Prévia do material em texto
No máximo, daria para dizer que a ética é o filtro “interior”, individual, para as regras exteriores, comunitárias — o âmbito da moral. Em seguida, há uma série de outras questões, por exemplo: Responder a essas questões não é fácil! E você não encontra uma resposta unânime para elas. O importante é que você, a partir de nosso conteúdo estudado — e do aprofundamento esperado — possa tomar posição frente a elas, com certa fundamentação teórica. O pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um dos maiores críticos do que chamou de moral. Ele associava essa moral a um conjunto de valores criados a partir do pensamento socrático-platônico, que se manteve vigente ao ser, posteriormente, adaptado pelo cristianismo . Nietzsche propôs filosofar com o martelo, como dizia, para explicitar sua intenção de destruir esses valores que, segundo ele, nos enfraqueciam, nos tornavam menos capazes de lidar com a própria vida e toda a sua variedade de possibilidades e surpresas. Saiba Mais Adaptado pelo cristianismo No prefácio de Além do bem e do mal, Nietzsche acusa o cristianismo de ser uma mera adaptação simplificada e, consequentemente, mais acessível do dogmatismo platônico para o povo comum; ou seja, um “platonismo para as massas”. Contudo, assim que “quebrou” a moral platônico-cristã, esse pensador, com ou sem intenção, logo colocou um outro tipo de proposta de valores, mais “fortes”, em que se encarava com coragem a aleatoriedade da vida, em que não haveria uma separação tão óbvia entre razão e emoção, entre bem e mal, entre verdadeiro e falso. Ou seja, Nietzsche percebeu que não há vácuo moral: sempre outros valores assumem o posto deixado vazio. Mesmo que a moral seja associada a determinado grupo social, portanto perdendo a capacidade de universalização, percebe-se, de forma concomitante, que é impossível viver sem uma moral, mesmo que implícita. Isso porque precisamos recorrer à moral (ou à ética, dependendo de quem fala) quando estamos diante de um impasse, quando precisamos tomar uma grande decisão e não temos recursos próprios, imediatos, ou para saber qual é a melhor estrada para se pegar na hora da encruzilhada. Immanuel Kant (1724-1804) foi outro filósofo que muito se debruçou sobre questões ético-morais, exatamente porque sabia que havia um limite para o racional e que não era possível saber qual é a regra na qual o outro sujeito está se baseando para agir. Tentando responder a essa demanda, ele formulou o chamado imperativo categórico, que pode ser sintetizado na seguinte frase: “Aja de tal forma que sua ação possa ser considerada lei universal”. Em outras palavras, aja do jeito que gostaria que agissem com você. Ainda: considere ética toda ação sua, desde que você aceite que façam a mesmíssima coisa consigo. A proposta de Kant não passou ilesa, entretanto. Entre outros apontamentos, seus críticos defendem que, às vezes, ser justo é tratar de maneira desigual os desiguais. Dito de outra forma: nem todas as pessoas têm as mesmas necessidades, desejos similares ou uma tábua de códigos que se equivalha. Por isso, achar que a “minha” percepção é a melhor para todos parece uma falta de conhecimento das subjetividades dos outros indivíduos — e no fundo até egoísmo. Uma das principais críticas à ética kantiana afirma que ele apenas atualizou o que foi o padrão ouro da moral durante quase todos os últimos 2 mil anos: o cristianismo. Desde os Dez Mandamentos até a categorização dos pecados, todo o sistema cristão funcionou para dar parâmetros que guiassem seus adeptos a saber o que era o certo e o errado, o que era verdade e o que era mentira, e como se poderia garantir uma vida boa no paraíso, após a morte. Com o passar do tempo, porém, o cristianismo perdeu a relevância que possuía há séculos. Mesmo que ainda haja muitos cristãos no mundo, outras forças (como a ciência) surgiram para colocar em dúvida as propostas sacerdotais. Antes mesmo da subida em definitivo da ciência ao altar dos valores morais, outros encontros já tinham afetado o monopólio cristão da lei prescritiva. Um caso exemplar foi a chegada dos europeus, nos séculos XV e XVI, nas terras que depois receberam o nome de América. Assim que encontraram populações nativas tão diferentes em seus comportamentos e valores, uma série de perguntas atravessou a cabeça dos europeus: Como tratar os nativos americanos, que seguiam outras éticas que permitiam relacionamentos menos monogâmicos, que não tinham pudores excessivos com o corpo, que não veneravam o mesmo Deus, que queriam trabalhar apenas o necessário, sem conseguir compreender a pretensão europeia de acumular riquezas? Parecia claro que não era apenas o cristianismo que sabia lidar com o mundo. Outros modos de viver funcionavam tão ou melhor que o europeu e isso precisava ser levado em conta. Ou deveria ser. As divergências entre ética e moral Com este vídeo, você poderá identificar as possíveis diferenças entre ética e moral. Ética e liberdade Em vários momentos da história, a ética (ou a moral) foi vista como aquilo que tentou controlar o que se pode ou não fazer. Há uma frase muito citada, mas que não aparece