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See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.net/publication/348975474 POTENCIALIDADES DA PRÁTICA DA ATENÇÃO FARMACÊUTICA NO USO DE FITOTERÁPICOS E PLANTAS MEDICINAIS Article · February 2021 CITATIONS 16 READS 9,079 7 authors, including: Jessica Aline Silva Soares Federal University of Minas Gerais 4 PUBLICATIONS 15 CITATIONS SEE PROFILE Ana Cimbleris-Alkmim Federal University of Minas Gerais 3 PUBLICATIONS 17 CITATIONS SEE PROFILE Djenane Ramalho de Oliveira Center for Pharmaceutical Care Studies 129 PUBLICATIONS 2,648 CITATIONS SEE PROFILE Simone de Araújo Medina Mendonça Federal University of Minas Gerais 46 PUBLICATIONS 279 CITATIONS SEE PROFILE All content following this page was uploaded by Djenane Ramalho de Oliveira on 02 February 2021. 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2- Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil. *Corresponding author: jessicaalinefarm.fitoterapia@gmail.com Resumo: As políticas públicas relacionadas às plantas medicinais e aos fitoterápicos avançaram nas últimas duas décadas no Brasil, demonstrando que a implementação da fitoterapia no Sistema Único de Saúde (SUS) vem para atender uma necessidade social da população brasileira, visando um uso racional. Dentre os profissionais da área da saúde, o farmacêutico possui um papel importante para assegurar às comunidades e aos pacientes um uso efetivo e seguro dessa terapêutica. O desenvolvimento da atenção farmacêutica e a aplicação do processo racional de tomada de decisão em farmacoterapia, o pharmacotherapy workup, permitem uma avaliação completa da fitoterapia em uso pelo paciente, considerando-o como indivíduo único, respeitando e entendendo suas crenças, anseios e a sua experiência com as plantas medicinais. A aplicação dos princípios da saúde baseada em evidências se faz necessária na busca das melhores evidências científicas disponíveis, colaborando para a tomada de decisão clínica do farmacêutico na provisão da atenção farmacêutica. Conclui-se que o processo racional de tomada de decisão em farmacoterapia no escopo de uma prática centrada no paciente, como a atenção farmacêutica, permite conectar dados clínicos, experiência subjetiva e a aplicação da saúde baseada em evidências, garantindo assim um uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos. Fazem-se necessários mais estudos envolvendo a prática da atenção farmacêutica na otimização do uso da fitoterapia. Palavras-chaves: Atenção Farmacêutica; Processo Racional de Tomada de Decisão em Farmacoterapia; Fitoterapia; Plantas Medicinais e Fitoterápicos; Saúde Baseada em Evidências Abstract (Potentials of Pharmaceutical care practice in the use of Phytotherapes and Medicinal Plants): Public policies related to medicinal plants and herbal medicines have advanced in the last two decades in Brazil, demonstrating that the implementation of herbal medicine in the Unified Health System (SUS) comes to meet a social need of the Brazilianpopulation, aiming at a rational use. Among health professionals, the pharmacist has an important role in ensuring communities and patients an effective and safe use of this therapy. The development of pharmaceutical care and the application of the rational decision-making process in pharmacotherapy, the pharmacotherapy workup, allow a complete assessment of the phytotherapy in use by the patient, considering him as a unique individual, respecting and understanding his beliefs, desires and his experience with medicinal plants. The application of the principles of evidence- based health is necessary in the search for the best scientific evidence available, contributing to the clinical decision- making of the pharmacist in the provision of pharmaceutical care. It is concluded that the rational decision-making process in pharmacotherapy within the scope of a patient-centered practice, such as pharmaceutical care, allows to connect clinical data, subjective experience and the application of evidence-based health, thus ensuring a rational use of plants medicinal and herbal medicines. Further studies are needed involving the practice of pharmaceutical care in optimizing the use of herbal medicine. Keywords: Pharmaceutical Care; Rational Decision-Making Process in Pharmacotherapy; Phytotherapy; Medicinal Plants and Herbal Medicines; Evidence-Based Health POTENCIALIDADES