organização e de seus gestores. Em síntese, embora o comprometimento seja algo amplamente reconhecido por pesquisadores e por gestores como fundamental para o êxito organizacional, a grande maioria das organizações não tem a prática de diagnosticá-lo e monitorar seus indicadores ao longo do tempo. Elas deixam, assim, de se beneficiarem do conhecimento de uma característica pessoal que pode ser determinante na forma como as pessoas percebem todos os processos organizacionais, na forma como avaliam as diversas políticas e práticas de gestão e, em consequência, na forma como respondem às expectativas de desempenho no trabalho. Medidas de comprometimento, por se constituírem como um vínculo mais duradouro e estável que une o trabalhador a sua organização, mostram-se bem mais efetivas para direcionar as práticas de gestão do que as costumeiras medidas de satisfação e de clima, mais difundidas nas organizações brasileiras. REFERÊNCIAS Bandeira, M. L., Marques, A. L., & Veiga, R. T. (2000). As dimensões múltiplas do comprometimento organizacional: Um estudo na ECT/MG. Revista de Administração Contemporânea, 4(2), 133-157. Bastos, A. V. B. (1992). Medidas de comprometimento no contexto de trabalho: Um estudo preliminar de validade discriminante. Psico, 24(2), 29-48. Bastos, A. V. B. 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Tal vínculo, como abordado no Capítulo 5 deste livro, ao longo de sua história de pesquisa, sofreu grande alargamento de significado, gerando fragmentação e redundância na área (Bastos, 1993, 1994; Morrow, 1983; Osigweh, 1989). Nesse sentido, é possível questionar-se até que ponto, ao se avaliar o vínculo de comprometimento do trabalhador, não se esteja medindo vínculos distintos, especialmente o que denominamos consentimento organizacional (Silva, 2009; Silva & Bastos, 2010). Provavelmente, parte dessa confusão conceitual seja decorrente da proximidade que parece existir entre alguns dos componentes do comprometimento organizacional e o consentimento do trabalhador. Entre os estudos do comprometimento, O’Reilly e Chatman (1986) destacam a dimensão compliance2 (a aquiescência) do trabalhador às demandas organizacionais para o ganho de recompensas específicas. Nessa linha de pensamento, Bar- Hayim e Berman (1992) argumentam que o comprometimento é constituí do por dois componentes,3 um “ativo” e outro “passivo”. O comprometimento é representado pelo desejo do trabalhador de permanecer na organização associado a um forte sentimento de lealdade, aproximando-se de um comportamento conhecido como “lealdade cega” (Wiener, 1982, p. 423), que pode ocorrer quando há níveis muito elevados, considerados excessivos, de comprometimento (Randall, 1987). Em contrapartida, na grande maioria das vezes, os gestores avaliam o comprometimento como um vínculo que implica uma conduta ativa, crítica e contributiva em prol da organização (Pinho, 2009), caracterizando o fenômeno como o componente “ativo” do comprometimento e que se distancia de uma simples aquiescência do trabalhador diante das solicitações da organização. Essa abrangência do conceito de comprometimento, que incluitanto um componente ativo como um passivo, fica evidente no modelo tridimensional de comprometimento desenvolvido por Meyer e Allen (1991).4 É exatamente a tensão decorrente do antagonismo entre os componentes ativo e passivo do comprometimento que nos conduz a uma questão central: é pertinente considerar um trabalhador obediente, que segue as normas, como comprometido com a organização? Na verdade, sustentamos que o indivíduo que apenas obedece e cumpre o que lhe é mandado, sub metendo-se à autoridade do superior imediato (representante da organização), para manter-se vinculado à organização, não perder as recompensas ou, ainda, não sofrer punições, é um trabalhador vinculado por consentimento (Silva & Bastos, 2010), o que é bem diferente do trabalhador comprometido. O consentimento organizacional é compreendido, portanto, como a tendência do trabalhador a obedecer às demandas da empresa, personificadas por seus superiores. Pressupõe-se que o cumprimento das ordens e normas ocorre devido às relações de poder e autoridade que se estabelecem entre subordinado e superior, bem como por acreditar que a chefia sabe melhor o que deve ser feito. O berço do marco conceitual do consentimento situa-se na área da sociologia do trabalho, especialmente nos estudos de Burawoy (1979, 1983). Os resultados de um estudo etnográfico na década de 1970 são relatados no livro Manufactoring Consent (Burawoy, 1979), cuja expressão foi traduzida como “a fabricação do consentimento”. Seu trabalho teve como objetivo principal identificar os mecanismos que deram suporte aos representantes das fábricas para desenvolverem comportamentos de aceitação à dominação do trabalhador. Em trabalho recente, Burawoy (2010) ratifica que esses estudos afirmam que a hegemonia é a base para a organização da produção industrial contemporânea. Sua argumentação articula a coordenação dos interesses do capital com os interesses do trabalho, ou seja, para ele, a cooperação5 dos trabalhadores com o sistema capitalista seria fruto das estruturas e instituições do mundo do trabalho. A partir dos estudos de Burawoy (1983), e com base na teoria da autoridade (Weber, 1994), o apego (attachment) do trabalhador à organização foi analisado por Halaby (1986), que apontou que as relações entre empregador e empregados são estabelecidas no cerne de vínculos de autoridade. Assim, é nas relações hierárquicas de subordinação que esses vínculos encontram um dos principais fatores que sustentam as interações que governam o mundo do trabalho. Halaby (1986) afirma que o termo consentimento é utilizado para tratar do vínculo entre trabalhador e organização sem referência aos aspectos afetivos ou psicológicos, privilegiando, exclusivamente, a relação de subordinação que se estabelece entre empregador e empregado, que é governada pela assunção, por esses atores, desses papéis sociais. Nesse sentido, acredita-se que ser subordinado é condição intrínseca ao papel do trabalhador, assim como a existência de “... códigos normativos que especificam maneiras moralmente corretas de dominação.” (Bastos, 1994, p. 50). Isto é, o empregador é percebido pelo trabalhador como detentor de uma autoridade legítima, o que provavelmente conduz o empregado a consentir, a cumprir com as demandas da organização. Burawoy (2010, p. 52) adicionou novos elementos aos estudos do consentimento, para melhor compreensão do fenômeno da dominação do trabalhador, a partir de duas visões divergentes: “... de um lado, a dominação simbólica em Bourdieu, na qual o dominado não reconhece sua submissão como tal; de outro lado, a hegemonia em Gramsci, na qual o dominado reconhece e consente sua submissão.” A aparente contradição explicita como ponto em comum a ênfase quanto à submissão, pois nas duas situações o trabalhador encontra-se na condição de dominado (de subordinado) e se diferencia apenas quanto ao reconhecimento ou não dessa submissão (do consentir). Como se pode perceber, a noção ampliada de comprometimento, ao incluir uma dimensão passiva de obediência, implica uma extensão indevida do conceito e sua confusão com um outro tipo de vínculo bastante distante, aqui denominado consentimento. Apesar de o alicerce teórico do consentimento ter raízes na sociologia do trabalho, a área da psicologia social (p. ex., Kiesler & Kiesler, 1973) agrega contribuições importantes ao estudo desse fenômeno. O conceito de conformismo é um dos que pode oferecer diretrizes e conteúdos para contribuir na construção de limites do que seria o vínculo de consentimento nas organizações. Para Kiesler e Kiesler (1973, p. 2) trata-se de “... uma mudança no comportamento ou na crença, que se faz na direção de um grupo, como resultado de pressão real ou imaginária deste último.” Os autores afirmam que o conformismo pode ser representado por duas dimensões, tanto pela obediência quanto por Aceitação íntima. O conformismo por obediência se refere aos comportamentos visíveis, explícitos, que se tornam semelhantes aos comportamentos dos membros do grupo e que independem das crenças ou convicções íntimas do indivíduo. Em contraposição, o conformismo decorrente da Aceitação íntima se relaciona a uma real modificação de crenças ou de atitude que converge em direção às demandas do grupo. Nesse caso, há uma mudança genuína de opinião, e os comportamentos ocorrem com base no que o indivíduo realmente acredita. Estudos clássicos sobre obediência buscaram compreender as razões pelas quais os indivíduos se comportavam de determinada maneira. Entre eles, destacam-se as pesquisas de Milgram (1963), nas quais, a despeito de consequências desagradáveis causadas ao outro envolvido na relação, se observou a tendência dos indivíduos a obedecer àqueles que são percebidos como autoridades legítimas (Fischer, 1996). Isso significa que o subordinado tenderá fortemente a atender a solicitação de seu superior, ainda que ela possa trazer prejuízo a outrem. Além dos estudos sobre conformismo e obediência, Guareschi e Grisci (1993) argumentam a existência de mecanismos psicossociais capazes de influenciar o processo de subordinação, que podem tornar os trabalhadores mais fáceis de serem comandados. Esses mecanismos encontram-se fundamentados em três vértices: estratégias racionais, normas pessoais e normas sociais. Os autores também identificaram dois padrões de relações sociais que se desenvolvem no cotidiano das organizações: relações de vigilância/coerção dos superiores direcionadas aos trabalhadores e relações de hegemonia/persuasão (liderança moral), nas quais as soluções são procuradas por meio do consenso entre os trabalhadores. Além disso, as relações sociais de vigilância articuladas aos mecanismos psicossociais promovem três fenômenos distintos: submissão, obediência e legitimidade. A submissão (despotismo) é considerada uma estratégia racional, ocorre a partir de avaliações dos empregados sobre o cumprimento das tarefas e respectivas recompensas. O trabalhador se submete às demandas da organização, coagido pela possibilidade de perdas ou altos custos envolvidos. Já a obediência é classificada como norma pessoal, na qual o trabalhador crê que deve se comportar de determinada maneira. Para ele, trabalhar é uma obrigação moral de todos, e o certo é se esforçar sempre no trabalho, uma vez que percebe esse comportamento como natural a todos os indivíduos, em todas as sociedades. E, quanto à legitimidade, ela é considerada uma norma social (diferenciando-se da obediência), pois a ênfase está dirigida ao poder que é reconhecido como legítimo pelo trabalhador, ao qual ele deve obedecer. Ao direcionarmos o olhar para o mundo do trabalho, fica explícito que executivos e gestores, em geral, fazem uma clara distinção entre um trabalhador comprometido e um trabalhador que consente com as demandas organizacionais (Pinho, 2009). Esses líderes empreendem esforços para identificação e retenção de talentos, cujo perfil se associa a comportamentos de iniciativa, análise crítica, boas relações interpessoais, colaboração, sugestões para melhoriade aplicação e frases 1 – Cumprimentos 2 – Apresentação 2.1 – Identificação dos aplicadores e do projeto 2.2 – Objetivo da pesquisa 2.3 – Solicitação da colaboração 3 – Instruções 17. Suporte à aprendizagem informal no trabalho | Francisco Antonio Coelho Junior, Jairo Eduardo Borges-Andrade Descrição da medida Aplicação e usos da medida de suporte à aprendizagem informal no trabalho Referências 18. Escala de percepção de suporte organizacional – versão reduzida | Fabiana Queiroga, Hugo Pena Brandão, Jairo Eduardo Borges-Andrade Descrição da Escala de Percepção de Suporte Organizacional Obtenção de evidências de validade psicométrica, aplicação da medida e apuração dos resultados Utilização da EPSO-R em contexto de trabalho Referências 19. Domínio de habilidades de uso de novas tecnologias da informação e comunicação em organizações | Gardênia da Silva Abbad, Luciana Mourão, Thaís Zerbini, Danilo Batista Correia Habilidades de Uso de novas tecnologias da informação e comunicação e Evasão em Cursos a Distância Construção e validação da escala de domínio de habilidades de uso de novas tecnologias da informação e comunicação em organizações Aplicação, apuração e interpretação dos resultados Referências 20. Medidas do vínculo do trabalhador com a carreira | Mauro de Oliveira Magalhães Comprometimento com a carreira Descrição da medida brasileira de comprometimento com a carreira Entrincheiramento na carreira Descrição da medida brasileira de entrincheiramento na carreira Breve panorama das pesquisas sobre vínculos com a carreira Implicações práticas e aplicações das medidas de vínculos com a carreira Referências Leituras Sugeridas 21. Percepção de desenvolvimento profissional | Luciana Mourão, Katia Puente- Palacios, Juliana B. Porto, Ana Claudia Monteiro Descrição das medidas Escala de Percepção Atual do Desenvolvimento Profissional Escala de Percepção Evolutiva do Desenvolvimento Profissional Comparação entre as Duas Escalas de Desenvolvimento Profissional Aplicação, Apuração dos Resultados e Interpretação das Escalas Referências Grupo A Conheça também USO DE FERRAMENTAS DE DIAGNÓSTICO DE GESTÃO Katia Puente-Palacios Adriano de Lemos Alves Peixoto Da mesma forma que uma viagem imaginária pode começar nos primeiros parágrafos de uma boa obra literária, os quais sugerem qual será a trama, o diagnóstico dos processos e dos fenômenos da organização inicia com a definição de onde se quer chegar e do caminho a ser percorrido, o que significa dizer que o primeiro passo a ser dado consiste na adequada identificação e no dimensionamento daquilo que virá a ser mapeado. E assim como a trama de um romance, que vai se desenrolando aos poucos e deixa entrever diversos personagens, fatos organizados em capítulos que contam diferentes momentos da história e conduzem ao clímax do enredo até o epílogo, o diagnóstico da organização também tem seus atores, seu enredo, seus capítulos e suas conclusões. E para que esses elementos possam fluir de maneira concatenada, o planejamento é etapa imprescindível. Portanto, a clara especificação daquilo que se busca compreender, a definição dos instrumentos e das ferramentas que serão utilizados para coletar as informações, do que o diagnóstico virá oportunizar, envolver e demandar dos atores incumbidos na sua realização, é aspecto basilar para uma adequada exe cução. Entretanto, assim como um livro, o diagnóstico, não importa quão extenso, nunca mostra tudo, mas somente uma parte da cena organizacional. Dessa forma, ao definir o aspecto a ser focado, o gestor precisa estar atento ao alvo que será mirado com ação diagnóstica. Mas não só isso; deve considerar as demandas associadas a tal avaliação, pois virá necessariamente acompanhada de diversos desdobramentos que se traduzem em ações de intervenção, que podem e devem ser antevistas, pelo menos parcialmente, desde a fase de planejamento. Dessa forma, este capítulo inicial busca mostrar, de maneira resumida, o percurso dos diagnósticos organizacionais que se inicia no planejamento e conclui na implementação de ações posteriores. O QUE É O DIAGNÓSTICO ORGANIZACIONAL A tarefa primordial com a qual se depara todo gestor é gerir sua organização de forma eficiente. Essa, porém, não é uma tarefa fácil, uma vez que as organizações são entidades complexas compostas por um grande número de indivíduos, grupos e ainda diferentes User Highlight User Highlight formas de tecnologia que interagem de múltiplas e variadas maneiras. Essa tarefa recebe um grau adicional de complexidade quando reconhecemos que mesmo pequenas transformações no contexto em que as organizações atuam têm o condão de afetar profundamente a forma como as tarefas são desenvolvidas e impactar nos resultados. Para sobreviver, especialmente no longo prazo, as organizações precisam se adaptar ao seu ambiente (Burke, 2011). Assim, não é difícil perceber que a gestão eficiente só é possível quando a organização dispõe de capacidade de análise e interpretação do seu ambiente de atuação, que lhe permite identificar padrões de comportamento e prever possíveis respostas de indivíduos, grupos e da organização, tanto para as ações gerenciais como para as transformações do ambiente organizacional. Portanto, a complexidade desse cenário, atrelada às dificuldades de compreensão da dinâmica organizacional, constitui um obstáculo à mudança (Naves, Mafra, Gomes, & Amâncio, 2000) muitas vezes almejada. Essa competência analítica não é uma característica inata de indiví duos excepcionais, mas fruto da capacidade de produzir um conjunto de conhecimentos sobre a organização e o seu funcionamento, da habilidade de identificar, coletar, integrar, sistematizar e interpretar informações sobre sua operação, seu contexto, e do domínio de referenciais teóricos e instrumentais que permitam o levantamento, o tratamento e a integração dessas informações. Aqui, vemos claramente a importância e o lugar do diagnóstico organizacional como uma tecnologia necessária a todas as organizações, sejam elas grandes ou pequenas, públicas ou privadas, com ou sem finalidade econômica. O significado que atribuímos atualmente à palavra diagnóstico está fortemente influenciado por sua utilização como um termo médico. Ela tem origem no grego antigo diagignoskein, cujo significado referia-se ao ato de discernir, distinguir ou, ainda, conhecer extensivamente. Em meados do século XVII, sua variante latina diagnosis passou a ser empregada na medicina para descrever o processo de identificação de uma condição ou enfermidade a partir de um conjunto de sinais ou sintomas. Assim, é possível afirmar que o diagnóstico era concebido como um processo de sistematização do conhecimento para a identificação e a classificação de doenças (Bissel & Keim, 2008). No contexto organizacional, a noção de diagnóstico tem uma utilização muito mais recente e assume novas dimensões e especificidades ainda que mantendo, em linhas gerais, o significado de levantamento de informações com o objetivo de compreender uma determinada situação, permitindo (guiando) algum tipo de intervenção em direção a um objetivo qualquer. Todavia, deve-se destacar que o diagnóstico organizacional pode e deve ser compreendido dentro de um contexto, inserido na dinâmica da mudança organizacional e assumido como um esforço de compreensão da organização como um todo. Desse modo, entende-se que o diagnóstico é a base de qualquer processo de mudança organizacional, seja ele pontual ou extensivo, incremental ou radical, evolutivo ou revolucionário. De forma mais específica, o diagnóstico é... ... um método sistemático para coleta e reunião de informações sobre como a organização funciona como um sistema social e uma forma de análise sobre o significado dessas informações... é uma atividade voltada para a solução de problemas que busca por causas e consequências. Ela identifica gaps entre o que é e o que deveria ser (Howard, 1994, p. 8). User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlightdos processos de trabalho, embora nem sempre os diagnósticos organizacionais ocorram por meio de medidas válidas e confiáveis. Apesar de o conceito de consentimento ser de longa data, sua articulação com outros vínculos é algo muito recente na pesquisa em comportamento organizacional. Inexistiam instrumentos para mensurar tal construto, até por ele não integrar a vertente de pesquisas da psicologia organizacional, e sim da sociologia do trabalho. Este capítulo apresenta a Escala de Consentimento Organizacional (ECO),6 construída e validada no Brasil, surgida de uma linha de pesquisa que busca dar maior precisão conceitual aos diversos vínculos que o trabalhador pode desenvolver com sua organização empregadora. Ela poderá ser utilizada com indivíduos que tenham condições para ler e compreender as instruções (preferencialmente com ensino médio completo), que utiliza uma escala de 6 pontos. A consistência dos estudos descritos neste capítulo, expressa nos resultados das investigações apresentadas, estabelece parâmetros psicométricos que indicam a validade da medida. Trata-se de uma contribuição aos estudos organizacionais por disponibilizar uma ferramenta de pesquisa e diagnóstico que permite ampliar a investigação sobre os vínculos que o indivíduo desenvolve em relação à organização, em seus diversos contextos. DESCRIÇÃO DA MEDIDA A Escala de Consentimento Organizacional foi concebida com o propósito de construir um marco conceitual e empírico que melhor delimite o vínculo que tem como base o consentimento do trabalhador, diferenciando-o de outros que podem estar a ele associados ou mesmo sobrepostos, elucidando a distinção entre ele e outros fenômenos, a exemplo do comprometimento organizacional. Trata-se de uma revisão e refinamento da versão preliminar da Escala de Consentimento Organizacional proposta pelos autores em um estudo anterior (Silva & Bastos, 2010). No primeiro estudo, a amostra foi formada por 721 trabalhadores de diversos estados brasileiros. Inicialmente, utilizou-se a técnica de análise de juízes para avaliação da pertinência dos itens às dimensões propostas no modelo teórico, além da avaliação dos aspectos semânticos de cada item. No processo de validação, com o uso da Análise Fatorial Exploratória dos 24 itens que constituíram o instrumento, 17 mantiveram- se na escala por seus indicadores psicométricos satisfatórios, distribuindo-se em uma estrutura bidimensional formada pelas dimensões Obe diência (OC) e Aceitação íntima (AI). Adicionalmente, utilizaram-se Análises Fatoriais Confirmatórias (AFC) por meio da modelagem de equações estruturais (MEE). Uma nova pesquisa que tomou como base a primeira versão da Escala de Consentimento Organizacional também seguiu a lógica e as etapas previstas para construção e validação de um instrumento (Pasquali, 1999), pois, embora tenha realizado outras análises da medida já validada (Silva, 2009; Silva & Bastos, 2010), novos itens foram acrescentados à escala inicial, assim como foi utilizada com outros trabalhadores, ampliando a variabilidade amostral. Essa nova pesquisa partiu do conceito de consentimento utilizado na pesquisa anterior, mas após retorno à literatura especializada, ocorreram pequenos ajustes em sua definição inicial, conduzindo os autores a adotar como definição operacional do construto: A tendência do indivíduo em obedecer ao seu superior hierárquico que representa a organização à qual trabalha. Ao obedecer às demandas oriundas da organização, pressupõe-se que o indivíduo consente com o cumprimento das ordens devido às relações de poder e autoridade que se estabelecem entre gestor e subordinado, assim como pela percepção de que a chefia sabe melhor o que o trabalhador deve fazer. Há disposição para cumprir ordens, regras ou normas estabelecidas pela empresa. O consentir também pressupõe que haja concordância autêntica em decorrência dos processos de identificação entre os valores individuais e organizacionais. O consentimento representa um vínculo estabelecido pelo indivíduo com a organização, cujo cerne é a percepção em atender as demandas organizacionais que, nos diversos arranjos das hierarquias, se materializam pela voz do superior, especialmente do superior imediato (Silva, 2013, p. 63). Como resultado dessa nova pesquisa, constituiu-se a Escala de Consentimento Organizacional apresentada neste capítulo. O modelo teórico do construto, concebido inicialmente a partir de uma estrutura bidimensional, reuniu os construtos latentes de obediência e Aceitação íntima. Foram utilizados os 17 itens da versão preliminar da Escala de Consentimento Organizacional e acrescentados quatro novos itens, visando à ampliação da precisão do construto. Em sua versão final para aplicação, o instrumento submetido à validação empírica contou com 21 itens distribuídos entre as duas dimensões, sendo que para a dimensão OC foram 11 itens, acrescidos de quatro novos, totalizando 15 itens, e para a dimensão AI mantiveram-se os seis itens da escala preliminar. O novo estudo teve sua amostra constituída por 805 indivíduos, todos trabalhadores com vínculos formais com suas organizações/instituições, distribuídos em diversos estados do Brasil, sendo a maioria do Estado de São Paulo, seguidos daqueles da Bahia. Esse perfil amostral parece compor uma representação bem equilibrada entre duas grandes regiões do país (Sudeste e Nordeste), provavelmente contemplando distintos traços culturais inerentes a essas duas localizações geográficas. Em relação à amostra total, o nível de escolaridade foi considerado elevado, pois cerca de 80% dos trabalhadores tinham, pelo menos, o ensino médio completo. Para as Análises Fatoriais Exploratórias e de regressão foram utilizados o software estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) (versão 17.0), o método de extração PAF (Principal Axis Factoring) e rotação oblíqua (oblimin), e o método stepwise. Para as análises confirmatórias das dimensões do construto, foi utilizado o pacote estatístico AMOS (versão 16.0). Todas as técnicas aplicadas nesse estudo foram observadas visando à garantia da qualidade das análises, assim como de seus índices estatísticos (Field, 2009; Hair Jr., Anderson, Tatham, & Black, 2005; Kahn, 2006; Pasquali, 1999). A extração dos fatores foi realizada a partir do critério a priori (Hair Jr. et al., 2005). Um dos itens apresentou problemas com as cargas fatoriais; houve ambiguidade de conteúdo, e ele foi excluído, permanecendo 20 itens para as análises posteriores. Os dois fatores extraídos com autovalor superior a 2 respondem por 47,31% da variância acumulada, sendo que o primeiro fator (autovalor = 7,72) explica sozinho 36,74% da va- riância. Primeiro, foram consideradas as cargas fatoriais acima de 0,30; adicionalmente, dos 20 itens analisados, 14 apresentaram cargas acima de 0,50, comprovando que os valores das cargas fatoriais foram elevados e bastante satisfatórios (Hair Jr. et al., 2005). O Fator 1 reuniu os 14 itens referentes à dimensão Obediência, com cargas fatoriais que variaram entre 0,814 e 0,333. Nesse fator, foram agrupados os conteúdos que associam o papel do trabalhador ao de subordinado, àquele que cumpre ordens devido às relações de poder e autoridade