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DIREITO EMPRESARIAL AULA 1 · Conceito do Direito Empresarial: é o ramo do Direito Privado responsável pela regulamentação de toda e qualquer atividade econômica desempenhada de forma organizada (chamada de empresa), bem como das pessoas, físicas ou jurídicas, que a exercem em caráter profissional (chamadas de empresários). EMPRESÁRIO · Conceito de Empresário: é um profissional que exerce atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou de serviços (art. 966°, CC). · Características do Empresário: · A atividade deve ser exercida de forma habitual e contínua, não esporádica. · A atividade exige estrutura, mesmo que simples, combinando fatores de produção como capital, trabalho e tecnologia. · A atividade visa a produção ou circulação de bens, ou a prestação de serviços. NÃO SÃO EMPRESÁRIOS · NÃO SÃO EMPRESÁRIOS, os profissionais intelectuais, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa (art. 966°, parágrafo único, CC). Dessa forma, os advogados, os médicos, os professores e os artistas em geral, por mais que utilizem de suas habilidades como fonte de renda, não são considerados empresários, só se for organizada como uma empresa, com estrutura empresarial e foco no lucro, ele poderá ser considerado empresário. REGISTRO FACULTATIVO DO EMPRESÁRIO RURAL (ART. 971º, CC) · O artigo 971° do CC confere ao empresário rural, cuja atividade principal seja a rural, a opção de se inscrever no Registro Público de Empresas Mercantis (Junta Comercial), desde que cumpra as formalidades do artigo 968° e seus parágrafos do mesmo código. Ao exercer essa opção, o empresário rural adquire o mesmo status jurídico de um empresário sujeito a registro, para todos os efeitos legais. · Em outras palavras, a lei permite que o produtor rural escolha se registrar como empresário, equiparando-se aos demais empresários em termos de direitos e obrigações, como acesso à recuperação judicial e falência. Essa faculdade visa dar ao produtor rural a opção de organizar sua atividade de forma empresarial, com os benefícios daí decorrentes, sem torná-lo obrigado a tal registro. · Embora a regra geral seja a necessidade de registro, alguns tribunais, em casos específicos, têm reconhecido a atividade rural como empresaria mesmo antes do registro. Essas decisões, como o caso de do REsp 1.800.032 do STJ, consideram as particularidades de cada situação, não representando a regra geral. Nesse caso, a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), entendeu que o empresário rural poderá computar período anterior à formalização do registro na Junta Comercial para requerer a recuperação judicial. EVOLUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL I. Direito Mercantil: caracterizado pelas corporações de ofício; Direito costumeiro (consuetudinário), criado a partir de critérios subjetivistas e corporativista (segmentaristas). II. Direito Comercial: caracterizado pela teoria dos atos de comércio; positivado a partir do Código Comercial Francês de 1808 (Código Napoleônico); período de maior separação, maior autonomia em relação ao Direito Civil. III. Direito Empresarial: nomenclatura atualmente adotada; caracterizada pela aproximação e unificação, ainda que parcial (formal), com o Direito Civil, positivado a partir do Código Civil Italiano de 1942; adoção da teoria da empresa. A TEORIA DOS ATOS DE COMÉRCIO: · Inicialmente, o Direito Comercial focava em atos específicos, listados em códigos comerciais, praticados de forma habitual, É quando o indivíduo realizava esses atos, era considerado comerciante, com proteção jurídica específica. · Ao legislador francês coube a tarefa de elaborar um rol de atos considerados tipicamente mercantis. Este modelo, originado na França, influenciou legislações em Portugal e Espanha, por ocasião dos Códigos desses países, datados, respectivamente, de 1833 e de 1885. A TEORIA DA EMPRESA: · Essa teoria no Direito Empresarial significa que as leis empresariais não se aplicam apenas a certos e determinados atos de comércio específicos, mas a toda atividade econômica organizada e profissional, seja por pessoas físicas ou jurídicas, que visa a produção, venda de produtos ou prestação de serviços. · O critério passou a ser a "empresarialidade", ou seja, a forma como a atividade é exercida. Trouxe noções