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MICROBIOLOGIA, IMUNOLOGIA E PARASITOLOGIA AULA 5 Profª Catalina Yumi Masuda Nishi 2 CONVERSA INICIAL A palavra imunologia deriva do latim immunis, que significa “isento, livre de carga”. Essa ciência surge a partir da microbiologia. A imunologia é o ramo da biologia que estuda os mecanismos e reações de defesa que conferem resistência às doenças. O sistema que realiza a defesa contra o ataque constante de microrganismos é chamado de sistema imunológico, o qual é fundamental para a sobrevivência do organismo e, por isso, precisa atuar de forma eficiente. É uma ciência relativamente recente, e seu começo é atribuído a Edward Jenner, que demonstrou a proteção induzida pelo vírus da varíola bovina (cowpox) contra a varíola humana (smallpox), processo que denominou vacinação. Não entanto, há relatos do uso de crostas secas das pústulas da varíola pelos chineses na Antiguidade, processo denominado de variolação. Com a identificação de vários agentes etiológicos no período final do século XIX, a era dourada da microbiologia, os médicos já haviam observado que os sobreviventes de doenças infecciosas, mesmo no caso da varíola, tornavam-se resistentes (imunes) àquela doença, processo conhecido como imunização natural. Pasteur desenvolveu a vacina antirrábica e demonstrou que a imunização também poderia ser obtida mediante exposição a um microrganismo inativado, atenuado ou morto (como no caso da raiva) ou semelhantes (produzir a doença similar em outra espécie), como no caso da varíola e tuberculose, conservando a propriedade de imunização. No entanto, ele tinha pouco conhecimento sobre os mecanismos envolvidos no processo de imunização. Alguns anos mais tarde, Emil von Behring e Shibasaburo Kitasato demonstraram a presença de proteínas no soro de animais imunizados contra difteria e tétano que, quando transferidas para o sangue de outros animais, eram capazes de protegê-los contra as toxinas produzidas dessas bactérias. Tais proteínas, conhecidas como antitoxinas, foram batizadas de anticorpos, e o processo de imunização obtido pela administração do soro de animais imunes denominou-se soroterapia. Pouco depois, Elie Metchnikoff demonstrou células capazes de engolir microrganismos, que foram denominadas de fagócitos. E assim a imunologia foi avançando e evoluindo. A história da imunologia no Brasil coincide com o princípio dessa área no velho mundo. Em 1941, foi publicado no Brasil o primeiro livro educacional de imunologia, escrito pelo bacteriologista e imunologista Otto Guilherme Bier 3 (professor da Escola Paulista de Medicina, pesquisador do Instituto Biológico de São Paulo). Em 1960, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o campo da imunologia como perspectiva para o controle de doenças infectocontagiosas nas áreas de diagnóstico e de imunização. A OMS propõe linhas de ação como: atividades de formação e treinamentos com parcerias internacionais; estabelecimento de centros mundiais de referência em imunologia; inserção da imunologia como disciplina no currículo das escolas de medicina; estabelecimento de protocolos comuns. Para o programa de pesquisa, viu-se a necessidade de formar imunologistas. Foram criados, então, centros de formação e pesquisa em Ibadan, Nigéria (para África), em São Paulo, Brasil, e Cidade do México, México (para América Latina) e em Cingapura (para o sudeste Asiático e Pacífico Ocidental) sob a coordenação do Centro de Lausanne, Suíça. Esse programa possibilitou a troca de experiências entre esses professores de centros de excelência científica e demais pesquisadores e grupos de pesquisa brasileiros, o que levou ao crescimento da imunologia no Brasil. Conhecer a história da ciência, criada nos anos de pioneirismo da biomedicina experimental no Brasil, nos mostra uma rede interconectada de influências, conhecimentos compartilhados, idealismo e comprometimento humanístico que atualmente anda ausente, provavelmente pela noção competitiva induzida pelos países desenvolvidos. A interação entre diferentes áreas, respeitando e trabalhando com pessoas diferentes, não é uma utopia – pelo menos no Brasil, como demonstra a história da ciência no país. Nesta aula, abordaremos os conceitos básicos do sistema imune: seus componentes, sua função geral, seus mecanismos de ação e sua regulação. Objetivo geral: reconhecer as células, tecidos, órgãos e substâncias químicas que atuam nas reações de defesa do organismo. Objetivos específicos: Compreender a função geral do sistema imunológico, bem como as células, tecidos e órgãos que o compõe; identificar o papel das imunoglobulinas no sistema imunológico; explicar a histocompatibilidade e sua relação com o transplante de tecidos e órgãos; ilustrar a relação antígeno-anticorpo no organismo; reconhecer como ocorre a regulação da resposta imune no organismo. 