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MICROBIOLOGIA, IMUNOLOGIA E PARASITOLOGIA AULA 2 Prof.ª Catalina Yumi Masuda Nishi 2 2 CONVERSA INICIAL Desde o início da vida no planeta, o metabolismo microbiano tem sido um dos pilares no desenvolvimento e manutenção da biosfera. Os organismos procariontes têm a capacidade de metabolizar uma grande variedade de matéria orgânica e inorgânica, de moléculas complexas como celulose a moléculas inorgânicas e íons como o nitrogênio atmosférico (N2), íons de ferro, de manganês e enxofre, entre outros. Os microrganismos convertem moléculas variadas em compostos prejudiciais ou essenciais para a sobrevivência de outros organismos. O conhecimento das vias metabólicas dos microrganismos permite: o entendimento dos processos infecciosos; o desenvolvimento de métodos de diagnóstico e controle destes; a exploração econômica dos microrganismos e seus produtos; e o desenvolvimento de métodos de controle dos processos de deterioração de materiais. Nesta aula, abordaremos aspectos do metabolismo, nutrição, cultivo dos microrganismos e formas de controle através de diferentes métodos. Nosso objetivo geral é reconhecer aspectos da forma, estrutura, reprodução, fisiologia, metabolismo e identificação dos seres microscópicos, como vírus, bactérias e fungos, compreendendo suas relações recíprocas e com outros seres vivos, seus efeitos benéficos e prejudiciais sobre os homens, animais e plantas. Já nossos objetivos específicos serão identificar as relações entre a estrutura dos vírus, bactérias e fungos e seus respectivos metabolismos; reconhecer as práticas de culturas de bactérias e fungos para estudo em laboratório; identificar as principais técnicas de controle de microrganismos físicos e químicos; analisar os principais programas nacionais de controle de microrganismos; proceder à leitura de artigos sobre a ação de antibióticos e a relação do uso indiscriminado desses medicamentos com a resistência bacteriana. TEMA 1 – METABOLISMO MICROBIANO: ANABOLISMO E CATABOLISMO DE BACTÉRIAS, FUNGOS E VÍRUS Os organismos vivos são de certa forma máquinas químicas, e os processos celulares de manutenção e reprodução seguem uma série de reações químicas interconectadas denominadas de vias metabólicas. Basicamente, 3 3 existem dois tipos de vias metabólicas: aquelas envolvidas na liberação de energia ou exergônicas e na utilização de energia ou endergônicas. O anabolismo refere-se às vias endergônicas de biossíntese de moléculas complexas a partir de moléculas simples com consumo de energia, enquanto que o catabolismo se refere às vias exergônicas de quebra de moléculas complexas para moléculas simples com liberação de energia (Figura 1). Figura 1 – Resumo do Metabolismo A energia molecular armazenada nas ligações das moléculas complexas e liberada nas vias exergônicas é coletada em moléculas de alto poder energético, como o ATP (adenosina trifosfato), a principal moeda energética (Figura 2). 4 4 Figura 2 – Adenosina trifosfato ATP Crédito: Designua/Shutterstock. A energia armazenada é o combustível para as vias endergônicas. As células estão procurando constantemente um balance entre o anabolismo e o catabolismo. Sendo assim, os mecanismos de obtenção de energia são os mesmos processos de síntese de ATP, o que ocorre pela fosforilação (processo de adição de um grupo fosfato num composto) do ADP (adenosina difosfato). A fosforilação pode ocorrer: • por fosforilação em nível de substrato: adição do fosfato direto de molécula a molécula; • por fosforilação oxidativa: a energia da oxidação de nutrientes, usada para síntese do ATP, ou por meio de reações de oxidação e redução de moléculas receptoras e doadoras de forma sequencial chamada sistema de transporte de elétrons; • por fotofosforilação: energia da luz para a síntese de ATP, como mostrado nas figuras 3, 4 e 5. 5 5 Figura 3 – Fosforilação a nível de substrato Fonte: DownHouseSoftware, 2013. Figura 4 – Fosforilação oxidativa Crédito: Vector Mine/Shutterstock. 