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Direito Administrativo II 1ª Frequência - 2º Semestre
O ATO ADMINISTRATIVO:
1. Noção:
- Os factos jurídicos são aqueles factos que consistem em acontecimentos produtores de efeitos na
ordem jurídica, podendo ser naturais (quando é efeito natural de uma causa e que podem ser
ou não ser humanos) ou voluntários (quando consistem numa conduta {ação ou omissão}).
Aqueles acontecimentos que não produzem efeitos na ordem jurídica são meros factos ou
operações materiais. Pois bem, aqueles factos voluntários consistem nos atos jurídicos, são,
então, um comportamento, positivo ou negativo, exercido de forma voluntária e que produz
efeitos jurídicos, queridos ou não.
- Os atos administrativos são parte de tal categoria de atos jurídicos. Inicialmente os atos
administrativos eram uma garantia da Administração no seio da Época Liberal, sendo hoje, no
entanto, uma garantia dos particulares.
Na doutrina e jurisprudência portuguesa conceitualizava-se duas noções de ato administrativo:
um conceito substantivo de ato administrativo (ou conceito de ato administrativo lato sensu) e um
conceito adjectivo (ou processual) de ato administrativo (ou conceito de ato administrativo stricto
sensu).
- O conceito substantivo, designava os atos unilaterais da Administração que esta adoptava no
exercício dos seus poderes e que produzem efeitos jurídicos num caso concreto;
- O conceito adjetivo ou processual, correspondia apenas àqueles primeiros que fossem
definitivos e executórios e, assim, contenciosamente impugnáveis.
Problemas vinham de ambos os conceitos, o primeiro, demasiado amplo, o segundo, demasiado
confuso ao abarcar diversas realidades e por considerar que os atos não definitivos não poderiam
prejudicar direitos dos particulares.
Assim, temos a seguinte noção de ato administrativo: um ato unilateral de autoridade, praticado
no exercício do poder administrativo por um órgão da Administração – ou outra entidade
legalmente habilitada –, que se consubstancia numa decisão produtora de efeitos jurídicos externos
numa situação individual e concreta. Isto que coincide essencialmente com o art. 148º do CPA.
- O ato administrativo é um ato unilateral de autoridade, isto porque emana de um só sujeito e de
autoridade. No entanto, afigura-se que alguns atos jurídicos podem ter a aceitação do particular
como condição de eficácia, e por vezes também uma manifestação de vontade do particular (v.g.
atos dependentes de requerimento).
- O ato administrativo pratica-se no exercício do poder administrativo, isto porque há atos
praticados pelas entidades administrativas que não são materialmente administrativos, como
exemplo temos o Governo, que pode praticar atos políticos, se ele praticar um ato político ou um
decreto-lei, não estamos perante um ato administrativo. Ressalva-se, no entanto, a possibilidade
de o Governo praticar atos materialmente administrativos através de decreto-lei, prevendo-se já
no art. 268º nº 4. Também não é um ato administrativo uma ação de mediação por parte de uma
entidade reguladora. Não são, também, atos administrativos os atos realizados pela
Administração no âmbito de gestão técnica ou privada, ainda que se apliquem os mesmo
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princípios do CPA de acordo com o seu art. 2º nº 2. O ato administrativo é praticado por órgãos
da Administração ou outras entidades legalmente habilitadas. É típico que o ato é praticado por
um órgão da Administração Pública, mas só um limitado número de trabalhadores detém tal
faculdade – a chamada autoridade pública. Assim, a aptidão de praticar atos administrativos
resulta da lei ou deriva de uma delegação de poderes. O ETAF equipara, para efeitos de
impugnação contenciosa, as decisões materialmente administrativas realizadas por órgãos não
pertencentes à Administração Pública ( ex: Presidência da República). Inicialmente esta última
solução não estava legalmente prevista, uma vez que os tribunais administrativos faziam parte do
poder executivo não se afigurava correcto que avaliassem atos dos outros poderes, ainda que
materialmente administrativos. Hoje, à luz da garantia constitucional da tutela jurisdicional
efectiva (art. 20º da CRP) e pelo facto de os tribunais administrativos serem autênticos tribunais
e não órgãos da Administração (arts. 209º e 212º da CRP).
- O ato administrativo consiste numa decisão, que neste contexto significa, portanto, os comandos
de autoridade capazes de provocar alterações na esfera jurídica dos particulares, assim não se
incluem os atos instrumentais neste elemento. Os atos podem ser vinculados ou discricionários,
os primeiros visam a realização de fins hétero-definidos, já os segundos são a manifestação de
poderes discricionários da Administração.
