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MICROBIOLOGIA, IMUNOLOGIA E PARASITOLOGIA AULA 6 Prof.ª Catalina Yumi Masuda Nishi 2 CONVERSA INICIAL Vacinas e soros As vacinas e soros deram início e continuam dando o incentivo contínuo para o desenvolvimento de métodos para identificar, diagnosticar e tratar as inúmeras doenças que surgem e ressurgem. A história da microbiologia, parasitologia e imunologia está interligada, pois a identificação da etiologia das doenças e a procura por tratamento e prevenção levaram ao desenvolvimento das vacinas e soros, que por sua vez contribuíram para o entendimento das características desses agentes e os mecanismos de defesa, levando a novos campos de estudos. Os trabalhos dos pioneiros das ciências mostram a trajetória da humanidade, a qual foi gerando conhecimento e estimulando o pensamento crítico, aprimorando-se para melhorar a qualidade de vida. Nesta aula abordaremos alguns aspectos históricos do desenvolvimento de vacinas e soros no mundo e no Brasil, assim como seus mecanismos de ação, suas aplicações em diferentes campos e sua contribuição para as políticas em saúde pública. • Objetivo geral: compreender a resposta do sistema imune às vacinas e aos soros. • Objetivos específicos: descrever a história do desenvolvimento das pesquisas com vacinas e soros e sua importância para a saúde pública; diferenciar a ação das vacinas e soros no organismo, bem como quando são utilizados; identificar os principais animais peçonhentos da realidade brasileira e aqueles que são utilizados para fabricação de soros; reconhecer como ocorre a produção em larga escala para fabricação de vacinas e soros na atualidade; pesquisar as principais políticas públicas de imunização da população brasileira. TEMA 1 – HISTÓRIA DO DESENVOLVIMENTO DE VACINAS E SOROS NO MUNDO E NO BRASIL O início da vacinação, definida como o uso de parte ou todo o microrganismo patogênico para proteção contra o microrganismo, vem da Antiguidade, mesmo que tenha sido atribuída a Edward Jenner em 1796, quando vacinou uma criança de oito anos usando o vírus da varíola bovina. O conceito 3 de vacinação provavelmente originou-se no pensamento homeopático sobre o uso de pequenas doses da doença como proteção contra o desenvolvimento de formas mais severas, fato empiricamente verificado pela ingestão de pequenas doses de veneno para prevenir um envenenamento fatal intencional vindo do rival. A descoberta do uso do vírus da varíola bovina certamente mostrou eficácia, e essa inovação não somente levou à erradicação da varíola no século XX, mas também mostrou a possibilidade de conferir proteção contra as doenças infectocontagiosas intencionalmente. A história da vacinação como empreendimento começa com Louis Pasteur e suas observações nas culturas do microrganismo que causa a cólera das galinhas (Pasteurella multocida), que o levaram a formular a hipótese de que os patógenos poderiam ser atenuados por exposição a efeitos ambientais estressantes — hipótese que confirmou com o desenvolvimento das vacinas contra o antraz e a raiva. Em 1801, Benjamin Waterhouse, médico, cofundador e presidente da escola de medicina de Harvard, começa a usar a vacina da varíola bovina, levando o estado de Massachusetts a ser o primeiro dos Estados Unidos a promover a vacinação. Os outros estados foram aderindo à prática da imunização nos anos seguintes. Leis de imunização compulsória foram criadas, e em resposta, sociedades antivacinação foram criadas. E assim foi iniciada a busca por estratégias para desenvolver vacinas vivas. No século seguinte, Calmette e Guérin usaram a passagem em meios artificiais para atenuar o Mycobacterium bovis (BCG), e Theiler utilizou passagem em camundongos e ovos embrionados para atenuar o vírus da febre amarela. Ao mesmo tempo, o conceito de anticorpo e resposta imune celular desenvolveu-se a partir dos trabalhos de Paul Ehrlich e Ilya Metchnikoff, e a imunologia começou a explicar os mecanismos de defesa com suas duas