Prévia do material em texto
Autora: Profa. Vânia Cristina Lamônica Colaboradoras: Profa. Mônica Teixeira Profa. Carolina Kurashima Nutrição Integrada Professora conteudista: Vânia Cristina Lamônica Nutricionista graduada pela Unisagrado de Bauru em 1985. Mestrado concluído em 2006 e doutorado em 2013, ambos pelo Programa de Bases Gerais da Cirurgia da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB-Unesp). Possui os cursos de Especialização em Administração de Serviços de Alimentação e Nutrição (Unisagrado, 1985), Especialização em Cuidados Nutricionais do Paciente Hospitalizado (FMB-Unesp, 2003) e Especialização em Formação de Professores para o Ensino Superior (UNIP, 2016). Atualmente, é professora titular da Universidade Paulista. © Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Universidade Paulista. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) L324n Lamônica, Vânia Cristina. Nutrição Integrada / Vânia Cristina Lamônica. – São Paulo: Editora Sol, 2024. 112 p., il. Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e Pesquisas da UNIP, Série Didática, ISSN 1517-9230. 1. Nutrição clínica. 2. Estudo de caso. 3. Avaliação. I. Título. CDU 613.2 U519.71 – 22 Profa. Sandra Miessa Reitora Profa. Dra. Marilia Ancona Lopez Vice-Reitora de Graduação Profa. Dra. Marina Ancona Lopez Soligo Vice-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Profa. Dra. Claudia Meucci Andreatini Vice-Reitora de Administração e Finanças Prof. Dr. Paschoal Laercio Armonia Vice-Reitor de Extensão Prof. Fábio Romeu de Carvalho Vice-Reitor de Planejamento Profa. Melânia Dalla Torre Vice-Reitora das Unidades Universitárias Profa. Silvia Gomes Miessa Vice-Reitora de Recursos Humanos e de Pessoal Profa. Laura Ancona Lee Vice-Reitora de Relações Internacionais Prof. Marcus Vinícius Mathias Vice-Reitor de Assuntos da Comunidade Universitária UNIP EaD Profa. Elisabete Brihy Profa. M. Isabel Cristina Satie Yoshida Tonetto Prof. M. Ivan Daliberto Frugoli Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar Material Didático Comissão editorial: Profa. Dra. Christiane Mazur Doi Profa. Dra. Ronilda Ribeiro Apoio: Profa. Cláudia Regina Baptista Profa. M. Deise Alcantara Carreiro Profa. Ana Paula Tôrres de Novaes Menezes Projeto gráfico: Revisão: Prof. Alexandre Ponzetto Aline Ricciardi Lucas Ricardi Sumário Nutrição Integrada APRESENTAÇÃO ......................................................................................................................................................7 INTRODUÇÃO ...........................................................................................................................................................8 Unidade I 1 UNIDADE DE NUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO ...............................................................................................9 1.1 Estudo de caso – UAN. Temas para discussão: dimensionamento de pessoal; jornada de trabalho; dimensionamento físico; ergonomia; legislação ....................................9 1.2 Estudo de caso – UAN. Temas para discussão: segurança alimentar (higiene e legislação, Manual de Boas Práticas); sistema APPCC .............................................................. 16 1.3 Estudo de caso – UAN. Temas para discussão: gestão de UAN (planejamento de cardápios, compras, estoque, contabilidade de custos); PAT; sustentabilidade na produção de refeições coletivas ...................................................................................................... 21 2 NUTRIÇÃO CLÍNICA DA GESTANTE, DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE ..................................... 27 2.1 Estudo de caso – nutrição clínica. Temas para discussão: avaliação e diagnóstico nutricional de gestantes; orientação/conduta nutricional para gestantes com desnutrição, eutróficas, com sobrepeso e obesas; recomendação e suplementação de macro/micronutrientes para essa população (DRIs, indicações, biodisponibilidade) ...................................................................................................................................... 27 2.2 Estudo de caso – nutrição clínica. Temas para discussão: avaliação nutricional e diagnóstico de crianças (lactentes, fase escolar, adolescentes); orientação/ conduta nutricional para crianças com desnutrição, eutróficas, com sobrepeso e obesas; suplementação de micronutrientes para essa população (indicações, doses e biodisponibilidade); programas de saúde para essa população ......................................................... 32 3 NUTRIÇÃO CLÍNICA DO ADULTO E DA PESSOA IDOSA ..................................................................... 39 3.1 Estudo de caso – nutrição clínica. Temas para discussão: avaliação e diagnóstico nutricional de adultos (homens e mulheres); orientação/conduta nutricional para adultos desnutridos, eutróficos, com sobrepeso e obesos; conduta nutricional para as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT); suplementação de micronutrientes para essa população (indicações, doses e biodisponibilidade); programas de saúde para essa população ......................................................................................... 39 3.2 Estudo de caso – nutrição clínica. Temas para discussão: avaliação e diagnóstico nutricional de pessoas idosas; orientação/conduta nutricional para pessoas idosas desnutridas, eutróficas, com sobrepeso e obesas; conduta nutricional para as doenças relacionadas ao envelhecimento; suplementação de micronutrientes para essa população (indicações, doses e biodisponibilidade); programas de saúde para essa população .................... 45 4 NUTRIÇÃO CLÍNICA PARA PACIENTES CRÍTICOS ................................................................................ 49 4.1 Estudo de caso – nutrição clínica. Temas para discussão: equipe de terapia nutricional hospitalar. Avaliação e diagnóstico nutricional de pacientes críticos; prescrição dietética para doenças do trato digestório, trato pulmonar, sistema endócrino e renal, casos cirúrgicos, doenças imunossupressoras (câncer e quimio/radioterapia), nutrição enteral e parenteral ...................................................................... 49 Unidade II 5 NUTRIÇÃO EM SAÚDE PÚBLICA: DA FOME À TRANSIÇÃO NUTRICIONAL ............................... 60 5.1 Estudo de caso – saúde pública. Temas para discussão: doenças crônicas não transmissíveis – DCNT (panorama brasileiro); transição nutricional; programas de saúde pública de suplementação de nutricional (legislação, indicação, procedimentos) ....................................................................................................................... 60 5.2 Estudo de caso – saúde pública. Temas para discussão: programas de saúde pública pertinentes ao combate à fome (programas de segurança alimentar e nutricional) ................................................................................................................................................. 66 6 NUTRIÇÃO NA ATENÇÃO PRIMÁRIA DA SAÚDE ................................................................................. 70 6.1 Estudo de caso – saúde pública. Temas para discussão: atuação do nutricionista na atenção primária da saúde (SUS, gestão de programas de saúde pública) ................... 70 6.2 Estudo de caso – saúde pública. Temas para discussão: atenção nutricional em serviços públicos na síndrome metabólica: obesidade, hipertensão, dislipidemias, diabetes mellitus (avaliação, conduta, recomendação nutricional, educação nutricional); programas de saúde para essa população .......................................... 74 6.3 Estudo de caso – saúde pública. Temas para discussão: atenção nutricional em serviços públicos para gestantes, nutrizes e lactentes (recomendação nutricional, educação nutricional); programas de saúdekg por ano de idade; quando a criança atinge os 6 anos de idade, seu peso é seis vezes maior e seu perímetro encefálico é muito próximo ao do adulto, o que implica num grande desenvolvimento neurológico. Nessa fase, o consumo alimentar pode ser variado e a oferta de alimentos favoritos pode prejudicar o estado nutricional e o desenvolvimento saudável da criança. Por isso, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) ressalta que: 36 Unidade I Existe, ainda nesta faixa etária, a preferência pelo sabor doce, que é inato no ser humano, e que o dos demais sabores precisam ser “aprendidos”. Não deve ser encorajado comportamentos, tipo recompensa ou castigo, para forçar a criança a comer, pois na maioria das vezes esta recusa pode ser reforçada. É fundamental que as refeições e os lanches sejam servidos em horários determinados, adotando uma rotina alimentar, evitando os “beliscos”. É essencial estimular que as refeições sejam realizadas à mesa, de preferência com outros membros da família, com talheres adequados. Para despertar interesse da criança pelo alimento, uma refeição deve ter variedade de textura, cores e formas, evitando a monotonia alimentar. Recomenda-se de 5 a 6 refeições diárias: café da manhã, lanche matinal, almoço, lanche vespertino, jantar e, se necessário, ceia. Deve-se estabelecer tempo definido para as refeições e encerrá-la após, independente da ingestão da criança, não devendo haver substituições, caso a refeição não tenha sido consumida adequadamente. Não é recomendado o estímulo a “raspar” o prato, uma vez que a criança pode começar a perder a capacidade da saciedade pela mensagem neurológica e sim pela distensão gástrica. A oferta de líquidos deve ser controlada nas refeições, evitando distensão gástrica e saciedade precoce. Se a criança necessitar de ingestão hídrica, a água deverá sempre ser priorizada. Limitar o consumo de alimentos com excesso de gordura, sal e açúcar, assim como o consumo excessivo de bebidas à base de soja, pela oferta excessiva de proteínas, fitoestrógenos e açúcares. Estimular o consumo de alimentos ricos em ferro e zinco (carnes, mas preferencialmente magras), cálcio (leite e derivados), vitamina A (legumes amarelo-alaranjados, carnes, ovos) (SBP, 2012, p. 13). A fase escolar, que compreende a faixa etária de 7 a 10 anos de idade, consiste em um período de transição para a adolescência e de intensa atividade física, ganho de peso e altura acentuados. Dependendo do estilo de vida da criança e da família, há maior propensão ao desenvolvimento da obesidade. A escola é um dos locais de grande estímulo ao aprendizado alimentar, embora a família continue a influenciar na alimentação da criança. Nessa faixa etária, é importante estimular o consumo de leite para fornecer a quantidade de cálcio necessária para o desenvolvimento ósseo, desestimular o consumo de refrigerantes e salgadinhos e restringir as atividades sedentárias. Para facilitar a orientação à SBP (2012), foram elaboradas algumas diretrizes que servem de guia para a alimentação da criança em fase escolar: • priorizar o consumo de carboidratos complexos em detrimento dos simples (inferior a 25% do valor energético total); • estimular o consumo diário e variado de frutas, verduras e legumes (> 5 porções por dia); • restringir o consumo de gorduras saturadas (30% do valor energético total):e diagnóstico nutricional de adultos (homens e mulheres); orientação/conduta nutricional para adultos desnutridos, eutróficos, com sobrepeso e obesos; conduta nutricional para as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT); suplementação de micronutrientes para essa população (indicações, doses e biodisponibilidade); programas de saúde para essa população Caso: você recebeu um convite para organizar um ambulatório de atendimento nutricional para adultos de um plano de saúde em sua cidade. Sua função é organizar o fluxograma do atendimento. Entre as afirmativas, analise qual(ais) é(são) a(s) mais viável(is) para tornar o ambulatório eficiente e garantir um atendimento nutricional que promova e recupere a saúde dos assistidos. I – Após o agendamento, o paciente será encaminhado para antropometria e será dispensado, pois receberá os resultados e laudos de forma eletrônica para consulta médica. II – Após agendamento, o paciente será encaminhado para antropometria e consulta nutricional apenas uma única vez. III – Após agendamento, o paciente será encaminhado para antropometria e consulta nutricional, em que serão estabelecidos a conduta e o esquema de monitoramento. Das afirmativas anteriores: A) Somente a afirmativa I. B) Somente a afirmativa II. 40 Unidade I C) Somente a afirmativa III. D) As afirmativas I e II. E) Nenhuma das afirmativas. Resposta correta: alternativa C. Comentários e discussão: o atendimento nutricional de um indivíduo sempre é um desafio. Existem diversos fatores a serem considerados. Assim, realizar o atendimento nutricional apenas uma única vez não será o suficiente para a realização de um atendimento para a promoção de saúde, tampouco será eficaz somente realizando apenas a antropometria. A fase adulta, caracterizada pela plenitude das funções biológicas, traz consigo alguns desafios para o nutricionista, pois é a fase de manutenção das conquistas fisiológicas