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Peter Blake (1920-2006) 
Form follows fiasco, why Modern Architecture hasn’t worked 
(a forma segue o fiasco, por que a arquitetura moderna não funcionou) 
 
traduzido por Gustavo Rocha-Peixoto do capítulo final da publicação original em inglês: 
BLAKE, P. Form follows fiasco. Little, Brown & Co. , Boston/Toronto, 1977. 
 
 
 
A fantasia da Arquitetura 
 
Por volta da virada do século1 Daniel H. Burnham, o arquiteto de Chicago que se tornou 
um dos heróis populares do movimento moderno (apesar de ser, de fato, um devotado da 
École des Beaux-Arts), baixou a lei que governaria a arquitetura e o planejamento urbano pelos 
próximos 75 anos. “Não façam pequenos projetos”, disse Daniel Burnham, “Eles não têm a 
mágica de sacudir o sangue dos homens e provavelmente não serão realizados. Façam grandes projetos; 
mirem alto em esperança e trabalho, lembrando sempre que um esquema nobre, lógico uma vez 
gravado nunca morrerá, e muito depois que nós nos tivermos ido será ainda algo vivo e se 
afirmando com intensidade crescente” (itálicos acrescidos por P. Blake). 
Setenta e cinco anos depois, o professor Marshall Berman, cientista político, escreveu 
que “parece hoje virtualmente impossível sentir ou mesmo imaginar a alegria de edificar , a 
aventura e romantismo e heroísmo de construir. As frases mesmas soam estranhas... Como 
chegamos a condenar o processo e os produtos da construção como emblemas de tudo o que 
mais achamos destrutivo... feiura maciça, venalidade sólida, muralhas ultrajantes de riqueza, 
infindáveis tempestades de sujeira e barulho, grandes planos devastando as vidas do povo 
miúdo, vício organizado sem valor de redenção social?” E neste mesmo ano E.F. Schumacher 
escreveu, num livro cujo título tornar-se-ia famoso, que “pequeno” era “bonito”. Não grandes 
planos, pequenos planos. Ele continua dizendo que há algo inerentemente “bonito” em planejar 
e projetar numa escala pequena, humana – e algo ainda mais bonito em não projetar nada. 
“Um plano é o resultado de um exercício na liberdade da escolha,” escreveu Schumacher. “A 
escolha foi feita; todas as alternativas foram eliminadas... [as pessoas] preferiram capitular sua 
liberdade a agir fora das prescrições do plano” (itálicos acrescidos por P. Blake). O movimento 
moderno marchou infalivelmente por esse caminho reto e estreito, de Burnham ao Plan Voisin 
de Le Corbusier, a Robert Moses e o “saneamento urbano” popular na Alemanha Ocidental 
depois da 2ª Guerra Mundial. Em todo o mundo desenvolvido as pessoas “recuaram com 
medo e nojo” – como em outro lugar coloca o prof. Berman – onde quer que um novo 
projeto levante a cabeça. É uma tragédia devastadora para qualquer pessoa dedicada às 
intenções fundamentalmente decentes do movimento moderno que essas intenções 
fundamentalmente decentes quase sempre semeiem “medo e nojo” na comunidade. 
De alguma maneira, aparentemente sem consciência do que estavam fazendo, os mestres 
e seus seguidores no movimento moderno tornaram-se advogados e promotores da feiúra, da 
venalidade, da gula, da desintegração social, da exploração territorial. Quando e onde quer que 
eles tomem uma postura pública, era quase invariavelmente do lado dos agressores – 
 
1 do XIX para o XX. (N. do T.) 
defendendo a destruição de uma vizinhança bem estabelecida; defendendo a construção de um 
arranha-céu mamute (ou dois, ou dez) que serão ambiental e visualmente poluidores, e bem 
possivelmente perigosos para sua saúde; defendendo, seriamente, que ser reduzido a pó por 
uma moto-niveladora é, de fato bom para você; e que ser cegado pelo brilho, ensurdecido pelo 
barulho “branco”, irregelado pelas correntes polares, torrado pelas correntes tropicais, 
lancetado pelos contatos com os componentes ambientais agudos, de fato eleva sua acuidade 
visual e tátil, e seu espírito. E defendendo, por fim, que a nova tecnologia é também boa para 
você – mesmo se satura o ar com flocos de amianto, ferrugem e chuvas de cacos de vidro, e 
até mesmo se, para juntar insulto à injúria, ela leva você à falência. 
