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MICROBIOLOGIA, IMUNOLOGIA E PARASITOLOGIA AULA 3 Profª Catalina Yumi Masuda Nishi 2 CONVERSA INICIAL A Parasitologia é a ciência que estuda o parasitismo. O parasitismo é uma forma de simbiose (literalmente vivendo juntos), uma relação associativa complexa entre duas diferentes espécies, composta por três subsistemas: o parasita, o hospedeiro e o meio ambiente. Por definição, considera-se um parasita um organismo capaz de viver e se reproduzir, o qual encontra seu nicho ecológico em outro organismo vivo (hospedeiro), do qual retira os meios para sua sobrevivência, prejudicando-o ou vivendo a expensas dele. A relação é frequentemente de longa duração para o parasita, o qual não sobrevive sem seu hospedeiro ou é incapaz de completar seu ciclo de vida. Não existe organismo que não possa ser parasitado. Assim, todo e qualquer ser vivo pequeno, que viva em associação com outro organismo, provocando ou não doenças em pessoas e animais, é considerado um parasita, independentemente se é um vírus, bactéria, fungo, protozoário, helminto ou artrópode. Para efeitos de estudo, ficou convencionado que, na parasitologia, seria dado destaque à biologia dos protozoários, helmintos e artrópodes; à ecologia do parasitismo com ênfase nas interações hospedeiro – parasita e parasita – meio ambiente; assim como também no controle e na prevenção das doenças. Nesta aula abordaremos alguns aspectos da história da parasitologia e a parasitologia no Brasil, para entender sua evolução como ciência no nosso país e no mundo. Ademais, estudaremos algumas características da relação parasita, hospedeiro e meio ambiente; os ciclos biológicos dos principais parasitas humanos e os conceitos de epidemia, endemia e pandemia. Para isso, o objetivo geral aqui é compreender o desenvolvimento da parasitologia no Brasil e no mundo, bem como os ciclos de vida dos parasitas e suas relações com as epidemias, endemias e pandemias. Estes são os objetivos específicos: identificar os principais aspectos do desenvolvimento da Parasitologia no Brasil e no mundo; caracterizar um parasita, um hospedeiro e um vetor em suas relações ecológicas; reconhecer os principais ciclos biológicos de parasitas humanos; classificar os parasitas de interesse clínico no Brasil e seus respectivos grupos; diferenciar a ação de parasitas em epidemias, endemias e pandemias. 3 TEMA 1 – HISTÓRIA DA PARASITOLOGIA E A PARASITOLOGIA NO BRASIL Durante a relativa curta história dos humanos na Terra, os seres humanos têm adquirido um número surpreendente de parasitas, helmintos e protozoários, muitos dos quais de forma acidental. Entretanto, alguns parasitas são causadores de doenças mundialmente importantes. A evolução humana e as infecções parasitárias caminham lado a lado, desde o início dos tempos no aparecimento do Homo sapiens; suas migrações, práticas agrícolas e assentamentos facilitaram as transmissões das infecções e a disseminação dos parasitas. Com o tráfico de escravos para o novo mundo, foram trazidos também novos parasitas. Os resultados de estudos arqueológicos em artefatos e múmias mostraram a presença de ovos de helmintos e cistos de protozoários em coprólitos, fato que deu início a uma nova disciplina, a paleoparasitologia. Os primeiros relatos de indicações sobre infecções parasitárias vêm do período da medicina egípcia nos papiros de Ebers, seguidos pelos relatos dos médicos gregos com descrições detalhadas de febres e outras moléstias, de infecções por vermes (Ascaris, Enterobius, Taenia, Dracunculus) coletadas por Hipócrates. Há também relatos de outras civilizações incluindo China, Índia e das arábias. Mas a primeira visualização foi feita por Antony van Leeuwenhoek no seu microscópio, quando observou e descreveu o protozoário Giardia, que denominou animacules. Louis Pasteur investigou a doença pébrine do bicho da seda e identificou o protozoário Microsporidian, sendo este estudo o primeiro que levou ao controle e prevenção da doença. Com