alcançadas durante o desenvolvimento e postergação dos processos clássicos do envelhecimento, para garantir uma envelhecência com qualidade. Assim, o atendimento nutricional deve contemplar um atendimento amplo, incluindo a avaliação nutricional (antropometria, bioquímica e dietética), o planejamento dietético e o monitoramento com vistas à adoção de uma alimentação saudável a adequada (Rossi; Poltronieri, 2019). O nutricionista deve ser receptivo e estar aberto para receber as informações do paciente com empatia, encorajando-o a relatar suas queixas para a definição das estratégias que direcionarão o atendimento (Aquino; Philippi, 2017). O estado nutricional de um adulto reflete as possíveis deficiências biológicas e/ou funcionais e indica os possíveis riscos de distúrbios nutricionais que contribuem para o aumento da morbimortalidade (Acuña; Cruz, 2004; Cuppari, 2014). Atualmente, os atendimentos nutricionais enfatizam o controle do sobrepeso e obesidade, pois a obesidade é um dos problemas mais graves de saúde no mundo. De acordo com a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), em 2025, estima-se que 2,3 bilhões de pessoas adultas estarão acima do peso (Abeso, 2021). Os principais métodos de avaliação nutricional são antropometria, análise da composição corporal, verificação do consumo alimentar, parâmetros bioquímicos, considerando, ainda, história clínica e biopsicossocial do indivíduo (Acuña; Cruz, 2004; Aquino; Philippi, 2017; Cuppari, 2014). A antropometria consiste na avaliação das medidas corporais cujas intepretações são específicas para cada gênero e fase da vida. Para os adultos, as principais medidas são peso, altura, circunferências (braço, cintura, abdômen e quadril), dobras cutâneas (tricipital, bicipital, subescapular, suprailíaca). A aferição dessas medidas é relativamente fácil e de baixo custo, no entanto requer bom treinamento para que não haja erros nos procedimentos de mensuração e anotação que podem prejudicar o diagnóstico nutricional (Acuña; Cruz, 2004; Aquino; Philippi, 2017; Cuppari, 2014; Rossi; Poltronieri, 2019). 41 NUTRIÇÃO INTEGRADA Saiba mais O artigo de Acuña e Cruz apresenta os diversos indicadores e critérios de uma avalição nutricional para adultos e pessoas idosas: ACUÑA, K.; CRUZ, T. Avaliação do estado nutricional de adultos e idosos e situação nutricional da população brasileira. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia, São Paulo, v. 48, n. 3, p. 345-361, jun. 2004. Disponível em: https://bityli.com/S3kRJD. Acesso em: 12 nov. 2021. Sugestão de leitura complementar: REZENDE, F. et al. Revisão crítica dos métodos disponíveis para avaliar a composição corporal em grandes estudos populacionais e clínicos. ALAN, Caracas, v. 57, n. 4, p. 327-334, dic. 2007. Disponível em: https://bityli.com/KkRMTY. Acesso em: 12 nov. 2021. O IMC é o mais utilizado, porém isoladamente esse índice não avalia a distribuição de gordura, sendo essa distribuição mais preditiva com relação às comorbidades da obesidade. Assim, é importante combinar o IMC com outros parâmetros para um diagnóstico mais confiável. Para a população brasileira, utiliza-se como ponto de corte para o IMC os parâmetros da OMS (tabela seguinte). Tabela 3 – Classificação do estado nutricional para adultos segundo o IMC IMC (kg/m²) Classificação 40 Obesidade grau III Adaptada de: OMS apud Abeso (2016). 42 Unidade I Lembrete Embora o IMC seja um método rápido e prático, ele deve ser usado com cautela no diagnóstico da obesidade, pois não reflete as diferenças entre massa magra e massa adiposa. Outro índice importante para o diagnóstico da obesidade é a distribuição de gordura, principalmente a localizada na região abdominal. A relação da circunferência da cintura e do quadril (RCQ) se associa positivamente com o risco de comorbidades. A literatura aponta que a circunferência abdominal é mais sensível para mensurar a gordura visceral do que a RCQ. De acordo com o National Cholesterol Education Program (NCEP) – Adult Treatment Panel III (ATP-III), o ponto de corte deve ser de 102 cm para homens e 88 cm para mulheres, enquanto a I Diretriz de Brasileira para Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica estabelece como ponto de corte para risco cardiovascular aumentado a medida de circunferência abdominal igual ou superior a 94 cm em homens e 80 cm em mulheres, considerando os critérios da Federação Internacional de Diabetes (apud Abeso, 2016). No quadro seguinte, podem-se verificar os principais pontos de corte para o diagnóstico da síndrome metabólica, sendo a medida da circunferência abdominal considerada um critério obrigatório. Quadro 6 – Critérios diagnósticos de síndrome metabólica em homens e mulheres Critério obrigatório Obesidade visceral (circunferência abdominal): medidas de circunferência abdominal conforme a etnia (cm) para H e M Outros critérios Mais 2 de 4 critérios Europídeos, sul-africanos, Mediterrâneo ocidental e Oriente Médio ≥ 94 cm (H) ≥ 80 cm (M) Triglicérides ≥ 150 mg/dl ou tratamento Japoneses ≥ 90 cm (H) ≥ 85 cm (M) HDL 99 mg/dl, o teste de tolerância à glicose é recomendado, mas não necessário para diagnóstico da síndrome metabólica Adaptado de: Abeso (2016, p. 17). 43 NUTRIÇÃO INTEGRADA Para uma intervenção nutricional adequada e eficiente, deve-se contemplar a avaliação dietética do indivíduo adulto. Existem diversos métodos para a avaliação dietética que têm por objetivo identificar hábitos e comportamentos de ingestão de alimentos. O método a ser usado dependerá do estado geraldo indivíduo, da evolução da condição clínica e dos motivos que motivam o sujeito a procurar atendimento nutricional (Ribeiro; Melo; Tirapegui, 2018). Geralmente, a avaliação dietética consiste em uma anamnese detalhada sobre os hábitos alimentares na qual se consideram informações como alergias, intolerâncias, preferências e aversões a alimento, horários e local das refeições, tipos de alimentos e preparações mais frequentes, adição de sal e açúcar simples, uso de adoçantes, condimentos, alimentos diferenciados (orgânicos, pre/probióticos) e outras informações relevantes que completem o universo alimentar do paciente (Rossi; Poltronieiri, 2019). O quadro seguinte apresenta os principais métodos de avaliação do consumo alimentar do paciente. Quadro 7 – Listagem dos principais métodos usados para avaliar o consumo alimentar do paciente Método Características Recordatório 24 horas Consiste em uma entrevista realizada na qual o entrevistado (ou o responsável) descreve o consumo de alimentos e bebidas nas últimas 24 horas ou no dia anterior à entrevista Diário alimentar ou registro alimentar São instrumentos para avaliação do consumo alimentar, nos quais se registra, em formulários específicos, o consumo de alimentos e bebidas ingeridos ao longo de um dia História alimentar Instrumento para avaliação do consumo alimentar que objetiva levantar o consumo habitual de um indivíduo durante um período longo (último mês ou ano) Questionário de frequência alimentar Instrumento desenvolvido para avaliar as características do padrão alimentar e a ingestão de alimentos e nutrientes específicos em relação a determinado período. É composto por uma lista de alimentos de acordo com o objetivo do estudo Adaptado de: Ribeiro, Melo e Tirapegui (2018). Para o planejamento alimentar de adultos, é comum utilizar as recomendações nutricionais estabelecidas pelas DRIs (Dietary Reference Intakes), que consistem nas referências constantemente atualizadas por comitês especializados em parceria entre o Institute of Medicine norte-americano e a agência Health Canada (Padovani et al., 2006). As DRIs devem ser usadas pelo nutricionista que está avaliando e planejando a dieta para assegurar que o aconselhamento dietético seja mais próximo das necessidades do paciente. 44 Unidade I Saiba mais Para mais informações sobre a composição das DRIs e as tabelas com os valores de referências de ingestão dietética, consulte: PADOVANI, R. M. et al. Dietary reference intakes: aplicabilidade das tabelas em estudos nutricionais. Revista de Nutrição, Campinas, v. 19, n. 6, p. 741-760, nov./dez. 2006. Disponível em: https://bityli.com/9RLFE2. Acesso em: 12 nov. 2021. Para obter os relatórios das DRIs mais atualizadas, acesse National Institutes of Health: NATIONAL INSTITUTES OF HEALTH. Nutrient recommendation: Dietary Reference Intakes (DRI). [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://bityli.com/WevXqX. Acesso em: 17 nov. 2021. Ao realizar o planejamento da dieta, além da adequação quantitativa do plano alimentar, o nutricionista deve considerar de forma abrangente a alimentação do paciente, respeitando as dimensões culturais, sociais, econômicas e políticas do indivíduo e também considerando os alimentos, suas combinações e preparações culinárias. O Guia alimentar para a população brasileira elaborado pelo Ministério da Saúde (Brasil, 2014b) deve ser o documento de referência para a orientação alimentar e nutricional, pois ele foi concebido considerando os estudos populacionais representativos da população brasileira, obedecendo os saberes e tradições da cultura alimentar (Rossi; Poltronieri, 2019). No quadro seguinte, encontram-se os dez passos para uma alimentação saudável preconizados pelo Guia alimentar da população brasileira (Brasil 2014b). Quadro 8 – Dez passos para uma alimentação saudável 1 Fazer de alimentos in natura ou minimamente processados a base da alimentação 2 Utilizar óleos, gorduras, sal e açúcar em pequenas quantidades ao temperar e cozinhar alimentos e criar preparações culinárias 3 Limitar o consumo de alimentos processados 4 Evitar o consumo de alimentos ultraprocessados 5 Comer com regularidade e atenção, em ambientes apropriados e, sempre que possível, em companhia 6 Fazer compras em locais que ofertem variedades de alimentos in natura ou minimamente processados 7 Desenvolver, exercitar e partilhar habilidades culinárias 8 Planejar o uso do tempo para dar à alimentação o espaço que ela merece 9 Dar preferência, quando fora de casa, a locais que servem refeições feitas na hora 10 Ser crítico quanto a informações, orientações e mensagens sobre alimentação veiculadas em propagandas comerciais Adaptado de: Brasil (2015a) 45 NUTRIÇÃO INTEGRADA 3.2 Estudo de caso – nutrição clínica. Temas para discussão: avaliação e diagnóstico nutricional de pessoas idosas; orientação/conduta nutricional para pessoas idosas desnutridas, eutróficas, com sobrepeso e obesas; conduta nutricional para as doenças relacionadas ao envelhecimento; suplementação de micronutrientes para essa população (indicações, doses e biodisponibilidade); programas de saúde para essa população Caso: considere que você é o nutricionista responsável por um projeto multidisciplinar para atendimento de pessoas idosas. Para que o projeto contemple todas as necessidades dessa faixa etária, o organizador solicitou um briefing para cada membro que compõe o projeto. Para atender à solicitação, você desenvolve seu trabalho seguindo quais etapas relacionadas a seguir? I – Caracterização da população envolvida. II – Verificação das alterações fisiológicas nessa faixa etária. III – Rastreio do risco nutricional, avaliação e diagnóstico nutricional. IV – Discussão com equipe de multiprofissional. Das etapas anteriores: A) Somente a etapa I será utilizada para confecção do briefing. B) Somente a etapa II será utilizada para confecção do briefing. C) Somente a etapa III será utilizada para confecção do briefing. D) Somente a etapa IV será utilizada para confecção do briefing. E) Todas as etapas são importantes e serão utilizadas para confecção do briefing. Resposta correta: alternativa E. Comentários e discussão: de acordo com o dicionário Aurélio online (Briefing, 2021), briefing consiste em um conjunto de informações que visam instruir a realização de uma tarefa. Assim, o trabalho a ser desenvolvido será apresentado e discutido com uma equipe de profissionais para que o atendimento das pessoas idosas assistidas pelo projeto seja eficiente. A orientação nutricional não pode ser uma ação isolada ao cuidado da pessoa idosa, mas deve compor um plano de cuidados que promova a sua qualidade de vida. A pessoa idosa apresenta um comportamento alimentar construído durante muitos anos, portanto o aconselhamento nutricional deve respeitar o histórico do paciente em relação à comida, seus hábitos alimentares e suas necessidades clínicas (Rossi; Poltronieri, 2019). 