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Ana Claudia Souza Vazquez Claudio Simon Hutz (Org.) Psicologia positiva organizacional e do trabalho na prática Sobre os organizadores Ana Cláudia Souza Vazquez Psicóloga, doutora em Administração e mestre em Saúde Coletiva. Atualmente é professora, pesquisadora e pró-reitora de Gestão com Pessoas na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e presidente da Associação Brasileira de Psicologia Positiva (abp+). Claudio Simon Hutz Psicólogo, mestre e doutor pela University of Iowa e pós-doutor na Arizona State University, EUA. É professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), coordenador do Laboratório de Mensuração da UFRGS e pesquisador IA do CNPq. Copyright © 2021 Hogrefe CETEPP Editora: Cristiana Negrão Capa e diagramação: Claudio Braghini Junior Preparação: Joana Figueiredo Revisão: Eugênia Pessotti Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Psicologia positiva organizacional e do trabalho na prática / organização Ana Claudia Souza Vazquez, Claudio Simon Hutz. - 1. ed. - São Paulo: Hogrefe, 2021. Inclui bibliografia e índice ISBN 978-65-89092-22-3 11. Psicologia positiva. 2. Trabalho - Aspectos psicológicos. 3. Comportamento organizacional. I. Vazquez, Ana Claudia Souza. II. Hutz, Claudio Simon. Este livro segue as regras da Nova Ortografia da Língua Portuguesa. Todos os diretos desta edição reservados à Editora Hogrefe CETEPP Rua Barão do Triunfo, 73; conjunto 74 Brooklin, São Paulo – SP, Brasil CEP: 04602-020 Tel.: +55 11 95241-6566 www.hogrefe.com.br Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópias e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita. ISBN: 978-65-89092-22-3 Edição digital: maio 2021 Arquivo ePub produzido pela Simplíssimo Livros Apresentação Trabalho saudável, pandemia por Covid-19 e novas configurações no mundo do trabalho associadas às práticas profissionais e de gestão sob o olhar psicologia positiva organizacional e do trabalho (PPOT) são temas tratados neste livro, que compõe o segundo volume de uma coletânea sobre aplicações desse campo no trabalho e nas organizações. O livro traz contribuições atualizadas, inéditas e relevantes na área do trabalho e das organizações aplicadas, inclusive, para a situação emergencial em saúde pública que vivemos hoje. O livro está dividido em três partes. Os capítulos iniciais discutem o trabalho saudável na pandemia e o passo a passo de modelos de intervenção, com suas limitações e evidências de validade. Em seguida, os desafios atuais postos à PPOT e à gestão do trabalho saudável nas organizações são tratados com análise crítica, contribuições práticas e aplicações específicas ao desenvolvimento de competências socioemocionais no trabalho, ao desenho da carreira nas organizações, à autoliderança, à paixão pelo trabalho e ao bem- estar. A última parte discute as práticas laborais dos trabalhadores, na qual se analisam o modelo teórico e as evidências mais robustas de comprovação (modelo de recursos e demandas no trabalho), além de abordar aspectos relevantes sobre carreira profissional, sentido de vida, processos de engajamento no trabalho, flow e bem-estar laboral. No campo das organizações e do trabalho, as informações contidas nesta obra são contribuições importantes para profissionais que atuam no campo das organizações e do trabalho e também com práticas em gestão de pessoas. Todos os capítulos são baseados em evidências científicas e apresentam análise crítica de seus dados, o que certamente também será importante para a formação de estudantes de graduação e pós-graduação. As evidências, discussões e sugestões de avanços neste livro beneficiarão docentes, estudantes e pesquisadores. Claudio Simon Hutz Sumário Prefácio PARTE 1 PLANEJAMENTO DAS PRÁTICAS EM PSICOLOGIA POSITIVA NAS ORGANIZAÇOES E NO TRABALHO 1 Trabalho saudável em tempos de pandemia Trabalho saudável Proteção, promoção e prevenção para desenvolvimento do trabalho saudável Considerações finais Referências 2 Preciso fazer uma intervenção, e agora? Um guia de modelos de intervenção Modelo de pesquisa-ação de Kurt Lewin Modelo da psicologia social aplicável de Mayo e La France Modelo de ciclo completo de Robert Cialdini Modelo da psicologia comunitária Considerações finais Referências PARTE 2 PSICOLOGIA POSITIVA, GESTÃO E TRABALHO SAUDÁVEL 3 Novas configurações no mundo do trabalho: desafios postos à psicologia positiva Introdução Da sociedade industrial à sociedade pós-industrial: em que terreno se move o trabalhador O mundo do trabalho atual: a precarização como traço distintivo e seus impactos no trabalhador Surgimento da psicologia positiva e seus impactos no mundo das organizações e trabalho Reflexões sobre o futuro da psicologia organizacional positiva diante das novas configurações no mundo do trabalho Referências 4 A paixão pelo trabalho Caracterizando a paixão pelo trabalho A medida da paixão pelo trabalho O modelo de avaliação da paixão pelo trabalho Antecedentes e consequentes da paixão pelo trabalho Implicações para a prática das organizações Referências 5 Competências socioemocionais no contexto do trabalho: principais aplicações Competências socioemocionais: algumas compreensões Competências socioemocionais no contexto laboral Principais competências e seus resultados no contexto do trabalho Programas de treinamento Considerações finais Referências 6 Contribuições do desenho do trabalho para o desenvolvimento de carreira nas organizações Para começar: o que é desenho do trabalho? Sobre os principais desafios do mundo de trabalho contemporâneo e as carreiras nas organizações Articulação possível entre design do trabalho e life design Proposta de intervenção em desenho do trabalho para organizações Conclusões Referências 7 Autoliderança: estratégias para implementar mudanças positivas no trabalho Introdução O que é autoliderança? Base teórica da autoliderança e relações com construtos afins Modelo de autoliderança com foco em estratégias Principais estudos e medidas de autoliderança Implicações práticas da autoliderança Considerações finais Referências 8 Trabalho e bem-estar docente: teoria e prática sob o olhar da psicologia positiva Bem-estar docente: possibilidades teóricas Bem-estar docente: caminhos de pesquisa Bem-estar docente: aspectos positivos individuais, relacionais e contextuais Bem-estar docente: possibilidades práticas Bem-estar docente: reflexões finais Referências PARTE 3 PSICOLOGIA POSITIVA E PRÁTICAS PROFISSIONAIS 9 Contribuições da teoria de demandas e recursos do trabalho para compreensão de fenômenos positivos da relação indivíduo-trabalho- organização Surgimento e evolução da teoria de recursos e demandas no trabalho (JD-R) Fenômenos da psicologia positiva explicados pela teoria de recursos e demandas no trabalho (JD-R) O engajamento no trabalho no modelo JD-R O flow no trabalho no modelo JD-R O florescimento no trabalho no modelo JD-R O comprometimento organizacional no modelo JD-R Considerações finais Referências 10 Características individuais e do contexto associadas ao engajamento e flow no trabalho Modelo de recursos e demandas do trabalho: modelo RDT Características individuais Características do trabalho Medindo o contexto laboral Considerações finais Referências 11 Interface entre psicologia positiva e carreira: sentido de vida e adaptabilidade Carreira e psicologia positiva Sentido de vida Adaptabilidade de carreira Sentido de vida e adaptabilidade de carreira: relação teórica e resultados empíricos Considerações práticas Conclusão Referências Sobre os autores Prefácio Psicologia positiva organizacional e do trabalho na prática é o segundo livro de uma coletânea que tem por objetivo informar e atualizar pesquisadores, professores e estudantes sobre novos desenvolvimentos referentes a aplicações da psicologia positiva no contexto organizacional e do trabalho. Essa é uma áreaque vem se desenvolvendo muito no Brasil nos últimos dez anos. Observam-se um aumento considerável no número de pesquisadores nessa área e um crescimento do interesse na área em cursos de Psicologia e Administração. Disciplinas foram criadas em numerosos cursos para tratar dessa temática. Essa coletânea será um apoio importante para professores na área. O presente livro está dividido em três partes. A primeira diz respeito ao planejamento das práticas em psicologia positiva nas organizações e no trabalho. São dois capítulos importantes. O primeiro aborda questões envolvendo trabalho saudável em tempos de pandemia. O segundo exemplifica vários modelos de intervenção, o que pode auxiliar muito na prática profissional. A segunda parte mostra como a psicologia positiva pode impactar a gestão e o trabalho saudável. O primeiro capítulo dessa parte examina os desafios postos à psicologia positiva pelas novas configurações no mundo do trabalho. O capítulo seguinte discute os impactos no trabalhador devido à precarização no mundo do trabalho. A seguir temos um capítulo que mostra como o surgimento da psicologia positiva produziu uma série de impactos nas organizações e no trabalho, como a promoção do bem-estar dos trabalhadores. À medida que se eleva o bem-estar dos trabalhadores, o trabalho se torna mais eficiente, o engajamento aumenta, e a rotatividade diminui. Isso faz com que a empresa se torne mais competitiva, pois o custo da produção é reduzido. Essa parte ainda contém diversos capítulos sobre gestão e trabalho saudável, os quais discutem a paixão pelo trabalho, as competências socioemocionais no contexto do trabalho, as contribuições do desenho do trabalho e a autoliderança. Um aspecto inusitado dessa parte é levantar uma questão que ainda requer muita pesquisa. Trata-se do bem-estar de docentes. Essa é uma questão especialmente importante nos tempos atuais. A terceira parte desta obra aborda questões envolvendo psicologia positiva e práticas profissionais. São três capítulos. O título do Capítulo 9 já sumariza bem o conteúdo a ser abordado: “Contribuições da teoria de demandas e recursos do trabalho para compreensão de fenômenos positivos da relação indivíduo-trabalho-organização”. Trata-se de um modelo recente, desenvolvido por Schaufeli e colaboradores no início deste século. Esse modelo é importante porque é básico para questões como engajamento no trabalho e burnout. Os dois capítulos seguintes, que encerram este livro, trazem questões importantes e ainda pouco discutidas no Brasil. O Capítulo 10 discute questões envolvendo características do indivíduo e do contexto relacionadas a engajamento no trabalho e flow. O último capítulo aborda uma nova questão que discute a interface entre psicologia positiva e carreira. Enfim, trata-se de um livro com material inédito e que será muito útil para psicólogos e administradores, bem como para professores e estudantes. Estudantes de pós-graduação e pesquisadores encontrarão muitas ideias e questões que requerem mais pesquisa, e isso pode ajudar a desenvolver novos projetos. Claudio Simon Hutz PARTE 1 PLANEJAMENTO DAS PRÁTICAS EM PSICOLOGIA POSITIVA NAS ORGANIZAÇOES E NO TRABALHO 1. Trabalho saudável em tempos de pandemia1 Ana Cláudia Souza Vazquez A emergência em saúde pública gerada pela situação de pandemia pela Covid-19 tem conduzido a múltiplas reflexões sobre a condição humana e os modos de fazer e organizar o trabalho no mundo. Inquietações e tentativas de conter a insegurança sem precedentes que vivemos nesse momento, pelo alongamento temporal das medidas protetivas e as reações de desobediência civil de diversos atores sociais, têm sido expressas de diferentes formas na sociedade. Críticas têm sido feitas quanto ao apagão moral das lideranças e das pessoas que agem em prol de seus interesses ou liberdades individuais e que não se veem como “guardiões de seus irmãos, mas que agem ativamente pela manutenção da velha lógica do consumismo, do prazer imediatista e da artificialidade nas relações humanas (Arendt, 2008; Bauman, 2008; Sandel, 2014; Santos, 2011). Desde o início da pandemia, foi adotado largamente o trabalho em casa, conforme os recursos conectivos que organizações e pessoas dispõem. Nessa experiência diferenciada de trabalho na pandemia, este capítulo busca questionar a recente transformação das relações laborais líquidas em um processo de desempenho profissional ainda mais volátil do que os já observados nas tecnologias do home office ou do trabalho remoto (Abbad et al., 2019; Avenil, 2020; Bauman, 2001; Losekann & Mourão, 2020; Devotto, Oliveira, Ziebell, Freitas, & Vazquez, 2020). Essa volatilidade se expressa em meio a inseguranças, incertezas e ambiguidades presentes no enfrentamento da pandemia no Brasil; o que é vivenciado no espaço social do trabalho passa a ser exercido no mesmo espaço físico da intimidade de casa e da vida privada. A nova logística laboral, imposta pela necessidade do distanciamento, sobrepõe todos os papéis sociais ao trabalhador, no mesmo local, ao mesmo tempo, de modo súbito e constante, o qual passa a ter a necessidade premente de mudar seu modo de atuação social em “um clique”, no instante em que é demandado. Ao mesclar todas as esferas da vida humana em um único espaço social, a pandemia pela Covid-19 tornou muito mais fluidos, velozes e voláteis o tempo, o espaço, os movimentos e as relações das pessoas entre si e com os outros e as coisas, visto que não há fronteiras para o contágio do vírus. A barreira mais eficaz, no momento, está no comportamento saudável de cada um, cuja principal atitude pode ser resumida na hashtag #fiqueemcasa. Ao longo de diversos meses sob tensão e demandas decorrentes, com adaptação de recursos planejada originalmente para ser em curto prazo, o cansaço, a frustração e os problemas em saúde mental emergem com força cada vez mais intensa, além da percepção de desgaste de energia e perdas (financeiras, laborais, nos relacionamentos, de pessoas próximas). Essa volatilidade se expressa, paralelamente e de modo positivo, quando observamos manifestações criativas, iniciativas singulares e criações de espaços laborais que, no momento, parecem ser mais agradáveis do que os anteriores. Por óbvio, isso se dá para uma parte dos trabalhadores; notadamente aqueles que não perderam seu emprego. De modo geral, porém, os brasileiros têm reagido em sua maioria com descaso às medidas sanitárias e preventivas ao contágio pela Covid-19, participando em aglomerações ou se movimentando sem uso dos mínimos equipamentos de proteção, além de muitos manifestarem insatisfação pelas consequências das medidas2. A pandemia no Brasil destaca-se pelos holofotes colocados em um modo de descrever a questão econômica e mercadológica, em contraposição ao investimento robusto em medidas preventivas de saúde. Nessa esteira, pacotes de ajuda financeira para empresas, empreendedores e pessoas em situação de vulnerabilidade, com objetivo de ser protetivos, estão atingindo apenas parcialmente aqueles que mais necessitam. Isso se dá ou por corrupção dos próprios brasileiros ao se inscrevem no auxílio emergencial para “ganho fácil”3 ou por inépcia institucional na concessão de crédito a outros que não sejam as grandes empresas, as quais obtiveram nos meses iniciais da pandemia cerca de 78% desse tipo de financiamento. Observamos que as esferas federais, estaduais e municipais agem de forma ambígua, sem uma liderança ou coordenação entre si. E cada gestor está em busca da “fórmula” que melhor lhe convém, por estar diante do inesperado e da concretude de sua responsabilidade social na tomada de decisão. Somados todos esses fatores no Brasil, a consequência tem sido o aumento exponencial no número de positivados e de mortos pelo contágio da Covid-19. Este capítulo busca discutir o trabalho saudável na pandemia, pensando na tessitura social e nos contornos da situação em que estamos vivendo no Brasil, quanto ao enfrentamento da Covid-19. É possível autorrealização profissional, prazer laborale engajamento no trabalho com tantas incertezas, inseguranças, ambiguidades e desgastes adiante da nossa situação social e política e dos danos gerados pela pandemia? Baseado em evidências científicas e com foco nos estudos da psicologia positiva, esse texto é um convite para se observar o (novo?) sentido que damos ao trabalho, em um período de adversidade intensa e continuada, como o atual. Trabalho saudável No modelo teórico job demand resource (JDR), com base na psicologia positiva organizacional e do trabalho (PPOT), o trabalho é definido como desgaste da energia vital orientada para propósitos laborais, cujos resultados são observados na prática profissional (Schaufeli & Taris, 2014; Taris, Beek, & Schaufeli, 2020; Vazquez, 2018). Assim, sofrimento e adoecimento ou prazer e autorrealização são consequências da nossa capacidade de restaurar a energia despendida, renovando forças ou exaurindo-as, ao longo do tempo. Essa dinâmica do trabalho é permeada por dois processos subjacentes e paralelos: motivacional e estressor (Figura 1). Figura 1. (Vazquez et al. 2019, p 374). Quando há demandas com recursos adequados disponíveis, o esforço laboral é experienciado como desafiador e torna-se um convite para o engajamento no trabalho e o aprimoramento do desempenho profissional. Já o desgaste contínuo de energia, sem a adequada renovação, conduz ao cansaço, ao adoecimento e – de modo crônico – ao esgotamento do trabalhador (burnout), o que gera maior probabilidade de erros ou situações de risco para o contexto laboral e para as pessoas. O elemento saudável dessa relação está no funcionamento ótimo entre as condições concretas de trabalho (recursos e demandas) e as capacidades psicológicas e competências das pessoas aplicadas aos propósitos de vida profissional. Na tessitura do ambiente de trabalho, com seus recursos e demandas, a energia despendida pode ser dinamizada em ganhos ascendentes da força motivacional do trabalhador (espiral positiva e de saúde). Isso significa que os recursos laborais serão ativados pelo trabalhador de modo a alcançar propósitos e aceitar convites para demandas desafiadoras, buscando obter os resultados desejados, com prazer e autorrealização. Nesses processos, observamos ações de redesenho no trabalho e de criatividade, em meio a processos formais, informais ou incidentais de aprendizagem organizacional (Taris, Kompier, De Lange, Schaufeli, & Schreurs, 2003; Vazquez, Devotto, & Machado, 2019). Na contramão, o esforço laboral tensionado por demandas sem recursos adequados dinamiza o processo de perdas descendentes que drenam a força motivacional (espiral negativa e de adoecimento), o que conduz o trabalhador a fazer uso de estratégias de coping que lhe estão disponíveis ao lidar com as exigências intensivas. Tais perdas de energia, vivenciadas de modo contínuo e sem renovação de força motivacional, têm como desfecho negativo o sofrimento e o adoecimento (Vazquez et al., 2019). Trabalho saudável, na perspectiva da psicologia positiva organizacional e do trabalho (PPOT), é aquele organizado de forma a renovar a energia vital, a preservar o prazer e a elevar a autorrealização das pessoas em suas atividades laborais. Para isso, são essenciais o acesso aos recursos laborais propícios, a preservação dos limites entre as diferentes esferas da vida humana e a proteção à saúde das pessoas no trabalho. Trabalho seguro, por sua vez, se refere a contextos de cuidado, orientação e prevenção assistida para que as pessoas não sofram injúrias, danos ou acidentes na realização de suas atividades profissionais. Por consequência, o trabalho saudável está diretamente associado ao trabalho seguro. Na pandemia e no pós-pandemia pela Covid-19, é preciso verificar as mudanças no contexto laboral, quanto aos recursos e demandas e à (re)organização do trabalho. O objetivo é avaliar continuamente o dinamismo dos processos motivacionais e estressores e intervir para promover o trabalho saudável no ambiente laboral. O que se deve questionar é se as condições postas para os trabalhadores hoje, com as suas especificidades e adversidades, conduzem a espirais positivas, ascendentes e de ganhos ou levam a espirais negativas, descendentes e de adoecimento. É preciso avaliar o processo de modo longitudinal, com monitoramento e acolhimento, com objetivo de planejar ações estratégicas e efetivas para moldar de modo saudável o trabalho volátil, líquido, veloz e distintivo na pandemia, bem como seus desdobramentos práticos na pós-pandemia. Sua estruturação deve promover a organização contínua (organizing) das práticas profissionais e dos propósitos laborais em prol da proteção, da promoção e da prevenção do trabalho saudável (Giddens, 2009; Taris, Beek, & Schaufeli, 2018; Vazquez et al., 2019), o que será tratado na próxima seção. Proteção, promoção e prevenção para desenvolvimento do trabalho saudável Parece óbvia a premissa de que o trabalho deve ser estruturado de modo saudável na prática das organizações e das pessoas; porém sua exposição se faz necessária para que não haja dúvidas ou digressões sobre esse tema que nos é tão caro, ainda mais em tempos de pandemia. No último relatório da Previdência Social brasileira4, os benefícios por incapacidade por transtornos mentais são a terceira maior causa de afastamento do trabalho no país: 9% dos auxílios-doença e aposentadorias por invalidez foram por transtornos mentais e comportamentais, perdendo apenas para lesões ou envenenamentos (31%) e doenças do sistema osteomuscular (19%). Dados de pesquisas durante a pandemia já demonstram o aumento de transtornos mentais em trabalhadores, como doenças crônicas como burnout, cujo nexo laboral foi identificado recentemente pela Organização Internacional do Trabalho (Afonso & Figueira, 2020; Ornell, Halpern, Kessler, & Narvaez, 2020). Para que o trabalho saudável seja uma constante em nossa sociedade é preciso pensar rotinas e práticas perante o papel das pessoas e suas lideranças no contexto organizacional e social. Ao tratar da constituição da sociedade, Giddens (2009) defende que a padronização das relações sociais, no tempo e no espaço, caracteriza-se por modos de estruturação recursivos das práticas localizadas. Nesse sentido, a estruturação do trabalho saudável é dependente de propriedades estruturais (rotinas, normas, memória organizacional, recursos laborais, encontros–presenças) que orientam a conduta dos trabalhadores e, concomitantemente, da ação dos agentes humanos que reproduzem ou produzem novas propriedades estruturais em suas práticas, por meio da sua reflexividade e do seu engajamento. As interações, no tempo e no espaço, e o exercício da agência humana na sociedade são elementos chaves para compreendermos o modo pelo qual o trabalho saudável e as ações de proteção, promoção e prevenção vão se estruturando, ao longo do tempo, nas organizações de trabalho. Para Giddens (2009), no fluxo contínuo da existência humana é que observamos os principais mecanismos de estruturação em que as relações de poder se estabelecem, dialeticamente, na capacidade genérica dos agentes humanos em reagir a uma gama indeterminada de circunstâncias sociais e influenciá-las. agência não se refere às intenções que as pessoas têm ao fazer as coisas, mas à capacidade de realizar essas coisas em primeiro lugar. Agência diz respeito a eventos dos quais um indivíduo é o perpetrador, no sentido de que ele poderia, em qualquer fase de uma dada sequência de conduta, ter atuado de modo diferente. O que quer que tenha acontecido não o teria se esse indivíduo não tivesse interferido (Giddens, 2009, pp.10-11). O modo de reação dos atores sociais brasileiros na estruturação do enfrentamento da pandemia tem elevado as incertezas em um nível sem precedentes; incluindo-se aqui a preocupação central com os níveis de emprego e perda de renda, em razão do impacto econômico do contágio pela Covid-19, no país e no mundo. Somado a isso, está a ambiguidade do comportamento nacional do “jeitinho brasileiro”, cujas atitudes têm se expressadode forma maciça pela minimização do tamanho do risco assumido para si e para os outros. É o que observamos quando a pessoa toma para si o ato de decidir individualmente por não adotar ou por adotar parcialmente (de vez em quando, de modo incompleto) as medidas preventivas e sanitárias prescritas. Tal ambiguidade, permeada por informações contraditórias e insuficientes para prever as consequências de nossas ações individuais, está presente inclusive nas atitudes das instituições governamentais, identificadas, por exemplo, nos embates entre as crenças das lideranças nacionais e os dados científicos e sanitários. No Brasil, observamos durante a pandemia a expressiva adoção, em pessoas nas mais diferentes esferas sociais, do comportamento de risco com probabilidades explícitas de dano à vida. A certeza da incerteza em função do super-contágio da Covid-19 parece aumentar a força dos determinantes individuais e de crenças pessoais na decisão de não seguir as regras prescritas (“meu direito de ir e vir”, “minha liberdade individual”). Some-se a isso o fato de que não há precedentes de experiências dessa magnitude em nossa história. Como desenvolver fatores de proteção psicossocial e de promoção ou prevenção à saúde dos trabalhadores no país? Estudos em neuropsicologia cognitiva demonstram que as escolhas que fazemos em situações de ambiguidade tendem a ativar menos intensamente áreas dos nossos circuitos neurais ligados ao medo e, ao mesmo tempo, intensificam mais as de avaliação e atribuição de valor pessoal na percepção de risco e na tomada de decisão, que se dá por meio de dados que conflitam entre si e no fracasso da transmissão de informações essenciais (Hsu, Bhatt, Adolphs, Tranel, & Camerer, 2005; Martinez-Correa, 2012; Smith, Ebert, & Broman-Fulks, 2016). Isso significa que a ambiguidade que vivenciamos na pandemia hoje, em nosso país, pode elevar os níveis de ansiedade e influenciar a reação das pessoas de modo que elas adotem um comportamento ainda mais arriscado e danoso. Esse agente humano comporta-se dessa forma, porém suas atitudes não são condizentes com a realidade da situação que estamos enfrentando. Desse modo, as pessoas tomam decisões e se engajam em ações com maior probabilidade de dano a si e aos outros, sem compreender sua responsabilidade em adotar (individual e coletiva) a desobediência civil como atitude de contrária às medidas sanitárias estabelecidas. Pode-se decorrer daí, por exemplo, que a pessoa assintomática ou com sintomas leves não terá feedback suficiente sobre sua percepção do risco assumido, pois não terá informação que lhe apontem, sem ambiguidades, que seu comportamento a coloca como um fator de impacto relevante para o aumento dos casos na curva de contágio e de morte pela Covid-19. Para que o trabalho saudável se evidencie para todos, já que o ambiente não está dissipado de intensas incertezas produzidas pelo contágio da Covid-19, é fundamental que a ambiguidade seja minimizada. Informações de qualidade, que permitam que as pessoas as processem de forma planejada, racional e com bom senso, são as principais ferramentas de que dispomos. Nas organizações e mesmo para o empreendedor ou trabalhador autônomo, é fundamental a construção de soluções que busquem a proteção de todos, de modo conjunto e agenciado pelos próprios atores sociais, com dados concretos sobre os desafios da pandemia, seus impactos e cuidados necessários. Mesmo que o quadro nacional seja de ambiguidade ou disputa entre as lideranças instituídas, há que se estabelecer modos de participação coletiva nas soluções práticas das organizações ou instituições, pois assim as propriedades estruturais serão desenhadas com as pessoas, fazendo com que o trabalho de cada um e de todos possa ser e se manter saudável. Essa premissa traz em seu bojo o desafio do cuidado uns com os outros, para o enfrentamento mais eficiente e de melhores práticas e resultados na pandemia e no pós-pandemia. Por óbvio, o elo mais vulnerável de trabalhadores em nossa teia social são as pessoas que obtêm sua renda de forma autônoma e sem vínculo formal de trabalho. E mesmo aqueles que têm vínculo contratual vivem situação de ganhos reduzidos e outras mudanças em suas atividades. Como uma pessoa que depende do dia a dia laboral para que seu “ganha-pão” diário se estabeleça pode viver do jeito que a pandemia nos impõe? Como é possível escolher “ficar em casa” e não trabalhar para pessoas que vivem a realidade de não ter alimento suficiente, de se endividar mais ainda, de viver em condições de moradia precária, de conviver diretamente com a violência doméstica e social? O papel das políticas governamentais ganha maiores proporções nesse enfrentamento, legislando por meio de normas que estão sendo construídas ao longo dessa pandemia. A questão que emerge, então, é: Que trabalho saudável pode ser obtido ao longo da pandemia, considerando-se que não deveria haver ambiguidade quanto às medidas preventivas de cuidado e proteção aos trabalhadores no Brasil? O que é possível fazer, dentro do nosso escopo de atuação e concretamente, nessas condições? Estudos em psicologia positiva aplicada têm evidenciado o importante papel dos fatores de proteção psicossocial no trabalho, que são variáveis determinantes para a saúde das pessoas ao longo da vida laboral (Efrom, Vazquez, & Hutz, 2019; Lorente, Salanova, Martínez, & Vera, 2014; Vazquez, Pianezolla, & Hutz, 2018). A estratégia está em desenvolver a proteção laboral aos fatores que atuam como amortecedores (buffers) dos riscos, danos e prejuízos, bem como aos que são impulsionadores (boosters) da motivação, do engajamento e do bem-estar. Vazquez (2018) aponta quatro elementos essenciais de análise e intervenção laboral que podem ser aplicados como medidas de compliance e como indicadores de saúde para a gestão de pessoas (Salanova, Llorens, Cifre, & Martínez, 2012, Nahrgang, Morgeson, & Hofmann, 2011): 1. Identificação de potenciais riscos ao trabalho saudável com ações que visem à redução ou à mitigação de seus impactos: efeito amortecedor do risco laboral. 2. Avaliação do efeito na cadeia de reações aos potenciais riscos identificados e de seu possível desdobramento em contágio negativo (processo estressor) ou na espiral positiva de ganho (processo motivacional): efeito amortecedor do risco laboral e possível efeito impulsionador do trabalho saudável. 3. Planejamento de estratégia de desenvolvimento positivo baseada em emoções e estados mentais propícios ao desenvolvimento do trabalho saudável e na construção coletiva de rotas de bem-estar: efeito impulsionador do trabalho saudável; e 4. Promover intervenções com foco no engajamento no trabalho e na abertura de oportunidades para as pessoas que possibilitem desafios e autor-realização, em vez de dilemas ou vulnerabilidades continuadas: efeito impulsionador do trabalho saudável. Adaptar as estratégias de gestão de pessoas e de atuação profissional para maximizar a proteção psicossocial e a preservação dos fatores que impulsionam pessoas ao trabalho saudável, mesmo em tempos complexos de pandemia, é um importante norteador para as decisões estratégicas nas organizações e no contexto laboral. Indicadores do trabalho saudável na prática profissional e organizacional devem levar em conta evidências que conduzam tanto à contínua mitigação e redução de danos (buffers) quanto à busca incessante por condições laborais que impulsionem as pessoas ao desempenho com saúde, prazer e autorrealização (boosters). Essa dupla atuação, sistêmica por natureza, é fundamental para que o trabalho saudável possa emergir e se manter, mesmo em tempos de adversidade, como na pandemia. Um exemplo prático desse tipo de gestão está na ferramenta desenvolvida por Salanova et al. (2012) denominada Health & Resilience Organization (Hero), em que os esforços organizacionais são sistemáticos, planejados e proativos no sentido de impulsionar os processos e os resultados da prática por meio de ações estratégicas nos níveis: (1) organizacional (rotinas, expectativas,recursos, demandas); (2) coletivo ou social (aprendizagens, lideranças, trocas, segurança); e (3) individual (carga laboral, autonomia, redesenho do trabalho, feedback). Desse modo, para monitorar se o trabalho saudável está constante nas práticas de trabalho organizacional ou individual, é importante desenvolver medidas de compliance, que são indicadores do comportamento passado, ou seja, do que já foi feito na organização até então. Com isso, avalia-se se tais medidas estão sendo efetivas ou não, quanto a riscos que deveriam ser amortecidos (mitigados ou reduzidos), por meio de políticas, práticas e normas de proteção adotadas. De modo semelhante, porém destacado, tais dados devem ser continuamente combinados com indicadores de saúde laboral, que permitam analisar se esse trabalho efetivamente realizado está sendo impulsionador da prática saudável. São indicadores do comportamento presente, com potencial de serem preditores futuros, sobre o desempenho das pessoas e o quanto elas se sentem felizes e autorrealizadas com aquilo que estão produzindo. É importante ressaltar que serão preditoras do trabalho saudável as estratégias em gestão de pessoas que impulsionam o engajamento no trabalho, sendo necessária essa mensuração sistemática na organização. Tais dados compõem um painel ou mapa estratégico, cujas intervenções devem ser planejadas com base em evidências científicas, pois trazem para a centralidade das ações organizacionais o trabalho saudável, aqui entendido como competência essencial da organização5. Avaliações sistemáticas de bem-estar no trabalho e dos fatores protetivos são ferramentas importantes, que permitirão ao gestor e aos trabalhadores realizarem o acompanhamento dinâmico dos efeitos amortecedores (buffers) e impulsionadores (boosters) de estratégias e práticas. Para tanto, é fundamental que todos os envolvidos compreendam a dinâmica dos preditores que conduzem ao engajamento no trabalho, conforme exposto na seção anterior. Cabe ressaltar que dados obtidos por meio de ferramentas gerenciais, como People Analytics, por exemplo, precisam ser interpretados à luz de processo dinâmico e contínuo, na tessitura da prática real dos resultados esperados diante dos obtidos. E a análise deve considerar as condições de estruturação do trabalho quando foram coletados os dados, em termos de recursos, demandas e engajamento no trabalho. Para isso, os estudos científicos e os modelos teóricos com base em evidências são fundamentais na promoção e manutenção do trabalho saudável. Assim, fatores de proteção, promoção ou prevenção à saúde organizacional e laboral devem ser constantemente analisados em consonância com os robustos achados científicos nesse campo. No estudo de Vazquez et al. (2019) sobre trabalho saudável, com 986 trabalhadores brasileiros, evidenciou-se que os recursos de trabalho, associados à satisfação de vida, são os preditores de maior proteção psicossocial ao risco de burnout e de sintomas depressivos associados ao trabalho. Os autores apontam que a força e a relevância [estão] em se planejar as metas organizacionais com foco na disponibilização ou no arranjo dinâmico dos recursos de trabalho, incluindo os recursos pessoais dos trabalhadores. Segundo os dados dessa pesquisa, planejar a estratégia de qualquer organização ou instituição com foco unívoco nas exigências, sem avaliar os recursos de trabalho que sejam impulsionadores do desempenho, significa aumentar a probabilidade de ocorrências de desgastes de energia laboral sem recarga adequada ou, dito de outro modo, do Burnout (Vazquez et al., 2019, p. 379). Em tempos de pandemia, em que a satisfação de vida é colocada à prova pelas incertezas, ambiguidades, inseguranças e mudanças drásticas, o papel dos recursos laborais torna-se ainda mais relevante para o trabalho saudável. Assim, em meio aos desafios intensos, à dinâmica das mudanças pela situação emergencial e pela atitude dos brasileiros, traz à tona a necessidade de conduzirmos a vida laboral para patamares mais saudáveis. Para isso, a disponibilização dos recursos de trabalho, possivelmente combinados em múltiplas propriedades estruturais, torna-se uma das principais ferramentas de proteção e de promoção de saúde. É preciso que organizações, gestores de pessoal e trabalhadores atentem para essa realidade. A pandemia da Covid-19 coloca em xeque os padrões vigentes de competitividade global, organizacional e profissional e nos ensina que ser saudável é adotar os comportamentos que visem ao bem-estar coletivo, à vida plena e ao cuidado uns com os outros. Quiçá o “novo normal” tão especulado para o pós- pandemia seja baseado naquilo que realmente importa para a vida humana; que, evidentemente, só será realidade se todos se voltarem, juntos e colaborativamente, para o propósito de construir um mundo saudável e uma vida social que seja plena de felicidade. De modo prático, na vida laboral e organizacional, gestores e lideranças têm recursos que lhes permitem engajar as pessoas sob sua responsabilidade nesse redesenho do trabalho, impulsionando a criatividade, a solução de problemas e o bem-estar comum. Este último, cabe ressaltar, é desenvolvido à medida que cada um coloca seus interesses pessoais em análise reflexiva, com o propósito de chegar ao resultado mais benéfico para todos. Isso porque, mesmo que se vivenciem perdas e adversidades, é possível aumentar a satisfação de vida durante a pandemia e na pós-pandemia por meio da promoção e a manutenção do trabalho saudável. Mudanças e transformações planejadas com cuidado, acolhimento e confiança entre as pessoas envolvidas têm alto potencial de ser percebidas como protetoras e promotoras de bem-estar, além de prevenirem os riscos do burnout e de sintomas depressivos. É preciso coragem, humildade, compaixão (mais que empatia) e boa vontade uns com os outros; variáveis positivas que podem ser desenvolvidas por meio de intervenções organizacionais e de atitudes práticas. Nessa esteira, sabe-se que os principais fatores de proteção que atuam como preditores do trabalho saudável são a satisfação de vida, o suporte social, a qualidade das relações (confiança, respeito mútuo, cuidado uns com outros), gratidão (com efeito indireto na diminuição de ansiedade) e esperança disposicional (visando criar soluções, bem como efeito direto na diminuição da ansiedade e no aumento do engajamento no trabalho) (Schaufeli, 2016; Vazquez et al., 2019). Existem outras emoções e intervenções positivas que vêm sendo estudadas, com potencial alto de contribuição em relação ao tema do trabalho saudável, tais como coragem, compaixão, perdão e liderança engajadora, entre outras. Finalmente, as características do trabalho na pandemia, majoritariamente na modalidade remota, devem ser moldadas por rotinas que permitam a renovação da energia vital, conforme foi apresentado na seção anterior. Ações de proteção, promoção e prevenção em saúde laboral são impulsionadoras de boas práticas, tais comoo descanso devido, a calibragem das expectativas de resultados perante as condições atuais, as rotinas de cuidados necessários e o respeito aos limites de cada um nesse período (Devotto et al., 2020). Um exemplo simples está no envio de mensagens de trabalho apenas em horário laboral, respeitando fins de semana, outros horários ou férias. Ações de promoção e prevenção em saúde do trabalhador na pandemia devem avaliar os níveis de monotonia e adição laboral, sendo essa última caracterizada como o principal fator de risco para pessoas que são altamente engajadas no trabalho (Vergara, Althoff, Pedrotti, Vazquez, & Oliveira, 2020). Somados a esses riscos psicossociais, é de fundamental importância que os propósitos de trabalho não gerem o exercício excessivo de funções profissionais, que na pandemia parecem romper os limites entre o tempo e o espaço ou entre a vida privada e a vida laboral. Isso potencializa os danos gerados pelo processo estressor no trabalho, possivelmente culminado em sintomas depressivos ou em burnout (Vazquez et al., 2019), especialmenteem razão da forma volátil, veloz e pouco estruturada como o trabalho tem se caracterizado na pandemia por Covid-19. Cada organização, instituição e profissional precisa analisar as estratégias que melhor cabe ao conjunto de pessoas sob sua liderança, de acordo com os seus desafios singulares e específicos. De forma colaborativa e respeitosa, as soluções obtidas com base na proteção, no acolhimento e no apoio social evidenciarão para todos que o trabalho saudável é fator crucial de sucesso organizacional e de realização profissional. Considerações finais Este capítulo tratou do trabalho saudável em tempos de pandemia, a partir das evidências e dos achados em psicologia positiva aplicada ao contexto organizacional e do trabalho. Sem a pretensão de esgotar o assunto ou de sugerir “receitas prescritivas”, foram identificadas as caraterísticas do trabalho saudável, seus potenciais impulsionadores (boosters) e os possíveis riscos que devem ser amortecidos (busters), por meio de ações estratégicas de proteção, promoção e prevenção em saúde laboral. As reflexões aqui propostas sobre o trabalho saudável e a possibilidade de sentir prazer, realização e engajamento em meio às adversidades atuais foram analisadas perante as inseguranças, incertezas e ambiguidades da pandemia pela Covid-19 no Brasil. Ao trazer o tema do trabalho saudável como possível em um período de adversidade tão intenso como o que estamos vivenciando nessa pandemia em nosso país, este texto busca trazer contribuições para compreensão aprofundada sobre o comportamento dos brasileiros e os modos pelos quais podemos transformar (ou não) nossas atitudes e práticas em prol do bem comum e do trabalho saudável. No papel de agentes humanos imersos na tessitura das propriedades estruturais da nossa sociedade, as quais nos são possíveis reproduzir ou transformar, citamos as palavras de Hannah Arendt (2008, p. 8) para finalizar: quando pensamos nos tempos sombrios e nas pessoas que nele viveram e se moveram, temos de levar em consideração também essa camuflagem que emanava e se difundia a partir do establishment – ou do “sistema”, como então se chamava. Se a função do âmbito público é iluminar os assuntos dos homens, proporcionando um espaço de aparições, onde podem mostrar, por atos e palavras, pelo melhor e pelo pior, quem são e o que se põem fazer. Esperamos, sinceramente, que a leitura deste capítulo seja motivo de inspiração para a promoção de práticas de trabalho saudável na pandemia e na pós-pandemia; e que as evidências da psicologia positiva e outras de natureza científica sejam base para colocar em ação as premissas que preconizam o prazer no trabalho imanente da tessitura das relações possíveis de cuidado, apoio social e realização profissional. E, como consequência, que possamos promover nas pessoas uma vida laboral de significado e plena em felicidade, mesmo em situações adversas como as que estamos vivendo nesse momento de emergência em saúde pública. Referências Abbad, G. S., Legentil, J., Damascena, M. P., Miranda, L. F., Nunes, C. F., & Neiva, E. R. (2019). 