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INTRODUÇÃO À 
NEUROCIÊNCIA 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
2 
 
SUMÁRIO 
 
INTRODUÇÃO 3 
1- CONCEITOS GERAIS NEUROCIÊNCIAS 5 
2- NEUROCIÊNCIA BÁSICA: FUNÇÃO E ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO 7 
3- A COMPOSIÇÃO ORGÂNICA DO CÉREBRO 28 
4- O CÉREBRO E A NEUROCIÊNCIA 33 
5- NEUROCIÊNCIA E PSIQUIATRIA 41 
REFERÊNCIAS 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
3 
 
INTRODUÇÃO 
 
Prezado aluno (a) aluno (a), 
O curso contém material básico e introdutório relacionados à neurociência. 
Neurociência é o estudo científico do sistema nervoso. 
Tradicionalmente, a neurociência tem sido vista como um ramo da biologia. 
Entretanto, atualmente ela é uma ciência interdisciplinar que colabora com outros 
campos como a educação, química, ciência da 
computação, engenharia, antropologia, linguística, matemática, medicina e disciplina
s afins, filosofia, física, comunicação e psicologia. O termo neurobiologia é usado 
alternadamente com o termo neurociência, embora o primeiro se refira 
especificamente à biologia do sistema nervoso, enquanto o último se refere à inteira 
ciência do sistema nervoso. 
O escopo da neurociência tem sido ampliado para incluir diferentes abordagens 
usadas para estudar os aspectos moleculares, celulares, de 
desenvolvimento, estruturais, funcionais, evolutivos e médicos do sistema nervoso, 
ainda sendo ampliado para incluir a cibernética como estudo da comunicação e 
controle no animal e na máquina com resultados fecundos para ambas áreas do 
conhecimento. 
As técnicas usadas pelos neurocientistas têm sido expandidas enormemente, com 
contribuições desde estudos moleculares e celulares de neurônios individuais até do 
"imageamento" de tarefas sensoriais e motoras no cérebro. Avanços teóricos 
recentes na neurociência têm sido auxiliados pelo estudo das redes neurais ou com 
apenas a concepção de circuitos (sistemas) e processamento de informações que 
tornam-se modelos de investigação com tecnologia biomédica e/ou clínica. 
Dado o número crescente de cientistas que estudam o sistema nervoso, várias 
proeminentes organizações de neurociência têm sido formadas para prover um 
fórum para todos os neurocientistas e educadores. Por exemplo, a International 
Brain Research Organization foi fundada em 1960, a Society for Neuroscience em 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_nervoso
https://pt.wikipedia.org/wiki/Biologia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Interdisciplinaridade
https://pt.wikipedia.org/wiki/Educa%C3%A7%C3%A3o
https://pt.wikipedia.org/wiki/Qu%C3%ADmica
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_da_computa%C3%A7%C3%A3o
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_da_computa%C3%A7%C3%A3o
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_da_computa%C3%A7%C3%A3o
https://pt.wikipedia.org/wiki/Engenharia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Antropologia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Lingu%C3%ADstica
https://pt.wikipedia.org/wiki/Matem%C3%A1tica
https://pt.wikipedia.org/wiki/Medicina
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_da_sa%C3%BAde
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_da_sa%C3%BAde
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia_da_sa%C3%BAde
https://pt.wikipedia.org/wiki/Filosofia
https://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%ADsica
https://pt.wikipedia.org/wiki/Comunica%C3%A7%C3%A3o
https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicologia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neurobiologia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Biologia_molecular
https://pt.wikipedia.org/wiki/Biologia_celular
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_nervoso_central#Desenvolvimento_embrion%C3%A1rio
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_nervoso_central#Desenvolvimento_embrion%C3%A1rio
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_nervoso_central#Desenvolvimento_embrion%C3%A1rio
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neuroanatomia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neurofisiologia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neuroetologia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neurologia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Cibern%C3%A9tica
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neurocientista
https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9lula
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neur%C3%B4nios
https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9rebro
https://pt.wikipedia.org/wiki/Redes_neurais
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neurocientista
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
4 
 
1969, a Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento em 1976 e 
a Sociedade Portuguesa de Neurociências em 1992. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
5 
 
1- CONCEITOS GERAIS: NEUROCIÊNCIAS 
 
O termo neurociência é aquele aplicado à ciência que se dedica ao estudo, 
observação e análise do sistema nervoso central do ser humano; também podemos 
falar de neurociência para animais. 
Enquanto o conceito de neurobiologia às vezes costuma ser utilizado como 
equivalente, a verdade é que a neurociência é a ciência ou o sistema estruturado da 
investigação e análise sistematizado do sistema nervoso. Neurociência deriva da 
palavra grega neurosque que significa nervos. Dela também deriva o termo 
neurologia, neuropsicologia, neurose ou neuroneo, entre outros. 
 
A principal função da neurociência é estudar e analisar o sistema nervoso central 
dos seres humanos e animais, suas funções, seu formato particular, sua fisiologia, 
suas lesões ou patologias, etc. Desta maneira, através de seu estudo se consegue 
conhecer muito melhor seu funcionamento para eventualmente agir sobre ele. 
Devido ao complexo e rico órgão cerebral, que não tem nada a ver com questões 
anatômicas, mas com o desenvolvimento de habilidades como a aprendizagem, a 
linguagem, etc., a neurociência é um campo científico muito amplo e variado 
classificado em subciências ou campos científicos especificamente dedicados a 
cada uma destas funções ou particularidades do cérebro. 
https://queconceito.com.br/sistema-nervoso
https://queconceito.com.br/funcionamento
https://queconceito.com.br/desenvolvimento
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
6 
 
A neurociência é um fenômeno que o ser humano conheceu e levou adiante desde 
os tempos antigos, embora obviamente muito mais precários. A neurociência 
conseguiu muitos avanços na época moderna e isto permite que o tratamento de 
doenças que antes eram insuperáveis possa ter efeitos verdadeiros sobre 
a qualidade de vida dos pacientes que sofrem, por exemplo, no caso da esclerose 
múltipla, do Alzheimer, do Mal de Parkinson e muitas outras que tem a ver com o 
sistema nervoso central dos humanos. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
https://queconceito.com.br/qualidade-de-vida
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
7 
 
2- NEUROCIÊNCIA BÁSICA: FUNÇÃO E ORGANIZAÇÃO DO SISTEMA 
NERVOSO 
 
 
O encéfalo humano é uma rede de mais de 100 bilhões de neurônios 
interconectados em sistemas que constroem nossa percepção sobre o mundo 
externo, fixam nossa atenção e controlam o mecanismo de nossas ações. A primeira 
etapa para se compreender a mente consiste, portanto em aprender como os 
neurônios estão localizados em vias de sinalização e como eles se comunicam 
através da transmissão sináptica. 
A especificidade das conexões sinápticas estabelecida durante o desenvolvimento é 
a base da percepção, ação, emoção e aprendizagem 
Como os genes contribuem para o comportamento? O comportamento não é 
herdado, o que é herdado é o DNA. Os genes codificam as proteínas que são 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
8 
 
importantes para o desenvolvimento e para a regulação dos circuitos neurais, que 
são a base do comportamento. 
 
O princípio de localização: cada área do SNC tem uma função específica. Mas, 
atenção! Não existe uma área da linguagem, outra do amor, outra da memória. Os 
processos complexos são divididos em partes. Por exemplo a linguagem é composta 
pela compreensão, expressão, melodia, etc. Com isto cada área estará relacionada 
a um aspecto da linguagemgrupos de pesquisa e um considerável investimento governamental. A partir 
daí as palavras neurociência, neurobiologia, neurociência cognitiva, 
conexionismo, conectoma tornaram-se populares e a mente deixou o reino das 
celestiais abstrações para descer aos domínios da dinâmica da matéria nervosa. 
Desse esforço moldou-se a neurociência atual, que não é uma especialidade, mas 
um campo multidisciplinar que abrande biofísicos, bioquímicos, psiquiatras, 
psicólogos, filósofos, matemáticos, físicos, cientistas da computação e inteligência 
artificial, educadores e outros com interesse comum no sistema nervoso. Enquanto 
uma disciplina limitada apenas às especialidades da neurologia clínica e fisiologia, o 
desenvolvimento da neurociência ficou restrito aos campos da patologia e da 
fisiologia da célula nervosa, emergindo daí a psicologia fisiológica, que começou a 
explorar as bases neurais das emoções, estados de consciência e cognição, com 
base na experimentação sobre estruturas cerebrais. A neurociência colocou 
diferentes campos da ciência para dialogarem entre si e a partir daí se desencadeou 
um grande desenvolvimento, incluindo uma força-tarefa para mapear todas as vias 
nervosas para construir o ―conectoma‖ ou mapa da comunicação entre os grupos de 
células nervosas, um esforço análogo ao projeto genoma e proteoma. Já se 
evidencia que algumas doenças mentais estão relacionadas a alterações 
processuais na informação que trafega em certas vias, e 
alguns neurocientistas começam a denominar as doenças mentais de 
―conectopatias‖. 
Aos poucos se abandona a abordagem do sistema nervoso como uma caixa preta, 
isto é, como algo cujo mecanismo é inacessível e somente podemos inferir sobre ele 
observando seu comportamento. A mística da ―extrema complexidade inacessível do 
sistema nervoso‖ é apenas uma abstração oriunda de fatos que desconhecemos 
sobre os códigos neurais e a conectômica do cérebro. A muralha entre organismo, 
comportamento e cognição já não é tão definida como antes, de fato, seus limites 
estão cada vez mais imprecisos, e não está longe o dia em que desaparecerá, pois 
esta muralha não foi construída pela natureza, mas tão somente pela teologia e pela 
filosofia clássicas. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
49 
 