6 6 Figura 5 – Fosforilação não cíclica Crédito: Jefferson Schnaider. As células requerem energia para: (1) biossíntese das partes estruturais (parede, membrana e apêndices externos); (2) síntese de enzimas, ácidos nucleicos, polissacarídeos, fosfolipídios e outros; (3) reparo de danos e manutenção da célula; (4) crescimento e multiplicação; (5) armazenamento de nutrientes e excreção de produtos de descarte; (6) mobilidade (nos procariontes, a rotação do flagelo é conduzida pela energia da força próton-motiva pela passagem de prótons através da membrana citoplasmática; nos eucariontes, os cílios e flagelos realizam um movimento vibratório complexo que requer ATP). De todos os organismos vivos, os microrganismos procariontes são os mais versáteis e diversificados em suas exigências nutricionais e vias metabólicas. Todos os organismos vivos requerem fontes carbono e de energia e podem ser classificados de acordo com as fontes utilizadas. Segundo a fonte de energia, podem ser classificados em: fototróficos, que obtém energia pela transferência de elétrons da luz; e quimiotróficos, que obtém energia pela transferência de elétrons da quebra de ligações químicas, podendo ser organotróficos (de compostos orgânicos) e litotróficos (de compostos inorgânicos como o sulfeto de hidrogênio e ferro reduzido, característica exclusiva dos microrganismos). De acordo com a fonte de carbono, os organismos são classificados em: autotróficos, com capacidade de converter moléculas de carbono inorgânico 7 7 (dióxido de carbono – CO2; bicarbonato – HCO3; e outros carbonatos – CO3) em compostos orgânicos complexos (bactérias púrpuras, verdes, cianobactérias, algas, plantas); e em heterotróficos, que utilizam compostos orgânicos previamente produzidos pelos organismos autotróficos. Este grupo inclui a maioria dos organismos procariontes e eucariontes. A classificação em tipos nutricionais combinando as duas fontes resulta em organismos quimioautotróficos ou litoautotróficos, quimio-heterotróficos, fotoautotróficos e foto-heterotróficos. Os organismos podem obter a energia: • pela respiração, via oxidação aeróbia de carboidratos ou de outros compostos orgânicos diferentes; • pela oxidação aeróbia de compostos inorgânicos; • pela respiração anaeróbica; • pela fermentação (oxidação anaeróbia) de carboidratos ou aminoácidos; • pela fotossíntese (oxigênica e não oxigênica). Para a maioria dos eucariontes e procariontes, o catabolismo de carboidratos é sua fonte primária de energia, sendo a glicose a fonte mais comumente utilizada. A respiração consiste em três etapas: (1) a glicólise é feita pela via metabólica de Embdem-Meyerhof-Parnas (EMP), oxidação da glicose em ácido pirúvico, no entanto, alguns procariontes usam uma via a alternativa chamada via Entner-Douforoff (ED), e para outros, como a bactéria oportunista Pseudomonas aeruginosa a via metabólica ED é sua única via de glicólise (característica utilizada para identificação); (2) ciclo do ácido tricarboxílico (Ciclo de Krebs), em que a energia armazenada em Acetil – CoA (acetil coenzima A) é liberada através de uma série de reações de oxidorredução com transferência de elétrons a coenzimas transportadoras; (3) cadeia de transporte de elétrons, pela transferência de forma sequencial com liberação gradual de energia utilizada para geração de ATP. A maioria da energia em ATP resulta por fosforilação oxidativa durante a respiração celular (figuras 6 e 7). 8 8 Figura 6 – Catabolismo da glicose pelas vias Embdem-Meyerhof-Parnas (EMP) e Entner-Douforoff (ED) Crédito: Jefferson Schnaider. 9 9 Figura 7 – Respiração aeróbica Crédito: vector Mine/Shutterstock. A cadeia de transporte de elétrons ocorrena parede interna da membrana citoplasmática nos procariontes ou nos complexos de proteína especializados da membrana interna das mitocôndrias nos eucariontes. Na respiração aeróbica, a célula usa o oxigênio como aceptor final dos elétrons. Os organismos anaeróbicos usam um sistema de transporte de elétrons alternativo com aceptor final dos elétrons inorgânico (NO3, NO2-, SO4, Fe3) ou orgânico (fumarato). A variação na composição do sistema de transporte de elétrons dos microrganismos pode servir para o diagnóstico e identificação de alguns patógenos. As vias que catabolizam outros compostos, como lipídios e proteínas, eventualmente se conectam com a via glicolítica. Os microrganismos produzem lipases e fosfolipases, que além de degradar vários tipos de lipídios e fosfolipídios, atuam como fatores de virulência em certos patógenos. A degradação das proteínas envolve as proteases para quebrar a proteína em pequenos peptídeos. Estas proteases, como a gelatinase e caseinase, são usadas para diferenciar bactérias clinicamente relevantes (Figura 8). 