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INSERÇÃO ECONÔMICA 
INTERNACIONAL DO BRASIL 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Itamir Caciatori Junior 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
NOVO COMÉRCIO MUNDIAL 
Nesta etapa, iremos tratar do comércio mundial, suas vantagens, 
desvantagens e o papel do Brasil nesse contexto. Dessa forma, a etapa está 
dividida nos seguintes tópicos: (i) Impacto das tarifas e subsídios no comércio 
exterior; (ii) Barreiras não tarifárias e novas formas de comércio internacional; 
(iii) Economias externas de escala; (iv) Comércio intraindustrial e índice Grubel-
Lloyd; e (v) Cadeias globais de valor no Brasil. 
CONTEXTUALIZANDO 
A liberdade de comércio é cerceada por algumas práticas que podem ser 
estipuladas pelos governos. Iremos responder às seguintes questões: o que são 
tarifas e subsídios? Qual é o impacto positivo e negativo das tarifas e dos 
subsídios na vida cotidiana? A visão dos exportadores e importadores é diferente 
quanto ao impacto das tarifas e subsídios? Como a agressividade nas políticas 
de tarifas e subsídios altera o padrão de comércio? Quais as novas rotas de 
comércio que se estabeleceram nos últimos tempos? 
TEMA 1 – IMPACTO DAS TARIFAS E SUBSÍDIOS NO COMÉRCIO EXTERIOR 
 
Créditos: tony4urban/ Shutterstock. 
 
 
3 
T 
O 
D 
Tarifa 
Q1 Q2 Q3 Q4 Quantidade 
Preço 
Pe 
Pm 
P*m 
0 
A liberdade de comércio entre os países pode ser reduzida por meio de 
fatores específicos criados pelos governos. Esses fatores podem ou não onerar 
as contas públicas ou mesmo gerar receitas. Neste tópico, vamos aprofundar 
nossos conhecimentos sobre o papel das tarifas e os subsídios. 
1.1 Tarifas 
Tarifas são impostos sobre importações cobrados pelos Governos. Elas 
podem ser específicas, quando cobradas por tonelada / litro / etc. (ex.: R$ 10,00 
por tonelada), ad valorem, quando calculadas como porcentagem do preço do 
produto (ex.: 3% do valor total dos produtos), ou mistas, sendo uma união dos 
dois (ex.: R$ 50,00 por tonelada mais 6% por valor unitário do bem). O sistema 
ad valorem é o mais utilizado no comércio internacional. 
Vale ressaltar que, no caso do Brasil, os países do Mercosul (Brasil, 
Argentina, Paraguai e Uruguai) cobram uma Tarifa Externa Comum (TEC) sobre 
as importações. A estrutura tarifária aprovada no Mercosul apresenta alíquotas 
crescentes de dois pontos percentuais de acordo com o grau de elaboração ao 
longo da cadeia produtiva para as seguintes categorias de produtos: matérias-
primas - 0 a 12%; bens de capital - 12 a 16% e; bens de consumo: 18 a 20%. 
Os efeitos das tarifas sobre os mercados são demonstrados no exemplo 
da Figura 1, demonstrado por Silva e Carvalho (2017). 
Figura 1 – Efeitos da tarifa sobre o mercado de M 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Silva; Carvalho, 2017, p. 81. 
Efeitos sobre Livre 
comércio Tarifa 
Preço P*m Pm 
Produção Q1 Q3 
Consumo Q2 Q4 
Importação Q2-Q1 Q4-Q3 
Receita pública nenhum área T 
 