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Compreender suas propostas lhe permitirá escolher o modelo mais adequado à solução do seu problema e, ao final do capítulo, ser capaz de: • Descrever diferentes modelos de intervenção. • Descrever as semelhanças entre os modelos de intervenção. • Descrever as diferenças entre os modelos de intervenção. • Justificar a escolha por algum dos modelos de intervenção. Um modelo de intervenção define-se pela representação geral de práticas que será transportada para a sua atuação em campo, ou seja, como será concebida a atuação profissional. Os modelos apresentam vários eixos de estrutura. O modelo auxilia a pensar o processo do início ao fim: definir qual o problema a ser trabalhado, como escolher e delimitar o problema e seus contornos (p. ex.: recursos preservados, o que precisa ser modificado); como será o processo (p. ex. coadjuvante, colaborativo, consultivo, interventivo etc.), por fim, avaliar a repercussão da sua intervenção. Vale ressaltar que as intervenções evoluíram de abordagens simplistas para complexas e organizadas. As primeiras buscam resolver o problema ajustando aspectos do funcionamento organizacional, na tentativa e erro (Burgess, Brough, Biggs, & Hawkes, 2019), muitas vezes sem questionar os objetivos. As mais complexas se organizam em modelos de intervenção que buscam a transformação e sustentabilidade da mudança organizacional. Os modelos apresentados aqui estão organizados cronologicamente, mas essa não é necessariamente a melhor opção pedagógica. Não há hierarquia nem preferência entre eles. Esses modelos são oriundos da psicologia social, por excelência, a “mãe e o pai” da psicologia organizacional e do trabalho (POT). Inicia-se com Kurt Lewin, que é conhecido como o pioneiro em propor um modelo de intervenção nos anos 1940. Seguido dele, surgem outros três modelos quase 40 anos depois e que são contemporâneos: psicologia social aplicável (1980), ciclo completo (1980) e psicologia social comunitária de Dohrenwend (1978). A psicologia social comunitária com foco mais estadunidense organizou mais recentemente, em paralelo a outros movimentos internacionais, uma descrição de competências que o psicólogo social prático deveria ter, assim essas competências foram incluídas na mesma seção do modelo de psicologia social comunitária. O último modelo apresentado é o Path, já do século XXI, que vem orientado a grupos maiores. Outros modelos, como o inquérito apreciativo que mescla modelo e intervenção, acabaram não sendo incluídos aqui. Consideramos neste capítulo, somente os mais utilizados na literatura de intervenção, como mencionamos anteriormente, por ser impossível contemplar todos os modelos existentes. Modelo de pesquisa-ação de Kurt Lewin O modelo de pesquisa-ação foi proposto, em 1945, por Kurt Lewin (1948b), que tinha um particular interesse por problemas reais e trabalhou em organizações nos EUA. Segundo Lewin (1948b), ele se deparou com um arranjo entre boa vontade nas atuações, discriminação de alguns grupos, e outros grupos que não se percebiam em condições de atuação no seu campo. Nasce então o modelo de pesquisa-ação para trabalhar fundamentalmente com processos discriminatórios em organizações. Lewin (1948a) afirmou que a pesquisa necessária para a prática social poderia ser mais bem caracterizada como uma pesquisa de engenharia social. Ele acreditava profundamente que o influenciador dos problemas vividos era o contexto e parte dos problemas estudados no contexto laboratorial não dava conta de explicar ou reproduzir diversas questões contextuais que, no momento da prática e da intervenção, são fundamentais para que a intervenção seja efetiva (continuo concordando com ele). A proposta de pesquisa-ação de Lewin apresenta pressupostos que podem ser complexos de conseguir: a mudança deve partir da comunidade e de grupos interessados nela. Na questão a ser mudada não deve haver um claro benefício de alguém ou algum grupo de poder na organização – o que em termos práticos é quase impossível, já que em mudanças é comum alguém se beneficiar em detrimento de alguém que perde. A proposta do autor, como se verá, é bastante interessante, mas tem a limitação de ser lenta. Significa que se você tem pouco tempo (p. ex.: seis meses) para alguma mudança esse não é um modelo adequado a ser implementado. Esse modelo ajusta-se a alguém que está sob supervisão ou em colaboração com alguém da academia, ou que trabalha no campo. O exemplo da pesquisa-ação realizada com os policiais no Rio de Janeiro é uma delas (Andrade, Sousa, & Minayo, 2009; Minayo, Souza, & Constantino, 2008). O primeiro passo do modelo de pesquisa-ação é o planejamento e toda resolução de problema, que deve partir de uma ideia geral e de um objetivo a ser atingido. Muitas vezes, a clareza sobre como chegar ao objetivo e como atingi-lo inexiste (Figura 1). Essa primeira etapa de planejamento requer conhecimento do campo, do que é o problema, mas também do que a literatura já tem sobre ele, por isso a parceria com a universidade é bem-vinda. Em linhas gerais, a proposta de Lewin (1948, p, 201) descreve que o “processo é uma espiral de passos composta de um ciclo de planejamento, ação, encontro de fatos e, depois, resultado da ação”. Esse processo foi posteriormente amadurecido e subdividido à medida que diferentes profissionais aplicaram sua proposta. Gunther traduziu para o português um texto de Sommer e Amick (1984), no qual desempacotaram mais passos. Figura 1. Modelo de pesquisa-ação de Kurt Lewin revisado por Sommer e Amick. Na Figura 1, pode-se notar o esforço posto na fase de planejamento (que são os passos em fundo branco), seguido da intervenção (em fundo cinza) e avaliação (fundo preto). A fase de planejamento é composta por algumas etapas em sequência. A primeira delas é ter clareza dos fatos e dos objetivos para que se possa prosseguir com o tipo de ação a ser tomada. Para ter clareza dos fatos, é preciso instituir um comitê de pesquisa que pode ser interno à organização ou da comunidade, a partir do qual se montam equipes que podem ser diversas ou homogêneas. Por exemplo, uma equipe pode ser composta por pessoas de uma organização em diferentes pontos do país, ou por várias de um mesmo local, ou de países diferentes, de categorias funcionais diferentes, ou, em outras palavras, a composição do comitêprecisa ser tão variada quanto a natureza do fenômeno que irá afetar a comunidade. Após a decisão do comitê de pesquisa, é preciso treinar a equipe sobre o problema, quais fatos descrever, como executar a pesquisa de campo para que possam ser os olhos e os ouvidos sobre aquela problemática e, assim, trazer informação para subsidiar uma ação. A última etapa é a análise de dados, que precisa ser feita pela comunidade para entender quantitativa e qualitativamente aquele dado. O pesquisador pode e deve dar auxílio à comunidade sobre como executar cada uma dessas etapas, mas cabe à comunidade fazê-las, pois ela detém a vivência sobre aquele problema. Depois do planejamento está a ação. Toda ação é precedida e sucedida de uma pesquisa, por isso a pesquisa-ação. A ação, para Lewin, começa pela informação que, efetivamente, pode ser muito poderosa, mas já se sabe que informação não é o suficiente para a mudança de alguns tipos de comportamento (p. ex.: deixar de fumar: todo fumante sabe mais do que um não fumante os males que o cigarro faz, mas permanece fumando). Na ação, é preciso apresentar feedback interno para a comunidade. Nesse feedback é preciso ter cuidado, pois há diversas interpretações possíveis da informação que está sendo apresentada. Por exemplo, um feedback ruim sobre um desempenho geral da organização pode ser extremamente dolorido e por isso é necessário entender o que está havendo, bem como onde e como se pode melhorar. Pouco ajuda apresentar apenas um feedback com um formato “Olha, estamos mal, muito mal”. É preciso levantar com a comunidade quais são as alternativas de solução e sugerir algumas. Por exemplo, um desempenho ruim de uma escola no Enem pode estar além da esfera exclusiva dos professores (é também, mas não apenas), mas pode estar na comunidade e nas políticas das secretarias de educação correspondentes. Portanto é preciso que os quatro atores (professores, alunos, comunidade e gestão) pensem em alternativas de solução para o problema, que também podem ser amparadas por um acadêmico. Finalmente a avaliação. Segundo Lewin, ter clareza do objetivo, e, portanto, do que é o foco da avaliação ou da pesquisa, tem quatro funções: (a) o reconhecimento dos fatos; segundo ele, é reconhecer a eficácia da intervenção, ou seja, por meio dos fatos se reconheceu que havia um problema, e questionar se os novos fatos foram além ou abaixo das expectativas? É com os fatos que se sabe se o objetivo foi atingido; (b) dar a chance para aqueles que farão a intervenção de aprender quais técnicas de ação foram mais (ou menos) efetivas em reduzir o problema; (c) os fatos devem servir para orientar os próximos passos, evitando assim que se saia do foco; (d) finalmente, os fatos servem também para reorientar os planos, em particular se houve efeito rebote. Lewin chama diversas vezes a atenção para o reconhecimento dos fatos concretos para que se saiba se a direção que se pretende ir é a correta. Não é porque tenhamos boa intenção que conseguimos assegurar que a intervenção sairá como queremos, muitas vezes ela é ineficaz ou pior, dá um efeito rebote, e é preciso (re)pensar por que e como se pode propor outra estratégia ou fazer uma medida temporal. Por exemplo, se a intervenção é para melhorar processos discriminatórios ou acediosos, é comum que no início aumente o número de casos, não porque eles acontecem efetivamente mais, mas porque as pessoas estão mais conscientes e decidem reportar o assédio ou a discriminação –, meses depois, o comportamento se reduz. Lewin literalmente afirmou que era preciso instalar olhos e ouvidos sociais com medidas baseadas em evidências para entender o que está acontecendo, e para isso é necessário ter controle, medidas, acompanhamento estatístico, para que, ao longo da história, possam ser refinados. Mas sem medidas padronizadas, realizadas periodicamente (p. ex.: anualmente), preferencialmente por órgãos externos (portanto, menos implicados) não é possível saber se o caminho está correto. O modelo de pesquisa-ação, como afirma Ferreira (2010), orientado para o desenvolvimento da comunidade e com foco grupal, foi sendo abandonado e substituído nas décadas subsequentes (Ferreira, 2010) por uma perspectiva laboratorial e cognitivista que culminou nos anos 1970-1980 em uma crise e a necessidade de um retorno para modelos que contemplassem e aplicassem os achados da psicologia social – crítica esta defendida pelo grupo da Universidade de São Paulo (Sato, Coutinho, & Bernardo, 2017). Assim, esse é o primeiro modelo de intervenção proposto na literatura ao qual se faz referência. O modelo operário italiano (MOI), que busca compreender a nocividade do trabalho, é uma aplicação do modelo de Lewin para a prática nas fábricas. A inovação do MOI está basicamente no mapa de riscos com controle das condições de trabalho pelos próprios trabalhadores, como propunha Lewin. Assim, optou-se por não apresentar o modelo completo, embora valha a pena ser estudado na área de POT. A partir do modelo de Lewin, vieram os próximos três modelos: psicologia social aplicável de Mayo e La France (1980), ciclo completo de Cialdini (1980) e psicologia social comunitária de Dohrenwend (1978). Nota-se que, historicamente, houve um desejo e uma agenda pela sistematização e orientação para uma intervenção feita com qualidade e parâmetros para orientar a intervenção. Modelo da psicologia social aplicável de Mayo e La France Em 1980, Clara Mayo e Marianne La France salientaram sua inquietude sobre a área de psicologia social. A crise da área vinha da sua cisão em dois campos: de um lado, os psicólogos sociais aplicados preocupados com intervenções em larga escala e, de outro, os experimentalistas com suas pequenas amostras cuidadosamente escolhidas e variáveis manipuladas em contextos distintos da realidade social. As autoras questionam a área de psicologia social aplicada por acharem que o termo “aplicada” tem certa referência ao passado e que o básico então lideraria o campo. Assim, elas preferem o termo “aplicável” (Mayo & La France, 1980). Entre as características do modelo, seu aspecto cíclico chama a atenção, visto que, segundo elas, uma área aplicada espera um conhecimento linear, no qual X se aplica a Y. No caso de um conhecimento aplicável, espera-se um retorno de Y em X também. Vale notar que, embora o modelo de Lewin já apresentasse essa característica, quase todos os modelos de intervenção a têm. Há três proposições no modelo de Mayo e La France: (1) a melhora na qualidade de vida, (2) o comprometimento com a construção do conhecimento e (3) o envolvimento ativo na intervenção (representados na Figura 2). Esses elementos centrais, guiam o processo e se ligam a três outros três pares de eixos adaptadores: definição do problema–escolha do método; análise do sistema social-definição dos papéis e avaliação–interpretação. A conexão entre esses elementos é apresentada por dois movimentos: um em sentido horário e outro em sentido contrário. O movimento contrário tem o objetivo de alimentar continuamente o sistema com feedback sobre a ação. Figura 2. Modelo da psicologia social aplicável de Mayo e La France. As proposições do modelo de Mayo e La France (1980) têm uma orientação valorativa, crítica e moral. A proposição de que a intervenção deve ser orientada para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas carrega uma conexão filosófica sobre a função da ciência: “gerar bem-estar ao homem”. As autoras relembram a proposta de Lewin de que, antes da defesa de uma boa teoria, é preciso saber que a psicologia social parte de um problema social. O crescimento e a especialização da área da psicologia social levaram a um divorcio com a vida “como ela é”. A orientação da ação para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar tem um olhar positivo, proativo (em vez de reativo) e funciona como um marcador ecológico para os achados de laboratório. Impõe ao psicólogo social um comprometimento com seus valores, entender que a ciência não é isenta de valores humanos e eles são importantespara guiarem a nossa ação (Diener & Seligman, 2004; Jacó-Vilela & Sato, 2012; Sato et al., 2017; Schwartz, 1992; Schwartz et al., 2012). Essa orientação pressupõe uma meta, uma expectativa, de onde se pretende chegar ou onde se pode chegar. Portanto, levanta a necessidade de um debate importante que é: O que é qualidade de vida para aquela comunidade? Ou o que é qualidade de vida? A segunda proposição do modelo é o comprometimento com a construção do conhecimento em psicologia social. Esse conhecimento busca a predição, tem foco nas consequências e procura ampliar as variáveis a serem incluídas e consideradas. Realizar intervenções só é possível se tivermos conhecimento para tal. Esse conhecimento busca a predição para além da explicação, busca trabalhar com as variáveis de alto impacto em diferentes níveis de análise. Conseguir predizer significa saber que uma variável ou um conjunto de variáveis leva a modificação de outro conjunto de variáveis. Uma ação ou uma intervenção requer que tenhamos implicitamente uma explicação para orientar corretamente a ação. Do contrário, ter uma série de técnicas sem poder explicar o porquê de elas funcionarem, é de pouca serventia, pois se não funcionarem também não se sabe o porquê. Caso mudanças sistemáticas em uma variável levem a mudanças sistemáticas em outra, é preciso dar atenção a essa variável, mas nem toda variável impacta da mesma forma em um grupo de comportamentos ou em um contexto específico. Portanto, é preciso ver o efeito e sua variabilidade para além das causas. O efeito, a magnitude do efeito, é importante, mais do que apenas a significância, e é legítimo olhar para a magnitude, pois ela orienta onde e o quanto aquela variável afeta e isso implica a escolha de quais variáveis podem resultar em efeitos mais desejáveis para a direção que se quer. A variabilidade, por outro lado, orienta o olhar para outras variáveis que podem estar afetando (moderando) a eficácia da intervenção. A última proposição do modelo de Mayo e La France (1980) é que o campo aplicado requer implicação, comprometimento, consideração e planejamento. Segundo elas, os psicólogos sociais com viés mais básico colocam a criação do conhecimento como elemento central da sua conduta e relegam a utilização do conhecimento e a aplicação como algo “menor”. Quem mais apropriado do que um cientista social para observar um comportamento social? A ênfase dada à implicação do pesquisador sobre o campo e sobre a intervenção não tem o proposito de que ao final todos sejam ativistas de uma causa. Mas é preciso que o conhecimento gerado tenha potencial de utilização, e suas implicações podem ser inclusive maléficas a algum grupo social. Inerente a essa proposição, e não menos importante, está a questão ética da entrada no campo, de como entrar, do que está sendo feito, quais técnicas serão utilizadas etc. Essas proposições básicas orientam o trabalho do que as autoras chamam de adaptadores, que, segundo elas, contêm três pares de eixos: definição de problema–interpretação; escolha do método de pesquisa–avaliação e análise do sistema social–definição de papel. Esses eixos são definidos na Tabela 1, na qual é possível notar diversas similaridades com o modelo de Lewin. Tabela 1. Sistematização dos adaptadores de Mayo e La France No caso da definição do problema é importante que o psicólogo social que vai a campo faça uma leitura sobre o problema e sobre o que está sendo posto sobre ele, por exemplo, culpabilizar a vítima, ou que representação social se tem sobre determinado grupo social e por que os problemas podem estar ocorrendo, e assim sucessivamente. A interpretação dos resultados da intervenção é outra faceta do problema, visto que, a depender da hipótese que se fez e do resultado que se obtém, é possível que o resultado traga à tona outras variáveis. Sánchez Vidal (2002) interpreta como sendo uma atenção em função da subjetividade e dos valores de cada um. A escolha do método de pesquisa precisa vir calcada na pertinência. Todo método de pesquisa tem prós e contras, viabilidades, que dão conta de responder a questões relativamente diferentes. O ponto ótimo aqui é a pertinência da informação que é alcançada. A avaliação dos impactos precisa transbordar do contexto específico trabalhado. Por exemplo: o contexto trabalhado foi com adoecimento de teleatendentes, portanto a avaliação da intervenção precisa acontecer para medir a redução do adoecimento neste grupo, mas, também sob o aspecto da chefia, a redução de custos financeiros associados, do melhor atendimento ao usuário daquele serviço, entre outros fatores envolvidos. Muitas vezes, a medida de impacto acaba sendo muito resumida e em curto prazo (quando ocorre!), mas ela é fundamental para dar subsídio e apoio ao trabalho que está sendo realizado. O adaptador precisa fazer uma análise do sistema social concreto, portanto, do que ocorre naquele campo, naquele caso e momento específico. Se a proposta é entrar em uma escola, é preciso ter em conta uma mudança de legislação, de horário, uma chefia que se aposenta ou adoeceu. É necessário entender o campo específico para atuar. A clareza da definição de papéis é um processo importante no caso de uma adaptação. O papel de pesquisador em um campo aplicado diverge de um aplicador dentro do seu próprio campo. A relação entre aquele que faz a adaptação, como ele é visto e avaliado pelos demais. O suposto saber, a simpatia, até a beleza (ou a apresentação) influenciam no momento de uma entrada em campo. São todas estratégias ou táticas de influência social que podem ser usadas favoravelmente, ou ocorrem a esmo, mas é importante tê-las em conta no momento de uma entrada em campo. O modelo de Mayo e La France tem uma proposta cíclica, retroalimentada, na qual os diferentes adaptadores se influenciam mutuamente e, como pano de fundo estão as proposições básicas. Ainda que seja um sistema retroalimentado, as autoras priorizam o início pela qualidade de vida das pessoas e que a partir daí tudo se inicie. A ideia é que, se algum dos itens se perder na retroalimentação, o sistema se transforma em um sistema linear e perde seu grande potencial de aprendizagem e de adaptação. O modelo é genérico e pode ser aplicado com diferentes perspectivas teóricas, embora esteja mais fortemente calcado na cognição social que estava em voga naquele momento. Outrossim, o papel do psicólogo é fundamentalmente colaborativo no processo. No Brasil, Cristo (2019) aplicou este modelo ao trabalho do psicólogo do trânsito e transporte. Sánches Vidal faz (2002) elogios ao modelo delas como sendo sintético e bastante completo, mas aponta que faltam elementos teóricos e técnicas para além da perspectiva da entrada em campo. É um modelo com forte cunho crítico e de preocupação humana, privilegia uma ação dependente daquele que a conduz e pode ser mais rápido que a proposta de Lewin, em função disso. Modelo de ciclo completo de Robert Cialdini O modelo chamado de ciclo completo (full cycle) foi proposto por Cialdini nos anos 1980. Historicamente, o modelo veio como resposta a questionamentos similares ao de Mayo e La France (ambos os modelos foram publicados no mesmo número especial). Note também que os modelos se assemelham no seu aspecto cíclico. Segundo Cialdini, o modelo de ciclo completo não é um modelo de aplicação, mas sim um modelo de validade ecológica para os achados laboratoriais (Mortensen & Cialdini, 2010). Isso implica que a base teórico-conceitual desse modelo é de cognição social. Embora ele defenda que o modelo seja de validade ecológica e não de aplicação, o fato de ir para uma prática e testar quase experimentalmente uma proposta com um objetivo de melhora do contexto (ainda que ele não descreva para quem é essa melhora) o legitima como um modelo de intervenção. Entretanto, o papel do psicólogo pode ser mais coadjuvante ou consultivo na intervenção. O ciclo completo propõe-se, resumidamente, a executar uma abordagem situada das pesquisas em ciências sociais e humanas (Ferreira, 2010).A proposta se aproxima do que foi conhecida na Escola de Chicago, na qual os pesquisadores realizavam pesquisas e experimentos que fossem aplicados na cidade de Chicago. Em outras palavras, os estudos conduzidos na universidade deveriam partir de uma observação de um fenômeno real e orientado a partir dele, com uma proposta pragmática de utilidade do conhecimento. A partir da observação do mundo real com a intervenção, ela alimentaria o ciclo com novas perguntas a serem respondidas no contexto laboratorial (Figura 3). O ciclo é bidirecional entre observação naturalística– teoria–experimentação (Mortensen & Cialdini, 2010). Figura 3. Modelo de ciclo completo (full cycle) de Robert Cialdini. Nota-se que esse modelo também tem similaridades com o modelo de pesquisa-ação proposto por Lewin. Busca-se evidências no ambiente natural e procura-se por medidas objetivas. A diferença aqui está no foco: a proposta de Cialdini centra-se mais no trabalho a ser executado no laboratório e chama a atenção dos pesquisadores da universidade para a necessidade de executar pesquisas que sejam orientadas para a realidade e que depois se executem quasi-experimentos na vida real, o que raramente acontece para validar a pesquisa. O laboratório tem a vantagem de estabelecer cuidadosamente causalidade e ter controle entre variáveis (Mortensen & Cialdini, 2010), poder testar relações diretas, mediadas, mas tem a limitação de não ser capaz de prever no mundo real o quanto aquelas variáveis irão se relacionar. Como Mortensen e Cialdini (2010) apontam: uma significância estatística no laboratório não significa uma relação no mundo real e vice-versa porque há condições específicas que muitas vezes não foram abordadas ou colocadas à prova no contexto real. Segundo os autores, a volta ao campo para validação ecológica dos achados é um teste ácido, pois muitas vezes resulta em resultados sem significância estatística. A proposta geral do ciclo completo é construir teoria substantiva em psicologia social, etnopsicologicamente calcada, com produção de evidências empíricas consistentes, situada em uma realidade cultural e social, passível de comparação transcultural, integradora em diferentes níveis de análise. Significa dizer que o campo começa sempre com uma observação naturalística (Mortensen & Cialdini, 2010) e volta para ela. A proposta é também testar tecnologias antes de ir a campo, em um ambiente controlado, que tem seu ganho em poder elucidar por que a tecnologia pode (ou não) funcionar. Agregado a esse olhar do comprometimento do pesquisador, há um pressuposto importante de que o campo é quem valida os achados realizados nos experimentos laboratoriais (Mortensen & Cialdini, 2010). Embora isso seja verdade, a pesquisa proposta por Cialdini é unidirecional, portanto, vai do campo para o laboratório, a partir daí cria e testa teorias, bem como limita-se a um olhar bastante pragmático. Assim, a proposta de Cialdini não é livre de críticas. Alguns teóricos sugerem que o modelo é fraco por apenas testar tecnologia, mas não é composto de significado do que se faz e de um aprofundamento sobre o campo que se aplica a essa tecnologia (Hill, 2006). Hill (2006) sugere que Cialdini não se compromete com o campo, com a melhora da qualidade de vida do cidadão, muitas vezes o que é produzido em termos de tecnologia beneficia não a sociedade, mas sim a empresa. Evidentemente beneficiar a empresa pode implicar um benefício ao consumidor e ao trabalhador, mas nem sempre (Coelho, 2015; Mick et al., 2011), e há propostas atuais que sugerem que se faça uma intervenção com maior crítica, cabendo ao pesquisador essa escolha. Outra crítica ao modelo é a extensão e demora, pois um modelo assim demanda voltar à universidade, conduzir diversos experimentos (e publicá- los), antes de sugerir uma solução para o campo e testá-lo nesse contexto. Embora haja críticas ao modelo de Cialdini, ele ainda é um modelo interessante por propor o olhar de uma psicologia laboratorial mais aplicada, que parte da observação naturalista para entender quais são as variáveis que no campo aparecem como importantes preditoras ou antecedentes da variável que se pretende trabalhar. Infelizmente esse olhar naturalístico muitas vezes tem sido deixado de lado e abandonado pelos pesquisadores. Vale ressaltar algumas dificuldades dos campos “reais”: alguns são difíceis de entrar e às vezes demandam mais relações políticas do que só boa vontade do pesquisador, e se, por um lado, infelizmente, a universidade muitas vezes é bastante avessa às necessidades do campo, por outro, muitas vezes o campo também é bastante fechado às propostas da universidade. Frequentemente, chegamos a fazer experimentos interessantes com achados que entendemos que poderiam ser testados na prática, mas esbarramos na dificuldade de conversar com um juiz-coordenador, o diretor do hospital, o reitor ou outras entidades, para explicar que sem elas não há espaço nem força para que se faça alguma intervenção mais efetiva no contexto. Claro que não são todos, mas acontece. Modelo da psicologia comunitária A psicologia comunitária, na perspectiva de eixo mais estadunidense da American Psychological Association (APA), tem diversos pontos em comum com a psicologia comunitária que se aplica no Brasil. A divisão na APA relativa à psicologia comunitária é a 27, portanto é uma divisão diferente dos modelos anteriores, que são vinculados à divisão 8 de psicologia social. Segundo a definição apresentada na divisão da APA, a psicologia comunitária vai além do indivíduo, focando e integrando as influências sociais, culturais, econômicas, políticas, ambientais e internacionais para promover mudança, saúde e empoderamento nos níveis individuais e sistêmicos. O campo da psicologia comunitária foi estabelecido em 1960 e, desde seu início, teve inserção social, mas a definição da prática da psicologia comunitária veio apenas alguns anos depois e foi definida com o objetivo de: “fortalecer a capacidade das comunidades de alcançarem suas necessidades constituintes e ajudá-las a realizarem seus sonhos, para promover bem-estar, justiça social, equidade econômica, e autodeterminação por meio de mudanças nos sistemas, organizações e nos indivíduos” (Julian, 2006, como citado em Wolff, Swift, & Johnson-Hakin, 2015, pp. 2-3). A psicologia comunitária tem três grandes linhas: psicologia comunitária crítica, psicologia crítica e psicologia da libertação. A psicologia comunitária crítica envolve ação social, justiça social, opressão, libertação e trabalho em diferentes níveis de análise. A psicologia crítica tem foco em diminuir a injustiça política, econômica e outras estruturas. A psicologia crítica é constituída pela teoria crítica, com o criticismo às instituições culturais e à pedagogia crítica, que procura educar o estudante para que ele tenha uma visão crítica. A psicologia da libertação envolve a aplicação da psicologia de forma participativa para facilitar uma ação transformativa e avançar na justiça social, sendo considerada uma área aplicada. A psicologia comunitária, portanto, representa uma maneira de pensar sobre o comportamento das pessoas e o bem-estar no contexto, abrindo uma perspectiva para o ambiente social no qual elas vivem (Levine et al., 2005). Historicamente, ela advém da clínica, com uma derivação para a prática em uma comunidade (Dohrenwend, 1978). A psicologia comunitária, ao mesmo tempo que tem interfaces, tem diferenciações com outras áreas: trata de prevenir problemas sociais com o objetivo de melhorar a qualidade de vida no geral (note que é um objetivo muito próximo ao que Lewin, Mayo e La France apresentaram nos seus modelos). Há uma descrição de diversas competências que o prático da psicologia comunitária deve ter. Essa descrição de competências talvez seja uma das contribuições mais ricas dessa proposta. As competências são divididas em quatro grandes eixos: princípios fundadores, desenvolver e gerenciar programas comunitários, mudança social e comunitária e pesquisa comunitária.A descrição das competências foi um movimento alinhado com o movimento da International Union of Psychological Science (IUPsyS) de descrições fundamentais do profissional psicólogo6. No eixo princípios fundadores estão as competências de ter uma perspectiva ecológica, que é a habilidade de articular diferentes teorias na aplicação ao campo. Empoderamento, que é a capacidade de articular estratégias de empoderamento para dar suporte às comunidades que estão marginalizadas. Competências socioculturais e transculturais, que é a habilidade de valorizar, integrar e criar pontes entre os diferentes olhares e perspectivas sobre do mundo. A parceria e a inclusão na comunidade é a habilidade de promover genuíno respeito e representação com todos os membros da comunidade e agir de forma a legitimar as perspectivas divergentes da comunidade nas questões sociais. Finalmente, uma prática reflexiva e ética que é a habilidade de identificar questões éticas na própria prática. No eixo desenvolver e gerenciar programas comunitários estão as competências de desenvolvimento, implementação e gerenciamento de programas, que contemplam a habilidade de, em conjunto com a comunidade, planejar, desenvolver, implementar e sustentar programas no contexto comunitário. A prevenção e a promoção de saúde descritas como a habilidade de articular e implementar uma perspectiva preventiva e de implementar programas de prevenção de doença e promoção de saúde nas comunidades, orientação (mentoring) e liderança comunitária, que é a capacidade de aumentar a habilidade do indivíduo para uma liderança efetiva em um processo de engajamento colaborativo, e de orientar os indivíduos a encontrarem suas forças pessoais e recursos estruturais para um contínuo desenvolvimento. Processos em pequena e larga escala é a habilidade de intervir em processos com escalas diferentes com o objetivo de capacitar a comunidade para trabalhar em grupo e de forma produtiva. Desenvolvimento de recurso é a habilidade de identificar e integrar recursos sociais e materiais. Consultoria e desenvolvimento organizacional é a habilidade de facilitar o crescimento da organização de atingir as suas metas. O eixo mudança social e comunitária é composto de competência de desenvolver colaboração e coalisões, que é a habilidade de ajudar a grupos para alcançarem interesses mútuos. O desenvolvimento da comunidade é a habilidade de trabalhar colaborativamente entre os membros da comunidade com o objetivo de melhorar as condições da comunidade. A análise das políticas públicas, desenvolvimento e apoio é a habilidade de construir e sustentar uma comunicação efetiva e relações de trabalho com a área pública, os políticos e líderes comunitários. Por fim, a educação comunitária, disseminação da informação e construção de uma conscientização pública é a habilidade de comunicar informações a vários segmentos públicos, para fortalecer a conscientização ou para o apoio dado. O último eixo é pesquisa comunitária, que é composto de duas competências: (1) pesquisa comunitária participativa, que é a habilidade de trabalhar com os parceiros comunitários para planejar e conduzir pesquisas que alcance os altos padrões de evidências científicas, e (2) comunicar os resultados dessa pesquisa de maneira que promovam a capacidade da comunidade de alcançarem as metas comunitárias e avaliação de programa. Essa comunicação é a habilidade de, em parceria com a comunidade, promover um programa de melhoria baseada em evidências e um programa de prestação de contas para as partes. A psicologia comunitária é uma área com forte preocupação ecológica, o que significa, de forma bastante simplificada, que se interessa pela validade do achado no campo aplicado. Há diferentes perspectivas7 e ênfases na psicologia comunitária, que podem ser descritas conforme Edwards (2002) em: • perspectiva da saúde mental, que busca melhorar a saúde mental das comunidades; • perspectiva da ação social, que busca uma ação contra as estruturas opressivas e liberar as comunidades com menos poder, portanto tipicamente revolucionárias; • perspectiva organizacional que gerencia pessoas no processo grupal entre os atores organizacionais; • perspectiva ecológica que foca a relação interdependente pessoa- ambiente e seu ajustamento; • perspectiva fenomenológica que busca aumentar o senso de comunidade nos indivíduos, nos grupos, nas famílias etc.; • perspectiva liberatória que diz respeito à conscientização, ao comprometimento crítico, à transformação social e à emancipação; • perspectiva autoctone (indigenous) que se localiza ou foca o contexto cultural, nas práticas, nas crenças, nos valores e na maneira de viver. Dois são os modelos da psicologia comunitária estadunidense: um é o de Dohrenwend (1978) e de autores, como Levine et al. (2005); e outro de Jenkins (2015), voltado para intervenção baseada em evidência – evidence- based interventions (EBI). Por questões históricas, apresenta-se primeiro o de Barbara Dohrenwend e depois de Richard Jenkins. O modelo de Dohrenwend parte do pressuposto de trabalhar em larga escala, para então diminuir a psicopatologia da população, e o segundo parte do pressuposto de que o psicólogo comunitário é guiado pela hipótese etiológica, especificamente de que o estresse psicossocial é importante no gatilho do adoecimento mental. Assim, ela propõe um modelo em que o estresse psicossocial leva à psicopatologia. Modelo de Dohrenwend de psicologia comunitária O modelo de Dohrenwend, proposto em 1978, é contemporâneo ao de Mayo e La France, e Cialdini. Naquele momento, com o cenário de uma área relativamente nova como a psicologia comunitária, o rompimento com a clínica, o nascimento de diversos modelos ligados ao estresse, era propício pensar em um modelo aplicado aos problemas sociais a partir deles. A proposta sugere dois grupos de variáveis relativamente independentes que se encontram em um eixo central. Usando o referencial da Figura 4, há: eixo do indivíduo (abaixo), eixo de ambiente social (acima) e eixo central em que estão as interações que ocorrem entre eles. A semelhança do modelo com os modelos clássicos de estresse é evidente: parte da explicação do estresse está no indivíduo (na interpretação que se faz), outra parte na situação, e, finalmente, na interação entre pessoa–ambiente (Andrade & Pérez-Nebra, 2017; Krohne, 2001; Sonnentag & Frese, 2013). Começando pelo ambiente, é preciso entender que, de forma periférica, a ação política impacta a situação específica do ambiente. Do lado do indivíduo, estão as características, a história de vida, a socialização e a educação, que impactam as características individuais no evento, ou seja, depende da história, mas depende também dos recursos disponíveis do indivíduo naquela situação. Figura 4. Modelo de Dohrenwend de psicologia comunitária. O evento de vida estressor ocorre na interação entre pessoa–ambiente e causa uma reação ao estresse que é transitória e que vai gerar, por outro lado, a necessidade de recursos sociais e individuais para sua solução. O desenrolar dessa situação é dependente de variáveis mediadoras categorizadas em dois grupos: o desenvolvimento da comunidade, pois ela dá suporte (ou não) à situação, o treinamento e as habilidades do indivíduo em resolver a situação. Finalmente, há três tipos de resultados dessa equação que são a psicopatologia, a pouca mudança do processo psicológico ou o crescimento psicológico (resiliente). O modelo de Dohrenwend é útil para entender as possíveis demandas e recursos de cada ator envolvido no processo. Embora isso seja uma verdade, ele ainda tem um viés clínico por finalizar no impacto ou no resultado ao indivíduo do evento estressor, e não sugere medidas de variáveis no nível grupal/social como todos os demais modelos fazem. Competências