de quem pode ser considerado empresário e quais atividades podem ser enquadradas como empresárias. PRINCÍPIO DO DIREITO EMPRESARIAL · Princípio da Função Social da Empresa: · Esse princípio vai além da proteção jurídica da organização contra ações prejudiciais de sócios. Ele exige que o poder público preserve a atividade empresarial, reconhecendo seu papel fundamental no desenvolvimento econômico e social. É A gestão empresarial deve alinhar-se aos interesses da coletividade, utilizando os meios de produção de forma socialmente responsável. Isso implica: · Geração de empregos: Contribuir para a redução do desemprego e para a distribuição de renda. · Resultados positivos: Assegurar a sustentabilidade financeira da empresa, permitindo o giro de capital, a circulação de riqueza e o desenvolvimento de novas tecnologias. · Respeito ao meio ambiente: Adotar práticas sustentáveis que minimizem o impacto ambiental da atividade empresarial. · Proteção dos trabalhadores: Garantir a integridade física e moral dos colaboradores, oferecendo condições de trabalho dignas. · Bem-estar social: Promover ações que beneficiem a comunidade, mesmo que isso implique em sacrificar parte da rentabilidade. · A proteção da empresa, como atividade econômica organizada, é essencial para garantir que ela cumpra sua função social. Essa proteção abrange todos os que se beneficiam da atividade empresarial, incluindo a comunidade, o Estado e os parceiros de negócios. · Preservação da Empresa: · A continuidade da atividade empresarial, voltada à produção de riquezas por meio da circulação de bens ou da prestação de serviços, é essencial devido aos impactos negativos decorrentes de sua extinção, que resultam em prejuízos não apenas para os investidores, mas para toda a sociedade. · A empresa desempenha um papel fundamental no desenvolvimento social, promovendo a geração de empregos, o avanço tecnológico e o crescimento econômico do Estado. · Princípio da Livre-concorrência (art. 3°, lei n° 13.874/2019) · Todos podem concorrer livremente no mercado, com lealdade, visando à produção, à circulação e ao consumo de bens e serviços. Tendo como objetivo em impedir o domínio do mercado pelo poder econômico de maneira antissocial e com práticas abusivas. · O Estado deve atuar para coibir excessos por meio de tratamento desigual aos desiguais, na medida em que se desigualam e garantir concorrência justa, especialmente entre empresas de diferentes portes · Princípio da boa-fé objetiva · Explicitado no PLS, impõe aos empresários e sociedades empresárias que devem agir com probidade, lealdade, conciliatória e colaboração e em estrito cumprimento da lei. Aula 2 1. A Carta Magna de 1988 estabelece princípios fundamentais para a atividade empresarial: · Proteção ao nome empresarial (art. 5º, XXIX). · Possibilidade de participação dos trabalhadores na gestão (art. 7º, XI). · Garantia da livre iniciativa e livre concorrência (art. 170, IV). · A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: IV - livre concorrência. FONTES DO DIREITO EMPRESARIAL 2. Legislação Infraconstitucional: Codificada: · Código Civil. · Código Comercial (parte não revogada). Extravagante: · Lei das Sociedades Anônimas. · Estatuto da Microempresa. · Legislação sobre títulos de crédito (letras de câmbio, notas promissórias, cheques, duplicatas). · Lei de Contratos Mercantis (ex: concessão de veículos). · Lei de Locações. · Lei de Falências e Recuperação Judicial.3. Fontes Complementares: · Tratados e Convenções Internacionais: acordos que influenciam o direito empresarial interno. · Princípios Positivados em Lei: Exemplo: princípio da preservação da empresa (art. 47 da Lei nº 11.101/2005). Normas Regulamentares: · Decretos, instruções e regulamentos de autoridades competentes (ex: resoluções do Conselho Monetário Nacional, circulares do Banco Central). Autorregulação: · Códigos de ética de entidades privadas (ex: Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária). · Costumes, práticas e crenças (Direito Consuetudinário): práticas aceitas como normas obrigatórias, especialmente relevantes em contextos específicos (ex: comunidades indígenas). · Estrutura do Direito Empresarial: · Parte Geral: 1. Princípios; 2. Conceitos básicos. · Partes Especiais: 1. Direito Societário; 2. Títulos de Crédito; 3. Contratos Mercantis; 4. Direito