frentes: imunidade natural, ou inata, e a adaptativa. A soroterapia, descoberta em 1890 por von Behring e Kitasato, com seus estudos da difteria e tétano, e as antitoxinas foram produzidas para tratamento e prevenção dessas doenças, contudo, a prevenção conferida pelo soro tinha curta duração, e em 1920 conseguiu-se a proteção com as toxinas modificadas (toxoide). A vacina segura, utilizada até hoje, foi desenvolvida: a DPT (Difteria, Pertusis – coqueluche – e Tétano). Na metade do século XX, a cultura celular foi adaptada para a cultura de vírus, permitindo o crescimento de vírus e a produção de vacinas. Com o desenvolvimento das técnicas moleculares, novos caminhos 4 e perspectivas para a produção de vacinas e soros vão surgindo, como mostrado no Quadro 1. Quadro 1 – Desenvolvimento das vacinas humanas Microrganismos vivos Atenuados Microrganismos mortos inteiros Proteínas ou Polissacarídeos Purificados Desenvolvidas por engenharia genética Século XVIII Varíola (1798) Século XIX Raiva (1885) Febre Tifoide (1896) Cólera (1896) Peste bubônica (1897) Século XX, primeira metade Tuberculosis BCG (bacille Calmette- Guérin) (1927) Pertussis ou Coqueluche (1926) Toxoide diftérico – Difteria (1923) Febre Amarela (1935) Influenza – Gripe (1936) Toxoide Tetânico – Tétanus (1926) Rickettsioses – Tifus e Febre Maculosa (1938) Século XX, segunda metade Polio (oral) (1963) Polio (injetado) (1955) Proteínas secretadas pelo Bacillus anthracis – Antrax (1970) Hepatitis B – Antígeno de superfície recombinante (1986) Sarampo (1963) Raiva (cell culture) (1980) Meningite – Polissacarídeo do Meningococcus (1974) Lyme OspA (1998) Caxumba- Parotidite (1967) Encefalite japonesa (cultura em cérebro de camundongo) (1992) Polissacarídeo do Pneumococcus (1977) Colera - toxina B recombinante (1993) Rubéola (1969) Encefalite transmitida por carrapato encephalitis (1981) Polissacarídeo do Haemophilus influenzae type B (1985) Adenovirus (1980) Hepatitis A (1996) H.influenzae type b conjugada (1987) (continua) 5 (continuação do Quadro 1) Febre tifoide (Salmonella TY21a) (1989) Cólera (WC-rBS) Células inteiras de V. cholerae mortas em combinação com a toxina subunidade B recombinante (1991) Polissacarídeo capsular da Salmonella Vi (1994) Varicella – Catapora (1995) Vacina Meningococcica conjugada (group C) (1999) Vacina acelular contra Pertusis. Acellular pertussis (1996) Rotavírus com rearranjos em seu genoma (1999) Hepatitis B (com derivados plasmáticos) (1981) Cólera – atenuada (1994) Influenza adaptada ao frio, intranasal (1999) Século XXI Rotavírus (vacina atenuada com novos rearranjos genéticos) (2006) Encefalite japonesa cultivada em células Vero (2009) (Vero cell) Conjugado Pneumocócico (Heptavalente)* (2000) Papilomavirus humano recombinante HPV (quadrivalente) (2006) Varicella – Zoster vivos atenuados (2006) Cólera (WC only- do inglês Whole Cell ou vacina somente com a célula inteira ) (2009) Conjugado Pneumocócico (Heptavalente)* (2000) Papilomavirus humano recombinante HPV (bivlente) (2009) Conjugado Pneumocócico * (13- valent) (2010) Proteínas Meningocócicas do grupo B (2013) *Polissacarídeo capsular conjugado a proteínas carregadoras. Fonte: elaborado com base em Plotkin, 2014. A introdução da vacina no Brasil remonta a 1804. Em 1811 foi criada a junta vacínica da corte, mas a primeira legislação de obrigatoriedade surgiu em 1832. Em 1846, foi criado o Instituto Vacínico do Império a partir da junta vacínica. Várias epidemias de varíola se instalaram no país. Após a instauração da República,uma das suas metas era a modernização do país e seu ingresso no mundo civilizado. Nesse tempo, o comércio internacional, a imigração, as vidas econômicas e sociais eram paralisadas pelas epidemias da varíola, febre amarela e peste bubônica, e as primeiras tentativas para mudar foi uma reforma urbana acompanhada de campanhas sanitárias contra essas doenças. Por volta do final do século XIX e início do XX, o Instituto Soroterápico Federal em 1900 6 foi a