46 Unidade I O envelhecimento é um processo natural que promove diversas alterações no organismo, as quais refletirão na qualidade de vida do indivíduo. A Lei n. 10.741/2003 estabelece os artigos 1º e 2º do Estatuto da Pessoa Idosa: Art. 1º É instituído o Estatuto da Pessoa Idosa, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos. Art. 2º A pessoa idosa goza de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-lhe, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade (Brasil, 2003). O número de pessoas acima dos 60 anos no Brasil está em elevação. Esse fato não pode ser negligenciado pelos profissionais nutricionistas, considerando que essa fase da vida apresenta grande propensão ao risco de desenvolvimento de DCNTdevido a uma somatória de fatores que compreendem desde o estilo de vida e o próprio processo de envelhecimento biológico natural (Rossi; Poltronieri, 2019). Os fatores que afetam o estado nutricional da pessoa idosa e que requerem especial atenção para um planejamento dietético adequado para essa fase da vida estão listados a seguir (Campos-Castelli, 2000; Rossi; Poltronieri, 2019): • fatores socioeconômicos (perda da autonomia); • isolamento social; • diminuição da mobilidade e inatividade física; • alterações da capacidade sensorial (perda do olfato, paladar, visão, audição e tato); • anorexia do envelhecimento; • alterações do trato gastrointestinal (perda da capacidade mastigatória e diminuição de produção de saliva, hipocloridria, alterações na mucosa intestinal); • diminuição das funções metabólicas do fígado, pâncreas e rins; • alterações do sistema neurológico e cognitivo; • doenças inflamatórias e efeitos secundários aos medicamentos. Todos os fatores favorecem as alterações do estado nutricional e os agravos relacionados ao envelhecimento e, consequentemente, alteram as necessidades nutricionais da pessoa idosa. Por isso, 47 NUTRIÇÃO INTEGRADA a avaliação nutricional dessa população deve ser criteriosa, considerando a importância de verificar constantemente o risco nutricional. Uma das ferramentas utilizadas para o rastreio do risco nutricional é a Miniavaliação Nutricional (MAN®), desenvolvida especialmente para avaliar o risco nutricional em pessoas idosas. Essa ferramente consiste de 18 questões agrupadas em quatro domínios, que envolvem antropometria, avaliação global, avaliação dietética e avaliação subjetiva, cujos escores variam de 0 a 30 pontos e classificam a pessoa idosa como: • Desnutrida (≤ 17 pontos). • Com risco de desnutrição (17 a 23 pontos). • Sem risco de desnutrição (≥ 24 pontos). Saiba mais Para informações sobre a MAN® (questões, pontuação e critérios de classificação) e o documento Um guia para completar a Mini Avaliação Nutricional®, acesse: NESTLÉ NUTRITION INSTITUTE. Mini Nutritional Assessment MNA®. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://bityli.com/EB0e7N. Acesso em: 17 nov. 2021. NESTLÉ NUTRITION INSTITUTE. Um guia para completar a Mini Avaliação Nutricional®. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://bityli.com/rQhI1Q. Acesso em: 17 nov. 2021. Além da MAN®, é importante mensurar constantemente os valores das massas corporais por meio do IMC, que possui classificação específica para pessoas idosas de acordo com Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) do Ministério da Saúde: A classificação do estado nutricional de idosos, assim como a de adultos é realizada a partir do valor bruto de IMC. Porém para este estágio da vida são definidos dois pontos de corte distintos daqueles de adulto para o indicador de IMC (valores de IMC de 22,0 e 27,0), permitindo assim a seguinte classificação: — Valores de IMC menor ou igual a 22,0: idoso de baixo peso. — Valores de IMC maior que 22,0 e menor que 27,0: idoso com peso adequado (eutrófico). 48 Unidade I — Valores de IMC maior ou igual a 27,0: idoso com sobrepeso (Brasil, [s.d.]f). Vale lembrar, também, que nessa população muitas pessoas necessitam de cuidados especiais por estarem acamadas. Assim, para determinar o estado nutricional, utilizam-se equações diferenciadas apresentadas no quadro seguinte. Quadro 9 – Fórmulas para estimar peso e altura de indivíduos que não podem ser medidos em pé Altura Gênero Etnia Fórmulas Masculino Não hispânicos brancos 78,31 + (1,94 x altura do joelho) – (0,14 x idade) Não hispânicos negros 79,69 + (1,85 x altura do joelho) – (0,14 x idade) Mexicano-americanos 82,77 + (1,83 x altura do joelho) – (0,16 x idade) Feminino Não hispânicas brancas 82,21 + (1,85 x altura do joelho) – (0,21 x idade) Não hispânicas negras 89,58 + (1,61 x altura do joelho) – (0,17 x idade) Mexicano-americanas 84,25 + (1,82 x altura do joelho) – (0,26 x idade) Peso corporal Gênero Fórmulas Masculino (0,98 x circunferência da panturrilha) + (1,16 x altura do joelho) + (1,73 x CMB) + 0,37 x DCSE) – 81,69 Feminino (1,27 x circunferência da panturrilha) + (0,87 x altura do joelho) + (0,98 x CMB) + 0,4 x DCSE) – 62,35 Legenda: a altura do joelho é obtida com o indivíduo deitado e o joelho flexionado a 90º, a partir da sola do pé até a superfície superior do joelho; CMB = Circunferência muscular do braço; DCSE = Dobra cutânea subescapular Adaptado de: Chumlea et al. apud Rossi e Poltronieri (2019). O planejamento alimentar para as pessoas idosas deve seguir as orientações contidas no Guia alimentar para a população brasileira (Brasil, 2014b) no consumo de proteínas e alguns micronutrientes associados à saúde mental, como ácidos graxos ω3, vitaminas e minerais com propriedades antioxidantes, ácido fólico, vitamina B6, vitamina B12, vitamina D e, ainda, alimentos ricos em flavonoides e fibras alimentares (Rossi; Poltronieri, 2019). Uma alimentação equilibrada, quando bem conduzida pela pessoa idosa, não requer complementação com suplementos nutricionais farmacológicos, no entanto, o consumo de suplementos é uma prática comum entre as pessoas dessa fase da vida. Existem alguns trabalhos na literatura mostrando que suplementos polivitamínicos e minerais podem favorecer o excesso de vitamina A e provocar interações com outros nutrientes, impedindo sua absorção ou, ainda, provocando o aparecimento de doenças relacionadas à hiperdose. Assim, o ideal para prescrever algum suplemento nutricional para essa faixa etária é verificar a real necessidade por meio de exames bioquímicos e, se for o caso, prescrever somente os nutrientes necessários (Shils et al., 2009). 49 NUTRIÇÃO INTEGRADA 4 NUTRIÇÃO CLÍNICA PARA PACIENTES CRÍTICOS 4.1 Estudo de caso – nutrição clínica. Temas para discussão: equipe de terapia nutricional hospitalar. Avaliação e diagnóstico nutricional de pacientes críticos; prescrição dietética para doenças do trato digestório, trato pulmonar, sistema endócrino e renal, casos cirúrgicos, doenças imunossupressoras (câncer e quimio/radioterapia), nutrição enteral e parenteral Caso: você é o nutricionista recém-contratado por um hospital. Entre as diversas atribuições relacionada a seu cargo, está compor a Equipe Multiprofissional de Terapia Nutricional (EMTN) do hospital. O que se entende por EMTN e quais são seus objetivos? I – EMTN é um grupo formado por diversos profissionais, sendo os principais: médico, nutricionista, farmacêutico e enfermeiro. II – Os principais objetivos de uma EMTN são: identificar os pacientes com risco nutricional; realizar avaliação nutricional; fazer a prescrição da terapia nutricional; cuidar do monitoramento da evolução do paciente. III – A EMTN é um grupo secundário sem finalidade específica dentro de um ambiente hospitalar. Das afirmativas anteriores: A) Somente a afirmativa I está correta. B) Somente a afirmativa II está correta. C) Somente a afirmativa III está correta. D) As afirmativas I e II estão corretas. E) As afirmativas I e III estão corretas. Resposta correta: alternativa D. Comentários e discussão: a desnutrição em pacientes hospitalizados, principalmente os pacientes graves, é um problema comum revelado pelo Ibranutri-Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional em 1998. Durante a hospitalização, diversos fatores podem interceder no estado nutricional do paciente, interferindo na terapêutica clínica e piora de sua recuperação. Sabendo-se da diversidade e complexidade no tratamento hospitalar, foi estabelecido pela Portaria n. 272/1998 e a Resolução-RDC n. 63/2011 da Anvisa a implantação da EMTN e a adoção de protocolos de atendimento que visam facilitar a identificação do risco nutricional ou a presença de desnutrição e seus fatores de risco em pacientes hospitalizados. 50 Unidade I Saiba mais Para conhecer a Portaria n. 272/1998 da Anvisa, acesse: BRASIL. Portaria n. 272, de 8 de abril de 1998. Brasília, 1998. Disponível em: https://bityli.com/ZEF4Fi.Acesso em: 12 nov. 2021. Para conhecer a Resolução-RDC n. 63 da Anvisa, acesse: ANVISA. Resolução-RDC n. 63, de 25 de novembro de 2011. Dispõe sobre os Requisitos de Boas Práticas de Funcionamento para os Serviços de Saúde. Brasília, 2011. Disponível em: https://bityli.com/Mhy9UF. Acesso em: 12 nov. 2011. De acordo com a Portaria n. 272/1998 da Anvisa (1998), a terapia nutricional é definida como “conjunto de procedimentos terapêuticos para manutenção ou recuperação do estado nutricional do paciente por meio da Nutrição Parenteral e ou Enteral.” A nutrição enteral é definida pela Anvisa (Resolução-RDC n. 21/2015): Nutrição enteral: alimento para fins especiais industrializado apto para uso por tubo e, opcionalmente, por via oral, consumido somente sob orientação médica ou de nutricionista, especialmente processado ou elaborado para ser utilizado de forma exclusiva ou complementar na alimentação de pacientes com capacidade limitada de ingerir, digerir, absorver ou metabolizar alimentos convencionais ou de pacientes que possuem necessidades nutricionais específicas determinadas por sua condição clínica; Nutrição enteral fórmula padrão: fórmula para nutrição enteral que atende aos requisitos de composição para macro e micronutrientes estabelecidos com base nas recomendações para população saudável; Nutrição enteral fórmula modificada: fórmula para nutrição enteral que sofreu alteração em relação aos requisitos de composição estabelecidos para fórmula padrão para nutrição enteral, que implique ausência, redução ou aumento dos nutrientes, adição de substâncias não previstas nesta Resolução ou de proteínas hidrolisadas; IV – módulo para nutrição enteral: fórmula para nutrição enteral composta por um dos principais grupos de nutrientes: carboidratos, lipídios, proteínas, fibras alimentares ou micronutrientes (vitaminas e minerais) (Anvisa, 2015). 51 NUTRIÇÃO INTEGRADA De acordo com Cuppari (2014), existem duas situações para as quais a terapia nutricional enteral é indicada: • Quando houver risco de desnutrição, quando a ingestão oral for inadequada ou não conseguir prover as necessidades nutricionais diárias do indivíduo. • Quando o trato gastrointestinal estiver total ou parcialmente funcionante. Enquanto, a terapia nutricional parenteral (TNP) é indicada quando o trato gastrointestinal não estiver funcionante ou estiver obstruído ou inacessível (Cuppari, 2014), sendo que a definição de TNP foi estabelecida pela Portaria n. 272/1998 da Anvisa como: Nutrição Parenteral (NP): solução ou emulsão, composta basicamente de carboidratos, aminoácidos, lipídios, vitaminas e minerais, estéril e apirogênica, acondicionada em recipiente de vidro ou plástico, destinada à administração intravenosa em pacientes desnutridos ou não, em regime hospitalar, ambulatorial ou domiciliar, visando a síntese ou manutenção dos tecidos, órgãos ou sistemas (Anvisa, 1998). É importante considerar a via oral como a forma mais fisiológica para alimentação, e, na sua impossibilidade, indica-se a nutrição enteral quando o trato intestinal estiver total ou parcialmente funcionando; somente deve-se indicar a nutrição parenteral na impossibilidade de funcionamento do trato gastrintestinal. Para facilitar a decisão sobre o tipo de terapia nutricional mais indicada para o paciente, utiliza-se o algoritmo contido na figura seguinte. Suficiente + TNO Sim Sim TNENão Não TNP Dieta VO Sim Não TGI funcionante Suficiente Capacidade de ingestão via oral (IVO) Avaliar IVO de fatores mitogênicos e de crescimento e redução na produção de produtos nitrogenados tóxicos e íons inorgânicos característicos da uremia. A dieta hipoproteica favorece, ainda, a prevenção e o tratamento do hiperparatireoidismo secundário, acidose metabólica, intolerância à glicose, hipertensão arterial, hipercalemia e distúrbios eletrolíticos do paciente com problemas renais (Cuppari, 2014; Shils et al., 2009; Rossi; Poltronieri, 2019). O paciente cirúrgico é um caso especial para terapia nutricional, considerando que toda cirurgia pode ser entendida como um trauma: Entende-se por trauma como um evento agudo que altera a homeostase do organismo, desencadeando uma complexa resposta neuroendócrina e imunobiológica, cujos efeitos metabólicos e cardiorrespiratórios tendem a preservar algumas funções fundamentais para manter em valores apropriados os seguintes parâmetros: volemia, débito cardíaco, oxigenação tecidual, oferta e utilização de substratos energéticos (Cuppari, 2014, p. 349). Para estabelecer as necessidades nutricionais do paciente cirúrgico, utiliza-se a equação de Harris-Benedict (Shils et al., 2009), corrigindo-a com aplicação dos fatores de atividade, fator de estresse e fator térmico, conforme se apresenta no quadro 10. 