que se estabelecem entre gestor e subordinado. Além desses conteúdos, também existe a percepção de que a chefia é quem melhor sabe o que deve ser feito pelo trabalhador. O Fator 2 foi composto pelos 6 itens associados à dimensão Aceitação íntima, os quais obtiveram cargas fatoriais entre 0,737 e 0,499. Essa dimensão representa os conteúdos relacionados ao processo de identificação do trabalhador com os valores e objetivos organizacionais; configura-se uma congruência genuína entre as ideias e crenças do indivíduo com aquelas da empresa à qual se encontra vinculado. Após a extração fatorial, foi realizada a avaliação da consistência interna dos dois conjuntos de itens pertencentes a cada um dos dois fatores, utilizando-se o cálculo dos índices dos Alphas de Cronbach, que apresentaram indicadoresmuito positivos. A dimensão Obediência obteve α de 0,89, e a dimensão Aceitação íntima, de 0,83. Apesar de a solução fatorial encontrada e de os níveis de confiabilidade indicarem índices psicométricos bastante satisfatórios, os autores decidiram elevar a precisão da medida um pouco mais, excluindo um item da dimensão Obediência que obteve menor carga fatorial, de valor inferior a 0,40. Com a eliminação desse item, o valor do α permaneceu 0,89. Dessa forma, todos os 19 itens que permaneceram para as análises seguintes obtiveram cargas fatoriais entre 0,416 e 0,814. Após as análises exploratórias e decisões metodológicas, a escala agrupou nove itens do Fator 1 e seis itens do Fator 2, com α respectivos de 0,86 e 0,82. Com base nesses resultados, foram realizadas as análises confirmatórias,7 cujos resultados confirmaram que a dimensão OC do consentimento apresentou covariância positiva e forte (0,61) com a segunda dimensão do construto (AI), prevista no modelo teórico desenvolvido. Entretanto, o conteúdo da dimensão Aceitação íntima muito se aproxima do componente ativo do comprometimento (Bar-Hayim & Berman, 1992), o que justificou o empreendimento de novas análises mais refinadas. Assim, foram realizados estudos de validade discriminante8 entre a dimensão AI do consentimento e a dimensão afetiva do comprometimento. Os resultados indicaram covariância alta e positiva (0,88) entre as dimensões AI do consentimento e a afetiva do comprometimento, sugerindo sobreposição entre as duas variáveis latentes. Ante os fortes indícios de sobreposição, novas evidências foram investigadas por meio de análises de regressão linear (stepwise), cujos achados ratificaram a condição de sobreposição entre as duas variáveis, fornecendo o suporte empírico necessário à retirada da dimensão AI do modelo teórico do consentimento organizacional, que inicialmente o integrava. Paralelamente, as evidências ratificaram que o consentimento é um construto unidimensional constituído, exclusivamente, pela dimensão doravante denominada consentimento. Ou seja, consentir pressupõe que o trabalhador tende a fazer, a cumprir o que lhe é demandado porque se sente na obrigação de fazê-lo, ante as relações de poder e autoridade que se estabelecem entre gestor e subordinado. O Quadro 6.1 apresenta o fator latente que constitui o fenômeno do consentimento nas organizações. Quadro 6.1 FATOR E DEFINIÇÃO DA VARIÁVEL LATENTE DA ESCALA DE CONSENTIMENTO ORGANIZACIONAL FATOR DEFINIÇÃO Consentimento O indivíduo se comporta de acordo com as ordens estabelecidas por seu superior hierárquico, representante da organização, pois entende que este é seu papel. Nesse sentido, não se considera responsável por nenhuma consequência, principalmente negativa, que possa advir de suas ações. As ordens podem ser cumpridas de maneira automática, sem uma avaliação ou julgamento a seu respeito. Elas também podem ser realizadas mesmo quando o trabalhador não compreende seu significado. O indivíduo faz o que foi estabelecido pelo seu superior, pois acredita que, estrategicamente, esta seria a melhor conduta naquela situação. ITENS DA ESCALA E OPÇÕES DE RESPOSTA A aplicação da ECO pode ser feita de forma individual ou coletiva, sem que ocorra a identificação dos respondentes. Faz-se imprescindível que os respondentes tenham compreendido as instruções e a forma de registrar as respostas. O nível de complexidade dos construtos analisados requer a priori que o respondente tenha, pelo menos, ensino fundamental, ainda que incompleto. É necessário assegurar que o ambiente de aplicação seja tranquilo e confortável, lembrando que o tempo de aplicação da ECO é livre. A ECO é uma escala unifatorial. O consentimento organizacional será um resultado decorrente da média aritmética dos itens do fator. Isso é feito somando-se os valores informados pelos respondentes em cada item do fator. Em seguida, divide-se o valor total obtido pelo número de itens do fator, isto é, divide-se o resultado por 9. Posteriormente, somam-se as médias de cada respondente e divide-se pelo número de respondentes. O resultado da média fatorial deverá ser sempre um número entre 1 e 6 (amplitude da escala de respostas). Para sua interpretação, deve-se considerar que quanto maior for o valor da média, maior é o vínculo do trabalhador baseado em obediência e adesão às normas da organização, parâmetros que podem ser mais bem visualizados na Figura 6.1. Figura 6.1 Parâmetros para interpretação dos resultados. Sugere-se que valores superiores a 4,5 (superior) possam indicar que os indivíduos fazem apenas o que lhes é solicitado, seguindo estritamente o que está estabelecido; o comportamento deverá estar restrito ao “cumprimento de ordens”, distante de um pensamento analítico e crítico, assim como de uma postura ativa para superar condições adversas, mesmo de seu cotidiano. Valores abaixo de 4,5 e até 3,5 (médio superior) apontam uma postura ativa, que busca analisar criticamente as situações, procurando a solução mais adequada para os problemas que vivencia no trabalho. Escores que se situam abaixo de 3,5 até 2,5 (médio inferior) indicam um indivíduo que se esforça para equilibrar o componente passivo, como o fiel alinhamento às ordens da empresa (do superior), com uma postura relativamente ativa, esforçando-se para não apenas cumprir a norma estabelecida. Já os escores menores que 2,5 (inferior) apontam uma conduta ativa, com comportamentos prossociais, que por vezes extrapolam as exigências organizacionais. ESCALA DE CONSENTIMENTO ORGANIZACIONAL – ECO A aplicação da escala deve ser introduzida com uma consideração inicial que induza o respondente a refletir sobre sua relação com a organização para a qual trabalha. Como os trabalhadores se relacionam com a empresa para a qual trabalham? Em que medida esses vínculos se estabelecem na empresa? Assim, explica-se que serão apresentadas várias frases sobre a realidade de trabalho do indivíduo e sobre a organização em que trabalha. Deve-se avaliar, com base na escala apresentada, o quanto o trabalhador concorda com a ideia apresentada ou o quanto ela descreve algo que ocorre com ele em seu trabalho atual. Quanto mais perto de 1, maior é a discordância; quanto mais perto de 6, maior é a concordância com o conteúdo da frase. 1. Se o chefe manda, a gente tem que fazer. 2. Os superiores têm autoridade, cabendo aos empregados apenas cumprir as ordens. 3. Mesmo quando as coisas me incomodam no trabalho, eu faço o que foi mandado. 4. Quando não concordo com uma ordem no trabalho, eu cumpro assim mesmo. 5. Como trabalhador, acho que devo sempre me sujeitar às regras e normas da empresa. 6. Eu sempre cumpro as ordens nessa empresa. 7. Cumpro as ordens que recebo porque meu superior sabe, melhor do que eu, o que deve ser feito. 8. Faço o que meu chefe manda porque acredito que é o mais correto a ser feito. 9. Acredito que, quando recebo uma ordem, a responsabilidade pelo que faço é do meu superior. Aplicações da escala A gestão de pessoas, grupos e equipes tem demandado cada vez mais esforços dos atores organizacionais responsáveis por práticas e políticas do capital humano, e esses, por sua vez, precisam de instrumentos e ferramentas de gestão que acompanhem as mudanças no mundo do trabalho e que apresentem índices de validade confiáveis. Ou seja, interessa aos gestores a realização de diagnósticos organizacionais, cada vez mais precisos, que possam fornecer subsídios para ações de melhoria, desenvolvimento ou mesmo a manutenção de planos estratégicos. A gestão de vínculos organizacionais pode se utilizar da Escala de Consentimento Organizacional. Sugere-se que a recomendação de sua aplicação seja realizada em conjunto com outras escalas mencionadas neste livro, a exemplo do comprometimento e do entrincheiramento organizacionais. Ou seja, o uso da ECO permitirá refinar o diagnóstico dos vínculos, diferenciando aqueles trabalhadores que são efetivamente comprometidos daqueles que se ajustam aos papéis prescritos na hierarquia organizacional.Assim, a ECO fornecerá dados que certamente podem complementar as informações requeridas pelos gestores, promovendo melhores condições para a gestão do comprometimento organizacional. De qualquer forma, para modelos de gestão contemporâneos, é necessário ressaltar que o desejável é que níveis elevados de Aceitação íntima sejam positivos, desde que a adesão às normas se dê pela concordância genuína com elas. Já níveis de Obediência que levem ao simples cumprimento de ordens e determinações, ou mesmo a comportamentos de resposta automáticos, não são desejáveis, pois vão de encontro a uma postura ativa por parte dos trabalhadores e a uma estratégia de gestão participativa, almejada em todas as organizações. O que se observa é a demanda por trabalhadores que apresentem um nível adequado de consentimento e que também apresentem um perfil ativo, contributivo e crítico ante as diversas solicitações que ocorrem em seu cotidiano. Na contemporaneidade e em muitas organizações, o trabalhador mais desejado é aquele que pode e quer participar ativamente em prol dos resultados organizacionais, cuja conduta profissional inclui competências técnicas e comportamentais. Uma importante contribuição dos dados gerados pelo uso da ECO consiste na avaliação indireta do estilo de gestão usado ou mais difundido na organização. Sem fazê-lo de forma direta, a escala fornece importantes elementos para identificar gestores que estimulam uma postura de obediência e servilismo entre seus colaboradores ou que podem, até, utilizar métodos coercitivos para manter o grupo atuando dentro das normas esperadas pela organização. Ao lançar luz sobre tais aspectos das relações no interior dos grupos ou das equipes de trabalho, o diagnóstico dos níveis de consentimento pode embasar políticas de qualificação e/ou requalificação dos gestores e lideranças organizacionais. Uma dessas ferramentas para o diagnóstico e a gestão dos vínculos indivíduo- organização é a ECO, instrumento que busca compreender como os trabalhadores se relacionam com a empresa para a qual trabalham. A aplicação da escala, tanto para situações de pesquisa como de diagnóstico, deve ser precedida de todos os esclarecimentos necessários em relação ao uso de seus resultados, garantindo sigilo absoluto aos respondentes quanto aos resultados individuais e respectiva utilização. Essa conduta também minimiza os efeitos potenciais do fenômeno da desejabilidade social durante a resposta a cada item. Sugere-se que os dados sejam analisados, senão em um único conjunto, ao menos em subgrupos de trabalhadores (equipes, setores, departamentos, gerências), permitindo um diagnóstico organizacional em relação a esse tipo de vínculo, o que frequentemente é realizado com a análise conjunta dos dados, e, acima de tudo, mantendo a lisura do sigilo, impedindo qualquer tipo de exposição individual de trabalhadores. REFERÊNCIAS Bar-Hayim, A., & Berman, G. S. (1992). The dimensions of organizational commitment. Journal of Organizational Behavior, 13(4), 379-387. Bastos, A. V. B. (1993). 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American Journal of Sociology, 66(1), 32-40. 1 Bastos, Siqueira, Medeiros e Menezes (2008) apresentam ampla revisão do comprometimento organizacional e escalas de medida para o fenômeno em suas distintas dimensões, validadas para o contexto brasileiro. 2 Compliance foi traduzido pelos autores como aquiescência, por acreditarem que esse termo melhor representa seu significado. Entretanto, outros autores brasileiros o traduziram como “submissão”. 3 Neste capítulo, os termos componentes e dimensões são utilizados de forma intercambiável. 4 Para uma melhor compreensão das críticas ao modelo tridimensional e aos caminhos apontados para sua superação, consultar Rodrigues (2009), Silva e Bastos (2010), Bastos, Pinho, Aguiar e Menezes (2011). 5 Nesse trabalho, Burawoy (2010, p. 17) parece utilizar o termo cooperação com o mesmo significado do termo consentimento. 6 Esta medida é resultado do trabalho de revisão e refinamento da versão preliminar da escala (Silva & Bastos, 2010). 7 Alguns dos indicadores e respectivos valores referentes ao modelo reespecificado: GFI = 0,919, AGFI = 0,889, NFI = 0,888, IFI = 0,906, CFI = 0,905, RMSEA = 0,076, RMR = 0,144, cujos parâmetros encontram-se na literatura referenciada (Hair Jr. et al., 2005). 8 Indicadores e respectivos índices referentes ao modelo reespecificado: RMR = 0,141, PGFI = 0,733, AGFI = 0,875, NFI = 0,884, CFI = 0,908, RMSEA = 0,063. http://www.pospsi.ufba.br/Ana_Carolina_Rodrigues.pdf 7 ENTRINCHEIRAMENTO ORGANIZACIONAL Ana Carolina de Aguiar Rodrigues Antonio Virgílio B. Bastos O interesse em gerir os vínculos dos indivíduos no trabalho é antigo e advém originalmente da necessidade de retenção dos empregados pelas organizações. Por décadas, essa demanda estimulou inúmeros estudos, internacionais e nacionais, que buscaram reunir fatores que explicassem a permanência do trabalhador. Após uma longa agenda de pesquisa, um modelo conceitual passou a se sobressair: o modelo tridimensional do comprometimento, proposto por Meyer e Allen (1991). O que esses autores fizeram foi um esforço de análise e sistematização da produção existente até aquele período, atribuindo três componentes ao construto de comprometimento organizacional: afetivo, normativo e de continuação ou instrumental. Uma das formas clássicas com que essas bases têm sido definidas faz alusão ao modo como ativam a permanência do trabalhador: a afetiva estimula sua permanência por desejo, graças à identificação com a organização; a normativa conduz à permanência por obrigação, orientada pela norma de reciprocidade; e a instrumental leva à permanência por necessidade, devido aos custos implicados na saída. Essa composição de bases de diferentes naturezas fez o comprometimento ser considerado também o antecedente de diferentes condições de permanência. Alguns autores (Bar-Hayim & Berman, 1992; Rodrigues & Bastos, 2010; Solinger, van Olffen, & Roe, 2008) passaram a destacar a existência, no conceito de comprometimento, de uma forma ativa e de outra passiva. Enquanto a primeira representa o vínculo do trabalhador que permanece contribuindo para a organização, a segunda o leva à permanência passiva, possivelmente ligada a comportamentos de negligência ou desinteresse pelos objetivos organizacionais. A incoerência de se considerar comprometidos trabalhadores com diferentes condições de permanência tem gerado dúvidas e dificuldades na gestão dos vínculos do indivíduo com a organização. Também as inconsistências empíricas observadas levam a impasses na gestão do comprometimento. Como supõem Rodrigues e Bastos (2010), um gestor que decidisse monitorar os níveis de comprometimento de sua equipe observaria que ações fortalecedoras do comprometimento afetivo estariam contribuindo para um menor comprometimento de continuação, e vice-versa. Além disso, notaria que trabalhadores com alto comprometimento de continuação e baixo comprometimento afetivo estariam propensos a menor satisfação e a menor fre quência de comportamentos de cidadania organizacional. Logo, esse gestor concluiria, assim como concluíram pesquisadores da área (Meyer, Stanley, Herscovitch, & Topolnytsky, 2002), que esse tipo instrumental do comprometimento não é desejável. Esses problemas de ordem prática e teórica estimularam novos estudos de delimitação dos vínculos com a organização. Os principais argumentos e análises empíricas indicam que o vínculo instrumental não deve ser considerado parte do comprometimento, mas deve ser representado por outro conceito, denominado entrincheiramento. O entrincheiramento organizacional é definido por Rodrigues e Bastos (2011) como a tendência do indivíduo a permanecer na organização devido às perdas associadas a sua saída, como benefícios, vantagens financeiras, investimentos no ajustamento ao cargo, redes de contatos, entre outras que restringem a percepção de alternativas de emprego que as supram. O processo de entrincheiramento (Fig. 7.1) pode ser iniciado desde a entrada do indivíduo na organização, orientado por suas expectativas prévias, que podem ou não ser atendidas durante o período de adaptação. Nesse período, o empregado apropria-se da função que vai desempenhar e passa a conhecer colegas, normas e valores da organização. Ao longo do tempo, recebe treinamentos e ajusta seus conhecimentos às atividades que precisa desempenhar. Também se adapta aos arranjos burocráticos da organização, os quais regem seu salário, benefícios, planos de aposentadoria, fundo de garantia por tempo de serviço, entre outros aspectos. Todos esses fatores passam a compor potenciais custos associados a sua saída, a depender de como o trabalhador os perceba. Ainda que os avalie como altos, tenderá a confrontá-los com suas alternativas no mercado de trabalho. Se perceber que há boas alternativas disponíveis que supram esses custos, o indivíduo não estará entrincheirado. Contudo, se acreditar que as alternativas são limitadas, a avaliação dos custos de saída será potencializada, levando ao entrincheiramento. Rodrigues e Bastos (2011) admitem que, mesmo entrincheirado, o trabalhador pode identificar-se com a organização e vincular-se afetivamente. A existência ou não desse vínculo afetivo é, segundo o modelo teórico, decisiva para a qualidade dos comportamentos do trabalhador em sua organização. Figura 7.1 Modelo de entrincheiramento organizacional. Fonte: Rodrigues e Bastos (2011). Embora o termo “entrincheiramento” tenha sido cunhado por Mowday, Porter e Steers (1982) como a última fase de desenvolvimento do comprometimento organizacional, Carson, Carson e Bedeian (1995) foram os responsáveis pela sistematização do conceito, direcionado ao foco da carreira. Para compor a base teórica desse novo construto, esses autores basearam-se na teoria dos side bets de Becker (1960), que a havia primariamente desenvolvido para explicar o que leva um indivíduo a manter seu curso de ação. Ao transpor o conceito de entrincheiramento para o foco organizacional, Rodrigues e Bastos (2011) pautaram sua definição nos desenvolvimentos realizados no campo das carreiras, na teoria dos side bets de Becker (1960) e nos argumentos de Mowday e colaboradores (1982). Foram propostas três dimensões (Fig. 7.2), a partir das quais Rodrigues e Bastos (2012) construíram a Medida de Entrincheiramento Organizacional (MEO). CONSTRUÇÃO E VALIDAÇÃO DA MEDIDA DE ENTRINCHEIRAMENTO ORGANIZACIONAL – MEO A Medida de Entrincheiramento Organizacional foi construída a fim de possibilitar maior precisão na análise dos vínculos dos trabalhadores com suas organizações. Tem comoobjetivo avaliar a percepção do indivíduo quanto aos fatores que compõem o processo de entrincheiramento. Quanto maior a percepção do empregado de que está adaptado à posição social e aos arranjos burocráticos, somada à avaliação de alternativas limitadas, maior a possibilidade de estar entrincheirado. Para a elaboração dos itens que compõem a MEO, foram seguidos os procedimentos recomendados por Pasquali (1999). A Figura 7.3 apresenta o fluxo de cada uma das etapas sugeridas pelo autor, bem como os métodos utilizados e produtos alcançados. A dimensionalidade ou estrutura interna do entrincheiramento organizacional foi concebida com base na teoria dos side bets (Becker, 1960; Carson et al., 1995; Mowday et al., 1982). Considerando que, até então, não havia trabalhos teóricos ou empíricos sobre esse construto com foco na organização, seu desenvolvimento conceitual foi o principal demarcador para a proposição e a definição das dimensões. Segundo Pasquali (1999), dois tipos de definições são possíveis: a constitutiva, por meio da qual as dimensões são definidas em termos de conceitos, tal como feito nos dicionários, segundo a teoria em que se inserem; e a operacional, quando os fatores são descritos em termos de operações concretas ou comportamentos que os expressam. Figura 7.2 Dimensões do entrincheiramento organizacional. APS: ajustamentos à posição social; ABI: arranjos burocráticos impessoais; LA: limitação de alternativas. Figura 7.3 Esquema de construção da Medida de Entrincheiramento Organizacional. Fonte: Rodrigues (2009) com base em Pasquali (1999). Em seguida, foi realizada uma ampla revisão de escalas já validadas e relacionadas aos fatores sugeridos para o entrincheiramento organizacional, sobretudo aquelas construídas para mensurar o comprometimento de continuação. Além disso, o grupo de pesquisa realizou discussões sobre os construtos, a partir das quais alguns itens foram esboçados, com base nas definições constitutivas e operacionais. Por fim, para a construção da medida, foram utilizados 19 itens elaborados pelo grupo de pesquisa (GP), seis itens provenientes da escala de Siqueira (1995, citado por Bastos, Siqueira, Medeiros, & Menezes, 2008), dois itens de Meyer, Allen e Smith (1993), dois itens de Rego (2003), um item de Powell e Meyer (2004) e um item adaptado de Carson e Carson (2002), totalizando 31 itens, dispostos em escala likert de 6 pontos (discordo totalmente a concordo totalmente). A opção por abranger um número de itens maior do que o necessário deveu-se à possibilidade de incluir itens de escalas validadas anteriormente. Paralelamente à coleta de dados para validação da medida, os itens foram submetidos a análise semântica, realizada por nove juízes da área da psicologia organizacional e do trabalho. Uma vez que essas etapas aconteceram de modo concomitante, a avaliação dos juízes foi considerada para a eliminação dos itens inapropriados. Dos 31 indicados inicialmente, 5 foram considerados insatisfatórios pelos juízes. Foram todos retirados da escala, com suporte empírico adicional após análise de validação. No primeiro estudo de validação (Rodrigues & Bastos, 2012), 721 trabalhadores de diversas organizações, estados e segmentos responderam aos questionários. Posteriormente, a escala validada foi submetida a uma análise de refinamento (Rodrigues, 2011), com o acréscimo de 927 casos ao banco, totalizando 1.648 trabalhadores, também de diferentes organizações brasileiras. O primeiro estudo procurou empregar procedimentos de validação, mantendo todos os 22 itens de qualidade da escala. O segundo estudo teve como finalidade a redução de dados, a fim de identificar a estrutura mais sintética da medida. Permaneceram 18 itens da estrutura inicial. Em ambos os trabalhos, as análises empregadas foram de natureza exploratória e confirmatória. A etapa exploratória utilizou método de extração PAF (Principal Axis Factoring) e rotação oblíqua (promax). As cargas fatoriais dos itens mantidos variaram de 0,36 a 0,76 (Rodrigues & Bastos, 2012). A etapa confirmatória empregou como método de estimação a Máxima Verossimilhança (ML), tendo em vista o tamanho da amostra e o caráter moderadamente anormal dos dados. Para a avaliação do ajuste dos modelos, foram considerados os seguintes índices e critérios: índices de ajuste comparativo (NFI, CFI, que devem ser superiores a 0,90, e RMSEA, que deve ser inferior a 0,08); índices de proporção da variância explicada (GFI e AGFI, esperados acima de 0,90); índice de parcimônia (PGFI, que deve estar próximo a 1,0); e índice de ajuste baseado em resíduos (RMR, que deve apresentar valores pequenos). Além disso, foi realizada, por Rodrigues e Bastos (2012), a validação cruzada, a fim de avaliar a estabilidade da solução fatorial obtida. O procedimento envolveu a divisão da amostra total em dois grupos aleatórios, buscando preservar as características demográficas similares. Em seguida, foi realizado um teste da “generalizabilidade” (traduzido do termo em inglês generalizability) da estrutura em amostras com características demográficas distintas, conforme sugerido por Laros (2005). Esses procedimentos ofereceram novas evidências de validade e de estabilidade da medida. Após a avaliação dos itens, foram realizados testes de consistência interna para cada dimensão. Salienta-se que, embora o Alpha de Cronbach seja frequentemente utilizado como indicador de confiabilidade, seus resultados são afetados pelo número de itens da escala ou por uma possível redundância entre itens (Clark & Watson, 1995; Cortina, 1993; Laros & Puente-Palacios, 2004). Por isso, esse trabalho adotou outros critérios de • • avaliação da consistência interna além do Alpha, como a correlação item-total (valores acima de 0,20 denotam um bom poder discriminativo) e a média de correlação inter-item (deve ajustar-se a um intervalo de 0,15 a 0,50). Rodrigues (2011) ainda empregou o critério da análise paralela de Horn, recomendado por Laros (2005) para obter maior exatidão do número de fatores. A análise confirmou a existência das três dimensões construídas teoricamente. A Tabela 7.1 apresenta as principais informações sobre o processo de validação e refinamento da medida. Tabela 7.1 RESULTADOS DO PROCESSO DE VALIDAÇÃO DA MEDIDA DE ENTRINCHEIRAMENTO ORGANIZACIONAL – MEO Dimensões Nº de itens iniciais Nº de itens validados Nº de itens após refinamento Alpha de Cronbach Média de correlações inter- item Correlações item- total APS 12 8 6 E1: 0,80 E1: 0,33 E1: acima de 0,41 E2: 0,78 E2: 0,37 E2: acima de 0,45 ABI 8 7 6 E1: 0,77 E1: 0,32 E1: acima de 0,41 E2: 0,76 E2: 0,35 E2: acima de 0,44 LA 11 7 6 E1: 0,79 E1: 0,36 E1: acima de 0,41 E2: 0,75 E2: 0,33 E2: acima de 0,41 Notas: E1= Estudo 1 (validação); E2 = Estudo 2 (refinamento). APRESENTAÇÃO DA MEDIDA: APLICAÇÃO, APURAÇÃO DOS RESULTADOS E INTERPRETAÇÃO DA MEO A aplicação da MEO pode ser feita de forma