o advento do colonialismo, o interesse pelas doenças parasitárias aumentou para poder penetrar nos países tropicais após o controle incipiente de infecções como a malária, Kala-azar, doença do sono e outras. Por volta de 1860, os fundamentos da ciência denominada Parasitologia foram estabelecidos, inicialmente como ramo da história natural. Foi nessa época que os parasitas agentes etiológicos da hidatidose (Echinococcus granulosus) e a trichinelose (Trichinella spiralis) foram descritos. A Parasitologia se desenvolveu ao longo dos séculos XIX e XX nos laboratórios das universidades e nos hospitais do exército por médicos e estudiosos como Laveran, na Argélia; Bunch, na África do Sul; Ross, na Índia; Manson, na China; Bancroft, Queensland e Wucherer no Brasil. Em 1872, Timoty Lewis descreveu o agente da filariose, o Filaria sanguinis hominis; Bancroft 4 relatou o aparecimento dos parasitas adultos; Manson desvendou parte do ciclo da filária e a participação dos mosquitos. Laveran descobre o parasita da malária (Plasmodium) e Ross demonstra a sua transmissão pelo mosquito (Anopheles). Essas descobertas levaram à criação de escolas de medicina e hospitais para estudo dos parasitas tropicais. Na escola de medicina tropical em Liverpool, Dutton identificou o primeiro tripanossomo humano, o Trypanossoma gambiense, e posteriormente o T. rhodesiense. Depois, foi criada a Escola de Medicina Tropical de Londres, e na França, o Instituto de Medicina Colonial e o Instituto Pasteur. No Brasil, o histórico da parasitologia caminha ao lado da medicina tropical, com a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, com estudos voltados para o meio ambiente, criando um amplo programa de saneamento; há também a Escola Tropicalista Baiana com identidade própria, integrada por vários parasitologistas como Otto Wucherer, John L Paterson e José Francisco da Silva Lima, os quais enfatizaram os estudos na etiologia parasitária e não mais no ambiente. Foi Wucherer e suas pesquisas relacionadas à ancilostomíase, filariose e malária que deram identidade aos Tropicalistas. Em 1880, após a morte prematura de Wucherer, seus estudos sobre a biologia e hábitos dos parasitas encontrados por ele foram retomados por Adolfo Lutz, em São Paulo. Em seguida, Oswaldo Cruz criou uma nova escola de medicina voltada à saúde pública. Em 1906, na filial do Instituto Manguinhos, em Belo Horizonte, Carlos Chagas tornou-se o primeiro pesquisador da história da medicina a identificar o vetor (o inseto barbeiro – Triatoma) o agente etiológico (o protozoário - Trypanosoma cruzi) e a doença (doença de Chagas), fato que consolidou a protozoologia como área de pesquisa e inseriu o instituto O. Cruz na comunidade científica internacional. No século XX, no velho mundo, W. B. Leishman e C. Donovan descreveram um novo protozoário, o qual Laveran denominou Leishmania donovani como o causador do Kala-azar (Leishmaniose visceral - LV); C Nicolle encontrou a Leishmania infantum em outros casos de LV, e depois Comte encontrou o parasita em cães, mostrando os canídeos como um importante reservatório da doença. No Brasil, A.C. Lindenberg descreveu os parasitas leishmaniais como L. tropica, mas Gaspar Viana mostra as diferenças e propõe o nome de L. braziliensis. No novo mundo, para a LV, encontrou-se uma Leishmania ligeiramente diferente ao descrito anteriormente, a qual foi denominada de L chagasi. Por último, em 1923, apareceram os primeiros casos 5 autóctones de esquistossomose (Schistosoma mansoni) em São Paulo. Mais tarde, encontraram a presença do B. glabrata (caramujo), o hospedeiro intermediário que contribuía para a manutenção dos focos da doença. A história mostra que a relação entre as populações de homens, vetores e agentes etiológicos é complexa e, apesar dos avançoscientíficos, métodos de controle e tratamento, as infecções e infestações persistem e proliferam em grande parte pelas condições socioeconômicas, sanitárias e higiénicas deficientes encontradas nos países em