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SISTEMA CARDIOVASCULAR. GENERALIDADES 2.1 Sistema circulatório é uma complexa rede de tubos (“vasos”) que transportam o sangue e a linfa por todo o organismo. 2.1.1 Tem, entre outras, funções de: troca de moléculas (água, gases, nutrientes, resíduos, sinais hormonais,…) entre os diferentes órgãos e tecidos, manutenção do meio interno dos tecidos (homeostase) e defesa do organismo perante microrganismos e tóxicos. 2.1.2 Inclui: Sistema cardiovascular, que transporta o sangue, mediante o impulso de uma bomba (coração). Sistema linfático, que transporta a linfa (tratado nas Aulas 14 e 20). 2.2 O Sistema cardiovascular é um complexo circuito fechado (o sangue nunca sai dos vasos) de vasos (artérias, veias, capilares) ligados a uma bomba (coração) que tem a função de manter a circulação do sangue para que chegue a todos os tecidos do corpo. 2.2.1 Componentes do sistema cardiovascular: Coração. Bomba muscular com 4 compartimentos: Duas aurículas (direita e esquerda). A aurícula direita recebe o sangue venoso proveniente dos tecidos periféricos; a aurícula esquerda recebe o sangue oxigenado proveniente dos pulmões. Dois ventrículos (direito e esquerdo). O Ventrículo direito bombeia o sangue venoso para os pulmões e o esquerdo bombeia o sangue arterial em direcção aos tecidos. Artérias. Vasos que levam o sangue desde o coração até os tecidos. A partir das artérias que saem dos ventrículos (artéria pulmonar sai do ventrículo direito e artéria aorta do ventrículo esquerdo) vão ramificando-se (como uma árvore a partir do tronco) em tubos cada vez mais finos até originar “arteríolas” que chegam a todos os tecidos. Capilares. Redes muito ramificadas de vasos finos onde se realizam as trocas de substâncias com as células dos tecidos. Se originam das “arteríolas” (extremo arterial dos capilares) e retornam o sangue às “vénulas”, começo do retorno do circuito (extremo venoso dos capilares). Figura 1. Sistema Cardiovascular. Imagem cortesia de Mariana Ruiz Villarreal Disciplina de Anatomia e Fisiologia 1º. Semestre 197 Veias. Vasos que devolvem o sangue desde os tecidos até o coração. Vão confluindo progressivamente desde o extremo venosos dos capilares (como as raízes duma árvore, até o tronco) formando vasos cada vez mais grossos até chegar ao coração (veia cava que entra na aurícula direita e veias pulmonares que entram na aurícula esquerda). 2.2.2 Além do esquema básico descrito da circulação pelos vasos (artéria → arteriola → capilares → vénula → veia), existem outras comunicações entre vasos (anastomoses), úteis em algumas situações: Meta-arteriolas, comunicações entre arteriolas e vénulas, que desviam o sangue sem passar pelos capilares, em casos do tecido não precisar de muita troca de moléculas, evitando um fluxo de sangue inútil. Anastomoses arterio-venosas, iguais as anteriores mas entre vasos de maior calibre (artérias e veias), o que permite uma re-distribuição vascular mais rápida e maior em casos urgentes. Por exemplo, em sangramentos severos, o fluxo de sangue é priorizado para os órgãos mais importantes (cérebro, coração), deixando os membros e pele com o mínimo fluxo de sangue. 2.3 Anastomoses arteriais, comunicações laterais entre duas artérias que irrigam partes diferentes de um mesmo órgão ou tecido, protegendo-o contra a “isquemia” (redução na quantidade de sangue arterial fornecido com consequente défice de oxigénio no tecido) por uma possível lesão duma das artérias (de maneira que outra artéria irrigaria o território da lesada). As estruturas anatómicas que recebem sangue por um única artéria (como o testículo) ou por varias artérias não comunicadas que irrigam territórios independentes (como o músculo cardíaco) têm maior risco de sofrer isquemia, pois não tem outras artérias que as substituam quando estão obstruídas. 2.4 Circuitos pulmonar e sistémico. O sistema cardiovascular está formado por dois circuitos interligados que se entrecruzam no coração (formando uma figura de “8”). São (tratado mais amplamente na Aula 19): A Circulação pulmonar, que desde o ventrículo direito do coração, leva o sangue pobre em oxigénio (vindo dos tecidos) aos pulmões para a sua oxigenação, retornando-o à aurícula esquerda. A Circulação sistémica, que desde o ventrículo esquerdo do coração, leva o sangue oxigenado a todo o corpo para a oxigenação dos tecidos, retornando sangue já desoxigenado à aurícula direita (que passará de novo ao circuito pulmonar). Figura 2. Anastomose. 