- O ato administrativo produz, por último, efeitos jurídicos externos numa situação individual e
concreta, este elemento distingue-o do regulamento administrativo, geral e abstrato. O ato
administrativo é individual porque os seus destinatários são determinados, mencionados ou
mencionáveis, e concreto pois se aplica a um caso concreto.
Quanto à natureza do ato jurídico, houve doutrina que o qualificaria próximo a um negócio
jurídico público e outra que o aproximaria a uma sentença judicial. Mas não se afigura correcto
assimilar o ato, em bloco, a qualquer dessas categorias. Assim, no seguimento da doutrina de
Freitas do Amaral, diz-se que o ato administrativo tem uma natureza específica enquanto ato
unilateral de autoridade pública ao serviço de um fim administrativo.
- Quanto ao negócio jurídico este afigura-se quanto aos fins particulares que visam prosseguir, e
o ato administrativo quanto aos fins de interesse público definidos na lei.
- Quanto à sentença judicial esta segue de uma função jurisdicional que trata de solucionar um
conflito de interesses, e o ato administrativo segue uma função administrativa que trata de
prosseguir o interesse público.
Na summa divisio entre atos discricionários e vinculados, poder-se-á dizer que aqueles estão
próximos de um negócio jurídico público e estes de uma sentença judicial. Esta distinção importa,
não só de um ponto de vista teórico, mas também prático, como auxílio de interpretação, integração
e vícios da vontade.
Pode-se perguntar qual a importância do ato administrativo para direito? O ato administrativo
foi novidade que o direito administrativo trouxe à ordem jurídica, ao contrário da norma jurídica e
do contrato. Afastamo-nos a antiga doutrina vinda da Época Liberal de que a importância ato
administrativo se fundamenta a um modelo de Administração de autoridade, com efeito, há algum
poder estatal que esteja isento de autoridade? Assim sendo, a importância do ato resulta das suas
funções principais:
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- uma função definitória, uma vez que o ato administrativo visa regular ou coercivamente
conformar concretas relações jurídicas externas;
- uma função titulante, no caso dos atos exequíveis e executórios (os primeiros aqueles que
impõem encargos e deveres e susceptíveis de execução, e os segundos aqueles cuja execução é
permitida por lei), funcionam como um título executivo;
- uma função estabilizadora, pois o ato, mesmo que ilegal (excepto se for nulo), se consolida
dentro de um certo prazo como um caso decidido.
A estas funções juntam-se duas dimensões, uma procedimental e uma processual, a primeira
refere-se à sequência pré-estabelecida – um procedimento – que assenta num princípio de
colaboração com os particulares, já a segunda refere à garantia constitucional e legal da intervenção
fiscalizadora dos tribunais administrativos.
Quanto à estrutura do cto administrativo temos três planos: um subjetivo, um objetivo e um
formal.
- Quanto ao plano subjetivo este refere-se aos sujeitos da relação jurídica administrativa do ato
jurídico, podendo ser a Administração face ao particular,uma pessoa colectiva pública face uma
outra ( o Governo face um Instituto Público), uma pessoa colectiva privada face a uma outra
( uma concessionária e um utente), pode, por vezes, um ato administrativo ter uma eficácia erga
omnes, por não ter um único destinatário mas sim toda a comunidade ( a classificação de um
edifício como património nacional).
- Quanto ao plano objetivo, este remete para o conteúdo e objecto do ato, o conteúdo é a
substância a que o ato remete, devendo esta ser fundamentada sempre que a lei o exija de acordo
com o art. 152º do CPA, a Administração pode, ainda, sujeitar o ato a cláusulas acessórias que
não sejam contrárias à lei e no âmbito do art. 149º, o objeto do ato refere-se à realidade exterior
que incide o ato.
- Quanto ao plano formal, remete para a forma do ato, quer oral ou escrita (não se confundido esta
forma com a forma do ato como este vindo sob a forma de portaria, despacho, alvará, etc.).
2. Tipologia:
Os atos administrativos podem ser de diversos tipos legais, e podem ser primários (favoráveis e
desfavoráveis) ou secundários.
