Prévia do material em texto
2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 1 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 2 Olá, Alunos! Sejam bem-vindos! Esse material foi elaborado com muito carinho para que você possa absorver da melhor forma possível os conteúdos e se preparar para a sua 2ª fase, e deve ser utilizado de forma complementar junto com as aulas. Qualquer dúvida ficamos à disposição via plataforma “pergunte ao professor”. Lembre-se: o seu sonho também é o nosso! Bons estudos! Estamos com você até a sua aprovação! Com carinho, Equipe Ceisc ♥ 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 3 2ª FASE OAB | PENAL | 43º EXAME Direito Penal SUMÁRIO Prescrição 1.1 Conceito ..........................................................................................................6 1.2 Espécies de Prescrição ...................................................................................6 1.3 Efeitos da Prescrição ......................................................................................7 1.4 Prescrição da pretensão punitiva ....................................................................8 1.4.1. Prescrição da pretensão punitiva em abstrato ou propriamente dita ...........9 1.4.1.1. Cálculo do prazo da prescrição da pretensão punitiva em abstrato .........9 1.4.1.2. Termo inicial da prescrição da pretensão punitiva em abstrato .............. 12 1.4.1.3. Causas interruptivas da prescrição da pretensão punitiva ..................... 14 1.4.1.4. Hipóteses de incidência da prescrição da pretensão punitiva ................ 16 1.4.1.4. Hipóteses de incidência da prescrição da pretensão punitiva em abstrato16 1.4.2. Prescrição da pretensão punitiva retroativa .............................................. 24 1.4.2.1. Cálculo do prazo da prescrição da pretensão punitiva retroativa ........... 26 1.4.2.2. Hipóteses de incidência da prescrição da pretensão punitiva retroativa nos crimes diversos do Procedimento do Tribunal do Júri ......................................... 26 1.4.3. Prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente ............. 30 1.4.3.1. Pressupostos .......................................................................................... 31 1.4.3.2. Cálculo do prazo da prescrição da pretensão punitiva superveniente ... 31 1.4.3.3. Hipótese de incidência da prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente ................................................................................................... 32 1.5 Prescrição da pretensão executória .............................................................. 33 1.5.1. Termos iniciais .......................................................................................... 34 1.5.2. Causas interruptivas .................................................................................. 36 1.5.3. Prescrição no caso de evasão do condenado ou de revogação do livramento condicional .......................................................................................................... 37 1.5.4. Algumas hipóteses de incidência da prescrição da pretensão executória 38 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 4 Olá, aluno(a). Este material de apoio foi organizado com base nas aulas do curso preparatório para a 2ª Fase do 43º Exame da OAB e deve ser utilizado como um roteiro para as respectivas aulas. Além disso, recomenda-se que o aluno assista as aulas acompanhado da legislação pertinente. Bons estudos, Equipe Ceisc. Atualizado em abril de 2025. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 5 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 6 Prescrição Prof. Nidal Ahmad @prof.nidal 1.1 Conceito Quando um indivíduo pratica, em tese, um fato típico e ilícito, surge para o Estado o poder e o dever de buscar a punição do responsável, ou seja, a pretensão punitiva. E essa punição é concretizada com a sentença penal condenatória transitada em julgado, com a imposição de uma pena, surgindo, a partir de então, a pretensão executória dessa pena. Todavia, o exercício da pretensão punitiva e executória do Estado não é ilimitada ou perpétua; não perdura, pois, como regra, por tempo indeterminado. O direito de punir e de executar a pena imposta ao apenado encontra limites temporais, que, se não observados, podem levar à extinção da punibilidade do agente pela incidência prescrição da pretensão punitiva ou prescrição da pretensão executória. A prescrição penal, pois, é a perda da pretensão punitiva ou executória do Estado pelo decurso do tempo sem o seu exercício. 1.2 Espécies de Prescrição Com a prática do crime, o direito abstrato de punir do Estado concretiza-se, dando origem a um conflito entre o direito estatal de punir e o direito de liberdade do indivíduo. Assim, praticado o crime e antes de a sentença penal transitar em julgado, o Estado é titular da pretensão punitiva em busca da prestação jurisdicional postulada na peça acusatória. Com o trânsito em julgado da decisão condenatória, o jus puniendi concreto transforma- se em jus punitionis, isto é, a pretensão punitiva converte-se em pretensão executória. Assim, pode-se verificar duas espécies de prescrição: a) prescrição da pretensão punitiva propriamente dita; b) prescrição da pretensão executória. Na prescrição da pretensão punitiva há uma subdivisão, apresentando três modalidades: a) prescrição da pretensão punitiva em abstrato; b) prescrição da pretensão punitiva retroativa; c) prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente. Na prescrição da pretensão punitiva, o decurso do tempo faz com que o Estado perca o direito de punir no tocante à pretensão de o poder judiciário julgar a lide e aplicar a sanção penal. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 7 Prescrição da pretensão punitiva TRÂNSITO EM JULGADO DA SENTENÇA PENAL CONDENATÓRIA Prescrição da pretensão executória O marco divisório para identificação da espécie de prescrição é o trânsito em julgado da sentença condenatória. A prescrição da pretensão punitiva ocorre antes de a sentença final transitar em julgado (CP, art. 109, caput). Exemplo: Suponha-se que um sujeito cometa um crime de lesão corporal leve (pena de 03 meses a 01 ano), não se descobrindo a autoria. Se o Estado, dentro do prazo de 4 (quatro) anos, não exercer o jus perseqüendi in juditio, opera-se a extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão punitiva. Na prescrição da pretensão executória, o decurso do tempo sem o seu exercício faz com que o Estado perca o direito de executar a sanção imposta na sentença condenatória. A prescrição da pretensão executória ocorre após o trânsito em julgado da sentença condenatória (CP, art. 110, caput). Exemplo: Suponha-se que o agente tenha sido condenado irrecorrivelmente a três meses de detenção pela prática de lesão corporal leve, não fazendo jus ao sursis. Se o Estado não iniciar a execução da pena no prazo de três anos, opera-se a extinção da punibilidade pela prescrição da pretensão executória. *Para todos verem: esquema. *Para todos verem: Esquema. Prescrição Espécies Prescrição da pretensão punitiva Prescrição da pretensão punitiva em abstrato ou propriamente dita Prescrição da pretensão punitiva retroativa Prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente Prescrição da pretensão executória 2ª Fase Penal | 43º Exameque o réu tenha sido denunciado por ter praticado no dia 5 de outubro de 2010 crime de roubo simples (CP, art. 157, caput). A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2011. Após regular tramitação do processo, no dia 15 de junho de 2012, o Magistrado proferiu sentença condenatória, aplicando pena de 4 (quatro) anos, transitando em julgado a sentença para todos, e, portanto, também para a acusação, no dia 25 de junho de 2012. Após expedição e cumprimento do mandado de prisão, o réu iniciou a cumprir a pena no dia 10 de maio de 2014. No dia 15 de junho de 2016, restando, portanto, aproximadamente 1 (ano) e 11 (onze) meses para o término da pena, o apenado empreendeu fuga. No dia 18 de agosto de 2020, em patrulhamento de rotina, policiais abordaram o condenado, e verificaram que havia um mandado de prisão contra ele, razão pela qual o levaram para o estabelecimento carcerário. Nesse caso, verifica-se que não há incidência da prescrição da pretensão executória. A base de cálculo para será o tempo restante da pena, qual seja, 1 (um) ano e 11 (onze) meses. Logo, o prazo prescricional de 4 (quatro) anos (CP, art. 109, V). O termo inicial é a data da fuga do condenado, qual seja, 15/06/2016. Agora, considerando o novo prazo prescricional, com base na aplicada, bem como o termo inicial, deve-se verificar se não incidiu a prescrição da pretensão executória. E, no caso, forçoso concluir que incidiu a prescrição da pretensão executória, pois entre a data da fuga do condenado (15/06/2016) e a data em que foi capturado (18/08/2020), passaram-se mais de 4 (quatro) anos. Logo, deve-se declarar a extinção da punibilidade do condenado, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, permanecendo hígidos os efeitos secundários, penais e extrapenais, da sentença condenatória. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 40 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 41de Ordem 8 1.3 Efeitos da Prescrição Os efeitos da prescrição da pretensão punitiva e da prescrição da pretensão executória são distintos. a) Prescrição da pretensão punitiva A prescrição da pretensão punitiva elimina o próprio exercício da ação penal, seja na fase investigatória ou durante o processo judicial. Se a incidência da prescrição ocorrer ainda na fase investigatória, deve o inquérito policial ser arquivado; se oferecida a denúncia, a peça acusatória deverá ser rejeitada, já que ausente o interesse de agir (CPP, art. 395, II); se recebida a denúncia, com citação do réu, deverá ser declarada a extinção da punibilidade, com absolvição sumária do réu (CPP, art. 397, IV). Se incidir a qualquer tempo após a resposta à acusação, deverá ser declarada extinta a punibilidade do acusado, nos termos do artigo 107, IV, do Código Penal. A prescrição da pretensão punitiva ocorre antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, razão pela qual não gera efeitos penais, como, por exemplo, para fins de reincidência ou maus antecedentes, nem extrapenais, como o dever de reparar o dano, pois não haverá formação do título executivo. b) Prescrição da pretensão executória A prescrição da pretensão executória pressupõe sentença condenatória transitada em julgado, incidindo, pois, na fase de execução da pena. Logo, compete ao juízo da execução penal reconhecer a prescrição executória, e declarar a extinção da punibilidade, nos termos do artigo 66, II, da Lei de Execução Penal, reconhecer a prescrição executória, e declarar a extinção da punibilidade, com base no artigo 107, IV, do CP. Se o pedido formulado for indeferido, caberá contra essa decisão o recurso de agravo em execução (LEP, art. 197). Como há sentença condenatória transitada em julgado, a prescrição da pretensão executória não apaga os efeitos da condenação, permanecendo, pois, hígidos os efeitos secundários da condenação tanto na esfera penal, como no campo extrapenal. Assim, a prescrição da pretensão executória não cessa os efeitos da sentença condenatória definitiva para fins de reincidência ou maus antecedentes, bem como mantém a possibilidade de ação de execução ex delicto, já que mantém o status de título executivo. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 9 1.4 Prescrição da pretensão punitiva A prescrição da pretensão punitiva incide antes da sentença penal transitar em julgado, e se subdivide em: a) prescrição da pretensão punitiva em abstrato; b) prescrição da pretensão punitiva retroativa; c) prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente. *Para todos verem: esquema. Conforme a espécie de prescrição, altera-se a forma do cálculo, os termos iniciais, bem como o momento processual que poderá ser reconhecida. Por isso, para melhor compreensão do leitor, afigura-se necessário estudo individualizado de cada uma dessas espécies. 1.4.1. Prescrição da pretensão punitiva em abstrato ou propriamente dita A prescrição da pretensão punitiva em abstrato ou propriamente dita está prevista no artigo 109, caput, do Código Penal, e poderá incidir, como regra: a) entre a data da consumação do fato e a do recebimento da denúncia; b) entre a data do recebimento da denúncia e da publicação da sentença penal condenatória; c) entre a data do recebimento da denúncia até a fase recursal, na hipótese de sentença absolutória. 1.4.1.1. Cálculo do prazo da prescrição da pretensão punitiva em abstrato Quando alguém é acusado de praticar uma infração penal é como se um cronômetro fosse acionado, passando a correr o prazo para o Estado punir o cidadão. Como ainda não há nenhum elemento ou fator concreto que possa servir de parâmetro para esse cálculo, o legislador estabeleceu como base para o cálculo da prescrição da Prescrição da pretensão punitiva Prescrição da pretensão punitiva em abstrato ou propriamente dita Prescrição da pretensão punitiva retroativa Prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 10 pretensão punitiva em abstrato a pena máxima cominada ao delito pelo qual o agente está sendo acusado (CP, art. 109, caput). Para encontrar o prazo de prescrição da pretensão punitiva em abstrato, deve-se, primeiro, ser verificado a pena máxima prevista para o delito, para, após, enquadrá-la no correspondente inciso do artigo 109 do Código Penal. Assim, para saber o prazo da prescrição da pretensão punitiva em abstrato do crime de homicídio, que prevê pena de 6 (seis) a 20 (vinte) anos, deve-se enquadrar a pena máxima (20 anos) no correspondente inciso do artigo 109 do Código Penal. No caso, a pena máxima de 20 (vinte) anos, enquadra-se no art. 109, I, do Código Penal, razão pela qual o prazo prescricional do crime de homicídio é de 20 (vinte) anos. *Para todos verem: Esquema. Máximo da pena privativa de liberdade cominada Prazo prescricional Homicídio: pena máxima de 20 (vinte) anos 20 (vinte) anos (art. 109, I, CP) Da mesma forma, para saber o prazo da prescrição da pretensão punitiva em abstrato do crime de furto simples, que prevê pena de 1 (um) a 4 (quatro) anos, deve-se enquadrar a pena máxima (4 anos) no correspondente inciso do artigo 109 do Código Penal. No caso, a pena máxima de 4 (quatro) anos enquadra-se no art. 109, IV, do Código Penal, razão pela qual o prazo prescricional do crime de furto simples é de 8 (oito) anos. *Para todos verem: Esquema. Máximo da pena privativa de liberdade cominada Prazo prescricional Furto simples: pena máxima de 4 (quatro) anos 8 (oito) anos (art. 109, IV, CP) Para efeito de contagem do prazo da prescrição da pretensão punitiva são levadas em conta as causas de aumento e de diminuição da pena. As agravantes e as atenuantes, salvo a relacionada à menoridade relativa e senilidade (CP, art. 115), não influenciam no cálculo do prazo da prescrição da pretensão punitiva em abstrato, já que não há parâmetro estabelecido em lei do quantum do agravamento e da atenuação, ficando, pois, a cargo da discricionariedade do juiz. • Causas de aumento de pena 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 11 Em relação à causa de aumento de pena, deve-se considerar a fração que mais aumenta, a fim de ser alcançada a pena máxima cominada ao delito na forma majorada. Assim, se, por exemplo, o agente praticar o crime de roubo majorado pelo emprego de arma branca, a pena será aumentada de 1/3 (um terço) até a metade (CP, art. 157, § 2º, VII). Nesse caso, para fins de verificação da prescrição, deve-se considerar a pena máxima do crime de roubo (dez anos) e elevar em metade (fração que mais aumenta), chegando à pena máxima do crime de roubo majorado pelo emprego de arma branca em 15 (quinze) anos. Agora, resta enquadrar essa pena máxima no inciso I do artigo 109 do Código Penal, para constatar que o prazo prescricional será de 20 (vinte) anos. *Para todos verem: Esquema. Máximo da pena privativa de liberdade cominada Prazo prescricional Roubo majorado pelo emprego de arma de fogo: Pena máxima = 15 (quinze) anos, resultado do acréscimo de metade sobre a pena máxima de 10 (dez) anos cominada ao crime de roubo simples. 20 (vinte) anos (art. 109, I, CP) • Causas de diminuição da pena Em relação à causa de diminuição da pena, deve-se considerar a fração que menos diminua, para alcançar a pena máxima cominada ao delito praticado, com incidência de causa de redução da pena. Imaginemos que o agente tenha praticado o crime de estelionato simples tentado (CP, art. 171 c/c 14, II). A pena do crime de estelionato varia de 1 (um) a 5 (cinco) anos, sobre a qual recai a redução de um a dois terços, em decorrência da tentativa (CP, art. 14, parágrafo único). Logo, deve-se considerar a pena de 5 (cinco) anos e diminui-la de um terço (1/3), como forma de alcançar a pena máxima do crime de estelionatotentado, que, no caso, será de 3 (três) anos e 4 (quatro) meses. Agora, resta enquadrar essa pena máxima do estelionato simples tentado no inciso IV do artigo 109 do Código Penal, para constatar que o prazo prescricional será de 8 (oito) anos. *Para todos verem: Esquema. Máximo da pena privativa de liberdade cominada Prazo prescricional 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 12 Estelionato simples tentado: Pena máxima = 3 (três) anos e 4 (quatro) meses, resultado da diminuição de 1/3 sobre a pena máxima de 8 (oito) anos cominada ao crime de furto simples. 