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DIREITO PENAL ESPECIAL E LEGISLAÇÃO EXTRAVAGANTE1 PROF. ALEX RIBEIRO CABRAL AULA 05 – CRIMES CONTRA A HONRA 1 – CONSTITUÇÃO FEDERAL e CÓDIGO PENAL A CF/88 prevê a proteção da honra em seu artigo 5º, X, no qual dispõe: X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; O Código Penal, a seu turno, prevê três modalidades de crime contra a honra: calúnia, difamação e injúria (arts. 138, 139 e 140, CP). 2 – CALÚNIA 2.1 Honra Objetiva O crime de calúnia está previsto no art. 138 do Código Penal e, uma vez cometido, gera abalo à honra objetiva da vítima, que pode ser entendida como a reputação (bom nome) do indivíduo perante o seu grupo social. Art. 138 - Caluniar alguém, imputando-lhe falsamente fato definido como crime: Pena - detenção, de seis meses a dois anos, e multa. 1 Elaborado com base, precipuamente, nas obras: I. SANCHES, Rogerio. Manual de Direito Penal: Volume Único. II. ROQUE, Fabio. Direito Penal Didático. III. GONÇALVEZ, Victor Eduardo Rios. Direito Penal Esquematizado: Parte Especial. IV. GRECO, Rogério. Código Penal Comentado; V. CAPEZ, Fernando. Curso de Direito Penal; VI. DA COSTA, Álvaro Mayrink. Direito Penal: Parte Especial. § 1º - Na mesma pena incorre quem, sabendo falsa a imputação, a propala ou divulga. § 2º - É punível a calúnia contra os mortos. Exceção da verdade § 3º - Admite-se a prova da verdade, salvo: I - se, constituindo o fato imputado crime de ação privada, o ofendido não foi condenado por sentença irrecorrível; II - se o fato é imputado a qualquer das pessoas indicadas no nº I do art. 141; III - se do crime imputado, embora de ação pública, o ofendido foi absolvido por sentença irrecorrível. 2.2 Imputação Falsa de Fato Definido como Crime Na calúnia o agente criminoso age de modo a atribuir, falsamente, ao ofendido a prática de um fato criminoso específico/determinado. Em outras palavras, o agente narra um fato criminoso como se tivesse sido praticado pela vítima da calúnia, o que, evidentemente, é capaz de abalar a honra objetiva de quem sofre esse tipo de ação. É possível que a calúnia seja uma imputação relacionada a um fato que não ocorreu ou que seja relacionada à acusação de uma pessoa que não cometeu o fato criminoso que efetivamente ocorreu. Ex.1: Ricardo, com o objetivo de manchar a honra de José, diz para colegas de trabalho que José, recém demitido, estava furtando dinheiro do caixa da empresa e por isso foi mandado embora. Na hipótese, Ricardo sabe que jamais houve furto algum e que o motivo da demissão de José foi outro, mas criou essa estória para manchar a reputação de José. Ex.2: Uma determinada empresa afastou Mévio e Tício, dois funcionários que estavam praticando o crime de assédio sexual. Caio diz para colegas da empresa que José também era um dos autores dos crimes de assédio sexual, mesmo ciente de que José jamais participou de tais condutas. Importante que se verifique a falsidade da imputação. Se o fato imputado for verdadeiro, não haverá configuração de crime. Também é importante observar que se o autor acreditar que o fato é verdadeiro, mesmo não o sendo, tendo atribuído crime a outrem por engano, poderá alegar erro de tipo (art. 20, §1º, CP – erro plenamente justificável pelas circunstâncias). A lei, ainda, prevê a possibilidade de calúnia contra os mortos no §2º do art. 138, entendendo o legislador que, no tocante ao crime em questão, a memória dos mortos deve ser preservada. 2.3 Imputação de Contravenção Importante: necessário para a configuração da calúnia a atribuição falsa de CRIME. Caso seja atribuída à vítima a prática de uma contravenção penal (fulano tem uma banca de jogo do bicho – art. 58, do DL 3688/41), a conduta do agente equivalerá ao crime de difamação. No crime de difamação há imputação de fato ofensivo à vítima, sendo que tal fato ofensivo não constitui crime. 2.4 Elemento Subjetivo Dolo direto ou eventual, no sentido de ofender a honra objetiva da vítima, atribuindo-lhe falsamente a prática de um crime. O objetivo de ofender a vítima deve estar presente. Isto é, indispensável o animus injuriandi vel diffamandi. Se não há seriedade no agente, tendo feito a narração do fato por brincadeira (animus jocandi), o fato é atípico. Evidentemente, a análise quanto à presença de animus jocandi depende de peculiaridades do caso concreto. Caso o fato criminoso imputado à vítima tenho sido mencionado em roda de amigos, a título de zombaria, não teremos a configuração do tipo penal em estudo. Não há modalidade culposa. 