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DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 1
DIREITO CONSTITUCIONAL
CPV
1º PERÍODO 2025
TEMAS
01 A organização dos Poderes. O princípio da separação dos Poderes. O controle recíproco entre os
Poderes. A organização dos Poderes nos Estados e nos Municípios.
02 Os sistemas de Governo. Presidencialismo e parlamentarismo. A organização do Poder Executivo na
Constituição. O Poder Executivo nos Estados e Municípios.
03 O Poder Legislativo I. O sistema bicameral. O Senado Federal. A Câmara dos Deputados.
Competências. Impeachment.
04 O Poder Legislativo II. Organização das Casas Legislativas. Imunidade parlamentar. Comissões
permanentes e temporárias
05 Comissão Parlamentar de Inquérito. Atribuições. Limitações. Princípios aplicáveis.
06 O Processo Legislativo. As diversas etapas que compõem o rito parlamentar. Controle judicial do
processo legislativo. Processo legislativo no Estado e no Município.
07 Espécies normativas. Emendas Constitucionais. Lei Complementar. Lei Ordinária. Lei Delegada.
Medida Provisória. Decreto Legislativo. Resolução.
08 O Tribunal de Contas. Natureza jurídica de suas decisões. Controles externo e interno. O Ministério
Público junto ao Tribunal de Contas.
09 O Poder Executivo. A forma republicana de governo.
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10 O Poder Judiciário I. A estrutura judiciária. A autogestão dos Tribunais. O Supremo Tribunal Federal
e o Superior Tribunal de Justiça. Competências. Conselhos Nacional de Justiça e do MP.
11 O Poder Judiciário II. Tribunais dos Estados - justiça itinerante. Justiça Eleitoral. Justiça Militar.
Justiça do Trabalho. EC/45.
12 O Poder Judiciário III. Nacionalização da Justiça. Regime Jurídico da Magistratura.
13 Funções essenciais à Justiça. O Ministério Público e a Defensoria Pública. Procuradorias. Advocacia.
14 Organização Judiciária do Estado do Rio de Janeiro. Organização administrativa. Competência dos
Órgãos Judiciais de 1ª e 2ª instâncias.
15 Análise de Gabarito
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Tema 01:
A organização dos Poderes. O princípio da separação dos Poderes. O controle recíproco entre
os Poderes. A organização dos Poderes nos Estados e nos Municípios.
1ª QUESTÃO:
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, cotejando as características da
organização dos poderes brasileiros, se é constitucional lei federal que determina o cancelamento
automático, realizado diretamente pela instituição financeira oficial depositária e sem prévia ciência
do beneficiário ou formalização de contraditório, de precatórios e RPV federais não resgatados em
dois anos.
RESPOSTA:
STF - Informativo 1061 - julho de 2022
Cancelamento de precatórios e requisições de pequeno valor (RPV) federais não resgatados
É inconstitucional o cancelamento automático - realizado diretamente pela instituição
financeira oficial depositária e sem prévia ciência do beneficiário ou formalização de
contraditório - de precatórios e RPV federais não resgatados em dois anos.
A medida infringe o princípio da separação dos Poderes, dada a impossibilidade de edição de
medidas legislativas para condicionar e restringir o levantamento de valores depositados a título de
precatórios, já que gestão de recursos destinados ao seu pagamento incumbe ao Judiciário por
decorrência do texto constitucional (CF/1988, art. 100), o qual não deixou margem limitativa do
direito de crédito ao legislador infraconstitucional (1).
Também há violação aos princípios da segurança jurídica, do respeito à coisa julgada (CF/1988, art.
5º, XXXVI) e do devido processo legal (CF/1988, art. 5º, LIV), sendo certo que a simples previsão
da faculdade do credor requerer posteriormente a expedição de novo ofício requisitório com a
conservação da ordem cronológica anterior não repara os vícios inerentes ao cancelamento.
Ademais, como nesse momento processual da tutela executiva a Fazenda Pública não detém a
titularidade da quantia, a previsão legal ofende o direito de propriedade (CF/1988, art. 5º, XXII),
além de conferir tratamento mais gravoso ao credor, criando distinção que deriva automaticamente
do decurso do tempo, sem averiguar as reais razões do não levantamento do montante, afastando-se
da necessária obediência à isonomia (2).
Com base nesses entendimentos, o Plenário, por maioria, julgou procedente a ação para declarar a
inconstitucionalidade material do art. 2º, caput e § 1º, da Lei 13.463/2017 (ADI 5755/DF).
2ª QUESTÃO:
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No que tange à separação de poderes, analise, fundamentadamente, emenda constitucional que, com
o intuito de corrigir o caos nas finanças públicas de todos os entes federativos, determina que os
precatórios pendentes na data de promulgação da emenda e os que decorram de ações iniciais
ajuizadas até 31 de dezembro de ano anterior serão liquidados pelo seu valor real, em moeda
corrente, acrescido de juros legais, em prestações anuais, iguais e sucessivas, no prazo máximo de
dez anos, permitida a cessão dos créditos.
RESPOSTA:
STF - Informativo 1135 -maio de 2024
EC nº 30/2000 e regime excepcional de parcelamento de precatórios - ADI 2.356/DF e ADI
2.362/DF
É inconstitucional - por violar o princípio da separação dos Poderes (CF/1988, art. 2º), bem
como por ofender os direitos fundamentais à propriedade (CF/1988, art. 5º, XXII e XXIV), à
isonomia (CF/1988, art. 5º, caput), ao devido processo legal substantivo (CF/1988, art. 5º, LIV)
e ao acesso à jurisdição (CF/1988, art. 5º, XXXV) - o regime excepcional de parcelamento de
precatórios instituído pela EC nº 30/2000.
O principal objetivo do precatório, como instituto jurídico-constitucional (CF/1988, art. 100), é a
satisfação de dívida da Fazenda Pública com os cidadãos e pessoas jurídicas e, por via de
consequência, a concretização dos fundamentos e objetivos do Estado Democrático de Direito
(CF/1988, arts. 1º ao 3º).
Nesse contexto, diante da mora em receber o que lhes era devido, já atestado em título judicial
transitado em julgado, milhares de cidadãos credores tiveram os direitos fundamentais acima
descritos violados pelo regime instituído pela EC nº 30/2000.
Ademais, o citado regime - apesar de objetivar a correção do caos nas finanças públicas existente à
época -, ao mitigar a autoridade das decisões do Poder Judiciário nas condenações da Fazenda
Pública, infringiu o princípio da separação de funções dos Poderes, porque relativizou a
obrigatoriedade imposta aos agentes políticos e públicos em cumprir decisões judiciais.
Com base nesses e em outros entendimentos, o Plenário, em apreciação conjunta, por maioria,
julgou procedentes as ações para confirmar a medida cautelar anteriormente deferida e declarar a
inconstitucionalidade do art. 2º da EC nº 30/2000, que introduziu o art. 78 ao ADCT da CF/1988
(1). O Tribunal, também por maioria, modulou os efeitos da decisão para lhe conferir eficácia ex
nunc, mantendo-se os parcelamentos realizados até 25.11.2010, data em que concedida a medida
cautelar.
Tema 02:
Os sistemas de Governo. Presidencialismo e parlamentarismo. A organização do Poder
Executivo na Constituição. O Poder Executivo nos Estados e Municípios.
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1ª QUESTÃO:
JOÃO CARLOS, indicado pelo Governador do Estado para o cargo de Presidente de uma sociedade
de economia mista prestadora de serviço público, impetra mandado de segurança contra ato da Mesa
Diretora da respectiva Assembléia Legislativa que, depois de sabatiná-lo, não aprovou sua indicação
para o cargo. Alega que a não aprovação é descabida, pois o fato de a Constituição Estadual
estabelecer este procedimento não condiz com os princípios republicanos.sendo improcedentes as pretensões do autor da ADPF de (i)
possibilitar à própria Mesa do Senado, por decisão irrecorrível, rejeitar sumariamente a denúncia; e
(ii) aplicar o quórum de 2/3, exigível para o jjulgamento final pela Casa Legislativa, a esta etapa
inicial do processamento. 4. NÃO É POSSÍVEL A APRESENTAÇÃO DE CANDIDATURAS OU
CHAPAS AVULSAS PARA FORMAÇÃO DA COMISSÃO ESPECIAL (CAUTELAR
INCIDENTAL): É incompatível com o art. 58, caput e § 1º, da Constituição que os representantes
dos partidos políticos ou blocos parlamentares deixem de ser indicados pelos líderes, na forma do
Regimento Interno da Câmara dos Deputados, para serem escolhidos de fora para dentro, pelo
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Plenário, em violação à autonomia partidária. Em rigor, portanto, a hipótese não é de eleição. Para
o rito de impeachment em curso, contudo, não se considera inválida a realização de eleição pelo
Plenário da Câmara, desde que limitada, tal como ocorreu no caso Collor, a ratificar ou não as
indicações feitas pelos líderes dos partidos ou blocos, isto é, sem abertura para candidaturas ou
chapas avulsas. Procedência do pedido. 5. A VOTAÇÃO PARA FORMAÇÃO DA COMISSÃO
ESPECIAL SOMENTE PODE SE DAR POR VOTO ABERTO (CAUTELAR INCIDENTAL): No
impeachment, todas as votações devem ser abertas, de modo a permitir maior transparência, controle
dos representantes e legitimação do processo. No silêncio da Constituição, da Lei nº 1.079/1950 e
do Regimento Interno sobre a forma de votação, não é admissível que o Presidente da Câmara dos
Deputados possa, por decisão unipessoal e discricionária, estender hipótese inespecífica de votação
secreta prevista no RI/CD, por analogia, à eleição para a Comissão Especial deimpeachment. Em
uma democracia, a regra é a publicidade das votações. O escrutínio secreto somente pode ter lugar
em hipóteses excepcionais e especificamente previstas. Além disso, o sigilo do escrutínio é
incompatível com a natureza e a gravidade do processo por crime de responsabilidade. Em processo
de tamanha magnitude, que pode levar o Presidente a ser afastado e perder o mandato, é preciso
garantir o maior grau de transparência e publicidade possível. Nesse caso, não se pode invocar como
justificativa para o voto secreto a necessidade de garantir a liberdade e independência dos
congressistas, afastando a possibilidade de ingerências indevidas. Se a votação secreta pode ser
capaz de afastar determinadas pressões, ao mesmo tempo, ela enfraquece o controle popular sobre
os representantes, em violação aos princípios democrático, representativo e republicano. Por fim, a
votação aberta (simbólica) foi adotada para a composição da Comissão Especial no processo de
impeachment de Collor, de modo que a manutenção do mesmo rito seguido em 1992 contribui para
a segurança jurídica e a previsibilidade do procedimento. Procedência do pedido. 6. A DEFESA
TEM DIREITO DE SE MANIFESTAR APÓS A ACUSAÇÃO (ITEM E DO PEDIDO
CAUTELAR): No curso do procedimento de impeachment, o acusado tem a prerrogativa de se
manifestar, de um modo geral, após a acusação. Concretização da garantia constitucional do devido
processo legal (due process of law). Precedente: MS 25.647-MC, Redator p/ acórdão Min. Cezar
Peluso, Plenário. Procedência do pedido. III. MÉRITO: DELIBERAÇÕES UNÂNIMES 1.
IMPOSSIBILIDADE DE APLICAÇÃO SUBSIDIÁRIA DAS HIPÓTESES DE IMPEDIMENTO
ESUSPEIÇÃO AO PRESIDENTE DA CÂMARA (ITEM K DO PEDIDO CAUTELAR): Embora
o art. 38 da Lei nº 1.079/1950 preveja a aplicação subsidiária do Código de Processo Penal no
processo e julgamento do Presidente da República por crime de responsabilidade, o art. 36 dessa
Lei já cuida da matéria, conferindo tratamento especial, ainda que de maneira distinta do CPP.
Portanto, não há lacuna legal acerca das hipóteses de impedimento e suspeição dos julgadores, que
pudesse justificar a incidência subsidiária do Código. A diferença de disciplina se justifica, de todo
modo, pela distinção entre magistrados, dos quais se deve exigir plena imparcialidade, e
parlamentares, que podem exercer suas funções, inclusive de fiscalização e julgamento, com base
em suas convicções político-partidárias, devendo buscar realizar a vontade dos representados.
Improcedência do pedido. 2. NÃO HÁ DIREITO A DEFESA PRÉVIA (ITEM A DO PEDIDO
CAUTELAR): A apresentação de defesa prévia não é uma exigência do princípio constitucional da
ampla defesa: ela é exceção, e não a regra no processo penal. Não há, portanto, impedimento para
que a primeira oportunidade de apresentação de defesa no processo penal comum se dê após o
recebimento da denúncia. No caso dos autos, muito embora não se assegure defesa previamente ao
ato do Presidente da Câmara dos Deputados que inicia o rito naquela Casa, colocam-se à disposição
do acusado inúmeras oportunidades de manifestação em ampla instrução processual. Não há, assim,
violação à garantia da ampla defesa e aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em
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tema de direito de defesa. Improcedência do pedido. 3. A PROPORCIONALIDADE NA
FORMAÇÃO DA COMISSÃO ESPECIAL PODE SER AFERIDA EM RELAÇÃO A BLOCOS
(ITEM D DO PEDIDO CAUTELAR): O art. 19 da Lei nº 1.079/1950, no ponto em que exige
proporcionalidade na Comissão Especial da Câmara dos Deputados com base na participação dos
partidos políticos, sem mencionar os blocos parlamentares, foi superado pelo regime constitucional
de 1988. Este estabeleceu expressamente: (i) a possibilidade de se assegurar a representatividade
por bloco (art. 58, § 1º) e (ii) a delegação da matéria ao Regimento Interno da Câmara (art. 58,
caput). A opção pela aferição da proporcionalidade por bloco foi feita e vem sendo aplicada
reiteradamente pela Câmara dos Deputados na formação de suas diversas Comissões, tendo sido
seguida, inclusive, no caso Collor. Improcedência do pedido. 4. OS SENADORES NÃO
PRECISAM SE APARTAR DA FUNÇÃO ACUSATÓRIA (ITEM J DO PEDIDO CAUTELAR):
O procedimento acusatório estabelecido na Lei nº 1.079/1950, parcialmente recepcionado pela
CF/1988, não impede que o Senado adote as medidas necessárias à apuração de crimes de
responsabilidade, inclusive no que concerne à produção de provas, função que pode ser
desempenhada de forma livre e independente. Improcedência do pedido. 5. É POSSÍVEL A
APLICAÇÃO SUBSIDIÁRIA DOS REGIMENTOS INTERNOS DA CÂMARA E DO SENADO
(ITEM B DO PEDIDO CAUTELAR): A aplicação subsidiária do Regimento Interno da Câmara
dos Deputados e do Senado ao processamento e julgamento do impeachment não viola a reserva de
lei especial imposta pelo art. 85,parágrafo único, da Constituição, desde que as normas regimentais
sejam compatíveis com os preceitos legais e constitucionais pertinentes, limitando-se a disciplinar
questões interna corporis. Improcedência do pedido. 6. O INTERROGATÓRIO DEVE SER O ATO
FINAL DA INSTRUÇÃO PROBATÓRIA (ITEM F DO PEDIDO CAUTELAR): O interrogatório
do acusado, instrumento de autodefesa que densifica as garantias do contraditório e da ampla defesa,
deve ser o último ato de instrução do processo deimpeachment. Aplicação analógica da interpretação
conferida pelo Supremo Tribunal Federal ao rito das ações penais originárias. Precedente: AP 528-
AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, Plenário. Procedência do pedido. IV. ACOLHIMENTO
PARCIAL DO PEDIDO Convertido o julgamento da medida cautelar em definitivo, a fim de
promover segurança jurídica no processo de impeachment, foram acolhidos em parte os pedidos
formulados pelo autor, nos seguintes termos: 1. Item "f" (equivalente à cautelar "a"): denegação, de
modo a afirmar que não há direito a defesa prévia ao ato de recebimento pelo Presidente da Câmara
dos Deputados previsto no art. 19 da Lei nº 1.079/1950; 2. Item "g" (equivalente à cautelar "b"):
concessão parcial para estabelecer, em interpretação conformea Constituição do art. 38 da Lei nº
1.079/1950, que é possível a aplicação subsidiária dos Regimentos Internos da Câmara e do Senado
ao processo de impeachment,desde sejam compatíveis com os preceitos legais e constitucionais
pertinentes; 3. Item "h" (equivalente à cautelar "c"): concessão parcial para: 1. declarar
recepcionados pela CF/1988 os arts. 19, 20 e 21 da Lei nº 1.079/1950 interpretados conforme a
Constituição, para que se entenda que as diligências e atividades ali previstas não se destinam a
provar a (im)procedência da acusação, mas apenas a esclarecer a denúncia, e 2. para declarar não
recepcionados pela CF/1988 os arts. 22, caput , 2ª parte (que se inicia com a expressão "No caso
contrário..."), e §§ 1º, 2º, 3º e 4º, da Lei nº 1.079/1950, que determinam dilação probatória e uma
segunda deliberação na Câmara dos Deputados, partindo do pressuposto que caberia a tal Casa
pronunciar-se sobre o mérito da acusação; 4. Item "i" (equivalente à cautelar "d"): denegação, por
reconhecer que a proporcionalidade na formação da comissão especial pode ser aferida em relação
aos partidos e blocos parlamentares; 5. Item "j" (equivalente à cautelar "e"): concessão integral, para
estabelecer que a defesa tem o direito de se manifestar após a acusação; 6. Item "k" (equivalente à
cautelar "f"): concessão integral, para estabelecer que o interrogatório deve ser o ato final da
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instrução probatória; 7. Item "l" (equivalente à cautelar "g"): concessão parcial para dar
interpretação conforme a Constituição ao art. 24 da Lei nº 1.079/1950, a fim de declarar que, com o
advento da CF/1988, o recebimento da denúncia no processo de impeachmentocorre apenas após a
decisão do Plenário do Senado Federal, em votação nominal tomada por maioria simples e presente
a maioria absoluta de seus membros; 8. Item "m" (equivalente à cautelar "h"): concessão parcial
para declarar constitucionalmente legítima a aplicação analógica dos arts. 44,45, 46, 47, 48 e 49 da
Lei nº 1.079/1950, os quais determinam o rito do processo de impeachment contra Ministros do STF
e PGR ao processamento no Senado Federal de crime de responsabilidade contra Presidente da
República, denegando-se o pedido de aplicação do quórum de 2/3 do Plenário do Senado para
confirmar a instauração do processo; 9. Item "n" (equivalente à cautelar "i"): concessão integral,
para declarar que não foram recepcionados pela CF/1988 os arts. 23, §§ 1º, 4º (por arrastamento) e
5º; 80, 1ª parte; e 81, todos da Lei nº 1.079/1950, porque estabelecem os papéis da Câmara e do
Senado Federal de modo incompatível com os arts. 51, I; 52, I; e 86, § 1º, II, da CF/1988; 10. Item
"o" (equivalente à cautelar "j"): denegação, para afirmar que os senadores não precisam se apartar
da função acusatória; 11. Item "p" (equivalente à cautelar "k"): denegação, para reconhecer a
impossibilidade de aplicação subsidiária das hipóteses de impedimento e suspeição do CPP
relativamente ao Presidente da Câmara dos Deputados; 12. Cautelar incidental (candidatura avulsa):
concessão integral para declarar que não é possível a formação da comissão especial a partir de
candidaturas avulsas, de modo que eventual eleição pelo Plenário da Câmara limite-se a confirmar
ou não as indicações feitas pelos líderes dos partidos ou blocos; e 13. Cautelar incidental (forma de
votação): concessão integral para reconhecer que, havendo votação para a formação da comissão
especial do impeachment, esta somente pode se dar por escrutínio aberto.