 
4 
Sob liberdade de comércio, o preço da mercadoria M é P*m, os produtores 
domésticos ofertam a quantidade Q1 e os consumidores demandam a 
quantidade Q2. Assim, a produção é insuficiente para atender à demanda e a 
diferença é complementada com a importação da quantidade Q2-Q1. Porém, em 
uma situação de total liberdade de comércio, o preço internacional da mercadoria 
é igual ao preço no mercado doméstico. Com a tarifa t sobre a importação, o 
preço doméstico de M é alterado e fica mais elevado do que o preço 
internacional. No exemplo da Figura 1, a receita é igual à área T. 
Porém, se as tarifas causam elevação dos preços, por que elas são 
adotadas? O principal motivo é a proteção do mercado interno contra a 
importação das mercadorias internacionais. Essa pressão é causada, em grande 
parte, por pressões políticas de determinados grupos (ex.: produtores de 
veículos e fabricantes de alimentos). 
Assim, cada consumidor acaba pagando um pouco da tarifa (perdas 
difusas) e a concentração da receita fica com o governo, de forma concentrada. 
O maior perdedor, nesse caso, acaba sendo o consumidor, que paga um preço 
mais elevado pelos produtos importados. Por outro lado, os maiores 
beneficiados são o governo, em primeiro lugar, e os produtores e trabalhadores 
do setor protegido, que têm garantidos um preço maior para a competitividade. 
Dessa forma, caso o mercado doméstico seja concorrencial e adote-se 
tarifas que elevem os preços dos importados, ainda assim haverá algum grau de 
competitividade entre os fabricantes dos produtos nacionais. Porém, se o 
mercado interno operar em um regime de oligopólio (concentração em poucos 
produtores) ou monopólio (concentração em um produtor), a elevação dos 
preços via tarifas reduz a competitividade e não incentiva a redução dos preços 
e a melhoria na qualidade dos produtos. Um exemplo disso ocorreu antes dos 
anos 1990, quando o país não tinha forte abertura comercial. Com essa abertura, 
muitas empresas que operavam de forma ineficiente, ao serem confrontadas 
com os importados, sofreram perdas e fecharam as portas ou foram compradas 
por empresas estrangeiras. Dentre os principais setores afetados, os que mais 
tiveram aquisições foram as indústrias farmacêutica, higiene e limpeza, 
eletroeletrônica e química (Castro, 2021). 
Quanto aos efeitos sobre a renda dos consumidores, os protecionistas 
argumentam que, em um quadro de recessão, as tarifas podem ser utilizadas 
para estimular a renda e o emprego porque protegem o produto nacional. No 
 
 
5 
a 
balanço de pagamentos, a imposição de tarifas auxilia a reduzir o déficit externo 
porque reduz as importações. Em outras palavras, aumentos de tarifas aos 
produtos externos forçam a compra de produtos nacionais pelo incentivo do 
preço final, evitando o vazamento de receita para o exterior. Porém, essa 
redução do déficit pode ser obtida por outras medidas econômicas, como a 
desvalorização cambial, que estimula as exportações. 
1.2 Subsídios 
Existe outra maneira de desencorajar as importações, via subsídios. Essa 
alternativa consiste em um instrumento de política comercial na forma de 
pagamentos, diretos ou indiretos, feitos pelo governo aos produtores para 
estimular as exportações e desestimular as importações. Esses pagamentos aos 
produtores são uma forma de imposto negativo, gerando uma redução de custo 
para o produtor. Os subsídios também podem ser dados via redução de impostos 
ou de taxas de juros inferiores às de mercado (Silva; Carvalho, 2017). A Figura 
2 demonstra o impacto da implantação de subsídios sobre a produção. 
Figura 2 – Efeitos do subsídio sobre a oferta e demanda 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Silva; Carvalho, 2017, p. 82. 
1. A implantação dos subsídios gera um deslocamento da curva de oferta de 
O1 para O2; 
2. Em um cenário inicial, o preço internacional é igual a P*m, a produção é 
igual a Q1 e os consumidores domésticos demandam Q2, resultando em 
importação de Q2 - Q1 por insuficiência de oferta; 
b Pm 
P*m 
O1 
D 
Q1 
Preço 
Quantidade Q2 Q3 0 
Subsídio 
O2 
 
 
6 
3. Quando o governo adota uma política de subsídio ad valorem, de taxa s, 
para desestimular importações, o produtor passa a receber Pm = (1 + 
s)P*m; 
4. Isso leva a um deslocamento da curva de oferta para S2, a um aumento 
da produção local para Q3 e a uma redução da importação para Q2 - Q3; 
5. A redução nas importações é igual ao aumento na produção local (Q3 – 
Q1). 
Apesar de o subsídio não alterar os preços cobrados dos consumidores, 
os custos recaem sobre estes, que pagam mais pelo produto e sobre o governo, 
que banca o subsídio. Essa é uma tática bastante adotada pelos países porque 
aumenta a receita das exportações que, se for elástica, excede à redução do 
preço e aumenta a receita das exportações. Se o governo estiver em uma política 
de redução de gastos, o subsídio fica mais difícil, ocasião na qual o governo pode 
adotar outras políticas de proteção comercial. Assim como as tarifas,o subsídio 
também garante reserva de mercado aos produtores domésticos. 
Saiba mais 
Conceito – Elasticidade: a elasticidade é a relação entre as diferentes 
quantidades de oferta e demanda de certas mercadorias, em função de 
alterações realizadas em seus respectivos preços. Uma relação elástica entre 
receita de exportações e seus respectivos preços (relação inversa) significa que, 
a cada redução percentual nos preços, o aumento na receita das exportações é 
mais do que proporcional a essa redução. Por exemplo, uma redução de 10% 
nos preços causa um aumento de 15% na receita de exportações. Os bens de 
demanda inelástica são aqueles de primeira necessidade, indispensáveis ao 
cotidiano da população (ex.: sal). Os bens de demanda elástica são aqueles que 
não são indispensáveis à subsistência da população, tais como artigos de luxo. 
 
