A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
245 pág.
Luiz Antônio Bogo Chies - A Capitalização do Tempo Social na Prisão - Ano 2008

Pré-visualização | Página 26 de 50

a esses seja menos problemático assumir as metas 
e os objetivos organizacionais penitenciários, enfrentarão problemas 
decorrentes de sua origem externa, como já mencionamos, tais como 
o próprio desconhecimento aprofundado das peculiaridades sociopri­
sionais, sendo, pois, forçados a adotar posturas arbitrárias ou dema­
siadamente negociais no exercício do poder administrativo.
GRUPOS NA SOCIEDADE CARCERÁRIA 95
Já as administrações de origem endógena à burocracia institucio­
nal tendem a assegurar com maior prioridade os interesses de grupos 
específicos da organização - não raras vezes numa estratégia de auto- 
proteção - em detrimento dos objetivos organizacionais compartilhados 
pelos diversos grupos; salientando-se, aqui, que no ambiente prisional, 
no qual um dos grupos é mantido cativo, em regra, contra a própria 
vontade, com dificuldade serão localizados níveis satisfatórios de 
consenso em tomo de objetivos compartilhados, se é que tais assim 
podem ser considerados em qualquer nível.
Mas, não obstante isso, a importância de tal grupo dentro de um 
ambiente socioestruturado que se pode caracterizar como sendo um 
sistema de poder - como Sykes (1958) já destaca desde seu trabalho 
na década de 1950 - reside tanto no fato de que este, por se situar 
no topo da hierarquia formal de poder, possui a competência diretiva 
oficial da instituição, constituindo-se no braço executor das políticas 
punitivas e de controle social mais amplas, oriundas das instâncias 
oficiais, sendo um representante direto ou um parceiro destas (no caso 
das administrações privadas), como, também, no fato de que seus 
atos e enfoques deixam indeléveis marcas nas dinâmicas, relações e 
processos intra-institucionais.
Nesse sentido, podemos retomar nossa lembrança à descrição 
comparativa de Lemgruber (1999, p. 65-78) acerca de dois modelos 
administrativos experenciados nõ Instituto Penal Talavera feruce
- conforme já referimos - para reforçar o entendimento de que o 
grupo administrativo (seu modelo de gênese, as estratégias que im­
planta, os compromissos organizacionais que possui, as negociações 
de poder que realiza etc.) se constitui num importante elemento das 
análises socioprisionais.
níssonos são os trabalhos socioprisionais em reconhecer o caráter
ambivalente dos Agentes Penitenciários (ou guardas) na sociedade 
carcerária. Sem maiores divergências, ou tão-somente expondo mais 
detalhadamente a ambigüidade dessa categoria de funcionários peni­
tenciários, estudos como os de Sykes (1958, p. 55-58), de Neuman e 
Irurzun (1994, p. 22-5), de ThompsonJ( 1991, p. 39-52), de Lemgru­
ber (1999, 78-90) e de Pedro Rodolfo Bodê de Moraes (2005), entre
2.2 AGENTES PENITENCIÁRIOS
96 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
outros, expõem elementos como a posição intermediária que ocupam 
na estrutura carcerária — ou seja: entre o topo da administração e os 
internos - e o conflito de “lealdades” a que a posição conduz, inclu­
sive pelo íntimo contato com os internos, a seletividade das camadas 
sociais que ingressam na carreira, os baixos salários e os níveis de 
educação formal como contributivos para a ambivalência na qual os 
participantes desse grupo são lançados.
Centurião faz significativa síntese da condição ambígua ocupada 
pelos Agentes Penitenciários em seu contexto relacionai:
[...] um grupo como o dos agentes penitenciários, que teoricamente 
daria o modelo contrastivo à sociedade dos reclusos, e que exerce em 
princípio o controle direto sobre estes, encerra características ambíguas. 