Falimentar e Recuperacional. PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO EMPRESARIAL - PRINCÍPIOS CONCORRENCIAIS · Princípio da Livre Iniciativa (ou de liberdade de iniciativa ou liberdade de empreendimento): · Esse princípio, com base nas lições de Fábio Ulhoa Coelho, é essencial ao modo de produção capitalista, fundamentando-se em quatro condições principais: · A empresa privada garante à sociedade acesso aos bens e serviços necessários; · Gera empregos e riqueza para a sociedade e o Estado por meio de tributos; · Protege o investimento privado, beneficiando toda a sociedade; · O lucro é a principal motivação do empresário. · OBSERVAÇÃO: A Lei nº 13.874/2019, conhecida como Lei da Liberdade Econômica, reforça a liberdade de mercado e a proteção à iniciativa econômica privada. Seu Art. 1º, § 2º determina que normas sobre atividades econômicas devem ser interpretadas em favor da liberdade econômica, da boa-fé e do respeito aos contratos, investimentos e propriedade. · OBSERVAÇÃO: Além disso, o Art. 4º da mesma lei e os preceitos da jurisprudência do STF (Tema 697) estabelecem o dever da administração pública de evitar o abuso regulatório, como a criação indevida de reservas de mercado ou exigências artificiais de atividades profissionais. · Princípio da Livre Concorrência: · Possui fundamento constitucional e tem como objetivo garantir o funcionamento eficiente do capitalismo. Estimula a competitividade entre empresários, promovendo o fornecimento de bens e serviços com maior qualidade e menor preço. · Veda práticas de concorrência ilícita, divididas em duas categorias principais, conforme (segundo Fábio Ulhoa Coelho), · Infrações à ordem econômica: Práticas que prejudicam o ambiente concorrencial, afetando a economia de mercado. A Lei n. 12.529/2011 criou o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, pautado nos princípios da liberdade de iniciativa, livre concorrência, função social da propriedade, defesa do consumidor e repressão ao abuso do poder econômico; · Concorrência desleal: Práticas que prejudicam empresários individualmente, como a falsificação (contrafação) de produtos e a venda de piratarias. Esse tipo de conduta é regulado pela Lei n. 9.279/1996 (Lei de Propriedade Industrial). · O princípio da livre concorrência influencia os contratos empresariais, impondo rigor na observância do pacta sunt servanda (o contrato é lei entre as partes). No sistema capitalista, assume-se que os riscos são inerentes, onde decisões acertadas geram lucros e erros e podem levar a perdas, incluindo falência. A Lei nº 13.874/2019 (Lei da Liberdade Econômica) reforça esse rigor, assegurando que negociações paritárias sejam de livre estipulação das partes, aplicando as regras de direito empresarial apenas de forma subsidiária ao acordado, exceto em normas de ordem pública (art. 3º, VIII).. · Ofende o princípio da livre concorrência lei municipal que impede a instalação de estabelecimentos comerciais do mesmo ramo em determinada área [STF, Súmula Vinculante n. 49.]. · OBS: O princípio é protegido ao justificar prisão preventiva para garantia da ordem econômica e repressão de crimes. · “A prisão preventiva pode ser decretada para garantir a ordem pública e econômica, assegurar a aplicação da lei penal ou pela conveniência da instrução criminal, desde que haja prova do crime e indícios suficientes de autoria.” (art. 312º do CPP). . · Princípio do Tratamento Favorecido: · Garantem benefícios exclusivos às empresas de pequeno porte (em sentido lato: o empresário individual, a sociedade empresária e a empresa individual de responsabilidade limitada que explorem a “microempresa ou empresas de pequeno porte) que atendam aos seguintes requisitos: · Constituição: Devem ser criadas conforme as leis brasileiras. · Localização: Precisam ter sede e administração no Brasil. · Os que recebem esse tratamento privilegiado: · Empresário individual; · Sociedade empresária · Empresa individual de responsabilidade limitada (EIRELI) que explore microempresas ou empresas de pequeno porte. · OBS: Essa Discrímen (diferenciação) não é considerada inconstitucional, pois foi estabelecida pelo legislador constituinte originário. É uma medida razoável e legítima, que visa proteger os interesses nacionais. · O Art. 970º do CC reforça a garantia de tratamento favorecido