 
 
 
 
 
7 
TEMA 2 – BARREIRAS NÃO TARIFÁRIAS E NOVAS FORMAS DE COMÉRCIO 
INTERNACIONAL 
 
Créditos: Lightspring/ Shuterstock. 
Barreiras não tarifárias são mecanismos de comércio exterior que não 
estipulam políticas de tarifas especificamente, e sim de quantidades. Dentre elas 
estão as cotas de importação, controles cambiais, monopólio estatal, provisões 
de conteúdo doméstico e políticas domésticas adicionais. 
2.1 Cotas de importação 
Cotas de importação são caracterizadas como a imposição de restrições 
quantitativas sobre o volume ou valor das importações. Por exemplo, um país 
pode limitar a importação de um modelo específico de veículos a 2 mil unidades 
anuais. Essas quotas podem ocorrer de forma unilateral ou em comum acordo 
entre os países. 
Quanto aos seus impactos, as quotas afetam a oferta de mercadorias, 
uma vez que “fecham” o mercado internacional para aquele produto após a 
importação do produto atingido ter alcançado seu limite. Dessa forma, a 
insuficiência de oferta tem um impacto semelhante ao das tarifas, o que causa 
aumento nos preços e redução na demanda do produto protegido. Nesse 
sentido, a diferença entre as tarifas e as cotas de importação é que estas últimas 
não geram receita para o governo. 
 
 
8 
2.2 Controles cambiais 
Esses controles são restrições administrativas sobre transações que 
envolvam divisas (moeda estrangeira). Uma das formas de controle cambial mais 
adotadas é a dificuldade de importação por meio de licenças para compra de 
moeda estrangeira. Também podem ser empregadas taxas múltiplas de câmbio. 
Nesse caso, quanto maior o interesse em proteger um produto específico, maior 
a taxa de câmbio fixada para sua importação. Esses mecanismos fizeram parte 
da política de substituições brasileira. 
No início dos anos 1950, o Brasil implementou um sistema de controles 
cambiais com promessas de venda de câmbio. Essas promessas davam ao 
importador o direito de adquirir certo montante de moeda ao valor estipulado. 
Assim, entre 1953 e 1955, enquanto a taxa oficial de venda da moeda 
estrangeira era Cr$ 18,82/US$, para produtos considerados supérfluos os 
importadores chegaram a pagar mais de Cr$ 100,00/US$. Para produtos como 
papel e trigo, as importações eram subvencionadas, com venda de moeda 
estrangeira a um preço ainda menor do que a moeda oficial (Silva; Carvalho, 
2017). 
2.3 Monopólio estatal 
O monopólio estatal ocorre quando o próprio governo impede a atuação 
de outros agentes na importação de um produto e centraliza esse processo. Esse 
monopólio pode ser concedido a alguma empresa específica, mediante 
pagamento e sob certas regras. O objetivo desse monopólio é controlar o volume 
importado por meio de uma decisão administrativa, sendo um método antigo e 
bem disseminado. No Brasil, um exemplo disso é a importação de petróleo, 
monopolizada pela Petrobras. 
2.4 Provisões de conteúdo doméstico 
As provisões de conteúdo doméstico são reservas de mercado de parte 
do valor agregado e alguma parte das vendas dos componentes de produtos aos 
fornecedores domésticos (Appleyard et al., 2010). Como exemplo, isso ocorre 
quando um governo estipula que um percentual das peças de um produto 
produzido no país deve ser de origem nacional. 
 