8 (oito) anos (art. 109, IV, CP) • Concurso de crimes No caso de concurso de crimes, o prazo da prescrição da pretensão punitiva deve considerar a pena máxima cominada a cada infração penal, isoladamente (CP, art. 119). Logo, o critério da exasperação da pena e do cúmulo material não é considerado para verificação do prazo prescricional. Assim, se, por exemplo, o agente praticou três crimes de furto simples, em continuidade delitiva, o prazo da prescrição da pretensão punitiva deve ser verificado isoladamente, em relação a cada um dos crimes, ignorando em absoluto a exasperação da pena de um sexto e dois terços, prevista no artigo 71, caput, do Código Penal. É o que se extrai também da Súmula 497 do STF. 1.4.1.2. Termo inicial da prescrição da pretensão punitiva em abstrato O prazo prescricional, como dito, é verificado com base nos prazos previstos no artigo 109 do Código Penal. Após encontrar o prazo prescricional pertinente à infração penal pelo qual o agente está sendo acusado, deve-se verificar em que momento esse prazo começa a correr, ou seja, o termo inicial da contagem do prazo prescricional. Nos termos do artigo 111 do Código Penal, a prescrição, antes de transitar em julgado a sentença final, começa a correr: I) Do dia em que o crime se consumou Para fins de termo inicial da prescrição da pretensão punitiva em abstrato, aplica-se, como regra, a teoria do resultado, devendo ser considerado o dia da consumação do delito. II) No caso de tentativa, do dia em que cessou a atividade criminosa Em relação ao crime tentado, o prazo prescricional começará a correr na data em que foi praticado o último ato de execução. Assim, se, por exemplo, no contexto de tentativa de homicídio, os disparos foram efetuados num determinado dia, sem, no entanto, ocorrer a consumação por circunstâncias alheias à sua vontade, o prazo prescricional começará a correr na data dos disparos. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 13 Todavia, se a vítima foi encaminhada para o hospital, onde ficou convalescendo por cerca de dois meses, mas não resiste aos ferimentos, vindo a óbito, o prazo prescricional do crime de homicídio consumado começará a correr da data do falecimento da vítima, ou seja, na data da consumação do delito, que ocorreu dois meses depois do último ato executório. III) Nos crimes permanentes, do dia em que cessou a permanência No crime permanente, a prescrição começa a correr do dia em que cessou a permanência. Suponha-se, por exemplo, que a vítima de sequestro permaneça em poder do agente pelo período de 30 (trinta) dias, sendo, ao final, resgatada. O termo inicial da prescrição da pretensão punitiva pela prática do crime de sequestro (CP, art. 148) será a data em que a vítima foi resgatada ou liberada, ou seja, no dia em que cessou a prática do crime permanente. IV) Nos de bigamia e nos de falsificação ou alteração de assentamento do registro civil, da data em que o fato se tornou conhecido Nos crimes de bigamia (CP, art. 235) e de falsificação ou alteração de assentamento de registro civil (CP, art. 299, parágrafo único), a prescrição começa a correr da data em que o fato se tornou conhecido de qualquer autoridade pública. Não se afigura necessário se revestir de formalidade esse conhecimento, bastando que a autoridade pública tenha tomado ciência até mesmo diante da notoriedade que o fato teria alcançado. V) Nos crimes contra a dignidade sexual ou que envolvam violência contra a criança e o adolescente, previstos neste Código ou em legislação especial, da data em que a vítima completar 18 (dezoito) anos, salvo se a esse tempo já houver sido proposta a ação penal. Nos crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes, previstos no Código Penal ou em legislação especial, o termo inicial da prescrição ocorre da data em que a vítima completar dezoito anos, salvo se a esse tempo já houver sido proposta a ação penal (CP, art. 111, V). Esse inciso foi alterado no Código Penal pela Lei nº 14.344/2022. Nesse sentido, se uma criança de 10 (dez) anos for vítima de crime de estupro de vulnerável (CP, art. 217-A), por exemplo, e a ação ainda não tiver sido instaurada, o prazo prescricional passará a correr a partir da data em que ela completar 18 (dezoito) anos. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 14 Se ação já tiver sido proposta, não se aplica o disposto no artigo 111, V, do Código Penal, começando a correr o prazo prescricional da data em que foi ajuizada a ação penal (e não da data da consumação do delito). Isso porque até o oferecimento da denúncia, o prazo prescricional aguardava a vítima completar 18 (dezoito) anos para começar a correr. Como a denúncia foi oferecida antes da vítima completar essa idade, o termo inicial da prescrição da pretensão punitiva será o oferecimento da peça acusatória, sendo o prazo interrompido com o recebimento da denúncia (CP, art. 117, I), voltando a correr até o próximo marco interruptivo, que seria a publicação de eventual sentença penal condenatória (CP, art. 117, IV). 1.4.1.3. Causas interruptivas da prescrição da pretensão punitiva Após encontrar o prazo prescricional e verificar o termo inicial, afigura-se indispensável identificar as causas interruptivas do curso do prazo prescricional, relacionadas, invariavelmente, ao momento procedimental em que ação penal se encontra. Conforme se extrai do artigo 117, § 2º, do Código Penal, uma vez interrompida a prescrição, todo o prazo começa a correr novamente do dia da interrupção. Consideremos que o prazo prescricional comece a correr a partir do dia da consumação do delito, com o recebimento da denúncia ou queixa, a contagem desse prazo é interrompida, voltando a correr, por inteiro, a partir da data da interrupção. Assim, se, por exemplo, o agente estiver sendo acusado pela prática do crime de furto simples, cuja pena cominada varia de 1 (um) a 4 (quatro) anos (CP, art. 155, caput), o prazo prescricional de 8 (oito) anos (CP, art. 107, IV) começa a correr a partir da consumação do delito. Consideremos que a denúncia tenha sido recebida 5 (cinco) anos depois da consumação. Nesse caso, a contagem do prazo prescricional será interrompida, voltando a correr, por inteiro (ou seja, o prazo de 8 anos), a partir da data da interrupção da prescrição. As causas interruptivas da prescrição da pretensão punitiva estão previstas no artigo 117, I a IV, do Código Penal: Art. 117 - O curso da prescrição interrompe-se: I - pelo recebimento da denúncia ou da queixa; II - pela pronúncia; III - pela decisão confirmatória da pronúncia; IV - pela publicação da sentença ou acórdão condenatórios recorríveis; (...) 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 15 As hipóteses previstas nos incisos V (pelo início ou continuação do cumprimento da pena) e VI (pela reincidência) guardam relação com a prescrição da pretensão executória, e serão analisadas no momento oportuno. A verificação das causas interruptivas da prescrição é de fundamental importância, pois, invariavelmente, a prescrição incide no intervalo entre os marcos interruptivos. Com efeito, no procedimento diverso do Tribunal do Júri, a prescrição da pretensão punitiva em abstrato poderá incidir: a) entre a data da consumação do delitoaté o recebimento da denúncia; b) entre a data do recebimento da denúncia e a data da publicação da sentença condenatória; c) entre a data do recebimento da denúncia até a fase recursal, na hipótese de sentença absolutória. Note-se que, nesse caso, a publicação da sentença absolutória não constitui causa de interrupção da prescrição, razão pela qual o prazo começa a correr da data do recebimento da denúncia e não se interrompe com a sentença absolutória. Em relação ao procedimento do Tribunal do Júri, a prescrição da pretensão punitiva em abstrato poderá incidir entre: a) a data da consumação do delito até a data do recebimento da denúncia; b) entre a data do recebimento da denúncia e a data da decisão de pronúncia; c) Data da publicação da sentença condenatória art. 117, IV, CP Momento da prescrição 2 Momento da prescrição 1 Data do recebimento da denúncia art. 117, I, CP Data da consumação Data da publicação da sentença absolutória Momento da prescrição 2 Momento da prescrição 1 Data do recebimento da denúncia art. 117, I, CP Data da consumação Fase recursal 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 16 entre a data da decisão de pronúncia e a data da decisão confirmatória da pronúncia, se interposto recurso contra decisão de pronúncia; d) entre a data da decisão de pronúncia e a data da publicação da sentença penal condenatória, se não interposto recurso contra decisão de pronúncia; e) entre a data da decisão confirmatória da pronúncia e a data da publicação da sentença penal condenatória. 