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Noções Elementares de Sociedade, Direito e Estado 1 O Direito como instrumento de Controle Social: O ser humano é um ser gregário e político vivendo em grupos, em sociedade É natural que entre tais grupos surjam con�itos, discórdias e interesses distintos entre si. Para que a sociedade sobreviva é necessário que os con�itos sejam resolvidos (compostos) e, para tanto, os membros dos grupos sociais dispuseram de vários meios com o objetivo de estabelecer limites às ações humanas e promover o equilíbrio à sociedade. O Direito é um desses instrumentos, cujo principal objetivo é o estabelecimento de normas de conduta visando prevenir o con�ito e viabilizar a existência em sociedade, trazendo paz, segurança e justiça. 2 A Interação e a Ordem Social A ordem social pode ser conceituada como o fenômeno do regramento do convívio entre os homens em um permanente processo de socialização do ser humano por meio de métodos e preceitos que vão sendo criados pelo grupo para padronizar a conduta individual adequando-a ao convívio. Nesse sentido, as principais funções do Direito seriam solucionar con�itos e regulamentar e orientar a vida em sociedade, assim como legitimar o poder político e jurídico. 3 O Estado e a Ordem Social A sociedade humana tem uma estrutura natural sem a qual faltariam as tentativas de organizá-la: as instituições. As instituições são vigas estabelecidas pelo costume, pela razão e pelos sentimentos que alicerçam a sociedade estruturando-a. A mais antiga das instituições seria a família e a mais relevante de todas seria o Estado. Cumpre ao Estado a tarefa de estabelecer o ordenamento jurídico, que é o conjunto de normas de conduta juridicamente relevantes para o conjunto da sociedade, realizado por meio de procedimentos próprios, no processo legislativo. 4 5 Introdução ao Estudo do Direito 6 Índice Aspectos Introdutórios08 O Direito como Ciência: Epistemologia Jurídica 10 O Direito como Justo: Axiologia Jurídica 14 O Direito como Norma: Teoria da Norma Jurídica 35 O Direito como Faculdade: Teoria dos Direitos Subjetivos 61 O Direito como Fato Social: Sociologia do Direito 68 7 Aspectos Introdutórios 8 Norma - "o direito não permite o duelo" - "direito" signi�ca norma, a lei, a regra social obrigatória. Faculdade - "O Estado tem o direito de legislar" - "direito signi�ca a faculdade, o poder, a prerrogativa que o Estado tem de criar leis. Justo - "a educação é direito da criança" - "direito" signi�ca o que é devido por justiça. Aspectos Introdutórios O que é o Direito? André F. Montoro indica cinco realidades fundamentais: Ciência - "cabe ao direito estudar a criminalidade" - "direito" signi�ca ciência, ou, mais exatamente, a ciência do direito. Fato Social- "o direito constitui um setor da vida social" - "direito" é considerado como fenômeno da vida coletiva. 9 O Direito como Ciência: Epistemologia Jurídica 10 Epistemologia Jurídica - O Direito é uma ciência? Para Tércio Sampaio Ferraz Junior “o termo ciência não é unívoco, se é verdade que com ele designamos um tipo especí�co de conhecimento; não há, entretanto, um critério único que determine a extensão, a natureza e os caracteres deste conhecimento; tem fundamentos �losó�cos que ultrapassam a prática cientí�ca, mesmo quando esta prática pretende ser ela própria usada como critério” (1986, p. 9). Dessa forma a expressão utilizada pelo autor, de que a ciência não possui sentido unívoco, evidencia que é composta de elementos e de enunciados que visam a transmitir informações verdadeiras sobre tudo o que existe, existiu ou existirá. O conhecimento cientí�co quer, na verdade, que essas constatações e enunciados tornem-se descritivos, comprovando assim a existência desses dados. O conhecimento cientí�co se constitui, nesse sentido, num corpo sistemático de enunciados verdadeiros. Como não se limita a constatar o que existiu e o que existe, mas também o que existirá, o conhecimento cientí�co possui um manifesto sentido operacional, constituindo-se num sistema de previsões, bem como de reprodução e inferência dos fenômenos que descreve (cf. Ferraz Junior, 1986, p. 17). • 11 Epistemologia Jurídica - O Direito é uma ciência? A problemática da ciência do Direito reside justamente na questão do seu método e de seu objeto de conhecimento, pois para alguns juristas a ciência do Direito é uma atividade intelectual que tem por objeto o conhecimento racional e sistemático dos fenômenos jurídicos, enquadrando-se então num conhecimento unívoco e não variado. É este, portanto, o conceito de ciência do Direito que se encontra nos mais variados manuais estudados, ou seja, de uma ciência dogmática, estática, chamada dogmática jurídica. Por possuir essas características, seu papel seria somente avaliar o que está contido basicamente nas leis e nos códigos. Não é de natureza crítica, isto é, não penetra no plano da discussão quanto à conveniência social das normas jurídicas. • 12 Epistemologia Jurídica - O Direito é uma ciência? A partir disso se pode questionar como uma ciência como o Direito pode permanecer alheia a valores, se o princípio fundamental dessa área do saber é trabalhar com questões humanas, que são variáveis, jamais estáticas ou vinculadas à norma posta. Se a ciência é conhecimento, ela é mutável, mesmo que se trabalhe com conceitos que digam que deve ser descritiva. Para que se concretize numa verdadeira ciência, temos de trabalhar então com normas descritíveis, mas que estejam sempre preparadas para possíveis modi�cações de acordo com o progresso social que envolve o Direito. Nesse sentido, o que mais intriga a maioria dos juristas é como a ciência se constitui, se há divergências sobre a sua real existência (método e objeto). A di�culdade surge no aspecto da existência de uma ciência autônoma do Direito, o que traz à discussão se os fenômenos jurídicos podem ser ou não objeto de re�exão e análise sob os diversos pontos de vista de outros ramos do saber (cf. La Torre, 1978, p.124). • 13 O Direito como Justo: Axiologia Jurídica 14 A justiça é o magno tema do Direito e, ao mesmo tempo, permanente desa�o aos �lósofos do Direito, que pretendem conceituá-la, e ao próprio legislador que, movido por interesse de ordem prática, pretende consagrá-la nos textos legislativos. A sua de�nição clássica foi uma elaboração da cultura greco-romana. Com base nas concepções de Platão e de Aristóteles, o jurisconsulto Ulpiano assim a formulou: Justitia est constans et perpetua voluntas jus suum cuique tribuendi (Justiça é a constante e �rme vontade de dar a cada um o que é seu). Inserida no Corpus Juris Civilis, a presente de�nição, além de retratar a justiça como virtude humana, apresenta a ideia nuclear desse valor: Dar a cada um o que é seu. Esta colocação, que enganadamente alguns consideram ultrapassada em face da justiça social, é verdadeira e de�nitiva; válida para todas as épocas e lugares, por ser uma de�nição apenas de natureza formal, que não de�ne o conteúdo do seu de cada pessoa. O que sofre variação, de acordo com a evolução cultural e sistemas políticos, é o que deve ser atribuído a cada um. O capitalismo e o socialismo, por exemplo, não estão de acordo quanto às medidas de repartição dos bens materiais na sociedade. O Direito como Justo: Axiologia Jurídica 15 Espécies/classi�cações de Justiça Justiça Comutativa; Justiça Distributiva; Justiça Geral; Justiça Social; 16 Espécies/Classi�cações de Justiça Justiça Distributiva. Esta espécie apresenta o Estado como agente, a quem compete a repartição dos bens e dos encargos aos membros da sociedade. Ao ministrar ensino gratuito, prestar assistência médico-hospitalar, efetuar doação à entidade cultural ou bene�cente, o Estado desenvolve a justiça distributiva. Orienta-se de acordo com a igualdade proporcional, aplicada aos diferentes graus de necessidade. A justiça penal inclui-se nesta espécie, pois o Estado participa da relação jurídica e impõe penalidadesaos autores de delitos. Justiça Comutativa. É a forma de justiça que preside às relações de troca entre os particulares. O critério que adota é o da igualdade quantitativa, para que haja correspondência entre o quinhão que uma parte dá e o que recebe. Abrange as relações de coordenação e o seu âmbito é o Direito Privado. Manifesta-se principalmente nos contratos de compra e venda, em que o comprador paga o preço equivalente ao objeto recebido. Hobbes criticou a concepção de que a justiça comutativa consistia em uma proporção aritmética, pela qual se exigia igualdade de valor das coisas que são objetos de contrato. A�rmou que “o valor de todas as coisas contratadas é medido pelo apetite dos contratantes, portanto o valor justo é o que eles acham conveniente oferecer”. Igualmente negou que a justiça distributiva fosse uma proporção geométrica que repartisse benefícios iguais a pessoas de mérito igual. Entendia que “o mérito não é devido por justiça, é recompensado apenas pela graça... A justiça distributiva é a justiça de um árbitro, isto é, o ato de de�nir o que é justo”. 