e etapas de psicologia comunitária de intervenção baseada em evidência (EBI) Jenkins (2015), diferentemente de Dohrenwend, não se preocupou em fazer uma descrição de um modelo de intervenção, mas sim de um processo de intervenção,de como isso poderia ou deveria acontecer nas barreiras encontradas. Ele defende que há diversos esquemas de modelos, mas há pouca ou nenhuma literatura descrevendo o processo e menos as competências necessárias para que a intervenção possa ocorrer de forma exitosa. Ademais, Jenkins (2015) é contra a simplificação gráfica, que, segundo ele, não abarca a complexidade de papéis e relações necessárias do processo, mas, como o objetivo deste capítulo é didático, vou transgredir a proposta dele e esquematizá-la um pouco. Segundo o autor, para que possa haver planejamento, implementação e desenvolvimento, é preciso haver incentivo em diferentes níveis: organização/ instituição, do estado da federação (p. ex.: FAPs), ou da União (p. ex.: Capes, CNPq). Jenkins (2015) propõe uma divisão entre os papéis: financiador, agências, organização, acadêmicos e prático independente. Embora ele tenha suas razões em separar essas funções, a maioria é necessária para todos, com raras exceções. A Quadro 1 descreve as competências de cada etapa de uma EBI. Quadro 1. Competências necessárias em diferentes etapas propostas por Jenkins Jenkins (2015) defende que para haver intervenção há um pré-requisito que ele simplesmente dá como posto: fundos, dinheiro para investir na intervenção, que pode vir de diferentes fontes. A literatura inglesa e estadunidense sobre intervenção usualmente toca nesse tema. A situação no Brasil é pior nesse aspecto, quando comparada à dos Estados Unidos e à da Europa, pela priorização dos financiamentos. De qualquer sorte, ele chama a atenção para essa necessidade que, sendo realista, é importante. O planejamento em EBI está descrito na Figura 5. Figura 5 Planejamento estratégico para subsidiar a EBI. Segundo Jenkins (2015), o planejamento estratégico deve ser a base dos projetos a serem submetidos aos fundos de pesquisa ou de intervenção, assim como dos relatórios anuais entregues sobre o andamento da intervenção. O processo de planejamento pode vir ou não acompanhado de conversa com os representantes dos fundos, porque a sistematização das necessidades muitas vezes inexiste: os dados sobre as populações-alvo não estão disponíveis, ou estão dispersos, e sistematizá-los é um desafio. Ademais, de acordo com Jenkins (2015), muitas dessas pesquisas são transversais, e sem o componente longitudinal é difícil sugerir algumas políticas, ou os que fornecem o dado não sabem do uso que será dado na prática e acabam não enviando uma informação útil. Por isso a questão prática dos órgãos de fomento é tão importante. O processo de planejamento vem acompanhado da implementação e do desenvolvimento. Implementar e desenvolver implica selecionar uma EBI e seus resultados esperados de forma explícita. A seleção da EBI deve ser dirigida pela definição do financiamento dado (o problema) e pela síntese das pesquisas disponíveis. Ressalta-se a importância dada ao recote, e, com isso, às expectativas e aos papéis desempenhados por cada membro do processo, sobre os resultados esperados e como isso repercute, evitando expectativas que não se cumprirão. As EBIs selecionadas devem vir acompanhadas dos elementos-chave, incorporando análises de mediação e moderação para entender possíveis interferências, sucessos e fracassos das intervenções. Dessa forma, as considerações e o conhecimento da literatura e dos princípios psicológicos que orientam as intervenções, suas mudanças de comportamento, bem como o conhecimento das normas sociais e das atitudes, entre outros, é fundamental para orientar a ação e os critérios de escolha. Os papéis de cada parte envolvida na implementação de uma intervenção tornam-se mais complexos. Jenkins (2015) chama a atenção para as relações de quem promove o suporte técnico e as agências, bem como aos grupos, e a quem dá fomento, pois pode haver expectativas bastante diferentes, e esses atores precisam ter clareza sobre o que se espera deles, assim como deve haver renegociações periódicas com os múltiplos participantes. A proposta de um projeto assim é interessante e evita “reinventar a roda” porque há múltiplos saberes envolvidos, mas isso não significa que seja fácil. Agregue-se a isso a descontinuidade administrativa, comum na administração pública, o que explica por que as políticas acabam não gerando tecnologia social. A prática da implementação muitas vezes envolve a publicação de uma pesquisa que tem seus efeitos limitados, ou foca na “linha de frente”, dando manuais de práticas, e a limitação desse tipo de prática rapidamente se torna evidente. Jenkins (2015) frisa que os acadêmicos devem ser chamados para auxiliar em várias das etapas, de acordo com as competências já desenvolvidas nos desenhos metodológicos, nas medidas, na sistematização de literatura e nas teorias de mudança, entre outras. Suporte técnico e programas de treinamento devem vir, ainda mais hoje, munidos de outras formas, por exemplo, a criação de vídeos institucionais, formas e mecanismos de suporte, a quem recorrer no caso de dúvidas, feedback, reforço e tutorização, entre outras formas de desenvolvimento que são mais produtivas. O modelo da psicologia comunitária com olhar mais estadunidense é pragmático, o papel do psicólogo é colaborativo ou interventivo. Tem similaridades com o modelo de ciclo completo proposto por Cialdini quando convida a academia para participar, agregando um olhar sobre o “como fazer”, mas como sua preocupação maior é com o processo mais do que com um modelo geral, acaba sendo peculiar. Modelo da psicologia comunitária brasileira A psicologia comunitária no Brasil acaba tendo uma configuração um pouco diferente da psicologia comunitária estadunidense. A psicologia comunitária brasileira, assim como a da APA, é idealista e militante, mas difere por aproximar-se da psicologia social e da assistência social. O viés da APA aproxima-se mais da clínica. No Brasil a proposta é mais qualitativa, enquanto nos EUA, mais quantitativa. Ambas têm um papel colaborativo na intervenção no campo. A psicologia comunitária tem forte preocupação com o respeito ao que é colocado pela comunidade e com a comunidade, e talvez essa seja a característica mais forte quando se fala em um modelo da psicologia comunitária brasileira; portanto ética, cuidado e respeito são palavras de ordem. Questões comuns que aparecem nessa perspectiva são: Quem é esse profissional que entra em um contexto? O que ele faz? O que ele fará? Quais são os seus valores que se aproximam da comunidade? Quais valores diferem? Há uma preocupação de não impor ao campo o seu querer em detrimento do outro (Azevêdo, 2009; Freitas, 1998). Ademais, o campo tem expectativas sobre o que se espera do profissional e a representação que o psicólogo tem. A comunidade pode ter, por exemplo, a representação de que cabe a nós ouvir os problemas, tratar de apaziguar as desavenças de relacionamentos interpessoais, e “entrar na cabeça das pessoas e mudar suas ideias”. Essas e outras representações podem parecer inicialmente uma chacota, mas são importantes de se ter em conta, pois são fortes e colocam o psicólogo em um lugar diferenciado em uma ação/ intervenção. Portanto, é preciso familiarizar-se com a comunidade, conhecer a realidade pelas narrativas e pelos documentos (Figura 6). A primeira etapa, de familiarização com a comunidade e a identificação das necessidades e recursos da comunidade, no geral, é realizada com a abordagem qualitativa. É preciso se fazer conhecido, cumprimentar as pessoas, apresentar-se, ter clareza do que está fazendo ali, e as pessoas precisam entender qual é o seu papel para que as representações não inundem o coletivo. Depois do rastreio inicial de informações, o passo seguinte é definir os objetivos, como em todo modelo de intervenção. Nesse momento, surgem outras questões: Há objetivos? Quais? O que se quer mudar? Que necessidades esse campo tem? Quais recursos ele tem? De quem são esses objetivos? Quais as implicações desses objetivos? O que se espera como resultado desse objetivo? Entrar em um campo com o objetivorelativamente incerto, abordagem mais latino-americana, tem seus ônus e bônus. Um olhar mais orgânico facilita a definição do problema após a entrada no campo e dá abertura para resolver questões que inicialmente não haviam sido postas. Entretanto, as expectativas e a clareza devem ser colocadas, do contrário a atuação pode ser inútil aos olhos dos gestores. É importante dizer que os objetivos, na perspectiva da psicologia comunitária no Brasil, devem ser definidos pela comunidade em comum acordo com o pesquisador, porque a prática é uma ação coletiva e não uma vontade daquele que veio realizar a intervenção (Azevêdo, 2009). Assim, é preciso identificar as solicitações, ter clareza e categorizar em diferentes necessidades e hierarquias, definir o que cabe a cada um, orientar e direcionar a intervenção ao objetivo proposto. As reuniões com o coletivo de trabalho têm o foco de gerenciar os grupos para que cheguem aos objetivos propostos. Eventualmente, o gerenciamento dos grupos para alcançarem os objetivos propostos é a própria intervenção, às vezes não, é só uma etapa para tal. A reunião é um planejamento do que será executado. A partir dali, deve-se implementar o que foi proposto pelo grupo e finalmente avaliar se as pessoas chegaram aos objetivos propostos. A última etapa é uma descrição das consequências, esperadas e não esperadas, desejadas e indesejadas sobre a intervenção. O modelo de intervenção reconhece a necessidade e interdependência entre pesquisa e intervenção, fundamentando-se nos passos mostrados na Figura 8. Figura 6. Modelo da psicologia social comunitária brasileira. A proposta da psicologia social comunitária brasileira, segundo alguns pesquisadores, verifica-se mais no plano ideal do que no real (cf. Irizarry & Serrano, 1979, como citado em Alvaro & Garrido 2006). Ela esbarra na dificuldade do envolvimento da comunidade, assim como o modelo de Lewin. Muitas vezes, nas primeiras reuniões para a proposta de solucionar um problema social, engaja-se um grupo grande, mas infelizmente a mudança requer esforço e muito rapidamente esse grupo torna-se diminuto se não se dissolve em sua totalidade; embora isso seja uma verdade, aqueles que se engajam vivenciam uma transformação interessante (Scisleski et al., 2006). Entretanto, ainda que existam críticas na literatura internacional sobre a aplicação desse modelo, a literatura nacional da área de psicologia do trabalho apresenta alguns casos de sucesso (Ribeiro et al., 2017). O próximo modelo, diferentemente dos anteriores, nasce no campo da psicologia organizacional e do trabalho, ainda que possa ser aplicado em outras áreas. Modelo Path de Buunk e van Vugt O modelo Path é o acrônimo de problem, analyse, test e help – em português, problema, análise, teste e ajuda (Buunk & Van Vugt, 2013). Os autores viram a necessidade de criar um modelo mais genérico para trabalhar no contexto organizacional e propuseram então esse modelo de passos. O papel do psicólogo nesse caso é de cunho interventivo. Vale ressaltar que os modelos começam com a descrição clara do problema e do objetivo, e o Path não é diferente. A fase seguinte analisa o problema no contexto, e os passos subsequentes são de análise e ajuda. Esses dois últimos passos diferem dos demais modelos. A fase de teste literalmente testa a intervenção em um pequeno grupo antes de propor uma intervenção em alta escala, a fase de ajuda. Figura 7. Esquema do modelo de Path de Buunk e Van Vugt. A fase de problema sugere que se faça uma descrição clara dele e, consequentemente, do objetivo que se pretende atingir. Demanda responder a perguntas de diferentes tipos, algumas para tipificar o problema como: O que é o problema? Por que isso é um problema? Há perguntas relativas às pessoas e aos grupos envolvidos: Para quem isso é um problema? Quais são as pessoas responsáveis em resolver esse problema? Quais são os gatilhos desse problema? Qual é o grupo-alvo desse problema? Há perguntas que objetivam entender o fenômeno e os princípios: Quais são as possíveis causas desse problema? Qual é o aspecto-chave desse problema? Uma vez que o mapeamento do problema foi elaborado e há métricas realizadas com ele, passa-se para a próxima fase. Como em vários modelos, esse também se preocupa em medir a eficácia e eficiência da intervenção, então é preciso ter clareza de como se pode mensurar o fenômeno. A fase de análise contém a explicação para o fenômeno. Aprofunda a primeira etapa, buscando encontrar a relevância do problema (impacto social, impacto na imagem, número de envolvidos, tamanho do problema), a especificidade (quantos são, quem são, quão particular é um único grupo), a continuidade (ou não) do problema (é pontual como uma linha de ônibus que parou de operar e está atrasando todo mundo ou algo que vem em um crescente?). A análise prevê a geração de diferentes hipóteses explicativas para o fenômeno. Todo problema tem mais de uma hipótese explicativa, portanto é importante criá-la e depois eliminar possíveis hipóteses, seja com evidências empíricas já publicadas, seja com tentativas já realizadas pela organização, seja criando hipóteses a serem testadas na própria intervenção. Gerar hipóteses explicativas deve vir em primeiro lugar, pelas teorias e pesquisas já realizadas. Portanto, o que a literatura tem a dizer sobre o tema auxilia a olhar o fenômeno. Em paralelo ao levantamento de informações publicadas na literatura, é preciso entender o contexto e as diferentes abordagens, utilizando uma abordagem multimetodológica: associação livre, observação de comportamento, entrevistas, análise documental, questionários etc. Analisar não é apenas buscar informações, é preciso avaliar e sintetizar as explicações. Portanto inclui hierarquizar a probabilidade de cada explicação para o fenômeno, bem como eliminar hipóteses alternativas improváveis8. A proposta é convergir para um número reduzido de explicações a serem testadas. A literatura sobre a temática provavelmente já pensou e testou diversas dessas hipóteses. É importante ter humildade, sendo improvável que ninguém nunca, jamais em um contexto parecido, tenha testado essa hipótese. De posse das explicações mais prováveis, entra-se na fase de teste, na qual é necessário fazer um projeto processual de como as hipóteses serão colocadas à prova. Quem será responsável pelo quê? Como será colocado em prática? O que é possível colocar em prática? Em qual sequência? Como será testado para saber se a proposta está funcionando? Lembrando que o teste deve incluir a efetividade em alcançar o objetivo, mas também prevendo custos. Com frequência, a intervenção é demasiadamente cara, ou tem baixa efetividade, sendo preciso pensar em alternativas. Essa fase requer amplo conhecimento de metodologia de pesquisa para que o teste possa ser bem realizado e que os resultados possam ser mensurados. Esse tipo de informação subsidiará a fase seguinte, que é a da ajuda. É preciso pensar no tamanho do efeito e também no resultado que se espera encontrar e colocar na balança o quanto vale a pena o esforço pelo resultado que será encontrado. Parece excessivamente pragmático, mas é importante pensar nosso, pois um gestor fará esse tipo de perguntas e é necessário pensar nelas antes de se entrar em campo, gastar bastante dinheiro e esforço para ter resultados pífios. Volta-se a dizer que não é preciso ter apenas boa intenção, é preciso ter clareza e critério para entrar em campo. Com base nessa fase de teste se faz a confirmação e eliminação de hipóteses explicativas. É importante estabelecer um critério sobre qual grupo trabalhar, onde realizar a intervenção, que seja em um lugar similar o suficiente à população-alvo. Um lugar que esteja aberto a realizar intervenções e que haja apoio da chefia. É essencial pensar em questões práticas, pois às vezes há boa intenção, mas naquele momento há tanta dificuldade que é melhor testar em outro lugar antes de ir para uma aplicação em maior escala. O passo seguinte, ajuda (help), é simplesmente executar em larga escalao que foi proposto. Para isso, é obrigatório preparar a intervenção e seu desenvolvimento. Intervenções em pequena escala têm uma estrutura completamente diferente de alta escala. É preciso sistematizar sobre o quanto um conteúdo traz resistência, o quanto ela é adaptável a outros contextos, o quanto é dependente daquele que realiza a intervenção. Há condições políticas, religiosas ou ambientais que podem interferir na intervenção? Como vamos dar conta delas no campo? Essas questões, que parecem “menores” por se tratar da operacionalização e da prática no campo, são críticas no momento de pensar em uma intervenção em larga escala. Elas podem simplesmente inviabilizar a entrada e a eficácia no campo. A implementação da intervenção, fase de ajuda, ocorre em um processo que começa com o planejamento, a disseminação clara e objetiva para todos os envolvidos na intervenção, com datas de cada etapa, até ter clareza da adoção, da implementação e do atraso. É preciso descrever os atores, quem são, quais os critérios para sua seleção (se for o caso), comunicar quais são os principais motivadores para a mudança, mas também quais são as possíveis barreiras encontradas. Ademais, quais são as políticas relevantes que podem esbarrar na atuação que se está mapeando. As políticas que precisam ser implementadas e aquelas que podem ser uma barreira. Estamos em um país burocrático, portanto é importante ter clareza das normas, do contrário é possível que uma enorme intervenção simplesmente não vá adiante pela falta de uma política clara a esse favor. Dessa forma, o plano de implementação deve conter não apenas os passos devem ser feitos no sentido genérico, as responsabilidades de cada um, mas também prever um pouco os planos no caso de haver dificuldades previsíveis. A fase de ajuda contém também a avaliação da ação, que pode ser paralela ou seriada. Paralela à ação significa que pequenas ações são mensuradas para eventuais correções de curso. Essas medidas de avaliação devem ser realizadas de diferentes formas: desde mais objetivas para clareza de estar chegando ao objetivo proposto, até mais subjetivas que nos permite entender outras consequências que eventualmente não havíamos pensado antes e podem entrar nas medidas. Essas consequências ou impactos podem ser tanto positivos quanto negativos e precisam ser pensados no momento de reimplementar a intervenção ou uma ação de longo prazo. Considerações finais O objetivo deste capítulo foi apresentar diversos modelos para instrumentalizar uma entrada de campo com maior precisão e justificar a escolha pelo modelo mais adequado. Cada campo, instituição ou organização tem suas peculiaridades e necessidades. Não há um modelo único que dê conta e sirva a todos, por isso os objetivos específicos foram apresentar as soluções diferentes já encontradas pelos autores quando propuseram seus modelos e mostrar semelhanças e diferenças, permitindo ao leitor ser capaz de discernir e aplicar aquele de maior conveniência. Referências Álvaro, J. L., & Garrido, A. (2006). Psicologia social: perspectivas psicológicas e sociológicas. São Paulo: McGraw-Hill. Andrade, V. L. P. De, & Pérez-Nebra, A. R. (2017). Suporte social e estresse no trabalho: Uma análise com métodos mistos. Contabilidade, Gestão e Governança, 20(3), 442-462. Andrade, E. R., Sousa, E. R. de, & Minayo, M. C. de S. (2009). Intervenção visando a auto-estima e qualidade de vida dos policiais civis do Rio de Janeiro. Ciência & Saúde Coletiva, 14(1), 275-285. Recuperado de https:// doi.org/10.1590/S1413-81232009000100034 Azevêdo, A. S. V. (2009). A psicologia social, comunitária e social comunitária: Definições dos objetos de estudo. 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Novas configurações no mundo do trabalho: desafios postos à psicologia positiva Daiane Rose Cunha Bentivi Antônio Virgílio Bittencourt Bastos Laila Leite Carneiro Introdução Nos últimos anos, a literatura teórica e empírica sobre o mercado de trabalho tem se debruçado a analisar as metamorfoses do mundo do trabalho e as consequentes transformações nas práticas gerenciais. Os avanços tecnológicos da era pós-industrial, que marcam a atual sociedade do conhecimento, modificaram drasticamente as relações de trabalho, impactando diretamente as condições de saúde e bem-estar dos trabalhadores. Não se pode dizer que todas essas mudanças são inéditas, no entanto, é certo que elas vêm acontecendo em um ritmo muito mais acelerado do que outrora. Nessa dinâmica de transformação, a psicologia tem tido dificuldade em acompanhar as consequências desse processo para os indivíduos, grupos e organizações, bem como em analisar e intervir nos fatores que podem preparar esses atores para tais transições, minimizando os seus impactos negativos. Estamos diante de um campo aberto para pesquisas e construção de procedimentos para intervenção já que tais mudanças incidem diretamente na vivência dos trabalhadores e na expressão dos fenômenos classicamente estudados no campo de psicologia organizacional e do trabalho (POT). Enquanto no passado o trabalho se estruturava, predominantemente, como emprego em tempo integral, relativamente estável e com um projeto de carreira que era realizado em uma empresa específica, hoje tais características são restritas a reduzidos segmentos da população trabalhadora. Em oposição a tal modelo, cresce significativamente a fluidez, tanto em termos de estabilidade do contrato quanto em termos de tempo e espaço (Spreitzer, Cameron, & Garrett, 2017). É cada vez mais comum trabalhadores que realizam suas atividades em tempo parcial, combinando vínculos em diferentes organizações e/ou para além dos limites físicos da estrutura organizacional, fazendo com que o trabalho ocupe um espaço mais central, mas, ao mesmo tempo, mais diluído em outros espaços da vida dos indivíduos. A diminuição de postos formais de trabalho resultou em um aumento de trabalhadores liberais, que trabalham sob demanda, a valores irrisórios e sem nenhum benefício trabalhista, de forma claramente precarizada (Todolí-Signes, 2017). Arranjos alternativos de trabalho (Barling, Inness, & Gallagher, 2002; Spreitzer, Cameron, & Garrett, 2017), configurações contemporâneas de emprego (Moortel, Vandenheede, & Vanroelen, 2014), novas formas de trabalho (Steenbergen, Ven, Peeters, & Taris, 2018), trabalho contingencial (Tran & Sokas, 2017) são exemplos de nomenclaturas que buscam dar conta das variadas transformações que complexificaram a maneira como o trabalho remunerado vem se apresentando no século XXI. Os poucos dados empíricos encontrados sobre o tema tampouco são consensuais, indicando que as novas configurações laborais podem viabilizar impactos psicológicos positivos e negativos, a depender das novas características em questão e do perfil do trabalhador (p. ex., Barling, Inness, & Gallagher, 2002; Moortel, Vandenheede, & Vanroelen, 2014; Spreitzer, Cameron, & Garrett, 2017; Steenbergen et al., 2018). É nesse cenário de intensas, profundas e impactantes mudanças (tecnológicas, organizacionais, de modelos de gestão) no mundo do trabalho que surge o movimento da psicologia positiva, com importante ramificação no campo organizacional. A psicologia positiva propõe uma mudança de foco dos interesses sobre os fenômenos psicológicos, convidando cientistas e profissionais que atuam na área a conhecer e a intervir nos aspectos positivos da experiência humana e nos elementos que constituem o seu funcionamento ótimo, conquanto isso não signifique desmerecer os estudos sobre a dor e o sofrimento humano. Em outras palavras, ela propõe que as qualidades das pessoas também devem ser exploradas e suas competências devem ser sistematicamente desenvolvidas, e não somente as suas fraquezas corrigidas (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000; Passareli & Silva, 2007; Gonçalves & Leite, 2009; Synder & Lopez, 2009; Ferreira, 2012). Diante desse novo paradigma, temas como bem-estar, resiliência, otimismo e gratidão adentram a área da POT. Contudo, o cenário de mudanças laborais – com evidentes impactos sobre a saúde, a segurança, a qualidade de vida e o bem-estar do trabalhador – levanta questões sobre como tais características positivas podem ser fomentadas em uma conjuntura tão adversa. Em muitos casos, as “condições benignas”, citadas por Seligman e Csikszentmihalyi (2000) como base para que os psicólogos ajudem os indivíduos, os grupos e as organizações a prosperarem, voltaram a estar distantes da realidade, embora o “culto à felicidade” se perpetue. Nesse sentido, seria o fomento da psicologia positiva neste campo uma forma de proteção à saúde dos trabalhadores mesmo em contextos desfavoráveis? É saudável que os trabalhadores continuem resilientes e gratos em ambientes/relações laborais desgastantes e, quiçá, opressoras? O que significa ser saudável em contextos tão adversos e sobre os quais os trabalhadores têm cada vez menos controle, inclusive pelo enfraquecimento das suas entidades representativas? É possível conciliar o importante olhar sobre as forças e as virtudes dos indivíduos com a análise crítica do contexto em que estão inseridos? Questões como as colocadas estão na base das preocupações que motivaram este capítulo. Mais do que respondê-las – tarefa que certamente requer um amplo e coletivo esforço de reflexão teórica e pesquisa empírica – busca-se sistematizar reflexões sobre como as discussões e estudos sobre as novas configurações detrabalho e emprego, perante as transformações tecnológicas e sociais do mundo contemporâneo, podem fornecer condições para a análise dos fenômenos no campo da POT à luz da psicologia positiva. Mais especificamente, busca-se fazer um convite à reflexão sobre as contribuições e as limitações que a psicologia positiva apresenta no sentido de compreender e intervir nas estratégias de manutenção da saúde, bem-estar e qualidade de vida no presente cenário de turbulência que caracteriza esse momento do capitalismo. Não se espera, aqui, apresentar respostas, mas sim promover o início de um debate, atual e necessário. Para atingir esse objetivo o capítulo está organizado em quatro seções. Na primeira seção, é descrita a evolução do mundo do trabalho e de que forma tais mudanças impactaram a forma como o trabalho foi se organizando ao longo do tempo, bem como o perfil exigido do trabalhador em cada momento histórico. Na segunda seção, são apresentadas, em mais detalhes, as características do mundo do trabalho atual, enfatizando o impacto dos avanços tecnológicos para o trabalhador. Na terceira seção, são sumarizados alguns conceitos centrais da psicologia positiva, os quais servem como norte para apontar de que forma a psicologia positiva contribui com a análise sobre o bem-estar dos trabalhadores perante as transformações vividas atualmente. Por fim, a última parte apresenta, à guisa de conclusões preliminares, reflexões que articulam o cenário em transformação e a forma como a psicologia positiva pode se desenvolver no campo dos estudos organizacionais. Da sociedade industrial à sociedade pósindustrial: em que terreno se move o trabalhador Ao longo da história da humanidade, o trabalho se constituiu em forma primordial de construção de subjetividade e desenvolvimento do indivíduo como ser social. Diante dessa perspectiva, o trabalho pode ser entendido como ação humana de apropriação da natureza para suprir uma necessidade, na qual a partir da transformação da natureza o homem transforma-se a si mesmo (Marx, 2013 [1867]; Codo, 1997; Antunes, 2009). As estruturas socioeconômicas e laborais que emergem do processo de desenvolvimento do mundo do trabalho, no âmbito do modo de produção capitalista, atraem amplo debate teórico, com implicações para a pesquisa, para a prática profissional e para o campo da política. Esse desenvolvimento é fortemente impactado e ocorre em estreita relação com as mudanças tecnológicas que se tornam cada vez mais dinâmicas e voláteis. Sob a égide do capitalismo, o debate em torno do trabalho tem ocorrido prioritariamente no viés da produtividade, comumente demarcado por indicadores quantitativos, sobretudo econômicos. No entanto, a evolução da organização dos processos de trabalho é multideterminada, envolvendo dimensões econômicas, sociais e culturais, dentre outras, e impacta sobremaneira a forma como os indivíduos se relacionam em sociedade. Para compreendermos o momento que vivemos, é importante resgatar, sinteticamente, como as diferentes revoluções industriais – marcadas por rupturas tecnológicas significativas – configuraram modos de organização do trabalho singulares9, com diferentes impactos sobre o trabalhador e demandando deste diferentes conjuntos de conhecimentos, habilidades e competências. A primeira Revolução Industrial teve seu marco inicial em 1784, com a criação do primeiro sistema fabril mecânico em Lancashire (Inglaterra). Na mesma época, ocorria a Revolução Francesa. Esses dois acontecimentos – o primeiro voltado ao mundo produtivo e o segundo ao campo político – geraram o que se chama de “dupla revolução” e resultaram em uma transformação social, tecnológica e laboral de significativa importância para a história da humanidade (Hobsbawm, 2006). Dessas revoluções emergem a indústria capitalista, o conceito de liberdade burguesa liberal e o que se conhece como economia moderna e Estado moderno. A estrutura produtiva manual dá lugar à força mecânica no processo de produção. Concomitantemente, há a transferência do poder de controle do processo laboral das mãos do trabalhador para as mãos do dono dos meios de produção. Assim, a relação entre o trabalho e o trabalhador deixa de ser direta, como ocorria com o trabalho artesanal, e passa a ser mediada pelo trabalho da máquina e pela dinâmica de apropriação do trabalho do indivíduo pelo dono dos meios de produção (Marx, 2013 [1867]). Nesse processo, exigia-se dos trabalhadores a adequação ao novo ambiente de produção, que passou das oficinas para as indústrias, ampliando-se as exigências de elevada produção. As jornadas de trabalho chegavam a 16 horas diárias, em condições insalubres e elevado esforço físico do trabalhador. Como os salários eram baixos, todos os membros da família eram incluídos no processo produtivo, até mesmo as crianças (Hobsbawm, 2006). Tal fase se mantém até meados do século XIX, quando a utilização de combustíveis à base de petróleo para alavancar a produção fabril inaugura a Segunda Revolução Industrial. A manufatura e a energia elétrica induzem o trabalho e, consequentemente, a sociedade a uma forma distinta de estruturação, temporalidade e dinâmica. Essa nova configuração econômica e social traz a necessidade de buscar novos métodos de organização do trabalho. Nesse período, o modelo proposto por Friedrich Taylor colocou-se como padrão de estruturação do processo de trabalho, visando à diminuição dos esforços dos trabalhadores e ao aumento da produção; ou seja, a partir da simplificação do trabalho em tarefas definidas e repetitivas, se teria maior eficiência e menor custo para o trabalhador. Os quatro princípios básicos desse modelo são: 1. princípio do planejamento, no qual o trabalho a ser executado deveria ser planejado e testado, racionalizando sua execução; 2. princípio da preparação dos trabalhadores, que consistia em selecionar operários de acordo com suas aptidões e treiná-los; 3. princípio do controle, presente durante o desenvolvimento do trabalho; e 4. princípio da execução, com a distribuição das atribuições e responsabilidades (Taylor, 1990 [1911]). Buscavam-se, então, trabalhadores que executassem tarefas predefinidas e de forma repetitiva, retirando assim do trabalhador toda a autonomia sobre o trabalho (Nelson, 1974; Edwards, 1979; Montgomery, 1988). O trabalho se tornou fragmentado e marcado pela dicotomia entre atividades braçais e intelectuais, exigindo competências predefinidas dos trabalhadores, que estabeleceram as bases para o surgimento dos processos de recrutamento e de seleção de pessoas (Zanelli, Bastos, & Rodrigues, 2014). O paradigma taylorista–fordista – cuja linha de montagem para a fabricação de automóveis foi a concretização mais visível dos princípios da administração científica de Taylor – manteve-se como hegemônico por décadas. O período entre o fim da Segunda Guerra Mundial até a crise do petróleo, em 1973, representou a época mais produtiva para o capitalismo mundial, conduzido pelos Estados Unidos. A atenção aos fatores humanos (especialmente motivacionais e a dinâmica dos pequenos grupos de trabalho) não alterou significativamente o modelo de produção. Os problemas crônicos de absenteísmo e rotatividade embasaram teorias mais sofisticadas para explicar o desempenho humano no trabalho. Os modelos de gestão incorporaram estímulos à participação, planos de carreira ofereciam oportunidades de crescimento e desenvolvimento a trabalhadores. A participação nos lucros foi estratégia usada por empresas para ampliar o engajamento no trabalho. No entanto, especialmente em países europeus, estruturava-se o que se denominou de Estado de bem-estar social, com políticas protetoras aos trabalhadores. Por conta da crise econômica da década de 1970, que resultou em uma necessidade de reestruturação produtiva, emerge a Terceira Revolução Industrial ou, como apresenta Krueger (1993), a revolução computacional, que se caracterizou pela automatização do processo de produção e avanço da informatização dos processos produtivos. A indústria passou a produzirmais, com cada vez menos quantidade de trabalhadores, principalmente nos países mais industrializados. Nessa época, também se observou a expansão do setor terciário (de serviços), que absorveu parte da mão de obra desmobilizada do setor primário (industrial), por causa da automatização. Com o avanço do processo de globalização, ampliou-se o quantitativo de empresas que abriam operação em outros países, buscando barateamento da mão de obra e ampliação de seu mercado consumidor. Nesse contexto, a empresa japonesa Toyota criou um novo modelo de produção, que tinha como principais características a redução dos estoques, a partir da produção sob demanda (just in time) e da instalação da terceirização no processo de produção. Em decorrência dessa reestruturação produtiva, o mundo passou por mudanças profundas, marcadas pela fugacidade e instabilidade do mercado de trabalho, as quais perduram até hoje. A segurança, a estabilidade, a previsibilidade e a constância do emprego deram lugar a postos de trabalhos pouco estruturados, flexíveis e nem sempre disponíveis no formato tradicional (Wood, 1991; Williams et al., 1992). Assim, passaram a surgir cada vez mais empregos informais e temporários, com flexibilidade de horários e locais de trabalho, que requerem do sujeito cada vez mais autonomia e autorresponsabilização de aquisição de qualificação necessária para a execução da tarefa. Ainda, como aponta Bila Sorj (2000), foi iniciada a decadência do modelo de assalariamento, que se estrutura em identidades ocupacionais ou de classe, a qual, aliada ao enfraquecimento do Estado- Nação, resulta no aumento da individualização e da responsabilização do indivíduo no processo de inserção no mercado de trabalho. Um exemplo emblemático dessa reestruturação se deu no setor bancário, com a automatização de serviços (com o aumento das transações virtuais e atendimentos on-line) e a reestruturação dos processos organizacionais (como a horizontalização da estrutura organizacional e o aumento da terceirização, dentre outros), somadas a aspectos macroeconômicos (como a privatização de diversos bancos estatais a partir da década de 1990) e ao declínio do movimento sindical, que resultou no enfraquecimento de uma categoria ocupacional que antes se caracterizava pela estabilidade, elevados salários e elevada força sindical (Laranjeiras, 1997; Segnini, 1999; Filgueiras, 2001; Netz & Mendes, 2006; Paiva & Borges, 2009; Silva & Navarro, 2012). Até a terceira revolução industrial, a máquina libertava o trabalhador de atividades rotineiras e repetitivas. Porém, na Quarta Revolução Industrial, que estamos vivenciando desde o princípio do século XXI, a máquina passou a executar atividades cognitivas mais complexas. Tendo como marco inicial a Feira de Hannover (Alemanha), em 2011, a Quarta Revolução Industrial trouxe tecnologia capazes de transformar a produção e a sociedade por meio de “fábricas inteligentes”, nas quais máquinas e insumos interagem ao longo das operações fabris, agregando flexibilidade aos processos, que ocorrem de maneira autônoma e integrada (Drath & Horch, 2014; Confederação Nacional da Indústria, 2016; Buhr, 2017; Schwab, 2017). Esse estágio atual é conceituado por De Masi (1999) como sociedade pós-industrial e caracterizado pela superação quantitativa de trabalhadores no setor de serviços e em atividades administrativas em relação ao setor industrial. A máquina, que anteriormente era um mero instrumento de trabalho, passa a ser agente ativo no processo produtivo (Teixeira & Souza, 1985), diminuindo a importância e a quantidade de postos de trabalho. Amplia-se, assim, o que Marx (2013 [1867]) chama de “exército industrial de reserva”10, e os trabalhadores que conseguem manter-se inseridos no mercado de trabalho são submetidos a contratações de tempo parcial, temporária ou informal, sem a segurança de benefícios trabalhistas e com baixa remuneração. Essa realidade do mundo de trabalhadores sem vínculos organizacionais é definida por Beck (1997) como capitalismo sem trabalho, realidade que descreveremos mais detalhadamente a seguir. É importante destacar que a nova revolução industrial em curso faz um conjunto novo de exigências em termos de competências do trabalhador. O relatório do Fórum Econômico Mundial aponta as dez competências mais importantes para os trabalhadores na Quarta Revolução Industrial: resolução de problemas complexos, pensamento crítico, criatividade, gestão de pessoas, coordenação com outras pessoas, inteligência emocional, julgamento e tomada de decisão, orientação para serviço, negociação e flexibilidade cognitiva (Schwab & Samans, 2016). Ou seja, o mercado de trabalho atual demanda dos trabalhadores, especialmente, competências comportamentais e emocionais e não mais apenas técnicas, como outrora. A título de síntese dessa trajetória, a Figura 1 apresenta as quatro revoluções ocorridas no mundo do trabalho, descrevendo os avanços tecnológicos da época e suas consequências na transformação da forma como o trabalho se organizou. Figura 1. Evolução do mundo do trabalho. Fonte: Elaborada pelos autores. Vale ressaltar que as formas de organização do trabalho aqui citadas não são excludentes entre si. Na realidade, observa-se que as práticas organizacionais se configuram como modelos híbridos, quando modelos de diferentes momentos históricos coexistem até mesmo dentro de uma mesma organização, em razão da natureza do trabalho. Não há, portanto, um desenvolvimento linear, verificando-se importantes diferenças entre países e segmentos produtivos. Apesar disso, no seu conjunto, o mundo do trabalho tem sido fortemente impactado pelos avanços tecnológicos que, por sua diversidade, configuram momentos históricos distintos, com diferentes consequências para as formas como o trabalho é realizado, como os trabalhadores se relacionam entre si e com o trabalho que executam. O mundo do trabalho atual: a precarização como traço distintivo e seus impactos no trabalhador Como visto, as revoluções industriais, caracterizadas por eras de desenvolvimento tecnológico e organizacional, moldaram o mundo do trabalho desde o início do processo de industrialização iniciado no final do século XVIII e aprofundaram seus impactos na estrutura de emprego em nível mundial e na vida do trabalhador, com os processos de automação e da criação de máquinas inteligentes. Em paralelo, o processo de globalização dos mercados, a crescente competividade em todos os níveis e o avanço de políticas neoliberais abrem espaço para modelos econômicos em que o trabalho perde força política e se degrada progressivamente para contingentes cada vez mais expressivos da população. Temos, assim, na atualidade, o trabalho mecanizado e automatizado, os processos crescentemente acelerados, e o trabalho morto11 ganhando predominância no processo produtivo em que a inteligência artificial conquista progressivamente mais