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Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

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de 
um sistema social e de poder informal, paralelo ao sistema formal 
oficial da organização burocrática. Tal sistema, que é pertinente de 
sobremodo ao grupo recluso, relaciona-se com as demais esferas e 
grupos socioprisionais, influindo nas dinâmicas e processos gerais 
da instituição. O vínculo de gênese desse sistema informal com as 
demais feições institucionais, das estruturas prisionais é sintetizado 
por Cláudia Monteiro Pato de Carvalho quando registra:
A instituição total, concomitantemente com o seu sistema de or­
ganização burocrática, opera um tratamento optimizado do indivíduo 
internado, porque exercido de açordo com os fins da reprodução insti­
tucional e desindividualizante. Este tratamento òptimizado coaduna-se 
com a necessidade de os vigilantes manterem a ordem burocrática. 
Esta simboliza a regulação do quotidiano recluso, a obediência à 
moral disciplinar do corpo e da mentê e às motivações. É este o qua­
dro visível das relações de poder instituídas. No entanto, a dinâmica 
estrutural da instituição total desperta-nos para um quadro menos
BALIZAMENTOS SOCIOLÓGICOS DAS ESTRUTURAS E DINÂMICAS PRISIONAIS 65
visível: o de um esquema de funcionamento sócio-institucional da 
sociedade informal, de caráter desvirtuado. A estrutura social informal 
que se desenha no espaço interno da prisão não pode ser entendida 
independentemente da moral subjacente às relações de poder que se 
estabelecem entre os indivíduos reclusos, subordinados à disciplina 
da prisão (2003, p. 3).
As instituições totais tanto promovem processos de mortificação 
e degradação da identidade do internado, desde seu ingresso no am­
biente institucional, forçando-o na ruptura dos laços com o mundo 
exterior, como o inserem num tratamento homogeneizado, que profana 
sua individualida4e e afeta sua personalidade (GOFFMAN, 1990). 
Na prisão, os processos de desindividualização,tendem a se maximi­
zar, pois, como observa Goffman ao classificá-las como instituições 
totais que se constituem para proteger a comunidade contra perigos 
intencionais, “o bem-estar das pessoas assim isoladas não constitui 
o problema imediato” (1990, p. 17). “Não é a solidão que aborrece 
o prisioneiro, mas a vida em massa” (SYKES, 1958, p. 4, tradução 
nossa). E tal se pode admitir pela verificação das características ge­
rais das instituições totais, compiladas por Cezar Roberto Bitencourt 
(1993, p. 152-153):
— todos os aspectos da vida desenvolvem-se no mesmo local e sob 
o comando de uma única autoridade;
— todas as atividades diárias são realizadas na companhia imediata 
de outras pessoas, a quem se dispensa o mesmo tratamento e de 
quem se exige que façam juntas as mesmas coisas;
— todas as atividades diárias encontram-se estritamente programadas, 
de maneira que a realização de um a conduz diretamente à realização 
de outra, impondo uma seqüência rotineira de atividades por meio 
de normas formais explícitas e de um corpo de funcionários;
— as diversas atividades obrigatórias encontram-se integradas em um 
só plano racional, cujo propósito é conseguir os objetivos próprios 
da instituição.
O sistema informal, como resistência e oposição ao sistema 
formal carcerário, tem sua gênese nas próprias dinâmicas decorren­
tes das características totalizantes da instituição e dos processos de 
desapossamento da identidade e individualidade que promove nos 
apenados, pois:
66 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
Frente a ,este exaustivo processo de privação a que é submetido, o 
indivíduo recluso vai criar as suas defesas, através da construção de 
um universo sócio-informal à sua medida. Estabelece um a vivência 
interna, pautada por relações de poder e de entendimento recíproco 
com os seus semelhantes (CARVALHO, 2003, p. 5).