• São atos primários favoráveis:
a) a autorização é o ato que se destina a afastar limites legais que entravam a atividade privada,
podendo ser:
- Autorizações permissivas, em que afastam o limite de uma actividade cujo particular é titular de
um direito subjectivo mas encontra-se legalmente limitado,
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- Autorizações-licenças, é a permissão da Administração a uma actividade que está, em princípio,
legalmente proibida, não sendo, assim, um direito subjectivo dos particulares (de notar que
existe, ultimamente, uma tendência legislativa pela opção das comunicações prévias (a mera
comunicação prévia e a comunicação prévia com prazo) que se tratam tão-só de uma declaração
unilateral do particular à administração) (podem ocorrer autorizações intra-administrativas);
b) a concessão é o ato pelo qual a Administração transmite para uma entidade privada determinados
direitos ou poderes de que era titular (concessão translativa), ou cria, ex novo, em favor de
particulares certos direitos ou poderes de uma actividade pública (concessão constitutiva);
c) a admissão é o ato pelo qual a Administração investe o particular numa certa categoria legal, de
um estatuto pessoal, com direitos e obrigações;
d) a subvenção é o ato pelo qual a Administração concede uma contribuição financeira a um
particular para que este suporte uma atividade que se tome de interesse público ou geral (pode ser
feita por procedimentos de verificação de requisitos ou procedimentos de selecção concorrencial);
e) a dispensa é o ato pelo qual a Administração desobriga um particular de um dever geral que este
tenha, tomando a forma de isenção, esta desobriga para que o particular possa prosseguir um
interesse público ou para acudir uma situação de precariedade, já tomando a forma de escusa, esta
consiste na garantia da imparcialidade da actuação administrativa (arts. 73º e ss. do CPA);
f) a renúncia é o ato pelo qual a Administração abdica da titularidade de um direito legalmente
disponível, salvo o princípio da irrenunciabilidade da competência do art. 36º CPA.
• Importa, neste contexto, falar nas pré-decisões:
a) os atos prévios são aqueles em que a Administração toma para a verificação de certos
pressupostos do quais depende a decisão final;
b) os atos parciais são aqueles que autorizam o interessado a desenvolver parcialmente a actividade
que funda a sua pretensão.
• São atos primários desfavoráveis:
a) os atos de comando são atos que impõem uma conduta positiva ou negativa por parte dos
particulares, sendo ordens no primeiro caso e proibições no segundo caso;
b) os atos punitivos são atos que culminam em sanções aplicadas aos seus destinatários;
c) os atos ablativos são os atos que, por motivos de interesse público, têm como consequência a
extinção ou a compressão de um direito do particular. Quanto aos atos ablativos que sejam
expropriativos ou com tais efeitos, concedem ao lesado o direito a ser devidamente
indemnizado.
Não sendo necessariamente favoráveis ou desfavoráveis são os juízos, atos que avaliam ou
qualificam pessoas, coisas ou atos segundo critérios de justiça.
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• São atos secundários:
a) a aprovação é o ato em que um órgão administrativo confere eficácia a um ato previamente
praticado e cuja eficácia é condicionada por uma aprovação;
b) a homologação é o ato pelo qual um órgão administrativo confirma ou ratifica e assume como
seus os fundamentos e conclusões numa proposta ou parecer de um outro órgão;
c) o visto é o ato pelo qual um órgão administrativo declara ter tomado conhecimento de um ato ou
documento preexistentes, sem se pronunciar sobre o seu conteúdo no visto meramente cognitivo, ou
declarando não ter objecções de legalidade ou mérito no visto volitivo;
d) os atos confirmativos são atos em que um órgão reitera um ato anterior realizado por si, ou no
seio de um superior hierárquico que confirma um ato do seu subalterno;
e) a revogação determina a cessação de efeitos de um ato por razões de mérito, conveniência ou
oportunidade;
f) a anulação anula um ato anulável, destruindo-o da ordem jurídica;
g) os atos de sanação de ilegalidades, que podem ser:
i) a ratificação destina-se a sanar vícios formais de um ato;
ii) a reforma destina-se a expurgar segmentos ilegais do conteúdo de um ato;
iii) a conversão destina-se a sanar um ato ilegal convertendo-o num outro ato;
h) os atos de correcção de erros (a rectificação) destinam-se a corrigir erros de cálculo ou
meramente materiais. Isto é, destina-se a corrigir erros manifestos, evidentes na expressão da
vontade administrativa. Um ato praticado que tem um erro evidente ou manifesto ( ex: atribui-se a
alguém uma pensão de invalidez de 500€ mas aparece um valor de 5 milhões de euros, pode haver
uma retificação.) Corrige no ato anterior um erro que é evidente.
Os atos podem, ainda, ser provisórios, que não se devem confundir com as medidas provisórias
dos arts. 89º e 90º do CPA, são estes os atos que são praticados numa situação de incerteza ou em
circunstâncias que necessitam de uma actuação urgente da Administração, sendo caducos os atos
provisórios que não revelem, mais tarde, os pressupostos do ato administrativo.