primeira instituição a produzir soro no Brasil, com Oswaldo Cruz na sua direção geral. Além do Instituto Soroterápico Federal no Rio de Janeiro (incorporado posteriormente ao instituto Manguinhos, atual FIOCRUZ), em São Paulo, a comissão formada pelos especialistas em doenças de saúde pública Dr. Emilio Ribas (diretor dos serviços de saúde de São Paulo); Dr. Adolpho Lutz (diretor do instituto bacteriológico) e o Dr. Vital Brasil (assistente do Dr. Lutz) propõem a criação do Instituto Soroterápico em São Paulo, instalado na fazenda Butantã. Com o Dr. Vital Brasil na sua direção, tinha a responsabilidade de produzir soro para ser usado no combate à epidemia de peste bubônica que assolava a cidade, e para tal, construíram-se laboratórios e uma fábrica de antissoros. Graças às suas observações sobre a severidade clínica do sítio da picada nos acidentes com serpentes de diferentes espécies que apresentavam sintomas diferentes, ele iniciou estudos que demonstraram que o soro antiofídico de Calmette, contra a serpente Naja, não era universal. Vital Brasil comprovou a especificidade dos venenos, e essa descoberta colaborou para o estabelecimento do novo conceito na imunologia, a especificidade, e pela primeira vez a medicina tinha um produto realmente eficaz no tratamento dos acidentes ofídicos. Em 1904, outra epidemia de varíola assola a capital, e a lei de obrigatoriedade da vacinação é novamente aprovada. Estoura a Revolta da Vacina. Em 1907, a febre amarela é eliminada no Rio de Janeiro, e em 1908 uma epidemia de varíola leva a população em massa aos postos de vacinação. Em 1927, o BCG é introduzido no Brasil, e assim pouco a pouco outras vacinas e soros foram sendo introduzidos no país, e algumas vacinas de produção nacional começam a ser utilizadas, como a vacina contra a febre amarela, em 1937. Atualmente, existem 4 laboratórios produtores de soros contra os animais peçonhentos: o Instituto Vital Brasil, o Instituto Butantã em São Paulo, a Fundação Ezequiel Dias, em Minas Gerais e o Centro de Pesquisa e Produção de Imunobiológicos, no Paraná. E os dois principais institutos produtores de vacinas, além dos soros, são o I. Butantã e I Oswaldo Cruz. Estes institutos preservam e continuam fortalecendo os três pilares desde sua criação: pesquisa, produção e a popularização da ciência. TEMA 2 – DIFERENÇAS DE AÇÃO DAS VACINAS E SOROS NO ORGANISMO Uma pessoa adquire imunidade a uma específica doença de várias formas. Para algumas doenças, como sarampo e varicela, contrair a doença 7 usualmente produz uma imunidade permanente. A vacinação é outra forma de tornar-se imune à doença. Essas duas maneiras de proteção são exemplos da imunidade ativa, de forma natural (contraindo a doença) ou adquirida (vacinação). A imunidade ativa requer a exposição ao agente ou ao antígeno do agente, com a participação e ativação dos linfócitos T e B via apresentação dos antígenos pelas células apresentadoras de antígenos (APC), produzindo células de memória. A resposta é permanente, porém lenta — há de construí-la. A outra forma de imunidade é a denominada imunidade passiva natural, e o exemplo principal é aquela proteção que a mãe passa para o filho na forma de anticorpos que atravessam a placenta durante o desenvolvimento e na amamentação, principalmente com o colostro. E a imunidade passiva artificial pode ser induzida quando anticorpos são ministrados como medicação para um indivíduo não imune — soroterapia. Estes anticorpos (imunoglobulinas) provêm de um pool de imunoglobulinas pré-formadas e purificadas de produtos sanguíneos de humanos imunizados ou de animais imunizados (como cavalos). Esta proteção é de curta duração e ação rápida (Figura1). Figura 1 – Imunidade ativa e imunidade passiva Imunidade Ativa Imunidade Passiva Natural Artificial Natural Artificial Infecção Vacinação Anticorpos maternos Anticorpos monoclonais/Antisoros Créditos: Promotive/Shutterstock; Baldyrgan/Shutterstock; Garumna/Shutterstock; Anaitsmi/Shutterstock. A resposta