Como na terra os arquitetos – advogados idealistas do meio ambiente – conseguiram 
plantar-se nessa encruzilhada-se ridícula? A gula foi com certeza um fator. Apesar disso muitos 
arquitetos morrem pobres. Os que lucram com a construção são o calculista, o empreiteiro, 
fabricante, incorporador e o sindicalista. A razão verdadeira é, pois, claramente algo sem 
relação com recompensa financeira: o prêmio esperado por pulverizar seus vizinhos deve ser 
encontrado no paraíso, ou na história: o movimento moderno, com seus dogmas reluzentes, 
seus slogans excitantes e sobretudo com a sua auto-invocada retidão foi e é claramente uma 
religião tão irracional quanto todas as outras, do encantador de serpentes à psicanálise. Como 
os cultores de todas as religiões, os membros da seita tratam seus críticos com paciente 
condescendência: os que não querem ser pulverizados (ou mordidos pelas serpentes ou ficam 
deprimidos) não sabem o que é bom para eles; mas o cultor a quem a Verdade foi revelada 
sabe, e ele ou ela vai enfiar a nova linguagem visual pela goela abaixo dos incrédulos, mesmo 
que eles engasgarem com ela. 
O culto é duplamente sedutor já que não só assegura ao crente um lugar no paraíso, 
como também um lugar mais ou menos permanente na terra. Nenhuma outra profissão deixa 
monumentos tão grandes e visíveis a si mesma (e para seus clientes). Ser um arquiteto é 
alcançar certo grau de imortalidade; ser um arquiteto megalomaníaco é alcançar um alto grau do 
mesmo. Como disse certa vez Frank Lloyd Wright, “os médicos enterram seus erros, mas os 
arquitetos não podem.” Seus erros (como os dos seus sucessores) convivem com eles, mas 
freqüentemente sobrevivem a eles. O resultado é a imortalidade. 
A promessa de imortalidade não é mais tão sedutora quanto já foi – e nunca foi um 
assunto de interesse para os jovens. E assim chegamos a que, hoje, mesmo os jovens arquitetos 
e estudantes de arquitetura retrocedem. Cada vez mais eles têm procurado alternativas para a 
prática tradicional da arquitetura. Depois de perder muitos anos em escolas difíceis e 
prestigiosas preparando-se para a correta atuação profissional, alguns deles alinharam-se com a 
oposição, trabalhando nas chamadas situações jurídicas, assessorando antigos grupos 
comunitários excedentes e removidos na resistência aos “projetos” prestes a lhes serem 
impingidos pelas gerações mais velhas de arquitetos e planejadores modernos. 
O mundo pós-moderno está pois aí, quer gostemos dele, quer não. Ele não foi inventado 
pelos revisionistas críticos, foi gerado pelos mestres modernos mesmos, e por muitas das suas 
falhas. E agora, quais são as alternativas? 
 
 
A primeira alternativa ao movimento moderno devia ser obviamente uma moratória nas 
construções em altura. É revoltante que torres de mais de cem andares continuem a ser 
construídos enquanto nenhum engenheiro ou arquiteto honesto, em lugar algum da terra pode 
dizer com certeza o que essas estruturas farão ao meio-ambiente – em relação à monumental 
congestão de serviços (incluindo estradas e linhas de trânsito de massa), em relação às 
correntes de ar no nível da calçada, em relação aos lençóis d’água circunjacentes, em relação 
aos riscos de incêndio, em relação aos diversos tipos de traumas internos, em relação à 
degenerescência das vizinhanças, em relação à poluição visual dos horizontes das nossas 
cidades, e em relação ao risco de vida dos que vivem dentro e fora quanto a falhas estruturais e 
similares. 
