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CLA U D IA CH R IST CLAUDIA CHRIST LID ER A N ÇA , CID A D A N IA , ÉTICA E TECN O LO G IA SU STEN TÁV EL Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-65-5821-035-1 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 3 5 1 Código Logístico I000168 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável Claudia Christ IESDE BRASIL 2022 © 2022 – IESDE BRASIL S/A. É proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem autorização por escrito da autora e do detentor dos direitos autorais. Projeto de capa: IESDE BRASIL S/A. Imagem da capa: Illus_man/deepadesigns/Shutterstock/Shutterstock Todos os direitos reservados. IESDE BRASIL S/A. Al. Dr. Carlos de Carvalho, 1.482. CEP: 80730-200 Batel – Curitiba – PR 0800 708 88 88 – www.iesde.com.br CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C479L Christ, Claudia Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável / Claudia Christ. - 1. ed. - Curitiba [PR] : IESDE, 2021. 114 p. : il. Inclui bibliografia ISBN 978-65-5821-035-1 1. Desenvolvimento sustentável. 2. Ecologia. 3. Energia - Fontes alter- nativas. 4. Materiais - Inovações tecnológicas. I. Título. 21-71226 CDD: 363.7 CDU: 502.131.1 Claudia Christ Possui MBA em Gestão da Tecnologia da Informação, pelo Centro Universitário FIAP, e especialização em Psicopedagogia, pela Universidade São Marcos. Graduada em Pedagogia, trabalhando como professora de graduação e pós-graduação. Coautora de dois livros e de uma coleção didático-pedagógica pela editora FTD. Atua, também, capacitando professores para trabalhar com tecnologia como uma aliada à educação, dando consultoria por todo o Brasil. É, ainda, produtora de conteúdos e revisora para algumas instituições. SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! SUMÁRIO Agora é possível acessar os vídeos do livro por meio de QR codes (códigos de barras) presentes no início de cada seção de capítulo. Acesse os vídeos automaticamente, direcionando a câmera fotográ�ca de seu smartphone ou tablet para o QR code. Em alguns dispositivos é necessário ter instalado um leitor de QR code, que pode ser adquirido gratuitamente em lojas de aplicativos. Vídeos em QR code! 1 Sustentabilidade 9 1.1 Sustentabilidade ambiental e energia 9 1.2 Matrizes energéticas 13 2 TI sustentável e TI insustentável 21 2.1 Reuso e descarte 21 2.2 Nova mentalidade sustentável 23 2.3 Lixo eletrônico 27 3 Diversidade e tecnologia 39 3.1 Empresas e cotidiano 39 3.2 Cultura organizacional e social 45 3.3 Dilemas éticos 54 4 Sociedade da Informação 62 4.1 Sociedade da Informação 62 4.2 Experiências internacionais 67 5 Mercado de TI 88 5.1 Carreiras de TI 88 5.2 Tendências futuras 99 6 Resolução das atividades 111 Neste livro, em geral, abordaremos a questão da sustentabilidade atrelada à tecnologia da informação (TI). No primeiro capítulo, iniciaremos com o questionamento sobre o que é sustentabilidade em si e a origem da palavra sustentável. Depois, passaremos para a questão econômica e como o meio ambiente está ligado ao avanço econômico do planeta. É essencial se lembrar de pontos como conhecimento, participação, atitudes e habilidades, para que os profissionais de TI percebam como atuar em seu trabalho, pensando no meio ambiente. Para essas elucidações, falaremos sobre matrizes energéticas e os tipos de energia que podem ser usadas a fim de diminuir a agressão à natureza. No Capítulo 2, falaremos de TI sustentável e Ti insustentável, abordando o reuso e descarte mais consciente por parte das empresas. É importante realçar o processo do CEDIR como um grande exemplo para o descarte correto dos componentes eletrônicos. Vale a pena ressaltar, ainda, o claud computing, o home office e, principalmente, o não uso de papel excessivo nas empresas como medidas econômicas e sustentáveis. Ademais, a questão do desemprego, causado pela TI, é um aspecto importante, até mesmo para que as pessoas entendam que novos empregos serão gerados e que a tecnologia deve ser encarada como uma coisa positiva, e não negativa. No Capítulo 3, será abordada a questão da diversidade. Nesse sentido, os profissionais de tecnologia devem ser éticos e respeitar a diversidade. Ainda, as empresas devem ter políticas internas justas e éticas e trabalhar muito a questão da responsabilidade social com os colaboradores. Serão lembradas, no Capítulo 3, também, a questão étnica e a história dos direitos civis junto à tecnologia. APRESENTAÇÃO Vídeo No Capítulo 4, o tema será Sociedade da Informação. Com a leitura desse capítulo, será possível compreender a importância da agenda tecnológica em conjunto com a educação e entender como funciona a Sociedade da Informação em outros países e continentes, fazendo um paralelo com o Brasil. Por fim, o Capítulo 5 nos trará um termômetro sobre o mercado de TI. O deficit profissional, os cursos adequados para se trabalhar na área, os rankings de cargos e salários e a atual situação sobre as condições de trabalho foram abordados ao longo desse capítulo. Assim, ao final do livro, teremos um entendimento das possibilidades gerais para se trabalhar em TI, de modo a conseguir diminuir a emissão de carbono, economizar energia e o uso de papel nas empresas e, ainda, melhorar o meio ambiente. Sustentabilidade 9 1 Sustentabilidade Ao final do estudo deste capítulo, você será capaz de: • conhecer os conceitos de sustentabilidade; • distinguir as energias renováveis das não renováveis; • entender como tornar o mundo mais sustentável por meio de suas ações. Objetivos de aprendizagem 1.1 Sustentabilidade ambiental e energia Vídeo Iniciamos o nosso estudo com um questionamento: o que é sustentabilidade? Sustentabilidade é a capacidade de dar amparo ou sustentar algu- ma condição, para alguém ou em algo. Trata-se, então, de dar condi- ções para que um processo exista e permaneça em um nível aceitável, dentro de um certo período. A palavra sustentável tem origem do latim sustentare, que significa sustentar, apoiar ou conservar. Nos dias atuais, o termo sustentabili- dade está relacionado à capacidade de preservar o meio ambiente, ou seja, de suprir as necessidades energéticas, produtivas e econômicas da geração atual, sem, no entanto, comprometer o futuro das novas gerações. Por isso, a sustentabilidade deve ser pensada no longo prazo. Dessa forma, a sustentabilidade é algo complexo, pois deve consi- derar e integrar os quesitos que levam a reflexões sobre a economia, o meio ambiente, as energias e as questões sociais. 10 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável O respeito ao ser humano deve vir em primeiro lugar. Se ele se sentir respeitado, vai, consequentemente, preservar melhor o meio ambiente. A energia é essencial para o desenvolvimento da economia. Sem uma economia em desenvolvimento, a situação e a capacidade de bem-estar das pessoas perdem sua qualidade. A energia precisa ser gerada. Se o meio ambiente for degradado, o ser humano abreviará sua expectativa de vida e a economia não crescerá. Com isso, o futuro ficará insustentável. Questão social Questão energética Questão ambiental Os princípios da sustentabilidade são aplicáveis em um único em- preendimento, uma pequena comunidade, países, continentes – e, por que não, no planeta inteiro? Alinhado a essas questões, conclui-se que um empreendimento pode ser considerado sustentável, se incentivar ideias que resolvam problemas ambientais. Sustentabilidade ambiental como política econômica Depois de uma reunião em Estocolmo,a todos os interessados. A interatividade e a liberdade de expressão sofisticam a diversidade como se entendia até então, e o FIAT Mio antecipava, naquele momento, o potencial atual das redes sociais. Recentemente, a fim de antecipar o lançamento do modelo FIAT Línea, antes da campanha na mídia, a empresa voltou a usar o Creative Commons. Para isso, um blog visando apoiar o lançamento do mode- lo por meio de entrevistas com executivos, engenheiros, funcionários e responsáveis foi disponibilizado. Na mesma campanha, a empresa enfatizou as contribuições do caso FIAT Mio para a nova cultura de co- laboração entre empresa, clientes e interessados no desenvolvimento da indústria automobilística. A diversidade dos desejos dos clientes expressa também o cuidado que se deve ter com as totalizações. É necessário construir filtros para que as equipes de análise possam retirar desses desejos interpreta- ções concisas. Além disso, as equipes precisam ser rápidas. Vale dizer que precisam ter acesso confiável à informação por meio de platafor- Diversidade e tecnologia 41 mas tecnológicas adequadas, consultar documentação dos projetos dos carros, saber justificar a recusa de modo convincente e totalizar as sugestões pelo seu conteúdo. Números contabilizados em tempo real (08/04/2013) 2.313.914 – visitantes únicos 17.768 – comentários postados 33.808 – ideias enviadas 29.058 – participantes cadastrados Figura 1 Números do projeto Fonte: Godoy (2013). 3.1.1 As empresas O título acima, no plural, expressa o fato de que existem diferenças (diversidades) entre as empresas no que diz respeito a como abordar os meios de comunicação com o cliente nas suas estratégias e dese- nhos de negócios. Três pesquisas pioneiras de Tapscott e Willians (2007) já antecipa- vam tendências de colaboração em massa, denominada Wikinomics1, como novas formas de organização de negócios. Em comum, nessas pesquisas foi identificada a substituição crescente dos modelos com base na hierarquia para modelos colaborativos, auto-organizados e comunitários. A adoção de novas e amplas formas de comunicação por meio de blogs e chat rooms tem sido cada vez mais frequente para exercitar o diálogo desde os primeiros protótipos. O consumidor deixa de ser o receptor de um produto ou de um serviço e se converte no que se denomina prosumers, ou seja, consumi- dores que produzem bens em conjunto, além de produtos e serviços com as empresas por meio de vários canais de comunicação. Ainda segundo os autores, o termo colaboração deixou de ser pes- soal, passando a se referir a redes de negócio e de inovação. Incorpo- rou novos sentidos, como: peer production, que fortalece habilidades, engenhosidade e inteligência para pensar além de cumprir tarefas 42 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável preestabelecidas. A rede de voluntários (outro ângulo da diversidade) para a colaboração massiva permite exemplos inesperados: quando houve o ataque aos trens de Londres, em 2005, após 18 minutos da explosão tudo havia sido postado na Wikipedia. O peer production gera ainda uma série de vantagens. Sendo que a colaboração permite que as empresas poupem dinheiro. A IBM es- timava economizar 900 milhões de dólares com as contribuições das comunidades de clientes ao redor do mundo que apontam defeitos, melhores formas de operar softwares e outras sugestões. As empresas também aproveitam para recolher ideias de produtos complementares. Mas, para praticar o peer production externamente, é necessário saber praticá-lo internamente, cotidianamente, por meio de regras claras, transparência e governança no acesso a informações. Os gru- pos de trabalho devem ter a coragem de olhar para as ineficiências da empresa e buscar novas soluções. Isso pressupõe relatórios claros, entendimento dos produtos realmente disponíveis para o mercado e a seleção de empresas parceiras capazes de comercializar ideias ainda não implementadas. Afinal, esses projetos são investimento em capi- tal intelectual e a sua venda contribui para novos projetos. A empresa compradora ganha tempo em pesquisa e desenvolvimento. Citaremos o exemplo da Procter & Gamble (empresa do setor far- macêutico) que utilizou a empresa yet2.com ao descobrir que apenas 10% das suas patentes eram convertidas em produtos. Ao todo, eram 27.000 patentes depositadas com um custo de 1,5 bilhão de dólares em pesquisa e desenvolvimento (P&D). A empresa refez também a sua filo- sofia de investimento em pesquisa. Outro exemplo é a IBM, que obteve 1 bilhão de dólares com o licenciamento de tecnologias. A empresa deve olhar para os seus colaboradores como seu público interno dentro de uma visão estratégica para praticar o raciocínio com- plexo com o cliente externo. Dito de outra forma: só é possível atender bem ao cliente se o público interno também for bem atendido. Por exemplo a 3M, que desenvolveu diversos mecanismos de atra- ção dos seus colaboradores como: ambiente de trabalho, equipamen- to, salários, benefícios e a possibilidade de desenvolver pesquisas próprias, empregando até 15% do seu tempo por meio de projetos aprovados pelos comitês técnicos. Diversidade e tecnologia 43 O sucesso obtido pela empresa demonstra as vantagens de um plano de desenvolvimento bem definido para a comunidade técnica e negociado com os seus membros por meio de regras claras de projeto. Vale a pena destacar que a negociação é mais um dos aspectos da diversidade. Nessa direção, a empresa também valoriza os reconheci- mentos interno e externo para os membros do seu corpo técnico. Prê- mios internos e externos são divulgados amplamente e usados como critério de promoção e financiamento de projetos. As métricas de avaliação de projetos obedecem a dois critérios básicos: 1. New Product Introdution (que descreve como o pesquisador deve organizar o projeto), 2. NPVI New Product Vitality Index (que mede a porcentagem de vendas dos produtos lançados nos últimos cinco anos). Esse último reflete a importância de considerar o lançamento de produtos (inovação) como base para a rentabilidade da empresa. A ca- pacidade de lançar produtos é o critério de promoção para os profissio- nais técnicos na empresa que, no mais alto escalão, assumem a direção das plataformas tecnológicas. De acordo com Serafim (2011), a 3M adota outra prática típica do ra- ciocínio complexo: a interação entre pesquisadores direcionados para o mercado e clientes visitando a organização. Uma via de mão dupla para manter as redes de comunicação atualizadas ao apresentar a ino- vação e todos os públicos da organização. Podemos encontrar diversos exemplos de aplicação do Creative Commons em andamento nas empresas. Em todos eles, novas so- luções do que é denominado Creative People também estão sendo feitas. O desafio não está na aceitação do conceito anterior, mas na sua aplicação ao cotidiano das empresas. Nele, diversos preconceitos devem ser rompidos, não por modismo (outro preconceito), mas por necessidade. As pessoas que atuam na área de TI não atuam apenas para as formas tradicionais de hardware e software, como a compra de equipamentos, redes e outros, elas são consideradas também para ati- vidades estratégicas que englobam a gestão de contratos e indicadores de qualidade dos serviços. 44 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável 3.1.2 A ética e a cidadania nas empresas As empresas são instituições econômicas e possuem uma função social, sendo assim, têm obrigação de ser éticas e cumprir normas e leis, respeitando seus colaboradores em sua totalidade. Todos os co- laboradores devem ser tratados conforme mandam os direitos hu- manos, sem que haja tratamento diferente para quaisquer pessoas, independentemente de gênero, etnia, ou classe social. As instituições além de terem propostas políticas, sociais, jurídicas e éticas, apresentam também a consciência social com os clientes e com a sociedade como um todo. Dessa forma, os desafios surgem em forma de missão,sendo que a missão moral das empresas é um compêndio de valores e normas que deve ser seguido. Já a ética nas empresas se torna visível por meio da missão e é essa ética que traz credibilidade e bons clientes. Sendo assim, a empresa com uma boa reputação terá mais vendas e consequentemente bons lucros, acarretando um sucesso duradouro. A responsabilidade social corporativa vem sendo trabalhada desde a década de 1970. Nessa época, surgiu a necessidade de se produzir instrumentos teóricos que pudessem ser aplicados no meio. Inicial- mente essas questões causaram muitas dúvidas sobre quais obriga- ções sociais deveriam ser debatidas. Marx, Kant e outros pensadores já discutiam os temas abordados aqui, como a responsabilidade social, a qual é uma questão bastan- te antiga, assim como a ética, mas que demorou para se tornar tema vigente no Brasil. Os governos demoraram para tomar iniciativas que priorizassem o tema e contribuíssem com a evolução da gestão das empresas. O pensamento ético como prática no meio corporativo vem cres- cendo resultando em uma preocupação maior com as pessoas. Nos dias atuais, há uma maior precaução com o indivíduo e o estudo do comportamento do ser humano, que envolve toda a organização de uma empresa, trazendo à tona a discussão pela ética a todo momento. Deve haver um equilíbrio entre lucros e ética para que a sociedade cresça como consumidora de produtos que agregam valor aos clientes. Os consumidores e empresários americanos por exemplo, já discu- tem as questões éticas há muito tempo, desde a revolução industrial. Diversidade e tecnologia 45 Em 2020, o ECI (Ethics and compliance iniciative) publicou uma pes- quisa global denominada Pressão no local de trabalho: possíveis fatores de risco e pessoas em risco. Essa pesquisa leva em conta a pressão para desconsiderar os padrões de conformidade dos trabalhadores, a iden- tificação de situações de risco intensivo e a orientação sobre como conduzir seus efeitos. Discute-se o número de horas de trabalho do colaborador, o quanto ele deve ficar na empresa, o quanto pode traba- lhar de casa e a proporção em que tudo isso afeta sua saúde. Aqui estamos evoluindo bastante nesse sentido, mas ainda é neces- sário ficarmos atentos para que os governantes invistam em políticas públicas as quais incentivem empresas que atuam eticamente, priori- zando os seres humanos e sua cidadania. 3.2 Cultura organizacional e social Vídeo Manter a mente aberta para reconhecer as vantagens da diversi- dade no cotidiano é fundamental. A diversidade não é um problema, mas pode ser o início das soluções se for adequadamente entendida na organização. Primeiro ponto – relacionar tecnologia e pessoas não como fonte de problemas, mas como fontes de soluções (exatamente no plural). Se a empresa se organiza para ouvir o cliente, por que não pode fazer o mesmo com os seus colaboradores? Durante muito tempo, acredita- va-se que somente a análise de requisitos deveria ser suficiente para evitar erros de interpretação e evitar as expectativas (requisitos não definidos) do cliente. O papel do colaborador era mais limitado, deveria seguir passos, cumprir tarefas e se limitar ao desempenho esperado. O Creative Commons, no caso do FIAT Mio, repensou esse papel em diversos níveis. Novas tecnologias permitem tratar grandes volu- mes de dados, transformando-os em informações sobre tendências de maneira clara. Os analistas podem tirar melhor proveito de inovação, ao estabelecer relações inéditas entre as propostas. No plano técnico, as novas ferramentas de relatórios permitiram que as soluções mos- trassem que as pessoas já desejavam um carro pequeno com muita eletrônica embarcada, ergonomia e desenho inovador. Os clientes im- punham à gestão de marketing uma revisão dos conceitos, pois, até então, se pensava que o cliente de um carro pequeno não se preocu- 46 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável pava com tecnologia. Tecnologia e marketing criavam um caminho de inovação, rompendo com uma visão que lembrava o carro popular dos anos 1990, um carro barato com poucos recursos. Segundo ponto – é necessário se antecipar, pois preconceitos custam para a empresa, induzindo a decisões incorretas. Preconceitos raciais e de gênero significam a perda de bons profissionais por aspectos irrelevan- tes, como cor da pele, gênero e outros. O Creative Commons valoriza a capacidade de pensamento de criação, de compartilhar e de desenvolver. Os critérios de recrutamento, seleção e promoção devem ser públi- cos para valorizar o raciocínio complexo na organização, o envolvimento de todos e o mérito. Não é por acaso que diversas empresas têm es- timulado políticas de igualdade de direitos em seus ambientes, sendo que os resultados, após algum tempo, começam a aparecer de modo consistente, ou seja, há um aumento da produtividade. O crescimento de executivas, inclusive na área de tecnologia, é um bom exemplo dos efeitos e do número de empresas que adotam esses programas. Terceiro ponto – o executivo desempenha papéis crescentes no Creative Commons. Ele assume novas responsabilidades de desenvol- vimento próprio e da sua equipe. As atividades de supervisão direta ainda se mantêm, mas a elas foram agregadas novas dimensões estra- tégicas de antecipar mudanças no mercado, no emprego das tecnolo- gias e nos novos desenhos de responsabilidades da equipe. Quarto ponto – as soluções de tecnologia e de gestão não vêm com data de validade predefinida. As equipes devem se revezar para pen- sar além dos relatórios e se antecipar ao menor sinal de mudança de humores do mercado. Nesse ponto, a experiência de gestão das dife- renças é fundamental, pois os clientes dão pistas claras, às vezes rapi- damente, de que não estão contentes e devem mudar de fornecedor. Quinto ponto – parceria implica em comprometimento e respon- sabilidade, oportunizando que se enxergue além dos relatórios. Isso resulta em canais de comunicação e em pessoas comprometidas com a agilidade de mudanças e preservação do cliente. Nas parcerias não basta estabelecer canais, é necessário saber quem são os formadores e multiplicadores de opinião e ações. Esse é um dos lados da governança corporativa entre as organizações, quem decide, de modo claro, em quais canais e como as decisões são comunicadas, feitas e avaliadas. Assim é possível estabelecer riscos e responsabilidades para a rede de negócios como um todo. Diversidade e tecnologia 47 Sexto ponto – as mudanças devem ser feitas quando necessárias. Outra forma mais conhecida de colocar esse ponto é: realizar, sem medo de errar. A diferença aqui se refere ao conjunto de informações técnicas e geren- ciais que comandam a iniciativa de tomada de decisões nas horas certas, tanto internamente para a empresa quanto externamente para os parcei- ros e os fornecedores. Afinal, o tempo é o recurso mais difícil de recuperar. 3.2.1 O cotidiano das diferenças Fortalecer nossas conexões uns com os outros e com a natureza na vida cotidiana pode nos ajudar a encontrar maior significado e felicida- de. Quando a diversidade está presente em nossa experiência diária, essas conexões mais profundas também podem ajudar a neutralizar as crescentes divisões sociais em nosso país e as ameaças ao meio am- biente. Experimentar a diversidade humana nos lugares em que vive- mos pode ser um antídoto para o preconceito e o preconceito negativo para com os outros. Com a presença da natureza e da biodiversidade locais, podemos ver mais regularmente a natureza como parte de nós e nós mesmos como parte da natureza. Quando experimentamos a natureza, ficamos maravilhados com sua complexidade. Em qualquer parcela da natureza selvagem, existem centenas, senão milhares de espécies, de micro-organismos, de plan- tas, de pássaros e outros animais, todos dependentes uns dos outros e contribuindo para o ecossistema mais amplo. Quando não vemos ou não experimentamos a natureza em nossa vida diária, podemos nos desligarde como precisamos da biodiversidade para a sobrevivência de nossa espécie e de todas as outras. Já quando temos a biodiversida- de como nossa guia, podemos pensar sobre como nossas comunida- des também precisam da diversidade humana. Precisamos buscar, cultivar e abraçar a diversidade na qual vivemos todos os dias. Devemos nos transportar, sempre que possível, de uma forma que nos leve para fora, com outras pessoas, fazer isso fora de carros particulares, pode ser um ponto de partida. Passar mais tem- po no espaço público, como parques, praças ou até bairros, é outra abordagem possível, pois o espaço público pode ser mais utilizado para promover o diálogo e a compreensão. Também é necessário defender e apoiar o desenvolvimento de nossas empresas para que se tornem 48 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável mais diversificadas. Tanto empresas relacionadas à TI quanto qualquer outras empresas irão ganhar com a diversidade. Aprender a olhar o outro garante que haja uma melhor qualidade no produto em que se está trabalhando, valorizando, assim, cada detalhe. 