54 Unidade I É importante, ainda, para esses pacientes, considerar que a quantidade de energia a ser ofertada pela dieta não deve ultrapassar 25 a 35 kcal/dia a fim de evitar efeitos deletérios relacionados à incapacidade de metabolização do indivíduo. Quantidades maiores de proteína não promovem melhora do quadro nutricional e, ainda, podem desencadear uremia. A suplementação com alguns aminoácidos mostra-se eficaz no aumento da síntese proteica e melhora da função imunológica. Os aminoácidos mais utilizados pelos artigos consultados são arginina e os aminoácidos de cadeia ramificada (valina, leucina e isoleucina) (Cuppari, 2014; Shils et al., 2009; Rossi; Poltronieri, 2019). Quadro 10 – Equação Harris-Benedict para estimativa da necessidade energética Gasto energético basal (GEB) Gênero Equação Masculino GEB = 66,473 + (13,7516 x peso) + (5,0033 x altura) – (6,755 x idade) Feminino GEB = 655,095 + (9,5634 x peso) + 1,8496 x altura) – (4,6756 x idade) Fatores de correção Fator de atividade Paciente acamado = 1,2 Paciente deambulando = 1,3 Fator de estresse Pós-operatório sem complicação = 1,0 Fratura de ossos longos = 1,15 a 1,3 Peritonite/sepse e câncer = 1,1 a 1,3 Infecção grave e trauma múltiplo = 1,2 a 1,4 Síndrome de disfunção múltipla de órgãos = 1,2 a 1,4 Queimados = 1,2 a 2,0 Fator térmico 38 ºC = 1,1 39 ºC = 1,2 40 ºC = 1,3 41 ºC = 1,4 Peso em kg; altura em cm; idade em anos Adaptado de: Cuppari (2014). A terapia nutricional ainda pode beneficiar os pacientes oncológicos desde a recuperação pós-tratamento até durante o processo de quimio/radioterapia, evitando a desnutrição ou sintomas relacionados à ingestão oral de alimentos. Recomenda-se que a terapia nutricional se inicie tão logo a doença seja diagnosticada (Cuppari, 2014; Shils et al., 2009; Rossi; Poltronieri, 2019). A intervenção nutricional no paciente oncológico deve ser individualizada, sendo que, invariavelmente, se utiliza alimentação oral e mais uma suplementação com módulos nutricionais que contém alguns nutrientes específicos, como glutamina, ácidos graxos ω3, coenzima Q-10, zinco e outros (Cuppari, 2014; Rossi; Poltronieri, 2019). 55 NUTRIÇÃO INTEGRADA Saiba mais Sugestão de leitura: CORRÊA, P. H.; SHIBUYA, E. Administração da terapia nutricional em cuidados paliativos. Revista Brasileira de Cancerologia, Rio de Janeiro, v. 53, n. 3, p. 317-323, 2007. Disponível em: https://bityli.com/cZ0JR5. Acesso em: 4 nov. 2021. 56 Unidade I Resumo Discutimos oito estudos de caso que proporcionaram a retomada de conceitos em UAN e nutrição clínica e suas aplicabilidades. Nos casos apresentados de UAN, procuramos contribuir com a discussão de temas relacionados a legislação, dimensionamento, jornada de trabalho, ergonomia, segurança alimentar, Sistema APPCC, planejamento de cardápios, PAT e a aplicação da sustentabilidade em restaurantes. Nos casos apresentados sobre nutrição clínica, procuramos demonstrar os principais conceitos relacionados a avaliação nutricional e recomendações nutricionais nos vários momentos da vida considerando suas implicações. Nesse item, foram trabalhadas, também, informações relevantes quanto à terapia nutricional em diversas situações de saúde, como paciente crítico, oncológico ou com doenças renais, pulmonares e do trato gastrointestinal. Por fim, procuramos destacar a importância das ações do nutricionista desde a confecção da alimentação para uma população saudável até sua participação na recuperação e manutenção da saúde. 57 NUTRIÇÃO INTEGRADA Exercícios Questão 1. Uma Unidade de Alimentação e Nutrição (UAN) corresponde a um conjunto de áreas que visa a operacionalizar o provimento nutricional de coletividades: trata-se de um serviço organizado, que inclui uma sequência e uma sucessão de ações destinadas a fornecer refeições balanceadas, que seguem padrões dietéticos e higiênicos, com o objetivo de atender às necessidades nutricionais dos clientes, respeitando os limites financeiros da instituição (Abreu; Spinelli; Pinto, 2013). Suponha que você tenha sido contratado(a) para planejar e administrar uma UAN da empresa Eletromais, que intenciona aderir ao Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), um programa do Governo Federal que, por meio de incentivos fiscais, pretende que as empresas melhorem a nutrição dos trabalhadores. A Eletromais produz componentes eletrônicos e quer montar uma UAN com capacidade para distribuir 1.380 refeições por dia (café da manhã e almoço) de segunda-feira a sábado. Com base no exposto, assinale a alternativa que mostra corretamente a quantidade de funcionários fixos necessários para o serviço de alimentação da Eletromais. A) De 100 a 110 funcionários. B) De 85 a 94 funcionários. C) De 61 a 67 funcionários. D) De 40 a 46 funcionários. E) De 23 a 26 funcionários. Resposta correta: alternativa E. Análise da questão Assumimos que a jornada de trabalho de cada funcionário seja de 8 horas. Como 1 hora equivale a 60 minutos, tal jornada corresponde a 480 minutos. Logo, temos: 480 minutos/dia/funcionário. O tempo que um funcionário leva para produzir uma refeição em UANs que servem de 1.300 a 2.500 refeições por dia varia de 8 a 9 minutos. 58 Unidade I Se um funcionário leva 8 minutos para produzir uma refeição, o Índice de Pessoal Fixo (IPF) é igual a 23, pois: IPF = 1.380 refeições x 8 minutos / 480 minutos/dia/funcionário = 23 Se um funcionário leva 9 minutos para produzir uma refeição, o Índice de Pessoal Fixo (IPF) é igual a 26, pois: IPF = 1.380 refeições x 9 minutos / 480 minutos/dia/funcionário = 26 Questão 2. O funcionograma é o esquema que ilustra as funções dos setores de uma Unidade de Alimentação e Nutrição (UAN), conforme esquematizado a seguir. Setor técnico – Função 1 – Compras e prestação de contas – Supervisão técnica – Treinamento dos colaboradores Setor de abastecimento – Função 2 – Previsão e controle de estoque – Controle de temperatura e de prazo de validade dos alimentos Unidade de alimentação e nutrição Setor de produção – Função 3 – Preparo dos alimentos – Distribuição dos alimentos Figura 7 Assinale a alternativa que mostra, respectivamente, as funções 1, 2 e 3 indicadas no funcionograma. A) Elaboração e análise de cardápios; recebimento e inspeção de mercadorias; elaboração de lista de alimentos para o preparo de cardápios. B) Recebimento e inspeção de mercadorias; elaboração e análise de cardápios; elaboração de lista de alimentos para o preparo de cardápios. C) Elaboração e análise de cardápios; elaboração de lista de alimentos para o preparo de cardápios; recebimento e inspeção de mercadorias. D) Recebimento e inspeção de mercadorias; elaboração de lista de alimentospara o preparo de cardápios; elaboração e análise de cardápios. E) Elaboração de lista de alimentos para o preparo de cardápios; recebimento e inspeção de mercadorias; elaboração e análise de cardápios. Resposta correta: alternativa A. 59 NUTRIÇÃO INTEGRADA Análise da questão As funções do setor técnico de uma UAN são as listadas a seguir. • Elaboração e análise de cardápios. • Realização de compras e prestação de contas. • Realização de treinamentos dos colaboradores. • Realização de supervisão técnica. As funções do setor de abastecimento de uma UAN são as listadas a seguir. • Recebimento e inspeção de mercadorias. • Realização de previsão e de controle de estoque. • Realização de controle de temperatura e de prazo de validade dos alimentos armazenados. As funções do setor de produção de uma UAN são as listadas a seguir. • Elaboração de lista de alimentos para o preparo do cardápio. • Preparo dos alimentos. • Distribuição dos alimentos.para essa população ................. 79 7 NUTRIÇÃO ESCOLAR ...................................................................................................................................... 85 7.1 Estudo de caso – temas para discussão: atenção nutricional na merenda escolar (planejamento de cardápio, sistema de compras, treinamento de merendeiras), recomendação nutricional e educação nutricional para crianças em fase escolar; legislação atual ............................................................................................................................................. 85 8 NUTRIÇÃO NO ESPORTE ............................................................................................................................... 90 8.1 Estudo de caso – nutrição esportiva. Temas para discussão: avaliação e orientação/conduta nutricional para o atleta e o desportista amador; suplementação de nutrientes ................................................................................................................................................. 90 7 APRESENTAÇÃO Esta disciplina promove a integração e correlação técnico-científica das disciplinas do curso de Nutrição e o desenvolvimento de habilidades para a atuação prática do profissional, possibilitando-o atuar de forma global, interdisciplinar e multiprofissionalmente. Ela tem por objetivos promover a percepção crítica do aluno para a atuação do nutricionista em todas as áreas da nutrição e formar um profissional com autonomia intelectual, que facilite sua inclusão profissional e/ou acadêmica no mercado. Para tanto, pretende-se: • capacitar o aluno para identificar e atuar na promoção, proteção e recuperação da saúde de indivíduos e coletividades, integrando as diversas áreas das ciências; • propiciar a integração multidisciplinar, bem como o trabalho interdisciplinar e transdisciplinar; • habilitar o aluno na aprendizagem do reconhecimento de doenças nutricionais; • revisar o papel do nutricionista no interior da política nacional de saúde. • aplicar a prática dos conhecimentos teóricos e habilidades adquiridas nas disciplinas relacionadas à administração em Unidades de Alimentação e Nutrição (UANs), capacitando o aluno para a atuação em todas as etapas envolvidas na administração dos diferentes tipos de UANs; • rever e aplicar conhecimentos sobre a constituição e propriedades dos alimentos e seu aproveitamento no organismo humano; • aprimorar as habilidades de percepção das linguagens envolvidas na leitura. A disciplina trabalha as competências necessárias para a prática do nutricionista com a integração interdisciplinar e multiprofissional nas principais áreas de atuação: • planejar, organizar, dirigir, supervisionar e avaliar os serviços de alimentação e nutrição, dimensionando equipes profissionais, espaço físico e ergonomia em UAN; • prestar assistência nutricional e dietoterápica; • promover educação nutricional; • planejar, coordenar, supervisionar e avaliar estudos dietéticos; • prescrever suplementos nutricionais; • solicitar exames laboratoriais; 8 • prestar assistência e treinamento especializado em alimentação e nutrição às coletividades e a indivíduos, sadios e enfermos, em instituições públicas e privadas, em consultório de nutrição e dietética e em domicílio; • conhecer e atuar em programas de saúde pública pertinentes ao combate à fome, atenção primária da saúde, programas de saúde para as diversas populações e alimentação escolar. INTRODUÇÃO Este livro-texto tem a intenção de contribuir de forma qualitativa com a formação do graduando em Nutrição. O objetivo principal é que o aluno tenha acesso a estudos de caso comentados que contribuam para integrar os diversos conteúdos trabalhados durante as aulas teóricas, favorecendo a construção do conhecimento pleno. A discussão se inicia com conceitos aprendidos sobre gerenciamento de UANs, tais como dimensionamento de pessoal e físico, jornada de trabalho, planejamento de cardápios e outras atividades pertinentes a essa área de atuação. A gestão de unidades de alimentação é uma atividade dinâmica que envolve conceitos de outras áreas do saber, como administração e gestão de recursos humanos, podendo ser cozinhas destinadas para uma coletividade específica, como restaurantes industriais e hospitais, bem como para cozinhas de restaurantes comerciais. Em seguida, serão trabalhados conceitos importantes para a condução de avaliação, o diagnóstico e a orientação nutricional para as diversas fases da vida e doenças mais comuns, ressaltando a participação do nutricionista na equipe de terapia nutricional nos hospitais e na prescrição e monitoramento de pacientes com nutrição enteral e parenteral. Posteriormente, serão apresentados os conceitos sobre a atuação do nutricionista em saúde pública com foco na atenção primária básica e os diversos programas de saúde para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil nas diversas fases da vida. Finalizando, serão abordados conceitos que envolvem avaliação e conduta nutricional para atletas e desportos, uma atividade do nutricionista em evidência no Brasil e no mundo. Espera-se que ao final do livro-texto, o aluno consiga integrar os diversos conceitos da ciência da nutrição para o desenvolvimento de sua atividade laboral de forma segura e eficaz. 