individual (para caracterizar o vínculo de um trabalhador com sua organização) ou coletiva (para investigar os tipos de vínculos predominantes na organização como um todo ou em setores específicos). O pesquisador ou aplicador devem garantir que as instruções sejam compreendidas pelos respondentes e que o ambiente de resposta seja propício à aplicação. Para sustentar as propriedades psicométricas da medida, é importante que as instruções, os conteúdos dos itens e a escala sejam preservados. Assim, a ausência de estudos mais aprofundados em regiões específicas do Brasil ou em outros países não garante que as características da medida se mantenham quando aplicada nesses contextos. Por isso, é recomendado, sempre que possível, que seja feita a verificação da consistência interna da medida. No caso de aplicação com trabalhadores de baixa escolaridade, são recomendadas adaptações na coleta dos dados, com utilização de escalas gráficas e recursos visuais. Para a definição da melhor estratégia de aplicação nessas condições, recomendamos a leitura de Borges e Pinheiro (2002). A apuração dos resultados deve levarem consideração a existência das três dimensões do entrincheiramento. Os itens da escala estão distribuídos da seguinte forma: Ajustamentos à posição social (APS) – itens 1, 5, 7, 11, 14, 16 Arranjos burocráticos impessoais (ABI) – itens 3, 6, 8, 10, 13, 18 • Limitação de alternativas (LA) – itens 2, 4, 9, 12, 15, 17 As análises dos dados empregadas podem caracterizar o vínculo de um indivíduo ou grupo, a partir da média aritmética dos itens de entrincheiramento organizacional. É possível também descrever as dimensões separadamente, a partir das médias dos seus respectivos itens. Como não há frases invertidas na medida, não são necessários procedimentos preliminares à análise dos dados, uma vez preparado o banco de dados. Para fins de interpretação dos níveis de entrincheiramento organizacional, partindo da escala likert de 6 pontos utilizada para mensurá-lo, recomenda-se que sejam considerados baixos valores entre 1,0 e 2,5, médios os valores superiores a 2,5 e inferiores a 4,5, e altos aqueles a partir de 4,5. Em algumas situações, os valores médios podem ser diferenciados entre médio inferior (maior de 2,5 e menor que 3,5) e médio superior (maior ou igual a 3,5 e menor que 4,5). A Figura 7.4 ilustra essa sugestão de análise. Por ser uma medida ainda recente, poucos trabalhos a empregaram até o momento. Ainda assim, as pesquisas existentes indicam boa estabilidade e precisão da medida para a caracterização do vínculo de entrincheiramento organizacional. Figura 7.4 Parâmetros para interpretação dos resultados obtidos a partir da MEO. Scheible (2011) investigou os níveis de entrincheiramento de 307 trabalhadores de uma empresa de tecnologia da informação de âmbito nacional. Utilizou uma versão reduzida da medida, com 17 itens e Alpha de Cronbach geral de 0,864. Encontrou uma baixa média de entrincheiramento desses trabalhadores considerados em sua totalidade (2,5). Observando as dimensões, a maior média foi para ABI (3,0), seguido de APS (2,44) e LA (2,17). Pinho (2009) investigou 268 trabalhadores distribuídos em duas organizações públicas (setor de tecnologia nos âmbitos federal e municipal) e uma do setor de comércio e varejo. Suas análises indicaram bons índices de consistência interna para as dimensões APS (0,839), LA (0,875) e ABI (0,858). Ao comparar as dimensões do entrincheiramento entre os grupos de trabalhadores das três organizações, encontrou maior APS e LA para os trabalhadores da empresa privada (3,4 e 3,2, respectivamente), em contraposição ao encontrado para a organização pública (2,56 e 3,11) e para a municipal (2,22 e 2,92). A média do ABI, contudo, foi maior para a organização federal (3,58) do que para a municipal (2,8) e a privada (2,85). MEDIDA DE ENTRINCHEIRAMENTO ORGANIZACIONAL – MEO A seguir, apresentamos várias frases sobre a sua realidade de trabalho. Como você avalia sua relação com a sua organização? Gostaríamos de saber o quanto você concorda ou discorda de cada frase, de acordo com a escala a seguir. Quanto mais perto de 1, maior é a sua discordância; quanto mais perto de 6, maior é a sua concordância. Lembramos que não há respostas certas ou erradas. Por isso, indique ao lado de cada item sua avaliação da ideia apresentada. 1. Se deixasse essa organização, sentiria como se estivesse desperdiçando anos de dedicação. 2. A especificidade do meu conhecimento dificulta minha inserção em outras organizações. 3. Os benefícios que recebo nessa organização seriam perdidos se eu saísse agora. 4. Meu perfil profissional não favorece minha inserção em outras organizações. 5. Sair dessa organização significaria, para mim, perder parte importante da minha rede de relacionamentos. 6. Sair dessa organização agora resultaria em perdas financeiras. 7. Se eu fosse trabalhar em outra empresa, eu jogaria fora todos os esforços que fiz para chegar aonde cheguei dentro dessa empresa. 8. Sinto que mudar de empresa colocaria em risco a minha estabilidade financeira. 9. Eu acho que teria poucas alternativas de emprego se deixasse essa organização. 10. O que me prende a essa organização são os benefícios financeiros que ela me proporciona. 11. Se eu fosse trabalhar em outra empresa, eu demoraria a conseguir ser tão respeitado como sou hoje dentro dessa empresa. 12. Uma das poucas consequências negativas de deixar essa organização seria a falta de alternativas. 13. Se eu fosse trabalhar em outra empresa, eu deixaria de receber vários benefícios que essa empresa oferece aos seus empregados (vale-transporte, convênios médicos, vale-refeição, etc.). 14. Se eu fosse trabalhar em outra empresa, eu levaria muito tempo para me acostumar a uma nova função. 15. Mantenho-me nessa organização porque sinto que não conseguiria facilmente entrar em outra organização. 16. Se eu fosse trabalhar em outra empresa, eu estaria jogando fora todo o esforço que fiz para aprender as tarefas do meu cargo atual. 17. Mantenho-me nessa organização porque sinto que tenho poucas oportunidades em outras organizações. 18. Não seria fácil encontrar outra organização que me oferecesse o mesmo retorno financeiro que essa. APLICAÇÕES DA ESCALA A Medida de Entrincheiramento Organizacional traz, para o cenário organizacional, a possibilidade de maior precisão do diagnóstico dos vínculos dos trabalhadores com suas organizações. É recomendada sua aplicação em conjunto com outras medidas de vínculos, como comprometimento e consentimento organizacionais. Dessa forma, a MEO viabilizará informações complementares aos gestores, para que possam gerir o comprometimento organizacional e monitorar os níveis de entrincheiramento dos trabalhadores. É importante relembrar que o entrincheiramento não é essencialmente um vínculo negativo ou oposto ao comprometimento, uma vez que ambos podem participar simultaneamente da configuração do vínculo de um trabalhador com sua organização. O modelo teórico do entrincheiramento organizacional, que é condizente com os resultados encontrados por Rodrigues (2011), indica que um trabalhador entrincheirado pode apresentar comportamentos contributivos para a organização, desde que combinado a um maior comprometimento organizacional. 1. 2. 1. 2. 3. Rodrigues (2011) também notou que o trabalhador comprometido, independentemente do nível de entrincheiramento, terá maior probabilidade de se empenhar e de defender sua organização. É desejável, pelas organizações, certo nível de entrincheiramento, que poderá reduzir as chances de o indivíduo deixar a organização. Os resultados dos primeiros estudos sobre entrincheiramento já permitem fazer uma breve reflexão sobre o papel das suas dimensões na constituição do vínculo. Embora sejam necessárias evidências empíricas adicionais sobre essas dimensões, os dados encontrados até o momento fundamentam duas hipóteses: um maior nível de entrincheiramento pautado em ajustes à posição social ou arranjos burocráticos poderá relacionar-se de forma positiva ou, ao menos, não impactar negativamente em comportamentos contributivos do indivíduo com a organização; um maior nível de entrincheiramento pautado na percepção de alternativas limitadas poderá relacionar-se de forma negativa ao comprometimento afetivo e a comportamentos contributivos. Portanto, parece desejável que as organizações continuem investindo em ações que estimulem certo nível de APS e de ABI, desde que não levem a um crescimento demasiado da percepção de que não há alternativas profissionais disponíveis. Isso deve ser considerado, por exemplo, para decisões ligadas às práticas de retenção. Gestores interessados em acompanhar e intervir nessas questões poderão fazer uso da MEO. Por ser uma medida pautada em escala de aplicação intervalar, a MEO pode ser empregada em diagnósticos dos vínculos. Três níveis de análise são sugeridos para a obtenção de informações necessárias para a gestão do entrincheiramento organizacional: Análises de caracterização do entrincheiramento, que têm como objetivo descrever o nível desse vínculo para um trabalhador ou grupo de trabalhadores.A hierarquização dos níveis para cada dimensão pode fornecer informações sobre os fatores que mais contribuem para o vínculo de entrincheiramento organizacional (se variáveis ligadas ao ajuste à posição social, ou ao retorno material recebido, ou mesmo à percepção de alternativas limitadas). De posse desses indícios, o gestor poderá planejar as ações necessárias para estimular o crescimento ou a redução do entrincheiramento organizacional. Identificação de padrões de entrincheiramento, comprometimento e consentimento organizacionais, aplicável nas esferas individual e coletiva. A compreensão da maior ou menor intensidade desses vínculos possibilita ao gestor entender as bases das relações estabelecidas pelos trabalhadores com a organização. Análises de correlação ou análises multivariadas, indicadas para organizações que desejam implantar programas de longo prazo para a gestão dos vínculos. Essas análises, se empregadas periodicamente, possibilitam ao gestor identificar o impacto das ações implantadas nos níveis de entrincheiramento dos trabalhadores. Dessa forma, essa análise é útil para oferecer indícios de eficácia das práticas de gestão de pessoas para o aumento ou a diminuição do entrincheiramento dos trabalhadores. Além de sua aplicação direta, os itens da MEO podem ser usados também de modo adaptado para a elaboração de roteiros de entrevista. Rodrigues, Gondim, Bastos e Sakamoto (2013) utilizou a escala como base para a elaboração do roteiro de entrevista que deu origem a um estudo da dinâmica dos vínculos com a organização. O uso da MEO certamente agregará a pesquisadores e a gestores importantes informações, que poderão ser a base para novos questionamentos, reflexões e ações para a gestão dos vínculos com a organização. REFERÊNCIAS Bar-Hayim, A., & Berman, G. S. (1992). The dimensions of organizational commitment. Journal of Organizational Behavior, 13(4), 379-387. Bastos, A. V. B., Siqueira, M. M. M., Medeiros, C. A., & Menezes, I. G. (2008). Comprometimento organizacional. In M. M. M. Siqueira (Org.). Medidas de comportamento organizacional: Ferramentas de diagnóstico e de gestão. Porto Alegre: Artmed. Becker, H. S. (1960). Notes on the concept of commitment. American Journal of Sociology, 66(1), 32-40. Borges, L. de O., & Pinheiro, J. Q. (2002). Estratégias de coleta de dados com trabalhadores de baixa escolaridade. Estudos de Psicologia, 7(Número Especial), 53-63. Carson, K. D., & Carson, P. P. (2002). Differential relationships associated with two distinct dimensions of continuance commitment. 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A aprendizagem, então, pode ser vista como um processo dinâmico, que gera mudanças na forma como uma pessoa vê, experimenta, entende e conceitua algo (Matthews & Candy, 1999). No contexto organizacional e do trabalho, o processo de aprendizagem tem por finalidade promover mudanças nos domínios cognitivo, psicomotor e atitudinal (Sonnentag, Niessen, & Ohly, 2004). Pode ocorrer tanto para responder a necessidades atuais do trabalho como para desenvolver competências relevantes para o futuro (Abbad & Borges-Andrade, 2004). Está geralmente associado a aspectos positivos do desempenho, embora nem tudo que um empregado aprende possa necessariamente beneficiar a organização na qual trabalha. A aprendizagem nas organizaçõesé geralmente associada a processos de treinamento, desenvolvimento e educação (TD&E). No entanto, as pessoas podem aprender também no próprio ambiente de trabalho, por meio de orientações recebidas de colegas, de observações que fazem acerca do comportamento dos outros e da reflexão sobre as consequências do seu próprio comportamento, entre outras estratégias comumente adotadas para promover informalmente a aprendizagem (Brandão & Borges-Andrade, 2011; Pantoja & Borges-Andrade, 2009). Estratégias de aprendizagem no trabalho podem ser entendidas como práticas que as pessoas utilizam para auxiliar a aquisição de conhecimentos e habilidades em seu contexto profissional (Holman, Epitropaki, & Fernie, 2001).1 Constituem esforços ativos do indivíduo para aprender algo no seu local de trabalho (Sonnentag et al., 2004). Abrangem atividades de processamento cognitivo, que são adotadas pelas pessoas para adquirir, armazenar, recuperar e aplicar conhecimentos em seu contexto profissional (Kardash & Amlund, 1991). Podem ser comportamentos e pensamentos nos quais a pessoa se engaja para promover a aprendizagem (Weinstein & Mayer, 1986). Estratégias de aprendizagem envolvem três aspectos (Pantoja & Borges-Andrade, 2009): a) b) c) a) b) compreendem atividades de processamento cognitivo facilitadoras da aquisição, retenção e recuperação de conhecimentos; englobam comportamentos empreendidos pelo indivíduo para promover a aprendizagem de conhecimentos e habilidades; podem contribuir tanto para a aquisição, a retenção e a recuperação de conhecimentos como para sua aplicação em diferentes contextos. Essas estratégias são mais frequentes em contextos organizacionais percebidos como oferecedores de maior suporte à aprendizagem (Brandão, Borges-Andrade, Puente- Palacios, & Laros, 2012; Pantoja, 2004). Procurando categorizar os diferentes tipos de estratégias utilizadas pelas pessoas para facilitar sua aprendizagem, alguns autores têm sugerido classificações específicas. Por exemplo, há uma taxonomia que compreende nove estratégias de aprendizagem distribuídas em três grandes categorias: cognitivas (reprodução, organização e elaboração de estruturas mentais); comportamentais (procura por ajuda pessoal, procura de ajuda em material escrito e aplicação prática); e de autorregulação (controles emocional, da motivação e da compreensão) (Warr & Allan, 1998). Um instrumento de pesquisa composto por 45 itens, abordando as nove dimensões sugeridas por esses autores, foi construído por Warr e Downing (2000). Seu propósito era diferenciar empiricamente aquelas nove categorias de estratégias de aprendizagem, revelar a existência de correlações entre elas e examinar o relacionamento delas com o sucesso da aprendizagem. O questionário foi aplicado em duas amostras, sendo uma composta por estudantes universitários e outra por participantes de um treinamento profissionalizante. As análises revelaram a existência de uma estrutura com oito fatores, tendo as estratégias de organização e elaboração se juntado em um único fator, denominado reflexão ativa. Os resultados mostraram que algumas estratégias, como controle emocional e controle da motivação, estavam negativamente associadas a ganhos de aprendizagem, em uma das amostras, sugerindo que a utilização delas não resulta, necessariamente, em melhor aprendizagem e que seu uso pode não ser útil para todas as pessoas (Sonnentag et al., 2004; Warr & Downing, 2000). Em escalas construídas posteriormente e validadas em contextos de trabalho, não foram incluídas variáveis relacionadas a estratégias de autorregulação, propostas originalmente naquela taxonomia, pois, em geral, estas não apresentam resultados consistentes na literatura sobre o tema que comprovem sua influência positiva sobre o êxito da aprendizagem (Holman et al., 2001; Pantoja, 2004; Zerbini et al., 2005). Este foi o caso, por exemplo, de uma medida desenvolvida e validada no call center de um banco britânico, por Holman e colaboradores (2001). Os autores encontraram as categorias relacionadas a seguir, sendo que as três primeiras constituem estratégias de aprendizagem cognitivas, enquanto as três últimas referem-se a estratégias comportamentais: Reprodução: repetição mental da informação, sem reflexão sobre seu significado; Reflexão intrínseca: elaboração e organização de estruturas mentais que relacionam partes componentes de um trabalho; c) d) e) f) a) Reflexão extrínseca: elaboração e organização de estruturas mentais que relacionam o trabalho a outros aspectos da organização; Procura de ajuda interpessoal: busca ativa pelo auxílio de outras pessoas; Procura de ajuda em material escrito: pesquisa e localização de informações em documentos, manuais, livros e outras fontes não sociais; Aplicação prática: experimentação, tentativa de colocar em prática os próprios conhecimentos enquanto aprende. No Brasil, uma escala de 30 itens sobre estratégias de aprendizagem foi validada em uma amostra de profissionais de diversas ocupações (Pantoja, 2004). Pantoja encontrou cinco categorias distintas de estratégias, tendo os itens relativos às estratégias aplicação prática e reflexão intrínseca se aglutinado em um único fator. Os demais fatores mantiveram semelhança com aqueles originalmente encontrados por Holman e colaboradores (2001). A escala elaborada por essa autora apresentou bons indicadores psicométricos (itens com boas cargas fatoriais e Alphas iguais ou superiores a 0,80 nos cinco fatores) e trouxe relevante contribuição para aprofundar estudos sobre o tema no País. Contudo, não permitiu discriminar empiricamente duas dimensões preconizadas como distintas na literatura (Holman et al., 2001; Warr & Downing, 2000): as estratégias de aplicação prática e reflexão intrínseca. Além disso, alguns itens das escalas desenvolvidas por Pantoja (2004) e Holman e colaboradores (2001) – representativos da estratégia de reprodução – careciam de aprimoramento, a fim de representarem melhor a ideia de esforço cognitivo empreendido pelo indivíduo para aprender algo em seu trabalho (Brandão & Borges-Andrade, 2011). Em decorrência disso, esses autores desenvolveram e validaram uma nova escala para medir o uso de estratégias de aprendizagem informal no trabalho, cujas características serão descritas nas próximas seções. A medida pode ser útil para condução de diferentes estudos e diagnósticos no campo do comportamento organizacional. Pode ser especialmente útil àqueles dedicados a identificar as estratégias de aprendizagem no local de trabalho que mais contribuem para a aquisição de conhecimentos, habilidades e atitudes e para o aprimoramento do desempenho profissional (Brandão et al., 2012). DESENVOLVIMENTO E VALIDAÇÃO DA ESCALA DE ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM NO TRABALHO2 A Escala de Estratégias de Aprendizagem no Trabalho constitui uma medida multidimensional, elaborada para avaliar a frequência com que as pessoas utilizam práticas para auxiliar a aquisição de conhecimentos e habilidades em seu próprio local de trabalho (Brandão & Borges-Andrade, 2011). Em sua fase de construção, foram elaborados 28 itens que descreviam práticas adotadas para aprender informalmente no ambiente de trabalho. Sua elaboração foi realizada com base em: proposições da literatura sobre o tema (Illeris, 2004; Sonnentag et al., 2004; Warr & Allan, 1998; Warr & Downing, 2000; e outros); b) c) escalas validadas anteriormente (Holman et al., 2001; Pantoja, 2004); análise de depoimentos de 20 gerentes de um banco, que, por meio de entrevistas, relataram livremente as práticas e os instrumentos que utilizavam para aprender no trabalho. O instrumento foi submetido à validação de conteúdo (testes de especialistas), ocasião em que cinco juízes (pesquisadores da área de comportamento organizacional) apreciaram os itens, a fim de verificar sua adequação para representar as estratégias de aprendizagem sugeridas por Holman e colaboradores (2001). Em seguida, realizou-se validação semântica, a fim de assegurar a compreensão dos itens, das instruções eda escala de respostas. Para sua validação estatística, o instrumento foi respondido por uma amostra de 881 empregados de agências bancárias espalhadas por todo o Brasil, os quais assinalaram a frequência com que utilizavam cada estratégia de aprendizagem em seu trabalho, utilizando uma escala de respostas de 10 pontos, que variava de 1 (nunca faço) a 10 (sempre faço). Os dados coletados foram submetidos à análise dos componentes principais e à fatoração dos eixos principais com rotação oblíqua (promax). Os cinco fatores assim extraídos explicavam 62,3% da variância e eram semanticamente interpretáveis. Representam as seguintes estratégias de aprendizagem no trabalho: reflexão extrínseca e intrínseca; reprodução; busca de ajuda interpessoal; busca de ajuda em material escrito; e aplicação prática. Uma diferença básica entre a estrutura empírica obtida e as seis categorias de estratégias de aprendizagem preconizadas por Holman e colaboradores (2001) é o fato de as variáveis representativas das estratégias reflexão extrínseca e reflexão intrínseca terem se unido em um único fator. Os cinco fatores extraídos revelaram boa consistência interna, produzindo índices de precisão (Alpha de Cronbach) que variaram entre 0,79 e 0,92. Dois itens foram eliminados. As cargas fatoriais dos itens retidos situaram-se entre 0,41 e 0,89. A Tabela 8.1 apresenta as denominações, as definições e os itens integrantes dos fatores. No fim deste capítulo, encontra-se a Escala de Estratégias de Aprendizagem no Trabalho, com as instruções, os itens e a escala de respostas. Tabela 8.1 DENOMINAÇÕES, DEFINIÇÕES E ITENS DOS FATORES DA ESCALA DE ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM NO TRABALHO Denominação Definição Itens Reflexão extrínseca e intrínseca Elaboração e organização de estruturas mentais que relacionam o trabalho do indivíduo com outros aspectos da organização ou que relacionam partes componentes de um trabalho. 6, 9, 10, 17, 18, 21, 22, 25 e 26 Procura de ajuda interpessoal Busca ativa pelo auxílio de outras pessoas. 1, 2, 13, 19 e 20 Procura de ajuda em material escrito Pesquisa e localização de informações em manuais, documentos, livros e outras fontes escritas, impressas ou não, fontes não sociais. 11, 12, 14, 15 e 16 Reprodução Memorização, repetição mental de informações, sem reflexão sobre seu significado. 4, 5, 7 e 8 Aplicação prática Experimentação, tentativa de colocar em prática os próprios conhecimentos enquanto aprende. 