17.4.1.4. Hipóteses de incidência da prescrição da pretensão punitiva 1.4.1.4. Hipóteses de incidência da prescrição da pretensão punitiva em abstrato A partir da verificação do prazo prescricional e do termo inicial, levando em conta as causas interruptivas da prescrição, afigura-se possível definir alguns cenários de incidência da prescrição da pretensão punitiva em abstrato, distinguindo as hipóteses envolvendo procedimento diverso do Tribunal do Júri e procedimento do Tribunal do Júri. A) Procedimento diverso do Tribunal do Júri Conforme exposto alhures, a prescrição envolvendo crimes não dolosos contra a vida, que não seguem o procedimento do Tribunal do Júri, incide: a) entre a data da consumação do delito e a data do recebimento da denúncia ou queixa; b) entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a data da publicação da sentença penal condenatória; c) entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a fase recursal, no contexto de sentença absolutória. I) entre a data da consumação e a data do recebimento da denúncia ou queixa Conforme o artigo 111, I, do Código Penal, o prazo da prescrição da pretensão punitiva começa a correr, como regra, a partir da consumação do delito, tendo como primeiro marco interruptivo o recebimento da denúncia ou queixa (CP, art. 117, I). Data da decisão de pronúncia art. 117, II, CP Momento da prescrição 2 Momento da prescrição 1 Data do recebimento da denúncia art. 117, I, CP Data da consumação Data da decisão confirmatória da pronúncia Art. 117, III, CP Momento da prescrição 4 Data da publicação da sentença condenatória Art. 117, IV, CP Momento da prescrição 3 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 17 Nesse cenário, imaginemos que foi praticado um crime de furto simples (CP, art. 155) no dia 5 de outubro de 2010. Instaurado o respectivo inquérito policial, a investigação se desenvolveu de forma bastante lenta, não avançando quanto à identificação da autoria do delito, mas recaindo a suspeita em relação ao agente “A”. Concluído o inquérito policial, o procedimento investigatório foi encaminhado para o Ministério Público no dia 10 de novembro de 2018. Nesse caso, considerando-se a pena máxima do crime de furto simples (04 anos), o prazo prescricional será de 8 (oito) anos, conforme o artigo 109, IV, do Código Penal. Logo, forçoso concluir que, no caso, incidiu a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, pois entre a data da consumação do crime de furto e o dia 10 de novembro de 2018 passaram-se mais de 8 (oito) anos sem o recebimento da denúncia e, por conseguinte, a interrupção do prazo prescricional. Resta declarar extinta a punibilidade do agente, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, com extinção e baixa do expediente criminal. Para que não incidisse a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, o Estado teria até o dia 04/10/2018 para o recebimento da denúncia, e, por consequência, interrupção do prazo prescricional, com o recomeço da contagem por inteiro. II) entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a data da publicação da sentença condenatória Com o recebimento da denúncia ou queixa, interrompe-se o curso do prazo prescricional, voltando a correr por inteiro até o próximo marco interruptivo, consistente na publicação da sentença penal condenatória (CP, art. 117, IV). 10/11/2018 PPPA Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2010 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 18 15.03.2012 PPPA Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05.10.2010 10.06.2016 Sentença absolutória Apelação do MP 20.04.2020 Recuso ainda não julgado Imaginemos que o réu foi denunciado por ter praticado crime de furto simples (CP, art. 155) no dia 5 de outubro de 2010. A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2012. A ação penal se desenvolveu de forma bastante lenta, estando, até o dia 20 de abril de 2020, na fase de instrução processual, não tendo sido, portanto, proferida sentença. Nesse caso, considerando-se a pena máxima do crime de furto simples (04 anos), o prazo prescricional será de 8 (oito) anos, conforme o artigo 109, IV, do Código Penal. Logo, forçoso concluir que, no caso, incidiu a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, pois entre a data do recebimento da denúncia (15/03/2012) e o dia 20 de abril de 2020 passaram-se mais de 8 (oito) anos sem publicação da sentença penal condenatória, e, por conseguinte, a interrupção do prazo prescricional. Resta declarar extinta a punibilidade do agente, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, com extinção e baixa do processo. Para que não incidisse a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, o Estado teria até o dia 14.03.2020 para a publicação da sentença penal condenatória, e, por consequência, interrupção do prazo prescricional, com o recomeço da contagem por inteiro. III) entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a fase recursal, considerando sentença absolutória Consoante se extrai do artigo 117, IV, do Código Penal, somente a sentença penal condenatória tem o condão de interromper o prazo prescricional. Logo, se proferida sentença absolutória, não haverá interrupção do prazo prescricional, que continuará correndo desde o recebimento da denúncia. Exemplo: o réu denunciado por ter praticado o crime de furto simples (CP, art. 155) no dia 5 de outubro de 2010. A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2012. Após regular andamento do processo, o Magistrado proferiu, no dia 10 de junho de 2016 sentença 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 19 absolutória. Irresignado, o Ministério Público interpôs recurso de apelação, que, até o dia 20.04.2020, ainda não havia sido pautado para ser submetido a julgamento pelo Tribunal de Justiça. Nesse caso, considerando-se a pena máxima do crime de furto simples (04 anos), o prazo prescricional será de 8 (oito) anos, conforme o artigo 109, IV, do Código Penal. Logo, forçoso concluir que, no caso, incidiu a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, pois entre a data do recebimento da denúncia (15/03/2012) e o dia 20 de abril de 2020 passaram-se mais de 8 (oito) anos, sem publicação de eventual acórdão condenatório,e, por conseguinte, a interrupção do prazo prescricional. Resta declarar extinta a punibilidade do agente, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, com extinção e baixa do processo. Para que não incidisse a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, o Estado teria até o dia 14/03/2020 para a publicação do acórdão condenatório, e, por consequência, interrupção do prazo prescricional, com o recomeço da contagem por inteiro. B) Procedimento do Tribunal do Júri Em relação ao procedimento do Tribunal do Júri, a prescrição da pretensão punitiva em abstrato poderá incidir entre: a) entre a data da consumação do delito até a data do recebimento da denúncia; b) entre a data do recebimento da denúncia e a data da decisão de pronúncia; c) entre a data da decisão de pronúncia e a data da decisão confirmatória da pronúncia; d) entre a data da decisão de pronúncia e a data da publicação da sentença penal condenatória, se não interposto recurso contra decisão de pronúncia; e) entre a data da decisão confirmatória da pronúncia e a data da publicação da sentença penal condenatória. 20/04/2020 15/03/2012 PPPA Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2010 Ainda não proferida a sentença 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 20 10/11/2018 PPPA Ainda não recebida a denúncia Data da consumação 05/10/2010 O procedimento do Tribunal do Júri é aplicado aos crimes dolosos contra a vida, assim considerados o homicídio doloso (CP, art. 121, caput, §§ 1º e 2º); induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio (CP, art. 122); infanticídio (CP, art. 123); e aborto (CP, art. 124/127). a) entre a data da consumação do delito até a data do recebimento da denúncia Conforme o artigo 111, I, do Código Penal, o prazo da prescrição da pretensão punitiva começa a correr, como regra, a partir da consumação do delito, tendo como primeiro marco interruptivo o recebimento da denúncia ou queixa (CP, art. 117, I). Nesse cenário, imaginemos que o agente tenha sido acusado de ter praticado, no dia 5 de outubro de 2010, crime de aborto com o consentimento da gestante (CP, art. 126). Instaurado o respectivo inquérito policial, a investigação se desenvolveu de forma bastante lenta, não avançando quanto à identificação da autoria do delito, mas recaindo a suspeita em relação ao agente “A”. Concluído o inquérito policial, o procedimento investigatório foi encaminhado para o Ministério Público no dia 10 de novembro de 2018. Nesse caso, considerando-se a pena máxima de 4 (quatro) anos, cominada ao crime de aborto com o consentimento da gestante (04 anos), o prazo prescricional será de 8 (oito) anos, conforme o artigo 109, IV, do Código Penal. Logo, forçoso concluir que, no caso, incidiu a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, pois entre a data da consumação do crime de aborto e o dia 10 de novembro de 2018 passaram-se mais de 8 (oito) anos sem o recebimento da denúncia e, por conseguinte, a interrupção do prazo prescricional. Resta declarar extinta a punibilidade do agente, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, com extinção e baixa do expediente criminal. Para que não incidisse a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, o Estado teria até o dia 04/10/2018 para o recebimento da denúncia, e, por consequência, interrupção do prazo prescricional, com o recomeço da contagem por inteiro. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 21 b) entre a data do recebimento da denúncia e a data da decisão de pronúncia Nesse cenário, imaginemos que o agente tenha sido acusado de ter praticado, no dia 5 de outubro de 2010, crime de aborto com o consentimento da gestante (CP, art. 126). A denúncia foi recebida no dia 15.03.2012. A ação penal se desenvolveu de forma bastante lenta, estando, até o dia 20 de abril de 2020, na fase de instrução processual, não tendo sido, portanto, proferida sentença. Nesse caso, considerando-se a pena máxima de 4 (quatro) anos, cominada ao crime de aborto com o consentimento da gestante, o prazo prescricional será de 8 (oito) anos, conforme o artigo 109, IV, do Código Penal. Logo, forçoso concluir que, no caso, incidiu a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, pois entre a data do recebimento da denúncia (15.03.2012) até a data em que o processo ainda se encontrava na fase de instrução (20.04.2020) passaram-se mais de 8 (oito) anos sem que tivesse sido proferida decisão de pronúncia e, por conseguinte, a interrupção do prazo prescricional. Resta declarar extinta a punibilidade do agente, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, com extinção e baixa do expediente criminal. Para que não incidisse a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, o Estado teria até o dia 14/03/2020 para a decisão de pronúncia e, por consequência, interrupção do prazo prescricional, com o recomeço da contagem por inteiro. c) entre a data da decisão de pronúncia e a data da decisão confirmatória da pronúncia Nesse cenário, imaginemos que o agente tenha sido acusado de ter praticado, no dia 5 de outubro de 2010, crime de aborto com o consentimento da gestante (CP, art. 126). A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2011. A decisão de pronúncia foi publicada no dia 16 de julho de 2012. O réu interpôs recurso em sentido estrito, sendo improvido no dia 23 de agosto de 15/03/2012 PPPA Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2010 20/04/2020 Ainda não proferida decisão de pronúncia 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 22 15/03/2011 PPPA Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2010 16/07/2012 Data decisão de pronúncia Data decisão confirmatória da pronúncia 23/08/2020 2020, com a consequente confirmação da decisão de pronúncia. Nesse caso, considerando-se a pena máxima de 4 (quatro) anos, cominada ao crime de aborto com o consentimento da gestante, o prazo prescricional será de 8 (oito) anos, conforme o artigo 109, IV, do Código Penal. Logo, forçoso concluir que, no caso, incidiu a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, pois, entre a data da pronúncia (16/07/2012) até a data da decisão confirmatória da pronúncia (23/08/2020), passaram-se mais de 8 (oito) anos. Resta declarar extinta a punibilidade do agente, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, com extinção e baixa do expediente criminal. Para que não incidisse a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, o Estado teria até o dia 15/07/2020 para apreciar o recurso interposto pela defesa e confirmar a decisão de pronúncia, provocando, por consequência, interrupção do prazo prescricional, com o recomeço da contagem por inteiro. d) entre a data da decisão de pronúncia e a data da publicação da sentença penal condenatória, se não interposto recurso contra decisão de pronúncia Nesse cenário, imaginemos que o agente tenha sido acusado de ter praticado, no dia 5 de outubro de 2010, crime de aborto com o consentimento da gestante (CP, art. 126). A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2011. A decisão de pronúncia foi publicada no dia 16 de julho de 2012. O réu não interpôs recurso em sentido estrito. Até o dia 23.08.2020, o réu ainda não havia sido submetido a julgamento perante o Plenário do Júri, não havendo, pois, sentença condenatória. Nesse caso, considerando-se a pena máxima de 4 (quatro) anos, cominada ao crime de aborto com o consentimento da gestante, o prazo prescricional será de 8 (oito) anos, 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 23 conforme o artigo 109, IV, do Código Penal. Logo, forçoso concluir que, no caso, incidiu a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, pois, entre a data da pronúncia (16.07.2012) até a data que o réu ainda não havia sido submetido a julgamento perante o Plenário do Júri (23.08.2020),passaram-se mais de 8 (oito) anos. Resta declarar extinta a punibilidade do agente, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, com extinção e baixa do expediente criminal. Para que não incidisse a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, o Estado teria se submeter o réu a julgamento perante o Plenário do Júri, com a respectiva condenação, até o dia 15/07/2020, provocando, por consequência, interrupção do prazo prescricional, com o recomeço da contagem por inteiro. e) entre a data da decisão confirmatória da pronúncia e a data da publicação da sentença penal condenatória. Nesse cenário, imaginemos que o agente tenha sido acusado de ter praticado, no dia 5 de outubro de 2010, crime de aborto com o consentimento da gestante (CP, art. 126). A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2011. A decisão de pronúncia foi publicada no dia 16 de fevereiro de 2012. O réu interpôs recurso em sentido estrito, sendo improvido no dia 23 de agosto de 2012, com a consequente confirmação da decisão de pronúncia. Até o dia 24.09.2020, o réu ainda não havia sido submetido a julgamento perante o Plenário do Júri, não havendo, pois, sentença condenatória. Nesse caso, considerando-se a pena máxima de 4 (quatro) anos, cominada ao crime de aborto com o consentimento da gestante, o prazo prescricional será de 8 (oito) anos, conforme o artigo 109, IV, do Código Penal. Logo, forçoso concluir que, no caso, incidiu a 15/03/2011 PPPA Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2010 16/07/2012 Data decisão de pronúncia Data sem julgamento perante o Plenário do Júri e, portanto, sem condenação 23/08/2020 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 24 15/03/2011 PPPA Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2010 16/02/2012 Data decisão de pronúncia Data sem julgamento perante o Plenário do Júri e, portanto, sem condenação 23/08/2012 Decisão confirmatóri a da pronúncia 24/09/2020 prescrição da pretensão punitiva em abstrato, pois, entre a data da decisão confirmatória da pronúncia (23.08.2012) até a data que o réu ainda não havia sido submetido a julgamento perante o Plenário do Júri (24.09.2020), passaram-se mais de 8 (oito) anos. Resta declarar extinta a punibilidade do agente, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, com extinção e baixa do expediente criminal. Para que não incidisse a prescrição da pretensão punitiva em abstrato, o Estado teria se submeter o réu a julgamento perante o Plenário do Júri, com a respectiva condenação, até o dia 22/08/2020, provocando, por consequência, interrupção do prazo prescricional, com o recomeço da contagem por inteiro. 1.4.2. Prescrição da pretensão punitiva retroativa A prescrição da pretensão punitiva retroativa estava prevista no artigo 110, § 2º, do Código Penal, que previa a possibilidade da prescrição da pretensão punitiva retroativa entre a data do fato e o recebimento da denúncia. Esse artigo foi revogado pela Lei nº 12.234, de 5 de maio de 2010. Com a revogação do artigo, surgiram algumas vozes afirmando a exclusão da prescrição da pretensão punitiva retroativa do ordenamento jurídico. Todavia, a parte final do 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 25 Pressupostos Não ter incidido prescrição da pretensão punitiva em abstrato Sentença condenatória Trânsito em julgado para acusação ou improvimento do seu recurso artigo 110, § 1º, do Código Penal, dispõe que a prescrição, em nenhuma hipótese, poderá ter por termo inicial data anterior à da denúncia ou queixa. Diante da intrincada redação desse dispositivo, forçoso concluir pela possibilidade de prescrição da pretensão punitiva retroativa após o oferecimento da denúncia ou queixa, uma vez que, segundo se extrai do texto, a vedação se limite a período anterior ao da denúncia ou queixa. Diz-se intricada a redação, porque o legislador teria sido mais claro e objetivo se tivesse limitado a vedação a período anterior ao recebimento da denúncia ou queixa. Assim não o fazendo, admite possibilidade de prescrição retroativa entre o oferecimento da denúncia ou queixa e a data do recebimento da peça acusatória. Trata-se de hipótese absolutamente remota, pois, na praxe forense, não é tão distante o período que medeia o oferecimento da denúncia ou queixa e o seu respectivo recebimento. Em síntese, em relação aos fatos praticados a partir do dia 05 de maio de 2010, somente será possível a prescrição da pretensão punitiva considerando o lapso temporal incidente após a denúncia. Para fatos praticados antes do dia 05 de maio de 2010, será possível a prescrição da pretensão retroativa entre a data da consumação e o recebimento da denúncia, bem entre o recebimento da denúncia e a publicação da sentença penal condenatória. Pressupostos: Por primeiro, para cogitar a incidência da prescrição da pretensão punitiva retroativa, não pode ter se verificado a prescrição da pretensão da pretensão punitiva em abstrato. A prescrição retroativa tem por pressuposto a prolação de uma sentença penal condenatória, bem como o trânsito em julgado da sentença penal condenatória para a acusação, seja por força de decisão do juízo de primeiro grau, seja por força de eventual improvimento do seu recurso. É o que se extrai do próprio artigo 110, § 1º, do Código Penal. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 26 1.4.2.1. Cálculo do prazo da prescrição da pretensão punitiva retroativa Com o trânsito em julgado da sentença penal condenatória para a acusação ou improvimento do seu recurso, tem-se que, a partir de eventual recurso da defesa, o Tribunal não poderá agravar a situação do réu, sob pena de incorrer na reformatio in pejus direta, o que é vedado conforme prevê o artigo 617 do Código Processo Penal. Em decorrência disso, a pena máxima no caso concreto será a aplicada na sentença, já que, com o trânsito em julgado para acusação, não poderá ser alterada para prejudicar o réu, na hipótese de recurso exclusivo da defesa. Assim, a base para calcular a prescrição se altera, passando a ser considerada a pena aplicada na sentença, que deverá ser enquadrada num dos incisos do artigo 109 do Código Penal, para ser verificado o prazo prescricional. 1.4.2.2. Hipóteses de incidência da prescrição da pretensão punitiva retroativa nos crimes diversos do Procedimento do Tribunal do Júri Verificado o prazo prescricional com base na pena aplicada na sentença, deve-se refazer o caminho entre as causas interruptivas da prescrição existentes antes da publicação da sentença penal condenatória ou acórdão condenatório. Em outras palavras, a prescrição retroativa ocorre antes da publicação da sentença ou acórdão condenatório. Por isso, a denominação “retroativa”, já que sua incidência é verificada entre os marcos interruptivos existentes antes da sentença ou acórdão condenatório, ou seja, antes da publicação da sentença penal condenatória. Assim, em tese, no procedimento diverso do Tribunal do Júri, será possível verificar a prescrição da pretensão punitiva retroativa: a) entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a da publicação da sentença condenatória; b) entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a do acórdão condenatório. PPPR Data do recebimento da denúncia ou queixa Data da consumação Data da publicação da sentença condenatória Data da sentença absolutória Data publicação acórdão condenatório Data da consumação 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 27 a) entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a data da publicação da sentença condenatória Com o recebimento da denúncia ou queixa, interrompe-se o curso do prazo prescricional, voltando a correr por inteiro até o próximo marco interruptivo, consistentena publicação da sentença penal condenatória (CP, art. 117, IV). Imaginemos que o réu tenha sido denunciado pela prática, no dia 5 de outubro de 2014, do crime de furto simples (CP, art. 155). A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2016. Após regular tramitação do processo, o Magistrado proferiu sentença condenatória, publicada no dia 18 de abril de 2020, fixando pena de 1 (um) ano e 4 (quatro) meses de reclusão, e multa. O Ministério Público, satisfeito, não interpôs recurso, ocorrendo o trânsito em julgado para a acusação. Nesse caso, verifica-se que não há incidência da prescrição da pretensão punitiva em abstrato. Os pressupostos para análise da prescrição da pretensão punitiva retroativa estão presentes: a) sentença condenatória; b) trânsito em julgado para a acusação. Logo, a base de cálculo para a prescrição se altera, passando da pena máxima cominada ao delito, para ser considerada a pena aplicada. No caso, a pena aplicada foi de 1 (um) ano e 4 (quatro) meses, sendo o prazo prescricional de 4 (quatro) anos (CP, art. 109, V). Agora, considerando o novo prazo prescricional, com base na pela aplicada, deve ser refeita, de forma retroativa, ou seja, da sentença para trás, a análise da incidência da prescrição da pretensão punitiva retroativa. E, no caso, forçoso concluir que incidiu a prescrição da pretensão punitiva retroativa, pois, fazendo a reanalise dos marcos interruptivos antes da sentença, verifica-se que entre a data da publicação da sentença condenatória (18/04/2020) e a data do recebimento da denúncia (15/03/2016), passaram-se mais de 4 (quatro) anos. Data do recebimento da denúncia ou queixa Data do recebimento da denúncia ou queixa 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 28 Para evitar a incidência da prescrição, a publicação da sentença penal condenatória Para evitar a incidência da prescrição, a publicação da sentença penal condenatória deveria ter ocorrido até o dia 14/03/2020. b entre a data do recebimento da denúncia ou queixa e a data da publicação do acórdão condenatório Imaginemos que o réu tenha sido denunciado pela prática, no dia 5 de outubro de 2014, do crime de furto simples (CP, art. 155). A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2016. Após regular tramitação do processo, no dia 15 de junho de 2018, o Magistrado proferiu sentença absolutória. O Ministério Público, irresignado, interpôs recurso de apelação, ao qual foi dado provimento pelo Tribunal, que proferiu acórdão condenatório, fixando pena de 1 (um) ano e 4 (meses), transitando em julgado para a acusação, publicado no dia 18 de abril de 2020. Nesse caso, verifica-se que não há incidência da prescrição da pretensão punitiva em abstrato. Os pressupostos para análise da prescrição da pretensão punitiva retroativa estão presentes: a) acórdão condenatório; b) trânsito em julgado para a acusação. Logo, a base de cálculo para a prescrição se altera, passando da pena máxima cominada ao delito, para ser considerada a pena aplicada. No caso, a pena aplicada foi de 1 15/03/2016 PPPR Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2014 18/04/2020 Data publicação da sentença condenatória Pena: 01 ano e 04 meses Trânsito em julgado para o Ministério Público 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 29 (um) ano e 4 (quatro) meses, sendo o prazo prescricional de 4 (quatro) anos (CP, art. 109, V). Agora, considerando o novo prazo prescricional, com base na aplicada, deve ser refeita, de forma retroativa, ou seja, da sentença para trás, a análise da incidência da prescrição da pretensão punitiva retroativa. E, no caso, forçoso concluir que incidiu a prescrição da pretensão punitiva retroativa, pois, fazendo a reanalise dos marcos interruptivos, verifica-se que entre a data do recebimento da denúncia (15/03/2016) e a data da publicação do acórdão condenatório (18/04/2020), passaram-se mais de 4 (quatro) anos. . Para evitar a incidência da prescrição, o acórdão condenatório deveria ter sido publicado até o dia 14/03/2020. 1.4.2.3. Hipóteses de incidência da prescrição da pretensão punitiva retroativa nos crimes do Procedimento do Tribunal do Juri Após julgamento perante o Plenário do Júri, com a condenação do réu pelo corpo de Jurados, o juiz passará à dosimetria da pena. Com o trânsito em julgado para o Ministério Público, ou improvido eventual recurso interposto, viabiliza-se a análise de eventual incidência da prescrição da pretensão punitiva retroativa. Em relação ao procedimento do Tribunal do Júri, a prescrição da pretensão retroativa poderá incidir: a) entre a data da publicação da decisão de pronúncia e a data do recebimento da denúncia; b) entre a data da decisão confirmatória da pronúncia e a decisão de pronúncia; c) entre a data da publicação da sentença penal condenatória e a decisão confirmatória da pronúncia; d) entre a data da publicação da sentença penal condenatória e a decisão de pronúncia, se não tiver sido interposto recurso contra essa decisão. 