ativa e passiva tem participação dos linfócitos. Porém, na produção ativa os anticorpos são próprios, produzidos pela pessoa, e na passiva os anticorpos são produzidos externamente. A história da imunização passiva começa em 1890, com Kitasato e von Behring, com seus trabalhos com as toxinas diftérica e tetânica. Esses trabalhos que deram início à soroterapia, e em estudos seguintes notou-se que no caso da 8 toxina diftérica e tetânica, além de servir como tratamento, conferia também imunidade permanente. A soroterapia foi utilizada não somente para doenças infecciosas, mas também para venenos de animais peçonhentos. E esses estudos com serpentes levaram ao entendimento da especificidade do antígeno e anticorpo. As imunoglobulinas são utilizadas quando uma resposta rápida é necessária concomitantemente à vacinação, como no caso de contaminações com o vírus da raiva. Há estudos para seu uso em certos casos de câncer, e infecções com bactérias super-resistentes. Os diferentes tipos de vacinas e soros são demonstrados no Quadro 2. Quadro 2 – Tipos de vacinas e soros imunes Vacinas Viva atenuada Vírus ou bactérias modificadas em laboratório; o organismo conserva a habilidade de replicar (crescer) e de desencadear uma resposta imune sem causar a doença. Inativada Produzida por crescimento de micro-organismos em cultura em meios vivos ou artificiais, depois inativadas por métodos físicos ou químicos. Pode ser o micro-organismo inteiro ou fracionado. Não são organismos vivos, não replicam, não crescem, nem multiplicam. Portanto, não causam a doença. Exige múltiplas doses. Toxoide Toxina inativada. O micro-organismo produtor da toxina é cultivado para a obtenção e produção da toxina, posteriormente inativada por métodos físicos ou químicos. Atualmente, para sua produção, é utilizada a biotecnologia. Soros imunes Monoclonais Anticorpos específicos para um antígeno. Anticorpos idênticos produzidos a partir de um único clone de um único linfócito B clonado e imortalizado. Policlonais Anticorpos provenientes de vários linfócitos. Heterólogo (animais) ou homólogo (humano). TEMA 3 – PRINCIPAIS ANIMAIS PEÇONHENTOS NO BRASIL E A PRODUÇÃO DE VACINAS E SOROS Os animais peçonhentos possuem glândula de veneno em comunicação como dentes, ferrões e aguilhões, estruturas por onde o veneno é injetado. Entram nessa categoria as serpentes Bothrops (B. atrox, jararaca do norte; B. bilineata, jararaca verde; B. erythromelas, jararaca da seca; B. leucurus, jararaca; B. alternatus, urutu cruzeiro; B. moojeni, caiçaca; B. neuwiedi, jararaca pintada; B. jararacuçu, jararacuçu; B. jararaca, jararaca preguiçosa), cujo tratamento específico é com soro antibotrópico. Há também a Crotalus durissus, cascavel, cujo tratamento é com soro anticrotálico, a Lachesis muta, surucucu; e as Micrurus (M. corallinus; M ibibibica; M frontalis; M leminiscatus; M spixii). 9 Figura 2 – Diferenças entre as principais serpentes peçonhentas encontradas no Brasil que causam acidentes ofídicos Fonte: elaborado com base em Ciência Brasilis, 2016. Crédito: Flávio Smile. Os venenos ofídicos podem ser classificados de acordo com suas atividades fisiopatológicas, efeitos observados em nível local e sistêmico, conforme demonstrado no Quadro 3. Quadro 3 – Mecanismo de ação dos venenos ofídicos Veneno Soro AtividadeEfeito Local Efeito Sistêmico Botrópico Antibotrópico e Antibotrópico-laquético Inflamatória aguda, Coagulante, Hemorrágica Necrose tecidual, Lesão endotelial Liberação de mediadores inflamatórios e substâncias vasoativas, ativação da coagulação, Lesão endotelial. Laquético Antibotrópico-laquético Inflamatória aguda, Coagulante, Hemorrágica, Neurotóxica Necrose tecidual, Lesão endotelial Liberação de mediadores inflamatórios e substâncias vasoativas, ativação da coagulação, Lesão endotelial, Estimulação vagal. Crotálico Anticrotálico Neurotóxico, Miotóxico, Coagulante. Ausente Bloqueio neuromuscular, Rabdomiólise, Ativação da coagulação. Elapídico Antielapídico Neurotóxico. Ausente Bloqueio neuromuscular Escorpiões: Tityus serrulatus, escorpião amarelo; Tityus bahiensis, escorpião marrom; Tityus stigmurus, escorpião do nordeste; Tityus cambridgei, escorpião preto – todos exigem tratamento com soro antiescorpiônico (Figura 3). 