importância. O fato é que a tecnologia inserida no mundo do trabalho é paradoxal, podendo ajudar os trabalhadores a dar conta de tarefas complexas (como uma força libertadora), substituí-los ou até oprimi-los, negando-lhes a possibilidade de “se desligar” de seus trabalhos (Litchfield, Cooper, Hancock, & Watt, 2016). Ao fim e ao cabo, o desafio não está na tecnologia em si, mas no uso que é feito dela para sustentar as novas organizações de trabalho. As recentes transformações, potencializadas a partir da Quarta Revolução Industrial, evidentemente produzem impactos em diferentes níveis: sobre as organizações, sobre as equipes de trabalho, sobre cada trabalhador em particular. Aqui, interessa particularmente pensar sobre o sujeito inserido nesse contexto, sobre como a sua saúde e o bem-estar estão sendo afetados. Se, anteriormente, a preocupação com a saúde ocupacional recaía principalmente sobre os agentes de risco físicos, químicos e biológicos aos quais os trabalhadores estavam expostos, atualmente, o perigo é mais intangível, assim como suas consequências (Litchfield et al., 2016). Hoje, considerando que boa partedas doenças físicas ocasionadas por más condições de trabalho está controlada, é preciso um olhar mais atento sobre a organização do trabalho, que incide diretamente sobre o funcionamento psíquico dos indivíduos. Não é segredo que os transtornos mentais e do comportamento já são uma das maiores causas de afastamento do trabalho e os números só vêm crescendo, especialmente em cenários em que demandas cognitivas e afetivas/sociais se fazem mais presentes que as demandas físicas para dar conta das necessidades de uma sociedade altamente tecnológica e de funcionamento ativo 24 horas por dia, sete dias por semana. Por isso, é preciso perguntar: Como os trabalhadores estão se adaptando às novas configurações no mundo do trabalho atual? Qual o impacto dessas transformações na saúde e qualidade de vida dos trabalhadores? Qual é o poder de realização dos trabalhadores diante da estrutura atual, considerando como objetivo construir um mundo mais justo e saudável para todos? Entre as grandes questões que cercam o mundo de trabalho contemporâneo podem ser citadas: os níveis de emprego e desemprego, as condições de trabalho, a empregabilidade, as formas de inclusão dos trabalhadores no mercado de trabalho formal e informal, a remuneração e os benefícios, as formas de organização do trabalho, a regulamentação das novas relações de trabalho que vão surgindo, os impactos das novas tecnologias de informação e comunicação (TICs), as competências profissionais exigidas, as relações entre os trabalhadores, os empregadores e o movimento sindical, dentre outros (Lazzareschi, 2008). Dentre elas, uma questão central – pelo papel que o emprego desempenhou na estruturação da vida na sociedade industrial – diz respeito à diminuição dos postos de trabalho, resultando no crescimento de trabalhadores sem emprego. Como apresentado anteriormente, o trabalho envolve uma ação deliberada e consciente de transformação da natureza, a fim de satisfazer uma necessidade humana. Já o emprego, regime que surgiu com a Revolução Industrial, adota padrões próprios de operacionalização da atividade laboral, estabelecendo um vínculo entre o trabalhador e a organização. Ambos convergem na construção da identidade social, no que tange à qualificação, à posição no emprego e às expectativas de carreira (Sorj, 2000). As evidências de uma nova dinâmica laboral pautada no não emprego são muitas. Em países como o Reino Unido e os Estados Unidos, o número de pessoas que se classificam como trabalhadores por conta própria está crescendo rapidamente (Frazis, 2017; Office of National Statistics, 2017). No Brasil, apesar de os índices de trabalho informal sempre terem sido elevados, recentemente bateram recorde histórico de 41,4%, totalizando 38.806 milhões de trabalhadores informais (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2019). As relações de emprego se tornaram fluídas e as oportunidades de empregabilidade diminuíram com a disseminação de experiências de trabalho inseguras a todos os níveis do espectro ocupacional (Thompson & Smith, 2017). Ao crescente nível de desemprego dos últimos anos, junta-se a instabilidade das relações entre trabalhadores e organizações. O declínio dos postos de trabalho no setor primário e secundário, bem como a ascensão do setor de serviços em um sistema produtivo em que os trabalhadores não possuem vínculos com as organizações, resultou em um processo de entrada do indivíduo no mercado de trabalho de forma individualizada, marcado pela responsabilização do próprio trabalhador em seu processo de empregabilidade. A partir dos anos de 1990, avançou, em nível mundial, a desregulamentação do mercado de trabalho, agravada pelo enfraquecimento dos sindicatos (Richards, 2010; International Labour Organization, 2016). O emprego formal e duradouro deu lugar ao trabalho casual ou freelancer (Hook, 2015; Sundararajan, 2015; Rashid, 2016) e a “pejotização”12, criando “trabalhadores sob demanda” (Tran & Sokas, 2017), que atuam em condições de elevada precarização (Kalleberg, 2013). Uma segunda e importante questão reporta-se às repercussões das novas tecnologias no trabalho sobre a forma como os trabalhos são desenhados e as demandas que tais tecnologias colocam ao desempenho dos trabalhadores. Parker e Wall (1998) apontam que a criação de sistemas cada vez mais sofisticados e de maior poder de processamento bem como o barateamento da tecnologia resultam na ampliação de seus efeitos no mundo do trabalho. O que antes era restrito a uma pequena parcela de trabalhadores, em atividades de baixa complexidade, como cálculos e transferência de informação, hoje se apresenta de forma extensa, principalmente a partir do desenvolvimento da inteligência artificial (Parker & Wall, 1998). Estudos pioneiros sobre os efeitos da tecnologia nos trabalhadores (Huuhtanen & Leino, 1989; Liff, 1990) já apontavam efeitos na autonomia e na complexidade do trabalho. Adicionalmente, cabe mencionar que o uso de tecnologias mais modernas esconde uma nova modalidade de trabalho precarizado, que funciona em prol da própria construção da inteligência artificial, que é conhecida como turkeirização. Esta denominação surge em homenagem a uma das primeiras organizações de mercado digital, a Amazon’s Mechanical Turk, que medeia a relação entre empregadores que solicitam a realização de tarefas e trabalhadores que aceitam desenvolver essas tarefas, de forma esporádica e sem vinculação formal (Irani, 2015). Tais tarefas, recompensadas com valores irrisórios (muitas vezes sequer monetizados), incluem transcrever trechos de áudio e rotular imagens, possuem uma alta carga cognitiva e, basicamente, ajudam a desenvolver a “inteligência” dos sistemas informatizados (Irani, 2015). No centro da economia digital, um novo modo de organização de trabalho emerge diante de uma realidade de quebra de vínculos formais entre os trabalhadores e as organizações, chamado uberização. O termo, descrito por Hill (2015), surge a partir da analogia ao nome da empresa de transportes Uber que possui atualmente a maior frota de carros e a maior quantidade de motoristas atuando no mundo inteiro, porém sem manter nenhum vínculo formal de trabalho com esses trabalhadores. Assim, a uberização caracteriza- se por um modelo de negócio sob demanda, em que o trabalhador atua por conta própria, de forma que os custos para a produção/serviço sejam transferidos para o próprio trabalhador. Apesar de hoje essas atividades de trabalhadores liberais mediadas por plataformas fornecerem uma abertura para o mercado de trabalho, principalmente de pessoas que estão desempregadas há algum tempo (Fraiberger & Sundararajan, 2015; Chassany, 2016), há uma clara precarização e intensificação das cargas de trabalho aliadas à perda de quaisquer políticas compensatórias, com diminuição de rendimentos e fim de diretos trabalhistas, como auxílio doença e férias (Monaghan, 2014). Além da redução salarial e falta de benefícios, as pesquisas com os trabalhadores autônomos indicam condições de trabalho extremas, com intensas cargas de trabalho e eliminação do limite entre o tempo de trabalho e de não trabalho (Gregg, 2011; Coyle, 2017; Fleming, 2017). Sem contar que esse trabalho dito independente tende a diminuir a possibilidade de contato humano face a face entre colegas de profissão, dificultando tanto a construção do suporte social quanto das articulações coletivas que podem lutar por melhorias para a categoria, assim, calando, em última instância, a voz do trabalhador (Tran & Sokas, 2017). No que tange à terceirização, um estudo brasileiro realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos - Dieese (2017) apontou que trabalhadores terceirizados apresentam maior rotatividade de mão de obra, menor remuneração geral (em média entre 23% a 27% menor), que é mais baixa para mulheres, jornadas de trabalho maiores e maior número de afastamento por acidentes de trabalho. Todas essas transformações impactam sobremaneira a saúde e o bem-estar dos trabalhadores. Nessa dinâmicade incerteza, não é de surpreender que no Reino Unido, muitos funcionários estejam cancelando suas férias e ampliando o tempo de trabalho após o expediente, resultando em burnout, hipertensão e baixa produtividade (Chartered Management Institute, 2016). No Brasil, os transtornos mentais e comportamentais representaram a terceira causa de concessão de benefícios previdenciários entre 2008 e 2011 entre trabalhadores que atuam em empregos formais (Silva-Junior & Fischer, 2014). A literatura aponta, ainda, a transferência da empresa para o trabalhador das despesas necessárias para a execução do trabalho, como energia elétrica, internet, softwares, postagens, dentre outros (Bobo, 2009; Gregg, 2011; Lambert, 2015). Essa dinâmica é definida por Fleming (2017) como “capitalismo de trabalho livre”, que afeta não apenas os freelancers, mas também muitos em trabalhos estáveis, já que a tecnologia móvel dificulta saber quando o dia de trabalho realmente termina. Por fim, os custos de capacitação e atualização das competências dos trabalhadores, que antes eram da empresa, passam para os trabalhadores. Em um mercado de trabalho competitivo, é de responsabilidade do próprio trabalhador a sua qualificação para se manter inserido. Ou seja, o treinamento e a aquisição de habilidades são, em grande parte, da responsabilidade de cada funcionário, de preferência em seu horário de não trabalho (Becker, 1962). A Figura 2 apresenta, de forma resumida, as características do trabalho no contexto atual e seus impactos no trabalhador. Figura 2. Características do trabalho na 4ª Revolução Industrial. Fonte: Elaborada pelos autores. Surgimento da psicologia positiva e seus impactos no mundo das organizações e trabalho Historicamente, a psicologia como um todo, incluindo a área de POT, tem se inclinado predominantemente aos estudos de patologias, suportada pelo modelo biomédico que, por muitas décadas, dominou não apenas a área de pesquisa, mas também a atuação prática dessa ciência. Um dos primeiros passos que marcaram a necessidade de rompimento com esse modelo veio em 1948, por meio da Organização Mundial de Saúde (OMS), quando definiu a saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente como ausência de enfermidades. Tal definição abriu campo para que a saúde fosse percebida de forma menos reducionista, elucidando seus aspectos positivos. Com o intuito de promover um paradigma distinto no campo da psicologia, surge e se consolida o movimento denominado psicologia positiva, cuja proposta é identificar e fortalecer o que há de bom nos indivíduos, em vez de apenas reparar danos (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000; Paludo & Koller, 2007). O estudo da psicologia positiva se baseia em três pilares: experiência subjetiva, que abarca aspectos como o bem-estar, as emoções, a esperança, a felicidade e a transcendência (flow); características individuais – forças pessoais e virtudes, como capacidade para o afeto, o perdão, a espiritualidade, o otimismo e a sabedoria; instituições e comunidades positivas, que englobam as virtudes cívicas, o altruísmo, a responsabilidade social e a ética no trabalho, e as próprias organizações (Seligman, 2003; Donaldson & Ko, 2010). Rapidamente, a psicologia positiva foi incorporada a campos de aplicação prática. No mundo das organizações e do trabalho, desenharam-se duas vertentes principais: o “comportamento organizacional positivo” (positive organizational behavior – POB) (Luthans, 2002) e a “abordagem organizacional positiva” (positive organizational scholarship – POS) (Cameron & Caza, 2004). O comportamento organizacional positivo pode ser definido como o estudo e a aplicação de uma orientação positiva às forças e capacidades psicológicas dos recursos humanos, as quais podem ser medidas, desenvolvidas e, efetivamente, geridas com o intuito de catalisar o desempenho no ambiente de trabalho (Wright, 2003; Rodriguez-Carvajal, Moreno-Jímenez, Rivas-Hermosilla, Álvaro-Bejarano, & Vergel, 2010). Por outro lado, a abordagem organizacional positiva preocupa-se prioritariamente com o estudo de resultados, processos e atributos positivos, tanto das organizações quanto dos seus membros (Donaldson & Ko, 2010; Rodriguez-Carvajal et al., 2010). Assim, embora apresentem propostas similares em muitos aspectos, a POB e a POS se diferenciam especialmente em relação ao foco temático (relacionado ou não à melhoria do desempenho), aos níveis de investigação dos fenômenos (micro e meso versus macro) e aos tipos de pesquisa (quantitativa versus quantitativa e qualitativa). Mais recentemente, em uma revisão teórica sobre o campo da psicologia positiva aplicada às organizações e ao trabalho, Donaldson e Ko (2010) propuseram englobar essas duas vertentes iniciais sob uma denominação mais globalizante, a “psicologia organizacional positiva” (positive organizational psychology – POP), a qual pode ser definida como “o estudo científico de experiências e traços subjetivos positivos no local de trabalho e em organizações positivas, e sua aplicação para melhorar a eficácia e a qualidade de vida nas organizações” (Donaldson & Ko, 2010, p. 178, tradução nossa). A Figura 3 sintetiza a proposta da psicologia organizacional positiva (POP), a partir da comparação entre as vertentes que a compõem: POB e POS. Figura 3. Psicologia organizacional positiva (POP) x comportamento organizacional positivo (POB) x abordagem organizacional positiva (POS) Fonte: Carneiro (2018). O autor Ferreira (2012) salienta que a introdução da perspectiva da psicologia positiva nas organizações se constitui numa poderosa ferramenta em direção à promoção do bem-estar do trabalhador e à conquista de vantagem competitiva para as organizações que investirem em seus recursos humanos. Isso acontece porque a POP é uma abordagem focada na abundância, que leva em consideração tanto as necessidades da organização quanto as dos indivíduos, na busca por uma relação de ganhos mútuos, contrapondo-se à clássica abordagem focada em déficits, que se concentra em resolver problemas, sem necessariamente considerar o bem-estar do trabalhador nessa equação (Rodríguez-Carvajal et al., 2010). Cabe salientar, no entanto, que a POP não proclama ser um campo de estudo voltado para descobertas inteiramente novas, contudo, ela enfatiza a necessidade de construir, pesquisar e desenvolver aplicações teóricas mais focadas em aspectos positivos (Rodríguez-Carvajal et al., 2010). Na prática, as intervenções em POP podem ser caracterizadas como ações intencionais que objetivam atingir pelo menos um dos seguintes objetivos: fomentar experiências subjetivas positivas; edificar características/traços individuais positivos; construir virtude cívica e instituições positivas (Meyers, van Woerkom, & Bakker, 2013). Em contextos organizacionais, tais intervenções têm demonstrado serem bem-sucedidas no sentido de melhorar tanto o bem-estar quanto o desempenho dos trabalhadores, além de serem uma ferramenta que, indiretamente, diminui indicadores negativos como estresse, burnout, depressão e ansiedade (Meyers et al., 2013). Entretanto, é preciso que esses estudos se expandam para contextos menos tradicionais, já que os arranjos de trabalho que conhecemos como “típicos” ou “padrões” hoje englobam menos de um terço dos trabalhadores (Barling, Inness, & Gallagher, 2002). Temos, aqui, o principal desafio posto hoje à POP: em que medida os seus fenômenos e seus recursos técnicos de intervenção se revelam apropriados e efetivos para lidar com o conjunto de trabalhadores precarizados (os dois terços de excluídos da situação de emprego formal) que é a marca mais evidente do momento histórico que estamos vivendo, como descrito em partes anteriores desse trabalho? Ao nos debruçarmos sobre os tópicos mais pesquisados no campo da POP, é possível identificar um interesse em compreender a mudança organizacional e o desenvolvimento organizacional na perspectiva positiva, bem como as relações entre trabalho e espaço de vida total (Donaldson & Ko, 2010). Esses temaspodem convergir com algumas das características das novas configurações de trabalho, uma vez que estas são regidas por transformações constantes na organização do trabalho, a qual é fortemente marcada pela mediação da tecnologia e que, cada vez menos, permite visualizar com clareza as fronteiras (tanto físicas quanto virtuais) entre trabalho e vida pessoal. Porém, pouca atenção ainda tem sido direcionada no sentido de compreender como está a saúde e o bem-estar dos trabalhadores que se encontram inseridos no mundo laboral por meio de relações de trabalho mais frágeis e fluidas, como as descritas em seções anteriores. Além disso, o maior foco dos estudos ainda recai sobre as características pessoais positivas, como liderança positiva e capital psicológico (Donaldson & Ko, 2010). Tal ênfase alerta para a importância de se pensar sobre uma excessiva individualização que coloca o trabalhador não apenas como responsável pela manutenção do seu bem-estar, como também na obrigação de transformar suas experiências laborais em experiências positivas, ainda que as condições não sejam tão propícias para tal. Nessa direção, acreditamos que há a necessidade de investigar tais fenômenos de modo mais contextualizado e coerente com o presente cenário de atuação profissional no qual a maior parte da população economicamente ativa está inserida, procurando compreender o peso e responsabilizar as estruturas coletivas na busca do alcance dos objetivos da psicologia positiva. Afinal, há como se manter saudável em ambientes biopsicossociais não saudáveis? O potencial do trabalho para gerar impactos positivos e negativos sobre a saúde e o bem-estar dos indivíduos é largamente conhecido desde os tempos da Grécia e Roma antigas, quando o grego Galen discutia, de um lado, o quanto o trabalho é essencial para a felicidade humana e, do outro, o romano Pliny descrevia o processo de envenenamento de escravos nas minas pelo mercúrio (Litchfield, Cooper, Hancock, & Watt, 2016). A capacidade de o trabalho promover consequências positivas depende, essencialmente, de como ele está organizado. Alguns desses aspectos de organização dizem respeito ao conteúdo das tarefas (como o uso variado de habilidades, identificação com e significado das atividades) e outros ao processo em si (grau de autonomia do trabalhador e feedback sobre o seu desempenho) (Hackman & Oldham, 1976). Portanto, na atualidade, por acompanharmos transformações intensas nesses aspectos, não surpreende que seja mandatório manter um olhar atento sobre essas questões, especialmente em um cenário em que têm emergido rápida e intensamente novas organizações de trabalho. Um dos aspectos mais proeminentemente defendidos como positivos para o trabalhador nesse novo cenário é a autonomia, que figura como um dos elementos-chaves para o bem-estar psicológico na perspectiva da psicologia positiva (p. ex., Ryff & Keyes, 1995; Keyes, Shmotkin, & Ryff, 2002). Supostamente, nas novas configurações, cresce a liberdade do indivíduo, que passa a ser “dono do próprio trabalho” ao decidir como, quando e onde realizá-lo: ele se torna “empreendedor de si mesmo”. Entretanto, essa autonomia é mesmo real? Steenbergen e colaboradores (2018) conduziram uma pesquisa longitudinal que acompanhou o processo de transição organizacional de uma grande empresa alemã da área finanças para novas formas de trabalho, em três momentos: um mês antes da transição, três meses após a transição e um ano após a transição. As novas formas de trabalho foram caracterizadas no estudo a partir do critério de flexibilidade de tempo (o trabalhador decide quando trabalha), de local (o trabalhador decide onde trabalha ou não possui uma estrutura física de trabalho própria), de interação (o trabalho é realizado ou facilitado pela tecnologia da informação). Eles concluíram que as mudanças não interferiram nos níveis de burnout e engajamento dos trabalhadores, que se mantiveram estáveis ao longo do tempo. Elas trouxeram impactos positivos de longo prazo ao reduzir a percepção dos trabalhadores sobre as demandas cognitivas e a carga de trabalho, possivelmente pela redução da pressão imediata de tempo e do aumento da sensação de controle e da eficiência da comunicação. Entretanto, as mudanças reduziram também as oportunidades de desenvolvimento de carreira, possivelmente porque os trabalhadores estavam expostos a menos oportunidades de interação social para geração de aprendizagem (Steenbergen, Ven, Peeters, & Taris, 2018). Por fim, chama especialmente a atenção o fato de a percepção de autonomia ter sido reduzida tanto no curto quanto no longo prazo do processo de adoção das novas formas de trabalho pela organização, contrariando as expectativas da literatura que defende a autonomia como o maior ganho dessas novas configurações. Os pesquisadores apresentam como possível explicação para esse resultado o fato de a transição para as novas formas de trabalho ter sido mandatória, não permitindo ao trabalhador escolher entre aderir ou não à nova formatação (Steenbergen et al., 2018). Tal reflexão converge com a discussão promovida por outros autores para explicar a falta de consenso empírico sobre efeitos benéficos ou nocivos das novas configurações para os trabalhadores. Barling, Inness e Gallagher (2002) defendem que as formas alternativas trabalho (por exemplo, emprego em tempo parcial, compartilhamento de trabalho, terceirização) não produzem efeitos uniformes sobre o bem-estar do trabalhador, porque o fator “volicionalidade” precisa ser considerado. Quando os indivíduos se veem nessa situação por imposição externa ou por acreditarem que não possuem alternativas, o risco de deterioração do bem-estar é maior. Contudo, quando o trabalhador, de fato, escolhe ter um contrato de trabalho dessa natureza, tais efeitos negativos são minimizados. O mesmo pensamento está presente no argumento de Spreitzer, Cameron e Garrett (2017), que entendem que os arranjos alternativos de trabalho podem funcionar de maneira diferente a depender do tipo de trabalhadores em foco. Os autores discutem que, no caso de trabalhadores de alvo nível de especialização/conhecimento, que ocupam uma posição de serem disputados pelas empresas por seu talento, as novas configurações de trabalho proporcionam uma experiência mais positiva. Isso acontece porque, nesses contextos, o trabalhador possui maior autonomia para decidir quando, onde e como o trabalho será desenvolvido. Dessa forma, os arranjos alternativos de trabalho não são experimentados como uma precarização para esses trabalhadores. No entanto, quando se trata de trabalhadores menos qualificados, cresce a insegurança e a dificuldade de garantir um retorno financeiro adequado pelo trabalho realizado. Nesse caso, o risco é transferido da empresa para o trabalhador, a probabilidade de exploração aumenta e a flexibilidade dos contratos é vivenciada como precarização. Tais informações reforçam a relevância de um olhar mais contextualizado para a vivência subjetiva dos trabalhadores e para o papel das estruturas coletivas (muitas vezes impositivas), a fim de entender quando e de que forma as novas configurações do mundo do trabalho podem proporcionar circunstâncias favoráveis, que permitam ao trabalhador sentir-se, efetivamente, saudável. A Figura 4 apresenta essa nova dinâmica no mundo do trabalho e as questões que surgem a partir do olhar da psicologia positiva. Figura 4. Novas demandas no mundo do trabalho e a relação com a psicologia positiva. Fonte: Elaborada pelos autores. Reflexões sobre o futuro da psicologia organizacional positiva diante das novas configurações no mundo do trabalho Neste trabalho, colocou-se como objetivo suscitar a discussão sobre possíveis caminhos que integrem o olhar sobre as forças e virtudes dos indivíduos (base da psicologia positiva e fundamento da psicologia organizacional positiva) com a forma como o mundo do trabalho está sendo configurado ao longo de um complexo processo de reestruturação produtiva. Tal processo, em grande parte impactado pelas revoluçõestecnológicas que definiram novas formas de organização e gestão do trabalho, é também produto do movimento de globalização econômica com seus impactos sociais e culturais. A esses movimentos se junta a fragilização do que constituiu o estado de bem-estar social construído após a Segunda Grande Guerra Mundial que, com maior vigor, predominou em países europeus. Esse conjunto de transformações, em ritmo acelerado, reestruturara o mundo do trabalho e provoca a emergência de uma sociedade pós-industrial. A sociedade, marcada pela primazia do setor de serviços cada vez mais moldado pela automação dos seus processos, como visto, aprofundou a divisão que se tornou evidente entre trabalhadores centrais e periféricos. No entanto, para todos eles, quer sejam centrais ou periféricos, a pressão por produtividade e desempenho em níveis elevados é uma constante em um mundo globalizado e hipercompetitivo. A situação de ter um emprego, uma carreira a ser construída no âmbito de uma organização tornou-se privilégio de poucos, enquanto a massa de terceirizados, quarterizados, trabalhadores informais, de tempo parcial ganha sua maior expressão no processo de uberização da economia ainda em curso. A esses lhes são negadas as proteções que o Estado de bem-estar social propiciava. Enfraquecidos na sua capacidade de alterar, individualmente, as estruturas sociais, aos trabalhadores não resta sequer a ação coletiva que se dava via organizações sindicais. Sem organização como categorias ocupacionais, tais trabalhadores deixam de contribuir para as transformações de forma coletiva, algo que é mais geral e atinge até mesmo as categorias sindicalizadas, com o enfraquecimento dessas entidades. É evidente que esse conjunto de transições possui impactos negativos sobre a maioria dos trabalhadores. As pesquisas são pródigas em mostrar como a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida se deterioram dando origem a níveis elevados de estresse, burnout e outros distúrbios psíquicos que, muitas vezes, levam ao suicídio de trabalhadores em seus contextos de trabalho. Se há a convicção de que não podemos nos deter exclusivamente em problemas ou fenômenos negativos que mostram as fragilidades das pessoas diante de tais estruturas sociais, que papel pode ser reservado aos pesquisadores e profissionais que optam por olhar as forças, as virtudes e as capacidades humanas, como defende a POP? Como sabemos, as relações entre contexto e respostas individuais (ou grupais) não são lineares e diretas. Entre elas há um conjunto de fatores mediadores e moderadores que exigem muitos esforços de pesquisa para a construção de modelos explicativos mais complexos, mais dinâmicos e, portanto, mais próximos de refletir a realidade como esta se apresenta. Nesse sentido, uma primeira resposta é que as forças, capacidades e virtudes pessoais (fenômenos estudados pela POP) podem ser moderadores importantes da forma como as pessoas enfrentam as dificuldades postas pelo contexto de transição em que vivem. Congruentemente, também pode-se afirmar que as técnicas e os procedimentos voltados para incrementar tais capacidades são benéficos e ajudam a minorar os impactos negativos dos contextos adversos que caracterizam o mundo do trabalho atual. Isto, por si só, já justificaria os esforços de pesquisa e intervenção na direção defendida pela POP. No entanto, podemos indagar: é satisfatório chegar apenas até esse ponto? Como visto anteriormente, a pesquisa em POP não tem ainda enfrentado, na dimensão que seria necessária, esses novos contextos de trabalho e lidado com essa ampla maioria de trabalhadores precarizados. Incluí-los já consistiria em um avanço importante. Certamente desafios teóricos seriam postos à área se fenômenos com otimismo, esperança, flow entre tantos outros pudessem ser compreendidos entre categorias de trabalhadores “periféricos”. Mais do que constatar que tais fenômenos existem, mesmo que em intensidade diferente daquelas encontradas entre os trabalhadores “centrais”, seria desafiador verificar se tais construtos possuem o mesmo significado para os trabalhadores. Há, todavia, outra vereda de estudos que podem aproximar a POP da análise do macrocontexto já caracterizado em suas linhas mais gerais anteriormente. Como visto, o campo da POP não se limita ao nível individual, voltando-se também para compreender equipes e organizações positivas. Ampliar a atenção ao nível organizacional – que organizações constituem contextos positivos para o trabalho ou que práticas organizacionais genuinamente positivas são empregadas por quais organizações – seria um caminho promissor para que o foco nas forças positivas dos indivíduos não fosse visto como algo independente do contexto em que se inserem. Se há um pressuposto básico no campo dos estudos organizacionais é que nenhuma dimensão do desempenho humano no trabalho – em quaisquer níveis – deixa de envolver elementos das pessoas e das organizações como estruturas sociais coletivamente criadas e mantidas. Esse movimento de expandir o foco nas diferentes categorias de trabalhadores e enfatizar a análise das próprias organizações, nos parece de grande relevância para o campo da POP por dois motivos básicos. Primeiro, por assegurar meios para ampliar a generalidade dos seus construtos e respectivos modelos explicativos. Segundo, por buscar romper a visão, possivelmente simplificada, de que a POP vive em um mundo distante da dura realidade em que vive o trabalhador hoje. Um mundo róseo, marcado por aspectos positivos que estão longe de refletir a realidade para amplos segmentos de trabalhadores, para os quais o trabalho tem se tornado cada vez mais um fardo pesado e fonte de adoecimento. Avançar nessa segunda direção significa, certamente, dar uma maior atenção àquilo que Cunha, Rego e Lopes (2013) denominam de dialética positivo– negativo, algo que já começa a receber maior atenção no campo da psicologia positiva. Para os autores, o foco naquilo que é positivo não pode significar um descaso no estudo do que é negativo. “De facto, a positividade também se constrói mediante o combate ao que é negativo. Ademais, a negatividade pode ajudar a construir positividade” (Cunha, Rego & Lopes, 2013, p. 314). Experiências negativas ajudam a desenvolver forças e, no entanto, excesso de uma coisa boa pode se transformar em algo negativo (os autores dão o exemplo da perseverança que pode se transformar em obstinação cega). Adicionalmente, os autores chamam a atenção para que os estudos positivos não sejam encarados como panaceias para todos os problemas organizacionais e de gestão. Nas suas palavras: “Atuar positivamente, neste sentido, é um exercício de desenvolvimento das virtudes humanas baseado em assunções positivas, mas realistas (i.e., cientes da realidade). Não é um exercício de resignação conformista apresentado como realismo (no sentido em que a realidade comanda a vida). Os estudos organizacionais positivos consideram que o sonho pode comandar a vida. Mas também assumem (ou devem assumir) que a vida nem sempre é um sonho – e que uma vida excessivamente sonhadora pode transformar-se em pesadelo” (Cunha et al., 2013, p. 314). Aprofundando o que denominaram de dialética positivo–negativo, eles argumentam claramente que muitas reações negativas (emoções, pessimismo) não são necessariamente disfuncionais. Pelo contrário, de acordo com Cunha e colaboradores (2013, p. 323), “o excesso de emoções positivas sem a companhia de algumas emoções negativas, pode gerar irrealismo e incapacidade para prevenir problemas. Um elevado otimismo sem a companhia de algum pessimismo pode gerar irrealismo e quebras no desempenho e na criatividade”. Ou seja, a posição dos autores, aqui endossada, é de que o binômio positivo–negativo pode se intercambiar de forma mais complexa e sinuosa do que indicam os estudos tradicionais no campo da POP). De forma conclusiva, é possível afirmar que as organizações apresentam positividade e negatividade. Diante dessa díade, é importante que compreender e dinamizar os fatores que geramvirtuosidade, mas também conhecer e inibir os fatores que geram toxicidade. Vale ressaltar que a toxicidade é parte constituinte da vida organizacional, não podendo ser erradicada (Cunha et al., 2013). Nesse sentido, é importante que o contexto do mundo laboral como está se configurando na atualidade passe a ser cuidadosamente estudado como um balizador importante das forças e capacidades humanas tão valorizadas pela POP. Se tal integração se faz necessária no campo da pesquisa, mais importante ainda o é no campo das intervenções organizacionais. Referências Antunes, R. (2009). Os sentidos do trabalho: Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. São Paulo: Boitempo. Barling, J., Inness, M., & Gallagher, D. (2002). Alternative work arrangements and employee well being. Historical and Current Perspectives on Stress and Health, 2, 183-216. Beck, U. (1997). Capitalism without work. Dissent, 44(1), 51-56. Becker, G. S. (1962). Investment in human capital: A theoretical analysis. Journal of Political Economy, 70, 9-49. Bobo, K. (2009). Wage theft in America: Why millions of working Americans are not getting paid – and what we can do about it. New York: New Press. Bonelli, V. V., & Lazzareschi, N. (2012). Globalização, desenvolvimento sustentável e geração de emprego. Pensamento & Realidade, 27(4), 112-124. Buhr, D. (2017). What about welfare 4.0?. CESifo Forum, 18 (4) 15-24. Cameron, K. S., & Caza, A. 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Porto Alegre: Artmed, 549-582. 