Nenhum engenheiro ou arquiteto honesto pode honestamente negar que esses riscos 
potenciais existem – alguns remotos, outros definitivamente não – e que não se sabe o 
suficiente sobre o modo como os edifícios super altos se comportarão sob ventos fortes, sob 
terremotos, sob qualquer outra das freqüentes artimanhas da natureza. Tudo o que nós 
sabemos é que os edifícios altos (como a feia massa erguida recentemente na ruaState, no 
centro de Boston) projetarão uma sobra quase permanente em edifícios históricos como o 
Faneuil Hall, e provavelmente piorarão muito o trânsito ao longo do que é ironicamente 
referido ali como Estrada da Liberdade. Tudo o que sabemos é que esses ataques ultrajantes às 
paisagens das nossas cidades e metrópoles são lançados por uma única razão: gerar o maior 
lucro possível para um punhado de especuladores oportunistas que consideram a superfície da 
Terra sua propriedade privada. 
Não há outra justificativa para a construção de super-arranha-céus hoje em dia. E se a 
única justificativa – ganância – for tolerada, deveremos então permitir que os especuladores 
oportunistas envenenem nosso ar por simples desejo de lucro – tanto quanto nós agora, 
aparentemente, permitimos que eles envenenem nossa terra e nossos horizontes por simples 
desejo de lucro. 
[...] 
A segunda alternativa ao dogma moderno deveria ser uma moratória para a destruição 
maciça dos edifícios existentes, tanto os monumentos históricos como as farmácias de esquina 
(que podem, evidentemente, ser classificadas como os primeiros). A população da Terra 
dobrou entre 1930 e 1975; destruir qualquer edifício, salvo em condições muito especiais de 
emergência é por isso um crime contra a humanidade, passada, presente e futura. A destruição 
de milhares e milhares de estruturas perfeitamente utilizáveis para abrir caminho para algum 
“desenvolvimento” futuro hipotético gerou mais lugares vazios, e mais estacionamentos 
lúgubres e lucrativos, em muitas cidades dos EUA do que devem ter surgido na Europa pelos 
bombardeios da 2ª Guerra Mundial. Em Nova Iorque, como escrevi, cerca de 30.000 unidades 
habitacionais (na maioria de baixa renda) são perdidas por ano para a demolição (e outras 
formas de vandalismo), enquanto menos que 5.000 unidades por ano (muitas das quais de 
luxo) são acrescidas ao estoque habitacional da cidade. Pelos últimos cinco ou dez anos – 
desde 1970 ou por aí – o custo da construção nova no mundo inteiro tornou-se tão 
exorbitante que é agora quase possível, em termos econômicos, reutilizar edifícios velhos e 
dilapidados e cuja reciclagem antes se acreditava ser antieconômica. 
Em cada caso, a única justificativa para a demolição de uma velha estrutura 
perfeitamente utilizável é, mais uma vez, ganância. Isso é inadmissível numa época de 
necessidade humana desesperada 
A terceira alternativa para o dogma moderno devia ser uma moratória na construção de 
qualquer nova rodovia em todas as nações desenvolvidas. Entre 1930 e 1960, a extensão de 
estradas pavimentadas nos Estados Unidos cresceu de cerca de 100.000 milhas2 para mais de 
400.000 milhas3. E entre 1960 e 1975 essa extensão dobrou, e foi assim que uma nação 
construída quase inteiramente sobre o gasto indiscriminado de gasolina (e de alumínio, 
borracha, aço, plástico, e vidro) avançou para o colapso. 
[...] 
 A quarta alternativa ao dogma moderno é uma legislação para freiar nossas indústrias de 
construção responsáveis pelo desempenho dos seus produtos. Muito poucas leis existem hoje 
em dia para proteger o público do impacto potencialmente letal de materiais de construção 
altamente agenciados mas não testados – e qualquer arquiteto moderno, suficientemente 
crédulo para especificar um produto “garantido” por seu fabricante que produz milagres pode 
acabar envolvido em processos legais infindáveis quando o produto se recusa a sobreviver 
além da garantia. Até que a indústria da construção seja estritamente policiada e 
responsbilizada por padrões de desempenho no mínimo tão rígidos como os impostos aos 
fabricantes de automóveis e remédios, a maioria dos edifícios modernos são 
comprovadamente prejudiciais à sua saúde, e à minha. 