Situa-se em um a condição de liminariedade. Por um lado, utiliza os 
estereótipos da sociedade civil, e mantém o distanciamento cultural em 
relação ao recluso, enquanto representante dos valores, ou princípios, 
atacados por este. Por outro lado, ocorre o contrário. Ou seja, compartilha 
da visão de mundo e das práticas do apenado. Assim, as conotações de 
distanciamento cultural que seriam cabíveis pela oposição delinqüentelnão 
delinqüente são anuladas, na medida em que o agente penitenciário atua 
como participante da subcultura carcerária e como informado, no sentido 
de ser alguém que tem um conhecimento do mundo do crime que não 
é compartilhado pelo público leigo. Nessa condição, ele compartilha 
em certa medida, e em alguns casos totalmente, com os valores do 
apenado, podendo unificar com este um modelo de relações práticas e, 
nesse âmbito, a distinção entre apenado e agente muitas vezes é apenas 
uma distinção formal. Assim o agente penitenciário pode ser apenas 
um tipo especial de delinqüente que ocupa uma posição estratégica na 
rede de práticas delictivas intracarceráriás (2001, p. 93).
No Brasil a ocúpação funcional ou profissional na carceragem — seja 
denominada de carcereiro, guarda ou Agente Penitenciário — não goza 
de significativo prestígio; pelo contrário, os estereótipos aos quais está 
vinculada a convertem quase num estigma, sofrendo os que ocupam 
tais cargos, não raramente, também processos de rotulação.
Bôde de Moraes registra não só o éstigma do Agente Penitenciá­
rio como, também, a própria resistência que se encontra ao buscar o 
contato como eles, ainda que em sede de pesquisa científica:
Mas, se trabalhar na prisão já é, por todos esses motivos, compli­
cado, as coisas, pelo menos pra nós, ficaram piores porque se tratava
GRUPOS NA SOCIEDADE CARCERÁRIA 97
de estudar os agentes penitenciários — um grupo pouco conhecido 
cientificamente, mas absolutamente antipatizado e visto como composto 
por indivíduos “maus”, “torturadores”, “corruptos”, enfim, piores do 
que aqueles que eles “guardam” e “vigiam” (2005, p. 43).
O imediato relato de Bodê de Moraes amplia a percepção dra­
mática de marginalidade conferida pelo estereótipo que pesa sobre o 
grupo e pela insuficiente cognição científica do mesmo:
Em certa ocasião fomos questionados, por um militante de direitos 
humanos que atuava nas prisões, porque nós, “membros de um grupo 
de direitos humanos, não estudávamos os presos” que são “os que mais 
precisam de ajuda” . Argumentamos que, se este era o problema, por 
que não ajudaria também estudar os agentes penitenciários?” e, assim, 
conhecer melhor o sistema penitenciário na sua totalidade e, então, 
pensar em formas de intervenções du políticas públicas? Obtivemos 
como resposta que o que á maioria dos agentes penitenciários fazia era 
atrapalhar a tentativa de recuperação dos presos, porque eles seriam 
“todos violentos, muitos torturadores e sádicos” (2005, p. 43).
Numa pesquisa que realizamos junto aos funcionários do Presídio 
Regional de Pelotas (Rio Grande do Sul), e na qual foram estabelecidas 
faixas de valorização, indiferença e desvalorização, considerando-se 
também o somatório das faixas de indiferença e desvalorização como 
indicativo^ de insuficiente valorização, os entrevistados percebem-se 
insuficientemente valorizados pela Sociedade em 73,33% das opções 
de resposta, pelos Juizes e pelas Equipes Técnicas no percentual de 
63,33% dos pesquisados, pelos Presos em 60% das opções, pelos 
Promotores de Justiça, pelos Advogados e pelos próprios colegas 
Agentes em 50% das respostas. A menor fonte de insuficiente va­
lorização é a Administração Penitenciária, com 46,67% das opções, 
na soma das faixas, em contraste com a Susepe3, que aparece como 
a maior fonte de insuficiente valorização entre todos ds grupos de 
referência questionados, atingindo o índice de 83,34% das respostas 
(CHIES et al., 2001).
Convém considerar que no Brasil, historicamente, como demons­
tra a pesquisa de Rosalice Lopes, “os carcereiros eram vítimas da
3 SUSEPE - Superintendência dos Serviços Penitenciários - órgão responsável pela 
administração do sistema penitenciário no Estado do Rio Grande do Sul, vinculado 
à Secretaria da Justiça e Segurança.
98 A CAPITALIZAÇÃO DO TEMPO SOCIAL NA PRISÃO
não-escolha profissional