4 TEMA 1 – SISTEMA IMUNE: FUNÇÕES, CÉLULAS E TECIDOS Todos os organismos estão continuamente expostos a substâncias, microrganismos capazes de causar danos e infecções (Figura1). Figura 1 – Diferentes grupos de microrganismos patogênicos Crédito: Designua/Shutterstock. A maioria possui sistemas de proteção e defesa que trabalham de várias formas, como barreiras físicas impedindo a invasão ou químicas repelindo os invasores. Os animais vertebrados possuem esses mecanismos de proteção geral, mas também têm outras formas com sistemas de proteção avançados chamado de sistema imune. O sistema imune humano é um dos mais complexos. Evoluiu para proteger o hospedeiro contra os múltiplos microrganismos patogênicos que também estão em continua evolução. Esse sistema ajuda o hospedeiro também a eliminar substâncias tóxicas que penetram pelas mucosas, sendo de crucial importância a habilidade de identificar o próprio do não próprio ou estranho. O sistema possui a capacidade de resposta rápida contra microrganismos invasores, assim como também de uma resposta 5 mais lenta específica e duradoura. Esse sistema compreende um conjunto de diferentes células (Figura 2), tecidos, órgãos (Figura 3) e moléculas como os componentes do sistema do complemento (Figura 4) que trabalham em conjunto para combater infecções, dano celular e doenças. O Sistema do Complemento consiste de uma série complexa de proteínas na sua maioria enzimas que atuam como mediadores das respostas imune e inflamatória. Quadro 1 – Componentes do sistema imune Figura 2 – Células do sistema imune Crédito: Extender/Shutterstock. 6 Figura 3 – Órgãos do sistema imune Crédito: Designua/Shutterstock. Figura 4 – Sistema do complemento Crédito: Ellepigrafica/Shutterstock 7 As linhas de defesa que o corpo tem incluem: barreiras físicas; glóbulos brancos ou leucócitos; produtos celulares e outras moléculas; órgãos e tecidos linfoides. A primeira linha de defesa contra invasores são barreiras físicas ou mecânicas: a pele, a córnea nos olhos, as membranas que revestem os tratos respiratório, digestório, urinário e reprodutivo; enquanto permanecerem intactas, muitos invasores não conseguem ultrapassá-las. Além de barreiras físico- mecânicas, as secreções dessas barreiras possuem enzimas e outras moléculas que podem destruir alguns microrganismos. Os leucócitos originam-se a partir das células tronco progenitoras da medula óssea, onde muitas evoluem para a fase adulta, os granulócitos, monócito/macrófago, células dendríticas e mastócitos derivam do progenitor mieloide, e o progenitor linfoide dá origem aos linfócitos. Sua linha de defesa apresenta dois tipos de resposta: uma não específica, porém rápida, chamada de resposta imune inata ou imunidade inata, e uma resposta imune adaptativa ou imunidade adaptativa que exige prévia exposição (característica explorada na imunização); portanto, uma resposta específica e duradoura,porém, mais lenta. Os dois tipos de resposta inata e adaptativa interagem diretamente ou por meio de moléculas que atraem ou ativam outras células do sistema imune, como as proteínas do sistema do complemento, as citocinas (que são os mensageiros) e os anticorpos. Os órgãos e tecidos linfoides são tecidos organizados que contêm grandes quantidades de linfócitos em um ambiente de células não linfoides, sendo classificados como primários, nos quais as células são produzidas e/ou se multiplicam: a medula óssea (origem, produção e maturação para algumas células) e o timo (onde os linfócitos T se diferenciam e multiplicam; essas células são essenciais para a resposta adaptativa); e secundários: o baço (filtra o sangue de detritos celulares, células danificadas, e patógenos; ajuda na maturação dos linfócitos); nódulos linfáticos (distribuídos ao longo dos vasos linfáticos, sua principal função é a filtragem da linfa e auxiliar a