Tema 04:
O Poder Legislativo II. Organização das Casas Legislativas. Imunidade parlamentar.
Comissões permanentes e temporárias
1ª QUESTÃO:
Determinado parlamentar é denunciado pelo MPF em virtude de ter divulgado em redes sociais
manifestações que objetivam a abolição do Estado de Direito e o impedimento, com graves ameaças,
do livre exercício de seus poderes constituídos e de suas instituições.
O parlamentar, em sua defesa, pugna pelo indeferimento do pedido de condenação: a uma, ainda
que confirmando a veracidade dos fatos, sua conduta está acobertada pela imunidade parlamentar;
a duas, porque a sua conduta está abarcada pela liberdade de expressão, contemplada na CRFB88.
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, como deve ser julgado o caso.
RESPOSTA:
Liberdade de expressão e limites - AP 1044/DF
Resumo:
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A liberdade de expressão existe para a manifestação de opiniões contrárias, jocosas, satíricas e até
mesmo errôneas, mas não para opiniões criminosas, discurso de ódio ou atentados contra o Estado
Democrático de Direito e a democracia.
A Constituição garante a liberdade de expressão, com responsabilidade. A liberdade de expressão
não pode ser usada para a prática de atividades ilícitas ou para a prática de discursos de ódio, contra
a democracia ou contra as instituições.
Nesse sentido, são inadmissíveis manifestações proferidas em redes sociais que objetivem a abolição
do Estado de Direito e o impedimento, com graves ameaças, do livre exercício de seus poderes
constituídos e de suas instituições.
Ademais, conforme jurisprudência do STF, a garantia constitucional da imunidade parlamentar (1)
incide apenas sobre manifestações proferidas no desempenho da função legislativa ou em razão
desta, não sendo possível utilizá-la como escudo protetivo para a prática de atividades ilícitas.
Não configurada abolitio criminis com relação aos delitos previstos na Lei de Segurança Nacional
(Lei 7.170/1983).
Quando determinada conduta típica (e suas elementares) permanece descrita na nova lei penal, com
a manutenção do caráter proibido da conduta, há a configuração do fenômeno processual penal da
continuidade normativo-típica.
Na hipótese, o legislador não pretendeu abolir as condutas atentatórias à democracia, ao Estado de
Direito e ao livre exercício dos poderes. Na realidade, aprimorou, sob o manto democrático, a defesa
do Estado, de suas instituições e de seus poderes.
Observa-se, assim, a ocorrência de continuidade normativo-típica entre as condutas previstas nos
arts. 18 e 23, IV, da Lei 7.170/1983 e a conduta prevista no art. 359-L do CP (com redação dada
pela Lei 14.197/2021), bem como entre a conduta prevista no art. 23, II, da Lei 7.170/1983 e o
conduta típica prevista no art. 286, parágrafo único, do CP, com redação dada pela Lei 14.197/2021.
Com base nesses e em outros fundamentos, o Plenário, por maioria, julgou parcialmente procedente
ação penal.
(1) CF: "Art. 53. Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e penalmente, por quaisquer de
suas opiniões, palavras e votos."
AP 1044/DF, relator Min. Alexandre de Moraes, julgamento em 20.4.2022
2ª QUESTÃO:
O Deputado Federal Bruno imputou ao Deputado Federal Deco a prática de crime de difamação
agravada (artigos 139 c/c art. 141, II e III, do Código Penal), consistente em publicação ofensiva à
honra do querelante, divulgada na página do querelado no Facebook, uma vez que durante reunião
da Comissão Parlamentar de Inquérito que apura a violência contra jovens e negros pobres no Brasil,
da qual participaram tanto o réu como o Autor, esse último, Deputado Federal Bruno, fez uso da
palavra para tecer as seguintes considerações: “E aí a fala da Fulana foi muito importante, porque
ela traz essa dimensão histórica, que envolve a escravidão de negros; depois, a abolição, sem
nenhuma política de inclusão no mercado de trabalho, a exclusão territorial; e, depois, toda uma
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produção de sentido que desqualifica essa comunidade como humana. Então há um imaginário
impregnado, sobretudo nos agentes das forças de segurança, de que uma pessoa negra e pobre é
potencialmente perigosa, é mais perigosa do que uma pessoa branca de classemédia. Esse
é um imaginário que está impregnado na gente, uma dimensão aí. E os policiais partem desse
imaginário”.
No entanto, alguns dias depois, o querelado publicou em seu perfil do Facebook um vídeo contendo
trecho recortado da referida fala, previamente editado de modo a inverter seu conteúdo. No conteúdo
fraudulento veiculado, o Deputado Federal Bruno aparece falando o seguinte: “Uma pessoa negra e
pobre é potencialmente perigosa, é mais perigosa do que uma pessoa branca de classe média, essa é
a verdade, então, dito isso...”.
Em síntese, o réu é acusado de ter divulgado vídeo editado de modo a dolosamente atribuir-lhe
conteúdo racista e preconceituoso, com finalidade de difamar a honra do Querelante.
O vídeo com trecho cortado e editado da fala do parlamentar autor foi publicado no Facebook e
recebeu 14.834 aprovações (“curtidas”), 252.458 visualizações e 12.272 compartilhamentos. O
conteúdo fraudulento somente foi excluído da página do querelado Deco no Facebook por
determinação da Justiça
A defesa alega a veracidade do conteúdo do vídeo divulgado pelo réu, que tão-somente reproduziu
trecho de debate parlamentar no âmbito de CPI da Câmara dos Deputados. Mas o Laudo de Perícia
Criminal do Instituto de Criminalística da Federal, concluiu que “o vídeo questionado foi editado”
e “que o processo de edição do vídeo questionado resultou na modificação da informação auditiva
da fala do Deputado Bruno originalmente registrada no material padrão, conduzindo a uma
compreensão diversa da realidade factual. Em outras palavras, o discurso do Deputado foi
adulterado no vídeo questionado”. O conteúdo original da manifestação sofreu vários cortes, após
os quais passou a revelar conotação racista e preconceituosa, contrária ao seu sentido original. O
fato de o vídeo veicular trechos da fala do deputado autor é o elemento especioso, precisamente o
ardil empregado para conferir verossimilhança ao conteúdo, elemento mínimo de verdade
necessário para impedir o público de duvidar da postagem e acreditar na mentira resultante da
edição.
O querelado alega que seus atos estão acobertados pela imunidade parlamentar, motivopelo qual
deve ser absolvido no caso.
Responda, fundamentadamente, como deve ser julgado o caso.
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RESPOSTA:
RESPOSTA: AP 1021
AP 1021, Relator(a): Min. LUIZ FUX
Órgão julgador: Primeira Turma
Julgamento: 18/08/2020; Publicação: 21/10/2020
Ementa: PENAL E PROCESSO PENAL. AÇÃO PENAL PRIVADA. CRIME DE DIFAMAÇÃO.
ART. 139 DO CÓDIGO PENAL. PRELIMINAR DE INÉPCIA DA QUEIXA-CRIME
REJEITADA. IMUNIDADE PARLAMENTAR. NÃO INCIDÊNCIA. PUBLICAÇÃO DE VÍDEO
EDITADO MEDIANTE CORTES, ATRIBUINDO-LHE CONTEÚDO RACISTA INEXISTENTE
NA FALA ORIGINAL. COMPROVAÇÃO DA MATERIALIDADE E DA AUTORIA.
CONFIGURAÇÃO DO ANIMUS DIFFAMANDI. AÇÃO PENAL JULGADA PROCEDENTE.
1. PRELIMINAR (a) A inépcia da inicial acusatória, devidamente afastada pelo órgão julgador no
recebimento da queixa-crime, é matéria preclusa. (b) In casu, constou do
acórdão de recebimento da queixa-crime: “Da análise do vídeo em questão, é possível, a princípio,
determinar o fato objetivamente imputado, não sendo este o momento adequado para se tecer
maiores considerações sobre o mérito da controvérsia. Preenchidos, desse modo, os requisitos do
art. 41 do Código de Processo Penal”. (c) Preliminar rejeitada. 2. PREJUDICIAL DE MÉRITO (a)
A imunidade parlamentar teve sua incidência afastada no caso ora em julgamento, por ocasião do
recebimento da exordial acusatória. (b) A imunidade parlamentar exige, para sua incidência, que o
ato incriminado tenha sido praticado in officio ou propter officio. Os atos delituosos praticados fora
do recinto do parlamento e desvinculados do exercício da função não se encontram ao abrigo da
imunidade material. Precedentes (Inq. 3932 e Pet 5243, Primeira Turma, Rel. Min. Luiz Fux, DJe
9/9/2016; Inq. 3438, Primeira Turma, Rel. Min. Rosa Weber, DJe 10/2/2015; Inq. 3672, Primeira
Turma, Rel. Min. Rosa Weber, DJe 21/11/2014; RE 299.109-AgR, Primeira Turma, Rel. Min. Luiz
Fux, DJe 1º/6/2011). (c) A veiculação dolosa de vídeo com conteúdo fraudulento, para fins
difamatórios, conferindo ampla divulgação (rede social) a conteúdo sabidamente falso, não encontra
abrigo na nobre garantia constitucional da imunidade parlamentar, insculpida no artigo 53 da Lei
Maior, e que protege a liberdade e independência dos eleitos para defender suas opiniões mediante
suas palavras e votos. (d) No acórdão de recebimento da inicial, restou assentado que “A liberdade
de opinião e manifestação do parlamentar, ratione muneris, impõe contornos à imunidade material,
nos limites estritamente necessários à defesa do mandato contra o arbítrio, à luz do princípio
republicano que norteia a Constituição Federal”. (e) Prejudicial rejeitada. 3. MÉRITO (a) In casu,
(a) o Deputado Federal Jean Wyllys de Matos Santos imputou ao Deputado Federal Eder Mauro a
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 29
prática de crime de difamação agravada (artigos 139 c/c art. 141, II e III, do Código Penal),
consistente em publicação ofensiva à honra do querelante, divulgada na página do querelado no
Facebook. (b) Com efeito, consta dos autos que, durante reunião da Comissão Parlamentar de
Inquérito que apura a Violência contra jovens e negros pobres no Brasil, realizada em 14 de maio
de 2015, da qual participaram tanto o réu como o Autor, este último, Deputado Federal Jean Wyllys,
fez uso da palavra para tecer as seguintes considerações: “E aí a fala da Tatiana foi muito importante,
porque ela traz essa dimensão histórica, que envolve aescravidão de negros; depois, a abolição, sem
nenhuma política de inclusão no mercado de trabalho, a exclusão territorial; e, depois, toda uma
produção de sentido que desqualifica essa comunidade como humana. Então, há um imaginário
impregnado, sobretudo nos agentes das forças de segurança, de que uma pessoa negra e pobre é
potencialmente perigosa, é mais perigosa do que uma pessoa branca de classe média. Esse é um
imaginário que está impregnado na gente, uma dimensão aí. E os policiais partem desse imaginário”
(pág. 37 das notas taquigráficas da CPI – Violência contra jovens negros e pobres). (c) Cinco dias
depois, em 19 de maio de 2015, o réu, Deputado Federal Eder Mauro, publicou em seu perfil do
Facebook um vídeo contendo trecho recortado da referida fala, previamente editado de modo a
inverter seu conteúdo. No conteúdo fraudulento veiculado, o Deputado Federal Jean Wyllys aparece
falando o seguinte: “Uma pessoa negra e pobre é potencialmente perigosa, é mais perigosa do que
uma pessoa branca de classe média, essa é a verdade, então, dito isso...”. (d) Em síntese, o Réu é
acusado de ter divulgado vídeo editado de modo a dolosamente atribuir-lhe conteúdo racista e
preconceituoso, com finalidade de difamar a honra do Querelante. (e) O vídeo com trecho cortado
e editado da fala do Parlamentar Autor foi publicado no Facebook e recebeu 14.834 aprovações
(“curtidas”), 252.458 visualizações e 12.272 compartilhamentos. O conteúdo fraudulento somente
foi excluído da página do Querelado Eder Mauro no Facebook por determinação da Justiça (decisão
pública da 14ª Vara Cível de Brasília/DF, de 28 de agosto de 2015, disponível em:
http://www.omci.org.br/m/jurisprudencias/arquivos/2017/df_00209599520158070001_28082015.