para: o pequeno empresário e o empresário rural. · Benefícios Garantidos: São relacionados principalmente à inscrição e aos efeitos jurídicos decorrentes dessa condição. PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO DIREITO EMPRESARIAL NO BRASIL · O arcabouço jurídico empresarial brasileiro é moldado por um conjunto de princípios que visam equilibrar a liberdade econômica com a responsabilidade social. Estes preceitos, oriundos tanto do Código Civil quanto da legislação específica, estabelecem as diretrizes para a condução das atividades empresariais no país. 1. Princípios do Código Civil (Visão de Miguel Reale): · Socialidade: · A empresa, assim como os contratos e a propriedade, deve desempenhar uma função social, transcendendo os interesses individuais e contribuindo para o bem-estar coletivo. · Este princípio contrapõe-se ao individualismo exacerbado presente em legislações anteriores. · Eticidade: · A conduta empresarial deve ser pautada pela ética e pela boa-fé objetiva, que exige lealdade e transparência nas relações jurídicas. · Operabilidade: · O direito empresarial deve ser prático e eficaz, simplificando os institutos jurídicos e facilitando sua aplicação. · O uso de cláusulas gerais e conceitos indeterminados confere aos juízes maior flexibilidade para adaptar as normas aos casos concretos. 2. Princípios da Lei da Liberdade Econômica (Lei nº 13.874/2019): · Liberdade Econômica: garante a liberdade como princípio fundamental para o exercício de atividades econômicas. · Boa-fé do Particular perante o Poder Público: Presume-se a boa-fé dos particulares nas suas interações com o Estado. · Intervenção Subsidiária e Excepcional do Estado: O Estado deve intervir na atividade econômica de forma mínima e apenas em situações excepcionais. · Reconhecimento da Vulnerabilidade do Particular: Reconhece a vulnerabilidade dos particulares em relação ao poder estatal. · Intervenção Mínima e Excepcionalidade da Revisão Contratual: Nas relações contratuais privadas, deve-se priorizar a mínima intervenção do estado, e a revisão de contratos deve ocorrer apenas em casos extremos. · Presunção de Paridade e Simetria Contratual: · Contratos civis e empresariais são considerados iguais e simétricos, a menos que haja evidências concretas do contrário. · As partes possuem a liberdade para definir os parâmetros de interpretação contratual, a alocação de riscos e as condições para revisão ou rescisão. 3. Princípios da Função Social e Preservação da Empresa: · Função Social da Empresa: A empresa deve gerar benefícios para a sociedade, como empregos, tributos e riqueza, além de atender aos interesses dos empresários. · Preservação da Empresa: Objetiva assegurar a continuidade de empresas que sejam viáveis e cumpram sua função social. Esse princípio foca na proteção da atividadeempresarial, sem necessariamente beneficiar diretamente o empresário. Sua aplicação está restrita às empresas que comprovam sua viabilidade econômica e sua contribuição para o bem-estar coletivo. · Legislação de Apoio: · A Lei das Sociedades por Ações (Lei nº 6.404/1976) e a Lei de Recuperação e Falência (Lei nº 11.101/2005) reforçam a importância da função social e da preservação da empresa, estabelecendo diretrizes para a conduta dos acionistas controladores e para a recuperação de empresas em crise. · O acionista controlador, definido pela Lei nº 6.404/1976, Art. 116, é a pessoa ou grupo com poder para influenciar as decisões da companhia, seja por controle comum ou acordo de votos. De acordo com o parágrafo único, esse acionista tem o dever de exercer seu poder visando o cumprimento da função social da empresa, respeitando os direitos e interesses dos demais acionistas, funcionários e da comunidade onde a empresa opera. Além disso, deve atuar de forma leal e responsável. · O Art. 47 da Lei nº 11.101/2005 estabelece que a recuperação judicial tem como objetivo principal superar a crise econômico-financeira do devedor, garantindo a continuidade da fonte produtora, a preservação dos empregos, a satisfação dos interesses dos credores e a manutenção da empresa. Dessa forma, busca-se promover a função social da empresa e estimular a atividade econômica de maneira sustentável. 