17 Espécies/Classi�cações de Justiça Justiça Geral. Para o Doutor Angélico esta forma de justiça consiste na contribuição dos membros da comunidade para o bem comum. Os indivíduos colaboram na medida de suas possibilidades, pagando impostos, prestando o serviço militar etc. É chamada legal por alguns, pois geralmente vem expressa em lei. Justiça Social. A �nalidade da justiça social consiste na proteção aos mais pobres e aos desamparados, mediante a adoção de critérios que favoreçam uma repartição mais equilibrada das riquezas. Conforme acentuam Mouchet y Becu, a justiça social pode coincidir com as outras espécies em uma relação jurídica. Assim, ao mesmo tempo, o justo salário con�gura a justiça comutativa e a social. A justiça social observa os princípios da igualdade proporcional e considera a necessidade de uns e a capacidade de contribuição de outros. No plano internacional é defendida atualmente com o objetivo de que as nações mais ricas e poderosas favoreçam às que se acham em fase de desenvolvimento. Amplamente difundidas na atualidade, as chamadas ações a�rmativas se inserem na orientação e ideologia da justiça social, pois visam proporcionar igualdade de oportunidade a segmentos sociais discriminados em razão de raça, etnia, gênero, religião ou por motivos diversos, injusti�cáveis à luz da moral. Em realidade, os direitos individuais, assegurados no art. 5º da Constituição Federal, só teoricamente satisfazem às exigências de igualdade de oportunidade. Eles não têm o poder de eliminar a injustiça histórica, presente na sociedade contemporânea, daí a necessidade de implementação de medidas e�cazes à inclusão social. 18 Signi�cação da Justiça para o Direito: O Direito Natural e o Direito Positivo A corrente jusnaturalista não se tem apresentado, no curso da história, com uniformidade de pensamento. Há diversos matizes, que implicam a existência de correntes distintas, mas que guardam entre si um denominador comum de pensamento: a convicção de que, além do Direito escrito, há uma outra ordem, superior àquela e que é a expressão do Direito justo. É a ideia do Direito perfeito e por isso deve servir de modelo para o legislador. É o Direito ideal, mas ideal não no sentido utópico, mas um ideal alcançável. A divergência maior na conceituação do Direito Natural está centralizada na origem e fundamentação desse Direito. Para o estoicismo helênico, localizava-se na natureza cósmica. No pensamento teológico medieval, o Direito Natural seria a expressão da vontade divina. Para outros, se fundamenta apenas na razão. O pensamento predominante na atualidade é o de que o Direito Natural se fundamenta na natureza humana. O DIREITO NATURAL O motivo fundamental que canaliza o pensamento ao Direito Natural é a permanente aspiração de justiça que acompanha o homem. Este, em todos os tempos e lugares, não se satisfaz apenas com a ordem jurídica institucionalizada. O Direito Positivo, visto como expressão da vontade do Estado, é um instrumento que tanto pode servir à causa do gênero humano como pode consagrar os valores negativos que impedem o pleno desenvolvimento da pessoa. Por inclinação, ao questionar o Direito Positivo vigente, o homem busca, em seu próprio sentimento de justiça e de acordo com a sua visão sobre a ordem natural das coisas, encontrar a legitimidade das normas que lhe são impostas. O contrário, a atitude acrítica, seria a admissão de que não existe, para o legislador, qualquer limite ou condicionamento na tarefa de estruturar a ordem jurídica. 19 Signi�cação da Justiça para o Direito: O Direito Natural e o Direito Positivo O positivismo jurídico, �el aos princípios do positivismo �losó�co, rejeita todos os elementos abstratos na concepção do Direito, a começar pela ideia do Direito Natural, por julgá-la metafísica e anticientí�ca. Em seu afã de focalizar apenas os dados fornecidos pela experiência, o positivismo despreza os juízos de valor, para se apegar apenas aos fenômenos observáveis. Para essa corrente de pensamento o objeto da Ciência do Direito tem por missão estudar as normas que compõem a ordem jurídica vigente. A sua preocupação é com o Direito existente. Nessa tarefa, o investigador deverá utilizar apenas os juízos de constatação ou de realidade, não considerando os juízos de valor. Em relação à justiça, a atitude positivista é de um ceticismo absoluto. Por considerá-la um ideal irracional, acessível apenas pelas vias da emoção, o positivismo se omite em relação aos valores. Para o positivismo jurídico só existe uma ordem jurídica: a comandada pelo Estado e que é soberana. O POSITIVISMO O positivismo �losó�co �oresceu no século XIX, quando o método experimental era amplamente empregado, com sucesso, no âmbito das ciências da natureza. O positivismo pretendeu transportar o método para o campo das ciências sociais. O trabalho cientí�co deveria ter por base a observação dos fatos capazes de serem comprovados. A mera dedução, o raciocínio abstrato, a especulação, não possuíam dignidade cientí�ca, devendo, pois, �car fora de cogitação. O método experimental, adotado pelo positivismo, compõe- se fundamentalmente de três fases: a) observação; b) formulação de hipótese; c) experimentação. 20 Escolástica medieval A prevalência da moral sobre o direito só é possível em sociedades que comungam (ou pensam comungar impondo essa comunhão) de ideais comuns sobre moral e direito, como, por exemplo, a ordem da Idade Média, que era uni�cada pela concepção religiosa cristã da vida. Trata-se aqui da tradição escolástica do jusnaturalismo, que tem nas tradições patrística de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino seus principais formuladores. O pensamento escolástico a�rmava a existência de uma ordem natural que estaria submetida à lei eterna que erige todos os seus movimentos, sendo que seria a razão de Deus a criadora dessa ordem natural. Ao homem, por ser uma criatura racional, seria dado participar dessa lei eterna, cujo conhecimento lhe permitiria formular os princípios da lei natural. Direito e Moral 21 Jusracionalismo Com o advento do racionalismo nos séculos XVII e XVIII, nasce a ambição de se elaborar um sistema de direito justo. Assim, houve tentativas de se laicizar o direito natural, o qual passava a ser concebido como um direito puramente racional. A ideia de que o direito justo, da mesma forma que as leis da natureza, fosse uma expressão da razão universal, desenvolveu-se em duas tradições opostas: a tradição racionalista e a tradição empirista. Fossem as leis naturais e aquelas que devem reger as relações entre os homens encontradas "a priori" ou "a posteriori", graças às ideias evidentes ou graças à experiência, o papel dos homens deveria limitar-se a descobri-las ou registrá-las, pois toda a iniciativa humana neste terreno só pode levar a erro e arbitrariedades.Direito e Moral 22 Contratualismo A doutrina política de Thomas Hobbes não compactua com a ideia jusnaturalista de que pode ser derivada da razão uma jurisprudência de caráter universal, pois, para esse autor, "o direito não é a expressão da razão, mas de uma manifestação de vontade do Soberano". Para Hobbes, não há outo critério do justo ou do injusto senão a lei positiva, ou seja, somente o que for ordenado pelo soberano é tido como justo, pelo simples fato de ter sido ordenado; e só é injusto aquilo que é proibido, só pelo fato de estar proibido. Nesse caso, o próprio direito natural desaparece como instituição da sociedade política, justamente, porque, uma vez instituído o soberano como único legislador, não há lugar para qualquer direito que não tenha origem nele. Leis naturais e costumes valem apenas enquanto não foram contrariados pelas suas leis positivas. Direito e Moral 23 Contratualismo De acordo com Montesquieu, caberia ao legislador a tarefa de tornar positivas, promulgando-as, as relações de justiça que cada um não poderia deixar de perceber não fossem os interesses particulares suscetíveis de confundir tal percepção. Nessa perspectiva, nada seria mais danoso do que a concentração de todos os poderes nas mãos de um só (como sustenta Hobbes), "pois haveria o risco de ele impor leis que visassem essencialmente não a proclamar o que é justo, mas a considerar como legal o que favorece seu próprio interesse". Assim, interessa lembrar que Montesquieu não admitia a ideia de jurisprudência universal, sustentando que uma forma adequada de para evitar abusos é a separação dos poderes. Direito e Moral 24 Contratualismo Finalmente, consoante Rousseau, quem detém o poder é a própria sociedade civil, cujo exercício é soberano