Pode-se verificar e analisar o sistema informal naquilo em que 
se dirige à regulação da convivência diária entre os grupos internos 
dó ambiente carcerário, mais especificamente os apenados. Regis­
tra Víctor Irurzun (num estudo que enfoca realidades carcerárias 
argentinas):
Existen normas grupales o comunitarias prescritas: “hacer conducta 
carcelaria”, “hacer la causa”, “respetar el suèno del otro” ; existen 
normas proscritivas: “no delatar” , “no meterse”, y existen, finalmente, 
normas permisivas. Se percibe amplia fidelidad a estas normas que 
posibilitan adaptación ante la emergencia (NEUMAN e IRURZUN, 
1994, p. 120).
Relatos de normas similares permeiam todas as abordagens socio- 
prisionais; encontraremos menções ao “proceder carcerário”20 seja nos 
registros de Varella (1999) e de Indarte (2003), seja nas entrevistas 
que realizamos em nossa pesquisa de campo, em regra exigindo o 
respeito ao sono dos demais, estabelecdndo regras de comportamento 
e higiene nos horários de refeições e, entrè outros possíveis exemplos, 
estabelecendo prescrições de respeito e discrição com as mulheres 
nos períodos de visitas íntimas. A origem dessas normas, vinculada a 
grupos de uma comunidade fechada, isolada e nivelada por privações 
comuns, como explicita Irurzun, faz previsível que sejam “estáticas, 
sagradas, exclusivistas y protecciqnistas” (NEUMAN, IRURZUN, 
1994, p. 119), ao que complementa:
El marco del cual parte la producción normativa es la situación 
de privación y ocio a que están sujetos. Ningún nuevo estímulo se 
anade a la incomunicación con el mundo y a la pasividàd obligada. 
En tal supuesto se produce un reforzamiento de normas originada
20 Pode-se entender pela expressão “proceder carcerário” tanto o conjunto de regras 
informais que regulam o comportamento e os valores do grupo de apenados, 
como também a própria adequação fática e subjetiva dos apenados a esse con­
junto de regras. *
BALIZAMENTOS SOCIOLÓGICOS DAS ESTRUTURAS E DINÂMICAS PRISIONAIS 67
en la interacción con los otros grupos de internos e con la autoridad 
(NEUMAN e IRURZUN, 1994, p. 119-120).
São códigos rígidos, com sanções rigorosas à menor infração, 
expressando tanto a necessidade de coesão diante do sistema formal e 
oficial de poder e coerção, como relações de poder internas dentro do 
grupo dos apenados, que, igualmente, avançam no conflito e confronto 
entre grupos de apenados e estes com os integrantes da administração 
burocrática formal e oficial.
Este, pòis, um segundo aspecto de interesse no que tange aos 
sistemas informais intracarcerários, ou seja, o das relações de força 
e de poder que se estabelecem e se dinamizam tànto no nível inter­
no dos apenados como, e sobretudo, no nível da interação entre os 
grupos socioprisionais. Destaca Mátthews (20Ó3, p. 100), abordando 
as contribuições de Foucault: “A partir de la publicación de Vigilar 
y castigar es ya imposible ver el funcionamiento de la prisión de la 
misma forma o conceptualizar los aspectos de poder y control como 
antes”. Ao que já observara, aproximando as contribuições de Sykes 
e Foucault:
De igual manera que Gresham Sykes (1958) identifica el orden 
en la cárcel como el producto de un proceso de negociación entre el 
personal y los reclusos, Foucault ve a los guardianes y a" los reclusos 
en una relación de poder que se define y se restringe mutuamente. Esto. 
no significa que esas relaciones de poder sean simétricas, pero sí que 
no es un juego con el tanteador en blanco (2003, 97-98).
Nesse processo de relações assimétricas se originam, também, 
as organizações internas da sociedade reclusa, competindo com a 
organização oficial pelo acesso privilegiado ao exercício do poder no 
espaço interno e nas dinâmicas que a este pertinem, avançando, em 
muitos casos, para o espaço extramuros, quando, então, se associam 
com o chamado “crime organizado”, ou gerenciam, nessè sentido, 
unidades suas.
O Brasil vivência casos óomo o do Comando Vermelho, que tem 
sua origem na confluência de ideários de presos políticos e comuns, 
em fins da década de 1970 no sistema penitenciário