4. Princípio da Autonomia Patrimonial da Sociedade Empresária. · A sociedade empresária possui autonomia patrimonial, sendo distinta de seus sócios e responsável pelas próprias obrigações. O Art. 49-A do Código Civil reforça que a pessoa jurídica não se confunde com seus sócios, associados, instituidores ou administradores. Essa autonomia é um mecanismo legal que limita riscos, estimula empreendimentos e beneficia a sociedade com geração de empregos, tributos, renda e inovação. · O patrimônio dos sócios só responde por dívidas da sociedade em casos excepcionais previstos em lei, como na desconsideração da personalidade jurídica, aplicada em situações de abuso, como desvio de finalidade ou confusão patrimonial (Art. 50 do Código Civil). Essa medida é pontual e, mesmo quando aplicada, a pessoa jurídica continua a existir. A Lei da Liberdade Econômica restringiu sua aplicação aos sócios ou administradores diretamente ou indiretamente beneficiados pelo abuso. 5. Princípio da Subsidiariedade da Responsabilidade dos Sócios pelas Obrigações Sociais · Esse princípio estabelece que os bens dos sócios só podem ser usados para quitar as dívidas da sociedade após esgotados os bens do patrimônio social. Ele se aplica a todas as sociedades, independentemente da limitação de responsabilidade dos sócios. A satisfação das obrigações pelo patrimônio dos sócios ocorre de forma subsidiária e apenas quando comprovada a insuficiência do patrimônio da sociedade, conforme necessário. 6. Princípio da Propriedade Privada e Sua Função Social O ESTABELECIMENTO COMERCIAL (art. 1.142º e 1.149º) · De início, é importante esclarecer que o conceito jurídico de "estabelecimento" é definido pelo legislador como o conjunto de bens estruturado por empresário ou sociedade empresária para o exercício de atividades empresariais. Conforme o art. 1.142 do Código Civil, trata-se de um complexo de bens organizado especificamente para viabilizar o funcionamento da empresa. · Por definição, todo empresário deve possui ao menos um estabelecimento, a sua sede, a qual deve ser devidamente indicada para fins de registro empresarial. · O estabelecimento é, essencialmente, uma universalidade, formada por uma pluralidade de bens, corpóreos ou incorpóreos, pertencentes a uma pessoa e destinados de forma unitária (art. 90º do Código Civil). Apesar de cada bem singular integrante poder ser objeto de negócios jurídicos próprios, o estabelecimento, como unidade, também pode ser sujeito a negociações e direitos translativos ou constitutivos, compatíveis com sua natureza, conforme o art. 1.143º do Código Civil. · Desse modo, é tanto possível cada bem singular componente do estabelecimento ser objeto de negócio jurídico próprio, quanto pode o estabelecimento ser objeto unitário de direitos e negócios jurídicos, translativos ou constitutivos, que sejam compatíveis com a sua natureza, nos termos do que dispõe o art. 1.143, do Código Civil. · Entre os elementos centrais do estabelecimento, destacam-se o aviamento e a clientela. · A clientela corresponde ao conjunto de pessoas/consumidores que se relacionam com o empresário através do estabelecimento com o fim de consumir os bens e serviços por realizado. A doutrina distingue entre: 1. Clientes: consumidores fidelizados com relação subjetiva ao empresário. 2. Fregueses: consumidores ocasionais, atraídos pela conveniência da proximidade ou da localização deste. · O aviamento é o potencial de lucratividade de determinada atividade econômica. É amplamente reconhecido que o propósito que motiva os exercentes de atividades empresariais é o animus lucrandi, isto é, a busca por retorno positivo. · Não é o lucro objetivamente considerado, ou seja, a simples obtenção de ganho financeiro, que define uma atividade econômica, mas sim o lucro subjetivamente considerado, caracterizado pela intenção de alcançá-lo. · O aviamento mede esse potencial lucrativo e, no âmbito contábil e econômico, representa um sobre valor atribuído ao somatório dos valores dos bens que compõem o estabelecimento. Tal sobrevalor reflete o desempenho esperado do conjunto de bens em funcionamento coordenado. · A quantia paga a título de aviamento deve ser registrada como ativo da empresa e está sujeita à amortização anual, conforme sua relevância no contexto econômico e contábil. · O estabelecimento comercial é composto por patrimônio material e imaterial, constituindo. Sendo eles (REsp 633.179/MT, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, Quarta