pdf 4. (a) A defesa alega a veracidade do conteúdo do vídeo divulgado pelo réu, que tão-somente
reproduziu trecho de debate parlamentar no âmbito de CPI da Câmara dos Deputados. (b) Nada
obstante, o Laudo de Perícia Criminal 17.454/2017 (fls. 84/110) do Instituto de Criminalística da
Polícia Civil do Distrito Federal, concluiu que “o vídeo questionado foi editado” e “que o processo
de edição do vídeo questionado resultou na modificação da informação auditivada fala do Deputado
Jean Wyllys originalmente registrada no material padrão, conduzindo a uma compreensão diversa
da realidade factual. Em outras palavras, o discurso do Deputado Jean Wyllys foi adulterado no
vídeo questionado”. (c) O conteúdo original da manifestação sofreu vários cortes, após os quais
passou a revelar conotação racista e preconceituosa, contrária ao seu sentido original. O fato de o
vídeo veicular trechos da fala do Deputado Autor é o elemento especioso, precisamente o ardil
empregado para conferir verossimilhança ao conteúdo, elemento mínimo de verdade necessário para
impedir o público de duvidar da postagem e acreditar na mentira resultante da edição. (d)
Depoimentos prestados em juízo certificaram o dano a honra do Autor: (d.1) “essas informações
geraram um impacto substantivo e absolutamente negativo da fala do Deputado Jean Wyllys junto
aos ativistas do movimento negro, aos ativistas dos movimentos sociais”; “Eu sou do Estado da
Bahia, em que há uma força enorme do movimento negro, e eu, comomilitante, fui intensamente
questionado por que não combati a fala do Deputado Jean. E eu tentava explicar que o contexto da
fala não teria sido aquele produzido pelo vídeo” (depoimento do Deputado Federal Adalberto Souza
Galvão); (d.2) “isso é um estrago muito profundo. Porque o deputado que tem esta bandeira, que é
eleito com essa bandeira, que seu eleitorado aporta o voto, lhe oferta o voto em função desta bandeira
que ele tem e isso é desse desconstruído através do vídeo” (depoimento da Deputada Federal Érica
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 30
Kokay). (f) Simultaneamente, há prova nos autos do impacto sobre a imagem do Autor, como se
extrai da ampla circulação conferida ao vídeo fraudulento a partir do perfil do Réu no Facebook,
observando exclusivamente os dados existentes na sua página, a partir da qual houve o indevido
propulsionamento do conteúdo falso. Ademais, a fraude revela nítido potencial de enganar os
cidadãos que a visualizaram e de produzir discursos de ódio contra a fala indevidamente alterada,
difamando seu opositor político. (g) Consectariamente, restou comprovada a materialidade do crime
de difamação. 5. (a) A publicação em perfil de rede social é penalmente imputável ao agente que,
dolosamente, tem o intuito de difamar, injuriar ou caluniar terceiros, máxime quando esteja
demonstrado o conhecimento da falsidade do conteúdo. (b) Inviável desresponsabilizar autores de
perfis utilizados para a disseminação dolosa de campanhas difamatórias, caluniosas ou injuriosas
nas redes sociais, fundadas em conteúdos falsos. (c) É irrelevante, para fins de determinação da
autoria, o anonimato do “criador do conteúdo” (editor ou programador visual, por exemplo) ou da
terceirização das postagens (perfil administrado por um preposto) pelo titular do perfil utilizado para
divulgar a notícia falsa. Revela-se bastante e suficiente, para fins de determinação da autoria dolosa,
a demonstração do conhecimento do titular do perfil quanto à fraude do conteúdo e sua intenção de
causar danos à honra das vítimas. 6. (a) No dizer de John Stuart Mill, opiniões equivocadas devem
ser protegidas, enquanto tais, pois mesmo elas contribuem, no procedimento dialógico da sua
refutação, para o debate e o esclarecimento da verdade: “(¿) a opinião que se tenta suprimir por meio
da autoridade talvez seja verdadeira. Os que desejam suprimi-la negam, sem dúvida, a sua verdade,
mas eles não são infalíveis. Não têm autoridade para decidir a questão por toda a humanidade, nem
para excluir os outros das instâncias do julgamento. Negar ouvido a uma opinião porque se esteja
certo de que é falsa, é presumir que a própria certeza seja o mesmo que certeza absoluta. Impor
silêncio a uma discussão é sempre arrogar-se infalibilidade”. E conclui: “Se a opinião é certa, aquele
foi privado da oportunidade de trocar o erro pela verdade; se errônea,
perdeu o que constitui um bem de quase tanto valor — a percepção mais clara e a impressão mais
viva da verdade, produzidas pela sua colisão com o erro” (John Stuart Mill, On Liberty, capítulo 1).
(b) A liberdade de expressão no debate democrático distingue-se, indubitavelmente, da veiculação
dolosa de conteúdos voltados a simplesmente alterar a verdade factual e, assim, alcançar finalidade
criminosa de natureza difamatória, caluniosa ou injuriosa. (c) A alavancagem deconteúdos
fraudulentos, mediante artifício ardilosamente voltado à destruição da honra de terceiros nas redes
sociais, revela alto potencial lesivo, tolhendo, até mesmo, o exercício de outros direitos
fundamentais das vítimas - direitos políticos, liberdade de locomoção e, no limite, integridade física
e direito à vida, não revelando qualquer interesse em contribuir para ganhos na construção de uma
sociedade democrática. (d) As instituições democráticas e os objetivos fundamentais da República,
anunciados no preâmbulo da Constituição de 1988, dependem da compreensão compartilhada no
sentido de que, na letra da nossa Lei Fundadora, “nós, o povo brasileiro, nos reunimos para instituir
um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a
liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores
supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e
comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias”. (e) A
Constituição, no Estado Democrático de Direito, é o norte do Estado Juiz na verificação da
regularidade do exercício do direito fundamental à liberdade de expressão. (f) A criminalização da
veiculação de conteúdo com finalidade difamatória, caluniosa ou injuriosa não colide com o direito
fundamental à liberdade de expressão, que resta protegida também nos casos de desconhecimento
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 31
da manipulação fraudulenta do conteúdo, a caracterizar hipótese de erro, que exclui a ilicitude
(artigo 20, §1º, do Código Penal). 7. (a) O delito contra a honra é de ação múltipla, conglobando
não apenas a criação do conteúdo criminoso voltada à divulgação como também a sua postagem
(“upload”, carregamento do vídeo na rede social) e a disponibilização de perfil em rede social com
fim de servir de plataforma à alavancagem da injúria, calúnia ou difamação, tendo por elemento
especial do tipo o dano à honra da vítima. (b) A autoria dos crimes contra a honra praticados por
meio da internet demanda: (b.1) demonstração de que o réu é o titular da página, blog ou perfil pelo
qual o conteúdo difamatório foi divulgado; (b.2) demonstração do consentimento, prévio,
concomitante ou sucessivo, com a veiculação da publicação difamatória em seu perfil; (b.3) animus
injuriandi, caluniandi ou diffamandi, que demandam a demonstração de que o réu tinha
conhecimento do conteúdo fraudulento da postagem. 8. (a) In casu, a defesa sustenta duas teses com
propósito de refutar ou gerar dúvida razoável quanto à autoria: (a.1) transfere para terceiros a
responsabilidade pela edição; (a.2) transfere para terceiros a responsabilidade pela divulgação do
vídeo em seu perfil no Facebook. (b) Em seu interrogatório judicial, o réu afirmou ter visualizado o
conteúdo do vídeo e ter sido comunicado da respectiva publicação em seu perfil no Facebook. (c)
Como fiz constar de meu voto de recebimento da Queixa-Crime, “Na lição especializada de Jacques
Aumont e Michel Marie, na obra ‘Dicionário teórico e crítico de cinema’, a edição ou montagem
‘tempor objetivo guiar o espectador, permitir-lhe seguir a narrativa facilmente’ e ‘pode, também,
produzir outros efeitos: efeitos sintáticos ou de pontuação, marcando, por exemplo, uma ligação ou
uma disjunção; efeitos figurais, podendo, por exemplo, estabelecer uma relação de metáfora; [...]
entre outros’” (AUMONT, Jacques;MARIE, Michel. Dicionário teórico e crítico de cinema. 2ª ed.
Campinas: Papirus, 2006, p. 196). (d) Restou evidenciado o conhecimento da edição voltada à
adulteração do conteúdo por parte do Réu, porquanto se tratava de manifestação absolutamente
contrária à proferida pelo parlamentar Autor, em debate do qual o próprio réu participou e cujo
conteúdo era de seu inteiro conhecimento. Aliás, provou-se, no interrogatório judicial, a plena
consciência do
Réu de que o vídeo divulgado em seu perfil no Facebook, com centenas de milhares de
visualizações, atribuía ao Autor, Jean Wyllys, ideias diametralmente opostas às que identificam a
plataforma política deste parlamentar. (e) A divulgação do conteúdo fraudado, invertendo-lhe o
sentido com finalidade de difamar o Autor, constitui etapa da execução do crime, estabelecendo a
autoria criminosa do divulgador, a qual não exclui a do programador visual ou do editor responsável
pela execução material da fraude, quando promovidas por outros agentes em coautoria. (f) A
segunda linha argumentativa da defesa, que surgiu no interrogatório judicial, é a de que o vídeo foi
divulgado por um ajudante no perfil do réu no Facebook. (g) A tese revela fragilidades, inabilitando-
se como fonte de dúvida razoável quanto aos fatos: (g.1) a defesa não pediu a oitiva do mencionado
ajudante nos autos na qualidade de testemunha e, demais disso, o réu alegou não se lembrar do
sobrenome dessa pessoa, inviabilizando a confirmação da própria existência do álibi pelo juízo;
(g.2) ainda que um “ajudante” houvesse, de fato, postado o vídeo fraudulento veiculador da
difamação, a coautoria criminosa do titular do perfil do Facebook somente seria afastada se o réu
desconhecesse o uso de sua página para a veiculação e, portanto, não tivesse consentido com o
emprego de sua plataforma em rede social para alavancar campanha difamatória contra o Autor; (h)
In casu, (h.1) o vídeo foi postado no perfil do acusado no Facebook; (h.2) o réu admitiu ter assistido
ao vídeo; (h.3) o réu admitiu ter sido informado da postagem quando o vídeo foi disponibilizado em
sua página no Facebook; (h.4) o réu sabia que o conteúdo não era fidedigno à fala do Parlamentar
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 32
Autor e manteve, ainda assim, o conteúdo difamatório disponível em seu perfil no Facebook; (h.5)
Conforme apontou a d. Procuradoria-Geral da República, o “vídeo só foi retirado de circulação após
decisão judicial” (decisão pública da 14ª Vara Cível de Brasília/DF, de 28 de agosto de 2015,
disponível em:
http://www.omci.org.br/m/jurisprudencias/arquivos/2017/df_00209599520158070001_28082015.
pdf (h.6) o vídeo fraudulento elevou a popularidade do réu na rede social utilizada, revelando
número de visualizações superior à média de sua página, a revelar seu ganho pessoal com a
campanha difamatória. (i) Os testemunhos colhidos durante a instrução da açãopenal, corroboram a
autoria criminosa, destacando-se os seguintes trechos de depoimentos prestados em juízo: (i.1) “Ah,
sim, o vídeo que ele fez, porque ele dizia o seguinte: Mas ele falou isso, eu não falei nada, eu não
divulguei nada que ele não tenha falado” (Deputada Federal Érika Kokay); (ii.2) “Com os debates,
no âmbito da própria CPI, chegou-se... não posso afirmar, porque não vi ele produzindo a alteração,
mas todas as informações levaram a um juízo de valor de que a autoria teria sido do próprio
Deputado Éder Mauro” (Deputado Federal Adalberto Souza Galvão); (iii.3) “o primeiro
pronunciamento dele sobre essa publicação era, justamente, reforçando a publicação, ou seja, ele foi
ao Plenário da Câmara afirmar que eu havia dito aquilo que estava na publicação dele” (depoimento
da vítima). 9. (a) O elemento subjetivo do tipo do crime de difamação é o animus diffamandi. (b) In
casu, a defesa sustentou ausência de dolo de difamar, por dois fundamentos: (b.1) alegou que o vídeo
“continha palavras do próprio querelante” e que estaria presente mero animus narrandi; (b.2)
sustentou que os cortes realizados no vídeo tiveram finalidade exclusivamente técnica, com o único
fim de reduzi-lo, para adequá-lo ao tamanho limite do suporte de mídia utilizado para veiculação.
(c) As alegações não se sustentam: (c.1) Primeiramente, restou demonstrado que, embora o vídeo
reproduza trecho da fala do Querelante, o corte realizado inverteu-lhe o sentido, atribuindo-lhe
conotação racista. O uso, pelo réu, de trechos da fala do próprio Parlamentar Querelante reforçou
sua potencialidade difamatória, porquanto o único elemento de verdade contido no vídeo induziu o
público à ilusão de que todo o conteúdo correspondia à realidade, típico artifício ardiloso empregado
para a prática da difamação; (c.2) Portanto, ao contrário do que ocorre na divulgação regida por
mero animus narrandi, que se caracteriza quando há desconhecimento de sua natureza fraudulenta,
in casu o Acusado detinha todas as informações necessárias para conhecer o descompasso entre o
discurso efetivamente proferido pelo Autor e aquele divulgado no vídeo por ele disponibilizado no
Facebook, com adulterações aptas a inverter o sentido da fala e a conferir-lhe teor racista; (c.3)
Inverossímil, ainda, a alegação defensiva de que os cortes realizados tiveram não finalidade
difamatória, mas sim mera função de redução da extensão da fala do Deputado Querelante, para
atender às exigências do suporte midiático utilizado para sua divulgação; (c.4) Deveras, se a
intenção fosse unicamente reduzir o tamanho do vídeo, os cortes não teriam deturpado a fala do
Querelante. Era possível excluir outros trechos da referida manifestação para atender ao propósito
técnico, mas executou-se o corte cirurgicamente de modo a inverter diametralmente seu sentido. (d)
Por fim, nas palavras da Procuradora-Geral da República, “caso o querelante estivesse realmente de
boa-fé, tendo sido surpreendido com o fato, teria corrigido imediatamente e publicado alguma nota
aclaratória e de desculpa sobre o ocorrido, atitude não tomada até o momento”. (e) Conclui-se que
as provas colhidas nos autos comprovaram, além de qualquer dúvida razoável, amaterialidade e a
autoria delitivas, assim como o elemento subjetivo do tipo. 10. Ex positis, julgo procedente a
acusação para condenar o réu Éder Mauro pela prática do crime de difamação agravada. 11. (a) Em
sede de dosimetria, considero presentes quatro circunstâncias judiciais negativas, a conduzir a pena-
base para 9 meses de detenção; ausentes atenuantes e agravantes, aplico a causa de aumento prevista
no art. 141, III, do Código Penal (afasto, nos termos do art. 68, parágrafo único, a causa de aumento
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 33
do inciso II do art. 141), alcançando a pena definitiva o total de 1 ano de detenção, no regime inicial
aberto, e multa, no montante de 36 dias-multa, no valor de 1 salário mínimo cada. (b) Diante da
presença dos pressupostos legais, substituo a pena privativa de liberdade pela de prestação
pecuniária (art. 45, §1º, do CP), consistente no pagamento de 30 salários mínimos à vítima, que fixo
como montante mínimo para reparação dos danos causados pela infração, nos termos do art. 387,
IV, do Código de Processo Penal.
Tema 05:
Comissão Parlamentar de Inquérito. Atribuições. Limitações. Princípios aplicáveis.
1ª QUESTÃO:
A Comissão Parlamentar de Inquérito, que funciona no Senado Federal para apurar prática de
irregularidades nos contratos durante a pandemia da COVID-19, instada por alguns parlamentares,
convoca alguns governadores de Estado a comparecerem para prestar esclarecimento sobre supostas
irregularidades na compra e fornecimento de vacinas.
O grupo de governadores convocados impetra mandado de segurança para não comparecerem à
Comissão, sob o fundamento de que a convocação viola suas prerrogativas constitucionais.
Em suas informações, a Comissãoalega que o Senado Federal é órgão que representa os Estados na
Federação, o que legitima a convocação, e também é próprio de um governo republicano o controle
dos gastos, principalmente num período de crise, como o da pandemia.
Responda, fundamentadamente, como deve ser julgado o caso.
RESPOSTA:
DIREITO CONSTITUCIONAL - ORGANIZAÇÃO DO ESTADO; COMISSÃO
PARLAMENTAR DE INQUÉRITO; SEPARAÇÃO DE PODERES; TRIBUNAL DE CONTAS
CPI: Congresso Nacional, convocação de governadores de estados e poder investigativo - ADPF
848 MC-Ref/DF
Resumo:
Em juízo de delibação, não é possível a convocação de governadores de estados-membros da
Federação por Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instaurada pelo Senado Federal.
A prerrogativa das CPIs de ouvir testemunhas não confere aos órgãos de investigação parlamentar
o poder de convocar quaisquer pessoas a depor, sob quaisquer circunstâncias, pois existem
limitações à obrigação de testemunhar. Entre elas, encontra-se a isenção constitucional do
Presidente da República à obrigatoriedade de testemunhar perante comissões parlamentares,
extensível aos governadores por aplicação do critério da simetria entre a União e os estados.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 34
É injustificável a situação de submissão institucional. Ante a ausência de norma constitucional
autorizadora, o Congresso Nacional ou suas comissões parlamentares não podem impor aos chefes
do Poder Executivo estadual o dever de prestar esclarecimentos e oferecer explicações, mediante
convocação de natureza compulsória, com possível transgressão à autonomia assegurada
constitucionalmente aos entes políticos estaduais e desrespeito ao equilíbrio e harmonia que devem
reger as relações federativas.