DA PRÁTICA DA ATENÇÃO FARMACÊUTICA NO USO DE FITOTERÁPICOS E PLANTAS MEDICINAIS Submitted in: 27/08/2020 Corrected Version: 04/12/2020 Accepted: 04/12/2020 ISSN 2358-3495 japhac.wix.com/japhac Artigo Original 11 JAPHAC (7): 10-21 INTRODUÇÃO As plantas medicinais são instrumentos terapêuticos tradicionalmente muito utilizados para a recuperação da saúde e prevenção de agravos em diversas populações no mundo. Além da progressiva comprovação científica da ação terapêutica de várias plantas utilizadas popularmente, a fitoterapia se integra à cultura e à identidade de um povo, sendo também parte de um saber utilizado e difundido pelas populações ao longo de várias gerações. A prática da fitoterapia vem sendo sedimentada e estruturada ao longo do tempo, demonstrando que o uso de plantas medicinais é uma necessidade e realidade de várias comunidades e países. O sistema de saúde e os profissionais inseridos nestes cenários necessitam garantir o seu uso racional [1,2,3] Com o desenvolver da indústria farmacêutica observou-se uma redução transitória no uso das plantas medicinais. Porém nas últimas décadas esse processo vem se revertendo a partir do entendimento dos limites dos medicamentos convencionais para resolução dos problemas de saúde e do grande número de efeitos adversos envolvidos em sua utilização, o que levam os pacientes buscarem tratamentos menos agressivos e cuidados mais holísticos [4]. Fitoterapia compreende a prática terapêutica que utiliza de plantas, seja elas em in natura ou a partir de suas várias preparações dos derivados vegetais, sem o processo de isolamento de seus constituintes ativos, em que são aplicadas com a finalidade medicinal [4,5]. A cultura, tradicionalidade de uso e a vasta biodiversidade justificam a grande demanda e procura da fitoterapia para os cuidados de saúde no Brasil. Cerca de 82% da população brasileira faz uso de preparações e produtos à base de plantas medicinais [6]. Esse dado corrobora com a estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS) que aponta que de 70% a 90% da população mundial, principalmente em países em desenvolvimento, faz uso de práticas tradicionais, como a fitoterapia [7]. Entre 2013 e 2015, a busca por tratamentos com plantas medicinais e fitoterápicos pelo SUS teve o crescimento de 161% [8]. Esse resultado representa a demanda das equipes, dos pacientes e do próprio sistema de saúde, mas o interesse da população é ainda maior [4]. As políticas públicas e legislações relacionadas às plantas medicinais e fitoterápicos avançaram nos últimos anos após a publicação da Portaria nº 971 de 03 de maio de 2006 do Ministério da Saúde, que instituiu a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) e do decreto 5.813 de 22 de junho de 2006 que estabeleceu a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF) [5,9,10] Além da PNPMF, foi instituído o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos em 9 de dezembro de 2008. Toda essa construção de programas e políticas implementadas ao longo dos últimos anos visam garantir e promover o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos com o enfoque na atenção primária à saúde, fortalecer e defender a biodiversidade brasileira e os conhecimentos tradicionais e populares, assim como incentivar a pesquisa e o desenvolvimento da cadeia produtiva de fitoterápicos [1]. Dentre os profissionais da área saúde, o farmacêutico pode garantir e contribuir com a população e com o SUS para a promoção do uso racional da fitoterapia. As Novas Diretrizes Nacionais (DCNs) do curso de farmácia, instituído pela Resolução nº 06 de 2017 do Ministério da Educação, direciona o desenvolvimento de habilidades e competências para o cuidado em saúde, visando a formação de farmacêuticos que promovam cuidado direto ao paciente e comunidades, de forma multidisciplinar em prol da saúde pública. E nesse novo contexto de formação, o farmacêutico poderá contribuir mais efetivamente para a prática do cuidado, e consequentemente para a fitoterapia [11]. 