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UFSC-UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA DIREITO PROCESSUAL PENAL I PROF: MATHEUS FELIPE DE CASTRO PODERES REQUISITÓRIOS DO DELEGADO DE POLÍCIA (sem necessidade de ordem judicial): Artigo 2º da Lei nº 12.830/2013 (Estatuto do Delegado de Polícia): Art. 2º — As funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais exercidas pelo delegado de polícia são de natureza jurídica, essenciais e exclusivas de Estado. § 2º Durante a investigação criminal, cabe ao delegado de polícia a requisição de perícia, informações, documentos e dados que interessem à apuração dos fatos. É matéria tratada em nível infraconstitucional. A regra é que o delegado tem poder requisitório sempre que não haja cláusula de reserva de jurisdição, como no caso do sigilo das conversas telefônicas e na inviolabilidade domiciliar. Ele não pode requisitar diretamente dados fiscais e bancários, eis que não existe legislação nesse sentido, como no caso do MP, mas mesmo para este, a Jurisprudência é restritiva. Lei nº 12.965, de 23 de Abril de 2014 (Marco Civil da Internet): "Artigo 10 — § 3º. O disposto no caput não impede o acesso aos dados cadastrais que informem qualificação pessoal, filiação e endereço, na forma da lei, pelas autoridades administrativas que detenham competência legal para a sua requisição. O delegado pode requisitar dados cadastrais de usuários para provedoras de internet. O Marco Civil da Internet ainda não tinha o conceito amplo de endereço e dados cadastrais. Lei nº 13.344, de 2016 (Lei do Tráfico de Pessoas): Art. 11. O Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), passa a vigorar acrescido dos seguintes arts. 13-A e 13-B: “ Art. 13-A. Nos crimes previstos nos arts. 148 , 149 e 149-A , no § 3º do art. 158 e no art. 159 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal) , e Esta lei inseriu no CPP os artigos 13-A E 13-B, com regras de requisição para crimes de tráfico de pessoas, dentre outros. Os parágrafos são importantes porque definem com maior precisão os limites do que pode ser requisitado. Atenção: tramita no STF a ADI-5642 que questiona a constitucionalidade desses dois dispositivos. no art. 239 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente) , o membro do Ministério Público ou o delegado de polícia poderá requisitar, de quaisquer órgãos do poder público ou de empresas da iniciativa privada, dados e informações cadastrais da vítima ou de suspeitos. Parágrafo único. A requisição, que será atendida no prazo de 24 (vinte e quatro) horas, conterá: I - o nome da autoridade requisitante; II - o número do inquérito policial; e III - a identificação da unidade de polícia judiciária responsável pela investigação.” “Art. 13-B. Se necessário à prevenção e à repressão dos crimes relacionados ao tráfico de pessoas, o membro do Ministério Público ou o delegado de polícia poderão requisitar, mediante autorização judicial, às empresas prestadoras de serviço de telecomunicações e/ou telemática que disponibilizem imediatamente os meios técnicos adequados – como sinais, informações e outros – que permitam a localização da vítima ou dos suspeitos do delito em curso. § 1º Para os efeitos deste artigo, sinal significa posicionamento da estação de cobertura, setorização e intensidade de radiofrequência. § 2º Na hipótese de que trata o caput, o sinal: I - não permitirá acesso ao conteúdo da comunicação de qualquer natureza, que dependerá de autorização judicial, conforme disposto em lei; II - deverá ser fornecido pela prestadora de telefonia móvel celular por período não superior a 30 (trinta) dias, renovável por uma única vez, por igual período;” III - para períodos superiores àquele de que trata o inciso II, será necessária a apresentação de ordem judicial. § 3º Na hipótese prevista neste artigo, o inquérito policial deverá ser instaurado no prazo máximo de 72 (setenta e duas) horas, contado do registro da respectiva ocorrência policial. § 4º Não havendo