4. A paixão pelo trabalho Maria Cristina Ferreira Michelle Morelo Pereira O estudo da paixão vem há muito tempo despertando a atenção dos filósofos, com duas posições antagônicas se destacando na abordagem de tal fenômeno. Uma delas, na qual se enquadram os filósofos gregos, como Platão (429-347 AC) e Spinoza (1632-1677), associa a paixão à perda do controle e da razão, ou seja, vê o ser humano como um escravo de suas paixões e estas como algo que prejudica seu ajustamento (Vallerand, 2012). Adotando posição contrária, filósofos como Descartes (1596-1650) e Hegel (1770-1831) defendem que a paixão consiste em uma emoção inerente ao ser humano, capaz de energizá-lo e contribuir para as suas realizações. Tal perspectiva considera, portanto, o papel ativo do ser humano no controle de suas paixões, consideradas como algo que facilita seu ajustamento (Vallerand & Verner-Fillion, 2013). O interesse dos filósofos, porém, restringia-se aos aspectos emocionais subjacentes à paixão (Vallerand, 2010). No contexto da psicologia, os trabalhos sobre paixão, por várias décadas, circunscreveram-se principalmente ao campo das relações interpessoais e detiveram-se tão somente na abordagem do amor apaixonado, embora já sinalizassem para as características motivacionais da paixão (Vallerand, 2008). Coube, assim, à Vallerand e sua equipe (Vallerand et al., 2003), em trabalho seminal, introduzir na literatura psicológica a noção de paixão vinculada a uma atividade. De acordo com a teoria da autodeterminação (Deci & Ryan, 2002), as pessoas se engajam em diversas atividades ao longo de sua vida, procurando satisfazer as necessidades básicas de autonomia (ter iniciativa pessoal), de competência (interagir com o meio ambiente de forma eficaz) e de relacionamento (estar conectado com as demais pessoas). Fundamentando-se em tal teoria, Vallerand et al. (2012) propõem que, com o tempo, as pessoas começam a perceber que algumas das atividades nas quais se engajam lhes proporcionam maior satisfação de suas necessidades básicas, razão pela qual elas se tornam mais importantes e agradáveis para as pessoas. Em consequência,essas atividades são internalizadas em sua própria identidade, isto é, na maneira em que as pessoas se veem e se autodefinem. Em outras palavras, as pessoas passam a se engajar nessas atividades com frequência porque se tornam apaixonadas por elas. A paixão é definida, então, como uma forte inclinação para uma determinada atividade que faz parte da identidade do indivíduo, em razão de ele gostar dela, julgá-la importante e nela investir tempo e energia (Vallerand et al., 2003). Ela caracteriza-se, portanto, como uma relação especial com uma atividade significativa para o indivíduo (Vallerand, 2012). Assim, por exemplo, um apaixonado por escrever poesias não apenas se engaja nessa atividade regularmente, mas se vê como um poeta e a valoriza ao máximo, isto é, a considera fazendo parte de si mesmo (Vallerand, 2008). Avançando em suas proposições, Vallerand et al. (2003) propõem o modelo dualista de paixão, segundo o qual a paixão por uma atividade manifesta-se em dois tipos diferentes, a depender da forma como ela é incorporada à identidade do indivíduo: paixão obsessiva e paixão harmoniosa. A paixão obsessiva decorre de uma internalização parcial e controlada da atividade na própria identidade, decorrente da necessidade de conseguir aceitação social e aumentar a autoestima com o engajamento na atividade que se ama. Com isso, o indivíduo passa a vivenciar um desejo urgente e incontrolável de executar a atividade que considera importante e agradável. Em outras palavras, o indivíduo é controlado pela paixão, o que o leva a apresentar uma rígida persistência na atividade e a vivenciar conflitos com a execução de outras atividades de sua vida, bem como sentimentos negativos durante e após a execução da atividade. Nesse sentido, um aluno com uma paixão obsessiva pelo basquete pode aceitar o convite de seus colegas para uma partida na noite anterior, mesmo sabendo que precisa finalizar uma apresentação para a aula do dia seguinte e ainda que se sinta culpado por ter aceitado jogar a partida em vez de finalizar seu trabalho (Vallerand & Verner-Fillion, 2013). A paixão harmoniosa, no entanto, resulta de uma internalização autônoma e autodeterminada da atividade na identidade do indivíduo, isto é, a atividade é aceita como importante livremente e sem nenhuma pressão atrelada a ela. Por essa razão, a paixão pela atividade converte-se em uma força motivacional que leva o indivíduo a se engajar livremente na atividade, isto é, o desejo de nela se engajar não é urgente e incontrolável, mas, sim, volitivo e de livre escolha, na medida em que é ele quem decide quando irá se engajar na atividade. Nesse sentido, a atividade objeto da paixão não se sobrepõe aos demais aspectos da vida do indivíduo, mas, ao contrário, convive em harmonia com eles. Logo, quando ele não pode se dedicar à atividade, ele se adapta à situação e se dedica às demais tarefas que precisam ser realizadas. No entanto, quando está envolvido com a tarefa objeto de sua paixão, ele se focaliza totalmente nela e vivencia sentimentos positivos durante e após a sua execução. Assim, por exemplo, um aluno com uma paixão harmoniosa pelo basquete, que precisa finalizar uma apresentação para a aula do dia seguinte, pode declinar do convite de jogar uma partida com seus colegas na noite anterior (Vallerand & Verner-Fillion, 2013). Em razão das características associadas aos dois diferentes tipos de paixão, então, a paixão harmoniosa costuma levar os indivíduos a vivenciarem mais experiências positivas que a paixão obsessiva, não apenas durante o engajamento na tarefa, mas também após o seu término e quando impedidos de se engajarem na atividade por algum motivo (Vallerand et al., 2003). A publicação do trabalho de Vallerand et al. (2003) suscitou um grande número de estudos destinados a testar os pressupostos do modelo dualista da paixão e a expandir a rede nomológica do construto, mediante a investigação de seus principais correlatos. Em metanálise das publicações até 2014, Curran et al. (2015) analisaram 94 estudos realizados em diferentes áreas de atividades, como lazer, esporte, artes, educação e trabalho. Os resultados obtidos apontaram que a paixão harmoniosa revelou-se uma força motivacional associada a vários resultados positivos, como o bem-estar, a cognição adaptativa, o desempenho e a prática deliberada da atividade. A paixão obsessiva, em contrapartida, associou-se a resultados negativos, como menores índices de bem-estar, cognição negativa e dependência na realização das atividades. Este capítulo tem como foco a paixão por uma área específica de atividade, qual seja o trabalho. Para tanto, faz uma breve caracterização inicial da paixão pelo trabalho para, em seguida, discutir sua mensuração, o modelo de avaliação da paixão pelo trabalho, recentemente desenvolvido para explicá-la, e seus principais antecedentes e consequentes, com o apoio de estudos empíricos que vêm sendo realizados com esse objetivo. Na conclusão, discutem-se as principais implicações de tal corpo de conhecimentos para a prática das organizações. Caracterizando a paixão pelo trabalho A paixão pelo trabalho pode ser definida como um estado psicológico caracterizado por sentimentos positivos em relação às tarefas e às responsabilidades laborais executadas pelo indivíduo, decorrentes do fato de elas se mostrarem significativas para ele, razão pela qual ele se identifica com tais atividades e procura mantê-las (Perttula, 2004). Zigarmi, Nimon, Houson, Witt e Diehl (2011), por sua vez, tomando por base estudos de natureza cognitiva e afetiva, conceituam a paixão pelo trabalho como um estado emocional que leva o indivíduo a persistir em suas atividades e a apresentar resultados positivos em seu trabalho. A paixão pelo trabalho define-se, portanto, como uma característica individual expressa em sentimentos intensos e positivos em relação ao trabalho, que levam o indivíduo a investir força e energia interna na realização de suas tarefas laborais (Perttula & Cardon, 2012). Aplicando o modelo dualista da paixão (DMP) (Vallerand et al., 2003) ao contexto do trabalho, Vallerand e Houlfort (2003) dividem a paixão pelo trabalho em duas dimensões: paixão harmoniosa pelo trabalho e paixão obsessiva pelo trabalho. Na paixão harmoniosa pelo trabalho, a internalização do trabalho na identidade do indivíduo é autônoma, isto é, ocorre porque o trabalho é percebido como divertido e agradável e, portanto, não consome o indivíduo. Nesse sentido, as pessoas com paixão harmoniosa por seu trabalho tendem a se concentrar totalmente em suas tarefas de trabalho e a apreciá-lo, muito embora se mostrem também capazes de focalizar sua atenção e energia em outras tarefas fora do trabalho, sem estarem constantemente ruminando sobre ele (Vallerand & Houlfort, 2003). Na paixão obsessiva pelo trabalho, porém, a internalização do trabalho é controlada e se dá em razão de pressões externas que levam o indivíduo a trabalhar, como por exemplo, no caso de um trabalhador que gosta de seu trabalho em razão de ganhos secundários, isto é, trabalha para obter a admiração de seus colegas ou aumentar a sua autoestima. Desse modo, os indivíduos com paixão obsessiva por seu trabalho costumam se mostrar emocionalmente dependentes dele, tendem a permanecer nele após o horário e a trazer trabalho para casa, negligenciando, assim, sua família e outras atividades e interesses fora do trabalho (Vallerand & Houlfort, 2003). A paixão obsessiva pelo trabalho costuma, portanto, provocar sentimentos de ansiedade e afetos negativos em relação ao trabalho, ao longo do tempo, enquanto a paixão harmoniosa leva o indivíduo a vivenciar sentimentos positivos em relação ao trabalho, em face do alinhamento existente entre as características de seu trabalho e seus desejos pessoais (Vallerand, 2012). Embora apresente algumas similaridades conceituais com outros construtos positivos relacionados ao contexto laboral, como o engajamento no trabalho, o flow e o workaholism, a paixão pelo trabalho diferencia-se, ainda assim, de taisconstrutos. Nesse sentido, o engajamento no trabalho consiste em um estado psicológico difuso, de natureza afetivo-cognitiva, composto por três dimensões: dedicação, vigor e absorção (Schaufeli, Salanova, González- Romá, & Bakker, 2002) e, de acordo com Ho e Astakhova (2018), apresenta três principais diferenças em relação à paixão pelo trabalho. Uma delas é a de que o engajamento não leva o trabalhador a definir ou mudar sua identidade a partir do trabalho, enquanto a paixão faz com que o indivíduo veja o trabalho como parte da sua identidade, isto é, como refletindo quem ele é (por exemplo, eu sou o que eu faço no trabalho). A outra diferença é a que o engajamento costuma sofrer variações mais frequentes, a depender das experiências individuais (Sonnentag, Pundt, & Venz, 2017), ao passo que a paixão pelo trabalho é mais estável e menos sujeita a variações do dia a dia. Por fim, o engajamento diz respeito às experiências vivenciadas pelo trabalhador no exercício de suas atividades laborais, em contraposição à paixão, que reflete a qualidade da relação do trabalhador com o seu trabalho, independentemente de ele estar ou não no exercício de suas funções (Birkeland & Buch, 2015). Em síntese, a paixão pelo trabalho consiste em uma relação que o empregado mantém com as suas tarefas laborais que o leva a com elas se identificar e a nelas pensar, quando está dentro e fora de tal contexto laboral, ao passo que o engajamento pelo trabalho associa-se às experiências que o empregado vivencia basicamente enquanto trabalha (Birkeland & Bush, 2015). O flow pode ser definido como um estado de imersão na atividade laboral (Csikszentmihalyi, 1978) semelhante à paixão, na medida em que ambos são direcionados por atividades específicas e levam a comportamentos de persistência. No entanto, o flow consiste em um estado psicológico de natureza cognitiva, enquanto a paixão caracteriza-se como um construto motivacional. Além disso, os estados psicológicos levam apenas a resultados positivos, não pressupondo, portanto, a dualidade. Cabe ressaltar, ainda, que os estados psicológicos não englobam o gosto ou amor por uma atividade, nem apresentam valor ou significado para o indivíduo, além de não serem internalizados. Em contrapartida, a paixão pressupõe um processo de internalização do objeto ou atividade de que se gosta (Vallerand, 2015). O workaholism, por fim, caracteriza-se por um conjunto de comportamentos e cognições que levam o indivíduo a alocar um tempo considerável em atividades e pensamentos relacionados ao trabalho, que não derivam de necessidades externas, mas de uma motivação pessoal (Snir & Harpaz, 2004). Desse modo, tanto o workaholism quanto a paixão direcionam-se a uma atividade específica, qual seja o trabalho, e levam os indivíduos a apresentarem comportamentos persistentes e motivados intrinsecamente. Além disso, ambos os construtos fazem parte da identidade do indivíduo, visto que o workaholism apresenta elementos constitutivos dos traços de personalidade, tais como o narcisismo e o perfeccionismo (Clark, Lelchook, & Taylor, 2010). Entretanto, eles se distinguem devido ao fato de que no workaholism o indivíduo mantém um comportamento viciante e compulsivo, que não envolve qualquer amor pela atividade, o que não ocorre na paixão pelo trabalho, que pressupõe um amor incondicional pela atividade (Lavigne, Forest, Fernet, & Crevier-Braud, 2014). A medida da paixão pelo trabalho Referenciando-se ao modelo dualista da paixão (DMP), Vallerand et al. (2003) desenvolveram a Escala de Paixão (Passion Scale) para avaliar o citado construto. A escala contém 14 itens, a serem respondidos em escalas tipo Likert de 7 pontos, variando de discordo totalmente (1) a concordo totalmente (7), os quais se subdividem nas duas dimensões preconizadas pelo modelo: paixão obsessiva e paixão harmoniosa. Os estudos realizados com as versões em inglês e francês da escala confirmaram sua estrutura de dois fatores (Marsh et al., 2013; Vallerand et al., 2003), além de demonstrarem que ela apresentou boas características psicométricas. A Escala de Paixão foi adaptada ao contexto do trabalho por Vallerand e Houlfort (2003), e denominada Escala de Paixão pelo Trabalho (Passion Toward Work Scale). Ela é composta por duas dimensões, com sete itens cada: paixão obsessiva (exemplos de itens: tenho quase um sentimento obsessivo pelo meu trabalho; tenho dificuldades de controlar minha necessidade em desempenhar o meu trabalho) e paixão harmoniosa (exemplos de itens: meu trabalho reflete as qualidades que eu gosto em mim; meu trabalho está em harmonia com as outras atividades da minha vida). Os estudos de validação com tal versão da escala também apontaram que ela possuía uma estrutura de dois fatores, com bons índices de consistência interna, além de demonstrarem que indivíduos mais apaixonados pelo seu trabalho apresentavam índices de ajustamento psicológico melhores que aqueles que demonstravam menor paixão pelo trabalho. Após essa versão inicial, a Escala de Paixão pelo Trabalho foi adaptada a amostras portuguesas (Gonçalves, Orgambídez-Ramos, Ferrão, & Parreira, 2014), espanholas (Orgambídez-Ramos, Borrego-Alés, & Gonçalves, 2014; Serrano-Fernandez Boada-Grau, Gil-Ripoll, & Vigil-Colet, 2017) e italianas (Zito & Colombo, 2017). No Brasil, a Escala de Paixão pelo Trabalho foi adaptada por Pereira, Ferreira e Valentini (2018). O estudo confirmou a estrutura de dois fatores da escala e apresentou evidências de sua validade convergente. Nesse sentido, foi observado que a escala de paixão harmoniosa apresentou correlações muito mais altas com o engajamento no trabalho e os afetos positivos no trabalho, quando comparada à paixão obsessiva. Em resumo, os estudos até aqui realizados com a Escala de Paixão pelo Trabalho vêm atestando que ela se constitui em um instrumento capaz de realizar um diagnóstico preciso do grau de paixão obsessiva e harmoniosa que os indivíduos demonstram em relação a seu trabalho. O modelo de avaliação da paixão pelo trabalho Para explicar o processo de paixão pelo trabalho, foi desenvolvido, mais recentemente, o modelo de avaliação da paixão pelo trabalho (MAPT) (Zigarmi et al., 2011). Este modelo baseia-se na teoria cognitiva social (Bandura, 1997), segundo a qual o comportamento humano consiste em um agente ativo de mudança, visto que os indivíduos mostram-se capazes de influenciar os fatos que lhes acontecem e moldar seu futuro (Bandura, 1997). Desse modo, eles não são impulsionados por instintos nem são estritamente controlados por estímulos externos (Bandura, 1986). Em outras palavras, o funcionamento humano sofre a influência de fatores ambientais, atributos pessoais e cognições que funcionam como determinantes recíprocos (Bandura, 1986). Referenciando-se à teoria cognitiva social, o MAPT propõe que, no contexto do trabalho, o indivíduo caracteriza-se como um agente ativo de suas ações, o que pressupõe um processo de avaliação da situação, que exige discriminação e julgamento e toma por base o conhecimento e a experiência passada e presente do empregado. Desse modo, as avaliações individuais derivadas da experiência com o ambiente laboral serão as responsáveis pelo fato de os indivíduos se tornarem ou não apaixonados por seu trabalho (Zigarmi, Roberts, & Randolph, 2015). Esse processo de avaliação é composto por três elementos: (1) os atributos do(s) objeto(s) a ser(em) avaliado(s), ou seja, o trabalho; (2) as características ou atributos pessoais do empregado; (3) e o significado ou intenção do trabalhador derivado do processo de avaliação (Tzeng, 1975). O modelo da Figura 1 descreve esse processo. Os atributos do trabalho dizem respeito aos fatores do trabalho e organizacionais, como autonomia laboral, sobrecarga, remuneração, percepção de justiça e relacionamento interpessoal. As características ou atributos do trabalhador são compostas, por exemplo, de crenças individuais, expectativas, história passada do empregado com relação ao trabalho, motivos e compromissos. As percepções do trabalhoserão, portanto, influenciadas pela avaliação cognitiva e pelas inferências afetivas a respeito dele, e delas decorrerão a paixão pelo trabalho. Logo, a paixão pelo trabalho se desenvolve por meio da interação do avaliador (o trabalhador) com suas experiências afetivas e cognitivas sobre o trabalho, que o levam a atribuir um determinado significado ao próprio trabalho (Zigarmi et al., 2015). Figura 1. Modelo de avaliação da paixão pelo trabalho (MAPT). Fonte: Adaptada de Zigarmi et al. (2011). O processo positivo ou negativo de avaliação da experiência laboral, juntamente com a paixão pelo trabalho, irá contribuir ainda para o desenvolvimento das intenções de trabalho destinadas a lidar com a experiência imediata (Zigarmi et al., 2015). Sendo assim, alguém que é apaixonado por seu trabalho poderá desenvolver, por exemplo, a intenção de dedicar mais tempo a ele do que o tempo exigido pela organização. O MAPT propõe ainda consequentes distais desse processo, quais sejam os comportamentos de papel organizacional e do trabalho, que consistem em comportamentos intencionais de trabalho derivados do processo de avaliação cognitiva e afetiva das experiências de trabalho. Considerando sua recenticidade na literatura da área organizacional, as investigações sobre os pressupostos do MAPT ainda se encontram em estágio inicial, embora venham crescendo nos últimos anos e apresentando resultados promissores, no que diz respeito à sua validação empírica (Zigarmi, Nimon, Peyton, & Shuck, 2019). Antecedentes e consequentes da paixão pelo trabalho Os diferentes antecedentes e consequentes da paixão pelo trabalho vêm sendo abordados em diversos estudos empíricos relacionados a esse construto. Os antecedentes da paixão pelo trabalho subdividem-se em antecedentes do contexto do trabalho e em antecedentes individuais ou pessoais. Entre os antecedentes contextuais merecem destaque a liderança empoderadora, a liderança transformacional e transacional, o suporte organizacional e a cultura organizacional. A liderança empoderadora pode ser definida como um processo em que os líderes delegam poder aos empregados, na tentativa de melhorar sua motivação para o trabalho (Zhang & Bartol, 2010). Os estudos indicam que a liderança empoderadora fortalece a paixão harmoniosa dos empregados (Hao, He, & Long, 2018). Já a liderança transformacional implica fornecer aos empregados estímulos intelectuais, consideração individual, inspiração e carisma, sendo esse tipo de líder caracterizado ainda por ser diretivo e participativo (Bass, 1990). A liderança transacional, por sua vez, refere-se a uma transação entre os líderes e os liderados, na qual os primeiros esclarecem as metas e tarefas e distribuem recompensas, por meio da avaliação de desempenho de seus empregados (Bass, 1990). Os estudos de Houlfort, Vallerand e Koestner (2013) e de Robertson e Barling (2013) constataram que a liderança transformacional predisse positivamente a paixão harmoniosa pelo trabalho. Em contraste, a liderança transacional predisse positivamente a paixão obsessiva (Houlfort et al., 2013). O suporte organizacional refere-se ao grau em que os empregados percebem que a organização valoriza suas contribuições e se preocupa com seu bem- estar (Eisenberger, Huntington, Hutchinson, & Sowa, 1986). Houlfort et al. (2013) observaram que o suporte organizacional prediz positivamente a paixão harmoniosa, mas não se relaciona à paixão obsessiva. A cultura organizacional consiste em um padrão de premissas elaboradas por um grupo, para a resolução de problemas durante o processo de aprendizagem, adaptação e integração, o qual é repassado aos novos membros (Schein, 1994). No que diz respeito aos efeitos da cultura organizacional sobre a paixão, tem-se verificado que a cultura do tipo clã, característica de um ambiente que promove relacionamentos positivos e cuidados ao empregado (Cameron & Quinn, 2006), apresenta relações positivas com a paixão harmoniosa (Houlfort et al., 2013). Já a cultura de mercado, que promove a competição em vez da cooperação dentro do grupo (Cameron & Quinn, 2006), vem demonstrando relações positivas com a paixão obsessiva (Houlfort et al., 2013). Com relação aos antecedentes pessoais, merecem destaque a autonomia, as forças pessoais e o lócus de controle. A autonomia refere-se à organização das ações com base em objetivos e interesses pessoais, sem a presença de controles e restrições (Deci & Ryan, 1985). Pesquisa realizada na China, com 933 trabalhadores de 23 unidades de uma empresa de metais, demonstrou que a autonomia apresenta uma relação positiva com a paixão harmoniosa no trabalho (Liu, Chen, & Yao, 2010). Tal relação se confirmou no estudo longitudinal de Fernet, Lavigne, Vallerand e Austin (2014), realizado com professores canadenses. O esforço empreendedor pode ser definido como a intensidade da realização do trabalho em tarefas empresariais (Foo, Uy, & Baron, 2009). Pesquisa realizada com 54 empreendedores, por um período de oito semanas, observou que o esforço empreendedor previu mudanças na paixão empreendedora (Gielnik, Spitzmuller, Schmitt, Klemann, & Frese, 2015). As forças pessoais apresentam-se como forças que energizam e motivam as pessoas a se desenvolverem e a funcionarem otimamente (Forest et al., 2012). Investigação realizada pelos autores indicou que quanto maiores os índices das forças pessoais dos empregados, maiores os índices de paixão harmoniosa no ambiente laboral. Os resultados revelaram, ainda, que, durante e após programa experimental destinado a aumentar as forças pessoais, ocorreu um aumento dos níveis de paixão harmoniosa. O lócus de controle pode ser definido como a medida em que uma pessoa avalia que as recompensas que aufere emanam ou dependem de seu próprio comportamento (lócus de controle interno) ou são controladas por forças externas a ela (lócus de controle externo) (Spector, 1988). Em estudo de Zigarmi, Galloway e Roberts (2018), o lócus de controle interno predisse positivamente tanto a paixão harmoniosa quanto a paixão obsessiva, ao passo que o lócus de controle externo predisse negativamente a paixão harmoniosa, mas não se correlacionou com a paixão obsessiva. Os consequentes da paixão pelo trabalho podem ser classificados em negativos e positivos. Entre os consequentes negativos podem ser citados a intenção de sair, o burnout e a sobrecarga laboral. A intenção de sair diz respeito ao desejo do empregado de deixar a organização (Pitts, Marvel, & Fernandez, 2011). Gong, Zhang, Ma, Liu e Zhao (2020) conduziram uma investigação na qual se verificou que a paixão harmoniosa predisse negativamente as intenções de sair da organização, enquanto a paixão obsessiva predisse positivamente tais intenções. O burnout caracteriza-se pelo esgotamento emocional, pela despersonalização e pela diminuição das realizações pessoais (Maslach, Schaufeli, & Leiter 2001). Pesquisa realizada com professores de diferentes níveis (ensino básico, médio e superior) apontou que a paixão obsessiva associou-se positivamente ao burnout, ao passo que a paixão harmoniosa associou-se negativamente a esse construto (Carbonneau, Vallerand, Fernet, & Guay, 2008). Esses resultados foram replicados em outro estudo com professores em início de carreira (Fernet, Lavigne, Vallerand, & Austin, 2014). A sobrecarga laboral diz respeito à percepção subjetiva do empregado acerca do excesso de tarefas que realiza em termos quantitativos e qualitativos (Bowling & Kirkendall, 2012). Em estudo com professores, Lavigne et al. (2014) observaram que a paixão harmoniosa predisse negativamente a percepção de sobrecarga laboral, e a paixão obsessiva predisse positivamente tal variável. Entre os consequentes positivos da paixão, merecem destaque o engajamento laboral, a satisfação com o trabalho, a satisfação com a carreira, a cidadania organizacional e o desempenho organizacional. Pesquisa realizada por Birkeland e Buch (2015) constatou que a paixão harmoniosa apresentou relações positivas com o engajamento laboral, e a paixão obsessivaapresentou uma correlação negativa com esse construto. A satisfação com o trabalho refere-se a quanto o empregado vivencia experiências prazerosas no contexto das organizações (Siqueira & Padovam, 2008). Lalande et al. (2017) demonstraram que a paixão harmoniosa aumentou os níveis de satisfação no trabalho, e a paixão obsessiva reduziu tais níveis de satisfação. Tais resultados foram confirmados em estudo com 278 funcionários noruegueses, no qual também se observou que a paixão obsessiva predisse negativamente a satisfação no trabalho, enquanto a paixão harmoniosa a predisse positivamente (Spehar, Forest, & Stenseng, 2016). Todavia, em estudo realizado por Papadimitriou, Winand e Anagnostopoulos (2017), ambos os tipos de paixão predisseram positivamente a satisfação com o trabalho, apesar de a paixão harmoniosa ter demonstrado maior poder preditivo. A satisfação com a carreira se caracteriza pelo grau em que o indivíduo está satisfeito com o progresso de sua carreira (Boies & Rothstein, 2002). A pesquisa de Papadimitriou et al. (2017) revelou que tanto a paixão harmoniosa quanto a paixão obsessiva predisseram positivamente a satisfação com a carreira. O comportamento de cidadania organizacional pode ser definido como um comportamento discricionário que vai além do trabalho formal e se destina a ajudar os colegas de trabalho e a própria organização (Smith, Organ, & Near, 1983). Indivíduos com maiores índices de paixão pelo trabalho costumam apresentar, também, maiores índices de comportamentos de cidadania organizacional (Cheasakul & Varma, 2016). O desempenho laboral diz respeito ao conjunto de comportamentos que contribuem para o alcance dos objetivos da organização (Campbel, 1990). Resultados obtidos em investigação conduzida em quatro diferentes organizações demonstraram que a maior paixão profissional está associada a resultados mais positivos no desempenho laboral (Perrewé, Hochwarter, Ferris, McAllister, & Harris, 2014). A Tabela 1 sintetiza os antecedentes e consequentes da paixão pelo trabalho aqui revistos. Tabela 1. Antecedentes e consequentes da paixão pelo trabalho Os estudos sobre a paixão têm objetivado identificar não apenas seus principais antecedentes e consequentes, mas também o papel mediador exercido por esse construto em tais relações. Nesse sentido, Zigarmi et al. (2018) testaram a hipótese sobre o papel mediador da paixão pelo trabalho na relação entre a regulação motivacional e as intenções de trabalho. Os resultados obtidos permitiram a confirmação da hipótese. Vallerand, Paquet, Philippe e Charest (2010), em estudo com enfermeiros franceses e canadenses, investigaram o papel mediador da paixão pelo trabalho na relação do conflito psicológico com a satisfação no trabalho e com o burnout. Os resultados indicaram que a paixão obsessiva mediou a relação entre o conflito psicológico e o burnout, ao facilitar a manifestação do burnout. No entanto, a paixão harmoniosa contribuiu positivamente para a experiência de satisfação no trabalho. Pereira, Ferreira e Valentini (2019) procuraram identificar o impacto do enriquecimento trabalho–família e da sobrecarga sobre a satisfação laboral dos médicos, bem como o papel mediador da paixão harmoniosa pelo trabalho nessas relações. Os resultados apontaram que o enriquecimento trabalho– família se relacionou positivamente com a satisfação laboral, enquanto a sobrecarga relacionou-se negativamente com tal variável, com ambas as relações sendo parcialmente mediadas pela paixão pelo trabalho. Implicações para a prática das organizações Os resultados dos estudos sobre a paixão pelo trabalho vêm apontando para as consequências positivas desse construto, especialmente no que diz respeito ao aumento do bem-estar do empregado e de seu desempenho no trabalho. Com isso, as organizações têm procurado envidar esforços destinados a fazer com que seus empregados se tornem mais apaixonados por seu trabalho, como forma de obter maiores vantagens competitivas. Essa revisão tornou claro, no entanto, que a paixão harmoniosa é mais saudável que a paixão obsessiva, razão pela qual seria importante que as organizações estivessem atentas às condições capazes de promover a paixão harmoniosa entre seus empregados, mediante a adoção de práticas destinadas a propiciar o surgimento de tais condições. Nesse sentido, as investigações têm observado que os ambientes sociais nos quais os trabalhadores se inserem constituem um fator-chave à promoção da paixão pelo trabalho. Quando tais ambientes de trabalho propiciam a autonomia dos empregados, eles facilitam a internalização autônoma da atividade, isto é, favorecem o desenvolvimento da paixão harmoniosa (Carpentier & Mageau, 2019; Fernet et al., 2014). Logo, a adoção de práticas organizacionais de favorecimento à autonomia dos empregados, que lhes deem a oportunidade de tomar suas próprias decisões e os levem a perceber que eles detêm certo grau de controle sobre a realização de suas próprias tarefas, pode facilitar o desenvolvimento da paixão harmoniosa do empregado por suas atividades laborais. O papel da cultura organizacional na promoção da paixão harmoniosa também tem sido ressaltado nos estudos empíricos da área. Tais estudos têm destacado o fato de que as culturas que dão suporte ao empregado, mediante a adoção de práticas voltadas à promoção de seu bem-estar e desenvolvimento pessoal e de incentivo a relações sociais mais colaborativas entre os empregados, costumam contar com empregados com maior paixão harmoniosa por seu trabalho (Vallerand, 2015). De modo semelhante, os estilos de liderança positiva também têm se revelado importantes na promoção da paixão pelo trabalho (Vallerand, 2015). Sendo assim, seria interessante que as organizações procurassem promover treinamentos para os empregados em posições de liderança, de modo a que eles passassem a atuar como inspiradores de seus subordinados, e que, além disso, estimulassem a manutenção de relações positivas e o fortalecimento do espírito de grupo entre seus membros, como forma de poder contar com empregados com maior paixão harmoniosa por seu trabalho (Salessi, Omar, & Vaamonde, 2017). Outro fator-chave na promoção da paixão harmoniosa pelo trabalho diz respeito ao fortalecimento das forças pessoais do empregado. Desse modo, os achados empíricos têm evidenciado que o aumento no uso das forças pessoais leva ao aumento da paixão harmoniosa (Forest et al., 2012). Em outras palavras, quando o empregado sente que está usando todo o seu potencial para o trabalho, ele costuma se apaixonar com mais facilidade por ele, isto é, ele dedica mais tempo e energia a ele, na medida em que tal atividade passa a fazer parte de sua identidade. Desse modo, a adoção de treinamentos organizacionais com base no fortalecimento das forças pessoais do empregado, que objetivem levar os empregados a identificar essas forças, desenvolvê-las e usá-las, poderá contribuir para o aumento da paixão dos membros organizacionais por suas próprias tarefas laborais. Em síntese, em que pese o fato de as paixões dos empregados de qualquer organização variarem, seria interessante que as organizações procurassem alinhar as forças pessoais de seus empregados com a realização de tarefas mais autônomas, em um ambiente corporativo que lhes deem suporte, como forma de tornar suas tarefas laborais mais significativas e, em consequência, levá-los a se mostrar mais apaixonados por elas. A adoção de tais práticas revestem-se indubitavelmente da capacidade potencial de contribuir para o desenvolvimento de empregados mais felizes e de organizações mais saudáveis e produtivas. Referências Bandura, A. (1986). Fearful expectations and avoidant actions as coeffects of perceived self-inefficacy. American Psychologist, 41, 1389-1391. doi: 10.1037/0003-066X.41.12.1389 Bandura, A. (1997). Self-efficacy and health behaviour. In A. Baum, S. Newman, J. Wienman, R. West, & C. McManus (Eds.), Cambridge handbook of psychology, health and medicine (pp. 160-162). Cambridge: Cambridge University Press.Bass, B. M. (1990). From transactional to transformational leadership: Learning to share the vision. Organizational Dynamics, 18, 19-31. doi: 10.1016/0090-2616(90)90061-S. Birkeland, I. K., & Buch, R. (2015). The dualistic model of passion for work: Discriminate and predictive validity with work engagement and workaholism. 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Dentre essas competências, as chamadas competências socioemocionais têm ganhado espaço nas políticas públicas e educacionais de diversos países, dada sua relevância nos mais diferentes contextos, baseando-se na constatação de que essas competências são moldáveis e podem ser aperfeiçoadas ao longo da vida. Este texto focará especificamente na aplicação dessas competências no contexto organizacional e do trabalho. A globalização e as mudanças do século XX trouxeram a necessidade de redefinição do conceito, da estrutura e da dinâmica de trabalho nas organizações do mundo todo. Cada vez mais, o mercado de trabalho tem sofrido mudanças importantes, sendo caracterizado pela aceleração do fluxo de inovações e tecnologias, pelo volume intenso de informações que devem ser processadas, assim como pelo aumento da competitividade entre profissionais e empresas (Nakano, Oliveira, & Zaia, 2020; Ramos & Marques, 2014). Tais mudanças têm sido denominadas pela literatura especializada de “Quarta Revolução Industrial” (Balachova & Grammova, 2018; Fulga, Davidescu, & Effenberger, 2017) porque tais alterações no contexto de trabalho modificam os relacionamentos internos na empresa, fomentando práticas de desenvolvimento de novos conhecimentos aplicados à solução de problemas. Essas questões, por sua vez, promovem maior interação entre funcionários e propiciam uma maior flexibilidade deatuação. Dessa forma, o modelo “robótico” tem sido, gradualmente, substituído pela valorização de habilidades que permitam aos funcionários, o exercício de atividades estratégicas, as quais não podem ser exercidas de forma automática, ou seja, valendo-se somente dos recursos disponíveis no computador (Francisco, Cunha, Veiga, Ferreira, & Silva, 2019). Consequentemente, junto desse quadro, ocorreram mudanças nos tipos de trabalho, nas tecnologias e nos perfis de habilidades exigidos dos trabalhadores (Talavera & Pérez-González, 2007). Dentre elas, os autores destacam a importância dada a uma ampla gama de habilidades, especialmente aquelas que não são restritas ao conteúdo técnico e operacional de suas ocupações, mas que também estão relacionadas à maneira de se comportar diante de situações complexas que envolvem desafios. Mais do que dominar idiomas ou conhecer programas, tais habilidades têm adquirido importância igual ou maior do que a simples formação técnica e experiência no momento da inserção laboral e manutenção da empregabilidade. Isto porque uma pessoa que possua competências demandadas pelo mercado de trabalho provavelmente apresentará vantagem e flexibilidade para encontrar e manter-se em um emprego. A relevância da formação de competências tem sido enfatizada por diferentes instituições internacionais, como a Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OCDE), a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a própria União Europeia (Talavera & Pérez-González, 2007). Essas instituições destacam especialmente as chamadas “competências- chave”, ou seja, aquelas que servem para qualquer atividade profissional, dada a possibilidade de aplicação em diferentes contextos e situações (nos âmbitos educativos, laborais, pessoais e sociais), ressaltando ainda seus benefícios para o indivíduo e para a sociedade. Reforçam ainda que, hoje, a maioria das organizações depende do trabalho em equipe, da cooperação e coordenação de equipes, de modo que uma série de competências socioemocionais tornou-se essencial para a facilitação e otimização tanto do trabalho conjunto como da qualidade das relações que se estabelecem no contexto de trabalho. Consequentemente, empregadores têm reconhecido, cada vez mais, que as chamadas competências socioemocionais têm se mostrado um diferencial no trabalho. Conforme aponta López-Barajas e Reina-Estévez (2012, p. 94), a produtividade, na sociedade moderna, está intimamente relacionada a uma “força de trabalho que seja emocionalmente competente”. Tal constatação se mostra ainda mais relevante visto que uma série de pesquisas passou a demonstrar que os traços de personalidade poderiam resultar em diferenças de desempenho no trabalho (Heckman, Stixrud, & Urzua, 2006), de modo que a influência de alguns desses traços começaram a ser investigados neste contexto. Bowles e Gintis (1976) e Klein, Spady e Weiss (1991), por exemplo, verificaram que aspectos como confiança, perseverança, otimismo e autoestima se mostraram importantes preditores do desempenho no trabalho, de modo que, de forma oposta, traços relacionados à agressividade e passividade podem se relacionar a um desempenho negativo. Tais constatações levaram os pesquisadores a inferir que haveria outros elementos, além da competência cognitiva, responsáveis pelo sucesso no ambiente de trabalho, notadamente certos traços de personalidade (Nakano & Siebra, 2018). Desse modo, os resultados têm confirmado a importância e a relevância dessas características para o sucesso profissional dos indivíduos (Lindqvist & Vestman, 2011). Consequentemente, os empregadores têm apontado para uma necessidade crescente dessas qualidades, englobadas dentro do conceito de competências socioemocionais, as quais passaram a ser compreendidas como competências-chave, em seus funcionários. Competências socioemocionais: algumas compreensões Também conhecidas como competências para o século XXI, as competências socioemocionais vêm sendo, cada vez mais, destacadas por causa de sua influência positiva em indicadores de bem-estar, menor prevalência de sintomas depressivos, maior satisfação nos relacionamentos interpessoais e funcionamento da vida em geral (Durlak, Weissberg, Dymnicki, Taylor, & Schellinger, 2011; Lipnevich & Roberts, 2012; Santos & Primi, 2014). Assim sendo, o que se tem visto nas últimas décadas é a valorização dessas habilidades em diferentes áreas do conhecimento, com destaque para a economia, sociologia, psicologia e educação (Heckman et al., 2006), cujas pesquisas têm revelado que as competências socioemocionais assumem papel tão importante quanto as competências cognitivas para a obtenção de bons resultados em diferentes áreas do bem-estar individual e social, da aprendizagem e da formação de pessoas em sua integralidade (Santos & Primi, 2014). De modo geral, tal conceito vem sendo compreendido de forma bastante ampla e envolvendo aspectos de natureza social e emocional, sendo definido como um conjunto de traços, comportamentos e habilidades que incluem: 1. variáveis como atitude, valores, interesse e curiosidade, 2. variáveis de temperamento e personalidade como abertura a novas experiências, amabilidade, conscienciosidade, extroversão e estabilidade emocional, 3. variáveis sociais como liderança, sensibilidade social e habilidade de trabalhar com outros, 4. construtos voltados à autoeficácia, autoestima e identidade pessoal, 5. hábitos de trabalho, como esforço, disciplina, persistência e manejo de tempo, assim como 6. emoções direcionadas a tarefas específicas, notadamente entusiasmo e ansiedade (Abed, 2014; Lee & Shute, 2009). Um levantamento de algumas das competências socioemocionais apresentadas na literatura científica nacional e internacional, classificadas como competências sociais, emocionais e pessoais, é apresentado na Tabela 1. Tabela 1. Competências socioemocionais valorizadas no ambiente de trabalho Fonte: Nakano et al. (2020) e Talavera e Pérez-González (2007). Na literatura científica nacional e internaiconal, uma tendência que se faz notar, quando se abordam as diferentes características relacionadas às competências socioemocionais, é o agrupamento dessas características dentro do modelo dos cinco grandes fatores da personalidade, também chamado de big five (Santos, Silva, Spadari, & Nakano, 2018), de modo a reconhecer que tais competências apresentam estreita relação com traços de personalidade (Santos & Primi, 2014). Competências socioemocionais no contexto laboral De acordo com Talavera e Pérez-González (2007), as competências socioemocinais têm se mostrado críticas e essenciais para a maioria dos trabalhos, especialmente aqueles mais complexos e que envolvem tomada contínua de decisões. Segundo os autores, para se conseguir e manter boas relações sociais no trabalho e para alcançar bom desempenho profissional, competências do tipo social e emocional assumem papel importante para o trabalho em equipe, negociações, resolução de conflitos, planificação da própria carreira profissional, motivação no trabalho, motivação de outros e enfrentamento de situações críticas. Competências relacionadas à manutenção de relações sociais harmônicas, flexibilidade e capacidade de adaptação, controle emocional, busca pelo alcance de metas, tomada responsável de decisões são algumas das habilidades chamadas de competências socioemocionais, as quais têm feito diferença importante no mercado de trabalho em decorrência de sua influência, positiva, em aspectos relacionados, por exemplo, à preparação para lidar com situações adversas e conflitos que podem surgir em momentos de pressão ou estresse, bem como para atuar de modo a fortalecer o estabelecimento de metas, desafios e controle emocional (Fajrianthi & Zein, 2017). No contexto laboral, a combinação de capacidades, traços de personalidade e outras características pessoais tem se mostrado um importante elemento para o sucesso no trabalho, incluindo aquelas relacionadas ao desenvolvimento pessoal, saúde mental, desenvolvimentode carreira, qualidade de vida no trabalho, liderança eficaz, diminuição da agressividade e estresse no contexto organizacional, gerenciamento de grupos, resolução de conflitos, planejamento da própria carreira profissional, motivação para o trabalho, habilidades para lidar com situações críticas, cooperação, as quais podem facilitar e otimizar o trabalho e a qualidade dos relacionamentos estabelecidos nesse ambiente (Nikic, Travica, & Mitrovic, 2014). Consequentemente, nota-se a valorização de profissionais, cujas habilidades, conhecimentos e potenciais colaborem para a sustentabilidade da empresa perante os desafios do mercado atual. É importante destacar que tal valorização visa ao desenvolvimento de contextos saudáveis de trabalho, de modo que a sustentabilidade da empresa passa a envolver não somente aspectos de competitividade financeira mas, também, a qualidade da interação entre seus funcionários (Castro, 2011; Ramos, Theodoro, & Pinto, 2012; Nakano et al., 2020). Resultados de diversos estudos (Bar-On & Parker, 2000; Berson & Yammarino, 2006; Nikic et al., 2014) têm mostrado que competências relacionadas aos âmbitos social e emocional, como adaptabilidade, autogestão, motivação direcionada a objetivos, trabalho em equipe, liderança, iniciativa, habilidades de negociação, autoconfiança, persistência, identificação e controle emocional, empatia, habilidade para trabalho em equipe, dentre outras, têm sido relacionadas a um bom desempenho no trabalho, bem como importante recurso na prevenção de absentismo, infrações disciplinares, desemprego e baixo salário (Heckman & Rubinstein, 2001; MacCann, Duckworth, & Roberts, 2009). De acordo com Nikic et al. (2014), tal condição se mostra importante especialmente nas posições de liderança, nas quais quase 90% das competências necessárias para o sucesso são de natureza emocional e social, voltadas ao desenvolvimento de boas relações interpessoais e no esforço para tornar a organização um local agradável. Em conjunto com as competências cognitivas, as socioemocionais auxiliam o desenvolvimento e constituição de habilidades, valores, atitudes e emoções que configuram as competências profissionais (Aur, 2015). Outras aplicações das competências socioemocionais envolvem seu reconhecimento como papel central no desenvolvimento de competências profissionais, ao possibilitar um alinhamento entre os atributos pessoais no manejo de recursos pessoais e as necessidades do trabalho, da profissão e da organização, de maneira a ampliar, consequentemente, as possibilidades de