exatamente assim, de Os irmãos Karamazov, obra literária do russo Fiódor Dostoiévski, que resume bem a intenção: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Isto é, Deus (ou um ente que tivesse uma importância ética parecida) seria o tampão moral que nos impediria de cair no caos completo, na desordem total, no vale-tudo. Como se apenas uma mão pesada nos impedisse de nos destruir por completo. Se não houvesse uma lei repressora, nós tenderíamos ao aniquilamento ou, no mínimo, à perda de certos traços que nos tornam diferentes de outros seres, a começar pelos outros animais. Nessa passagem do livro, o personagem de Dostoiévski dá alguns exemplos do que, para ele, seria o mais baixo que o homem poderia chegar: se não acreditarmos na imortalidade da alma, então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Considerando que este era um costume de certos grupos indígenas das Américas na época da invasão europeia, há mais de 500 anos, o contraste moral fica ainda mais gritante. Antropofagia Ato ritual religioso de comer uma ou várias partes do corpo de um ser humano como uma forma de se vingar por mortes ocorridas em conflitos anteriores e para adquirir as características de seus inimigos. Para um intelectual urbano russo do século XIX, talvez o ato de comer outros seres humanos fosse um dos pontos mais baixos que o homem chegaria. Mas, para um tupi da costa de Pindorama (nome que os indígenas dessa etnia davam para a terra que se chamou depois de Brasil), o ato tinha diversas conotações: espirituais, existenciais e até éticas. Como equiparar tais noções tão distantes? O dilema ético aqui está exatamente em poder analisar a questão proposta da forma mais ampla possível. Aqui essas perguntas podem nos ajudar a refletir, mas não nos darão uma resposta pronta: a moral cristã, que eliminou o antropofagismo no Brasil, não deveria acontecer? Todos os aspectos culturais de um povo devem permanecer sempre intactos? O dilema ético aqui está exatamente em poder analisar a questão proposta da forma mais ampla possível. Aqui essas perguntas podem nos ajudar a refletir, mas não nos darão uma resposta pronta: a moral cristã, que eliminou o antropofagismo no Brasil, não deveria acontecer? Todos os aspectos culturais de um povo devem permanecer sempre intactos? https://conteudo.ensineme.com.br/hu/03193/intro?brand=estacio# É preciso estabelecer o que se pode ou não fazer, para criar uma coesão e, assim, nos liberar para sermos livres no restante das ações. Muitos pensadores ao longo da história da filosofia, como o suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), consideravamque o homem nasce livre, mas precisa se aclimatar à sociedade, diminuir seu ímpeto, se adaptar aos códigos impostos pela tradição. Esses pensadores foram empurrando a fronteira do que se podia fazer ou não — ou seja, da moral — a cada vez que um impedimento dogmático aparecia. Uma das questões primordiais do Iluminismo, por exemplo, foi a liberdade de expressão. Até o movimento europeu que teve como expoentes Kant, os franceses Voltaire, Diderot e Rousseau, e os ingleses Hume e Adam Smith, falar o que se pensava podia dar em prisão ou até em morte. Por isso, eles lutaram, escreveram, correram riscos para que todos pudessem expressar aquilo que tinham em mente, sem medo de serem exterminados por isso. A título de comparação do tamanho do risco do simples ato de opinar publicamente — algo banalizado em tempos de redes sociais —, lembre-se de como a imprensa foi perseguida na colônia portuguesa das Américas. Só se foi permitido ter jornais impressos com a vinda de D. João VI para o Brasil, em 1808. E, ainda assim, não era exatamente uma imprensa livre, mas profundamente censurada. Liberdade: abre as asas sobre nós? Neste vídeo, você poderá aprofundar a complexidade do conceito de liberdade. Liberdade de expressão No Brasil, na segunda metade do século XX, estudantes, artistas, militantes, músicos, operários, escritores, em suma, críticos ao regime foram presos, torturados, condenados ao exílio e até mortos por discordarem com veemência dos ditadores. O assassinato do jornalista Vladimir Herzog é um dos casos mais famosos que representa quão violenta foi a repressão dos militares. Em 1975, Vlado, como era apelidado, se apresentou espontaneamente para prestar depoimentos ao DOI-CODI, órgão militar famoso por atacar dissidentes do regime. O jornalista foi preso na mesma hora e apareceu enforcado, em sua cela, apenas um dia depois. Segundo as informações declaradas pelos oficiais, ele teria se matado com um cinto de pano que prendia sua roupa. Havia, contudo, uma grosseira inconsistência na versão apresentada pelos militares: na foto divulgada, os joelhos do jornalista apareciam encostados no chão, o que impossibilitaria o suicídio. Desde o Iluminismo, portanto, a liberdade de expressão se tornou um dos pilares dos regimes que se propunham democráticos. Só é possível ter uma democracia se tal direito for respeitado. Recentemente, entretanto, o processo se inverteu: utilizando-se desse arcabouço legal, vários atores políticos começaram a propagar informações que não condizem com os fatos. Em termos