A compreensão de algo só acontece quando, com base nos dados que 
dispomos, formulamos um modelo daquilo que estamos estudando e, este modelo 
explica satisfatoriamente as nossas observações, e pode ainda ter algum poder 
preditivo. O melhor modelo será aquele mais inclusivo e preciso, e o mais simples 
dentre os disponíveis. Um modelo não uma verdade absoluta e está sujeito a 
modificações ou a substituições segundo vão surgindo mais dados e adquirimos 
mais conhecimento. Nenhum modelo é certo, apenas alguns são melhores que os 
outros, e assim avançamos. 
Há três tipos de modelos atualmente dominantes. O primeiro é filosófico, platônico, 
considera o ser humano um ente espiritual que atua em um corpo durante sua 
temporária jornada em nosso planeta. Esse modelo foi demolido pela biologia 
evolucionária e pela psicologia fisiológica, mas ainda permanece o modelo 
do neurofisiologista John Eccles e do filósofo Karl Popper que considera o ser 
humano um Self atuando através do cérebro. Eles dividiram o plano da existência 
em três mundos, renovando o platonismo numa perspectiva moderna. Nesse 
modelo, o self está para o cérebro assim como o pianista está para o piano, mas fica 
a pergiunta: sendo o pianista é uma força real que aciona o mecanismo do piano 
para produzir som, como pode o self, entidade imaterial, abstrata, imprimir uma força 
capaz de fazer neurônios dispararem de forma tal a gerar um pensamento? 
Entendemos como uma sensação pode modificar a atividade cerebral, sabemos sua 
origem e seu equivalente em energia e trabalho, mas o modelo de Eccles-Popper, 
atuação de um self abstrato, não é cientificamente conceituável. Apesar disso, este 
modelo ainda é aceito por uma corrente de neurocientistas, talvez por não 
distinguirem perfeitamente ciência de filosofia, ou acreditarem numa metafísica 
quântica que, a nosso ver, nada mais é que uma ilação 
espiritual ressignificada numa linguagem emprestada da física moderna. 
O segundo modelo é o biopsicossocial, ainda hoje considerado um paradigma pelos 
formuladores de políticas de saúde mental e pela psiquiatria. Ele deu origem a 
presente abordagem das doenças mentais, eufemisticamente denominadas de 
―transtornos mentais e do comportamento‖, e integrou psiquiatria com políticas 
sociais, encarecendo tremendamente os custos assistenciais e aumentando a 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
50 
 
burocracia, sem produzirem avanços importantes sobre o entendimento da origem 
das doenças mentais. Esse modelo favoreceu a prevalência das classificações 
internacionais das doenças mentais, que as transformou em categorias, em 
detrimento do seu estudo científico interdisciplinar. Os conhecimentos psiquiátricos 
tornaram-se molares, levando à proliferação de um excessivo sociologismo sobre 
uma questão tão séria como a doença mental, consequentemente estimulando 
movimentos antipsiquiátricos ―revolucionários‖. O principio que orienta esse modelo 
pode ser assim resumido: ―os primatas, por construção biológica e psíquica, podem 
sentir e sonhar, bem como participar de relações sociais e assim modificar a 
atividade mental e comportamento de outros animais‖. Esse modelo negligenciou a 
abordagem neurocientifica das doenças mentais; psiquiatras e psicólogos eram 
advertidos a não ―neurologizarem‖ a psique nas suas atividades clínico-terapêuticas, 
coisa que ainda é ouvida entre os ―psicólogos humanistas‖ e ―antipsiquiatras‖. 
O terceiro modelo, chamado translacional, reúne diversas fronteiras da ciência 
moderna, como a biologia molecular, a biologia evolucionária do desenvolvimento, a 
farmacologia molecular, a genômica, a proteômica, a inteligência artificial, a 
psicologia cognitiva, a conectômica. Isto permite a construção de modelos eficientes 
e protocolos experimentais mais eficientes, além de progredir o tratamento e 
prognóstico das doenças mentais, descobrir alvos farmacológicos 
precisos, introduzir técnicas biofísicas de estimulação e regulação cerebrais, 
desenvolver técnicas de registro de imagens cerebrais funcionais em tempo real e 
com grande precisão. A abordagem translacional devolve à psiquiatra o seu 
desenvolvimento interrompido pela ideologia estéril e dispendiosa do modelo 
biopsicossocial. Voltaremos a falar nisso no próximo artigo. 
Esse modelo traz embutida em si a noção de nívies de integração. A tabela 1 mostra 
a hierarquia de níveis de abordagem do ser humano, do geral para o particular. Se 
consideramos o ser humano um sistema, então podemos relacioná-lo nesses níveis, 
que formam supersistemas e subsistemas. A filosofia nos ensina que sempre que 
entendemos um sistema, imediatamente passamos a relacioná-lo a um subsistema, 
que é parte dele, e a um supersistema, do qual ele faz parte, e com isso geramos 
novos conhecimentos e saltos na compreensão. O modelo biopsicossocial, ao se 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
51 
 
tornar ideológico, desprezou essa abordagem numa teoria ―três em um‖ que não é 
senão pura ideologia. 
Tabela 1. Os supersistemas e subsistemas de um ser humano (em ordem 
hierárquica decrescente). Adaptado de Bunge (1989). 
Nível social Mundo 
Sociedade 
Grupos sociais 
Nível biológico Organismos 
Supersistemas (ex., sistema nervoso central) 
Órgãos (ex., hipotálamo) 
Microssistemas (ex., colunas de neurônios corticais) 
Células (ex., neurônios) 
Nível químico Organelas (ex., ribossomas, mitocôndrias etc.) 
Moléculas (DNA, RNA, proteínas) 
Nível físico Átomos 
Partículas elementares 
Campos (gravitacional, eletromagnético etc.) 
 
A tabela exibe uma organização hierárquica em que o nível imediatamente acima e 
o imediatamente abaixo do foco de estudosão, respectivamente, supersistemas e 
subsistemas. Se abordamos um sistema excluindo-o de todos os outros e 
examinando suas partes para compreender um detalhe, p. ex., a estrutura molecular 
de um receptor implicado numa resposta nervosa, estamos fazendo uma 
abordagem analítica. Se estudamos seus componentes para entender seu 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
52 
 
funcionamento, estaremos abordando-o sinteticamente. Ambas as abordagens têm 
limitações que restringem sua generalização; a alternativa seria a 
abordagem holística, que preconiza o estudo de um sistema como um todo partindo 
da premissa que ele tem propriedades emergentes, mas essa abordagem 
é generalizadora, não explica essas propriedades em termos de composição e 
estrutura, e assim pouco avança. A abordagem multinível, característica do modelo 
translacional, trata o sistema como elemento de um supersistema e formado de 
subsistemas. Isto estimula a interação entre diferentes campos científicos, permite a 
formulação de boas hipóteses, e com isso alcança um potencial de avanço real. 
Essa abordagem é algumas vezes referida como ―agarre o que puder‖, pois depende 
de todo conhecimento, tecnologia e dados disponíveis sobre um dado assunto. Esse 
modelo permite avançar e encontrar novas soluções. 
Em um mundo onde o conhecimento científico encontra-se excessivamente 
fragmentado, a integração multinível é uma estratégia capaz de unir compartimentos 
tais como fisiologia nervosa, neurobiologia, psicologia, psiquiatria e filosofia. Por 
exemplo, a área de Wernicke pode ser integrativamente abordada como uma rede 
de sinapses quimicamente peculiares, ao mesmo tempo como uma rede cuja 
arquitetura permite computar códigos neurais em linguagem articulada, um órgão de 
formação e compreensão da expressão linguística, e como uma interface entre o 
individuo e o mundo em que ele vive e transforma em compreensão e linguagem. 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
53 
 
REFERÊNCIAS 
 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neuroci%C3%AAncia>acesso em 28/04/2020 
https://queconceito.com.br/neurociencia>acesso em 28/04/2020 
http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=3340>acesso em 28/04/2020 
https://ogatodacaixa.wordpress.com/2016/11/03/a-composicao-do-cerebro-
neurociencia/comment-page-1/>acesso em 28/04/2020 
https://amenteemaravilhosa.com.br/neurociencia-comportamento-mente/>acesso em 
28/04/2020 
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
56652006000100003>acesso em 28/04/2020 
https://www.polbr.med.br/ano17/cpc0317.php>acesso em 28/04/2020 
 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Neuroci%C3%AAncia%3eacesso
https://queconceito.com.br/neurociencia%3eacesso
http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=3340%3eacesso
https://ogatodacaixa.wordpress.com/2016/11/03/a-composicao-do-cerebro-neurociencia/comment-page-1/%3eacesso
https://ogatodacaixa.wordpress.com/2016/11/03/a-composicao-do-cerebro-neurociencia/comment-page-1/%3eacesso
https://amenteemaravilhosa.com.br/neurociencia-comportamento-mente/%3eacesso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652006000100003%3eacesso
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652006000100003%3eacesso
https://www.polbr.med.br/ano17/cpc0317.php%3eacessoe é preciso que elas trabalhem simultaneamente e 
estejam interligadas (conectividade). 
 
 
Wernicke descobriu que existe uma organização modular da linguagem no cérebro, 
constituída de centros de processamento em série e em paralelo com funções mais 
ou menos independentes, agora reconhecemos que todas as habilidades cognitivas 
resultam da interação de muitos mecanismos de processamento simples distribuídos 
em diversas regiões do cérebro. Assim as regiões do cérebro não estão 
relacionadas com faculdades mentais, mas com operações de processamento 
elementares. 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
9 
 
 
A lesão de uma única área pode não resultar na perda total de uma faculdade. 
Mesmo que um comportamento desapareça no início, ele pode retornar 
parcialmente assim que as partes ilesas do cérebro reorganizem as suas conexões 
(neuroplasticidade). 
Assim não é conveniente representar processos mentais como uma série de 
ligações em cadeia, porque em tais arranjos o processo entra em colapso quando 
uma única ligação é quebrada. A comparação melhor e mais realista é pensar nos 
processos mentais como várias linhas de trem que desembocam num mesmo 
terminal. Se houver um bloqueio na estação São Joaquim, a sua comunicação com 
a praça da Sé ficará interrompida, mas seria então possível criar uma nova linha que 
unisse diretamente a Praça da Sé à Estação Vergueiro. Deste modo, um problema 
em uma única ligação na via afeta as informações levadas por ela mas não 
necessariamente interfere de forma permanente no sistema. As partes restantes do 
sistema podem sofrer modificações para acomodar o tráfego extra depois do 
colapso de uma linha. 
Todas as funções mentais são divididas em subfunções. Mesmo a tarefa mais 
simples (piscar voluntariamente) requer a ativação de áreas distintas 
(conectividade). 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
10 
 
 
redes neurais: áreas que trabalham juntas-com depolarização simultânea. 
 