e exprime a vontade do povo, não podendo esta ser limitada, desde que respeite uma dupla condição: a) que não haja sociedade parcial dentro do Estado e cada cidadão opine apenas por si próprio; e b) que essa vontade não se reporte a interesses particulares, mas seja movida por interesse geral: acordo admirável entre o interesse e a justiça que dá às deliberações comuns um caráter de equidade, que vemos desaparecer na discussão nas questões particulares, na ausência de um interesse comum que una e identi�que a regra do juiz com a da parte. Direito e Moral 25 Escola da Exegese Segundo Miguel Reale, sob "o nome Escola da Exegese entende-se aquele grande movimento que, no transcurso do século XIX, sustentou que na lei positiva, e de maneira especial no Código Civil, já se encontra a possibilidade de uma solução para todos os eventuais casos ou ocorrências da vida social. Tudo está em saber interpretar o Direito. Dizia, por exemplo, Demolombe que a lei era tudo de tal modo que a função do jurista não consistia senão em extrair e desenvolver o sentido pleno dos textos, para aprender-lhes os signi�cados, ordenar as conclusões parciais e, a�nal, atingir as grandes sistematizações". Os códigos napoleônicos eram tidos como a vontade geral. Já a lei era tida como a própria razão escrita, o que tornou desnecessárias preocupações com o direito natural, a justiça ou a moral, pois a lei era o todo. Direito e Moral 26 Escola Histórica Alemã A Escola Histórica, em suma, leciona que a consciência jurídica popular é a única verdade do direito positivo, sustentando que o direito positivo emana do espírito geral que anima todos os membro de uma nação, em que cada direito é a síntese de forças, crenças, sentimentos e atividades de seu povo, sua unidade não é produto casual, pois responde à sua própria história. A tese da corrente historicista consiste em a�rmar que o direito não é criado conscientemente por deliberações racionais, desenvolvendo-se, sim, de forma cega e orgânica como expressão do espírito do povo e da consciência jurídica popular. O costume, e não as leis, é, portanto, a fonte suprema do direito. A Escola história expressa repulsa à codi�cação (porquanto negava o racionalismo do Código Napoleônico), bem como nega o direito natural (uma vez que o jusnaturalismo apregoa a universalidade e imutabilidade do Direito). Direito e Moral 27 Escola Pandectista - Jurisprudência dos Conceitos Segundo a Escola Padenctista, o trabalho intelectual dos juristas deve consistir sobretudo na construção de um sistema de conceitos jurídicos, o qual devem ser obtidos por meio da indução, a partir das máximas do ordenamento jurídico (e não da re�exão abstrata). Em suma, o conceitualismo pretende formular conceitos jurídicos universais: a propriedade, o contrato, o vínculo obrigacional, o direito real, que são noções que se obtém mediante uma re�exão lógica, e por abstração, que vão separando os elementos particulares dos gerais. São resultados característicos da doutrina pandectista: a teoria da subsunção, o dogma da plenitude lógica do ordenamento jurídico e a interpretação objetivista (sentido da norma não da intenção do legislador (subjetiva), mas sim dos sentidos objetivos do contexto (sistemática/objetiva) Direito e Moral 28 Conclusão parcial São características comuns da Exegese, historicismo e pandectismo: a recusa de subjetivismo e moralismo. Assim, o saber jurídico deve observar os métodos objetivos e veri�cáveis, devendo os juízos de valor serem objeto de estudo da �loso�a ou da política do direito. Para a Exegese, o importante era a lei, pelo que o jurídico tinha que incidir unicamente sobre ela, integrando-a e explicando-a. Para o Historicismo, o positivo era o direito plasmado na vida, nas instituições ou num espírito do povo que se objetivava nas formas cotidianas observáveis de viver o direito. Para os pandectistas, positivos eram os conceitos jurídicos, genéricos e abstratos, rigorosamente construídos e concatenados, válidos independentemente da variabilidade da legislação positiva, obedecendo ao novo modelo de ciência como discurso de categorias teoréticas. Direito e Moral 29 O Positivismo Jurídico de Hans Kelsen Desenvolvimento de uma teoria PURA do direito: afastada da ideologia política, de modo a conferir cienti�cidade ao direito; • Rejeição ao jusnaturalismo: não existe direito for do direito positivo;• Separação Total entre o Direito e moral;• Concepção do direito como uma ordem coativa, isto é, uma técnica de controle social marcada pela sanção; • Ideia de que o direito pode ter qualquer conteúdo, uma vez que o traço distintivo do direito é a sua forma, a técnica especí�ca de produção de normas jurídicas; • Desenvolvimento de estrutura lógica própria da norma jurídica: as leis da física se encontram no campo do ser, já as normas jurídicas consistem em um dever ser, marcado por um nexo de imputação, o qual cria uma consequência jurídica. Todavia, gize-se: o direito como dever-ser possui um sentido puramente lógico estrutural, desprovido do sentido moral; e • Crença em uma norma fundamental no plano suposto.• Direito e Moral 30 Robert Alexy Alexy defende a tese de que entre direito e moral existe uma relação de complementaridade. A moral serviria, nesse caso, como um parâmetro de correção do direito. Este preservaria uma “autonomia relativa”, na medida em que os padrões de legalidade, conformidade com o ordenamento e e�cácia social, estariam mantidos, porém, na existência de algum tipo de lacuna ou até mesmo em casos de evidente injustiça, o discurso moral poderia corrigir o discurso jurídico. Segundo o autor, nos discursos sobre o direito, sempre está em jogo a correção de enunciados normativos. Mas os enunciados normativos não são todos do mesmo tipo; comportam enunciados axiológicos – quando se referem a valores – e deônticos quando está em jogo uma proibição, uma permissão ou um mandamento. Direito e Moral 31 Robert Alexy Desse modo, o conceito de norma é alargado e o discurso normativo passa a comportar, no interior da teoria da argumentação jurídica, um sentido deôntico e um sentidoaxiológico. Explicando melhor: Alexy descreve uma norma deôntica e uma norma axiológica. A norma deontológica é composta por dois tipos de enunciados: as regras e os princípios; também a norma axiológica comporta dois tipos de enunciados que são as regras de valoração e os critérios de valoração que são propriamente o valor. Alexy restringe o âmbito em que os valores podem in�uir na argumentação jurídica, mas reconhece a in�uência que eles exercem por meio dos princípios. Desse modo, os princípios são normas deônticas que são aplicadas, a partir do procedimento da ponderação, através de um juízo valorativo que será o locus por onde o discurso prático (moral) ingressará no discurso jurídico. Direito e Moral 32 Robert Alexy Destarte, com Alexy, temos uma classi�cação da norma a partir do reconhecimento dos princípios como espécies deônticas deste gênero. Daí sua conceituação de princípio como mandado, que é uma das dimensões da lógica deôntica (além do proibido e do permitido). Ao lado do conceito de princípio como mandamento – que lhe confere propriamente a forma deôntica – Alexy insere a ideia de otimização que deve ser entendida como a ordenação para que algo seja realizado na maior medida possível, dentro das possibilidades jurídicas e reais existentes. Como coexistem sistematicamente e todos os princípios constitucionais possuem esse elemento da otimização, não raro tais princípios colidem e essa colisão deverá ser resolvida pelo intérprete, antes de aplicar a regra pertinente ao caso concreto. A resolução desta colisão de princípios se dá por meio de um juízo valorativo do intérprete, que é regrado e limitado racionalmente pelo procedimento da ponderação. Direito e Moral 33 Ronald Dworkin Baseado em Dworkin, Lenio Streck a�rma que entre direito e moral existe uma relação de cooriginariedade: embora haja especi�cidades próprias de cada um destes campos – e.g., o direito possui seu grau de autonomia – o direito e a moral compartilham a mesma origem de modo que, em sua constituição, o argumento jurídico é moral (na medida em que, para se saber qual o melhor argumento jurídico para conformar um caso concreto, é preciso proceder a valorações de ordem moral). É importante considerar que, em toda obra de Dworkin, o argumento jurídico aparece como um tipo especí�co de argumento moral. Nesse sentido, Stephen Guest a�rma que a justi�cação moral é um ingrediente essencial para o argumento jurídico e que, no contexto da obra dworkiniana, “a existência do direito é uma justi�cação moral para a coerção do Estado, a�rmando que o conceito de direito que compartilhamos é um conceito por meio do qual entendemos que o sentido do direito é limitar e autorizar a coerção