10 10 Figura 8 – Resumo do metabolismo: produção da energia Na ausência de oxigênio, muitos microrganismos conseguem oxidar diferentes compostos através da fermentação. Esta oxidação é incompleta, resultando na produção de diferentes substâncias e pouca energia. A possibilidade de oxidação destes subprodutos é o que permite a utilização de alguns deles como combustível. Na fermentação de carboidratos, a degradação 11 11 do substrato normalmente é realizada pela via glicolítica até o piruvato com participação de coenzimas transportadoras que são reoxidadas para o piruvato ou compostos dele derivados. Os compostos resultantes definem o tipo de fermentação, característica utilizada para identificação dos microrganismos. Os principais tipos de fermentação são: (1) fermentação láctica (ácido láctico), podendo ser homoláctica, característica dos Streptococcus e Lactobacillus e Bacillus, ou heteroláctica (lactato, etanol, CO2 e acetato), típica do Leuconostoc; (2) fermentação alcoólica (etanol e CO2), característica da levedura Saccharomyces cerevisiae; (3) fermentação propriônica (ácido propiônico, ácido acético, CO2 e H2), Proprionibacterium e Veionella; (4) fermentação butírica: butanol (ácido butírico, butanol, isopropanol, acetona e CO2), Clostridium; (5) fermentação butileno-glicólica (butanodiol e CO2), Klebsiella, Enterobacter; (6) fermentação ácido-mista (ácido acético, ácido succínico, etanol, CO2 e H2), Escherichia, Salmonella. A fermentação microbiana tem sido amplamente explorada industrialmente na produção de alimentos, bebidas alcoólicas, solventes e substâncias farmacêuticas. Os microrganismos podem ser diferenciados pelo tipo de fermentação e pelos substratos que pode utilizar (Figura 9). Figura 9 – Fermentação de carboidratos e seus produtos Créditos: Maraze; Stokkete; Duangnapa Kanchanasakun / Shutterstock. 12 12 Os organismos fotoautotróficos convertem a energia radiante em energia química via fotossíntese, utilizando esta energia para produzir compostos orgânicos a partir do CO2. A fotossíntese microbiana também contribui como fornecedor desta energia e fontes de carbono em diversos ecossistemas. Nos procariontes, na falta de organelas membranosas, os pigmentos fotossintetizantes se encontram em dobras internas da membrana citoplasmática. Os pigmentos fotossintetizantes estão organizados em fotossistemas, em que absorvem a luz excitando os elétrons de moléculas, que depois geram a energia para produzir ATP. Cada pigmento fotossintetizante absorve a luz visível em comprimento de onda específico. Por exemplo, bacterioclorofila (verde, púrpura ou vermelha), carotenoides (laranja, vermelha ou amarela), clorofila (verde), ficocianinas (azul). As bactérias fotossintetizantes utilizam diferentes misturas de pigmentos, para incrementar a absorção da luz nos ambientes competitivos (Figura 10). Figura 10 – Fotossíntese (a) Esquema com os fotossistemas I e II inseridos na membrana tilacoide; (b) Esquema mostrando a fotossíntese cíclica e não cíclica O entendimento do metabolismo microbiano tem auxiliado na identificação de microrganismos patogênicos, no entendimento da reciclagem dos elementos na natureza, na utilização em benefício do homem — como na agricultura, reduzindo a utilização de adubos químicos, agrotóxicos no controle de pragas e na biorremediação para remover ou degradar compostos xenobióticos, contaminantes e poluentes. TEMA 2 – CULTURA DE BACTÉRIAS E FUNGOS As bactérias e fungos necessitam de nutrientes e ambiente propício para seu desenvolvimento. O crescimento bacteriano refere-se a um aumento no 13 13 número de organismos, e não ao tamanho. Como vimos nas aulas anteriores, as bactérias se dividem por fissão binária com crescimento exponencial, resultando em colônias (massa de células bacterianas teoricamente originadas do crescimento de uma única célula UFC – unidade formadora de colônia). O