10 Figura 3 – Escorpiões encontrados no Brasil Fonte: Escorpiões e a produção de cachaça, 2017. Créditos: FMportella/Shutterstock; Marcos David/CC-Pd; CC-PD; Vera Larina/Shutterstock. Aranhas: Loxosceles spp, aranha marrom; Phoneutria spp, aranha armadeira; Latrodectus spp, aranha viúva negra – tratamentos com soro antiloxoscélico, soro antiaracnídico e soro antilatrodectus, respectivamente (Figura 4). Figura 4 – Aranhas de interesse médico Fonte: Picada de aranha..., S.d. Créditos: CC By-Sa 3.0; Margus Vilbas/Shutterstock; Jay Ondreicka/Shutterstock. Lepidópteros: os estágios de larva e de adulto são de interesse médico, como: Megalopigidae, lagarta de fogo; Saturniidae, espinhos; Saturnídeo – Lonomia, orugas. Os acidentes com as larvas, chamados de erucismo (euricae, que significa larva) produzem quadros de dermatite urticante. Existe uma rara complicação chamada de síndrome hemorrágica, contra a qual se usa o soro https://www.shutterstock.com/pt/g/Vizunchik https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0 https://www.shutterstock.com/pt/g/Maxiska https://www.shutterstock.com/pt/g/Jay+Ondreicka 11 antilonômico. O adulto da mariposa Hylesia sp causa a dermatite papulopruriginosa (Figura 5). Figura 5 – Exemplos de lepidópteros de interesse médico por causarem acidentes Créditos: Elton Aben/Shutterstock; Josman525/Shutterstock; Helissa Grundemann/Shutterstock; Nairobi Manrique/Shutterstock. Himenópteros: insetos com ferrões verdadeiros. Três famílias de importância médica: Apidae (abelhas e mamangavas); Vespidae (vespa amarela, vespão e marimbondo) e Formicidae (formigas). A incidência de acidentes é desconhecida, mas são de interesse por provocar reações alérgicas de hipersensibilidade. Os relatos mais graves são pela picada de abelhas africanizadas. No Brasil, existem 4 institutos capacitados para a produção dos soros: Instituto Butantã (SP), Fundação Ezequiel Dias (MG), Instituto Vital Brasil (RJ) e o Centro de Produção e Pesquisa em Imunobiológicos (PR). Apesar de os acidentes com animais peçonhentos serem de notificação obrigatória, o Brasil carece de um banco de dados que permita a distribuição dos soros em tempo seguro para o atendimento de qualidade. A OMS entrou no combate aos acidentes com animais peçonhentos ao colocá-los na lista das NTD – doenças tropicais negligenciadas. TEMA 4 – PRODUÇÃO DE VACINAS E SOROS BACTERIANOS, VIRAIS E RECOMBINANTES As vacinas iniciais eram relativamente grosseiras, consistindo de vírus vivos atenuados e parcialmente purificados, no caso da varíola humana e raiva, ou de bactérias inativadas (pertusis). Com o tempo foram sendo introduzidos métodos mais refinados como tratamentos químicos para as proteínas toxinas para formar os toxoides (difteria e tétano). Assim, como a tecnologia das vacinas 12 avançaram, os métodos de produção também evoluíram e novas vacinas surgiram, e continuam evoluindo para vacinas mais imunogênicas e seguras. O processo de produção de uma vacina para por diferentes etapas: 1. Geração do Antígeno. (a) Vírus, são cultivados em células primárias (células de embriões de galinha, ovos embrionados, linhagens de células humanas para cultura celular de reprodução contínua); (b) Bactérias: cultivados em biorreatores (equipamentos que utilizam meios específicos que otimizam a produção do antígeno); (c) Proteínas recombinantes derivadas dos patógenos geradas em leveduras, bactérias ou cultura celular. 2. Liberação e isolamento do antígeno. 3. Purificação do antígeno utilizando diferentes processos, separação por tamanho, propriedades físico-químicas, afinidade de ligação e atividade biológica. Alguns precisam de inativação. 4. Adição de outros componentes como adjuvantes (que realçam a resposta imune), estabilizantes e conservantes. 