3, 23 e 24 APLICAÇÃO, APURAÇÃO DOS RESULTADOS E INTERPRETAÇÃO DA ESCALA DE ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM NO TRABALHO A aplicação da Escala de Estratégias de Aprendizagem no Trabalho pode ser realizada por meio de questionários autopreenchidos, isto é, aqueles que são lidos e preenchidos pelos próprios respondentes, sem a necessidade de intervenção ou orientação de terceiros. Isso permite que eles sejam aplicados pessoalmente, de forma individual ou coletiva, ou a distância, disponibilizando-se o instrumento por e-mail, correio ou por site na internet (ou intranet da organização) especificamente destinado à coleta dos dados. Caso a opção seja por aplicá-lo pessoalmente, é necessário assegurar que o ambiente de aplicação seja tranquilo e confortável. Não há tempo mínimo ou máximo para resposta, sendo utilizados, em média, cerca de 10 minutos para preencher o questionário. Independentemente da forma escolhida para aplicação do instrumento, é importante que os dados sejam coletados por meio da cooperação voluntária dos respondentes, sem qualquer desvantagem para eles, respeitando-se seu direito de privacidade e garantindo-lhes que as informações prestadas não serão utilizadas para finalidade diversa da enunciada. Depois da aplicação, é aconselhável fazer uma análise exploratória, procurando-se identificar eventuais questionários com respostas invariadas (aqueles em que o respondente assinalou a mesma opção para todos os itens da escala) ou com quatro ou mais respostas ausentes (mais de 15% de itens não respondidos). Questionários com essas características são sugestivos de que seus respondentes tiveram dificuldade para avaliar alguns itens ou de que o tenham feito sem muito critério ou precisão, sendo aconselhável desconsiderá-los. Pode-se, então, tabular as respostas e analisar os resultados, o que geralmente é feito com o uso de aplicativos estatísticos, como o Microsoft Excel e o SPSS (Statistical Package for the Social Sciences), por exemplo. O procedimento consiste em construir uma planilha eletrônica dispondo os respondentes nas linhas e os 26 itens do questionário nas colunas, de forma que as respostas de cada respondente a cada item possam ser transcritas para as células da planilha. Depois, basta empregar a estatística descritiva para analisar e apresentar os resultados. Como se trata de uma medida multidimensional, composta por cinco fatores, deve-se computar a média aritmética (medida de tendência central) das respostas de cada indivíduo em relação a cada fator do questionário. O cálculo do escore médio de cada fator é obtido somando-se os valores assinalados para cada um de seus itens e dividindo-se esse somatório pelo número de itens que compõem o fator. Assim, para cada respondente, serão obtidos cinco escores, um para cada fator da escala. Como a escala de respostas varia de 1 (nunca faço) a 10 (sempre faço), quanto mais próximo de 10 for a média, maior a frequência com que o respondente utiliza, em seu trabalho, a estratégia de aprendizagem. Em contrapartida, quando a média aproxima-se de 1, menor é a frequência com que a estratégia de aprendizagem é utilizada. Valores superiores a 9 indicam que a estratégia tende a ser sempre utilizada. Valores entre 7 e 9 revelam que a estratégia é frequentemente adotada, enquanto médias entre 4 e 6,9 indicam moderada frequência de uso da estratégia de aprendizagem. Valores entre 2 e 3,9 a) b) c) sugerem que a estratégia raramente é adotada, enquanto médias inferiores a 2 indicam que a estratégia tende a nunca ser utilizada. Para garantir que as propriedades de medida da Escala de Estratégias de Aprendizagem no Trabalho sejam preservadas, recomenda-se manter o formato e o conteúdo de suas instruções, itens e escala de respostas, conforme exposto adiante, no fim deste capítulo. Se alterado qualquer desses aspectos, não há garantia de se obter uma avaliação confiável e precisa do uso de estratégias de aprendizagem no trabalho. As estratégias de aprendizagem não são igualmente eficazes em promover a aquisição e a aplicação de competências no trabalho. O uso de certas estratégias nem sempre resulta no desenvolvimento e na aplicação de competências (Brandão et al., 2012; Warr & Downing, 2000). Tais estratégias podem não ser, necessariamente, eficazes para todas as pessoas, ocupações e organizações ou para o desenvolvimento de quaisquer competências (Moraes, 2010; Souza, 2009). Estudos realizados por Brandão e colaboradores (2012) revelaram, em contextos específicos de trabalho, que: competências para atuar em equipe e para atuar estrategicamente estão mais presentes entre indivíduos que utilizam com frequência estratégias de busca de ajuda interpessoal e de reflexão intrínseca e extrínseca para aprender, e que pouco utilizam estratégias de reprodução; conhecimentos e habilidades para realizar a gestão tecnopolítica de municípios estão mais presentes entre pessoas que utilizam frequentemente buscas de ajuda interpessoal e em material escrito e reflexão intrínseca e extrínseca; várias dimensões de competências necessárias para a gestão de agências bancárias estão mais presentes entre aqueles que efetuam reflexão intrínseca e extrínseca para aprender e que buscam ajuda em material escrito. Antes de estimular ou apoiar o uso de determinadas estratégias de aprendizagem informal no trabalho, é conveniente que a organização investigue quais delas são mais eficazes para o contexto profissional de seus empregados. Sabe-se, contudo, com alguma segurança decorrente de estudos realizados, que as percepções individuais e compartilhadasde suporte organizacional à aprendizagem (Pantoja, 2004) e ao desempenho (Brandão et al., 2012) são fortes preditoras dessas estratégias, sugerindo que tais aspectos precisam ser levados em conta no processo de gestão de pessoas. Considerando que o estudo relativo à temática das estratégias de aprendizagem em contextos de trabalho é recente e que não existe um amplo leque de investigações realizadas que ofereçam subsídios para essa gestão, o profissional deve ficar atento para o que tem sido recentemente publicado. Se possível, seria muito bem-vinda a realização de pesquisas sobre os preditores e as consequências do uso dessas estratégias, com base na medida aqui descrita. ESCALA DE ESTRATÉGIAS DE APRENDIZAGEM NO TRABALHO São apresentadas, a seguir, afirmativas que descrevem estratégias de aprendizagem que podem ser utilizadas pelas pessoas para aprender algo no seu trabalho. Por favor, leia atentamente essas afirmativas e avalie em que medida você utiliza essas estratégias no seu local de trabalho. Tais itens versam sobre o que você faz para adquirir novos conhecimentos e habilidades, e não sobre o seu desempenho profissional. Para responder cada questão, utilize a seguinte escala: Assinale com um “X”, à direta de cada afirmativa, o número que melhor representa a sua opinião sobre as estratégias de aprendizagem que você utiliza no trabalho. Por favor, não deixe questões sem resposta. Estratégias de aprendizagem no trabalho Frequência com que utilizo a estratégia 1. Busco ajuda dos meus colegas quando necessito de informações mais detalhadas sobre o trabalho. 2. Quando tenho dúvidas sobre algo no trabalho, consulto colegas de outras áreas da empresa. 3. Experimento na prática novas formas de executar o meu trabalho. 4. Para aprimorar a execução do meu trabalho, busco memorizar dados (número de rubricas, contas, transações em sistemas, etc.). 5. Para melhor execução do meu trabalho, procuro seguir sempre os mesmos procedimentos. 6. Analisando criticamente a execução do meu trabalho, tento compreendê-lo melhor. 7. Visando executar melhor minhas atividades de trabalho, busco repetir automaticamente ações e procedimentos memorizados. 8. Para executar melhor o meu trabalho, procuro repetir mentalmente informações e conhecimentos recém- adquiridos. 9. Quando faço meu trabalho, penso em como ele está relacionado ao negócio e às estratégias da organização. 10. Tento compreender como a atuação das diferentes áreas da organização influencia a execução do meu trabalho. 11. Quando tenho dúvidas sobre algo no trabalho, procuro ajuda em publicações, informativos, fascículos e relatórios editados pela organização. 12. Consultando informações disponíveis na intranet da organização, busco compreender melhor as atividades que executo no trabalho. 13. Peço ajuda aos meus colegas de equipe quando necessito aprender algo sobre meu trabalho. 14. Quando estou em dúvida sobre algo no trabalho, consulto normativos e instruções editados pela organização. 15. Para obter informações que necessito para o meu trabalho, leio informativos e matérias publicadas na agência de notícias. 16. Visando obter informações importantes à execução do meu trabalho, consulto a internet. 17. Para aprimorar a execução de minhas atividades, procuro compreender melhor cada procedimento e tarefa que faz parte do meu trabalho. 18. Busco entender como diferentes aspectos do meu trabalho estão relacionados entre si. 19. Procuro obter novos conhecimentos e informações consultando colegas de outras equipes. 20. Consulto colegas de trabalho mais experientes, quando tenho dúvidas sobre algum assunto relacionado ao meu trabalho. 21. Para melhor execução do meu trabalho, reflito sobre como ele contribui para atender as expectativas dos clientes. 22. Procuro compreender como meu trabalho está relacionado aos resultados obtidos nas diferentes áreas da organização. 23. Procuro aprimorar algum procedimento de trabalho, experimentando na prática novas maneiras de executá-lo. 24. Testo novos conhecimentos aplicando-os na prática do meu trabalho. 25. Busco compreender as relações entre as demandas feitas por outras áreas da organização e a finalidade do meu trabalho. 26. Tento conhecer como as diferentes áreas da organização estão relacionadas entre si. REFERÊNCIAS Abbad, G., & Borges-Andrade, J. E. (2004). Aprendizagem humana em organizações de trabalho. In J. C. Zanelli, J. E. Borges-Andrade, & A. V. B. Bastos (Orgs.). Psicologia, organizações e trabalho no Brasil (pp. 237-275). Porto Alegre: Artmed. Brandão, H. P., & Borges-Andrade, J. E. (2011). Desenvolvimento e validação de uma escala de estratégias de aprendizagem no trabalho. Revista Psicologia: Reflexão e Crítica, 24(3), 448-457. Brandão, H. P., Borges-Andrade, J. E., Puente-Palacios, K., & Laros, J. A. (2012). Relationships between learning, context and competency: A multilevel study. BAR - Brazilian Administration Review, 9(1), 1-22. Gagné, R. M., & Medsker, K. L. (1996). The conditions of learning: Training applications. Belmont: Wadsworth Group/Thompson Learning. Holman, D., Epitropaki, O., & Fernie, S. (2001).Understanding learning strategies in the workplace: A factor analytic investigation. Journal of Occupational and Organizational Psychology, 74(5), 675-682. Illeris, K. (2004). A model for learning in working life. 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S., & Abbad, G. S. (2005). Treinamento a distância via internet: construção e validação de escala de estratégias de aprendizagem. Anais do Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração – ENANPAD, Brasília. 1 Estratégias de aprendizagem constituem concepções distintas de estilos de aprendizagem. Enquanto as primeiras referem-se a práticas utilizadas pelas pessoas para auxiliar a aquisição de conhecimentos e habilidades no seu local de trabalho, os estilos compreendem as preferências das pessoas por determinadas estratégias, por aspectos do contexto em que ocorre a aprendizagem (p. ex., nível de ruído, temperatura e horário) e por formas de estudo (p. ex., individualUser Highlight User Highlight Grande parte das decisões gerenciais é tomada com base em algum tipo de diagnóstico, seja ele mais ou menos formal. Todo gestor, independentemente do seu nível hierárquico, percebe-se envolvido em um ciclo de diagnóstico-decisão-ação-avaliação. Da mesma forma que um médico, o gestor percebe algum tipo de sintoma, evidencia uma anomalia, observa um comportamento, ou é informado de um fato atípico. Essas evidências o fazem ventilar a necessidade de realizar uma investigação, uma análise mais acurada do que está ocorrendo, seja pela singularidade do fato observado ou pelas consequências presentes ou futuras. Ou seja, o diagnóstico normalmente parte de alguma evidência. É importante observar que essas evidências não significam necessariamente que o sistema (a organização, o grupo ou o processo de trabalho) encontra-se “doente” ou “quebrado”, que é absolutamente disfuncional. Em muitas situações, as evidências podem sinalizar apenas a necessidade de pequenos ajustes e correções. A partir dessa identificação, inicia-se o processo de planejamento daquilo que estará envolvido na realização de um diagnóstico organizacional e que condensa diversas ações, atores, processos e etapas. Contudo, assim como ocorre em uma anamnese, em que os sintomas mais evidentes sugerem a doença, mas não mostram necessariamente a totalidade do quadro clínico que pode se apresentar, as evidências iniciais capturadas pelo gestor sugerem uma situação, um problema a ser enfrentado, mas os seus contornos ainda precisam ser definidos, assim como os múltiplos e possíveis desdobramentos posteriores. Nesse contexto, o profissional que enfrenta a necessidade de aplicação prática do diagnóstico organizacional depara-se com dois problemas principais: o primeiro consiste em estabelecer que tipo de informação é relevante e deve ser coletada, diante de um grande número de alternativas possíveis em um contexto organizacional; e o segundo refere-se à necessidade de identificar um modelo de explicação da realidade que sirva de parâmetro para a interpretação e compreensão dos resultados encontrados, já que muitas vezes o problema principal está obscurecido por camadas de questões secundárias cuja solução específica não representa a solução do problema real. Um importante estudioso dos fenômenos organizacionais (Morgan, 1996) descreve esses dois passos como de produção de uma leitura diagnóstica do que está sendo investigado, em que são utilizadas diversas técnicas e metáforas para identificar ou ressaltar aspectos-chave da situação, que deve ser seguida por um processo de elaboração de uma avaliação crítica do significado e da importância das diferentes interpretações efetuadas (p.328). Esse é o motivo pelo qual Di Pofi (2002) nos lembra da importância de se buscar a redução dos vieses interpretativos e de coleta de informações antes mesmo do início do processo de diagnóstico, e que esse objetivo é atingido pela utilização de modelos e ferramentas que sejam simultaneamente robustas, desde uma perspectiva teórica, e afinadas, em função de sua aplicabilidade prática. Uma das vias por meio das quais essa compreensão pode ser obtida é mediante a utilização de um modelo conceitual que explique quais aspectos organizacionais são os mais importantes, como eles se relacionam e combinam ou de que maneira afetam outros fenômenos causando mudança (Nadler & Tushman, 1980). A necessidade de adoção de modelos conceituais para a realização de um adequado diagnóstico organizacional atende a cinco motivos principais: primeiro, modelos de User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight funcionamento sobre a organização fornecem um mapa que permite a categorização dos dados levantados, ao mesmo tempo que indicam a sua inter-relação; segundo, permitem a manutenção do foco de análise em questões que são consideradas relevantes para a compreensão e resolução do problema identificado, permitindo que eles sejam separados de tudo aquilo que é secundário ou irrelevante; terceiro, fornecem orientações sobre como os dados coletados podem e devem ser interpretados; quarto, facilitam o desenvolvimento de uma linguagem comum aos envolvidos no processo de diagnóstico e mudança; e, por fim, oferecem pistas sobre o que fazer e onde intervir diante dos problemas identificados. Uma vez que se tem estabelecido o modelo a ser adotado, o passo seguinte consiste na escolha das ferramentas de análise que serão utilizadas para coletar os dados, ou seja, o gestor precisa definir as medidas (escalas) que comporão os instrumentos de diagnóstico. Esse é um dos pontos essenciais desse processo, e o foco específico desta obra, pois permitem a identificação e o dimensionamento dos problemas que constituem o alvo da ação deflagrada. As ferramentas ou instrumentos, portanto, são os mecanismos de levantamento da informação relativa ao fenômeno a ser investigado. Ainda mantendo uma analogia com o diagnóstico médico, as ferramentas/medidas seriam os exames que indicam o estado de um determinado aspecto na organização, enquanto os modelos seriam os parâmetros que utilizamos para leitura e interpretação dos resultados dos exames, os quais permitem concluir se os dados encontrados estão localizados dentro ou fora dos limites esperados. Tendo em vista a centralidade das ferramentas no processo de avaliação, a seção a seguir faz uma breve descrição da forma de utilização de uma medida de diagnóstico. O QUE FAZER COM O DIAGNÓSTICO ORGANIZACIONAL Uma vez que o gestor entende o fenômeno que inicialmente tinha desper tado a sua atenção ou que alguém sinalizou a sua ocorrência, e após constatar que dispõe tanto de uma medida para fazer a sua avaliação como de um modelo para compreensão dos resultados, a fase seguinte é o levantamento de dados. Para a sua realização, aplica(m)-se a(s) medida(s) e analisam-se os dados, de acordo com os atributos daquilo que está sendo investigado. Mas o que fazer a partir desse ponto? Como utilizar as informações levantadas? A resposta a essa questão não é simples, porque as ações implementadas no meio organizacional também não o são. Talvez a melhor resposta seja: depende. Depende do aspecto mapeado e dos resultados obtidos. Mas, em termos gerais, uma ação de diagnóstico, se adequadamente conduzida, revela em que pontos uma intervenção é necessária, seja para melhorar os processos e as práticas organizacionais seja para mantê- los. Independentemente da ação a ser desenvolvida, deve ficar claro que levantar as informações e gerar um relatório, mas não implementar ações subsequentes, pode ser ainda mais prejudicial do que não realizar o diagnóstico. Em uma discussão sobre o processo de avaliação de desempenho, Peixoto e Caetano (2013) nos lembram que toda ação de avaliação (e o diagnóstico é um tipo de avaliação) desperta nos trabalhadores um User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight conjunto de expectativas em relação a alguma forma de mudança ou intervenção. Assim, buscando evitar a frustração de expectativas, é conveniente que somente aspectos sobre os quais se pretende intervir de alguma forma sejam avaliados (p.545). Isso significa dizer que a decisão de diagnosticar deve ser concomitante a de intervir. Desse modo, se não existe a firme decisão de intervir, não há razão para diagnosticar. Ao discutir as intervenções possíveis em equipes de trabalho, Tannenbaum, Salas e Cannon-Bowers (1996) mostram três caminhos principais que podem ser seguidos após um diagnóstico e, embora o foco de análise desses autores recaia especificamente nos segmentos intermediários da organização, são extensíveis ao cenário organizacional como um todo. Desse modo, atrelados às evidências trazidas pelo diagnóstico, diversos tipos de intervenção podem ser vislumbrados. Entreou em grupo). Ver Warr e Allan (1998) e Zerbini, Carvalho e Abbad (2005). 2 Autores: Brandão e Borges-Andrade (2011). 9 MEDIDA DE CONTRATO PSICOLÓGICO DE TRABALHO Mino Correia Rios Sônia Maria Guedes Gondim A palavra “contrato” deriva do latim contractus, que significa puxar juntos, apertar. O verbo “contratar” significa o ato de fazer um acordo oral ou escrito entre dois atores sociais com poder legal. O substantivo “contrato” designa o documento ou qualquer outra evidência concreta de um acordo entre duas partes. No contexto do Direito, o contrato visa a não apenas dar continuidade à relação empregado-empregador, como a proteger o empregado do poder do empregador, assegurando seus direitos. Conforme descrito no artigo 422 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), o contrato de trabalho é “o acordo tácito ou expresso correspondente à relação de emprego” (Carrion, 2006). O conceito de contrato psicológico de trabalho surge formalmente na década de 1960 a partir das publicações de Argyris (1960) e Levinson, Price, Munden, Mandl e Solley (1962) sobre as relações do empregado com a organização e as interações líder-liderado. Coincide com a afirmação de Schein (1965) de que os contratos psicológicos ocupam uma posição central na explicação do comportamento organizacional. Ao longo dos últimos 50 anos, o conceito vem crescendo em importância, visto o aumento do número e da diversidade de estudos. Além do foco na pesquisa, seu uso como ferramenta de gestão vem sendo cada vez mais valorizado, sobretudo no cenário internacional. Inicialmente, o conceito foi apresentado em uma nota de rodapé no livro de Argyris (1960) intitulado Understanding Organizational Behavior, em uma tentativa do autor de adaptar o conceito de Menninger (1958) de contrato psicoterapêutico nas relações entre psicanalistas e pacientes para as relações entre empregador e empregado. No fim dos anos de 1980, o conceito passa a ter mais destaque, quando Rousseau (1989), ancorada na literatura mais ampla de ciências sociais, reformula o conceito de contrato psicológico. Duas fases marcam a trajetória do contrato psicológico e orientam os estudos e as pesquisas sobre o tema (Conway & Briner, 2005; Menegon, 2010). A primeira fase, que compreende o período de 1958 a 1989, na qual se encontram os precursores do conceito, entre os quais se destacam Argyris (1960), Levinson e colaboradores (1962) e Schein (1965), foi um período de produção lenta e gradual, em que o conceito de contrato psicológico esteve mais associado à ideia de expectativas em relação ao trabalho. Levinson e colaboradores (1962) definiram contratos psicológicos como um conjunto de expectativas mútuas que regem as relações entre empregados e empregadores, das quais nem sempre os atores sociais têm consciência. A segunda fase teve início com a publicação dos estudos de Rousseau (1989, 1995), principalmente o artigo Psychological and implied contracts in organizations. Seus futuros trabalhos tornaram-se referência para diversos pesquisadores, dada sua importância para um reposicionamento do conceito de contratos psicológicos na literatura especializada. Para Rousseau (1989), os contratos, mais do que simples expectativas, envolvem um compromisso moral de deveres e direitos mútuos. Contratos psicológicos constituem um conjunto de obrigações e concessões recíprocas entre empregados e empregadores e que, embora não formalizados, orientam as ações futuras de ambos os atores organizacionais. Sob esse ponto de vista, os contratos passam a ser abordados de uma perspectiva cognitiva, em que a noção de esquemas é fundamental para sua compreensão (Rousseau, 2001). Esquema pode ser definido como uma estrutura cognitiva que controla a atenção e a subsequente reconstrução da memória (Bartlett, 1930; Fiske & Taylor, 1991; Sternberg, 2000). Sua função é organizar o conhecimento sobre uma pessoa ou situação, assim como as regras que influenciam o processamento da informação e orientam as ações. Outro aspecto que passa a demarcar o conceito de contratos psicológicos é o da reciprocidade, visto que para haver contrato é necessário que haja ao menos dois atores que estabeleçam um compromisso subordinado a regras do que compete a cada um fazer e oferecer. A despeito de encontrarmos linhas alternativas da concepção de contratos psicológicos (p. ex., Herriot, 1995; Kidder & Buchholtz, 2002; Kotter, 1973; Schein, 1965; Vroom, 1964), atualmente o modelo concebido por Rousseau apresenta-se predominante. No texto de 1995, que será referência para toda sua produção posterior, essa autora enfatiza três componentes de contratos: mutualidade, ou seja, a existência de dois atores que estabelecem um acordo sobre as obrigações recíprocas; esquemas, o que significa que os contratos psicológicos envolvem modelos por meio dos quais as pessoas organizam e interpretam a realidade ao seu redor; e promessas, por entender que os contratos psicológicos são norteadores da ação e orientados para o futuro. Com base na literatura jurídica e especificamente nos escritos de MacNeil (1985), Rousseau tomou emprestados os dois tipos mais conhecidos na literatura de contratos psicológicos: os contratos transacionais e os contratos relacionais. Os contratos transacionais fazem alusão a um tipo de relação instrumental ou econômica, em que o trabalhador faz apenas o que é pago para fazer, não querendo investir muitos recursos pessoais na organização e não criando muitas expectativas em relação a ela, enquanto os contratos relacionais fazem referência a um tipo de interação em que o trabalhador direciona seus principais recursos (cognitivos, motivacionais, atitudinais, etc.) para atender à organização, esperando que haja uma contrapartida, definida pelos deveres que essa organização teria para com ele. Em 1995, Rousseau desenvolve uma tipologia dos contratos com duas dimensões principais, o grau de clareza dos termos (específicos ou inespecíficos) e a duração do contrato (curto ou longo prazo). A combinação dessas dimensões se expressa em um modelo com quatro tipos de contrato: tipo transacional (específico e de curta duração), transicional sem garantias (inespecífico e de curta duração), balanceado (específico e de longa duração) e relacional (inespecífico e de longa duração). Embora o modelo de Rousseau (1995) seja amplamente referendado na literatura especializada, outros modelos de contratos psicológicos começaram a surgir com o intuito de aperfeiçoar o construto e oferecer parâmetros de mensuração mais detalhados. As duas escalas validadas e apresentadas neste capítulo foram baseadas no modelo de contrato psicológico desenvolvido por Sels, Janssens e Van den Brande (2004), que, por sua vez, se inspiraram nos escritos de Rousseau. O instrumento construído pelos autores para medir contrato psicológico é composto de duas escalas, ambas respondidas pelo empregado. A primeira escala inclui itens sobre o que o empregador pode esperar do empregado – por exemplo, “o empregador pode esperar que eu me ajuste facilmente às mudanças na situação do trabalho”, o que sinaliza as obrigações que o empregado tem para com a organização e o que ela pode esperar dele. A segunda escala apresenta itens relativos às expectativas do empregado em relação aos deveres do empregador para com ele – por exemplo, “espero que a organização descreva, sem ambiguidades, as minhas obrigações para com essa empresa”. Embora ambas as escalas sejam respondidas pelo empregado, a medida apreende as bases do contrato psicológico do empregado para com o empregador a partir das expectativas que o primeiro tem acerca das obrigações mútuas: da organização para com ele e dele para com a organização. Diferentemente da tipologia de Rousseau (1995), a medida de Sels e colaboradores (2004) apresenta seis dimensões, assim especificadas: tangibilidade (tangível ou intangível), descrita como o grau em que se percebe que os termos do contrato são definidos sem ambiguidade, de maneira específica e clara; escopo (largo ou estreito), definido como o grau em que o limiteentre as relações de trabalho e outros aspectos da vida pessoais se influenciam mutuamente; estabilidade (estável ou flexível), definida como o grau de limitação do contrato, em termos de sua habilidade de se transformar sem implicar renegociação dos termos; estrutura temporal (curta ou longa), relacionada às expectativas em termos de duração da relação entre as partes; percepção de simetria nas trocas (igual ou desigual), definida como o grau em que se percebe que as diferenças em relação às trocas estabelecidas são aceitáveis; e nível de regulação do contrato (individual ou coletivo), indicando a percepção do contrato como regulado individual ou coletivamente. Em resumo, Sels e colaboradores (2004) apresentam um modelo hexadimensional. O modelo inclui a dimensão estrutura temporal, presente nos estudos de Rousseau (1995), que define a expectativa em termos de duração temporal das trocas. Por sua vez, a dimensão tangibilidade deriva da teoria dos contratos de MacNeil (1985) e dos trabalhos de McLean Parks, Kidder, e Gallagher (1998), sendo definida pelo grau em que as relações de troca são percebidas como claras e transparentes. A dimensão escopo apoia-se na mesma fonte da dimensão anterior, sendo definida pela extensão em que a vida pessoal e a laboral exercem influência mútua. Já a dimensão estabilidade é definida pelo grau de aceitação de mudanças na relação de trocas. As duas últimas dimensões, percepção de simetria nas trocas e nível de regulação do contrato, são derivadas de estudos transculturais em contratos psicológicos (Rousseau & Schalk, 2000). Essas duas dimensões são, respectivamente: no primeiro caso, o quanto a hierarquia está internalizada sob a forma de direitos assimétricos por parte das lideranças; no segundo caso, o quanto se tem expectativas de um contrato psicológico regulado de forma coletiva ou individual. Os itens das duas escalas encontram-se exemplificados na Tabela 9.1. Cada uma dessas dimensões foi operacionalizada em termos das obrigações do empregador e do empregado. Os itens do empregado iniciam-se com “meu empregador pode esperar que eu”, ao passo que os itens do empregador começam com “espero que meu empregador”. Ambas eram respondidas mediante escala tipo likert de 5 pontos (variando