na construção da resposta imune); rede linfática (sistema de vasos que coletam líquido intersticial, passando-se a chamar linfa, direcionada para os nódulos linfáticos para serem filtrados e retornar para o sangue); os tecidos linfoides associados à mucosas (anel de Waldeyer, BALT, GALT, placas de Peyer, tecido linfático urogenital; todas contêm grande número de linfócitos). A resposta imune inata é encontrada nos vertebrados, invertebrados e em plantas, e seu mecanismo básico de regulação é conservado. Uma vez que 8 microrganismos invasores ultrapassam as barreiras físicas, as células envolvidas na resposta inata (neutrófilo, eosinófilo, basófilo, monócito/macrófago, células dendríticas e células NK – natural killer) devem diferenciar o próprio e não próprio, e na imunidade inata baseia-se no reconhecimento de moléculas particulares que são comuns para muitos patógenos e ausentes no hospedeiro. Essas moléculas associadas aos patógenos estimulam respostas de fagocitose e inflamação. O sistema do complemento, que consiste de cerca de 20 proteínas interativas, realça a habilidade dos fagócitos para identificar e eliminar os patógenos (processo chamado de opsonização – do grego opson, que significa tempero). A imunidade adaptativa é ativada quando a imunidade inata é insuficiente. Sem a informação fornecida pela imunidade inata, não seria possível a resposta imune adaptativa. Existem 3 tipos de linfócitos: (1) células B, quando ativadas por um antígeno específico, produzem os anticorpos ou imunoglobulinas; (2) células T em suas diferentes classes: linfócito T auxiliador (que expressa o marcador de superfície CD4), atua modulando a resposta imune, contribuindo na ativação das células B ou células T citotóxicas quando necessárias; Linfócito T regulador; linfócito T citotóxico (que expressa o marcador de superfície CD8), que é ativado para eliminação de células infectadas ou reconhecidas como não próprias; célula NKT; célula T de memória (Figura 5); (3) célula NK – natural killer. 9 Figura 5 – Ação e ativação da resposta imune pela célula auxiliadora Th Crédito: Alila Medical Media/Shutterstock. Os linfócitos são as principais células ativas na imunidade adaptativa. Os outros componentes são as células APC, ou apresentadoras de antígenos (sendo antígeno toda substância com capacidade de desencadear uma resposta imune), como os macrófagos e as células dendríticas, que fagocitam o agente invasor e apresentam aos linfócitos uma parte para reagir especificamente. Há dois tipos de resposta adaptativa: a resposta imune humoral (mediada por linfócitos B e anticorpos) e a resposta imune celular (mediada pelos linfócitos T). 10 Figura 6 – Imunidade humoral e imunidade celular Crédito: Ellepigrafica/Shutterstock. As fases da resposta imune são: o reconhecimento na qual é necessário identificar o invasor e diferenciar o próprio do não próprio (toda célula possui moléculas específicas – antígenos – na superfície), e nos humanos, as moléculas mais importantes de identificação própria são chamadas de antígenos leucocitários humanos (HLA) ou complexo principal de histocompatibilidade (MHC); a ativação e mobilização, fase na qual os linfócitos são ativados quando reconhecem o invasor; a regulação, quando a resposta deve ser controlada para prevenir o dano excessivo; e a resolução, que implica o confinamento do invasor e sua eliminação. TEMA 2 – IMUNOGLOBULINAS Em 1890, von Behring e Kitasato reportaram a existência de um agente no sangue que poderia neutralizar a toxina da difteria. No ano seguinte, referiram-se ao agente como anticorpo, e os estudos mostraram a habilidade do anticorpo de discriminar entre duas substâncias. A substância que induzia a produção do anticorpo foi chamada de antígeno (uma contração de Antisomatogen e Immunkorperbildner). Em 1939, Tiselius e Kabat utilizaram a 11 eletroforese para separar o soro imunizado em albumina, alfa-globulina, beta- globulina e gamma-globulina, e os anticorpos encontraram-se na fração gamma. Mais de 100 anos de pesquisas na estrutura e função dos anticorpos enfatizam a natureza complexa destas glicoproteínas globulares com função imunitária denominadas imunoglobulinas. Cada molécula de imunoglobulina (Ig) é constituída por 2 cadeias polipeptídicas pesadas idênticas e duas cadeias polipeptídicas leves ligadas por pontes dissulfeto, em formato de