desenvolvimento. Com o surgimento da imunodeficiência adquirida (AIDS), a globalização, os conflitos sociopolíticos e econômicos de vários países, o que aumenta a migração forçada, tem sido observado o aumento do reaparecimento das doenças parasitárias. TEMA 2 – CARACTERÍSTICAS DO PARASITA, HOSPEDEIRO E VETOR O parasitismo evoluiu junto como um sistema dinâmico com vários pontos de equilíbrio, tornando difícil traçar os limites entre o prejuízo e o benefício. O fenômeno ecológico do parasitismo apareceu com o aparecimento da vida no planeta, sendo essencial para a diversificação da vida na terra. Essa associação tem vantagens sobre a vida independente para os parasitas; há o benefício de não precisar procurar por alimento, abrigo, transporte e poder concentrar toda a energia na reprodução e na evasão dos mecanismos de defesa do hospedeiro. Câmbios em quaisquer dos subsistemas (o parasita, o hospedeiro e o meio ambiente) que o compõem causa distúrbios que podem levar à manifestação da doença. Ao parasita, interessa a sobrevivência do hospedeiro, pois a morte do hospedeiro implica em sua morte também. O sistema busca o equilíbrio, a harmonia e a adaptabilidade, mesmo com vantagens de forma unilateral para o parasita. Assim sendo, nem sempre as infecções parasitárias são responsáveis por grandes epidemias, as quais levam à morte um grande número de pessoas em curto tempo; algumas infecções não são imediatamente mortais, mas podem afetar um grande número de indivíduos, deixando sua condição de vida prejudicada por um longo período de tempo, causando problemas na saúde pública. Uma dessas doenças foi descoberta no Brasil (a doença de Chagas). Na evolução para o parasitismo, os parasitas foram modificando-se para proporcionar um melhor relacionamento e adaptação ao hospedeiro. As adaptações podem ser morfológicas (perda de órgãos e sistemas); fisiológicas 6 (digestão intracelular, sistemas de osmorregulação, aumento do potencial reprodutivo, hipertrofia de órgãos de fixação); nutricionais (otimização para máxima absorção de nutrientes); comportamentais (respostas químicas para ambientes favoráveis, mudanças comportamentais no hospedeiro intermediário, favorecendo seu contato com o hospedeiro definitivo); imunológicas (evasão da resposta imune do hospedeiro). O hospedeiro, no fenômeno ecológico do parasitismo, refere-se ao parceiro provedor de alimento e abrigo aos parasitas, o qual, de certa forma, é prejudicado nessa associação. O hospedeiro pode ser definitivo (hospedeiro no qual o parasita chega à maturidade sexual ou são recuperados os parasitas na fase adulta ou em que ocorre a reprodução sexuada); intermediário (hospedeiro que apresenta os parasitas em fase larvária sem maturidade sexual, reproduz- se de forma assexuada); paratênico ou de transporte (um tipo de hospedeiro intermediário que serve de refúgio por tempo indefinido, sem desenvolvimento do parasita, até atingir o hospedeiro definitivo, geralmente por predação); reservatório (habitat de um agente etiológico, local onde vive, se multiplica e do qual é capaz de atingir outros hospedeiros. Pode ser reservatório o ambiente, os humanos, animais, plantas, ou a combinação desses). O parasita, nessa associação, é o parceiro que vive a expensas do outro organismo do qual se beneficia e de certa forma prejudica seu parceiro. Os parasitas estudados na parasitologia pertencem ao reino Protista (os protozoários) e reino Animalia (Vermes e artrópodes). Os protozoários são microrganismos unicelulares eucariontes, e os parasitas animais são pluricelulares, invertebrados. Os parasitas podem ser classificados por vários critérios: a) segundo o lugar de residência em: ectoparasitas (sobre o hospedeiro), endoparasitas (dentro do hospedeiro, podendo ser intracelulares ou extracelulares), e hemoparasitas (tipo de endoparasita que se aloja na corrente sanguínea do hospedeiro); b) segundo a ecologia (parasitismo) em: obrigatórios (só consegue sobreviver no parasitismo, dependência total do