de discordo totalmente a concordo totalmente). Os autores fizeram uso de Análises Fatoriais Exploratórias e Confirmatórias para avaliar o modelo hexadimensional proposto. Nas Análises Exploratórias, todos os itens apresentaram carga fatorial superior a 0,40. Em relação à Escala de Obrigações do Empregado, a variância explicada oscilou de 6,1 a 14,4%, com uma variância total explicada de 63,5%. Em termos dos índices de confiabilidade, medidos pelo Alpha de Cronbach, praticamente todos se mostraram com valores adequados: estrutura temporal (α = 0,76), tangibilidade (α = 0,78), escopo (α = 0,81), estabilidade (α = 0,79) e percepção de simetria nas trocas (α = 0,77). A dimensão nível de regulação do contrato não obteve bom indicador de confiabilidade (α = 0,57). No que se refere à Escala de Obrigações do Empregador, a variância explicada também foi elevada (6,5 a 14,2%, com uma variância total de 66%). Os valores de confiabilidade por meio do Alpha de Cronbach foram adequados para estrutura temporal (α = 0,79), tangibilidade (α = 0,82), escopo (α = 0,80), estabilidade (α = 0,70) e nível de regulação do contrato (α = 0,85). A única dimensão que sinalizou problemas para a confiabilidade foi a de percepão de simetria nas trocas (α=0,58). Tabela 9.1 EXEMPLOS DE ITENS POR DIMENSÃO DAS ESCALAS DE OBRIGAÇÕES DO EMPREGADO E DO EMPREGADOR Empregado Empregado Meu empregador pode esperar que eu ... Espero que meu empregador ... Estrutura temporal Me comprometa com essa empresa por um longo tempo. Se comprometa comigo por um longo tempo. Tangibilidade Estabeleça com clareza o que é importante para mim no meu trabalho. Faça acordos específicos considerando o meu trabalho. Escopo Trabalhe horas extras quando necessário. Me apoie pessoalmente em períodos difíceis. Estabilidade Me ajuste facilmente às mudanças na situação do trabalho. Mantenha os acordos mesmo se as circunstâncias mudarem. Percepção de simetria nas trocas Mostre respeito pelos meus superiores. Dê benefícios diferenciados para superiores e subordinados. Nível de regulação do contrato Queira fazer acordos individuais. Trate igualmente todos os empregados do mesmo nível. Fonte: Sels e colaboradores (2004). ESTRUTURA FATORIAL DAS ESCALAS NO CONTEXTO BRASILEIRO O processo de validação das escalas para o contexto brasileiro passou por algumas etapas (Rios, 2007). Inicialmente, procedeu-se à técnica de tradução-retradução, tendo em vista que o instrumento original apresentava-se em língua inglesa (Sels et al., 2004). O instrumento, então, foi testado por um grupo representativo do público-alvo para validação de sua adequação. Em seguida, foi efetuada uma validação de conteúdo com juízes e, por fim, o teste empírico das duas escalas para a averiguação de suas características psicométricas. A amostra utilizada para a validação foi composta de 351 trabalhadores de empresas públicas (22,2%) e privadas (77,8%) do estado da Bahia (região da Grande Salvador e Recôncavo) que atuavam no comércio e na prestação de serviços. A maioria dos respondentes era do sexo feminino (54,2%), com ensino médio completo (24,3%) ou superior em andamento (39%). A idade média era de 28 anos (desvio padrão [DP] = 8,97). O instrumento foi respondido com base em uma escala tipo likert de 5 pontos (1 = discordo totalmente a 5 = concordo totalmente). Foram definidos quatro fatores para cada escala, conforme apresentado nas Figuras 9.1 (Escala de Obrigações do Empregado) e 9.2 (Escala de Obrigações do Empregador). Em relação à Escala de Obrigações do Empregado, a solução incorporou fatores que explicavam ao menos 6% da variância, cada um, e itens com cargas fatoriais superiores a 0,40. Com isso, dos 23 itens originalmente propostos para essa escala, restaram 18. A variância total explicada foi de 52,22%, sendo que os índices de precisão se mostraram adequados para a correlação item-total, estando todos superiores ao ponto de corte de 0,3 (Kline, 1993). Os valores do Alpha de Cronbach variaram entre 0,62 e 0,76. Em relação ao Fator 3, encontrou-se suporte em Hair, Black, Babin, Anderson e Tatham (2009), que afirmam ser possível aceitar índices de confiabilidade a partir de 0,60. Meu empregador pode esperar que eu ... Fator Obediência Inv. pessoal Inv. profissional Flexibilidade O1 - Tolere mudanças quando introduzidas nessa empresa. O2 - Me ajuste facilmente às mudanças na situação do trabalho. O3 - Lide bem com os imprevistos nas minhas situações de trabalho. O4 - Acate a autoridade dos superiores. O5 - Adote uma atitude flexível. PE1 - Me comprometa com essa empresa por um longo tempo. PE2 - Permaneça nessa empresa por toda a minha carreira. PE3 - Me preocupe com essa empresa, mesmo fora do horário de trabalho. PE4 - Invista tempo e energia nessa empresa. PE5 - Queira me desenvolver nessa empresa. PE6 - Trabalhe horas extras quando necessário. PR1 - Indique claramente se surgirem problemas. PR2 - Indique explicitamente meus desejos e planos de carreira. PR3 - Estabeleça com clareza o que é importante para mim no meu trabalho. PR4 - Traga ideias próprias e criatividade para essa empresa. F1 - Tenha demandas individuais diferentes das de outros empregados. F2 - Queira fazer acordos individuais. Alpha de Cronbach 0,74 0,76 0,62 0,70 Número de itens 5 6 4 2 Média dos fatores 0,62 0,62 0,62 0,62 Variância explicada 52,22% Figura 9.1 Escala de Obrigações do Empregado para com o empregador. A Escala de Obrigações do Empregado ficou composta por quatro fatores (ver Fig. 9.1): Obediência, Investimento pessoal, Investimento profissional e Flexibilidade. Obediência diz respeito ao quanto o empregado está disposto a se ajustar às normas e regras organizacionais. Investimento pessoal está relacionado às atitudes e aos comportamentos que demonstremenvolvimento pessoal com a organização. Investimento profissional diz respeito às atitudes e aos comportamentos que demonstrem engajamento com a carreira e o desempenho competente no trabalho. Flexibilidade se refere ao reconhecimento de haver diferenças de demandas individuais na organização que exigem renegociação de contratos. Em relação à Escala de Obrigações do Empregador, a solução (Fig. 9.2) apresentou também quatro fatores, cada um com variância explicada mínima de 5,5%, variância total explicada de 48,88%, e cargas fatoriais superiores a 0,40. Nesse caso, dos 26 itens originais, 24 permaneceram. Os indicadores de precisão foram mais elevados, com a correlação item-total variando entre 0,40 e 0,68, e os valores do Alpha de Cronbach todos iguais ou superiores a 0,74. Os quatro fatores obtidos foram nomeados: Justiça procedimental, Reconhecimento pessoal, Reconhecimento profissional e Justiça distributiva. Justiça procedimental diz respeito à contrapartida oferecida pelo empregador às atitudes e aos comportamentos de obediência do empregado. Reconhecimento pessoal está relacionado à contrapartida da organização para com o investimento pessoal do empregado. Reconhecimento profissional diz respeito à contrapartida da organização para com o investimento profissional do empregado. Justiça distributiva se refere ao reconhecimento das diferenças de demandas individuais na organização que exigem que a organização ofereça possibilidades de renegociação de contratos. A Figura 9.3 ilustra o modelo conceitual e empírico que sustenta a composição de duas escalas para medir a estrutura de contrato psicológico. A análise da Figura 9.3 permite concluir que a medida de contrato psicológico aqui proposta tem como princípio a regra de reciprocidade sustentada em duas bases: investimento/reconhecimento e obediência/ justiça. O empregador pode esperar do empregado que ele invista pessoal e profissionalmente na organização, mas, em contrapartida, terá de oferecer oportunidades concretas de reconhecimento pessoal e profissional. O empregador também pode esperar obediência e flexibilidade a normas e princípios da organização, mas, em contrapartida, deverá adotar princípios de justiça procedimental e distributiva. Espero de meu empregador que ele ... Fator Justiça procedimental Reconhecimento pessoal Reconhecimento profissional Justiça distributiva JP1 - Descreva sem ambiguidade meus direitos nessa empresa. JP2 - Descreva sem ambiguidade minhas obrigações para com essa empresa. JP3 - Descreva especificamente o critério de avaliação de desempenho usado nessa empresa. JP4 - Seja bastante claro sobre as oportunidades de avanço nessa empresa. PE1 - Mantenha os acordos mesmo se as circunstâncias mudarem. PE2 - Me aprecie pelo que eu faço e quem eu sou. PE3 - Considere não só o resultado final, mas também o meu esforço pessoal. PE4 - Me apoie pessoalmente em períodos difíceis. PE5 - Me permita ser eu mesmo dentro dessa empresa. PE6 - Considere acordos feitos como permanentemente válidos. PE7 - Seja flexível ao aplicar os acordos. PE8 - Me trate como uma pessoa, não como um número. PR1 - Faça tudo que esteja em seu poder para manter-me empregado. PR2 - Se comprometa comigo por um longo tempo. PR3 - Não me demita imediatamente se as coisas estiverem indo mal. PR4 - Estabeleça acordos por escrito considerando o trabalho que realizo. PR5 - Me ofereça segurança no emprego. PR6 - Me ofereça transferência para outra função se minha função atual vier a desaparecer. PR7 - Me ofereça oportunidades para desenvolvimento de carreira. JD1 - Trate igualmente todos os empregados do mesmo nível. JD2 - Exija o mesmo de todos os empregados no mesmo nível. JD3 - Considere acordos como aplicáveis a todo grupo, departamento ou equipe. JD4 - Aplique os mesmos benefícios a todos os empregados domesmo nível. Alpha de Cronbach 0,81 0,78 0,75 0,74 Número de itens 5 8 6 4 Média dos fatores 0,73 0,57 0,58 0,72 Variância explicada 48,86% Figura 9.2 Escala de obrigações do empregador para com o empregado Figura 9.3 Reciprocidade nas obrigações dos empregados (em cinza) e nas obrigações do empregador. COMO INTERPRETAR OS RESULTADOS DA MEDIDA DE CONTRATOS PSICOLÓGICOS 1. 2. Em se tratando da interpretação dos resultados do instrumento aqui apresentado, é importante fazer algumas considerações. A ideia de contrato psicológico deixa implícita a noção de obrigações recíprocas. Dessa maneira, conforme exposto, vale o princípio de reciprocidade na compreensão do fenômeno. Esse mesmo princípio se aplica à interpretação dos escores, em que se avalia como as duas escalas se comportam em relação às obrigações recíprocas de cada ator. Para fins de avaliação, são considerados dois pontos: as expectativas em relação a cada um dos aspectos envolvidos; o quanto essas expectativas pesam mais para o empregado ou o empregador. Com isso, a avaliação toma por base a média dos itens que compõem cada dimensão, definindo um escore geral, que depois será usado para gerar o indicador de reciprocidade com base na seguinte operação: IR = OR – OE IR é o indicador de reciprocidade; OR se refere às obrigações do empregador; e OE, às obrigações do empregado. Em relação à amostra utilizada para investigar as evidências de validação, foram obtidos os resultados apresentados na Tabela 9.2. Os resultados sinalizam que, em termos da reciprocidade Investimento/Reconhecimento, os trabalhadores esperam maior reconhecimento pessoal do empregador, que, por sua vez, pode esperar maior investimento profissional da parte deles. Em relação à reciprocidade Obediência/Justiça, os trabalhadores esperam mais justiça procedimental e distributiva da parte do empregador, para que, em contrapartida, sejam mais flexíveis e obedientes. Em resumo, o diagnóstico do contrato psicológico da amostra que serviu de base para a validação da medida revela haver um desequilíbrio no contrato psicológico que exige ações de gestão. Espera-se mais do empregador do que ele parece estar oferecendo, e isso está relacionado principalmente à justiça distributiva e procedimental. Ações voltadas para aprimorar a justiça organizacional seriam bem-vindas para dar mais equilíbrio ao contrato psicológico. Tabela 9.2 INDICADORES DE CONTRATO PSICOLÓGICO DA AMOSTRA DO ESTUDO DE AVALIAÇÃO Escala de Obrigações do Empregador Escala de Obrigações do Empregado Relação entre as obrigações das escalas Sig. (p) Contrato psicológico IR Reconhecimento pessoal Investimento pessoal 0,20 (DP = 0,78) 0,000 Espera-se mais do empregador 3,96 (DP = 0,54) 3,76 (DP = 0,67) Reconhecimento profissional Investimento profissional -0,22 (DP = 0,69) 0,000 O empregado oferece mais 3,88 (DP = 0,62) 4,10 (DP = 0,58) Justiça distributiva Obediência 4,14 (DP = 0,66) 3,93 (DP = 0,58) 0,20 (DP = 0,80) 0,000 Espera-se mais do empregador Justiça procedimental Flexibilidade 1,13 0,000 Espera-se mais do a) b) c) 1,13 (DP = 1,02) Espera-se mais do empregador4,29 (DP = 0,57) 3,16 (DP = 0,96) Nota: Foi usado o teste t para comparação das diferenças das médias. Informações sobre teste t podem ser encontradas em Hair e colaboradores (2009). CONTRATOS PSICOLÓGICOS NA GESTÃO DE PESSOAS Algumas pesquisas sobre contratos psicológicos são mais frutíferas para orientar práticas de gestão de pessoas em organizações do que outras. Nesta seção, foram selecionadas algumas delas, a título de exemplificação, para que o leitor possa visualizar com mais clareza o alcance das medidas de contrato psicológico na gestão organizacional. Em um esforço para contribuir com as práticas de gestão dos contratos psicológicos e favorecer o compartilhamento de conhecimento entre empregados, O’Neill e Adya (2007) enfatizam que: estratégias de comunicação eficazes; treinamentos que promovam a troca de conhecimentos; inclusão de critérios de desempenho vinculados a recompensas pelo compartilhamento de conhecimentos, todos três estão negativamente associados à percepções de quebra de contrato psicológico (crença de que o empregador nãocumpriu suas obrigações) e, portanto, vão de encontro às expectativas dos trabalhadores. Em se tratando de novatos, práticas de socialização que fortalecem normas de compartilhamento de conhecimento, além da adoção de normas organizacionais de recompensas de trabalhadores que compartilham conhecimento, estão também negativamente relacionadas à percepção de quebra de contratos. Isso sinaliza a importância de ações de gestão com recém-admitidos. Por último, em relação aos candidatos a emprego, entrevistas de seleção que deixam em evidência a importância do conhecimento compartilhado e oferecem exemplos realísticos de como fazê-lo estão positivamente associadas a percepções de obrigações futuras para com o compartilhamento no trabalho. As pesquisas sobre percepção de quebra de contratos psicológicos oferecem muitas outras contribuições relevantes para a gestão. Restubog, Bordia e Bordia (2011), por exemplo, examinaram as implicações da ruptura do contrato psicológico e da qualidade da relação membro-líder no sucesso da carreira de jovens universitários canadenses e concluíram que a qualidade da relação membro-líder medeia o sucesso na carreira (avaliado em termos de promoção e aumento salarial). Um estudo das relações entre ruptura do contrato psicológico, estilo atribuicional hostil e comportamento desviante do empregado (interpessoal e organizacional) (Chiu & Peng, 2008) concluiu que a percepção de quebra de contrato está associada positivamente ao comportamento desviante do trabalhador. O estilo atribuicional hostil, definido como a tendência do trabalhador a atribuir seu desempenho negativo a causas externas, estáveis, controladas pelo empregador e intencionalmente causadas por ele, modera a relação entre ruptura do contrato psicológico e desvio do empregado (interpessoal e organizacional), de forma que quanto maior o estilo atribuicional hostil, mais forte essa relação. Um desafio para a gestão de pessoas são os trabalhadores de contrato temporário. Em um estudo com 67 empregados temporários de empresas suecas, Svensson e Wolvén (2010) concluíram que os trabalhadores desenvolvem contratos psicológicos tanto com gestores quanto com colegas de trabalho, sinalizando que os contratos psicológicos vão além da relação entre empregador e empregado. O estudo também revela haver novas subdimensões do contrato psicológico, chamadas de Camaradagem e Desafio/Desenvolvimento. O resultado aponta para a importância de se levar em consideração o contrato psicológico nas práticas de gestão de pessoas com os trabalhadores terceirizados. O comportamento contraprodutivo de trabalhadores (atos voluntários que violam normas organizacionais e são contrários aos seus legítimos interesses) é um desafio para os gestores de pessoas. São exemplos desses comportamentos desvio na produção, sabotagem, roubo e afastamento do trabalho. Um estudo desenvolvido por Jensen, Opland e Ryan (2010) procurou relações entre comportamento contraprodutivo, traços de personalidade, percepção de quebra de contrato psicológico e políticas organizacionais. A conclusão foi a de que a maior parte dos comportamentos contraprodutivos está associada com a percepção de quebra de contrato psicológico. A consciência das políticas organizacionais está negativamente associada à percepção de quebra de contrato, ou seja, quanto mais o trabalhador tem clareza das ações da empresa, menos percebe descumprimento de contrato da parte dela. GESTÃO DE CONTRATOS PSICOLÓGICOS E PRÁTICAS DE GESTÃO DE PESSOAS Esta seção tem como objetivo fazer algumas reflexões finais sobre a im portância da inclusão da gestão de contratos psicológicos nas práticas de gestão de pessoas, especialmente quando o trabalhador ingressa na organização. O contrato psicológico serve como modelo mental de representação do conhecimento que orienta as próprias ações no trabalho e interpretações das ações dos colegas, dos chefes e da organização. O investimento futuro do empregado na organização depende principalmente do reconhecimento de haver reciprocidade e compartilhamento mútuo dos deveres e direitos das duas partes envolvidas: empregador e empregado. A frustração em relação a esse acordo mútuo pode levar à perda de talentos, ao adoecimento e à exaustão emocional, à diminuição da lealdade, a reivindicações constantes e a comportamentos contraprodutivos. Torna-se importante, então, que a área de gestão de pessoas adote práticas que monitorem o contrato psicológico desde o momento em que o trabalhador ingressa na organização. A entrevista de seleção cumpre um papel fundamental na construção do contrato psicológico. Nessa etapa, já é possível construir uma relação empregado- organização que minimize as divergências e favoreça a convergência de expectativas, promovendo maior equilíbrio entre as ofertas e as contrapartidas que sustentam o vínculo do trabalhador com a organização. É no processo seletivo que a organização faz promessas • • sobre o que o empregado pode esperar dela, além de ter oportunidade de saber o que o empregado tem a oferecer (entregas). Essas informações permitem antever as possibilidades de compartilhamento de expectativas e estimar o nível de reciprocidade (trocas) (Höglund, 2010; Ven, 2004). A transparência dos critérios nos processos seletivos é essencial para que o candidato consiga antecipar quais seriam as bases do futuro contrato psicológico. Há evidências empíricas de que a competência do candidato em identificar os critérios dos processos seletivos melhora o automonitoramento da performance no referido processo e é um bom previsor de desempenho futuro no trabalho (Kleinmann et al., 2011). Dessa forma, fica evidente a importância da transparência do processo seletivo, nem sempre uma prática comum em consultorias e empresas privadas. Informações sobre o processo de trabalho, as possibilidades de crescimento e desenvolvimento de carreira, valores organizacionais, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e o ambiente social de trabalho ajudam o candidato a estimar suas chances de adaptação na organização. O candidato quer respostas imediatas sobre expectativas antecipadas de recompensas, sobre a cultura da organização, formas de socialização, políticas e práticas de gestão de pessoas. O empregador deve estar atento para oferecer expectativas realistas, manter canal aberto de negociação no processo de socialização, não prometer o que não poderá cumprir e deixar claro os critérios de desempenho esperado. Por que é importante gerenciar o contrato psicológico? Porque, por meio dele, é possível definir as dimensões que sustentarão o contrato, antecipar o estado de contrato psicológico, intervir em caso de percepção de quebra de contrato e evitar percepções de violação de contrato psicológico que terão impactos nas atitudes e no futuro comportamento do empregado. A literatura aponta que para cada perfil de empregado existe uma expectativa de contrato que requer práticas de gestão de pessoas específicas (Lepak & Snell, 2002; Slay & Taylor, 2007). Trabalhadores cujas tarefas são baseadas em conhecimento requerem práticas de gestão de pessoas com ênfase no comprometimento (recompensas simbólicas e aumento de autonomia). Aqueles trabalhadores cujas tarefas são operacionais demandam práticas de gestão com ênfase na produtividade (recompensas materiais e de desempenho). Trabalhadores com contrato temporário demandam práticas de gestão com ênfase em conformidade (recompensas por cumprimento de prazos, adequação da qualidade oferecida, etc.). Trabalhadores que atuam como parceiros requerem práticas de gestão de pessoas com ênfase na colaboração (ampliação das possibilidades de parcerias, novas alianças, etc.). Três condições de percepção de quebra de contrato psicológico devem ser foco do gerenciamento: Divergência: a organização pode oferecer o que o empregado espera, mas não há acordo sobre o modo de oferecer; Inabilidade: a organização sabe que seria importante, mas não pode oferecer o que o empregado espera; Indesejabilidade: a organização pode oferecero que o empregado espera, mas não o • • • • Indesejabilidade: a organização pode oferecer o que o empregado espera, mas não o deseja. Para finalizar, são apontadas três questões-chave para o gerenciamento do contrato psicológico no processo seletivo: Imagem da organização: como apresentar a organização no início do processo seletivo buscando atrair o candidato que desenvolverá o tipo de contrato esperado? Imagem do empregado: que informações obter do candidato de modo que se possa inferir o tipo de contrato a ser futuramente estabelecido? Prospecção de contrato psicológico: como antecipar possíveis percepções de quebra ou violação de contrato psicológico do futuro empregado para orientar os processos de socialização organizacional e as práticas de gestão de pessoas a serem adotadas? Cada organização deve procurar responder a essas questões a fim de adotar estratégias que permitam acompanhar a construção do contrato psicológico do empregado para com a organização e empreender ações efetivas que mantenham um justo equilíbrio nas relações de reciprocidade entre empregador e empregado. CUIDADOS ÉTICOS NA APLICAÇÃO DO INSTRUMENTO DE MEDIDA DE CONTRATOS PSICOLÓGICOS Neste capítulo, está sendo apresentada uma medida de contrato psicológico que permite avaliar o equilíbrio entre as obrigações mútuas (deveres) entre empregador e empregado na percepção do empregado. É importante frisar que a medida é respondida apenas pelo empregado, o que permite capturar somente a percepção do trabalhador. Ela é uma medida válida para a gestão de contratos psicológicos, porque viabiliza que a organização monitore a percepção do empregado e elabore políticas para atender mais adequadamente às demandas desse importante ator no cenário organizacional. Recomendam-se, então, alguns cuidados ao se fazer uso da medida. Ela poderá ser aplicada aos trabalhadores recém-admitidos na organização, para avaliar quais são suas expectativas iniciais em relação aos deveres da organização para com ele e dele para com a organização, além de replicada em outros momentos para fins de comparação. Isso permite construir contratos psicológicos em bases mais realistas, tanto para empregados quanto para empregadores. Para que cada trabalhador sinta-se à vontade em expressar seu ponto de vista, além de a medida ser efetivamente usada como instrumento de gestão e monitoramento de expectativas de empregados e empregadores, é fundamental assegurar o anonimato de cada trabalhador, para o que se sugere que os resultados sejam analisados em conjunto, subsidiando políticas de gestão de pessoas. Também é possível adicionar ao questionário dados sociodemográficos, para ajudar na compreensão mais ampla da diversidade na organização: cargos, sexo, idade, tempo na empresa, tempo no cargo, etc. ESCALA DE AUTOAVALIAÇÃO DE DESEMPENHO NO TRABALHO – EGDT Caro trabalhador, Este questionário tem como objetivo avaliar as suas expectativas sobre as obrigações e deveres nas relações entre empregadores e empregados. Essas informações serão de vital importância para a elaboração de políticas de gestão de pessoas na organização. O seu anonimato será assegurado, pois os resultados serão tratados em conjunto. Não existem respostas certas ou erradas para os itens apresentados a seguir, e pedimos sinceridade nas suas respostas. Serão apresentados dois conjuntos de itens. O primeiro diz respeito ao que a organização (empregador) pode esperar de você, e o segundo, o que você espera da organização (empregador). Leia cada um deles com atenção e marque, com base na escala de 1 a 5, o seu grau de concordância. Os resultados serão tratados em conjunto. Dúvidas e esclarecimentos adicionais favor entrar em contato com.......... Meu empregador pode esperar que eu... Tolere mudanças quando introduzidas nessa empresa. 1 2 3 4 5 Me ajuste facilmente às mudanças na situação do trabalho. 1 2 3 4 5 Lide bem com os imprevistos nas minhas situações de trabalho. 1 2 3 4 5 Acate a autoridade dos superiores. 1 2 3 4 5 Adote uma atitude flexível. 1 2 3 4 5 Me comprometa com essa empresa por um longo tempo. 1 2 3 4 5 Permaneça nessa empresa por toda a minha carreira. 1 2 3 4 5 Me preocupe com essa empresa, mesmo fora do horário de trabalho. 1 2 3 4 5 Invista tempo e energia nessa empresa. 1 2 3 4 5 Queira me desenvolver nessa empresa. 1 2 3 4 5 Trabalhe horas extras quando necessário. 1 2 3 4 5 Indique claramente se surgirem problemas. 1 2 3 4 5 Indique explicitamente meus desejos e planos de carreira. 1 2 3 4 5 Estabeleça com clareza o que é importante para mim no meu trabalho. 