9 NUTRIÇÃO INTEGRADA Unidade I 1 UNIDADE DE NUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO Organizar e administrar uma UAN é uma atividade que requer esforço colaborativo com interesses comuns, para que os objetivos da empresa sejam atingidos com eficácia e economia de ação e recursos. Esse conceito é aplicável em qualquer tipo ou tamanho de organização, seja ela industrial ou prestadora de serviços. Dependendo do quadro de pessoal e da distribuição de tarefas, o nutricionista responsável técnico de uma UAN poderá definir, eficientemente, as necessidades nutricionais de sua clientela, estabelecer padrões, planejar cardápios, analisar índices de aceitação e sobras, enfim, executar atividades técnicas pertinentes ao cargo (Teixeira et al., 2007). Os estudos de caso 1.1, 1.2 e 1.3 abordam conceitos sobre a área de conhecimento em gestão de UAN. 1.1 Estudo de caso – UAN. Temas para discussão: dimensionamento de pessoal; jornada de trabalho; dimensionamento físico; ergonomia; legislação Caso: você foi contratado para planejar e administrar uma UAN para uma empresa que pretende aderir ao Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). A empresa fabrica peças automotivas e tem por objetivo estruturar uma UAN com capacidade para distribuir 1600 refeições/dia (café da manhã e almoço) de segunda-feira a sábado. Qual o número de funcionários fixos necessários para esse setor? A) Serão necessários, aproximadamente, 50 a 55 funcionários fixos para o serviço de alimentação da indústria. B) Serão necessários, aproximadamente, 25 a 29 funcionários fixos para o serviço de alimentação da indústria. C) Serão necessários, aproximadamente, 27 a 30 funcionários fixos para o serviço de alimentação da indústria. D) Serão necessários, aproximadamente, 35 a 40 funcionários fixos para o serviço de alimentação da indústria. E) Serão necessários, aproximadamente, 33 a 35 funcionários fixos para o serviço de alimentação da indústria. Resposta correta: alternativa C. 10 Unidade I Comentários e discussão: considerando que a jornada de trabalho seja de 8 horas, são necessários 480 minutos/dia/pessoa. Baseando-se na tabela 1 (“Número de minutos necessários para produzir uma refeição”, na sequência), que estabelece o tempo de 8 a 9 minutos para produzir uma refeição em UANs, as quais servem de 1300 a 2500 refeições/dia, considerando o Índice de Pessoal Fixo - IPF: • IPF = 1600 refeições x 8 minutos/480 minutos/dia/pessoa = 27 • IPF = 1600 refeições x 9 minutos/480 minutos/dia/pessoa = 30 Vale ressaltar que o IPF reflete apenas um número como ponto de partida, pois pode sofrer alterações para mais ou para menos considerandoos seguintes fatores: tipo de serviço (self-service, bandeja, transportada); tipo de cardápio (básico, sofisticado, misto-básico/sofisticado); equipamentos e instalações da cozinha. A Unidade de Alimentação e Nutrição (UAN) é um conjunto de áreas com o objetivo de operacionalizar o provimento nutricional de coletividades. Consiste em um serviço organizado, compreendendo uma sequência e sucessão de atos destinados a fornecer refeições balanceadas dentro dos padrões dietéticos e higiênicos, visando, assim, atender às necessidades nutricionais de seus clientes, de modo que ajuste aos limites financeiros da Instituição (Abreu; Spinelli; Pinto, 2013, p. 13). De acordo com a Resolução CFN n. 600/2018 do Conselho Federal de Nutrição (CFN) (2018), as UANs compreendem os segmentos: • Unidades de alimentação e nutrição institucionais públicas e privadas, com os subsegmentos: serviços de alimentação coletiva (autogestão e concessão) em empresas e instituições, hotéis, hotelaria marítima, comissarias, unidades prisionais, clínicas em geral, hospitais-dia, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), SPAs clínicos, serviços de terapia renal substitutiva, instituições de longa permanência pessoas idosas e similares. • Alimentação e nutrição em ambiente escolar, com os subsegmentos: Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE); Alimentação e Nutrição em Ambiente Escolar (rede privada de ensino). • Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), com os subsegmentos: empresas fornecedoras de alimentação coletiva (produção de refeições – autogestão e concessão); empresas prestadoras de serviços de alimentação coletiva (refeição-convênio); empresas fornecedoras de alimentação coletiva (cestas de alimentos). • Serviço comercial de alimentação, com os subsegmentos: restaurantes comerciais e similares; bufê de eventos; serviço ambulante de alimentação. 11 NUTRIÇÃO INTEGRADA Dada a extensa diversidade dos setores em envolvem a área de atuação do nutricionista em UAN e considerando que essas unidades devem ser áreas planejadas e gerenciadas de acordo com fluxograma de produção de alimentos que garantem a produção e distribuição de produtos com qualidade higiênico-sanitária, a percepção de todos os problemas técnicos-operacionais torna-se uma tarefa árdua, necessitando da capacitação do profissional para que ele tenha uma visão mais aprimorada para as atividades desse segmento. A variedade de tarefas, a concomitância de atividades, o imediatismo de processos e de produtos, a larga lista de insumos para cada atividade, a heterogeneidade de hábitos e a necessidade de constantes treinamentos e adequação dos colaboradores tornam a rotina de uma UAN um contexto complexo (Muttoni, 2017). Uma administração eficiente compreende, de acordo com Muttoni (2017): • capacidade administrativa de produzir o máximo de resultado com o mínimo de recursos, energia e tempo; • capacidade de produzir o máximo com o mínimo de desperdício; • produtividade operacional; • eficácia relacionada à racionalidade/produtividade (ação, força, virtude de produzir). O nutricionista que atua em UAN deve estar ciente das legislações mais importantes e pertinentes a essa área de atuação, por exemplo: • Resolução CFN n. 600/2018: “Dispõe sobre a definição das áreas de atuação do nutricionista e suas atribuições, indica parâmetros numéricos mínimos de referência, por área de atuação, para a efetividade dos serviços prestados à sociedade e dá outras providências” (CFN, 2018). • Portaria CVS 5/2013: “Aprova o regulamento técnico sobre boas práticas para estabelecimentos comerciais de alimentos e para serviços de alimentação, e o roteiro de inspeção” (São Paulo, 2013). Saiba mais Acesse os links a seguir. CFN. Resoluções. Brasília, [s.d.]. Disponível em: https://bityli.com/vptUIH. Acesso em: 12 nov. 2021. SÃO PAULO (Estado). Portaria CVS 5, de 9 de abril de 2013. Aprova o regulamento técnico sobre boas práticas para estabelecimentos comerciais de alimentos e para serviços de alimentação, e o roteiro de inspeção, anexo. São Paulo, 2013. Disponível em: https://bityli.com/2zZyP2. Acesso em: 4 nov. 2021. 12 Unidade I Cabe ao nutricionista/gestor realizar o cálculo para dimensionamento de pessoal considerando o número de refeições servidas, a modalidade de refeição, a qualidade de serviço, o padrão de cardápio, a jornada de trabalho e o nível tecnológico dos equipamentos e serviços (Abreu; Spinelli; Pinto, 2013; Mezzomo, 2015; Teixeira et al., 2007). Para Mezzomo (2015), o cálculo para a determinação de número de funcionários para UANs de unidades hospitalares deverá estar de acordo com o número de leitos, o número de funcionários e ainda o número de refeições diárias servidas no hospital. Existem vários índices para estimar o número de funcionários de um hospital, contudo eles variam entre 1,5 a 4 funcionários por número de leitos, considerando uma jornada de trabalho de 44 horas semanais, sendo que a partir do valor total de funcionários, recomenda-se 10 a 15% para o serviço de UAN (Teixeira et al., 2007). Para UANs não hospitalares, recomenda-se o cálculo de pessoal baseado no tempo gasto para produzir, higienizar e distribuir uma refeição, segundo uma estimativa de número de refeições servidas por dia (Teixeira et al., 2007), conforme apresentado na tabela seguinte. Tabela 1 – Número de minutos necessários para produzir uma refeição Número de refeições Número de minutos 300 500 15 14 500 700 14 13 700 1.000 13 10 1.000 1.300 10 9 1.300 2.500 9 8 2.500 ou mais 7 Fonte: Gandra e Gambardela apud Teixeira et al. (2007, p. 156). Para o cálculo do número de refeições/dia, considera-se almoço e jantar de refeição noturna. A partir do número de refeições/dia e com o conhecimento da jornada de trabalho, a jornada média a ser identificada no serviço deve ser ponderada, considerando que há diferentes jornadas de trabalho entre os funcionários de uma unidade. Assim, o número de minutos necessários para produzir uma refeição mostrará o número de pessoal fixo de uma UAN (Teixeira et al., 2007). Exemplo de aplicação Se a jornada média de trabalho for de 480 minutos/dia (8 horas/dia), o número de pessoal fixo necessário para produzir 1.000 refeições/dia (10 minutos/dia) em uma UAN será: IPF (Índice de Pessoal Fixo) = 1000 X 10 min./480 min. = 20 funcionários fixos 13 NUTRIÇÃO INTEGRADA Saiba mais Mais informações sobre a operacionalização do PAT, acesse a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho: BRASIL. Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). Brasília, [s.d.]. Disponível em: https://bityli.com/nm5MzT. Acesso em: 16 nov. 2021. O CFN dispõe as diretrizes sobre a responsabilidade técnica do PAT. Acesse o link a seguir. CFN. Alimentação do trabalhador (PAT). Brasília, 3 abr. 2015. Disponível em: https://bityli.com/7iSF30. Acesso em: 12 nov. 2021. Estrutura física A função primordial de um nutricionista/gestor em uma UAN é a tomada de decisão, por isso o planejamento é um processo com características específicas que o auxiliam a atingir seus objetivos (Mezzomo, 2015). A elaboração de organogramas, funcionogramas e fluxogramas em uma UAN corroboram para a gestão eficiente, pois esses instrumentos tornam claras as divisões das unidades administrativas, a delegação de autoridades entre as unidades e suas respectivas funções (Teixeira et al., 2007). Entende-se por organograma a representação gráfica da organização formal de uma unidade empresarial. Existem diversos tipos de organograma, desde os clássicos, os de setores e os de barra. Cada um deles apresenta uma funcionalidade caracterizando os graus de hierarquia e poderes para a tomada de decisão. Os organogramas mais comuns são os clássicos, pois eles formalizam o grau de hierarquia e subordinação (Muttoni, 2017), como exemplificado na figura seguinte. Técnico de nutrição Chef de cozinha Nutricionista Auxiliar de limpeza Auxiliar de cozinhaCopeiro Cozinheiro Figura 1 – Exemplo um organograma clássico deuma UAN 14 Unidade I Além do organograma, há outro elemento gráfico importante que evidencia as atividades da unidade, o chamado funcionograma. O funcionograma é, portanto, a representação gráfica das funções, de forma estativa, respeitando a estrutura delineada pelo organograma. Tem por objetivo demonstrar detalhadamente as principais atividades desempenhadas em cada setor do organograma, justificando sua existência. Assim, o funcionograma é o gráfico que retrata as funções delineadas pelo organograma (Abeu; Spinelli; Pinto, 2013), como exemplificado na figura seguinte. Setor de abastecimento — Recebimento e inspeção de mercadorias — Previsão e controle de estoque — Controle de temperatura e prazos de validade de alimentos armazenados Setor de produção — Elaboração da lista de alimentos para o preparo do cardápio — Pré-preparo e preparo dos alimentos — Distribuição dos alimentos Setor técnico — Elaboração e análise de cardápios — Compras e prestação de contas — Treinamentos dos colaboradores — Supervisão técnica Unidade de alimentação e nutrição Figura 2 – Exemplo de um funcionograma de uma UAN O fluxograma é a representação dos caminhos (fluxos de serviços) com o objetivo de evitar cruzamentos indevidos que podem favorecer atrasos na execução das atividades, contaminação dos alimentos e acidentes de trabalho. Em uma UAN, os setores de abastecimento, preparo, distribuição e descarte de resíduos constituem um considerável problema, dado o volume de operações a serem efetuadas concomitantemente. Assim, o fluxograma disciplina e facilita as operações no setor (Mezzomo, 2015), exemplificado na figura seguinte: 4 - Controle de qualidade e vencimento 5 - Alimentação do sistema computacional de estoque 1 - Recebimento de gêneros 6 - Retirada das mercadorias de acordo com o cardápio do dia 2 - Inspeção da mercadoria (aspectos gerais e temperatura) recebida 7 - Checklist para previsão de compras e controle de notas 3 - Organização nas prateleiras, gôndolas e câmaras frias. Figura 3 – Exemplo de um fluxograma do setor de estoque uma UAN Além do estabelecimento das características e das relações funcionais do setor de alimentação, o planejamento da estrutura física também auxilia na gestão eficiente. O planejamento físico é voltado para cooperar com a melhor utilização dos recursos humanos, com maior racionalização das funções e, consequentemente, menor fadiga (Teixeira et al., 2007). 