Caracteriza excesso de poder a ampliação do poder investigativo das CPIs para atingir a esfera de
competência dos estados federados ou as atribuições exclusivas - competências autônomas - do
Tribunal de Contas da União (TCU).
Os governadores prestam contas perante a Assembleia Legislativa regional (contas de governo ou
de gestão estadual) ou perante o TCU (recursos federais), mas jamais perante o Congresso Nacional.
A amplitude do poder investigativo das CPIs do Senado Federal e da Câmara dos Deputados
coincide com a extensão das atribuições do Congresso Nacional.
Com base nesses entendimentos, o Plenário referendou decisão em que deferido o pedido de medida
cautelar em arguição de descumprimento de preceito fundamental, suspendendo as convocações dos
governadores realizadas pela CPI da Pandemia, sem prejuízo da possibilidade de o órgão
parlamentar convidar essas mesmas autoridades estatais para comparecerem, voluntariamente, a
reunião da comissão a ser agendada de comum acordo. Os ministros Alexandre de Moraes, Gilmar
Mendes, Marco Aurélio, Roberto Barroso e Nunes Marques acompanharam com ressalvas a
ministra Rosa Weber (relatora).
ADPF 848 MC-Ref/DF, relatora Min. Rosa Weber, julgamento virtual finalizado em 25.6.2021
(sexta-feira), às 23:59
2ª QUESTÃO:
Instalada determinada Comissão Parlamentar de Inquérito, esta delibera, por unanimidade, a quebra
de sigilo telefônico de certo investigado, bem como a interceptação telefônica de determinada
ligação efetuada por ele, com hora e data determinados.
Colhidas as provas decorrentes desses atos, a CPI delibera, também de forma unânime, sanções ao
investigado, dentre elas, multas punitivas e penas restritivas de direitos decorrentes da conversão
das penas privativas de liberdade, na forma do Código Penal.
De acordo com cada ponto narrado, responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze)
linhas, se a Comissão agiu corretamente.
RESPOSTA:
MS 38061 MC-AgR, Relator(a): Min. RICARDO LEWANDOWSKI
Órgão julgador: Segunda Turma
Julgamento: 09/10/2021; Publicação: 08/02/2022
Ementa
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 35
Ementa: COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO. COVID-19. QUEBRA DE SIGILO
ADEQUADAMENTE FUNDAMENTADA. MEDIDA INSERIDA NA ESFERA DE
COMPETÊNCIA INVESTIGATÓRIA DAS COMISSÕES PARLAMENTARES DE
INQUÉRITO. AGRAVO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. I- As comissões parlamentares de
inquérito não são dotadas de quaisquer competências sancionatórias, quer dizer, não têm o poder
de punir quem quer que seja. No entanto, desempenham um relevantíssimo papel institucional na
elucidação de fatos de interesse da coletividade, sobretudo daqueles que, em condições normais,
não viriam ao conhecimento da sociedade ou das autoridades competentes para avaliá-los, segundo
as óticas política e jurídica, respectivamente. II- Bem por isso a Constituição Federal, no seu art. 58,
§ 3º, investiu as CPIs de "poderes de investigação próprios das autoridades judiciais", facultando-
lhes "a realização de diligências que julgar necessárias", porquanto atuam em nome do povo
soberano do qual são representantes, não sendo possível, por isso mesmo, opor a elas quaisquer
limitações no exercício desse importante múnus público, salvo, como é evidente, se vulnerarem
direitos e garantias fundamentais dos investigados, o que não é o caso, na espécie. III- A reserva de
jurisdição, apesar de incidente sobre as hipóteses de busca domiciliar (art. 5º, XI, da CF), de
interceptação telefônica (art. 5º, XII, da CF) e de decretação da prisão, salvo a determinada em
flagrante delito (art. 5º, LXI, da CF), não se estende às quebras de sigilo - inclusive fiscal e bancário
-, por tratar-se de medida abrigada pela Constituição, em seu art. 58, § 3º. IV- É longevo - e continua
firme - o entendimento consolidado nesta Corte segundo o qual as comissões parlamentares de
inquérito têm como ponto de partida elementos indiciários, longe ficando de revelar, ao primeiro
exame, a convicção a respeito de práticas ilícitas de autoridades públicas ou privadas, empreendendo
investigações de natureza política, não sendo exigível delas fundamentação exaustiva às diligências
que determinam no curso de seus trabalhos, tal como ocorre com as decisões judiciais (vide MS
24749/DF, relator Ministro Marco Aurélio). V - Para a configuração de ato abusivo apto a embasar
a concessão da medida requerida seria preciso ficar inequivocamente demonstrada a falta de
pertinência temática entre os atos aqui questionadas e os fatos investigados pela Comissão
Parlamentar de Inquérito. Tal descompasso, contudo, não foi devidamente demonstrado. VI-
Agravo regimental a que se nega provimento.
Tema 06:
O Processo Legislativo. As diversas etapas que compõem o rito parlamentar. Controle judicial
do processo legislativo. Processo legislativo no Estado e no Município.
1ª QUESTÃO:
O presidente da República edita uma medida provisória que, impugnada via ação direta de
inconstitucionalidade, foi suspensa por decisão liminar.
Posteriormente, a medida provisória foi rejeitada pelo Congresso Nacional por questões de
inconstitucionalidade, e a demanda foi extinta por falta de objeto.
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, se as relações jurídicas regidas
pela medida provisória são válidas.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 36
RESPOSTA:
STJ - INFORMATIVO 817
REsp 2.024.527-RS
, Rel. Ministro
Herman Benjamin, Segunda Turma, por unanimidade, julgado em 18/6/2024.
Tema
Medida Provisória. Suspensão por decisão liminar em ADI. Invalidação das relações jurídicas objeto
de impugnação judicial. Posterior rejeição pelo Congresso. Manutenção dos efeitos da liminar
concedida durante a vigência da MP. Ausência de efeitos.
DESTAQUE
Não podem ser consideradas válidas as relações jurídicas regidas por Medida Provisória
afastada por decisão liminar em Ação Direta de Inconstitucionalidade, quando esta decisão
ainda se encontravaem vigor no momento da rejeição da MP.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
O Supremo Tribunal Federal em diversas ocasiões, rejeitou o controle de constitucionalidade
concentrado da aplicação da MP n. 242/2005, uma vez que sendo rejeitada, só restariam as relações
jurídicas constituídas sob a sua a égide, relações subjetivas que deveriam ser tratadas por outros
meios processuais. A referida Medida Provisória foi suspensa por decisão liminar na ADI n. 3467-
7/DF, sendo esta ação posteriormente extinta por perda de objeto, uma vez que o Congresso
Nacional rejeitou a Medida Provisória por razões de inconstitucionalidade.
Nesse sentido, o §11º do art. 62 da Constituição Federal de 1988 estabelece que as relações jurídicas
decorrentes de atos praticados durante a vigência de uma Medida Provisória rejeitada são regidas
por ela. Isso significa que os atos realizados sob o amparo da MP permanecem válidos, mesmo após
a sua rejeição.
No presente caso, essa determinação abrange não apenas os atos diretos resultantes da aplicação da
MP, mas também os efeitos decorrentes desses atos, incluindo atos judiciais que levaram à
suspensão da eficácia da MP em controle concentrado de constitucionalidade.
A ausência de higidez jurídica é a marca destas relações formadas por norma jurídica afastada em
controle de constitucionalidade por decisão liminar. Conforme bem pontuado pelo Tribunal de
origem, no momento da edição do Ato Declaratório n. 1, do Senado Federal, em 20/7/2005, que
rejeitou a MP, "vigia a medida cautelar concedida pelo STF, suspendendo a eficácia da referida
norma, razão pela qual admitir-se o entendimento defendido pela autarquia, de que se perpetuariam
as consequências concretas produzidas no período de vigência da MP, implicaria em verdadeira
repristinação, fazendo a norma ter efeitos em momento no qual estava suspensa; repristinação essa
que adviria, contraditoriamente, de sua própria revogação.
Dessa forma, uma vez constatada a inconstitucionalidade da norma pelo Supremo Tribunal Federal
por meio de medida liminar, a qual ainda estava em vigor quando da rejeição da Medida Provisória
pelo Congresso Nacional, as relações jurídicas objeto de impugnação judicial não podem ser
consideradas válidas.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 37
2ª QUESTÃO:
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, se o poder judiciário pode
sindicar os motivos pelos quais a Câmara dos Deputados ou o Senado Federal inseriu determinado
tema a ser deliberado, nos casos de rito de urgência, excluindo, desta forma, a apreciação do tema
de determinadas comissões.
RESPOSTA:
Proposições legislativas e adoção do rito de urgência - ADI 6968/DF
Resumo:
É constitucional a previsão regimental de rito de urgência para proposições que tramitam na
Câmara dos Deputados e no Senado Federal, descabendo ao Poder Judiciário examinar
concretamente as razões que justificam sua adoção.
Inexiste violação ao devido processo legislativo, pois as normas dos Regimentos Internos reduzem
as formalidades processuais para casos específicos, devidamente reconhecidos pela maioria
legislativa, o que é permitido pela própria Constituição (1).
O silêncio constitucional quanto à indicação das Comissões das Casas Legislativas e à definição do
momento e oportunidade da intervenção deve ser interpretado como opção pela disciplina
regimental, sob pena de inviabilizar os próprios trabalhos legislativos.
Portanto, a adoção do rito é matéria interna corporis, sendo defeso ao STF adentrar em tal seara, o
que implicaria indevido controle jurisdicional sobre a interpretação do sentido e do alcance de
normas meramente regimentais, infringindo o princípio da separação dos Poderes (2).
Com base nesse entendimento, o Plenário, por unanimidade, julgou improcedente a ação direta.
(1) CF/1988: "Art. 58. O Congresso Nacional e suas Casas terão comissões permanentes e
temporárias, constituídas na forma e com as atribuições previstas no respectivo regimento ou no ato
de que resultar sua criação. (...) § 2º Às comissões, em razão da matéria de sua competência, cabe:
I - discutir e votar projeto de lei que dispensar, na forma do regimento, a competência do Plenário,
salvo se houver recurso de um décimo dos membros da Casa; (...)"
(2) Precedentes citados: MS 38.199 MC e RE 1.297.884.
ADI 6968/DF, relator Min. Edson Fachin, julgamento virtual finalizado em 20.4.2022 (quarta-feira),
às 23:59
Tema 07:
Espécies normativas. Emendas Constitucionais. Lei Complementar. Lei Ordinária. Lei
Delegada. Medida Provisória. Decreto Legislativo. Resolução.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 38
1ª QUESTÃO:
Em virtude do grande número de medidas provisórias que trancam a pauta da Câmara dos
Deputados, seu Presidente decidiu que o sobrestamento previsto no art. 62 § 6º da CRFB88 somente
se aplica a projetos de lei ordinária, bem como que o sobrestamento determinado não prejudica
senão as sessões ordinárias da Câmara.
Um grupo de parlamentares impetrou mandado de segurança com finalidade de afastar tal
determinação, já que a entendem inconstitucional, pois não há tal previsão na Carta Constitucional.
Responda, fundamentadamente, se a ordem deve ser concedida.
RESPOSTA:
MS 27931 / DF - Relator(a): Min. CELSO DE MELLO
Julgamento: 29/06/2017; Publicação: 28/10/2020
Órgão julgador: Tribunal Pleno
Publicação
PROCESSO ELETRÔNICO
DJe-172 DIVULG 07-07-2020 PUBLIC 08-07-2020
REPUBLICAÇÃO: DJe-259 DIVULG 27-10-2020 PUBLIC 28-10-2020
E M E N T A: MANDADO DE SEGURANÇA PREVENTIVO – IMPUGNAÇÃO DEDUZIDA
CONTRA DELIBERAÇÃO EMANADA DO SENHOR PRESIDENTE DA CÂMARA DOS
DEPUTADOS QUE, RESOLVENDO QUESTÃO DE ORDEM, DEFINIU O CONTEÚDO E O
ALCANCE DA EXPRESSÃO “DELIBERAÇÕES LEGISLATIVAS” INSCRITA NO § 6º DO
ART. 62 DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA – TEMA QUE EXTRAVASA OS LIMITES
"INTERNA CORPORIS" DAS CASAS LEGISLATIVAS – POSSIBILIDADE DE CONTROLE
JURISDICIONAL DOS ATOS DE CARÁTER POLÍTICO, SEMPRE QUE SUSCITADA
QUESTÃO DE ÍNDOLE CONSTITUCIONAL – DIREITO PÚBLICO SUBJETIVO DO
PARLAMENTAR À CORRETA ELABORAÇÃO, PELO PODER LEGISLATIVO, DAS LEIS E
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 39
DEMAIS ESPÉCIES NORMATIVAS – A ANÔMALA SITUAÇÃO INSTITUCIONAL
DECORRENTE DO ABUSO PRESIDENCIAL NA EDIÇÃO DE MEDIDAS PROVISÓRIAS – A
QUESTÃO PERTINENTE AO PODER DE AGENDA DO LEGISLATIVO – GRAVE
COMPROMETIMENTO DA FUNÇÃO PRECÍPUA DO CONGRESSO NACIONAL
PROVOCADO PELO BLOQUEIO DA PAUTA DE CADA UMA DE SUAS CASAS, EM
RAZÃO DA EXISTÊNCIA DE MEDIDA PROVISÓRIA PENDENTE DE APRECIAÇÃO APÓS
45 (QUARENTA E CINCO) DIAS DE SUA PUBLICAÇÃO – INTERPRETAÇÃO RESTRITIVA
CONFERIDA AO § 6º DO ART. 62 DA CONSTITUIÇÃO DA REP
SENTIDO DE QUE O REGIME DE URGÊNCIA PREVISTO EM TAL DISPOSITIVO
CONSTITUCIONAL, QUE FAZ SOBRESTAR “TODAS AS DEMAIS DELIBERAÇÕES
LEGISLATIVAS DA CASA” ONDE A MEDIDA PROVISÓRIA ESTIVER TRAMITANDO,
SOMENTE AFETA AQUELAS MATÉRIAS QUE SE MOSTREM PASSÍVEIS DE
REGRAMENTO POR MEDIDA PROVISÓRIA – EXEGESE VEICULADA NO ATO
EMANADO DO SENHOR PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS QUE, APOIADA
EM CONSTRUÇÃO ESTRITAMENTE JURÍDICA, TEM A VIRTUDE DE PRESERVAR, EM
SUA INTEGRALIDADE, O LIVRE DESEMPENHO, POR ESSA CASA DO CONGRESSO
NACIONAL, DA FUNÇÃO TÍPICA QUE LHE É INERENTE: A FUNÇÃO DE LEGISLAR –
MANDADO DE SEGURANÇA INDEFERIDO. A LEGITIMIDADE ATIVA DOS
IMPETRANTES EM FACE DE SUA CONDIÇÃO DE MEMBROS DO CONGRESSO
NACIONAL – Os membros do Congresso Nacional dispõem, em caráter exclusivo, de legitimidade
ativa “ad causam” para provocar a instauração do controle jurisdicional sobre o processo de
formação das leis e das emendas à Constituição, assistindo-lhes, sob tal perspectiva, irrecusável
direito subjetivo de impedir que a elaboração dos atos normativos, pelo Poder Legislativo, incida
em desvios inconstitucionais, podendo insurgir-se,por tal razão, até mesmo contra decisões que,
emanadas da Presidência da Casa legislativa, hajam resolvido questões de ordem pertinentes ao
“iter” procedimental concernente à atividade legislativa do Parlamento. Precedentes.
POSSIBILIDADE DE CONTROLE JURISDICIONAL DA DELIBERAÇÃO PARLAMENTAR
QUANDO OCORRENTE SITUAÇÃO CONFIGURADORA DE LITÍGIO CONSTITUCIONAL
– O Poder Judiciário, quando intervém para assegurar as franquias constitucionais e para garantir a
integridade e a supremacia da Constituição, desempenha, de maneira plenamente legítima, as
atribuições quelhe conferiu a própria Carta da República, ainda que essa atuação institucional se
projete na esfera orgânica do Poder Legislativo. Questões políticas. Doutrina. Precedentes. A
COMPETÊNCIA EXTRAORDINÁRIA DE EDITAR MEDIDAS PROVISÓRIAS NÃO PODE
LEGITIMAR PRÁTICAS DE CESARISMO GOVERNAMENTAL NEM INIBIR O EXERCÍCIO,
PELO CONGRESSO NACIONAL, DE SUA FUNÇÃO PRIMÁRIA DE LEGISLAR – Cabe, ao
Poder Judiciário, no desempenho das funções que lhe são inerentes, impedir que o exercício
compulsivo da competência extraordinária de editar medida provisória culmine por introduzir, no
processo institucional brasileiro, em matéria legislativa, verdadeiro cesarismo governamental,
provocando, assim, graves distorções no modelo político e gerando sérias disfunções
comprometedoras da integridade do princípio constitucional da separação de poderes.