5. Embalagem e distribuição. O desenvolvimento de vacinas modernas explora novas tecnologias que incluem vetores virais produzidos em células animais, partículas semelhantes a vírus produzidos em leveduras ou células de insetos, polissacáridos conjugados carregando proteínas, plasmídeos de DNA produzidos em E. coli e vacinas terapêuticas para câncer criadas por ativação in vitro de leucócitos do paciente, como mostrado no Quadro 4. 13 Quadro 4 – Evolução do processo de produção tradicional da vacina e eventos relacionados Ano Evento histórico da vacina 1796 A estratégia de desenvolvimento foi o uso de um vírus animal relacionado similar ao agente humano (uso do vírus da varíola bovina para proteção contra a varíola humana). 1879 Vacina bacteriana viva atenuada (cólera da galinha). Atenuação por pares sucessivos em meios de cultura. 1884 Vacina viral viva atenuada crescida em tecido cerebral e atenuada por processo químico (raiva). 1897 Vacina preparada do soro de cavalo inativada utilizando o microrganismo inteiro contra a peste bubônica. 1918 Vacina bacteriana de célula inteira inativada contra a B. pertusis que causa a coqueluche. 1923 Vacina de toxoide preparada de toxinas bacterianas inativadas contra a difteria. 1931 Vacina liofilizada contra a varíola humana utilizando a cultura em ovos embrionados com vírus Vaccinia vírus hibrido. 1949 Vacina combinada com os toxoides diftérico e tetânico e células inteiras de B. pertusis (DTwP). 1949 Vacina viral produzida com células humanas não neurais por Enders (pólio). 1955 Vacina viral inativada produzida in vitro com células primárias de rim de macaco contra a pólio por Salk. 1962 Linhagem de células humanas diploides (WI-38) estabelecida por Hayflick. Vacina oral contra pólio (Sabin). 1986 Vacina recombinante com partículas semelhantes a vírus produzida em leveduras (Hepatite B). 1987 Vacina conjugada polissacarídeo-proteína (b). 1996 Produção da vacina acelular contra B. pertusis. 1998 Vacina clássica altamente purificada usando uma abordagem biotecnológica. Vacinas recombinantes para Doença de Lyme. Após 2003 Vacinas vivas atenuadas por passagens em cultura celular utilizando novos rearranjos genéticos como as vacinas contra rotavirus, influenza. Fonte: elaborado com base em Josefberg; Buckland, 2012. Os processos de produção dos soros contra o veneno de animais peçonhentos, antitetânico e antirrábico em geral pouco têm mudado. Foram adequados todos os centros de produção aos padrões internacionais de controle de qualidade, visando diminuir os efeitos adversos. O processo inclui a geração do antígeno do próprio veneno, que é processado, diluído, filtrado e preparado para ser injetado nos cavalos. No caso das toxinas tetânica e rábica, primeiro deve-se gerar a toxina com a cultura da bactéria e do vírus que produzirão as toxinas que posteriormente devem ser extraídas filtradas e diluídas para serem injetadas nos cavalos. Após a quarentena, do sangue dos cavalos é extraído o 14 plasma, que passa por processosde separação de moléculas, e os anticorpos obtidos são filtrados e purificados, seguido de vários testes de sua atividade biológica e controle de qualidade. A tecnologia dos anticorpos monoclonais desenvolvida por Milstein e Kohler são mais puros e direcionados a um único sítio do patógeno. O processo de produção dos anticorpos monoclonais começa com a geração das células produtoras, os hibridomas, que provêm da fusão de células de mieloma com células B (normalmente células de camundongos). Posteriormente, os clones são selecionados de acordo com a especificidade de antígeno e classe de imunoglobulina; uma vez identificada a linha da célula do hibridoma promissor, cada clone é confirmado e caracterizado para ser escalados para a expansão dos clones em biorreatores. Os anticorpos monoclonais têm um grande potencial, e estão sendo usados em alguns tipos de câncer, esclerose múltipla e artrite reumatoide, entre outras doenças. TEMA 5 – POLÍTICAS