Em 1974, para citar apenas um exemplo, a Universidade de Yale descobriu que uma 
cobertura de amianto aplicada sob pressão nos tetos de concreto da Escola de Arte e 
Arquitetura para isolar acusticamente as salas em baixo estava vazando fibras insalubres de 
amianto, que eram inaladas pelos alunos. A fábrica deste produto letal tinha fechado e deixou o 
problema nas mãos do arquiteto e seu cliente. O arquiteto foi ameaçado de processo; o cliente 
evacuou o prédio e começou a remover todo o produto dos tetos. As vítimas – estudantes e 
corpo docente, longamente expostos a agentes supostamente causadores de câncer do pulmão 
– ficaram praticamente sem alternativas. 
Outro exemplo muito mais dramático foi o incêndio que fulminou a cúpula geodésica 
projetada por Buckminster Fuller em Montreal em 20 de maio de 1976. A enorme cúpula, com 
estrutura de aço e cobertura de acrílico, foi construída para abrigar o pavilhão dos Estados 
Unidos na Expo ’67. Durante a Feira Mundial, a bela estrutura foi regularmente visitada por 
algo entre cinco e dez mil pessoas o tempo todo. O acrílico foi tratado com um fogo-
retardante, mas aparentemente isto não foi suficiente. Uma maçarico de soldar, acidentalmente 
ateou fogo à estrutura inteira em questão de minutos, transformando a bolha gigante numa 
massa de acrílico líquido (e aço empretecido) antes que os carros de bombeiro pudessem 
atingir o local. Felizmente só houve uma morte; se o incêndio tivesse ocorrido durante a Expo 
’67, o custo teria sido vinte a quarenta vezes maior que o sofrido em 1871 no incêndio de 
Chicago. (Fuller, um cidadão muito humanitário que acredita na tecnologia, defendeu por 
muito tempo a idéia de envolver cidades inteiras em cúpulas geodésicas forradas de plástico.) 
Alguém realmente acha que nossas indústrias devem ficar livres para pôr a vida humana em 
risco? 
[...] 
A quinta alternativa ao movimento moderno deve ser uma moratória no zoneamento 
urbano – essa noção burra que transformou tantas das nossas cidades em pudins 
desmoronados, como definiu uma vez Henry Hope Reed, com as ameixas num prato e o 
pudim noutro. Ou, para ser mais preciso, uma moratória no zoneamento de uso único: a idéia 
 
2 cerca de 160.000km (N. do T.) 
3 cerca de 450.000km (N. do T.) 
de que a cidade é uma coleção de guetos – residencial, industrial, comercial, cultural, 
educacional, governamental ou pornográfico. 
Nos EUA e em toda parte, muitas grandes cidades foram zoneadas por meio de 
legislações elaboradas. Houston, Texas, não foi, e parece não ser melhor nem pior que Nova 
Iorque, que foi muito fortemente zoneada. De fato, Boston, que está bem atrasada aos olhos 
dos experts em zoneamento, parece bem mais interessante que Manhattan, que ganhou os 
aplausos dos aficcionados do zoneamento. E Isfahan, a mais maravilhosa de todas as cidades, 
jamais ouviu falar de zoneamento. Seus habitantes trabalham onde moram, e fazem compras 
onde trabalham, e rezam onde brincam, e se divertem onde trabalham. O zoneamento de uso 
único – princípio seriamente defendido pelos pioneiros do movimento moderno – é, 
simplesmente, o fim da civilização urbana. 
A sexta alternativa ao movimento moderno é diminuir a escala dos planos gigantes 
propostos até agora (e muito raramente implementados) e planejar em uma escala 
humanamente compreensível – ou, como sugere Schumacher, não planejar nada! 