Turma, j. 02.12.2010, DJe 01.02.2011): 1. Patrimônio Material: os bens corpóreos essenciais à exploração comercial, como mobiliários, utensílios e automóveis 2. Patrimônio Imaterial: os bens e direitos industriais, como patente, nome empresarial, marca registrada, desenho industrial e o ponto). NOME EMPRESARIAL (arts. 1.155º a 1.168º do CC) · Nome Empresarial é a designação que identifica o empresário ou a sociedade empresária no mercado, permitindo-lhe adquirir direitos e assumir obrigações no mercado. O art. 1.155º define que o nome empresarial compreende a firma ou a denominação adotada para o exercício de empresa. · Nome empresarial abrange a firma e a denominação, utilizada pelo empresário individual (como no caso do EIRELI) ou pela sociedade empresária e pela cooperativa para exercer suas atividades e vincular-se juridicamente, como realizar negócios e formalizar obrigações (art. 1º e parágrafo único da Instrução Normativa DREI nº 15/2013). · Conforme André Santa Cruz, o nome empresarial cumpre duas funções principais: 1. Subjetiva: Identificar e individualizar o sujeito de direitos que exerce a atividade empresarial. 2. Objetiva: Garantir renome e reputação ao seu titular. · EXEMPLO: Uma sociedade empresária tem o nome empresarial de Brastemp. S.A. Aparelhos Domésticos e Comerciais, com o qual assina seus contratos; o seu estabelecimento utiliza o nome fantasia Brastemp Multibrás; seus produtos utilizam a marca Brastemp (inclusive atualmente é uma marca de alto renome); explora o nome de domínio www.brastemp.com.br; e utiliza, entre outros, o sinal de propaganda “não é uma Brastemp”. · Existem duas espécies de nome empresarial, nos termos do art. 1.155º do CC: · Firma: Baseia-se no nome civil do empresário individual ou dos sócios de uma sociedade empresária, completo ou abreviado, sendo facultada de incluir uma designação que especifique a pessoa ou o gênero/ramo de atividade. · Denominação: Pode adotar qualquer expressão linguística. Desde a alteração dos arts. 1.160º e 1.161º do CC pela MP 1.085º/2021 (originalmente pela Lei nº. 14.195/2021), a designação do objeto social tornou-se facultativa,deixando de ser obrigatória para sociedades anônimas e em comandita por ações. · Nome Empresarial e os Tipos Societários – Será avaliada em cada tipo societário as regras necessárias para o nome. DIREITO DE PROPRIEDADE DE INDÚSTRIA · A Lei nº. 9.279, de 1996 (Lei de Propriedade Industrial – LPI) regula a propriedade industrial, protegendo direitos em cinco esferas: · São cinco as esferas de proteção conferidas aos direitos relativos à propriedade industrial: i – Concessão de patentes de invenção e de modelo de utilidade; ii – Concessão de registro de desenho industrial; iii – Concessão de registro de marca; iv – Repressão às falsas indicações geográficas; v – Repressão à concorrência desleal. DEBATE SOBRE O NOVO CÓDIGO COMERCIAL A PROPOSTA DE UM NOVO CÓDIGO COMERCIAL GERA CONTROVÉRSIAS: · Posição favorável (Professor Fábio U. Coelho): Defende que os valores do Direito Comercial foram esquecidos pelos operadores do Direito e devem ser resgatados por meio de um novo Código, adaptado à realidade econômica brasileira. · Posição contrária (Comissão de Juristas): Critica a falta de precisão técnica, soluções improvisadas e imprecisões do texto, que poderiam trazer insegurança jurídica e prejudicar o desenvolvimento empresarial. · Propriedade Privada e Função Social A propriedade privada é essencial ao sistema capitalista, organizando o mercado e viabilizando a formação de preços. O empresário, ao assumir riscos, busca o lucro como recompensa, mas a propriedade deve também cumprir sua função social, promovendo: · Desenvolvimento nacional; · Valorização do trabalho humano; · Respeito ao consumidor e ao meio ambiente; · Redução das desigualdades, conforme o art. 3º, II da Constituição. · O equilíbrio entre a função social e a preservação da empresa é indispensável para não desestimular a atividade empresarial, que envolve riscos essenciais ao progresso da sociedade. DIREITO EMPRESARIAL E SUA RELAÇÃO COM OUTROS RAMOS DO DIREITO · Direito Empresarial - Direito Constitucional · O Direito Constitucional serve como base para o Direito Empresarial, estabelecendo princípios que orientam e regulam a atividade empresarial, como: a) Liberdade negocial (autonomia privada). b) Função social da propriedade. c) Ordem econômica e social. d) Sistema Financeiro Nacional. · · OBS: a organização econômica das atividades empresariais é reconhecida como um direito garantido às pessoas, porém submetido a certos limites, a fim de atender aos interesses da coletividade (conforme CF, arts. 5.