cultivo dos microrganismos foi fundamental para seu estudo e identificação, como vimos na breve história da microbiologia. A condição principal para o cultivo é o fornecimento dos fatores ambientais químicos (nutrientes como fontes de carbono, nitrogênio, enxofre e fósforo, micronutrientes e fatores de crescimento) e físicos (temperatura, pH, pressão osmótica e atmosfera gasosa). A temperatura determina a velocidade das reações metabólicas bacterianas e influencia a absorção de nutrientes. De acordo com a temperatura ótima de crescimento, os microrganismos são classificados em: (1) Psicrófilas: entre 5º e 17º, como Pseudomonas, Flavobacterium e Alcaligenes, que são microrganismos que deterioram alimentos estocados por períodos prolongados; (2) Mesófilas: entre 28º e 40º, a maioria dos microrganismos; (3) Termófilas: entre 45º e 70º, Bacillus stearothermophilus; (4) Termófilas extremas: entre 70º e 110º, Thermococcus celer e outras archaeas (Figura 11). Figura 11 – Classificação dos microrganismos de acordo com a temperatura ótima de crescimento Segundo a necessidade do oxigênio, os microrganismos se classificam em: (1) Aeróbios estritos: há necessidade absoluta do oxigênio, como Pseudomonas aeruginosa, gênero Mycobacterium e Legionella. Em culturas 14 14 artificiais, em meios líquidos, deve-se agitar o meio para aumentar o suplemento de O2 dissolvido; (2) Microaerófilos: requerem baixa concentração do O2 em 2 a 10%, como os gêneros Neisseria, Campylobacter, Azospirillum, Vibrio e Helicobacter; (3) Anaeróbios facultativos: desenvolvem-se na presença e ausência do O2. Obtém a energia pela respiração aeróbia na presença do O2 e por fermentação ou respiração anaeróbia na sua ausência, como os membros da família Enterobacteriaceae, E. coli; (4) Anaeróbios aerotolerantes: não utilizam o O2 como aceptor final de elétrons e neutralizam os efeitos nocivos do O2 pela superóxido dismutase, como o Streptococcus faecalis e os Lactobacillus. (5) Anaeróbios estritos: a presença do O2 é letal. A energia é obtida por fermentação, pela respiração anaeróbia ou pela fotossíntese bacteriana pelo processo de metanogenese como os gêneros Clostridium, Methanobacterium. Podemos observar os diferentes grupos cultivando as bactérias em tubos com meio líquido de tioglicolato (Figura 12). Figura 12 – Classificação dos microrganismos de acordo com a necessidade de oxigênio Crédito: V.iann/Shutterstock. Outros fatores, como o PH, dividem em três grandes grupos: (1) acidófilas, entre 1,8 e 5; (2) neutrófilas, entre 5 e 9; (3) alcalófilas: entre 9 e 11. Segundo a pressão osmótica, existem: (1) não halofílicas: as bactérias que vivem nas concentrações habituais de rios e lagos, geralmente com concentrações 15 15 menores que 0,05%, como E. coli; (2) halofílicas: as que se desenvolvemem concentrações salinas maiores que 0,5%, como as marinas adaptadas a concentrações em torno de 3,5%, como Vibrio fischeri; (3) halotolerantes: bactérias que toleram concentrações de até 6%, como o Staphilococcus aureus; (4) halofílicas extremas: espécies pertencentes às Archaeas, que se desenvolvem em concentrações de 30%, como Halobacterium salanarium. A luz é um fator essencial para as bactérias fotossintetizantes, mas para algumas espécies pode inibir o crescimento (Figura 13). Figura 13 – Classificação do crescimento de microrganismos segundo o fator pH Os meios de cultura contêm os nutrientes e os parâmetros físicos necessários ao crescimento dos microrganismos. Apesar dos esforços, ainda existem microrganismos não cultiváveis até o momento, como Mycobacterium leprae (hanseníase), Chlamydia, Rikectsia e o Treponema pallidum (sífilis). Os meios de cultura são utilizados para estúdio, diagnóstico e produção industrial do microrganismo ou dos produtos do metabolismo do microrganismo. De acordo com a composição, encontramos os meios quimicamente definidos (composição química exata é conhecida) e meios complexos (composição química é exata não conhecida). Os meios de cultura podem ser classificados pela sua consistência em: (1) sólidos: contendo um agente solidificador inerte como o ágar, fornecem um suporte físico para o crescimento em colônias ideal para isolamento e observação das