12 JAPHAC (7): 10-21 Durante sua formação acadêmica, o profissional farmacêutico possui disciplinas como farmacognosia e botânica, as quais se destinam ao estudo da identificação das espécies vegetais, fitoquímica e fitofarmacologia de plantas medicinais e fitoterápicos [12]. Além dessa formação curricular obrigatória sobre as plantas, outro fator que pode garantir a otimização do alcance dos objetivos terapêuticos e uso racional na fitoterapia, é o desenvolvimento da prática profissional da Atenção Farmacêutica (AF). A AF é uma prática profissional em que o farmacêutico assume a responsabilidade pelas necessidades farmacoterapêuticas do paciente e responde por essa demanda social. O profissional, no trabalho direto com o paciente e em colaboração com outros membros da equipe de saúde, usa um processo sistemático de tomada decisão a fim de garantir que os medicamentos utilizados pelo paciente sejam indicados para tratar seus problemas de saúde, sejam os mais efetivos e seguros possíveis, e que o paciente tenha condição de adquiri-los e utilizá-los da melhor maneira [13]. Este mesmo processo racional de análise e tomada de decisões pode ser aplicado para a avaliação do uso de plantas medicinais e fitoterápicos. O serviço clínico oferecido quando o profissional utiliza o arcabouço teórico-metodológico da AF é denominado Gerenciamento da Terapia Medicamentosa (GTM) [14]. Durante o oferecimento do serviço de GTM, para análise da indicação, efetividade, segurança e conveniência das plantas medicinais e/ou fitoterápicos em uso pelo paciente, se faz necessário a busca, a análise e a integração das evidências científicas para subsidiar a tomada de decisão entre profissional e paciente. Para isso, a aplicação da prática e raciocínio da saúde baseada em evidências pode auxiliar na busca das melhores informações científicas disponíveis, principalmente devido à grande dificuldade no acesso as informações farmacoterapêuticas envolvendo a fitoterapia [15,16]. Além da filosofia de prática centrada no paciente e a disponibilização de um método para busca das melhores evidências científicas, se faz necessária uma metodologia de processo de tomada de decisão para embasar e guiar o profissional farmacêutico em seu raciocínio clínico para acompanhamento depacientes que fazem o uso de plantas medicinais e fitoterápicos [17,18]. A aplicação do processo racional de tomada de decisão em farmacoterapia, denominado Pharmacotherapy Workup, proposto pela AF, pode contribuir e garantir ao paciente uma terapia medicamentosa indicada, efetiva, segura e conveniente [14]. Diante do aumento crescente do uso da fitoterapia e de programas e políticas públicas nacionais que fomentam e estruturam a utilização de plantas medicinais e fitoterápicos no SUS se faz necessário que o profissional farmacêutico atenda à necessidade social de garantir ao paciente e a população o uso racional desse recurso. O objetivo desse artigo é discutir o papel da profissão farmacêutica na corresponsabilização para garantir o uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos e do desenvolvimento da AF na fitoterapia, com a aplicação do processo racional de tomada de decisão em farmacoterapia, dentro do escopo de uma prática centrada no paciente e da saúde baseada em evidência. MATERIAIS E MÉTODOS A metodologia utilizada neste trabalho foi a revisão narrativa. As pesquisas foram realizadas em literatura nacional e internacional abordando o tema fitoterapia e atenção farmacêutica, utilizando a base de dados MEDLINE (Medical Literature Analysis and Retrievel System Online) e a biblioteca eletrônica SciELO (Scientific Electronic Library Online). As palavras chaves utilizadas foram: “plantas medicinais”, “fitoterapia”, “atenção farmacêutica”, “processo racional de tomada de decisão em farmacoterapia”, “saúde baseada em evidências” e seus respectivos termos em inglês: “herbal medicines”, “phytotherapy”, "pharmaceutical care", "pharmacotherapy workup", "evidence- based health". 13 JAPHAC (7): 10-21 Foram também utilizados decretos, leis, normatizações, portarias e outras legislações. O Google Acadêmico foi utilizado para ampliação e recuperação de estudos e artigos nacionais sobre a temática fitoterapia e atenção farmacêutica. Os critérios de inclusão dos artigos nesta revisão foram: artigos publicados em português ou inglês, com resumos ou artigos disponíveis nas bases de dados consultadas, no período de 2000 a 2020. Os artigos cujo temas não eram compatíveis com a discussão deste trabalho foram excluídos. RESULTADOS E DISCUSSÃO Na MEDLINE e na SciELO, a partir da aplicação de combinações dos termos de pesquisa, teve-se como resultado da busca o total de 553 artigos, sendo selecionados apenas 12 que tinham relação com o objetivo da revisão. O