PROPOSIÇÕES LEGISLATIVAS QUE NÃO SOFREM O BLOQUEIO RITUAL
ESTABELECIDO PELO ART. 62, § 6º, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA: O EXAME DO
TEMA CONCERNENTE À NECESSÁRIA PROTEÇÃO AO PODER DE AGENDA DAS
CASAS DO CONGRESSO NACIONAL – O regime de urgência previsto no art. 62, § 6º, da
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 40
Constituição da República – que impõe o sobrestamento das deliberações legislativas das Casas do
Congresso Nacional – incide, tão-somente, sobre aquelas matérias que se mostram passíveis de
regramento por medida provisória, excluídos, em consequência, do bloqueio procedimental imposto
por mencionado preceito constitucional as propostas de emenda à Constituição e os projetos de lei
complementar, de decreto legislativo, de resolução e, até mesmo, tratando-se de projetos de lei
ordinária, aqueles que veiculem temas pré-excluídos do âmbito de incidência das medidas
provisórias (CF, art. 62, § 1º, I, II e IV). – Essa fórmula interpretativa constitui reação legítima ao
inadmissível controle hegemônico, pelo Presidente da República, do poder de agenda do Congresso
Nacional, pois tem a virtude de devolver às Casas legislativas esse mesmo poder de agenda, que
traduz prerrogativa institucional das mais relevantes, capaz de permitir à instituição parlamentar –
livre da indevida ingerência de práticas de cesarismo governamental pelo Chefe do Executivo
(representadas pelo exercício compulsivo da edição de medidas provisórias) – o poder de selecionar
e de apreciar, de modo inteiramente autônomo, as matérias que considere revestidas de importância
política, social, cultural, econômica e jurídica para a vida do País, o que ensejará – na visão e na
perspectiva do Poder Legislativo (e não na vontade unilateral do Presidente da República) – a
formulação e a concretização, pelo Parlamento, de uma pauta temática própria.
2ª QUESTÃO:
Há dois dias do fim do prazo de vigência de determinada Medida Provisória, o Presidente da
República a revoga. Mas, dias após, tal autoridade edita uma outra medida provisória, que, em sua
maioria, repetiu o conteúdo da medida provisória anteriormente revogada.
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, se a edição da segunda medida
provisória é constitucional, nas hipóteses de ela ter sido editada na mesma ou na sessão legislativa
seguinte.
RESPOSTA:
ADI 5709, Relator(a): Min. ROSA WEBER
Órgão julgador: Tribunal Pleno
Julgamento: 27/03/2019; Publicação: 28/06/2019
Ementa
EMENTA CONSTITUCIONAL. PROCESSO LEGISLATIVO. MEDIDA PROVISÓRIA.
ESTABELECIMENTO DA ORGANIZAÇÃO BÁSICA DOS ÓRGÃOS DA PRESIDÊNCIA
DA REPÚBLICA E DOS MINISTÉRIOS. ALEGAÇÃO DE OFENSA AO ART. 62, CAPUT
e §§ 3º e 10, CRFB. REQUISITOS PROCEDIMENTAIS. REJEIÇÃO E REVOGAÇÃO DE
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 41
MEDIDA PROVISÓRIA COMO CATEGORIAS DE FATO JURÍDICO EQUIVALENTES
E
ABRANGIDAS NA VEDAÇÃO DE REEDIÇÃO NA MESMA SESSÃO LEGISLATIVA.
INTERPRETAÇÃO DO §10 DO ART. 62 DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. CONVERSÃO
DA MEDIDA PROVISÓRIA EM LEI. AUSÊNCIA DE PREJUDICIALIDADE
SUPERVENIENTE. ADITAMENTO DA PETIÇÃO INICIAL. PRECEDENTES
JUDICIAIS DO STF. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE JULGADA
PROCEDENTE. 1. O Supremo Tribunal Federal definiu interpretação jurídica no sentido de
que apenas a modificação substancial, promovida durante o procedimento de deliberação e
decisão legislativa de conversão de espécies normativas, configura situação de
prejudicialidade superveniente da ação a acarretar, por conseguinte, a extinção do processo
sem resolução do mérito. Ademais, faz-se imprescindível o aditamento da petição inicial para
a convalidação da irregularidade processual. Desse modo, a hipótese de mera conversão
legislativa da medida provisória não é argumento suficiente para justificar prejudicialidade
processual superveniente. 2. Medida provisória não revoga lei anterior, mas apenas suspende
seus efeitos no ordenamento jurídico, em face do seu caráter transitório e precário. Assim,
aprovada a medida provisória pela Câmara e pelo Senado, surge nova lei, a qual terá o efeito
de revogar lei antecedente. Todavia, caso a medida provisória sejarejeitada (expressa ou
tacitamente), a lei primeira vigente no ordenamento, e que estava suspensa, volta a ter eficácia.
3. Conversão do exame da medida cautelar em julgamento do mérito da demanda. 4. O
argumento de desvio de finalidade para justificar o vício de inconstitucionalidade de medida
provisória, em razão da provável direção de cargo específico para pessoa determinada não
tem pertinência e validade jurídica, porquanto, na espécie, se trata de ato normativo geral e
abstrato, que estabeleceu uma reestruturação genérica da Administração Pública. Esse
motivo, inclusive, autorizou o acesso à jurisdição constitucional abstrata. 5. Impossibilidade
de reedição, na mesma sessão legislativa, de medida provisória revogada, nos termos do
prescreve o art. 62, §§2º e 3º. Interpretação jurídica em sentido contrário, importaria violação
do princípio da Separação de Poderes. Isso porque o Presidente da República teria o controle
e comando da pauta do Congresso Nacional, por conseguinte, das prioridades do processo
legislativo, em detrimento do próprio Poder Legislativo. Matéria de competência privativa das
duas Casas Legislativas (inciso IV do art. 51 e inciso XIII do art. 52, ambos da Constituição
Federal). 6. O alcance normativo do § 10 do art. 62, instituído com a Emenda Constitucional
n. 32 de 2001, foi definido no julgamento das ADI 2.984 e ADI 3.964, precedentes judiciais a
serem observados no processo decisório, uma vez que não se verificam hipóteses que
justifiquem sua revogação. 7. Qualquer solução jurídica a ser dada na atividade interpretativa
do art. 62 da Constituição Federal deve ser restritiva, como forma de assegurar a
funcionalidade das instituições e da democracia. Nesse contexto, imperioso assinalar opapel
da medida provisória como técnica normativa residual que está à serviço do Poder Executivo,
para atuações legiferantes excepcionais, marcadas pela urgência e relevância, uma vez que
não faz parte do núcleo funcional desse Poder a atividade legislativa. 8. É vedada reedição de
medida provisória que tenha sido revogada, perdido sua eficácia ou rejeitada pelo Presidente
da República na mesma sessão legislativa. Interpretação do §10 do art. 62 da Constituição
Federal. 9. Ação direta de inconstitucionalidade julgada procedente para declarara
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 42
inconstitucionalidade da Lei n. 13.502, de 1º de novembro de 2017, resultado da conversão da
Medida Provisória n. 782/2017.
Tema 08:
O Tribunal de Contas. Natureza jurídica de suas decisões. Controles externo e interno. O
Ministério Público junto ao Tribunal de Contas.
1ª QUESTÃO:
JOÃO, candidato aprovado em concurso de professor de determinado município, foi nomeado, mas
o Tribunal de Contas Estadual negou registro do ato de nomeação, sob o fundamento de não
cumprimento de requisito que constava no edital.
Irresignado com a decisão, JOÃO procurou o presidente da Câmara Municipal que, dentro do
procedimento adotado na Casa, reviu o ato de não registro, sob o fundamento de que, de acordo com
a Constituição da República, os Tribunais de Contas são apenas órgãos auxiliares das Câmaras
Municipais, no controle externo das contas do Poder Executivo, não podendo, dessa feita, suas
decisões apresentarem natureza mandamental e coercitiva em relação aos municípios por
pertencerem a outro ente da Federação, sob pena de infringência ao princípio constitucional da
autonomia municipal e ao princípio federativo. Portanto, com relação aos municípios, as conclusões
dos Tribunais de Contas estaduais, no exercício de sua função institucional, têm tão somente
natureza opinativa, cabendo ao Poder Executivo o juízo de valor sobre seu o acolhimento ou não.
Dessa feita, JOÃO continuou a exercer suas atividades laborais uma vez que, diante da decisão do
legislativo local, o prefeito não o afastou do cargo.
Responda fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, se a postura adotada por toda a
edilidade está de acordo com o ordenamento constitucional brasileiro.
RESPOSTA:
RE 576920, Relator(a): Min. EDSON FACHIN
Repercussão Geral - Mérito (Tema 47); Órgão julgador: Tribunal Pleno
Julgamento: 20/04/2020; Publicação: 09/11/2020
Ementa
Ementa: ADMINISTRATIVO. RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPERCUSSÃO
GERAL. NATUREZA DO CONTROLE EXTERNO EXERCIDO PELOS TRIBUNAIS DE
CONTAS EM RELAÇÃO A ATOS ADMINISTRATIVOS DOS MUNICÍPIOS. APRECIAÇÃO
DE ATOS DE REGISTRO. NATUREZA IMPOSITIVA. RECURSO EXTRAORDINÁRIO
JULGADO PROCEDENTE. 1. No complexo feixe de atribuições fixadas ao controle externo, a
competência desempenhada pelo Tribunal de Contas não é, necessariamente, a de mero auxiliar do
poder legislativo. Precedentes. 2. A Câmara Municipal não detém competência para rever o ato do
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 43
Tribunal de Contas do Estado que nega o registro de admissão de pessoal. 3. Recurso extraordinário
a que se julga procedente. Tese: A competência técnica do Tribunal de Contas do Estado, ao negar
registro de admissão de pessoal, não se subordina à revisão pelo Poder Legislativo respectivo.
Tema 47 - Natureza do controle externo exercido pelos Tribunais de Contas Estaduais em relação a
atos administrativos dos Municípios.
Tese
A competência técnica do Tribunal de Contas do Estado, ao negar registro de admissão de pessoal,
não se subordina à revisão pelo Poder Legislativo respectivo.
2ª QUESTÃO:
A Ordem dos Advogados do Brasil propõe demanda em que visa à desconstituição da decisão do
Tribunal de Contas da União, que a condenou em multas, por não ter a autora enviado documentos
para o controle de suas contas pela Corte.
Em resposta, o polo passivo alega que a obrigação mostra-se imperativa em relação a qualquer
pessoa, natural ou jurídica, que utilize, arrecade, guarde, gerencie ou administre dinheiros, bens e
valores, quer sejam públicos, quer sejam de responsabilidade da União, ou, em nome desta, assuma
obrigação pecuniária. Sublinha que, arrecadando e gerindo recursos públicos, a entidade está
submetida a controle. Evoca o disposto nos artigos 133 da Carta da República e 44, inciso I, da Lei
nº 8.096/1994. Distingue a Ordem dos conselhos de fiscalização profissional, assinalando ter, além
da atribuição de fiscalizar, funções institucionais ligadas aos postulados da República Democrática
Brasileira. Afirma ser instituição não estatal investida de competências públicas, a justificar a
prestação de contas.
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, como deve ser resolvido o caso.
RESPOSTA:
STF - Informativo 1091 - abril de 2023
Ordem dos Advogados do Brasil e dever de prestar contas ao Tribunal de Contas da União - RE
1.182.189/BA (Tema 1.054 RG)
"O Conselho Federal e os Conselhos Seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil não estão
obrigados a prestar contas ao Tribunal de Contas da União nem a qualquer outra entidade
externa."
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não se sujeita à prestação de contas perante o Tribunal
de Contas da União (TCU) e a ausência dessa obrigatoriedade não representa ofensa ao art. 70,
parágrafo único, da Constituição Federal de 1988 (1), já que inexiste previsão expressa em sentido
diverso.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 44
Esta Corte já afastou a sujeição da OAB aos ditames impostos à Administração Pública direta e
indireta, dada a sua categoria ímpar no elenco das personalidades jurídicas (2), na medida em que é
uma instituição com natureza jurídica própria e dotada de autonomia e independência.
Nesse contexto, considerada a sua função institucional, a OAB exerce serviço público
independente (3), que não se confunde com serviço estatal, e cujo controle pode ser realizado
por vias diversas da do TCU. Assim, é necessário conferir o mais alto grau de liberdade para
que a OAB tenha condições de cumprir suas funções constitucionalmente privilegiadas, tendo
em vista que os advogados são indispensáveis à administração da Justiça (CF/1988, art. 133).
Ademais, a Ordem gere recursos privados arrecadados de seus associados, distinguindo-se dos
demais conselhos de fiscalização profissional, os quais recolhem contribuição de natureza
tributária, que advém da movimentação financeira do Estado. Por essa razão,suas finanças
não se submetem ao controle estatal, tampouco se enquadram no conceito jurídico de Fazenda
Pública, cujo controle se sujeita às regras da Lei 4.320/1964.
Com base nesses e em outros entendimentos, o Plenário, por maioria, ao apreciar o Tema 1.054 da
repercussão geral, desproveu o recurso extraordinário, de modo a manter o acórdão recorrido,
proferido pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
Tema 09:
O Poder Executivo. A forma republicana de governo.
1ª QUESTÃO:
Responda fundamentadamente com base nos princípios constitucionais aplicáveis ao caso, se é
constitucional texto de Constituição Estadual que prevê que o afastamento do país do Governador e
do Vice-Governador, em qualquer tempo, necessita de autorização prévia da respectiva Assembleia
Legislativa, sob pena de perda do cargo.
RESPOSTA:
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 5.373
RELATOR: MIN. CELSO DE MELLO
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, julgou procedente o pedido formulado na ação direta, para
declarar a inconstitucionalidade da expressão "em qualquer tempo" inscrita no art. 59 da
Constituição do Estado de Roraima, nos termos do voto do Relator. Plenário, Sessão Virtual de
14.8.2020 a 21.8.2020.
E M E N T A: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE - GOVERNADOR E VICE-
GOVERNADOR DO ESTADO - AFASTAMENTO DO PAÍS "EM QUALQUER TEMPO" -
NECESSIDADE DE AUTORIZAÇÃO PRÉVIA DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA, SOB PENA
DE PERDA DO CARGO - ALEGADA OFENSA AO POSTULADO DA SEPARAÇÃO DE
PODERES E SUPOSTA TRANSGRESSÃO AO MODELO NORMATIVO ESTABELECIDO
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 45
PELA VIGENTE CONSTITUIÇÃO (ART. 49, III, E ART. 83) - MEDIDA CAUTELAR
ANTERIORMENTE DEFERIDA PELO PLENÁRIO DESTA SUPREMA CORTE -
REAFIRMAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA CONSOLIDADA PELO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL NO TEMA - PRECEDENTES - AÇÃO DIRETA JULGADA PROCEDENTE.- A
exigência de prévia autorização da Assembleia Legislativa para o Governador e o Vice-Governador
do Estado ausentarem-se, em qualquer tempo, do território nacional mostra-se incompatível com os
postulados da simetria e da separação de poderes, pois essa restrição - que não encontra
correspondência nem parâmetro na Constituição Federal (art. 49, III, c/c o art. 83) - revela-se
inconciliável com a Lei Fundamental da República, que, por qualificar-se como fonte jurídica de
emanação do poder constituinte decorrente, impõe ao Estado-membro, em caráter vinculante, em
razão de sua índole hierárquico-normativa, o dever de estrita observância quanto às diretrizes e aos
princípios nela proclamados e estabelecidos (CF, art. 25, "caput"), sob pena de completa desvalia
jurídica das disposições estaduais que conflitem com a supremacia de que se revestem as normas
consubstanciadas na Carta Política. Precedentes.
2ª QUESTÃO:
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, se é constitucional lei estadual
que institui pensão em benefício de ex-detentores de mandato político e seus familiares.