manifestação judicial no prazo de 12 (doze) horas, a autoridade competente requisitará às empresas prestadoras de serviço de telecomunicações e/ou telemática que disponibilizem imediatamente os meios técnicos adequados – como sinais, informações e outros – que permitam a localização da vítima ou dos suspeitos do delito em curso, com imediata comunicação ao juiz. Decreto n. 8.771, de 11 de maio de 2016 (regulamenta o Marco Civil da Internet): Art. 11. § 2º São considerados dados cadastrais: I - a filiação; II - o endereço; e III - a qualificação pessoal, entendida como nome, prenome, estado civil e profissão do usuário. Artigo 14. Para os fins do disposto neste Decreto, considera-se: I - dado pessoal - dado relacionado à pessoa natural identificada ou identificável, inclusive números identificativos, dados locacionais ou identificadores eletrônicos, quando estes estiverem relacionados a uma pessoa; Com o Decreto que regulamentou o Marco Civil da Internet, houve uma ampliação do sentido originário, de modo que hoje o Delegado de Polícia tem amplo poder requisitório de metadados para as operadoras de telefonia e telemática, sem necessidade de ordem judicial. Atenção: uma das maiores fontes de 1) O Inciso I, do art. 14, do Decreto investigação policial é a requisição às operadoras telefônicas do registro de chamadas efetuado, porque esse registro garante a lista dos interlocutores do investigado, permitindo ao delegado esquadrinhar as redes do investigado. Há que considerar: 8.771/2016 menciona ao final da redação “relacionados a uma pessoa”. O problema do fornecimento do registro de chamadas é que ele envolve muitas pessoas; 2) A Lei 12.850/2013 (Lei do Crime Organizado) prevê no seu art. 3º, IV - acesso a registros de ligações telefônicas e telemáticas, a dados cadastrais constantes de bancos de dados públicos ou privados e a informações eleitorais ou comerciais. Nos parece que o acesso ao registro de ligações estaria sob reserva de jurisdição por envolver muitas pessoas e poder caracterizar uma espécie de fishing expedition; 3) Há diversos julgados do STJ considerando ilegal o acesso direto ao registro de chamadas de celulares de investigados por violação à intimidade e à privacidade, de modo que nos parece que a obtenção do registro de chamadas só poderia ser efetuada mediante ordem judicial. PODERES REQUISITÓRIOS DO MINISTÉRIO PÚBLICO (sem necessidade de ordem judicial): A regra geral é que o Ministério Público possui amplo poder requisitório, exceto os casos de reserva de jurisdição definidos na própria Constituição: 1) Busca e apreensão domiciliar; 2) Quebra do sigilo das comunicações telefônicas; Art. 5º, CF/88: X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial; XII - é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; A própria Constituição confere poderes requisitórios genéricos ao MP: Art. 129. São funções institucionais do Ministério Público: VI - expedir notificações nos procedimentos administrativos de sua competência, requisitando informações e documentos para instruí-los, na forma da lei complementar respectiva; A Lei Orgânica do Ministério Público daUnião (Lei Complementar 75/93), regulamentou o inciso IV, do art. 129, CF/88 da seguinte maneira: Art. 8º Para o exercício de suas atribuições, o Ministério Público da União poderá, nos procedimentos de sua competência: II - requisitar informações, exames, perícias e documentos de autoridades da Administração Pública direta ou indireta; IV - requisitar informações e documentos a entidades privadas; VIII - ter acesso incondicional a qualquer banco de dados de caráter público ou relativo a serviço de relevância pública; § 2º Nenhuma autoridade poderá opor ao Ministério Público, sob qualquer pretexto, a exceção de sigilo, sem prejuízo da subsistência do caráter sigiloso da informação, do registro, do dado ou do documento que lhe seja fornecido. Essa disposição se aplica também aos Ministérios Públicos Estaduais Lei Orgânica Nacional do Ministério Público, Lei 