hospedeiro), facultativos (não dependem de um hospedeiro para sobreviver, pode colonizar um organismo ou permanecer em vida livre); facultativo proteliano (é obrigatório na fase larval e facultativo na fase adulta); acidentais (parasita outro hospedeiro que não seja o seu normal em condições especiais); oportunistas (causam doença em pacientes imunodeprimidos); c) segundo a duração do parasitismo em: permanentes (passam a vida em todos os seus estágios parasitando o 7 hospedeiro), periódicos ou provisórios (somente são parasitas em uma fase do desenvolvimento) e temporários ou intermitentes (utilizam o hospedeiro periodicamente para alimentação ou abrigo); d) segundo o habitat em normal (parasita se encontra em determinado órgão, tecido do hospedeiro e somente assim completa seu ciclo biológico) e extraviado (ocorre em outro hospedeiro fora do seu habitat natural); e) segundo o número de hospedeiros em: monóxenos (necessitam um único hospedeiro para completar seu ciclo biológico) e heteróxeno (quando o desenvolvimento exige uma passagem por dois ou mais hospedeiros para completar seu ciclo biológico). O vetor pode ser definido como ser vivo (usualmente artrópode) com capacidade de carregar e transmitir o parasita, direta ou indiretamente para um hospedeiro vertebrado, incluindo os humanos. Os três maiores tipos de vetores para as infecções parasitárias são os artrópodes, os caramujos e os roedores. Vetores biológicos, em que o parasita de um hospedeiro infectado é ingerido pelo vetor, no qual muda e se multiplica na forma infectante. Vetores mecânicos transmitem a doença transportando o agente causador de material contaminado nas patas e na boca, espalhando os parasitas nos alimentos, água, no rosto e nos olhos. A transmissão pode ocorrer via picada (mosquitos, moscas), penetração (verme da guiné) ou via gastrointestinal (água e alimentos contaminados). TEMA 3 – TIPOS DE CICLOS BIOLÓGICOS DOS PARASITAS HUMANOS Por definição, o ciclo de vida, ciclo biológico ou ciclo evolutivo descreve a ontogênese, desenvolmiento e reprodução do parasita, reunindo a série de transformações que este sofre durante a sua vida nas fases parasítica e não parasítica. O conhecimento desse ciclo leva ao entendimento da transmissão do parasita, o que é necessário para as medidas de controle e tratamento das doenças parasitárias. De forma geral, um ciclo envolve: uma fase no humano (ligado à patogenicidade, instalação, crescimento, maturação); fase de liberação ou saída (que permite o diagnóstico); fase de desenvolvimento fora do hospedeiro (ligada à transmissão); e a fase infecciosa (formas infectivas). Os ciclos de vida dos parasitas mostram uma impressionante diversidade em forma e complexidade. Alguns parasitas conseguem completar seu ciclo de vida infectando um único hospedeiro (monóxenos), ciclo denominado simples ou direto (Ascaris lumbricoides, Giardia lambia, Entamoeba histolytica). 8 No ciclo do endoparasita, como no caso do helminto nematódeo A. lumbricoides, a infecção ocorre com a ingestão dos ovos embrionados maduros, os quais eclodem no duodeno; a larva migra para o pulmão, traqueia e esófago, voltando para o intestino delgado, passando para a fase adulta produzindo novos ovos imaturos, os quais são eliminados nas fezes, chegando a sua forma infectante, reiniciando assim o ciclo. A Giardia lamblia um protozoário flagelado binucleado, também possui um ciclo direto ou simples com um único hospedeiro para completar seu ciclo que compreende dois estágios: trofozoito e cisto. A contaminação ocorre na ingestão de alimentos contaminadoscom cistos viáveis do protozoário que, ao atingirem o estómago e duodeno, se rompem pela ação das enzimas gástricas e pancreáticas, liberando os trofozoitos (cada cisto libera 2 trofozoitos), colonizando o intestino delgado, transformando-se novamente em cistos que são eliminados nas fezes, contaminando novos hospedeiros ou rompendo-se no interior do individuo, aumentando a colonização. Figura 1 – Ciclo de vida do Ascaris lumbricoides Créditos: DESIGNUA/Shutterstock. 