Google Acadêmico foi utilizado como literatura cinzenta para ampliação da pesquisa. Ao final, para a construção dessa revisão foram incluídos 27 artigos que estavam diretamente relacionados a temática do estudo, além da revisão documental. A necessidade social de um profissional que se corresponsabilize pelo uso de plantas medicinais e fitoterápicos A criação e estruturação de políticas públicas brasileiras no âmbito da fitoterapia reflete a luta e anseio da própria população, pesquisadores e profissionais da área, sendo uma trajetória que antecede a criação do SUS. Tanto a PNPIC e PNPMF, possuem como objetivos centrais a valorização e o resgate de uma prática cultural e de centenas de anos, em junção com o conhecimento científico, para possibilitar mais uma opção terapêutica no SUS aos usuários do sistema e aos profissionais de saúde [2,19]. Em um retrospecto, analisando as ações e publicações do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) nos últimos anos, nota-se uma estruturação da fitoterapia tanto no âmbito de regulamentação sanitária, de prática de saúde, e também no fortalecimento e promoção de pesquisas de plantas medicinais nativas e do desenvolvimento da cadeia produtiva nacional de fitoterápicos [1]. Criada em 2008, a Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse do SUS (Renisus), é um dos principais documentos que estão guiando pesquisas nesse setor para a avaliação e sistematização de plantas medicinais com tradicionalidade de uso no Brasil [20]. Outros documentos, além das publicações dos programas PNPIC, PNPMF e da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, foram incorporados nesse escopo de estruturação, como a elaboração do primeiro Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira [21] e a publicação da primeira edição do Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira que traz informações farmacoterapêuticas de 28 plantas medicinais para auxiliar profissionais de saúde na prescrição e no cuidado de pacientes [22]. Além da disponibilização dos insumos terapêuticos, do fomento da cadeia produtiva, o Ministério da Saúde junto com o Ministério da Educação vem incentivando capacitações e cursos de pós- graduação na área da fitoterapia para formação de profissionais habilitados a exercer o cuidado e implementar essa terapêutica no SUS [23]. Atualmente na RENAME (Relação Nacional de Medicamentos Essenciais), há a disponibilização de 12 fitoterápicos no SUS [23]. Mesmo com todas essas ações promovidas nos últimos anos, ainda existe uma deficiência na capacitação e formação de profissionais de saúde para exercer o cuidado e acompanhar pacientes que fazem uso de plantas medicinais, assim como ainda a oferta dessa terapêutica no SUS não está acessível a todos usuários [1]. O Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (SINITOX) registrou a ocorrência de 239 casos de intoxicações por plantas no Brasil em 2017, sendo notificado 1 óbito [24]. No período de 2004 a 2008 foram registrados a ocorrência de 8.501 casos de intoxicações por plantas no Brasil nesse período [25]. Dessas notificações, 12,4% estavam relacionadas a usuários que usavam plantas na busca de tratamentos para a saúde. 14 JAPHAC (7): 10-21 O desenvolvimento de ações que contemplem o uso racional, farmacovigilância e acompanhamento de pacientes que fazem o uso de plantas medicinais e fitoterápicos é uma preocupação emergente e uma grande necessidade social no Brasil. Um dos principais desafios evidenciados na prática da fitoterapia é a falta de profissionais de saúde capacitados para o manejo e aplicação dessa terapêutica [25]. Assim como a problemática cultura e propaganda de que o “natural não faz mal”, em que traz a falsa ideia que não há riscos. Outros obstáculos são os erros e trocas de identificação de espécies vegetais, adulteração dos produtos fitoterápicos, uso off- label das plantas medicinais com descrição e comprovação de efetividade e segurança a partir da tradicionalidade. Todos esses fatores tornam o uso de plantas medicinais e fitoterápicos um alvo fácil para automedicação irresponsável, trazendo riscos de superdosagem, uso sem indicação, inefetividade terapêutica e reações adversas [19,25]. A fitoterapia na prática clínica requer uma abordagem multidisciplinar centrada no paciente. Dos profissionais de saúde envolvidos, o farmacêutico tem participado do desenvolvimento dessas