2.5 Calúnia X Denunciação Caluniosa Necessário distinguir a calúnia da denunciação caluniosa2, pois neste último caso, a conduta do agente é mais grave, já que pretende prejudicar a vítima perante as autoridades causando a instauração de procedimento contra a vítima. Ex: Caio vai à delegacia de polícia apresentar falsa notícia-crime, dizendo que Tício pratica crime de furto na agência bancária onde trabalha, mesmo sabendo Caio que Tício jamais praticou o referido crime. Como a conduta do agente leva às autoridades imputação de crime sabidamente falsa, considera-se uma infração contra a administração da justiça. Por óbvio que o crime de denunciação caluniosa traz consigo ofensa à honra da vítima. De todo modo, os tribunais consideram que o crime de calúnia fica absorvido pelo crime de denunciação caluniosa. 2.5 Meio de Execução Escrita, Gestual, Simbólica e Verbal. 2.6 Consumação e Tentativa A consumação se dá no momento em que terceira pessoa passa a ter conhecimento da imputação caluniosa. 2 Art. 339. Dar causa à instauração de inquérito policial, de procedimento investigatório criminal, de processo judicial, de processo administrativo disciplinar, de inquérito civil ou de ação de improbidade administrativa contra alguém, imputando-lhe crime, infração ético-disciplinar ou ato ímprobo de que o sabe inocente: (Redação dada pela Lei nº 14.110, de 2020) Pena - reclusão, de dois a oito anos, e multa. § 1º - A pena é aumentada de sexta parte, se o agente se serve de anonimato ou de nome suposto. § 2º - A pena é diminuída de metade, se a imputação é de prática de contravenção. Somente se admite a tentativa na forma escrita. Ex.: carta com conteúdo calunioso que foi endereçada a terceiros, mas não chegou ao destino por circunstância alheia à vontade do agente. Ademais, trata-se de crime formal, não exigindo resultado efetivo de dano à honra da vítima para que seja considerado consumado. 2.7 Imunidade Devemos nos atentar para pessoas que usufruem de unanimidade para manifestação de suas palavras e opiniões enquanto detentores de certos cargos. É o caso dos deputados e senadores, vide artigo 53 da Carta Magna: Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos. Tal imunidade, contudo, não é absoluta, pois é necessário que a fala do deputado/senador tenha relação com a função por ele exercida, isto é, a fala protegida pela imunidade tem relação com o exercício do cargo político. Por outro lado, caso um senador, por exemplo, venha a acusar o seu vizinho de praticar crimes, não estará protegido pela imunidade, pois essa conduta não tem relação com a sua função. Deputados estaduais também têm direito a tal imunidade, conforme já decidido pelo STF nas ADIs 5824 e 5825, haja vista que tal imunidade estaria prevista no artigo 27, §1º, da CF: § 1º Será de quatro anos o mandato dos Deputados Estaduais, aplicando- sê-lhes as regras desta Constituição sobre sistema eleitoral, inviolabilidade, imunidades, remuneração, perda de mandato, licença, impedimentos e incorporação àsForças Armadas. Os Vereadores também são protegidos pela imunidade em questão, vide artigo 29, VIII, da CF: VIII - inviolabilidade dos Vereadores por suas opiniões, palavras e votos no exercício do mandato e na circunscrição do Município. 2.8 Exceção da Verdade Se a pessoa acusada pelo crime de calúnia demonstrar em juízo que a sua afirmação é verdadeira, teremos a aplicação da exceção da verdade, resultando da prova da verdade a atipicidade. Tal prova é feita no mesmo processo, podendo o acusado juntar documentos e produzir prova testemunhal para demonstrar a veracidade do que disse à respeito da suposta vítima da calúnia. Se o juiz constatar a veracidade do fato, além de absolver o acusado, remeterá cópia dos autos ao Ministério Público, na forma do artigo 40 do Código de Processo Penal.3 Obs.: sendo proposta a exceção da verdade contra quem tenha foro por prerrogativa de função, o incidente da exceção da verdade será julgado perante o foro que detenha a prerrogativa, conforme previsão do art. 85 do CPP.4 Ex.: governador de Estado ajuíza ação penal de iniciativa privada no JECRIM, alegando que foi caluniado por João. Se João apresentar tese de exceção da verdade contra o governador, esse incidente será julgado perante o STJ, foro por prerrogativa de função dos detentores de tal cargo. 