Y. Análises das cadeias polipeptídicas revelaram que estão compostas por uma região altamente variável (amino terminal) e uma região constante (carboxi terminal). A região V variável é responsável pelo reconhecimento antigênico (também conhecida como porção Fab – do inglês antigen binding fragment – porção de ligação aos antígenos), enquanto que a região constante ou C (Fc) é responsável por várias funções efetoras como fixação do complemento e outros receptores celulares do sistema imune, uma molécula bifuncional (Figura 7). A imunoglobulina individual liga-se a um número limitado de antígenos, mas as imunoglobulinas como população podem se ligar a um número ilimitado de antígenos. Essa propriedade de ligação ajustável depende de mecanismos complexos de rearranjo que alteram o DNA das células B. 12 Figura 7 – Estrutura em Y da Imunoglobulina Crédito: Soleil Nordic/Shutterstock. As imunoglobulinas são produzidas pelos linfócitos B, quando ativados por um antígeno, e diferenciam-se em células plasmáticas B para produzir os anticorpos específicos essenciais na imunidade humoral. Existem 5 classes de imunoglobulinas, cada uma com um papel distinto na resposta imune. A Ig G, que constitui a maioria das imunoglobulinas circulantes, é produzido do meio para o final de uma nova infecção. Ela atravessa a barreira placentária, pode ativar o sistema do complemento e marcar o patógeno fazendo-o visível para os fagócitos. Ig M é uma molécula grande: contém 5 seções em Y com capacidade de ligar ou aglutinar rapidamente vários patógenos, e é o primeiro anticorpo a ser produzido, evitando a disseminação do patógeno. É também o responsável pela reação de incompatibilidade entre os grupos sanguíneos. Ig A é o anticorpo encontrado em todos os fluidos corporais, como saliva, lágrimas, suor, muco, e evita a entrada e infecção nos típicos lugares de entrada. Ig D tem seu papel na 13 resposta imune desconhecido; essas moléculas localizam-se na superfície de membranas de linfócitos B maduros. Ig E tem um papel importante na defesa contra infecções parasitárias como vermes, e também são responsáveis pelas reações alérgicas. Ligam-se aos mastócitos que são as células responsáveis pelos sintomas típicos de alergia (Figura 8). Figura 8 – Classes de Imunoglobulinas Crédito: Designua/Shutterstock. As imunoglobulinas ou anticorpos atuam de 3 formas principais: neutralizando o patógeno; ativando outras células dedefesa, como os fagócitos; e ativando o sistema do complemento que pode causar dano à parede celular do patógeno diretamente, dilatando os vasos sanguíneos e dando suporte à reação inflamatória. Muitos componentes do sistema podem ainda atrair as células de defesa para o local de infecção. As imunoglobulinas são um dos produtos sanguíneos mais usados na prática clínica. TEMA 3 – HISTOCOMPATIBILIDADE Literalmente, histocompatibilidade é a compatibilidade entre células, tecidos e órgãos. No genoma humano foi identificada uma região que codifica, 14 para moléculas expressadas na superfície das células nucleadas, uma região variável e comum a todos os vertebrados, inicialmente relacionada com a rejeição a tecidos transplantados, conhecida como complexo principal de histocompatibilidade (MHC, do inglês major histocompatibility complex). Sabe- se agora que tem papel importante no sistema imunológico e na determinação da identidade biológica de cada um. Uma das funções do sistema imune adaptativo é o reconhecimento do próprio e do externo. O MHC codifica para um grupo de proteínas antígenos uma marca única de identidade das células. Esses genes pertencem ao sistema de antígenos leucocitários humanos HLA (do inglês human leukocyte antigen) e codificam as principais moléculas encarregadas da apresentação do antígeno para as células do sistema imunológico que, se são identificadas como externas, constroem uma resposta para eliminá-lo. A identidade HLA é composta de vários genes agrupados na mesma região no cromossomo 6. Cada gene possui uma grande diversidade de alelos, por isso é difícil encontrar dois indivíduos com o mesmo grupo de genes. A grande complexidade nos transplantes é encontrar essa compatibilidade entre doador e receptor. Em 1964, o Dr. Terasaki desenvolveu o teste de microcitotoxicidade, um teste de tipagem de tecidos entre o doador e receptor, e em 1970 esse teste tornou-se padrão para