3.2.2 O outro lado da diversidade: um breve histórico da cultura da informalidade Vamos falar sobre as influências indígenas e negras no que se refere à chamada cultura da informalidade. Tal cultura está muito relacionada à estratégia de adaptação permanente à escassez de indígenas e ne- gros em trabalhos qualificados, herdada desde a escravidão desses e, portanto, à necessidade de sujeição a todo tipo de trabalho informal e desqualificado de curto prazo para sobreviver. Uma sociedade marca- da pela rígida hierarquia e sobreposição de interesses. A administração colonial incentivava a informalidade como estraté- gia de centralização de informação (muitas vezes a sua eliminação) e poder, característica do patrimonialismo. Sendo assim, o Estado, que não tem distinções entre os interesses dos recursos públicos e os dos recursos privados, sobrepõe esse último ao primeiro. Logo, a informali- dade se revelou uma estratégia de desenvolver e ocultar relações entre famílias e grupos privilegiados para manter o poder, resultando na se- guinte dinâmica: de um lado, os trabalhadores que sobrevivem como podem, do outro, a elite escondendo suas intenções e objetivos. Após a década de 1920, com a indústria crescendo, a precarieda- de de empregos em algumas regiões foi sendo substituída aos poucos pelo trabalho assalariado e regular, o que gerou um novo cenário: a demanda por qualificação, mais uma dificuldade para muitos traba- lhadores semianalfabetos, levando a uma série de alternativas de re- lacionamento pessoal para aprender as operações mais simples de produção fabril. Em diversas ocasiões, na ausência de manuais de ope- rações para grandes máquinas, trabalhadores desenvolviam soluções próprias, como o ruído das máquinas como critério para manutenção preventiva. Claro, essas práticas geravam conflitos com os gestores, principalmente quando os trabalhadores estavam certos. Vale ressaltar que não está sendo dito aqui que todo o processo de aprendizagem no Brasil teve origens informais. Muitas empresas inves- tiram em métodos de gestão nos anos 1920-1930, que criaram o Insti- Diversidade e tecnologia 49 tuto de organização racional do trabalho (IDORT). Essa organização se formou no modelo da Taylor Society, norte-americano, difundindo no Brasil o modo racionalista de trabalho, baseado nas ideias de Frederick W. Taylor. Destacaram-se entre os membros desse instituto: Armando de Salles Oliveira e o professor Roberto Mange. O IDORT estimulava a gestão de empresas com base na definição racional de cargos, treina- mento, especialização e gerenciamento formal. Em outras palavras, o oposto da cultura de informalidade. Os conflitos entre formalidade e informalidade ficaram marcados no cotidiano das empresas no Brasil. Um dos exemplos mais marcan- tes foi a pesquisa de Afonso Celso Fleury, que localizou um ponto im- portante: até a década de 1980, o enfoque nas organizações brasileiras estava mais orientado para o controle do que para a eficiência, isso evidencia que o patrimonialismo persiste de diferentes formas. Logo, a implantação da administração não resolveu os conflitos entre formali- dade e informalidade como muitos imaginavam. Esses acontecimentos começam a ser combatidos no fim do século XX. 3.2.3 Cultura, gestão e sistemas O desenvolvimento de sistemas no Brasil recebeu a herança da in- formalidade e do patrimonialismo. Que gestor de tecnologia não se recorda das dificuldades com a documentação das empresas, os im- pactos das redes de poder, e a centralização excessiva que muitas ve- zes não aparecia no organograma? Ainda hoje, os efeitos são sentidos. Entretanto, saber lidar com as resistências por meio da sensibilidade para origens étnicas dos trabalhadores foi uma das táticas que os pro- fissionais de treinamento usaram nos anos 1980. Uma das oportuni- dades desse período foram os programas de qualidade que exigiam o envolvimento de todos, a atenuação da separação entre planejar e executar, e a integração da inspeção com a execução do trabalho. Os bens deixavam de ser vistos como produtos e passavam a ser vistos como processos. A produção não seria mais orientada pela ênfa- se quantitativa, mas pela necessidade de aprimoramento, redução de erros, melhor desenho, redução de custos e conhecimento. A produção enxuta chegava lentamente ao Brasil. Nas fábricas, os lotes de produ- ção passaram a ser menores para uma variedade maior de produtos. Em vez de produzir um lote de 500 televisores, produziam-se 10 lotes 50 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável com 50 aparelhos, com as variações desejadas pelos clientes. Os tra- balhadores tornaram-se multifuncionais, passaram a conhecer outras tarefas além das suas e a operar mais de uma única máquina. Conhecer o que e como produzir, para quem e com qual expecta- tiva de ciclo de vida passou a orientar o esforço de planejamento das empresas. A visão de processos de produção se impôs como a mais adequada para este novo cenário. Descrever em detalhes as atividades, o que se esperava de cada uma delas do ponto de vista de resultados, desenvolver relatório de erros pormenorizados e produzir relatórios de totalização exigiram a integração com as áreas de sistemas. No mesmo período (anos 1980), assiste-se à implantação de redes de computadores substituindo os mainframes. Tal substituição muda o perfil do gestor de tecnologia, que deixa de ser o responsável apenas pelo processamento de registro de transações e aplicações contábeis para se envolver com os sistemas de apoio ao usuário final e os grupos de trabalho. O responsável pela tecnologia precisava conhecer os pro- cessos de trabalho, suas respectivas necessidades de automação e os riscos de implantação de sistemas na mudança de atribuições de tra- balho. Além disso, deveria ser capaz de totalizar os diversos relatórios operacionais em produtos e serviços gerenciais. A tecnologia deixava de ser o produto, os relatórios e os registros para se transformar em um processo de constante checagem para implantar melhorias. A ênfase deixa de ser o processamento de dados, para se converter em inteligência em transações digitais e no comércio on-line. O cliente passa a ser visto em todos os processos sob a forma de relatórios de erro ou relatórios de não conformidade. O profissional de sistemas de informação passa a se relacionar com os efeitos da cultura da informalidade, principalmente nos projetos e nas ações que envolviam a modelagem de processos. Devemos recor- dar aqui, brevemente, que a modelagem traz para as áreas técnicas as métricas e os modelos de negócio que orientam a programação. Novas necessidades, como perfil de liderança, começam a compor o cotidiano desse profissional. O desafio, nesse cenário, para todos os executivos de sistemas de in- formação e gestores mais tradicionais, passou a ser: como responder às crescentes demandas daglobalização e não mais a uma rápida adapta- ção ao patrimonialismo. O que não quer dizer que todos os problemas Diversidade e tecnologia 51 tenham sido resolvidos. Implantar sistemas ainda não é fácil, exige mais planejamento e cuidado atualmente. Mas um fato importante deve ser sublinhado, a gestão da empresa e de sistemas de informação está cada vez mais relacionada com recursos humanos, e também com a inclusão da diversidade. A consciência desse desafio tem levado as empresas a inovar em um campo que seria considerado impossível há algumas dé- cadas: responsabilidade socioambiental e direitos civis. 3.2.4 Direitos civis, etnia e tecnologia Já nos anos 1990, muitas empresas começam a verificar que a inclu- são de diferentes minorias e da própria diversidade passou a melhorar a produtividade, a inclusão de mulheres, negros, pessoas da comunida- de LGBTI+ e de outras orientações culturais também passou a gerar um clima de respeito e liberdade fundamental para a dedicação ao traba- lho. Nesse mesmo período, difundiam-se no país os comitês internos de ética voltados para a resolução de problemas nesse sentido. Essas iniciativas traduzem movimentos mais amplos que percor- riam toda a sociedade com o emprego da tecnologia. Um dos exemplos mais ilustrativos foi a inclusão do site Change, por Barak Obama, nas eleições americanas. O então candidato abriu o seu programa eleito- ral para sugestões de qualquer pessoa, isso quando o Facebook não era ainda tão disseminado. Na época, Barak Obama recebeu bastante sugestões, as quais foram utilizadas na sua campanha, aumentando, assim, a sua credibilidade. A capacidade de gerar um programa a partir das bases mudou ra- pidamente os rumos da eleição americana. Primeiro no partido demo- crata, ainda abalado pela derrota para os republicanos após o governo de Bill Clinton. Depois no país como um todo, as comunidades negras, que tinham reduzido percentualmente os números de sua votação, se engajaram na campanha. Vale lembrar aqui que o voto nos Estados Unidos não é obrigatório. Outro ponto relevante foi o enfrentamento da visão segregacionista de algumas regiões do país. O emprego das redes permitiu localizar grupos de eleitores e militantes em várias partes controladas majorita- riamente por adeptos de políticas racistas. Embora se reconheça o enorme progresso que as sociedades fi- zeram desde o estabelecimento da Declaração Universal dos Direitos 52 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável Humanos em 1948, os avanços tecnológicos têm, inevitavelmente, im- plicações profundas para a estrutura dos direitos humanos. De uma perspectiva prática, a tecnologia pode ajudar a levar adian- te a agenda dos direitos humanos. Por exemplo: o uso de dados de satélite pode monitorar o fluxo de pessoas deslocadas; a inteligência artificial pode auxiliar no reconhecimento de imagem para coletar da- dos sobre violações de direitos; e o uso de tecnologia forense pode reconstruir cenas de crime e responsabilizar os perpetradores. Ainda assim, para as inúmeras áreas nas quais as tecnologias emergentes avançam na agenda dos direitos humanos, os desenvolvimentos tec- nológicos têm igual capacidade de minar os esforços. De estados autoritários, que monitoram dissidentes políticos por meio de tecnologias de vigilância, ao fenômeno dos chamados deepfakes, que desestabilizam a esfera pública democrática, implica- ções éticas e políticas devem ser levadas em consideração com o de- senvolvimento de inovações tecnológicas Os avanços tecnológicos também introduzem novos atores na es- trutura dos direitos humanos. O movimento historicamente enfoca o papel do Estado na garantia de direitos e justiça. Hoje, os avanços tec- nológicos e a ascensão da inteligência artificial e do aprendizado de máquina, em particular, requerem interação, colaboração e coordena- ção com líderes de negócios e tecnologia, além do governo. No Brasil, um dos momentos de intenso debate sobre direitos civis com o emprego de redes sociais foi a chamada Lei das Cotas (Lei n. 12.711, de 29 de agosto de 2012). Essa lei, que teve seu início em 30 de agosto de 2016, postula que as universidades, institutos e centros federais devem reservar cotas (50% das vagas oferecidas anualmente). O Instituto Ethos tem sublinhado que tais ações de reconhecimento da diversidade e do debate sobre cotas não foram homogêneas, nem mes- mo entre a comunidade negra que já possuía um histórico do emprego de tecnologias para a defesa de direitos civis, como com as redes de mo- nitoramento com base na Lei n. 9459/97 (redes que acompanhavam ca- sos de racismo na imprensa e nas comunidades carentes). Mas um ponto positivo deve ser ressaltado: pela primeira vez, os interessados estavam debatendo entre si. A ideia que circulava nas redes sociais era muito clara: recuperar pela educação a dívida social para com os afrodescendentes. Diversidade e tecnologia 53 De forma geral, os grupos aparentemente concordavam que o re- torno da dívida social por meio da educação era o mais adequado para garantir também a recuperação da diversidade cultural da comunidade negra, suas raízes, história e língua. Como reflexo de todo esse ambiente de debate ao redor dos direi- tos da diversidade, outras iniciativas de respeito à diversidade ganha- ram espaço, como a da Secretaria de Emprego e Relações do Trabalho do Governo do Estado de São Paulo, que garantiu o Selo Paulista de Diversidade, em 22 de agosto de 2007, pelo Decreto 52.080, com o objetivo de estimular as organizações públicas, particulares e a so- ciedade como um todo a instituir esse tema na gestão de recursos humanos. Esse movimento se reflete também no número de eventos promovidos para discutir os efeitos dessas práticas. Esse tipo de iniciativa é muito benéfica, pois a valorização de et- nia e de gênero aumenta a produtividade, gera o comprometimento do trabalhador com a organização e a valorização da marca pelos clientes. A diversidade, assim descrita, já é valorizada em diversas áreas das empresas, incluindo as de gestão de tecnologia, devido aos seus reflexos positivos em recursos humanos. Dessa forma, integramos o debate sobre as questões raciais e a tecno- logia de diversas formas na empresa e nas redes de monitoramento como uma tendência que se consolida, valendo a pena alertar aos estudantes e aos futuros executivos sobre a sua importância para as suas carreiras. 3.2.5 História da África negra e conhecimento Um dos pontos mais interessantes sobre a questão étnica, proposi- talmente deixada para o final, refere-se à recuperação da importância e do aporte da África para a matemática e as ciências exatas. Influên- cias de conhecimento nas áreas técnicas estão presentes desde o an- tigo Egito e no reino de Napata Meroe, localizado ao Sul. Por motivos óbvios, toda essa história foi esquecida, as contribuições das univer- sidades islâmicas do Norte do continente africano para a matemática foram praticamente desprezadas. O estudo da filosofia, inclusive dos clássicos gregos, foi mantido nessas universidades durante a Idade Mé- dia europeia. Acrescente-se o desenvolvimento da arquitetura e enge- nharia desses países que contribuíram para soluções criativas. 54 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação e Cul- tura) se dedicou ao resgate da história desse continente revendo cri- ticamente como os interesses de colonizadores interferiram sobre o desenvolvimento dele. A revisão da história em escala continental constitui-se em um ponto relevante para consolidar de vez a proposta de superar o racismo pela educação. Vale, portanto, retomar a impor- tância da educação proposta pelas redes de debate às cotas. A educa- ção tem que acontecer para todos, somente o conhecimento pode ser a melhor arma contra o preconceito e o racismo. 3.3 Dilemas éticos Vídeo Mas o que é a ética? De acordo com o dicionário Aurélio (MINI AURÉLIO, 2005), podemos afirmarque ética é um conjunto dos juízos de avaliação relativos à con- duta das pessoas, levando em conta o bem e o mal. Ou ainda, um com- pêndio de normas e atitudes que permeiam a boa conduta das pessoas. Quando se fala em ética, pensamos em convivência, pois ela deter- mina a fronteira das relações entre as pessoas. Todos os relacionamen- tos humanos são regidos por princípios e valores. De acordo com Cortella (2009), ética é uma série de princípios e va- lores que usamos como resposta a três perguntas da vida humana: Quero? Devo? Posso? Segundo o autor, vivemos muitas vezes dilemas éticos, pois existem coisas que queremos, mas não devemos. Existem coisas que devemos mas não podemos e ainda há coisas que podemos mas não queremos. Dessa forma, os conflitos surgem quando o que queremos não de- vemos e/ou não podemos, tornando-se um dilema, sendo que quanto maior os princípios, mais fácil é de se lidar com os dilemas. E mesmo a decisão sendo individual, as consequências podem chegar rapidamen- te às pessoas. Por exemplo, a questão da água. Todos sabemos que a escassez de água no planeta torna-se evidente como uma preocupação mundial. Sabendo disso, posso desperdiçar água? Não devo, não posso e não posso querer. Tenho que saber que todos os meus atos irão repercutir e afetar muitas outras pessoas. Diversidade e tecnologia 55 Existe um entendimento de que a ética está relacionada ao com- portamento humano ditado por regras e valores para se conviver em sociedade e que ele dependerá da época e do cenário em que o indiví- duo vive. As atitudes são ditadas pelo tempo histórico, pela localidade e pela sociedade onde se vive. Dessa forma, o que é dito como ético hoje pode não o ter sido ontem ou não será futuramente e o chamado de certo em um lugar pode não o ser em outro. Álvaro Valls (2000) costuma dizer que ética é algo maior, entenden- do-a como hábitos e comportamentos “corretos” em algum espaço de tempo e em determinado local, concordando com hábitos vigentes considerados morais por grande parte da sociedade, afirmando a con- dição situacional da ética. Um exemplo de que a ética varia de acordo com o tempo é o adul- tério, que foi considerado uma falta grave no passado e hoje é tolerado pelo meio social. Da mesma forma, podemos mencionar a escravidão, a qual era aceitável até o final do século XIX e hoje é vista como uma prática odiosa. Como exemplo de mudança de acordo com a região, podemos citar as muitas sociedades tribais que aceitam o nudismo como fato normal, enquanto na sociedade ocidental, caso alguém saia nu pelas ruas, po- derá ser preso por atentado ao pudor. É essencial notar que, para se viver em sociedade, é vital ser ético, já que é por meio da ética que se pratica o respeito nas relações humanas. 3.3.1 A ética profissional O comportamento ético dos funcionários de uma empresa é deter- minado pela cultura que predomina na organização. Dessa forma, a ética está totalmente ligada a questões morais do comportamento da sociedade. A ética profissional é a forma moral de se agir no mundo administrativo e na condução de situação de negócios. Assim, adminis- tradores e funcionários de instituições devem seguir padrões de ética e de conduta socialmente responsáveis. De acordo com Baltzan e Phillips (2012), a Inovant, empresa que opera a tecnologia da Visa, age com um rígido padrão de ética, proibin- do a utilização de informações de clientes para qualquer coisa que não seja o faturamento. Essas informações são muito interessantes a qual- 56 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável quer departamento de vendas ou de marketing, pois detalham como as pessoas estão gastando dinheiro, em quais lojas, em quais dias e até em qual momento do dia. Poderiam ser utilizadas, por exemplo, em programas de fidelidade ou mercados-alvo. É difícil afirmar que o uso antiético das informações não vai ocorrer, pois pode acontecer até mesmo de maneira involuntária. Por exemplo, primeiro, a informação é recolhida e armazenada por algum motivo, como atualização cadastral ou de faturamento, em seguida, um funcio- nário descobre uma outra maneira de usar a informação internamente, compartilhando com parceiros ou vendendo a um terceiro confiável. E, assim, a informação é utilizada sem querer para outros fins. Para se chegar ao auge profissional, não é o bastante ter conheci- mentos técnicos, qualidades, habilidades e capacidades avançadas, é necessário, além disso tudo, uma postura ética profissional, andando ao lado de padrões e valores, tanto normais da sociedade quanto da própria empresa. Além de acompanhar os padrões éticos da sociedade, os profissio- nais devem seguir as normas e os procedimentos internos das em- presas em que atuam. Por exemplo, as informações sigilosas que lhe forem confiadas não devem ser divulgadas, pois isso pode ocasionar prejuízos para um produto. O profissional deve sempre manter uma postura coerente com a sua instituição. A ética no meio profissional auxilia o colaborador na tomada de de- cisões, o que é muito importante para que não seja reconhecido ape- nas pelo seu trabalho, mas também por sua postura ética. Segundo Mattos (2007), ser ético não é uma opção nos dias de hoje, mas sim uma questão de sobrevivência. Atualmente, as transformações ocorrem vertiginosamente, portanto, há a necessidade de um alinha- mento na tomada de decisões com mais rapidez para que se preservem valores importantes, como marca, imagem, prestígio e confiabilidade. Além disso, as empresas precisam estimular a reflexão sobre as questões éticas, uma vez que atitudes inadequadas podem afetar a sua reputação. Algumas classes sociais e políticas estão se afastando da ética e muitos valores estão se perdendo em proveito do individualismo. Já há muito tempo, o bem comum deu lugar à Lei de Gérson, segundo a qual se algo der errado, pode-se da um jeitinho de fazer parecer cor- Diversidade e tecnologia 57 reto. Gérson de Oliveira levou a fama pela frase que traduz o jeitinho brasileiro, mas na verdade muitas pessoas já se beneficiaram com isso. A Lei de Gérson se iniciou em um comercial feito por ele, um dos melhores jogadores da história do futebol brasileiro. A partir disso, ins- titucionalizou-se esse jeitinho brasileiro. É importante ressaltar que o estudo da ética não se norteia em ditar o certo ou o errado, mas visa trazer a consciência aos indivíduos da di- versidade moral frente às escolhas, não só no mundo corporativo, mas também em todas as ações cotidianas. 3.3.2 Ética digital De acordo com O’Brien (2001), a tecnologia da informação aumen- tou demasiadamente nossa condição para obter, manejar, armazenar e transmitir informações, facilitando a forma de se comunicar, traba- lhar em conjunto, dividir recursos e tomar decisões, tudo de modo eletrônico. A TI também possibilitou o compromisso eletrônico em prá- ticas empresariais éticas ou antiéticas no mundo todo, sendo que a sua utilização em negócios causa impactos sobre a sociedade e, com isso, traz à tona muitas considerações éticas. Podemos citar alguns questionamentos para ilustrar os dilemas que envolvem uma decisão ética e que podem afetar o convívio humano, tanto na consciência individual quanto na coletiva: • As organizações podem monitorar eletronicamente as atividades dos seus funcionários? • Um país pode determinar o que será vendido, comprado e consumido por outros países? • Um povo tem o direito de impedir outros de desenvolverem sua própria tecnologia limpa porque poderão, um dia, ser possíveis concorrentes? O forte crescimento econômico dos principais países em desenvol- vimento estabeleceu também um aumento no volume de transações por meio de pagamentos digitais. Toda vez que um consumidor realiza uma transação digital, ele fornece seus dados e espera que as referên- cias pessoais fiquem seguras e sejam usadas da forma correta. 58 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável Pelo fato da ética digital não ser uma exigêncialegal, cada empresa deve estabelecer a maneira como os dados serão utilizados por clien- tes e colaboradores. Ela deve levar em conta seus próprios clientes e estabelecer o que aceitam como um uso viável dos dados e tecnologias para garantir produtos e serviços. O esperado é uma variação de acor- do com cada país, cidade ou estado. Existem três maiores preocupações sobre a maneira como as ins- tituições estão utilizando informações pessoais dos clientes que são: Envio de e-mails ou ligações com finalidade de marketing sem permissão. Venda de informações pessoais a terceiros. Ausência de sistemas de segurança. Um grande ponto de discussão hoje em dia é a privacidade, principal- mente relacionada às informações divulgadas na internet. Notamos isso quando grandes quantidades de dados pessoais são obtidos diariamen- te pelas empresas ao acessarmos as redes sociais e cupons de desconto aparecem a partir de encomendas que fazemos. Sendo assim, precisamos pensar sobre os tipos de informações que devemos passar e manter. A internet e o comércio eletrônico demonstram o impacto ético causa- do pelas empresas digitais. Devido à facilidade de compartilhar informa- ções, a preocupação com os dados de clientes e a proteção da privacidade pessoal e intelectual aumentou. Devemos pensar nas consequências que um Sistema de Informação pode causar, por isso, ele deve ter um padrão de qualidade que proteja a segurança do indivíduo e da sociedade, preser- vando valores e instituições essenciais à qualidade de vida. Dilemas éticos O avanço exponencial da tecnologia está levantando vários di- lemas éticos que deverão acontecer nos próximos anos. Há vários questionamentos a serem feitos em relação a alguns assuntos, como a vigilância em vídeo em tempo real. Empresas como Planet Labs, Skybox Imaging, Digital Globe e o próprio Google estão cada vez mais próximas de ter o poder de permitir as imagens acessí- veis a todos ou de transformar em dados e vender a corporações. Diversidade e tecnologia 59 Tudo seria filmado e nossa sociedade seria como no livro 1984, de George Orwell. A obra 1984 é um romance, publicado em 1949 pelo autor inglês George Orwell, que se passa em um mundo de guerra perpétua, vigi- lância governamental onipresente e manipulação pública e histórica. O governo não permite a liberdade de expressão, controlando tudo o que ocorre, inclusive, o pensamento das pessoas. Novas tecnologias como relógios inteligentes, aplicativos que mos- tram batimentos cardíacos, Google glass são o início, logo aparecerão novos dispositivos que analisarão, em tempo real, detalhes do corpo humano. Além disso, eles permitirão que pessoas gravem e fotografem tudo o tempo todo. E, novamente, a privacidade fica comprometida. Ins- tituições coletarão os dados dos indivíduos dizendo ser necessário para a melhora na saúde, mas fica a questão se teremos regras para proibir pessoas de gravarem conversas ou filmarem na rua, por exemplo. Também podemos pensar no uso de tecnologia na guerra. A utili- zação de drones pode causar efeitos devastadores. Além disso, há a possibilidade haver erros e pessoas inocentes podem acabar feridas ou mesmo mortas, sem que os controladores tenham conhecimento dis- so e não se sintam responsáveis por essas mortes, uma vez que tudo acontece a distância e por meio de uma tela. Além disso temos a ciberguerra contra o Estado Ataque de um país por um grupo de hackers. E aí surgem diversas questões éticas: se um país poderia revidar um ataque individual de hackers, haveria um limite para essa retaliação, entre outras. E não menos importante os limites da impressão 3D. Os ativistas do armamento veem na tecnologia a possibilidade de qualquer um poder criar seus meios de defesa. Já quem acredita no desarmamento vê aí uma perigosa forma de aumentar assassinatos e ataques terroristas. O livro Progresso e desenvolvimento humano – Teorias e indicadores de riqueza, qualidade de vida, felicidade e desigualdade aborda aspectos como medidas de produto agregado, procedimentos metodológicos do IDH, indicadores como bem- -estar, crescimento eco- nômico, desenvolvimento humano e desenvolvimen- to sustentável. Tudo isso com a ética como espinha dorsal e os impactos eco- nômicos que acarretam a desigualdade social. MARIANO, E. B. São Paulo: Editora Alta Books, 2019. Livro CONCLUSÃO O caso FIAT Mio iniciou o modo de se relacionar com clientes, que pode desenhar um novo modelo por meio de propostas. As ferramentas técnicas e as equipes de gestão foram capazes de dar consistência a dife- rentes tipos de sugestões. 60 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável Para implantar o Creative Commons em relação ao público externo, é necessário saber fazê-lo também em relação aos colaboradores. Para tal fim, cinco pontos foram propostos desde os mais conceituais até o último que enfatiza a decisão. O outro lado da diversidade aborda o lado étnico do Brasil. O debate sobre etnia está apenas começando no Brasil. As empresas aprenderam que ações de respeito às origens étnicas, raciais e de gênero contribuem para melhorar o clima e o desempenho dos colaboradores. Para atingir esse momento, foi necessário superar diversas influências como o patrimonialismo, que não separa os interesses públicos e priva- dos, as práticas de cultura da informalidade, adaptações individuais para aprender a conviver com a desqualificação e a ênfase de produzir tirando o foco em qualidade.. O movimento pela qualidade nos anos 1980 representou a oportuni- dade de alterar o cotidiano das empresas, principalmente devido às prá- ticas de gestão de processos que exigiam compartilhar o conhecimento e a melhoria contínua de como produzir. Essa necessidade contribui não apenas para treinar os colaboradores, mas também para empregar novas estratégias, como a motivação, o comprometimento e a liderança para ampliar ainda mais o desempenho da empresa como um todo. No mesmo período, os profissionais de informática incorporam no- vas responsabilidades, além do processamento e registro de transações e aplicações contábeis para se envolver com os sistemas de apoio ao usuá- rio final e dos grupos de trabalho. O aprimoramento dos processos tornou-se vigente, e a responsabi- lidade de contribuir para soluções de aumento de desempenho e maior proximidade com desafios de gestão em geral, incluindo as relacionadas com motivação e aspectos culturais dos colaboradores. Esse movimento nas empresas reflete o cenário nacional que, embora apresente diversas particularidades locais, aponta para tendências de mo- bilização pela defesa de direitos de cidadania, os chamados direitos civis. Os direitos civis revelam o emprego da tecnologia por outro ângulo, as redes sociais de monitoramento contra a discriminação racial. Tais redes apare- cem também no debate sobre a lei de cotas, cujo emprego reflete igual- mente tendências internacionais como o site Change de Barack Obama. Por toda a trajetória desenvolvida, a percepção pelo estudante de tec- nologia e de gestão do tema refina as suas possibilidades de comunica- ção, gerenciamento de equipes e a sua própria formação pessoal. Diversidade e tecnologia 61 Também concluímos que a ética é primordial nas empresas e na so- ciedade como um todo. A ética deve ser a espinha dorsal para que as pessoas tenham um ambiente de trabalho saudável. A ética deve ser utilizada na segurança dos dados e na privacidade das pessoas. ATIVIDADES Atividade 1 Explique como a falta de ética pode prejudicar as empresas hoje em dia. _____________________________________________________________________________ _____________________________________________________________________________ REFERÊNCIAS BALTZAN, P.; PHILLIPS, A. Sistemas de informação. Porto Alegre: AMGH, 2012. CHAFFEY, D. Gestão de e-business e e-commerce: estratégia, implantação e prática. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014. CORTELLA, M. S. Qual é a tua obra? Inquietaçõespropositivas sobre gestão, liderança e ética. Rio de Janeiro: Vozes, 2009. GODOY, L. F. Caso Fiat Mio. Implantando Marketing, 12 abr. 2013. Disponível em: http:// www.implantandomarketing.com/case-fiat-mio/. Acesso em: 28 maio 2021. GOLDEMBERG, J. Energia e desenvolvimento sustentável. São Paulo: Blucher, 2010. GRUN, M. Ética e educação ambiental. 8. ed. São Paulo: Papirus, 1996. MATTOS, R. A. de. História e Cultura Afro-Brasileira. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2007. MINI AURÉLIO. O Dicionário da Língua Portuguesa. Curitiba: Positivo, 2005. O’BRIEN, J. A. Sistemas de informação e as decisões gerenciais na era da Internet. São Paulo: Saraiva, 2001. POHLMANN, O. O novo perfil do gestor de TI. Canaltech, 13 dez. 2013. Disponível em: https://canaltech.com.br/carreira/O-novo-perfil-do-Gestor-de-TI/. Acesso em: 28 maio 2021. POLIZELLI, D.; OSAKI, A. Sociedade da Informação: Os desafios da era da colaboração e gestão do conhecimento. São Paulo: Saraiva, 2008. SANCHEZ, W. Gestão da Mudança. São Paulo: Senac São Paulo, 2020b. SERAFIM, L. O poder da inovação: como alavancar a inovação na empresa. São Paulo: Saraiva, 2011. TAPSCOTT, D.; WILLIANS, A. Wikinomics: how mass collaboration changes everything. Nova York: Penguin Books, 2007. VALLS, A. L. M. O que é ética. 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 2000. http://www.implantandomarketing.com/case-fiat-mio/ http://www.implantandomarketing.com/case-fiat-mio/ https://canaltech.com.br/carreira/O-novo-perfil-do-Gestor-de-TI/ 62 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável 4 Sociedade da Informação Ao final do estudo deste capítulo, você será capaz de: • compreender a importância da agenda tecnológica jun- to à educação; • entender e relacionar a Sociedade de Informação de outros países com a do Brasil, fazendo conexões. Objetivos de aprendizagem 4.1 Sociedade da Informação Vídeo A Sociedade da Informação (SI) é praticamente uma agência pública, no sentido de que é mantida por fundos públicos, porém independente dos interesses imediatos do governo. Ao mesmo tempo, gera fortes consequências no setor privado, que é estimulado pela qualidade de suas pesquisas, ao investir em setores de ponta. A missão dessas agências tem sido gerenciar, de maneira isenta, uma agenda complexa, que antecipa de diversas formas as tendências tecnológicas e de negócios para a sociedade como um todo. O desen- volvimento do conhecimento se transforma, na prática, em uma nova política pública, a qual coordena várias ações estratégicas, táticas e operacionais, em diferentes organizações, simultaneamente. Os rela- tórios dessas agências, combinados com os fundos de fomento, esti- mulam as grandes empresas a investir nas tecnologias, nos produtos e nos serviços mais promissores, ao mesmo tempo que contratam pes- quisadores e empresas intensivas em tecnologia e renovam todas as bases de produção da sociedade. Os relatórios das agências de SI também merecem ênfase em outro lado, que é no gerenciamento de esforços da sociedade. Assim, esses relatórios são organizados por equipes multidisciplinares de diferen- Sociedade da Informação 63 tes áreas de governo, empresas, educação e outros que integram os conhecimentos disponíveis. Cada um é avaliado pelos seus efeitos e resultados obtidos pelos diferentes setores. A divulgação dos relatórios justifica, ainda, os seus custos, sob a for- ma de impostos pagos, arrecadados de diferentes jeitos, conforme as necessidades de cada país. A transparência consolida o caráter de polí- tica pública que a gestão da informação assume nos países ricos. Dessa maneira, os reflexos para a educação têm início neste ponto: demons- trar para a sociedade a importância do conhecimento e a necessidade da dedicação de todos. Em alguns países, percebe-se nitidamente a missão mais estratégi- ca da área educativa, presente nos relatórios e projetos desenvolvidos: incentivar a junção de capital humano com educação. Quanto mais cedo os estudantes perceberem a importância do conhecimento, me- lhor será para o país. Dois exemplos muito explorados são: o programa de identificação de crianças de quociente intelectual elevado, em Israel, e os progra- mas de ensino de Ciências, em Singapura. Essas duas experiências têm início muito cedo e traduzem uma era de inovação para o dia a dia da escola. Assim, nesses países, a educação não se limita a programas ou à aplicação de recursos de tecnologia na sala de aula, envolvendo tam- bém a valorização da inovação e da capacidade de responder a proble- mas de modo mais amplo. Outra experiência que vale a pena ressaltar é o programa de inserção digital para categorias de risco da Coreia, que visa incorporar as experiên- cias profissionais dos mais idosos e evitar o desemprego antes da apo- sentadoria. Essa experiência fez muito sentido, devido ao crescimento da qualidade da educação nesse país nos anos 1980 e 1990, se comparar com a geração do pós-guerra, a qual precisou enfrentar muitas dificul- dades para estudar e se qualificar. Após a invasão japonesa (1895-1945), por exemplo, foi proibido falar o idioma coreano; além disso, durante a guerra da Coreia (1950-1954), as escolas foram destruídas. Outro exemplo muito citado é o dos Estados Unidos da América (EUA). Nele, as universidades participam do consórcio de desenvolvi- mento de novas tecnologias, com a missão de elaborar aspectos mais práticos das ciências básicas. Com isso, o papel das empresas é o de desenvolver os produtos e serviços demandados pela economia de mer- 64 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável cado; o Estado, então, gerencia as políticas de estímulo, por meio de seus requisitos de compras. Um dos casos mais citados se refere às inovações desenvolvidas pela política de aquisição da Força Aérea, com relação à propagação da ino- vação no setor aeronáutico. Os EUA não possuem uma agência específi- ca, como o Japão e a Coreia, mas uma rede de articulações, com base na capacidade de antecipar cenários do National Science Foundation (NSF) e de outras áreas, como a NASA e a Força Aérea. As agências da SI, atuando de diferentes formas para cada país, são as responsáveis pelo modo como a ciência de ponta se transforma em patentes, produtos e serviços nos países desenvolvidos (OECD) . Po- rém, a consequência muito relevante para a educação é o seu papel de difusora de uma cultura de inovação, para o conjunto da sociedade em diversos níveis, principalmente para pequenos e médios fornecedores. 4.1.1 Sociedade da Informação, agenda tecnológica e educação O título acima vai direto ao assunto: a gestão estratégica de tecno- logia, por meio de agenda clara para a sociedade, e a educação são partes fundamentais do desenvolvimento econômico no mundo glo- balizado. Não precisa disfarçar. Ao ler o título, você, provavelmente, se perguntou: o que isso tem a ver comigo? Saiba, sem dúvida, que muito. Para entender o porquê dessa importância, vamos relembrar como esses aspectos já estão presentes nas experiências de atmosferas de desenvolvimento de tecnologia em grande escala. Para esse fim, são criadas as agências de SI, que desenvolvem toda a inteligência das ino- vações tecnológicas e as divulgam para a sociedade como um todo, sob a forma de uma agenda, que antecipa os principais produtos, serviços e sistemas – saiba que existem propostas que cobrem países inteiros, como a Coreia, o Japão e os da Europa. A integração do Estado, das empresas e das universidades presentes nesses projetos é chamada de integração dos três principais atores da Sociedade da Informação. Com- por um ambiente de desenvolvimento assim exige novos desenhos de redes de colaboração de diversas formas, combinando responsabilida- des e tarefas entre os setores público e particular, bem como entre laboratórios e startups de tecnologia. Organização para a Cooperação e Desenvol- vimento Econômico ou Económico; é uma orga- nização econômica inter- governamental, com 37 países membros, fundada em 1961, paraestimular o progresso econômico e o comércio mundial. 1 1 Sociedade da Informação 65 O passo inicial dessas redes é inovar não apenas em produtos e ser- viços isoladamente, mas nos padrões ou nas gerações tecnológicas que garantam um novo patamar de competitividade. Um exemplo relevan- te está na forma como as redes foram empregadas para a constituição de produtos e serviços, com base na convergência digital. Na última dé- cada do século XX, várias dessas redes, estimuladas por agências espe- cialmente criadas para esse fim, antecipavam um novo cenário, no qual haveria a integração entre dados, imagem e voz em diversos níveis, em tempo real e em poucos produtos – como os celulares inteligentes, um dos produtos típicos da convergência tecnológica proposta. Com isso, cada país organizou o desenvolvimento das tecnologias necessárias de hardware e software, para gerar produtos e serviços competitivos, com uma velocidade, até então, inédita. Foi, então, a primeira vez que algumas dessas agências na Coreia (Kisdi) e no Japão (Soumu) e o portal da União Europeia (europa.eu) divulgaram agendas de setores tecnológicos de maneira mais ampla, a fim de incentivar investidores e articulá-los com o desenvolvimento da pesquisa de base nas universidades. Mas por que o primeiro passo ocorreu dessa forma? O mundo se tornava mais competitivo e a missão do empreendedor ficava mais complexa, pois este deveria se preparar para desenvolver e, principalmente, competir em ambientes de negó- cios mais agressivos e estruturados. Assim, a origem dessas agências tem uma história pouco conheci- da, que afeta diversos negócios e merece, aqui, ser brevemente recu- perada. Ao citarmos os anos 1980 e 1990, reconhecemos a expressão empresas de garagem e outras que enfatizam a liberdade de criação e o talento para negócios. Porém, a realidade era outra. Desde o término da década de 1990, o empreendedor individual enfrenta ações integradas de redes de grandes empresas que sabem preservar os seus interesses em diversos níveis. Temos, como exemplo, as leis de proteção de pa- tentes, demonstrando a integração de vários interesses de Estados dos países ricos e de grandes corporações. Nesse sentido, os grandes con- glomerados de software monitoram o uso de suas licenças. Para isso, eles constituíram escritórios jurídicos dentro e fora do país, para com- bater o que consideravam pirataria, e articularam poderosos grupos de pressão, como o Departamento de Comércio dos EUA. Portanto, o ato de inovar exigia, desde então, muitos cuidados com os direitos de origem de tecnologias básicas, empregadas para o desenvolvimento de 66 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável soluções e o risco de sanções. Vários países – e, até mesmo, empresas americanas – foram acusados de não respeitar o direito de patente, pois reproduziam cópias sem pagar pelos seus direitos. Esse ambiente tornava claro que os países que pretendiam atingir um determinado grau de desenvolvimento autônomo deveriam investir seria- mente na sua independência tecnológica. Países com projetos próprios, como Coreia, Taiwan e Japão, se dedicaram à constituição dessas agên- cias, com o intuito de não sofrer com as imposições do setor de comércio dos EUA e outras barreiras de entrada, por parte dos países ricos. A Coreia iniciou o seu esforço por meio da construção de fábricas de chips, o que permitiu a ela desenvolver a sua autonomia em relação a toda a cadeia de telecomunicações, desde equipamentos, torres e softwares de compressão até aparelhos celulares. A década de 1990 mostra outros tipos de saída dessa condição de dependência das grandes corporações, como software livre, compartilhamento de arquivos, entre outros, que geraram muitas situações polêmicas, inclusive no interior dos EUA. As estratégias de competitividade, assim definidas, passaram a mar- car o mundo atual, de modo a integrar tecnologia e inovação em diver- sos níveis, a fim de construir barreiras de entrada a novos competidores, com base em conhecimento. Além dos países citados, outros, como Índia e China, descobrem nichos de mercado e neles se consolidam. A capacidade de inovação passa, então, a interagir com as propostas de educação, bem como a repensar, de maneira mais ampla, a necessidade de criar pessoas qualificadas para ciclos de desenvolvimento cada vez mais rápidos, que se antecipam às ofensivas da concorrência, tanto no plano comercial como no político e no diplomático. Entendido o cenário de desenvolvimento, o talento para negócios de tecnologia se converteu em um ativo disputado e, com isso, vem exi- gindo novas competências, como: saber lidar com investidores na fase inicial da empresa; constituir empresas parceiras; saber superar criati- vamente a escassez de recursos; e gerenciar diversos tipos de pressão. Muitas dessas competências passaram a ser aprimoradas ao integrar as seguintes experiências: cursos formais de graduação; experiência em empresas; cursos de especialização; grupos de trabalho em empresas; grupos de projetos; e grupos de gestão de plataformas de pesquisa. Saber o momento de inovar radicalmente tem sido questão de so- brevivência para diversas empresas. Aumenta-se, dessa maneira, a im- Sociedade da Informação 67 portância das áreas de desenvolvimento e de formação de executivos em relação à educação tradicional. Nesse contexto, crescem também as referências ao executivo esta- dista do final dos anos 1990, o qual concebe a sua organização no longo prazo, interage com ações de grupos de pressão, desenvolve práticas de responsabilidade social (fundações) e atua nos órgãos públicos para difundir os seus interesses. Esse executivo já possui plena consciência da disputa acirrada pelos pontos de nicho de mercado, que pode levar a disputas judiciais longas e custosas. Portanto, ao lado de sofisticada formação técnica, será necessário integrar outros aspectos, como eco- nomia, gestão, política e finanças. Além disso, essa perspectiva de edu- cação objetiva ajudou a instalar uma tendência chamada de educação para toda a vida, incorporando o debate sobre multidisciplinaridade, que estava sendo feito nas ciências exatas e biológicas. Desse modo, os primeiros grandes nomes do nicho de informática, como Bill Gates e Steve Jobs, demonstraram uma capacidade de articu- lação com setores públicos e privados, para defender os seus interesses. 4.2 Experiências internacionais Vídeo Os EUA foram os primeiros a desenvolver o computador, duran- te a Segunda Guerra Mundial, e os primeiros a elaborar os negócios relacionados à informática e ao software. Por esse motivo, o país se transformou em um dos principais referenciais para os projetos de SI e para os modelos do negócio nesses segmentos. Para o pesquisador James Cortada (2002), desde o século XVII, a SI representa um momen- to histórico singular, que precede o desenvolvimento tecnológico e, em particular, o computador. Nesse sentido, a tecnologia não pode ser desvinculada dos valores, dos interesses e de todo um contexto social. Para ele, a experiência dos EUA pode ser explicada em três partes: 1. Era do papel A era do papel tem esse nome devido às pesquisas que os peregri- nos realizaram para viajar da Inglaterra aos EUA. Eles procuraram mapas e documentaram, em detalhes, os preparativos para a jornada ao novo mundo. Nasceu, então, um dos principais valores da Administração Pú- blica americana: o governo legal, referenciado em informações escritas e 68 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável publicadas. A Guerra da Independência já traduzia a resposta para a coa- ção de se alterar a liberdade de informação dos cidadãos da Inglaterra, além das questões econômicas mais conhecidas, como os impostos so- bre alimentos. Desde a fundação das primeiras colônias, o conhecimento era diretamente relacionado com as pessoas. Na metade do século XVIII, as profissões caracterizavam o cidadão bem-informado e o valor do co- nhecimento práticopara a sociedade americana. Os alicerces da informa- ção moravam no conhecimento impresso, nas plantas, nos contratos, nos mapas e nos acordos que sustentavam as ações cotidianas dos negócios. Assim, o conhecimento entendido como prática da sociedade podia avançar mais. De fato, logo após a independência, o país organiza o primeiro censo, em 1790, para conhecer e atuar sobre as suas necessi- dades, tendo como exemplo o relacionamento da difusão do conheci- mento com a educação. Nesse mesmo período, o escritor Noah Webster sugeriu uma grade voltada para o conhecimento prático, para aplicação nas escolas públi- cas, com as disciplinas de Ética, Princípios de Leis, Comércio, Finanças e Governo. Aliás, uma proposta muito diferente da visão de educação no Brasil Colônia, a qual, além de escassa e restrita para as elites, estava direcionada para o ensino de latim, religião e oratória. Um grupo de famosos líderes de 26 Estados, em 1836, propiciou à sociedade americana a disseminação do conhecimento útil, a fim de divulgar conhecimentos aplicáveis para o cotidiano e o trabalho. A alfabetização crescente permitiu a constituição de bibliotecas pú- blicas, imprensa, correios, telégrafo, sistema legal de proteção para a defesa dos direitos autorais e um conjunto de leis de proteção às enco- mendas enviadas pelo correio. Do ponto de vista comercial, saber ler e escrever sustentou o crescimento do sistema de catálogos e compras a distância – responsável pela constituição de empresas como a Sears, que, no futuro, se transformou em uma rede de lojas de departamentos. Além disso, o uso do telégrafo nas ferrovias pode ser considerado um exemplo da capacidade de inovação associada à aplicação prática do conhecimento. Os europeus construíram ferrovias no mesmo período que os americanos, porém não utilizaram o telégrafo como instrumento de troca de informações e controle para aprimorar os comandos sobre rotas, segurança de cargas, distribuição de cargas, entregas e, por ex- tensão, lucratividade. O uso de informações pelos americanos foi mais Sociedade da Informação 69 eficiente, gerencialmente, e difundiu informações por toda a socieda- de. Logo, os EUA investiram e construíram uma vasta rede de ferrovias transcontinentais, em 1870, que permitia a circulação de toda uma in- dústria cultural – jornais, revistas, livros, periódicos, documentos públi- cos e, posteriormente, o cinema. A rede de coleta de informações desenvolvida, durante a Guerra de Secessão (1861-1865), contribuiu para a já existente cultura de valori- zação dos registros. Essa cultura serviu de base para as empresas e ge- rou a cultura de acompanhamento do conjunto de inovações. Nasceu, assim, a infraestrutura de pesquisa tecnológica, que permitiria aos EUA algumas das invenções mais importantes do século XIX, protegidas por patentes, como: as máquinas de escrever e de somar; a leitura de car- tões (IBM); o cinema; entre outros, que garantiam o crescimento da economia americana no século XX. 2. Era da comunicação de massa O sistema de patentes permitiu que as empresas investissem em ino- vações relacionadas à eletricidade, a saber: fonógrafo, telefone, luz elé- trica, televisores e eletrodomésticos – todos esses aceleravam o acesso à informação. Da mesma forma, a indústria automobilística, os aviões, os antibióticos e a indústria química consolidam novas formas de negócios, relacionadas ao crescimento da investigação nas empresas. Nesse senti- do, os processos de P&D substituem a figura do inventor individual pela equipe do laboratório de pesquisas. Algumas dessas inovações aceleram outros negócios, como o tele- fone, a máquina de somar, as máquinas de ferramentas, as máquinas de leitura de cartão e outros, que começavam a dar uma face contem- porânea aos escritórios e às empresas. As comunicações originaram grandes empresas de telefonia, como a American Telegraph Telephone (AT&T), Bell etc. Logo, elas foram vistas como exemplos do poder da es- cala crescente da indústria de consumo americana, especialmente devi- do à capacidade de inovação, transmissão de informação e marketing. A indústria americana ocupa, desde esse período, uma posição de lide- rança mundial, com base na gestão de informações, e conquista mer- cados de produtos de massa, tanto dentro do país quanto fora dele. A indústria da comunicação de massas nos EUA cresce simultanea- mente com a de telecomunicações, rádio, televisão, cinema e lazer. Essas indústrias difundiam grandes quantidades de informação, com 70 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável rapidez e intensidade inéditas. As inovações interligaram, também, di- versas empresas das áreas eletrônica, química e ótica, para desenvolver a indústria audiovisual. Em 1947, os EUA tinham 20 emissoras de tele- visão que transmitiam esportes e filmes do gênero westerns. Por trás dessa programação, valores americanos estavam sendo difundidos. Nesse âmbito, o jornalismo começava a crescer com os programas de entrevistas, desenvolvendo-os com conteúdos adequados à televisão não apenas como tecnologia, mas como forma de comunicação. 3. Era do computador O desenvolvimento do computador abriu uma nova era de gestão do conhecimento e desenvolvimento de inovações, marcando a década de 1920. Na época, os conceitos básicos já permitiam o desenvolvimento do computador, porém estavam isolados em universidades, institutos de pesquisa privados, laboratórios de pesquisas e disciplinas científicas, como Matemática, Física e Engenharia. Esse isolamento refletia a falta de uma ação integradora, que só foi possível na Segunda Grande Guerra. A guerra exigiu esforços de integração de áreas de conhecimento para o desenvolvimento de novas tecnologias, com o objetivo de deci- frar códigos, rotas de viagem sobre grandes extensões (como o oceano pacífico), logísticas de abastecimento de peças, bem como munições e suprimentos para frentes de lutas em rápidas mudanças. As encomen- das do governo organizaram todos esses negócios. Assim, ao final da guerra, estavam sendo desenvolvidos, nos EUA, 12 grandes projetos de computadores, em parcerias com as universidades. Os projetos militares foram os principais fundamentos da indústria da computação nos anos 1940 e 1950, sendo os responsáveis pelo pri- meiro modelo de gestão de tecnologia da informação (TI), o qual re- produzia o modelo de encomendas governamentais. Esse modelo foi caracterizado pela centralização, isto é, o Estado influenciava direta- mente o produto final da pesquisa por ser o único comprador. Ela tam- bém contribuiu para a implantação de uma nova indústria, pela rápida constituição de uma cadeia de fornecedores e de suporte. Em 1950, aconteceu uma enorme modificação no modelo de ne- gócio de tecnologia, com base no mercado, sendo assumida por essa indústria que identificou oportunidades nas empresas, nos escritórios, no financeiro e na contabilidade. Em 1952, a GM instala o primeiro com- putador para controlar as operações comerciais. As aplicações para os Sociedade da Informação 71 computadores de grande porte, então, consolidam o segmento de soft- ware nos anos 1950 e 1960, com uma velocidade inédita, e geram um novo negócio: o de comercializar tecnologias e softwares. Nos anos 1960, sofisticam-se ainda mais os softwares destinados a fins específicos para finanças e produção. Novas formas de relaciona- mento com os fornecedores de soluções respondem a um problema particular, relacionado a não ter como centralizar todo o processo de inovação em um só fornecedor, como era no passado. Com isso, o sis- tema de encomendas, centralizado no pentágono, havia cedido lugar a vastas teias de negócios que integravam governo, empresas e labora- tórios de pesquisa. Nesse contexto, começava a aparecer o rosto da SI, entendida como a difusão massiva de TI pela sociedade. Há a constatação de que essa teia/cadeia de negócios levou os agen- tes, com apoio do governo, a organizar a Advanced Research Projects AgencyNetwork (Arpanet), no final dos anos 1960, para conectar enge- nheiros, cientistas, empresas e governo e aquecer o desenvolvimento de outras tecnologias. Os resultados, portanto, começam a aparecer de uma série de inovações ATM (banking), POS (point of sale) e auto- mação. Outro ponto da Arpanet é a antecipação das redes de negócio, com base em redes digitais de troca de projetos, que caracterizariam, no futuro, as bases dos projetos de SI. Figura 1 Arpanet 72 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável Em 1971, quatro supercomputadores localizados nas universidades americanas permitiam que cientistas trocassem informações (Figura 1). No seu conjunto, essas inovações antecipavam uma nova cultura de desenvolvedores, usuários e consumidores de tecnologia. Em 1987, a NSF assume a responsabilidade de gerenciamento do backbone (es- pinha dorsal) dessa rede. Com a experiência acumulada, uma nova revolução estava em curso: o sistema mundial WWW ampliava todo esse potencial para a rede em escala global, especialmente após 1993, quando a Universidade de Illinois desenvolveu o browser Mosaico, que tornou possível o acesso à internet. O crescimento da internet gerou inovações na economia americana. A queda dos valores dos computadores, em torno de 26% ao ano, de 1995 a 1999, contribuiu para o crescimento da produtividade, a ponto de reduzir a inflação e receber fortes investimentos por parte das empresas. O conteúdo da internet foi um importante elemento no redesenho das empresas. O comércio eletrônico passou a influenciar diretamente deter- minadas indústrias, como a automobilística – nessa, o consumidor passou a escolher e compor os acessórios do carro, conforme seu interesse. Outra inovação foi o e-government, ou governo eletrônico, que dis- ponibiliza informações, para o cidadão, de documentos, estatísticas e serviços em geral. Segundo Cortada (2002), o governo americano ge- rou cerca de 20 milhões de documentos desde a sua constituição. Os grandes laboratórios de pesquisas, ao disponibilizar suas pesquisas e propor parcerias com empresas e governos, consolidaram um ambien- te de intercâmbio digital. À medida que a indústria de TI se consolidava no mundo todo, pesquisas e trabalhos passaram a olhar para produtos e soluções es- pecíficos, o que ampliou as pesquisas voltadas para as tecnologias e os fundamentos de negócios. No final dos anos 1990, a experiência americana de SI já estava consolidada. Mesmo com algumas atitudes de determinadas agências governamentais e a posição do mercado emergente, depois da reorga- nização produtiva dos anos 1980, foca-se as empresas, e o ambiente de negócios se organiza por meio disso. Sendo assim, a visão americana valoriza as redes de negócios, com base em grandes empresas líderes que conhecem as necessidades de mercado e se financiam de diversas formas. Com relação à pesquisa bá- Sociedade da Informação 73 sica, essas empresas desenvolvem parcerias com as universidades, inte- grando-se a projetos que recebem fundos federais, e com os estados e as prefeituras que oferecem incentivos para atrair os fornecedores. Nesse ambiente, o conhecimento das necessidades do cliente é fundamental para readequar os produtos e serviços aos desejos dos consumidores. A proposta americana para a tecnologia de ponta é que os forne- cedores passem a investir em inovação, juntamente com as empresas líderes das cadeias de negócio, a fim de consolidar a sua posição no mercado. Nem todos os segmentos conseguiram fazer essa transição sem problemas; a indústria automobilística americana, por exemplo, ainda enfrenta problemas de custo, produtividade e cultura. A produção de bens impalpáveis nos EUA, principalmente a de softwares, é feita por meio de políticas de estímulo (financiamento, com- pras diretas e apoio a projetos), relativamente claras e acessíveis para os industriais e o governo. Quando uma grande empresa líder se instala em algum ponto dos EUA, leva em conta a teia de parcerias privadas e públi- cas de cada região do país. O êxito dessa política chamou a atenção de diversos países, sendo tomado como base para outros projetos. O crescimento da internet nos EUA influenciou diversos projetos e levou a OCDE a organizar vários congressos para debater a expansão da rede, os quais contribuíram para a constituição de visões diferentes sobre o seu papel e o do Estado e sobre como obter a formação do capital intelectual. A experiência europeia reforça o papel das agendas como sendo fundamental para a SI; assim, foi desenvolvida como uma reação ao modelo americano. Diferentemente desse último, focado nas empre- sas, os europeus reforçam a importância de uma organização pública e de políticas públicas a ela associada, que formulem a agenda de ma- neira clara e acessível. A Europa se esforçou para organizar agências que disponibilizassem para o cidadão comum o que está sendo feito, o porquê e quais as consequências e benefícios ele teria. Mais do que a disponibilização dessas informações, a inovação presente nesses pro- jetos foi a acessibilidade por meio da internet. A transparência dos investimentos orienta o esforço de pesquisa e desenvolvimento para determinados pontos, inclusive com a informa- ção de como obter recursos para os empresários. 