2.8.1 Vedação da Exceção da Verdade 3 Art. 40. Quando, em autos ou papéis de que conhecerem, os juízes ou tribunais verificarem a existência de crime de ação pública, remeterão ao Ministério Público as cópias e os documentos necessários ao oferecimento da denúncia. 4 Art. 85. Nos processos por crime contra a honra, em que forem querelantes as pessoas que a Constituição sujeita à jurisdição do Supremo Tribunal Federal e dos Tribunais de Apelação, àquele ou a estes caberá o julgamento, quando oposta e admitida a exceção da verdade. É vedada a exceção da verdade nos casos previstos no art. 138, §3º, I, II e III, do CP: I - se, constituindo o fato imputado crime de ação privada, o ofendido não foi condenado por sentença irrecorrível; A lógica deste inciso é relacionada ao fato de a existência da ação de natureza privada depender da manifestação de vontade da vítima do crime. Logo, pode, o crime de ação privada ter ocorrido, mas a vítima não teve interesse em dar início à ação penal por ser um fato que a vítima pretenda deixar de lado. Assim, o agente que pratica a calúnia fica impedido de apresentar a exceção da verdade, pois se sequer a vítima do crime de ação privada quis que o caso fosse apurado, não pode um terceiro suscitar a apuração do referido crime. Se a ação penal privada for efetivamente proposta, com condenação daquele que sofreu a suposta calúnia por sentença transitada em julgado, poderá ser apresentada a exceção da verdade. II - se o fato é imputado a qualquer das pessoas indicadas no nº I do art. 141; Não pode ser apresentada a exceção da verdade contra Presidente da República. A prerrogativa de ajuizar ação penal em face do presidente é da PGR. Em razão disso, a lei entende que não deve ser aberta a possibilidade, a qualquer pessoa do povo, de apresentar exceção da verdade, arvorando-se ao papel de instaurar procedimento de averiguação de fato criminoso supostamente praticado pelo Presidente, além do que, em virtude da grandeza do cargo, a exceção da verdade seria um constrangimento desnecessário. Quanto ao chefe de estado estrangeiro, entende-se que a exceção da verdade deve ser evitada para preservação das relações diplomáticas. III - se do crime imputado, embora de ação pública, o ofendido foi absolvido por sentença irrecorrível. Havendo sentença absolutória transitada em julgado em prol do ofendido pela calúnia, não será admitida a exceção da verdade, pois entende-se que o ofendido é considerado inocente por decisão imutável quanto ao fato criminoso a ele imputado pelo agente. Por fim, há, ainda, a possibilidade de apresentação de exceção da notoriedade do fato, prevista no artigo 523 do CPP5, situação na qual o acusado alegará que o fato criminoso do qual o ofendido foi acusado é de domínio público, sendo de conhecimento geral. 3 – DIFAMAÇÃO 3.1 Honra Objetiva O crime de difamação está previsto no art. 139 do Código Penal e, uma vez cometido, tal como a calúnia, gera abalo à honra objetiva da vítima, que pode ser entendida como a reputação do indivíduo perante o seu grupo social. Art. 139 - Difamar alguém, imputando-lhe fato ofensivo à sua reputação: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa. Exceção da verdade Parágrafo único - A exceção da verdade somente se admite se o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa ao exercício de suas funções. 3.2 Imputação de Fato Ofensivo à Reputação 5 Art. 523. Quando for oferecida a exceção da verdade ou da notoriedade do fato imputado, o querelante poderá contestar a exceção no prazo de dois dias, podendo ser inquiridas as testemunhas arroladas na queixa, ou outras indicadas naquele prazo, em substituição às primeiras, ou para completar o máximo legal. Na difamação o agente criminoso age de modo a atribuir à vítima a prática de um determinado fato ofensivo a sua honra. Não é necessário que o fato imputado à vítima seja falso. Pode ocorrer difamação, mesmo sendo o fato verdadeiro, isto porque a intenção do legislador é a de que cada pessoa cuide de sua própria vida, evitando fazer comentários maldosos ou sobre a intimidade da vida alheia. Ex.: Tício conta para diversas pessoas que Mévio vai trabalhar embriagado todos os dias; Fulana diz para as amigas que Beltrana trabalha em casa de prostituição; José conta para colegas