9 Figura 2 – Ciclo de vida da Giardia Lamblia Créditos: BULAN WONGHONKAN/Shutterstock. Outros parasitas devem negociar sua vida através de várias espécies de hospedeiros numa sequência particular para conseguir sucesso na reprodução (heteroxeno), ciclo denominado indireto ou complexo (Plasmodium, Taenia, Leishmania, Schistosoma mansoni,Trypanosoma, Filaria). O ciclo de vida do protozoário Plasmodium, parasita causador da Malaria, transmitido pelo mosquito Anopheles, acontece em 2 hospedeiros alternados (ciclo indireto ou complexo) e gerações alternadas, assexuada e sexuada. O homem é o hospedeiro intermediário, no qual ocorre o estágio assexuado (esquizonte e merozoitos), e o mosquito é o hospedeiro definitivo, com o estágio sexuado (esporozoitos). O mosquito adquire o parasita ao se alimentar de um indivíduo infectado. Dentro do mosquito, ocorre a esporogonia, produzinto os esporozoitos. Estes migram e alcançam as glândulas salivares do mosquito que, ao se alimentar novamente, transmitirá o esporozoito ao novo hospedeiro, transportados via corrente sanguínea até o fígado e infectando os eritrócitos, produzindo merozoitos, os quais outro mosquito pode adquirir e reiniciar o ciclo. 10 Outro exemplo de ciclo indireto é o ciclo do platelminto Taenia, parasita causador de duas doenças diferentes: a teníase (infecção pelo consumo de carnes mal cozidas contendo cisticercos – larvas do parasita) e cisticercose (infecção pelo consumo de alimentos contaminados com ovos do parasita). O homem é o hospedeiro definitivo, e o boi e o porco são os hospedeiros intermediarios. Na teníase, as larvas (cisticerco) evoluem para forma adulta no intestino delgado, local onde se fixam e começam a produzir ovos e proglótides (segmentos do parasita), os quais são excretados nas fezes e podem contaminar o solo, água e alimentos. Na ingestão de ovos, ao chegarem no estómago, estes liberam o embrião por via sanguínea, alcançando diferentes tecidos, onde desenvolve o cisticerco. Figura 3 – Ciclo de vida do Plasmodium Créditos: DESIGNUA/Shutterstock. 11 Figura 4 – Ciclo de vida da Taenia Créditos: DESIGNUA/Shutterstock. Os ciclos de vida dos parasitas, principalmente os complexos, dependem da integração de comunidades biodiversas, ao requererem vários hospedeiros e vetores diferentes para sua transmissão. Estudos têm mostrado que os ciclos de vida dos parasitas são flexíveis (uso de hospedeiros paraténicos, a capacidade de truncamento do ciclo, de cambio de número de hospedeiros). A especificidade por um hospedeiro decorreu dos esforços do parasita em adaptar a infectividade e longevidade num particular hospedeiro. Os parasitas zoonóticos mostram variedade de especificidade de hospedeiro devido às vias de transmissão usando ciclo selvático, doméstico e antroponótico. O conhecimento das estrategias de sobrevivência dos parasitas abre posibilidades para uma melhoria nos programas de controle das infecções causadas nos humanos e animais. 12 TEMA 4 – PRINCIPAIS PARASITAS E SEUS RESPECTIVOS GRUPOS NO BRASIL Figura 5 – Parasitas Créditos: AMPLION/Shutterstock. Os protozoários são eucariontes, unicelulares, alguns de vida livre, dentre os quais há os que lembram plantas, com plastídios verdes sendo fotossintetizantes. Os protozoários evoluíram para se adaptar a todas as condições ambientais. Os protozoários parasitas se adaptaram a diferentes espécies de hospedeiros. Estes exibem vários tamanhos, formas e estruturas; mesmo assim, possuem características essenciais em comum. O protozoário típico é limitado por uma membrana trilaminar, sustentado por folhas de fibrilas contráteis que permitem a célula mudar de forma e se mover. O citoplasma diferencia-se em ectoplasma (serve como órgão de locomoção, para ingestão dos alimentos, para respiração celular, para excretar os produtos de descarte e proteção) e endoplasma (dentro do qual se encontram o núcleo que pode ser um ou vários, com um ou vários nucléolos, e todas as organelas