 
9 
2.5 Políticas domésticas adicionais que afetam o comércio 
Exigências adicionais implantadas pelos governos e suas instituições 
também afetam a importação de determinados produtos. Essas exigências 
podem ser padrões de saúde, ambiente e segurança, são aplicados por 
governos, tanto para produtos domésticos quanto para estrangeiros. Porém, a 
crítica de economistas é que essas políticas contêm certo grau de protecionismo 
(Appleyard et al., 2010). Uma política que restrinja a importação de produtos 
transgênicos pelo Brasil de produtores estrangeiros é um exemplo de aplicação 
de uma política adicional. 
TEMA 3 – ECONOMIAS EXTERNAS DE ESCALA 
 
Créditos: ImageFlow/ Shutterstock. 
As economias externas de escala pertencem às teorias alternativas de 
comércio internacional e são uma forma de aumentar o retorno de uma empresa 
via inclusão em uma indústria que apresente ganhos de escala. 
3.1 Economias de escala 
As economias de escala, também chamadas de aumento de retornos, 
baseiam-se no conceito de que o aumento dos custos não é proporcional ao 
aumento da produção. Com esse conceito, as produções serão mais eficientes 
quanto maiores foram suas escalas (quantidades) em que se situam. Ou seja, 
quanto maior a quantidade produzida por uma empresa ou indústria em que ela 
 
 
10 
esteja enquadrada, maior a sua eficiência. A Tabela 1 demonstra como, 
utilizando apenas o fator de produção mão de obra, a produção cresce em um 
ritmo maior do que o aumento desse fator. 
Tabela 1 – Relação de entrada para produção em uma indústria hipotética 
Produção Total de mão de 
obra 
Média de horas 
da mão de obra 
5 10 2 
10 15 1,5 
15 20 1,333333 
20 25 1,25 
25 30 1,2 
30 35 1,166667 
Fonte: Krugman et al., 2015, p. 136. 
O exemplo da Tabela 1 demonstra que a quantidade necessária de mão 
de obra para cada produto diminui conforme aumenta a produção, passando de 
duas horas extras por produto, no momento inicial, para 1,17 horas extras por 
unidade na maior produção registrada. No momento inicial, com 10 horas 
empregadas na produção, eram fabricadas cinco unidades, resultando em uma 
média de duas horas para produzir cada uma. Quando a produção triplica de 5 
para 15 unidades, a necessidade de horas extras não triplica na mesma 
proporção. Ou seja, são necessárias apenas 1,33 hora para produzir cada uma 
delas, ou seja, redução de 0,66 hora em relação à produção inicial de cinco 
unidades. 
Essa linha de raciocínio é aplicada em relação ao incentivo ao comércio 
internacional. Imagine que, em um momento inicial, a produção de 15 unidades 
esteja espalhada entre cinco países, com cada um deles produzindo cinco 
unidades. Cada um desses países, conforme a Tabela 1, demandará um total de 
duas horas extras para fabricar cada unidade do produto. Caso a produção 
desse item específico seja concentrada em apenas um país, com uma produção 
total de 25 unidades, a necessidade de mão de obra cai de 2 horas para 1,2 
horas por unidade. 
É nesse ponto que entra em cena a necessidade do comércio 
internacional. Como cada país começa a se especializar na fabricação de itens 
 
 
11 
específicos, por exemplo, o país A produz os itens 1 e 4, e o país B produz os 
itens 2 e 3. Uma vez que a demanda dos consumidores do país A abrange os 
produtos 1, 2, 3 e 4, esse país precisara importar os itens 2 e 3, fabricados pelo 
país B. 
Para avançar nos conceitos, precisamos saber a diferença entre 
economias externas de escala e economias internas de escala. As economias 
externas de escala ocorrem quando esse aumento na produtividade, ou seja, o 
custo por unidade depende do tamanho do setor como um todo, e não do 
tamanho de uma empresa específica. Nesse conceito, o foco de atenção é a 
indústria em si, como um conjunto de empresas, a responsávelpelas economias 
de escala. No caso das economias internas de escala, o aumento na produção 
via economia de escala ocorre pela produção de uma empresa individual, e não 
do conjunto dessas empresas refletidas em uma indústria. 
Esses conceitos também alteram a estrutura das indústrias ou setores. 
Nas economias externas de escala, muitas pequenas empresas podem operar 
e, juntas, auferirem benefícios de escala. Com isso, cria-se uma estrutura de 
mercado concorrencial, composta por diversas pequenas empresas. Nas 
economias internas de escala ocorre o contrário, ou seja, a produção é 
concentrada em uma ou poucas empresas para auferir os benefícios. Dessa 
forma, o mercado tende a ser mais concentrado em um modelo de monopólio ou 
oligopólio, o que é prejudicial para a concorrência. 
Baseado nos estudos do Economista Alfred Marshall, Krugman et al. 
(2015) destacam três razões principais para que um conjunto de empresas seja 
mais eficiente do que uma empresa operando de forma individual: 
• a habilidade de um aglomerado em dar apoio a fornecedores 
especializados; 
• a maneira que uma indústria geograficamente concentrada permite um 
agrupamento do mercado de mão de obra; e 
• a maneira como as indústrias geograficamente concentradas ajudam a 
promover o transbordamento de conhecimento. 
 