características coloniais; (2) semissólidos: a concentração do ágar é menor a 0,5% e sua consistência suave 16 16 os faz úteis para os microrganismos microaerofílicos, bem como para observar a mobilidade; (3) líquidos: têm ausência de agentes gelificantes e os caldos nutrientes são úteis na propagação e crescimento em grande número, estudos de fermentação e vários testes de identificação (Figura 14). Figura 14 – Classificação dos meios de cultura pela sua consistência: (a) sólido; (b) semissólido; (c) líquido (a) (b) (c) Crédito: iTENG; MyFavoriteTime; NonSitth/Shutterstock. De acordo com a função e aplicação, os meios podem ser: (1) de uso geral: crescem os microrganismos não exigentes como o caldo e ágar nutriente (peptona, água extratos de carne e levedura e minerais); (2) enriquecidos: contêm um suprimento de nutrientes especiais (sangue, gema de ovo, soros) utilizados como crescimento para microrganismos exigentes como Haemophilus, Neisseria; (3) seletivos: favorecem o crescimento do microrganismo de interesse e impedem o crescimento de outros de uma mistura (qualquer meio pode se deixar seletivo adicionando substâncias inibidoras como antibióticos, corantes indicadores, alterações do pH ou combinações dos mesmos), como ágar Thayer Martim, que tem antibióticos para selecionar a Neisseria gonorrhoeae, ágar Lowenstein Jensen para o M. tuberculosis, ágar sal-manitol com 10% de NaCl para o S. aureus; (4) diferenciais facilitam a identificação do microrganismo de interesse e permitem o crescimento de mais de um grupo, mas as colônias são morfologicamente distinguíveis, como ágar sal-manitol (fermentadores do manitol em amarelo), ágar sangue (padrão de hemólise α, β, γ), ágar Mac Conkey (fermentadoras de lactose em pink), ágar tiossulfato-citrato-bile-sucrose (Vibrio cholerae, colônias em amarelo, fermentação da sucrose); (5) meios de transporte (para evitar a contaminação e dessecação da amostra); (6) meios anaeróbicos com substâncias que reduzam o O2, como o tioglicolato de sódio e oxirase; (7) meios para testes de identificação bioquímica, para teste de 17 17 susceptibilidade antimicrobiana. As estufas e jarras de anaerobiose fornecem a temperatura ótima e o ambiente gasosos necessário. TEMA 3 – CONTROLE DE MICRORGANISMOS: MÉTODOS FÍSICOS E QUÍMICOS Vários agentes físicos e químicos podem ser utilizados para manter os microrganismos em níveis aceitáveis. O controle de certos microrganismos é importante para prevenir e controlar doenças infecciosas nos homens, animais e plantas; para preservar os alimentos; para impedir que micróbios contaminantes interfiram em processos industriais; e para impedir a contaminação de culturas puras. Na microbiologia, a esterilização se refere à completa destruição de todos os organismos vivos de um objeto ou material, um processo absoluto. A desinfecção é a destruição ou remoção de microrganismos infecciosos ou nocivos de objetos sem vida por métodos físicos e químicos que reduzem ou inibem o crescimento. Os agentes microbicidas matam os microrganismos sem necessariamente esterilizá-los; os agentes microbiostáticos se referem aos agentes que inibem o crescimento e a reprodução. As condições que influenciam na atividade antimicrobiana são: tamanho da população microbiana; intensidade ou concentração do agente microbicida; o tempo de exposição ao agente microbicida; a temperatura de exposição; a natureza do material; as características dos microrganismos. O modo de ação dos agentes antimicrobianos físicos e químicos visa atacar estruturas específicas: (1) parede celular, fragilizando-a e levando à lise (alguns antibióticos, detergentes e álcoois); (2) membrana citoplasmática, levando à perda da integridade da membrana (detergentes e surfactantes); (3) processos de biossíntese celular (DNA e RNA), na prevenção da replicação, transcrição (algumas drogas antimicrobianas, radiação, óxido de etileno, formaldeído); (4) proteínas, interferindo nos ribossomos e prevenindo o processo de translação, denaturação e quebra (álcoois, fenóis, ácidos e calor). 