Os atos podem ser, também, instrumentais, estes têm uma função meramente instrumental
relativamente aos atos administrativos, podendo eles ser a declaração de conhecimento, os atos
opinativos. Quanto aos pareceres, devido à sua importância, estes são opiniões devidamente
fundamentadas emitidas por especialistas numa determinada área do saber ou órgãos colegiais
consultivos e que podem ser, nos termos do art. 91º nº 1 do CPA, obrigatórios ou facultativos, e
vinculativos ou não vinculativos.
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3. Classificações:
Os atos podem ser classificados em ordem por diversos critérios: o da autoria, o dos destinatários,
o da eficácia temporal, e do tipo de efeitos produzidos.
I. Segundo o primeiro destes critérios, os atos podem ser decisões ou deliberações quer sejam
órgãos singulares ou órgãos colegiais, e simples e complexos (ou em co-autoria), quer
provenham de um ou vários órgãos administrativos.
II. Segundo o segundo critério, os atos podem ser singulares, colectivos, plurais e gerais. Os
primeiros remetem a um ato com apenas um destinatário e os segundos remetem a um ato que
tem como destinatário um conjunto unificado de pessoas. Os terceiros são os atos que se
aplicam da mesma forma para diversas pessoas. Os últimos são os atos que se destinam a um
conjunto heterogéneo de pessoas determináveis.
III. Com o terceiro critério, podemos distinguir entre atos de eficácia instantânea e duradoura,
os primeiros esgotam os seus efeitos jurídicosnum ato ou facto isolados, os segundos são
aqueles cujos efeitos perduram no tempo.
IV. De acordo com o último critério, temos atos consecutivos e declarativos, e também positivos
e negativos. Os primeiros são os atos pelo qual a Administração cria, modifica ou extingue
relações jurídico-administrativas, e os segundos os atos pelo qual a administração certifica a
existência de certos factos. Os terceiros e quartos consubstanciam-se na Administração
constituir, modificar ou criar relações jurídico-administrativas ou o indeferimento das
pretensões de um particular. De acordo com este critério podem ainda ser favoráveis ou
desfavoráveis, quer os seus efeitos sejam ou não favoráveis.
4. O procedimento administrativo:
Do nº 1 do art. 1º do CPA extraímos uma noção de procedimento administrativo: « entende-se por
procedimento administrativo a sucessão ordenada de atos e formalidades relativos à formação,
manifestação e execução da vontade dos órgãos da Administração Pública», não se confundindo
este com a noção de processo administrativo, exposto no nº 2 do mesmo artigo e que o
conceitualiza como o suporte documental.
Assim se pode dizer que a vontade da Administração se manifesta através de um procedimento –
tanto para o ato, como o regulamento e o contrato administrativos. A actividade administrativa não
se resume só à decisão, ainda que seja o lado visível desta, o decision-making da Administração tem
por trás um iter, um percurso.
O procedimento constitui uma sequência juridicamente ordenada de atos e formalidades. No
entanto esta ordenação jurídica exige uma certa discricionariedade procedimental, pois uma grande
rigidez da lei iria impedir a praticabilidade do procedimento quanto ao caso concreto. Não só há
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formalidades, mas também atos a cumprir, atos internos ao procedimento, e que na medida em que,
por si próprios, afectem direitos e interesses dos particulares são judicialmente impugnáveis, por se
conceber hoje uma concepção externa, transparente e juridicamente relevante, face à concepção
tradicional interna, quase secreta e juridicamente indiferente. Mesmo depois da decisão final podem
ser necessários atos após tal evento, circunscrevendo-se o procedimento para além de uma mera
fase pré-decisória.
Há, também, atos administrativos desprocedimentalizados, atos esses que não carecem de um
procedimento por atuarem de forma directa e imediata. Há, também, encadeamento de
procedimentos administrativos, situação em que ocorre quando vários procedimentos se interligam
entre si para a obtenção de um mesmo resultado.
Alguns principais objetivos do procedimento administrativo resultam, de forma indirecta, dos
arts. 266º e 267.º da CRP.
I. Primeiro objectivo é a racionalização de meios a utilizar (nº 5 do art. 267º);
II. Segundo objetivo é a participação dos cidadãos na formação de decisões a que lhes digam
respeito (nº 1 e 5 do art. 267º da CRP e 12º do CPA), este objetivo ligado ao princípio da
participação, bem como nos casos de protecção de interesses difusos, neste caso implica um
procedimento colectivo (ou popular), devido à relação multipolar;
III. Terceiro objectivo é a salvaguarda dos direitos subjectivos e interesses legítimos dos
particulares, visando a Administração não ofender tais direitos e interesses, ou, quando assim o
requeira o interesse público, afetá-los ao mínimo legal e necessário;
IV. Quarto objectivo é a procedimentalização das actividades de direito público, que procura
assegurar a justeza do procedimento e das decisões administrativas. Assim, pode-se dizer que o
objetivo do procedimento administrativo é assegurar a adequada prossecução do interesse
público com a salvaguarda dos direitos e interesses dos particulares.