inserção profissional (Gondim, Morais, & Brantes, 2014). Tais competências atuariam, segundo os autores, de modo a fortalecer a autoestima e a autoimagem, promovendo a criação de um clima favorável a novos aprendizados. Destacam ainda que, se bem desenvolvidas, tais competências podem minimizar os efeitos da insegurança que usualmente marca o início da carreira, atuando de modo a ajudar o jovem a adquirir mais autoconfiança e a criar ambientes de trabalho e de interação com colegas mais favoráveis à aprendizagem continuada e ao desenvolvimento das competências profissionais que assegurarão desempenho aprimorado, ao mesmo tempo em que promovem o bem-estar no trabalho (Gondim et al., 2014, p. 403). Benefícios complementares são apontados por Gomide e Alves (2017), ao argumentarem que o desenvolvimento de aspectos socioemocionais nas organizações pode ser uma estratégia para as empresas aprenderem a acolher os fracassos que podem ocorrer dentro do processo de gestão do conhecimento, assim como as dificuldades individuais e grupais relativas ao compartilhamento de suas experiências e conhecimentos, de modo a criar um ambiente favorável ao estabelecimento de relações mais empáticas e colaborativas dentre seus profissionais. Isto porque, segundo Babalola (2010), funcionários que percebem que a organização apoia suas necessidades socioemocionais, por meio de atitudes relacionadas a respeito, cuidado e aprovação, bem como aquelas que apresentam disposição para ajudar o crescimento dos funcionários e sua realização pessoal, comumente acabam manifestando comportamentos de retribuição ao cuidado recebido, expressos sob a forma de melhora no desempenho, menor absenteísmo, menor rotatividade, menos tensão e estresse. Em termos pessoais, Santos e Primi (2014) ressaltam que, no mercado de trabalho, as características socioemocionais, principalmente aquelas relacionadas à conscienciosidade (responsabilidade, disciplina e perseverança) são recompensadas sob a forma de maiores salários e menor período de desemprego. Assim, o que se pode perceber é que, atualmente, têm sido valorizados os profissionais que mostram-se capazes em integrar diferentes conjuntos de conhecimentos técnicos e interpessoais, modelando seus comportamentos em função das necessidades da equipe e da instituição com a qual colaboram, a fim de realizar suas atividades profissionais com qualidade e eficácia (Mikulic, Crespi, & Radusky, 2015). No entanto, é importante ressaltar que as competências socioemocionais devem ser compreendidas não só como resultado de habilidades individuais, mas, também, como produto das emoções experimentadas em um ambiente colaborativo. Nesse sentido, a presença de um clima socioemocional positivo, pode ser monitorada e avaliada individualmente pelos membros do grupo ou pela equipe enquanto conjunto, resultando na adoção de estratégias voltadas à criação ou manutenção de um clima de trabalho positivo (Bakhtiar, Webster, & Hadwin, 2018) com diferentes implicações na tentativa de evitar tensão diária, melhorando a autoeficácia, o bem-estar e performance dos funcionários (Tomprou, Xanthopoulou, & Vakola, 2020). Principais competências e seus resultados no contexto do trabalho Segundo Talavera e Pérez-González (2007), diversos estudos têm demonstrado as implicações das competências socioemocionais para a satisfação com a vida, a saúde mental, o desenvolvimento da carreira, o desempenho laboral, a liderança efetiva, o enfrentamento do estresse no trabalho, bem como a diminuição da agressividade nas organizações. Facilitam ainda a coordenação de grupos, o trabalho em equipe, as negociações, a resolução de conflitos, a motivação no trabalho e o enfrentamento de situações críticas. A fim de ilustrar o impacto das competências socioemocionais no contexto laboral, a seleção e a interpretação dos principais aspectos englobados nesse construto foi feita com base principalmente no modelo dos cinco grandes fatores da personalidade. Os resultados de pesquisas acerca do impacto individual de cada competência, no ambiente de trabalho, são apresentados, envolvendo aspectos relacionados tanto ao funcionário quanto à organização. Tabela 2. Impacto das competências socioemocionais no contexto laboral Fonte: Nikic, Travica e Mitrovic (2014) e Nakano e Siebra (2018). Apesar das vantagens apontadas, convém ressaltar que importante questão vem sendo discutida em relação às competências socioemocionais: o descompasso entre as competências frequentemente exigidas pelo mercado de trabalho e a formação que as instituições educacionais têm oferecido para atender tais demandas. Empresas do mundo todo reclamam que a educação formal ensina apenas as habilidades técnicas que os trabalhadores precisam, mas que habilidades para o sucesso no trabalho, como interagir com clientes, trabalhar em equipe, agir profissionalmente não são enfocadas (Groh, Krishnan, Mc-Kenzie, & Vishwanath, 2016). A responsabilidade recai sobre as instituições educacionais, que precisam entender a importância de treinar e estimular habilidades sociais nos alunos para preencher a lacuna entre o que é ensinado na escola e exigido no mercado de trabalho (Binsaeed, Unnisa, & Rizvi, 2016). Cunningham e Villaseñor (2016), por exemplo, apontam que as habilidades socioemocionais são a primeira prioridade de 76,5% dos estudos que classificam as preferências de habilidades do empregador. Assim, enquanto empregadores têm exigido, cada vez mais, esse tipo de habilidades,tanto no momento de seleção, quanto no treinamento e entrada no mercado de trabalho, nota-se importante lacuna durante o processo de formação e estimulação de tais competências durante a escolarização, de modo que, como consequência, a empregabilidade tem sido afetada (Talavera & Pérez-González, 2007). Ainda de acordo com os autores, se considerarmos que tais habilidades podem e devem ser desenvolvidas ao longo da vida, desde a infância, seu treinamento deveria começar bem cedo nas escolas em todos os níveis. Desse modo, encontrar profissionais que possuam tais competências tem se mostrado uma tarefa desafiadora. Neste sentido, apontamentos sobre os programas voltados ao desenvolvimento de tais habilidades são apresentados a seguir. Programas de treinamento Apesar das múltiplas definições que podem ser encontradas na literatura científica, o conceito de competência envolve, na maior parte delas, a ideia de que toda competência pode ser aprendida ou é suscetível de aprendizagem e desenvolvimento (Talavera & Pérez-González, 2007), envolvendo conhecimentos, atitudes e traços de personalidade, adequados a um contexto ou situação. Entretanto, os autores destacam que a aquisição, o desenvolvimento ou a expressão dessas competências dependem tanto das características pessoais como das características do contexto, bem como da interação entre os âmbitos pessoais e situacionais. Compreendidas como habilidades que merecem reconhecimento em razão de sua importância e aplicabilidade em diversas áreas (educacional, ocupacional, social e pessoal), as competências socioemocionais têm se mostrado essenciais e passíveis de serem facilitadas por meio de programas voltados ao seu desenvolvimento (Nikic et al., 2014). Segundo Talavera e Péres-González (2007), os Estados Unidos gastam em torno de 50 bilhões de dólares por ano em formação profissional, sendo as competências socioemocionais foco de grande parte dos investimentos. De maneira semelhante, é possível observar empenho de países europeus no preparo socioemocional de seus jovens e trabalhadores, independentemente da área de atuação profissional (Garcia, 2003). Todo esse investimento se justifica quando tomamos os prejuízos associados aos comportamentos decorrentes da falta dessas competências no contexto do trabalho. Como apontam Gomide e Alves (2017), o funcionário com baixas competências socioemocionais pode apresentar baixo repertório de enfrentamento de situações desafiadoras, tendo condutas como baixa tolerância a frustrações, reações defensivas a situações de cobrança, buscando eximir-se das responsabilidades, das relações de desconfiança entre pares e da baixa motivação para compartilhar conhecimentos, dentre outros. Esses comportamentos trazem dificuldades para o processo produtivo e relacional no contexto do trabalho, causando prejuízos sociais, financeiros e de saúde mental para os indivíduos (Francisco et al., 2019). Nesse sentido, Repetto (2009) ressalta que a ampliação das competências socioemocionais visa à inserção, com êxito, do jovem no âmbito profissional, a partir do conhecimento do nível em que cada competência se encontra desenvolvida e, posteriormente, da busca por meios para potencializá-la. No entanto, Castejón, Cantero e Pérez (2008) chamam atenção para a necessidade de que o efeito de cada competência socioemocional seja investigada em relação a domínios profissionais distintos, de modo a estabelecer um perfil de competências para cada campo científico-profissional. Talavera, Garrido e Santiago (2007) sugerem que inicialmente sejam identificadas as competências socioemocionais demandadas pelo mercado de trabalho, assim como avaliadas as necessidades de formação dos estudantes e titulados no ensino médio e superior. Somente assim a formação conseguirá dar conta das demandas do mercado de trabalho, o qual requer um alto nível de competências socioemocionais (Llorent, Zych, & Varo-Millán, 2020). Tais competências atuariam, segundo os autores, como um vínculo preditor entre as necessidades das organizações, o rendimento e o êxito profissional. Entretanto, em meio a um mercado competitivo, cabe ponderar que, embora seja fundamental que o empregador favoreça o treinamento e o desenvolvimento das competências necessárias, ainda há muito a avançar nessa questão (Nakano et al., 2020). Como destaca Argyris (2008) há ainda gestores que, ao perceberem que seus funcionários não se mostram capazes na tarefa de trabalharem em prol dos objetivos e metas das organizações, dificultando os processos relacionais e produtivos, veem-se sem alternativa a não ser proceder com o desligamento do funcionário. Essa questão parece estar associada à afirmação de Gomide e Alves (2017), na qual destacam a desinformação dos profissionais sobre os programas de desenvolvimento das habilidades socioemocionais no contexto organizacional. De acordo com os autores, uma revisão da literatura apontou que nenhum estudo relacionado às questões socioemocionais dentro da gestão de conhecimento sugere ferramentas, métodos, treinamentos, programas ou estudos de caso fundamentados em métodos científicos, de modo que estudos com tais objetivos devem ser incentivados a fim de sanar tal lacuna. Para isso, Tavalera e Pérez-González (2007) destacam três características que tais programas devem ter: (1) integrar as experiências planejadas com as habilidades a serem desenvolvidas; (2) promover reflexão ou experiência; (3) facilitar a integração da experiência por meio de autoavaliação, a análise de consequências e promoção de transferência do aprendizado para outra situação. Tais programas usualmente baseiam-se no uso de metodologias ativas e participativas, tendo como base principal a utilização de experiências em um ambiente de trabalho real, prático e aplicado no local, consistindo em uma oportunidade de desenvolver habilidades por meio de experimentação, experiência, aplicação, testagem de comportamentos voltados à orientação para integração profissional e desenvolvimento de competências pessoais e profissionais (Tavalera & Pérez-González, 2007). Outro elemento a ser observado nos programas de treinamento, além do embasamento teórico e técnicas de capacitação, é o papel de um mentor ou facilitador. No caso educacional, o professor (no caso da educação formal) ou educador social (no caso da educação não formal) pode assumir o papel de agente de transformação dos educandos. Nas organizações, contudo, não há a presença desse profissional, de modo que a mediação, quando ocorre, pode ser realizada por meio do psicólogo do trabalho. Calheiros e Rodrigues (2010) afirmam que é função do psicólogo do trabalho (muito mais que exercer funções de recrutamento e seleção de pessoal), atuar em outras atividades que estimulem a integração do indivíduo na empresa, por exemplo, buscar alternativas para a redução do absenteísmo, situação que tem se mostrado influenciada pelas competências socioemocionais. No entanto, na prática, nem sempre é essa abertura que é encontrada nas empresas. Muitas vezes a organização espera que o profissional contratado já venha imbuído dessas características, não reconhecendo seu papel como formador de tais habilidades, usualmente devido ao desconhecimento da possibilidade de que elas possam ser desenvolvidas por meio de programas. As competências para o trabalho são definidas pelo desempenho ou comportamento do indivíduo no trabalho (Gilbert, 1978), por conhecimentos técnicos, habilidades e atitudes do trabalhador (Durand, 2000). Tais concepções são integradas na percepção de que se tratam de atributos pessoais associados ao trabalho realizado e ao ambiente em que esse ocorre (Gonczi, 1999). Observa-se, portanto, que não basta ao colaborador possuir competências socioemocionais, mas também saber onde elas podem ser empregadas e de qual forma. Gondim et al. (2014) corroboram a diferença entre as competências socioemocionais e as competências para o trabalho: as primeiras dão o suporte para as segundas e, ademais, também podem ser preditoras do desempenhono trabalho. Segundo as autoras, as competências para o trabalho pressupõem outros elementos sequenciais na formação do trabalhador: o desempenho, experiências laborais e emoções desencadeadas por estas. Cunha e Heckman (2008) e Cunha, Heckman e Schennach (2012) afirmam que quanto maior o desenvolvimento de competências socioemocionais na infância, maior o impacto no desenvolvimento de competências cognitivas no futuro. Dessa forma, elas são pilares para a aquisição de outros tipos de competências, como as cognitivas e as necessárias para o trabalho, mostrando seus reflexos na comunicação, na saúde ocupacional, na motivação e na qualidade de vida no trabalho (Calheiros & Rodrigues, 2010). Considerações finais Diante do reconhecimento do impacto das competências socioemocionais em indicadores acadêmicos, profissionais e pessoais, bem como a constatação de que o movimento da psicologia positiva vem se fortalecendo dentro dessa ciência (pautada na valorização de características relacionadas a aspectos positivos do indivíduo, dentro de uma proposta de desenvolvimento saudável e completo, nos níveis pessoal, social e profissional), pode-se pensar na visualização das competências socioemocionais como base para a promoção desse desenvolvimento. Especificamente no contexto laboral, as organizações devem estar atentas em observar o repertório das competências socioemocionais já apresentadas por seus funcionários (tanto no momento da contratação quanto no desenvolvimento da trajetória profissional dentro da empresa), para atuar de modo a propiciar o desenvolvimento daquelas que ainda não se mostram bem desenvolvidas. Tal postura pode facilitar a integração do trabalhador na cultura organizacional, ampliando, por um lado, sua empregabilidade e, por outro, os resultados positivos que vêm sendo associados às competências socioemocionais aplicadas ao ambiente de trabalho, aprofundadas ao longo do texto. Nesse sentido, o redirecionamento do foco dos treinamentos voltados ao desenvolvimento dos funcionários, para as competências socioemocionais deve ser estimulado, dado seu impacto alto e duradouro na melhoria do desempenho dos funcionários (Ibrahim, Boerhannoeddin, & Bakare, 2017). Ao elaborar programas de capacitação em competências socioemocionais voltadas para o trabalho, as empresas devem levar em consideração não somente os requisitos do indivíduo, mas também elementos ambientais e culturais, como a escolha de um profissional adequado para o treinamento, a observância da cultura organizacional da empresa, bem como outros elementos que beneficiem a saudável convivência entre as expectativas do trabalhador e as metas e valores da empresa. Ao trabalhador, cabe avaliar se suas competências são adequadas ao contexto organizacional ao qual pretende adentrar, sob pena de não encontrar no trabalho um significado útil para o projeto de vida que previamente estabeleceu. Disso pode advir um sofrimento mental de estar em um local que não agrega suas competências e capacidades com a finalidade laboral a atingir. Nesse aspecto, os programas de capacitação podem redirecionar as competências do trabalhador para outras áreas, as quais podem melhor aproveitar seu potencial (como aqueles programas que contemplam atividades de projeto de vida ou de carreira), ou até mesmo mitigar alguns efeitos decorrentes da expectativa do trabalhador em relação ao seu futuro profissional (por meio do desenvolvimento de outras competências ainda não afloradas). Benefícios provenientes da aplicação e valorização das competências socioemocionais no contexto laboral certamente trarão melhores resultados tanto para o empregado quanto para a empresa. Referências Abed, A. L. Z. (2014). O desenvolvimento das habilidades socioemocionais como caminho para a aprendizagem e o sucesso escolar de alunos da educação básica. Recuperado em 15 fevereiro, 2015, de http:// educacaosec21.org.br/wp-content/uploads/2013/08/habilidades- socioemocionais_CNE.pdf Argyris, C. (2008). Teaching smart people how to learn. 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Contribuições do desenho do trabalho para o desenvolvimento de carreira nas organizações Emília dos Santos Magnan Manoela Ziebell de Oliveira Desde as proposições iniciais de novos contratos e das expressões contemporâneas do trabalho, o arranjo de competências, entendidas como necessárias para enfrentar os desafios de um mercado global e competitivo, mudou. Assim também a forma de organizar a dinâmica da produção e os ajustes do trabalho se transformaram (Baruch, Szűcs, & Gunz, 2015). As empresas passaram a perceber maior necessidade de atrair as pessoas que conseguem se adaptar com mais facilidade a um cenário de incertezas e a responder adequadamente à competitividade do mercado. Além disso, têm demonstrado crescente preocupação em como oferecer um ambiente que influencie de maneira positiva o trabalhador, seja capaz de retê-lo e promova ganhos tanto em nível individual como organizacional (De Oliveira, De Andrade, Beria, & Gomes, 2019). Com a finalidade de ampliar a reflexão sobre como as organizações podem contribuir para as carreiras individuais, neste capítulo, discutiremos a teoria do desenho do do trabalho e apresentaremos um exercício reflexivo sobre como aplicá-la à promoção do desenvolvimento de carreira no contexto de trabalho contemporâneo. Para tanto, faremos uma revisão teórica breve que visa situar o leitor em relação à construção histórica e aos principais marcos do desenho do trabalho. Depois serão apresentados os principais desafios do mundo de trabalho contemporâneo e então discutiremos o tema das carreiras nas organizações. A partir disso, será proposto um exercício reflexivo sobre como seria possível uma articulação entre o desenvolvimento de carreira e o desenho do trabalho, expressa no formato de intervenção destinada às organizações. Para começar: o que é desenho do trabalho? De forma simples, o desenho do trabalho pode ser entendido como aquilo que permite às organizações projetar os diferentes cargos que são necessários ao negócio e assegurar que as pessoas que ocupam esses cargos tenham condições de desempenhar as atividades descritas. As teorias de desenho do trabalho vêm sendo desenvolvidas, portanto, para ajudar as organizações a entenderem e explicarem as dinâmicas que envolvem o exercício das atividades laborais e os diferentes aspectos a elas relacionados. Dada à relevância do tema para a academia e para a prática profissional, a produção teórica sobre desenho do trabalho é antiga, tendo surgido com as primeiras indústrias. Embora tenham sido propostas a partir de uma perspectiva econômica de produção, as teorias desenvolvidas nesse campo hoje lançam luz à compreensão da especialização e da divisão das funções, e sua relação com a produtividade e satisfação das pessoas (Grant & Parker, 2009). Mais especificamente, a evolução conceitual acompanhou os desafios do mercado, incluindo elementos novos à medida que a lógica por trás da produção foi se tornando mais complexa. A Tabela 1 apresenta um resumo das principais perspectivas teóricas, desenvolvidas ao longo dos anos, para ajudar a compreender as teorias do desenho do trabalho. Tabela 1. Evolução dos modelos do desenho do trabalho ao longo das décadas Fonte: Elaborada pelas autoras a partir da revisão feita por Morgeson, Garza e Campion (2012). Ao longo de quase 300 anos em que foram feitas proposições sobre como compreender o desenho do trabalho, identificaram-se diferentes elementos que influenciam a relação do trabalhador com o seu contexto. Pode-se observar que a compreensão dos desfechos do trabalho não pode ser dada sem que se admita a existência de um contexto social mais amplo. Se no início era possível focar na busca pela eficiência e produtividade com base na simplificação do trabalho, o adoecimento do trabalhador levou ao questionamento desse modelo e à proposta de uma nova forma de análise, que incluía aspectos motivacionais da produção. Da mesma forma, mais recentemente, com a inserção da tecnologia, que massivamente transforma o mercado de trabalho, novos elementos vêm sendo considerados na interpretação do contexto de trabalho (Morgeson et al., 2012). Tendo em vista as mudanças observadas desde as proposições iniciais para o estudo do design do trabalho, compreende-se facilmente que as pesquisas e os modelos explicativos sejam inúmeros. E o interesse por compreender o desenho do trabalho justifica-se pela capacidade que tem de apresentar de forma sistemática uma compreensão ampla e inclusiva do contexto organizacional (Cunha de Jesus, Bastos, & Aguiar, 2019). É a partir dessa compreensão que propostas podem ser feitas visando fomentar desfechos em atitudes, comportamentos, estados mentais e emocionais nos trabalhadores. Sobre os principais desafios do mundo de trabalho contemporâneo e as carreiras nas organizações Além da importância de compreender o contexto, torna-se imprescindível analisar outras influências vigentes no ambiente organizacional contemporâneo. Para tanto, a perspectiva das carreiras será abordada. Partiremos do princípio de que a carreira pode ser entendida como um roteiro individual (life design), ou como a trajetória de vida de um indivíduo, que progressivamente projeta e constrói a própria vida, incluindo, mas não se restringindo aos seus percursos profissionais (Duarte et al., 2010). Considerando essa definição, defendemos que a carreira, entendida como trabalho, tem impacto tanto na percepção da pessoa sobre o seu emprego quanto nos comportamentos e experiências vivenciados no ambiente organizacional (Hall & Las Heras, 2010). Propomos então que analisar as macrotendências de carreira permitirá compreender atitudes e comportamentos dos profissionais e, com isso, sua interação com o contexto de trabalho. A seguir, apresentaremos brevemente quatro exemplos de macrotendências para a gestão de pessoas nas organizações, que foram apontadas por pesquisadores (Baruch, 2006; Baruch et al., 2015; Duarte et al., 2010) e figuraram em diferentes relatórios anuais da consultoria Deloitte13, elaborados a partir de pesquisas sobre tendências globais para o capital humano. 1. Mudança de perspectiva de trajetórias lineares às multidirecionais: muito se discute sobre a horizontalização das carreiras nas organizações. Ao contrário das carreiras conhecidas até a década de 1990, em que uma pessoa entrava em uma empresa para ascender na ladeira organizacional, atualmente os movimentos mais comuns são entre atividades, setores da mesma empresa ou até entre empresas diferentes, os ditos movimentos multidirecionais (Peiperl & Baruch, 1997). Mas para além da ideia de quebra na ascensão vertical, o que se observa é que as pessoas estão se engajando em padrões de carreira mais descontínuos, marcados por desacelerações e transformações de suas trajetórias (Baruch et al., 2015). A ideia de escolha vocacional como “uma única escolha para o resto da vida” perde força e dá espaço para “a melhor escolha que pode ser feita neste momento”, permitindo considerar e assimilar diferentes experiências de vida no dia a dia (Duarte et. al, 2010). 2. Mudança do contrato relacional para o contrato transacional: a expectativa de relação entre as pessoas e as empresas era, antes da década de 1980, pautada em uma lógica de lealdade e segurança. Com a globalização e o aumento da concorrência, as empresas passaram a lançar mão de estratégias da reengenharia que levaram a enxugar e horizontalizar suas estruturas. O emprego vitalício deixou de ser a norma nesse cenário de maiores incertezas. As pessoas passaram a ter que desenvolver sua empregabilidade, ou seja, competências para serematrativas e, portanto, absorvidas pelo mercado de trabalho (Baruch, 2006). Nesse sentido, uma nova relação com o empregador se estabeleceu, pautada em uma lógica de troca de ganha–ganha. Enquanto a empresa ajuda a desenvolver a empregabilidade do seu colaborador ele, por sua vez, se dedica a entregar valor por meio de seu trabalho. Essa transação é mais frágil e volátil que o antigo contrato estabelecido (Peiperl & Baruch, 1997) e se observa em diferentes contextos culturais, inclusive no Brasil (Oliveira & Gomes, 2014). 3. Transição da massificação à personalização: com o advento dos mercados globais, as carreiras também se tornaram menos limitadas às fronteiras organizacionais e geográficas. As opções e escolhas – intencionais ou forçadas pelo contexto econômico – passaram a ser mais amplas e diversificadas, assim como as noções rígidas e específicas de sucesso (Audibert, Amorim, Oliveira, & Teixeira, 2019). Esse cenário modificou as demandas e as expectativas em relação ao papel do trabalhador na empresa e em relação ao protagonismo perante sua carreira (Baruch, 2006; Baruch et al., 2015). Na contemporaneidade, coexistem identidades e realidades subjetivas múltiplas que, ao contrário de padrões normativos específicos vistos até poucas décadas atrás, ditam uma nova configuração social (Duarte et.al, 2010). 4. Do sucesso objetivo ao sucesso subjetivo: as mudanças na configuração das carreiras nas organizações, com consequente responsabilização das pessoas pela gestão da sua trajetória profissional, desencadearam uma série de consequências que marcam a sociedade na atualidade (Duarte et al., 2010). A falta de espaço para crescer na hierarquia organizacional, por exemplo, forçou os trabalhadores a buscarem formas pessoais de estabelecer e perseguir suas metas. As recompensas e ganhos, que eram objetivos, passaram a ser subjetivos, alinhados aos valores, crenças e aspirações de cada um. Esses norteadores particulares de sucesso levam as pessoas a se comprometerem menos com a organização e terem maior mobilidade para persegui-los em lugares diversos (Baruch & Bozionelos, 2011; Oliveira & Gomes, 2014). É importante destacar que as mudanças das carreiras e do contexto de trabalho aconteceram e seguem acontecendo de maneira gradual, e que a realidade hoje é marcada pela coexistência de configurações tradicionais e contemporâneas de desenho do trabalho e de construção de carreira. Observa-se que, embora exista um número crescente de trabalhos fora do contexto organizacional (contratos de prestação de serviços, terceirização, empreendedorismo, entre outros), configurando o que é conhecido como carreiras pós-corporativas, grandes empresas ainda oferecem modelos de gestão de carreira tradicionais (Baruch, 2006). Ao tentar descrever a configuração das carreiras na época e as tendências para o futuro, Peiperl e Baruch (1997) indicaram que era preciso levar em conta duas dimensões: uma individual/organizacional e outra vertical/horizontal. O modelo proposto pelos autores é reproduzido na Figura 1. Ao compor a configuração das carreiras, considerando essas duas dimensões, eles sugeriram que, até aquele momento, eram consolidados três modelos de carreira e uma proposta para o futuro. Figura 1. Dimensões subjacentes à evolução das carreiras. Fonte: Elaborada com base em Peiperl e Baruch (1997). Ao apresentar tal proposta de interpretação das carreiras, Peiperl e Baruch (1997) tinham clareza de que, partindo do já estabelecido modelo zero, era possível ver o modelo um e dois se constituindo. Já em relação ao modelo três, propunham que poderia ilustrar o futuro das carreiras. Mais de 20 anos depois da apresentação dessa proposta, é possível observar que a rotatividade de profissionais no mercado e a ideia de pessoas trabalhando por projetos indicam a concretização dessa possibilidade. O que talvez os autores não previram era como as empresas iriam ajustar o Desenho do Trabalho para adaptar-se a esse contexto e acomodar as expectativas dos profissionais contemporâneos. Para interpretar tais ajustes, tomaremos como base as duas perspectivas que estão sendo discutidas neste capítulo. A das práticas de Desenho do Trabalho (Morgeson & Humphrey, 2006) e a do life design (Savickas et al., 2009). As práticas voltadas à gestão do contexto de trabalho são direcionadas tanto por configurações tradicionais como por aquelas contemporâneas. Assim, também o comportamento de carreira pode apresentar maior ênfase na busca pela estabilidade (carreira tradicional, com critérios objetivos de sucesso), ou pela promoção de empregabilidade (desenvolvimento de competências relevantes para maior adaptação às incertezas do mercado de trabalho). A exemplo da proposta de Baruch e Peiperl (1997), a Figura 2 apresenta a base dessas novas dimensões. Figura 2. Dimensões subjacentes à evolução das carreiras versus design do trabalho Fonte: Elaborada pelas autoras. É importante notar que as carreiras corporativas tradicionais ainda são percebidas como a primeira escolha por um grupo pequeno de trabalhadores centrais nas grandes corporações. A esse respeito, destacamos que, embora cargos executivos sigam existindo em praticamente todas as empresas que operam no mercado, seu número é significativamente menor do que o de cargos operacionais. Ainda assim, a simples existência dessas posições e de uma hierarquia que indica claramente como progredir de uma a outra, indica, talvez para a minoria dos trabalhadores, que as carreiras tradicionais ainda existem. Em contrapartida, um número cada vez maior de trabalhadores, que recebem a alcunha de força de trabalho alternativa, assume oportunidades de trabalho diferentes às contratações tradicionais. O relatório de 2019 da Deloitte apontou que, apesar de ainda se usar o termo “alternativo” para caracterizar esse tipo de contratação, os formatos de emprego sem vínculo formal estão se tornando a norma. O relatório também informa que, além do formato de prestação de serviço independente, também fazem parte desse grupo de trabalhadores aqueles que prestam serviço às plataformas on-line, trabalhadores por contratos temporários, trabalhadores de plantão, trabalhadores temporários e, ainda, a multidão de trabalhadores (crowdworkers), que pode ajudar em uma demanda específica de alguma empresa, por meio de ferramentas de crowdsourcing14 (Volini et al., 2019). Observa-se ainda o surgimento de empresas nascidas já com uma estrutura digital. Elas precisam ser pensadas para operar com velocidade, agilidade e adaptabilidade a fim de competir no cenário global. Elas geralmente funcionam em uma lógica de times de alta performance, com o mínimo de hierarquia e muito próximas do cliente final, para colher feedback e rever práticas com ciclos muito curtos de ajustes (Agarwal, Bersin, Lahiri, Schwartz, & Volini, 2018). Por fim, as empresas que ainda não viraram digitais, mas já permitem maior abertura para que os colaboradores tenham autonomia, são chamadas empresas “mãe”. Essas adotaram, a partir das diretrizes do toyotismo: reestruturações e reengenharias nas políticas de gestão; diversificação dos vínculos trabalhistas; culto a excelência; ideologia da competência e do trabalhador responsável por sua carreira; e, por fim, programas de valorização dos funcionários, colocados como principal ativo da empresa, que prima por um clima de trabalho positivo (De Barros Junior & Ribeiro, 2013). Articulação possível entre design do trabalho e life design A diversidade do mercado de trabalho apresentada até aqui, bem como a forma como os trabalhadores têm reagido neste contexto de mudança e imprevisibilidade, impactam significativamente na relação das pessoas com as organizações. Com menos postos de trabalho, as empresas querem reter os melhores talentos. Com direcionadores subjetivos mais evidentes, as pessoas tendem a se vincular menos às organizações. Nessa dinâmica, para reter os talentos que se destacam, as empresas voltaram a analisar as configurações do trabalho e do emprego, buscando promover um ambienteresponsivo às expectativas de seus talentos. A fim de assegurar maior assertividade nesse processo, Morgeson e Humphrey (2006) propuseram um modelo compreensivo para avaliar as características do trabalho. Levando em conta as vantagens e desvantagens das medidas e modelos apresentados até então, os autores desenvolveram e validaram uma medida para avaliar o desenho do trabalho, que foi traduzida e validada para o Brasil, onde apresentou uma estrutura composta de quatro categorias, divididas em 18 subcategorias (Borges-Andrade, Peixoto, Queiroga, & Pérez-Nebra, 2019), que serão apresentadas a seguir: 1. Características da tarefa: relacionam-se com a forma como o trabalho é realizado e com a variedade e a natureza das tarefas a ele associadas (Morgeson & Humphrey, 2006). Os fatores que contribuem para a compreensão das características da tarefa são: autonomia na planificação do trabalho, autonomia de decisão e realização, variedade de tarefas, significado da tarefa, identificação da tarefa e feedback do trabalho (Borges-Andrade et al., 2019) 2. Características do conhecimento: refletem demandas relacionadas ao processamento de informação, habilidades e competências cognitivas que são impostas a um indivíduo no exercício do seu trabalho (Morgeson & Humphrey, 2006). Fazem parte dessa dimensão a complexidade do trabalho, processamento de informação, variedade de habilidades e solução de problemas e especialização (Borges-Andrade et al., 2019). 3. Características sociais: refletem o fato de o trabalho ser realizado em um ambiente social mais amplo e dizem respeito aos aspectos interpessoais do trabalho (Morgeson & Humphrey, 2006). Os fatores dessa dimensão são suporte social, interdependência iniciada e recebida, interação fora da organização e feedback dos outros. 