1 2 3 4 5 Traga ideias próprias e criatividade para essa empresa. 1 2 3 4 5 Tenha demandas individuais diferentes das de outros empregados. 1 2 3 4 5 Queira fazer acordos individuais. 1 2 3 4 5 Agora, utilizando a mesma escala, indique o quanto você acredita que seu empregador tenha as seguintes obrigações para com você. Espero de meu empregador que ele... Descreva sem ambiguidade meus direitos nessa empresa. 1 2 3 4 5 Descreva sem ambiguidade minhas obrigações para com essa empresa. 1 2 3 4 5 Descreva especificamente o critério de avaliação de desempenho usado nessa empresa. 1 2 3 4 5 Seja bastante claro sobre as oportunidades de avanço nessa empresa. 1 2 3 4 5 Me ofereça oportunidades para desenvolvimento de carreira. 1 2 3 4 5 Mantenha os acordos mesmo se as circunstâncias mudarem. 1 2 3 4 5 Me aprecie pelo que eu faço e quem eu sou. 1 2 3 4 5 Considere não só o resultado final, mas também o meu esforço pessoal. 1 2 3 4 5 Me apoie pessoalmente em períodos difíceis. 1 2 3 4 5 Me permita ser eu mesmo dentro dessa empresa. 1 2 3 4 5 Considere acordos feitos como permanentemente válidos. 1 2 3 4 5 Seja flexível ao aplicar os acordos. 1 2 3 4 5 Me trate como uma pessoa, não como um número. 1 2 3 4 5 Faça tudo que esteja em seu poder para manter-me empregado. 1 2 3 4 5 Se comprometa comigo por um longo tempo. 1 2 3 4 5 Não me demita imediatamente se as coisas estiverem indo mal. 1 2 3 4 5 Estabeleça acordos por escrito considerando o trabalho que realizo. 1 2 3 4 5 Me ofereça segurança no emprego. 1 2 3 4 5 Me ofereça transferência para outra função se minha função atual vier a desaparecer. 1 2 3 4 5 Trate igualmente todos os empregados do mesmo nível. 1 2 3 4 5 Exija o mesmo de todos os empregados no mesmo nível. 1 2 3 4 5 Considere acordos como aplicáveis a todo grupo, departamento ou equipe. 1 2 3 4 5 Aplique os mesmos benefícios a todos os empregados do mesmo nível. 1 2 3 4 5 REFERÊNCIAS Argyris, C. 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A seleção de pessoal e demais decisões sobre movimentação de pessoas no trabalho têm sido amplamente influenciadas por avaliações de personalidade. Sabe-se que as pessoas se adaptam de maneiras distintas às estruturas e aos arranjos organizacionais, com maior ou menor facilidade, e os esforços para compreender diferenças individuais relacionadas ao desempenho e à satisfação no trabalho acentuam o valor das medidas de personalidade (Hogan & Holland, 2003). A tradição de pesquisa que tem-se dedicado a explicar a relação entre atributos individuais e ambientes de trabalho é denominada adequação pessoa-ambiente (P-A). A hipótese central dessas investigações é a de que a adequação P-A é moderadora importante de consequências relevantes para a vida no trabalho. A tipologia desenvolvida por Holland (1997) de personalidades e ambientes de trabalho, e formulações teóricas associadas, tem sido o referencial dominante nessa área de pesquisa, ocupando lugar de destaque na literatura sobre gestão de pessoas (Robbins, 2008). Holland (1997) postula que as pessoas e os ambientes de nossa cultura podem ser caracterizados de acordo com seis categorias pessoais e ambientais, a saber: realista (R), investigativo (I), artístico (A), social (S), empreendedor (E) e convencional (C). A cada categoria corresponde um agrupamento de atributos de personalidade. Da mesma forma, os ambientes-modelo que caracterizam as situações ocupacionais (físicas, sociais e demandas de trabalho) também podem ser caracterizados por meio dessa tipologia, e a teoria preconiza que as pessoas buscam ambientes ocupacionais pertinentes à expressão de sua personalidade. Isto é, pessoas com inclinações predominantemente realistas irão procurar ambientes com essas características marcantes, de forma a maximizar suas possibilidades de satisfação e sucesso no papel de trabalho. Portanto, observa-se uma relação de reciprocidade entre pessoas e ambientes, na medida em que indivíduos procuram ambientes congruentes com suas características, e ambientes se constroem na dependência dos indivíduos que os habitam e dos tipos de atividades que desenvolvem nesses contextos. a) b) c) d) Adverte-se que, na verdade, cada indivíduo ou ambiente apresenta características de todos os seis tipos em maior ou menor grau, ainda que os atributos de um dado tipo possam predominar. A categorização de um indivíduo ou ambiente particular, portanto, não exige que apresente, de modo exclusivo, todos os traços usados para descrever um representante extremo ou ideal. A tendência é a de que os indivíduos tenham uma hierarquia de preferência pelos seis tipos de ambiente e apresentem um perfil tipológico particular. Holland (1997) pretende explicar como as pessoas fazem escolhas ocupacionais, o que as leva a mudar de trabalho e quais fatores pessoais e ambientais são mais importantes para a satisfação e a realização na carreira. De acordo com o modelo, a congruência entre o tipo pessoal e o ambiental irá influenciar a estabilidade e o sucesso em determinada ocupação. Em síntese, os seguintes postulados são fundamentais em sua teoria: a escolha de uma profissão é uma expressão da personalidade; os inventários de interesses são inventários de personalidade; os membros de uma categoria ocupacional têm personalidades similares, respondem de modo similar a muitas situações e problemas, e criam ambientes interpessoais característicos; a satisfação, a estabilidade e a realização no trabalho dependem da congruência entre a personalidade do indivíduo e o ambiente físico e social no qual trabalha. Os seis tipos de pessoa-ambiente são brevemente descritos a seguir. O ambiente realista envolve atividades práticas e concretas com o uso de máquinas, ferramentase materiais. É composto por pessoas interessadas em atividades operacionais que requerem competências manuais, coordenação motora e força física. Esses trabalhadores são motivados por realizações práticas e produtividade. Desse modo, é um ambiente que permite a expressão de valores práticos e concretos e estilos pessoais objetivos e diretos. O ambiente investigativo requer o uso de competências analíticas e verbais para a realização de atividades que implicam observação, investigação sistemática e criativa de fenômenos biológicos, físicos e culturais. São pessoas que buscam criar e usar o conhecimento em atividades intelectuais para a solução de problemas com objetividade e persistência. Pessoas nesses ambientes tendem a apresentar um estilo introspectivo e reflexivo. O ambiente artístico envolve trabalho criativo na música, na escrita, nas artes ou em atividades intelectuais desestruturadas. São ambientes que permitem maior liberdade de expressão, valorizando ideias e maneiras não convencionais e inovadoras. É composto por pessoas emocionalmente expressivas que preferem atividades ambíguas, livres e não sistematizadas, em que possam criar ou dar formas artísticas a diversos materiais e/ou manifestações culturais. O ambiente social demanda empatia, humanitarismo e sociabilidade, pois envolve o trabalho com outras pessoas de forma a ajudar, apoiar ou curar. É composto por pessoas que se preocupam com o bem-estar dos outros e que tendem a exibir comportamento solidário, amigável e gregário. Desse modo, esse tipo de ambiente requer competências interpessoais, habilidades para tratar, orientar ou ensinar outros. O ambiente empreendedor envolve atividades de venda, motivacionais e de liderança para alcançar metas pessoais e organizacionais, pois valoriza a iniciativa na busca de realizações financeiras e oportuniza a obtenção de posições de prestígio e status social. Portanto, tende a ser composto por pessoas de estilo assertivo, autoconfiante e ambicioso. O ambiente convencional abrange atividades que possibilitem a manipulação sistemática e ordenada de informações. Requer boa capacidade de organização para atender padrões definidos e precisos em tarefas estruturadas. É composto por pessoas que valorizam a realização econômica e a estabilidade na carreira. Os tipos de pessoa/ambiente foram organizados em um hexágono de forma a representar graficamente as proximidades e distâncias correlacionais entre eles (Fig. 10.1). Desse modo, o modelo de Holland (1997) também é conhecido como modelo hexagonal, bem como por modelo RIASEC (Realista, Investigativo, Artístico, Social, Empreendedor, Convencional) de interesses. Em termos operacionais, pessoas e ambientes podem ser avaliados quanto a sua similaridade com os seis tipos mediante uma variedade de instrumentos desenvolvidos por Holland e colaboradores (Gottfredson & Holland, 1996; Holland, 1985) e por outros (Harmon, Hansen, Borgen, & Hammer, 1994). No Brasil, a adaptação/validação desses instrumentos conta apenas com a versão recente do Self Directed Search (SDS – Quastionário de Busca Autodirigida) (Holland & Powell, 1994), produzida por Primi, Mansão, Muniz e Nunes (2010), com uso comercializado e controlado por direitos autorais. E, embora algumas pesquisas tenham sido realizadas com o modelo no âmbito da psicologia organizacional e do trabalho (p. ex., Magalhães & Gomes, 2005a, 2005b, 2007; Magalhães, 2012) e da orientação profissional (p. ex., Okino, 2009), pode-se dizer que sua divulgação e aplicação no Brasil são ainda incipientes. No entanto, constata-se sua ampla penetração no cenário internacional, descrita em tópico posterior. Nesse sentido, salienta-se que o modelo hexagonal de interesses se mostrou replicável e útil em diversas culturas (Einarsdóttir, Rounds, Ægisdóttir, & Gerstein, 2002; Farh, Leong, & Law, 1998; Glidden-Tracey & Parraga, 1996; Rounds & Tracey, 1996). Figura 10.1 Modelo hexagonal dos interesses ocupacionais de Holland. Este capítulo irá apresentar um inventário de interesses construído com base no modelo RIASEC. Acredita-se que a apresentação e a divulgação dessa medida, sem restrições de uso para pesquisa e intervenção, venham a contribuir como uma ferramenta conceitual e empírica de grande utilidade para o psicólogo brasileiro interessado nas relações recíprocas entre indivíduo e ambientes de trabalho. DESCRIÇÃO DA MEDIDA As Escalas de Interesses Vocacionais – EIV (Teixeira, Castro, & Cavalheiro, 2008) foram criadas com o objetivo de compor um instrumento breve para avaliar interesses vocacionais de acordo com o modelo de Holland (1997). A dimensionalidade do instrumento foi inspecionada por meio da Análise Fatorial das respostas de uma amostra de 857 sujeitos, dos quais 468 eram estudantes de ensino médio e 389 estudantes universitários. Os resultados confirmaram a estrutura esperada de seis dimensões, que correspondem à tipologia proposta por Holland (1997): Realista, Investigativo, Artístico, Social, Empreendedor e Convencional, conforme descrito anteriormente. No conjunto, as EIV são compostas por 48 itens, sendo cada dimensão avaliada por oito itens. A fidedignidade do instrumento foi verificada mediante o indicador de consistência interna Alpha de Cronbach. As escalas apresentaram índices considerados bons e muito bons: Realista (0,83), Investigativo (0,79), Artístico (0,78), Social (0,85), Empreendedor (0,74) e Convencional (0,80). Na análise de componentes principais, as cargas componenciais (máxima e mínima) observadas para cada uma das dimensões foram: Realista (0,80/0,42), Investigativo (0,75/0,45), Artístico (0,68/0,43), Social (0,79/0,52), Em preendedor (0,73/0,47) e Convencional (0,73/0,51). Como evidência de validade complementar, o instrumento mostrou-se capaz de discriminar grupos de estudantes universitários de diferentes cursos. Para cada dimensão foram estabelecidos pares de cursos contrastantes entre si (conforme julgamento de juízes conhecedores do modelo RIASEC), que foram então comparados quanto aos escores. Para todas as escalas observaram-se diferenças estatisticamente significativas nos pares contrastados. A escala de respostas é apresentada logo após as instruções em que o respondente é orientado a marcar seu grau de interesse pelas atividades descritas utilizando valores de 1 (“me desagrada muito”) a 7 (“me agrada muito”). Em seguida, os itens são apresentados. A escala exibe os itens que compõem o instrumento, na ordem sugerida de aplicação. O cômputo dos escores é feito pela somatória das respostas dadas aos itens de cada dimensão: Realista (itens 1, 7, 13, 19, 25, 31, 37, 43), Investigativo (itens 2, 8, 14, 20, 26, 32, 38, 44), Artístico (itens 3, 9, 15, 21, 27, 33, 39, 45), Social (itens 4, 10, 16, 22, 28, 34, 40, 46), Empreendedor (itens 5, 11, 17, 23, 29, 35, 41, 47) e Convencional (itens 6, 12, 18, 24, 30, 36, 42, 48). O escore em cada uma das dimensões, portanto, pode variar de 8 a 56, o que permite a obtenção de um perfil dos tipos de interesses predominantes para cada sujeito. a) b) c) d) O instrumento não requer treinamento específico para sua aplicação, que pode ser feita tanto individualmente como em grupo. É possível também disponibilizar as escalas na internet, para coleta de dados on-line. A interpretação dos resultados, contudo, exige conhecimento sólido da teoria de Holland (1997), além de experiência em aconselhamento de carreira, a fim de contextualizar os dados trazidos pelo instrumento. Considerando esses aspectos, no Brasil, a comercialização do SDS (Primi et al., 2010), o inventário de interesses baseado no modelo RIASEC mais utilizado no cenário internacional, é restrita a psicólogos. Na interpretação do perfil obtido, alguns aspectos podem ser foco de atenção: grau de diferenciação do perfil (se escores de algumas dimensões – geralmente as três com escores mais altos – se destacam como mais elevados do que os demais); grau de consistência do perfil (se as dimensões mais salientes são adjacentes no modelo hexagonal ou se aparecem em ladosopostos); nível global de interesses (um perfil plano de baixos escores pode ser sugestivo de estados depressivos, por exemplo); congruência entre interesses e ambiente (proximidade das características do indivíduo com as características do ambiente de trabalho em que está inserido). APLICAÇÕES No decorrer de sua história, os inventários de interesses baseados no modelo hexagonal RIASEC foram utilizados primariamente para auxiliar estudantes do ensino médio ou universitários na escolha de suas carreiras. Não obstante, Muchinsky (1999) já destacava o surgimento de novas aplicações das medidas de interesses ocupacionais. A premissa subjacente é a de que conexões podem ser feitas entre o planejamento estratégico da organização e o desenvolvimento de carreira do indivíduo, e inventários de interesse podem ser úteis nesse sentido. Por exemplo, o achatamento de estruturas organizacionais resultou no estreitamento de possibilidades de ascensão vertical, e, concomitantemente, organizações passaram a valorizar indivíduos com um entendimento das operações centrais do negócio desde diferentes perspectivas. Para desenvolver esse novo perfil de trabalhador, adotaram-se processos denominados “colocação sequencial”, “transição lateral”, entre outros (Muchinsky, 1999; Simonsen, 1997). Esses processos envolvem transições ou movimentos laterais de carreira, em que empregados circulam por áreas funcionais diversas dentro da mesma organização. Na teoria, tais procedimentos resultam em uma força de trabalho de múltiplas habilidades, o que parece ser um benefício óbvio para indivíduo e organização. Na prática, sabe-se que inúmeras dificuldades ocorrem. Muchinsky (1999) relatou um estudo de caso em que, no papel de consultor, foi solicitado a avaliar a adequação de candidatos internos para novas posições de trabalho em determinada organização jornalística. Entre outros fatores considerados nessa avaliação, a adequação P-A foi definida em termos de interesses ou personalidades vocacionais de acordo com o modelo hexagonal de Holland (1997). Os tipos convencionais foram avaliados como favoráveis a transições funcionais da contabilidade para o marketing, por exemplo, e tipos sociais moveriam-se facilmente de funções de administração para publicidade. Já tipos artísticos, particularmente aqueles com interesses artísticos e investigativos, não responderam favoravelmente à proposta de transições laterais. Estes últimos eram repórteres, escritores e editores do jornal, pessoas que acreditavam que seu trabalho era a razão pela qual os leitores compravam o periódico. Eles se consideravam vocacionados para suas funções, estavam profundamente identificados com suas atividades e rejeitavam qualquer movimento para outros departamentos e funções, mesmo diante de recompensas financeiras. Nesse sentido, na pesquisa brasileira de Magalhães e Gomes (2007), os tipos investigativos se mostraram mais identificados com suas carreiras e informaram maiores dificuldades para aceitar mudanças no conteúdo de seu trabalho. Por fim, a tipologia de Holland (1997) foi útil para definir uma matriz de provável mobilidade para os indivíduos avaliados, e a organização-cliente precisou aceitar que a maioria de seus empregados com inclinações artísticas, em contraste aos tipos convencionais, não estava disposta a participar do processo estratégico de treinamento funcional cruzado. Uma segunda aplicação da avaliação de interesses vocacionais nas organizações contemporâneas está relacionada à valorização do trabalho em equipe e das redes de trabalho. A ênfase na necessidade de um trabalho de base relacional ou coletiva colocou em xeque metodologias clássicas de recrutamento, seleção, treinamento, avaliação de desempenho e remuneração, que foram desenvolvidas tendo o indivíduo como foco (Brannick, Salas, & Prince, 1997; Paris, Salas, & Cannon-Bowers, 2000). A avaliação de competências técnicas, associadas a conhecimentos e habilidades, mostrou-se insuficiente para a compreensão do desempenho de equipes, e a compatibilidade interpessoal entre membros de equipe revelou-se um fator-chave. Essa adequação interpessoal está relacionada à congruência entre estilos pessoais ou de personalidade entre membros de uma equipe, expressa em interesses e valores de trabalho (Billsberry, 2007; Halfhill, Sundstrom, Lahner, Calderone, & Nielsen, 2005). Essa congruência tem importância na medida em que o sucesso do sujeito nos ambientes de trabalho geralmente depende das avaliações de seus pares, e estes avaliam o desempenho apresentado em termos de seus valores, interesses e inclinações próprias. Portanto, a chance de sucesso de um indivíduo eleva-se à medida que o ambiente no qual trabalha seja pautado por valores e expectativas similares ou, de algum modo, compatíveis com os seus. De acordo com Hogan e Blake (1999), os inventários de interesses identificam esses ambientes, pois informam sobre a adequação dos interesses do sujeito aos interesses dos seus parceiros potenciais no trabalho. Nesse sentido, alguns autores propõem que organizações avaliem o grau de adequação de potenciais membros de equipe por meio de dados de personalidade e interesses (p. ex., Billsberry, 2007). É importante salientar que adequação não significa, necessariamente, similaridade entre pessoas. A complementaridade tem sido apontada como aspecto igualmente importante. Na verdade, esses dois tipos de ajuste apresentam efeitos simultâ- neos sobre o desempenho no trabalho, e o melhor ocorre quando ambos estão presentes (Brito, 2012; Cable & Edwards, 2004). No caso relatado por Muchinsky (1999), o autor a) b) observou que as equipes no contexto da empresa jornalística eram, em sua maioria, compostas por uma combinação de tipos artísticos, convencionais e empreendedores. Os tipos artísticos concebem uma proposta geral criativa e original a ser desenvolvida, mas não desejam o fardo de detalhes operacionais. Os tipos convencionais preferem o trabalho com esses detalhes, assegurando que o projeto é viável tecnicamente, e os tipos empreendedores são mais interessados nas demandas do negócio como um todo, como prazos e orçamento. O autor esclareceu que, embora nem todas as equipes tenham sido avaliadas como de elevada competência, foi recorrente esse padrão característico de interações e estilos pessoais entre seus membros, e, portanto, o modelo RIASEC ofereceu uma base para compor equipes direcionadas a determinadas demandas organizacionais. Nesse sentido, observa-se uma atenção crescente dirigida para os atributos individuais que contribuem para a compatibilidade entre pessoas e o sucesso do trabalho em equipe (Peeters, Van Tuijl, Rutte, & Reymen, 2006; Tett & Burnett, 2003). O modelo hexagonal de interesses e ambientes ocupacionais também tem revelado grande utilidade para o planejamento de processos de seleção de pessoal. Hogan, Hogan e Roberts (1996) recomendam que critérios de seleção de pessoas sejam definidos por meio da caracterização dos tipos de ambientes ocupacionais de acordo com o modelo RIASEC, seguida da avaliação das dimensões da personalidade relevantes para cada ambiente. - Explica-se: a caracterização de determinado ambiente ocupacional permite estabelecer as características de personalidade que aumentam a chance de sucesso e satisfação naquele ambiente. Hogan e colaboradores (1996) sugerem um roteiro de duas etapas: classificação do ambiente de trabalho de acordo com a tipologia RIASEC; identificação das características de personalidade favoráveis a esse ambiente mediante o conhecimento das relações teóricas e empíricas consolidadas entre interesses e personalidade. Os autores exemplificam esse procedimento mediante a análise e a definição de critérios de seleção para o emprego de motorista de transporte de cargas. Essa atividade é classificada como realista-convencional (RC), um ambiente onde se espera que, entre outros aspectos, o trabalhador seja introvertido e atento a regras. A literatura sugere que pessoas de elevado desempenho em ambientes RC são disciplinadas ebons cidadãos organizacionais; contudo, não são bons líderes ou administradores, apresentam baixa motivação afiliativa e são carentes de habilidades interpessoais e de comunicação (Hogan et al., 1996). Em termos do consagrado modelo dos cinco grandes fatores de personalidade, as características associadas a esse perfil são elevada realização e estabilidade emocional e baixa sociabilidade e extroversão. Nesse sentido, Hogan e colaboradores (1996) observaram que o desempenho desses motoristas é predito por escores elevados em prudência e ajustamento e por baixos escores em sociabilidade. Ora, motoristas de transporte de cargas com elevada sociabilidade e/ou extroversão tendem a ser impulsivos, a necessitar de interação social quando esta pode ser prejudicial ou impertinente ao trabalho e não se adaptam a atividades solitárias. Assim, pesquisas posteriores corroboraram que o modelo hexagonal de interesses pode ser útil na definição de critérios de personalidade relevantes para a seleção de pessoas em diversas áreas e na verificação da adequação entre pessoas e ambientes de trabalho (p. ex., Anderson, Foster, Van Landuyt, & Tett, 2002; Shin & Holland, 2002; Tett & Burnett, 2003). Outra série de estudos defende que o modelo RIASEC é de grande valia para a caracterização de estilos de liderança pertinentes a diferentes ambientes de trabalho (Armstrong, Day, McVay, & Rounds, 2008; Busser, 2010; Driskell, Hogan, & Salas, 1987; Erickson, 2005; Hogan, Curphy, & Hogan, 1994; Hogan, Raza, & Driskell, 1988; Kachik, 2003). As equipes podem ser classificadas em termos RIASEC a partir da análise de suas tarefas essenciais e/ou dos interesses ocupacionais de seus membros. Os autores defendem que, por exemplo, equipes envolvidas em atividades e interesses realistas e convencionais (p. ex., policiais, atletas) preferem lideranças orientadas para a tarefa e tendem a rejeitar um estilo participativo, percebido como sinal de “fraqueza” da liderança. Já grupos empreendedores e sociais (equipes de gestão, professores do ensino médio) preferem processos interativos e participativos e rejeitam estilos orientados para a tarefa, percebidos como autoritários. De acordo com Hogan e colaboradores (1994), a conhecida tipologia de liderança de Fleishman e Harris (1962), constituída pelas dimensões de iniciação de estrutura (orientação para a tarefa) e consideração (orientação para pessoas), parece ser aplicável somente a grupos realistas, convencionais, empreendedores e sociais, e ainda pouco se sabe sobre o estilo de liderança mais adequado para grupos artísticos e investigativos (p. ex., companhias de teatro, equipes de pesquisadores), o que seria o equivalente a uma gestão da criatividade. Por fim, espera-se que a disponibilização da EIV incentive o estudo e a aplicação do modelo hexagonal RIASEC na pesquisa sobre a relação entre indivíduos e ambientes de trabalho no Brasil. Sabendo-se da extensa aplicabilidade das ideias de Holland (1997) em diversos subdomínios da psicologia organizacional e do trabalho, recomenda-se mais atenção a esses conceitos por pesquisadores e profissionais psicólogos brasileiros. ESCALAS DE INTERESSES VOCACIONAIS – EIV Instruções: Abaixo, há uma série de frases que descrevem variados tipos de atividades ou situações. Você deve avaliar, conforme sua opinião, o quanto lhe agrada ou desagrada cada atividade ou situação. Para cada uma das frases, escreva na coluna “Resposta” a alternativa que mais se aproxima à sua opinião de acordo com a chave de respostas abaixo. Você pode usar as opções 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7, dependendo do quanto lhe agrada ou desagrada a atividade ou situação descrita na frase (quanto mais perto de 1, mais lhe desagrada, quanto mais perto de 7, mais lhe agrada a atividade). Note que responder que uma atividade lhe agrada não significa que você deseja, necessariamente, trabalhar em uma profissão que envolva a atividade ou situação descrita (embora isso também possa ser o caso). Assinale apenas uma resposta por frase, e não pare muito tempo para pensar em cada resposta; a sua primeira impressão é o mais importante. Lembre-se de não deixar nenhum item em branco. Itens Resposta 1. Trabalhar com ferramentas ou máquinas. 1 2 3 4 5 6 7 2. Realizar pesquisas. 1 2 3 4 5 6 7 3. Desenhar ou pintar quadros. 1 2 3 4 5 6 7 4. Trabalhar com pessoas que necessitem de auxílio. 1 2 3 4 5 6 7 5. Investir em negócio promissor de alto risco. 1 2 3 4 5 6 7 6. Controlar os estoques em uma loja. 1 2 3 4 5 6 7 7. Montar aparelhos ou objetos. 1 2 3 4 5 6 7 8. Estudar o modo de viver em diferentes culturas. 