O procedimento administrativo acarreta, ainda, uma série de princípios fundamentais. Sendo eles:
- O princípio do carácter escrito, em língua portuguesa (art. 54º do CPA) e preferência por
meios digitais (art. 61º), este carácter vem do facto de a actividade administrativa não se
compadecer com a forma oral, ainda que em certos casos tal possa acontecer, pois se vê
necessário conservar para o futuro o registo completo e seguro do que se fez, votou e disse;
- O princípio do inquisitório (art. 58º), a Administração pode e deve proceder a todas as
diligências que sejam adequadas e oportunas no decorrer do procedimento tendo em vista uma
decisão materialmente justa;
- O princípio da adequação procedimental (art. 56º) que dá ao encarregado do procedimento
uma certa discricionariedade na ausência de normas injuntivas, discricionariedade essa que se
revela nos acordos endoprocedimentais (art. 57º), convenções com efeito vinculativo em que se
acorda, entre a Administração e os interessados, os termos do procedimento;
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- O princípio da cooperação e boa-fé procedimental (arts. 10º, 11º, 16º e 60º do CPA e 266º nº
2 da CRP), que estabelece que os administrados e a Administração devem seguir uma relação de
cooperação e de boa-fé, abstendo-se de tomar comportamentos inúteis e que atrasam o
procedimento, pois existe neles um dever de celeridade (arts. 59º), caso não cumpra a
Administração este princípio, recorre-se ao princípio da responsabilidade;
- O princípio da decisão (art. 13º), é dever da Administração decidir sobre as matérias que lhe
são incumbidas, havendo o silêncio pode ocorrer um deferimento tácito ou uma possibilidade de
recorrer ao meio contencioso para a condenação da prática de ato legalmente devido (art. 37º nº
1 b) do CPTA);
- O princípio da gratuitidade (art. 15º), que expõe a tendencial gratuitidade do procedimento,
podendo a lei impor taxas devidas.
5. As fases do procedimento administrativo:
O procedimento inicia-se nos termos do art. 53º, dizendo-se, assim, que existem procedimentos de
iniciativa pública e particular de acordo com o ente que inicia o procedimento, e também
procedimentos decisórios e executórios, dependendo se preparam a prática ou a execução de um
ato, em lei especial regulam-se a existência de procedimentos especiais. A marcha do procedimento
desenvolve-se, como sequência ordenada de atos, em cinco fases: a fase inicial, a fase da instrução,
a fase da audiência dos interessados, a fase da decisão e a fase complementar (ou integrativa de
eficácia).
I. A fase inicial, é a fase que dá início ao procedimento, no caso de o procedimento ser de
iniciativa pública deve a Administração notificar (ou não) os particulares nos termos do art.
110º, e caso for de iniciativa privada, deve o particular fazer o requerimento inicial à
Administração nos termos do art. 102º. Pode a Administração recusar ou suprir oficiosamente
requerimentos deficientes nos termos do art. 108º.
II. A fase da instrução, destina-se a recolher as provas necessárias para averiguar os factos
conducentes a uma decisão final justa. Verificam-se, aqui, diligências probatórias e consultivas.
Seguindo o princípio do inquisitório, que dá alguma discricionariedade à Administração, esta
não é ilimitada, estando a Administração com um dever de instrução e de busca pela verdade
material. Em matéria probatória, releva o CPA algumas regras:
- Um dever de averiguação dos factos (art. 115º nº 1) e um dever de ónus de prova (art. 116º),
recai este ónus nos interessados, quando os elementos probatórios estejam na posse da
Administração considera-se tal ónus satisfeito, mesmo que exista monopólio de prova nos
interessados, deve a Administração manter um papel ativo, e não meramente passivo, nos
termos do art. 117º, devendo a Administração não dar seguimento ao procedimento na falta de
prestação de provas (art. 119º);
- Uma segunda apresenta-se nos nº 2 e 3 do art. 115º que estipula que os factos notórios ou que
o responsável pelo procedimento tenha conhecimento devido à sua função não carecem de
prova;
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- Uma terceira regra remete para a livre apreciação de prova que se expõe no art. 119º nº 2; uma
última regra remete para a admissibilidade de recursos a todos os meios admitidos em direito
(art. 115º nº 1 in fine).