de trabalho que a esposa do chefe tem caso extraconjugal. Segundo parte da doutrina, não somente as pessoas físicas, mas também as pessoas jurídicas podem ser sujeitas passivas do crime de difamação, afinal as empresas também têm uma reputação a zelar. Imaginemos o exemplo de uma escola que passa a sofrer comentários desonrosos, no sentido de que não paga mais seus funcionários e que está prestes a fechar as portas. Evidentemente, tais comentários ferem a reputação da empresa, prejudicando, certamente, os negócios. O STF tem antigo julgado admitindo tal possibilidade. O STJ, por outro lado, não vem admitindo essa tese, pois entende que a difamação está presente no Título I da Parte Especial do CP, intitulado Crimes contra a Pessoa, sendo tal “pessoa” considerada a pessoa natural, a criatura humana. Sobre as pessoas mortas, só há lei prevendo a possibilidade de crime de calúnia contra os mortos, mas não crime de difamação. Logo, não há que se falar em difamação de mortos, por ausência de previsão legal. 3.3 Elemento Subjetivo Dolo direto ou eventual, no sentido de buscar ofender a honra objetiva da vítima, atribuindo-lhe um fato desonroso. O objetivo de ofender a vítima deve estar presente. Isto é, indispensável o animus injuriandi vel diffamandi. Se não há seriedade no agente, tendo feito a narração do fato por brincadeira (animus jocandi), o fato é atípico. Evidentemente, a análise quanto à presença de animus jocandi depende de peculiaridades do caso concreto. 3.4 Meio de Execução Escrita, Gestual, Simbólica e Verbal. 3.5 Consumação e Tentativa A consumação se dá no momento em que terceira pessoa passa a ter conhecimento da imputação caluniosa. Somente se admite a tentativa na forma escrita. Ex.: carta com conteúdo difamatório que foi endereçada a terceiros, mas não chegou ao destino por circunstância alheia à vontade do agente. 3.6 Imunidade Além dos parlamentares, que gozam de imunidade, como já visto no item 2.7, em relação à difamação e à injúria também possuem imunidade no exercício de suas funções: os membros do Ministério Público (art. 41,V, da Lei 8.625/936) e os magistrados (art. 41, V, da LC 35/797). 6 Art. 41. Constituem prerrogativas dos membros do Ministério Público, no exercício de sua função, além de outras previstas na Lei Orgânica: [...] V - gozar de inviolabilidade pelas opiniões que externar ou pelo teor de suas manifestações processuais ou procedimentos, nos limites de sua independência funcional; 7 Art. 41 - Salvo os casos de impropriedade ou excesso de linguagem o magistrado não pode ser punido ou prejudicado pelas opiniões que manifestar ou pelo teor das decisões que proferir. Os advogados também tinham imunidade semelhante a de membros do MP e juízes, o que era garantido pelo art. 7º, §2º, da Lei 8.906/94 (Estatuto da OAB). Contudo, a Lei 14.365/2022 alterou diversos dispositivos da Lei 8.906/94, revogando o parágrafo acima. 3.7 Exceção da Verdade Somente aplica-se a exceção da verdade se a vítima da difamação é funcionário público e a ofensa é relativa ao exercício de suas funções. Isto é, uma vez sendo o agente processado criminalmente pelo funcionário público em virtude de difamação, tem o agente a oportunidade de provar que é verdadeiro o fato ofensivo imputado ao funcionário. A lógica por trás dessa possibilidade é a de que há interesse público em que o funcionário em questão exerça suas funções de forma adequada e exemplar. 4 - INJÚRIA 4.1 Honra Subjetiva O crime de injúria está previsto no art. 140 do Código Penal e, uma vez cometido, gera abalo à honra subjetiva da vítima, que pode ser entendida como a imagem que cada pessoa tem sobre si mesma, seja no tocante aos aspectos físicos, morais ou intelectuais. Injúria Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa. § 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena: I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria. § 2º - Se a injúria consiste em violência ou vias de fato, que, por sua natureza ou pelo meio empregado, se considerem aviltantes: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a religião ou à condição de pessoa idosa ou com deficiência: (Redação dada pela Lei nº 14.532, de 2023) Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. (Redação dada pela Lei nº 14.532, de 2023) Na injúria teremos a atribuição pelo agente de uma qualidade negativa à vítima. Na injúria não há a