governamental”. Direito e Moral 34 Miguel Reale Teoria Tridimensional do Direito: fato, valor e norma. Para Reale, o direito é a síntese histórica de dois elementos pertencentes a realidades diferentes: fato (econômico, geográ�co, demográ�co, etc.) e valor (justiça, ordem, garantia, etc.), concretizados dialeticamente na norma jurídica. Assim, a norma jurídica é a síntese ou unidade histórica resultante da interação dinâmica e dialeticamente aberta a novas sínteses de fatos e valores. A dimensão normativa do direito corresponde ao Dever-Ser (Deôntica) do Direito. Já a dimensão do fato remete às correntes de per�l sociológico e realista do �nal do século XIX, sendo a reaproximação entre a ciência do Direito e a esfera do Ser (Ôntica). Por �m, a dimensão valorativa ou axiológica é um retrato da preocupação moral presente nas diferentes concepções sobre o Direito Natural, surgidas ao longo dos séculos. Direito e Moral 35 O Direito como Norma Jurídica: Teoria da Norma Jurídica 36 Teoria das Fontes e sua Visão Contemporânea Castanheira Neves oferece um conceito técnico e preciso de fontes do direito. Assim, somente podem ser consideradas fontes os processos, atos ou modos constitutivos de positivação do direito. As fontes não são nem o próprio direito e nem mesmo, necessariamente, seus fundamentos de validade. Em regra, a doutrina identi�ca como fontes do direito os seguintes institutos: lei; costume; jurisprudência e a doutrina. O costume e a lei são considerados como fontes diretas porque in�uenciam a própria formação do direito, já a doutrina e a jurisprudência seriam fontes mediatas porque seriam modos de revelação do direito. Atualmente, essa classi�cação tradicional das fontes do direito está defasada, seja porque diversos outros institutos podem ser assim considerados, tal como as súmulas vinculantes, medidas provisórias e precedentes judiciais, seja porque a distinção entre imediata e mediata não faz mais sentido, haja vista que a própria jurisprudência tem sido cada vez mais dotada de efeito vinculante, com o intuito de assegurar sua efetividade. 37 Teoria das Fontes e sua Visão Contemporânea A teoria tradicional das fontes jurídicas apresenta-se defasada porque pautada no paradigma positivista, que se sustenta no sistema de normas como regras jurídicas. Atualmente, em razão da Constituição, a teoria das fontes do Direito deve ser revisitada sob o paradigma pós- positivista que não mais confunda a norma com o texto normativo e que esteja apto a trabalhar a dimensão principiológica do direito. Nas palavras de Streck, “a Constituição altera (substancialmente) a teoria das fontes que sustentava o positivismo e os princípios vêm a propiciar uma nova teoria da norma (atrás de cada regra, há, agora, um princípio que não a deixa se desvencilhar do mundo prático)”. Portanto, em função do surgimento e da evolução do constitucionalismo, a teoria tradicional das fontes apresenta-se defasada. Isso porque ela estava assentada na quase exclusividade do dogma da lei como sua fonte máxima, como se a própria lei pudesse ser a norma jurídica em si. Dessa forma, perante um paradigma pós- positivista, a teoria das fontes precisa ser atualizada, a �m de contemplar os novos sentidos e as funções que o direito adquire nessa quadra da nossa história como instrumento de proteção e de promoção dos direitos fundamentais do cidadão, bem como da igualdade. 38 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 1) Lei Em seu aspecto formal, a lei é o texto normativo acordado pelos órgãos legislativos competentes, dentro do processo legislativo, constitucionalmente estabelecido. Entretanto, a lei não possui aspecto apenas formal, ela contém dimensão política em sua composição, sendo, portanto, insu�ciente caracterizá-la sob o aspecto estritamente formal. Assim, a lei, dentro do Estado de Direito, deve possuir certas características: a regulação deve ser razoável e possuir caráter geral. Com efeito, em seu aspecto material, a lei possui conteúdo político porque ela signi�ca a concretização de uma vontade e de um mandado. Na monarquia, é a concretização da vontade do rei, na democracia, é a representação da vontade do povo. Portanto, a lei deve ser vista como o texto normativo geral e abstrato produzido pelos órgãos legislativos, constitucionalmente �xados. Ademais, em sua formulação, a lei deve ser razoável e geral, a �m de promover a igualdade dos cidadãos. 39 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume A análise do aspecto material da lei é fundamental para a atual situação histórica que nos encontramos, isso porque, depois da segunda guerra mundial, tornou-se consenso que nem todo conteúdo legislativo poderia ser considerado direito. Nesse contexto, depois de 1945, ocorreu um momento de ruptura na Europa justamente sobre a histórica questão de se a lei pode ser tudo e se tudo pode ser lei. Assim, a Europa passou a elaborar nova resposta a essa questão, que marca, profundamente, a análise do direito em nosso tempo. Assim, hodiernamente, existe amplo consenso no sentido de que ao menos a lei injusta não deve ser incluída no conceito de direito. Exatamente nesse ponto é que se evidencia a importância do constitucionalismocomo fenômeno que assegura o controle do poder e da legislação. 40 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume2) Lei e Constituição Peter Häberle oferece conceito amplamente democrático sobre o que seria a Constituição. Para o insigne constitucionalista, a Constituição signi�ca ordem jurídica fundamental do Estado e da sociedade. A Constituição não é apenas Constituição “do Estado”, ela possui um conceito mais amplo que compreende as estruturas fundamentais da sociedade. A Constituição, num Estado Democrático, não estrutura apenas o Estado em sentido estrito, mas também o espaço público e o privado, constituindo, assim, a sociedade Destarte, não se pode confundir a lei como fonte do direito com a própria Constituição Federal. A segunda, apesar de estabelecer todas as etapas necessárias do processo legislativo, não pode ser equiparada à própria lei. A Constituição estabelece a formação do próprio Estado (o Constitucional), além disso, ela racionaliza e limita a soberania e os poderes constituídos. Com efeito, não há poder legítimo que não esteja previsto na Constituição e que nela não encontre também seus limites. Ademais, a Constituição estabelece princípios fundamentais (v.g., liberdade e igualdade) e direitos fundamentais que devem ser promovidos e respeitados pelos três poderes, sendo a lei um dos principais instrumentos para implementá-los. Ocorre que, se em algum instante a lei for contrária ao que prescrevem esses princípios fundamentais (constitucionalmente assegurados), ela deverá ser controlada, mediante o controle de constitucionalidade das leis, seja difuso, no caso concreto, ou em sede concentrada pelo STF. Dessarte, a Constituição estabelece o fundamento de validade e os limites da realização da própria lei, o que a impede de com ela ser confundida. 41 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 3) Princípios 3.a) Princípios Gerais do Direito A utilização do conceito de princípio para se referir à ideia de princípios gerais do direito remonta ao século XIX e à formação dos sistemas codi�cados de direito privado, notadamente a realização máxima desse conjunto de experiências, que são os Códigos Civis. A introdução dos princípios gerais do direito nesse espaço de experiências representa um abalo no ideal de completude que revestia a codi�cação francesa e na fórmula dedutivista de aplicação do direito criada pela pandectística alemã. Representariam eles “axiomas de justiça” que poderiam reforçar o sistema codi�cado em casos de lacunas legislativas. No fundo, os princípios gerais do direito continuavam a operar com a mesma lógica que estava pressuposta pelo sistema de direito privado: a lacuna legislativa seria apenas aparente. O sistema seria sempre completo, uma vez que os princípios gerais do direito seriam postulados racionais que estariam pressupostos pelo sistema codi�cado. Sua aplicação a casos particulares, além de excepcionalíssima, obedeceria ainda às regras do método dedutivo-axiomático. O apelo à razão é signi�cativo aqui porque denota, de forma expressiva, como tais “princípios gerais” representavam uma espécie de reminiscência jusnaturalista dentro do sistema positivo de direito privado, plasmado nas codi�cações. 