3.1 Agentes físicos O calor é o método mais prático, eficiente e barato de desinfecção e esterilização de objetos inanimados e materiais que podem ser submetidos a 18 18 altas temperaturas. A temperatura e o tempo de exposição determinam a eficiência para a esterilização. Os microrganismos morrem pela denaturação de proteínas no calor úmido e oxidação no calor seco. Dentro do calor úmido, encontram-se: • a fervura (100 ºC): desinfecção; • calor úmido sob pressão (autoclaves): 121 ºC à pressão de 15 lb/pol² (1 atm) esterilização; • pasteurização (72 ºC em 15 minutos, superaquecer 140 ºC por 5 segundos e resfriar imediatamente): destrói os microrganismos patogênicos, reduz o número, não é esterilização. No calor seco, temos: a flambagem e a incineração. Em fornos, consegue- se a esterilização a 160 ºC por duas horas. O efeito das radiações depende do comprimento de onda, da intensidade e duração. Há dois tipos de radiações empregados no controle: os ionizantes (raios γ, x e β) formam superóxidos que reagem com o DNA, esterilização; e não ionizantes (raios ultravioleta atuam provocando mutações no DNA). A dessecação é utilizada para preservação dos microrganismos via liofilização. Na preservação de alimentos, explora-se a pressão osmótica do ambiente hipertónico com concentrações altas de sal ou açúcar. São utilizados também controle por filtração, por ondas ultrassônicas, baixas temperaturas. 3.2 Agentes químicos Há centenas de produtos químicos diferentes disponíveis para o controle do crescimento microbiano. As principais substâncias utilizadas para desinfecção ou antissepsia são divididas em vários níveis: • alto nível germicida: destrói até endósporos pode ser esterilizante; • nível intermediário: destrói esporos de fungos, mas não endósporos; • baixo nível: destrói somente formas vegetativas bacterianas e fúngicas. Fenol e compostos fenólicos atuam lesando as células microbianas pela alteração da permeabilidade seletiva da membrana citoplasmática, de denaturação de proteínas; álcoois para formas vegetativas, sua capacidade bactericida aumenta quanto maior for sua cadeia de carbono, e o mecanismo de ação deve-se à capacidade de desnaturar proteínas, solvente de lipídiose ação 19 19 detergente; halogênios, compostos altamente oxidantes e reativos destroem componentes vitais da célula microbiana (iodo e cloro); metais pesados e seus compostos inativam proteínas (mercúrio cromo, nitrato de prata – AgNO3, sulfato de cobre – CuSO4); detergentes compostos que diminuem a tensão superficial e ajudam na remoção mecânica dos microrganismos; agentes oxidantes, como a água oxigenada; gases e aerossóis como óxido de etileno e óxido de propileno (agentes alquilantes do DNA) esterilizantes químicos. TEMA 4 – PROGRAMA NACIONAL DE CONTROLE DE MICRORGANISMOS O aumento progressivo dos microrganismos multirresistentes nas últimas décadas mostra-se como uma ameaça à saúde pública do Brasil e do mundo. O problema decorre de mutações dos microrganismos, do compartilhamento de material genético (plasmídeos) entre os microrganismos e do uso indiscriminado e inadequado dos antimicrobianos tanto na saúde humana e animal. Como nos hospitais e centros de saúde o uso dos antimicrobianos é alto, os microrganismos multirresistentes apareceram nos hospitais. Visando ao controle de infecções hospitalares, criaram-se nos hospitais comissões de controle de infecção. A variada metodologia utilizada levou à produção do Manual de Procedimentos Básicos em Microbiologia Clínica para o Controle de Infecção Hospitalar1, unificado por parte do Ministério de Saúde. Após a unificação dos procedimentos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) elaborou o Plano Nacional para Prevenção e Controle da Resistência Microbiana nos Serviços de Saúde2, para uma conscientização do problema emergente. Preocupada com o aumento de multirresistência que ameaça a saúde pública mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS), junto a outros setores das Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e da Organização Mundial da Saúde Animal (OIE), criou objetivos definidos para a prevenção e controle destes microrganismos, que serviram como base para a elaboração do Plano de Ação Nacional para Prevenção e Controle da 1 Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2020. 2 Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2020. 