políticas e é de extrema importância que esse profissional preste assistência em saúde às comunidades e aos pacientes que fazem o uso de plantas medicinais e fitoterápicos [26]. Em sua formação acadêmica, o farmacêutico cursa disciplinas que incluem tanto a temática das plantas medicinais como a do cuidado, possibilitando a esse profissional o desenvolvimento de competências para atuação em diversas etapas da cadeia produtiva e de utilização da fitoterapia. Essa formação perpassa o estudo da análise e identificação de plantas medicinais, assim como a manipulação, produção e controle de qualidade das melhores formas farmacêuticas, abrangendo também a formação de cuidado a partir dos serviços clínicos farmacêuticos, como acompanhamento farmacoterapêutico, dispensação,educação em saúde e manejo de problemas de saúde autolimitados [27]. Além de ser um profissional habilitado para prescrição de plantas medicinais e fitoterápicos (com exceção de medicamentos fitoterápicos elaborados a partir de 9 espécies que são restritos à prescrição médica). As atribuições próprias da profissão reforçam a atuação do farmacêutico na área da fitoterapia como estabelecido na resolução nº 477 de 2008 do Conselho Federal de Farmácia [12,25,26]. A atuação do farmacêutico na fitoterapia permite esse elo entre o conhecimento popular e o científico, e a promoção e garantia do uso racional da fitoterapia, visto que esse profissional pode atuar desde a cadeia produtiva de plantas medicinais e fitoterápicos e no cuidado e assistência a pacientes, garantindo a efetividade e segurança no uso dessa terapêutica [26]. Atenção farmacêutica e a fitoterapia: o processo racional de tomada de decisões no manejo de pacientes que fazem uso de plantas medicinais e fitoterápicos Para que o farmacêutico possa realizar o cuidado de pacientes que fazem o uso de plantas medicinais e fitoterápicos se faz necessária a adoção de uma prática clínica que o oriente filosoficamente, e que lhe ofereça ferramentas e um raciocínio para auxiliar em sua tomada de decisão com o paciente. A AF é uma prática centrada no cuidado ao paciente, que surgiu diante do contexto de uso irracional de medicamentos em que se observou um aumento da morbimortalidade relacionados a esse uso. Diante desse cenário, a AF é uma prática profissional em que o farmacêutico atende essa responsabilidade e demanda social de assumir as necessidades farmacoterapêuticas do paciente [17]. A partir desse cenário e demanda social foi proposto o pharmaceutical care, que no Brasil foi inicialmente traduzido como atenção farmacêutica, que atualmente não é a tradução mais correta mas ainda é empregada, devido existência de outros métodos de raciocínios clínicos e arcabouços filosóficos para aplicação do serviço clínico farmacêutico de acompanhamento 15 JAPHAC (7): 10-21 farmacoterapêutico [27]. A AF é a prática que orienta o farmacêutico em sua atribuição clínica de cuidado ao paciente, em que um dos seus objetivos, são identificar, prevenir e a resolução dos problemas relacionados ao uso de medicamentos (PRM) [13]. O PRM caracteriza-se como um evento não desejado que acontece e é vivenciado pelo paciente e que envolve a farmacoterapia em uso, resultando em falhas terapêuticas e riscos, necessitando da intervenção e avaliação de um profissional [28]. A AF propõe um método de tomada de decisão racional sobre farmacoterapia, categorizando a análise em indicação, efetividade, segurança e conveniência. Essa sequência lógica de raciocínio, que é denominado como pharmacotherapy workup ou propedêutica em farmacoterapia, é empregada para auxiliar o profissional a identificar, resolver e prevenir PRM, para elaborar o plano de cuidado com a seleção das melhores intervenções e evidências em saúde juntamente com o paciente e também para o auxílio, posteriormente dentro do ciclo de cuidado, na avaliação de resultados [13,28]. O desenvolvimento da AF e da aplicação do seu método de processo racional de tomada de decisão para análise da farmacoterapia de pacientes que fazem uso de plantas medicinais e fitoterápicos permite ao profissional farmacêutico uma abordagem que irá avaliar se a planta medicinal e/ou fitoterápico em uso pelo paciente é indicado para tratar sua condição de saúde, se está sendo efetivo para tal problema/objetivo, se o uso está sendo seguro para o paciente, e por último, se o seu uso está sendo feito da forma