15/03/2016 PPPR Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2014 15/06/2018 Sentença absolutória Pena: 01 ano e 04 meses Trânsito em julgado para MP Apelação Ministério Público Publicação acórdão condenatório 18/04/2020 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 30 1.4.3. Prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente A prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente está prevista no artigo 110, § 1º, do Código Penal, e incide entre a data da publicação da sentença penal condenatória e o trânsito em julgado para a defesa. A expressão “superveniente” decorre justamente porque sua incidência é posterior à sentença penal condenatória. A prescrição da pretensão punitiva superveniente difere da prescrição da pretensão punitiva retroativa, precipuamente em relação ao momento da incidência. A prescrição da pretensão punitiva retroativa incide entre os marcos interruptivos existentes antes da sentença penal condenatória; a prescrição da pretensão punitiva superveniente incide após a sentença penal condenatória. Prescrição da pretensão punitiva retroativa Data do recebimento da denúncia Data da consumação Prescrição da pretensão punitiva superveniente Data publicação da sentença condenatória Trânsito em julgado para a defesa 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 31 1.4.3.1. Pressupostos Para se cogitar da hipótese da prescrição da pretensão punitiva superveniente, primeiro deve-se constar a não incidência da prescrição da pretensão punitiva em abstrato e da retroativa. Após, deve-se verificar a existência de sentença penal condenatória e o trânsito em julgado para a acusação, seja por força de decisão do juízo de primeiro grau, seja por força de eventual improvimento do seu recurso. É o que se extrai do próprio artigo 110, § 1º, do Código Penal. 1.4.3.2. Cálculo do prazo da prescrição da pretensão punitiva superveniente Com o trânsito em julgado da sentença penal condenatória para a acusação ou improvimento do seu recurso, tem-se que, a partir de eventual recurso da defesa, o Tribunal não poderá agravar a situação do réu, sob pena de incorrer na reformatio in pejus direta, o que é vedado conforme prevê o artigo 617 do Código Processo Penal. Em decorrência disso, a pena máxima no caso concreto será aquela aplicada na sentença, já que, com o trânsito em julgado para acusação, não poderá ser alterada para prejudicar o réu. Assim, a base para o cálculo da prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente é a pena aplicada na sentença, que deverá ser enquadrada num dos incisos do artigo 109 do Código Penal,para ser verificado o prazo prescricional. Ainda que não tenha transitado em julgado para a acusação, admite-se a possibilidade de prescrição da pretensão punitiva superveniente, se o Ministério Público ou o querelante interpuserem recurso sem postular a elevação da pena, mas, por exemplo, a modificação do regime carcerário ou a cassação da substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de Pressupostos Não ter incidido prescrição da pretensão punitiva em abstrato Sentença condenatória Trânsito em julgado para acusação ou improvimento do seu recurso Não ter incidido prescrição da pretensão punitiva retroativa 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 32 direitos. Note-se que, na falta de pedido expresso da acusação, não poderá o Tribunal elevar a pena aplicada na sentença, sob pena de reformatio in pejus. 1.4.3.3. Hipótese de incidência da prescrição da pretensão punitiva superveniente ou intercorrente Verificado o prazo prescricional com base na pena aplicada na sentença, a prescrição da pretensão punitiva superveniente tem por termo inicial a data da publicação da sentença penal condenatória, podendo incidir até o trânsito em julgado para a defesa. Por isso, a denominação “superveniente”, já que sua incidência é verificada após a publicação da sentença penal condenatória. Imaginemos que o réu tenha sido denunciado pela prática, no dia 5 de outubro de 2012, do crime de furto simples (CP, art. 155). A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2014. Após regular tramitação do processo, no dia 15 de junho de 2016, o Magistrado proferiu sentença condenatória, aplicando pena de 1 (um) ano e 4 (meses). O Ministério Público não interpôs recurso, transitando em julgado a sentença para a acusação. A defesa interpôs recurso de apelação, ainda não colocado em pauta para julgamento pelo menos até o dia 18 de julho de 2020. Nesse caso, verifica-se que não há incidência da prescrição da pretensão punitiva em abstrato nem retroativa. Os pressupostos para análise da prescrição da pretensão punitiva superveniente estão presentes: a) acórdão condenatório; b) trânsito em julgado para a acusação. Logo, a base de cálculo para a prescrição passa a ser a pena aplicada na sentença. No caso, a pena aplicada foi de 1 (um) ano e 4 (quatro) meses, sendo o prazo prescricional de 4 (quatro) anos (CP, art. 109, V). Agora, considerando o novo prazo prescricional, com base na aplicada, deve-se verificar se o trânsito em julgado para a defesa ocorrerá ou não dentro do prazo prescricional. E, no caso, forçoso concluir que incidiu a prescrição da pretensão punitiva superveniente, pois entre a data da publicação da sentença condenatória (15/06/2016) e a data indicando que ainda não ocorreu o trânsito em julgado para defesa (18/07/2020), passaram-se mais de 4 (quatro) anos. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 33 Para evitar a incidência da prescrição, o trânsito em julgado da sentença penal Para evitar a incidência da prescrição, o trânsito em julgado da sentença penal condenatória deveria ocorrer até o dia 14.06.2020. 1.5 Prescrição da pretensão executória A prescrição da pretensão executória está prevista no artigo 110, caput, do Código Penal. O exercício da pretensão punitiva estatal se revela de forma plena quando a sentença penal condenatória encontra o trânsito em julgado dentro do prazo estabelecido em lei. Com o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, surge para o Estado a pretensão executória, ou seja, a pretensão de fazer cumprir a sentença, com a efetiva execução da pena imposta. Ocorre, contudo, que também há prazo previsto em lei para que o Estado exerça a pretensão executória, sob pena de não mais poder fazê-lo, por conta da incidência da prescrição da pretensão executória e a consequente extinção da punibilidade. 15/03/2014 PPPS Data do recebimento da denúncia Data da consumação 05/10/2012 15/06/2016 Data publicação da sentença condenatória Pena: 01 ano e 04 meses Trânsito em julgado para o Ministério Público Trânsito em julgado para a defesa Recurso ainda não julgado 18.06.2020 Prescrição da pretensão punitiva retroativa Data do recebimento da denúncia Data da consumação Prescrição da pretensão punitiva superveniente Data publicação da sentença condenatória Sentença condenatória transitada em julgado Prescrição da pretensão executória 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 34 Pressuposto Para que seja possível cogitar da incidência da prescrição executória, não pode ter se operado qualquer das formas de prescrição da pretensão punitiva. O pressuposto básico para se verificar a hipótese de incidência da prescrição da pretensão executória é o trânsito em julgada da sentença penal condenatória. Logo, à evidência, a prescrição da pretensão executória incide após o trânsito em julgado da sentença condenatória. Como não há mais possibilidade de alteração da pena imposta na sentença, já que, com o trânsito em julgado, tornou-se definitiva, sintomático que a base para o cálculo da prescrição da pretensão executória é a pena aplicada na sentença. Tratando-se de reincidente, o prazo da prescrição da pretensão executória da pena privativa de liberdade é aumentado de 1/3 (CP, art. 110, caput, parte final). Para tanto, é necessário que a sentença condenatória tenha reconhecido a reincidência. Esse acréscimo pela reincidência somente se aplica à prescrição da pretensão executória, não tendo qualquer reflexo nos prazos da prescrição da pretensão punitiva. É o que se extrai da Súmula 220 do Superior Tribunal de Justiça: “A reincidência não influiu no prazo da prescrição da pretensão punitiva”. 