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Maria da Conceicao Tavares 1985 - sobre a hegemonia norte americana

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TAVARES, Maria Conceição. (1985) “A Retomada da Hegemonia Americana” in: TAVARES, M.
C.; e FIORI, José Luis (Orgs) (1998). Poder e Dinheiro. Uma Economia Política da
Globalização. 6 ed. Rio de Janeiro: Vozes. p.27-54. 
A retomada da hegemonia norte-americana 
A forma insólita e pouco ortodoxa em que vem apresentada esta discussão sobre "Hegemonia Americana"
deve-se ao longo período e aos freqüentes desvios com que a discussão acadêmica, política e ideológica tem
tratado do assunto e à minha obsessão recorrente cada vez que o debate e a própria realidade político-
econômica apresentam movimentos contraditórios.
Resolvi, por isso, contribuir para a tarefa coletiva de construção deste livro juntando os cacos de minhas
reflexões, desde 1984 até agora, sobre a hierarquia das relações internacionais do ponto de vista da
predominância política e econômica da potência hegemônica. Dele participam duas gerações de economistas
políticos que compartilham uma perspectiva histórico-estrutural acerca de nosso objeto, companheiros de
longa jornada na resistência intelectual ao pensamento dominante, mas com trajetórias próprias e
diferenciadas de vida e de pensamento crítico.
Em seminários irregulares que mantivemos no Rio, nos intervalos de minha militância política, chegamos
à conclusão que a minha contribuição seria mais útil se começasse pela apresentação da segunda versão da
`Retomada da Hegemonia Americana" e que nunca havia sido publicada. Segue-se uma versão "revisitada"
em que, numa discussão que mantive com Luiz Eduardo Melin durante o mês de junho de 1997, buscamos
delinear uma definição atualizada dos termos em que se encontra hoje o problema.
Ambas as versões vão publicadas em seqüência para que o leitor possa com mais clareza discernir a
evolução das diversas questões levantadas no ensaio original.
A questão da hegemonia é muito mais complexa do que os indicadores econômicos mais evidentes são
capazes de demonstrar. Convém assim advertir desde logo, para evitar mal-entendidos, que nossa hipótese
de retomada da hegemonia americana não passa por sustentar que a performance de valorização do dólar e a
taxa de crescimento interno americana se mantenham.
O fulcro do problema não reside sequer no maior poder econômico e militar da potência dominante, mas
sim na sua capacidade de enquadramento econômico financeiro e político-ideológico de seus parceiros e
adversários. Este poder deve-se menos à pressão transnacional de seus bancos e corporações em espaços
locais de operação, do que a uma visão estratégica da elite financeira e militar americana que se reforçou
com a vitória de Reagan. Em verdade, seus sócios ou rivais capitalistas são compelidos, não apenas a
submeter-se, mas a racionalizar a visão dominante como sendo a "única possível". Esta racionalização vem
passando em matéria de política econômica pela aceitação de um ajuste recessivo que corresponde a uma
 A 1ª versão deste artigo saiu simultaneamente na Revista de Economia Po l í t i ca - 18, vol. 5, nº 2, abril/junho de 1985 e na
Revista de Ia Cepal, nº 26, agosto de 1985, sendo que o debate de setembro de 1984, que lhe deu origem, foi publicado em
HIRST, Monica (org.), "Brasil-Estados Unidos na Transição Democrática, Paz e Terra, 1985. Esta versão, mais aprofundada, consta
dos textos para discussão, n° 77, julho de 1985, do IEI-UFRJ, mas nunca havia sido publicada. Houve acordo entre os participantes
deste livro de que o debate sobre "Poder e Dinheiro" seria inaugurado a partir do presente texto. Apesar de já haver passado mais de
dez anos desde sua aparição, pareceu-nos a todos que a visão originária do presente artigo - de que a capacidade da potência
dominante para enquadrar parceiros e adversários com base em seu controle do poder e do dinheiro - continua sendo central para a
compreensão dos movimentos recentes da economia e da política internacional. Esta perspectiva central é desenvolvida nos vários
textos deste volume, a começar pela versão "revisitada" da discussão sobre hegemonia americana que se segue imediatamente ao
presente texto e na qual se busca delinear uma definição atualizada dos termos em que se encontra hoje a questão.
sincronização da Política econômica e da ideologia conservadoras sem precedentes. Em termos estratégicos
e militares, passa por uma visão de "guerra" em que se reconhecem que os interesses gerais da segurança
mundial estão no substancial bem defendidos pela grande potência americana. Vale dizer, significa a
aceitação pela política mundial que o Presidente Reagan afinal não é um "louco" mas um "homem resoluto"
aos seus adversários e que está dando a "linha justa" para o resto do mundo capitalista.
O que este ensaio pretende demonstrar é como esta vitória "político-ideológica" foi precedida por um
reenquadramento por parte do governo americano do movimento policêntrico que vinha tendo lugar a partir
da transnacionalização dos capitais de origem norte americana.1 
A outra questão que corre paralela à da retomada da hegemonia, mas é de natureza mais profunda e cujas
tendências ainda não estão claras, diz respeito à tendência a uma nova divisão internacional do trabalho em
que os EUA passariam realmente a ser uma potência verdadeiramente cêntrica capaz de reordenar a
economia mundial, com base num novo tipo de transnacionalização da sua própria economia nacional.
Até recentemente não era razoável supor que os EUA conseguissem reafirmar sua hegemonia sobre seus
concorrentes ocidentais e muito menos tentar transitar para uma nova ordem econômica internacional e para
uma nova divisão de trabalho sob seu comando. Hoje essa probabilidade é bastante alta.
Até o final da década de 70, não era previsível que os EUA fossem capazes de enquadrar dois países que
tinham uma importância estratégica na ordem capitalista: o Japão e a Alemanha. Se os EUA não tivessem
conseguido submeter a economia privada japonesa ao seu jogo de interesses e se as políticas inglesa e alemã
não fossem tão conservadoras, os EUA teriam enfrentado dois blocos com pretensões européias e asiáticas
de independência econômica. Deve-se salientar que, àquela altura, os interesses em jogo eram tão
visivelmente contraditórios que as tendências mundiais eram policêntricas e parecia impossível aos EUA
conseguir reafirmar sua hegemonia, embora continuassem a ser potência dominante.
Outras circunstâncias gerais que se tornaram manifestas na década de 70 pareciam colaborar para esta
tese. O sistema bancário privado operava totalmente fora de controle dos bancos centrais, em particular do
FED. O subsistema de filiais transnacionais operava divisões regionais de trabalho intrafirma, à revelia dos
interesses nacionais americanos, e conduziam a um acirramento da concorrência no interior dos demais
países capitalistas que era favorável à modernização e expansão européia e japonesa e desfavorável aos
EUA. Em síntese, a existência de uma economia mundial sem pólo hegemônico estava levando à
desestruturação da ordem vigente no pós-guerra e à descentralização dos interesses privados e regionais.
Os desdobramentos da política econômica interna e externa dos EUA, de 1979 para cá, foram no sentido
de reverter estas tendências e retomar o controle financeiro internacional através da chamada diplomacia do
dólar forte. Esta, como se verá, apesar de mergulhar o mundo numa recessão generalizada, deu aos EUA a
capacidade de retomar a iniciativa. Assim, os destinos da economia mundial encontram-se hoje, mais do que
nunca, na dependência das ações da potência hegemônica.
1. A diplomacia do dólar forte
O sistema monetário internacional com base no padrão dólar-ouro nunca funcionou a contento, como tão
bem previra Triffin (1958). A rigor depois da etapa de "escassez de dólares", que terminou com a criação do
Mercado