15 NUTRIÇÃO INTEGRADA Existem vários aspectos a serem considerados no planejamento físico, como localização, configuração geométrica, material de revestimento de paredes/tetos/pisos, iluminação, ventilação, dissipação do vapor, umidade, sonorização, tamanho de divisórias/portas/janelas, instalações hidráulicas, instalações elétricas, instalações mecânicas/equipamentos, suprimento de gás e outros. É importante considerar todos os elementos que interferem diretamente no pré-preparo, na produção e na distribuição (Teixeira et al., 2007; Mezzomo, 2015). Um planejamento físico respaldado no conhecimento das características específicas do funcionamento das UANs, além de economia de movimentos e evidente racionalização das ações, poderá evitar fatores negativos de operacionalização, dentre os quais: interrupções no fluxo de operações, cruzamentos desnecessários de gêneros e funcionários, má utilização de equipamentos, limitação no planejamento de cardápio por falta de equipamentos apropriados, equipamentos ociosos ou mal localizados causando congestionamento na circulação, ocorrência de filas, por falta de dimensionamento e localização dos pontos de distribuição, deficiência no sistema de ventilação e, inclusive, aumento de custos (Teixeira et al., 2007, p. 81). Ainda compete ao gestor de uma UAN, além de planejamento e organização funcional, a função de administrador de recursos humanos, sendo responsável, geralmente, pela seleção de pessoal, descrição de funções, aperfeiçoamento da mão de obra, desenvolvimento das capacidades individuais, avaliação de desempenho, determinação de normas e de segurança do trabalho (Abreu; Spinelli; Pinto, 2013). Por conseguinte, as ações a serem realizadas para uma organização de pessoal adequada impõem proatividade, antecipando-se nas decisões para prevenir desvios comportamentais e de desempenho profissionais que podem prejudicar a qualidade do serviço prestado. Saiba mais Sugestão de leitura complementar: CAMPOS, J. R.; IKEDA, V.; SPINELLI, M. G. N. Otimização de espaço físico em unidade de alimentação e nutrição (UAN) considerando avanços tecnológicos no segmento de equipamentos. Revista Univap, São José dos Campos, v. 18, n. 32, p. 31-41, dez. 2012. Disponível em: https:// bityli. com/ dTHHxq. Acesso em: 4 nov. 2021. Basta acessar o link e baixar o arquivo. 16 Unidade I Em uma UAN, a qualidade do serviço está associada a fatores como valor nutricional dos alimentos, qualidades higiênico-sanitárias, relação cliente-fornecedor e preço de produção dos alimentos. De acordo com Akutsu et al. (2005, p. 421): A qualidade é aquilo que satisfaz o cliente, e o controle de qualidade é a manutenção dos produtos e serviços dentro dos níveis de tolerância aceitáveis para o consumidor ou comprador. Desse modo, para avaliar a qualidade de um produto alimentar, deve ser mensurado o grau em que o produto satisfaz os requisitos específicos, sendo que esses níveis de tolerância e requisitos se expressam por meio de normas, padrões e especificações. No setor de alimentação, a qualidade de produção significa competência e profissionalismo e, sobretudo, sobrevivência no mercado. A cadeia de produção de alimentos compreende desde a produção de matérias ao preparo e distribuição dos alimentos prontos para o consumo, por isso o controle de qualidade em uma UAN deve assegurar a qualidade e inocuidade dos produtos oferecidos (Silva Júnior, 2014). Frente a isso, o estudo de caso seguinte oferece temas para discussão sobre as principais ferramentas de controle de qualidade na produção e distribuição de alimentos. 1.2 Estudo de caso – UAN. Temas para discussão: segurança alimentar (higiene e legislação, Manual de Boas Práticas); sistema APPCC Caso: a UAN pela qual você é responsável técnico foi notificada sobre um surto de doenças gastrointestinais em seus colaboradores cujos sintomas são dores abdominais intensas seguidas de diarreia. Considerando que sua UAN fornece 1.600 refeições/dia e possui 30 colaboradores, sendo que destes, 10 pessoas já foram acometidas, você, junto à equipe de serviço médico do local, iniciou um estudo epidemiológico para verificar a procedência do problema e eliminá-lo. Para tanto, é importante que a equipe destacada para estudo estabeleça: I – O agente etiológico, sua ecologia e mecanismos de transmissão. II – Ambientes favoráveis para a propagação do agente. III – Doença, tratamento e prevenção. IV – Elaboração ou revisão de Manual de Boas Práticas. V – Fechamento da UAN. 17 NUTRIÇÃO INTEGRADA Das afirmativas anteriores: A) As afirmativas I, II, III e IV. B) As afirmativas II, III, IV e V. C) Somente as afirmativas III e IV. D) Somente as afirmativas IV e V. E) Somente a afirmativa V. Resposta correta: alternativa A. Comentários e discussão: considerando a origem microbiológica do problema apresentado, devemos relembrar que existem diversos tipos de microorganismos que se proliferam nos alimentos, alguns podem ser benéficos para a saúde, como é o caso de alguns fungos usados na fabricação de queijos, tipo gorgonzola, outros microorganismos podem trazer prejuízo à saúde do homem em maior ou menor grau, dependendo de suas características biológicas, condições ideais para sua proliferação. Fatores como a forma de estocagem dos alimentos podem favorecer meio ótimo para proliferação de microorganismos patogênicos que podem causar doenças em graus variados e, até mesmo, a morte do ser humano. Para controle e prevenção de problemas sanitários em uma UAN,é importante aplicar medidas preventivas de conduta e elaboração e atualização constante do Manual de Boas Práticas de Manipulação e Processamento de Alimentos, além da aplicação do sistema Análise de Perigos e Determinação de Pontos Críticos de Controle (APPCC ou HACCPP). O fechamento da UAN não resolve o problema, uma vez que é muito importante a descoberta de sua origem, pois isso poderia levar ao desenvolvimento de medidas saneadoras com o intuito de evitar que o problema retorne no futuro e que não haja prejuízo para a organização, garantindo sua posição no mercado. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS), existem algumas regras fundamentais para a proteção e preservação dos alimentos (apud Abreu; Spinelli; Pinto, 2013): • escolher os alimentos processados quanto à segurança; • cozinhar completamente os alimentos; • consumir imediatamente os alimentos cozidos; • armazenar com cuidado os alimentos cozidos; • reaquecer completamente os alimentos cozidos que foram armazenados; • evitar contato entre alimentos crus e cozidos; 18 Unidade I • lavar as mãos repetidamente durante todo o período de manipulação dos alimentos; • manter as superfícies da cozinha meticulosamente limpas; • proteger os alimentos de insetos, roedores e outros animais; • usar água limpa para cozinhar e higienizar a cozinha. Há vários instrumentos utilizados no controle de qualidade para a produção e distribuição de alimentos. Os mais utilizados são o Manual de Boas Práticas para Fabricação de Alimentos; Padrões e Procedimentos Operacionais de Sanitização (PPOS/SSOP); Sistema de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), conhecido internacionalmente como Hazard Analysis and Critical Control Point System-HACCP (Abreu; Spinelli; Pinto, 2013). A elaboração e adoção de um Manual de Boas Práticas favorecem a atualização constante de procedimentos para compra de matérias-primas, seleção de fornecedores, transporte, armazenagem de alimentos perecíveis e não perecíveis, treinamento dos colaboradores para as fases de pré-preparo, preparo, controle de restos, higiene e sanitização na manipulação de alimentos. Para a elaboração do Manual de Boas Práticas, é necessário o conhecimento da legislação relacionada ao controle higiênico-sanitário dos alimentos (Abreu; Spinelli; Pinto, 2013). Entre as legislações, citam-se a Resolução n. 216/2004 e a Portaria CVS 5/2013, apresentadas no quadro seguinte. Quadro 1 – Definições da Resolução n. 216/2004 no Regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviços e Alimentação Alimentos preparados Alimentos manipulados e preparados em serviços de alimentação, expostos à venda embalados ou não, subdividindo-se em três categorias: — Alimentos cozidos, mantidos quentes e expostos ao consumo — Alimentos cozidos, mantidos refrigerados, congelados ou à temperatura ambiente, que necessitam ou não de aquecimento antes do consumo — Alimentos crus, mantidos refrigerados ou à temperatura ambiente, expostos ao consumo Antissepsia Operação que visa a redução de microrganismos presentes na pele em níveis seguros, durante a lavagem das mãos com sabonete antisséptico ou por uso de agente antisséptico após a lavagem e secagem das mãos Boas práticas Procedimentos que devem ser adotados por serviços de alimentação a fim de garantir a qualidade higiênico-sanitária e a conformidade dos alimentos com a legislação sanitária Contaminantes Substâncias ou agentes de origem biológica, química ou física, estranhos ao alimento, que sejam considerados nocivos à saúde humana Controle integrado de vetores e pragas urbanas Sistema que incorpora ações preventivas e corretivas destinadas a impedir a atração, o abrigo, o acesso e/ou a proliferação de vetores e pragas urbanas que comprometam a qualidade higiênico-sanitária do alimento Desinfecção Operação de redução, por método físico e ou agente químico, do número de microrganismos em nível que não comprometa a qualidade higiênico-sanitária do alimento 19 NUTRIÇÃO INTEGRADA Higienização Operação que compreende duas etapas: a limpeza e a desinfecção Limpeza Operação de remoção de substâncias minerais e/ou orgânicas indesejáveis, como terra, poeira, gordura e outras sujidades Manipulação de alimentos Operações efetuadas sobre a matéria-prima para obtenção e entrega ao consumo do alimento preparado, envolvendo as etapas de preparação, embalagem, armazenamento, transporte, distribuição e exposição à venda. Manipuladores de alimentos Qualquer pessoa do serviço de alimentação que entra em contato direto ou indireto com o alimento Manual de Boas Práticas Documento que descreve as operações realizadas pelo estabelecimento, incluindo, no mínimo, os requisitos higiênico-sanitários dos edifícios, a manutenção e higienização das instalações, dos equipamentos e dos utensílios, o controle da água de abastecimento, o controle integrado de vetores e pragas urbanas, a capacitação profissional, o controle da higiene e saúde dos manipuladores, o manejo de resíduos e o controle e garantia de qualidade do alimento preparado Medida de controle Procedimento adotado com o objetivo de prevenir, reduzir a um nível aceitável ou eliminar um agente físico, químico ou biológico que comprometa a qualidade higiênico-sanitária do alimento Produtos perecíveis Produtos alimentícios, alimentos in natura, produtos semipreparados ou produtos preparados para o consumo que, pela sua natureza ou composição, necessitam de condições especiais de temperatura para sua conservação Registro Consiste em anotação em planilha e/ou documento, apresentando data e identificação do funcionário responsável pelo seu preenchimento Resíduos Materiais a serem descartados, oriundos da área de preparação e das demais áreas do serviço de alimentação Saneantes Substâncias ou preparações destinadas à higienização, desinfecção ou desinfestação domiciliar, em ambientes coletivos e/ou públicos, em lugares de uso comum e no tratamento de água Serviço de alimentação Estabelecimento onde o alimento é manipulado, preparado, armazenado e/ou exposto à venda, podendo ou não ser consumido no local Procedimento Operacional Padronizado (POP) Procedimento escrito de forma objetiva que estabelece instruções sequenciais para a realização de operações rotineiras e específicas na manipulação de alimentos Adaptado de: Anvisa (2004). Os documentos oficiais regulamentadores publicados via Ministério da Saúde visam melhorar as condições higiênico-sanitária para a produção e distribuição de alimentos e para garantir um bom entrosamento entre a unidade produtora de alimentos e a fiscalização pela vigilância sanitária. Portanto, é obrigatória a presença de um profissional responsável técnico que se responsabilize pela elaboração de Manual de Boas Práticas de Manipulação e pela aplicação das técnicas de controle descritas no manual. Para Silva Júnior (2014) e Germano e Germano (2015), as boas práticas e os procedimentos operacionais padrão constituem pré-requisitos básicos para a implantação do sistema APPCC. Esses autores consideram que boas práticas consistem em: • controlar a saúde dos funcionários; • controlar a água para consumo; • controlar as pragas; 20 Unidade I • regras para visitantes; • controlar matérias-primas; • adequação estrutural do estabelecimento; • higiene pessoal, do ambiente e dos alimentos; • manipulação e processamento dos alimentos em todas as etapas de preparo (desde o recebimento de matérias-primas até a distribuição da refeição pronta). O Manual de Boas Práticas de Manipulação deve relatar a realidade dos procedimentos técnicos de produção dos alimentos e devem ser seguidos, concomitantemente, com os POPs (Procedimentos Operacionais Padronizados) de cada setor envolvido. Os POPs devem ser aprovados, datados e assinados pelo responsável técnico, responsável pela operação, responsável legal ou proprietário do estabelecimento, firmando compromisso de implementação, monitoramento, avaliação, registro emanutenção (Germano; Germano, 2015). A adoção de boas práticas e o POPs compreendem o controle higiênico das operações dentro de um serviço de alimentação. Porém, é importante também que se adotem medidas de controle de pontos críticos com ênfase no controle sanitário dos alimentos, como o sistema APPCC, o qual deve contemplar as seguintes etapas para sua elaboração, de acordo com Silva Júnior (2014): • formação da equipe APPCC – um grupo de profissionais que se responsabilize pelo desenvolvimento e implantação do sistema; • descrição dos produtos e ingredientes; • construção do fluxograma; • verificação do fluxograma in loco. Obedecendo os seguintes princípios: • Análise de perigos e medidas de controle. • Determinação dos pontos críticos de controle. • Definição dos limites de controle. • Realização da monitorização. • Ações corretivas. 