1 2 3 4 5 6 7 9. Fazer trabalhos que requeiram expressão das emoções. 1 2 3 4 5 6 7 10. Desenvolver trabalhos voluntários. 1 2 3 4 5 6 7 11. Desempenhar tarefas em que possa comandar um grupo de pessoas. 1 2 3 4 5 6 7 12. Lidar com papéis em um escritório. 1 2 3 4 5 6 7 13. Construir ou reformar coisas. 1 2 3 4 5 6 7 14. Buscar explicações para fenômenos naturais ou sociais. 1 2 3 4 5 6 7 15. Criar propagandas para TV ou jornal. 1 2 3 4 5 6 7 16. Trabalhar para promover o bem-estar das pessoas. 1 2 3 4 5 6 7 17. Tentar convencer as pessoas sobre alguma coisa ou ideia. 1 2 3 4 5 6 7 18. Organizar a agenda de horários de um executivo. 1 2 3 4 5 6 7 19. Fazer coisas que requeiram uso de instrumentos e habilidades mecânicas. 1 2 3 4 5 6 7 20. Estudar as origens do universo. 1 2 3 4 5 6 7 21. Trabalhar com fotografia e vídeo. 1 2 3 4 5 6 7 22. Cuidar de pessoas. 1 2 3 4 5 6 7 23. Fazer coisas que exijam argumentação e debate. 1 2 3 4 5 6 7 24. Trabalhar com números e registros de uma maneira ordenada. 1 2 3 4 5 6 7 25. Construir coisas que sejam úteis para o dia a dia. 1 2 3 4 5 6 7 26. Descobrir como funciona a mente humana. 1 2 3 4 5 6 7 27. Cantar ou tocar instrumentos musicais. 1 2 3 4 5 6 7 28. Realizar atividades em que possa ensinar algo aos outros. 1 2 3 4 5 6 7 29. Exercer cargos de liderança. 1 2 3 4 5 6 7 30. Executar tarefas rotineiras. 1 2 3 4 5 6 7 31. Fazer trabalhos que exijam atividade física. 1 2 3 4 5 6 7 32. Examinar as causas das mudanças que ocorrem na sociedade. 1 2 3 4 5 6 7 33. Produzir coisas bonitas de se ver ou assistir. 1 2 3 4 5 6 7 34. Executar tarefas que exijam contato humano. 1 2 3 4 5 6 7 35. Lidar com atividades que exijam negociação. 1 2 3 4 5 6 7 36. Organizar arquivos. 1 2 3 4 5 6 7 37. Fazer trabalhos manuais. 1 2 3 4 5 6 7 38. Discutir temas científicos com outras pessoas. 1 2 3 4 5 6 7 39. Planejar a decoração de um ambiente. 1 2 3 4 5 6 7 40. Trabalhar com orientação de pessoas, assistência física ou mental. 1 2 3 4 5 6 7 41. Gerenciar um negócio próprio. 1 2 3 4 5 6 7 42. Trabalhar no caixa de um banco ou loja. 1 2 3 4 5 6 7 43. Consertar utensílios domésticos. 1 2 3 4 5 6 7 44. Ler trabalhos de filósofos ou outros intelectuais. 1 2 3 4 5 6 7 45. Dirigir um filme ou peça de teatro. 1 2 3 4 5 6 7 46. Realizar atividades que ajudem a melhorar a sociedade de algum modo. 1 2 3 4 5 6 7 47. Fazer coisas que exijam ambição. 1 2 3 4 5 6 7 48. Seguir uma rotina no trabalho. 1 2 3 4 5 6 7 REFERÊNCIAS Anderson, M., Foster, J., Van Landuyt, C., & Tett, R. (2002). Meta-Analytic investigation of personality and Holland’s RIASEC model. Poster presented at the 21st annual meeting of the Society for Industrial Organizational Psychologists, Dallas, TX. Armstrong, P. I., Day, S. X., McVay, J. P., & Rounds, J. (2008). Holland’s RIASEC model as an integrative framework for individual differences. Journal of Counseling Psychology, 55(1), 1-18. Billsberry, J. (2007). Attracting for values: An empirical study of ASA’s attraction proposition. Journal of Managerial Psychology, 22(2), 132-149. Brannick, M. T., Salas, E., & Prince, C. (1997). Team performance assessment and measurement: Theory, methods and applications. New York: Lawrence Elbaum Associates. Brito, F. S. (2012). Estilos interpessoais e participação em redes sociais em diferentes ambientes de trabalho (Dissertação de mestrado). Universidade Federal da Bahia, Salvador.Busser, D. 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Se há algo que estimula a curiosidade humana é saber as razões das diferenças individuais que evidenciam as preferências humanas (Gondim & Silva, 2014). Grande parte das razões da diversidade de conduta está relacionada ao processo denominado motivação, isto é, a um fenômeno psicológico básico de relativa complexidade e que não é diretamente observado. Seus efeitos, contudo, podem ser observados, e isso é especialmente importante no mundo do trabalho, pois ele supostamente dinamiza ou “energiza” as pessoas. Em vários campos de aplicação do conhecimento, observa-se forte interesse em relação à compreensão do processo motivacional. Gestores organizacionais buscam ter empregados motivados com seu trabalho, com sua equipe e com a organização a que pertencem; acreditam que altos níveis de motivação são capazes de melhorar o desempenho e garantir ganhos de produtividade. Os construtos motivacionais estão diretamente relacionados ao desempenho, conforme sinalizado na literatura nacional (Borges, Alves-Filho, & Tamayo, 2008; Queiroga, 2009; Zerbini, 2007) e internacional (Ackerman & Humphreys, 1990; Parker & Tuner, 2002; Sonnentag & Frese, 2002). A busca por satisfação e uma boa expectativa em relação ao desempenho tornam as pessoas mais dedicadas ao trabalho, pois podem atribuir significado a ele e podem satisfazeras propostas ventiladas estão, em primeiro lugar, as ações de treinamento e desenvolvimento, caso o diagnóstico sinalize carências em competências técnicas necessárias para o desempenho das tarefas. A preparação e o planejamento dessas ações devem obedecer aos princípios preconizados pelas contribuições dos teóricos e especialistas em treinamento, desenvolvimento e educação nas organizações. Portanto, é nessa fonte que o leitor deve beber o saber de que precisa para implementar ações de capacitação. Também pode ocorrer de os dados levantados revelarem problemas na esfera relacional. Falhas de comunicação, erros de interpretação, falta de habilidade para lidar com colegas que têm pontos de vista diferentes são exemplos desse tipo de anomalia. Perante situações como a descrita, os autores alertam que ações de treinamento podem não trazer os resultados desejados, pois as pessoas geralmente conhecem as regras de comunicação e de trato cordial, mas não conseguem aplicá-las. Assim, intervenções voltadas para o desenvolvimento de habilidades sociais seriam as mais indicadas, e deveriam ser propostas de acordo com o ponto específico em que as melhorias são necessárias, como melhor definição de papéis e responsabilidades, conhecer as atribuições dos demais, delimitar as responsabilidades comuns e compartilhadas, só para citar algumas possibilidades. Em terceiro lugar, os diagnósticos realizados podem evidenciar a necessidade de realizar ações voltadas para a redefinição de processos de trabalho. Nesse caso, seriam percebidas falhas na forma como o trabalho está sendo organizado, as quais podem resultar em consequências prejudiciais tanto para os atores envolvidos como para a organização. A redefinição da margem de autonomia de trabalho necessária ou, pelo contrário, a explicitação das exigências quanto à obediência de regras e normas constituem possíveis aspectos a serem focados nesse tipo de intervenção, que não mira nos trabalhadores, em primeira instância, mas na forma como o trabalho deve ser organizado, e, a partir disso, demanda mudanças na forma como os trabalhadores o desempenham. Podemos pensar, ainda, em um quarto aspecto que vale ser apontado e que diz respeito à necessidade de intervir, de maneira mais ampliada, nas práticas e estratégias organizacionais. Nesse caso, busca-se que a organização adote outra forma de atuação, por exemplo, na maneira como os gestores tratam os colaboradores, na atribuição de responsabilidades, na definição de papéis dos diferentes atores organizacionais. User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight A definição de possibilidades de intervenção precisa do domínio técnico das questões ora descritas, mas também demanda um profundo conhecimento da realidade organizacional. Assim, os trabalhadores que pertencem às áreas em que o problema foi diagnosticado devem ser ouvidos e convidados a participar da proposição das ações subsequentes. Como o leitor pode constatar, as propostas de intervenção ora ventiladas são vagas e genéricas. Isso porque cada organização e cada diagnóstico compõem uma novela com enredo diferente, portanto, o clímax e o epílogo necessariamente serão diferentes. Assim, o levantamento de dados mediante a ação diagnóstica virá mostrar uma parte, uma fotografia da situação da organização e algumas possibilidades de intervenção. Entretanto, a avaliação da pertinência desta ou daquela alternativa só pode ser feita à luz da especificidade do território mapeado. DESENVOLVIMENTO DE UMA MEDIDA Uma medida pode ser descrita como um conjunto de perguntas, afirmações ou cenários relativos a determinado atributo do âmbito organizacional. Pode focar na organização como um todo, nos grupos ou equipes, ou nos indivíduos, atores que dão vida às ações e administram os processos. Entretanto, elaborar uma medida não é redigir um conjunto de perguntas; trata-se de desenvolver estímulos que, em conjunto, produzem um padrão de resposta capaz de capturar um fenômeno previamente descrito e delimitado. Disso, depreende-se que o passo inicial para desenvolver uma medida seja a adequada definição daquilo que se pretende capturar, avaliar, medir. Por exemplo, se resolvemos elaborar uma medida de avaliação do nível de satisfação dos trabalhadores, necessariamente precisamos iniciar definindo o que seja satisfação, estabelecendo de forma clara o que significa estar satisfeito para a nossa avaliação. Nesse ponto é que o papel da teoria assume grande destaque e importância, pois existem várias formas diferentes de se definir satisfação (no contexto de trabalho) e, por esse motivo, pode haver também diversos tipos de medidas distintas para mensurar a satisfação. Análises dessa natureza são pertinentes para todos os fenômenos que ocorrem no contexto organizacional. É necessário ter em mente que existem sempre várias vertentes epistemológicas possíveis e não é comum que uma única perspectiva teórica tenha hegemonia absoluta e seja capaz de abarcar todas as dimensões dos fenômenos psicológicos e organizacionais em sua inteireza e complexidade. Uma vez definido o fenômeno de interesse e estabelecida a perspectiva teórica a partir da qual será entendido, é necessário estipular as partes constitutivas ou dimensões teóricas relevantes para o nosso diagnóstico e que, portanto, deverão ser medidas, avaliadas. Voltando ao exemplo da satisfação, podemos entendê-la como fenômeno composto por um único núcleo teórico (unidimensional) ou ainda como um fenômeno multidimensional (dois ou mais núcleos teóricos). No caso de compreendermos a satisfação como um fenômeno unidimensional, por exemplo, podemos perguntar a um trabalhador se ele está satisfeito com o trabalho que realiza, e essa indagação provavelmente atenderá aos nossos objetivos. Entretanto, pode-se argumentar que a User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight satisfação envolve um conjunto amplo de aspectos, como, por exemplo, remuneração, relação com colegas e com a chefia, e que uma abordagem unidimensional não explicita quais aspectos específicos são mais ou menos importantes para revelar a satisfação dos empregados. Neste último caso, estamos ante a uma compreensão multidimensional do fenômeno, o que nos obriga a lançar mão de um conceito compatível com essa especificidade e, nesse caso, a medida a ser criada (ou escolhida pelo profissional, caso ela já esteja disponível) deve cobrir a amplitude de aspectos definidos como seus componentes significativos. Conforme o leitor deve estar percebendo, a definição teórica da natureza do fenômeno de interesse, assim como das suas dimensões constitutivas, é de vital importância para enfrentarmos o desafio de construir/escolher uma ferramenta de diagnóstico. É a partir dela que podemos começar a dimensionar a medida, estabelecendo as suas principais características e até a sua possível extensão. Uma vez cumprida a etapa antes descrita, os itens podem ser elaborados. Esses, redigidos na forma de perguntas, afirmações ou cenários, devem cobrir a extensão do fenômeno e a amplitude das suas dimensões. Portanto, a natureza daquilo que vai ser mapeado deve estar refletida nas perguntas/afirmações realizadas. Essa é a razão pela qual as medidas de fenômenos organizacionais costumam ser compostas por vários itens que, em conjunto, compõem a escala. Ou seja, há necessidade (ou exigência) de cobrir os múltiplos aspectos estabelecidos pela teoria quando da definição de um fenômeno. Até este momento, foram definidos a vertente teórica em que se sustenta o diagnóstico a ser realizado, assim como os elementos constitutivos que devem estar presentes na medida (dimensões). Contudo, ainda é necessário prestar atenção ao fato de a medida a ser utilizada refletir adequadamente a lógica teórica que caracteriza o fenômeno a sersuas necessidades de crescimento (Parker & Tuner, 2002). A atribuição de significados aos diferentes eventos ou fatos sociais é inerente à natureza humana, e isso tem implicações em todas as esferas da vida em sociedade, entre elas as organizações (Borges et al., 2008). Os significados que os indivíduos atribuem ao seu trabalho estão associados às suas motivações, e ambos (significados e motivações) fazem parte do ambiente de trabalho. Quando um indivíduo agrega alto valor de motivação no trabalho, acredita que o esforço despendido vai resultar em um bom desempenho e que esse desempenho pode trazer benefícios. A Figura 11.1 busca sintetizar a discussão sobre os elementos existentes no ambiente de trabalho que podem influenciar o desempenho do indivíduo (Parker & Tuner, 2002). Os elementos da Figura 11.1 ressaltam a influência direta que as características dos indivíduos (motivação, conhecimentos e habilidades) exercem sobre o desempenho no trabalho. Justamente pela importância desses elementos, a figura chama ainda a atenção para a relação de moderação que os elementos do contexto (contingências organizacionais) também exercem sobre essas variáveis individuais. Ela sugere, ainda, a relação positiva entre motivação e aquisição de conhecimentos e habilidades. A importância da relação entre esses dois construtos é ressaltada por Pintrich (2003). Na revisão desse autor, elementos como o esclarecimento de objetivos instrucionais, a percepção sobre autoeficácia e fatores culturais e contextuais afetam sensivelmente a motivação dos alunos e, por sua vez, influenciam no processo de aprendizagem. Figura 11.1 Relação entre os elementos do contexto de trabalho e desempenho individual (setas largas representam relação de moderação). Adaptada de Parker e Tuner (2002). A especificação de resultados e objetivos claros no ambiente de trabalho, assim como o ambiente organizacional e seus elementos de contexto (tais como cultura, clima e suporte organizacional), serviriam para direcio nar a motivação dos indivíduos no trabalho (Ackerman & Humphreys, 1990; Queiroga, 2009). Ante a profusão de modelos emergentes na década de 1960 (ver a revisão de Kanfer, 1990), Vroom (1964) destacou-se pela tentati - va de apresentar um modelo teórico de motivação relacionado ao trabalho com foco em uma abordagem cognitivista de compreensão do fenômeno motivacional. O autor instiga a reflexão de que a motivação inclui experiências positivas e/ou prazerosas de eventos passados, mas que fundamentalmente ela se deve à interação das noções subjetivas de valência, instrumentalidade e expectância (ou expectativa) resultantes da avaliação do indivíduo, em um dado momento. Desse modo, seria possível definir a força motivacional por meio da relação entre esses três elementos em uma certa situação. No modelo teórico proposto por Vroom, conhecido como Teoria da Expectância, valência é definida como a preferência por determinados resultados do comportamento. Essa preferência seria a força de atração que uma pessoa teria em relação a um evento ou em relação à indiferença a determinados eventos. Em outras palavras, é o valor que um indivíduo atribui a determinado evento. O segundo componente do modelo é a instrumentalidade, definida pelo autor como a avaliação do sujeito de que o envolvimento com determinado comportamento levaria ao alcance dos possíveis resultados esperados. Em outras palavras, é a crença do indivíduo de que a realização de determinado conjunto de ações vai levá-lo a obter os resultados que deseja, ou será um instrumento para isso. O terceiro componente do modelo é denominado expectativa e refere-se à probabilidade subjetiva avaliada pela pessoa de que o resultado do comportamento possa lhe trazer algum tipo de benefício. Ressalta-se que essa avaliação probabilística é situada, ou seja, que existe uma série de circunstâncias que estão fora do controle do indivíduo, relativas ao ambiente, que influenciam sua avaliação. Em outras palavras, é o que ele espera que aconteça, levando em conta as informações de que dispõe. No contexto brasileiro, algumas tentativas de uso desse modelo de avaliação da motivação já foram realizadas. A motivação do indivíduo após treinamento tem uma relação maior com o resultado desse evento em curto prazo. Entretanto, à medida que o treinado distancia-se do fim do evento instrucional, seu comportamento passa a ser cada vez mais controlado pelo ambiente de trabalho, como demonstrou empiricamente Sallorenzo (2000). A instrumentalidade (avaliação do indivíduo de que seu comportamento levaria ao alcance dos resultados esperados) apresentou-se como preditora de impacto do treinamento no trabalho em longo prazo (Lacerda, 2002). Sabendo que os resultados de treinamento estão relacionados à mudança de comportamento do indivíduo no trabalho e que, portanto, se relacionam com seu desempenho, as conclusões de Salorenzzo (2000) e Lacerda (2002) reforçam a importância de se considerar a motivação como antecedente, quando é realizada uma avaliação de desempenho. A aplicação do referencial de Vroom para o estudo da motivação para o desempenho no trabalho é também incentivada pelos resultados positivos observados nos trabalhos recentes de Pilati (2004) e Ribeiro (2005). Há, ainda, os excelentes indicadores apontados por Borges e colaboradores (2008) para a medida de significado e motivação no trabalho. DESCRIÇÃO DA MEDIDA DE MOTIVAÇÃO PARA TRABALHAR O Inventário de Motivação e Significado do Trabalho (IMST) foi desenvolvido por Borges e colaboradores (2008), com a adoção da perspectiva proposta por Vroom (1964) de motivação por meio da expectância. Contém 171 itens que avaliam conjuntamente as dimensões de significado e motivação no trabalho. A Medida de Motivação para Trabalhar (MMT), aqui proposta, tem como objetivo apresentar uma alternativa ao IMST, com número reduzido de itens. Direciona o conteúdo do instrumento para o grau de motivação do indivíduo em desempenhar as tarefas que lhe são atribuídas. Com isso, tornará mais rápida a coleta de dados, quando o objetivo for o diagnóstico organizacional mais focado em aspectos do desempenho no trabalho. Para elaborar a MMT, foram desconsiderados todos os itens do IMST que medem o significado do trabalho e, ainda, realizada uma revisão no conteúdo dos itens de motivação. Por essa razão, além da validação por juízes e semântica, a MMT foi submetida a duas validações psicométricas. A primeira delas foi realizada em um estudo-piloto para verificar a necessidade de pequenos ajustes. Participaram 248 indivíduos pertencentes a quatro organizações distintas, sendo duas da administração pública (uma do governo federal e outra do governo distrital), uma relacionada ao fomento de pesquisa no País e outra vinculada a uma universidade pública federal. A segunda validação foi realizada com uma amostra mais robusta para a estimação dos indicadores de qualidade da medida, da qual participaram 1.617 trabalhadores de duas organizações, sendo uma do setor bancário e outra do setor petrolífero. O instrumento submetido à validação (nos dois estudos) era composto por 32 itens, em três blocos, sendo 12 de valência, 12 de instrumentalidade e 8 de expectativa. Os participantes utilizaram uma escala de resposta do tipo likert de 5 pontos, cujos extremos variavam de acordo com o conteúdo descrito em cada um dos três blocos de itens. Para a mensuração da valência, utilizou-se uma escala de importância, e, para a instrumentalidade, uma escala de utilidade. Para a expectativa, foi questionado ao respondente o quanto ele considerava provável alcançar, por meio do trabalho, o que estava descrito nos itens. VALIDAÇÃO PSICOMÉTRICA, APLICAÇÃO DA MEDIDA E APURAÇÃO DOS RESULTADOS Apesar de os indicadores de fatorabilidade serem adequados e de o scree plot apontar para a possibilidade de extração de até três fatores, a estrutura resultante não é interpretável do ponto de vista teórico, conforme já verificado em outras medidas de motivação desenvolvidas a partir do mesmo referencialdiagnosticado. Assim, voltando mais uma vez ao nosso exemplo, se o pesquisador parte do princípio de que a satisfação é um fenômeno que tem natureza cognitiva, as perguntas devem abordar as cognições (ou o que o trabalhador sabe ou pensa) sobre a organização. Entretanto, se a satisfação é entendida como tendo uma natureza afetiva, então esse aspecto é o que deve estar refletido nas perguntas agora voltadas para aquilo que o trabalhador sente em relação à organização. Embora possa parecer que na hora em que as perguntas foram elaboradas e revisadas, observando a natureza teórica do fenômeno de interesse, a tarefa esteja praticamente concluída, destaca-se que essa fase, na verdade, marca o início da pesquisa empírica de campo. Isso porque é nesse momento em que podem ter início as etapas relativas à avaliação da adequação da medida. O trabalho até agora realizado, relativo à criação da ferramenta de diagnóstico, reflete a delimitação teórica feita do fenômeno, assim como a geração das perguntas que compõem a escala com que se busca diagnosticar o aspecto antes definido. Desse ponto em diante, a pertinência da medida vai ser verificada junto àqueles que serão alvo da pesquisa: os respondentes. Cabe destacar que, entre a fase de criação das perguntas e a aplicação da escala aos trabalhadores, existem fases intermediárias de extrema importância, relativas à análise de adequação da medida para a avaliação daquilo que pretende mensurar, assim como a User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight User Highlight verificação de sua pertinência em relação ao público-alvo. Porém, o detalhamento dessas etapas foge ao escopo deste capítulo introdutório, portanto, recomenda-se que o leitor interessado consulte obras especializadas da área.* Uma vez definida a estrutura e o formato da medida, pode-se dar início ao processo de análise das suas propriedades psicométricas. Para tanto, faz-se imprescindível aplicar a escala a uma amostra de respondentes com características semelhantes ao grupo ao qual a medida é destinada, pois a análise antes referida só pode ser realizada a partir de um conjunto de respostas efetivamente recolhidas. É com base nelas que o pesquisador irá constatar em que medida o conjunto de itens elaborados demonstra, de fato, capturar o fenômeno da forma como foi conceituado. Ou seja, refletindo a sua natureza teórica e suas dimensões constitutivas. Conta-se, para tanto, com o auxílio de técnicas estatísticas que empiricamente revelam em que extensão a escala elaborada cumpre com o prometido, na amostra na qual foi aplicada. Conforme o leitor pode ver, a criação de uma medida constitui uma tarefa complexa, mas também esperamos evidenciar que a observância de elevado rigor nesse processo torna possível dispor de instrumentos úteis e adequados para um diagnóstico organizacional confiável. OBJETIVOS E ALCANCE DESTA OBRA Os atores organizacionais são os protagonistas centrais da trama que se desenrola diariamente em milhares de organizações mundo afora. Projetos, planos e metas são estabelecidos buscando ganhos de diversos tipos para os envolvidos. Muitos desses se tornam realidade para regozijo de alguns, enquanto outros tantos vão por água abaixo para desencanto de muitos. No mundo das organizações não existem soluções mágicas e mirabolantes. Os verdadeiros heróis e heroínas são os trabalhadores que fazem a organização possível. Lutam verdadeiras batalhas e podem resultar vencedores; mas não o farão sem ajuda. Precisamos nos envolver e aceitar que o caminho pode se tornar mais fácil se conhecermos e reconhecermos nosso território. É nesse ponto que entra em cena o diagnóstico. Ele nos permite identificar os pontos fortes, que devem se impulsionados, mas também pode revelar as fragilidades ou setores que demandam apoio e intervenção. O fato de poder conhecer os problemas abre a porta para a realização de mudanças, as quais devem ser dimensionadas de acordo com condições como severidade da falha identificada, momento da organização, disponibilidade de recursos e tempo com que se conta. Esses aspectos necessariamente precisam ser levados em consideração, mas não podem ser utilizados como justificativa para a inação. Devem servir para planejar adequadamente a intervenção, ponderando a magnitude do desafio. Ainda que não exista qualquer “mistério” relacionado à construção de medidas de diagnóstico para o contexto organizacional, entendemos que essa pode ser uma tarefa repleta de complexidade para o gestor que não tem treinamento específico na área ou não dispõe de recursos materiais e/ou humanos necessários para buscar o seu desenvolvimento. Assim, esta obra tem por objetivo fornecer ao seu leitor um amplo conjunto de medidas que foram desenvolvidas e avaliadas por pesquisadores da área de User Highlight User Highlight User Highlight psicologia organizacional e do trabalho (todos diretamente envolvidos na compreensão dos fenômenos que afetam o mundo do trabalho em vários contextos distintos), as quais são úteis por auxiliar na construção do diagnóstico próprio de cada organização, assim como na identificação dos problemas a serem enfrentados. Este livro encontra-se organizado em 21 capítulos. Cada um apresenta uma medida, uma ferramenta de diagnóstico específica. Elas variam no nível de aplicação e alcance. Assim, algumas focam em fenômenos no nível do indivíduo, outras no nível do grupo e outras, ainda, no nível organizacional. Cada medida vem acompanhada de uma sucinta apresentação que explicita as bases teórico-conceituais sobre as quais se sustenta. Nos capítulos seguintes, o leitor encontrará informações específicas sobre o processo de construção da ferramenta em si, a forma como ela foi desenvolvida, a natureza da sua estrutura interna, a indicação dos itens que a compõem e algumas informações básicas sobre suas principais propriedades psicométricas, de modo que possa avaliar adequadamente aquilo que está disponível para a sua utilização. Por fim, há uma seção, em cada capítulo, voltada para a explicitação da forma como a medida deve ser aplicada e das ações que podem ser realizadas com base nos resultados encontrados. Ainda que esta obra tenha sido concebida para ser utilizada, principalmente, por gestores no contexto organizacional, estudantes e pesquisadores das áreas relacionadas ao mundo do trabalho perceberão que podem se beneficiar enormemente dela, uma vez que as medidas agora disponibilizadas podem e devem ser utilizadas no dimensionamento de fenômenos específicos em suas próprias pesquisas e investigações. Este livro é fruto do esforço de cooperação desenvolvido por pesquisadores ligados ao Grupo de Trabalho Medidas e Internacionalização da Produção em Psicologia Organizacional e do Trabalho no Brasil, que se organiza no âmbito da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP). REFERÊNCIAS Bissell, B. L., & Keim, J. (2008). Organizational diagnosis: The role of contagion groups. International Journal of Organizational Analysis, 16(1/2), 7-17. Burke, W.W. (2011). Organizational chenge: Theory and practice. London: Sage Publications. Di Pofi, J. A. (2002). Organizational diagnosis: Integrating quantitative and qualitative methodology. Journal of Organizational Change Management,15(2), 156-168. Howard, A. (1994). Diagnostic perspectives in an era of organizational change. In A Howard (Org), Diagnosis for organizational change: Methods and models (pp. 3-25). New York: The Guildford Press. Morgan, G. (1996). Imagens da organização. São Paulo: Atlas. Nadler, D. A., & Tushman, M. L. (1980). A model for diagnosing organizational behavior. Organizational Dynamics, Autumn, 35-51. Naves, F. L., Mafra, L. A. S., Gomes, M. A. O., & Amâncio, R. (2000). Diagnóstico organizacional participativo: Potenciais e limites na análise de organizações. Revista Organizações & Sociedade – O&S, 7(19), 53-66. Pasquali, L. (2010). Instrumentação psicológica: Fundamentos e práticas. Porto Alegre: Artmed. Peixoto, A.de L. A., & Caetano, A. (2013). Avaliação de desempenho. In L. Borges, & L. Mourão (Orgs.), O Trabalho e as organizações: Atuações a partir da psicologia. Porto Alegre: Artmed. LEITURA SUGERIDA Tannenbaum, S., Salas, E., & Cannon-Bowers, J. (1996). Promoting team effectiveness. In M. A. West (Ed.), Handbook of work group psychology (pp. 503-529). Chichester: John Wiley & Sons. * Um trabalho particularmente interessante neste aspecto é o livro Instrumentação psicológica: fundamentos e práticas, escrito por Pasquali (2010) e publicado pela Artmed. Lá, o leitor encontrará a descrição minuciosa de todas as fases do processo de desenvolvimento de uma medida. 