8.625/1993: Art. 80. Aplicam-se aos Ministérios Públicos dos Estados, subsidiariamente, as normas da Lei Orgânica do Ministério Público da União. Essa Lei também prevê poderes requisitórios ainda mais específicos: Art. 26. No exercício de suas funções, o Ministério Público poderá: I - instaurar inquéritos civis e outras medidas e procedimentos administrativos pertinentes e, para instruí-los: b) requisitar informações, exames periciais e documentos de autoridades federais, estaduais e municipais, bem como dos órgãos e entidades da administração direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios; c) promover inspeções e diligências investigatórias junto às autoridades, órgãos e entidades a que se refere a alínea anterior; II - requisitar informações e documentos a entidades privadas, para instruir procedimentos ou processo em que oficie; § 2º O membro do Ministério Público será responsável pelo uso indevido das informações e documentos que requisitar, inclusive nas hipóteses legais de sigilo. Sigilo Bancário A Lei complementar 105/2001 não previu expressamente o poder requisitório do MP para dados sigilosos bancários. Os membros do MP sustentam que essa atribuição já foi conferida pela Constituição, como acima mencionado. Ademais, a Lei 7.492/1986 prevê: Art. 29. O órgão do Ministério Público Federal, sempre que julgar necessário, poderá requisitar, a qualquer autoridade, informação, documento ou diligência, relativa à prova dos crimes previstos nesta lei. Parágrafo único O sigilo dos serviços e operações financeiras não pode ser invocado como óbice ao atendimento da requisição prevista no caput deste artigo. Mesmo assim, o STJ tem decisões contrárias a essa possibilidade, considerando-a inconstitucional. Considera que o MP só pode requisitar dados cadastrais bancários, havendo reserva de jurisdição em matéria de dados sigilosos, ou seja, operações financeiras do investigado. Exemplo: RESP 1561191, STJ. Sigilo Fiscal Muitos defendem que a mesma regra anterior se aplica ao sigilo fiscal, baseados inclusive na redação do CTN: Art. 198. Sem prejuízo do disposto na legislação criminal, é vedada a divulgação, por parte da Fazenda Pública ou de seus servidores, de informação obtida em razão do ofício sobre a situação econômica ou financeira do sujeito passivo ou de terceiros e sobre a natureza e o estado de seus negócios ou atividades. § 1o Excetuam-se do disposto neste artigo, além dos casos previstos no art. 199, os seguintes: I – requisição de autoridade judiciária no interesse da justiça; II – solicitações de autoridade administrativa no interesse da Administração Pública, desde que seja comprovada a instauração regular de processo administrativo, no órgão ou na entidade respectiva, com o objetivo de investigar o sujeito passivo a que se refere a informação, por prática de infração administrativa. § 2o O intercâmbio de informação sigilosa, no âmbito da Administração Pública, será realizado mediante processo regularmente instaurado, e a entrega será feita pessoalmente à autoridade solicitante, mediante recibo, que formalize a transferência e assegure a preservação do sigilo. § 3o Não é vedada a divulgação de informações relativas a: I – representações fiscais para fins penais; As decisões mais importantes do STF e do STJ recentes, no entanto, consideram que não há ilegalidade no fornecimento dos dados fiscais por iniciativa do Fisco quando constatar algum ilícito. Essas mesmas decisões consideraram que quando houver iniciativa do Ministério Público ele deverá solicitar a quebra de sigilo fiscal por intermédio de ordem judicial. Nesse sentido: Posição do STF: RE 1.055.941 (É constitucional o compartilhamento dos relatórios de inteligência financeira da UIF e da íntegra do procedimento fiscalizatório da Receita Federal que define o lançamento do tributo com os órgãos de persecução penal para fins criminais, sem a obrigatoriedade de prévia autorização judicial, devendo ser resguardado o sigilo das informações em procedimentos formalmente instaurados e sujeitos a posterior controle jurisdicional). Tema 990/STF: Tese Firmada: 1. É constitucional o compartilhamento dos relatórios de inteligência financeira da UIF e da íntegra do procedimento fiscalizatório da Receita Federal do Brasil, que define o lançamento do tributo, com os órgãos de persecução penal para fins criminais, sem a obrigatoriedade de prévia autorização judicial, devendo ser resguardado o sigilo das informações em procedimentos formalmente instaurados e sujeitos a posterior controle jurisdicional. 