Hoje é possível relacionar a dinâmica molecular de células nervosas individuais às 
representações de atos motores e perceptuais no encéfalo e então, relacionar tais 
mecanismos internos a um comportamento observável. As novas técnicas de 
imagem permitem-nos ver o cérebro humano em ação- identificar regiões 
específicas do encéfalo associadas a modos particulares de pensamentos e 
sentimentos. 
Princípios de divisão do sistema nervoso: 
 
1. Divisão anatômica: 
1. Sistema nervoso central- estruturas contidas no neuroeixo dentro da coluna 
vertebral e do crânio 
2. Sistema nervoso periférico- nervos espinhais, gânglios e 
receptores/terminações nervosas 
 Encéfalo 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
11 
 
 medula espinhal 
 
O encéfalo por sua vez se divide em: 
 Tronco encefálico (bulbo, ponte e mesencéfalo) 
 Cerebelo 
 Cérebro (telencéfalo e diencéfalo) 
 
O diencéfalo fica ao redor do terceiro ventrículo e é todo encoberto pelo telencéfalo, 
sendo apenas visível em cortes sagital, coronal ou transversal. É formado pelo 
 Tálamo 
 Hipotálamo 
 Subtálamo 
 Epitálamo 
 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
12 
 
1. Divisão funcional: 
1. Sistema nervoso de vida de relação: associado a interações do organismo 
com o meio (motricidade, percepção, integração, cognição). É composto por 
fibras aferentes ( que levam informações do meio) e fibras eferentes, que 
inervam os músculos estriados. 
2. Sistema nervoso autônomo: relacionado à manutenção da homeostase, ou 
seja do equilíbrio interno físico-químico do organismo para a sua sobrevivência, 
regulando então a manutenção da temperatura, da sede, do apetite, do 
funcionamento das vísceras (digestão, freqüência cardíaca e respiratória, etc). 
Divide-se em 
 vias aferentes : que trazem a informação para o SNC (Ex: receptores da 
parede da artéria carótida que detectam variações da pressão arterial e da 
concentração de CO2 
e que enviam através de fibras nervosas aferentes esta informação para o SNC, 
desencadeando então mecanismos de compensação para manutenção da 
homeostase) 
 
 vias eferentes: SNA simpático e parassimpático, que compõem dois sistemas de 
fibras que inervam as vísceras, tendo ações antagônicas. 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
13 
 
 
 
 
III. Divisão metamérica: 
1. SN segmentar: são as estruturas do SN, em que há uma correspondência 
anatômica entre os seus segmentos e os segmentos do corpo. São todo o 
sistema nervoso periférico, a medula espinhal e o tronco encefálico. 
2. SN supra-segmentar, composto pelo cérebro e o cerebelo. Estas estruturas 
não podem ser divididas em segmentos, cada qual para uma região do corpo. 
 
Princípio de hierarquia: as áreas ―de cima‖ (cérebro) mandam, controlam, inibem/ 
ativam, modulam as áreas ―de baixo‖ (tronco encefálico e medula). Só que não é tão 
simples assim, pois trata-se de circuitos paralelos e concomitantes que se 
interconectam, mas onde cada um faz uma parte do todo. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
14 
 
 
Percepção: Existem diferentes receptores para diferentes modalidades de 
sensação: quimio-, mecano, termo-, nociceptores, além dos receptores 
eletromagnéticos da visão. 
O mecanismo de transmissão da percepção se dá através da despolarização da 
célula do receptor. Então estas células são, assim como os neurônios, polarizadas, 
podendo mudar a sua polaridade com o estímulo. 
O estímulo causa uma mudança na membrana da célula, que muda a sua 
permeabilidade para determinados íons, o que eleva a sua voltagem (fica mais 
positiva no seu interior) até um limiar mínimo que desencadeia o potencial de ação, 
levando a mensagem pelas fibras nervosas até o SNC. 
O potencial de ação ou é desencadeado, ou não (tudo ou nada). Ele só será 
desencadeado se o estímulo for forte suficiente para mudar tanto a permeabilidade 
da membrana a ponto de levar a um valor de positividade que ultrapasse o limiar 
para o potencial de ação. 
Mas então como posso sentir um estímulo (por exemplo, pressão) mais fraco ou 
mais forte, se o potencial de ação é tudo ou nada? 
Isto acontece porque quanto mais forte o estímulo, maior o número de receptores 
que ele irá despolarizar (somação espacial). Também existe a somação temporal, de 
forma que se o receptor recebe estímulos repetidas vezes, quanto maior a 
frequência, maior a intensidade percebida, porque o receptor então se despolariza 
repetitivamente e vai mandando potenciais de ação um atrás do outro. 
 
É importante saber que existem: 
 fibras de transmissão rápida- ricas em mielina, que é uma substância gordurosa 
que encapa as fibras nervosas. Quanto mais mielina, mais grossa a fibra e mais 
rápida a sua transmissão. Conduzem informações mais precisas, melhor 
localizadas, como o tato discriminativo (se é agulha ou ponta cega; se são um ou 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
15 
 
dois pontos na pele), vibração, informações dos fusos neuromusculares e dos 
receptores neurotendíneos. 
 Fibras de transmissão lenta. São finas, sendo pouco mielinizadas ou amielínicas. 
Transmitem a dor, a sensação de cócegas, a pressão e o tato grosseiro. 
 
Como o cérebro consegue saber se é dor, ou tato, ou vibração se tudo vem em 
forma de potencial de ação? 
 
 
A razão é que cada receptor, que só se despolariza com um estímulo específico está 
conectado com uma fibra nervosa que segue um caminho próprio, indo parar na 
área do cérebro feita para interpretar só este tipo de mensagem. Assim a sensação 
de vibração, por exemplo, é levada por fibras que sobem pela parte de trás da 
medula (funículo posterior), fazem sinapse com núcleos no bulbo, cruzam para o 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
16 
 
lado oposto e chegam a um núcleo específico no tálamo contralateral, lá fazem nova 
sinapse e vão para o córtex cerebral no giro pós-central. Este giro, por sua vez, está 
todo dividido. Cada pilar seu (coluna) responde a uma modalidade de sensação em 
uma determinadaregião do corpo. Então sempre que esta determinada coluna for 
estimulada, a pessoa irá interpretar com derivando de um estímulo específico para 
esta região. 
Penfield foi um neurocirurgião que estimulou com eletrodos diferentes áreas do 
córtex de pacientes. Percebeu então que cada área provocava uma sensação em 
uma região diferente. Então havia uma representação de diferentes áreas do corpo 
no córtex. Isto é chamado de somatotopia. 
 
Diferentes áreas do SNC tem uma reprensentação somatotópica própria, não só 
áreas do córtex. Assim, por exemplo, no corno anterior da substãncia cinzenta da 
medula os motoneurônios da porção mais medial inervam a musculatura axial 
(tronco, paravertebral) e os da porção mais lateral a musculatura dos membros. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
17 
 
 
Motricidade: 
 
O movimento: 
Nossos sistemas sensórios formam representações internas de nossos corpos e do 
mundo exterior. Uma das principais funções destas representações internas é 
orientar o movimento. Mesmo uma informação simples como alcançar um copo de 
água exige informação visual para estabelecer uma representação interna da 
localização espacial do copo. Ela requer também informação proprioceptiva para 
formar uma representação interna do corpo de modo que comandos motores 
adequados possam ser enviados ao membro superior. A ação voluntária somente é 
possível porque as partes que controlam o movimento têm acesso à corrente 
contínua de informação sensorial do cérebro. A ação integrativa do sistema nervoso- 
a decisão de executar um movimento e não um outro depende da interação entre os 
sistemas motoes e sensoriais. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
18 
 
Os sistemas motores são organizados numa hierarquia funcional, com cada um dos 
níveis envolvidos em diferentes decisões. 
 
Reflexos são padrões involuntários, coordenados, de contração e relaxamento 
musculares desencadeados por estímulos periféricos. 
Reflexo miotático: é a resposta de contração do músculo, quando este é estirado 
bruscamente. Trata-se de um circuito monosinaptico, ou seja, há uma via aferente 
de entrada de informação no SNC (medula), uma sinapse e a via eferente que 
executa a contração. Por isso é chamado de reflexo monossináptico. É a forma mais 
simples de circuito neural, pois envolve apenas dois neurônios. 
 
reflexo miotático 
É também um reflexo intrasegmentar, ou seja, envolve um segmento da medula (um 
andar). 
O estiramento rápido do músculo produzido através da percussão do tendão com o 
martelo de reflexos estimula receptores intramusculares (fusos neuromusculares). 
São gerados impulsos que trafegam com grande velocidade por fibras nervosas 
grossas e bastante mielinizadas. Estas entram pela raiz dorsal do respectivo nervo 
espinhal e já se conectam (fazem sinapse) com o motoneurônio anterior do mesmo 
segmento medular. A estimulação dos motoneurõnios provoca contração do 
músculo estirado. Ao mesmo tempo são estimulados interneurônios (células de 
Renshaw) que inibem motoneurônios destinados a músculos antagonistas (aqueles 
que realizam o movimento oposto) e interneurônios que excitam os motoneurônios 
destinados aos músculos agonistas. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
19 
 
O reflexo de estiramento é parte do exame neurológico e mostra o grau de 
facilitação deste circuito medular, quer dizer, a medula é capaz de realizar sozinha o 
reflexo, mas a intensidade da resposta de contração muscular é modulada por vias 
do tronco encefálico (hierarquia). No entanto este mecanismo de resposta muscular 
a partir de uma informação sobre o grau e a velocidade de encurtamento do músculo 
acontece continuamente. A medula está sendo em todos os seus segmentos o 
tempo todo informada e reagindo com uma resposta de mais ou de menos contração 
muscular com a intenção de manter o comprimento do músculo. 
 
O próximo nível de hierarquia motora é o tronco encefálico. Os neurônios do tronco 
encefálico recebem aferências do córtex cerebral e de núcleos subcorticais e 
projetam-se para a medula espinal. Eles contribuem para o controle postural pela 
integração das informações visual, vestibular e somatosensória. Também controlam 
os motoneurônios alfa que inervam os músculos mais distais, sendo então 
importantes para os movimentos dirigidos a um objeto, especialmente os do braço e 
mão. 
 
