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NARRATIVAS JORNALÍSTICAS DIGITAIS OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Reconhecer o papel dos influenciadores digitais. > Identificar características das narrativas e linguagens usadas por in- fluenciadores digitais. > Apontar possibilidades de atuação do jornalista como influenciador digital a partir de narrativas que dialogam com o público. Introdução A participação da audiência nas notícias jornalísticas se alterou com a integra- ção das mídias sociais, alterando a recepção do público de passiva para ativa. Assim, os leitores das notícias se tornaram coprodutores de conteúdo. Esse cenário, aliado ao desenvolvimento de plataformas como Instagram, Facebook e YouTube, foi propício para o surgimento dos influenciadores como vetores de opiniões e conteúdo. Os influenciadores da geração millennials ou geração Y possuem semelhanças entre si e perfis de comportamento que foram propícios para o sucesso do formato dos influenciadores. Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital Adriano Miranda Vasconcellos de Jesus Contudo, foi necessário um longo processo para que o jornalista se adap- tasse às novas linguagens. Um dos pontos mais sensíveis dessa adaptação foi a questão da objetividade e da subjetividade, que passou por uma ratificação em alguns pontos e transformações em outros. A autenticidade, por exemplo, foi algo novo para o jornalismo e serviu de base para o trabalho dos influenciadores. Outros aspectos importantes foram emotividade e neutralidade, estratégias de retenção de seguidores, divulgação de conteúdos e acordos comerciais. Neste capítulo, você verá como o jornalista pode construir narrativas no meio digital como um influenciador. Além disso, conhecerá os elementos que compõem a credibilidade dos influenciadores, como especialização, atratividade e similaridade. Em seguida, você conhecerá as características e linguagens convergentes entre os jornalistas e os influenciadores digitais. Por fim, verá quais são os fundamentos da atuação do jornalista como influenciador digital, como a credibilidade jornalística foi transposta para o meio digital e quais desafios foram encontrados, com foco nos desafios do jornalista-cidadão e dos jornalistas amadores versus os jornalistas influenciadores. Influenciadores digitais No início dos anos 90, um apresentador de televisão era considerado um influenciador para investidores e patrocinadores. Contudo, para se comunicar com esse apresentador, a audiência tinha poucas oportunidades: por carta (vários programas de televisão forneciam uma caixa postal específica para atender aos fãs); por telefone (programas forneciam números de telefone para pequenas participações nas atrações); por intermédio de uma revista especializada, em um evento ou palestra; ou por um boletim informativo institucional da emissora. Assim, a audiência era vista de forma passiva, e não participativa, e os “influenciadores” desses veículos de massa não deveriam ser acessíveis, pois isso evitaria problemas com fãs mais enérgicos (JENKINS; FORO; GREEN, 2013). Com o advento das redes sociais no cenário das mídias, a audiência deixou de ser vista apenas como uma recepção passiva para virar protagonista, com suas várias formas de participação de programas, chegando até a se tornar coprodutora do conteúdo. Essa alteração impactou o mercado do entreteni- mento, bem como as empresas jornalísticas. Em um primeiro momento, a figura de pessoas comuns com muitos se- guidores nas mídias sociais atraiu os investidores de marketing, que viram um grande potencial para a divulgação de suas marcas. Plataformas como Facebook, YouTube e Instagram foram importantes para a construção do Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital2 modelo de persuasão e de negócio dos influenciadores. A ideia inicial era de que os influenciadores apresentassem os produtos de uma forma dissua- siva, aumentando a credibilidade do emissor da mensagem, pois seria mais plausível acreditar em uma pessoa comum que acessa as redes para falar de suas experiências acerca de determinado produto ou marca. Os primei- ros produtos foram referentes a cuidados do bebê, utensílios domésticos, entretenimento e jogos. Os influenciadores, por expressarem a sua opinião, abrem espaço para escutar os comentários dos seguidores, o que permite alterar, moldar e refinar o seu argumento conforme o pensamento coletivo. Outra característica dos influenciadores é a linguagem informal utilizada, sem parecer que estão lendo um texto de assessoria de imprensa ou uma redação publicitária. A credibilidade de um influenciador é o elemento de maior relevância, pois atua como uma forma de endosso para a audiência. Assim, se ele quebrar o contrato de confiança com os seguidores, dificilmente conseguirá recuperar a sua credibilidade. Existem três recursos que compõem a credibilidade de um influenciador. Veja a seguir. 