74 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável A agenda e-Europe, simultaneamente, ao criar a sua agenda de 10 pontos (Quadro 1), elaborou o quinto plano marco, em conjunto com o Community Research Development Information Services (Cordis), de Luxemburgo. Destaca-se a integração de esforços nesse processo para combinar a visão social com o desenvolvimento tecnológico. Quadro 1 10 pontos do documento e-Europe 10 pontos do documento e-Europe: Sociedade da Informação para todos Primeira Agenda Europeia de Sociedade da Informação (ano 2000) 1. Entrada da juventude na era digital. 2. Acesso mais barato à internet. 3. Aceleração do comércio eletrônico. 4. Internet rápida para investigadores e estudantes. 5. Cartões inteligentes para acesso eletrônico seguro. 6. Capital de risco para as pequenas e médias empresas de tecnologia. 7. Participação eletrônica para pessoas com deficiência. 8. Saúde em linha. 9. Transportes inteligentes. 10. Governos em linha. Fonte: Elaborado pela autora com base em Takahashi, 2000. Com o objetivo de concretizar essa agenda , adotou-se uma es- tratégia de gestão de projetos, para desenvolver novas competências nas áreas de alta tecnologia. Dessa forma, as novas tecnologias foram organizadas por áreas-chave (Quadro 2) e por prioridades, dentro de uma visão estratégica de redução do tempo entre a descoberta e a sua conversão em produto. Quadro 2 Áreas-chave da tecnologia Projeto Marco V do Cordis 1. Sistemas e serviços para o cidadão. 2. Novos métodos de trabalho e comércio eletrônico. 3. Multimídia e ferramentas de conteúdo. 4. Tecnologias essenciais e infraestrutura. 5. Redes de pesquisa. 6. Tecnologias emergentes. Fonte: Elaborado pela autora com base em EUR-Lex, 1999a. A experiência japonesa é uma das primeiras a ser constituída e tem sido coordenada pelo Ministério de Negócios Internos e Comunicações O Conselho Europeu de Sevilha aprovou a Plano de Ação e-Europe em 2005, elaborado pela Comissão. O eEurope visava tornar a União Eu- ropeia na mais dinâmica e competitiva economia do conhecimento. 2 2 Sociedade da Informação 75 (Soumu). Desde 1973, divulga-se o relatório (White Paper) que orienta os investimentos, resultados e trabalhos comparativos entre mercados e empresas de países estrangeiros e do Japão. Um dos projetos mais interessantes se refere à implantação da rede de ubiquidade em todo o país, que foi denominado de u-Japan, im- plantado em 2005. A letra u representa ubiquidade, termo que significa acesso a qualquer conteúdo, por meio de qualquer plataforma e a qual- quer momento. Essa proposta exigiu o investimento em novas infraes- truturas de comunicação, novos equipamentos móveis,realizada em 1972, a Consciência Ambiental recebeu atenção especial de fóruns e nações, o que originou o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), gerando, ainda, em parceria com a Unesco, o Programa In- ternacional de Educação Ambiental (PIEA), com a intenção de promover um intercâmbio de ideias entre as nações do mundo sobre o tema. Em uma dessas oportunidades de intercâmbio de ideias, no Seminário Internacional sobre Educação Ambiental, que ocorreu em 1975, foi aprovada a Carta de Belgrado, que falava sobre questões re- ferentes à educação ambiental do ângulo da sustentabilidade. Sustentabilidade 11 Os objetivos presentes nessa carta eram: Conscientização Contribuir para que indivíduos e integrantes de educação formal, que envolve professores e alunos de todos os níveis, assim como da educação não formal, desenvolvam consciência com relação ao meio ambiente e a todas as questões relacionadas a ele. CH AR TG RA PH IC /S hu tte rs to ck Habilidades Proporcionar condições para que grupos de indivíduos adquiram habilidades necessárias a essas participações ativas. Atitudes Motivar uma participação ativa na proteção do meio ambiente. Participação Desenvolver, em grupos de indivíduos, um senso de urgência e responsabilidade às questões ambientais. Conhecimento Proporcionar o entendimento sobre as questões ambientais, em especial as que envolvem interações entre ser humano e meio. Com o intuito de atingir esses objetivos, a Carta de Belgrado su- gere que os programas de educação ambiental sejam regidos pelas seguintes diretrizes: • enxergar o meio ambiente como um todo, sendo ele natural e preservado pelo ser humano, levando em conta questões políti- cas, culturais, econômicas, tecnológicas, entre outras; • considerar o ponto de vista ambiental nos processos de desen- volvimento e crescimento; • possuir abordagens interdisciplinares; • compreender que as questões ambientais têm pontos de vistas locais e globais; 12 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável • enfatizar a importância da participação ativa na precaução e na resolução das questões ambientais; • preocupar-se com as questões presentes e futuras; • compreender que educação ambiental é um processo contínuo, seja em ambiente acadêmico ou não; • promover cooperações locais, regionais, nacionais e internacionais. A Carta de Belgrado recebeu muitas críticas por não oferecer propo- sições concretas e por ter uma visão pouco realista. Entretanto, trata-se de uma carta de intenções, sem recomendações de como executá-las. Assim, tornou-se o documento mais importante quanto aos conceitos, aos princípios e às diretrizes da sustentabilidade ambiental. Em 1977, a Conferência Intergovernamental de Educação Ambien- tal, em Tbilisi, na Geórgia, gera um documento denominado Declaração de Tbilisi, que, na prática, ressalta o documento feito dois anos antes. As recomendações referentes à educação, realizadas na conferên- cia, foram consideradas em quase sua totalidade de programas da Agenda 21 – importante tratado sobre questões ambientais, aprovado pela Conferência das Nações Unidas, que ocorreu em 1992, no Rio de Janeiro, 15 anos depois. Além disso, há a Declaração de Jomtiem, que enfatiza o fato de a educação ambiental ser importantíssima a homens e mulheres de to- das as idades e no mundo inteiro, contribuindo para tornar o mundo mais saudável, com melhor qualidade de vida a todos. Portanto, esta disciplina de formação social, que você está acompa- nhando neste momento, é uma iniciativa que visa cumprir as recomen- dações realizadas nessas conferências ao longo das décadas. Energia A palavra energia se origina do grego enérgeia, que significa ativi- dade. Com relação a ela, Goldemberg (2010, p. 6) relata: “usualmente relacionada com a realização de trabalho mecânico, deslocando, por exemplo, um objeto de uma posição para outra por meio de aplicação de uma força”. Logo, vivendo em um planeta cujas forças são tão pre- sentes como a força gravitacional, bem como a própria ideia de nosso movimento, gerada pelos alimentos que ingerimos, esse conceito está intimamente ligado à nossa existência. Sustentabilidade 13 Em uma definição ampla, energia é a competência de fabricar transformações em um sistema, sejam elas mecânicas, físicas, quími- cas ou biológicas. Como exemplos, podemos citar a expansão de um gás, uma queda d’água, a combustão de um hidrocarboneto, como o petróleo, ou mesmo o uso de uma corrente elétrica. Existem várias maneiras de a energia se manifestar. Vejamos algu- mas delas: • energia de radiação; • energia química; • energia nuclear; • energia térmica; • energia mecânica; • energia elétrica; • energia magnética; • energia elástica. Sabemos que a energia é essencial em nossa existência. Para efeitos comparativos, o ser humano primitivo, datado em um milhão de anos, antes da descoberta do fogo, contava apenas com a energia gerada pelos alimentos que ingeria, que era de aproximadamente 2 mil kcal (sendo 1 kcal = 1000 calorias). Comparando-o com um indivíduo agríco- la avançado, este, em 1.400 d.C., possuía o carvão para aquecimento, a força da água e o vento, além do transporte animal, e necessitava de 20 mil kcal para a sua existência. Já o chamado ser humano tecno- lógico, dos anos 2000, tem necessidades que vão além da alimentação – como moradia, comércio, indústria, agricultura, transporte, aqueci- mento, resfriamento, iluminação, entre outras – e, assim, precisa de 230 mil kcal para desempenhar suas atividades diárias. É importante lembrar, também, que, há um milhão de anos, éramos menos de meio milhão de habitantes. Porém, hoje, somamos quase sete bi- lhões de indivíduos, cerca de dez mil vezes mais, e cada um de nós consome, em média, 230 mil kcal para nossas atividades. Importante 1.2 Matrizes energéticas Vídeo Até o fim da Idade Média, grande parte da energia utilizada provinha do uso da madeira em forma de lenha, resultando na quase total devas- tação de muitas florestas, que cobriam, praticamente, toda a Europa. Sendo assim, a necessidade energética, crescente no século XIX, como consequência da evolução natural do homem e da Revolução In- dustrial, tornou o carvão mineral, usado como fonte de calor, a princi- pal matriz energética daquele período. Tempos depois, com o desenvolvimento de motores, o petróleo e seus derivados passaram a ser fontes de energia, acarretando a utili- 14 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável zação da eletricidade, inicialmente provida por usinas hidrelétricas e, posteriormente, por termelétricas. Energias renováveis x energias não renováveis No atual cenário das fontes energéticas, encontramos disponíveis as fontes não renováveis e renováveis. As fontes de energia renová- veis são as que permanecem disponíveis mesmo após serem utiliza- das, ou seja, não se esgotam. Por exemplo: • Energia dos vegetais (biomassa): gerada pela combustão de vegetais, como lenha, cana-de-açúcar, serragem, papel, galhos, folhas, casca de arroz, capim-elefante, entre outros. A sua combus- tão gera alguns derivados, como: biogás, etanol, biodiesel, óleo ve- getal etc. É considerada renovável porque é possível reflorestar ou replantar, porém é necessário ter cuidado para não comprometer a conservação do solo, causando mais desmatamento, além de ter cautela na queima desses biocombustíveis. No caso dos óleos, o combustível é produzido pela fermentação de óleos vegetais reti- rados de caules, folhas ou até de carvão vegetal. • Energia hidráulica: realizada por meio da correnteza dos rios. An- tes, essa energia cinética era aproveitada por moinhos de água, ou azenha, para moer grãos, irrigar grandes arrozais e drenar terras alagadas. Posteriormente, geradores elétricos foram adaptados para transformar essa energia hidráulica em elétrica, criando as usi- nas hidrelétricas. No Brasil, temos várias usinas hidrelétricas, mas as principais são: Itaipu,novos hábitos de relacionamento entre grupos sociais, nova visão ambiental e novas soluções para problemas cotidianos, sintetizados na Figura 2. O mesmo relatório antecipa para os empresários quais são as preferências de compra dos consumidores e o comportamento das empresas para entendê-los. Além disso, o relatório já antecipava o crescimento da internet nas residências e a perspectiva de outras ma- neiras de relacionamento, como o avanço do comércio eletrônico. Para facilitar o entendimento, na Figura 2, percebemos como o consumidor japonês decidia as suas compras. Pode-se observar, aqui, a preocupação sobre como se dá a satisfação dos usuários. Primei- ramente, são agrupados os consumidores por PCs e por celulares. Depois, os principais motivos de uso dos consumidores. Mais do que uma pesquisa de mercado, o relatório estimula empresários e gesto- res a encontrarem pontos de atuação, melhorias que poderiam ser desenvolvidas e novos serviços que poderiam ser oferecidos, como se vê na Figura 2. A comparação entre celulares e computadores estimulava novas so- luções de hardware e software para os desenvolvedores. Na época, os PCs apresentavam algumas vantagens, e o que hoje denominamos de mobilidade estava em processo de desenvolvimento. A grande mudan- ça nos produtos e serviços trazem novas demandas estratégicas, como o ato de planejar formas de contratação on-line, a segurança para a concretização de negócios na internet, a responsabilidade civil na web, a credibilidade dos direitos do consumidor no comércio on-line e as relativas ao direito autoral e à propriedade intelectual. 76 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável Figura 2 Desafios específicos futuros e exemplos de soluções usando redes onipresentes. Residências amigáveis a idosos Exemplo: disponibilização de monitoramento da localização e condições de um idoso ou criança pequena pelos pais/parentes, por meio de vários sensores e da checagem da condição de aparelhos domésticos elétricos. Suporte ao estilo de vida Participação social de pessoas jovens, de meia-idade e idosas Equivalência entre as capacidades avaliadas e as ofertas de trabalho e a introdução de programas de desenvolvimento da capacidade, a fim de reinserir grupos de mulheres, pessoas de meia-idade e idosos no mercado de trabalho, assim como os jovens. Suporte para mudanças de emprego, reinserção no mercado de trabalho etc. Redução de acidentes e congestionamentos no trânsito Exemplo: eliminação/controle de congestionamentos, por meio de informações sobre o tráfego e rotas e redução de acidentes de trânsito, utilizando automóveis com sistema autônomo, bem como comunicações entre veículos e entre veículos e rodovias. Rede com base na assistência à direção Alívio para as frustrações dos passageiros Exemplo: permissão aos passageiros para obter informações em tempo real sobre a hora de chegada, os atrasos e os meios de transporte alternativos do sistema público de transportes. Navegação de informações de transportes públicos (Continua) Sociedade da Informação 77 Acesso livre a conteúdos Exemplo: permissão do uso de vários conteúdos em qualquer lugar e a qualquer hora, de qualquer terminal, pela realização da proteção de direitos autorais e usabilidade por meio do controle de meta- -dados (informações sobre atributos de conteúdo). Distribuição de conteúdo onipresente Expansão do aprendizado vitalício Exemplo: revelação de conhecimento escondido na comunidade local, mediante permissão de que qualquer pessoa se torne um professor ou um aluno e ensine outros por meio de redes. Redes com base em classes comunitárias Diversificação de estilos de trabalho Exemplo: permissão de que uma loja não muito cheia forneça serviço remoto a um cliente em outra loja, quando o serviço “cara a cara” não é exigido. Serviços remotos entre lojas Suporte para cooperação de trabalho entre empresários Exemplo: permissão para que empresários em diferentes lugares virtualmente se encontrem e discutam, a fim de apoiarem planejamentos, deliberações e tomada de decisões da equipe administrativa. Apoio cooperativo à equipe administrativa Garantia de segurança na hora do desastre Exemplo: permissão às vítimas e suas famílias de troca de informação necessária nos momentos de desastre, incluindo confirmação de segurança pessoal. Confirmação de segurança de pessoas em momentos de desastre Segurança alimentar Exemplo: permissão aos consumidores de checagem fácil de dados de produção e registros de distribuição, por meio da anexação de etiquetas IRF aos alimentos (vegetais, carnes, peixes frescos, alimentos processados etc.). Rastreamento de alimentos Uso eficiente de informações clínicas Exemplo: melhoramento da qualidade e eficiência da assistência médica e fornecimento de serviços médicos orientados aos pacientes, mediante facilitação de troca de dados médicos entre hospitais, em forma de gráficos médicos eletrônicos. Rede de gráficos médicos eletrônicos Promoção de procedimentos administrativos on-line Exemplo: uma vez que dados de cartões, registros de casamentos etc. sejam atualizados, todos os outros procedimentos também podem ser atualizados automaticamente. Atualização automática de procedimentos administrativos Melhoramento em eficiência nas compras Exemplo: compras agradáveis e eficientes para clientes, pelo acesso fácil a informações, como localização e quantidade em estoque do produto desejado, por meio de um terminal. Sistemas de compras com uso de terminais Promoção de reciclagem e tratamento de lixo Exemplo: melhoramento por meio da compreensão da quantidade de lixo coletado pelo tipo e pela certificação de reciclagem apropriada de domicílios e escritórios, depois separá-los pelo tipo de lixo. Rastreamento de lixo e de recursos Fonte: Ministry of Internal Affairs and Communications, 2005. 78 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável Ao mesmo tempo, explora novos canais de comercialização para produtos e serviços típicos da ubiquidade, como games, filmes, música, e notícias. Consolidado o debate até aqui, o citado relatório (WHITE PAPER, 2005) avança no debate da utilização de tecnologias digitais para uso tí- pico de governos, como: prevenção de desastres, relacionamento com idosos, segurança alimentar e outros. Ao mesmo tempo, propõe novas soluções tecnológicas para o controle do orçamento e da rede, com aplicação de governo para governo (G2G), e sintetiza as experiências da informática pública e o seu papel no apoio aos programas sociais de inclusão digital e experiências locais, bem como a comparação com projetos internacionais nas áreas afins. O relatório inovou, também, no que se refere à gestão das empre- sas, com relação à eficiência do emprego das tecnologias de informa- ção e comunicação (TIC). Um dos gráficos mais interessantes se refere a 10 pontos fundamentais de integração entre habilidades de gestão e de tecnologia. Nele, destaca-se a extensão da pesquisa, elaborada em escala nacional, para estimular as empresas a adotarem práticas de in- tegração inovadoras, com governança corporativa transparente e estra- tégia de investimento de longo prazo. Além disso, o papel da alta gestão aparece combinado com as TIC e o conhecimento dos trabalhadores. Um dos objetivos estratégicos desse relatório é estimular as jovens empresas a aproveitar as oportunidades que os números deixavam ver, para a inovação, educação e melhoria da competitividade no país. Para esse fim, o relatório de 2005 apresentava as oportunidades e o grau de satisfação do consumidor, atuando como um guia de oportuni- dade para aprimoramento de processos. Logo, a seguir, o mesmo rela- tório analisa a situação de gestão das empresas japonesas em relação aos seus processos. Assim, ao combinar tendências de negócios e aplicações em gestão, o u-Japan induz as empresas a projetos de intercâmbio de conhecimen- to, à educação pelotrabalho e ao desenvolvimento de competências para consolidar o ambiente de desenvolvimento nas redes. As pesqui- sas com usuários estimulam o cuidado obsessivo com o cliente e suas necessidades. Completa-se, assim, o ciclo de integração entre agentes, tendências, percepção de necessidades e interesses que sustentam a visão japonesa de SI. Sociedade da Informação 79 Ainda, no que se refere aos objetivos estratégicos desse relatório, está a revisão da educação tradicional japonesa, com relação ao mer- cado de trabalho. A ideia é estimular um novo tipo de profissional, voltado para revolucionar as tecnologias e não gerar adaptações e aplicações já conhecidas para as empresas. Além do mais, vale a pena relacionar o conteúdo desse relatório com o esforço da educação for- mal no país. O papel das disciplinas na universidade não é mais o de gerar conteúdo de estudo e aplicação para o futuro engenheiro, mas sim de desenvolver startups e revitalizar o mercado de investimento em tecnologias. Muitos grupos de pesquisadores no Japão se recor- dam de que o país imprimiu uma revolução na indústria eletrônica de consumo nos anos 1980. Assim, assumiu a liderança global e extinguiu a indústria americana. Tanto as universidades como as empresas lutam para rever a tradi- ção de senioridade no país, ou seja, as inovações são promovidas por gestores experientes, com mais idade. Não se trata somente de uma questão de idade, mas de aversão ao risco, que é a origem do proble- ma – a senioridade é, então, uma das formas tradicionais de lidar com o problema. Embora o u-Japan tenha obtido resultados, existem críticas às relações com o financiamento público, bem como aversão aos ris- cos, por parte das empresas japonesas. É na Coreia que uma das experiências mais abrangentes de SI está em processo. Uma das agências mais atuantes dos países ricos é o Korean Information Society Development Institute (Kisdi), que dispõe de vários bancos de dados sobre as tendências tecnológicas em cur- so, consumo de produtos de tecnologia de ponta e competitividade de empresas coreanas. O Kisdi produz um relatório anual muito conceituado, o ICT Industry Outlook of Korea. O Ministry of Information and Communication (MIC) guia as empresas coreanas, antecipando cenários para a exportação. Juntamente com o MIC e o Informatization Promotion Committee (IPC), o Kisdi forma a rede de apoio à inovação privada no país. Essas orga- nizações elaboram diversos planos: o Cyber Korea 21 (1999), para pre- parar o país para entrar na vanguarda do século XXI; e o e-Korea Vision 2006 (2002), voltado para a difusão do uso de informática e TI, a fim de ampliar a competitividade do país. 80 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável O plano atual u-Korea destaca o u de ubiquidade, como já explica- do. As inovações tecnológicas na visão do país se dão, principalmen- te, por meio da colaboração entre organizações (redes de negócios e de desenvolvimento de capital humano). Os coreanos veem a SI como o ponto em que se encontram várias tecnologias de ponta, identifica- das em relatórios específicos, como os do Korea IT Industry Outlook, disponibilizados pelo Kisdi e financiados por agências públicas, com a contrapartida de gerar novas vantagens competitivas para as redes de negócios coreanas. Cada projeto financiado desenvolve as inovações, o alcance das novas tecnologias, os riscos e as ações necessárias de maneira sim- ples para que o conhecimento se converta na principal ferramenta de gestão nas organizações. Os paradigmas de administração são revistos com base nos moldes de distribuição de ideias e projetos, baseando-se em competências bem definidas entre fornecedores e parceiros. Nesse ambiente, as empresas planejam com detalhes as políticas de cooperação e competição e analisam como tirar proveito das políticas de estímulo (inclusive as fiscais) para a alta tecnologia. O projeto Broad Band IT Korea Vision 2007 teve início em 2003, com o sentido de aumentar a renda per capita do país para mais de US$ 20 mil. Com base nessas experiências, o u-Korea 2007 se de- dica a estimular as tecnologias, com base na ubiquidade (acesso de qualquer plataforma, a qualquer informação e em qualquer tempo), por meio de uma infraestrutura de TI, ligada ao desenvolvimento de produtos e serviços. A mesma iniciativa ocorreu com o projeto IT 839, em 2010, que se dedicou a aumentar a renda per capita do país para US$ 30 mil. O pro- jeto integrou oito serviços, três infraestruturas e nove equipamentos. O mais inovador nesse projeto foram as referências a três infraestrutu- ras, que integravam desde as placas de rádio frequência e a banda lar- ga até as redes domésticas. Mais do que a integração, o projeto visava revolucionar o desenvolvimento de novos produtos e serviços. Um dos objetivos era manter a recém-conquistada liderança na eletrônica de consumo, em particular com os televisores digitais, os equipamentos móveis pós-PC e outros ligados às redes de alta velocidade. Essa forma de gestão parece dar conta de uma das limitações dos japoneses com relação à gestão: a aversão ao risco. Sociedade da Informação 81 Outra experiência coreana de destaque é o Korea Online eProcurement System (Koneps), um sistema de compras eletrônicas que possibilitou uma economia de US$ 400 milhões na sua implantação. Essa experiência permitiu que a Coreia se transformasse em um dos países que mais empregam esse sistema no mundo. Além da economia, outros objetivos devem ser relacionados – por exemplo, facilitar a entrada de pequenas empresas, principalmente as intensivas em tecnologia. Os coreanos parecem se dirigir ao caminho de elaborar meios para dividir os riscos de inovação entre empresas e governo. Assim, o país inteiro se transforma em um laboratório para integrar todos os pontos do projeto. Somente a experiência de mercado pode fornecer os ele- mentos necessários para se lidar com o risco. Portanto, um projeto em escala nacional antecipa as dificuldades que diferentes mercados po- dem colocar para as redes coreanas. Lidar com o risco, nesse ambiente e dessa forma, expressa um conceito de projeto amplo e sofisticado, que transforma a escala e o risco em fonte de aprendizagem e educa- ção pela experiência do trabalho. A inovação também se expressa na educação formal. Além da disciplina de estudo, a educação está orientada a saber inovar em projetos e na forma de gestão. Então, o estudante é estimulado a sa- ber colocar a inovação como elemento de distinção. Desse modo, o espaço para startups tem crescido como instrumento para estimu- lar o empreendedorismo e a competência técnica. Nesse ambiente, novas oportunidades aparecem e demonstram a mudança e a im- portância dessa concepção de procedência tecnológica. As startups coreanas, especificamente, avançam para novos desenhos, refletindo uma geração de empreendedores. A Coreia já detém uma rede estratégica de intercâmbio de conhe- cimento entre empresas, a qual permite monitorar o desempenho de fornecedores até a entrega dos produtos e serviços contratados. As TIC, na era da onipresença, reduzem o ciclo de vida dos produtos – em termos mais práticos, a identificação, o desenvolvimento e o teste dos produtos precisam ser mais rápidos e competentes. Dito de outra forma, o ambiente de negócios, típico da ubiquidade, acelera a con- vergência entre tecnologias e mercados, ampliando as demandas de inteligência e os serviços em tempo real. Os projetos, agora, sublinham o desafio de gerir produtos e serviços nos cenários complexos que envolvem diversos grupos e estratégias 82 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável de sustentação. Logo, não se trata apenas de desenvolver novos pro- dutos isoladamente, mas de gerar um ambiente de colaboração entre os principais pontos da agenda do plano. Dentre eles se destacam: go- vernança transparente, acessível por qualquer meio; uso inteligente do solo, por meio de logística e sistemas integrados detransportes; econo- mia flexível; e TI aplicada ao meio ambiente. A capacidade de formular cenários, integrar os agentes, prever tendências e adequar a educação, pelo trabalho com as mudanças de mercado, demonstra a importância de uma agenda centralizada. As experiências de projetos da SI acumularam experiências ino- vadoras para a Coreia, com relação às jovens indústrias intensivas em tecnologia que têm sido integradas aos grandes conglomerados (chaebols) do país. Duas formas de integração têm sido praticadas: a assimilação direta (compra) ou a participação como parceiros ou forne- cedores, com aporte financeiro. A necessidade de inovação e de parcerias devidamente antenadas, com tendências tão diversificadas, pressupõe inovação tecnológica, cultural e gerencial. Uma rede de interesses