21 NUTRIÇÃO INTEGRADA • Procedimento de verificação. • Procedimentos e planilhas de registro. Saiba mais Sugestão de leitura complementar: ALMEIDA, G. L.; COSTA, S. R. L.; GASPAR, A. A gestão da segurança dos alimentos em empresa de serviço de alimentação e os pontos críticos de controle dos seus processos. B. CEPPA, Curitiba, v. 30, n. 1, p. 135-146, jan./jun. 2012. Disponível em: https://bityli.com/1gYm4e. Acesso em: 12 nov. 2021. QUINTINO, S. S.; RODOLFO, D. Um estudo sobre a importância do APPCC – Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle – na indústria de alimentos. Interface Tecnológica, Taquaritinga, [s.d.] p. 196-207. Disponível em: https://bityli.com/2BA7bd. Acesso em: 12 nov. 2021. Além de um controle de qualidade rígido, que garantirá a produção e distribuição de alimentos dentro dos padrões higiênico-sanitárias ideais para a saúde, o responsável técnico de uma UAN enfrentará ainda outros desafios em sua atividade laboral, como elaboração de cardápios dentro dos padrões exigidos pelo PAT e obediência aos princípios da sustentabilidade ambiental, itens que vão ser debatidos no estudo de caso seguinte. Lembrete O Manual de Boas Práticas é um documento que visa reduzir o risco de contaminação dos alimentos, bem como diminuir as chances de proliferação de microrganismos patogênicos nos alimentos. 1.3 Estudo de caso – UAN. Temas para discussão: gestão de UAN (planejamento de cardápios, compras, estoque, contabilidade de custos); PAT; sustentabilidade na produção de refeições coletivas Caso: a empresa pela qual você é o responsável técnico do serviço de alimentação determina que todos os setores desenvolvam ações relacionadas à sustentabilidade com o objetivo de se tornar mais competitiva no mercado internacional, exigente quanto a um desenvolvimento sustentável. Em sua unidade, após levantamento de dados, ficou evidente que um dos pontos mais vulneráveis com relação à sustentabilidade é o resto-ingestão. O volume de resíduo orgânico (restos de alimentos) é muito elevado dependendo do cardápio do dia. Considerando que para a elaboração de cardápios, alguns 22 Unidade I fatores devem ser observados, como obediência às diretrizes do PAT; controle de custos; equipamentos disponíveis; hábitos alimentares da clientela, analise as afirmativas e assinale a alternativa mais coerente, considerando melhoria do resto-ingestão, visando um possível projeto de sustentabilidade a ser apresentado para a diretoria a qual pertence sua UAN: I – Fazer um levantamento junto aos clientes/consumidores sobre os alimentos preferidos e os rejeitados para elaborar cardápios, considerando somente alimentos preferidos pelos comensais. II – Modificar as diretrizes do PAT para que se possam elaborar cardápios somente com alimentos sabidamente preferidos pelos clientes/consumidores. III – Elaborar programa de educação nutricional objetivando o consumo consciente dos alimentos. Das afirmativas anteriores: A) Somente a afirmativa I. B) Somente a afirmativa II. C) Somente a afirmativa III. D) Somente as afirmativas I e II. E) Somente as afirmativas II e III. Resposta correta: alternativa C. Comentários e discussão: a educação nutricional é uma das diretrizes do PAT, que tem por objetivo melhorar a qualidade da alimentação do trabalhador, principalmente de baixa renda. Um projeto de educação nutricional sobre o consumo consciente contribui para a manutenção da saúde do trabalhador promovendo escolhas saudáveis e ingestão controlada de alimentos, o que contribui, substancialmente, para o incentivo de adoção de um estilo de vida saudável e sustentável, proporcionando a diminuição de DCNT e estimulando hábitos para melhorar as condições do meio ambiente. Elaborar cardápios considerando somente os alimentos preferenciais dos clientes, além de diminuir número de alimentos e preparações para a composição do cardápio, proporciona a monotonia do cardápio e o aumento de custos da unidade. Um parâmetro comum na elaboração de cardápios é o PAT, cujas diretrizes foram propostas desde seu surgimento em 1976, sofrendo algumas adequações ao longo do tempo, mas mantendo sempre os princípios de melhoria na qualidade alimentar dos trabalhadores. Os objetivos primários de uma UAN é fornecer uma alimentação saudável e segura para seu cliente. Primeiramente, deve-se assegurar as necessidades calóricas totais e a distribuição percentual em relação aos macronutrientes do cardápio. Para a obtenção dos valores de calorias totais, podem-se usar dados da 23 NUTRIÇÃO INTEGRADA população local (clientes), porém quando não é possível estimar ou calcular esses dados, o responsável técnico pode basear-se nas recomendações do PAT, que estipula um VET (valor energético total) de 2.000 kcal, considerando de 600 a 800 kcal para grandes refeições (almoço, jantar e ceia) – o que corresponde de 30% a 40% do VET diário –, e 300 a 400 kcal para o desjejum e lanches – correspondendo de 15% a 20% do VET diário (Teixeira et al., 2007). O Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) foi instituído pela Lei n. 6.321, de 14 de abril de 1976 e regulamentado pelo Decreto n. 5, de 14 de janeiro de 1991, que priorizam o atendimento aos trabalhadores de baixa renda, isto é, aqueles que ganham até cinco salários-mínimos mensais. Este Programa, estruturado na parceria entre Governo, empresa e trabalhador, tem como unidade gestora o Departamento de Segurança e Saúde no Trabalho da Secretaria de Inspeção do Trabalho (Brasil, [s.d.]d). Observação O primeiro programa de alimentação voltada para trabalhadores nasceu na Inglaterra no início dos anos 1950. O incentivo baseava-se em vouchers (papéis emitidos) pelas empresas em troca de incentivos fiscais. Essa iniciativa serviu de exemplo para outros países, entre eles, o Brasil, que criou o PAT. Na prática, o PAT oferece para as empresas que aderirem ao programa diversos benefícios e incentivos fiscais com o objetivo de garantir uma alimentação de qualidade ao trabalhador. Por meio desse programa, a empresa pode solicitar redução no imposto de renda em valor equivalente ao benefício fornecido ao trabalhador, como cestas básicas, vale-refeição, vale-compras e serviço de alimentação, bem como é possível obter isenção de alguns encargos sociais, considerando que investir na qualidade de vida dos seus colaboradores pode servir de estratégia para motivar e aumentar a produtividade. Saiba mais Um pouco mais sobre a evolução da alimentação para o trabalhador pode ser encontrada no seguinte texto: ARAÚJO, M. P. N.; COSTA-SOUZA, J.; TRAD, l. A. B. A alimentação do trabalhador no Brasil: um resgate da produção científica nacional. História, Ciência, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 17, n. 4, p. 975-992, out./dez. 2010. Disponível em: https://bityli.com/UaoclP. Acesso em: 12 nov. 2021. 24 Unidade I Ao planejar um padrão de cardápio, os hábitos alimentares dos clientes, obviamente, devem ser considerados. No entanto o cardápio também deve ser compatível com a disponibilidade financeira da empresa, disponibilidade dos gêneros no mercado, recursos humanos para confecção,distribuição e limpeza da unidade, disponibilidade da área destinada para a UAN e os equipamentos disponíveis no local, além de outros fatores, como clima da região em que se localiza a empresa, equilíbrio de cores de alimentos, repetição de alimentos e preparações e políticas de compras (Teixeira et al., 2007), contemplando, assim os princípios clássicos de Pedro Escudeiro (apud Abreu; Spinelli; Pinto, 2013): • Lei da quantidade: fornecer ao indivíduo a quantidade de alimentos necessárias ao funcionamento do organismo, preservação da espécie e manutenção da saúde. • Lei da qualidade: fornecer, diariamente, ao indivíduo a qualidade de nutrientes necessária ao organismo, considerando, ainda, o grau de maturação e conservação e as condições de consumo dos alimentos. • Lei da harmonia: deve favorecer o equilíbrio na ingestão dos alimentos e nutrientes, considerando macro e micronutrientes e, ainda, deve ter harmonia entre as cores, sabores e texturas dos alimentos que compõem o cardápio. • Lei da adequação: o cardápio deve ser adequado ao indivíduo, considerando fatores como altura e peso, idade, clima, sexo, disponibilidade de alimento, poder aquisitivo, gasto energético e estados fisiológicos (gestação, nutriz, infância, pessoa idosa, comorbidades etc.), e à coletividade. Observação O médico argentino Pedro Escudero foi um dos grandes mentores da ciência da nutrição na América Latina, enquanto, no Brasil, Francisco Pompeu do Amaral implantou em 1939 os estudos de “Auxiliares de Alimentação” e “Dietética para Donas de Casa” no curso de Economia Doméstica da primeira Escola Profissional Feminina do Estado de São Paulo, o que propiciou o surgimento da profissão dietista, atualmente, nutricionista. Observando a variedade de tipos de serviços de alimentação e a diversidade de alimentos disponíveis para os clientes, é possível que suas escolhas sejam inadequadas, com refeições muito calóricas ou pobres em alimentos naturais ou minimamente processados, acarretando problemas de saúde e desperdício de alimentos. Embora os cardápios apresentem uma grande variedade de preparações, não é raro os clientes reclamarem de monotonia alimentar. Em geral, as pessoas tendem a manter uma certa rotina, inclusive na alimentação, ou seja, buscar os mesmos alimentos diariamente. Portanto, é importante, na confecção do cardápio, procurar ter menor número de opções e maior variedade de preparações ao longo da semana (Abreu; Spinelli; Pinto, 2013). 25 NUTRIÇÃO INTEGRADA Um projeto de educação alimentar junto aos clientes é uma ferramenta importante para a incrementação de cardápios mais variados que preencham os requisitos necessários para a promoção da saúde e, também, auxilia na redução dos custos da produção com a possibilidade de inclusão de alimentos sazonais e regionais. O Guia alimentar para a população brasileira, proposto pelo Ministério de Saúde, pode auxiliar o nutricionista no planejamento de cardápios e na realização de educação nutricional (Brasil, 2014b), uma vez que o guia foi elaborado a partir do levantamento dos hábitos alimentares da nossa população. Com um cardápio mais adequado e a conscientização dos clientes da importância de se alimentar de forma mais balanceada, evitando excessos, é possível estabelecer metas para a redução de resíduos, favorecendo uma UAN mais sustentável. As UANs geralmente são grandes geradoras de resíduos – restos de alimentos dos clientes, aparas de alimentos impróprias para o consumo e embalagens e descartáveis. O planejamento da gestão de resíduo deverá ser considerado no momento da elaboração do Manual de Boas Práticas e dos Procedimentos Operacionais Padronizados, para que ele seja factível (Abreu; Spinelli; Pinto, 2013). Dentro de uma UAN, a sustentabilidade vai além de apenas elaborar cardápios mais saudáveis e de boa aceitação. Envolve conhecer o agricultor, os fornecedores, o transporte, as embalagens de produtos, o treinamento de manipuladores e trabalhar com esses aspectos e, ainda, observar a otimização do projeto arquitetônico do restaurante a fim de estabelecer os usos de energia elétrica e a utilização de água (Vasconcellos; Vogel; Marinho, 2017). Numa UAN, encontramos três pontos críticos geradores de resíduo, segundo Abreu, Spinelli e Pinto (2013): • Preparo: decorrente da remoção das partes não comestíveis dos alimentos. • Sobras: decorrente dos alimentos que foram preparados e não distribuídos para os clientes. • Restos: decorrentes dos alimentos distribuídos e não consumidos pelos clientes. Assim, considerando os pontos mais propensos à geração de resíduos, pode-se estabelecer algumas práticas saneadoras com o objetivo de otimizar a sustentabilidade na UAN (quadro 2). 26 Unidade I Quadro 2 – Ações propostas por Abreu, Spinelli e Pinto (2013) em setores predominantes de geração de resíduos Fase anterior ao preparo Boa relação de fornecedores e compra adequada de produtos Capacitação de funcionários para o recebimento dos produtos e armazenamento em relação às técnicas corretas para evitar perdas Transferência dos produtos de forma correta e em tempo hábil para o setor de armazenamento Armazenamento e controle adequado dos produtos Capacitação dos funcionários quanto aos cuidados na remoção das partes não comestíveis, procedimento de dessalgue e de reidratação, e controle de temperaturas adequadas em todos os processos Utilização de utensílios e equipamentos apropriados Separação de materiais passíveis de serem reciclados Área de preparo Seguimento de receituário padrão Observação das temperaturas exigidas pela legislação Controle do processo produtivo de acordo com a demanda Manutenção dos equipamentos Área de distribuição Declaração de quantidades e calorias das poções estimadas Adequação do cardápio aos hábitos dos clientes Adequação do tamanho dos utensílios Área de recepção das bandejas Observação da quantidade de restos, procurando identificar possíveis erros decorrentes do preparo ou da compra de produtos de qualidade inferior Identificação dos restos atribuídos ao porcionamento inadequado Preparação do plano de conscientização de controle de resíduo Fonte: Abreu, Spinelli e Pinto (2013, p. 229-230). Saiba mais Sugestão de leitura complementar: DIAS, N. A.; OLIVEIRA, A. L. Sustentabilidade nas Unidades de Alimentação e Nutrição: desafios para o nutricionista do século XXI. Higiene Alimentar, Juiz de Fora, v. 30, n. 254/255, p. 26-31, mar./abr. 2016. Disponível em: https://bityli.com/QDidkd. Acesso em: 12 nov. 2021. 