Ao contrário dos reflexos, os movimentos voluntários são iniciados para atingir um 
objetivo específico. Movimentos voluntários melhoram com a pratica à medida que 
se aprende a prevê-los e corrigi-los frente aos obstáculos do ambiente que 
perturbam o corpo. 
O córtex é o nível mais elevado do controle motor. O córtex motor primário e áreas 
pré-motoras projetam-se diretamente para a medula espinal através do trato 
corticoespinal e também modulam tratos motores que se originam no tronco 
encefálico. As áreas pré-motoras são importantes para coordenar e planejar 
seqüências complexas de movimento. Elas recebem informações dos córtices de 
associação parietal posterior e pré-frontal e projetam-se para o córtex motor 
primário, bem como para a medula espinal. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
20 
 
 
vias motoras-trato córtico-espinhal 
Além da medula, do tronco encefálico e do córtex cerebral duas outras partes do 
encéfalo também atuam, regulando o planejamento e a execução dos movimentos: o 
cerebelo e os núcleos da base (putamen, globo pálido, núcleo caudado, claustrum, 
núcleo subtalâmico e substância negra). 
O cerebelo e os núcleos da base fornecem circuitos de retroalimentação (feedback) 
que regulam áreas motoras corticais e do tronco encefálico. São necessários para 
que os movimentos sejam suaves e para a postura. Circuitos cerebelares estão 
envolvidos com a temporização e coordenação dos movimentos em execução e com 
a aprendizagem de habilidades motoras. 
Memória 
A memória está intimamente relacionada ao aprendizado, sendo o armazenamento 
também resultante da facilitação de vias sinápticas. Mas, isto não é tudo. 
Primeiramente, existem diferente tipos de memória: 
Em relação ao tempo de armazenamento, a memória pode ser: 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
21 
 
1. imediata, ou ecóica : a retenção por alguns segundos de um número, ou uma 
frase que acabamos de ouvir, mesmo que não estivéssemos atentando para a 
informação. 
2. de curto prazo: retenção por até poucos minutos, aqui introduzo o conceito de 
memória de trabalho, ou ―working memory”, que designa a capacidade de 
retenção de informação por alguns minutos ou mais para a execução de uma 
determinada tarefa. Por exemplo, quando em uma cidade estranha alguém me 
explica o caminho, dizendo quais curvas devo fazer depois de quais sinaleiros. 
Esta informação ficará retida pelo tempo necessário ao seu uso. 
3. de médio e longo prazo: retenção por horas, anos, ou até toda a vida. 
 
Em relação a um determinado episódio (por exemplo, um acidente vascular, ou um 
trauma) a memória pode ser retrógrada, que se refere ao armazenamento de 
conteúdos anteriores ao evento e anterógrada, ou seja, referente à capacidade de 
armazenamento de novos conteúdos apresentados. Assim, uma pessoa pode ter 
ainda armazenados dados sobre si mesma, como seu nome, sua biografia, mas ser 
incapaz de armazenar novas informações, como, por exemplo, a imagem de alguém 
que conheceu após a lesão cerebral. 
A memória retrógrada divide-se de acordo com seu conteúdo em: 
 Semântica: refere-se aos nossos conhecimentos gerais, como o conhecimento da 
nossa língua, ou de que o leão é um animal perigoso, ou de quem descobriu o 
Brasil. 
Episódica ou biográfica: refere-se à nossa biografia, ao nosso conhecimento sobre o 
nosso nome, lugar de nascimento e fatos da nossa vida. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
22 
 
 
Na literatura médica existe o caso de um paciente que durante anos visitou o mesmo 
médico, apresentando-se a ele todas as vezes, como se nuncao houvesse visto 
antes. Este paciente começou a aprender um determinado jogo, que lhe exigia 
habilidades manuais e, embora ele sempre começasse o jogo como se fosse esta a 
primeira vez, seu desempenho foi se tornando cada vez melhor. Isto mostrava que, 
se, por um lado ele não era capaz de armazenar informações que poderiam ser 
evocadas e expressas verbalmente (memória declarativa), por outro lado ele, de 
fato, aprendia o jogo! Ora, isto indicava a existência de formas diferentes de 
memória, que usavam circuitos cerebrais independentes um do outro. Realmente, 
a memória de habilidades associa-se às habilidades motoras e envolve o cerebelo. 
 
Percepção e Memória 
“Recordar é viver. Eu hoje sonhei com você… “ 
Recordar não é assistir novamente ao mesmo filme em vídeo-cassete. Nosso 
cérebro não armazena informações como um computador, o qual mantém os dados 
armazenados inalterados. Pelo contrário, recordar é reconstruir, é criar novamente a 
imagem um dia armazenada. 
Hoje sabemos que não existe um centro da memória, não existe um local no 
cérebro, onde nossas impressões e experiências estejam armazenadas. Longe 
disso! Uma imagem leva a um certo padrão de disparo neuronal simultâneo em 
diferentes áreas e sua recordação se dá quando o cérebro consegue fazer com que 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
23 
 
os mesmos neurônios disparem da mesma forma, repetindo o padrão ocorrido 
durante a percepção. Acontece que esta repetição nunca é ―perfeita‖. Muitos 
neurônios não disparam como da primeira vez e assim a imagem recordada é uma 
recriação extremamente pessoal da imagem percebida. Além do mais este padrão 
de recriação também se modifica com o tempo. Alguns neurônios, cujo disparo 
correspondeu à apreensão de um determinado aspecto da imagem deixa de 
disparar quando esta é internamente evocada, outros mantém o disparo e talvez de 
forma até mais intensa que quando da percepção inicial. 
As nossas impressões do mundo não são simplesmente espelhadas no nosso 
cérebro. Percepções visuais, auditivas, táteis são armazenadas numa forma 
desconstruída, em cada região uma característica da imagem (sua cor, seu cheiro, o 
som da voz, etc). Relembrar é remontar o quebra-cabeça, todas as peças se 
juntando ao mesmo tempo, disparando ao mesmo tempo. Esta é a base na nossa 
representação interna do mundo. Então a SUBJETIVIDADE é inerente à memória, 
posto que esta se dá por processos de agregação do novo (impressões, conceitos), 
com reorganização do já existente, sempre implicando a contrução e reconstrução, 
elaboração e reelaboração. 
Histórias lembradas são mais curtas e mais coerentes que as histórias originais, 
refletindo uma reconstrução e condensação da história original. Os indivíduos 
reinterpretam o material original de modo que isso faça sentido em suas lembranças. 
Assim a memória (pelo menos a memória biográfica) é um processo construtivo, 
assim como a percepção sensória. A informação retida é o produto do 
processamento feito por nosso aparato perceptual. 
A percepção sensória não é um registro fiel do mundo externo, mas um processo 
construtivo, no qual as percepções são acopladas, de acordo com regras inerentes 
de vias aferentes do encéfalo. Isso é também construtivo no sentido de que os 
indivíduos interpretam o ambiente externo a partir de um ponto de vista de um ponto 
específico no espaço, bem como de um ponto específico de sua própria história. 
As ilusões ópticas dão uma prova de que o mundo percebido não é o mundo como 
ele é. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
24 
 
Além disso, uma vez que a informação está retida, a lembrança posterior não é uma 
cópia exata da informação originalmente guardada. Experiências prévias são usadas 
no presente como guias que auxiliam o encéfalo a reconstruir um evento do 
passado. 
Durante a lembrança nós usamos uma série de estratégias cognitivas, incluindo 
comparações, inferências, adIvinhações e suposições para gerar uma memória 
consistente e coerente. 
Ou como diz o poeta: 
“ O Universo não é uma idéia minha. 
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha. 
A noite não anoitece pelos meus olhos, 
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos. 
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos 
A noite anoitece concretamente. 
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso”. 
 Alberto Caeiro 
Emoção e memória 
“Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no engenho Novo a casa em 
que me criei na antiga rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia 
daquela outra, que desapareceu….O meu fim evidente era atar as duas pontas da 
vida, e restaurar na velhice a adolescência. Pois, senhor, não consigui recompor o 
que foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente.” 
Machado de Assis em “Dom Casmurro” 
 
Se mantivermos a mesma emoção em relação a um fato, nossa recordação deste 
mantém o mesmo colorido. Caso, porém, nossos sentimentos tenham se modificado, 
a recordação também se modifica. Alguns detalhes tomarão uma outra dimensão. 
Por exemplo, uma pessoa deprimida tende a se ocupar muito com fatos passados, 
nos quais os aspectos mais negativos adquirem maior dimensão. Não existe, 
portanto, uma recordação objetiva. A natureza da memória é subjetividade e 
transformação. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
25 
 
Existe uma memória inconsciente dos fatos, uma memória implícita, que influencia a 
nossa recordação consciente. Imaginemos que um rapaz tenha tomado um ônibus e 
iniciado uma conversa com o passageiro ao lado. Minutos depois ocorre um terrível 
acidente, o ônibus capota na estrada e algumas pessoas morrem. 
O nosso rapaz sofre apenas ferimentos leves e sobrevive. Passados alguns anos, 
ele é convidado para uma festa e lá se depara com alguém desconhecido. A visão 
desta pessoa, porém lhe causa medo e angústia, sem ele entenda porquê. Somente 
horas depois, já no fim da festa é que ele, após ter se informado com vários outros 
convidados sobre o desconhecido, é que lhe vem como num raio a recordação. O 
desconhecido era o passageiro do ônibus do terrível acidente ! 
Na história acima, a imagem estava armazenada em algum lugar no cérebro, mas 
não podia ser acessada pela consciência. Foi, no entanto capaz de evocar várias 
emoções. 
Embora ainda haja muitas perguntas não respondidas, sabe-se hoje que existem 
estruturas particularmente envolvidas com este tipo de memória: o sistema límbico, 
composto pelo giro do cíngulo, córtex orbitofrontal, amígdalas, hipocampo, parte do 
hipotálamo e outras estruturas. Estas interagem direta e indiretamente com várias, 
se não todas as demais áreas do córtex cerebral, influenciando nossa memória, 
atenção, raciocínio, etc. De fato, nenhuma parte do sistema nervoso funciona 
isoladamente. Começamos assim a ter uma compreensão melhor de como a 
emoção influencia a nossa capacidade de retenção, confirmando 
neurocientificamente o que já sabíamos por experiência: 
O uso no processo pedagógico de meios que nos atinjam, nos toquem 
emocionalmente, como a música, as cores, ou os cheiros, podem melhorar, e muito, 
a motivação e o aprendizado. 
 