mais conveniente para aquele indivíduo [14]. No desenvolvimento do serviço de GTM o paciente é visto de forma holística e integrada, o que se alinha com a perspectiva e filosofia das práticas integrativas e complementares, como a fitoterapia, que busca compreender o indivíduo como um todo e de forma multidisciplinar [9,13]. Na fitoterapia, muitas vezes, as ações em educação em saúde e o acompanhamento de pacientes se restringe apenas às análises e abordagens em relação a segurança, principalmente a prevenção de reações adversas e interações planta-medicamento [30]. O desenvolvimento da AF possibilita uma abordagem completa e mais efetiva, em que irá avaliar a necessidade, a efetividade, a segurança e a conveniência para o paciente da planta medicinal e/ou fitoterápico em uso, e proporciona ao profissional farmacêutico a provisão de um cuidado e serviço mais estruturado, contribuindo de fato com o uso racional dessa terapêutica. Aplicação da Saúde Baseada em Evidências Atualmente, na área da saúde, a tomada de decisões na prática clínica está cada vez mais associada ao raciocínio e estruturação da prática da saúde baseada em evidências. O raciocínio que é aplicado busca e visa o emprego das melhores evidências disponíveis, juntamente com a experiência do profissional e preferências do paciente para aplicação, conforme as necessidades requeridas e identificadas, de intervenções de cuidados ao paciente que sejam mais seguras e que proporcionem melhores resultados [15,16]. Ao realizar o GTM, a avaliação das evidências e subsídios para a resolução dos PRM identificados também deve se basear na melhor evidência científica disponível. A prática baseada em evidência deve ser uma ferramenta para o profissional realizar a busca, a integração e a interpretação das melhores informações disponíveis para os cuidados em saúde e farmacoterapêutica, contribuindo assim com o processo de tomada de decisão a partir das necessidades e preferências do paciente, de maneira individualizada [14]. O farmacêutico durante o GTM não pode tomar decisões clínicas consistentes sem um bom entendimento das preferências e experiências do indivíduo com o uso de medicamentos e/ou plantas medicinais, das suas crenças e seus anseios. Assim como não deve tomar decisões clínicas sem evidências científicas concretas. A prática baseada em evidência e o método clínico centrado na pessoa precisam coexistir e se complementar na prática da AF [13,14,19]. 16 JAPHAC (7): 10-21 No uso popular de plantas medicinais e fitoterápicos, estudos não científicos, o folclore e as práticas populares são, muitas vezes, utilizadas como fonte de informações sobre indicação, efetividade e segurança. Esta forma de aquisição do conhecimento é importante, pois os saberes acumulados pela medicina popular contribuem para a prática clínica e puderam auxiliar no desenvolvimento de alguns fitoterápicos amplamente utilizados [19,30,31]. No entanto, são necessários mais pesquisas e ensaios clínicos com fitoterápicos e plantas medicinais que possuam bons padrões metodológicos para avaliação de eficácia e segurança de diversas espécies vegetais, sejam aquelas que já estão em uso pela população ou para a identificação de potenciais plantas medicinais [32]. Quando se compara a quantidade e a qualidade de evidências científicas derivadas de estudos clínicos disponíveis na literatura para medicamentos convencionais com aquelas disponíveis para fitoterápicos e plantas medicinais observa-se uma defasagem de informações para a última e uma falta de qualidade metodológica nos ensaios clínicos já disponíveis [32]. A qualidade metodológica dos estudos clínicos na avaliação de eficácia e segurança de plantas medicinais e fitoterápicos é uma preocupação emergente. Um estudo desenvolvido em 2008 [33] realizou a análise da qualidade das evidências científicas de quase 1000 fitoterápicos e plantas medicinais comercializados no ocidente e concluiu que apenas 156 fitoterápicos da amostra analisada possuíam estudos clínicos de alta qualidade que embasavam a sua utilizaçãoem seres humanos. O estudo ainda aponta que 12% dos fitoterápicos disponíveis no mercado não possuem estudos clínicos ou boa documentação de tradicionalidade de uso. Quando não há estudos com ensaios clínicos de plantas medicinais e fitoterápicos, uma forma de analisar indicação, efetividade e segurança, é buscar na literatura científica e