A fase da instrução é, também, um momento em que podem os interessados participar na formação
das decisões que lhes dizem respeito – o importante princípio da participação – através dos direitos
procedimentais: o direito à informação procedimental (art. 82º), o direito à consulta do processo e
passagem de certidões (art. 83º), o direito de requerer medidas provisórias (art. 89º), o direito de
juntar documentos e pareceres ou requerer diligências probatórias (art. 116º nº 3), bem como,
relacionado a outras fases, o direito de audiência prévia (art. 121º) e o direito à notificação de atos
(art. 114º).
III. A fase da audiência dos interessados, é uma refracção do princípio da democracia participativa
(arts. 2º e 267º nº 5 da CRP), ligado não só a esses princípios constitucionais, mas também aos
princípios gerais da actividade administrativa da colaboração da Administração com os
particulares e da participação (arts. 11º e 12º do CPA), no âmbito dos procedimentos
sancionatórios é chamada de direito de defesa (arts. 32º nº 10 e 269º nº 3 da CRP). Numa
administração de autoridade o ato constituía para o administrado uma surpresa, tal não se
verifica, hoje e entre nós, na administração participada, pois o interessado é chamado a
participar na tomada de decisão da Administração, constitui isto um princípio do contraditório,
estabelece esta fase um due process administrativo. Assim, nos termos do art. 121º, os
interessados têm direito a ser ouvidos no procedimento antes da tomada de decisão e assim têm
direito a, no exercício da audiência, pronunciar-se em matéria de facto e de direito, bem como
requerer diligências adicionais e juntar documentos. Após a fase de instrução, têm os
interessados o direito de formular o seu próprio juízo perante os factos que considerados ou não
provados. A audiência pode dar-se na forma escrita ou oral, e devendo ser notificados (art.
122º), junto à notificação deve a Administração fornece o projecto de decisão, bem como todos
os elementos em matéria de facto e de direito. Ao comunicar o sentido provável da decisão, crê-
se na doutrina que deve, também, comunicar a devida fundamentação (art. 121º nº 1 in fine),
pois só assim é possível contra-argumentar eficazmente. Diferentemente do que decorria do
anterior Código, o CPA de 2015 indica que há sempre audiência dos interessados, excepto nos
casos em que a lei determina que o responsável tem poder de dispensar dela nos termos do art.
124º, bem como indicar as razões da sua não realização na decisão final. Nos casos dos
procedimentos em massa realiza-se uma consulta pública (al. f) do nº 1 do art. 124º). A
doutrina discute quanto à sanção da não realização da audiência, sendo passível na doutrina e na
jurisprudência que é a mera anulabilidade por não se crer que a participação é um direito
fundamental, já não é o caso nos procedimentos sancionatórios, pois estamos perante uma
verdadeiro direito fundamental, gerando, assim, a nulidade do ato.
IV. A fase da decisão, é a fase que leva ao termo do procedimento. Quando o órgão responsável
pelo procedimento não é o órgão competente deve apresentar um relatório a este último de
acordo com o art. 126º. Tirando os casos em que o procedimento se extingue (nos casos
previstos nos arts. 131º, 132º e 133º), o procedimento culmina numa decisão, com a prática do
ato propriamente dito (ou num contrato), nos termos do art. 127º, podendo o conteúdo ser
ajustado por via de acordo endoprocedimental. O ato pode emanar de um órgão singular ou
colegial, no caso destes últimos importa ter em consideração o regime jurídico destes (arts. 21º
e ss. do CPA). Deve constar no ato as menções referidas no art. 151º, bem como a
fundamentação, nos termos legais de acordo com os arts. 152º e 153º . Alguma doutrina
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autonomiza a fase da preparação da decisão, no entanto adoptou o código um sentido lato do
termo «decisão».
V. Certos procedimentos não se finalizam na fase da decisão, sendo necessária uma fase
complementar (ou integrativa de eficácia), como por exemplo atos de controlo preventivo, de
adesão ou aceitação, que dependem de publicação.
6. A validade e eficácia:
A validade remete para momentos intrínsecos do ato, é válido o ato que é conforme à ordem
jurídica, a eficácia remete para circunstâncias extrínsecas do ato, é eficaz o ato que se encontra em
vigor e produz os seus efeitos. Diferente da invalidade é a inexistência, neste caso o ato nem
aparenta a materialização do seu corpus.
• Os requisitos de validade são um conjunto de exigências normativas que respeitam ao sujeito, ao
conteúdo e objecto, ao fim e à forma.