Linguagem : 
A linguagem é exclusiva dos seres humanos, isto é fato. Seria ela uma habilidade 
inata, algo que já vem inscrito em nós, moldado no nosso cérebro? Ou seria uma 
habilidade adquirida como o cultivo, a produção de ferramentas, etc? 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
26 
 
Seria de se esperar de uma habilidade inata que esta se manifestasse em todas as 
culturas, independentemente do seu ambiente, ou grau de desenvolvimento. Seria 
também de se esperar que pudesse ser adquirida sem esforço por todos os 
indivíduos normais, posto que é inata, não necessitando de um aprendizado ou 
treinamento formais. Além disso, o processo de aquisição deveria seguir os mesmos 
passos em diferentes meios, pois as etapasjá estariam pré-determinadas 
biologicamente. 
Se pensarmos no andar sobre duas pernas como uma habilidade humana, este 
preencheria todos os critérios acima: em todas as culturas a capacidade de andar 
está presente; nenhuma criança necessita freqüentar uma escola para assimila-la. 
Os esforços que empreende são espontâneos e surgem em um determinado 
momento do desenvolvimento neuro-psico-motor, tendo com pré-requisitos a 
aquisição do equilíbrio da cabeça e do tronco, a capacidade de se colocar em 
diferentes posições (virar-se, elevar-se, etc). 
 
áreas responsáveis pelo processamento da linguagem 
Agora, retornando à linguagem, aqui também temos um comportamento presente 
em todas as culturas. Desde os aborígenes da Austrália aos esquimós do Alasca, 
não há cultura humana sem linguagem. As crianças adquirem a língua de seu meio 
por simples exposição, sendo que o processo de aprendizagem segue aqui uma 
sequência universal. Os passos são os mesmos, independentemente da língua a ser 
aprendida. Por volta do primeiro aniversário, as crianças falam suas primeiras 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
27 
 
palavras. Por volta do segundo aniversário a velocidade de aquisição de novas 
palavras aumenta tremendamente, chegando a uma média de 7 a 9 ao dia ! 
As crianças começam a combinar palavras, sendo que aos 3- 4 anos de idade 
começam a falar sentenças completas. ( OBS: É claro que as idades aqui citadas 
são apenas valores estatísticos, sendo que o espectro das idades dentro da faixa 
de normalidade é muito amplo). 
A linguagem não são apenas listas de palavras e assim as crianças aprendem não 
apenas os nomes e os verbos, mas também como combina-los. 
 
O ser humano tem então uma capacidade inata não apenas para aprender o 
significado das palavras, mas de reconhecer suas diferentes categorias, agrupando-
as de acordo. Ele já traz no berço um cérebro previsto para esta função, um cérebro 
unicamente humano, posto que todas as outras espécies são incapazes de tamanho 
desempenho. 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
28 
 
3- A COMPOSIÇÃO ORGÂNICA DO CÉREBRO 
 
 
O Sistema Nervoso (SN) controla e comanda o funcionamento dos demais sistemas. 
É uma das primeiras partes do corpo a ser formado, com três semanas da 
fecundação, em média, já há células desenvolvidas que formarão o cérebro e a 
medula espinhal. O Sistema Nervoso (SN) é composto pelo encéfalo (protegido pelo 
crânio), pela medula espinhal (protegida pela coluna vertebral), bem como por 
diversos nervos, gânglios e terminações nervosas que se espalham pelo corpo. O 
Sistema Nervoso Central (SNC) é composto pelo encéfalo (cérebro, cerebelo e 
tronco encefálico) e medula espinhal com bilhões de neurônios, envolvidos pelo 
crânio e coluna vertebral. Os neurônios são células nervosas que recebem 
informações, através de impulsos e as repassam à outras células, formando redes 
que possibilitam tanto a execuções de funções como o movimento, quanto a 
construção do conhecimento. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
29 
 
No SNC se centralizam as mais importantes funções do organismo. O encéfalo é 
responsável, dentre outras, pela visão, audição, movimento, atenção, linguagem, 
pensamento, raciocínio, memória, aprendizagem e as emoções. A medula espinhal 
possui funções na coordenação da motricidade do corpo, além de sentir, processar e 
transportar informações sensoriais. 
O encéfalo (comumente chamado de cérebro), por sua vez, se divide em três partes: 
o cérebro, o tronco cerebral ou tronco encefálico e o cerebelo. 
O cérebro, uma massa mucosa, é constituído por bilhões de células microscópicas e 
se divide em dois lados, chamados de hemisférios (esquerdo e direito) que se 
interligam através do corpo caloso – uma espécie de ―conector‖ situado abaixo de 
uma fissura que separa, na superfície, os dois hemisférios cerebrais. O corpo caloso 
possui a função de juntar, comparar e analisar as mensagens recebidas pelos dois 
hemisférios. 
O córtex cerebral, a camada cinzenta, é a camada de células da superfície do 
cérebro. Nela se concentram bilhões de neurônios. As fissuras ou fendas são 
chamadas de sulcos e as saliências de giros. 
lobos: frontal, temporal, parietal, occipital (que ficam visíveis no plano lateral) e o 
lobo da ínsula (que fica na parte interna do encéfalo). Os nomes dos lobos originam-
se dos respectivos ossos do crâneo que os protegem, com exceção do insular. 
Em termos gerais, o lado esquerdo do cérebro (para os destros e direito para os 
canhotos) exerce um papel principal no processo de aprendizagem acadêmica, 
envolvendo a linguagem, a lógica, a matemática, a sequência. O lado direito (para 
os destros e esquerdo para os canhotos) atua principalmente nas atividades 
criativas como ritmo, música, pintura, imaginação, modelos 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
30 
 
O tronco encefálico ou tronco cerebral é responsável, principalmente, pelos instintos 
e pela condução de estímulos nervosos do cérebro à medula espinhal e igualmente 
da medula ao cérebro. Produz estímulos nervosos que controlam automaticamente 
as funções vitais do organismo, como a temperatura do corpo, a oxigenação, a 
pressão sanguínea, a digestão, a excreção, entre outras, mesmo quando dormimos. 
O mesencéfalo, a ponte e o bulbo são as principais partes que o integram. 
O cerebelo, denominado de ―pequeno cérebro‖ possui conexões com os demais 
componentes do encéfalo, sendo responsável, dentre outros, pelo equilíbrio e 
movimentos. Está localizado abaixo do cérebro, atrás do bulbo. Capta as 
mensagens do cérebro, dosando-as para que sejam executadas pelos músculos 
com precisão. Desta forma, atua como uma espécie de filtro, ajustando a 
intensidade dos impulsos nervosos condizentes com a necessidade de cada 
movimento/ação, possibilitando suavidade ou força, coordenação, postura corporal, 
entre outros. 
A medula espinhal configura-se como uma extensão do cérebro. É constituída de 
feixes de nervos que ligam o cérebro às demais partes do corpo. São protegidos 
pelas vértebras (coluna vertebral) e por membranas chamadas de meninges. Em 
sentido metafórico, podemos dizer que a medula espinhal se assemelha a uma 
grande e movimentada avenida por onde trafegam todos os estímulos e mensagens 
dos órgãos dos sentidos ao cérebro e dele aos músculos, glândulas, órgãos e 
demais membros do corpo. 
O Sistema Nervoso Periférico (SNP) é formado, principalmente por nervos cranianos 
e nervos medulares (da medula espinhal) que se ramificam pelo corpo com 
terminações nervosas e gânglios. Os nervos são formados por fibras denominadas 
sensoriais ou aferentes, quando conduzem estímulos- impulsos do organismo ao 
SNC e denominadas motoras ou eferentes quando conduzem impulsos-comandos 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
31 
 
do SNC aos respectivos nervos, músculos e órgãos que efetivam uma ação- 
resposta. 
As terminações nervosas são estruturas existentes nas extremidades de fibras 
sensitivas e motoras, especializadas no recebimento de estímulos físicos ou 
químicos tanto na superfície como no interior do corpo, onde cada estrutura recebe 
um tipo de estímulo, Já os gânglios são denominações que recebem os 
agrupamentos de neurônios que se encontram fora do sistema nervoso central. O 
Sistema Nervoso Periférico (SNP) também se divide em Sistema Nervoso Somático 
(SNS) e Sistema Nervoso Autônomo (SNA), que por sua vez se subdivide em 
Sistema Nervoso Autônomo Simpático, Sistema Nervoso Autônomo Parassimpático 
e Sistema Nervoso Autônomo Entérico. O Sistema Nervoso Somático (SNS), 
também chamado de Sistema Nervoso Voluntário é formado principalmente por 
parte de nervos motores, sendo responsável pelas ações/movimentos conscientes, 
voluntários do corpo, através do controle da musculatura. 
 Já o Sistema Nervoso Autônomo (SNA), também chamado de Sistema Visceral é 
responsável pelas funções subconscientes com ações reflexas e movimentos 
involuntários,realizados de forma automática pelo organismo. Simpático: ―estimula 
as atividades que ocorrem de forma automática em situações de emergência, perigo 
ou tensão‖ e o Sistema Nervoso Autônomo Parassimpático: ―é mais ativo nas 
condições comuns da vida, estimulando atividades que restauram e conservam a 
energia corporal‖. 
Ao mesmo tempo em que o cérebro (SN) comanda um movimento de determinado 
músculo, outras ordens paralelas são emitidas para inibir músculos que fariam o 
movimento ao contrário e, para a ativação de músculos complementares que farão 
com que o movimento final seja executado com eficiência. Tudo isso, interligado às 
informações táteis, visuais, auditivas, de calor, pressão, localização para permitir 
que o movimento seja o mais preciso possível. Além disso, há outros circuitos 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
32 
 
cerebrais (subcorticais) envolvidos na ação, de forma inconsciente, planejando e 
fazendo cálculos necessários para que os movimentos aconteçam com a velocidade 
adequada, direção correta e precisão necessárias conexões neurais e ―formação de 
redes de informações‖, estamos nos referindo ao complexo processo que os 
neurônios realizam (sinapses) para possibilitar que nosso organismo desempenhe 
as suas diversas funções, sejam de ordem orgânica, afetiva, psicológica, intelectual. 
Assim, a constituição dessas ―redes‖ possibilita o ato de aprender, porém se refere 
ao conjunto de habilidades desenvolvidas a partir das estruturas neurais que não se 
limitam à aprendizagem escolar e sim ao desenvolvimento como um todo, desde 
uma ação motora a um ato afetivo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
33 
 