º, II, 170, caput e inc. IV, entre outros). Esse sistema, de forma geral, é similar aos adotados pelos ordenamentos jurídicos de base romano-germânica. · A atividade empresarial é livre, mas deve respeitar sua função social e não pode ser exercida de maneira a causar prejuízo à segurança, à liberdade ou à dignidade humanas. · Direito Empresarial - Direito Civil · O Direito Civil compartilha o campo do Direito Privado com o Direito Empresarial, servindo como a base mais próxima na qual este se fundamenta, embora se distingam pela especialização na atividade empresarial. · É por meio do Direito Civil que o Direito Empresarial se estrutura, adotando seus princípios em aspectos relacionados às pessoas naturais e jurídicas, aos bens, às obrigações, aos contratos em geral, aos atos unilaterais e ao Direito das Coisas. Apesar da unificação formal do Direito Privado não ter eliminado o Direito Empresarial, ela promoveu uma aproximação significativa entre ambos os ramos · Direito Empresarial - Direito Administrativo · A intervenção estatal regula os mercados e conecta o Direito Empresarial ao Direito Administrativo. As agências reguladoras complementam as autarquias nesse processo. O Estado atua como agente e tutor da atividade econômica privada, garantindo limites e equilíbrio no mercado. · Direito Empresarial - Direito Tributário · A atividade empresarial, ao gerar riquezas, constitui uma importante fonte de recursos para atender às necessidades do Estado, regulamentada pelo Direito Tributário. · Os negócios e os resultados das empresas configuram os fatos geradores dos tributos de responsabilidade dos empresários; · A integração entre o Direito Tributário e o Direito Empresarial permite, em muitos casos, que o empresário encontre formas menos onerosas de cumprir suas obrigações tributárias, podendo obter vantagens competitivas em relação a concorrentes que desconhecem ou não utilizam esses mecanismos. · Direito Empresarial – Direito Consumidor · Empresas que fornecem bens e serviços estão sujeitas ao Código de Defesa do Consumidor (CDC). · O CDC protege os consumidores e impõe obrigações às empresas. · O Direito do consumidor se sobrepõe ao Direito empresarial quando a relação jurídica envolve a figura do consumidor. · Direito Empresarial – Direito Penal · O Direito Penal tem como objetivo prevenir e punir práticas ilícitas no âmbito empresarial. Exemplos incluem crimes falimentares, contra a ordem tributária, de "colarinho branco" (Lei 7.492/1986) e de lavagem de dinheiro (Lei 9.613/1998). · O Direito Empresarial fornece o núcleo do tipo penal em diversos crimes econômicos. A criminalização de condutas empresariais é vasta. · Direito Empresarial - Direito Trabalhista · As relações entre empregadores e empregados são reguladas pelo Direito do Trabalho. Ex¹: Quando o empregador procura disfarçar a condição de seus empregados como representantes comerciais autônomos ou como sócios minoritários de sociedades das quais fazem parte em conjunto. · Ex²: Praticam uma falsa terceirização da atividade, obrigando os empregados a se demitirem e a constituírem sociedades comerciais de fachada, que terão como único cliente o antigo empregador. Em outras ocasiões a terceirização é efetiva, com plena independência dos antigos empregados. · A solução dos exemplos acima, será dada pela confrontação entre os princípios de um e de outro daqueles direitos, a fim de se poder verificar se não está escondida do Estado uma relação de emprego. · Direito Empresarial - Direito Processual · O Processo Civil é o instrumento para efetivar os princípios do Direito Empresarial. · Ação renovatórias de locação. · Nos institutos da falência e da recuperação da empresa, por meio dos quais são regulados os mecanismos de atendimento aos credores do empresário em crise, incluindo-se nesse campo a ação revocatória, destinada a garantir a reposição da massa à situação imediatamente anterior à prática de atos ineficazes; etc. image1.png image2.png image4.jpg image3.jpg