 
 
12 
Figura 3 – Economias externas antes do comércio 
 
Fonte: Krugman et al., 2015, p. 141. 
A análise das economias externas de escala via oferta e demanda pode 
ser resumida em uma situação. Imagine que o Brasil produz, de forma fechada, 
celulares. Em outro local, a Argentina também produz celulares, porém a um 
custo maior por unidade. A Figura 3 demonstra como se dá essa distribuição, os 
custos e o preço dos celulares. 
O primeiro gráfico demonstra a curva de demanda por celulares no Brasil, 
representada por DBrasil, e a curva descendente a oferta desses celulares, em 
razão das economias de escala, representada por ACBrasil. O segundo gráfico 
apresenta a demanda de celulares na Argentina como DArg, e a oferta de 
celulares na Argentina como ACArg. Repare que o preço dos celulares na 
Argentina é maior do que no Brasil, porque este último possui maior eficiência 
na produção. 
Figura 4 – Comércio e preços 
 
Fonte: Krugman et al., 2015, p. 141. 
PArg 
Produção e consumo argentinos de celulares 
Preço, custo por celular 
ACArg 
DArg 
PBrasil 
Produção e consumo chineses de celulares 
Preço, custo por celular 
ACBrasil 
DBrasil 
Quantidade de celulares produzida, demandada 
DBrasil 
ACChina 
Dmundo 
Preço, custo por celular 
P1 
P2 
Q1 
 
 
13 
Quando o comércio é aberto, o Brasil começa a produzir celulares para 
todo o mercado mundial (Brasil + Argentina) e a curva de demanda dos dois 
países se torna a curva de demanda mundial, demonstrada por Dmundo, 
conforme demonstra a Figura 4. Dessa forma, pode-se verificar como o preço 
dos produtos é reduzido, sendo menor do que aquele apresentado por ambos 
os países antes do comércio. 
Então, como são obtidas as economias externas de escala? Por meio da 
concentração geográfica de empresas em distritos ou complexos industriais, por 
exemplo. No Brasil, isso ocorre em algumas regiões específicas, por exemplo: 
calçados masculinos em Franca – São Paulo; cerâmica e decoração em Porto 
Ferreira – SP; jeans em Toritama – Pernambuco; indústria têxtil no Vale do Itajaí 
– Santa Catarina e; bonés em Apucarana – Paraná. No exterior, os exemplos 
são o Vale do Silício (Califórnia) e a indústria do entretenimento, concentrada em 
Hollywood. Esses locais são caracterizados por concentrarem muitas empresas 
do setor, as quais também são exportadoras e obtêm ganhos de escala 
provenientes da concentração industrial. 
TEMA 4 – COMÉRCIO INTRAINDUSTRIAL E ÍNDICE GRUBEL-LLOYD 
 
Créditos: Vector FX/ Shutterstock. 
No decorrer do tempo, as pesquisas sobre comércio exterior iniciaram a 
descoberta de aspectos peculiares sobre os padrões de comércio. O comércio 
intraindustrial, mensurado pelo índice Grubel Looyd, é um desses exemplos. 
4.1 Conceito e definições 
O comércio intraindustrial ocorre quando um país exporta e importa itens 
da mesma categoria de classificação do produto (Appleyard et al., 2010). Esse 
comércio é mais importante para bens manufaturados do que para não 
 