tão complexa leva a diver- sas articulações de grupos de pessoas e empresas. Parte dessas expe- riências é desenvolvida na universidade, nos projetos e nas startups. Livro Verde da Sociedade da Informação no Brasil A SI no Brasil se iniciou por meio do Livro Verde, lançado no ano 2000 (TAKAHASHI, 2000). Esse sofreu as influências das experiências americanas e europeias. Para tentar recuperar o atraso do país, pro- pôs uma via própria de desenvolvimento de informática. Em 1991, a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), filiada ao Ministério de Ciência e Tec- nologia (MCT), criou o backbone e envolveu centros de investigação (FAPESP, FAPEPJ, FAPEMIG etc.), universidades e seus laboratórios. Em 1994, a Embratel inicia o serviço experimental, com a finalidade de se aprofundar na internet. Apenas em 1995 isso foi possível, por uma decisão do Ministério das Telecomunicações e MCT, havendo uma abertura ao setor privado da internet, para análise comercial da popu- lação do Brasil. A RNP ficou incumbida da estrutura básica de interco- nexão em nível nacional, controlando o eixo central. Em 1999, a Presidência da República lança o Programa Sociedade da Informação (Socinfo), sob a responsabilidade do MCT, com o in- Sociedade da Informação 83 tuito maior de promover o avanço econômico e social ao acesso e uso das TIC. O projeto, no ano 2000, reconhecia a importância da sociedade do conhecimento e da educação, bem como propunha a integração do governo e da sociedade, para que os benefícios da informatização al- cançassem o país todo, pela universalização do acesso à internet. De maneira semelhante à proposta europeia, reconhecia a importância de promover a inclusão social (emprego), por meio da inclusão digital (qualificação). No caso do setor privado, assumiu formalmente a nova economia com base na abertura de mercado, globalização e comércio internacional, tomando isso como uma condição para o sucesso. Po- rém, a estrutura organizacional não inclui o setor privado. Sublinha-se aqui uma mudança radical em relação às políticas dos anos 1980, marcadas pela reserva de mercado e por restrições à importação de equipamentos e softwares. O Livro Verde acreditava que o crescimento da internet, articulado com as ações de políticas públicas de incentivo, poderia repetir no país o êxito das experiências de SI dos países da OCDE e da Europa, com sua visão de escala continental. Sem querer uma discussão política de reserva de mercado da informática dos anos 1980, o Livro Verde (2000) destaca que o sucesso relativo, nos aspectos críticos, para a formulação de um projeto de SI, já havia sido obtido: crescimento da internet e for- mação de competências na universidade e no setor privado. O relatório enfatiza, ainda, a privatização do setor de telecomuni- cações, a criação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o governo eletrônico e a retomada dos investimentos em tecnologia das empresas brasileiras. O documento brasileiro acompanha os diagnósticos dos demais projetos de SI, desenvolvidos pelos países ricos, ao propor 14 pontos de atuação, que constroem uma rede básica ao redor de pontos críti- cos, os quais desenvolveriam novas áreas e fortaleceriam o conjunto, gerando saltos de qualidade para o país, no que diz respeito ao domí- nio de tecnologia. Cabe, aqui, esclarecer a importância do termo diagnóstico: ele está sendo empregado para diferenciar a agenda no sentido europeu, com metas definidas por prazos. Da mesma forma, há a proposta de uma sociedade em rede, que integraria o setor privado (que dispõe da 84 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável maior capacidade de investimento), o governo (missão de disponibili- zar acesso tanto universal quanto a serviços públicos), as universidades (com base científico-tecnológica e formação de recursos humanos) e a sociedade civil (ONGs), que não era definida em termos de responsabi- lidades e tempos de execução. O Livro Verde incentivou progressos, principalmente em ações de governo eletrônico, internet para pesquisadores e crescimen- to da população com acesso à internet, após a reestruturação dos meios de telecomunicações. Outros resultados que merecem ser destacados são: o crescimento de serviços digitais ao cidadão; a interligação de bibliotecas (cadastra- mento para o Ministério da Cultura); o uso de arquiteturas abertas de software; o reconhecimento do papel das pequenas e médias empre- sas intensivas em tecnologia; o início da constituição de mecanismos de articulação das TI no plano interno; e o governo eletrônico. Esse úl- timo, que foi muito competente em algumas áreas, como a fiscalização do imposto de renda e a integração Detran/Denatran (Ministério dos Transportes), não foi tão eficiente para as políticas de saúde, tomando por base as ações da SI na Europa e no Japão. O maior impacto sobre o projeto foram as pressões do chamado Custo Brasil nas empresas de tecnologia. Originalmente, o Custo Bra- sil foi pensado para os setores produtivos, porém as experiências de sucesso ligam cada vez mais a tecnologia com o ambiente fiscal e ma- croeconômico dos negócios, o que coloca, nas empresas de tecnologia, a necessidade de compreender as suas particularidades. Os impostos, a cultura de relativo isolamento dos principais atores (Estado, universidades e empresas) e a burocracia fazem os custos de desenvolvimento aumentarem. Não é suficiente propor o estímulo às empresas de alta tecnologia de maneira vaga. A inovação tecnológica pressupõe um leque de fornecedores e par- ceiros, para demandas em formação que podem ou não se consolidar. A tendência é que as empresas líderes antecipem, desenhem o projeto e repassem, para as outras empresas da sua rede de negócios, parcelas cada vez mais complexas do projeto. Dito de outra forma, além do risco de mercado, essas organizações devem investir nas suas competências. Daí a importância de se entender o real ambiente de negócios no Brasil, Sociedade da Informação 85 bem como de a qualidade do projeto de SI passar pelo equacionamento das dificuldades reais da economia, em particular a cunha fiscal. Desse modo, o Livro Verde influenciou algumas iniciativas locais. Embora com resultados pontuais, observa-se nelas a preocupação com relação ao conhecimento e à integração entre esforços da universida- de, das empresas e do Estado. Assim, nessas iniciativas, há o Porto Digital em Recife, Tecnópole em Porto Alegre e Polo-RS, no Estado do Rio Grande do Sul. O primeiro com- binou a recuperação de uma região histórica no centro do Recife com a reforma, por meio da instalação de cabos de fibra óptica, para incubar empresas de alta tecnologia. O segundo trabalha atraindo para o Rio Grande do Sul empresas de alta tecnologia, com base na sinergia dos três atores citados. Por fim, o terceiro destaca a importância da inclu- são da abordagem de produção da SI para a compreensão dos mode- los urbanos e a instalação das bases de produção, fundamentando-se na sociedade do conhecimento. Os três refletem uma visão de desenvolvimento local que aponta para possibilidades de maior integração regional no futuro. Porém, persiste a dificuldade de integração regionale nacional, especialmente referente ao estímulo fiscal às empresas. Dessa forma, as ações locais identificadas no Brasil precisam ganhar uma escala e um instrumento de integração; em outras palavras, é ne- cessário ter uma agenda bem estruturada. Com o acelerado avanço tecnológico, o capitalis- mo, do final do século XX, se encontrava com problemas que acreditava ter terminado, como o desemprego. No livro Ética e poder na Sociedade da Informação, o autor faz uma análise da ética e do desenvolvimento econô- mico da sociedade. DUPAS, G. São Paulo: Unesp, 2000. Livro CONCLUSÃO A Sociedade da Informação (SI) é algo complexo, que traz à tona o debate de competitividade entre empresas, para a competição entre a ca- pacidade de produção e a de inovação entre países. O comércio interna- cional e a globalização estão diretamente relacionados com as iniciativas das agências de SI; basta ver o crescimento dos produtos intensivos em tecnologia nas balanças comerciais, bem como o de serviços dos países ricos, em oposição aos países pobres. A SI modificou a visão de educação, revendo a educação formal, como no caso da Coreia e do Japão, ao estimular a disciplina de estudo para a implantação de startups e outras formas de aplicação. Ao mesmo tempo, desenvolve outras maneiras de educação pelas experiências de trabalho 86 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável – como no caso coreano do IT 839, que envolve todo o país, como um laboratório de aprendizagem e superação. Assim, construir ambientes estimulantes para ativos intangíveis e ca- pital intelectual nos países ricos é hoje um dos maiores desafios para in- tegrar as competências e vocações dos atores fundamentais, ou seja, das empresas, dos governos e das instituições de pesquisas. As decisões estratégicas da competitividade de redes e do empenho cobrado dos parceiros já são realidade em países ricos e emergentes. Cresce, então, a abordagem proativa: não se trata de vender produtos iso- ladamente, mas de desenvolver capacidades inéditas e de adaptar novas demandas a produtos e serviços intensivos em conhecimento, ampliando a inteligência sobre os mercados conquistados. Para isso, esses países criaram políticas de defesa dos seus interesses em diversos campos, in- clusive nas negociações internacionais. A inteligência da SI abrange várias políticas fiscais e de financiamento, para a atração intelectual das empresas e não apenas do seu parque pro- dutivo, tendo como meta a integração do seu conhecimento às competên- cias locais. Privilegia-se, estrategicamente, o capital intelectual, permitindo que os países que dispõem de uma mão de obra qualificada entrem em novos mercados com rapidez. Enquanto isso, o Brasil sofre os efeitos do Custo Brasil na inovação. Impostos elevados, burocracia e conflitos de interesses no setor público reduzem a capacidade de desenvolver e atrair o capital intelectual, que é a base dos novos desenhos competitivos da economia, da TI e da SI. O cenário exposto ao longo do capítulo exige respostas inéditas: constituir e apoiar as redes de negócios, para transformar a inserção do país na globalização de maneira sustentável. Não se trata de melhorar indicadores isoladamente; a questão é formar competências e relacionar os principais atores (universidade, empresas e laboratórios de pesquisa), bem como incrementar parcerias com o setor privado, para aplicá-las na disputa por mercados, com maior conteúdo de conhecimento. ATIVIDADES Atividade 1 No final dos anos 1990, a experiência americana de Sociedade da Informação já estava consolidada. Faça um breve relato de como isso ocorreu. Sociedade da Informação 87 Atividade 2 Qual é o papel das agendas na experiência europeia? REFERÊNCIAS ANPROTEC. Estudo, análise e proposições sobre as incubadoras no Brasil: relatório técnico. Brasília: Anprotec, 2012. Disponível em: https://anprotec.org.br/site/wp-content/ uploads/2020/06/Estudo_de_Incubadoras_Resumo_web_22-06_FINAL_pdf_59.pdf. Acesso em: 28 maio 2021. CASTELLS, M. A sociedade em rede. 7. ed. São Paulo: Paz e terra, 2003. CORTADA, J. Making the information society: experience, consequences and possibilities. 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Objetivos de aprendizagem 5.1 Carreiras de TI Vídeo Quando um ator é questionado sobre o que mais o atrai na pro- fissão, ouve-se muito, como resposta, que,durante suas pesquisas para um determinado papel, o artista cênico tem contato com o coti- diano de um médico, advogado, vendedor ou esportista, por exemplo. Ou seja, ele acessa uma realidade muito diferente da dele. De certa maneira, é exatamente o que acontece quando falamos em TI. Ao aperfeiçoar um sistema de informação, para uma empresa de comércio exterior, deve-se saber o dia a dia dessa empresa como um todo, como os seus funcionários trabalham, quais processos eles devem seguir, as legislações da área, entre outros. Caso contrário, não seria viável desenvolver um sistema robusto, a ponto de acompanhar seus funcionários por todo o processo. Por ser um mercado imprescindível e atual em tantos segmentos, a empregabilidade desse nicho é uma das que mais chamam atenção no momento, com dezenas de vagas surgindo todos os dias. Segundo um estudo sobre abertura de vagas de emprego, realizado pelo IPEA, entre 2009 e 2012, 49 mil oportunidades de trabalho surgiram para a área de TI. Fazendo um comparativo, a cada 100 vagas existentes nesse perío- do, 18 delas se vinculavam a essa área, tornando-a absoluta recordista (RENNER, 2013). Mercado de TI 89 Embora a automação seja a culpada pela redução de vagas de trabalho desde a Revolução Industrial, muitas vagas especializadas têm sido criadas em seu lugar. Segundo uma pesquisa feita pela Microsoft, mostrada no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), 80% dos brasileiros que fo- ram abordados creem que a tecnologia abre oportunidades de emprego. Ainda, para 72% dos que foram ouvidos no país, ela também ajuda a redu- zir diferenças econômicas, enquanto 84% dos que participaram do estudo acreditam que a tecnologia pessoal ocasiona inovação aos negócios e à vida pessoal (BRASSCOM, 2014). Além disso, ao se falar em inovação e em- preendedorismo, 82% das pessoas consultadas no Brasil acreditam que a tecnologia aumenta a chance de um negócio novo. A Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), por meio de um estudo recente, verificou que instituições de ensino necessitariam formar 70 mil alunos anual- mente para evitar um “apagão técnico”. Um maior incentivo para faculdades de tecnologia e aumento de políticas públicas estudantis é necessário para ampliar a demanda de profissionais na área de TIC – a situação veio à tona pela Brasscom. Existem 845 mil vagas no setor de TIC no Brasil, sendo que 42,9% se encontram em São Paulo. A procura por novos profissionais, prevista entre 2019 e 2024, fica em 70 mil profissionais. Porém, somente 46 mil pessoas se formam por ano no ensino superior, com as características necessárias para atender ao que pedem essas vagas. Cursos superiores de tecnologia x bacharelado Uma das medidas criadas, com o objetivo de reverter esse deficit, são os cursos superiores de tecnologia. Trata-se de cursos de gradua- ção, com duração que varia entre dois a três anos, que têm como prin- cipal característica a especialização profissional de uma das inúmeras áreas de atuação pertencentes ao mercado de TI. O Conselho Nacional de Educação (CNE) esclarece que o curso supe- rior de tecnologia é, especificamente, um curso de graduação, com ca- racterísticas próprias, concordando com o respectivo perfil profissional de conclusão. Prossegue, ainda, afirmando que a constante relação dos cursos de tecnologia com o ambiente produtivo e com a necessidade da sociedade coloca as pessoas em uma ótima perspectiva de atualiza- ção continuada, renovação e reestruturação própria (FATECSP, 2014). 90 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Sendo assim, o bacharelado em tecnologia forma especialis- tas, tendo seu foco em um dos vários segmentos da TI, e é por essa razão que a sua duração é menor, se comparado com os cursos superiores tradicionais. O curso superior de bacharel, por outro lado, tem o objetivo de formar uma pessoa completa na área, em todos os segmentos da TI; logo, é por esse motivo que possui uma duração maior. Depois, o pro- fissional tem a oportunidade de se especializar no segmento que pre- ferir, podendo até mesmo trabalhar em posições que relacionem dois segmentos ou mais – vagas nas quais um tecnólogo teria mais dificul- dade em preencher os requisitos. Rankings de cargos na área de TI De acordo, ainda, com a pesquisa feita pela Brasscom, profissões como analista de desenvolvimento de sistemas, analista de suporte computacional, analista de redes e comunicação de dados, administra- dor de rede, administrador de sistemas, gerente de projetos em TI e administrador de banco de dados são as mais procuradas no Brasil na área de TI (BRASSCOM, 2014). O mercado relacionado a profissionais de tecnologia continua em alta. A pandemia não afetou em nada esse nicho, que continua crescen- do, não faltando vagas para profissionais especializados. Com a falta de mão de obra especializada dentro desse setor e as estimativas de 250 mil vagas não preenchidas, uma oportunidade de se destacar é aberta. Ao pessoal da área, fica o aviso de zelar pelas habilidades compor- tamentais e de atuar, proativamente, em grupos de trabalho, tentando agregar maior valor para a função que exercem, bem como para a área, os negócios e a instituição; fora isso, ainda se manter atualizado quan- to aos avanços tecnológicos, diz Fernando Mantovani (GUIA..., 2019), diretor-geral da Robert Half. • Características dos talentos de TI em 2020: De acordo com a Robert Half (GUIA..., 2019), em 2020 as empre- sas irão procurar talentos proativos e independentes. O profissional de TI atual anseia pela conexão com as mais atuais fontes de tecnologia, sendo motivado devido às metas do negócio, podendo recusar cargos, apesar do salário, caso se utilizem de linguagens antigas. Mercado de TI 91 A empresa salienta, em seu guia salarial anual, algumas competên- cias que estão em alta, como: segundo idioma fluente, principalmente o inglês; rapidez e agilidade; bons resultados rapidamente; proativida- de saber se comunicar; e capacidade de atualização rápida. Salários em TI Os indivíduos que trabalham com big data/analytics devem conti- nuar a ter o salário mais alto na área de tecnologia. Já aqueles que têm menos experiência no patamar de especialista podem começar com um valor de R$ 13.100,00, podendo chegar a R$ 26.700,00. Além disso, analistas júnior iniciam com um salário, em média, de R$ 3.850,00, que também pode aumentar até R$ 7.850,00. Com relação aos desenvolvedores, inicialmente o salário seria de R$ 3.100,00, podendo chegar a R$ 6.300,00. Já os desenvolvedores Full-Stack Sênior (aqueles que entendem de todo o caráter do desen- volvimento) chegarão a ganhar R$ 16.500,00 em 2020. Quadro 1 Salários dos cargos de TI CARGO (JOB TITLE) 25º 50º 75º 95º Desenvolvimento Development Desenvolvedor Mobile Sênior Senior Mobile Applications Developer 7.700 10.000 12.950 15.750 Desenvolvedor Mobile Pleno Mobile Applications Developer 4.650 6.000 7.750 9.450 Desenvolvedor Mobile Júnior Junior Mobile Applications Developer 3.100 4.000 5.150 6.300 Desenvolvedor Front-End Sênior Senior Front-End Web Developer 7.750 10.000 12.950 15.750 Desenvolvedor Front-End Pleno Front-End Web Developer 4.650 6.000 7.750 9.450 Desenvolvedor Front-End Júnior Junior Front-End Web Developer 3.100 4.000 5.150 6.300 Desenvolvedor Full-Stack Sênior Senior Full-Stack Developer 8.100 10.500 13.550 16.500 Desenvolvedor Full-Stack Pleno Full-Stack Developer 5.000 6.500 8.400 10.200 Desenvolvedor Full-Stack Júnior Junior Full-Stack Developer 3.100 4.000 5.150 6.300 (Continua) 92 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Desenvolvi- mento Development Desenvolvedor Back-End Sênior Senior Back-End Developer 7.750 10.000 12.950 15.720 Desenvolvedor Back-End Pleno Back-End Developer 4.650 6.000 7.750 9.432 Desenvolvedor Back-End Júnior Junior Back-End Developer 3.100 4.000 5.150 6.288 Dono de Produto Product Owner (PO) 7.750 10.000 12.950 15.720Gerente de Produto Product Manager (PM) 12.350 16.000 20.650 25.152 Scrum Master 7.750 10.000 12.950 15.720 Fonte: Guia..., 2019. A seguir, detalhamos algumas dessas vagas, relacionando-as aos conhecimentos e competências necessárias para preenchê-las. Analista de desenvolvimento de sistemas Profissional responsável por desenvolver, implantar e manter apli- cações informatizadas, seguindo a metodologia e as técnicas adequa- das, com o objetivo de chegar aos objetivos estabelecidos pelo cliente. Competências necessárias: • pensar e instalar bancos de dados para sistemas de informação; • entender os atributos dos sistemas de informação que operam no meio das instituições; • examinar, analisar, efetuar e fazer valer sistemas de informação para as instituições; • construir algoritmos com exemplos de qualidade e executá-los em linguagens de programação; • entender os princípios da programação procedural e orientada a objetos; • moldar sistemas de informação, com a utilização de Unified Modeling Language (UML). Administrador de banco de dados Pessoa encarregada de comandar, configurar e monitorar um modo que gerencie banco de dados. Mercado de TI 93 Competências necessárias: • saber operar a linguagem estruturada, isto é, Structure Query Language (SQL); • entender sobre estrutura de banco de dados em modelo entidade relacional (MER); • conhecer sobre arquitetura de computadores e como funcionam os sistemas operacionais; • dominar SGBDs, como Microsoft SQL Server, PostgreSQL, MySQL, Oracle database e DB2. Administrador de rede O profissional deve ser responsável por planejar e manter uma rede de computadores em funcionamento, atuando como gerente da rede local, assim como dos meios computacionais relacionados a essa infraestrutura. Competências necessárias: • colocar e fazer a manutenção da rede local, bem como de todos os equipamentos relacionados a ela (roteadores, switches, má- quinas gateway, firewalls e proxies); • ter profundo conhecimento em redes e sistemas operacionais; • guiar e/ou ajudar os administradores das sub-redes na instala- ção/ampliação da sub-rede e manter funcionando a rede local; • controlar e supervisionar a atuação da rede local e de sub-redes, bem como do maquinário e dos sistemas operacionais instalados; • impulsionar a utilização de conexão segura entre as pessoas do seu domínio. Programador de sistemas Pessoa encarregada de escrever o software concebido pelo analista de desenvolvimento de sistemas. Competências necessárias: • montar algoritmos com padrões de qualidade e implantá-los em linguagens de programação; • entender os fundamentos da programação procedural e guiada a objetos; 94 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável • compreender arquiteturas de sistemas de informação, documen- tados segundo a UML, assim como MER; • ter conhecimentos profundos em uma linguagem de programa- ção como C, C++, C#, Java, entre outras; • possuir bons conhecimentos em SQL. Programador de sistemas web Pessoa capacitada para escrever o software concebido pelo analista de desenvolvimento de sistemas para a web. Competências necessárias: • ser bom comunicador, orador e articulador político; • criar algoritmos com padrões de qualidade e instalá-los; • entender os fundamentos da programação procedural e orienta- da a objetos; • compreender arquiteturas de sistemas de informação, documen- tados segundo a UML, bem como MER; • ter conhecimentos profundos em uma linguagem de programa- ção como C#, ASP.NET, ASP, PHP, Java, JSP, Python, entre outras; • possuir bons conhecimentos em SQL; • conhecer profundamente as tecnologias específicas para a internet, como HTML, CSS e JavaScript, e frameworks, como jQuery. Gerente de projetos Pessoa capacitada para planejar e supervisionar a execução de pro- jetos, para que sejam entregues de acordo com o prazo, o tempo e as especificações estipulados. Competências necessárias: • ter perfil de liderança; • ser negociador e saber resolver conflitos; • possuir profundos conhecimentos em boas práticas de gerencia- mento de projeto (PMBOK); • conhecer metodologias ágeis e frameworks de gerência de projetos (scrum). Mercado de TI 95 Tendências do mercado de TI O meio profissional de tecnologia é, sem dúvida, o mais dinâmico que existe. Tecnologias que estavam no topo do mercado dez anos atrás (podemos citar, aqui, a linguagem de programação Delphi), hoje, são consideradas ultrapassadas e desatualizadas. Quais são as tecnologias de ponta para daqui três a cinco anos? E daqui dez anos? Pesquisas sobre tendências podem ajudar a indicar para onde esse mercado está rumando. De acordo com análises feitas pela Gartner Group (CEARLY, 2014), em fevereiro de 2014, estas são as dez tecnologias estratégicas que mais impac- tarão a vida de pessoas, organizações e empresas de TI nos próximos anos: Figura 1 QR Code A Internet das Coisas Fruto de um trabalho realizado no Massachusetts Institute of Technology (MIT), a Internet das Coisas se refere a objetos singular- mente identificáveis e suas representações virtuais em uma estru- tura na internet. Os objetos podem receber identificadores únicos por radiofrequência (RFID), e estes serão localizados por meio de um equipamento que expõe e recebe radiofrequência. Hoje, o conceito de marcação das coisas expandiu e pode ser alcançado por tecnologias, como Near Field Communication, códi- gos de barras, QR Codes (Figura 1) e marcas d’água digital. Já exis- tem geladeiras inteligentes nos EUA com essa tecnologia, capazes de fazer seu inventário em tempo real, e, pela internet, efetuar a compra dos produtos que estão faltando. Previsões indicam que te- remos 26 bilhões de objetos marcados e identificáveis por Internet das Coisas até 2020. Produtos e, sobretudo, serviços que usam essa tecnologia poderão exceder 300 bilhões de dólares no período. Fonte: Beaver, 2013. 