4- O CÉREBRO E A NEUROCIÊNCIA 
 
A neurociência tradicionalmente tem como objetivo entender o funcionamento do 
sistema nervoso. Tanto em nível funcional como estrutural, essa disciplina tenta 
saber como o cérebro se organiza. Nos últimos anos ela foi mais além, querendo 
não apenas saber como funciona o cérebro, mas também a repercussão que esse 
funcionamento tem sobre nossos comportamentos, nossos pensamentos e nossas 
emoções. 
O objetivo de relacionar o cérebro com a mente é tarefa da neurociência cognitiva. É 
uma mistura entre a neurociência e a psicologia cognitiva. Essa última preocupa-se 
com o conhecimento de funções superiores como a memória, a linguagem ou a 
atenção. Assim, o objetivo principal da neurociência cognitiva é relacionar o 
funcionamento do cérebro com as nossas capacidades cognitivas e nossos 
comportamentos. 
O desenvolvimento de novas técnicas tem sido de grande ajuda dentro desse campo 
para tornar possível a realização de estudos experimentais. Os estudos de 
neuroimagem têm facilitado a tarefa de relacionar estruturas concretas com 
diferentes funções, utilizando uma ferramenta muito útil para esse propósito: a 
ressonância magnética funcional. Além disso, também foram desenvolvidas 
ferramentas como a estimulação magnética transcraniana não invasiva para o 
tratamento de diversas patologias. 
O início da neurociência 
Não se pode falar sobre o início da neurociência sem citar Santiago Ramón y Cajal, 
que formulou a doutrina do neurônio. Suas contribuições aos problemas de 
desenvolvimento, à degeneração e à regeneração do sistema nervoso continuam 
sendo atuais e continuam sendo ensinadas em universidades. Se tivéssemos que 
determinar uma data de início para a neurociência, ela seria situada no século XIX. 
Com o desenvolvimento do microscópio e de técnicas experimentais, como a fixação 
e a coloração de tecidos ou a pesquisa sobre a estrutura do sistema nervoso e sua 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
34 
 
funcionalidade, essa disciplina começou a se desenvolver. Mas a neurociência 
recebeu contribuições de diversas áreas do conhecimento que têm ajudado a 
compreender melhor o funcionamento do cérebro. É possível dizer que os 
sucessivos descobrimentos em neurociência são multidisciplinares. 
Ela recebeu grandes contribuições ao longo da história da anatomia, que se 
encarrega de localizar cada uma das partes do organismo. A fisiologia mais focada 
em entender como nosso corpo funciona. A farmacologia com substâncias externas 
ao nosso organismo, observando os efeitos no corpo, e a bioquímica, servindo-se de 
substâncias liberadas pelo próprio organismo como neurotransmissores. 
A psicologia também realizou importantes contribuições para a neurociência, por 
meio de teorias sobre o comportamento e o pensamento. Ao longo dos anos, a visão 
foi mudando a partir de uma perspectiva mais localizacionista, na qual se pensava 
que cada área do cérebro tinha uma função concreta, até outra mais funcional na 
qual o objetivo é conhecer o funcionamento global do cérebro. 
A neurociência cognitiva 
A neurociência abarca um espectro muito amplo dentro da ciência. Inclui desde a 
pesquisa básica até a aplicada que trabalha com a repercussão dos mecanismos 
subjacentes no comportamento. Dentro da neurociência, a neurociência cognitiva 
tenta descobrir como funcionam as funções superiores como a linguagem, 
a memória ou a tomada de decisões. 
A neurociência cognitiva tem como objetivo principal estudar as representações 
nervosas dos atos mentais. Ela se concentra nos substratos neuronais dos 
processos mentais. Isto é, qual é a repercussão do que ocorre no nosso cérebro em 
nosso comportamento e nossos pensamentos? Foram detectadas áreas específicas 
do cérebro encarregadas de funções sensoriais ou motoras, mas somente 
representam uma quarta parte do total do córtex. 
https://amenteemaravilhosa.com.br/oxitocina-hormonio-amor-felicidade/
https://amenteemaravilhosa.com.br/melhorar-memoria-capacidade-intelectual/
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
35 
 
 
São as áreas de associação, que não possuem uma função específica, as 
encarregadas de interpretar, integrar e coordenar as funções sensoriais e motoras. 
Seriam as responsáveis pelas funções mentais superiores. Áreas cerebrais que 
governam as funções como a memória, o pensamento, as emoções, a consciência e 
a personalidade são muito mais difíceis de localizar. 
A memória está vinculada ao hipocampo, situado no centro do encéfalo. Em relação 
às emoções, sabe-se que o sistema límbico controla a sede e a fome (hipotálamo), a 
agressão (amígdala) e as emoções em geral. No córtex, onde se integram as 
capacidades cognitivas, é o lugar em que se encontra nossa capacidade de ser 
conscientes, de estabelecer relações e de realizar raciocínios complexos. 
Cérebro e emoções 
As emoções são uma das características essenciais da experiência humana normal, 
todos as experimentamos. Todas as emoções são expressadas por meio de 
mudanças motoras viscerais e respostas motoras e somáticas estereotipadas, 
sobretudo o movimento dos músculos faciais. Tradicionalmente, as emoções eram 
atribuídas ao sistema límbico, o que continua se mantendo, mas sabe-se que há 
mais regiões encefálicas envolvidas. 
As outras áreas às quais se estende o processamento das emoções são a amígdala 
e a face orbitária e medial do lóbulo frontal. A ação conjunta e complementar de tais 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
36 
 
regiões constitui um sistema motor emocional. As mesmas estruturas que 
processam os sinais emocionais participam de outras tarefas, como a tomada 
racional de decisões e, inclusive, os julgamentos morais. 
 
Os núcleos viscerais e motores somáticos coordenam a expressão do 
comportamento emocional. A emoção e a ativação do sistema nervoso autônomo 
estão intimamente ligadas. Sentir qualquer tipo de emoção, como medo ou surpresa, 
seria impossível sem experimentar um aumento na frequência cardíaca, 
transpiração, tremor… Faz parte da riqueza das emoções. 
Atribuir a expressão emocional a estruturas cerebrais confere sua natureza inata. As 
emoções são uma ferramenta adaptativa que informa às outras pessoas sobre o 
nosso estado emocional. Foi demonstradaa homogeneidade na expressão de 
alegria, tristeza, ira… em diferentes culturas. É uma das maneiras que temos de nos 
comunicar e criar empatia com as pessoas. 
Memória, o depósito do nosso cérebro 
A memória é um processo psicológico básico que remete à codificação, ao 
armazenamento e à recuperação da informação aprendida. A importância da 
memória em nossa vida cotidiana motivou muitas pesquisas sobre esse tema. O 
esquecimento também é o tema central de muitos estudos, já que muitas patologias 
provocam amnésia, o que interfere gravemente no dia a dia. 
https://amenteemaravilhosa.com.br/catarse-emocional-ajudar/
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
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O motivo pelo qual a memória configura um tema tão importante é que nela reside 
boa parte da nossa identidade. Por outro lado, apesar do esquecimento no sentido 
patológico nos preocupar, a verdade é que nosso cérebro precisa descartar 
informações inúteis para dar lugar a novos aprendizados e acontecimentos 
significativos. Neste sentido, o cérebro é um especialista em reciclar seus recursos. 
As conexões neuronais mudam com o uso ou o desuso destas. Quando retemos 
informações que não são utilizadas, as conexões neuronais vão se enfraquecendo 
até desaparecer. Da mesma forma, quando aprendemos algo novo criamos novas 
conexões. Todos aqueles aprendizados que podemos associar a outros 
conhecimentos ou acontecimentos vitais serão mais facilmente lembrados. 
O conhecimento sobre a memória aumentou a causa do estudo de casos de 
pessoas com um tipo de amnésia muito específico. Em particular, ajudou a conhecer 
melhor a memória de curto prazo e a consolidação da memória declarativa. O 
famoso caso H.M. reforçou a importância do hipocampo para estabelecer novas 
lembranças. Em contrapartida, a lembrança das habilidades motoras é controlada 
pelo cérebro, pelo córtex motor primário e pelos gânglios de base. 
Linguagem e fala 
A linguagem é uma das habilidades que nos diferencia do resto dos animais. A 
capacidade de nos comunicar com tanta precisão e a grande quantidade de nuances 
para expressar pensamentos e sentimentos faz da linguagem nossa ferramenta de 
comunicação mais rica e útil. Essa característica de exclusividade da nossa espécie 
estimulou muitas pesquisas a se concentrarem no seu estudo. 
https://amenteemaravilhosa.com.br/cerebro-elimina-sobra-nao-faz-falta/
https://amenteemaravilhosa.com.br/5-descobertas-pedagogia-montessori/
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
38 
 