 
14 
manufaturados. Porém, uma vez que importar e exportar em grande volume 
produtos de mesma categoria pode soar algo peculiar, as análises de comércio 
intraindustrial postulam que ele ocorre pelos seguintes motivos (Appleyard et al., 
2010). 
• Diferenciação do produto: tentativas de fabricantes em criar uma 
diferenciação na mente dos consumidores por lealdade à marca ou pela 
demanda de variedades pelos consumidores. 
• Custos de transporte: dependendo da extensão do país, pode ser mais 
vantajoso fazer comércio com o vizinho do que no próprio país, 
principalmente para itens de grande volume em relação ao seu valor. 
• Economias dinâmicas de escala: geradas pela redução nos custos na 
produção de um bem específico pela experiência na produção desse bem. 
• Grau de agregação do produto: algumas categorias de produtos 
incluem mais de um tipo de item, por exemplo, bebidas e tabaco. Quando 
esses itens são comercializados, pode ser que não se esteja falando 
apenas de um deles, mas da importação de um e exportação de outro. 
• Distribuições de renda diferentes entre países: diferentes tipos do 
mesmo produto podem ser comercializados para diferentes níveis de 
renda. Um país produzindo itens para o nível de renda mais baixa pode 
não atender os consumidores de um item semelhante direcionado para as 
pessoas com maior poder aquisitivo. 
• Diferentes dotações de fatores e variedade de produto: um país que 
é apenas intensivo em trabalho pode importar os bens intensivos em 
capital, enquanto pode exportar os bens de mesma categoria intensivos 
em trabalho. 
4.2 O índice de Grubel Lloyd 
O índice de Grubel e Lloyd (GL) utiliza o grau de sobreposição entre 
importações entre exportações e importações como medida de análise. A Figura 
5 demonstra a metodologia de cálculo do índice GL. 
 
 
 
15 
Figura 5 – Metodologia de cálculo do índice de Grubel-Lloyd 
𝐺𝐺𝐺𝐺𝑗𝑗 = 
𝑋𝑋𝑗𝑗 + 𝑀𝑀𝑗𝑗 − �𝑋𝑋𝑗𝑗 − 𝑀𝑀𝑗𝑗�
𝑋𝑋𝑗𝑗 + 𝑀𝑀𝑗𝑗
= 1 −
�𝑋𝑋𝑗𝑗 − 𝑀𝑀𝑗𝑗�
𝑋𝑋𝑗𝑗 + 𝑀𝑀𝑗𝑗
 
Sendo que X e M são, respectivamente, exportações e importações do país j. 
Fonte: Castellano et al., 2022, p. 9. 
Esse índice pode variar entre 0 e 1. Por exemplo, para um país que 
apresenta um índice igual a 0,7 significa que 70% do comércio desse país é 
intraindustrial, e os outros 30% são devidos ao comércio interindustrial. 
4.3 Aplicação no Brasil 
Quanto à sua aplicação no Brasil, em estudo realizado entre o nosso país 
e os países da Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico 
(OCDE – 35 países membros) entre 2001 e 2016, Castellano et al. (2022) 
descobriram algumas particularidades, das quais destacamos duas. 
Em primeiro lugar, a maior parte do comércio intraindustrial realizado 
entre o Brasil e esses países é de produtos verticalmente diferenciados. Além 
disso, 85% dessas negociações são realizadas com apenas seis membros da 
OCDE. Produtos verticalmente diferenciados são aqueles mais bem avaliados 
pelos consumidores de forma objetiva (preço e qualidade) em relação a outros 
de mesma categoria (ex.: queijo de qualidade inferior x queijo de qualidade 
superior). Produtos horizontalmente diferenciados são aqueles avaliados 
utilizando medidas subjetivas de avaliação (ex.: cor). 
Com relação à qualidade dos produtos, o Brasil é majoritariamente um 
país exportador líquido de produtos de baixa qualidade. Porém, essa 
característica tem algumas consequências, como a transposição das barreiras 
comerciais por países concorrentes de forma mais fácil do que pelo Brasil. 
A Tabela 2 demonstra o índice de comércio intraindustrial entreo Brasil e 
dez países da OCDE para o período de 2001 a 2016. 
 
 
 
16 
Tabela 2 – Índice anual médio de comércio intraindustrial e proporção do CIIH e 
CIIV (em %) entre o Brasil e dez países da OCDE para o período entre 2001 e 
2016 
País CII CIIH CIIV 
México 20,92 13,35 86,65 
Estados 
Unidos 14,32 12,34 87,66 
Alemanha 13,5 26,11 73,89 
Suécia 11,13 5,31 94,69 
França 11,02 11,9 88,1 
Itália 8,01 10,19 89,81 
Dinamarca 7,31 7,56 92,44 
Hungria 6,25 8,56 91,44 
Reino Unido 6,18 8,34 91,66 
Espanha 6,09 14,15 85,85 
Legenda: CII = índice de comércio intraindustrial; CIIH = comércio intraindustrial 
horizontal; CIIV = comércio intraindustrial horizontal. 
Fonte: Castellano et al., 2022. 
Sobre a Tabela 2, é importante ressaltar que na mensuração do CII é 
utilizada a metodologia de Grubel e Lloyd, sendo que para a decomposição entre 
CII horizontal (CIIH) e CII vertical (CIIV) foi utilizado o método de Greenaway e 
Milner (1994) . 
TEMA 5 – CADEIAS GLOBAIS DE VALOR NO BRASIL 
 
Créditos: Sasirin Pamai/ Shutterstock. 
 