presentes nos eucariontes). Existem quatro grupos principais classificados com base na forma 13 de locomoção usando características especializadas subcelulares e do citoesqueleto: (1) Amoebae (pseudópodes para movimentação e ingestão de nutrientes), como a Entamoeba histolytica, Entamoeba coli, os de vida livre e potencialmente patogênicos, como a Ancanthamoeba, Naegleria; (2) Flagelados (flagelo com características específicas similares a um chicote; se apresenta ligado à membrana, denominando-se membrana ondulante, com centro interno de microtúbulos arranjados em configuração específica de 2 microtúbulos centrais rodeados por 9 pares periféricos), alguns com um único flagelo e cinetoplasto, como Trypanosomas, Leishmanias e sem o cinetoplasto com múltiplos flagelos, como Giardia, Trichomonas; (3) Ciliados, com numerosos pequenos cílios que ondulam em ondas permitindo as células nadar, com estrutura similar aos flagelos, porém com elementos basais interconectados para o movimento sincronizado. A maioria dos ciliados são de vida livre, mas alguns, como o Balantidium coli, habita o intestino de mamíferos; (4) Sporozoa (produzem esporos como fase de transmissão. Estudos recentes mostraram que na fase pré-esporos eles se locomovem por pequenas ondulações ou ondas na membrana celular, dando um movimento por deslizamento), como o Plasmodium, Toxoplasma, Criptosporidium, Pneumocystis carinii. Figura 6 – Organismos unicelulares Créditos: NASKY/Shutterstock. Os helmintos são eucariontes, multicelulares, invertebrados com corpos cilíndricos ou planos e bilateralmente simétricos; a palavra helminto vem do grego helmins – “verme”. Estes podem se diferenciar em Nematódeos (do grego 14 nematos – “filamento”), com o corpo cilíndrico e afilado nos extremos; e Platelmintes (do grego platy – “achatado”), com o corpo achatado. Eles possuem uma cobertura protetora externa, a cutícula ou tegumento, armada com resistentes espinhos e ganchos. A boca pode ter dentes ou placas cortantes. Muitos possuem estruturas que atuam como ventosas ou ganchos para adesão aos tecidos do hospedeiro. Sem órgão de locomoção, alguns utilizam as ventosas para se movimentar. Podem ser hermafroditas ou com sexos separados. Muitos são de vida livre, em ambientes aquáticos e terrestres, enquanto outros são parasitas de animais e plantas. Os principais helmintos conhecidos são: (1) nematelmintos ou nematódeos (cilíndricos, não segmentado, alongado com boca anterior e trato digestivo longitudinal, adultos com sexos separados e sistema reprodutor desenvolvido) Trichuris trichiura, Ancylostoma duodenale, Ascaris lumbricoides, Wuchereria, Onchocerca, (2) cestódeos ou taenias (corpo plano como fitas, segmentado, sem sistema de alimentação, a cabeça possui ventosas e alguns possuem ganchos, são hermafroditas) Diphylobothrium, Taenia, Echinococcus, Hymenolepis, Dipylidium; (3) trematódeos (corpo em forma de folha plana, não segmentada, com ventosa oral e ventral, canal de alimentação incompleto sem anus, a maioria são hermafroditas e alguns apresentam sexos separados) Schistosoma, Fasciola, Echinostoma. Figura 7 – Helmintos: platelmintos e nematódeos Créditos: MAROCHKINA ANASTASIIA/Shutterstock. 15 Os parasitas artrópodes possuem simetria bilateral, com esqueleto externo, o exoesqueleto,formado pelo tegumento; os principais artrópodes incluem os crustáceos, aracnídeos e insetos; a maioria dos parasitas artrópodes pertencem a duas classes. Os insetos e os aracnídeos são importantes em parasitologia humana como veiculadores de endoparasitas. Alguns também conseguem causar moléstias por infestação; são os ectoparasitas. Os principais parasitas são o piolho (Pediculus humanus capitis), ácaro (Sarcoptes scabiei) e a pulga (Tunga penetrans) Figura 8 – Ectoparasitas de interesse em parasitologia humana Créditos: KITTYVECTOR/Shutterstock. TEMA 5 – CONCEITOS DE EPIDEMIA, ENDEMIA E PANDEMIA No campo da saúde pública, as palavras endemia, epidemia e pandemia denotam a disseminação de uma doença