42 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 3) Princípios 3.b) Princípios Jurídico- Epistemológicos No século XIX, inaugura-se também um movimento de autonomização de diversas disciplinas no estudo do direito. A ciência jurídica que até então englobava todo o estudo do direito – principalmente o direito privado – passa a adotar “�lhotes”, que demarcaram as particularidades de uma série de especialidades. Nesse diapasão, o processo, por exemplo, antes um apêndice dos estudos sobre o direito privado, passa a ser estudado autonomamente com pretensões de instituir uma ciência autônoma: a ciência processual. As disciplinas de direito do Estado (Constitucional, Administrativo e Tributário) passam, igualmente, por um processo de autonomização com relação à �loso�a política e aos precários estudos sobre o “direito público”, reivindicando, igualmente, o status de ciência. A ideia de ciência, aqui, não está ligada à aplicação de um método experimental, mas, sim, à ideia de sistema. A questão é estudar, de forma autônoma e sistemática, cada uma dessas disciplinas. Todas essas disciplinas irão recorrer ao conceito de princípio para organizar e sistematizar os seus conteúdos. Porém, nesse caso, a preocupação é com o estudo e a análise dos temas cobertos por cada uma dessas disciplinas e não necessariamente com uma reposta a um problema de aplicação do direito. A função primordial do conceito de princípio aqui é de natureza epistemológica: organizar o estudo de uma disciplina jurídica especí�ca. 43 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 3) Princípios 3.c) Princípios Constitucionais Do mesmo modo que a nova perspectiva acerca da teoria das fontes do direito, a análise dos princípios constitucionais deve ser iniciada a partir dos movimentos históricos que se seguem depois do �m da Segunda Guerra Mundial e são decisivos para o direito e para as teorias jurídicas que se desenvolveram no continente a partir de então. Isso se deu em um ambiente no qual era possível vislumbrar as profundas feridas abertas pela guerra em uma Europa que procurava se reestruturar nos níveis político, social e econômico. Evidentemente, a propositura de soluções para todos esses problemas passava pela revisão do modelo de direito até então praticado, e essa revisão implicava, inexoravelmente, novas perspectivas teórico-metodológicas. Nessa medida, dá-se uma radical mudança com relação ao direito que, em última análise, trará consigo propostas jus�losó�cas dispostas a repensar o sentido do direito e seus vínculos com o comportamento humano concreto. Isso importa em não tratá-lo mais como um sistema fechado, construído abstratamente a partir de modelos epistemológicos fundados na subjetividade e modelados conforme os padrões matemáticos de conhecimento. Para Castanheira Neves, esse era o tempo de se a�rmar a autonomia do direito, mas de um modo diverso daquele que a�rmou a autonomia dogmática do positivismo “numa forte tentativa da sua superação, justamente em nome de uma autonomia do direito de outro sentido e mais profunda que diferenciava não apenas objetivo-formalmente o jurídico do político, mas, axiológico-materialmente no seu sentido e na sua intencionalidade”. 44 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 3) Princípios 3.c) Princípios Constitucionais Ou seja, trata-se de a�rmar, de forma radical, a fragilidade do direito frente à política – e os eventos que envolvem todo o dilema das duas guerras do século XX apontavam para isso – e, nessa fragilidade mesma, procurar um sentido para o direito, já de um modo diferente do positivismo que acreditava que simples procedimentos lógico-formais poderiam garantir a especi�cidade do jurídico. Dito de outro modo: “o problema deixava de ser apenas o da legitimidade (legitimidade política) da criação-constituição do direito, do direito-lei (...), para ser o problema do fundamento-validade constitutiva do direito enquanto direito”. Isso tudo implica a a�rmação de um direito (ius) distinto da lei (lex), ou seja, de um direito que se forma a partir de elementos normativos constitutivos diferentes da lei, o que é radicalmente novo desde a formação do direito moderno. Desse modo ocorre a a�rmação dos conceitos de “direitos fundamentais”, das chamadas “cláusulas gerais”, dos “enunciados abertos” e, evidentemente, dos “princípios”. Todos esses elementos – que, como dissemos, passam a ser constitutivos da normatividade – são reconhecidos independentemente da lei ou apesar dela. Vale dizer, a própria lei perde seu status de fonte quase exclusiva do direito e adquire dimensões materiais anteriormente negligenciadas. O que une todos esses elementos em unidade é a oposição a qualquer método lógico-abstrato, em favor de uma espécie de jurisprudência queresgate a concretude da manifestação da juridicidade. Isto é, em vez de se preocupar com o encadeamento lógico-abstrato de conceitos previamente conhecidos, era preciso que o jurista atentasse para as especi�cidades culturais, históricas e temporais que emanam de cada caso concreto. 45 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 3) Princípios 3.c) Princípios Constitucionais Assim, o primado teórico que o abstracionismo do direito racionalista forjou acabava por direcionar a manifestação da experiência jurídica para apenas o conhecimento da estrutura sistemática dos conceitos que compõem a legislação e a supressão de suas lacunas e incoerências (papel dos nomeados princípios gerais do direito). Dessa maneira, os debates teóricos e os problemas jurídicos passaram a reivindicar o estatuto da “prática” e a atividade jurisdicional assume um lugar proeminente nessa questão. Isso porque nessa quadra da histórica aparecem com nitidez os movimentos que levaram à consolidação da chamada jurisprudência dos valores, que surge na Alemanha em virtude da atuação do Tribunal Constitucional Federal alemão nos anos que sucederam a promulgação da Lei Fundamental. Por certo, os argumentos axiológicos do Tribunal representavam a estratégia de legitimação da Lei Fundamental perante a sociedade alemã. Ao mesmo tempo, era preciso a�rmar, num contexto internacional mais amplo, o total rompimento com o modelo jurídico-político vigente ao tempo do nazismo. Em inúmeras ocasiões, o Tribunal Constitucional teve que se pronunciar sobre con�itos envolvendo casos concretos ocorridos ainda sob a égide do direito nazista. Pela tradição, esse é um típico caso resolvido pela aplicação do adágio latino tempus regit actum (que é um princípio geral do direito). Contudo, isso signi�caria dar vigência às leis nazistas em pleno restabelecimento da democracia e fundação de um novo Estado. De se ressaltar também que a boa imagem internacional da Alemanha – recém-saída de uma guerra e extremamente endividada pelas indenizações de guerra e empréstimos para reconstrução do país – passava pela a�rmação de uma ruptura total com o regime anterior. Mas isso demandava tomada de decisão extra legem e, em última análise, até contra legem. 46 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 3) Princípios 3.c) Princípios Constitucionais Desse modo, para legitimar suas decisões e, ao mesmo tempo, não rea�rmar as leis nazistas, o Tribunal passou a construir argumentos fundados em princípios axiológico-materiais, que remetiam para fatores extra legem de justi�cação da fundamentação de suas decisões. A�rmava-se, portanto, um direito distinto da lei. Mas não bastava isso, era preciso criar instrumentos que permitissem justi�car, normativamente, tais decisões. Assim é que começam a aparecer, nas decisões do Tribunal, argumentos que remetiam a “cláusulas gerais”, “enunciados abertos” e, obviamente, “princípios”. A utilização desses conceitos não foi aleatória, diversos fatores contribuíram para tanto, merecendo destaque o caráter aberto de seus textos, que permitiu maior margem interpretativa, o que, por sua vez, possibilitou que mediante a utilização deles o Tribunal adequasse e corrigisse a legislação, já defasada, para a nova realidade histórica concreta. Nesse contexto, também a �loso�a do direito alemã passou a construir “fundamentações �losó�cas” para a atividade do tribunal, que já começava a ser classi�cada como relativismo interpretativo- decisório, o que apresentava um grande risco para o regime democrático que se estabelecia. Num primeiro momento, dá-se uma retomada ou se opera uma tentativa de restauração do jusnaturalismo – que não se revestia de características cosmológicas, teológicas ou racionalistas, mas se fundava numa espécie de ontologia dos valores (Max Scheler e Nicolai Hartmann), ou numa �loso�a transcendental dos valores, ao modo do neokantismo de Baden (Gustav Radbruch). De uma maneira geral, esse pensamento – que repercutia incisivamente na jurisprudência alemã – a�rmava um suprapositivo conteúdo axiológico ou ético-material enquanto fundamento constitutivo do direito. Isto é, um direito natural fundado na essência objetiva dos valores; um direito natural dos valores ou axiológico. 