imputação de fato ofensivo ou criminoso à vítima, como ocorre na difamação e na calúnia, respectivamente; o agente, na injúria, somente se utiliza de um xingamento, de uma ofensa direcionada à vítima. Ex.: Tício, na presença de Mévio, o chama de ladrão, corrupto, vagabundo etc. Caio, na presença de Maria, a chama de piranha, vadia, interesseira etc. Como o crime em tela afeta a honra subjetiva, necessário, para a sua configuração, que a vítima tome ciência do xingamento, seja pessoalmente, seja por meio de terceiros que lhe digam que foi ofendida pelo agente. Obs.: no momento da propositura da ação penal pela vítima contra quem a ofendeu, imprescindível que sejam descritas na peça inicial as expressões ofensivas, sem qualquer pudor, pois o juiz terá de fazer a análise de recebimento ou rejeição da peça acusatória, valendo-se do conhecimento das ofensas tal como foram proferidas, de modo a verificar, em última análise, se se está, ao menos em tese, diante ou não de uma injúria. 4.2 Elemento Subjetivo Dolo direto, no sentido de ofender a honra subjetiva da vítima, atribuindo- lhe qualidade/característica negativa. 4.3 Meios de Execução Escrita, Gestual, Simbólica e Verbal. 4.4 Consumação e Tentativa A consumação se dá no momento em que a vítima toma ciência da expressão injuriosa. Somente se admite a tentativa na forma escrita. Ex.: carta com conteúdo difamatório que foi endereçada a terceiros, mas não chegou ao destino por circunstância alheia à vontade do agente. 4.5 Imunidade Além dos parlamentares, que gozam de imunidade, como já visto no item 2.7, em relação à difamação e à injúria também possuem imunidade no exercício de suas funções: os membros do Ministério Público (art. 41, V, da Lei 8.625/93) e os magistrados (art. 41, da LC 35/79). 4.6 Exceção da Verdade Não é admissível na injúria. 4.7 Perdão Judicial O juiz pode aplicar o perdão judicial nas hipóteses do art. 140, §1º, I e II: § 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena: I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria. 4.8 Distinção Entre Lesão Leve e Injúria Real Na injúria real (art. 140, §2º, CP8), o agente ofende a vítima por meio de uma agressão (vias de fato ou lesão efetiva). A intenção do agente é a de humilhar a vítima, não de lesioná-la. O caráter humilhante da ação decorre da natureza do ato (raspar o cabelo / cuspir no rosto da vítima) ou do meio empregado pelo agente (atirar tomate ou ovos em pessoa que está discursando / jogar um copo de água no rosto da vítima para causar vexame). 4.9 Injúria Qualificada O artigo 140, §3º, traz hipótese de injúria qualificada pelo preconceito contra religião, pessoas idosas ou com deficiência. § 3º Se a injúria consiste na utilização de elementos referentes a religião ou à condição de pessoa idosa ou com deficiência: (Redação dada pela Lei nº 14.532, de 2023) Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. Perceba que a injúria simples tem pena de um a seis meses. Mas a injúria qualificada pelo preconceito tem pena bem mais severa, de 1 a 3 anos. 8 Art. 140 - Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa. [...]. § 2º - Se a injúria consiste em violência ou vias de fato, que, por sua natureza ou pelo meio empregado, se considerem aviltantes: Pena - detenção, de três meses a um ano, e multa, além da pena correspondente à violência. Ex.: contra idosos → chamar a vítima de velho babão, de velho esclerosado; contra pessoas com deficiência: chamar o ofendido de aleijado ou aberração; contra religião → chamar a vítima de feiticeiro. 4.10 Injúria Racial No mais, importante dizer que entrou em vigor no ano de 2023 a Lei 14.532, que transportou para a Lei 7.716/89 (Lei do Racismo) a conduta da injúria racial, que antes estava presente no artigo 140, §3º, do CP. Agora a injúria racial está prevista no artigo 2º-A da Lei 7.716/89, alterada pela Lei 14.532/2023: Art. 2º-A Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional. (Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023) Pena: reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa. (Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023) Parágrafo único. A pena é aumentada de metade se o crime for cometido mediante concurso de 2 (duas) ou mais pessoas. (Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023) Quando a injúria, portanto, tem relação com raça, cor, etnia ou procedência nacional, será aplicado o artigo acima, com pena de 2 a 5 anos e multa. Obs.: a CF/88 prevê que o crime de racismo é imprescritível e inafiançável (art. 5º, XLII), tendo tanto o STJ como o STF estendido esse entendimento também para a injúria racial. Atenção!!! Não podemos confundir injúria racial com o crime de racismo previsto no artigo 20 da Lei 7.716/1989. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14532.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14532.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14532.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14532.htm#art1Em primeiro lugar, na injúria racial há ofensa a uma pessoa determinada, como ocorre, por exemplo, quando alguém chama uma pessoa negra de “macaco”. No crime de racismo do artigo 20 há ofensa a pessoas indeterminadas, fazendo-se referências desairosas contra todos os integrantes da raça, cor, etnia ou procedência nacional atacadas: Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. (Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97) Pena: reclusão de um a três anos e multa.(Redação dada pela Lei nº 9.459, de 15/05/97) Ademais, também não podemos confundir injúria racial com os demais tipos de racismo previstos entre os artigos 3º e 14 da Lei 7.716/89, pois todos estes pressupõem atos efetivos de SEGREGAÇÃO da vítima em razão de cor, raça, etnia, religião ou procedência nacional, como, por exemplo: Art. 3º Impedir ou obstar o acesso de alguém, devidamente habilitado, a qualquer cargo da Administração Direta ou Indireta, bem como das concessionárias de serviços públicos. Pena: reclusão de dois a cinco anos. Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, por motivo de discriminação de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, obstar a promoção funcional. (Incluído pela Lei nº 12.288, de 2010) (Vigência) Art. 4º Negar ou obstar emprego em empresa privada. Pena: reclusão de dois a cinco anos. Art. 5º Recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador. Pena: reclusão de um a três anos. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9459.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9459.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9459.htm#art1 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm#art60 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm#art60 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12288.htm#art65 Art. 6º Recusar, negar ou impedir a inscrição ou ingresso de aluno em estabelecimento de ensino público ou privado de qualquer grau. Pena: reclusão de três a cinco anos. No tocante a atos de segregação contra idosos, temos o crime específico do artigo 96 da Lei 10.741/2003 (Estatuto do Idoso).9 No que se refere a atos de segregação contra pessoas com deficiência, temos o crime do artigo 88 da Lei 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa Com Deficiência).10 Em relação aos portadores do vírus HIV e doentes de AIDS, atos de segregação/marginalização que venham a sofrer estão previstos no artigo 1º, incisos I a VI, da Lei 12.984/2014.11 9 LEI 10.741/2003 (ESTATUTO DO IDOSO): Art. 96. Discriminar pessoa idosa, impedindo ou dificultando seu acesso a operações bancárias, aos meios de transporte, ao direito de contratar ou por qualquer outro meio ou instrumento necessário ao exercício da cidadania, por motivo de idade: Pena – reclusão de 6 (seis) meses a 1 (um) ano e multa. 10 LEI 13.146/2015 (ESTATUTO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA): Art. 88. Praticar, induzir ou incitar discriminação de pessoa em razão de sua deficiência: Pena - reclusão, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa. 11 LEI 12.984/2014: Art. 1º Constitui crime punível com reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa, as seguintes condutas discriminatórias contra o portador do HIV e o doente de aids, em razão da sua condição de portador ou de doente: I - recusar, procrastinar, cancelar ou segregar a inscrição ou impedir que permaneça como aluno em creche ou estabelecimento de ensino de qualquer curso ou grau, público ou privado; II - negar emprego ou trabalho; III - exonerar ou demitir de seu cargo ou emprego; IV - segregar no ambiente de trabalho ou escolar; V - divulgar a condição do portador do HIV ou de doente de aids, com intuito de ofender-lhe a dignidade; VI - recusar ou retardar atendimento de saúde.