RESPOSTA:
ADPF 1039 MC-Ref, Relator(a): Min. ALEXANDRE DE MORAES
Órgão julgador: Tribunal Pleno
Julgamento: 22/02/2023; Publicação: 02/03/2023
ODS 16 - Paz, Justiça e Instituições Eficazes
Ementa
Ementa: CONSTITUCIONAL E PREVIDENCIÁRIO. LEI DO ESTADO DO PARÁ. PENSÃO
ESPECIAL INSTITUÍDA EM FAVOR DE EX-DETENTORES DE MANDATO POLÍTICO E DE
SEUS FAMILIARES. AUSÊNCIA DE FUNDAMENTO CONSTITUCIONAL. VIOLAÇÃO AOS
PRINCÍPIOS REPUBLICANO, DA ISONOMIA, DA RAZOABILIDADE, DA MORALIDADE
E DA IMPESSOALIDADE. PRECEDENTES. MEDIDA CAUTELAR REFERENDADA. 1. A
instituição de pensão especial em benefício de ex-detentores de mandato político e de seus familiares
não encontra respaldo no modelo constitucional político-previdenciário. Precedentes. 2. O princípio
republicano deve conformar a atuação do Poder Público e daqueles que corporificam a longa manus
do Estado. 3. Medida cautelar referendada.
Tema 10:
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 46
O Poder Judiciário I. A estrutura judiciária. A autogestão dos Tribunais. O Supremo Tribunal
Federal e o Superior Tribunal de Justiça. Competências. Conselhos Nacional de Justiça e do
MP.
1ª QUESTÃO:
DEMÉTRIO, funcionário do Tribunal de Justiça, impetra mandado de segurança contra ato do
Tribunal que, por resolução do seu Tribunal Pleno, alterou o horário do expediente forense, bem
como a jornada de trabalho dos servidores do Poder Judiciário local.
O impetrante alega que a competência para tratar dessas matérias não pertence ao Poder Judiciário,
mas sim ao chefe do Poder Executivo, motivo pelo qual requer a ordem para cumprir sua jornada
de trabalho na forma da legislação anterior.
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, se a ordem deve ser concedida.
RESPOSTA:
Tribunal de Justiça estadual: mudança do horário de expediente e da jornada de trabalho de seus
servidores por meio de resolução - ADI 4.450/MS
Resumo:
É constitucional resolução de Tribunal de Justiça estadual que altera o horário de expediente
forense, pois se trata de matéria abrangida pelo autogoverno dos tribunais. Contudo, esse ato
normativo não pode modificar a jornada de trabalho dos servidores do Poder Judiciário local,
porque o assunto diz respeito ao regime jurídico destes, cuja iniciativa é privativa do chefe do
Poder Executivo.
O texto constitucional prevê a iniciativa legislativa privativa do Presidente da República para dispor
sobre servidores públicos da União e dos territórios, seu regime jurídico, provimento de cargos,
estabilidade e aposentadoria (CF/1988, art. 61, § 1º, II). Por se tratar de norma atinente ao processo
legislativo, essa norma configura princípio constitucional extensível ou de reprodução obrigatória
pelos estados-membros (CF/1988, art. 25, caput).
Na espécie, a resolução impugnada, ao mudar a jornada de trabalho dos servidores do respectivo
tribunal de justiça, atuou em ofensa ao princípio da separação dos Poderes, eis que infringiu
iniciativa privativa do chefe do Poder Executivo (CF/1988, arts. 2º e 61, § 1º, II, c) (1).
Com base nesse entendimento, o Plenário, por maioria, julgou parcialmente procedente a ação para
declarar a inconstitucionalidade do art. 3º, II e § 2º da Resolução 568/2010 do Tribunal de Justiça
do Estado de Mato Grosso do Sul , na redação original e na conferida por sua Resolução
164/2017 .
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 47
2ª QUESTÃO:
A FUNDAÇÃO ABRICÓ propõe demanda em desfavor da UNIÃO e da AGÊNCIA NACIONAL
DE TELECOMUNICAÇÕES - ANATEL, em que requer a expedição de ato que permita o
funcionamento de determinada rádio comunitária pertencente à autora, em caráter experimental e
provisório.
Alega que já cumpriu todas as exigências previstas para o regular funcionamento da rádio, mas, por
depender de manifestação dos Poderes Legislativo e Executivo, o procedimento administrativo é
lento e demorado, o que lhe causa diversos prejuízos.
Responda, fundamentadamente, em no máximo 15 (quinze) linhas, como deve ser julgada a causa.
RESPOSTA:
EDv nos EREsp 1.797.663-CE
, Rel. Min. Sérgio
Kukina, Primeira Seção, por unanimidade, julgado em 10/08/2022.
DESTAQUE
A demora da Administração para apreciar o pedido de autorização para funcionamento de rádio
comunitária não legitima o Poder Judiciário a conceder, ainda que em caráter precário, o direito de
continuidade das atividades.
INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR
A presente controvérsia, consubstanciada em saber se há, ou não, possibilidade de o Poder Judiciário
autorizar o exercício precário do serviço de radiodifusão comunitária, ante a demora dos Poderes
Executivo e Legislativo em fazê-lo, não é nova nesta Corte, estando vinculada ao exame da Lei n.
9.612/1998.
A Constituição da República, em seu art. 223, expressamente define como competência do Poder
Executivo, com posterior referendo do Poder Legislativo, outorgar concessão, permissão e
autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de imagens. Não há espaço, portanto, para o
Judiciário interferir em tal questão, sob pena de ofensa ao princípio da separação dos Poderes.
Nessa perspectiva, não se revela adequada a adoção do entendimento segundo o qual poderia o
Poder Judiciário, no caso sob exame, suprir a omissão imputada aos demais Poderes, mormente
considerando-se que a hipótese não versa acerca de uma eventual inércia daqueles em intervir e agir
em prol da concretização de algum direito fundamental.
De fato, a espécie vertente aproxima-se mais de uma intervenção do Poder Judiciário em matéria
relacionada, em última análise, a um juízo de valor a ser proferido pelo Poder Executivo (embora
sujeito a referendo pelo Congresso Nacional) sobre a oportunidade e conveniência na outorga da
permissão pleiteada.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 48
Nessa linha de ideias, conclui-se que a solução exegética mais apropriada é a de que "a demora da
Administração para apreciar o pedido de autorização para funcionamento de rádio comunitária não
legitima ao Poder Judiciário conceder o direito de continuidade das atividades. Permite-se apenas a
fixação de um prazo para a conclusão do procedimento, caso haja pedido expresso nesse sentido na
inicial" (AgRg no REsp 1.090.517/RS, Rel. Ministro Sérgio Kukina, Primeira Turma, DJeA Mesa Diretora, em suas
informações, manifesta-se no sentido de que somente fez cumprir a Constituição Estadual, como
forma de controle dos atos do Poder Executivo.
Responda fundamentadamente se o writ merece ser deferido.
RESPOSTA:
ADI 1642/MG, rel Min Eros Grau (Informativo 500)
EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ALÍNEA "d" DO INCISO XXIII
DO ARTIGO 62 DA CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DE MINAS GERAIS. APROVAÇÃO DO
PROVIMENTO, PELO EXECUTIVO, DOS CARGOS DE PRESIDENTE DAS ENTIDADES DA
ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA INDIRETA ESTADUAL PELA ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA.
ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO DO DISPOSTO NO ARTIGO 173, DA CONSTITUIÇÃO DO
BRASIL. DISTINÇÃO ENTRE EMPRESAS ESTATAIS PRESTADORAS DE SERVIÇO
PÚBLICO E EMPRESAS ESTATAIS QUE DESENVOLVEM ATIVIDADE ECONÔMICA EM
SENTIDO ESTRITO. REGIME JURÍDICO ESTRUTURAL E REGIME JURÍDICO
FUNCIONAL DAS EMPRESAS ESTATAIS. INCONSTITUCIONALIDADE PARCIAL.
INTERPRETAÇÃO CONFORME À CONSTITUIÇÃO. 1. Esta Corte em oportunidades anteriores
definiu que a aprovação, pelo Legislativo, da indicação dos Presidentes das entidades da
Administração Pública Indireta restringe-se às autarquias e fundações públicas, dela excluídas as
sociedades de economia mista e as empresas públicas. Precedentes. 2. As sociedades de economia
mista e as empresas públicas que explorem atividade econômica em sentido estrito estão sujeitas,
nos termos do disposto no § 1º do artigo 173 da Constituição do Brasil, ao regime jurídico próprio
das empresas privadas. 3. Distinção entre empresas estatais que prestam serviço público e empresas
estatais que empreendem atividade econômica em sentido estrito 4. O § 1º do artigo 173 da
Constituição do Brasil não se aplica às empresas públicas, sociedades de economia mista e entidades
(estatais) que prestam serviço público. 5. A intromissão do Poder Legislativo no processo de
provimento das diretorias das empresas estatais colide com o princípio da harmonia e
interdependência entre os poderes. A escolha dos dirigentes dessas empresas é matéria inserida no
âmbito do regime estrutural de cada uma delas. 6. Pedido julgado parcialmente procedente para dar
interpretação conforme à Constituição à alínea "d" do inciso XXIII do artigo 62 da Constituição do
Estado de Minas Gerais, para restringir sua aplicação às autarquias e fundações públicas, dela
excluídas as empresas estatais, todas elas.
ADI 2167, Relator(a): Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Redator(a) do acórdão: Min.
ALEXANDRE DE MORAES
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 6
Órgão julgador: Tribunal Pleno
Julgamento: 03/06/2020; Publicação: 07/12/2020
Ementa
Ementa: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ALTERAÇÃO DOS ARTS. 33,
XVIII; 46, § 3°; 62, PARÁGRAFO ÚNICO, E 103 DA CONSTITITUIÇÃO DO ESTADO DE
RORAIMA POR EMENDA CONSTITUCIONAL ESTADUAL. PREJUÍZO PARCIAL.
MODIFICAÇÕES LEGISLATIVAS POSTERIORES À PROPOSITURA DA ADI. VIOLAÇÃO
AOS ARTS. 2º; 25 E 84, I, II, VI E XXV, DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA.
OCORRÊNCIA PARCIAL. ARGUIÇÃO PRÉVIA PELO PODER LEGISLATIVO DE
INDICAÇÕES DO PODER EXECUTIVO PARA CARGOS DE DIRIGENTES DE
AUTARQUIAS, FUNDAÇÕES PÚBLICAS, EMPRESAS DE ECONOMIA MISTA,
INTERVENTORES MUNICIPAIS E TITULARES DA DEFESNORIA PÚBLICA E DA
PROCURADORIA-GERAL ESTADUAL. IMPOSSIBILIDADE. OFENSA À SEPARAÇÃO DE
PODERES. 1. A Emenda Constitucional estadual 16/2005, posterior à propositura da presente ADI,
adequou o § 3º doart. 46 da Constituição do Estado de Roraima ao art. 75 da Constituição Federal.
Verificada perda superveniente parcial do objeto quanto ao respectivo parágrafo. 2. É vedada à
legislação estadual submeter à aprovação prévia da Assembleia Legislativa a nomeação de
dirigentes de Autarquias, Fundações Públicas, Presidentes de Empresas de Economia Mista,
Interventores de Municípios, bem como de titulares de Defensoria Pública e da Procuradoria-Geral
do Estado; por afronta à separação de poderes. 3. Declaração de inconstitucionalidade parcial, com
redução de texto, do inciso XVIII do art. 33 do dispositivo impugnado, retirando-se a expressão
"antes da nomeação, arguir os Titulares da Defensoria Pública, da Procuradoria Geral do Estado,
das Fundações Públicas, das Autarquias, os Presidentes das Empresas de Economia Mista". 4.
Declaração de inconstitucionalidade do parágrafo único do art. 62 da lei impugnada, bem como de
inconstitucionalidade
arguição pelo Poder Legislativo". 5. Ação Direta de Inconstitucionalidade julgada parcialmente
prejudicada e, na parte não prejudicada, julgada parcialmente procedente.
Decisão
2ª QUESTÃO:
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 7
Determinado Governador de Estado impetra habeas corpus perante o STF, em que visa o
trancamento da ação penal na qual o MP o denunciou por crimes contra a administração pública e
crimes da lei de licitações.
Alega o impetrante que o STJ recebeu a denúncia sem cumprir o que prevê a Carta Constitucional
Estadual no que tange à expressa autorização da respectiva Assembleia Legislativa para o
processamento de ação penal em crimes imputados ao Chefe do Poder Executivo Estadual.
Aduz ainda que, mesmo na ausência de tal dispositivo, o cumprimento de tal exigência se faz
necessário em homenagem ao princípio da simetria, porque, nos casos de denúncias a que se
imputam crimes ao Presidente da República, faz-se necessária a autorização da casa do povo.
Responda, fundamentadamente, se a ordem deve ser concedida.
RESPOSTA:
NOVO: Não há necessidade de prévia autorização da assembleia legislativa para o recebimento de
denúncia ou queixa e instauração de ação penal contra governador de Estado, por crime comum,
cabendo ao STJ, no ato de recebimento ou no curso do processo, dispor, fundamentadamente, sobre
a aplicação de medidas cautelares penais, inclusive afastamento do cargo. (...) O relator afirmou a
necessidade de superar os precedentes da Corte na dimensão de uma redenção republicana e cumprir
a promessa do art. 1º, caput, da CF, diante dos reiterados e vergonhosos casos de negligência
deliberada pelas assembleias legislativas estaduais, que têm sistematicamente se negado a deferir o
processamento de governadores. (...) Esclareceu não haver na CF previsão expressa da exigência de
autorização prévia de assembleia legislativa para o processamento e julgamento de governador por
crimes comuns perante o STJ. Dessa forma, inexiste fundamento normativo-constitucional expresso
que faculte aos Estados-membros fazerem essa exigência em suas Constituições estaduais. Não há,
também, simetria a ser observada pelos Estados-membros.
[ADI 5.540, rel. min. Edson Fachin, j. 3-5-2017, P, Informativo 863.]
APn 815 / DF, Relator(a) Ministro OG FERNANDES
Órgão Julgador CE - CORTE ESPECIAL
Data do Julgamento 07/06/2017; Data da Publicação/Fonte DJe 20/06/2017
Ementa
PENAL E PROCESSUAL PENAL. AÇÃO PENAL ORIGINÁRIA. GOVERNADOR DO
ESTADO DE MINAS GERAIS. DESNECESSIDADE DE AUTORIZAÇÃO PRÉVIA DA
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO PARA PROCESSAR A DEMANDA.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 8
JULGAMENTO DA ADIN 5.540/DF PELO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
APLICABILIDADE AO CASO EM EXAME. ANÁLISE DO RECEBIMENTO DA DENÚNCIA.
CRIME PREVISTO NO ART. 89 DA LEI N. 8.666/1993. PENA MÁXIMA COMINADA AO
DELITO DE 5 ANOS. PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA ESTATAL EM 12 ANOS.
ART. 109, III, DO CÓDIGO PENAL. FATO OCORRIDO EM 14/1/2004. AUSÊNCIA DE
CAUSA INTERRUPTIVA. PRESCRIÇÃO DECRETADA. CRIME PREVISTO NO ART. 1º, I,
DO DECRETO-LEI N. 201/1967. INEXISTÊNCIA DE QUALQUER INDÍCIO OU PROVA A
INQUINAR DE ILÍCITA A CONDUTA DO RÉU FERNANDO DAMATA PIMENTEL.
AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. DENÚNCIA REJEITADA QUANTO AO CRIME PREVISTO
NO ART. 1º, I, DO DECRETO-LEI N. 201/1967.
1. Com o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal da ADI 5.540/DF, ficou consolidado que
descabe solicitar da Assembleia Legislativa14/11/2014).
Tema 11:
O Poder Judiciário II. Tribunais dos Estados - justiça itinerante. Justiça Eleitoral. Justiça
Militar. Justiça do Trabalho. EC/45.
1ª QUESTÃO:
É competente a Justiça estadual para conhecer e julgar ação de reparação de danos com fundamento
no art. 7º, XXVIII, da Constituição, ajuizada antes de 31 de dezembro de 2004?
RESPOSTA:
Numa primeira interpretação, o Supremo Tribunal Federal entendeu que as ações de indenização
por danos morais e patrimoniais decorrentes de acidente de trabalho, ainda que movidas pelo
empregado contra seu (ex) empregador, eram da competência da Justiça comum dos Estados
Federados. Posteriormente, concluiu o Plenário que a Lei Republicana de 1988 conferiu tal
competência à Justiça do Trabalho.