20 20 Resistência aos. Antimicrobianos do Brasil (PAN-BR)3. O projeto teve também a participação da Anvisa e dos ministérios da Saúde, Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Cidades, de Educação e Cultura, Ciência, Tecnologia e Inovação em Comunicação e do Meio Ambiente. Espera-se com este plano evitar ou desacelerar o avanço da multirresistência. TEMA 5 – ARTIGOS CIENTÍFICOS SOBRE A AÇÃO DE ANTIBIÓTICOS E AS BACTÉRIAS RESISTENTES A leitura dos seguintes artigos complementa o entendimento da multirresistência, levando a uma reflexão para conscientização em todos os níveis da sociedade e ajudando no uso de práticas para desacelerar o avanço da resistência. • “A resistência aos antibióticos e as superbactérias”. Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2020. • Folha informativa - Resistência aos antibióticos. Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2020. • “Resistencia a los antimicrobianos”. Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2020. NA PRÁTICA • Pesquise os microrganismos participantes dos ciclos biogeoquímicos e sua aplicação para nosso benefício. • Pesquise sobre biorremediação e reflita sobre sua aplicabilidade nos desastres ambientais. Para isso, leia o artigo “Microrganismos como alternativa sustentável”. Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2020. 3 Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2020. 21 21 • Pesquise sobre os biofilmes: reflita sobre estas comunidades microbianas mistas e como podem contribuir na resistência a antimicrobianos. • Com base no artigo “Microrganismos: nossas fábricas microscópicas”, reflita sua viabilidade utilizando os conhecimentos adquiridos na aula. Disponível em: . Acesso em: 31 mar. 2020. • Pesquise quais são os meios de cultura utilizados na identificação bioquímica de bactérias e fungos. • Identifique quais medidas de controle do crescimento microbiano você utiliza no seu dia a dia. • Pesquise a utilização de microrganismos no controle biológico de pragas como uma alternativa ao uso de agrotóxicos. FINALIZANDO Nesta aula, trabalhamos os aspectos do metabolismo microbiano, a classificação de acordo com as fontes de energia e carbono, os fatores químicos e físicos que influenciam no crescimento microbiano e sua classificação segundo o comportamento frente aos fatores ambientais. Vimos os meios de cultura utilizados para isolamento e identificação, bem como o controle do crescimento por métodos químicos e físicos. Também conhecemos os planos de ação nacionais contra o avanço dos microrganismos multirresistentes e refletimos e analisamos artigos sobre o tema. 22 22 REFERÊNCIAS AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Plano Nacional para Prevenção e Controle da Resistência Microbiana nos Serviços de Saúde. 15 maio 2017. Disponível em: . Acesso em: 29 maio 2019. BLACK, J. G. Microbiology: principles and explorations. Jonh Wiley & Sons, Inc., 2002. COMCIÊNCIA. A resistência a antibióticos e as superbactérias. jun. 2018. Disponível em: . Acesso em: 12 jun. 2019. MAZA, L. M.; PEZZLO, M. T; BARON, E. J. Atlas de diagnóstico em microbiologia. Artmed 1999. MADIGAN, M. T.; MARTINKO, J. M.; PARKER, J. Brok's Biology of Microorganisms. 9. ed. Prentice Hall, 1999. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Plano de Ação Nacional para Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos no Âmbito da Saúde Única. 2018. Disponível em: . Acesso em: 29 maio 2019. PERRY, J. J.; STANLEY, J. T.; LORY, S. Microbial Life. Sinauer Associates Publishers. 2002. TORTORA, G. J.; FUNKE, B. R.; CASE, C. L. Microbiologia. Artmed, 2000. WHO. Antimicrobial Resistance. 15 fev. 2018. Disponível em: . Acesso em: 14 jun. 2019. _____. Antibiotic Resistance. 5 fev. 2018. Disponível em: . Acesso em: 14 jun. 2019. CONVERSA INICIAL TEMA 1 – METABOLISMO MICROBIANO: ANABOLISMO E CATABOLISMO DE BACTÉRIAS, FUNGOS E VÍRUS TEMA 2 – CULTURA DE BACTÉRIAS E FUNGOS TEMA 3 – CONTROLE DE MICRORGANISMOS: MÉTODOS FÍSICOS E QUÍMICOS 3.1 Agentes físicos 3.2 Agentes químicos TEMA 4 – PROGRAMA NACIONAL DE CONTROLE DE MICRORGANISMOS TEMA 5 – ARTIGOS CIENTÍFICOS SOBRE A AÇÃO DE ANTIBIÓTICOS E AS BACTÉRIAS RESISTENTES NA PRÁTICA FINALIZANDO REFERÊNCIAS