referenciada pelos órgãos sanitários competentes, se há tradicionalidade de uso. No Brasil, para registro de um fitoterápico, além da comprovação por meio de ensaios clínicos e toxicológicos, pode- se também realizar esse registro por comprovação de efetividade e segurança por levantamentos de estudos etnofarmacológicos ou de uso por meio de pesquisas etno-orientadas de utilização, documentações técnico-científicas, ou outras publicações de literaturas referenciadas pela ANVISA, em que esse uso tradicional e documentação tenha no mínimo, um período de 30 anos. A tradicionalidade de uso é legalmente aceita para comprovação de segurança e efetividade de fitoterápicos desde 2004 a partir da RDC Nº 48 de 2004. A legislação atual para essa finalidade é a RDC nº 26 de 2014 da ANVISA. Essa última separa os produtos fitoterápicos nas categorias de medicamentos fitoterápicos e produtos tradicionais fitoterápicos [34,35]. A aplicação da saúde baseada em evidências como ferramenta para a busca e avaliação das melhores evidências disponíveis pode fornecer informações sólidas sobre o grau de evidências da indicação, efetividade e segurança de um determinado fitoterápico e/ou planta medicinal, colaborando assim para a tomada de decisão conjunta com o paciente na prática da AF. Prática centrada no paciente e experiência subjetiva no âmbito da fitoterapia Outro componente da prática da AF que auxilia o profissional a garantir um manejo da terapia medicamentosa efetivamente centrado no paciente é o reconhecimento da experiência subjetiva com o uso de medicamentos convencionais, fitoterápicos e plantas medicinais. A experiência e os eventos que o paciente vivencia nesse uso faz parte do processo individual e subjetivo do paciente, e que perpassa a sua compreensão em saúde, da sua farmacoterapia, das suas crenças e anseios, que são traduzidos em significados e ações, sejam positivas e/ou negativas [13,36]. A compreensão dessa experiência subjetiva é fundamental para a prevenção, identificação e resolução do PRM, e para construção de um plano de cuidado individualizado [13]. De modo análogo, compreender o significado e contexto do uso das 17 JAPHAC (7): 10-21 plantas medicinais e fitoterápicos é também de suma importância para garantir uma farmacoterapia indicada, efetiva, segura e conveniente para o paciente. Tratando-se da fitoterapia, o seu uso vai além do valor terapêutico. Observa-se que a busca por plantas medicinais como terapêutica e nos cuidados em saúde é reflexo do componente cultural e tradicional do paciente e da sua comunidade, representando as diversidades e histórias desses [2,19]. A experiência que o paciente vivencia nesse contexto irá refletir os significados que o mesmo atribui as plantas medicinais para o tratamento e prevenção de seus problemas de saúde. Compreender a experiência subjetiva do paciente que faz uso de plantas medicinais pode guiar o profissional farmacêutico no manejo adequado da terapia medicamentosa de forma centrada no paciente. A aplicação da AF e o desenvolvimento do GTM na fitoterapia Na busca nas bases de dados utilizados a partir dos descritores empregados encontraram- se apenas 3 artigos correlacionando os termos atenção farmacêutica e fitoterapia, como demonstrado na Tabela 1. Porém esses estudos não correspondem ao arcabouço teórico- metodológico da AF e do GTM. Na profissão farmacêutica por muito tempo o termo AF foi designado para as ações de cuidados e orientações dos farmacêuticos aos pacientes, devido a tradução do termo pharmaceutical care, que hoje entende-se relacionado ao contexto de prática profissional do GTM e da aplicação do raciocínio de tomada de decisão através do pharmacotherapy workup [28]. Na avaliação e acompanhamento de pacientes no serviço de GTM, muitas vezes, as plantas medicinais não são investigadas como os medicamentos convencionais, sendo colocadas em um segundo plano. Durante a avaliação/consulta com o profissional de saúde os pacientes, em grande parte, não informam que fazem o uso de plantas medicinais e/ou fitoterápicos, por tratarem essas terapêuticas como componentes culturais da sua rotina e comunidade, e por também considerá-los instrumentos terapêuticos que não envolvem riscos à saúde [18,19,37]. Importante ressaltar que estudos sobre a avaliação a aplicação do processo racional de tomada de decisão da farmacoterapia da AF e dos seus desfechos já são