Oportuno destacar que, por motivo de política judiciária e, diante do elevado número de ações que
já tramitaram e, ainda tramitam nas instâncias ordinárias, bem como o relevante interesse social em
causa, o Plenário do STF decidiu, por maioria, que o marco temporal da competência da Justiça
trabalhista é o advento da EC 45/04. Referida orientação alcança os processos em trâmite pela
Justiça comum estadual, desde que pendentes de julgamento de mérito. Vale ratificar que as ações
que tramitam perante a Justiça comum dos Estados, com sentença de mérito anterior à promulgação
da EC45/04, lá continuam até o trânsito em julgado e correspondente execução. Com relação àquelas
cujo mérito ainda não foi apreciado, hão de ser remetidas à Justiça do Trabalho, no estado em que
se encontram, com total aproveitamento dos atos praticados até o momento.
TJRJ - 0050004-12.2018.8.19.0000 - AGRAVO DE INSTRUMENTO
Des(a). ANDREA FORTUNA TEIXEIRA - Julgamento: 04/03/2020 - VIGÉSIMA QUARTA
CÂMARA CÍVEL
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 49
AGRAVO DE INSTRUMENTO. AÇÃO INDENIZATÓRIA COM PEDIDO DE DANOS
ESTÉTICO E MORAL EM DECORRÊNCIA DE ACIDENTE DE TRABALHO. DECISÃO
AGRAVADA QUE DECLINOU DA COMPETÊNCIA PARA A JUSTIÇA DO TRABALHO.
SERVIDOR PÚBLICO MUNICIPAL. EXISTÊNCIA DE VÍNCULO ESTATUTÁRIO.
COMPETÊNCIA DE JUSTIÇA COMUM ESTADUAL. 1. O ARTIGO 114, VI, DA CF/88, COM
REDAÇÃO CONFERIDA PELA EC 45/2004, FIXA NA JUSTIÇA DO TRABALHO A
COMPETÊNCIA PARA PROCESSAR E JULGAR ¿AS AÇÕES DE INDENIZAÇÃO POR
DANO MORAL OU PATRIMONIAL, DECORRENTES DA RELAÇÃO DE TRABALHO¿.
RECURSO QUE SE CONHECE E NEGA PROVIMENTO. 2. A SUPREMA CORTE, AO
JULGAR A ADI 3.395-DF, EXCLUIU DA EXPRESSÃO ¿RELAÇÃO DE TRABALHO¿ AS
DEMANDAS ENTRE O PODER PÚBLICO E SEUS SERVIDORES, VINCULADOS POR
TÍPICA RELAÇÃO DE ORDEM ESTATUTÁRIA OU DE CARÁTER JURÍDICO-
ADMINISTRATIVO. 3. HIPÓTESE EM QUE O AUTOR DA AÇÃO INDENIZATÓRIA É
SERVIDOR PÚBLICO DO MUNICÍPIO REGIDO POR LEI ESTATUTÁRIA E NÃO PELA
CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO, O QUE FIXA A COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
COMUM. 4. RECURSO PROVIDO.
2ª QUESTÃO:
João foi excluído da Polícia Militar do Rio de Janeiro através de procedimento administrativo em
que não pode exercer o contraditório e a ampla defesa. Sob o fundamento de tal nulidade, através
da Defensoria Pública, ajuizou ação anulatória de decisão disciplinar junto à Vara de Fazenda
Pública. Na contestação, o Estado argüiu preliminar de incompetência da Vara Fazendária em face
do disposto no artigo 125, § 4º., da CRFB com a redação dada pela Emenda Constitucional nº.45
apontando assim a inexistência de pressuposto processual de constituição do processo, vez que a
organização judiciária local não fala em órgão de justiça militar estadual. Resolva,
fundamentadamente.
RESPOSTA:
A Constituição no artigo 125, § 4º. instituiu a função de Justiça Militar Estadual em norma de
aplicabilidade imediata, pois tem natureza funcional tal competência.
No Rio de Janeiro, segundo a organização judiciária, embora não com a discriminação de órgãos da
justiça militar estadual, existe auditoria de justiça militar do Estado, previsto no Código de
Organização e Divisão Judiciária deste Estado.
Não é caso de extinção do processo, o que representaria denegação de justiça e violação do disposto
no art.5º., XXXVI. Dê-se baixa e redistribua-se a tal órgão.
O art. 60 da nova Lei de Organização Judiciária (lei 6956/2015) dispõe:
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 50
Art. 60 Ao juiz auditor, além da competência prevista na legislação aplicável, compete:
I - presidir os Conselhos de Justiça e redigir as sentenças e decisões que profiram;
II - expedir todos os atos necessários ao cumprimento das decisões dos Conselhos ou no exercício
de suas próprias funções;
III - decidir os habeas corpus, habeas data e mandados de segurança em matéria de sua competência;
IV - processar e julgar, singularmente, os crimes militares cometidos contra civis e as ações judiciais
contra atos disciplinares militares.
*ALTERADO PELO RDA 44/2015
Tema 12:
O Poder Judiciário III. Nacionalização da Justiça. Regime Jurídico da Magistratura.
1ª QUESTÃO:
O juiz substituto A impetrou mandado de segurança contra ato do Conselho Nacional de Justiça
(Portaria 228/2008), que considerou a inamovibilidade como uma garantia apenas dos juízes
titulares.
Narra que ingressou na magistratura em 2006, tendo sido lotado em Alto Araguaia; que desde então
houve reiteradas remoções sem seu consentimento prévio.
O Conselho Nacional de Justiça, a seu turno, aduziu que os juízes substitutos gozam apenas da
garantia da vitaliciedade, havendo independência ontológica e teleológica entre esta e a
inamovibilidade, adquirida apenas com a titularidade.
a) Tem o Conselho Nacional de Justiça competência para expedir tal Portaria?
b) Deve ser concedida a segurança?
Respostas objetivamente justificadas.
RESPOSTA:
a) Art. 103-B §4º, I CF/88.
b) MANDADO DE SEGURANÇA. ATO DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA QUE
CONSIDEROU A INAMOVIBILIDADE GARANTIA APENAS DE JUIZ TITULAR.
INCONSTITUCIONALIDADE. A INAMOVIBILIDADE É GARANTIA DE TODA A
MAGISTRATURA, INCLUINDO O JUIZ TITULAR E O SUBSTITUTO. CONCESSÃO DA
SEGURANÇA. I - A inamovibilidade é, nos termos do art. 95, II, da Constituição Federal, garantia
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 51
de toda a magistratura, alcançando não apenas o juiz titular, como também o substituto. II - O
magistrado só poderá ser removido por designação, para responder por determinada vara ou comarca
ou para prestar auxílio, com o seu consentimento, ou, ainda, se o interesse público o exigir, nos
termos do inciso VIII do art. 93 do Texto Constitucional. III - Segurança concedida.
(STF. MS 27958 / DF - DISTRITO FEDERAL
MANDADO DE SEGURANÇA. Relator(a): Min. RICARDO LEWANDOWSKI. Julgamento:
17/05/2012 Órgão Julgador: Tribunal Pleno. Publicação: ACÓRDÃO ELETRÔNICO. DJe-170
DIVULG 28-08-2012 PUBLIC 29-08-2012).
TRF 5ª REGIÃO
PROCESSO Nº: 0805484-92.2018.4.05.8200 - APELAÇÃO CÍVEL APELANTE: UNIÃO
FEDERAL APELADO: DANIEL HENRIQUE GUIMARAES DE SA ADVOGADO: Adair
Borges Coutinho Neto RELATOR(A): Desembargador(a) Federal Cid Marconi Gurgel de Souza -
3ª Turma MAGISTRADO CONVOCADO: Desembargador(a) Federal Luiz Bispo Da Silva Neto
JUIZ PROLATOR DA SENTENÇA (1° GRAU): Juíza Federal Cristina Maria Costa Garcez
EMENTA ADMINISTRATIVO. SERVIDOR PÚBLICO. REMOÇÃO PARA ACOMPANHAR
CÔNJUGE MAGISTRADO REMOVIDA A PEDIDO. ARTIGO 36, III, "A", DA LEI 8.112/90.
REQUISITOS ATENDIDOS. 1. Apelação interposta pela União em face da sentença que julgou
procedente o pedido formulado pelo Autor, de remoção para Natal/RN (15ª Superintendência
Regional da PRF), com fulcro no art. 36, parágrafo único, III, "a", da Lei nº 8.112/90. 2. A sentença
considerou que a esposa do Autor, na qualidade de Magistrada, foi removida no interesse da
Administração, já que a remoção de Magistrado, seja a pedido ou ex officio, sempre decorre do
interesse público da Administração. 3. A Recorrente, aduz, em suma,que a remoção da esposa do
Requerente se deu por permuta, e, o interesse em realizar a remoção por permuta é primordialmente
das partes que a requerem, cabendo ao órgão administrativo apenas a concordância para
concretização de tal ato, sendo desarrazoado afirmar que há algum interesse administrativo a ser
atendido ao possibilitar a troca de dois servidores ocupantes de cargos idênticos, em razão de a
Administração apenas anuir para a permuta dos servidores. 4. Conquanto o cônjuge do Autor não
seja servidora pública, mas agente político, visto que é Juíza Federal, tal fato não tem o condão de
impedir a remoção na forma pleiteada, mormente considerando que o disposto no art. 36, III, "a",
da Lei 8.112/1990 deve ser interpretado em consonância com o art. 226 da Carta Magna,
ponderando-se os valores que visa proteger. 5. É certo que a jurisprudência se mostra pacífica no
sentido de que não há que se falar em direito à remoção se a ruptura do núcleo familiar não decorreu
de ato da Administração Pública, mas de forma voluntária e no interesse exclusivo do particular. 6.
No caso vertente, mostra-se que o cônjuge do Autor era Juíza do Trabalho da 9ª Região (Vara do
Trabalhode Cianorte/PR), desde 02/02/2015 (Id. 4058200.2471417), e foi empossada, em
15/01/2018, como Juíza do Trabalho da 21ª Região (Rio Grande do Norte), em virtude de remoção
por permuta com outro Juiz (Id. 4058200.2471414). O deslocamento ocorreu para o mesmo
cargo/carreira (Juiz do Trabalho Substituto) e sem solução de continuidade. 7. A remoção por
permuta constitui uma das modalidades de remoção a pedido, a qual se submete ao critério da
administração, dentro dos princípios da oportunidade e conveniência, que pode deferir ou não o
pedido, levando em consideração o interesse maior: que é o interesse público. 8. A jurisprudência
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 52
do Superior Tribunal de Justiça é firme no sentido que a remoção do Magistrado, seja a pedido ou
ex officio, sempre decorre do interesse público da Administração. (STJ - AgRg no REsp
1.472.062/RS, Rel. Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, Primeira Turma, julgado em 27/06/2017,
DJe 03/08/2017). Ademais, diante da garantia da inamovibilidade prevista na Constituição Federal
e na Lei Orgânica da Magistratura Nacional, a remoção do Magistrado só poderia ocorrer,
efetivamente, se feita a pedido deste. 9. Autor que faz jus à remoção pretendida para acompanhar
sua esposa, Magistrada. 10. Apelação improvida. Honorários recursais a cargo da Recorrente,
restando majorados os honorários sucumbenciais de 10%, para 11%, nos termos do art. 85, § 11, do
CPC. avna
(PROCESSO: 08054849220184058200, APELAÇÃO CÍVEL, DESEMBARGADOR FEDERAL
LEONARDO AUGUSTO NUNES COUTINHO, 3ª TURMA, JULGAMENTO: 27/08/2020)
2ª QUESTÃO:
Ao chegarem ao Corregedor-Geral de Justiça de um Tribunal estadual peças de informação acerca
de suspeita de membros do Poder Judiciário local envolvidos com práticas de corrupção, aquela
autoridade envia as peças para o Conselho Nacional de Justiça, já que o Presidente do Tribunal e os
Vice-Presidentes encontram-se envolvidos com tais práticas e ele não tem atribuição para impor-
lhes sanções.
Responda, fundamentadamente, se a conduta da autoridade foi correta.
RESPOSTA:
Alterado o gabarito de acordo com o R.D.A. nº 39:
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 1
O Plenário iniciou julgamento de referendo em medida cautelar em ação direta de
inconstitucionalidade ajuizada, pela Associação dos Magistrados Brasileiros - AMB, contra a
Resolução 135/2011, do Conselho Nacional de Justiça - CNJ. O diploma adversado dispõe sobre a
uniformização de normas relativas ao procedimento administrativo disciplinar aplicável aos
magistrados, acerca dos ritos e das penalidades, e dá outras providências. De início, reconheceu-se
a legitimidade da requerente para propor a presente ação, na esteira de precedentes da Corte, bem
como o caráter abstrato, geral e autônomo do ato questionado. Rejeitou-se, de igual maneira, a
preliminar suscitada pelo Procurador Geral da República no sentido de que, deferida a liminar pelo
relator e referendada pelo Colegiado, ter-se-ia, de modo automático, o restabelecimento da
Resolução 30/2007, que tratava da uniformização de normas relativas ao procedimento
administrativo disciplinar aplicável aos magistrados. Tendo em conta a revogação deste ato
normativo pela resolução atacada na ação direta, asseverou-se a inviabilidade do controle
concentrado de constitucionalidade. Salientou-se que se teria círculo vicioso caso se entendesse pela
necessidade de se impugnar a resolução pretérita juntamente com a que estaria em mesa para ser
apreciada.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 53
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
1ª parte
2ª parte
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 2
O Min. Marco Aurélio, relator, em breve introdução, destacou que caberia à Corte definir se o CNJ,
ao editar a resolução em comento, teria extrapolado os limites a ele conferidos pela Constituição.
Assinalou que as competências atribuídas, pela EC 45/2004, ao referido órgão produziriam tensão
entre a sua atuação (CF, art. 103-B, § 4º, III) e a autonomia dos tribunais (CF, artigos 96, I, a, e 99).
Após, o Tribunal deliberou pela análise de cada um dos dispositivos da norma questionada. Quanto
ao art. 2º ("Considera-se Tribunal, para os efeitos desta resolução, o Conselho Nacional de Justiça,
o Tribunal Pleno ou o Órgão Especial, onde houver, e o Conselho da Justiça Federal, no âmbito da
respectiva competência administrativa definida na Constituição e nas leis próprias"), o STF, por
maioria, referendou o indeferimento da liminar. Consignou-se que o CNJ integraria a estrutura do
Poder Judiciário, mas não seria órgãojurisdicional e não interviria na atividade judicante. Este
Conselho possuiria, à primeira vista, caráter eminentemente administrativo e não disporia de
competência para, mediante atuação colegiada ou monocrática, reexaminar atos de conteúdo
jurisdicional, formalizados por magistrados ou tribunais do país. Ressaltou-se que a escolha pelo
constituinte derivado do termo "Conselho" para a instituição interna de controle do Poder Judiciário
mostrar-se-ia eloquente para evidenciar a natureza administrativa do órgão e para definir, de maneira
precisa, os limites de sua atuação. Sublinhou-se que o vocábulo "Tribunal" contido no art. 2º em
tela revelaria tão somente que as normas seriam aplicáveis também ao Conselho Nacional de Justiça
e ao Conselho da Justiça Federal. O Min. Ayres Britto ressalvou que o CNJ seria mais do que um
órgão meramente administrativo, pois abrangeria o caráter hibridamente político e administrativo
de natureza governativa. Vencidos os Ministros Luiz Fux e Cezar Peluso, Presidente, que também
referendavam o indeferimento da liminar, mas davam ao preceito interpretação conforme a
Constituição. O primeiro o fazia, sem redução de texto, para esclarecer que a expressão "Tribunal"
alcançaria o CNJ apenas para efeito de submissão deste órgão às regras da resolução. O Presidente
afirmava que os tribunais só poderiam ser abarcados pelos efeitos da resolução que caberiam no
âmbito de incidência do poder normativo transitório do CNJ e não atingidos por normas
incompatíveis com a autonomia que os próprios tribunais têm de se autorregularem nos termosda
Constituição.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 54
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 3
Referendou-se o indeferimento da liminar quanto ao art. 3º, V, da mencionada resolução ("Art. 3º
São penas disciplinares aplicáveis aos magistrados da Justiça Federal, da Justiça do Trabalho, da
Justiça Eleitoral, da Justiça Militar, da Justiça dos Estados e do Distrito Federal e Territórios: ... V
- aposentadoria compulsória"). Repeliu-se a alegação de que o preceito impugnado excluiria o
direito ao recebimento dos vencimentos proporcionais em caso de aposentadoria compulsória.