Nossas bibliotecas de teoria arquitetônica e de planejamento urbano estão lotadas de 
“estudos de planejamento” que normalmente começam uma projeção de Mercator do globo, e 
um zoom nos Estados Unidos, daí (digamos) no Estado da Pennsylvania, daí Philadelphia, daí 
o centro de Philadelphia, e daí, finalmente, numa quadra na face oeste da praça Rittenhouse. A 
idéia é transmitir intenções globais; o fato entretanto é que ninguém se engana: as intenções – e 
os objetivos tangíveis – são bem locais. 
E isto é igualmente justo. Numa sociedade democrática, os planos devem 
inevitavelmente ser dimensionados para o tamanho das vizinhanças, porque lá, felizmente, é 
onde os eleitores tomam suas decisões. Mas, tão importante quanto isto, é que é somente nessa 
escala que os arquitetos pós-modernos são capazes de agir. Poucos superplanejadoresdesde 
Georges Eugène Haussmann ou Albert Speer tiveram a autoridade para sacudir o sangue dos 
homens ou arrasar seus bairros. Os que o fizeram nos últimos anos, sem autorização expressa, 
foram dramaticamente desacreditados. 
Mesmo os planejadores modernos admitem agora que pequenos planos são provavelmente 
preferíveis aos grandes; não só podem ser implementados com mais facilidade como 
freqüentemente, ajudam a gerar um desenvolvimento ou crescimento natural, espontâneo, que 
responde muito melhor às necessidades das pessoas que o diagrama nobre, lógico de Burnham. 
Freqüentemente, quando um único quarteirão urbano é fechado ao tráfego de veículos, o 
resultado não é o simples desvio periférico do tráfego, mas também a criação de um novo foco 
local, que então, por sua vez, pode gerar outros fenômenos urbanos, a uma ou duas ou cinco 
quadras da decisão projetual original. O artifício, claro, é identificar os pontos de impacto mais 
promissores onde as iniciativas de planejamento mais provavelmente desencadearão os 
resultados mais positivos. 
Uma iniciativa de planejamento assim requer uma boa dose de sutileza: às vezes a 
preservação de um único edifício, ou o alargamento de uma calçada, ou a isenção fiscal para 
um único empreendimento iniciarão uma reação em cadeia que pode transformar um bairro 
inteiro e, quem sabe, uma cidade inteira. Em Boston, a demolição do antigo West End, e a 
construção sobre seus escombros do planejado Charles River Park, não resultou em nada do 
que se desejava para a cidade; mas a sutil revitalização dos embarcadouros do velho porto de 
Boston, que não determinaram demolição alguma, está acarretando uma renovação urbana 
verdadeiramente orgânica. 
Os planejadores em muitas outras grandes cidades dos Estados Unidos e em outros 
lugares estão descobrindo com surpresa e deleite que os pequenos planos são infinitamente 
melhores que os grandes planos. Eles são também mais prontamente implementáveis, 
considerando as condições de vida numa democracia participativa. 
A sétima alternativa para o movimento moderno deveria ser a reestruturação radical do 
ensino de arquitetura. Nos últimos trinta ou quarenta anos, na maioria dos países 
desenvolvidos ou em desenvolvimento, mudaram o enfoque do ensino deixando de treinar 
especialistas em construção e projeto para treinar generalistas em alguma área vagamente 
definida do “viver”. 
Inicialmente Walter Gropius, na Bauhaus na Alemanha, e mais tarde em Harvard, 
pregou que a arquitetura tornar-se-ia cada vez mais o produto de um “trabalho de equipe” – 
um prognóstico razoável apesar de que não há muita evidência no passado ou no presente que 
os grandes edifícios possam ser criados por equipes (e há muitas evidências, como sugerido 
antes, que certos comitês encarregados de projetar um cavalo apareçam com o esboço de um 
camelo). Ora, não há dúvida que o projeto de um edifício hoje em dia, precisa de contribuições 
de homens e mulheres de muitas profissões diferentes, especialistas essenciais como os 
engenheiros mecânico e de estruturas, entre outros; consultores em diferentes campos, do 
paisagismo à acústica; e outros consultores especializados em áreas periféricas como economia, 
psicologia, antropologia e tudo mais. 