- Quanto ao sujeito importa que o ato se integre nas atribuições e competências do órgão
decisor, bem como estar legitimado para atuar, e também devem estar os destinatários
devidamente identificados.
- Quanto ao conteúdo e objecto ambos têm que respeitar os requisitos de certeza, legalidade e
possibilidade, tal como nos negócios privados (arts. 280.o e 281.o do CC), bem como o órgão
estar de vontade livre e esclarecida – sem vícios da vontade.
- Quanto ao fim, o fim do ato tem que coincidir com as atribuições do órgão emitente, levando,
assim, a um vício de desvio de poder em caso negativo.
- Quanto à forma, aqui temos a forma propriamente dita e as formalidades:
- Quanto à forma propriamente dita, impera a forma escrita, podendo ocorrer, também a
forma oral (sendo que para os órgãos colegiais impera a forma oral, mas devem estar
consignados em ata) (art. 150º CPA);
- Quanto às formalidades temos formalidades essenciais e não essenciais, bem como
insupríveis e supríveis consoante devam ser observadas num determinado momento ou num
momento posterior. A mais importante formalidade é o dever de fundamentação, esta é uma
exigência em que a Administração deve explicitar as razões de facto e de direito que a
levaram a praticar o ato e nos modos em que foi praticado. Este dever encontra-se
positivado no art. 152.o do CPA, importa referir que na al. a) do n.o 1º CPA obriga a
fundamentação para os atos que sejam «de qualquer modo» desfavoráveis, contando não só
o destinatário, mas também terceiros, ainda que favoráveis ao destinatário. A justificação
deste dever verifica-se pela sua importância na defesa do particular. Os requisitos da
fundamentação expõem-se no art. 153º CPA.
• Os requisitos de eficácia são as exigências pela qual do cumprimento depende a produção dos
efeitos do ato.
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Segundo o princípio da imediatividade dos efeitos jurídicos o ato produz os seus efeitos, regra
geral, desde a data em que é praticado (n.o 1 do art. 155º CPA), e este considera-se praticado nos
termos do n.o 2 do art. 155º CPA.
Como excepção a esse princípio temos a eficácia retroativa, diferida ou condicionada:
- Eficácia retroativa, refere-se aos atos cuja eficácia remete para uma data anterior à sua prática;
- A retroação refere-se a um ato integrativo de eficácia que dá a efectiva eficácia a um ato
anterior;
- A retrodatação refere-se a um ato que devia ter sido praticado em data anterior àquela em que
foi praticado, sendo os seus efeitos produzidos desde aquela data).
- Eficácia diferida ou condicionada para uma data ulterior à sua prática. Só excepcionalmente
podem os atos ter eficácia retroactiva, sendo regulado pelo art. 156º CPA . Quanto aos atos cuja
eficácia é diferida ou condicionada, regula-os no art. 157º CPA.
Perto desta noção de eficácia temos a executoriedade, a exequibilidade, e a executividade (ou
força executiva):
- A executoriedade, refere-se ao privilégiode execução prévia que permite a Administração de
executar os atos desfavoráveis pelos seus próprios meios sem recorrer aos tribunais;
- A exequibilidade, refere-se ao facto de os atos serem ou não exequíveis, estes que sejam
inexequíveis produzem os seus efeitos sem necessidade de execução;
- A executividade ou força executiva, consiste na possibilidade de o ato funcionar como um título
executivo, dispensa uma prévia fase declaratória.
7. Os vícios do ato administrativo:
Quando o ato está em desvalor para com a ordem jurídica este é invalido. A ilegalidade do ato
configura a mais típica forma de invalidade. Seguindo a distinção – ainda que não seja isenta de
discussões na doutrina, mas seja adoptada amplamente pela jurisprudência – presente na antiga Lei
Orgânica do Supremo Tribunal Administrativo: ilegalidades orgânicas (a usurpação de poderes e a
incompetência), formais (o vício de forma), e materiais (a violação de lei e o desvio de poder).
I. A usurpação de poderes consubstancia uma violação do princípio da separação de poderes
(art. 2.o da CRP), assim ocorre a invasão do poder administrativo na esfera de um outro poder
do Estado. A usurpação de poderes é semelhante à incompetência podendo ser vista como uma
forma agravada desta última pois viola um princípio estruturante do ordenamento jurídico-
-constitucional, sendo, certo é, a mais grave das inobservâncias das regras de atribuições e
competências administrativas, resultando na nulidade do ato administrativo nos termos do art.
161.o n.o 2 al. a) do CPA.