1. Especialização: um influenciador que concentra a sua atuação na aná- lise de jogos de basquete será reconhecido como uma autoridade no assunto, principalmente para as marcas de artigos esportivos. O público das redes sociais costuma observar o número de curtidas e seguidores para reconhecer a relevância de um influenciador. Essa noção sugere que, quanto maior o número de seguidores que aderiram ao seu pensamento, mais relevante deve ser o que o influenciador pronuncia. Alguns esforços de plataformas como Instagram estão sendo dispendidos para alterar essa percepção e ampliar a visibilidade de pequenos influenciadores. 2. Atratividade: os meios de comunicação de massa exportaram para a lógica dos influenciadores a noção de que, ao utilizar pessoas famosas pela mídia em plataformas de redes sociais, será ampliada a atrativi- dade dos perfis. Com isso, as redes foram pouco a pouco apropriadas por pessoas que atuam nas mídias tradicionais, ou seja, atores de televisão, apresentadores de telejornais, críticos de arte, esportistas e até mesmo anônimos, que, por circunstâncias aleatórios, ganham certa notoriedade por participar de programas de televisão, como, por exemplo, reality shows. Esse é um componente frágil da credibilidade, mas de forte impacto inicial e, com isso, adequado à lógica das redes sociais. Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital 3 3. Similaridade: enquanto nas mídias tradicionais se dizia que “nada se cria e tudo se copia”, a lógica da credibilidade dos influenciadores utiliza a similaridade como um recurso autêntico para criar relevância para a pessoa. Assim, um influenciador deverá seguir os fluxos, tendências e campanhas de ocasião das redes, ou seja, se um assunto é comentado por uma celebridade, é esperado que haja a manifestação de todos os influenciadores como uma forma de criar autoridade. Outro recurso da similaridade é entregar à audiência estratégias visuais similares às de outras autoridades na área. Com isso, desde as poses até a forma como deverão aparecer os conteúdos seguem um padrão, que é reconhecido pelo público como um fator de credibilidade. Processos de identificação dos influenciadores O processo para se tornar um influenciador e endossar opiniões e produtos tem como fundamento a identificação do público com o influenciador. Embora tenha diversos seguidores, o influenciador é compreendido pelo seu público como uma pessoa normal que tem uma atuação prática em determinado setor da sociedade. Os influenciadores, ao postarem sobre a sua vida cotidiana, criam uma conexão com os seus seguidores, permitindo e estimulando a interação direta. Em muitos casos, compartilhar a mesma faixa etária, localização, inte- resses e comportamentos auxilia na criação desse processo de identificação. O processo de identificação está intimamente ligado à teoria da identidade social, a parte da psicologia que lida com a forma como as pessoas se veem como pertencendo a um grupo de indivíduos semelhantes,baseando parte de sua identidade pessoal em sua filiação ao referido grupo. Naturalmente, as opiniões dos membros do mesmo grupo valem mais para as pessoas do que as de um grupo diferente. A maioria dos influenciadores pertence à faixa etária da geração dos millennials, ou geração Y, que representam uma faixa demográfica da população mundial nascida entre a década de 80 e o início dos anos 2000, geralmente jovens que vivem em grandes centros urbanos e nasceram junto ao desenvolvimento da internet. Os indivíduos desse grupo sempre foram um desafio para os profissionais de marketing e de comunicação, pois valorizam outras formas de comunicação e consideram que a formação e sua identidade dependem da relação que obtêm do meio digital. Para fazer isso, os jovens da geração millennials diversas vezes procuram modelos para enquadrar o seu próprio comportamento (NEPOMUCENO, 2013). Ter um modelo que seja reconhecível e fácil de identificar aumenta ainda mais a probabilidade de os adolescentes copiarem o comportamento de um influenciador. Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital4 Para compreender os influenciadores, faz-se necessário pensá- -los inseridos na geração millennials, ou geração Y. Além de ser a primeira geração a realmente testemunhar a internet como uma tecnolo- gia de comunicação, os millennials viram o surgimento da realidade virtual, da inteligência artificial e dos demais produtos gerados pela conectividade. Recentemente, a pesquisa Millennials in Adulthood (PEW RESEARCH CENTER'S SOCIAL & DEMOGRAPHIC TRENDS, 2015), identificou que a geração millennials possui as seguintes características: � valoriza a motivação significativa; � desafia o status quo da hierarquia; � dá importância ao relacionamento com os superiores; � tem conhecimento intuitivo de tecnologia; � é aberta e adaptável à mudança; � atribui importância às tarefas, em vez de ao tempo; � tem paixão por aprender; � é abertamente receptiva a feedback e reconhecimento; � tem pensamento livre e criativo; � valoriza as interações sociais no local de trabalho. Características e linguagens convergentes entre jornalistas e influenciadores digitais Muitos jornalistas já integraram as mídias sociais às suas práticas cotidianas de trabalho, seja produzindo, seja consumindo conteúdo. Contudo, existe, de forma preponderante, uma dúvida dos jornalistas acerca da linguagem para transmitir credibilidade quando a notícia é disposta em uma mídia social. Como uma notícia ou informação disposta nas redes sociais será julgada pelos leitores? Quais elementos compõem a credibilidade de uma notícia nas redes sociais? De certa forma, os jornalistas parecem confiar nas normas tradicionais do jornalismo para ancorar a credibilidade do leitor, independentemente da plataforma em que a notícia está disposta. Com isso, eles transferem as práticas convencionais da redação do jornalismo para o meio digital e observam o comportamento dos consumidores de notícias. No início das redes sociais, o uso de transposição de práticas sem modifica- ções parecia adequado, porém o avanço de novas ferramentas de comunicação das redes sociais e novas práticas impactaram a prática de produção de nar- Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital 5 rativas jornalísticas. Ao longo do tempo, o acúmulo dessas novas ferramentas impulsionou a produção jornalística a se tornar uma prática dinâmica, que possibilitasse a incorporação de novas estratégias, linguagens e estruturas organizacionais e, com isso, novos entendimentos da narrativa jornalística. Ao analisar a prática jornalística por uma visão histórica, identificam- -se algumas regras, aparentemente indispensáveis, da prática jornalística, como: objetividade, checagem da notícia e autonomia profissional. Esses elementos não são apenas social e culturalmente construídos, mas nego- ciados e flexibilizados continuamente ao longo do tempo. A industrialização das notícias (i.e., o pagamento de pessoas para encontrar e relatar eventos) tem uma história relativamente curta (cerca de 200 anos), relacionada com o desenvolvimento tecnológico das prensas móveis de papel e o desenvol- vimento social, com o aumento da alfabetização, principalmente entre as populações de classe média. No entanto, duas mudanças sociais e culturais ocorreram como resultado do aumento da produção e da distribuição de notícias impressas. Em primeiro lugar, no âmbito organizacional, os editores começaram a remunerar os jornalistas para escrever notícias considerando como indicadores os valores de produção e a popularidade de seu conteúdo em relação a outros jornais. Em segundo lugar, em um âmbito sociocultural mais amplo, o grande número de leitores de jornais criou um senso de público “acessível”, que compartilhava um sentimento comunitário e moral, bem como normas sociais e culturais (BOOTH, 2010). As empresas jornalísticas desejavam a criação de uma comunidade de leitores fiéis em torno da distribuição da notícia, por meio de um senso de cultura e conhecimento compartilhado. Assim, a fidelização do leitor e o compartilhamento da informação criaram as bases para o desenvolvimento comercial das empresas jornalísticas, porém impactaram as formas e práticas de produção da notícia. Com o surgimento do jornalismo como profissão, foram criadas associações de classe, com foco em aprimoramento ético e condutas, identificando os limites profissionais e considerando a força e o impacto de uma notícia no público final. Nesse contexto, é compreensível que jornalistas e empresas jornalísticas não tenham se adaptado facilmente às mudanças trazidas pela prática de produção da notícia das mídias sociais e que a cultura da redação tenha se mostrado “[...] marcada por reativas e defensivas em relação às mudanças provocadas pelas redes sociais [...]” (BOCZKOWSKI, 2004, p. 51). É possível identificar esse conflito inicial e as formas de negociação entre o jornalismo tradicional e o inserido nas redes sociais especificamente nos usos jornalís- ticos do conceito de objetividade. Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital6 A objetividade é um conceito fundamental que define a forma de atuação e prática profissional do jornalista. Por objetividade, compreende-se uma série de comportamentos e práticas de redação que sugerem ouvir todas as partes envolvidas no fato, a adoção de uma postura não partidária ou especulativa e uma redação neutra, sem vícios de linguagem ou exageros (MINDICH, 2000). Segundo Pena (2005, p. 50): A objetividade é definida em oposição à sua objetividade, o que é um grande erro, pois ela surge não para negá-la, mas sim por reconhecer a sua inevitabilidade. Seu verdadeiro significado está ligado à ideia de que os fatos são construídos de forma tão complexa que não se pode cultuá-los como a expressão absoluta da realidade. Pelo contrário, é preciso desconfiar desses fatos e criar um método que assegure algum rigor científico ao reportá-los. Ou seja, a objetividade não deve ser utilizada com uma forma de sobrepor a subjetividade, pois essa é uma característica intrínseca do ato de escrever. A visão de que a objetividade é uma proteção quanto a opiniões dos indivíduos é uma distorção como forma de amenizar a influência ideológica, preconcei- tuosa e de interesses pessoais e organizacionais. Todavia, sabe-se que não é apenas a busca pela objetividade que limitará esses comportamentos. Em contrapartida, a busca pela objetividade encontra um forte respaldo ao se analisar o processo de trabalho do jornalista, cuja metodologia de trabalho deve ser objetiva, com foco e responsabilidade em cada etapa. Ao considerar a objetividade como uma norma que incide sobre a metodolo- gia de trabalho do jornalista, está-se defendendo uma identidade profissional, pontuando os limites da profissão, além de separar a prática profissional do jornalismo da atuaçãoamadora, sem fundamento metodológico. Por fim, a objetividade é uma forma de autodisciplina e de atuação de editores e chefes de reportagem na revisão e na estruturação dos textos a serem publicados. A questão da objetividade como uma metodologia de trabalho que in- corpora as subjetividades e opiniões dos jornalistas é o ponto fundamental da divisão entre o trabalho dos jornalistas nas redes sociais e as notícias veiculadas ou repercutidas por amadores. Esse fato pode ser observado no início dos anos 2000, quando se valorizava a participação do leitor como fonte de informação, sugerindo que este enviasse sugestões de pautas, fotos e textos, mas definido limites de sua atuação. A mesma ação defensiva dos jornalistas foi percebida nos blogs e sites pessoais em seu início. Assim, o início das plataformas das redes sociais como um novo formato para reportagens e notícias foi um desafio para os jornalistas, pois represen- tava uma mudança quanto às normas tradicionais da prática jornalística. Nas Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital 7 redes sociais, a produção do conteúdo é formatada por ferramentas tecno- lógicas, que visam a fornecer para o usuário das redes uma nova experiência no consumo dos conteúdos, ao passo que os jornalistas se preocupam em aumentar a sua audiência e alcance (BOOTH, 2010). Assim, os princípios das redes sociais se fundamentaram em fornecer ferramentas para que o usuário produza, distribua e compartilhe o seu conteúdo em uma variedade de mídias, com recursos como comentários, botões de curtir e compartilhamento de fotos e vídeos, tudo isso de forma fácil e intuitiva. Contudo, essas ferramentas e funcionalidades das redes sociais impacta- ram e questionaram as práticas jornalísticas, pois, quanto mais possibilidades são fornecidas aos usuários para produzirem os seus próprios conteúdos, mais se questiona o papel do jornalista como intermediário entre a notícia e o leitor. Assim, a capacidade de qualquer