96 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Máquinas inteligentes É preciso analisar atentamente a premissa, a ameaça e os efeitos das máquinas inteligentes sobre os padrões de trabalho (colaboração homem-máquina), as mu- danças de pessoal e as oportunidades de negócios da empresa (Figura 2). Fonte: Beaver, 2013. Figura 2 Máquina de produção em grande escala Impressoras 3D Impressoras 3D estão transformando organizações, indústrias e mercados. Faz-se necessário, portanto, aprender como aplicar as tendências de impressão 3D e como essas mudarão o modo de fazer negócios (Figura 3). Fonte: Beaver, 2013. Figura 3 Impressora 3D A era do Cloud pessoal A necessidade de mobilidade criou uma tendência de mercado importante: as informações do usuário preci- sam estar disponíveis em qualquer dispositivo, seja seu computador, smart tv, smartphone ou tablets. Cada vez mais, serviços como Google Drive, Microsoft One Drive, Dropbox, Ubuntu One e iCloud se tornam essenciais aos seus usuários. A importância do Cloud pessoal cresceu, e as em- presas precisam se flexibilizar e responder com novas técnicas, ferramentas e políticas de segurança, gerando oportunidades de mercado àqueles que quiserem resol- ver essas questões (Figura 4). Fonte: Beaver, 2013. Figura 4 Cloud pessoal Mercado de TI 97 Tudo é definido pelo software A virtualização de servidores é uma tecnologia que estabeleceu o conceito de que tudo é definido pelo software. Refere-se a uma tecnologia mega moderna, já que as quatro tendências (sociais, móvel, Cloud e in- formação em larga escala) impulsionam a demanda por uma infraestrutura programável, que automatiza o cen- tro de dados e demanda uma hiperescala (Figura 5). Fonte: Beaver, 2013. Figura 5 Virtualização de servidores Diversidade de dispositivos móveis e seu gerenciamento As pessoas que trabalham em TI devem aprender a lidar e garantir um grande número de possibilidades de acesso móvel de diferentes fabricantes e modelos (Figura 6). Além disso, as empresas estão atentasaos wearable devices – dispositivos eletrônicos inteligentes, que são parte do vestuário de seu usuário. Liderados por empresas como Google e Samsung, muitos fabricantes estão criando produtos como esses, aplicando-lhes conceitos, como o da Internet das Coisas. Fonte: Beaver, 2013. Figura 6 Diversidade de dispositivos móveis Aplicações para celulares A criação de aplicações para celulares é tida como uma maneira de agregar valor ao consumidor, resultan- do em fortalecimento da marca e, até mesmo, venda de produtos (Figura 7). A tendência é que os e-commerces concentrados em websites migrem para aplicações para celular, criando uma experiência de compra mais valiosa e enriquecedora. Fonte: Beaver, 2013. Figura 7 Aplicações para celulares 98 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável TI eeb escalável Figura 8 Infraestrutura em Cloud Empresas que possuem uma infraestrutura em Cloud tão gigantesca como Google, Amazon, Rackspace, Netflix e Facebook, que lhes permite atingir níveis de resposta de requisição e qualidade tão distantes dos concorrentes, têm o que chamamos de infraestrutura de TI web escalável. Seis elementos fazem parte dessa receita: data centers industriais; arquiteturas orientadas à web; ge- renciamento programável; processos ágeis; organização colaborativa; e cultura de aprendizado (Figura 8).Fonte: Beaver, 2013. Arquiteturas cliente e servidor em Cloud Fonte: Beaver, 2013. Cloud híbrido Figura 9 Cloud híbrido Considerado o renascimento da antiga arquitetu- ra cliente-servidor, as grandes empresas estão cada vez mais focadas no seguinte modelo: utilizar os smartphones e tablets, cada dia mais poderosos e com melhor conectividade com a rede, como clientes de apli- cações hospedadas em servidores, em um ambiente de Cloud Computing, criando experiências melhores e dife- renciadas para seus usuários, bem como uma possibili- dade de atualizações rápidas para as empresas. As soluções que associam a infraestrutura própria da empresa com a infraestrutura de um serviço externo con- tratado (Cloud pública, como a Amazon), combinando-as como uma única estrutura, são chamadas de Cloud híbri- do. Essa tendência deve ser observada, pois profissionais e softwares de gerenciamento que saibam lidar com esse ambiente serão necessários (Figura 9). Fonte: Beaver, 2013. Mercado de TI 99 5.2 Tendências futuras Vídeo O profissional de TI deve priorizar o comportamento, a experiência e a privacidade das pessoas, a fim de capacitar clientes e colaborado- res. Assim, precisa criar uma estratégia digital com prioridade, sendo independente de local que utilize a malha de segurança cibernética, com uma estrutura de nuvem distribuída, de modo a facilitar as opera- ções em qualquer lugar. Dessa forma, o profissional dessa área tem que se responsabilizar para que a organização gire rapidamente, com componentes modula- res, ajustáveis e autônomos, que são sustentados pela engenharia de IA e Hiperautomação. Mudanças na era digital são comuns, mas poucos poderiam ter pre- visto as que 2020 trouxe. Como CIO e líder de TI, o profissional deve criar o futuro para sua organização nesses tempos sem procedência. No âmbito da pandemia de Covid-19, foram notadas algumas coisas novas. As mais importantes tendências e propensões estratégicas da Gartner para 2021, selecionadas pelos potenciais transformadores, se enquadram em três temas, são eles: centralização nas pessoas, inde- pendência de localização e entrega resiliente (PANETTA, 2021). Nesse sentido, no momento em que colaboradores de uma indústria retornaram ao local de trabalho, após terem permanecido fechados du- rante a quarentena, foram designados a verificar e determinar que todos os funcionários lavassem sempre as mãos. Dentro desse sistema, a visão computacional informa se os colaboradores cumpriam os protocolos, principalmente quanto ao uso de máscaras; além disso, havia um alerta para as pessoas sobre o não cumprimento dos protocolos de segurança. Somando tudo isso, essas informações comportamentais são recolhi- das e estudadas pelas organizações, para que estas possam intervir em como as pessoas devem se comportar no meio corporativo atualmente. A captação e utilização desses dados para orientar e observar com- portamentos são denominados de Internet of Behavior (IoB). À medida que as empresas melhoram não somente a parcela de informações que obtêm, mas também o modo como combinam esses dados de di- ferentes lugares, a IoB continua a intervir na forma como essas empre- sas se relacionam com todos. Uma das nove tendências de tecnologia do Gartner é a IoB, com relação a como usar os dados para mudar com- 100 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável portamentos. Os desafios econômicos de 2020 e 2021 requerem um jogo de cintura organizacional para reescrever e compor o futuro, disse Brian Burke, vice-presidente de pesquisa, durante o virtual Gartner IT Symposium/Xpo 2020 (PANETTA, 2021). Logo, os fatos que compõem as novas tendências pós-Covid-19 são: 1. Foco nas pessoas: a pandemia pode ter modificado o quadro de funcionários das empresas, mas, mesmo assim, algumas pessoas permanecem com os negócios centralizados e precisam de processos digitalizados para atuar no ambiente de hoje. 2. Localização independente: a situação de Covid-19 alterou o quadro no qual as pessoas, como fornecedores, clientes e instituições, existem fisicamente. A independência de localidade modifica o cenário tecnológico que rege essa nova forma de negócios. 3. Entrega resiliente: em qualquer momento difícil de uma sociedade, como pandemias ou crises econômicas, a variabilidade se encontra em todo o mundo. Desse modo, as instituições têm que se atualizar para se adaptar; assim, sobreviverão a qualquer intempérie. Nesse contexto, as tendências tecnológicas não ocorrem de manei- ra independente, e sim interligadas, sendo reforçadas umas com as ou- tras. Portanto, a inovação combinatória é uma questão que se estende a todas as tendências de TI. • Internet de comportamentos: De acordo com o que foi demonstrado pelo exemplo do monito- ramento de protocolo de Covid-19, a IoB também atua para modificar comportamentos. Por meio de novas tecnologias, podemos analisar o comportamento das pessoas, especialmente utilizando os ciclos de feedback. Podemos citar o exemplo de montadoras de veículos comer- ciais e telemática, que pode monitorar comportamentos de direção, fre- nagem repentina e curvas agressivas. As empresas podem utilizar esses dados a fim de aumentar a segurança e a performance de um motorista. A IoB se refere a questões éticas e sociais, que variam quanto aos propósitos e resultados dos usos individuais; além disso, consegue pesquisar, juntar e classificar informações de várias origens, inclusive as comerciais de clientela, os dados de pessoas processadas pelo âmbito Mercado de TI 101 público e pelos setores governamentais, as mídias sociais, além do uso de reconhecimento facial em domínio público e do rastreio de localida- de. Sendo assim, a tecnologia, cada vez mais desenvolvida, facilita o pro- cesso de dados e auxilia na evolução dessa tendência. Dessa forma, a IoB tem os mesmos dispositivos que os planos de saúde possuem para ter informações sobre atividades físicas realiza- das ou não por usuários ou, ainda, para observar a compra de artigos de alimentação e de alimentos que não fazem bem à saúde. As leis de privacidade, que variam de acordo com a localidade indicada, terão um grande impacto na adoção e escala da IoB. • Experiência total: A experiência total faz uma junção de vários tipos de experiências para modificar o resultado do negócio. O propósito é aperfeiçoar essa experiência total, que proporciona o cruzamento de várias coisas, ini- ciando na tecnologia e chegando nos colaboradores, usuários e clientes. Vincular todas essas experiências, em vez de melhorar individual- mente cada uma, diferencia o seu negócio da concorrência eé uma ma- neira custosa de copiar, trazendo um benefício competitivo saudável. Essa ação faz com que as organizações tirem proveito da nova situação, diante da atual pandemia, inclusive com relação a trabalho on-line e móvel, bem como a clientes virtuais e distribuídos. Podemos exemplificar com uma empresa de telecomunicações, que fez da experiência do consumidor uma maneira de melhorar a seguran- ça e garantir o bem-estar desse indivíduo. Inicialmente, foi implantado um sistema de escolha, por meio de um aplicativo já existente. A clien- tela que iniciou a interação chegava para o compromisso e permanecia a mais ou menos 25 metros da loja. Eles ganhavam duas coisas: 1) um aviso de orientação no momento do processo de check-in; e 2) um in- forme sobre o tempo que levaria para que entrassem na loja, com a maior segurança possível, de modo a promover o distanciamento. A instituição também alinhou seu trabalho para a criação de mais quiosques digitais e fez com que os colaboradores utilizassem seus tablets particulares para co-navegar pelos dispositivos dos clientes, sem precisar encostar fisicamente no hardware. Tudo isso resultou em uma ação mais segura, que integrou clientes e colaboradores. 102 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável • Nuvem distribuída: Nuvem distribuída é a forma de se distribuir a possibilidade de uso de nuvem em diferentes locais, mantendo a supervisão de toda a ope- ração ao provedor de nuvem pública. Deixar que instituições ofereçam esse tipo de serviço fisicamente ajuda muito em algumas localidades, diminuindo gastos e custos de dados e havendo, ainda, uma acomodação das leis que regem os da- dos de uma determinada região geográfica. No entanto, significa que as empresas continuam utilizando a nuvem pública, agindo, assim, em benefício próprio, de modo a não gerenciar sua nuvem particular, o que pode ter um custo alto. A nuvem distribuída é o futuro da nuvem. • Operações em qualquer lugar: O modo de operar em qualquer lugar será essencial para as empre- sas aparecerem e se superarem, ultrapassando o momento de Covid-19 com sucesso. Em seu íntimo, esse modelo operacional proporciona que os negócios sejam acessados, executados e habilitados em qualquer lu- gar que a clientela possa acessar e que empregadores e parceiros de negócios possam, em ambientes fisicamente remotos, operar. A maneira que proporciona operar em vários lugares é a denomi- nada digital primeiro, remoto primeiro, como em bancos que utilizam somente dispositivos móveis e, ao mesmo tempo, trabalham com um pouco de tudo, desde a transferência de fundos até a abertura de con- tas, sem necessidade de presença física. O normal do dia a dia deve se tornar digital a todo momento. Isso não significa que o espaço físico suma e não exista mais, e sim que deva existir um aprimoramento digital. Podemos exemplificar com um checkout em uma loja física, que independe de seus meios físicos ou digitais, mas deve ser entregue perfeitamente. • Malha de segurança cibernética: A malha de segurança cibernética é uma perspectiva arquitetônica, atribuída como domínio de segurança cibernética escalável, flexível e confiável. Muitas coisas acontecem longe do âmbito de segurança nor- mal. Assim, a malha de segurança cibernética permite, essencialmen- te, que o raio de segurança fique estabelecido ao redor da identidade de uma pessoa ou coisa. Dessa maneira, há uma forma mais modular de abordagem de segurança responsiva e centralizada e a organização Mercado de TI 103 de políticas distribuídas. Conforme a proteção do perímetro se torna menor e menos significativa, a conduta referente à segurança de um ecossistema fechado pode evoluir e melhorar, com relação às necessi- dades modernas. • Negócio inteligente combinável: Uma transação inteligente composta é aquela que tem como se ajustar e, principalmente, se organizar com base na atualidade. À me- dida que as empresas se apressam a um plano de negócios digitais, o qual possa alavancar uma transformação digital com rapidez, elas necessitam ser ágeis e ter tomadas de decisões rápidas, baseadas nos dados atuais existentes. Para que tudo isso seja bem-sucedido, as empresas podem garantir uma forma mais aperfeiçoada de acessar às informações, aumentar as informações, de modo que a visão melhore, e aprimorar a condição de responder rapidamente às situações dessa visão. Dessa maneira, há mais autonomia e uma redistribuição mais democrática na empresa, garantindo que partes das organizações reajam rapidamente, em vez de permanecerem em situações ruins. • Engenharia de IA: Uma tática forte de engenharia de IA contribui para um melhor de- sempenho, uma forma de interpretar e a confiança dos modos de IA, enquanto oferece o valor total dos investimentos em IA. Os projetos de IA, normalmente, encontram adversidades de manutenção, escala- bilidade e governança, o que faz com que o desafio seja grande nas empresas e instituições. O futuro da TI e a ética Cada vez mais os profissionais de TI deverão trabalhar em prol da segurança de dados. A área de cyber security é muito promissora, pois, a cada dia, as pessoas têm seus dados vazados na internet. Os entraves éticos devem ser considerados, tentando resolver e aju- dar a vida das pessoas, e não ser um problema para elas. Além disso, a ética referente à tecnologia deve, constantemente, estar mais presente em todos os aspectos. Nesse contexto, vamos citar alguns exemplos que se referem a dile- mas éticos que poderão surgir no futuro. 104 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável • Problemas éticos devem atrasar a divulgação de carro autômato: Validar um carro sem motorista, que tem o intuito de salvar vidas de pedestres ou de beneficiar, com maior segurança, os passagei- ros que nele estarão, é uma discussão que pode atrasar a chegada desses veículos, revela uma pesquisa publicada pela revista científica americana Science (BONNEFON; SHARIFF; RAHWAN, 2016). Esse tipo de carro, que já está sendo testado há um bom tempo, não está livre de diversos dilemas morais, principalmente o modelo criado pelo Google. Os responsáveis por esses testes dizem que, se utilizado genericamente, esse tipo de veículo autônomo pode acabar com até 90% dos acidentes de trânsito provocados pelos humanos. Achar o caminho de fazer equipamentos eticamente autônomos tal- vez seja o maior desafio relacionado à IA na atualidade, mostra o estu- do. A pesquisa está baseada em questões fincadas em um pilar de seis enquetes realizadas pela internet, no período de junho a novembro de 2015, com 1.928 pessoas nos EUA. As verificações mostraram, por um aspecto, que o público é, normal- mente, favorável aos carros autônomos que diminuem a quantidade de óbitos e de lesões em ocasiões de muito periculosidade. Isso significa que o programa de informação, que faz o veículo funcionar, teria a opção de “trombar” em um muro ou uma árvore, colocando os passa- geiros em perigo, para não atropelar um grupo de pessoas transeun- tes. Dessa maneira, 76% dos indivíduos indagados acreditam que essa situação é moralmente mais apropriada para esses automóveis, dentro de várias situações circunstanciais. Essa pesquisa, por sua conta, mostrou a má vontade dos abordados no momento de adquirir carros autônomos programados para salva- guardar os transeuntes em função dos passageiros. Ao serem ques- tionados se era eticamente viável viajar com os familiares em um automóvel cujo programa de informação espera sacrificar os passa- geiros do veículo, a fim de salvaguardar a segurança de um grupo de transeuntes, as respostas afirmativas caíram 1/3. A grande maioria de pessoas abordadas se declarou abertamente hostil à questão de se ter uma normatização sobre veículos autômatos, que faça com que a programação preserve a segurança de transeuntes em vez da dos passageiros. Mercado de TI 105 Apenas 1/3 dos indivíduos consultados disse que provavelmente compraria um carro desses, aocontrário de uma maioria, que simpati- za com a opção de um carro autônomo que possa ter sua programação alinhada com seu desejo. Várias pessoas consideram os carros como muito seguros, com um menor número de mortos e feridos, afirmou Iyad Rahwan, professor-adjunto do Massachusetts Institute of Technology (MIT), um dos coautores do estudo (BONNEFON; SHARIFF; RAHWAN, 2016). Da mesma forma, muitos desejam que seu próprio carro os proteja a todo custo; acrescenta-se que, consequentemente, isso gera um di- lema social, por meio do qual é criado um panorama mais inseguro para todos, com cada um trabalhando conforme seu interesse pes- soal. Esse é um dos fatos sobre o qual as instituições que fabricam carros e os governantes deveriam pensar e discutir, disseram os pes- quisadores – entre eles, Jean-François Bonnefon, da School of Econo- mics, em Toulouse. A questão é mais filosófica do que técnica. Anterior ao processo de programar valores morais nas máquinas, podemos tentar entendê-los e fazer com que se tornem coerentes com as verdades e reflexões refe- rentes aos pensamentos morais do século 21, escreveu Joshua Greene (2016), psicólogo da Universidade de Harvard, em Massachusetts, em um editorial que mostra o estudo na Science. Azim Shariff, professor de psicologia da Universidade de Oregon e um dos coautores do trabalho, afirma que existem muitos benefícios ao se utilizar carros autômatos (BONNEFON; SHARIFF; RAHWAN, 2016). Hoje em dia, os veículos automotivos não são práticos. Além do mais, são caros, situando-se muito longe do alcance de pessoas idosas e de pessoas com deficiência, além de serem desconfortáveis, com re- lação ao tamanho, fazendo com que utilizemos enormes espaços urba- nos para estacionarmos. O pesquisador destaca, ainda, que os acidentes de automóvel nos EUA causaram mais de 40 mil mortos e 4,5 milhões de feridos graves em 2015, tendo um custo de quase um bilhão de dólares. Portanto, isso é um bom exemplo da relação cada vez mais presen- te entre ética e tecnologia. É preciso, então, sempre ter em mente se aquilo que eu quero é aquilo que eu devo ou aquilo que eu posso. 106 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável • Código de Ética dos Profissionais de TI: O Código de Ética é um documento que visa trazer à tona a visão, a missão e os valores da empresa. É a maneira de declarar, formalmente, a expectativa de uma organização. Ainda, tem como objetivo dar rumo às ações de seus funcionários e deixar claro o pensamento da empresa para os diferentes públicos com os quais trabalha e interage. Sendo assim, é um documento feito para dar parâmetro ao com- portamento das pessoas que atuam na empresa, tornando visíveis as responsabilidades de cada colaborador; porém, pode sofrer ações disciplinares, caso haja violação de algum de seus artigos. Cada organização deve saber o que é necessário realizar ou o que espera de cada colaborador para atuar no mercado de maneira ética. Por essa razão, o Código de Ética deve ser construído pela própria em- presa, a fim de que exponha o pensamento dela. No Brasil, não existe um Código de Ética específico para os cola- boradores de TI, havendo apenas um Projeto de Lei (de 27 de abril de 2016) em trâmite no Congresso Nacional, que apoia a criação de um Conselho Nacional, responsável pela elaboração de um Código de Ética destinado a essa área. Dessa forma, compete a cada organização desenvolver uma política interna que abranja o comportamento dos colaboradores e seja pauta- da na sua visão, missão e valores, cabendo-lhe, também, a verificação do cumprimento dessas normas. A Sociedade Brasileira de Computação (SBC) fez um pequeno Código de Conduta, mais conhecido como Os Dez Mandamentos para Ética na informática, que pode ser consultado. Nele, fala-se sobre a responsabilidade social, devendo os profissionais de TI incluir os seto- res da sociedade, ter continuidade de estudos para não comprometer a atualização e os avanços na profissão, ter ética quanto ao sigilo de informações etc. A ética em Black Mirror Black Mirror é um seriado de ficção científica da televisão britâni- ca, criado por Charlie Brooker, que mostra a influência impactante da tecnologia no cotidiano das pessoas, com foco principal nas redes so- ciais. A série é pautada em temas sombrios e satíricos, que expõem a Mercado de TI 107 sociedade moderna, principalmente no que diz respeito às consequên- cias nem sempre esperadas do uso das novas tecnologias. O fio con- dutor de todos os episódios é o uso da informação que circula entre as pessoas, sobretudo por meio da internet. Assim, todo capítulo apresenta uma história completa, com perso- nagens diferentes, abordando algum aspecto da tecnologia moderna de maneira exagerada, nos levando a refletir sobre a forma como utili- zamos computadores, celulares, tablets e outros dispositivos. Em cada um deles, deparamo-nos com atitudes desprezíveis do ser humano, que são evidenciadas pela tecnologia. Há muitos aspectos interessantes na série, mas nosso foco é anali- sar as várias questões éticas que aparecem ao longo dos episódios, por exemplo, o uso excessivo da tecnologia, como ela afeta nossas vidas e até que ponto somos dependentes dela. Os enredos de cada episódio expõem o quanto a vida pode ser arti- ficialmente formatada por meio das redes virtuais. A essência dos pro- blemas exibidos nos faz refletir para onde nosso modo de vida pode nos levar no futuro. Dessa forma, Black Mirror traz a tecnologia como uma coisa que pode ser usada para o bem ou para o mal, visto que al- gumas pessoas abusam desse instrumento e acabam terminando com resultados nada bons. Já há algum tempo, estamos conectados 24 horas por dia, quase eliminando a barreira entre o real e o virtual. Temos um desejo des- controlado de entretenimento, a necessidade de contar a todos tudo o que estamos sentindo e, também, uma grande curiosidade sobre a vida alheia. Esses comportamentos existem desde sempre, mas a tecnolo- gia nos ajudou a extrapolá-los. Além de tudo o que traz à tona, a série fala sobre como a tecnologia pode modificar a estrutura da sociedade em que vivemos, acreditando que as maiores reflexões são sobre o que o ser humano é capaz de fazer se tiver oportunidade. Logo, ficam os questionamentos: não perdemos o limite quando ficamos muito dependentes de algo? Será que enaltecemos tanto a tecnologia, a ponto de ela ser prejudicial para nós e para os outros? As máquinas corrompem o ser humano ou são os humanos que as utilizam para finalidades maléficas? 108 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Em seguida, trazemos algumas sugestões de episódios. • White bear (urso branco): Uma moça desperta sem saber quem é ou onde está. Depois disso, pessoas estranhas começam a persegui-la para matá-la. Levada pelo instinto, ela corre e pede socorro, mas todos que ela encontra se recu- sam a ajudá-la e começam a gravar a perseguição com o celular. Logo no início, há uma reflexão: será que estamos deixando de olhar a vida com os nossos olhos, para enxergar o mundo pela tela do celular? • Fifteen million merits (quinze milhões de méritos): Em um mundo alternativo, as pessoas participam de um programa de televisão, em que precisam pedalar o dia inteiro. As pedaladas ren- dem uma moeda virtual, que eles podem utilizar para comprar comida, diversão e acessórios virtuais. Esse episódio critica a cultura dos reality shows e mostra como dei- xamos de viver a nossa vida para viver a de outra pessoa, que conhece- mos apenas por meio de uma tela. • Nosedive (perdedor): Atenção, contém spoiler. O episódio mostra uma sátira notável à sociedade atual. O reflexo retratado é o da aceitação e exclusão social, que resulta em um mundo de aparências, sendo um retrato de como as pessoas se comportam nas redes sociais. Dessa forma, o comportamento humano é de fato deturpado e su- perficial em todas as redes que usamos. A impressão que passamos é, na maioria das vezes, distanteda realidade. Vivemos aprovando com- portamentos nas redes sociais e esperando receber uma aprovação de volta, por meio de likes e comentários. Criamos, com isso, um mundo irreal, impossível de competir com a vida real. Estamos constantemente manipulando a imagem que as pessoas têm de nós, mas devemos refletir sobre as implicações que esse comportamento pode ter. Mercado de TI 109 Recentemente, Zilla van den Born, uma designer gráfica holandesa de 25 anos, queria provar que nem tudo o que vemos no Facebook é verdadeiro e que a realidade pode ser distorcida. Por 42 dias, ficou sozi- nha em sua casa, montou cenários e usou as melhores ferramentas do Photoshop para criar imagens de férias no Sudeste da Ásia. Tudo ficou tão convincente que conseguiu enganar sua família e amigos, fazendo-os acreditar que ela tinha realmente viajado. Seu objetivo foi expor à socie- dade e às pessoas que podemos manipular o que postamos. Assim, no contexto da série, são as opiniões das outras pessoas a nosso respeito que irão determinar se somos bem-sucedidos e felizes ou fracassados e excluídos da sociedade. Logo, é um seriado que vale a pena ser visto, principalmente para se fazer uma reflexão sobre o quanto a tecnologia pode ser benéfica e qual o limite para utilizá-la eticamente e positivamente. No livro Empresa, mercado e tecnologia, há uma análise sobre o mercado de trabalho na área de TI, as posturas e as atitudes nas empresas e a análise dessas posturas. FRAZÃO, A.; CARVALHO, A. G. P. de. São Paulo: Fórum, 2019. Livro CONCLUSÃO A área de TI é extremamente promissora e gera muitos empregos a cada dia. A era pós-Covid-19 será ainda mais favorável a esse ramo, e vá- rias novas colocações aparecerão. Além disso, a ética deve estar presente no dia a dia de todos e, princi- palmente, na vida profissional das pessoas que atuam em TI. É fundamen- tal que a tecnologia seja utilizada para o bem, ajudando as pessoas em todas as áreas, como na saúde, no agronegócio, na educação, enfim, em tudo o que for possível. ATIVIDADES Atividade 1 A TI está presente em quais áreas de atuação nas empresas? Atividade 2 Quais são as características que as empresas estão procurando nos profissionais de TI? 110 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável REFERÊNCIAS BEAVER, S. How do you define a hybrid cloud. Virtualization Practice, 2013. BONNEFON, J-F.; SHARIFF, A.; RAHWAN, I. The social dilemma of autonomous vehicles. Science, v. 352, n. 6.293, 24 jun. 2016. BRASSCOM. Brasil acredita que a TI traz benefícios. Brasscom, 2014. BRASSCOM. Mercado brasileiro de Tecnologia da Informação cresce 11% e ultrapassa US$ 100 bilhões. Brasscom, 2012. CEARLY, D. The top 10 strategic technology trends for 2014. Gartner, 2014. Disponível em: http://www.gartner.com/technology/research/top-10-technology-trends/. Acesso em: 21 mar. 2014. FATECSP. CNE e cursos superiores de Tecnologia. 2014. GREENE, J. D. Our driverless dilemma. Science, v. 352, n. 6.293, 24 jun. 2016. GUIA Salarial da TI 2020: confira cargos e competências em alta. Itiforum, 4 nov. 2019. Disponível em: https://itforum.com.br/noticias/guia-salarial-da-ti-2020-confira-cargos- ecompetencias-em-alta/. Acesso em: 28 maio 2021. KOHN, S. Saiba quanto ganham os profissionais de TI pelo Brasil. Olhar Digital, 2013. LEITE, L. M. Tecnólogo x bacharel: tecnológico ou bacharelado? 2021. LOPEZ, J. The Nexus of Forces Scenario. 2013. MUNRO, D. Credit Suisse Says Wearable Tech ‘The Next Big Thing’. Forbes, 19 maio 2013. Disponível em: https://www.forbes.com/sites/danmunro/2013/05/19/credit-suisse-says- wearable-tech-the-next-big-thing/?sh=c5b849d732a2. Acesso em: 28 maio 2021. PANETTA, K. Top strategic technology trends for 2021. Gartner, 2021. Disponível em: https://www.gartner.com/smarterwithgartner/gartner-top-strategic-technology-trends- for-2021/. Acesso em: 28 maio 2021. RENNER, M. Ipea: TI é de longe a que mais abre vagas. Baguete, 27 jul. 2013. Disponível em: http://www.baguete.com.br/noticias/25/07/2013/ipea-ti-e-de-longe-a-que-mais-abre- vagas. Acesso em: 28 maio 2021. SOUZA, L. Déficit de profissionais de TI: 408 mil em 2020. Baguete, 17 out. 2013. Disponível em: https://www.baguete.com.br/noticias/17/10/2013/deficit-de-profissionais-de-ti-408- mil-em-2020. Acesso em: 28 maio 2021. http://www.gartner.com/technology/research/top-10-technology-trends/ https://itforum.com.br/noticias/guia-salarial-da-ti-2020-confira-cargos-ecompetencias-em-alta/ https://itforum.com.br/noticias/guia-salarial-da-ti-2020-confira-cargos-ecompetencias-em-alta/ https://www.forbes.com/sites/danmunro/2013/05/19/credit-suisse-says-wearable-tech-the-next-big-thing https://www.forbes.com/sites/danmunro/2013/05/19/credit-suisse-says-wearable-tech-the-next-big-thing https://www.gartner.com/smarterwithgartner/gartner-top-strategic-technology-trends-for-2021/ https://www.gartner.com/smarterwithgartner/gartner-top-strategic-technology-trends-for-2021/ http://www.baguete.com.br/noticias/25/07/2013/ipea-ti-e-de-longe-a-que-mais-abre-vagas http://www.baguete.com.br/noticias/25/07/2013/ipea-ti-e-de-longe-a-que-mais-abre-vagas https://www.baguete.com.br/noticias/17/10/2013/deficit-de-profissionais-de-ti-408-mil-em-2020 https://www.baguete.com.br/noticias/17/10/2013/deficit-de-profissionais-de-ti-408-mil-em-2020 resoluçÃo das atividades 111 RESOLUÇÃO DAS ATIVIDADES 1 Sustentabilidade 1. Sustentabilidade é um grande lema mundial atualmente. Com esse conceito, cite meios simples para adaptá-la no dia a dia atual. Opções simples, mas eficazes, para essa adaptação são: planejar as próprias compras para evitar desperdícios; prestar mais atenção no seu próprio lixo; e aderir à reciclagem. Além disso, podem ser feitas adaptações simples, com relação aos materiais usados para higiene e ao uso de descartáveis. 