47 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 3) Princípios 3.c) Princípios Constitucionais Num segundo momento da chamada jurisprudência dos valores pode ser determinado a partir da construção de mecanismos que pretendem justi�car, a partir de procedimentos, o não relativismo dos valores e, consequentemente, o caráter minimamente discricional da atividade judicativa do Tribunal. Nesse momento, começa a tomar forma um elemento decisivo para o signi�cado do conceito de princípio no âmbito da teoria do direito: a ponderação. A ponderação será o elemento capilar da teoria dos direitos fundamentais e do conceito de princípio com o qual irá operar Robert Alexy, profundo defensor da jurisprudência dos valores. Apesar de declarado partidário da valoração, Alexy critica, em alguns aspectos, o modo como a ponderação foi utilizada pelo Tribunal Constitucional e passa a criar uma estrutura procedimental (baseado no discurso racional prático) para a ponderação, com o intuito de coibir os erros cometidos pela jurisprudência dos valores. Contudo, já no ponto de partida, Alexy deixa claro que o elemento discricionário no ato de julgar é inevitável. Isso �ca evidente em seu conceito de princípios como mandados de otimização, o que demanda a obrigação de se cumprir os princípios na maior medida possível em relação às circunstâncias fático-jurídicas de cada caso concreto. Dessa forma, os princípios funcionam como cláusulas de abertura para o julgador no momento da decisão. Para sua teoria da argumentação, as regras não produzem qualquer tipo de discricionariedade, pois continuam a operar a partir do modelo da subsunção. Já os princípios, devido ao seu largo espectro de aplicação, merecem outro tipo de procedimento metodológico-aplicativo. Isso, porque, no mais das vezes, os princípios colidem no momento de sua aplicação. Para resolver esse con�ito, Alexy estrutura um método alternativo à subsunção (inadequada para os princípios), que é a ponderação. 48 Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume3) Princípios 3.c) Princípios Constitucionais Aqui cabe perceber uma coisa: a atenção se desloca – tal qual diz Esser – do elemento abstrato- sistemático para a atividade concreta do juiz, que, no contexto da jurisprudência dos valores, deixa de ter o caráter de uma simples atividade de dedução de conceitos – parte da estrutura sistemática da ordem jurídica – e passa a ser colocada na necessidade de justi�cação judicial diante da providência e comprobabilidade dos critérios supralegais de valoração que surgem como elementos constitutivos da normatividade jurídica. Dessa forma, os juízes são colocados perante tarefas de indagação de métodos racionais de conhecimento de valores, a partir da problemática oferecida pelo caso que será julgado, abrindo espaço para a chamada discricionariedade judicial. A incorporação dessa nova tarefa jurisdicional e a inserção de dimensões valorativas no âmbito das questões jurídicas obrigam a teoria do direito a analisar re�exivamente seus próprios conceitos, mormente os princípios jurídicos e o dever de motivação das decisões. Isso, por si só, começa a demonstrar o esgotamento do modo tradicional de se olhar para o direito. Em suma, cabe registrar que esses elementos que permeiam o conceito de princípios constitucionais, embora projetem maior luz para o fenômeno da decisão judicial, não podem ser tidos como permissivas para livre criação jurisprudencial do direito. O dever de fundamentação das decisões somente é plenamente satisfeito na medida em que as decisões se apresentam adequadas à Constituição. No fundo, os princípios constitucionais oferecem espaços argumentativos que permitem controlar os sentidos articulados pelas decisões. Ademais, o conteúdo dos princípiosconstitucionais não é prede�nido por lei, muito menos pode ser livremente determinado pelos tribunais, isso porque eles são manifestação histórico-cultural que se expressa em determinado contexto de uma experiência jurídica comum. 49 4) Jurisprudência A jurisprudência é o conjunto de decisões uniformes prolatadas pelos órgãos do Poder Judiciário sobre uma determinada questão jurídica. Por isso, nunca se usa o termo jurisprudência no plural, uma vez que já representa o coletivo das decisões jurisprudenciais. De certa forma, a função básica da jurisprudência é interpretação e a concretização do próprio direito. Assim, a jurisprudência teria quatro funções primordiais em relação à lei, que seriam: explicativa, supletiva, diferencial e renovadora. Nessa perspectiva é que, atualmente, a lei e a jurisprudência não devem mais ser confrontadas como fontes jurídicas colocadas em grau diferente de hierarquia, uma vez que, atualmente, elas devem ser consideradas fontes complementares, sendo insensata a análise de uma estanque em relação à outra. Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 50 5) Justiça e equidade Rosa Maria de Andrade Nery salienta que a noção de equidade não pode ser devidamente compreendida se não for analisada conjuntamente com o conceito grego de epiqueia. Isso porque: “a equidade é o estado de igualdade, de harmonia, que às vezes se vê comprometido e precisa ser restaurado; a epiqueia é um esforço hermenêutico de quem analisa a desarmonia comprometida/perdida de uma situação jurídica”. A epiqueia tem por função temperar o rigorismo do texto legal, a �m de coaduná-lo com a justiça do caso concreto. Três são os sentidos básicos para o termo epiqueia: “a) com o sentido de justa medida; b) com o sentido de particularmente equitativo, estritamente justo; c) com o sentido de indulgência, de bondade, de doçura de caráter”. Hodiernamente, no Estado Constitucional, não se pode utilizar a equidade como fundamento normativo para se proferir decisões contra legem. A equidade pode ser parâmetro interpretativo da legislação, contudo, a lei somente poderá ser afastada do caso concreto mediante o controle difuso de constitucionalidade, vale dizer, somente é lícito ao Poder Judiciário decidir contra a lei quando essa lei apresentar inconstitucionalidade no caso concreto, sempre precedida de larga e extensa motivação, nos termos do inc. IX do art. 93 da CF/1988. Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 51 6) Costume O costume consiste em uso constante e notório que é seguido porque se acredita que ele corresponda a uma necessidade jurídica. Ou seja, ele é um uso constante de caráter juridicamente obrigatório. Nessa perspectiva, para o costume se caracterizar como fonte do direito, ele precisa possuir requisito objetivo e subjetivo. O elemento objetivo é o uso, que é a observância constante, prolongada e uniforme da regra pelos membros da comunidade. Já o requisito subjetivo consiste na convicção geral de que o uso corresponde a uma necessidade jurídica. Do ponto de vista subjetivo, o costume deve transparecer como juridicamente obrigatório. Em termos classi�catórios, o costume pode ser secundum legem (costume expressamente contido na própria lei); praeter legem (complementa a legislação, sua função é de preencher as lacunas da lei); contra legem (que se forma em oposição ao texto legal). Não obstante o costume ter perdido sua importância, ele deve ser considerado elemento do direito positivo vigente (somente o costume secundum e praeter legem), ainda que não esteja escrito, isso porque “sua positividade não reside, no entanto, num acto estadual de criação do direito, mas sim na prática duradoura e reiterada duma regra, ligada à vontade comunitária de vigência jurídica (o direito consuetudinário existe sobretudo no direito social do trabalho)” Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 52 7) Doutrina A doutrina do direito corresponde a todo conhecimento jurídico desenvolvido para ensinar e compreender a ciência e a teoria do direito. Apesar de ela não ser dotada de efeito vinculante expresso tal como possui a lei, por exemplo, não deve desmerecer sua posição como importante fonte do direito. A força vinculante da doutrina advém da obrigatoriedade de se motivar as decisões judiciais contidas no inc. IX do art. 93 da CF/1988. Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume Leis, princípios jurisprudência, justiça, equidade e costume 53 A clássica distinção entre Direito Público e Direito Privado: necessidade de reformulação A distinção entre direito público e direito privado tem sua origem nos conceitos romanistas de ius privatum e ius publicum. O primeiro é relacionado ao interesse privado da sociedade civil (conjunto dos indivíduos sujeitos privados). Já o interesse público encontra seu titular e exequente na �gura do Estado. Assim, o direito público pode ser visto como regulador do Estado, enquanto a sociedade civil seria regulada pelo direito privado. A supramencionada dicotomia remonta ao direito romano. Naquele sistema, corresponderiam ao direito público as matérias em que a comunidade atua perante o indivíduo, exigindo sua subordinação (e.g., direito administrativo, canônico, penal e processual). O direito privado compreende as relações privadas estabelecidas entre particulares. 