transplantes. Há também a tipagem cruzada, exame para detectar a presença de anticorpos pré-formados específicos para os antígenos do doador. O desenvolvimento de técnicas moleculares de alta precisão permitiu a identificação de alelos e revelou incompatibilidades antes não observadas. Estudos mostraram que há existência de duas moléculas codificadas pelo MHC, moléculas classe I e classe II. As moléculas MHC I são encontradas em todas as células nucleadas e os antígenos são apresentados aos linfócitos citotóxicos CD8, enquanto que as MHC II encontradas somente nas células apresentadoras de antígenos (dendríticas, macrófagos, linfócitos B e outras) e os antígenos são apresentados aos linfócitos T auxiliador CD4. Somente após a descoberta de como o receptor de célula T reconhece o antígeno foi entendida a participação do MHC no sistema imune. Alguns aspectos importantes do MHC: apesar de ter um grau alto de polimorfismo de espécies, um indivíduo pode ter um máximo de 6 diferentes produtos MHC classe I e ligeiramente um pouco mais de MHC classe II; cada molécula MHC tem somente um sítio de ligação; de todos os diferentes peptídeos que uma molécula MHC pode ligar, todos se ligam no mesmo sítio, um de cada vez; cada molécula MHC pode ligar muitos diferentes 15 peptídeos se considera não específico; o polimorfismo é por linha germinal, não há mecanismos de recombinação para gerar diversidade; as moléculas MHC estão ligadas à membrana, e para reconhecimento exige contato célula-célula; o peptídeo deve se associar a uma molécula MHC, caso contrário não desencadeia uma resposta imune, esse é um nível de controle; as células T maduras devem ter o receptor de célula T para reconhecerem o peptídeo; esse é o segundo nível de controle; citocinas como o interferon aumentam a expressão das MHC. Esse poderoso mecanismo genético gera a variação vista entre os alelos MHC, sendo crucial para o sistema imunológico manter a variedade de moléculas para a defesa ante os agentes infecciosos. TEMA 4 – REAÇÃO ANTÍGENO-ANTICORPO O antígeno e o anticorpo combinam-se especificamente, interação chamada de reação antígeno-anticorpo (Ag-Ac), base da imunidade humoral ou imunidade mediada por anticorpos. A reação também é utilizada para diagnóstico; quando ocorre in-vitro, é chamada de reações sorológicas. A reação acontece em três fases: a formação do complexo Ag-Ac; efeitos, visíveis como aglutinação e precipitação; e destruição do agente ou sua neutralização. A especificidade refere-se à habilidade de um anticorpo reagir somente com um único antígeno, formando o complexo antígeno-anticorpo. O complexo antígeno- anticorpo leva à inflamação, ativação do sistema do complemento e opsonização (do grego opson, “tempero”, deixando o complexo ou o antígeno mais reconhecível) do agente, deixando-os expostos aos fagócitos. A natureza das reações é no sistema de chave e fechadura (o sítio de combinação de um anticorpo é localizado na porção Fab da molécula e é construído a partir de regiões hipervariáveis de cadeias pesadas e leves). As ligações são não covalentes (elas incluem pontes de hidrogênio, ligações eletrostáticas, forças de Van der Waals e hidrofóbicas). Uma vez que são ligações não covalentes, são reversíveis. A afinidade é a força de ligação de um único determinante antigênico com o sítio de ligação no anticorpo, e a avidez e a medida de força total de ligação contendo muitos determinantes antigênicos e anticorpos multivalentes. A reatividade cruzada refere-se à habilidade de um sítio de combinação de anticorpo em particular de reagir com mais de um determinante antigênico. As reações antígeno-anticorpo in-vivo incluem aglutinação, precipitação, fixação do complemento, neutralização e citotoxicidade-anticorpo-dependente. As reações 16 in-vitro incluem: aglutinação/hemaglutinação, precipitação, neutralização, fixação do complemento, técnica de anticorpo fluorescente, ELISA (Enzyme linked immuno sorbent assay), raioimunoensaio e imunocromatografia. Dentro das aplicações das reações antígeno-anticorpo, temos: diagnóstico (detectando a presença ou do antígeno ou do anticorpo específico), medições da severidade e estágio da doença (identificando a classe de anticorpo circulante, ou a quantidade de antígenos circulantes), medição da resposta ao tratamento e epidemiologia. TEMA 5 – REGULAÇÃO DA RESPOSTA IMUNE O