atuais, passaram a divulgar fake news. A liberdade de expressão é tratada por quem divulga esses “fatos alternativos” de forma distorcida. Primeiro como um valor superior aos demais: nenhum outro direito poderia ser mais importante que este. Segundo: como uma desculpa para falar qualquer coisa, não importando se é verdade ou não. Na Alemanha, por exemplo, é previsto como crime a negação do Shoá, também conhecido como Holocausto, o genocídio nazista que matou cerca de 6 milhões de pessoas, entre judeus, Testemunhas de Jeová, pessoas com deficiências, ciganos, comunistas, homossexuais e outros grupos discriminados pelos nazistas. Na Ucrânia, não só é proibido ocultar o Holodomor — o genocídio soviético da população ucraniana, com cerca de 12 milhões de mortos pela fome —, como também foi proibida a existência de partidos políticos comunistas e qualquer símbolo que remeta ao regime socialista soviético. Não importa que a liberdade de imprensa, análoga à de expressão nesse caso, esteja registrada na Constituição daquele país. Há valores maiores do que a possibilidade de opinar publicamente. Na realidade, mesmo em democracias bem mais consolidadas que a brasileira, a liberdade não é infinita e precisa ser tolhida quando há riscos reais. Mesmo nos EUA, cuja Primeira Emenda à Constituição, datada ainda de 1791, já defendia a expressão livre, não é um vale-tudo. Nenhum direito é absoluto e a liberdade de expressão não é soberana em relação aos demais direitos. O Estado não interfere em relação a toda e qualquer informação veiculada, mas caso haja um exemplar considerado perigoso (planejamento de ataques terroristas, por exemplo), pode haver interferências. https://conteudo.ensineme.com.br/hu/03193/intro?brand=estacio# Além disso, no momento histórico em que pouquíssimas empresas privadas controlam o tráfego de informação pelo mundo, a relação entre liberdade de expressão, democracia e censura mudou drasticamente. Exemplo Facebook, Twitter e Google são capazes de desviar o fluxo para certas postagens a partir do quanto se investe. Ou seja, não é exatamente um procedimento democrático, mas plutocrata, isto é, com prioridade para quem tem mais dinheiro. Por outro lado, tais empresas bilionárias também podem, de uma hora para outra, banir certos personagens ou conteúdos, como no caso do ex-presidente norte-americano Donald Trump, cuja conta no Twitter foi retirada do ar no início de 2021 sob acusação de incitar a violência, é um exemplo do poder dessas companhias. Por se tratarem de empresas privadas, que não precisam dar satisfação das suas ações para o público em geral, acabam por gerar desconfianças legítimas. Para alguns, as acusações ao então presidente dos EUA foram óbvios; para outros não! Então, sendo uma empresa privada, que não precisa dar satisfação das suas ações para o público em geral, sempre há uma desconfiança. E quando houver perseguição a certos personagens que forem contrários à empresa em questão (como alegou parte da Imprensa Americana, nesse mesmo caso)? Ou acontece o problema inverso: certos conteúdos, apesar de serem classificados como discurso de ódio ou como propagadores de informações falsas, muitas vezes são mantidos porque têm audiência. É o caso de canais de propagação de notícias inverídicas no Facebook ou no Youtube (do Google), por exemplo. Para tornar as coisas ainda mais difíceis, mesmo que uma rede de divulgação caia no Whatsapp, que é ligado ao Facebook, ela surge num outro aplicativo de comunicação instantânea. E o pior: em vários desses casos, apesar de essas grandes companhias terem códigos de ética, eles são ignorados – ou interpretados de forma “criativa” – em prol de outros interesses, como manter a audiência em crescimento, engajada, com interações". Como insistido inúmeras vezes, não há unanimidade sobre algumas dessas temáticas. E é fundamental apresentar, quando possível, outras versões além daquela do "senso comum midiático". Assim, a partir desse admirável novo mundo que nos aparece, em que a liberdade de expressão já não é a mesma que foi defendida pelos iluministas, uma pergunta aparece com cada vez mais frequência: como estabelecer um limite, como propor uma ética para uma rede que é necessariamente ampla e tão multifacetada? Ou, para voltar à frase de Dostoiévski: se não há Deus — uma lei, um Estado, uma moral, uma ética — tudo é possível mesmo? Quem controla as agências de controle? Neste vídeo, vamos falar sobre os elementos que nos ajudam a perceber a importância e a complexidade de agências de controle das mídias digitais. Vamos lá! Definição de direitos humanos Talvez a pergunta “quando foram instituídos os direitos humanos?” só tenha uma concorrente na categoria dificuldade de responder: é a sua prima “o que são os direitos humanos?”. Sabe-se, com certeza, que tal expressão aparece na Declaração Universal da Organização das Nações Unidas, um documento proferido em 1948 — logo após o genocídio promovido por nazistas e fascistas durante a Segunda Guerra Mundial — que delimita os direitos fundamentais do ser humano. Ética e moral Saiba Mais Ética e liberdade Liberdade de expressão Exemplo Definição de direitos humanos