1.5.1. Termos iniciais Consoante se extrai do artigo 112 do Código Penal, o prazo da prescrição da pretensão executória começa a correr: a) do dia em que transita em julgado a sentença condenatória, para a acusação; b) do dia da revogação da suspensão condicional da pena ou o livramento condicional; c) do dia em que se interrompe a execução, salvo quando o tempo da interrupção deva computar-se na pena. Pressupostos Não tenha ocorrido prescrição punitiva Trânsito em julgado da sentença condenatória 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 35 a) Do dia em que transita em julgado a sentença condenatória para todos (segundo entendimento do STF e STJ) O pressuposto para a incidência da prescrição da pretensão executória é o trânsito em julgado da sentença penal condenatória para todas as partes. Todavia, nos termos do artigo 112, I, do Código Penal, o termo inicial da contagem do prazo prescricional considera o trânsito em julgado da sentença penal condenatório para a acusação. Ou seja, em tese, o início da contagem do prazo da prescrição executória é anterior à data do trânsito em julgado da sentença penal condenatória. Trata-se de hipótese extremamente favorável ao condenado, uma vez que, se a acusação optar por não interpor recurso contra a sentença condenatória, transitando em julgado para ela, o réu, usando de sucessivos recursos, poderá prolongar o momento do trânsito em julgado da sentença penal condenatória para todos. Não é raro acontecer, por exemplo, transitar em julgado a sentença penal condenatória para acusação em determinada data, e o trânsito em julgado da sentença condenatória para todos ocorrer anos depois. Por isso, o Plenário do Supremo Tribunal Federal, no julgamento do AI 794971- AgR/RJ, definiu que o termo inicial para a contagem da prescrição da pretensão executória é o trânsito em julgado para ambas as partes. b) Do dia da revogação da suspensão condicional da pena ou o livramento condicional A revogação do sursis e do livramento condicional tem como efeito automático a prisãodo condenado, para cumprir a pena cuja execução foi suspensa ou para dar continuidade à execução da pena pela qual obteve o livramento condicional. Logo, havendo revogação da suspensão condicional da pena, deve o condenado cumprir integralmente a pena suspensa, passando a correr o prazo para dar início à execução da pena da data da decisão revocatória. Trânsito em julgado para o Ministério Público Sentença condenatória Termo inicial para prescrição executória Recurso defesa Trânsito em julgado para a defesa e, portanto, para todos 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 36 Com a revogação do livramento condicional, o condenado deverá ser preso para cumprir o restante da pena, começando a correr o prazo da prescrição executória, a partir da data da revogação. c) Do dia em que se interrompe a execução, salvo quando o tempo da interrupção deva computar-se na pena. Interrompida a execução da pena pela fuga do condenado, inicia-se a contagem do prazo prescricional da prescrição executória (CP, art. 112, II, 1ª parte), para recapturá-lo. Nos casos dos arts. 41 e 42 do Código Penal (superveniência de doença mental ou internação em hospital), em que se aplica o princípio da detração penal, embora interrompida a efetiva execução da pena, não corre a prescrição (CP, art. 112, II., 2ª parte), já que computado como pena cumprida. 1.5.2. Causas interruptivas As causas interruptivas da prescrição da pretensão executória são: a) início ou continuação do cumprimento da pena (CP, art. 117, V); b) reincidência (CP, art. 117, VI). a) Início ou continuação do cumprimento da pena Com o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, expede-se, como regra, mandado de prisão, a fim de que o condenado seja compelido a dar início ao cumprimento de pena. Quando o condenado efetivamente dá início ao cumprimento da pena, seja privativa de liberdade ou restritiva de direitos, interrompe-se o prazo da prescrição da pretensão executória. Evidentemente que, nesse caso, o prazo não volta a correr por inteiro, pois o condenado está sob custódia do Estado, cumprindo pena. Essa é a exceção prevista no artigo 117, § 2º, do Código Penal. Se, eventualmente, o apenado empreender fuga, começa a correr o prazo prescricional para sua recaptura, que será regulado pelo tempo que resta da pena (CP, art. 113). Ao ser recapturado, com a consequente continuação do cumprimento da pena, ocorrerá a interrupção do prazo prescricional. b) Reincidência A reincidência também interrompe a prescrição (CP, art. 117, VI). Ocorre quando o réu, definitivamente condenado, ainda não deu início ao cumprimento da pena. Logo, o prazo da prescrição executória estaria correndo. Se o agente praticar um novo crime, passando, 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 37 portanto, a ser reincidente, o prazo prescricional da pretensão executória da pena imposta pelo crime anterior será interrompido no momento da prática do novo crime. Portanto, conforme, inclusive, entendimento do Superior Tribunal de Justiça: “a reincidência, como causa de interrupção da prescrição da pretensão executória, é contada a partir da prática do novo delito, e não do trânsito em julgado de eventual sentença condenatória.”1 Essa interrupção, porém, ficará condicionada à efetiva condenação do réu em relação ao segundo crime; se este vier a ser absolvido, evidentemente não houve reincidência e, consequentemente, não pode ser considerada interrompida a prescrição. A reincidência somente interrompe o prazo da prescrição da pretensão executória, sendo inaplicável à prescrição da pretensão punitiva. Nesse sentido, a Súmula 220 do STJ: “A reincidência não influiu no prazo da prescrição da pretensão punitiva”. 1.5.3. Prescrição no caso de evasão do condenado ou de revogação do livramento condicional Com o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, surge para o Estado a pretensão de fazer com que o condenado dê início ao cumprimento da pena. Para tanto, deve- se observar o prazo prescricional computado com base na pena aplicada (CP, art. 110, caput, do CP). Imaginemos, agora, que o condenado foi capturado, dando início ao cumprimento da pena. Passado algum tempo, o condenado empreende fuga do estabelecimento carcerário. Nesse caso, começa a correr o prazo prescricional para o Estado recapturar o condenado, para continuação do cumprimento da pena, considerando-se como base o tempo que resta da pena (CP, art. 113). Assim, se, por exemplo, o agente foi condenado à pena de 4 (quatro) anos, cujo prazo prescricional é de 8 (oito) anos (CP, art. 107, IV), e, após cumprir 3 (três) anos, empreende fuga. Nesse caso, a base para verificação da prescrição executória é a pena restante, qual seja, 1 (um) ano. Logo, a partir da fuga do condenado, o prazo da prescrição executória será de 4 (quatro) anos (CP, art. 109, V) Agora, se ele deu início ao cumprimento da pena, ficando um determinado tempo preso, se empreender fuga (se evadir), a prescrição é regulada pelo tempo que resta da pena (art. 113 do CP). Pega o tempo que resta da pena, vai no artigo 109 e enquadra. Esse será o prazo 1 STJ: HC 360940/SC, rel. Min. Jorge Mussi, 5ª Turma, j. 15.09.2016. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 38 prescricional. Ex: condenado a 04 anos (prazo prescricional de 08 anos), cumpriu 03 anos, resta um ano (nesse caso, o prazo prescricional será de 04 anos - art. 109, V, do CP). O mesmo raciocínio deve ser empregado na hipótese de revogação do livramento condicional, já que o condenado terá de cumprir o restante da pena, que serve de parâmetro para o cálculo do prazo da prescrição executória. 1.5.4. Algumas hipóteses de incidência da prescrição da pretensão executória Como regra, duas hipóteses emergem de incidência da prescrição da pretensão executória: a) para o início do cumprimento da pena; b) para continuação do cumprimento da pena, em face da fuga ou revogação do livramento condicional. a) Para o início do cumprimento da pena Imaginemos que o réu tenha sido denunciado por ter praticado no dia 5 de outubro de 2012 crime de furto simples (CP, art. 155). A denúncia foi recebida no dia 15 de março de 2014. Após regular tramitação do processo, no dia 15 de junho de 2016, o Magistrado proferiu sentença condenatória, aplicando pena de 1 (um) ano e 4 (meses), transitando em julgado a sentença para todos, e, portanto, também para a acusação, no dia 25 de junho de 2016. O réu não se apresentou para cumprir a pena, sendo, portanto, considerado foragido. No dia 18 de agosto de 2020, em patrulhamento de rotina, policiais abordaram o condenado, e verificaram que havia um mandado de prisão contra ele, razão pela qual o levaram para o estabelecimento carcerário. Logo, a base de cálculo para a prescrição passa a ser a pena aplicada na sentença. No caso, a pena aplicada foi de 1 (um) ano e 4 (quatro) meses, sendo o prazo prescricional de 4 (quatro) anos (CP, art. 109, V). O termo inicial é a data do trânsito em julgado para a acusação (CP, art. 112, I), qual seja, 25.06.2016. Agora, considerando o novo prazo prescricional, com base na pena aplicada, bem como o termo inicial, deve-se verificar se não incidiu a prescrição da pretensão executória. E, no caso, forçoso concluir que incidiu a prescrição da pretensão executória, pois entre a data do trânsito em julgado da sentença condenatória, inclusive para acusação (25.06.2016) e a data em que o condenado foi capturado (18.08.2020), passaram-se mais de 4 (quatro) anos. Logo, deve-se declarar a extinção da punibilidade do condenado, com base no artigo 107, IV, do Código Penal, permanecendo hígidos os efeitos secundários, penais e extrapenais, da sentença condenatória. 2ª Fase Penal | 43º Exame de Ordem 39 b) Para continuação do cumprimento da pena, em face da fuga ou revogação do livramento condicional. Imaginemos