1 ATITUDES SOBRE TREINAMENTO A DISTÂNCIA Flávio Sposto Pompêo Gardênia da Silva Abbad Thaís Zerbini Luciana Mourão Atitudes são definidas como respostas avaliativas relativamente estáveis dadas por pessoas a entidades ou situações ou como percepções do indivíduo que podem influenciar suas intenções comportamentais e seus comportamentos. Os altos e crescentes investimentos feitos por organizações públicas, privadas, nacionais e multinacionais para capacitar profissionais por meio de educação a distância justificam a preocupação de pesquisadores com a evasão de participantes desse tipo de treinamento. Nesse contexto de ampliação do uso de novas tecnologias da informação e comunicação é que se inserem estudos a respeito do papel de atitudes sobre resultados de programas de capacitação, entre os quais a persistência, o rendimento e as reações dos participantes perante o treinamento. As atitudes em relação à educação a distância (EaD) são uma importante característica tanto do público-alvo como dos tutores. Informações sobre essas atitudes, como repertórios de entrada de participantes de cursos a distância, podem servir de subsídio para o aprimoramento do desenho instrucional de treinamento, inclusive no que tange à escolha da modalidade de entrega da instrução (presencial, híbrida ou a distância) e a estratégias instrucionais para cada público (Meneses, Abbad, Zerbini, & Lacerda, 2006). Este capítulo aborda o conceito de atitudes em relação à EaD, sua importância e artigos empíricos recentes que estudaram a relação entre atitudes e aprendizagem on-line. Os artigos têm foco no modelo TAM (Technology Acceptance Model), que embasou o instrumento apresentado neste capítulo. Tal modelo teve grande influência da Teoria da Ação Racional de Fishbein e Ajzen (1975), que distingue operacionalmente quatro componentes: crenças, atitudes, intenções e comportamentos, construtos que são fortemente relacionados entre si e que devem ser mensurados com precisão. Para compreender as atitudes em relação ao e-learning, diversos estudos, principalmente dos Estados Unidos, têm utilizado o modelo TAM. No modelo, a consequência final é o comportamento X, influenciado diretamente pela intenção de usar o comportamento estudado. O primeiro componente do modelo refere-se às crenças do indivíduo acerca não do objeto do comportamento, e sim do comportamento em si e suas consequências. Essas crenças são determinantes majoritários de um determinado comportamento. Há, ainda, crenças normativas, que abordam a percepção do indivíduo acerca de o que certas pessoas de referência pensam a respeito do comportamento em questão. Essa pressão social leva à formação da norma subjetiva, que regula o modo como o indivíduo deve se comportar em relação a um determinado objeto. Tanto a atitude como a norma subjetiva são consideradas por Fishbein e Azjen (1975) importantes variáveis preditivas da intenção de executar um determinado comportamento. Na prática, muitos estudos na área da psicologia têm investigado o modelo apenas até a variável “Intenção”. Tais estudos se dão por meio de questionários, o que limita a verificação do modelo completo, pois levantam relatos dos sujeitos sobre o que fariam, sem mensurar de fato o comportamento em si, o que poderia ser feito com a adoção de indicadores concretos. Portanto, é um desafio a inclusão de dados objetivos sobre a vinculação da intenção comportamental com o comportamento em si. O modelo TAM, proposto por Davis, Bagozzi e Warshaw (1989), tornou-se influente para estudos na área da tecnologia (sistemas, computadores, informática) e apresenta a estrutura representada na Figura 1.1. O comportamento (mensurado pelo uso objetivo do sistema) seria afetado pela intenção comportamental (construto mais pesquisado, mensurado por questionários). Essa intenção comportamental seria afetada pela percepção da utilidade, e a percepção de facilidade de uso afetaria tanto a atitude como a utilidade percebidas pelo indivíduo quanto à tecnologia ou ao sistema pesquisado. Figura 1.1 Modelo TAM – Technology Acceptance Model. Fonte: Pompêo e Abbad (2010). Nesse modelo, o componente “Percepção da utilidade da tecnologia ou sistema” é definido como o grau de utilidade atribuído pela pessoa ao sistema, enquanto a “Percepção da facilidade de uso do sistema” é definida como o grau de facilidade atribuído ao uso da tecnologia. Esses componentes já foram testados em modelos derivados do TAM, conforme o exemplo de Venkatesh e Davis (2000). Essas versões são mais complexas e incluem um maior número de variáveis. O modelo TAM, porém, continua a ser usado para investigar atitudes perante o uso de tecnologias. Trata-se de uma abordagem aplicável em diversos contextos e estudos. Um exemplo de estudo recente que adotou o modelo TAM de aceitação da tecnologia foi relatado por Kim, Chun e Song (2009). Eles realizaram a pesquisa com estudantes universitários que tinham acesso à tecnologia e realizavam tarefas em determinada base de dados (definida como tecnologia pelos autores). Pouco tempo depois do início do contato do participante com a base de dados, era aplicado o instrumento de atitudes. Os autores descobriram que participantes com atitude favorável tinham mais chances de realizar a tarefa no sistema (base de dados) do que os demais. Diversos estudos sugeriram confirmação à validade do modelo TAM para a investigação de aspectos referentes à aprendizagem on-line, como intenção de uso (Chatzoglou, Sarigiannidis, Vraimaki, & Diamantidis, 2009; Lee, 2010; Roca, Chiu, & Martinez, 2006; Roca & Gagné, 2008), satisfação (Sun, Tsai, Finger, Chen, & Yeh, 2008) e aceitação do e-learning (Ong, Lai, & Wang, 2004). A seguir, descreve-se de forma breve como os autores adaptaram o modelo TAM ou outros análogos para estudar empiricamente a aprendizagem, a satisfação ou outros resultados e processos de ensino- aprendizagem em cursos a distância, em especial no e-learning. Lee, Yoon e Lee (2009) basearam-se parcialmente no modelo TAM para investigar a relação entre atitudes e e-learning. O estudo foi realizado com estudantes universitários sul-coreanos, e foram avaliados cursos mistos (blended learning, ou seja, que envolviam tanto ações presenciais como ações virtuais, on-line pela internet). Os autores concluíram que as características do instrutor e os materiais instrucionais são preditores da percepção de utilidade do e-learning, e a percepção de utilidade e amigabilidade atribuída pelo participante ao e-learning (playness) é uma variável preditiva da intenção de uso do e- learning. Chatzoglouet e colaboradores (2009) buscaram verificar a intenção de empregados de realizar um treinamento baseado na web. Estendendo o modelo TAM, incluíram variáveis como “Aprendizagem orientada para resultados”, “Suporte gerencial”, “Satisfação”, “Autoeficácia” e “Ansiedade com o uso de computadores”. A pesquisa foi realizada por survey, e no total participaram pessoas de cem organizações diferentes. “Satisfação”, “Percepção de utilidade” e “Percepção de facilidade de uso” afetaram diretamente a intenção dos empregados de usar o sistema de treinamento. Tung e Chang (2008) realizaram uma pesquisa na área de enfermagem e constataram sete fatores críticos que impactam a intenção comportamental de usar treinamentos on-line. Favoreceram a intenção as variáveis “Autoeficácia com computadores”, “Compatibilidade”,“Percepção de utilidade”, “Percepção de facilidade de uso” e “Qualidade da informação percebida”. Encontraram como elementos dificultadores da intenção de participação de treinamentos on-line a “Ansiedade com o uso de computadores” e o “Custo financeiro percebido”. Vários autores buscaram ampliar o modelo TAM. Roca e colaboradores (2006) fizeram isso, com base também no modelo SDT (Self-Determination Theory), para verificar a continuidade do uso do e-learning. SDT é a teo ria da autodeterminação, teoria da motivação utilizada em pesquisas de psicologia nos EUA a partir dos anos de 1970. Roca e colaboradores (2006) propõem a pesquisa com um modelo que inclui as seguintes variáveis: “Qualidade da informação”, “Qualidade dos serviços”, “Qualidade atribuída ao e- learning”, “Confirmação”, “Percepção de utilidade”, “Absorção cognitiva”, “Percepção de facilidade de uso”, “Satisfação”, “Influência interpessoal” (influência de amigos, membros familiares, pares, superiores hierárquicos), “Influência externa” (influência de reportagens da mídia, opinião de especialistas e outras informações não pessoais), “Autoeficácia com computadores” e “Autoeficácia com a internet”. A variável dependente é a “Intenção de continuar utilizando e-learning”. No modelo proposto nesse artigo, “Influência interpessoal” e “Influência externa” são agrupadas na categoria “Norma subjetiva”. O modelo teve como destaque a variável “Percepção de utilidade”, maior fator de influência na satisfação com a ação de e-learning oferecida. Roca e Gagné (2008) aprofundaram o modelo com a verificação da continuação de uso do e-learning. Nessa pesquisa, os fatores extraídos do modelo TAM (“Percepção de facilidade de uso” e “Percepção de utilidade”) foram operacionalizados, em conjunto com a “Percepção de amigabilidade” (Perceived Playfullness), para medir o papel da motivação intrínseca e extrínseca na aceitação do e-learning. As conclusões do trabalho sugeriram que a STD é útil para compreender a influência de fatores contextuais na motivação do indivíduo para continuar usando o e-learning. Evidências empíricas ofereceram suporte à ideia de que as motivações intrínsecas (sentir-se autônomo e competente) estejam relacionadas à intenção de continuar usando o e-learning. A variável “Intenção de continuar usando o e-learning” também foi investigada por Lee (2010). A pesquisa concluiu que a maior parte da intenção de continuar usando o e- learning é explicada pela satisfação, mas a atitude, apesar de fraca, também é uma preditora, ao lado de componentes como percepção de utilidade, concentração, normas subjetivas e percepção de controle de comportamento percebido. A investigação dos fatores críticos de sucesso do e-learning tem demonstrado a importância de variáveis da psicologia social. Influenciado pelo modelo TAM, e partindo de um modelo que reúne quatro fatores críticos de sucesso para o e-learning, Selim (2007) aplicou o instrumento a 900 estudantes universitários. Após a análise dos dados empíricos, reestruturou o modelo para oito fatores críticos de sucesso, entre os quais incluiu “Atitudes do instrutor perante o e-learning”. Assim, além de utilizar um modelo (TAM) que leva em conta as atitudes dos aprendizes ante o e-learning, o estudo de Selim (2007) apontou que não apenas as atitudes dos treinandos são importantes. As atitudes dos instrutores perante o e-learning também constituem fatores críticos para o sucesso das ações de aprendizagem nessa modalidade. Sun e colaboradores (2008) também pesquisaram fatores críticos de sucesso do e- learning. Os autores utilizaram um modelo cuja variável dependente (efeito) era a “Satisfação com o e-learning” e que reunia como variáveis independentes seis dimensões, referentes (1) ao aprendiz, (2) ao instrutor, (3) ao curso, (4) à tecnologia, (5) ao desenho e (6) a aspectos ambientais. Algumas variáveis de interesse foram propostas no modelo teórico. “Atitudes em relação a computadores” foi componente da dimensão do aprendiz; “Atitude em relação ao e-learning” foi componente da dimensão do instrutor; e “Percepção de facilidade de uso” e “Percepção de utili dade” compuseram a dimensão do desenho. O modelo foi validado por meio de questionários enviados por e-mail a estudantes universitários de Taiwan, participantes de treinamentos on-line ou e-learning. A pesquisa foi conduzida por surveys, e, por meio de análises que buscam identificar a predição de variáveis de interesse, tais autores identificaram sete variáveis críticas da satisfação: “Ansiedade com o uso de computadores”, “Atitude do instrutor perante o e-learning”, “Flexibilidade do treinamento”, “Percepção de qualidade do curso”, “Percepção de utilidade do treinamento”, “Percepção de facilidade de uso” e “Diversidade na avaliação”. Essas variáveis explicaram 66% da satisfação. Assim, nessa pesquisa, os resultados empíricos sugeriram que as variáveis atitudinais influenciam a satisfação com o treinamento. A atitude em relação à educação a distância tem sido bastante pesquisada. Steil, Pillon e Kern (2005) realizaram uma pesquisa nessa área no Brasil. Tratou-se de um estudo exploratório, realizado com uma turma de estudantes universitários que cursava uma disciplina oferecida na modalidade. O instrumento de atitudes foi aplicado dois meses após o início do curso, com diversos itens que abordavam aspectos específicos do curso em desenvolvimento, e as atitudes foram predominantemente negativas quanto a aspectos como percepção de qualidade do material didático, preparação dos estudantes para a EaD e satisfação com a dinâmica de grupo na lista de discussão. Keller e Cernerud (2002) pesquisaram estudantes universitários suecos que tinham experiência de dois anos com e-learning. O objetivo da pesquisa era explorar as atitudes gerais dos estudantes acerca do e-learning. A pesquisa foi aplicada por meio de survey e de análises que buscavam identificar a predição de variáveis de interesse. Mostrou-se que as maiores influências na formação das atitudes dos estudantes decorreram das estratégias adotadas pela universidade na implementação do sistema de e-learning, mais do que de variáveis e características do passado do indivíduo participante (tais como sexo, idade, contato anterior com computadores, atitudes perante novas tecnologias e estilos de aprendizagem). A preocupação com a aceitação do e-learning pelos estudantes precisa considerar também as variáveis sociodemográficas e suas implicações no contexto organizacional. Ong e Lai (2006), por exemplo, investigaram a questão de gênero, por meio de survey com funcionários de companhias internacionais sediadas em Taiwan. Partindo do modelo TAM, o estudo mostrou que os homens alcançam maiores escores médios do que as mulheres em variáveis como “Autoeficácia para computadores”, “Percepção de utilidade”, “Percepção de facilidade de uso” e “Intenção comportamental de usar o e-learning”. Além disso, descobriu-se que, tendo a variável “Intenção de uso” como efeito, as mulheres sofriam maior influência da “Autoeficácia” e da “Percepção de facilidade de uso”, enquanto as decisões masculinas de utilizar o e-learning eram mais fortemente influenciadas pela “Percepção de utilidade”. Liaw, Huang e Chen (2007) ressaltam haver poucos estudos acerca das atitudes perante o e-learning e realizaram uma pesquisa para investigar as atitudes dos alunos e dos professores perante a aprendizagem mediada por novas tecnologias da comunicação e informação. Os autores identificaram que os instrutores têm percepção favorável ao uso do e-learning como ferramenta de ensino. A intenção de uso é influenciada pela percepção de utilidade e autoeficácia. Os fatores que mais influenciaram as atitudes dos alunos quanto à efetividade da ferramenta e-learning foram o autodirecionamento, a direção do professor e a instrução multimídia. De maneira sintética, pode-se dizer que os principais antecedentes das atitudes em relação à educação a distância são atitudes dos instrutores perante o e-learning e o direcionamento por eles fornecidonas ações de EaD, materiais instrucionais, estratégias da organização na implementação da EaD, gênero e autodirecionamento, sendo os • • • • • • • • • principais consequentes satisfação, aprendizagem e intenção de uso da educação a distância, com maior ênfase para este último (Quadro 1.1). Por um lado, considerar quais são as variáveis que antecedem (ou que predizem) as atitudes em relação à educação a distância é importante para os gestores que atuam na área, pois elas indicam possibilidades de de senvolvimento de atitudes mais favoráveis a essa modalidade educacional. Por outro lado, a intenção de uso da educação a distância, a satisfação com os cursos e a aprendizagem dependem das atitudes em relação à EAD, o que evidencia a importância de conhecê-las e de desenvolver ações de intervenção sobre elas. Quadro 1.1 ANTECEDENTES E CONSEQUENTES DAS ATITUDES EM RELAÇÃO À EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Antecedentes Atitudes em relação à educação a distância Consequentes Atitudes dos instrutores perante o e-learning Direcionamentos dados pelos instrutores Materiais instrucionais Estratégias da organização na implementação da EaD Gênero Autodirecionamento Intenção de uso da educação a distância Satisfação Aprendizagem Fonte: Chatzoglou e colaboradores (2009); Keller e Cernerud (2002); Lee, Yoon e Lee (2009); Lee (2010); Liaw e colaboradores (2006); Ong e Lai (2006); Roca e colaboradores (2006); Roca e Gagné (2008); Sun e colaboradores (2008); Tung e Chang (2008). DESCRIÇÃO DA MEDIDA Pompêo e Abbad (2010) construíram um instrumento para avaliar atitudes em relação à EaD (E-ATAD) com base no modelo derivado do TAM, desenvolvido por Davis e colaboradores (1989). A E-ATAD foi concebida com itens correspondentes às duas dimensões preconizadas pelo modelo TAM: Percepção de utilidade da EaD (6 itens, compostos com base em Davis, 1989; Carvalho, 2003) e Percepção de facilidade de uso da EaD (5 itens, com base em Davis, 1989). Os 11 itens estão associados a uma escala de concordância, na qual 1 (um) corresponde a discordo totalmente, e 7 (sete), a concordo totalmente. O Quadro 1.2 mostra os itens do questionário. Um trabalho preliminar de identificação dos componentes da medida foi realizado por meio da análise das respostas de uma amostra de 113 treinandos. A análise fatorial exploratória forneceu evidências de validade para duas estruturas empíricas: uma bifatorial e outra unifatorial para o instrumento de atitudes em relação à EaD (Pompêo & Abbad, 2010). Nessa pesquisa, com 113 casos válidos, propôs-se uma solução bifatorial, que explicou 60,5% da variância total das respostas dos participantes à escala e que apresentou bons Alphas de Cronbach (Alpha de 0,83 para percepção de facilidade de uso e de 0,82 para percepção de utilidade) e boas cargas fatoriais (que variaram entre 0,32 e 0,87, com a maioria das cargas acima de 0,70). Essa estrutura bifatorial evidenciou o ajustamento do instrumento ao referencial teórico que o originou, dando suporte empírico parcial ao modelo TAM nos aspectos relativos aos componentes das atitudes (utilidade e facilidade). Entretanto, a escala unifatorial foi considerada mais satisfatória do que a bifatorial, por ser mais adequada ao reduzido número de itens que a compõem, além de 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. manter-se, tanto quanto a primeira, também compatível com o modelo teórico que a originou. Quadro 1.2 DIMENSÕES E ITENS DA E-ATAD Percepção de Facilidade de Uso da Educação a Distância Minha interação com um ambiente virtual de educação a distância seria clara e compreensível. Em um curso realizado em educação a distância, eu facilmente aprenderia a utilizar as ferramentas do ambiente virtual. Aprender novos conhecimentos por meio da educação a distância seria fácil para mim. Minha interação com um ambiente virtual de educação a distância seria flexível. Para mim, seria fácil me tornar habilidoso como aluno de educação a distância. Percepção de Utilidade da Educação a Distância Caso eu participasse de um curso em educação a distância, eu seria capaz de aplicar o conhecimento ensinado no curso em diferentes situações. A educação a distância poderia me preparar para o trabalho em equipe. A educação a distância poderia me ajudar a enfrentar dificuldades em minha vida profissional. Seria útil aprender por meio da educação a distância. A participação em cursos na modalidade educação a distância aumentaria meus conhecimentos dos assuntos que preciso estudar. A participação em cursos na modalidade educação a distância aumentaria a produtividade de meus estudos. Fonte: Pompêo e Abbad (2010) e Pompêo (2010). Há mais evidências de validade da medida, aplicada por Pompêo e Abbad (2010) em amostras de perfil variado. Essa pesquisa compreendeu a aplicação do instrumento em três amostras, as quais foram somadas para fins de análise de dados. No total, foram obtidos 261 casos de respostas válidas ao questionário de atitudes em relação à EaD. Nas três coletas, os dados foram obtidos por meio da plataforma Globalpark EFS Survey, ferramenta on-line de preenchimento de questionários. Os itens foram apresentados ao respondente de forma embaralhada, com aleatorização feita pelo próprio sistema EFS. A seguir, são descritas a forma e características de cada coleta para o instrumento de atitudes. Os participantes das coletas 1 e 2 eram pessoas que, por ocasião da pesquisa, estavam em fase de preparação para concurso público, e a terceira também incluiu “concurseiros” interessados em participar do treinamento on-line (Pompêo, 2010). As coletas 1 e 2 totalizaram 106 participantes com respostas válidas para o questionário de atitudes. Houve predominância de participantes do sexo masculino. Nessas coletas, houve 74 homens (69,8%) e 32 mulheres (30,2%). As idades variaram entre 22 e 57 anos, com média de 32,4 anos e desvio padrão de 7,0. O grupo de escolaridade predominante foi o de ensino superior completo (59 casos, 55,6%), enquanto 46 casos (43,4%) eram de pós-graduados, e apenas uma pessoa apresentou superior incompleto. A coleta 3 totalizou 155 casos válidos, com predominância de participantes do sexo feminino. Participaram dessa etapa da pesquisa 104 mulheres (67,1%) e 51 homens (32,9%). A escolaridade foi mais heterogênea do que nas coletas 1 e 2. O grupo de escolaridade que apresentou maior fre quência foi o de ensino superior completo (69 casos, 44,5%), enquanto 55 casos (35,5%) eram de pós-graduados, 28 (18,1%) de pessoas com superior incompleto ou em curso, e 3 pessoas tinham ensino médio completo. As idades foram heterogêneas, variando entre 18 e 55 anos, com 30,61 de média e 7,57 de desvio padrão. 1. 2. 3. 4. 5. As respostas desses participantes ao questionário, obtidas por Pompêo (2010), e submetidas a análise fatorial, revelaram uma escala unifatorial. Considerou-se que a estrutura unifatorial era a mais confiável, com Alpha de 0,90 e boa porcentagem de variância total explicada (53,4%). As cargas fatoriais do fator único variaram entre 0,43 e 0,79. Dos 11 itens, 10 apresentaram cargas fatoriais superiores a 0,60. A seguir serão apresentadas mais evidências de validade do instrumento, após mudanças na redação de itens e no formato da escala, de acordo com sugestões de participantes do processo de validação semântica do questionário. ADAPTAÇÃO E VALIDAÇÃO DA ESCALA DE ATITUDES SOBRE TREINAMENTO A DISTÂNCIA – E- ATAD – SEGUNDA VERSÃO Essa etapa foi desenvolvida pela pesquisadora da Universidade de Brasília, professora Gardênia Abbad, em um projeto conjunto com as professoras Thaís Zerbini, da Universidade de São Paulo, e Luciana Mourão, da Universidade Salgado de Oliveira, em uma pesquisa realizada na universidade corporativa de uma empresa do setor bancário, junto a uma amostra de participantes de um treinamento corporativo on-line, mediado por novas tecnologias da informação e comunicação. Para aplicação nessa amostra foram feitos ajustes nos itens, nas instruções e na escala, de modo a adaptar o questionário ao contexto de uma pesquisa de avaliação