Mas a versão de Gropius da arquitetura como o produto de um trabalho de equipe 
sugeria que o arquiteto deve ser o coordenador de todos esses fragmentos e pedaços de 
informação, que o arquiteto deve, em última análise, aceitar e rejeitar e tomar as decisões que 
delinearão o produto final. Muitos educadores que tentaram imitar Gropius confundiram o 
ponto essencial, e inundaram seus alunos com cursos elaborados de tudo, desde dinâmica de 
grupo até aconselhamento matrimonial – e esqueceram que a idéia mesma de um trabalho de 
equipe sugeria que tais fragmentos e pedaços de informação não deviam necessariamente ser 
trazidas de consultores externos para o arquiteto responsável último pelo edifício. Esses 
teóricos educacionais começaram a sobrecarregar os currículos das escolas de arquitetura com 
montanhas de tais “informações” acessórias e bastante supérfluas que os estudantes podiam se 
formar em certas escolas famosas sem nunca ter aprendido como construir ou mesmo 
desenhar nada – e até mesmo sem ter jamais aprendido como passar desse conhecimento tipo 
porca-e-parafuso para a especulação criteriosa do projeto. 
Uma razão desse caos educacional era, é claro, o fato de que muitos professores de 
arquitetura, pelo menos nos Estados Unidos, não sabiam de verdade como os edifícios eram 
feitos, e assim se refugiaram na perseguição obscura e confusa de disciplinas periféricas (sobre 
as quais, muitas vezes, eles sabiam menos ainda). Falavam cada vez mais sobre coisas como “a 
obrigação social” dos arquitetos, desconhecendo (em parte porque o movimento moderno 
considerava a história “uma baboseira”.) que a obrigação social de um arquiteto é talvez 
produzir um edifício de qualidade, e que isto é, em última análise, assegurar de que o edifício 
em questão vai ficar de pé, e não cair. 
Poucos estudantes em duas ou três décadas foram ensinados sobre como produzir ou 
mesmo apreciar obras de arte (provavelmente uma especialidade não ensinável, mas que vale 
certo esforço); poucos estudantes foram ensinados sobre como construir edifícios que não 
desabarão. Mas muitos foram expostos a enormes intuições relativas a psicologia social, 
engenharia ambiental, especulação conceitual e outras disciplinas protoplásmicas que 
normalmente desafiam uma definição clara. 
É improvável que Gropius desejasse para o ensino de arquitetura a atual forma difusa e 
imprecisa. Mas o jargão do movimento moderno, para o qual muitos mestres modernos 
contribuíram voluntariamente, tinha muito a ver com o delineamento de sua estrutura 
educacional. O sistema desenvolvido pela tradicional École des Beaux-Arts em Paris foi 
rejeitado – e com ele a história da arquitetura e o conceito de arquitetura como arte aplicada. 
Para ocupar o lugar desses conceitos tradicionais veio o (pretenso) funcionalismo a (pretensa) 
economia, a (pretensa) tecnologia, a (pretensa) justiça social, a (pretensa) saúde, a (pretensa) 
felicidade. Ensinava-se esses objetivos nobres como as justificativas principais da arquitetura 
moderna e, assim, as escolas que surgiram para ensinar arquitetura começaram a transbordar 
experts em eficiência, consultores gerenciais, sociólogos, economistas, psicólogos, e mais que 
tudo, educadores, isto é, gente interessada não na matéria que deviam ensinar, mas na 
metodologia educacional e na política educacional. (Isso é grosseiramente análogo a um 
governo liberal cujos burocratas reformistas ficassem mais interessados na cobrança de taxas 
que nas reformas que eles deviam fazer.) 
Uma dúzia de anos depois que o sistema Beaux-Arts foi derrubado no mundo moderno, 
as escolas de arquitetura tornaram-se mais massiçamente burocratizadas e politizadas do que a 
velha École jamais tinha sido. (Uma razão para a popularidade do jogo político nessas escolas, 
segundo um observador, é que as apostas são tão pequenas!) A nova escola moderna produziu 
uma corrente decidida de generalistas mais ou menos pomposos e um eventual filete bem 
fininho de gente que sabia de verdade como desenhar, como construir, como projetar e, como 
(talvez uma única vez na vida) produzir um edifício que se pudesse qualificar de obra de arte. 