2. Quais maneiras de se obter energia são as mais viáveis para o planeta e como as pessoas podem utilizá-las? São as fontes de energias renováveis, a saber: solar, eólica, hidrelétrica, geotérmica e maremotriz. Seus meios de uso podem ser, por exemplo: • Utilizar energia solar nas casas, por meio de um investimento em placas solares que transformam a energia captada do sol em energia elétrica. • Usar a energia eólica, que ocorre pela captação dos ventos. Isso é possível em regiões de ventos abundantes, como no Nordeste. Assim, é feita a construção de moinhos de vento, que transformam essa energia em energia elétrica, por meio de grandes turbinas. • Aproveitar a energia hidrelétrica, que é captada pelos grandes volu- mes de água e, em seguida, transformada em energia elétrica. Essa é a maneira mais utilizada em nosso país para se obter energia. 2 TI sustentável e TI insustentável 1. Sabemos que a exposição ao lixo eletrônico causa sérios danos à nossa saúde devido aos elementos tóxicos contidos nele. Quais são os principais elementos, e os mais sérios danos causados por eles? Os principais elementos tóxicos são o mercúrio, chumbo, cádmio e berílio. Além disso, como danos à saúde podemos citar os problemas motores e sensitivos, as alterações genéticas, os tremores e o câncer de pulmão e de próstata. 112 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável 3 Diversidade e tecnologia 1. Explique como a falta de ética pode prejudicar as empresas hoje em dia. A falta de ética pode prejudicar as empresas hoje em dia, pois pode resultar na falta de credibilidade e de bons clientes, além de na má reputação dada a empresa, prejudicando seus lucros. 4 Sociedade da informação 1. No final dos anos 1990, a experiência americana de Sociedade da Informação já estava consolidada. Faça um breve relato de como isso ocorreu. O desenvolvimento do computador abriu uma nova era de gestão do conhecimento e desenvolvimento de inovações, a qual marca a década de 1920. Os projetos militares foram os principais fundamentos da indústria da computação nos anos 1940 e 1950, sendo os responsáveis pelo primeiro modelo de gestão de tecnologiano Paraná; Belo Monte, no Pará; São Luiz do Tapajós (Pará); Tucuruí, também no Pará; e Santo Antônio, em Rondônia. A geografia da Região Norte propicia um número maior de hidrelétricas, o que auxilia na melhora econômica da região. • Energia eólica: gerada pelos ventos. Anteriormente, era utilizada nos tradicionais moinhos de vento, com aplicações em moagem de cereais e elevação de água (por meio de um mecanismo chamado parafuso de arquimedes). Nos dias atuais, está presente nos gerado- res eólicos, moinhos modernos, cujas pás acionam uma turbina que tem como objetivo transformar essa energia em energia elétrica. • Energia solar: painéis que contêm células fotovoltaicas, trans- formando a energia luminosa em elétrica, ou sistemas de capta- ção do calor dos raios do sol, utilizando-os para aquecimento de água, por exemplo. Sustentabilidade 15 • Energia geotérmica: refere-se ao calor interno do planeta Ter- ra, que é aproveitado pelos furos, que podem variar de 100 me- tros até quilômetros de profundidade. Pode ser utilizada para aquecimento de água. Em casos raríssimos, os furos, chamados de vapor seco, podem ser descobertos, sendo sua pressão o su- ficiente para movimentar turbinas e, consequentemente, gerar eletricidade. • Energia maremotriz: geração de energia pela utilização da mo- vimentação das águas de oceanos, provocada pelas marés. Exis- tem centrais elétricas capazes de aproveitar desigualdades de cinco metros entre as marés alta e baixa. • Energia gerada por meio do hidrogênio: pesquisada por vários países ao redor do mundo, é considerada a energia renovável do futuro, assim que os obstáculos – como a sua separação (não é encontrado puro na natureza), armazenamento (para uso veicu- lar, por exemplo) e viabilidade econômica e energética – forem vencidos. Já as fontes de energia não renováveis são aquelas criadas na forma- ção do Sistema Solar ou que precisam de uma escala de tempo geológica para serem geradas, o que nos leva a concluir que ficarão indisponíveis quando todas as reservas forem esgotadas. Vejamos alguns exemplos: • Petróleo e seus derivados: mistura de hidrocarbonetos (molécu- las de carbono e hidrogênio), que se originam na decomposição de material orgânico, principalmente o plâncton (são microscó- picos e vivem nas águas), provocada pelas bactérias em lugares com pouco teor de oxigênio devido à ação de milhões de anos. Da destilação fracionada, temos subprodutos como: éter de pe- tróleo, benzina, nafta, gasolina, querosene, óleo diesel, óleos, lubrificantes, asfalto, piche, coque, parafina, vaselina e GLP (gás liquefeito de petróleo, conhecido como gás de cozinha, dos tradi- cionais botijões). • Carvão mineral: um misto de ingredientes orgânicos que se tor- naram fósseis com o decorrer dos milhões de anos. Algumas va- riações ocorrem de acordo com o tipo e o estágio dos elementos orgânicos, mostrando sua qualidade. • Gás natural: combustível fóssil encontrado em estruturas geoló- gicas sedimentares, expostas a altas temperaturas e à influência do tempo. Sua aplicabilidade inclui maçaricos, motores a explo- 16 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável são e alto-fornos, ou seja, é muito útil na produção industrial. En- tretanto, pode ser encontrado para uso doméstico em fogões e aquecimento de água, ou mesmo para uso veicular, como o Gás Natural Veicular (GNV), já que, quando queimado, produz uma grande quantidade de energia. • Fissão nuclear: energia liberada pela fissão de átomos em um rea- tor nuclear. Embora haja vários tipos de reatores, o mais comum é o PWR de átomos de urânio enriquecido (isótopo 235U), que se frag- mentam em pedaços menores, e estes, por sua vez, atingem outros núcleos. Essa reação em cadeia aquece a água pressurizada que, por meio da troca de calor, transfere a energia, aquecendo o ar de um sistema secundário, o qual é responsável por ligar uma turbina, fazendo com que se transforme em energia elétrica. Então, essa fis- são gera lixo radioativo, que precisa ser devidamente estocado. Matriz energética no Brasil e no mundo Do modelo estabelecido no século XIX, com o uso do carvão mineral como principal fonte de energia e a descoberta da destilação do pe- tróleo em derivados, no século XX, resultou-se uma matriz energética mundial, extremamente dependente de recursos não renováveis e po- luentes, que causam danos – como o efeito estufa – ao meio ambiente. O nosso planeta tem diversas opções de fontes de energia não re- nováveis, em uma matriz energética formada, principalmente, por car- vão, gás natural e petróleo, conforme apresenta a figura a seguir. Petróleo e derivados Gás natural Carvão mineral Outros Biomassa Nuclear 31,5% 22,8% 26,9% 2% 9,3% 4,9% Hidráulica 2,5% Figura 1 Matriz energética de fontes não renováveis Fonte: Adaptada de EPE, 2021. Sustentabilidade 17 As fontes renováveis correspondem a 13,8%, somadas à geração hi- dráulica em 2,5%, contra 31,5% de petróleo e 26,9% de carvão mineral, representando bem mais da metade da matriz mundial. Além de subprodutos poluentes que prejudicam o meio ambiente de diferentes maneiras, o fato de se fazer uso de fontes energéticas não renováveis traz um outro problema. Por possuírem reservas fini- tas, sua escassez resultaria em uma crise energética sem precedentes, que colocaria em risco o principal fator da sustentabilidade: a própria sobrevivência do ser humano. Logo, enquanto esforços em investimento e pesquisa têm sido fei- tos ao redor do mundo, visando tornar a matriz energética majorita- riamente renovável, o Brasil vem sendo observado por outras nações do mundo que têm interesses a esse respeito. Isso porque a matriz energética brasileira é diversa e quase predominantemente renovável. Ações por um mundo mais sustentável Muito pode ser feito com relação à sustentabilidade, em prol das ge- rações atuais e futuras – algumas em nível nacional e outras, ainda, po- dem vir de pequenas mudanças individuais. Entre estas, podemos citar: • É necessário frear a exploração econômica de pequenas e gran- des florestas e áreas verdes. • A população deve mudar a forma de consumir alimentos e passar a ingerir mais produtos orgânicos, fazendo com que a produção daqueles sem agrotóxico aumente, de modo a acarretar maior preservação ao meio ambiente e, consequentemente, melhor qualidade de vida a todos. • A exploração de recursos não renováveis deve ser controlada e fiscalizada com maior rigor. Assim, carvão mineral, derivados do petróleo e gás natural devem ser cada vez menos utilizados. • As pessoas devem consumir produtos de maneira mais consciente, ou seja, adquirir aqueles que gastem menos. Os eletrodomésti- cos, por exemplo, podem ser produzidos para gastar bem menos energia do que se gastava há dez anos atrás. Além disso, todos devem ficar de olho nos selos informativos dos produtos. • Fontes de energias renováveis, como a biomassa, devem ter o seu uso incentivado, desde que sua reposição seja garantida. 18 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Dessa forma, o plantio deve ser refeito em florestas e matas para que haja a renovação. • A água deve ser utilizada com mais consciência, tendo o seu con- sumo controlado. Nesse sentido, empresas, edifícios e casas po- dem utilizar, cada vez mais, água de reuso, sem desperdício. • É preciso despoluir rios já contaminados e evitar a poluição desde sempre. Toda a população deve ter acesso ao saneamento básico e as crianças à educação, para que contribuam com a preservação. • Maiores investimentos em fontes de energia limpas e renováveis devem ser realizados, como na eólica, geotérmica e hidráulica, diminuindo, com isso, a emissão de carbono. • Deve-se incentivar atitudes pessoais e empresariais para a reci- clagem de resíduos sólidos, pois é necessário diminuir o volume de lixo no solo. • É preciso conscientizar as pessoas para que reciclem ainda mais. Os condomínios de moradia estão aderindo cadada informação. 2. Qual é o papel das agendas na experiência europeia? A experiência europeia reforça o papel das agendas como sendo fundamental para a Sociedade da Informação; assim, foi desenvolvida como uma reação ao modelo americano. Diferentemente desse último, focado nas empresas, os europeus reforçam a importância de uma organização pública e de políticas públicas a ela associada, que formulem a agenda de maneira fácil e acessível. Já na década de 1970, mais precisamente em 1971, quatro supercomputadores localizados nas universidades americanas permitiam que cientistas trocassem informações, avançando no processo. Depois, os grandes laboratórios de pesquisas, ao disponibilizarem suas pesquisas e proporem parcerias com empresas e governos, consolidaram um ambiente de intercâmbio digital, fazendo com que a experiência americana se tornasse consolidada no final dos anos de 1990. resoluçÃo das atividades 113 5 Mercado de TI 1. A TI está presente em quais áreas de atuação nas empresas? A TI está em todas as áreas profissionais e dispõe de sistemas que suportam empreendimentos, os quais vão desde uma banca de jornal até uma mega indústria. Assim, há necessidades de todos os tamanhos, que precisam de sistemas que os suportem e controlem, bancos de dados armazenando informações de maneira rápida e segura e uma infraestrutura que distribua essas informações por diferentes meios e distâncias. 2. Quais são as características que as empresas estão procurando nos profissionais de TI? De acordo com a Robert Half, em 2020, as empresas irão procurar talentos proativos e independentes. O profissional de TI atual anseia pela conexão com as mais atuais fontes de tecnologia. CLA U D IA CH R IST CLAUDIA CHRIST LID ER A N ÇA , CID A D A N IA , ÉTICA E TECN O LO G IA SU STEN TÁV EL Fundação Biblioteca Nacional ISBN 978-65-5821-035-1 9 7 8 6 5 5 8 2 1 0 3 5 1 Código Logístico I000168 Página em branco Página em brancovez mais a lixei- ras seletivas, o que é possível, também, em casas e escritórios. • Torna-se necessário desenvolver a gestão das empresas, com o objetivo de reduzir o desperdício de matéria-prima. Para isso, pode-se supervisionar a necessidade de uso de papéis e outros materiais de escritório. • Empresas e pessoas físicas devem saber o lugar adequado para o descarte de produtos eletrônicos, pilhas e óleo de cozinha. • Plásticos e embalagens devem, cada vez mais, ser substituídos por materiais biodegradáveis. A busca pela sustentabilidade é uma das modificações do mundo corporativo dos últimos tempos. Porém, o consumidor dos anos 2000 é mais consciente e engajado a enxergar como as empresas estão traba- lhando as questões ambientais. Podemos dizer, então, que o consumo e a aquisição de produtos estão totalmente ligados à impressão que as pessoas têm sobre como as instituições lidam com o meio ambiente e as suas futuras consequências negativas. Assim, todas essas questões fizeram com que a gestão de negócios se modificasse. O perfil das gestões deve estar encaixado nos novos pa- râmetros estratégicos, a fim de modificar o comportamento de colabo- radores com relação ao uso da energia elétrica e do consumo de água. Sustentabilidade 19 Fora isso, há métodos que estimulam os profissionais a economiza- rem papel, utilizando menos documentos impressos. Em uma escola, por exemplo, não há mais necessidade de se enviar comunicados im- pressos para a casa dos alunos, sendo disponibilizados comunicados digitais, no portal on-line, para os pais acessarem a qualquer momento. Portanto, basta haver uma reeducação, uma mudança de hábito. Além disso, nas empresas, os memorandos já não existem mais. Com isso, os e-mails e as redes sociais se transformaram em um meio de comunicação e informação. Ou seja, as instituições se tornaram agentes de modificações e inovações, incentivando novas práticas, que tornam a economia mais eco-friendly. Dessa forma, os negócios necessitaram de atitudes mais sustentáveis e a tecnologia precisou se adaptar a isso. Essa tendência de se tornar mais sustentável e preservar o meio ambiente é chamada de TI Verde, que é uma maneira diferente de se enxergar o ramo de TI e os aparatos tecnológicos. As empresas que estão investindo na TI Verde procuram buscar um ecossistema de trabalho mais disruptivo e econômico. Nesse sentido, campanhas são realizadas para que os colaboradores dimi- nuam o gasto de energia e até aumentem os lucros com essa postura. Entre as ações que abrangem esse procedimento e proporcionam a ponte da tecnologia com a sustentabilidade, podemos apontar várias inicia- tivas, como adotar máquinas virtuais e servidores que reduzam o consumo de energia, trocar aparelhos e dispositivos antigos por mais novos, reciclar papéis e controlar, por meio de monitoramento, o nível de carbono emitido. Sendo assim, pequenos gestos e novas rotinas permitem que a TI e a sustentabilidade caminhem juntas. Além disso, a empresa que assu- mir essa postura terá uma rotina mais inteligente e otimizada. No livro Sustentabilidade: o que é - o que não é, o autor faz uma crítica so- bre a relação do homem com o desenvolvimento sustentável, iniciando no século XVI e chegando aos dias de hoje. BOFF, L. São Paulo: Vozes, 2012. Livro CONCLUSÃO Precisamos repensar a maneira como lidamos com o planeta, para que nossos filhos e netos possam desfrutá-lo da melhor forma possível. A energia eólica, que é gerada pelos ventos, anteriormente usada nos tradicionais moinhos de vento, deve ser mais utilizada, principalmente nas regiões de grandes ventos. Já a solar, com painéis contendo células foto- voltaicas, que transformam energia luminosa em elétrica, deve ser uma opção mais viável e barata para ser cada vez mais aproveitada. 20 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável As pessoas devem, então, mudar o mindset – e isso deve vir da base, ou seja, da educação familiar e da formal. Desse modo, os pais devem educar as crianças com maior respeito ao meio ambiente, e as escolas devem endossar isso, por meio de trabalhos e iniciativas sustentáveis. ATIVIDADES Atividade 1 Sustentabilidade é um grande lema mundial atualmente. Com esse conceito, cite meios simples para adaptá-la no dia a dia atual. Atividade 2 Quais maneiras de se obter energia são as mais viáveis para o planeta e como as pessoas podem utilizá-las? REFERÊNCIAS EPE. Matriz energética e elétrica. 2021. Disponível em: https://www.epe.gov.br/pt/abcdenergia/ matriz-energetica-e-eletrica. Acesso em: 11 maio 2021. GOLDEMBERG, J. Energia e desenvolvimento sustentável. São Paulo: Blücher, 2010. https://www.epe.gov.br/pt/abcdenergia/matriz-energetica-e-eletrica https://www.epe.gov.br/pt/abcdenergia/matriz-energetica-e-eletrica TI sustentável e TI insustentável 21 2 TI sustentável e TI insustentável Ao final do estudo deste capítulo, você será capaz de: • compreender a necessidade de reuso e descarte sustentá- vel, acarretando a economia do dinheiro público e a preser- vação do meio ambiente; • entender a necessidade da diminuição do uso de papel nas empresas e perceber a importância da diminuição do lixo eletrônico. Objetivos de aprendizagem 2.1 Reuso e descarte Vídeo O descarte de equipamentos eletrônicos e a era do consumo são itens que merecem atenção nos dias de hoje. A questão de políticas públicas para o incentivo de boas ações são primordiais para que possamos chegar a um nível de educação am- biental superior ao que vivemos atualmente. Neste capítulo, veremos algumas iniciativas importantes para que a preservação do meio ambiente seja respeitada e colocada como prio- ridade pelas pessoas que trabalham com TI e pela sociedade em geral. Em dezembro de 2009, foi inaugurado o Centro de Descarte e Reuso de Resíduos de Informática (CEDIR), sediado na Cidade Universitária que possui um galpão de 200 m2, com acesso para que resíduos sejam carre- gados e descarregados, além de um galpão para agrupamento, seleção e encaminhamento de resíduos. Em média, são recebidas dez toneladas de lixo eletrônico por mês. De acordo com as diretrizes de sustentabilidade de- terminadas pela ONU, cumpre normas ambientais, sociais e econômicas. 22 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Concebido inicialmente para atender apenas a escolas, faculda- des e institutos do campus da Universidade de São Paulo (USP), o CEDIR, hoje, recebe lixo eletrônico de pessoas físicas e jurídicas que se dispõem a realizar o descarte adequado. Embora o foco do projeto seja descartes nas áreas de informática e telecomunicações, nesses cinco anos de existência, já recebeu os mais diversos tipos de eletrônicos, como câmeras fotográficas, filmadoras (como um V8 em funcionamen- to), videocassetes e, até mesmo, máquinas de escrever, formando um acervo digno de um museu. Etapas do processo do CEDIR segundo o PO O processo do CEDIR conta com algumas etapas de operação: Coleta e triagem O procedimento se inicia com a entrada de peças e utensílios de informática. O objetivo inicial é considerar se há alguma chance de aproveitamento e reaproveitamento. Se sim, há o encaminhamento para projetos sociais e comunidades, com a condição de que esse objeto volte para o CEDIR e tenha um destino sustentável. O material reciclável que não puder ser reaproveitado pelos projetos sociais é encaminhado para a fase de categorização. Categorização Nessa etapa, é feita a pesagem dos equipamentos. Eles também são desmontados, reservados e classificados por tipo de material. Os resíduos pertencentes ao mesmo grupo são pesados, desmontados e separados (plásticos, metais, placas eletrônicas, cabos etc.). Os materiais do mesmo tipo são compactados, tendo o volume diminuído, para ser facilmente reaproveitados em outro ambiente e para diminuir o valor do transporte. Reciclagem Depois da categorização, os materiais são guardados até serem recolhidos por instituições de reciclagem.Essas instituições ou empresas são todas credenciadas pela USP e, geralmente, são especializadas em plástico, metais ou vidros. M y L ife G ra ph ic /S hu tte rs to ck Esse importante trabalho, além de oferecer uma grande economia para a Cidade Universitária, ajuda escolas públicas na cidade de São Paulo e no interior, e participa de projetos de inclusão social indígena, com seus empréstimos de equipamentos. TI sustentável e TI insustentável 23 2.2 Nova mentalidade sustentável Vídeo A computação em nuvem (em inglês, Cloud Computing) é o conceito de se utilizar computação em grid (diversos computadores interligados, formando um ambiente único), fracionando esse poderoso ambiente computacional em diversas instâncias de máquinas virtuais (graças ao recurso da virtualização). Dessa maneira, tem-se um ambiente extre- mamente escalonável, pois essas porções podem ser facilmente au- mentadas ou diminuídas. Além disso, a forma de cobrar o cliente mudou: agora é cobrado pelo seu consumo, como tempo de processamento, transferência de dados, entre outros, e não mais por um valor fixo por mês. Essa mudança de paradigma traz, além de benefícios na escalabilidade e, em alguns ca- sos, no bolso das empresas, resultados positivos na sustentabilidade. No modelo anterior, os servidores dedicados (e, em muitos casos, superestimados) apresentavam períodos de baixo processamento ou, até mesmo, ociosidade de alguns periféricos, o que ocasiona desper- dício energético. Estudos da consultoria Accenture (2020) apontam que datacenters com grids inteligentes, aliados ao conceito de Cloud Computing, podem chegar a reduzir emissões de carbono em cerca de 59 milhões de toneladas ao ano, o que seria como tirar o equivalente a 22 milhões de automóveis das ruas. Segundo estudos atuais da Microsoft, há uma grande empolga- ção com relação aos resultados de serviços da Nuvem Microsoft, sendo mais eficaz com a questão energética e podendo ser também mais eficiente com relação à emissão de carbono, se comparada aos datacenters tradicionais. Para entender melhor, caso apenas 20% de todo o mercado nos Es- tados Unidos da América (EUA) fossem transferidos para essa nuvem, o resultado iria equivaler à redução das emissões de carbono em cidades como Seattle, em Washington (EUA), e Turim, na Itália. No cenário geral, inclusive se comparados com datacenters high end, a nuvem possibilita enormes benefícios, no que se refere à eficiência energética e diminui- ção da taxa de emissão de CO2. 24 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Além disso, a Microsoft já anunciou um plano contando que a meta até 2030 é ser negativa em carbono, e que até 2050 todo o carbono emitido pela empresa, direta ou indiretamente, desde sua fundação em 1975, será retirado do ambiente. Netflix: mudanças culturais que preservam a natureza A Netflix é uma das líderes de mercado em streaming de conteúdo, como filmes e séries pela internet. A empresa começou com o seguinte modelo: locadora de vídeos com envio de DVDs pelo correio. A nova abordagem impactou culturalmente os americanos, que deixaram de se deslocar até as videolocadoras físicas em busca de entretenimento. Em 2008, estudiosos já apontavam o novo modelo de aluguel como um amigo do meio ambiente. Se os associados da Netflix tivessem que se deslocar para realizar seus aluguéis de vídeos, consumiriam mais de 3 milhões de litros de gasolina, despejando mais de 2,2 milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera (WIRED..., 2008). Já nessa época, a empresa começava a oferecer um novo modelo: distribuição de conteúdo pela internet, por meio de streaming. Com o intuito de se tornar global, a plataforma precisava de escalabilidade e, por essa razão, migrou para a líder de soluções em nuvem: a Amazon Web Services (AWS). Para manter o alto nível de serviço, novas instâncias de servidores são ligadas para atender à demanda nos horários de pico e são desli- gadas, automaticamente, nos chamados horários de vale, ao redor do mundo. Esse modelo propiciou uma economia de 87% nos custos, se comparados aos antigos datacenters da empresa, possibilitando a ela praticar um preço final extremamente competitivo. Embora não tenham sido divulgados números a esse respeito, é se- guro afirmar que boa parte da economia mencionada se traduz em economia energética, já que a solução da AWS utiliza Cloud Computing. Um estudo afirma que o processo de negócio no modelo de streaming de vídeo emite 50% menos carbono que o anterior, que era o de envio de DVDs (WANG et al., 2014). Esse caso prova que os mo- delos de negócio podem ser inovadores, impactando culturalmente as pessoas em âmbito mundial, sem, no entanto, representar um impacto ainda maior no meio ambiente. TI sustentável e TI insustentável 25 Porém, é claro que o uso de streamings não anula a emissão de CO2 no ambiente. Dessa forma, a energia consumida no uso de computado- res, celulares e tablets ainda é um problema. Diário da Justiça Eletrônico: poupando o dinheiro público e o meio ambiente Com a possibilidade da digitação de documentos e a distribuição de informações pela internet, a tecnologia da informação (TI) evita a transmissão de informações pelo meio tradicional, ou seja, o físico. O Diário da Justiça é um instrumento de comunicação, publicação e divulgação oficial dos atos processuais e administrativos, gerados e dis- tribuídos pelo Poder Judiciário. No caso específico do Poder Judiciário de São Paulo (PJ-SP), composto por 272 comarcas, 45 foros distritais e 13 foros regionais e respondendo por cerca de 49% do movimento judi- ciário nacional, seu Diário da Justiça possui cinco cadernos, totalizando cerca de 10 mil páginas. Nesse sentido, graças à Lei n. 11.419, de 19 de dezembro de 2006, os tribunais foram autorizados a criar o Diário da Justiça Eletrônico, to- talmente gerado em meio digital e distribuído pela internet. Com a digi- tação do Diário da Justiça, o PJ-SP apresenta alguns ganhos. Home office como alternativa sustentável O avanço tecnológico das últimas décadas, no que diz respeito às ferramentas de trabalho e comunicação, possibilitou uma nova modalidade de trabalho: o home office – ou seja, o trabalho remoto, realizado em casa. O home office traz uma série de benefícios à sociedade moderna, que enfrenta transtornos de mobilidade urbana nas grandes cidades. Existe, também, uma preocupação com a segurança e baixa qualida- de dos transportes públicos e, nesse sentido, o trabalho em casa pro- porciona a diminuição do uso desse tipo de transporte. Dessa forma, a emissão de gases poluentes e os danos ao meio ambiente são di- minuídos, sem contar o aumento de qualidade de vida das pessoas. Uma empresa que permite e incentiva essa prática de trabalho passa uma imagem de modernização, sustentabilidade e preocupação com o bem-estar de seus funcionários. 