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Direito Administrativo II 1ª Frequência - 2º Semestre
II. O vício de incompetência consiste na prática de um ato por parte de um órgão administrativo
que se inscreve no âmbito das atribuições ou competências de um outro órgão administrativo.
Quando haja falta de atribuições estamos perante uma incompetência absoluta, estando ferido o
ato de uma nulidade nos termos do art. 161.o n.o 2 al. b) do CPA, já quando haja falta de
competências e não de atribuições, o ato é meramente anulável nos termos do art. 163.o n.o1.
Um outro critério distingue entre incompetências em razão da matéria, em razão da hierarquia,
em razão do lugar, e em razão do tempo.
III. O vício de forma remete, novamente, quer à forma dos documentos bem como às
formalidades. Quanto ao excesso de forma, este não é um vício, nem aqueles que causam o
incumprimento de uma formalidade posterior à prática do ato, pois, verdadeiramente trata- se de
uma ineficácia e não de uma invalidade. Das formalidades essenciais resulta a invalidade do
ato, e das não essenciais a sua mera irregularidade. Consoante os casos, do vício de forma pode
resultar a nulidade (carência absoluta de forma legal – art. 161.o n.o 2 al. g) –, deliberações sem
quórum – art. 161.o n.o 2 al. h) CPA ), ou a anulabilidade (carência relativa de forma legal –
arts. 161.o n.o 2 al. g) a contrario e 163.o n.o 1 – falta da audiência dos interessados, falta de
fundamentação, e outros vícios de forma – arts. 161.o n.o 1 e 163.o n.o 1).
IV. A violação de lei propriamente dito – uma vez que todos os vícios são uma violação da lei –
designa uma desconformidade entre o conteúdo ou objecto do ato e as vinculações normativas
que se lhe aplicam. A decisão final apresenta-se desconforme com a ordem jurídica, podendo
decorrer do exercício de poderes vinculados, exercício de poderes discricionários, falta de
legitimação do sujeito.
As principais modalidades de violação de lei são: a falta de base legal; a incerteza,
ilegalidade ou impossibilidade do conteúdo ou objecto; a ilegalidade das cláusulas acessórias; as
situações de falta de legitimação. É, pois, uma figura residual, pois a ela se deverá recorrer no caso
de esgotadas as outras formas de ilegalidade. As sanções são a nulidade nos casos das als. c), d), j)
e k) do n.o 2 do art. 161.o, e a mera anulabilidade nos restantes casos.
V. O desvio de poder ocorre quando a finalidade real não coincide com a finalidade legal da
prática do ato administrativo por erro de direito ou por má-fé. Pode ainda ocorrer por motivos
de interesse público e de interesse privado, sendo a nulidade a sanção para este último caso (al.
e) do n.o 2 do art. 161.o) e a mera anulabilidade nos restantes casos.
Pode ocorrer que um ato esteja ferido de diversos vícios, a cumulação de vícios, por poder ser duas
as sanções, gerando a sanção mais grave (a nulidade) no caso de ocorrerem ambas, e tão-só uma ou
outra caso os vícios culminem na mesma sanção.
• As duas modalidades de invalidade são a nulidade e a anulabilidade.
- A nulidade (sanciona vícios mais graves) torna o ato ineficaz ab initio e, face ao anterior
Código, vigora um princípio da taxatividade, pois são só nulos os atos a que a lei culmine tal
sanção, é, também, insanável pelo decurso do tempo e pode ser conhecida a todo o tempo por
qualquer autoridade e declarada pelos tribunais, a doutrina excluí ainda o direito de resistência
passiva (art. 21.o da CRP), excepto para os casos mais graves de nulidade. A nulidade de um ato
administrativo pode ser invocada a todo o tempo por qualquer interessado, não há prazo. É
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insuprível a nulidade, claro que a lei prevê a possibilidade de atos nulos serem objeto de forma.
Em casos específicos para cumprir princípios pode a lei atribuir certos efeitos a atos nulos.
Qualquer autoridade pode conhecer a nulidade e não aplicar aquele ato. A declaração de nulidade
só pode ser feito pelo tribunal administrativo. Não invalida porque já é invalido, limita-se a
declarar a sua nulidade.
- A anulabilidade (sanciona vícios menos graves) mantém a eficácia do ato, é sanável pelo
decurso do tempo e sujeito à ratificação, reforma e conversão, sendo o ato anulado através de
sentença judicial, esta tem efeitos ex tunc, passando o ato a não ter importância para a ordem
jurídica, como se nunca tivesse sido praticado. A impugnação de um ato anulavel está sujeita a
um prazo de 1 ano pelo ministério público, se for pelo particular tem 3 meses para impugnar um
ato anulavel.
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