usuário das redes sociais de se tornar um curador (i.e., um filtro que selecionará a notícia e a distribuirá em sua rede de contatos) levou ao surgimento de uma cultura das mídias que explora a convergência digital e a participação de forma como nunca se havia visto. O surgimento da linguagem narrativa da autenticidade no jornalismo Os jornalistas, ao notarem as alterações na forma de consumo da notícia e as novas ferramentas das redes sociais, consideraram utilizar a autenticidade como base para uma nova prática de atuação. A cultura dos blogs imprime e sugere a representação do pensamento subjetivo sob uma forma objetiva. Apesar de essa forma de jornalismo baseado na autenticidade não ser uma novidade trazida pela web, o seu grande potencial e alcance fizeram dos blogs noticiosos uma nova forma que pressiona o paradigma comercial das empresas jornalísticas. Em se tratando dos aspectos da linguagem, os textos dos blogs imprimem, por meio da autenticidade, um espaço íntimo entre o jornalista e os seus lei- tores, novas conexões sociais e novas formas de interação. O jornalista não se apresenta como uma autoridade outorgada por uma empresa jornalística, por isso, tem a legitimidade da notícia, mas constrói uma credibilidade por meio de seus modos autênticos de representação do fato noticioso (BOOTH, 2010). Embora as práticas de autenticidade e objetividade não sejam ne- cessariamente opostas como técnicas narrativas, existe um desafio para o jornalista de manter um distanciamento do fato enquanto procura se Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital8 aproximar dos leitores das redes sociais. Assim, novas práticas que priorizam a autenticidade na reportagem têm mostrado os limites da objetividade como norma ainda eficaz na prática jornalística. Outra característica da linguagem que gerou uma importante alteração na narrativa jornalística é o uso de expressões emotivas, em vez de se adotar a neutralidade. Ao incorporar aspectos emocionais ao texto, o jornalista das redes sociais visa a angariar mais engajamento de sua audiência. Embora os aspectos emocionais sempre tenham feito parte da narrativa jornalística, as redes sociais permitiram um posicionamento emocional sem alterar o conteúdo da notícia. O jornalista, ao se apresentar em uma rede social, deve compreender as distinções entre a sua vida pessoal e profissional. A representação criada pelo jornalista nas redes sociais deve ter como objetivo aproximar o público e criar a identificação por meio de conteúdos que possibilitem uma rela- ção entre o fato e a forma como o jornalista desenvolveu a notícia. Assim, a credibilidade surge quando o processo de produção de uma reportagem é exposto, apresentando as suas dificuldades e dúvidas no percurso de construção da notícia. No entanto, os jornalistas também estão mediando o espaço entre os modos de autenticidade pessoal e comercial. Com isso, eles buscam nos influenciadores as estratégias de retenção de seguidores, divulgação de conteúdo e acordos comerciais, que são inseridos em seu cotidiano (JENKINS, 2006). Assim como os influenciadores, os jornalistas representam a si mesmos como uma pessoa de fácil acesso, criando na audiência a sensação de proxi- midade e intimidade. Esses mecanismos das redes sociais, que misturam os aspectos profissionais e pessoais, são constantemente alterados e renego- ciados, visando a uma relevância nas redes. Assim, muitas vezes, o objetivo é ter o maior número de seguidores para, depois, construir uma atuação profissional. Essa técnica é a mesma utilizada pelos influenciadores. É importante ressaltar que existem prioridades e demandas em paralelo às narrativas das redes sociais. Ou seja, o jornalista que atua em uma empresa jornalística tradicional deve balancear a sua atuação nas redes sociais, res- peitando o seu contexto na organização, e nas suas formas de representação, não deixando sobrepor aspectos pessoais a seu ofício de jornalista. Embora esses modos de autenticidade tenham sido utilizados de várias maneiras complexas, inclusive para benefício profissional e comercial dos jornalistas, eles apontam para as novas relações entre as necessidades do público, Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital 9 mudanças tecnológicas, estruturas organizacionais e normas institucionais que afetam a prática jornalística nas mídias sociais. Atualmente, muitas empresas jornalísticas incorporam os perfis dos jornalistas