 
17 
Cadeias Globais de Valor (CGVs) são um fenômeno inerente ao 
capitalismo moderno, que representam a divisão das etapas de produção pelo 
mundo. Nessa seção, demonstraremos um pouco desse conceito, como ele 
ocorre pelo mundo e o papel do Brasil nas CGVs 
5.1 Conceito / vantagens e desvantagens 
As CGVs são um fenômeno derivado da fragmentação de processos de 
produção e sua dispersão geográfica com diversos estágios localizados em 
diversos países (Fleury; Fleury, 2020). Isso significa que as CGVs representam 
a distribuição da produção entre diferentes países, com nenhum deles 
centralizando todas as etapas do processo produtivo. Com essa distribuição da 
produção, as CGVs são resultado das transformações ocorridas na estrutura 
produtiva mundial, com o redirecionamento da produção às redes regionais e 
globais de valor (Gomes; Diegues, 2021), e fazem parte da trajetória da 
economia mundial do capitalismo (Aguiar, 2022). 
A expansão global das CGVs ocorreu de forma acentuada a partir da 
década de 1990, com o crescimento do comércio internacional possibilitando o 
crescimento dos países pobres e sua aproximação com os mais ricos. Eventos 
marcaram essa época, como a integração da China à Europa Oriental, e os 
acordos comerciais, como a Rodada Uruguai e o Acordo de Livre Comércio da 
América do Norte (NAFTA). Porém, esse fenômeno teve sua ocorrência reduzida 
desde a crise financeira mundial de 2008, uma vez que o comércio global ficou 
mais lento (Banco Mundial, 2020). 
A distribuição global da produção é um resultado da ampliação do 
fenômeno da empresa em rede. Ele ocorre com a fragmentação da produção e, 
atualmente, envolve um fluxo dos países industrializados em direção aos países 
de baixo custo, com destaque principalmente para os países do leste e sudeste 
asiático. Com isso, as atividades de pesquisa e desenvolvimento são realizadas 
pelos países desenvolvidos (Gomes; Diegues, 2021). 
5.2 As CGVs pelo mundo 
Segundo o Banco Mundial (2020) , o crescimento das CGVs de valor pelo 
globo está concentrado nos segmentos de máquinas, eletrônicos e transportes. 
Quanto às regiões que participam desse processo estão a América do Norte, 
 
 
18 
Europa Ocidental e Leste Asiático. Os países da África, América Latina e Ásia 
Central possuem perfil de produtores de commodities para processamento 
posterior em outros países. A Figura 1 mostra a distribuição das CGVs. 
Figura 6 – Participação global nas CGVs em 2015 de acordo com o nível de 
inserção 
 
Fonte: Banco Mundial, 2020. 
5.3 O papel e a participação do Brasil nas CGV 
As CGVs possuem três níveis de atuação: comando e controle (locais com 
sede de empresas multinacionais (EMNs)); exportação de peças e componentes 
(integração “para frente”); e processamento de exportação (integração “para 
trás”). Desses, o Brasil não pertence a nenhum deles, em razão de seu perfil de 
exportador de produtos primários (commmodities) e produtos naturais baseados 
em recursos naturais. 
No decorrer do tempo, as exportações de commodities tiveram um grande 
aumento entre os anos de 2003 e 2013, criando uma demanda por produtos 
manufaturados produzidos internamente. Porém, entre 2014 e 2019, o 
percentual do emprego na indústria caiu aproximadamente três pontos 
percentuais (TOTVS; CNI, 2021). 
Quanto à representatividade, três commodities (minério de ferro, soja e 
petróleo) representam quase um terço das exportações brasileiras. Dessas 
 