4. Características do contexto: refletem o contexto em que o trabalho é realizado, incluindo aspectos físicos e ambientais (Morgeson & Humphrey, 2006). Fazem parte dessa categoria conforto e comodidade no trabalho, demandas físicas, condições de trabalho e uso de equipamentos (Borges-Andrade, 2019). Considerando a complexidade do fenômeno, é possível compreender que qualquer intervenção que vise a alterar o design do trabalho precisa levar em conta o contexto e os desfechos que se deseja promover para a organização e para as pessoas. Com a pluralidade de formatos de trabalho, a diversidade dos mercados e os comportamentos e atitudes das pessoas, é impossível propor um conjunto de práticas que sirva para todos os contextos igualmente. As empresas que se enquadram nas regras da era digital devem focar novas estratégias para gestão de carreiras, mobilidade dos talentos, ecossistemas e redes empoderadas de pessoas ativas na construção de uma realidade responsiva às exigências desse mercado. Mais que planejar melhores planos de carreira, as empresas precisam olhar para toda a experiência que é gerada com o intuito de facilitar o ajuste ao ritmo de mudança implicado nesse contexto (Bersin, Geller, Wakefield, & Walsh, 2016). Aproximando-se tais orientações sobre a estrutura do design do trabalho, é possível traduzi-las em diretrizes que viabilizem maior autonomia para as pessoas, maior responsabilização sobre a tomada de decisão e descentralização da informação, bem como maior incentivo para fortalecimento das redes sociais. Porém, cabe pontuar que, quando tomamos como exemplo o setor de serviços, especificamente os pequenos comércios locais, medidas como as citadas não são necessariamente as mais assertivas. Mais especificamente, é possível que esse tipo de negócio não precise passar por transformações radicais na sua forma de operar o trabalho. As influências, nesse caso, são muito mais relacionadas à necessidade de garantir um bom atendimento ao cliente, bem como gerir a cadeia de fornecedores de modo a ter produtos diferenciados para competir com as grandes redes. Assim, a proposta de intervenção em desenho do trabalho nesse contexto deve ser completamente diferente daquela do exemplo anterior. Dado que realidades múltiplas coexistem e que as mudanças são mais frequentes, as intervenções em desenho do trabalho precisam estar em constante ajuste. Um pressuposto importante para se ter em mente ao propor intervenções nessas dimensões é o foco contínuo na construção e reconstrução da realidade que se deseja. Um ciclo de intervenção deve priorizar analisar, propor, desconstruir, reconstruir e assim sucessivamente, ampliando a capacidade da organização de reagir aos desafios que se apresentam. As dimensões propostas nos estudos sobre desenho do trabalho oferecem referências sobre como analisar e sistematizar as intervenções. São mais úteis, portanto, como suporte para o processo de diagnóstico do contexto de trabalho, do que para orientar a intervenção propriamente dita. Ao tomá-las como base, será possível identificar qual o padrão de direcionamento das atividades, das exigências de conhecimento, das relações interpessoais e da interação com a estrutura física do trabalho, além de identificar os resultados que se espera promover na organização e ajustes que poderão ser feitos. Todavia, tendo em vista que o desenho do trabalho serve não apenas para auxiliar na organização da estrutura organizacional, mas também para determinar, em alguma medida, como as carreiras serão conduzidas dentro das organizações, buscamos, na literatura sobre desenvolvimento de carreira (Savickas et al., 2009), inspiração para propor sete etapas para a elaboração de uma intervenção que visa à adequada gestão do desenho do trabalho. A proposta original, de Savickas et al. (2009), é constituída de seis passos e envolve a presença de um cliente, que está em transição de carreira, e seu conselheiro. No primeiro passo, o cliente e o conselheiro precisam definir o problema e identificar o que o cliente espera alcançar. É papel do conselheiro incentivar o cliente a descrever os problemas a serem abordados e provocar reflexões sobre os temas e significados das histórias descritas, a fim de ajudá-lo a conhecer os principais domínios de sua vida. No segundo passo, cliente e conselheiro investigam como o cliente se vê hoje e como se organiza e funciona nos papéis e domínios que ocupa. O conselheiro deve ajudar o cliente a refletir e a narrar suas histórias, de forma a articular experiências e expectativas, ações e interações, relacionamentos com os outros e antecipações futuras. Na terceira etapa, o cliente deve recontar suas histórias e o conselheiro deve auxiliá-lo a estudar essas histórias a distância, oportunizando analisá-las sob novas perspectivas a fim de que possam ser reorganizadas, revisadas e revitalizadas. Na quarta etapa, o problema identificado na primeira etapa é colocado na nova perspectiva, permitindo que o cliente cristalize novas antecipações e articule um eu possível que antes da intervenção era apenas vagamente percebido. Essa etapa é concluída quando o cliente cria uma síntese da antiga e da nova história, selecionando e comprometendo-se provisoriamente a algum papel e identidade. Então, na quinta etapa, o cliente precisa se envolver em algumas atividades relacionadas ao possível eu que está narrando agora. Para que isso seja possível, é necessário que elabore um plano de atividades que descreva como se envolver em algumas novas experiências, como lidar com as barreiras atuais ou potenciais. O conselheiro deve verificar com o cliente se esse plano de ação aborda diretamente o problema que foi definido como foco da intervenção. Por fim, a sexta etapa consiste em acompanhamento, tanto a curto como a longo prazo (Savickas et al., 2009). Proposta de intervenção em desenho do trabalho para organizações Fazendo analogia ao modelo descrito, elaboramos um exercício reflexivo sobre como poderia ser conduzida uma intervenção em desenho do trabalho. A nossa proposta é que ela possa ser realizada em sete etapas e que envolva, na medida do possível, a escuta direta ou indireta dos tomadores de decisão da empresa e dos trabalhadores (entrevistas de admissãoou desligamento, pesquisas de clima, entrevistas semiestruturadas, grupos focais e informações advindas de outras ferramentas organizacionais): (1) definir o problema e mapear os resultados esperados; (2) explorar o sistema atual; (3) estreitar o foco, definir as dimensões que precisam de ajuste; (4) ampliar a perspectiva: desenhar novos sistemas; (5) envolver a gestão; (6) comunicar e explorar novos comportamentos e sistemas; e (7) identificar avanços e impedimentos e reorganizar intervenção. Na primeira etapa, de definição do problema e mapeamento dos resultados esperados, deve-se definir o escopo do trabalho e identificar quais resultados a empresa busca alcançar, tanto em termos de negócio quanto de práticas de gestão de carreiras. A análise cuidadosa do contexto deve incluir aspectos internos e externos da organização, ou seja, suas reais necessidades em relação aos concorrentes, consumidores e colaboradores. Mais especificamente, envolve identificar qual a estrutura necessária para alcançar os objetivos propostos, considerando as posições que constituem o organograma da organização e descrever quais atividades deveriam ser desempenhadas pelos profissionais que ocupam cada função, de que forma e a partir de quais recursos individuais e organizacionais. Tendo um conjunto de informações mínimas sobre o que é planejado e esperado, é possível passar para a próxima etapa da intervenção. Na segunda etapa, de exploração do sistema atual, é preciso avaliar como o desenho do trabalho está sendo aplicado atualmente e se ele contribui ou não para o alcance dos resultados desejados. Mais especificamente, diz respeito a compreender se as atividades descritas estão sendo desempenhadas conforme o previsto ou quais os motivos para que que isso não esteja ocorrendo, além dos impactos dessa discrepância para os resultados do negócio. Envolve analisar como as tarefas são organizadas; o nível de autonomia a responsabilidade que as pessoas têm sobre o processo; identificar como as etapas da produção estão distribuídas e como cada pessoa na organização se conecta com o resultado final do trabalho; identificar a complexidade de conhecimento necessário ao desempenho das atividades; compreender como se dão as interações sociais, como os vínculos se estabelecem e como se dá o relacionamento na empresa e, por fim, identificar como está a estrutura física e como os aspectos objetivos do trabalho interagem com o trabalhador. Na terceira etapa, de estreitamento do foco e definição das dimensões que precisam de ajuste, o profissional que se propõe a trabalhar com design do trabalho deverá elencar quais dimensões, dentre as que foram analisadas na etapa anterior, devem ser foco de ação. Especificar os objetivos de mudanças que ajudarão a direcionar os recursos necessários e os pontos específicos, além de acelerar o processo de implantação de novos formatos de organização o trabalho. Na etapa seguinte, o objetivo é a ampliação de perspectiva, e novas formas de pensar o desenho do sistema podem ser propostas. Para que isso seja possível, é interessante realizar ações de benchmarking, por exemplo, e conhecer como outras organizações lidam com desafios semelhantes. É importante observar os ambientes de trabalho e ouvir dos trabalhadores que desempenham as atividades que serão alvo de mudança, de que outras formas elas poderiam ser realizadas e quais seriam os benefícios dessas mudanças também. Modelos teóricos também podem contribuir para a elaboração de proposições, assim como a partir desse conjunto de informações deve-se planejar quais comportamentos precisam ser estimulados e quais sistemas devem ser propostos para reforçar a execução dos novos comportamentos. A quinta etapa deve ser a de alinhamento com a gestão. Ela é extremamente importante, uma vez que os profissionais que ocupam essa posição são peças- chave da cultura organizacional e precisam atuar como agentes ativos na implantação de novos modelos de trabalho a fim de que sejam bem-sucedidos. Só depois que o plano de ação é alinhado com os tomadores de decisão é que a sexta etapa, de comunicação sobre as mudanças, deve ter início. É imprescindível que todos os integrantes da organização possam ter acesso às informações sobre como as mudanças serão implementadas e que, na medida do possível, as expectativas de resultados sejam compartilhadas. Além disso, é fundamental estimular e orientar de forma clara para a exploração e engajamento nos novos comportamentos propostos. Por fim, a sétima etapa requer que as mudanças propostas sejam implementadas, acompanhadas em um processo contínuo de revisão dos avanços e impedimentos. Nesse momento, o ciclo de análise e proposta é reiniciado e, assim, se identificam e aplicam os ajustes necessários para que os desenhos do trabalho sejam claros, capazes de atrair e reter os profissionais, assegurando o seu desenvolvimento e o alcance dos objetivos de negócio estabelecidos. Embora o modelo proposto por Savickas et al. (2009) tenha como foco a narrativa de carreira de um indivíduo, e o modelo que propusemos diga respeito a inúmeros trabalhadores de uma organização, as intervenções guardam semelhanças. Ambas propõem conectar o passado e o presente a fim de permitir elaborar um plano para que mudanças sejam possíveis no futuro; atribuem ao facilitador (o conselheiro, no caso da primeira, e o profissional de gestão de pessoas, no caso da segunda) o papel de questionar as estruturas estabelecidas e práticas reproduzidas e facilitar a retomada de perspectiva e emergência de novas práticas; requerem, para isso, que múltiplas vozes sejam ouvidas, a fim de que o projeto de ação seja compatível com a complexidade do objetivo a ser alcançado. Além disso, ao propor tal modelo de intervenção para condução do trabalho de orientação de carreira de profissionais, tinham- se como base as idiossincrasias das histórias individuais e a incapacidade de confiar em modelos previsíveis e estruturados de direcionamento de carreira. Situação semelhante é observada em relação às empresas, cada uma com suas particularidades, disputando espaço em um mercado global, passível portanto de estímulos que as obriguem a mudar e se adaptar para assegurar desenvolvimento com sustentabilidade. Por esses motivos, acreditamos e defendemos que o diálogo entre as áreas de design do trabalho e life design (Savickas et al., 2009) deva ser considerado pelas organizações ao pensar em como criar um ambiente de trabalho enriquecedor e capaz de promover desenvolvimento. Conclusões O objetivo deste capítulo foi ampliar a reflexão sobre como as organizações podem contribuir para o desenvolvimento das carreiras individuais, no contexto de trabalho contemporâneo, por meio do desenho do trabalho. Foi possível observar que, ao longo dos anos, e em decorrência das mudanças ocorridas no cenário do trabalho, as teorias e a aplicação do desenho do trabalho vêm se multiplicando e envolvendo, cada vez mais, a necessidade de contemplar a perspectiva dos trabalhadores e não apenas dos gestores das organizações. Isso porque a imprevisibilidade e a flexibilidade da economia influenciaram a forma como os contratos psicológicos dos trabalhadores com seus empregadores se estabelecem, resultando em maior mobilidade e maior independência das organizações nas construções das carreiras individuais. Como consequência, estudiosos do desenvolvimento de carreira entram em consenso com as pesquisas de mercado e indicam que é preciso que as organizações estejam mais atentas às demandas que movem os trabalhadores e também à sua condição de autores da própria história de vida e trabalho. A ordem do dia, quando pensamos na relação entre o design do trabalho e o life design, é transformar a experiência cotidiana dos trabalhadores a fim de tornar o trabalho significativo e dar às pessoas um sentimento de pertença, confiança e relacionamento. Para tanto, passa a ser necessário pensar na experiência do trabalho como algo que vai além de recompensas, premiações ou apoio, e focar no desenho dotrabalho como espaço para conectar o propósito individual de todos os trabalhadores com o ambiente organizacional. Referências Agarwal, D., Bersin, J., Lahiri, G., Schwartz, J., & Volini, E. (2018). The workforce ecosystem: Managing beyond the enterprise. Deloitte Insights. Recuperado de https://www2.deloitte.com/za/en/pages/human-capital/ articles/the-workforce-ecosystem.html Audibert, A., Amorim, M., Ziebell, M., & Teixeira, M. O. (2019). Significados de sucesso na carreira em estudantes e profissionais da psicologia no Brasil. In M. O. Teixeira, C. Sampaio, A. D. Silva, & M. 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Evidências empíricas têm sido cada vez mais robustas ao demonstrar os efeitos da autoliderança para mudanças positivas nos diferentes domínios da vida (Melo-Alvim & Mendonça, no prelo; Kotzé, 2018; Neck, Manz, & Houghton, 2019). Este capítulo discute a definição de autoliderança, bem como a base teórica que dá sustentação ao construto. Para tal, diferenças conceituais entre construtos afins são apresentadas, assim como modelos teóricos e instrumentos de medidas e, por fim, são discutidas as possíveis implicações práticas positivas com o desenvolvimento da autoliderança. O que é autoliderança? O conceito de autoliderança foi abordado pela primeira vez na literatura em um manual, publicado em 1980, que mostrava a importância de as pessoas serem gestoras de si mesmas, como estratégia importante para a eficácia na vida e no trabalho (Manz, 1983). Em estudos posteriores, Manz (1986) amplia o conceito, ao apresentar estratégias para gerenciar o desempenho de tarefas de baixo potencial motivacional intrínseco, que foca no seu valor motivacional “natural” e intrínseco (Manz, 1986). Essas estratégias estão ligadas ao planejamento, ao monitoramento da tarefa e a estratégias de organização. Tomadas em conjunto, trata-se de estratégias vinculadas à autorregulação. Essas ações podem ser desenvolvidas de modo a colaborar para que o indivíduo se habilite nas competências para se autoliderar. Tais competências estão associadas ao maior desempenho, assim como à satisfação e aos níveis de autoeficácia quando comparados com aqueles que não receberam treinamento específico em autoliderança (Neck & Manz, 1992). Nesse sentido, a autoliderança tem ligação estreita com a teoria da autorregulação, que, por sua vez, consiste na confiança da capacidade pessoal para organizar e executar certas ações produzindo motivação, processamento cognitivo e cursos de ação necessários para exercer controle sobre eventos em suas vidas (Bandura, 1977). Base teórica da autoliderança e relações com construtos afins O conceito de autoliderança se baseia na teoria social cognitiva – TSC (Bandura, 1977) que define o processo de aprendizagem por meio da contínua interação dos indivíduos, comportamento e ambiente. Bandura defende que os indivíduos aprendem quando são motivados pelo reconhecimento do seu sucesso como aprendizes e também quando observam as consequências do desempenho de outras pessoas. Assim as crenças dos indivíduos sobre sua própria capacidade (autoeficácia) são reforçadas, o que refletirá na forma como controlam seu próprio funcionamento, sua experiência e reações aos eventos da vida e sua autorregulação (Bandura, 1991; Deci & Ryan, 2000). A autoliderança consiste em um construto psicológico normativo que se destaca na na literatura como um método de autoconhecimento que pode maximizar os pontos pessoaispositivos, minimizando os negativos (Kazan & Comin, 2011; Manz, 1986). Refere-se também ao alcance da autoeficácia pessoal e profissional, o que pode colaborar para uma vida com propósitos e sentido (Manz & Neck, 2004; Manz & Sims, 1980). Embora seja um conceito que se baseia na teoria social cognitiva e possua similaridades com os principais construtos cunhados pela TSC, a autoliderança se difere da autorregulação, do autogerenciamento e da automotivação (Carver & Scheier, 1982; Stewart, Courtright, & Manz, 2011). A autorregulação é o processo consciente e voluntário, do qual o indivíduo faz a gestão dos seus próprios comportamentos, pensamentos e sentimentos de um modo cíclico e direcionado à realização de metas pessoais (Bandura, 1991). Seu ciclo possui como característica básica a estruturação de padrões externos (foco extrínseco) pelo indivíduo que se autorregula. Em contrapartida, a autoliderança estabelece padrões internos (foco intrínseco), nos quais o indivíduo percebe uma situação, automonitora suas atividades e cognições para alcançar o comportamento desejado e depois avalia como este influencia a situação. Os processos de autorregulação dependem de incentivos extrínsecos (por exemplo, remuneração e outras recompensas externas), enquanto a autoliderança é menos conduzida por forças externas, tendo como propulsão a motivação intrínseca (Manz, 1986). A autoliderança também se difere de autogerenciamento, por este se referir ao desenvolvimento profissional, no qual um indivíduo assume a responsabilidade pelos aspectos gerenciais de suas atribuições (planejamento, cronograma, priorização, organização e controle). O autogerenciamento está ligado à mera responsabilidade de execução de comandos definidos pela gerência imediata, ou seja, refere-se à busca por eficiência no ambiente profissional e pessoal, ocorrendo por meio da motivação extrínseca (Markham & Markham, 1995). A automotivação é um construto similar à autoliderança, mas diferencia-se por não ter foco preestabelecido. Diferentemente da automotivação, a autoliderança inclui processos de autoconhecimento, seleciona áreas de atuação, estabelece processos e planeja ações (Kazan & Comin, 2011). Assim, ser automotivado pode até contribuir para o desenvolvimento da autoliderança, mas são conceitos distintos. Modelo de autoliderança com foco em estratégias A autoliderança é um processo de autoinfluência que demanda do indivíduo níveis elevados de autodirecionamento e automotivação para a realização de determinada ação, além de envolver estratégias cognitivas e comportamentais específicas, que influenciam positivamente a efetividade pessoal (Manz, 1986; Manz & Neck, 2004). Essas estratégias abrangem as recompensas naturais no trabalho, como a escolha de ambientes agradáveis e a criação de atividades naturalmente gratificantes no trabalho. O foco é direcionado aos aspectos agradáveis do trabalho e nas recompensas naturais e não nas externas (Stewart, Courtright, & Manz, 2011). Essas recompensas estão estruturadas em três níveis: mental, cognitivo e comportamental (Neck & Houghton, 2006). As estratégias mentais são denominadas estratégias de regulação do pensamento (ERP) ou estratégias de padrões de pensamento construtivo. Estas facilitam a criação de padrões de pensamento e estratégias de raciocínio mental positivos, capazes de impactar positivamente o desempenho e evitar o desencadeamento de pensamentos e ações destrutivas, tendencialmente focadas no problema e não na busca de soluções (Neck & Manz, 1992; Manz & Neck, 2004; Seligman, 1991). A ERP pretende facilitar a criação e a manutenção de padrões funcionais de pensamento habitual (Neck, Manz, 1992, 2013), por meio das seguintes ações: • Autoanálise: identificação, confrontação, comparação, modificação, substituição de crenças, pressupostos disfuncionais ou premissas por outros processos de pensamentos mais construtivos, que perpassam pelas imagens mentais e autofala positiva (Burns, 1980; Ellis, 1977); • Diálogo interno: capacidade de análise e raciocínio mental, que avalia os padrões de autofala (self-talk), define o que as pessoas dizem secretamente de si mesmas, com confrontação e desenvolvimento de linhas de pensamento mais positivas e motivadoras (Neck & Manz, 1992). Ou seja, os diálogos internos negativos e destrutivos devem ser identificados e substituídos por diálogos internos mais positivos e otimistas (Seligman, 1991); e • Visualização mental: ensaio mental, criação cognitiva simbólica ou experiência mentalizada. Sem, contudo, exercer movimentos físicos de ação deliberada, ou seja, sem haver uma circulação muscular física ostensiva real. Indivíduos que visualizam o bom desempenho de uma atividade antes do desempenho real são mais propensos a executar com êxito, quando confrontados com a tarefa real (Driskell, Coppe, & Moran, 1994; Neck & Houghton, 2006; Neck & Manz, 1992, 2004). As estratégias comportamentais recebem o nome de estratégias focadas no comportamento (EFC) e buscam facilitar a gestão comportamental no processo de realização de tarefas, até mesmo as desagradáveis. Além disso, buscam aumentar a autoconsciência do indivíduo ao mesmo tempo em que trazem motivação para a realização das tarefas consideradas desagradáveis ou intrinsecamente não motivadoras (Manz, 1992; Manz & Neck, 2004). Nesse contexto, sabe-se que não somente é possível realinhar continuamente o comportamento à natureza da questão, como também possibilita regular o sentimento de fruição durante a execução das tarefas, administrando recompensas com o objetivo de aumentá-la. As EFC são definidas em cinco dimensões comportamentais (Kazan & Comin, 2011; Neck & Houghton, 2006; Manz & Neck, 2004; Neck & Manz, 2013). • Auto-observação: auxilia na identificação de comportamentos indesejáveis. Relaciona-se ao monitoramento ativo da performance individual durante o processo de execução de tarefas. Permite ao indivíduo ter a autoconsciência do como e do porquê das práticas de alguns comportamentos, possibilitando mudar ou suprimir comportamentos ineficazes e improdutivos. A auto-observação permite analisar objetivamente como esses afetam o seu próprio desempenho, de sua equipe ou da organização em que está inserido (Neck & Manz, 2013). • Autodefinição de metas e objetivos: são realizadas por meio de autoanálise e posterior definição dos objetivos. De posse das informações precisas sobre o comportamento atual e os níveis de desempenho, os indivíduos podem definir mais efetivamente metas para alteração dos próprios comportamentos (Manz, 1986; Manz & Neck, 2004; Manz & Sims, 1980; Neck & Manz, 2013). Consiste em uma tomada de consciência sobre a performance do indivíduo, tornando possível redefinir ou fazer ajustes nos objetivos pessoais, bem como no tipo de estratégia adotada para alcançar o que foi definido, até obter a performance desejada. Um grande conjunto de pesquisas sugere que o processo de estabelecimento de metas desafiadoras e específicas pode aumentar significativamente os níveis de desempenho individual. • Autorrecompensa: está relacionada a um sistema individual de recompensas, que assume um papel energizante na performance do indivíduo. Autoconjunto de recompensas, juntamente com metas autoestabelecidas, pode ajudar significativamente a energizar o esforço necessário para cumprir as metas (Manz & Neck, 2004, 2013). Autorrecompensas podem ser algo simples ou intangível, como se felicitar mentalmente por uma realização importante ou algo mais concreto, como um especial de férias, na conclusão de um projeto difícil. • Feedback de autocorreção: visa anular comportamento ineficaz ou que não contribui de forma significativa para o desempenho e concretização dos objetivos definidos. Deve consistir de um exame positivamente enquadrado e introspectivo de falhas e comportamentos indesejáveis que levaram à reformulação de tais comportamentos. O uso excessivo de autopunição que envolve autocrítica e culpa pode ser prejudicial ao desempenho e deve ser evitado (Manz & Sims, 2001). Em casosde situações extremas associadas a baixa autoestima e percepções de autoeficácia, os feedbacks de autocorreção podem agravar estados depressivos e ter efeitos negativos (Neck & Houghton, 2006; Neck & Manz, 2013); e • Autossustentação (self-cueing) ou autoutilização de pistas: consiste na prática extensiva e treino de comportamentos desejados, que devem ser antecedidos pela identificação de estímulos (pistas), contribuindo para a memorização, pensamentos mais eficazes e potencialização de comportamentos. As sugestões ambientais concretas podem servir como um meio eficaz de incentivar comportamentos construtivos e reduzir ou eliminar os destrutivos (Manz & Neck, 2004; Manz & Sims, 1980, 2001). Listas, notas, screensavers (protetor de tela de computador) e cartazes motivacionais são apenas alguns exemplos de estímulos externos que podem ajudar a manter a atenção e esforço focado em alcançar a meta. A autossustentação também poderá consistir na eliminação de pistas ambientais negativas, que podem servir como distrações potenciais, como uma televisão (Neck & Manz, 2013). As estratégias de autoliderança focadas no comportamento são necessárias para estimular comportamentos positivos e desejáveis, que levam a resultados bem-sucedidos, enquanto suprime comportamentos negativos e indesejáveis que não trazem resultados de sucesso (Neck & Hougton, 2006). Por último, as estratégias focadas nas recompensas naturais (EFRN) consistem na criação, na procura e na promoção de situações e eventos associados à função, capazes de gerar motivação na realização de tarefas (Manz & Sims, 2001). Há duas estratégias de recompensa naturais e primárias. A primeira resume-se na identificação de partes agradáveis na tarefa; do redesenho da tarefa para incluir partes agradáveis; na determinação das recompensas naturais que fazem parte da tarefa; no redesenho da tarefa, se necessário, para incluir recompensas; e no foco ativo volotado para as partes agradáveis e as recompensas (Kazan & Comin, 2011; Neck & Manz, 2013). A segunda estratégia consiste em moldar as percepções, concentrando a atenção longe dos aspectos desagradáveis de uma tarefa e repensando sobre os seus aspectos intrinsecamente gratificantes (Manz & Neck, 2004, 2013; Manz & Sims, 2001). As EFRN envolvem as seguintes dimensões comportamentais: modelagem positiva da função; estratégia ativa de transformação de conteúdos que influenciam na fruição na realização de tarefas; e supressão de aspectos negativos da função, que tem foco positivo da situação, ignorando aspectos negativos ou sua conversão (Neck & Houghton, 2006). Tomadas em conjunto, essas estratégias possuem grande poder heurístico para desenvolver a crença sobre autocompetência e autodeterminação, que são mecanismos importantes e propulsores da motivação intrínseca, possibilitando energizar comportamentos para a melhoria no desempenho das tarefas (Deci & Ryan, 1985). Principais estudos e medidas de autoliderança Os estudos sobre autoliderança têm sido desenvolvidos com foco prioritário no desempenho laboral de individuos e equipe, no influenciador de comportamentos proativos, como criatividade, inovação e eficácia organizacional (Curral & Marques-Quinteiro, 2009; Stewart, Courtright, & Manz, 2011; Hauschildt & Konradt, 2012), assim como têm sido associados negativamente a comportamentos disfuncionais como a procrastinação (Melo- Alvim & Mendonça, no prelo). As evidências empíricas obtidas nesses estudos demonstram ser a autoliderança uma variável importante para o diagnóstico de desempenho no trabalho. Diferentes métodos e medidas para avaliar a autoliderança podem ser encontrados na literatura. Em termos metodológicos, a avaliação da autoliderança tem sido realizada nas perspectivas qualitativas e quantitativas. Nas pesquisas qualitativas, encontram-se estudos que utilizam desde entrevistas semiestruturadas a análises documentais. No entanto, majoritariamente, os estudos sobre autoliderança utilizam-se de metodologia quantitativa. Uma breve revisão na literatura demonstra que a primeira escala de avaliação de autoliderança, desenvolvida por Anderson e Prussia (1997), é o Self- Leadership Questionnaire (SLQ). Essa escala possui 50 itens que mensuram construtos teóricos de comportamento focado, recompensa natural e pensamento construtivo focado em habilidades de autoliderança. Foi desenvolvida com base nos estudos de Manz e Sims (1991), que apresentaram alguns problemas de confiabilidade e validade que foram corrigidos posteriormente. A medida mais utilizada nos estudos empíricos têm sido o Revised Self- Leadership Questionnaire – RSLQ (Houghton & Neck, 2002), que é resultante de um refinamento da escala SLQ. O instrumento é composto por 35 itens que abarcam três dimensões de segunda ordem e nove fatores de primeira ordem, assim distribuídos: D1 – estratégias focadas no comportamento (Autodefinição de objetivos; Autorrecompensa; Autopunição; Auto-observação; Autoindicação); D2 – estratégias de atribuição de recompensas naturais (fator único); D3 – estratégias de elaboração de padrões de pensamento construtivos (Visualizar sucesso na performance; Autodiálogo; Autoavaliação de crenças e suposições pessoais). A dimensão estratégias focadas no comportamento (EFC) busca aumentar a autoconsciência do indivíduo, motivando-o a realizar tarefas consideradas desagradáveis ou não intrinsecamente motivadoras. Suas ações consistem na auto-observação, autodefinição de metas e objetivos, autorrecompensa, feedbacks de autocorreção e autossustentação. O fator é composto de 18 itens (α= .85). Exemplo de item que pode representar essa dimensão: “Eu tenho conscientemente objetivos em mente para os meus esforços de trabalho”. As EFRN consistem na criação, na procura e na promoção de situações e eventos associados à função que sejam capazes de gerar motivação para a realização de atividades. Suas ações consistem na modelagem positiva da função e supressão dos aspectos negativos da função. O fator é composto de cinco itens (α= .65). Exemplo de item: “Quando eu completo com sucesso uma tarefa, muitas vezes eu me recompenso com algo de que eu gosto”. As estratégias de padrões de pensamento construtivo (EFP) são baseadas na criação de pensamento e estratégias de raciocínio mental positivo por meio das ações de autoanálise, diálogo interno e visualização mental. O fator é composto por 12 itens (α= .85). Exemplo de item: “Eu uso a minha imaginação para desempenhar bem as tarefas importantes”. O RSLQ demonstrou validade e confiabilidade aceitáveis em diversos estudos empíricos (Carmeli, 2006; Curral & Marques-Quinteiro, 2009; Houghton, Bonham, Neck, & Singh, 2004; Houghton & Jinkerson, 2007). O questionário foi traduzido em diferentes idiomas, como o chinês (Ho & Nesbit, 2009; Neck, Neubert & Wu, 2006), africâner (Van Zyl, 2008), português de Portugal (Curral & Marques-Quinteiro, 2009; Silva, 2009), turco (Doğan & Şahin, 2008), hebraico (Carmeli, 2006) e alemão (Andressen & Konradt, 2007). No Brasil, a medida de autoliderança Revised Self-Leadership Questionnaire (RSLQ), desenvolvida por Houghton e Neck (2002), foi validada por Melo- Alvim & Mendonça (no prelo), apresentando bons índices de confiabilidade. Os itens foram traduzidos de acordo com as normas da Comissão Internacional de Testes e seus devidos procedimentos. A versão em inglês foi traduzida para o português por dois tradutores bilíngues e, em seguida, foi feita a tradução reversa (back translation) também de forma independente. Prosseguiu-se com o processo de síntese das versões traduzidas por um juiz, com o objetivo de chegar a uma versão única dos instrumentos, mantendo a equivalência entre as versões traduzidas e os instrumentos originais, de modo a garantir as correspondências semânticas, idiomáticas, experienciais e conceituais. Embora sejam necessários estudos adicionais para avaliar a confiabilidade e validade do RSLQ, tanto em sua versão em inglês quanto em suas versões traduzidas, incluindo a versão brasileira, os resultados obtidos, apesarde incipientes, são encorajadores e parecem confirmar o RSLQ como uma medida eficaz de autoliderança. Para o aprimoramento da medida, sugerimos que sejam desenvolvidos estudos de validação em diferentes grupos amostrais. Além disso, desenhos de pesquisa devem focar, além dos estudos de corte transversal, estudos longitudinais e diários para analisar o quanto a autoliderança se caracteriza como um estado ou traço. Implicações práticas da autoliderança Tomados em conjunto, os estudos apresentados neste capítulo colocam em tela evidências sobre os impactos positivos da autoliderança para indivíduos, organizações e a própria psicologia positiva. A compreensão dos antecedentes e consequentes da autoliderança no contexto das organizações de trabalho pode ter implicações práticas para a gestão, ao trazer benefícios diretos para a organização e seus empregados. Em termos organizacionais, os benefícios incluem o aumento da efetividade, a capacidade criativa e inovadora, assim como o manejo do estresse e a melhoria do desempenho no trabalho. No campo individual, os benefícios englobam o próprio desempenho e suas consequências pessoais, como o bem-estar, a prosperidade, o equilíbrio vida- trabalho e o fortalecimento do ego. Sendo assim, a autoliderança deve receber atenção especial dos pesquisadores e dos gerentes, dada a sua associação positiva com o engajamento, o bem-estar e a saúde no trabalho, assim como pelo seu impacto no desempenho organizacional. Ao ser capaz de se autoliderar, o trabalhador pode ganhar em competitividade, além de se tornar capaz de se adaptar melhor aos processos de mudança. Para tal, os gestores devem criar programas de intervenção e treinamento que deem suporte e estimulem a autoliderança e a ação autônoma que a acompanha. Considerações finais Este capítulo teve como objetivo analisar o conceito de autoliderança e suas similaridades e diferenças com construtos afins, assim como descrever os principais estudos sobre a temática, incluindo uma análise sobre as medidas utilizadas na literatura. Por fim, as autoras apresentaram algumas implicações práticas e os ganhos positivos para os indivíduos que se propõem a desenvolver habilidades de autoliderança. Em que pese a incipiência de pesquisas sobre autoliderança, há evidências suficientes para afirmar que a autoliderança é um método que pode ser desenvolvido e trazer grandes benefícios para indivíduos e organizações. Indivíduos capazes de se autoliderar possuem maior poder de empregabilidade ao apresentarem um perfil empreendedor e capacidades de inovação, criatividade e engajamento no trabalho. Apesar de as estratégias de autoliderança serem amplamente valorizadas no mercado de trabalho e muitos estudos abordarem que essa dimensão é importante para o bom desempenho pessoal e a efetividade organizacional, há carência de programas que foquem no desenvolvimento dessas habilidades. Sugere-se, portanto, que programas de treinamento internos ou externos implementem ações reais com o objetivo de fomentar a autoliderança. Este capítulo trouxe contribuições fundamentais para a psicologia positiva ao desvelar que as pessoas podem se beneficiar ao utilizarem estratégias de autoliderança. Saber empregar tais estratégias pode promover ações proativas, o que resulta em satisfação e bem-estar pessoal. No campo das organizações, os gestores se beneficiarão ao implementarem programas de estímulo à autoliderança, pois formarão equipes proativas, com maior capacidade criativa e melhor desempenho no trabalho. Referências Anderson, J. S., & Prussia, G. E. (1997). The self-leadership questionnaire: Preliminary assessment of construct validity, The Journal of Leadership Studies, 4, 119-143. Andressen, P., & Konradt, U. (2007). Messung von Selbstführung: Psychometrische Überprüfung der deutschsprachigen Version des Revised Self-Leadership Questionnaire. Zeitschrift für Personalpsychologie, 6(3), 117-128. Bandura, A. (1977). Self-efficacy: Toward a unifying theory of behavioral change. Psychological Review, 84(2), 191. 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A Organização Mundial da Saúde (World Health Organization, 2014) define saúde mental como um estado de bem-estar no qual cada indivíduo percebe seu próprio potencial, consegue lidar com o estresse “normal” da vida, está apto a trabalhar de forma produtiva e frutífera, e é capaz de fazer contribuições para a sua comunidade. É possível notar que essa conceituação não se restringe à ideia de que ter saúde mental é não estar acometido por doença mental, uma vez que inclui a presença de sentimentos positivos e de funcionamento positivo na vida individual e na vida comunitária (Lamers, Westerhof, Bohlmeijer, Klooster, & Keyes, 2011). Essa definição também inclui a dedicação ao trabalho como indicativo de saúde mental, já que é inegável que o indivíduo precisa estar emocionalmente saudável para conseguir desempenhar suas atividades com afinco, o que provavelmente trará resultados positivos e, consequentemente, satisfação ao trabalhador. Além disso, o trabalho é um fator que auxilia na manutenção e na otimização da saúde mental (LaMontagne et al., 2016; Schulte & Vainio, 2010), visto que pessoas que exercem atividades profissionais, ao serem comparadas com aquelas que não exercem, relatam mais satisfação com a vida, maior nível de autoestima, visão pessoal mais eficaz e relações interpessoais mais satisfatórias (Dutton, Roberts, & Bednar, 2011). Sabe-se que o trabalho, além de ser uma fonte de sustento, é um meio de se relacionar com os outros, de se sentir parte integrante de um grupo ou da sociedade, de ter uma ocupação e de ter um objetivo a ser atingido na vida (Colomby, Oltramari, & Rodrigues, 2018), o que, de maneira geral, confere sentimentos positivos aos indivíduos. O trabalho também assume um papel imprescindível na construção da identidade das pessoas, podendo ser uma das principais fontes de sentido e direcioná-los à sensação de realização existencial (Damásio, Melo, & Silva, 2013). As ideias expostas até aqui não pretendem negar os impactos negativos que o trabalho pode apresentar para a saúde mental dos trabalhadores (Ribeiro, Santos, Silva, Medeiro, & Fernandes, 2019). Sabe-se que os transtornos mentais e comportamentais são cada vez mais comuns nos integrantes das mais diversas profissões, destacando-se a categoria docente (Monteiro, Brun, Tundis, Santos, & Cardon, 2019; Van Droogenbroeck & Spruyt, 2015). O exercício da docência frequentemente é desempenhado em condições administrativas, financeiras, ergonômicas e sociais adversas (Damásio et al., 2013). Em relação às administrativas, pode-se citar alta demanda de trabalho, tarefas diversificadas e fragmentadas, baixa autonomia, baixa participação nas decisões administrativas da instituição de ensino, pouco tempo para realização das tarefas, necessidade de atualização constante. Já as financeiras englobam baixos salários e necessidades de vários postos de trabalho. As ergonômicas dizem respeito a ruídos em sala de aula, baixa luminosidade, falta de material de apoio e um número elevado de alunos por disciplina. As sociais podem ser exemplificadas por desprestígio social, falta de tempo para a família e lazer, problemas motivacionais e desrespeito por parte dos alunos, problemas de relacionamento com pais de alunos, colegas e chefia (Damásio et al., 2013; Diehl & Marin, 2016). Apesar de estar exposta a essas situações, a maioria dos professores cumpre com êxito o que lhes é demandado (Damásio et al., 2013). Acredita-se que isso acontece porque a profissão docente pode ser promotora de bem-estar para aqueles que a exercem. Por isso, tão importante quanto descobrir o que não é mentalmente benéfico para os professores, é compreender o que faz com que docentes estejam satisfeitos com sua escolha e sintam-se realizados na profissão. Afinal, é necessário equilibrar a ênfase concedida aos aspectos negativos com os aspectos positivos dos seres humanos para compreender as qualidades que podem protegê-los do adoecimento mental. Diante disso, o estudo e a promoção de bem-estar nos professores são áreas que vêm ganhando cada vez mais importância, o que fez com que as pesquisas internacionais adotassem uma nomenclatura específica para sua investigação – denominada teacher well-being (Acton & Glasgow, 2015) –, que neste capítulo foi traduzida para bem-estar docente. Apesar dessa denominação, definir bem-estar docente não é uma tarefa simples, uma vez que as conceituações de bem-estar são diversas (Acton & Glasgow, 2015; McCallum, Price, Graham, & Morrison, 2017), pois o estado de bem-estar é fluido e único para cada pessoa (McCallum & Price, 2016). Por essa razão, a seção seguinte buscará apresentar o conceito de bem-estar docente. Após, será descrita uma pesquisa realizada com professores do ensino privado do Rio Grande do Sul, que ajudará a ilustrar o conceito apresentado. A partir dos resultados desta pesquisa, foram pensadas possibilidades de intervenção para otimizar o bem-estar dos educadores. Bem-estar docente: possibilidades teóricas Estudos e práticas a respeito do bem-estar docente receberam ênfase a partir do início do século XXI (Rausch & Dubiella, 2013) em decorrência da conclusão de pesquisas que revelaram a influência dos professores no bem- estar dos estudantes (Aitken, Martinussen, & Tannock, 2017 Roffey, 2012; Salter-Jones, 2012; Sisask et al., 2014; Tyson, Roberts & Kane, 2009). As investigações apontaram que estreitas relações entre professores e alunos auxiliam na detecção precoce de problemas de saúde nos discentes (Aitken et al., 2017; Sisask et al., 2014), além de otimizarem o processo de ensino- aprendizagem e ajudarem no desenvolvimento da autoestima e autoeficácia dos estudantes (Roffey, 2012; Salter-Jones, 2012; Tyson et al., 2009). Pesquisas também concluíram que os professores conseguem desenvolver mais facilmente espaços promotores de bem-estar para os estudantes se apresentam níveis adequados do próprio bem-estar (Coleman, 2009; McCallum & Price, 2010), daí o interesse por entender como promover bem- estar nos educadores. Antes de definir bem-estar docente é importante conhecer o significado de bem-estar de maneira geral.Existem inúmeras definições de bem-estar e muitas variáveis utilizadas para entendê-lo, mas as pesquisas sobre bem-estar docente apoiam-se na ideia de que o bem-estar se refere ao ótimo funcionamento psicológico (Deci & Ryan, 2008). É um estado dinâmico, em que o sujeito é capaz de desenvolver seu potencial, trabalhar produtiva e criativamente, construir relacionamentos fortes e positivos com os outros, e contribuir para a sua comunidade (Day & Gu, 2009). Ainda é visto como um estado no qual os indivíduos detêm os recursos psicológicos, sociais e físicos necessários para atender aos desafios psicológicos, sociais e físicos que se apresentam em suas vidas, sendo que o bem-estar pode ficar prejudicado se não disporem de recursos suficientes para dar conta dos desafios com os quais se deparam (Dodge, Daly, Huyton, & Sanders, 2012). De maneira geral, o bem-estar refere-se a noções positivas (McCallum & Price, 2016) e apresenta dimensões individuais (felicidade, engajamento, propósito, satisfação com a vida, competência e realização), relacionais (relacionamentos familiares, de amizade e sociais) e contextuais (recursos econômicos, circunstâncias políticas, saúde e alfabetização) (Acton & Glasgow, 2015). O bem-estar docente também é influenciado por fatores individuais, relacionais e contextuais (Acton & Glasgow, 2015; McCallum et al., 2017; Rausch & Dubiella, 2013; Rebolo & Bueno, 2014). Ele é compreendido como um estado emocional positivo, que é o resultado da harmonia entre a soma de fatores ambientais específicos, de um lado, e as necessidades e expectativas pessoais dos professores, de outro (Aelterman, Engels, Van Petegem, & Verhaeghe, 2007). Além disso, o termo bem-estar docente traduz a atuação do professor a partir de estratégias desenvolvidas para conseguir realizar seu trabalho diante das exigências e dificuldades profissionais, ultrapassando-as e melhorando seu desempenho (Rausch & Dubiella, 2013). Outra definição propõe que o bem-estar docente é um senso individual de realização profissional, satisfação, propósito e felicidade, construído em um processo colaborativo com colegas e alunos, apoiado (ou restrito) por fatores contextuais que valorizam, respeitam e reconhecem o trabalho do docente, permitindo aos professores perceber o sentido de seu trabalho (Acton & Glasgow, 2015). Considera-se que o bem-estar