em sua atuação midiática, ou seja, a rede pessoal do jornalista se torna um componente de mídia da empresa, atuando, assim, como uma extensão comercial de angariação de audiência e colaborando para o seu conteúdo. Da checagem dos fatos à transparência da atuação do jornalista A análise do processo de checagem dos fatos é fundamental para a com- preensão da ética do jornalismo. Contudo, no ambiente das redes sociais, a velocidade exigida desafia a representação de uma verdade universal das notícias e a centralidade do jornalista como capaz de identificar a veracidade dos fatos. É importante ressaltar que a priorização da autoexpressão autêntica nas mídias sociais não significa que as representações de notícias não sigam padrões específicos de prática. As regras dos manuais de jornalismo colocam a objetividade e a busca da verdade universal como conceitos ideais para uma prática jornalística que impactará nas formas de narrativas e no estilo de transmissão da notícia. No entanto, com o jornalismo convergente com as redes sociais, esses con- ceitos foram, aos poucos, incorporados pela transparência e pela inclusão do público no processo jornalístico. Ou seja, a linguagem narrativa das redes sociais utiliza a transparência do processo de trabalho do jornalista como uma ação de credibilidade, pois apresenta-se de forma inacabada e inconclusiva, permitindo comentários adicionais do jornalista e a verificaçãode novos fatos (BOCZKOWSKI, 2004). O jornalismo tradicional não conseguiu, nos seus anos de maior influência, uma relação com a audiência que permitisse revelar o que se passa nos bastidores das notícias. No entanto, a transparência no processo de apuração da reportagem tem se tornado uma parte relevante no engajamento do público de notícias nas mídias sociais. A checagem dos fatos se tornou mais efetiva com a internet, pois é possível acessar fontes, vídeos e conteúdo das testemunhas dos fatos. Se, por um lado, a internet permitiu que fossem criadas oportunidades para a profusão Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital10 de informações e de fontes, por outro, permitiu que fossem geradas as fakes news, que são disseminadas pelas próprias fontes oficiais. Nesse sentido, o jornalismo, além de informar, passou a argumentar os motivos pelos quais produziu determinada reportagem e os desafios para estruturar a informação. Ou seja, não basta noticiar, é necessário argumentar sobre o processo de checagem das informações, ressaltando a transparência para a audiência. Assim, os jornalistas demonstram os seus processos de apuração e checa- gem de uma história, convidando a audiência a refletir, discutir e até mesmo corrigir as suas ações. Esses bastidores da notícia são apresentados em sites, portais de notícias, plataformas de redes sociais e até mesmo viram programas de podcast. Essa prática recente melhorou a credibilidade do jornalismo com a audiência, pois o tom desses bastidores geralmente é mais informal, semelhante ao estilo utilizado pelos influenciadores. Desse modo, os jornalistas que revelarem de forma mais convencional e natural o seu pro- cesso de trabalho serão mais bem aceitos pelos seguidores nas redes sociais. A narrativa autônoma do jornalista para a linguagem colaborativa dos influenciadores O jornalismo contemporâneo é representado como detentor de uma narrativa privilegiada, pois o jornalista é capaz de decidir de forma independente e autônoma quais informações irão compor a sua reportagem. A autonomia é outorgada pela empresa jornalística, que define a linha editorial em que o jornalista deverá se ancorar para estruturar as suas reportagens, a fim de ele não priorize o seu ponto de vista, nem a sua ideologia. Durante muitos anos, foi devida a essa autonomia que o jornalista se tornou um profissional a serviço da notícia como um bem democrático, ou seja, um bem comum que todos devem ter direito ao acesso. Na verdade, a produção da notícia é um trabalho coletivo de uma redação e sua estrutura, utilizando a experiência profissional de cada jornalista para dar forma às notícias e proteger fontes e dados importantes. Devido a essa visão, compreendia-se o jornalista como um gatekeeper, ou seja, o guardião que controla de modo automático se as informações são suficientemente importantes para serem noticiadas (BOCZKOWSKI, 2004). O direito de controlar o que o público entende como notícia é assumido como um poder autônomo do jornalista, mesmo que seja expresso como uma função pública. No entanto, como visto, a mídia social prioriza a participação do público, que está mais envolvido no processo de criação, modelagem e compartilhamento de informações sobre os eventos que testemunha. Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital 11 Ou seja, o público se tornou coprodutor das notícias, participando do processo colaborativo de produção e de divulgação por meio dos compartilhamentos da notícia (JENKINS; FORO; GREEN, 2013). Nesse contexto, a autonomia do jornalista é convertida em uma atuação semelhante à dos influenciadores, absorvendo opiniões e comentários do público, buscando um maior engajamento. Essa conversão não pode ser vista como uma desvalorização da autonomia da prática profissional, mas como uma nova expressão da autonomia, com foco em um processo colaborativo que incorpora os mais diversos pontos de vista da audiência. As formas colaborativas de produção das notícias nas redes sociais ilus- tram que o jornalismo contemporâneo pode incluir as decisões coletivas das pessoas afetadas pelas notícias, em vez de apenas as decisões de um indiví- duo autônomo, na organização da forma da notícia. Assim, os jornalistas se tornam menos autônomos e mais curadores em sua abordagem, entrelaçando diferentes declarações de testemunhas oculares e traduzindo narrativas de notícias em uma forma e contexto coerentes para os seus leitores específicos. A análise da influência dos jornalistas que atuam como blogueiros e youtubers compõe uma estratégia de marketing de conteúdo. Essa análise consiste no planejamento da produção de conteúdos que poderão impulsionar a sua visibilidade e, consequentemente, a sua carreira. São poucos os jornalistas que atuam como influenciadores e possuam tantos seguidores como as celebridades, porém o destaque do jornalista é referente à qualidade e ao engajamento de sua audiência. Com isso, a análise de sua influência deve ser considerada a partir de três parâmetros (JENKINS; FORO; GREEN, 2013); veja a seguir. 1) Alcance: nesse aspecto, é determinado o potencial de alcance de pessoas conforme o assunto abordado. Em temas muito específicos, alcançar mil profissionais segmentados pode ser mais relevante do que alcançar milhões sem um recorte. Assim, deve servir de parâmetro o alcance a partir da es- pecialização do assunto. 2) Engajamento: o engajamento é fundamental para os jornalistas que preten- dem atuar como influenciadores, pois formará o julgamento do indivíduo. Sabe-se que, antes de qualquer tomada de decisão, faz-se necessário ter argumentos para formar um julgamento. Nesse sentido, os blogs atuam nos questionamentos dos indivíduos e em suas demandas. Quanto maior for a sensação de ler um blog para compreender e resolver um problema prático, maior será o engajamento da audiência. 3) Relevância: ser relevante é ter o reconhecimento da opinião pública de que você é um especialista no assunto. Mais do que isso, é ter um conhecimento que estruture formas de pensar e auxilie os leitores na compreensão de Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital12 fenômenos complexos, como, por exemplo, uma análise de um cenário ma- croeconômico. A relevância pode ser mensurada por meio da medição de menções, retuites e compartilhamentos das postagens realizadas. A atuação do jornalista como influenciador digital Estudos mostram que há um declínio no nível de confiança nos influenciadores em todo o mundo, atribuído a estratégias mal planejadas de marketing. Con- tudo, os influenciadores não são os únicos a sofrerem a perda da credibilidade nos últimos anos, uma vez que há declínios notáveis em áreas tradicionais de confiança institucional, como a confiança em empresas como bancos, montadoras de automóveis e até mesmo no governo. Essa tendência está contida no Relatório de Comunicações Globais de 2019, intitulado “The Path to Progress", publicado pela PRWeek e Cision, que destacou algumas mudanças notáveis no espaço do influenciador digital e a incorporação do jornalista nesse cenário. Apesar dos frequentes ata- ques à imprensa e aos jornalistas, alegando que estes utilizam fake news, os jornalistas convencionais se tornaram uma das categorias mais relevantes e respeitadas, atuando como influenciadores por meio da gestão da informação. Em uma análise mais profunda, o relatório destaca que 60% dos entre- vistados escolheram jornalistas convencionais entre os seus três