 
19 
exportações, a China foi responsável por 93% das exportações de soja, 66% das 
exportações de minério de ferro e 69% das exportações de petróleo. 
Quanto aos fluxos de saída e entrada, o Brasil está na 31ª posição 
mundial, com uma relação de 6% entre os fluxos de saída e entrada. Os países 
desenvolvidos possuem alta reação entre saída e entrada, geralmente superior 
a 100%. Como base de comparação para os anos de 2005 a 2020, nos EUA 
(primeiro lugar) essa relação é de 97%, com US$ 4,14 trilhões de entrada e US$ 
4,01 trilhões de saída. O Brasil apresenta fluxo de saída de US$ 47 bilhões 
(TOTVS; CNI, 2021). 
Esse perfil primário-exportador do Brasil gera déficits comerciais 
baseados na importação de peças e componentes intermediários, e o Brasil 
ainda não tem uma indústria suficiente para atender a demanda. Assim, a 
inovação é desestimulada, uma vez que as principais empresas que operam 
nesse segmento são as EMNs, que mantêm centros de inovação em seus 
países-sede, e não nos países que operam com suas filiais. 
TROCANDO IDEIAS 
Discutir com seus amigos possíveis respostas para as seguintes 
questões: 
Quais os impactos que você enxerga nas tarifas dos produtos que você 
consome? Como isso poderia ser minimizado? Quais seriam seus benefícios 
caso não houvesse tarifas sobre importação ou essas tarifas fossem reduzidas? 
Um exemplo desse tipo de produto são os eletrônicos (ex.: celular) que, 
caso importados diretamente pelo comprador, sofrem uma alíquota de imposto 
de importação de 60% do valor do produto acrescido do valor do frete e do 
seguro. E você, consegue citar mais exemplos de produtos importados que 
sofrem altas alíquotas de importação? 
NA PRÁTICA 
O Monitor do Comércio Exterior Brasileiro é uma ferramenta que possui 
dados sobre o comércio exterior do Brasil com atualização mensal. Na 
ferramenta, as informações podem ser visualizadas por categorias de produtos 
(bens de capital, de consumo e intermediários), por destinação das exportações, 
origem das importações, dentre outros. O endereço é o que se segue: 
 
 
20 
 (acesso em: 1 fev. 
2023). 
FINALIZANDO 
Analisamos um pouco sobre o comércio internacional e o papel do Brasil 
nas cadeias globais de valor. Essa análise partiu de uma visão econômica de 
oferta e demanda e de prejuízos/benefícios de elementos como tarifas e 
subsídios. Esperamos que, dessa forma, você possa ter uma visão mais crítica 
dos benefícios do comércio internacional para uso em seu dia a dia como 
economista. 
 
 
 
21 
REFERÊNCIAS 
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América Latina / Global value chains and economic development in Latin 
America. Brazilian Journal of Development, v. 8, n. 3, p. 21910–21929, 2022. 
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São Paulo: Grupo A, 2010. 
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comércio para o desenvolvimento na era das cadeias globais de valor. 
Washington, DC: World Bank, 2020. 
CASTELLANO, E. F. de A.; BITTENCOURT, M. V. L.; OLIVEIRA, C. C. A. de. A 
qualidade e os determinantes do comércio intra-industrial do Brasil com países 
da OCDE. Estudos Econômicos, v. 52, n. 1, p. 185–235, 2022. Instituto de 
Pesquisas Economicas da FEA-USP. 
CASTRO, A.B. de. Reestruturação industrial brasileira nos anos 90. Uma 
interpretação. Revista de Economia Política, v. 21, n. 3, p. 369–392, 2001. 
FapUnifesp (SciELO). 
CNI. Confederação Nacional da Indústria. TOTVS-CNI-MIT-Reorganização das 
cadeias globais de valor: riscos e oportunidades para o Brasil resultantes da 
pandemia de Covid-19. Brasília: CNI, 2021. 
FLEURY, A.; FLEURY, M. T. L. A reconfiguração das Cadeias Globais de Valor 
(global value chains) pós-pandemia. Estudos Avancados, v. 34, n. 100, p. 203–
219, 2020. Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. 
GOMES, G. N.; DIEGUES, A. C. Cadeias globais de valor e desindustrialização: 
as transformações na estrutura produtiva brasileira em perspectiva comparada 
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Universidade Federal do Paraná. 
GREENAWAY, D. R. H.; MILNER, C. Country-specific factors and the pattern of 
horizontal and vertical intra-lndustry trade in the UK. Weltwirtschaftliches 
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KRUGMAN, P. R.; OBSTFELD, M.; MELITZ, M. J. Economia Internacional. 10. 
ed. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2015. 
SILVA, C. R. L. da; CARVALHO, M. A. D. Economia Internacional. 5. ed. São 
Paulo: Saraiva, 2017. 
	Conversa inicial
	Contextualizando
	Trocando ideias
	Na prática
	FINALIZANDO
	REFERÊNCIAS