54 A clássica distinção entre Direito Público e Direito Privado: necessidade de reformulação Sobre o tema, Antonio Menezes Cordeiro ressalta que a distinção é importante do ponto de vista sistemático, na medida em que na prática não se operaria essa distinção para cada relação jurídica. Assim, no direito público, dominam a autoridade e a competência, enquanto, no direito privado, prevalecem a liberdade e a igualdade. Nesse contexto, no âmbito das situações particulares, o sujeito pode agir livremente, desde que não lhe sejam proibidas (atipicidade dos negócios jurídicos privados). De modo distinto, no que tange ao direito público, o sujeito responsável pelo trato das coisas públicas apenas pode agir desde que previamente autorizado, dado que ele somente pode agir secundum legem (princípio da legalidade ou tipicidade dos negócios de direito público). 55 A clássica distinção entre Direito Público e Direito Privado: necessidade de reformulação Atualmente, a dicotomia direito público e direito privado não pode mais se sustentar na total separação entre Estado e sociedade, a�nal, essa radical distinção não se opera no Estado Constitucional. Todavia, a distinção não deve ser totalmente abandonada, uma vez que ela possui aspectos importantes a serem ressaltados. Rosa M. A. Nery sublinha que, no plano ideológico, o direito privado deve ser visto como o ordenamento que possui as regras protetivas do cidadão contra o Estado e contra o arbítrio de grupos. Ou seja, ele tem por escopo prevenir ingerências indevidas nas esferas dos particulares e a intromissão arbitrária da autoridade na liberdade das pessoas. Hodiernamente, em virtude da estruturação do Estado Constitucional e da in�uência do constitucionalismo, a dicotomia direito público e direito privado sofreu profunda reformulação. 56 A clássica distinção entre Direito Público e Direito Privado: necessidade de reformulação De forma simpli�cada, o Estado Constitucional pode ser de�nido pela soberania popular, isto é, o poder do próprio Estado advém da sociedade – pela divisão de poderes –, caracteriza-se pela dignidade humana como premissa antropológico-cultural, pelos direitos fundamentais e pela tolerância, pela pluralidade de partidos e pela independência dos tribunais. Nessa nova modalidade de Estado, os direitos fundamentais do cidadão não mais se limitam a liberdades negativas destinadas a impedir a ingerência do Estado. A evolução do constitucionalismo assegurou que aos direitos fundamentais fossem agregados direitos de natureza sociais quepermitem ao particular exigir prestações positivas do Estado. Ademais, surgiram novos direitos de natureza, inclusive, difusa, tais como os direitos das crianças, do idoso (arts. 226, 227,228,229 e 230 da CF/1988) e do meio ambiente (art. 225 da CF/1988). 57 A clássica distinção entre Direito Público e Direito Privado: necessidade de reformulação Nesse contexto, para o Estado ser considerado Estado Constitucional ele deve respeitar a delimitação entre esfera pública e privada, no sentido de que nem todas as funções públicas são funções estatais (e.g., funções desempenhadas pela imprensa, igreja e pelos partidos políticos) e, ao mesmo tempo, um Estado em que algumas funções públicas não podem ser funções sociais (e.g., segurança pública e defesa nacional). Por �m, cumpre evidenciar a importância da dignidade da pessoa humana no Estado Constitucional que corrobora a diluição entre direito público e privado. Atualmente, a proteção da dignidade humana deve ser concebida como dever jurídico fundamental do Estado constitucional, uma vez que ela constitui a premissa para todas as questões jurídico-dogmáticas particulares. Vale dizer, ela fundamenta, também, a sociedade constituída e eventualmente a ser constituída. Assim, a dignidade humana cria uma força protetiva pluridimensional, de acordo com a situação de perigo que ameaça os bens jurídicos de estatura constitucional. 58 A clássica distinção entre Direito Público e Direito Privado: necessidade de reformulação En�m, no Estado Constitucional, não se concebe poder do Estado que não esteja assentado na soberania popular e na dignidade humana, consequentemente, o dualismo entre direito público e privado mantém sua importância sob o aspecto sistemático, contudo, di�cilmente pode-se conceber situação jurídica puramente privada ou puramente pública, na medida em que todas elas estão diretamente normatizadas pelo texto constitucional. Com efeito, o dualismo deve ser utilizado para realçar e fortalecer os direitos fundamentais do cidadão em seu aspecto privado e destacar e pormenorizar as tarefas e os limites do Poder Público. 59 Teoria da Norma e Teoria do Ordenamento Jurídico Nos termos propostos por Bobbio, uma teoria autônoma do ordenamento jurídico aglutina-se em torno dos seguintes problemas: a) saber como que uma pluralidade de normas pode constituir-se em uma unidade. Nesse ponto, o problema principal a ser discutido é o da hierarquia normativa; b) o segundo problema é que, partindo dessa unidade, o ordenamento deve constituir-se enquanto sistema devendo ser oferecidos critérios de resolução das possíveis antinomias jurídicas; c) todo ordenamento jurídico unitário e sistemático também pretende ser completo. Daí que, deve-se discutir o problema fundamental das lacunas do direito; d) sendo o ordenamento jurídico constituído em torno de uma realidade estatal especí�ca, na perspectiva do direito internacional, existirá uma plêiade de ordenamentos. Assim, o problema do reenvio ou da inter-relação entre um ordenamento e outro também deve ser objeto de uma teoria do ordenamento jurídico. 60 O Direito como Faculdade: Teoria dos Direitos Subjetivos 61 Cuida-se de um conjunto de normas escritas e não escritas que re�etem o momento social em que foram criadas, sendo representado por modelos genéricos abstratos de condutas (Códigos, Leis, etc.). Direito Objetivo Para Pietro Perlingieri, o direito subjetivo é o poder reconhecido pelo ordenamento jurídico a um sujeito para a realização de um interesse do próprio sujeito. Direito Subjetivo 62 63 Pode-se a�rmar que os direitos subjetivos podem ser: Direito Subjetivo Direito Potestativo O direito potestativo representa uma situação subjetiva em que o titular do direito subjetivo pode unilateralmente constituir, modi�car ou extinguir uma situação subjetiva, interferindo diretamente na esfera jurídica de outro sujeito que a esse poder formativo não poderá se opor (ex. divórcio, aceitação de herança, renúncia do mandato, etc.). 64 Os elementos fundamentais do direito subjetivo são: sujeito, objeto, relação jurídica e proteção. Sujeito do direito: sujeito ativo e sujeito passivo. O sujeito ativo é o titular de um direito subjetivo. No entanto, em razão de ser da essência do direito as relações entre pessoas (relações intersubjetivas), supõe-se a existência do sujeito passivo, o qual é a pessoa obrigada a realizar a prestação. Se o sujeito passivo é obrigado a algo, existe um dever jurídico. O dever jurídico difere-se do moral, sobretudo pela exigibilidade. Já a prestação é o objeto do dever jurídico, isto é, todo dever jurídico tem por objeto uma prestação, que pode consistir num ato (fazer ou dar) ou numa abstenção (não fazer). Objeto do direito: objeto mediato e objeto imediato O objetivo imediato é sempre uma prestação devida por outras pessoas. Todavia, a prestação refere-se a algum bem, e este é o objeto mediato do direito subjetivo. Nesse contexto, o conceito jurídico de bem abrange: coisas, pessoas e ações. Elementos do Direito Subjetivo 65 Os elementos fundamentais do direito subjetivo são: sujeito, objeto, relação jurídica e proteção. Relação jurídica e seu elemento gerador: o fato jurídico. A relação jurídica pode ser de�nida como o vínculo entre pessoas, por força do qual um pode pretender um bem a que a outra é obrigada. Nesse ínterim, gize-se que o fato gerador da relação jurídica ou do direito subjetivo chama-se fato jurídico. Elementos do Direito Subjetivo 66 Os elementos fundamentais do direito subjetivo são: sujeito, objeto, relação jurídica e proteção. Proteção jurídica: O direito subjetivo ou a relação jurídica são tutelados pelo Estado, por meio um proteção especial, representada, de uma forma geral, pelo ordenamento jurídico e, particularmente, pela sanção. A proteção jurídica pode ser conceituada numa perspectiva objetiva e subjetiva. Objetivamente, a proteção é garantia assegurada ao direito pela possível ou efetiva intervenção da força de que dispões a sociedade. Subjetivamente, a proteção jurídica traduz-se pelo poder conferido ao particular de exigir de outrem o respeito ao seu direito. Elementos do Direito Subjetivo 67 O Direito como Fato Social: Sociologia do Direito 