2. O compartilhamento pela UIF e pela RFB, referente ao item anterior, deve ser feito unicamente por meio de comunicações formais, com garantia de sigilo, certificação do destinatário e estabelecimento de instrumentos efetivos de apuração e correção de eventuais desvios. Posição do STJ: 1) RHC 83.233 2) RHC 83.447 De acordo com o relator dos recursos, ministro Sebastião Reis Júnior, a orientação do Supremo Tribunal Federal (STF), firmada no Tema 990, permite que a Receita Federal encaminhe ao MP dados fiscais quando houver suspeita de crime, mas não possibilita ao órgão de acusação requisitar esses mesmos dados sem autorização judicial. Segundo o precedente do STF, é constitucional o compartilhamento de relatórios de inteligência financeira e de procedimentos fiscalizatórios da Receita Federal com órgãos de persecução penal para fins penais, sem prévia autorização da Justiça. Sigilo Telefônico Tudo que foi dito acima sobre o poder requisitório do delegado de polícia se aplica também ao MP. Como há reserva de jurisdição definida pela Constituição, entende-se que o conteúdo das conversas telefônicas é inviolável, salvo autorização judicial. Da mesma maneira, a controvérsia sobre requisição do registro de chamadas, por ultrapassar a esfera de pessoalidade do investigado. São sigilosas as conversas e os dados associados a essas conversas. A requisição de dados cadastrais, definidos em lei, é livre. ADC-51/STF O Supremo Tribunal Federal (STF) julgou constitucional a possibilidade de autoridades nacionais solicitarem dados diretamente a provedores de internet estrangeiros com sede ou representação no Brasil sem, necessariamente, seguir o procedimento do acordo celebrado entre o Brasil e os Estados Unidos. Em decisão unânime, o Plenário entendeu que a hipótese está prevista no Marco Civil da Internet. Na Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) 51, a Federação das Associações das Empresas de Tecnologia da Informação (Assespro Nacional) pedia a declaração de validade do Acordo de Assistência Judiciária em Matéria Penal (MLAT, na sigla em inglês), promulgado pelo DecretoFederal 3.810/2001, usado em investigações criminais e instruções penais em curso no Brasil sobre pessoas, bens e haveres situados nos Estados Unidos. O acordo bilateral trata da obtenção de conteúdo de comunicação privada sob controle de provedores de aplicativos de internet sediados fora do país. O relator do processo, ministro Gilmar Mendes, já havia votado pela constitucionalidade das normas previstas no MLAT e nos dispositivos dos Códigos Processuais Civil e Penal brasileiros que tratam da cooperação jurídica internacional. Porém, para ele, as autoridades brasileiras podem solicitar essas informações diretamente às empresas localizadas no exterior, como previsto no artigo 11 do Marco Civil da Internet, que também foi julgado constitucional. Em voto-vista, o ministro Alexandre de Moraes ressaltou que o MLAT deve ser aplicado quando for absolutamente impossível às autoridades judiciais brasileiras a obtenção direta dos dados. Assim, sendo possível a solicitação direta das informações com base no Marco Civil, esse deve ser o caminho a ser adotado, tendo o MLAT e as cartas rogatórias papel complementar. O ministro frisou, ainda, que pedidos de informações não podem ser negados sob a justificativa de que a sede dos provedores não está no Brasil, uma vez que as informações são transmitidas pelo sistema de telecomunicações brasileiro.