E finalmente, deve haver uma moratória para a arquitetura mesma. O movimento 
moderno está com cerca de cem anos de idade, dependendo de quando você queira começar a 
contar. Teve seus momentos heróicos: A casa Robbie de Wright, o seu Unity Temple, sua 
Taliesin West, e muito, muito mais; O pavilhão Barcelona de Mies, seu Crown Hall no 
Instituto de Tecnologia de Illinois, sua Nova Galeria Nacional em Berlim Ocidental, e também 
muito, muito mais; A Villa Savoye de Le Corbusier, sua Unité d’Habitation em Marseille, seus 
grandes palácios em Chandigarh. E houve obras verdadeiramente inspiradas de muitosoutros 
desde Alvar Aalto – este humanista sutil que nunca subscreveu o credo dogmático e que 
preferiu dizer sobre o seu trabalho apenas: “Eu construo” – até I. M. Pei e Harry Cobb – cujo 
prisma espelhado e de cantos afiados como navalhas da torre John Hancock em Boston é 
(apesar de todos os seus problemas grotescos) a obra mais deslumbrante de escultura 
minimalista produzida neste século até agora (e certamente a maior): um espelho elevado às 
nuvens. 
Foi verdadeiramente um período fantástico na história da arquitetura em mais de um 
sentido; proclamando sua fé na razão, o movimento foi, de fato, o mais irracional desde que o 
rei Ludwig da Bavária endoidou. Proclamando sua fé no homem comum e no mundo 
igualitário ele apagou o ‘povinho’ a torto e a direito, e suas vizinhanças, a serviço do 
capitalismo privado ou de Estado. Proclamando sua devoção a alta tecnologia, fingiu materiais 
de construção e métodos com a descontração do mais ágil palhaço de circo. E proclamando 
sua dedicação total à cidade como a primeira e única sede e fonte e mola mestra da civilização, 
tornou a cidade ingerenciável e, de fato, semeou seus habitantes ao vento. 
Nenhum período na história registrada da arquitetura foi mais criativo, ou mais 
destrutivo, ou mais exaustivo para todos os envolvidos – tanto arquitetos como espectadores 
inocentes. É tempo de dar uma parada. Quer gostemos ou não, muito pouca “arquitetura” vai 
ser encomendada ou construída por algum tempo. As razões são bastante claras. 
Primeiro porque um mundo com crescente igualitarismo não tem muito uso para o que 
lhe parece ser uma arte aristocrática. 
Segundo porque uma profissão que não conseguiu lidar com as questões centrais do 
nosso tempo – as criadas pela chamada explosão demográfica – se desqualificou para qualquer 
consideração séria. Quando o diretor do Institute for Urban Studies (ramo externo do Museu 
de Arte Moderna de Nova Iorque) diz a seus estudantes que “deixem a realidade fora disso” – 
sendo “isso” o seu trabalho de estudos arquitetônicos e urbanos – e quando esse fato parece 
representar a visão dominante de pelo menos um segmento significante da sua profissão; aí 
então o mundo real estará em condições de pagar na mesma moeda, e deixar a arquitetura fora 
de seus planos, e os arquitetos ficarão massiçamente desempregados pelo mundo afora. 
E finalmente, haverá uma moratória na arquitetura porque os clientes da arquitetura 
parecem, hoje, abandonar a inclinação para construir Grandes Obras de Arte. Muitos anos 
atrás Sir Nikolaus Pevsner, o historiador britânico da arquitetura, disse que uma razão 
importante para o declínio da qualidade da arquitetura era o declínio da qualidade dos clientes 
contemporâneos. Diferente dos clientes aristocráticos dos séculos passados, Pevsner sugeriu 
que os clientes atuais eram analfabetos visualmente e de outros modos, e pediam muito pouco 
dos seus arquitetos além de baixo custo e alta eficiência. 
