Prévia do material em texto
Ao longo da história, muitos pensadores se dedicaram a compreender a sociedade em que eles viviam e a desvendar suas leis e mecanismos de funcionamento. Uma das obras mais antigas dessa tradição é A Política, do filósofo grego Aristóteles, que viveu cerca de 300 anos antes de Cristo. Entretanto, apesar da importância dessas obras, elas se inscrevem no terreno especulativo – ou seja, no da discussão de ideias –, mais precisamente no terreno da filosofia. Apenas no século XIX é que se reconhece o surgimento de uma ciência da sociedade. A sociologia está diretamente ligada ao desenvolvimento da moderna sociedade ocidental. Foi por meio do culto à ciência e das profundas transformações1 – trazidas pelo capitalismo industrial, para as cidades europeias e norte-americanas – que a sociologia e as demais ciências sociais se estabeleceram. Tanto as ciências quanto a sociedade moderna são frutos diretos de duas revoluções que mudaram a face do mundo em poucas décadas: a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. 1 Entre essas transformações, podemos destacar aqui a intensa urbanização, o surgimento das primeiras favelas e dos cortiços, entre outros. Para compreender melhor esse contexto histórico, é preciso salientar que o capitalismo não nasceu com o processo de industrialização. Antes do capitalismo industrial, houve o capitalismo mercantil, presente desde a Renascença, no século XIV. Foi esse capitalismo, inclusive, que criou a burguesia mercantil e a chamada acumulação primitiva, que consistia em um fundo de poupança de capital que, séculos mais tarde, financiou o desenvolvimento industrial. Essa mesma burguesia promoveu a Revolução Francesa – processo que durou décadas, sacudiu a estrutura de vários países e criou o mundo moderno2. 2 Uma das melhores descrições desse processo complexo pode ser encontrada no livro A Era das Revoluções: Europa 1789-1848, escrito pelo historiador britânico Eric Hobsbawm (1917-2012). Iniciada na Inglaterra, a Revolução Industrial rapidamente se espalhou pela Europa e pelos Estados Unidos. A partir daí e ao longo de todo o século XIX, o capitalismo revolucionou o modo como os bens de consumo passaram a ser produzidos, assim como a organização política e social das nações em que ele chegou. Antes do advento das indústrias, os produtos eram manufaturados (fabricados manualmente, um a um), o que resultava em uma oferta bastante reduzida e com preços altos. Mudaram, também, as formas de vida, com o início da grande migração dos camponeses para as cidades e a transformação deles em operários. Uma mudança dessa envergadura não poderia ocorrer sem que ondas de miséria, de grandes epidemias e de intensa instabilidade social ocorressem. Curiosidade Historicamente, o início da Revolução Industrial ocorreu no fim do século XVIII, quando o inventor Edmund Cartwright (1743-1823) patenteou seu primeiro tear mecânico, em 1785. A Revolução Francesa, por sua vez, transcorreu entre 1789 e 1799 e gerou uma instabilidade política que durou cerca de 60 anos, deixando como herança o fim dos governos absolutistas – como o de Luís XVI, na França, e outros na Europa –, a ascensão da burguesia como classe dominante, a criação da ideia de cidadania com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, entre outros legados. Podemos perceber que, em pouquíssimas décadas, o mundo passou de uma sociedade de trabalho manual para a escala industrial, de uma sociedade rural para uma urbana, de uma sociedade cujas mudanças levaram séculos para se consumar para outra de rapidez extraordinária, de uma sociedade fundada sobre crenças religiosas para outra em que a ciência passou a ter papel dominante. Weber (1864-1920) chamou este último processo de racionalização do mundo. Para os homens do século XIX, tornou-se, então, imperativo compreender que sociedade era essa e como ela mudava. Ou seja, a própria sociedade tornou-se o “problema” ou o “sujeito” que deveria ser estudado e compreendido, o que só seria possível mediante a criação de uma nova ciência (IANNI, 1988). A sociologia se constitui, portanto, como a forma de conhecimento da sociedade contemporânea, assim como a teologia foi a maneira de conhecimento do mundo feudal, como bem assinalou Augusto Comte. Para Aron (2000, p. 7), autor do magistral As etapas do pensamento sociológico, a sociologia é o “estudo científico do social, seja ao nível elementar das relações interpessoais, seja ao nível macroscópico dos grandes conjuntos, classes, nações, civilizações ou, utilizando uma expressão de uso corrente, sociedades globais”. É preciso considerar, ainda, como aponta Martins (1991 apud MARIANO, 2008), que a sociologia é um projeto tenso e contraditório, pois convive com explicações diversas sobre a realidade social. Se tomarmos apenas os três sociólogos considerados os principais clássicos da disciplina (Marx, Durkheim e Weber), veremos que cada um desenvolveu não apenas conceitos próprios, mas também perspectivas teórico-metodológicas com “diferentes estilos de pensamento, distintas visões da sociedade, do mundo” (IANNI, 1988, p. 12). Outra questão importante na sociologia é a metodológica, principalmente para o clássico questionamento sobre a objetividade e suas implicações no modo de pensar a relação sujeito-objeto na produção do conhecimento científico, assim como oposições clássicas encontradas em suas abordagens, como o biológico e o social, o normal e o patológico etc. (MARIANO, 2008).