sistema imune tem evoluído para permitir uma resposta efetiva contra agentes patogênicos e não patogênicos enquanto evita a autoimunidade. O equilíbrio tem se conseguido devido ao complexo mecanismo de sinais estimulatórios e inibitórios que contribuem para a regulação da resposta imune. Sinais coestimulantes positivos são essenciais para a ativação, montagem e execução da resposta imune, enquanto que sinais de regulação negativa são críticos para a terminação da resposta imune, para a tolerância periférica e para evitar dano tisular induzido pela inflamação. Assim, quando os mecanismos de discriminação antigênica do que é próprio e externo (self/no self) falham, ou quando a invasão do patógeno não é controlada, o sistema imune começa a destruir células e tecidos do corpo, consequentemente causando doenças autoimunes e síndromes crônicas. Apesar de termos dividido para efeitos didáticos o sistema imunológico, todos os componentes e tipos de respostas atuam em colaboração para o sucesso da eliminação do agente que desencadeiou a resposta. Mencionaremos vários mecanismos de regulação: (a) pelo antígeno/antígenos de superfície; (b) pelo anticorpo; (c) pela célula T reguladora; (d) por mecanismos neuroendócrinos; (e) alguns aspectos genéticos. a. Pelo antígeno, que exerce a regulação pela permanência, quantidade, natureza e via de entrada no organismo. Quantidades muito altas ou muito baixas do agente podem levar à tolerância. A natureza (proteica, lipídica etc.) influencia no processamento e reconhecimentopelos receptores celulares do sistema imune (como com as APC, células apresentadoras de antígenos). A via de entrada também influencia; existem alguns 17 agentes que, por via oral ou intravenosa, levam à tolerância, enquanto que por via intramuscular ou subcutânea geram imunidade (característica explorada na forma de ministrar algumas vacinas). A regulação pelos antígenos de superfície e a apropriada apresentação do antígeno para os linfócitos são essenciais para a proliferação e diferenciação dessas células imunitárias, caso contrário as células entram em anergia (não funcionais). A evolução do entendimento da sinalização e coestimulação das citocinas e do papel do MHC na resposta imune para seu estímulo e para sua regulação dentro da apresentação dos antígenos e em outros níveis, inibindo ou estimulando as diferentes células, por competição de sítios de ligação, estimula a apoptose celular ou estimula a morte induzida por células T citotóxicas. b. Regulação pelos anticorpos: anticorpos circulantes podem exercer atividade regulatória por competição pelo antígeno entre o anticorpo e o receptor de membrana de célula B, ou via regulação negativa de anticorpos. Com base nesses mecanismos de regulação, podem ser pensadas formas de uso terapêutico, como, por exemplo, anticorpos neutralizantes anti-Rh para a prevenção da eritroblastose fetal (doença hemolítica causada pela incompatibilidade do sistema Rh do sangue da mãe e do feto, que se manifesta quando a mãe é Rh negativa e o feto é Rh positivo). Outro mecanismo é a teoria da rede idiotípica imunológica, que postula que para cada clone de linfócito B se produza um clone de anticorpo contendo um idiotipo (consiste nas diferenças encontradas nas Ig na parte hipervariável das cadeias pesada e leve, que são próprias das moléculas de anticorpos pertencentes a um clone em particular) e anticorpos Anti-idiotipo, que regulariam a síntese de novas imunoglobulinas. Na clínica, anticorpos monoclonais anti-idiotipo têm sido utilizados com algum sucesso no tratamento de linfoma das células B e leucemias de células T. c. A regulação pelos linfócitos T e suas citocinas. As T reguladoras, conhecidas como Treg, podem ser divididas em 2 grupos: as Treg naturais e as Treg constitutivas, induzidas à periferia (Th 2 produtoras de IL10 – interleucina 10 citocina que contribui para a não produção de indução de tolerância gastrointestinal; Th 3 produtora de TGF-β – do inglês Transforming growth factor, ou fator de transformação de crescimento, 18 citocina que controla a proliferação, diferenciação e função celular como na ativação da NKT). Cada grupo de células T tem um perfil diverso na produção de citocinas, que as identifica além de funções efetoras; regulam negativamente o desenvolvimento de outras células T (o INFγ – interferon gamma – produzido pelo