Verdadeiro e compreensível. Num mundo cuja população mais que quadruplicou desde 
o nascimento de Louis Sullivan, os problemas de qualidade arquitetônica pressionam menos 
que problemas de quantidade arquitetônica. Quando a elite arquitetônica nas nações 
desenvolvidas (e algumas em desenvolvimento) volta-se, como tem ocorrido periodicamente, 
para o conceito de arquitetura como uma arte abstrata, inconstruível mesmo (certamente 
irreal), está dizendo ao resto do mundo para ir plantar batatas. E o resto do mundo não acha a 
brincadeira engraçada. 
E quando a ala esquerda dessa mesma elite arquitetônica, freqüentemente identificada 
com lugares estranhos feito a Escola de Planejamento Ambiental de Berkeley, Califórnia, 
mobiliza sua instituição educacional para produzir diplomados que podem não saber 
necessariamente como construir, mas que sabem na certa como elevar a consciência debilitada 
de alguém dentro de um casulo inflável – aí então o mundo real confirma sua suposição 
intuitiva de que a profissão de arquitetura endoidou coletivamente. Numa ponta há projetistas 
de edifícios inedificáveis, na outra projetistas de inedifícios edificáveis; em algum lugar no 
meio, mais ou menos no centro geográfico do mundo real, há um grande vazio, ignorado, 
parece, por muitos arquitetos de talento. 
Assim a moratória mundial de arquitetura moderna foi decretada, não por forças 
externas venais, mas pelas elites de curiosos que conseguiram dominar a cena arquitetônica. A 
moratória continuará até que haja uma reaproximação entre arquitetura e realidade. E dessa 
reaproximação pode surgir uma situação em que a arte aplicada da arquitetura pode ressuscitar e 
fazer de novo parte da experiência humana da qual o movimento moderno parece tê-la 
divorciado. 
Depois de uma corrida de uma centena de anos mais ou menos o dogma moderno 
simplesmente se esgotou. Teve seus dias, alguns verdadeiramente gloriosos. Não há razões 
para lamentar: o Renascimento deu lugar ao maneirismo e este para a ênfase do barroco, e este, 
por sua vez ao Rococó açucarado. Estamos agora perto do fim de uma época, e logo antes do 
início de outra nova. Durante este período de transição não haverá moratória na construção 
por razões óbvias. Haverá cada vez mais arquitetura sem arquitetos. É mau para os que 
praticam arquitetura, mas apenas um sopro mortal para a qualidade do ambiente feito pelo 
homem: não há qualquer evidência de que a arquitetura recente com arquitetos é, de fato, 
superior a arquitetura sem eles, ou que gere mais felicidade. 
Deste período de desarquitetura deve emergir uma direção nova, baseada em ideais 
compartilhados e realidades compartilhadas. Uma arquitetura, como E. F. Schumacher poderia 
ter proposto, “como se as pessoas se importassem”. E uma arquitetura como se o mundo real 
importasse: o ferramental do mundo real, os recursos do mundo real (humanos e materiais), as 
aspirações do mundo real. Ortega y Gasset escreveu certa vez que “a ordem não é uma pressão 
imposta de fora para dentro na sociedade, mas um equilíbrio instalado a partir de dentro.” A 
arquitetura também não é, e a nova arquitetura não surgirá antes que haja “um equilíbrio 
instalado a partir de dentro”, um corpo de aspirações compartilhadas. Só então, acho eu, 
moldaremos um novo panorama de visão, de utilidade, de arte. 
Ao surgir, o movimento moderno professou, como vimos, certos ideais compartilhados: 
a devoção a certo tipo de coletivismo democrático, industrialização e estética da máquina, 
devoção à cidade e ao futuro. Foi uma boa tentativa, que vai ainda mover muitos de nós, 
mesmo que apenas para a saudade. 
Mas eis o momento da verdade, para mim e para muitos de nós que somos arquitetos 
modernos. Vimos e vivemos esse futuro, e ele simplesmente não funciona. O movimento 
moderno – o credo em que crescemos ao qual penhoramos eterna lealdade – chegou ao fim do 
caminho.

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