2.5 Morfologia dos vasos sanguíneos. Todos os vasos (artérias e veias, de qualquer diâmetro) têm uma estrutura anatómica comum, com 3 camadas concêntricas: “Íntima”, camada mais interna (em contacto com o sangue), de endotélio plano, que recobre todo o sistema circulatório (coração, vasos sanguíneos e linfáticos), suportado num lenço de fibras colágenas (“lâmina basal”). Disciplina de Anatomia e Fisiologia 1º. Semestre 198 “Média”, que dá a espessura e resistência a parede vascular, composta por músculo liso e fibras elásticas e colágenas. É muito saliente nas artérias (que suportam maior pressão do sangue), menor nas veias e ausente nos capilares. “Adventícia”, camada externa de conjuntivo com vasos finos (de alimentação da própria parede vascular) e nervos (que regulam as fibras musculares). Figura 3. Secção de um vaso sanguíneo. 2.5.1 A estrutura geral das artérias vai mudando conforme diminui o seu tamanho: As mais grandes (artéria aorta e seus ramos principais) são “Artérias elásticas”, com predomínio de fibras elásticas e colágeno e fibroblastos, capazes de resistir as altas pressões do sangue que parte do coração. Artérias de menor diâmetro e que suportam menores pressões são “Artérias musculares”, com maior predomínio de fibras de músculo liso e escassa camada elástica. A contracção das fibras musculares serve para manter a pressão do sangue para que consiga chegar a longas distância (como as mãos e pés). “Arteriolas”, são as artérias mais finas, das que partem as redes capilares. A sua parede tem células musculares grossas, capazes de se contraírem para fechar a passagem de sangue, actuando como esfíncteres controladores do fluxo sobre as redes capilares. 2.5.2 Os capilares são os vasos mais finos que interagem directamente com as células, e permitem a troca de substâncias entre o sangue e os tecidos. São constituídos apenas por endotélio: uma única célula plana que contorna todo o diâmetro do vaso. As células do endotélio podem: Estar seladas, deixando passar as substancias só a traves da célula endotelial (endotélio contínuo) ou Ter espaços abertos entre elas para a passagem rápida de grandes moléculas (endotélio descontínuo). 2.5.3 As veias também mudam conforme vão aumentando de diâmetro: “Vénulas” são o extremo de retorno das redes capilares, produto da convergência de vários deles. Tem um endotélio descontínuo, que deixa passar células brancas do sangue para os tecidos (função de defesa). “Vénulas musculares”, maiores que às anteriores e com endotélio contínuo e com uma camada de fibras musculares. Disciplina de Anatomia e Fisiologia 1º. Semestre 199 “Veias”, são vasos grandes que apresentam as três camadas completas, com escassa fibras musculares e muitas fibras elásticas. Capazes de se dilatar para receber muito sangue, mas com pouca possibilidade de se contrair e manter pressão no sangue. Figura 4. Ramificações das artérias e veia, e anastomoses A parede interna das veias dos membros (especialmente os inferiores) forma pregas semilunares (“válvulas venosas”) que se abrem a favor dacorrente sanguínea e se fecham em contra da corrente, evitando o refluxo de sangue pelo efeito da gravidade. Figura 5. Válvulas venosas. BlLOCO 3: CORAÇÃO – ESTRUTURA E FUNÇÃO 3.1 O coração é a bomba muscular que proporciona pressão ao sistema circulatório, movimentando o sangue por todo o corpo. Pesa entre 270 e 300g, do tamanho do nosso próprio punho e com forma de cone oco. 3.1.1 Está situado no tórax,mediastino anterior, imediatamente posterior e esquerdo ao esterno, apoiado no diafragma e com a ponta anterior, inferior e a esquerda. 3.1.2 A semelhança dos outros elementos do sistema circulatório, é um órgão oco procedente da fusão de dois tubos dilatados. A parede têm três camadas: Disciplina de Anatomia e Fisiologia 1º. Semestre 200 Interna ou “Endocárdio”, endotélio de células planas com lâmina basal. Média ou “Miocárdio”, grossa camada de fibras musculares estriadas cardíacas. Externa, dividida em duas folhas: interna (“Pericárdio visceral” ou “Epicárdio”), camada serosa que recobre o miocárdio, e externa (“Pericárdio parietal”), camada fibrosa, separada da anterior por um espaço pericárdico virtual, que contém aproximadamente 10 ml de líquido lubrificante (líquido pericárdico), que facilita os movimentos do coração. 3.2 Está dividido em 4 cavidades: duas a direita, comunicadas entre elas (aurícula e ventrículo direito) e duas a esquerda, comunicadas entre elas (aurícula e ventrículo esquerdo). 3.2.1 Aurículas (também chamadas “átrios”) ou câmaras receptoras, localizadas na parte superior do coração, são câmaras ou cavidades que recebem o sangue que chega ao coração através de veias. Estão separadas entre elas por um tabique inter-auricular. Aurícula direita (AD), recebe o sangue não oxigenado da circulação sistémica (de todo o corpo, excepto dos pulmões). Três veias desembocam na AD: veia cava inferior que recolhe o sangue venoso, proveniente do tórax, abdómen e membros inferiores, veia cava superior que recolhe o sangue venoso proveniente da cabeça, pescoço e membros superiores, e o seio coronário que drena o sangue do próprio coração. Aurícula esquerda (AE), recebe o sangue oxigenado da circulação pulmonar através das veias pulmonares. 