26 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Se, por um lado, a modalidade traz redução de custos para a em- presa, bem como economia em energia elétrica, espaço físico, insumos etc., por outro lado, presume-se que pode elevar a conta elétrica resi- dencial do funcionário em até 30%. Essa possibilidade, no entanto, não cabe a todos os tipos de profissionais, sendo adequada, por exemplo, para analistas especializados em internet e computadores. Primeiramente, é preciso ter disciplina e concentração, para evitar as tentações que o aconchego do lar proporciona, ou, ao contrário, para não trabalhar mais tempo que o necessário, prejudicando a ima- gem do lar como seu porto seguro. Também se faz necessário avaliar o perfil do profissional e a sua capacidade de trabalhar de modo iso- lado, longe de desafios e dos prazeres do convívio com outros pro- fissionais. Nesse aspecto, separar um cômodo na casa como local de trabalho é essencial. Desse modo, o home office já se provou uma alternativa viável e uma tendência, em alguns ramos de mercado, para um futuro próspe- ro e sustentável.Ensino a distância: conhecimento em direção ao aluno O avanço tecnológico proporciona avanços educacionais. Se, no passado, o aluno era obrigado a se deslocar até uma sala de aula, em uma data e horário marcados, essa necessidade não existe para quem quer realmente aprender. De acordo com a regulamentação do ensino a distância (EAD) no Brasil, faculdades, universidades, centros universitários e aqueles que pretendem proporcionar cursos de graduação devem se credenciar no Ministério da Educação (MEC). Depois de serem credenciados, conse- guem a autorização para iniciar com os cursos que desejarem. Em seguida, o procedimento vai para a fase de análise na Secre- taria de Educação Superior (SESU). Com isso, o curso é analisado por um grupo de especialistas da área e por especialistas em EAD. Na fase seguinte, o projeto é levado ao Conselho Nacional de Educação (CNE), para que finalmente seja validado. Em 2017, o Decreto n. 9.057 foi ajustado para aumentar a oferta de graduações EAD, além de: https://www.cnedu.pt/pt/ http://portal.mec.gov.br/busca-geral/212-noticias/educacao-superior-1690610854/49321-mec-atualiza-legislacao-que-regulamenta-educacao-a-distancia-no-pais TI sustentável e TI insustentável 27 • aprimorar a capacidade do exercício de regulamentação do MEC na área; • melhorar os procedimentos; • facilitar os processos; • diminuir o período de estudo dos processos. A melhoria do decreto possibilitou o início dos polos EAD, os quais representam novos caminhos para melhorar o Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) e enriquecer o alicerce da educação a distância. Assim, essa modalidade de ensino traz diversas vantagens: • respeita o tempo em que ocorre a aprendizagem para cada aluno; • possibilita ao aluno estudar no horário que julgar mais viável; • leva o conhecimento a todos os pontos do mundo, sem distinção ou viabilidade financeira a ser considerada; • elimina a necessidade de deslocamento das pessoas, uma vez que elas estudam onde estiverem. Logo, o EAD provê maior qualidade de vida aos seres humanos e, pela eliminação logística, poupa o meio ambiente, devido à redução da poluição. 2.3 Lixo eletrônico Vídeo A impressora é um periférico de saída em um sistema informatiza- do, possibilitando a impressão de textos, gráficos ou qualquer outro resultado de uma aplicação. O computador não seria um substituto à altura das antigas máquinas de escrever sem ela. Quando o microcomputador foi integrado à comunicação telefôni- ca (por meio dos antigos modems), outra tecnologia foi enterrada: a máquina de fax. Essa grande praticidade, aliada à proliferação da im- pressora de pequeno porte, gerou, no entanto, um problema: o cresci- mento no consumo de papel nas empresas. Segundo Ribeiro (apud BREMBATTI, 2012), especialista em gestão de processos, embora não haja um aprofundamento referente à forma de consumo de papel nas empresas no Brasil, pode-se afirmar que a falta de hábito de utilizar práticas inovadoras no dia a dia de trabalho gera desperdício. Estima-se que 45% dos documentos digitais acabam sen- https://blog.eadplataforma.com/setor-ead/como-tornar-polo-ead/ https://blog.eadplataforma.com/setor-ead/o-que-e-ava/ https://blog.eadplataforma.com/setor-ead/o-que-e-ava/ https://blog.eadplataforma.com/empreendedor-ead/educacao-a-distancia-proprio-negocio/ 28 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável do impressos, pois muitos funcionários preferem o concreto, ou seja, precisam pegar na mão para crer. Ribeiro (apud BREMBATTI, 2012) enfatiza que o que emperra o processo de redução de uso de papel é o não conhecimento de no- vas tecnologias. Em tempos remotos, o grande volume de impressos era justificado. As antigas telas CRT de monitores monocromáticos, ou mesmo as suas primeiras versões coloridas, tinham baixíssimas resolu- ções, o que dificultava a leitura. Além disso, os notebooks não eram tão abundantes e as taxas de transmissão da internet eram baixas, logo a informação não era tão portável assim. Atualmente, contamos com o Cloud pessoal. Serviços como Dropbox, Google Drive, OneDrive e iCloud tornam a informação dispo- nível em qualquer lugar. Ainda, os dispositivos para leitura são os mais variados: microcomputadores, notebooks, tablets, smartphones ou leitores de e-book. Assim, as justificativas para imprimir informações digitais diminuem dia após dia. Sabe-se que para produzir mil quilos de papel, são necessárias, em média, 11 árvores, além de vários produtos químicos. A reciclagem de papel no Brasil é realizada em apenas 37% do papel produzido. São uti- lizados, também, 540 mil litros de água na confecção desses mil quilos de papel, fora o gasto com combustíveis, para transportar o produto. Anualmente, 43 quilos de papel por pessoa, em média, são con- sumidos no Brasil. Isso é praticamente uma árvore por habitante. Em comparação, nos EUA, são consumidos, por ano, aproximadamente 290 quilos de papel por americano. Empresas tradicionais tendem a pensar que as informações só es- tão realmente seguras em arquivos de papel. Trata-se de um mito, pois, na verdade, assegurar informações digitais é um procedimento mais simples do que pelo meio físico. Isso porque, enquanto os sistemas de senha restringem o acesso à informação, impedindo acessos indeseja- dos, e as estratégias de backups garantem a segurança da informação, os papéis estão sujeitos a incêndios e alagamentos. A falta de conhecimento, que resulta na desconfiança do meio di- gital, e o conformismo são os grandes culpados por um ambiente pro- fissional menos sustentável. Entretanto, os obstáculos estão sendo, aos poucos, superados, e as gestões já começam a procurar especialistas para realizar medidas ecologicamente responsáveis. TI sustentável e TI insustentável 29 Os órgãos públicos também se conscientizaram disso e estão na dianteira nesse processo de informatização. De acordo com Ribeiro (apud BREMBATTI, 2012), isso pode ser observado pela mudança das declarações do Imposto de Renda (IR), que trocou o formulário físico pelo digital. As notas fiscais e os processos judiciais passaram, da mes- ma forma, a ser eletrônicos. Se a bandeira da sustentabilidade não for razão o bastante para justificar uma mudança radical nos processos da empresa, talvez a re- dução de custos seja. Algumas empresas, como a Amil, operadora de planos de saúde, mudou seu sistema de automação e de armazenamento digital e dimi- nuiu o desperdício de papel, deixando de gastar mais de 6 milhões de reais em folhas de sulfite. Foram quase 73 milhões de papéis sulfite A4 a menos, se comparado aos anos anteriores. 2.3.1 Responsabilidade das empresas e dos consumidores Vamos fazer uma análise, pensando em uma suposta loja de depar- tamento fictícia, sendo essa uma empresa que se comprometa com práticas sustentáveis. Isso significa que essa loja irá obter alimentos, roupas, eletrônicos e outros produtos de fontes éticas. Além disso, não fará uso de mão de obra barata da China ou de Bangladesh, onde os indivíduos são obri- gados a trabalhar por salários baixíssimos e em péssimas condições. Essa empresa também deve se certificar de que as práticas am- bientais estão em conformidade com os regulamentos. Por exemplo, precisa averiguar que não há despejo ilegal de produtos químicos em qualquer lago próximo, feito com o intuito de economizar dinheiro no descarte. Porém, se práticas insustentáveis forem encontradas na ca- deia de abastecimento, ela deve fazer um plano para eliminar os pro- dutos problemáticos e encontrar uma fonte de vida sustentável. Deve haver, também, um dever para com suas partes interessadas e investidores, com relação a ser totalmente transparente com quais for- necedores estão usando e para onde o seu dinheiro está indo, a fim de garantir que eles sejam responsabilizados e estejam realmente tentando ser mais sustentáveis. 30 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável É importante lembrar que a mudança leva tempo e, mesmoquando uma grande empresa anuncia que está fazendo mudanças em direção à sustentabilidade, ainda levará anos para que progrida e se torne to- talmente sustentável. Mas o que não é sustentável? Insustentável se refere a qualquer coisa que não possa e não deva continuar no ritmo atual. Esse termo se aplica a três itens: 1. lucros (econômicos); 2. planeta (ambiental); 3. pessoas (social). Um exemplo de insustentabilidade seria se a empresa em questão continuasse sua prática de terceirização de países que exercem mão de obra barata, com péssimas condições de trabalho e total desprezo pelo planeta e pelo meio ambiente. O único elemento dos três itens citados acima que não seria afeta- do de modo negativo imediatamente seria o lucro para a empresa. No entanto, com o tempo, quando os consumidores e defensores perce- bessem o que está acontecendo – notando que os fornecedores estavam prejudicando o planeta, ao despejar seus resíduos em mares ou lagos, além de tratarem muito mal os funcionários, pagando-lhes mal e fazen- do-os trabalhar em prédios inseguros –, eles iriam parar de comprar os produtos que essa empresa oferece, até que essa situação mudasse. Com isso, a situação financeira dessa empresa seria afetada e ela seria obrigada a apresentar práticas mais transparentes e sustentáveis, recuperando a confiança dos consumidores. Portanto, é dessa forma que as coisas devem acontecer em nossa sociedade, assim como já ocorrem em muitos outros países que se preocupam com a sustentabilidade há muito mais tempo. Para que haja uma assimilação maior, vamos citar novamente al- guns materiais sustentáveis: • Bambu: cresce rapidamente e pode ser utilizado de várias formas. • Cortiça: deve ser utilizada da maneira correta, pois as árvores só podem ser cortadas de nove em nove anos. Aqui, no Brasil, por exemplo, quase não encontramos mais a casca do sobreiro, mas, em Portugal, há em abundância. Ela é facilmente reciclável, reuti- lizável e, ainda, é biodegradável. TI sustentável e TI insustentável 31 • Madeira e aço reaproveitados: a prática de reciclar madeira e aço é sustentável, mesmo que a colheita original não seja. O reaproveitamento desses materiais os mantém fora dos aterros sanitários, sendo muito melhor ao meio ambiente do que usar materiais novos. Sendo assim, esses materiais podem substituir o plástico, o isopor e vários outros produtos poluentes, que degradam o meio ambiente. A era do lixo eletrônico A informatização pode trazer inúmeros benefícios, mas também co- bra um alto preço. De toda a quantidade de lixo gerado no mundo, o eletrônico é o que cresce mais rápido atualmente. Com base no mais recente estudo da United Nations University (UNU), no mundo todo, 53 milhões de toneladas de lixo eletrônico são geradas por ano, sendo formadas por diversos aparelhos, desde celulares a geladeiras ou, até mesmo, células fotovoltaicas. Além do altíssimo volume, o lixo eletrônico possui um agravante: não deve ter o descarte como lixo comum. Isso porque equipamentos eletrônicos contêm mais de 60 elementos diferentes, alguns valiosos (como ouro, prata e paládio) e outros tóxicos, os quais podem causar danos às pessoas. Conforme diz a especialista em gestão ambiental do CEDIR, Neuci Bicov (apud BUZZO, 2012), qualquer produto que possua bateria, placa eletrônica ou fio dispõe de algum tipo de material contaminante. No caso dos computadores, os principais elementos tóxicos contidos são: • Mercúrio: provoca deteriorações ao sistema nervoso, problemas motores e sensitivos, demência e até tremores. • Chumbo: causa alterações genéticas, câncer e problemas ao sis- tema nervoso, à medula óssea e aos rins. • Cádmio: pode originar câncer de pulmão e de próstata, osteoporose e anemia. • Berílio: ocasiona câncer de pulmão. Ainda pior, a contaminação é acumulativa, ou seja, quanto maiores a quantidade e o tempo de exposição, maior o mal à saúde. Um estudo feito por um pesquisador da Escola de Yale, do Centro de Ecologia Industrial do Meio Ambiente, verificou que a massa da to- 32 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável talidade de lixo eletrônico que os americanos geram está decrescendo desde 2015. Nos dias de hoje, em que a maioria das pessoas não pode imaginar viver sem os artefatos digitais, essa realidade é surpreenden- te, trazendo uma reflexão na forma como pensamos tanto sobre o fu- turo desse lixo quanto as leis que regulamentam a reciclagem de lixo eletrônico, segundo o autor (ALTHAF; BABBITT; CHEN, 2021). O grande motivo para essa diminuição é o fim das grandes e volu- mosas televisões de tubos e de alguns tipos de monitores de computa- dor das casas americanas, diz Callie Babbitt, professora do Rochester Institute of Technology. Desde 2011, os monitores CRT estão desapare- cendo, auxiliando na liderança do declínio geral na massa total do lixo eletrônico (ALTHAF; BABBITT; CHEN, 2021). Esse declínio em telas mais volumosas significa que os regulamentos de lixo eletrônico devem ser repensados, afirma Babbitt. Segundo a auto- ra, se olharmos as leis estaduais existentes em vários lugares para a reci- clagem do lixo eletrônico, perceberemos que algumas determinam seus objetivos com base na massa de produto (ALTHAF; BABBITT; CHEN, 2021). Após o momento em que a massa geral de lixo eletrônico se torna escassa, chegar a essas metas se torna mais difícil. Fora isso, o maior objetivo dessas leis era continuar mantendo os eletrônicos com altos níveis de chumbo e mercúrio longe de aterros sanitários, que é onde eles podem, eventualmente, contaminar o meio ambiente. Atualmente, uma precaução existente é como reaver elementos como cobalto (usado em baterias de íon ou lítio) ou índio (encontrado em telas planas). Esses elementos não são tão nocivos ao meio ambiente, mas es- tão um pouco escassos no planeta; sendo assim, deixar de reavê-los para reutilização em novos aparelhos eletrônicos se torna um desperdício. A forma de se reciclar lixo eletrônico é um tanto ultrapassada, diz Babbitt, que vem lutando para ficar alinhada com a constante mudança na área da eletrônica (ALTHAF; BABBITT; CHEN, 2021). Shahana Althaf, autora principal do estudo e associada de pós-doutorado no Centro de Ecologia Industrial de Yale, diz que uma modificação no modo de reciclar esse tipo de lixo, para capturar mais esses elementos críticos, pode também ajudar os EUA a confirmar a distribuição dos ingredientes imprescindíveis para se fabricar dispositivos eletrônicos (ALTHAF; BABBITT; CHEN, 2021). TI sustentável e TI insustentável 33 As instabilidades geopolíticas representam ameaças ao que Althaf denomina de segurança mineral para os EUA. Assim, a autora afirma que a população está percebendo, aos poucos, a necessidade de se manter o fornecimento doméstico (ALTHAF; BABBITT; CHEN, 2021). Medidas de combate ao lixo eletrônico Algumas medidas devem ser colocadas em ação, para que haja uma diminuição de danos, por exemplo: não substituir o equipamento de maneira desnecessária, utilizando-o até o final de sua vida útil e, em caso de avaria, considerar a possibilidade de consertá-lo. Quando falamos em computadores, algumas pessoas decidem substituí-los por modelos mais novos e velozes, por considerarem seu equipamento atual lento demais. É importante ressaltar que depen- dendo do uso que essa pessoa faz de seu computador, trocá-lo por um modelo com um processador mais veloz não é garantia de obter uma melhor performance. Existem outros componentes que garantem a performance da máquina, como a memória RAM e o disco rígido. Se analisado o equipamento como um todo, na maioria das vezes, o seu gargalo atual de arquitetura é o I/O, ou seja, o procedimento de grava- ção e leitura dos arquivos está presente no disco rígido. Nesse sentido, substituir o disco rígido magnético pelos Solid State Drive (SSDs) pode estender o tempo de uso de um computador. Em caso de troca, considere vender seu antigo computador pela internet ou doá-lo– instituições de caridade e telecentros (como da Prefeitura de São Paulo) aceitam equipamentos antigos em bom esta- do, ajudando, assim, o meio ambiente e o próximo. No entanto, sem conserto, a melhor abordagem seria encaminhá-lo para reciclagem. Existem postos de coleta para reciclagem em vários pontos da cidade, mas, se não quiser se locomover até esses locais, há diversas empresas que coletam o lixo eletrônico direto da sua casa e de maneira gratuita. Neuci Bicov do CEDIR diz que cerca de 80% de componentes utiliza- dos em um computador são recicláveis, já que 68% de suas partes são feitas de ferro; 31% de um notebook é plástico; e os dois são recicláveis (apud BUZZO, 2012). 34 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Tecnologia da informação gerando desemprego O economista britânico John Maynard Keynes, um dos pais da macroeconomia, escreveu, em 1930, um artigo chamado Economic Possibilities for our Grandchildren (em tradução livre: Possibilidades eco- nômicas para nossos netos). Considerado extremamente otimista, ele imaginou um meio-termo entre a revolução e a estagnação que deixa- ria os referidos netos muito mais ricos do que seus avós. Isso pode ter acontecido, embora não para todos os netos (KEYNES, 1932). Uma das preocupações admitidas por Keynes (1932), com relação à economia da época, foi a epidemia do desemprego tecnológico, uma vez que os avanços tecnológicos promoveram a automação das tarefas, subs- tituindo seres humanos por máquinas. Sabendo que a base da economia é o mecanismo do trabalho por salário, sem a opção de trabalhar para viver, o sistema econômico, como conhecemos, entraria em colapso. O passar do tempo nos mostra alguns exemplos de desemprego tecnológico. Antigamente, a população mundial trabalhava majorita- riamente na agricultura. Estima-se que 75% da população do Reino Unido trabalhava nesse ramo de atividade no século XVI, despencando para 35% apenas três séculos depois, graças aos avanços tecnológicos aplicados à lavoura. Atualmente, apenas 3% da população mundial tra- balha em agricultura, embora a produção mundial tenha aumentado muito ao longo dos séculos. Automações envolvendo TI podem ser observadas em todo territó- rio nacional, como o bilhete único, o cartão BOM ou outras iniciativas. A automação do sistema de cobrança no transporte público teria gera- do uma legião de cobradores desempregados em âmbito nacional, se não fosse pela ação dos sindicatos. Contra a vontade dos sindicatos metroviários, a Linha 4 do Metrô de São Paulo foi privatizada para o consórcio ViaQuatro, que implemen- tou um sistema de trens driverless, dispensando a necessidade de um condutor. O que, no entanto, poucas pessoas sabiam, é que essa auto- mação, possível apenas pela aplicação de TI, já foi instaurada há anos nas outras quatro linhas paulistanas, nas quais o condutor só opera em casos de emergência. Além disso, há décadas, os bancários estão sendo substituídos por caixas eletrônicos e internet banking. TI sustentável e TI insustentável 35 Nesse sentido, alguns ramos de atividade têm maiores pontos per- centuais de automação e, por consequência, maior risco de desapareci- mento de vagas, como podemos ver no estudo de Frey e Osborne (2013), The Future of Employment: How Susceptible are Jobs to Computerisation?, como mostra a tabela a seguir. Tabela 1 Probabilidade de a automação reduzir vagas por ramo de atividade. Ramo de atividade Probabilidade Telemarketing 99% Contadores e auditores 94% Vendedor de varejo 92% Escritores técnicos 89% Corretores de imóveis 86% Processadores de texto e digitadores 81% Maquinistas 65% Pilotos comerciais 55% Economistas 43% Ramo de atividade Probabilidade Tecnólogos na área da saúde 40% Atores 37% Bombeiros 17% Editores 6% Engenheiros químicos 2% Clero 0,8% Treinadores atléticos 0,7% Dentistas 0,4% Terapeutas recreacionais 0,3% Fonte: Kambayashi, 2021. (Continua) 36 Liderança, cidadania, ética e tecnologia sustentável Depois que Watson, o supercomputador de reconhecimento de pa- drões da IBM, venceu os melhores competidores humanos no Jeopardy – o mais popular quiz show de conhecimentos gerais da América –, quais serão os limites para a informatização? Sem falarmos na geração de novos empregos, desenvolvendo novas colocações que ainda nem conhecemos, mas que, com certeza, surgirão. Comércio eletrônico x comércio tradicional O surgimento da internet revolucionou as comunicações no mundo todo. Essa mesma revolução mudou vários hábitos e costumes, entre eles os comerciais. O mercado de eletrônicos está se desenvolvendo rapidamente no Brasil, e podemos considerar como causas: • os problemas de segurança e mobilidade urbana nas grandes cidades; • um maior número de pessoas acessando a internet (4,1 bilhões de usuários a utilizam, sendo 53,6% da população mundial); • o crescimento expressivo do acesso de banda larga; • os brasileiros se sentirem cada vez mais confortáveis para realizar suas compras on-line – a grande adoção dos sistemas bancários pela internet, redes sociais e sites de compras coletivas denota a propensão para a adesão de novas tecnologias e costumes. Em 2020, o e-commerce cresceu 73,88% no Brasil, representan- do 14,4% do comércio de varejo, exceto por veículos, materiais de construção e peças. Se os shoppings tornaram a sobrevivência das lojas convencionais de rua cada vez mais difícil, a mudança nos novos hábitos de consumo, cada vez mais adotados pelas novas gerações, deve colocar essa moda- lidade de comércio à beira da extinção nas próximas décadas. Isso sem falarmos, ainda, da pandemia de Covid-19, que contribuiu muito para que o comércio eletrônico crescesse. CONCLUSÃO Devemos ter a consciência de que os equipamentos eletrônicos po- dem ter uma vida útil maior, bem como de que existe a possibilidade de consertarmos nosso equipamento, e não simplesmente descartá-lo. O livro Sustentabilidade empresarial e mercado verde aborda a sustentabi- lidade ambiental por meio de um embasamento teórico, fundamentado em boas iniciativas e atitudes inspiradoras sobre o tema. ALVES, R. R. São Paulo: Vozes, 2019. Livro TI sustentável e TI insustentável 37 Outra reflexão que fica – não só para pensarmos, mas também para agirmos – é realizarmos o descarte corretamente, de modo a não prejudi- car o meio ambiente. Quando falamos em computadores, as pessoas optam por substituí-lo por modelos mais novos, considerando seu equipamento atual ultrapas- sado. É importante frisar que, dependendo do uso que essa pessoa faz de seu equipamento, trocá-lo por um modelo com um processador mais veloz não é garantia de melhora. Sabemos que existem outros componentes que garantem a eficácia da máquina, como a memória RAM e o disco rígido. Além disso, em caso de troca, pense em vender seu antigo computa- dor pela internet, ou doá-lo para instituições de caridade e telecentros (como da Prefeitura de São Paulo), os quais aceitam computadores anti- gos em bom estado, contribuindo, assim, ao meio ambiente e ao próximo. Por fim, se seu equipamento não tiver conserto, a melhor conduta seria encaminhá-lo para reciclagem. Pudemos verificar, neste capítulo, também, que a tecnologia das au- tomações geraram algum desemprego em algumas áreas. Porém, é im- portante ressaltar novos empregos sendo criados. O comércio eletrônico cresceu muito, principalmente durante a pandemia; com isso, houve uma evolução com relação à sustentabilidade, pois, comprando on-line, as pes- soas saem menos de carro e utilizam menos o transporte público. ATIVIDADES Atividade 1 Sabemos que a exposição ao lixo eletrônico causa sérios danos à nossa saúde devido aos elementos tóxicos contidos nele. Quais são os principais elementos, e os mais sérios danos causados por eles? REFERÊNCIAS ACCENTURE. Cloud computing and sustainability: the environmental benefits of moving to the cloud. WSP, 2010. Disponível em: https://download.microsoft.com/download/A/F/F/AFFEB671-FA27-45CF-9373-0655247751CF/Cloud%20Computing%20and%20 Sustainability%20-%20Whitepaper%20-%20Nov%202010.pdf. Acesso em: 28 maio 2021. ALTHAF, S.; BABBITT, C. W.; CHEN, R. 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Objetivos de aprendizagem 3.1 Empresas e cotidiano Vídeo A diversidade começa no cliente, sendo que as empresas valorizam a capacidade dos gestores de se antecipar às mudanças dos desejos dos consumidores. Uma das experiências globais mais importantes sobre o tema é bra- sileira: a do FIAT Mio, em 2010. A montadora criou um site para rece- ber propostas de um novo carro que seria desenvolvido inteiramente pelos interessados, fossem eles clientes ou não. O projeto exigiu uma organização típica de raciocínio complexo por parte da empresa. Foi elaborada uma plataforma técnica de recepção, a qual recebeu 11.000 propostas diferentes e selecionou as ideias mais relevantes que foram discutidas em times multidisciplinares até se chegar a um modelo coe- rente. Desenho, motor, tecnologia embarcada, ergonomia e outros pontos foram sendo integrados em conjuntos de funcionalidades com sentido para a engenharia e produção. Dito de outra forma, as equipes tiraram proveito das diversas pro- postas recebidas, as quais apresentavam, às vezes, muitas diferenças entre si, mas que também apontavam para a necessidade de se repen- sar velhas fórmulas de desenvolvimento de carros. A gestão da recep- ção das sugestões exigiu também meios técnicos para protocolar a sua 40 Liderança, Cidadania, Ética e Tecnologia Sustentável entrada, a fim de cumprir o prazo de retorno da equipe de engenheiros e avaliadores. Foram organizados fóruns entre os interessados e os que enviaram ideias para aprimorar as sugestões e críticas. Mais uma vez o raciocínio complexo esteve presente. Os resultados na imprensa, na imagem da marca e nos meios de comunicação foram impressionantes: mais de 3 milhões de visitas em 160 países. O caso foi citado em pelo menos cinco livros e 100 revistas de 4 países diferentes. Em todo o mundo, blogs e imprensa se referi- ram espontaneamente à experiência da montadora brasileira. Enfim, o sucesso de marketing foi enorme pela abertura aos interessados. Mais do que a experiência em si, o ponto mais importante é consolidar a visão do Creative Commons (criação coletiva), que permite comparti- lhar livremente o conteúdo entre usuários. O cliente queria mais e procurava um canal para dizer isto. Reconhecer esse ponto exigiu que o projeto praticasse a interatividade em uma esca- la inédita e antecipasse o que alguns autores chamam de CRM social, que é a integração das redes dos clientes com as possibilidades de negócios. Nessa nova teia, os clientes ditam do seu jeito muitas das regras do negócio, como: o canal, o desenvolvimento compartilhado (clientes/empresa), o tem- po e o ciclo de vida do produto. Da mesma forma, esse novo padrão exige grande capacidade de organização da empresa para entender e responder satisfatoriamente