 
As conquistas da cultura humana se baseiam, em partes, na linguagem que 
possibilita uma comunicação precisa. A capacidade linguística depende da 
integração de várias áreas específicas dos córtices de associação nos lóbulos 
temporal e frontal. Na maioria das pessoas, as funções primárias da linguagem 
estão localizadas no hemisfério esquerdo. 
O hemisfério direito é responsável pelo conteúdo emocional da linguagem. O dano 
específico de regiões encefálicas pode comprometer funções essenciais da 
linguagem, podendo causar afasias. As afasias podem apresentar muitas 
características diferentes, como, por exemplo, dificuldades na articulação, na 
produção ou na compreensão da linguagem. 
Tanto a linguagem quanto o pensamento não são sustentados por uma única área 
concreta, mas sim pela associação de diferentes estruturas. Nosso cérebro trabalha 
de uma forma tão organizada e complexa que quando pensamos ou falamos, ele 
realiza múltiplas associações entre áreas. Nossos conhecimentos prévios vão 
influenciar os novos, em um sistema de retroalimentação. 
Grandes descobertas em neurociência 
Descrever todos aqueles estudos de importância na neurociência seria uma tarefa 
complicada e muito extensa. As seguintes descobertas eliminaram algumas ideias 
https://amenteemaravilhosa.com.br/linguagem-positiva-mais-feliz/
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
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prévias sobre o funcionamento do nosso cérebro e abriram novas vias de 
pesquisa. Essa é uma seleção de alguns trabalhos experimentais importantes entre 
os milhares de estudos existentes: 
Neurogênese (Eriksson, 1998). Até 1998 acreditava-se que a neurogênese ocorria 
somente durante o desenvolvimento do sistema nervoso e que depois desse período 
os neurônios apenas morreriam e não seriam produzidos novos. Mas, após as 
descobertas de Eriksson, foi possível comprovar que inclusive durante a velhice 
existe a neurogênese. O cérebro é mais plástico e maleável do que se pensava. 
Contato na criação e desenvolvimento cognitivo e emocional (Lupien, 2000). Nesse 
estudo foi demonstrada a importância do contato físico do bebê durante a 
criação. Aquelas crianças que receberam pouco contato físico são mais vulneráveis 
a déficits em funções cognitivas que costumam ser afetadas em períodos de 
depressão ou em situações de grande estresse como a atenção e a memória. 
Descoberta dos neurônios espelho (Rizzolatti, 2004). A habilidade dos recém-
nascidos de imitar gestos motivou o início desse estudo. Foram descobertos os 
neurônios espelho. Esse tipo de neurônio é ativado quando vemos outra pessoa 
realizar alguma tarefa. Eles facilitam não somente a imitação, mas também a 
empatia e, portanto, as relações sociais. 
Reserva cognitiva (Petersen, 2009). A descoberta da reserva cognitiva tem sido 
muito relevante nesses últimos anos. Postula que o cérebro possui a capacidade de 
compensar lesões que sofreu. Diferentes fatores como o período de escolarização, o 
trabalho realizado, os hábitos de leitura ou a rede social influenciam. Uma grande 
reserva cognitiva pode compensar os danos ocorridos em doenças como o 
Alzheimer. 
O futuro da neurociência: ―Human brain project‖ 
O Human Brain Project é um projeto financiado pela União Europeia que tem o 
objetivo de construir uma infraestrutura baseada nas tecnologias da informação e da 
comunicação (TIC). Essa infraestrutura quer fornecer aos cientistas do mundo todo 
uma base de dados no campo na neurociência. Desenvolve 6 plataformas baseadas 
nas TIC: 
https://amenteemaravilhosa.com.br/conheca-neuronios-espelho/
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
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Neuroinformática: fornecerá dados de pesquisas científicas no mundo todo. 
Simulação do cérebro: vai integrar a informação em modelos informáticos unificados 
para realizar testes que não são possíveis de realizar em pessoas. 
Computação de alto rendimento: vai proporcionar a tecnologia da supercomputação 
interativa de que os neurocientistas precisam para a modelagem e a simulação de 
dados. 
Computação neuroinformática: vai transformar os modelos do cérebro em uma nova 
classe de dispositivos ―hardware‖ testando suas aplicações. 
Neuro-robótica: vai permitir aos pesquisadores em neurociência e indústria 
experimentar com robôs virtuais controlados por modelos cerebrais desenvolvidos 
no projeto. 
 
Esse projeto começou em outubro de 2013 e tem duração prevista de 10 anos. Os 
dados coletados nessa enorme base de dados poderão facilitar o trabalho de futuras 
pesquisas. O avanço das novas tecnologias permite aos cientistas ter um 
conhecimento mais aprofundado do cérebro, mesmo que a pesquisa básica ainda 
tenha muitas questões a serem resolvidas nesse apaixonante campo de estudo. 
 
https://amenteemaravilhosa.com.br/6-coisas-tecnologia-nos-roubou/
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
41 
 
5- NEUROCIÊNCIA E PSIQUIATRIA 
 
Ao longo da história da psiquiatria, o pêndulo tem oscilado entre dois extremos, o 
organicismo e o mentalismo. Na segunda metade do século XIX, a posição 
organicista, corporificada na figura do eminente psiquiatra alemão Emil Kraepelin, 
predominava. Buscava-se, com afinco, encontrar lesões cerebrais macroscópicas e 
microscópicas que pudessem explicar as doenças mentais, segundo modelo 
estritamente médico. Dispensava-se, portanto, a psicologia; era a psiquiatria 
"desalmada". Temos de reconhecer que alguns sucessos podem ser computados a 
essa era; por exemplo, a descoberta do substrato neuralda psicose sifilítica. Porém 
as jóias da coroa da psiquiatria — a esquizofrenia, os transtornos afetivos e de 
ansiedade — permaneceram um mistério. 
A reação idealista se fez sentir na primeira metade do século XX, representada, 
sobretudo, pela psicanálise de Sigmund Freud. As lesões do sistema nervoso central 
foram substituídas por traumas psicológicos inconscientes e pelo complexo de 
Édipo. O cérebro se tornou pouco relevante; era a psiquiatria "descerebrada". 
Novamente, ocorreram avanços, sobretudo na compreensão dos transtornos 
ansiosos, rotulados então de neuroses. Porém, a despeito de alguns esforços 
heróicos, as psicoses ficaram praticamente intocadas. 
Veio, então, a "revolução psicofarmacológica", e novamente o pêndulo se deslocou 
para a chamada psiquiatria biológica. O relativo sucesso dos medicamentos 
desenvolvidos a partir dos anos 1950 para tratar a esquizofrenia, a depressão 
melancólica e a mania levou à busca de explicações neuroquímicas para esses 
transtornos. Se, nos anos cinqüenta, um candidato à residência em psiquiatria nos 
Estados Unidos não teria chance alguma se ignorasse o que era transferência e 
contratransferência, hoje ele não será admitido se desconhecer os subtipos de 
receptores da serotonina. 
Estamos condenados a oscilar entre estes dois extremos, ou há alguma 
oportunidade para o equilíbrio? Venho, aqui, defender a última posição. Como ponto 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
42 
 
de partida, invoco o auxílio de Karl Jasper, que, além de psiquiatra, foi também 
filósofo. Diante do aparente dilema, ele defendeu a tese de que há dois tipos de 
conhecimento, tipificados pelos termos Erklären e Verstehen, que em alemão 
querem dizer explicar e compreender, respectivamente. O primeiro é obtido pelo 
método das ciências naturais, exigindo distanciamento afetivo e objetividade por 
parte do observador. É genérico, público e pode ser validado pela observação 
sistemática e, sobretudo, pelo teste experimental. O segundo exige empatia, é 
subjetivo, pessoal e busca significado. Segundo Jasper, a psiquiatria é uma ave que 
precisa dessas duas asas para voar. 
Para ilustrar alguns aspectos do debate atual sobre as dicotomias entre mente e 
cérebro, psicologia e neurociência, significado e causalidade, selecionamos algumas 
posições de renomados autores. Começando com D. H. Brendel, do Departamento 
de psiquiatria da Universidade de Harvard, noto que ele publicou artigo (Brendel, 
2000) em que critica a posição materialista radical do filósofo da ciência Paul 
Churchland, para quem o avanço das neurociências tende a diminuir a importância 
da fenomenologia, podendo, mesmo, eliminá-la no futuro. Brendel contra-argumenta, 
alegando que, mesmo nos casos em que a fisiopatologia de alguns transtornos 
psiquiátricos é mais bem conhecida, como as demências, ainda assim a Psicologia 
não pode ser dispensada. Por isso, propõe a elaboração de construtos teóricos 
pluralistas, que integrem, pragmaticamente, conceitos de natureza diversa, para 
melhor enfrentar os desafios clínicos. Por outro lado, Brendel faz restrições à 
referida posição de Jasper, para quem estados psicológicos significativos seriam 
destituídos de poder causal. Em lugar desse paralelismo psicofísico, Brendel 
defende uma posição interacionista, dado que a causalidade é essencial para o 
conceito de Medicina Psicossomática. 
Neste último sentido, Brendel (2000) se alinha com o eminente eletrofisiologista 
John Eccles, que, com o não menos famoso filósofo Karl Popper, publicou um livro 
clássico sobre a questão mente-cérebro (Popper e Eccles, 1977). A eles alinha-se 
outro neurocientista, Roger Sperry, célebre pelos trabalhos sobre o cérebro dividido 
(split brain). Uma vez indagado se admitia o fenômeno parapsicológico da 
psicocinese, Sperry respondeu que sim, pois acreditava que, constantemente, a 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
43 
 
mente movia a matéria em seu próprio cérebro. Esta perspectiva dualista, contudo, é 
criticada por neurocientistas igualmente respeitados, como António Damásio 
(Damásio, 2003), que repudia Descartes e vai buscar asilo no monismo de 
Espinosa. 
Contra o dualismo, coloca-se também Glen Gabbard, da Karl Menninger School of 
Psychiatry, Topeka, E. U. A. Este autor (Gabbard, 2000) destaca os efeitos da 
psicoterapia sobre o funcionamento do cérebro, efeitos que vêm sendo cada vez 
mais bem documentados por resultados de estudos moleculares e de neuroimagem. 
Para ele, os achados da neurociência contemporânea indicam que o cérebro reage 
a influências ambientais alterando a expressão dos genes, que a psicoterapia 
determina efeitos mensuráveis no cérebro e que a memória implícita pode ser 
modificada pela intervenção psicoterapêutica. Em suma, Gabbard acredita que a 
experiência molda o cérebro, particularmente em certas fases críticas do 
desenvolvimento. Os padrões de funcionamento assim adquiridos estariam gravados 
na memória implícita e seriam revelados na transferência (psicanalítica). Através de 
experiências emocionalmente significativas, a psicoterapia seria capaz de alterar a 
memória implícita. Efeito semelhante pode ser alcançado com medicação. 
Documentando a última afirmação, posso citar o já clássico estudo de neuroimagem 
funcional realizado em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo por Lewis 
Baxter e colaboradores, na Califórnia (Baxter et al., 1992). Os resultados mostram 
que tanto a administração prolongada do antidepressivo fluoxetina como a 
psicoterapia cognitivo-comportamental igualmente atenuam o funcionamento de um 
circuito nervoso, que abrange o córtex orbitofrontal, o tálamo e o núcleo caudado. 
Tal funcionamento está exacerbado nos pacientes sintomáticos e sua normalização 
correlaciona-se com a diminuição ou o desaparecimento dos sintomas compulsivos. 
Enfocando especificamente a psicanálise, lembro que o neurocientista Erik Kandel, 
que se tornou famoso pelos estudos sobre os mecanismos celulares e moleculares 
da aprendizagem, realizados no molusco marinho Aplysia, escreveu ensaios 
estimulantes sobre a relação da neurociência com a psicanálise (e. g., Kandel, 
1999). Tentando sintetizar seu pensamento, posso dizer que Kandel distingue na 
história da psicanálise uma fase inicial de grande fertilidade, quando conceitos 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
44 
 