Th 1 pode atuar como regulador, inibindo o desenvolvimento do Th 2 célula T auxiliadora 2, do inglês helper T Cell). d. Fatores neuroendócrinos, idade e alimentação também interferem no sistema imunológico. O cortisol e glicocorticoides são potentes imunossupressores (estimulam citocinas do padrão Th 1, inibindo diversas funções do sistema imune). O estado nutricional influencia devido à necessidade de vários nutrientes específicos para sua apropriada maturação de alguns componentes (vitamina D participa da maturação das células dendríticas, e o ácido retinoico derivado da vitamina A participa da geração das células T reguladoras). e. Existem determinados polimorfismos que podem levar a uma maior ou menor susceptibilidade para algumas doenças. Como a associação encontrada entre alguns HLA e doenças autoimunes, como no caso de espondilite anquilosante (doença inflamatória crônica que afeta articulações do esqueleto axial, especialmente coluna, ombros, quadril e joelhos, sem causa conhecida) e HLA B27; e a artrite reumatoide e o HLA DR4. O sistema imune é um sistema complexo, que evolui constantemente para manter o equilíbrio entre a capacidade de gerar células T efetoras que consigam controlar a invasão dos patógenos e preservar a tolerância, e ainda guardar a memória para o caso de ter um reencontro com o mesmo patógeno. NA PRÁTICA Leia o seguinte artigo seguinte e elabore um quadro comparando dos mecanismos de resposta imune para as infecções mencionadas: MACHADO, P. R. L et al. Mecanismos de resposta imune às infecções. Rev. Bras Dermatol. Rio de Janeiro, n. 79, v. 6, 2004, p. 647-664. Disponível em: . Acesso em: 11 out. 2019. 19 Leia o seguinte artigo e elabore um roteiro escolhendo uma das respostas imunes, tendo como exemplo o lido no artigo: ALVES, K. T. et al. O uso de história em quadrinhos no ensino de imunologia para educação básica de nível médio. Revista Inter Ação. n. 41, 2006. Disponível em: . Acesso em: 11 out. 2019. a. Pesquise sobre o sistema do complemento e sua colaboração na resposta imune e na inflamação; b. Pesquise a diferença entre a célula NK e a célula NKT e seu papel na imunidade e na doença; c. Pesquise as diferenças entre os receptores de membrana da célula B e célula T. Leituras complementares ALVES, C. et al. O papel do complexo principal de histocompatibilidade na fisiologia da gravidez e na patogênese de complicações obstétricas. Disponível em: . Acesso em: 11 out. 2019. FERNANDES, A. P. M. et al. Como entender a associação entre HLA e doenças autoimunes. Disponível em: Acesso em: 11 out. 2019. FORTES, M. R. P. et al. Imunologia da paracoccidioidomicose. Disponível em: . Acesso em: 11 out. 2019. Vídeos Assista aos seguintes vídeos: HOW DOES your immune system work? - Emma Bryce. TED-Ed, 8 jan. 2018. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2019. THE IMMUNE System Explained I – Bacteria Infection. Kurzgesagt – In a Nutshell, [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2019. IMMUNE System: Innate and Adaptive Immunity Explained. Science ABC, 26 jul. 2018. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2019. https://www.researchgate.net/publication/312277502_O_USO_DE_HISTORIA_EM_QUADRINHOS_NO_ENSINO_DE_IMUNOLOGIA_PARA_EDUCACAO_BASICA_DE_NIVEL_MEDIO https://www.researchgate.net/publication/312277502_O_USO_DE_HISTORIA_EM_QUADRINHOS_NO_ENSINO_DE_IMUNOLOGIA_PARA_EDUCACAO_BASICA_DE_NIVEL_MEDIO https://www.researchgate.net/publication/312277502_O_USO_DE_HISTORIA_EM_QUADRINHOS_NO_ENSINO_DE_IMUNOLOGIA_PARA_EDUCACAO_BASICA_DE_NIVEL_MEDIO http://www.scielo.br/pdf/rbsmi/v7n4/a02v7n4.pdf http://www.scielo.br/pdf/abem/v47n5/a15v47n5.pdf http://www.scielo.br/pdf/abd/v86n3/v86n3a14.pdf 20 COMO os parasitas alteram o comportamento de seus hospedeiros - Jaap de Roode. TED-Ed, 9 mar. 2015. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2019. ANTIBODIES and bacteria. Fernsalini, [S.d.]. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2019. CELLS At Work : Best Moments Episode 8 "Blood Circulation". Vedrai: Hataraku Saibou, 25 ago. 2018. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2019. FINALIZANDO Trabalhamos nesta aula os componentes do sistema imunológico, as respostas imunes, os anticorpos/imunoglobulinas, o complexo principal de histocompatibilidade (MHC), as reações antígeno-anticorpo e a regulação da resposta imune.