principais influenciadores em termos de impacto no comportamento do consumidor, com 27% escolhendo-os como os influenciadores com maior número de seguidores. Além disso, é notável que, ao mesmo tempo, o relatório cita que o Instagram continua a se consolidar como o canal de mídia social mais significativo, com 57% dos entrevistados classificando-o entre os três primeiros e 22% afirmando que ele é suaescolha número um. Na cultura do influenciador (considerando- -se além do aspecto do marketing), embora a sua imagem continue sendo essencial, as pessoas estão cada vez mais buscando engajamento com aqueles que estão dando sentido às suas vidas. Para ser influente, o jornalista deve construir confiança, estabelecer a sua autoridade, agregar valor e formar uma conexão mútua com os seus seguidores. O alcance também tem impacto sobre a influência, pois um al- cance amplo permite que uma mensagem seja mais amplamente dispersa; no entanto, o alcance, por si só, não é uma métrica precisa de influência. De modo tradicional, os influenciadores das mídias tradicionais com maior relevância ocupavam cargos de autoridade ou uma posição pública e estavam Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital 13 bem posicionados para disseminar as suas mensagens e inspirar ação, por meio das rotas de alcance estabelecidas da mídia tradicional, ou seja, imprensa, televisão e rádio. Atualmente, contudo, os canais de mídia social democrati- zaram o processo de geração e disseminação de informações, fornecendo a qualquer pessoa a oportunidade de influenciar outras pessoas por meio do jornalismo amador, ou seja, realizado por não profissionais. Esse fenômeno deu origem aos jornalistas influenciadores, que incluem especialistas e blo- gueiros amadores e, agora, precisam ser considerados junto às fontes mais tradicionais de influência na área de comunicação. Apesar de seu alcance potencial, muitos jornalistas amadores não serão influentes, pois suas redes podem ser baseadas em laços ou vínculos fracos com a sua audiência ou podem não ter construído confiança, provado a sua autoridade ou fornecido um valor substancial para a sua rede. No entanto, com o tempo, à medida que as suas redes e autoridade se tornarem mais estabelecidas, esses indivíduos tornam-se mais influentes e, sob certas condições, sobretudo aquelas de crise, o seu grau de influência pode exceder o da mídia convencional ou de outras fontes confiáveis. Em relação às mídias sociais, o jornalista profissional deverá considerar as métricas para identificar as principais formas de atuar em cada plataforma. Essas métricas devem ser selecionadas com base no conhecimento de que, para influenciar, alguém você deve: � construir confiança; � estabelecer a sua autoridade; � agregar valor; � formar uma conexão mútua. O componente essencial da influência do jornalista é que ela inspira à ação, portanto, métricas como retuite (Twitter) e comentários são importantes. O alcance é essencial para fins de divulgação, pois, sem alcance, o jornalista não terá relevância, de modo que métricas como seguidores (Twitter) e fãs/ amigos (Facebook) também são importantes. Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital14 Referências BOCZKOWSKI, P. J. Digitizing the news: innovation in online newspapers. Cambridge: MIT, 2004. BOOTH, P. Digital fandom: new media studies. New York: Peter Lang, 2010. (Digital Formations, v. 68). JENKINS, H. Convergence culture: where old and new media collide. New York: New York University, 2006. JENKINS, H.; FORO, S.; GREEN, J. Spreadable media: creating value and meaning in a networked culture. New York: New York University, 2013. MINDICH, D. T. Z. Just the facts: how objectivity came to defne American journalism. New York: New York University, 2000. NEPOMUCENO, C. (org.). Gestão 3.0: a crise das organizações. Rio de Janeiro: Elsevier, 2013. PENA, F. Teoria do jornalismo. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2005. PEW RESEARCH CENTER'S SOCIAL & DEMOGRAPHIC TRENDS. Millennials in adulthood. 2014. Disponível em: https://www.pewsocialtrends.org/2014/03/07/millennials-in- -adulthood. Acesso em: 11 nov. 2020. Leitura recomendada CASTELLS, M. Communication power. Oxford: Oxford University, 2009. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os edito- res declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Narrativas que dialogam com o público: o jornalista como influenciador digital 15