27 NUTRIÇÃO INTEGRADA 2 NUTRIÇÃO CLÍNICA DA GESTANTE, DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 2.1 Estudo de caso – nutrição clínica. Temas para discussão: avaliação e diagnóstico nutricional de gestantes; orientação/conduta nutricional para gestantes com desnutrição, eutróficas, com sobrepeso e obesas; recomendação e suplementação de macro/micronutrientes para essa população (DRIs, indicações, biodisponibilidade) Caso: uma gestante é encaminhada para seu consultório para orientação e acompanhamento nutricional. A queixa principal é a dificuldade de ganhar peso devido a náuseas e vômitos. Baseando-se nesse enunciado, qual das alternativas apresenta a melhor sequência para realizar a consulta nutricional para essa mulher? A) Efetuar a avaliação antropométrica, a anamnese dietética e a prescrição nutricional e refazer todos os passos rotineiramente até o final da gestação. B) Efetuar apenas a anamnese dietética e a prescrição nutricional considerando que no encaminhamento já constavam dados antropométricos, e encaminhar a gestante para a assistência pré-natal com a equipe médica e de enfermagem. C) Efetuar somente a prescrição nutricional, pois no encaminhamento constavam os dados antropométricos e a anamnese nutricional feitos pela equipe de enfermagem. D) Efetuar somente a antropometria para monitoramento futuro, pois a prescrição nutricional será fornecida pela assistência médica e de enfermagem, que fará o acompanhamento no pré-natalde rotina. E) Efetuar a avaliação antropométrica para monitoramento e passar o caso para a equipe médica-assistente, considerando que os sintomas só poderão ser resolvidos com o auxílio medicamentoso. Resposta correta: alternativa A. Comentários e discussão: toda pessoa encaminhada para o nutricionista deve ser submetida a uma sequência lógica de atendimento para que se possa efetuar o diagnóstico nutricional e, consequentemente, realizar a conduta nutricional e monitorar sua evolução. Essa sequência (avaliação antropométrica, avaliação bioquímica, anamnese nutricional, prescrição dietética e monitoramento da evolução) é comum a todos os pacientes independentemente de estado fisiológico, gênero, idade, escolaridade, renda ou classe social. Considerando esse caso, uma gestante com dificuldades para ganhar peso, a avaliação nutricional e dietética, bem como a prescrição e o acompanhamento, são fundamentais para uma evolução satisfatória até o final da gestação. 28 Unidade I A dieta e o estado nutricional da mãe têm impacto direto na evolução da gestação e no crescimento normal do feto. A desnutrição nos primeiros meses da gestação pode afetar a capacidade de sobrevivência do embrião (Cominetti; Cozzolino, 2013). A gestação promove diversas alterações fisiológicas no organismo que influenciam diretamente nas necessidades nutricionais da mulher. Essas mudanças incluem alterações do metabolismo, na função do trato gastrointestinal e no peso. O nutricionista é um profissional capacitado para conduzir o processo de ganho de peso e garantir que as necessidades nutricionais da mãe e do feto sejam supridas durante todo o processo, por isso ele não deve delegar para outros profissionais a função de prescrição ou avaliação nutricional. É muito importante que o nutricionista participe ativamente de equipes de atendimento pré-natal para garantir um desfecho normal da gestação sem prejuízos à saúde da mãe e da criança (Cominetti; Cozzolino, 2013). A orientação/conduta nutricional inicia-se pela avaliação nutricional, que será composta por anamnese, avaliação clínica, avaliação bioquímica, avaliação IMC (Índice de Massa Corporal) pré-gestacional e antropometria gestacional (Cominetti; Cozzolino, 2013). A avaliação nutricional na gestante possibilita o monitoramento e a intervenção precoce para correção de desvios nutricionais. A determinação do IMC pré-gestacional favorece a programação do ganho de peso da gestante. Seu cálculo é obtido baseando-se no peso habitual da mulher antes da concepção e para interpretação e estimativa do ganho ponderal. A partir do segundo trimestre, utilizam-se os valores contidos na tabela seguinte, considerando que o ganho de peso esperado no 1º trimestre deve ser entre 0,5 e 2 kg (Brasil, 2012a, 2013e). Tabela 2 – Classificação do IMC pré-gestacional e a estimativa para ganho de peso trimestral em gestante de feto único IMC – pré-gestacional (kg/m²) Ganho de peso semanal a partir do 2º e 3º trimestres (g) Ganho de peso total (kg) com sobrepeso e obesas; suplementação de micronutrientes para essa população (indicações, doses e biodisponibilidade); programas de saúde para essa população Caso: uma mãe comparece ao consultório do nutricionista com seu filho de 5 anos de idade. A queixa principal é a falta de apetite da criança. Após a avaliação nutricional, verifica-se que a criança encontra-se dentro do peso e altura normal para a idade. Qual é a melhor conduta nutricional a ser tomada? A) Dispensar a mãe visto que a criança se encontra no estado nutricional de eutrofia e não há muito a orientar. B) Conversar com a mãe e tentar acalmá-la e dispensá-la, considerando que muitas mães ficam muito ansiosas com relação à alimentação dos filhos. C) Conversar com a criança para conhecer melhor a situação. 33 NUTRIÇÃO INTEGRADA D) Verificar os exames bioquímicos da criança e fazer anamnese nutricional para conhecer seus hábitos e preferências alimentares a fim de poder estabelecer uma conduta e propor um esquema de monitoramento para verificar a evolução. E) Conversar com o médico que assiste a criança e encaminhá-la para uma consulta médica. Resposta correta: alternativa D. Comentários e discussão: verificar os últimos exames bioquímicos da criança no início do caso é importante para afastar a possibilidade de alguma doença de base que poderia estar interferindo no apetite da criança. Se não houver princípios de alterações metabólicos ou fisiológicas, proceder a uma boa anamnese com a criança será de grande valia para interpretar o cenário infantil no qual a criança está inserida e realiza suas refeições. Importante ressaltar que é de responsabilidade do nutricionista zelar pelo desenvolvimento alimentar adequado da criança, portanto não se deve dispensar o atendimento ou transferi-lo para outros profissionais, bem como não se deve menosprezar a queixa da mãe ou dos cuidadores da criança. A infância é um período importante para a promoção de bons hábitos alimentares a fim de prevenir doenças crônicas na idade adulta. Por ser uma fase de intenso desenvolvimento sociocognitivo e motor, a fase pré-escolar (de 2 a 6 anos) é um período de grande importância nutricional devido ao processo de maturação biológica e período em que as crianças são muito influenciadas pelos comportamentos dos adultos, mídia, amigos e escola. Doenças carenciais, como deficiência de ferro e vitamina A, são epidemiologicamente associadas a esse período da vida, assim como hábitos alimentares errôneos podem favorecer o desenvolvimento de sobrepeso e obesidade precocemente (Cominetti; Cozzolino, 2013; Silveira, 2015). Os primeiros mil dias de uma criança, período que compreende a soma dos 270 dias da gestação, 365 dias do primeiro ano e os 365 dias do segundo ano de vida, há um intenso desenvolvimento metabólico que promove forte impacto na programação de vida da pessoa adulta (Mozetic; Silva; Sanen, 2016). O aleitamento materno é de extrema importância para o recém-nascido, sendo uma de suas primeiras experiências nutricionais. Este tem mostrado grandes benefícios na redução de alguns parâmetros da síndrome metabólica, como dislipidemias, diabetes mellitus e hipertensão arterial sistêmica além de efeito protetor contra doenças cardiovasculares. A introdução de novos alimentos deve complementar as qualidades do LH a partir dos 6 meses de vida e a adoção de estilo de vida saudável, principalmente neste período, poderá determinar sua condição de saúde futura e até mesmo de seus descendentes (Mozetic; Silva; Sanen, 2016, p. 82). A introdução de alimentos sólidos concomitantemente ao leite materno, também conhecida como alimentação complementar, deve ser variada, com oferta de alimentos ricos em macro e micronutrientes com baixos teores de açúcares, sódio e condimentos fortes. Deve ter fácil consumo, de boa aceitação pela 34 Unidade I criança e de acordo com os alimentos consumidos pela família (Bodinski, 2001; Brasil, 2021; Mozetic; Silva; Sanen, 2016). O Ministério da Saúde lançou em 2021 o Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos: versão resumida (Brasil, 2021). Esse guia faz parte de uma série de manuais que tem como objetivo estimular e orientar hábitos alimentares saudáveis para a população brasileira. O Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos: versão resumida auxilia profissionais da saúde e familiares na promoção da alimentação saudável para crianças, estimulando o aleitamento exclusivo até o 6º mês de vida e a introdução da alimentação complementar de forma mais tranquila e segura. Resumidamente, as recomendações do Ministério da Saúde (Brasil, 2021) sobre a alimentação para crianças menores de 2 anos são: • dar somente leite materno até o 6º mês de vida, sem oferecer água ou outro alimento qualquer; • introduzir novos alimentos a partir dos 6 meses de maneira lenta e gradual, sem rigidez de horários e sempre que a criança sentir vontade; • a consistência deve ser pastosa e ser oferecida na colher desde o início da introdução, aumentando a espessura gradativamente até chegar na consistência da alimentação da família; • oferecer alimentos de forma variada e colorida; • estimular o consumo de frutas, legumes e verduras nas refeições; • evitar café, enlatados, frituras, refrigerantes, guloseimas e salgadinhos; • usar temperos com moderação. As recomendações de alguns nutrientes importantes na primeira infância que devem estar contemplados na alimentação complementar estão resumidas no quadro seguinte. Quadro 5 – Recomendações de alguns nutrientes para introdução à alimentação complementar de crianças até os 2 anos de idade Nutrientes Recomendações Carboidratos O pequeno volume do estômago do bebê (30-40 ml/kg de peso) pode impedi-lo de alcançar suas necessidades energéticas se a dieta for de baixa densidade energética. Essa densidade deve variar de acordo com a idade da criança, com o quanto ela ingere de leite materno, com a concentração de gordura no leite materno e com a frequência com que a criança recebe os alimentos complementares Para criança com ingestão média de leite materno e que consome, pelo menos, três refeições diárias com alimentos complementares, a densidade energética recomendada da dieta é de 0,6 kcal/g dos 6 aos 8 meses e de 1 kcal/g dos 12 aos 23 meses Quando a ingestão de leite materno é menor ou a criança apresenta retardo no crescimento, a densidade energética deve ser maior, variando de 0,8 a 1,2 kcal/g 35 NUTRIÇÃO INTEGRADA Nutrientes Recomendações Proteínas De 5 a 24 meses: 0,7 g/100 kcal Lipídeos De 30 a 45% da energia total, sendo de 4 a 10% de ω-6 e de 1 a 2% de ω-3, menos de 10% de gordura saturada, menos de 300 mg/dia de colesterol e menos de 2% de gordura trans Ferro De 6 a 8 meses: 4 mg/100 kcal De 9 a 11 meses: 2,4 mg/100 kcal De 12 a 24 meses: 0,8 mg/100 kcal Vitamina A Até 6 meses: 400 μg/dia De 7 a 12 meses: 500 μg/dia Vitamina D Até 12 meses: 5 μg/dia Fonte: Mozetic, Silva e Sanen (2016, p. 882). Saiba mais Leitura complementar: BRASIL. Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos: versão resumida. Brasília: Ministério da Saúde, 2021. Disponível em: https:// bityli.com/IveAnJ. Acesso em: 4 nov. 2021. Com o objetivo de conscientizar os profissionais de saúde sobre a importância dos mil dias na vida da criança, a Sociedade de Pediatria do Estado de São Paulo (SPSP) lançou em janeiro de 2021 a campanha “Fevereiro Safira – os primeiros mil dias: pelo futuro das crianças”. SPSP. Fevereiro safira – primeiros mil dias: pelo futuro das crianças. São Paulo, 29 jan. 2021. Disponível em: https://bityli.com/Fp9ld3. Acesso em: 4 nov. 2021. A fase pré-escolar apresenta um ritmo de crescimento mais lento se comparada com a fase da primeira infância, o que favorece a redução do apetite devido à diminuição das necessidades nutricionais. Gandra (1981) aponta que aos 2 anos de idade, o peso da criança é quatro vezes maior que o peso de seu nascimento, aumentando cerca de 2