3.2.2 Ventrículos ou câmaras ejectoras, localizam-se na parte inferior do coração. Os ventrículos bombeiam o sangue para as artérias. Têm o miocárdio mais espesso para poder realizar a sua função propulsora. Estão separados por um grosso tabique inter-ventricular. Ventrículo direito (VD), recebe o sangue da aurícula direita e bombeia-o para a circulação pulmonar através da artéria pulmonar. Ventrículo esquerdo (VE), recebe o sangue da aurícula esquerda e bombeia-o para a circulação sistémica através da artéria aorta. Têm um miocárdio muito mais espesso que o direito, pois alimenta a circulação sistémica, que precisa de pressões muito maiores para o sangue chegar a todos os tecidos. 3.3 Assim a sequência da circulação do sangue seria: Ventrículo esquerdo → circulação arterial sistémica (através da artéria aorta) → capilares dos tecidos (desoxigenação do sangue) → circulação venosa sistémica → aurícula direita → Ventrículo Direito → circulação arterial pulmonar → capilares pulmonares (oxigenação do sangue) → circulação venosa pulmonar → Aurícula Esquerda → Ventrículo Esquerdo. 3.4 Todas as câmaras têm na sua porta de saída, um mecanismo (“válvulas cardíacas”) que permitem o fluxo do sangue num único sentido, evitando o retorno do sangue ejectado, que faria a bomba cardíaca menos eficaz: 3.4.1 Válvulas aurículo-ventriculares (AV), estão entre as aurículas e os ventrículos, impedem o refluxo de sangue às aurículas quando os ventrículos contraem e ejectam o sangue para as artérias. São: Válvula AV direita ou “tricúspide”, por estar formada por 3 folhas (“valvas”) que abrem e fecham como comportas. Válvula AV esquerda, “mitral” ou “bicúspide”, por estar formada por 2 valvas. 3.4.2 Válvulas ventriculares (V) ou semi-lunares (SL), estão entre ventrículos e artérias de saída, e impedem o refluxo do sangue aos ventrículos desde as artérias. São formadas cada uma Disciplina de Anatomia e Fisiologia 1º. Semestre 201 por três lâminas (“valvas semilunares”) de tecido conjuntivo elástico, ligadas ao orifício de saída arterial. Válvula Ventricular direita ou pulmonar Válvula Ventricular esquerda ou aórtica Figura 6. Coração: posição e esquema 3.5 Irrigação do coração. O coração é um órgão muito activo, com alto metabolismo devido à contracção rítmica permanente do seu miocárdio, o que exige um aporte contínuo de oxigénio e nutrientes. 3.5.1 A irrigação é feita pelas “artérias coronárias” que partem da aorta, imediatamente depois da válvula aórtica, e se estendem pelo pericárdio visceral originando múltiplas arteriolas que penetram no miocárdio. 3.5.2 Ambas artérias estão comunicadas proximalmente, mas todos os ramos distais são “terminais” (não comunicados), pelo que a obstrução de um delas provoca a isquemia no território miocárdico correspondente. 3.5.3 O retorno venosos faz-se por um sistema paralelo que desagua no “seio coronário”, comunicado directamente com a AD. Figura 7. Artérias coronárias Disciplina de Anatomia e Fisiologia 1º. Semestre 202 3.6 Sistema eléctrico cardíaco. O coração tem um tecido próprio (células musculares modificadas: neuro-musculares) especializado na transmissão de impulsos eléctricos através de todo o miocárdio, que disparam a contracção rítmica e síncrona do músculo cardíaco. 3.6.1 Estes impulsos são gerados espontaneamente (não precisa dum comando nervosos externo) e podem ser detectados e impressos num gráfico continuo (“electrocardiograma”), que informa sobre a fisiologia e patologia do ritmo cardíaco. 3.6.2 Este tecido neuro-muscular é formado por: Nodo sinoatrial (NSA) ou de Keith-Flack, na parede do AD, é a estrutura que gera os impulsos (“marca-passo fisiológico”, cerca de 60-70 batimentos/min), que transmite ao: Nodo atrioventricular (NAV) ou Aschoff-Tawara , perto do anterior, entre AD e VD, é a estrutura da qual parte toda a rede de fibras para o miocárdio e é capaz de substituir ao NSA no caso deste deixar de funcionar. Recebe o impulso do NSA e transmite através do feixe de His às: Fibras conductoras (“sistema de Purkinje”) e se distribuem o impulso nervoso por todo o miocárdio, originando a contracção. Figura 8. Sistema eléctrico cardíaco 3.6.3 A inervação cardíaca (a través do sistema nervoso autónomo, encarregue pela regulação visceral) não produz o batimento, mas sim modifica a frequência deste, modulando o NSA para adaptar o seu ritmo às necessidades de cada momento.