PÚBLICAS DE IMUNIZAÇÃO A história recente da política pública de imunização tem como marco o final da campanha de erradicação da varíola, (1962-1973). Pelo Brasil ser o último país da região a aderir à campanha de erradição global da varíola, iniciada pela OMS em 1959, teve menos tempo para cumprir as metas estipuladas, mas foram esses esforços que aparentemente implementaram uma cultura de imunização na população, apesar de termos na história episódios como o da Revolta da Vacina. Após a erradição da varíola, implementou-se a campanha contra o pólio. O programa nacional de imunização (PNI) foi estendido e confirmado em 1975, com a implantação dos dias nacionais de vacinação. Nesse mesmo ano, foi instituído o sistema nacional de vigilãncia epidemiológica e imunizações. O PNI é um dos programas que, apesar das críticas, têm aumentado a cobertura vacinal, e desde sua implantação dobradoou o número de vacinas fornecidas e a cobertura vacinal. O programa manteve os dias nacionais de vacinação, o que tem ajudado no aumento da cobertura na população. Em 1976, a FIOCRUZ implantou um centro de produção de vacinas. Em 1986, foi criado o Zé Gotinha, personagem símbolo da eliminação do pólio. O último caso registrado de polimielite foi em 1989 e em 1994, o Brasil recebeu o certificado da eliminação da pólio. 15 Figura 6 – Zé Gotinha, personagem símbolo da campanha de vacinação contra poliomielite Fonte: Ministério da Saúde, 2018. Atualmente, o calendário nacional de vacinação do Ministério da Saúde recomenda as seguintes vacinas: BCG contra tuberculose, hepatite B, DPT + HB – Hib (difteria, coqueluche, tétano, hepatite B e Haemophilus influenza b), VIP (vacina pólio injetada), rotavírus, pneumocócica, meningocócica C, febre amarela, tríplice viral (sarampo, rubéola, caxumba), varicela e HPV, com suas doses de reforço. Anualmente, o ministério fornece a vacina contra gripe para os grupos considerados vulneráveis. NA PRÁTICA • Pesquise sobre imunização ativa e passiva para câncer, como no artigo Active and passive immunization for cancer (Baxter, 2014). • Pesquise sobre o receptor Toll like. • Leia os artigos Vacinas e campanhas: as imagens de uma história a ser contada (Pôrto; Ponte, 2003), Vacina BCG contra tuberculose: efeito protetor e políticas de vacinação (Pereira et al., 2007) e A (não) vacinação infantil entre a cultura e a lei: os significados atribuídos por casais de camadas médias de São Paulo, Brasil (Barbieri; Couto; Aith, 2017). • Leia o artigo Acidentes de trabalho por animais peçonhentos entre trabalhadores do campo, floresta e águas, Brasil 2007 a 2017 (Ministério da Saúde, 2019) e crie uma campanha de prevenção contra acidentes com animais peçonhentos. • Pesquise sobre o plano nacional de imunização, escolha uma vacina e crie uma campanha, justificando sua escolha. 16 FINALIZANDO Trabalhamos nesta aula uma breve história das vacinas e os soros no mundo e no Brasil. A diferença entre imunidade passiva e ativa; os principais animais peçonhentos do Brasil. A produção das vacinas e soros e sua evolução. E as políticas públicas de imunização. 17 REFERÊNCIAS BARBIERI, C. L. A.; COUTO, M. T.; AITH, F. M. A. A (não) vacinação infantil entre a cultura e a lei: os significados atribuídos por casais de camadas médias de São Paulo, Brasil. Cad. Saúde Pública. n. 33, v. 2, 2017. Disponível em: . Acesso em: 17 out. 2019. BAXTER, D. Active and passive immunization for cancer. Human Vaccines & Immuntherapeutics. n. 10, v. 7, 2014. Disponível em: . Data de acesso: 17 set. 2019. CIÊNCIA brasilis. Instagram. 2016. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2019. ESCORPIÕES e a produção de cachaça. Site da Cachaça, 31 jul. 2017. Disponível em: . Acesso em: 15 out. 2019. JOSEFSBERG, J. O.; BUCKLAND, B. Vaccine process technology. Biotechnol. Bioeng. v. 109, n. 6, p. 1443-60, 2012. Disponível em: . Acesso em: 15 de out. 2019. MINISTÉRIO DA SAÚDE. O Zé Gotinha também... 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