realizadas no contexto de uso de medicamentos convencionais [38, 39, 40, 41,42], existindo essa lacuna de informações em relação a implementação desse serviço clínico, dados sobre os resultados clínicos, humanísticos, econômicos e sobre a experiência subjetiva dos pacientes em uso da fitoterapia. A desconsideração do uso de plantas medicinais e fitoterápicos é uma conduta comum aos profissionais de saúde, que muitas vezes avaliam essa terapêutica como uma prática que não possui efetividade/eficácia ou que não tem potencial para causar danos à saúde [37]. A fitoterapia na prática clínica muitas vezes não é aplicada por falta de conhecimento e capacitação por parte do profissional de saúde, e também pela dificuldade da busca de evidências científicas e protocolos clínicos para auxiliar o seu raciocínio e posterior tomada de decisão [18,19,37]. 18 JAPHAC (7): 10-21 Tabela 1- Estudos que relacionam fitoterapia, plantas medicinais e/ou fitoterápicos com atenção farmacêutica Título Atenção farmacêutica e práticas integrativas e complementares no SUS: conhecimento e aceitação por parte da população sãojoanense Prescrição farmacêutica de medicamentos fitoterápicos A importância da atenção farmacêutica no uso de fitoterápicos emagrecedores contendo sene (Cassia angustifolia Vanh) Objetivo(s), resultados e conclusões do estudo Investigou o conhecimento e aceitação das terapias integrativas e complementares e atenção farmacêutica por usuários de unidades básicas de saúde do SUS. Foi realizado um estudo transversal descritivo qualitativo e quantitativo. A pesquisa demonstrou que a grande maioria dos pesquisados aceitaria o uso de práticas integrativas e complementares se estas fossem oferecidas pela unidade de saúde de São João da Mata-MG, além de acharem importante uma maior atenção do farmacêutico no seu atendimento. O trabalho visou analisar a questão da prescrição farmacêutica de fitoterápicos e acompanhamento de pacientes em uso de fitoterápicos através do estudo de prontuários de pacientes. Foi realizado um estudo transversal descritivo qualitativo e quantitativo. Foram realizados 77 atendimentos, em sua maioria, com pacientes idosos encaminhados pela fisioterapia. Foram atendidos 30 pacientes que buscaram diretamente o serviço de Atenção Farmacêutica, em sua maioria, mulheres com em média 60 anos, com queixas de estresse e que já vinham com o diagnóstico de hipertensão. As taxas de retorno foram de 20%. Observou-se a desinformação da população em relação ao papel do farmacêutico como profissional de saúde na fitoterapia. O estudo realizou um levantamento bibliográfico sobre o uso do sene no auxílio do tratamento da obesidade e da aplicação e importância da AF no uso de fitoterápicos contendo essa espécie vegetal. Concluiu que se faz necessário a aplicação da AF para um uso racional e desenvolvimento de maiores estudos para avaliação do potencialdo sene na obesidade. Referência [18] [26] [43] 19 JAPHAC (7): 10-21 CONCLUSÃO O desenvolvimento da atenção farmacêutica e a aplicação do processo racional de tomada de decisão em farmacoterapia possibilitam uma avaliação integral da fitoterapia em uso pelo paciente. Além disso, a perspectiva da prática centrada no paciente pode auxiliar o profissional na compreensão da experiência subjetiva dos pacientes com o uso de fitoterápicos e plantas medicinais. Tal compreensão, associada à aplicação dos preceitos da saúde baseada em evidências, tem grande potencial para melhorar a prática clínica do farmacêutico e, consequentemente, os resultados na saúde das pessoas por ele assistidas. É necessário o desenvolvimento de estudos que caracterizem, avaliem e demonstrem os impactos da aplicação da atenção farmacêutica na fitoterapia. CONTRIBUIÇÃO DAS AUTORAS JASS e IVR foram responsáveis pela concepção, desenho do estudo e revisão da literatura. ACA, DRO e SAMM participaram da elaboração do manuscrito e da revisão crítica do conteúdo. CONFLITO DE INTERESSE As autoras declaram não possuir conflitos de interesse. REFERÊNCIAS 1. Borges FV, Diana M, Sales C. Políticas públicas de plantas medicinais e fitoterápicos no brasil: sua história no sistema de saúde. Pensar Acadêmico. 2018;16(1):13–27. 2. de Figueredo CA, Gurgel IGD, Gurgel Junior GD. A política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos: Construção, perspectivas e desafios. 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