infecciosa; porém, a extensão da propagação difere para cada uma. A endemia refere-se às doenças que ocorrem 16 com frequência em uma região delimitada. De acordo com o CDC (Center for Disease Control and Prevention), endemia é a constante presença e/ou prevalência usual de uma doença ou agente infeccioso numa população dentro de uma dada área geográfica. A endemia também pode ser sazonal. Dentro das doenças endêmicas do Brasil, encontra-se a doença de chagas, a esquistossomose, leishmaniose, tuberculose, dengue e ancilostomose. A epidemia refere-se às doenças infecciosas transmissíveis que se disseminam em um curto espaço de tempo entre as populações e para outros locais, causando um surto, que usualmente é o ponto de partida para uma epidemia, ou a propagação rápida entre um grande número de pessoas em uma região ou país, em particular fazendo todos ficarem doentes ao mesmo tempo. Pode ocorrer quando uma doença nativa começa a afetar grande porcentagem da população ou uma doença nova para a região ou país. Exemplos recentes de epidemias são o ebola na África ocidental, em 2014 e 2018, e a sífilis e o sarampo atualmente no Brasil. As epidemias podem acontecer em vários níveis; municipal (vários bairros), estadual (várias cidades) e nacional (várias regiões). As epidemias que marcaram a história da humanidade são a peste negra, a cólera e a gripe espanhola. A pandemia refere- se às doenças infecciosas e transmissíveis que se espalham por um ou mais continentes ou por todo o mundo. É uma epidemia que fugiu dos limites e atingiu todo o planeta. Os exemplos são a gripe A (gripe suína), em 2009, e a AIDS, que desde seu aparecimento, em 1981, continua se espalhando. O departamento de pandemias e epidemias da OMS listou algumas infecções com potencial epidémico e pandémico: doenças transmitidas pelo ar – influenza, síndrome respiratório agudo severo (SARS), síndrome respiratório por coronavírus do oriente médio (MERS-CoV); doenças transmitidas por roedores – plaga ou peste, leptospirose, hantavírus, febre de Lassa, tifo murino; doenças transmitidas pela água – shiguelose, febre tifóidea, cólera; doenças transmitidas por vetores – chikungunya, febre amarela, febre do Nilo, Zika, dengue; febres hemorrágicas – ebola e marburg. NA PRÁTICA Pesquise os ciclos biológicos específicos de Entamoeba histolytica, Acanthamoeba, Trypanosoma cruzi, Toxoplasma gondii, Trichuris trichiura, Ancilostoma duodenale, Dipylidium caninum, Schistosoma mansoni, 17 determinando se é ciclo direto ou indireto, se é um protozoário ou helminto, se é endoparasita ou ectoparasita. Saiba mais Leia o artigo “Ectoparasitoses e saúde pública no Brasil: desafios para controle”, disponível em , e reflita se em sua cidade as ectoparasitoses também são um desafio para saúde pública. Leituras recomendadas “Doença de Chagas: a construção de um fato científico e de um problema de saúde pública no Brasil”, disponível em: ; “Espécies neotropicais de Leishmania: uma breve revisão histórica sobre sua descoberta, ecologia e taxonomia”, disponível em: . FINALIZANDO Trabalhamos, neste momento, os fundamentos históricos da parasitologia no mundo e no Brasil, o fenômeno ecológico do parasitismo, sistema dinâmico com os subsistemas hospedeiro, parasita e médio ambiente, as características dos principais grupos de parasitas de interesse humano e animal, assim como os conceitos de endemia, epidemia e pandemia. 18 REFERÊNCIAS ARAÚJO, A. et al. Paleoparasitology: the origin of human parasites. Arq Neuropsiquiatr, v. 71, n. 9b, p. 722-726, 2013. ARAÚJO, A. et al. Parasitism, the Diversity of life, and Paleoparasitology. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, v. 98, n. 1, p. 5-11, 2003. CABEL, J. et al. Global change, parasite transmission and disease control: Lessons from ecology. Phil. Trans R Soc, B 372 20160088. Disponível em: . Acesso em: 6 out. 2019. MASCARINI, L. M. M. Uma abordagem histórica da trajetória da parasitologia. Ciência e & Saúde Coletiva, v. 8, n. 3, p. 809-814, 2003.