docente será obtido quando for positivo o resultado da avaliação que o professor faz de si como trabalhador e das condições existentes para a realização do seu trabalho (Rebolo & Bueno, 2014). Essa relação será representada com o relato da pesquisa a seguir. Bem-estar docente: caminhos de pesquisa Mesmo diante do fortalecimento da psicologia positiva a partir do final do século XX e do reconhecimento da importância do estudo dos aspectos saudáveis dos trabalhadores, pesquisas que avaliam fatores benéficos do trabalho docente ainda são escassas (Bermejo, Hernández-Franco, & Prieto- Ursúa, 2013; Damásio et al., 2013; Rausch & Dubiella, 2013; Rebolo & Bueno, 2014). Ao visar diminuir essa lacuna, foi realizada uma pesquisa com professores mentalmente saudáveis que atuavam na rede privada de ensino do Rio Grande do Sul para conhecer os aspectos positivos do seu trabalho e a influência desses no seu bem-estar. O relato aqui apresentado refere-se à parte de uma pesquisa intitulada A saúde mental dos professores da rede privada de ensino do Rio Grande do Sul, que se caracterizou como estudo misto e teve como objetivo geral investigar aspectos do contexto de trabalho e variáveis sociodemográficas e laborais que podem influenciar na saúde mental dos professores do ensino privado do Rio Grande do Sul (Monteiro et al., 2016). Essa pesquisa foi desenvolvida a partir da parceria entre a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e a Federação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino do Estado do Rio Grande do Sul (Feteesul). Foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (CEP/Unisinos), de acordo com o CAAE 45706115.5.0000.5344. Foi resguardado o sigilo das informações coletadas e o anonimato dos participantes, sendo utilizados nomes fictícios nas divulgações de resultados originados a partir da investigação. Também foram observados todos os preceitos éticos previstos nas resoluções nº 466/12 (2012) e nº 510/16 (2016) do Conselho Nacional de Saúde. A pesquisa quantitativa contou com a participação de 740 docentes que atuavam em diferentes níveis de ensino na rede privada do RS. Os participantes foram acessados, inicialmente, a partir de um cadastro fornecido pelo Sindicato dos Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro, RS), independentemente de serem ou não filiados ao sindicato, e, posteriormente, por divulgação da pesquisa em redes sociais. A coleta de dados aconteceu por meio da aplicação de um questionário on-line contendo vários instrumentos, entre os quais: a Escala de Saúde Mental Positiva – Mental Health Continuum – Short Form (MHC-SF) (Keyes, 2005) que foi traduzida, adaptada e validada para o Brasil por Machado e Bandeira (2015), e o Self-Reporting Questionnaire (SRQ-20) (Mari & Williams, 1986). O recorte aqui apresentado trata-se de um estudo qualitativo e descritivo, no qual participaram 12 educadores, que, na fase quantitativa de coleta de dados (brevemente apresentada no parágrafo anterior), apresentaram altos níveis de bem-estar subjetivo (avaliados a partir da Escala de Saúde Mental Positiva), não estavam acometidos por distúrbios psiquiátricos menores (aferidos pelo Self-Reporting Questionnaire) e se voluntariaram para participar da segunda etapa da pesquisa. Oito participantes eram do sexo feminino, oito residiam na região metropolitana, seis eram mestres, dez atuavam no ensino superior, onze eram casados ou estavam em união estável e seis tinham filhos. As idades variaram de 32 a 63 anos, o tempo de atuação como professor e na instituição que trabalhavam no momento de realização da pesquisa variou de um ano e seis meses a 26 anos, e a carga horária semanal como docente estava compreendida entre 12 e 40 horas. Quatro exerciam outra atividade além da docência e um atuava em mais de uma instituição de ensino, que era pública. Nenhum havia se afastado do trabalho no ano anterior à realização da pesquisa, quatro haviam buscado atendimento psicológico ou psiquiátrico nesse período e dois apresentavam doença crônica. As características dos participantes podem ser visualizadas na Tabela 1. Tabela 1. Caracterização dos participantes, docentes do ensino privado, Rio Grande do Sul/Brasil Notas: 1M = masculino, F = feminino; 2a = anos; 3Tempo de trabalho como professor, a = anos, m = meses; 4Tempo de trabalho na instituição que atuava quando participou da pesquisa, a = anos, m = meses; 5Carga horária semanal como docente; 6Nível de ensino de atuação; 7Intervalo de renda em salários mínimos, considerou-se o valor R $1.276,00 para um salário mínimo, valor vigente na época de coleta de dados da pesquisa como salário mínimo regional no RS. Fonte: elaborada pelas autoras. Os professores foram entrevistados a partir de entrevista individual de caráter semiestruturado (Lima, 2017), cujo roteiro continha questões sobre sua rotina de trabalho, significado de saúde mental, aspectos positivos do trabalho docente, e estratégias utilizadas para se manterem saudáveis e superarem as adversidades no ambiente laboral. Todas as entrevistas aconteceram fora das dependências dos locais de trabalho, foram gravadas e, posteriormente, transcritas na íntegra para serem submetidas à análise de conteúdo (Bardin, 1977). Essa análise, que foi conduzida a partir de categorias elencadas a priori, permitiu identificar que, conforme sugerido pela teoria apresentada anteriormente, o bem-estar docente é influenciado por aspectos individuais, relacionais e contextuais (Acton & Glasgow, 2015; McCallum et al., 2017; Rausch & Dubiella, 2013; Rebolo & Bueno, 2014), os quais serão apresentados na Tabela 2. Tabela 2. Categorização dos aspectospositivos influenciadores do bem-estar docente, docentes do ensino privado, Rio Grande do Sul/Brasil Fonte: elaborada pelas autoras. Bem-estar docente: aspectos positivos individuais, relacionais e contextuais Sabe-se que professores que exercem suas atividades em ambientes prósperos e saudáveis tendem a apresentar níveis mais altos de bem-estar (Dutton et al., 2011; Page et al., 2014; Schulte & Vainio, 2010), visto que características favoráveis das organizações, por exemplo, integração da equipe, recebimento de feedbacks construtivos, autonomia e desenvolvimento profissional (Schaufeli, Dijkstra, & Vazquez, 2013), tendem a promover sentimentos positivos nos trabalhadores. Esses aspectos, bem como as características relacionais e individuais do bem-estar docente, serão discutidos a seguir e exemplificados com excertos de falas dos participantes da pesquisa apresentada na seção anterior. Em relação aos fatores contextuais, os participantes mencionaram como aspecto positivo de seu trabalho a liberdade que possuem para execução de suas tarefas laborais, tanto em relação às atividades com os alunos quanto à organização de sua carga horária. Bom, em sala de aula a gente tem usado um meio híbrido de metodologias ativas de saídas de campo, de atividades práticas, tanto na oficina de órteses e próteses, por exemplo, ou nas atividades de longa permanência de avaliação. Então, trazer ele para o contexto da realidade que ele vive. Eu acho que essa é uma maneira, que não deixa de ser uma metodologia ativa. (Joana) Ter aulas atrativas. A gente assiste a filme, trabalha vídeo, essa não é uma aula parada. (Patrícia) Então, eu não tenho uma carga horária muito controlada, eu tenho uma carga horária bastante flexível e eu praticamente defino como e onde fazer. (Silvio) Estudos comprovam que a liberdade é um importante fator para otimização ou manutenção da saúde dos educadores, visto que o adoecer é originado, principalmente, pela associação de sobrecarga de trabalho e de falta de autonomia, o que restringe as possibilidades de enfrentamento das situações de trabalho consideradas difíceis pelos professores (Lima & Lima-Filho, 2009; Oliveira, Pereira, & Lima, 2017). Há indícios na literatura de que as decisões sobre as tarefas, as propostas e os projetos pedagógicos muitas vezes são impostas pelas instituições de ensino (Dalagasperina & Monteiro, 2016; Donatelli & Silveira, 2010; Santos, Azevedo, Araújo, & Soares, 2016), devendo o professor obedecer àquilo que foi decidido pela direção. Os relatos dos professores Joana, Patrícia e Silvio possibilitaram entender que a oportunidade de gerenciamento de tempo e manejo das atividades em sala de aula faz com que os educadores se enxerguem como sujeitos ativos na instituição, facilitando os sentimentos de liberdade, oportunidade de novas aprendizagens e domínio sobre o seu trabalho. Isso tende a diminuir as preocupações e otimizar o bem-estar (Lamers et al., 2011). Outro aspecto contextual positivo mencionado pelos participantes foi o reconhecimento. Esse diz respeito a um modo de retribuição simbólica concedida ao sujeito como compensação por sua contribuição aos processos laborais, isto é, expressa o retorno de todo investimento pessoal feito no trabalho pelo sujeito (Dejours, 2007). O trabalhador contribui para a organização de trabalho e espera receber reconhecimento por seus esforços, destacando como positivo quando isso acontece (Nogueira & Brasil, 2013), conforme os relatos: Um ponto positivo que considero forte é que a instituição tem confiança no trabalho que nós realizamos. (Douglas) De certa forma, o retorno que eu tenho da equipe é que elas gostam muito da minha participação no grupo. (Eduardo) De fato, o reconhecimento e o apreço dos colegas é uma das principais fontes de satisfação profissional dos professores (Marchesi, 2008). O reconhecimento do trabalho também é parte constituinte da identidade do trabalhador (Colomby et al., 2018) e propicia o sentimento de pertencimento, revestindo de senso de propósito as atividades realizadas (Nogueira & Brasil, 2013). Isso pode ser observado nos excertos: De certa forma, eu acho que a valorização é um aspecto importante. Acho que a gente tem uma profissão que acaba sendo valorizada. Tem um reconhecimento social e familiar em relação ao trabalho que se desenvolve. (Daiane) Satisfação pessoal, sucesso com os alunos, uma valorização dos alunos formados aqui, e isso faz com que a gente se sinta feliz e com o sentimento de dever cumprido. (Joana) Acredita-se que para haver reconhecimento são necessárias relações satisfatórias entre os atores de trabalho (Martins, Vieira, Feijó, & Bugs, 2014; Monteiro, Dalagasperina, & Quadros, 2012), sendo o fator relacional contribuinte para a melhora ou piora do bem-estar docente (Acton & Glasgow, 2015; McCallum et al., 2017; Rausch & Dubiella, 2013; Rebolo & Bueno, 2014). Todos os participantes citaram algum tipo de relação interpessoal como aspecto positivo em seu trabalho, entre as quais, as relações saudáveis com os pares foram entendidas como características benéficas do contexto laboral que vivenciavam. Sabe-se que compartilhar as dificuldades de trabalho com colegas, os quais experienciam realidade laboral semelhante, ajuda os profissionais a descarregarem sua tensão e a encontrarem soluções para seus problemas por meio da troca de opiniões, visto que um docente pode se identificar com os desafios vivenciados por outro e sugerir ações para resolver ou amenizar os obstáculos profissionais (Carlotto & Câmara, 2015). Acredita-se que isso cria um sentimento de que eles “não estão sozinhos” por meio do desenvolvimento da empatia, que supera a competitividade, garantindo um ambiente de respeito e apoio emocional (Dalagasperina & Monteiro, 2016). Tais ideias foram retratadas nos relatos a seguir. Com certeza, dá um certo alívio e é por isso que é muito bom esse grupo que nós temos na escola, porque a gente conversa e troca… A angústia que a colega tem também é a minha. Então, como é que a gente vai resolver? Como é que a gente vai se ajudar? Então, acho que o grupo é muito importante. Um grupo unido funciona muito bem. Que a gente possa dizer “eu estou sentindo isso, aquilo”. A gente sempre sai bem aliviada e com vontade de continuar ali. (Patrícia) O contato com os meus colegas da profissão, que eu acho legal, porque daí eu não sou sozinha, eu tenho outros arquitetos comigo, eu não sou a arquiteta com outros profissionais comigo, eu sou a arquiteta no meio dos arquitetos, e eu sempre gostei muito do meio da arquitetura, então eu sou feliz de ter colegas arquitetos, a gente tem os jeitos parecidos, as coisas que a gente gosta ou que a gente não gosta, o jeito de vestir, enfim eu me sinto na minha tribo, entendeu? (Camila) Também há casos em que os colegas de trabalho se tornam amigos, sendo esse um fator positivo para o bem-estar docente, já que, nesse caso, os colegas passam a integrar a rede de apoio social dos professores. Essa rede funciona como mediadora diante de eventos estressores, comuns no ambiente de trabalho. Além disso, pessoas com baixo ou nenhum apoio apresentam maior disposição para o desencadeamento de problemas de saúde (Macedo, Dimenstein, Sousa, Costa, & Silva, 2018). Trabalho à noite, a minha rotina de trabalho é: chego uns 30 minutos antes do horário de trabalho para organizar o meu material e também para ter contato com os meus colegas para conversar, trocar ideias, falar de tudo. Não só da questão de aula especificamente, conversar sobre o tempo, enfim, qualquer coisa. (Aline) O nosso grupo na escola é um grupo muito bom. A gente tem grupos, a gente se encontra fora, de amizades e faz jantas juntos. Nós temos uma associação dos professores, então, às vezes, a gente faz um jogo de vôlei, essas coisas. Gostaríamos de fazer muito mais. Sonhamos com coral, com caminhadas… (Patrícia) Eu tenho uma amizade grande com os meus colegas, não só tenho colegas, tenho amigos no trabalho e um ambiente agradável. (Douglas) Ainda a respeito da relaçãocom os pares, os participantes falaram sobre a importância do trabalho em equipe, da cooperação e da divisão das tarefas com os colegas para atender as solicitações das instituições de ensino. Sabe-se que colegas podem auxiliar na execução de ações, compartilhando a responsabilidade das demandas às quais são requisitados, o que ameniza a sobrecarga de trabalho e ajuda a promover bem-estar (Brouwers, Tomic, & Bolujit, 2011). Às vezes, a gente se envolve com essas questões assim da área, assumir um compromisso de todo mundo na área, distribuir tarefas e pegar junto. A [instituição] é o que é por causa disso também, pelos alunos que tem, pelos professores que gostam da escola, que se dedicam. Todo mundo dá um pouquinho mais, se dedica a alguma coisa além da sala de aula. (Eduardo) A questão de ter o grupo de trabalho. Por exemplo, se um tem uma ideia, a gente abraça e vamos lá! Ontem nós tínhamos atividade de Dia das Mães. Então, uma entende um pouquinho mais de informática, outra é mais habilidosa com a música, outra é mais habilidosa com contar histórias. Então, a gente se reúne e uma auxilia a outra, acho que isso é muito bom, esse grupo de trabalho para gente conseguir ir adiante. (Patrícia) Quanto aos aspectos relacionais promotores de bem-estar, uma participante mencionou a receptividade e o cuidado com que a gestão trata as demandas dos professores: Acho que minha coordenadora é uma pessoa muito acessível, muito legal. Como é que eu vou te dizer? É difícil para ela, mas ela tenta contemplar as demandas da gente. Acho que o grupo dos colegas que tá dentro da coordenação, são colegas bem acessíveis, pessoas bem legais. (Camila) Esse é um fator positivo que chamou atenção neste estudo, visto que é comum educadores se queixarem dos gestores, por causa de práticas que priorizam a mercantilização do ensino, impondo métodos de ensino aos docentes e fazendo com que eles não tenham autonomia na execução de suas tarefas (Dalagasperina & Monteiro, 2016). Estudos comprovam que líderes que atendem às necessidades dos empregados, que os ajudam a encontrar o sentido do seu trabalho e os envolvem nas decisões e nas resoluções de problemas promovem bem-estar (Davenport, Allisey, Page, LaMontagne, & Ravley, 2016; Page et al., 2014). Outro fator relacional mencionado como positivo pela maioria dos participantes foi o contato com os alunos. Frequentemente, a relação professor–aluno é estudada sob o viés dos benefícios ou malefícios que essa relação causa nos estudantes (Aitken et al., 2017; Roffey, 2012; Salter-Jones, 2012; Sisask et al., 2014; Tyson et al., 2009). Esta pesquisa demonstrou que quando tal relação é saudável existem benefícios também para o docente. Há indícios de que relações satisfatórias otimizam o processo de ensino- aprendizagem (Roffey, 2012; Salter-Jones, 2012; Tyson et al., 2009), eliciando sentimentos positivos nos professores. Isto é corroborado pelas falas dos professores Bianca e Silvio mencionadas a seguir. Os aspectos positivos, eu acredito, que é, principalmente quando a gente percebe, quando eu consigo perceber que o trabalho que eu fiz pode impactar a vida daquela pessoa de alguma maneira. (Bianca) Primeiro que eu tenho contato com pessoas que estão aprendendo uma profissão. Eu consigo transmitir um conhecimento e esse conhecimento pode ser desenvolvido depois por pessoas que vão trabalhar profissionalmente. (Silvio) Também as trocas de experiências entre educadores e estudantes foram referidas como aspectos positivos do trabalho docente, conforme os relatos a seguir, provavelmente porque viabilizam a construção de ambientes afetivos, nos quais é agradável permanecer, fazendo com que as aulas sejam momentos de descontração e não penosos ou maçantes. Os docentes demonstraram interesse em estabelecer contatos próximos com os alunos, extrapolando o dever de ensinar e repassar conhecimentos formais (Oliveira, Wiles, Fiorin, & Dias, 2014), o que parece ajudar na criação de situações amigáveis e benéficas para ambos os envolvidos na relação. Primeira coisa eu acho que é a relação com os alunos. Eu consigo estabelecer uma relação com meus alunos, não é de igualdade, porque nunca vai ser, o professor nunca vai ser, por mais que ele queira. Mas é de uma escuta, eu consigo compreender que a vida deles é diferente da minha, que eles têm dificuldades diferentes da minha. E eu consigo ouvi-los, eu consigo olhar para eles e compreender por que eles não entregaram o trabalho ou por que eles não vieram no dia da chuva. (Elis) Essa troca de interação e que vai além do aprendizado de conhecimento propriamente dito, mas que acaba sendo um aprendizado de vida. Porque tu acaba compartilhando muitas coisas com os alunos, aqueles que a gente convive mais perto ou mesmo em sala de aula. De uma questão educativa mais ampla, de crescimento, de valores sociais. A gente acaba ouvindo dos alunos um retorno em relação a isso e que é legal. (Daiane) O último aspecto positivo do trabalho docente declarado pelos participantes foi o fato de adquirirem conhecimentos constantemente. Seguidamente essa situação é atrelada à demanda de qualificação, vista por alguns professores como uma característica negativa do trabalho docente. Isso porque é uma tarefa que se soma a diversas outras, a saber: preparar aulas, elaborar e corrigir avaliações, participar de reuniões (Guareschi, Guareschi, & Genro, 2013), cumprir as horas-aula diárias estabelecidas nos contratos, elaborar e executar o plano de trabalho, zelar pela aprendizagem dos alunos (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional [LDB], Brasil, 1996), fazer trabalhos administrativos e atender os responsáveis pelos estudantes (Carlotto, 2010). Parece que a pesquisa aqui apresentada contrariou a perspectiva de outros estudos (Carlotto, 2010; Diehl & Marin, 2016; Rocha & Fernandes, 2008), conforme pode ser observado nas falas dos professores Camila e Arthur. Eu acho que é esse contato com o conhecimento, eu estou sempre estudando, e eu sempre gostei de estudar, sempre fui muito estudiosa, então isso é uma coisa que eu voltei a fazer, que eu tinha parado de fazer, porque quando a gente entra na profissão, é aquela coisa da obra, do pedreiro, da reforma, do mobiliário. Então, isso tudo é um outro mundo, que tu também aprende muito, mas de uma outra lógica, que não é da construção do conhecimento. Eu gosto muito de trabalhar com a construção do conhecimento, estudar, estar permanentemente lendo, estudando sempre, sempre. (Camila) Outro aspecto seria a busca constante pelo aprender, mesmo eu sendo professor eu também sempre busco coisas novas. (Arthur) Nesses depoimentos, percebe-se que entre os aspectos positivos do trabalho docente, mencionados pelos professores mentalmente saudáveis da pesquisa, destacou-se que o bem-estar docente é construído em um processo colaborativo com colegas e alunos, conforme sugerem Acton e Glasgow (2015). Tanto isso é verdade que todos os participantes comentaram algum tipo de relação socioprofissional como fator benéfico de seu trabalho. Além disso, eles mencionaram dois importantes fatores contextuais que valorizam o trabalho docente (Acton & Glasgow, 2015), a saber, a liberdade e o reconhecimento. Bem-estar docente: possibilidades práticas Da mesma forma como é mais comum pesquisas investigarem o adoecimento mental de professores (Bermejo et al., 2013; Damásio et al., 2013; Rausch & Dubiella, 2013; Rebolo & Bueno, 2014), também é mais frequente o relato de intervenções que buscam prevenir ou intervir em psicopatologias, como o estresse (Murta & Tróccoli, 2004) e a síndrome de burnout (Dalcin & Carlotto, 2018; Carlotto, 2014). Intervenções cujo objetivo é promover a saúde mental, realizadas sem foco em alguma doença mental específica, são mais difíceis de encontrar (Barry, Clarke, Jenkins, & Patel, 2013). Quando esse tipo de intervenção é realizado, seguidamente busca promover saúde mental em estudantes (crianças e adolescentes), não sendo executada com vistas a promover bem-estar entre os trabalhadores da comunidadeescolar, incluindo professores (Barry et al., 2013; Shoshani & Steinmetz, 2013). Ações psicológicas para promover a saúde mental tendem a ser embasadas na psicologia positiva (Barros, Martín, & Pinto, 2010). Em termos de intervenção, a psicologia positiva destaca-se em situações de ausência de crise, em que a psicologia apresenta função promotora de desenvolvimento humano. No entanto, segundo Seligman, Steen, Park e Peterson (2005), as intervenções positivas podem constituir um suplemento às intervenções tradicionais que aliviam o sofrimento humano. Os autores sugerem intervenções com exercícios diversificados, que tenham um impacto relativamente imediato e que sejam facilmente integrados em uma rotina diária. De maneira geral, a psicologia positiva tem sido utilizada de forma bem- sucedida para promover mudanças comportamentais nos domínios desenvolvimental, psiquiátrico, de saúde, em contextos educacionais, vocacionais e comunitários (Carr, 2007; Snyder & Lopez, 2005). Utiliza-se de ações direcionadas à promoção do bem-estar, por meio de exercícios, como expressão da gratidão, identificação de aspectos positivos na vida, narração de histórias relativas a acontecimentos de vida positivos e significativos, e definição das virtudes pessoais (Seligman et al., 2005). Entretanto, as intervenções comumente propostas pela psicologia a docentes são palestras para alertá-los sobre possíveis fatores de estresse relacionados ao trabalho e à possibilidade de desenvolvimento de psicopatologias (Carlotto, 2003). Certamente essas ações são importantes e funcionam como alerta para os educadores, mas, por causa de sua pontualidade e impossibilidade de continuação, acredita-se que os grupos de discussão sobre o trabalho docente são estratégias com resultados mais impactantes e duradouros. Esses grupos podem discutir as crenças que os profissionais têm sobre sua prática, auxiliando-os no desenvolvimento de concepções mais realísticas e adequadas da profissão (Carlotto, 2003). Além disso, tendem a se tornar espaços coletivos nos quais os educadores podem perceber os movimentos que fazem a escola funcionar e os que a paralisam, e analisar as relações cristalizadas de trabalho, surgindo propostas efetivas de transformação (Marchiori, Barros, & Oliveira, 2005; Barros et al., 2007). De maneira geral, são positivas ações destinadas à equipe diretiva e pedagógica que buscam propiciar espaço institucional de discussão e reflexão entre essas e os professores a respeito do papel docente na atualidade, bem como sobre os reflexos do novo paradigma empresarial no contexto educacional. Além disso, a direção das escolas deve considerar a participação dos professores nas decisões institucionais e estimular a formação de coletivos de trabalho (Carlotto, 2003). Também são benéficas campanhas informativas que destaquem a importância dos docentes, de forma a buscar parceria e apoio da comunidade para a efetivação do processo educativo, diminuir a exigência social depositada no professor, que frequentemente é visto como o principal agente de educação, e delimitar de forma clara e coerente as funções do professor. Ainda, é importante a participação dos pais ou responsáveis na vida escolar, sensibilizando-os para a valorização da escola e do trabalho do professor junto aos seus filhos, enfatizando a importância de sincronia entre as estratégias educativas utilizadas na escola e em casa (Carlotto, 2003). Destaca-se também a potencialidade de cartilhas e campanhas informativas para auxiliar os professores na identificação do adoecimento mental, bem como na promoção de saúde mental relacionada ao trabalho. A pesquisa que originou este capítulo desenvolveu uma cartilha (Monteiro et al., 2016), que pode ser acessada por meio do link https://bityli.com/a5lam, na qual são apontadas algumas recomendações para a identificação do risco de adoecimento e para a manutenção da saúde mental dos docentes. Por exemplo, a valorização de espaços e tempo para o diálogo, buscando a troca de informações e apoio entre eles ou visando conhecer as necessidades e opiniões dos professores (por parte da gestão). Também são estratégias eficazes na promoção da saúde mental manter atividades prazerosas de lazer e ter uma rede de apoio fora do trabalho. Bem-estar docente: reflexões finais Acredita-se que é importante conhecer os fatores que contribuem para a melhora dos níveis de bem-estar docente porque diz respeito à capacidade de a pessoa viver de forma produtiva e frutífera, contribuindo para a sociedade de maneira geral. Ademais, o trabalho docente é formador da identidade dos indivíduos e, se realizado em condições promotoras de bem-estar, contribui significativamente para gerar satisfação e propósito de vida nas pessoas, fazendo com que elas sintam que sua vida é digna de ser vivida. Há indicativos de que o enfretamento de dificuldades no trabalho docente é facilitado pelo estabelecimento e pela manutenção de relações positivas com colegas, superiores e alunos. Relações satisfatórias com colegas possibilitam o compartilhamento de responsabilidades na execução de tarefas, o que parece favorecer a diminuição da quantidade de atividades e da pressão para atender as demandas do trabalho de educador. Além disso, professores que se sentem confortáveis para dividir suas vivências com os pares fortalecem sua atuação profissional a partir da troca de experiências para superação de obstáculos. Relações saudáveis com superiores permitem que os docentes expressem suas opiniões e enxerguem-se como atores nas decisões da instituição, permitindo que não sejam meros executores de ordens. Já os relacionamentos positivos com alunos impactam em benefícios na relação ensino-aprendizagem, permitindo que os educadores encontrem sentido em seu fazer. Ademais, promovem clima agradável, o que ajuda a permanecer diversas horas em sala de aula sem sentir que o trabalho é penoso. Somado a isso, contextos que promovem autonomia, liberdade de expressão e reconhecimento auxiliam a enfrentar os desafios e aumentar o bem-estar docente. Ao refletir sobre o objetivo da psicologia positiva como ciência e atuação, a saber, fortalecer o que as pessoas têm de melhor, suas forças e virtudes, acredita-se ser relevante a execução de intervenções que promovam a conscientização sobre a importância de recursos laborais nas instituições de ensino privado, como o reconhecimento, autonomia, engajamento no trabalho, realização profissional e relações socioprofissionais satisfatórias. Isso porque as demandas com que os docentes da rede particular se deparam são intensas e extensas e talvez isto não vá se alterar diante da realidade econômica do país, mas o impacto negativo delas no bem-estar subjetivo e, por conseguinte, na saúde mental, pode ser minimizado diante de recursos de trabalho adequados para responder às exigências laborais. Este estudo forneceu evidências científicas de que a saúde mental dos trabalhadores é mais do que a ausência de doença mental. Parece que essa perspectiva também é percebida pelos trabalhadores, conforme pode ser observado no depoimento da professora Daiane sobre o que é saúde mental, que foi escolhido para concluir este capítulo, em razão da representatividade de muitas das ideias aqui apresentadas. Ter saúde mental é mais do que não ter doenças, é a pessoa se perceber com qualidade de vida. Ter momentos de felicidade. Claro que ninguém é feliz o tempo inteiro, mas se perceber bem e conseguir ter superadas as dificuldades, sabendo que a gente vai ter problemas, que vai bater aqui na porta, mesmo que a gente não queira. Mas daí a pessoa se sente bem a ponto de saber que de um jeito ou de outro ela vai conseguir superar. Ter uma boa rede de apoio, ter atividades que lhe dão prazer. Ter essa perspectiva assim: de que apesar de alguns problemas que vão surgir, no geral as coisas vão ficar bem. Referências Acton, R., & Glasgow, P. (2015). Teacher wellbeing in neoliberal contexts: A review of the literature. Australian Journal of Teacher Education, 40(8), 9-114.doi: 10.14221/ajte.2015v40n8.6 Aelterman, A., Engels, N., Van Petegem, K., & Verhaeghe, J. P. (2007). The wellbeing of teachers in Flanders: The importance of a supportive school culture. Educational Studies, 33(3), 285-297. doi: 10.1080/03055690701423085 Aitken, M., Martinussen, R., & Tannock, R. (2017). Incremental validity of teacher and parent symptom and impairment ratings when screening for mental health difficulties. Journal of Abnormal Child Psychology, 45(4), 827-837. doi: 10.1007/s10802-016-0188-y Bardin, L. (1977). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70. Barros, M. E. B. et al. (2007). Saúde e trabalho docente: A escola como produtora de novas formas de vida. 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Contribuições da teoria de demandas e recursos do trabalho para compreensão de fenômenos positivos da relação indivíduo– trabalho–organização Laila Leite Carneiro A teoria de demandas e recursos do trabalho foi proposta, inicialmente, como um modelo explicativo chamado JD-R (job demands and resources model), no princípio do século XXI (Demerouti, Bakker, Nachreiner, & Schaufeli, 2001). Este modelo considera que o processo de comprometimento de saúde (responsável pelo aumento do desgaste/tensão e do adoecimento) e o processo motivacional (responsável pelo aumento da motivação e da produtividade) vivenciados pelos trabalhadores são desencadeados, respectivamente, por altas demandas e altos recursos presentes no contexto de trabalho. Uma das razões que pode explicar a alta popularidade do modelo JD-R é o fato de ele se apoiar em uma premissa básica que já vinha se consolidando por meio de outros modelos predecessores na literatura, que é a noção de que a saúde e o bem-estar do trabalhador são fruto do equilíbrio entre características laborais positivas (que seriam os recursos) e negativas (que seriam as demandas) (Schaufeli & Taris, 2014). Além disso, o fato de o modelo trabalhar com conceitos amplos, que podem agregar qualquer demanda e qualquer recurso, sem restrições a circunstâncias laborais específicas, aumenta muito sua possibilidade de generalização (Bakker & Demerouti, 2007). Em uma pesquisa realizada por meio da ferramenta Google Scholar, em setembro de 2013, Schaufeli e Taris (2014) concluíram que os artigos seminais do modelo (Demerouti, Bakker, Nachreiner & Schaufeli, 2001, focado na explicação da síndrome de burnout, e Schaufeli & Bakker, 2004, focado na explicação do burnout e do engajamento) já haviam sido citados mais de 2.400 vezes em publicações científicas. Em janeiro de 2020, menos de sete anos depois, esse indicador já ultrapassava 8.000 citações para cada artigo. O interesse pelo modelo JD-R e os esforços empregados por diferentes pesquisadores no sentido de testá-lo e de refletir sobre suas potencialidades teóricas e práticas permitiram que o modelo evoluísse a pontode ser considerado uma teoria (Bakker & Demerouti, 2017) aplicável a qualquer configuração de contexto de trabalho. Para tanto, foram adicionados aportes conceituais sólidos para os fenômenos-chave, foram inseridas novas variáveis explicativas da relação entre os recursos e as demandas e suas consequências, sustentando melhor o como e o porquê essas características levam ao desenvolvimento do adoecimento e/ou da motivação do trabalhador, interferindo, em última instância, no seu desempenho. Como teoria, a natureza heurística do JD-R se torna mais evidente, uma vez que ela representa uma maneira de pensar sobre como os atributos do trabalho podem influenciar fenômenos de essencial interesse do campo da psicologia organizacional e do trabalho. É interessante notar que o modelo JD-R emerge no mesmo período que o movimento da psicologia positiva. Esse movimento surge no ano 2000, convidando a psicologia, que até então se dedicava predominantemente às fraquezas e ao sofrimento humano, a um redirecionamento de foco, a um olhar mais atento às forças humanas, ao seu funcionamento ótimo, à sua felicidade (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). Embora as propostas não estejam, em sua origem, diretamente interligadas, uma vez que a primeira versão do JD-R (Demerouti et al., 2001) busca explicar apenas o esgotamento profissional (burnout), a psicologia positiva passa a influenciar continuamente as versões subsequentes do modelo. Já na segunda versão do JD-R (Schaufeli & Bakker, 2004) fica explícita a importância desse movimento no sentido de buscar integrar no JD-R a explicação do fenômeno que pode ser considerado o oposto positivo do burnout: o engajamento no trabalho. Desde então, uma série de outros fenômenos alinhados com a proposta da psicologia positiva passaram a ser alvo de estudos que utilizaram o JD-R como referencial teórico. O objetivo deste capítulo é discutir as contribuições que a teoria JD-R tem apresentado para a compreensão de fenômenos importantes da psicologia positiva aplicada ao campo do trabalho e das organizações. Não se pretende realizar uma revisão exaustiva da literatura, mas sim destacar a amplitude de possibilidades de seu uso, apresentando dados que mostram sua aplicação em diferentes contextos culturais, organizacionais e ocupacionais. Vale lembrar, também, que muitos fenômenos da psicologia positiva podem ser integrados na teoria JD-R no papel de recursos, tais como capital psicológico, resiliência e autenticidade, entre outros. Porém, a discussão, aqui, se limitará aos consequentes que podem ser explicados pelas características do trabalho. Para contemplar sua proposta, este capítulo está dividido em três seções. Na primeira, serão descritos mais detalhadamente o surgimento e a evolução da teoria JD-R, assim como seus conceitos centrais. Em seguida, serão analisadas contribuições empíricas que essa teoria apresenta para a explicação dos fenômenos: engajamento no trabalho, flow no trabalho, florescimento no trabalho e comprometimento organizacional. Por fim, serão expostas as conclusões sobre a relevância da teoria JD-R para a psicologia positiva e serão apontados caminhos para que essa importância continue sendo ampliada e consolidada. Surgimento e evolução da teoria de recursos e demandas no trabalho (JD-R) A primeira versão do JD-R (Demerouti et al., 2001) se configurou como um aperfeiçoamento dos modelos “demanda–controle” de Karasek e “esforço- recompensa” de Siegrist. O modelo demanda–controle postula que quando o trabalhador é submetido a muitas exigências, mas tem um baixo nível de controle/autonomia sobre o seu trabalho, ele tende ao estresse ocupacional, correndo maior risco de desenvolver doenças de ordem psíquica. Enquanto isso, o modelo esforço–recompensa, fundado na noção de reciprocidade social, entende que o estresse ocupacional acontece quando o esforço que o trabalhador emprega para lidar com as exigências do trabalho não é adequadamente recompensado por meio de gratificações como reconhecimento, segurança e oportunidades de crescimento. Partindo dessas ideias, Demerouti et al. (2001) buscaram construir uma proposta mais ampla que não restringisse a explicação do adoecimento do trabalhador às relações entre demandas e recursos específicos, mas sim que ponderasse que as demandas e recursos que influenciam o processo de adoecimento/esgotamento do trabalhador variam de acordo com o contexto organizacional e com as características do trabalho analisado. Sendo assim, os autores, ao proporem o JD-R, consideram, por exemplo, que a ausência do recurso autonomia pode aumentar as chances de sofrimento psíquico em determinados grupos ocupacionais, mas não em outros. Portanto, só a contextualização permitiria confirmar quais recursos e quais demandas seriam os disparadores desse processo, embora qualquer característica do trabalho possa ser classificada como um exemplo de recurso ou de demanda. Em um primeiro momento, Demerouti et al. (2001) usaram o burnout para testar seu modelo, demonstrando que as demandas do trabalho aumentavam a exaustão do trabalhador, enquanto a falta de recursos estava associada ao desengajamento. Três anos depois, Schaufeli e Bakker (2004) apresentaram uma guinada do modelo para a perspectiva da psicologia positiva em uma versão revisada do JD-R que incluiu o engajamento no trabalho junto ao burnout, pressupondo que esses fenômenos teriam diferentes padrões de causas e consequências. Ao testarem o modelo com o engajamento no trabalho e o burnout como mediadores, os pesquisadores concluíram que o primeiro responsável era exclusivamente predito por recursos do trabalho, enquanto o segundo era predito principalmente por demandas do trabalho, mas também pela falta de recursos. Do mesmo modo, identificaram que o burnout mediava a relação entre as demandas de trabalho e os problemas de saúde, enquanto o engajamento mediava a relação entre os recursos do trabalho e a intenção de saída da organização. A partir de então, o modelo revisado do JD-R se consagrou, uma vez que conseguiu integrar duas tradições de pesquisa independentes, a do estresse e a da motivação, partindo do princípio de que as demandas ocupacionais podem ser desencadeadoras problemas de saúde enquanto os recursos oferecidos ao trabalhador são desencadeadores do seu processo motivacional, e avançando na especificação de como a interação entre as demandas e recursos podem predizer uma série de fenômenos relevantes para a organização (Demerouti & Bakker, 2011). Ao longo de quase 20 anos, novas ampliações foram realizadas. O JD-R vem demonstrando alto nível de aceitação na comunidade científica, além de um alto nível de suporte empírico (Bakker & Demerouti, 2013; Bakker & Demerouti, 2017 et al., 2017), especialmente por conta da sua flexibilidade de adaptação aos mais variados contextos de trabalho e do seu potencial explicativo sobre os principais fenômenos de interesse no campo. A seguir, serão mais bem detalhados os seus componentes básicos para que seja possível vislumbrar a estrutura que o JD-R apresenta atualmente. Sobre as demandas e o processo de tensão No modelo JD-R, as demandas representam as exigências de diversas naturezas (física, psíquica, social, organizacional) inerentes ao trabalho, as quais requerem que o trabalhador se esforce, gerando, consequentemente, custos a esse trabalhador (Demerouti et al., 2001), sejam de ordem psicológica (como irritabilidade) ou fisiológica (como fadiga) (Demerouti & Bakker, 2011). Baseado no modelo de controle compensatório de Hockey (1997), o JD-R defende que as demandas do trabalho podem desgastar o trabalhador à medida que exigem que recursos sejam mobilizados e alocados para garantir a performance desejada. O esforço é o que garantirá ao trabalhador o alcance do desempenho esperado. Sendo assim, quanto maior ou mais complexa a demanda, mais o trabalhador precisará empregar energia para atingir seus objetivos e prevenir a queda da performance (Schaufeli & Taris, 2014; Bakker & Demerouti, 2017). Tomemos como exemplo um operador