inovadores foram formulados. Entre eles, destacam-se: a existência de processos 
mentais inconscientes; a natureza da determinação psicológica, isto é, como a 
mente associa dois eventos; a causalidade psicológica na psicopatologia; a 
experiência precoce como fator predisponente da psicopatologia; a importância dos 
impulsos biológicos, em particular o sexual. Já durante a segunda metade do século 
XX, os avanços foram bem menores. Este decurso seria devido ao fato de a 
psicanálise não ter assimilado o método científico da formulação de hipóteses 
empiricamente refutáveis. Observo, contudo, que seria uma injustiça histórica cobrar 
de Freud uma visão que se generalizou apenas depois de Popper ter enfatizado a 
refutabilidade como critério de demarcação do conhecimento científico. Assim 
sendo, Kandel acredita ser possível redimir a psicanálise pela adoção do método 
naturalista de investigação científica. 
Posição semelhante é adotada por alguns psiquiatras, que buscam alento no 
"jovem" Freud, cujo "Projeto de uma psicologia científica", escrito em 1895, tem forte 
conotação biológica. Este texto, aliás, contém noções avançadas para a época, 
como a da natureza química da transmissão sináptica e a de um modelo "hebbiano" 
da memória — facilitação sináptica por uso repetido. Freud também externou a 
opinião de que agentes farmacológicos poderiam substituir a psicoterapia no futuro, 
antevendo o advento da psicofarmacologia. Entre os que comungam com esta 
opinião, está Allan Shore, do Departamento de Psiquiatria e Ciências 
Comportamentais da Universidade da Califórnia.Shore (1997) acredita que os 
recentes avanços advindos do estudo interdisciplinar das emoções podem 
representar um ponto de contato entre a psicanálise e a neurociência. Assim, admite 
que o conhecimento atual sobre os mecanismos psicobiológicos através dos quais o 
hemisfério direito do cérebro processa informações de natureza social e emocional 
em nível subconsciente, e pelos quais a área orbitofrontal regula o afeto, a 
motivação e os estados corporais, permite uma compreensão mais aprofundada da 
"estrutura psíquica" delineada pela metapsicologia psicanalítica. 
No outro extremo do espectro, há aqueles que se baseiam no "velho" Freud e fazem 
uma leitura exclusivamente lingüística e hermenêutica da psicanálise. Para estes 
últimos, existiria um fosso epistêmico intransponível entre esta abordagem e o 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
45 
 
método das ciências naturais. Defendendo esta tese, Marshall Edelson (1984) afirma 
que tentativas de buscar fundamentos neurobiológicos para a psicanálise, 
misturando hipóteses sobre o cérebro com hipóteses sobre a mente em uma única 
teoria incorrem em confusão lógica. Este argumento está em consonância com a 
posição explicitada anteriormente por Morton Reiser (1975), de que a ciência da 
mente e aquela do corpo utilizam diferentes linguagens e conceitos, bem como se 
valem de diferentes instrumentos e técnicas. Não é possível unificá-las traduzindo-
as para uma mesma linguagem, ou aglutinando-as em um construto teórico comum. 
Embora a refutação desta posição por argumentação filosófica seja muito difícil, ela 
pode ser criticada por descartar, a priori, a investigação ulterior do problema. A 
propósito, recentemente o próprio Reiser (2001) publicou uma teoria do sonho na 
qual integra conceitos psicológicos e neurobiológicos, talvez refletindo o espírito da 
época atual. 
De fato, uma atitude conciliatória vem permeando os círculos científicos 
ultimamente. Tive prova disto recentemente, em Viena, onde participei do 8º 
Congresso Mundial de Psiquiatria Biológica (julho de 2005). A conferência de 
abertura foi proferida por Nancy Adreasen, em reconhecimento à sua contribuição 
referente a estudos com neuroimagem realizados em pacientes esquizofrênicos. 
Dado que estávamos no berço da psicanálise, Freud foi necessariamente lembrado. 
Ela disse, aproximadamente, o seguinte: "Hoje, pela manhã, meu marido me 
perguntou o que acharia Freud se estivesse vivo e pudesse comparecer a este 
Congresso. Respondi que, em minha opinião, ficaria muito feliz em ver que muitos 
dos conceitos originalmente formulados por ele estavam sendo comprovados pela 
neurociência moderna" (Conferência de abertura do 8º Congresso Mundial de 
Psiquiatria Biológica, julho de 2005). 
Contudo, esta última posição coloca a penosa questão de se estabelecerem regras 
de correspondência entre conceitos neurocentíficos e psicanalíticos. Longe de 
pretender apresentar solução satisfatória para tão intricado problema, ousarei tecer 
algumas considerações a respeito. Ao verificar a impossibilidade teórica de 
determinar, simultaneamente, a posição e a velocidade do elétron na órbita atômica, 
Werner Heisenberg, juntamente com outro fundador da Física Quântica, Niels Bohr, 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
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formulou o conceito de "complementaridade". A postura do observador determinaria 
o que poderia ser medido: ou a posição, ou a velocidade. Talvez este conceito, 
transposto para um âmbito epistemológico mais amplo, possa resolver o impasse 
entre as duas modalidades de conhecimento, a objetiva e a subjetiva, entre a 
neurociência e a psicanálise. 
Na verdade, a complementaridade pode englobar toda a relação matéria-mente, a 
partir da colocação de Espinosa de que a realidade se apresenta como matéria, 
quando vista de fora, e de mente, quando vista por dentro. Esta posição foi 
simbolizada por Arthur Koestler (1972) na imagem do deus romano Janus, que tinha 
duas faces opostas que, portanto, não poderiam ser contempladas ao mesmo 
tempo. A partir desta perspectiva, pode-se admitir uma convergência entre 
conhecimentos adquiridos pelo método científico e pela interiorização. Em 
linguagem metafórica: o tesouro que se esconde no seio da montanha pode ser 
alcançado escavando-se túneis que partem de encostas opostas. 
Renomados físicos, entre os quais Carl von Weizäker, David Bohn e o brasileiro 
Mário Schenberg, têm encontrado correspondência surpreendente entre conceitos 
da física quântica e da cosmologia moderna com ensinamentos da tradição indiana, 
obtidos por meio da meditação sistemática. Mais próximo ao presente foco, o 
neurocientista Francisco Varela e seus colaboradores (Varela et al., 1999) 
concluíram que o modelo de funcionamento da mente humana, formulado pelos 
hindus a partir de dados colhidos através da meditação que foram compilados em 
vastíssima bibliografia ao longo de vários séculos, é mais compatível com as 
evidências da neurociência contemporânea do que os conceitos da psicologia 
ocidental. Salientam os mesmos autores que a meditação difere radicalmente do 
que se entende no Ocidente por introspecção, a partir da qual se construiu o frágil 
edifício do mentalismo, de há muito abandonado pela ciência psicológica. A 
meditação disciplinada leva à observação imparcial dos eventos que se desenrolam 
na mente do próprio sujeito, atitude semelhante ao que preconizava Freud para a 
observação do relato do conteúdo mental do analisado e àquela adotada pelo 
naturalista que examina, de modo atento e desapaixonado, as ocorrências com que 
se depara ao explorar uma floresta. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
47 
 
Com isto, encerro este vôo panorâmico sobre o problema da relação entre 
neurociência e psiquiatria, esperando que o século XXI possa testemunhar avanços 
substanciais na sua compreensão. 
DA PSICOLOGIA À NEUROCIÊNCIA 
Tradicionalmente a ciência aborda o individuo humano sob diferentes pontos de 
vista: anatômico, fisiológico (biofísico, bioquímico), genético-evolutivo, sistêmico ou 
social. Embora essas abordagens tenham proporcionado avanços na compreensão 
do humano, elas conduzem a visões unilaterais mais ou menos independentes por 
falta de um marco comum, unificador. 
A física moderna, que trata das propriedades da matéria elementar, pese seu 
extraordinário desenvolvimento, só conseguiu calcular a descrição quantum-
mecânica do átomo de hidrogênio, e a química, que trata das ligações moleculares e 
suas propriedades, não conseguiu ainda a descrição quantum-mecânica da 
estrutura da água. A biologia, especialmente a molecular e evolucionária, 
proporcionou um grande avanço na compreensão dos organismos, sem 
necessariamente levar em consideração as abordagens segundo os marcos da 
física e da química. A psicologia tradicional ignorava a biologia e tratava o 
comportamento e ideação com base em testes empíricos, mas a psicologia moderna 
já reconhece a importância e necessidade da biologia nervosa. O pensamento 
sociológico considera tradicionalmente o homem um animal social cuja consciência 
e linguagem não somente é moldada pelo grupo como também influi sobre ele como 
modificadores da vida social (tais como a consciência moral e a conduta), mas 
sabemos hoje que a socialidade tem bases neurobiológicas. Os vertebrados 
superiores exibem uma notável plasticidade social, ajustando seus padrões de 
comportamento social em função de estados internos e externos. 
Há apenas três décadas o cérebro era considerado apenas em suas funções 
motoras e sensoriais, sendo objeto da clínica neurológica e da neurofisiologia. 
Comportamento, emoção, percepção e ideação não eram objetos do estudo do 
cérebro, pertencendo a uma instância vaga e abstrata denominada ―mente‖, tida 
como algo paralelo ao cérebro, uma instância própria. 
INTRODUÇÃO À NEUROCIÊNCIA 
 
 
 
48 
 
Na década de 1990 iniciou-se a década do cérebro, graças a um consórcio de 
grandes

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