68 Há inúmeras interpretações e de�nições quanto ao que seja o objeto de trabalho do cientista social (sociólogo). Alguns dizem que é uma ciência da sociedade, outros, que seu objetivo é o estudo dos fenômenos sociais, das instituições das relações humanas etc. Mesmo havendo diferentes interpretações e de�nições, há uma concordância mais ou menos generalizada de que o conteúdo essencial da sociologia seja o estudo das relações e interações humanas. Levando em consideração as duas principais referências clássicas em Sociologia – Émile Durkheim (1858-1917) e Max Weber (1864-1920) –, o direito pode ser caracterizado como fenômeno social, e portanto objeto de estudo da sociologia, e em particular da Sociologia do direito (ou sociologia jurídica). Sociologia do Direito 69 Para Durkheim, o fenômeno social constitui-se do fato social, que pode ser religioso, político, literário, artístico, jurídico etc. e que é externo ao indivíduo e determinador de suas ações. Em outras palavras, os membros de uma sociedade dada assumem um comportamento que lhes é impingido pelo poder coercitivo que exerce o direito enquanto fato social. Utilizando-se a análise de Durkheim, podemos identi�car o direito como fato social, que exerce uma coerção sobre os indivíduos, fazendo-os assumir condutas que são impostas por este fenômeno particular. Enquanto Durkheim prioriza a sociedade na análise dos fenômenos sociais, considerando-a externa aos indivíduos e determinadora de suas ações, Max Weber prioriza o papel dos atores e as suas ações individuais reciprocamente referidas. A sociedade, para Weber, deve ser compreendida a partir desse conjunto de interações sociais. Sociologia do Direito 70Consoante Weber, a ação social, aí incluída a omissão ou a tolerância, orienta-se pelas condutas sociais aprovadas pelos outros e compartilhadas por todos. Os “outros” podem ser indivíduos e conhecidos ou uma multiplicidade de pessoas completamente desconhecidas. Nessa interpretação, as interações reguladas pelas normas jurídicas constituem-se em fenômeno social, pois seus agentes têm em comum os outros como referência para seus atos (de aprovação ou reprovação). Uma vez estabelecida a de�nição de ação social, podem-se encontrar seus diferentes tipos agrupando-as de acordo com o modo pelo qual os indivíduos orientam suas ações. E, segundo Weber, a ação social pode ser determinada de quadro modos: (1) Racional referente a �ns; (2) Racional referente a valores; (3) Afetivo, especialmente emocional; (4) Tradicional. Sociologia do Direito 71 O direito, seja qual for o tipo de ação social envolvido, é um fenômeno social que pode ser analisado a partir do modelo proposto por Weber. E, enquanto tal, constitui-se de um conjunto de ações sociais, reguladas por normas, que formam um todo complexo que é o sistema jurídico. Desse modo, partindo-se das diferentes abordagens utilizadas por Weber e Durkheim, o direito é um fenômeno social, perfeitamente caracterizado e como tal passível de ser abordado por uma disciplina especí�ca que corresponde a um ramo da sociologia, que é denominado Sociologia do direito ou Sociologia Jurídica. Sociologia do Direito 72 Em termos mais especí�cos, a sociologia do direito é uma disciplina cientí�ca que procura explicar as causas e os efeitos sociais das normas jurídicas. Enquanto ciência, constitui um conjunto de enunciados que pretende descrever tanto os fenômenos que são determinantes (como causa) da existência das normas jurídicas, como os fenômenos que são resultado (como efeitos) delas. Podemos a�rmar, portanto, que à Sociologia do direito compete o estudo sistemático das relações sociais e da interação entre indivíduos e grupos relacionados com as normas jurídicas, incluídos aí os seus desdobramentos. É a parte da sociologia que descreve e explica a in�uência do direito na vida social e de que modo os fenômenos sociais e culturais se convertem em normas e instituições jurídicas e por quê. Sociologia do Direito 73 Controle Social e Direito A previsibilidade comportamental do indivíduo em sociedade é a base da convivência harmônica entre as pessoas, e é esse papel fundamental que cumprem as normas, tornar minimamente previsíveis e esperadas as condutas individuais. No entanto, muitas vezes, e pelos mais diversos motivos, o comportamento esperado não ocorre, ou acontecem outros que contrariam aqueles consensualmente estabelecidos. Esse comportamento não esperado constitui um desvio aos padrões anteriormente estabelecidos pelo grupo e constituem desvios sociais. O desvio social reprovado é o que tem merecido maior atenção pelo seu potencial de desestruturação da ordem, de questionamento das regras estabelecidas e que colocam em risco a convivência harmônica das pessoas. Há muitos fatores que podem dar origem ao desvio social: biológicos, psicológicos, culturais etc. Sociologia do Direito 74 Controle Social e Direito O processo de condicionamento e adaptação da conduta social ao grupo e que ocorre ao longo do tempo denomina-se socialização. A socialização é um processo a que todo indivíduo se submete quando interage dentro de um grupo social. Isto ocorre desde que nasce no seio do ambiente familiar e continua até ao �m de sua vida. Trata-se de um mecanismo de interiorização de normas e valores compartilhados pela maioria dos membros da sociedade, e que fará com que o indivíduo seja plenamente aceito como membro do grupo. Um conjunto de pessoas que forma um grupo desviante, e mantém-se em constante interação, formará uma subcultura desviante com seu próprio, e especí�co, conjunto de normas e valores, que diferirão da cultura mais geral. deste modo, os membros de um grupo – bando, quadrilha, gang, má�a etc. –, compartilharão entre si valores que não se identi�cam com a sociedade mais geral, mas que serão fortemente valorizados no grupo. Sociologia do Direito 75 Controle Social e Direito Ocorre que o desvio social, embora apresente aspectos negativos e haja todo um sistema voltado para combatê-lo, tem a seu favor o fato de contribuir para o processo de mudança social, pois o que é considerado um desvio num determinado momento poderá não sê-lo no futuro. O desvio social, portanto, traz embutida a possibilidade de tornar-se numa outra época uma regra aceita e compartilhada pela maioria dos membros naquela sociedade determinada. O desvio social, portanto, é bastante relativo, é concretamente de�nido em função do tempo e do espaço. No campo jurídico, o comportamento desviante assume a natureza de ilícito. É importante ressaltar, contudo, que não há um "desvio social ontológico". É dizer: nenhuma conduta consiste em desvio social por sua própria essência. Ao revés, para que assim seja considerada, deve ser de�nida como tal por um grupo. Sociologia do Direito 76 Controle Social e Direito Assim, na esfera do Direito, o legislador, com o intuito de inibir certa conduta, agrega-lhe uma consequência geralmente não desejada pelos destinatários da norma, de modo que estes identi�quem o modal deôntico proibitivo ou obrigatório e evitem proceder de maneira reprimida. O Direito consiste, portanto, em uma poderosa ferramenta de preservação da ordem, imprimindo maior segurança, estabilidade e coesão às relações sociais. Assim, ele é um instrumento de controle social, revelando sua funções preventiva e repressiva. Sob tais perspectivas, é possível perceber o Direito como um mecanismo de poder, assim concebido como instrumento de determinar comportamento dos outros por meios de um sistema escalonado de normas. Sociologia do Direito 77 Controle Social e Direito Finalmente, a respeito do controle social, é importante registrar as teorias modernas macrossociológicas, destacando duas: as teorias funcionalista e as do con�ito social. Para os funcionalistas, a sociedade opera "como uma grande máquina. Esta distribui papéis e recursos aos seus membros, que são identi�cados como as peças da máquina. A �nalidade da sociedade é a sua reprodução por meio do funcionamento perfeito de seus vários componentes". Por sua vez, as teorias do con�ito social "entendem que, na sociedade, agem grupos com interesses estruturalmente opostos, que se encontram em situação de desigualdade e em luta perpétua pelo poder. Assim, as regras de controle social não objetivam o bem-estar de todos, mas sim a perpetuação de relação de poder". Sociologia do Direito 78 Desse modo, o que o direito é em cada momento para cada povo está determinado pelo modo de ser da sociedade. E do mesmo modo, o per�l da estrutura básica de qualquer sociedade é em alguma medida resultado da ação do direito, que exerce uma importante função de controle social. A vida social não poderia se manter sem as diversas normas de conduta. Nem a sociedade poderia existir sem o direito, nem este poderia ser entendido fora do contexto da vida social. 79