Considerou-se que, no silêncio deste dispositivo - que arrola a aposentadoria compulsória sem
referência à percepção de subsídios ou proventos proporcionais -, não se poderia presumir que o
CNJ - órgão sancionador - atuasse à revelia do art. 103-B, § 4º, III, da CF, preceito que determinaria
expressamente aposentadoria compulsória com subsídios ou proventos proporcionais ao tempo de
serviço. Registrou-se que a declaração de inconstitucionalidade do art. 3º, V, da resolução em
comento pressuporia conflito manifesto com norma constitucional, inexistente na espécie e, por isso,
deveria ser mantida a sua eficácia.
ADI 4638Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 4
No que concerne ao § 1º desse mesmo artigo ("As penas previstas no art. 6º, § 1º, da Lei nº 4.898,
de 9 de dezembro de 1965, são aplicáveis aos magistrados, desde que não incompatíveis com a Lei
Complementar nº 35, de 1979"), referendou-se, por maioria, o deferimento da liminar. Elucidou-se
que, embora os magistrados respondessem disciplinarmente por ato caracterizador de abuso de
autoridade, a eles não se aplicariam as penas administrativas versadas na Lei 4.898/65, porquanto
submetidos à disciplina especial derrogatória, qual seja, a Lei Orgânica da Magistratura Nacional -
Loman. Enfatizou-se que esta estabeleceria, em preceitos exaustivos, os deveres e as penalidades
impostos aos juízes. O Min. Celso de Mello observou que o regime jurídico definido pela Loman,
posto sob reserva de lei complementar, não permitiria que o CNJ, ao atuar em sede administrativa,
formulasse resolução ampliativa do rol a que se refere o art. 42 do Estatuto da Magistratura.
Vencidos os Ministros Cármen Lúcia e Joaquim Barbosa, que indeferiam a cautelar. A primeira, ao
fundamento de que preveleceria, em exame precário, a presunção de constitucionalidade das leis,
haja vista que o art. 103-B, § 4º, IV, da CF estabeleceria a competência do CNJ para representar ao
Ministério Público no caso de crime contra a Administração Pública ou de abuso de autoridade e
que este instituto seria disciplinado pela Lei 4.898/65, ao passo que a Loman não trataria
especificamente do tema. O último, por reputar que retirar a eficácia da norma, neste momento e
pelo tempo que perdurar a cautelar, significava criar excepcionalidade injustificada aos magistrados.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 5
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 55
Ao prosseguir no julgamento, no tocante ao art. 4º da aludida resolução ("O magistrado negligente,
no cumprimento dos deveres do cargo, está sujeito à pena de advertência. Na reiteração e nos casos
de procedimento incorreto, a pena será de censura, caso a infração não justificar punição mais
grave"), referendou-se, por maioria, o indeferimento da liminar. Afastou-se a assertiva de que a
supressão da exigência de sigilo na imposição das sanções de advertência e censura deveriam ser
aplicadas nos moldes preconizados na Loman. Vencidos os Ministros Luiz Fux e Presidente. Aquele
reputava existir uma contraposição entre a resolução e o Estatuto da Magistratura, o qual, a exemplo
de outras leis federais, também preveria o sigilo na tutela de seus membros. Ademais, assinalava
que naponderação de valores, consoante moderna doutrina, o princípio da dignidade da pessoa
humana prevaleceria sobre o interesse público. O Presidente, por sua vez, destacava que aqueles
ligados, de algum modo, ao sistema jurídico e Judiciário não deveriam ter penas e processos
disciplinares em segredo. Não obstante, enfatizava que se a própria Constituição admitiria o regime
de publicidade restrita aos processos criminais, em que a pena seria mais grave, indagava a razão de
não admiti-la quanto à pena considerada mais leve.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 6
No que diz respeito ao art. 20 ("O julgamento do processo administrativo disciplinar será realizado
em sessão pública e serão fundamentadas todas as decisões, inclusive as interlocutórias"), o qual
estaria estreitamente ligado ao art. 4º, referendou-se o indeferimento da cautelar. Ressaltou-se que
o respeito ao Poder Judiciário não poderia ser obtido por meio de blindagem destinada a proteger
do escrutínio público os juízes e o órgão sancionador, o que seria incompatível com a liberdade de
informação e com a ideia de democracia. Ademais, o sigilo imposto com o objetivo de proteger a
honra dos magistrados contribuiria para um ambiente de suspeição e não para a credibilidade da
magistratura, pois nada mais conducente à aquisição de confiança do povo do que a transparência e
a força do melhor argumento. Nesse sentido, assentou-se que a Loman, ao determinar a imposição
de penas em caráter sigiloso, ficara suplantada pela Constituição. Asseverou-se que a modificação
trazida no art. 93, IX e X, da CF pela EC 45/2004 assegurara a observância do princípio da
publicidade no exercício da atividade judiciária, inclusive nos processos disciplinares instaurados
contra juízes, permitindo-se, entretanto, a realização de sessões reservadas em casos de garantia ao
direito à intimidade, mediante fundamentação específica. Por fim, explicitou-se que, ante o novo
contexto, a resolução do CNJ, ao prever a publicidade das sanções disciplinares e da sessão de
julgamento não extrapolara os limites normativos nem ofendera garantia da magistratura, visto que,
a rigor, essas normas decorreriam diretamente da Constituição, sobretudo, posteriormente à edição
da EC 45/2004.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 7
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 56
Na sequência, o Plenário atribuiu interpretação conforme a Constituiçãoaos artigos 8º e 9º, §§ 2º e
3º da citada resolução ("Art. 8º O Corregedor, no caso de magistrados de primeiro grau, o Presidente
ou outro membro competente do Tribunal, nos demais casos, quando tiver ciência de irregularidade,
é obrigado a promover a apuração imediata dos fatos, observados os termos desta Resolução e, no
que não conflitar com esta, do Regimento Interno respectivo.Parágrafo único. Se da apuração em
qualquer procedimento ou processo administrativo resultar a verificação de falta ou infração
atribuída a magistrado, será determinada, pela autoridade competente, a instauração de sindicância
ou proposta, diretamente, ao Tribunal, a instauração de processo administrativo disciplinar,
observado, neste caso, o art. 14, caput, desta Resolução. Art. 9º A notícia de irregularidade praticada
por magistrados poderá ser feita por toda e qualquer pessoa, exigindo-se formulação por escrito,
com confirmação da autenticidade, a identificação e o endereço do denunciante. § 1º Identificados
os fatos, o magistrado será notificado a fim de, no prazo de cinco dias, prestar informações. § 2º
Quando o fato narrado não configurar infração disciplinar ou ilícito penal, o procedimento será
arquivado de plano pelo Corregedor, no caso de magistrados de primeiro grau, ou pelo Presidente
do Tribunal, nos demais casos ou, ainda, pelo Corregedor Nacional de Justiça, nos casos levados ao
seu exame. § 3º Os Corregedores locais, nos casos de magistrado de primeiro grau, e os presidentes
de Tribunais, nos casos de magistrados de segundo grau, comunicarão à Corregedoria Nacional de
Justiça, no prazo de quinze dias da decisão, o arquivamento dos procedimentos prévios de apuração
contra magistrados"), com o fim de que, onde conste "Presidente" ou "Corregedor", seja lido "órgão
competente do tribunal".
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 8
O relator realçou que o CNJ poderia exigir informações acerca do andamento de processos
disciplinares em curso nos tribunais, mas não caberia ao órgão definir quem seria a autoridade
responsável pelo envio dos dados, sob pena de contrariedade aos artigos 96, I, e 99 da CF. O Min.
Ayres Britto acresceu que o fundamento de validade das competências tanto do CNJ quanto dos
tribunais seria a Constituição. Afirmou que, consoante o § 4º do art. 103-B da CF, o CNJ
desempenharia função de controle, cuja acepção compreender-se-ia em dois sentidos: o de
prevenção e o de correição.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 9
Ato contínuo, em juízo meramente delibatório, o Supremo, por maioria, conferiu interpretação
conforme a Constituição ao art. 10 do ato em tela ["Das decisões referidas nos artigos anteriores
caberá recurso no prazo de 15 (quinze) dias ao Tribunal, por parte do autor da representação"] para,
excluindo a expressão "por parte do autor da representação", entender-se que o sentido da norma
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 57
seria o da possibilidade de recurso pelo interessado, seja ele o magistrado contra o qual se instaura
o procedimento, seja ele o autor da representação arquivada. Enfatizou-se inexistirem, no sistema
de direito público brasileiro, especialmente no Judiciário, decisões terminais no âmbito de
colegiados por parte de individualidades, componentes do tribunal. Portanto, seria uma decorrência
natural que houvesse um recurso para o colegiado. Inferiu-se que o preceito tão só explicitaria o fato
de decisão monocrática ser suscetível de recurso. Assim, ressaltou-se que caberia sempre recurso
do interessado para o tribunal. Desse modo, não seria inovador, tratar-se-ia de dispositivo a
explicitar princípio do sistema constitucional, o da recorribilidade contra toda decisão, ainda que de
caráter administrativo, dotada de lesividade teórica. Vencidos o relator e os Ministros Luiz Fux,
Ricardo Lewandowski e Celso de Mello, que mantinham a cautelar conforme deferida, ou seja, em
maior extensão. Vislumbravam que não seria dado ao Conselho criar recursos contra decisões
administrativo-disciplinares de tribunais tomadas em procedimento reservado à normatização do
legislador complementar ou deles próprios, a depender da sanção aplicável. Vencida, também, a
Min. Rosa Weber, que indeferia o pedido da AMB, por reputar, em cognição sumária, inserir-se na
competência transitória do CNJ, em virtude da redação da EC 45/2004, a possibilidade de regrar e,
inclusive, prever o mencionado recurso no âmbito de todos os tribunais.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 10
No que se refere ao art. 12, caput e parágrafo único, da Resolução 135/2011 do CNJ ("Art. 12. Para
os processos administrativos disciplinares e para a aplicação de quaisquer penalidades previstas em
lei, é competente o Tribunal a que pertença ou esteja subordinado o Magistrado, sem prejuízo da
atuação do Conselho Nacional de Justiça. Parágrafo único. Os procedimentos e normas previstos
nesta Resolução aplicam-se ao processo disciplinar para apuração de infrações administrativas
praticadas pelos Magistrados, sem prejuízo das disposições regimentais respectivas que com elas
não conflitarem"), o Plenário, por maioria, negou referendo à liminar e manteve a competência
originária e concorrente do referido órgão para instaurar procedimentosadministrativos disciplinares
aplicáveis a magistrados. Para o Min. Joaquim Barbosa, a EC 45/2004, ao criar o CNJ, não se
limitara a criar mais um órgão para exercer, concomitantemente, atribuições exercidas com
deficiência por outros órgãos. A referida emenda teria requalificado, de maneira substantiva, uma
dada função, ao atribuir ao novo órgão posição de proeminência em relação aos demais. Explicou
que essa primazia decorreria, em primeiro lugar, do fato de que a própria Constituição teria
concedido ao CNJ extraordinário poder de avocar processos disciplinares em curso nas
corregedorias dos tribunais. Aduziu não se conferir poder meramente subsidiário a órgão
hierarquicamente superior, que teria a prerrogativa de tomar para si decisões que, em princípio,
deveriam ser tomadas por órgãos hierarquicamente inferiores. Em segundo lugar, destacou que o
aludido órgão superior teria o poder de agir de ofício, em campo de atuação em princípio demarcado
para a atividade de órgão inferior, de modo que jamais se poderia entender que a competência
daquele seria subsidiária, salvo sob mandamento normativo expresso. Reforçou que a EC 45/2004
nunca aventara a hipótese da subalternidade da ação disciplinar do CNJ em relação às corregedorias.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 58
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 11
A Min. Rosa Weber acrescentou que o CNJ deteria competência para expedir normas de caráter
genérico e abstrato sobre as matérias do art. 103-B, I, II e § 4º, da CF, de sorte a não se falar em
usurpação da competência dos tribunais ou do legislador complementar. Entreviu que, enquanto não
vigente o novo Estatuto da Magistratura, caberia ao CNJ disciplinar, mediante resoluções, as
matérias de sua competência. Assim, o referido órgão poderia regulamentar matérias até então
sediadas na Loman e nos regimentos internos dos tribunais nos processos disciplinares que
tramitassem no âmbito dessas Cortes, diante do redesenho institucional promovido pela EC45/2004.
Advertiu que o potencial exercício inadequado de uma competência não levaria, por si só, à
declaração de inconstitucionalidade, presentes os mecanismos legais para coibir excessos.
Considerou que a uniformização das regras pertinentes aos procedimentos administrativos
disciplinares aplicáveis aos magistrados apresentar-se-ia como condição necessária à plena
efetividade da missão institucional do CNJ. Consignou, nesse sentido, o caráter uno do Judiciário,
a legitimar a existência de um regramento minimamente uniforme na matéria. Deduziu não haver
ameaça ao Pacto Federativo, à luz do art. 125 da CF. Concluiu, com base no art. 103-B, § 4º, I, II,
III e V, da CF, que a competência do CNJ na matéria seria originária e concorrente, e não meramente
subsidiária.
ADI 4638Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
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O Min. Dias Toffoli sublinhou que o CNJ não teria sido criado para substituir as corregedorias, mas
deveria trazer à luz da nação os casos mais relevantes, bem como decidir quais processos deveriam
permanecer nos tribunais locais. Ressurtiu que se estaria a defender a possibilidade de ampliação da
atividade do CNJ, sem, entretanto, retirar a autonomia dos tribunais. Discorreu, em obter dictum,
sobre a inadmissibilidade de o CNJ interferir nos trabalhos da justiça eleitoral. A Min. Cármen Lúcia
salientou a necessidade de o órgão exercer sua competência primária e concorrente sem necessidade
de formalidades além das dispostas constitucionalmente. Sob esse aspecto, o Min. Gilmar Mendes
asseverou que condicionar a atividade do CNJ a uma formalização - no sentido de obrigá-lo a
motivar a evocação de sua competência disciplinar no caso concreto - importaria na impugnação
sistêmica de seus atos. Enfatizou ser truísmo que a atividade correcional não seria efetiva,
especialmente nas ações do próprio tribunal. Rememorou que a resolução questionada teria sido
obra do CNJ em conjunto com os tribunais, ao perceberem incongruências, perplexidades e
insegurança nas suas próprias disciplinas.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 59
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 13
Vencidos o relator e os Ministros Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Presidente,
que referendavam a liminar, para exigir que o CNJ, ao evocar sua competência correcional, fizesse-
o mediante motivação. O relator aduzia que a Constituição, ao delimitar a atuação do CNJ no tocante
à matéria, estabelecera que lhe competiria o controle das atividades administrativa e financeira do
Judiciário, bem como dos deveres funcionais dos juízes. Caber-lhe-ia, também, o zelo pela
autonomia desse Poder e pela observância do art. 37 da CF. Poderia, assim, desconstituir atos, revê-
los ou fixar prazo para que se adotassem providências necessárias ao exato cumprimento da lei.
Afirmava, ademais, competir-lhe receber e conhecer de reclamações contra membros ou órgãos do
Judiciário e contra seus próprios serviços, sem prejuízo da atribuição disciplinar e correcional dos
tribunais, podendo avocar processos disciplinares em curso, mediante motivação socialmente
aceitável - hipóteses de inércia, simulação na investigação, procrastinação ou ausência de
independência do tribunal de origem. Cumprir-lhe-ia, igualmente, rever, de ofício oumediante
provocação, os processos disciplinares de juízes e membros de tribunais julgados há menos de 1
ano, nos termos da primeira parte do art. 12 da Resolução 135/2011.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 14
Realçava que o CNJ não poderia escolher, de forma aleatória, os processos que devesse julgar, sob
pena de se fulminar o princípio da impessoalidade. Entendia que o art. 12 deveria compatibilizar-se
com a disciplina constitucional, especificamente com o art. 103-B, § 4º, da CF. Assim, a expressão
"sem prejuízo da atuação do CNJ" observaria a regra da competência do tribunal a que pertencesse
ou estivesse subordinado o magistrado, e a possibilidade de atuação do CNJ dar-se-ia, nos moldes
da Constituição, mediante situação anômala. Quanto ao parágrafo único, suspendia o preceito, para
assentar que, no que tange aos processos administrativos em curso em tribunal, seriam regulados
pelo regimento interno local, e não pelo regulamento do CNJ. O Min. Luiz Fux frisava que
estabelecer ao CNJ - em casos motivados e em situações anômalas - competência administrativa
comum seria adaptar a realidade normativa à realidade prática. Lembrava que, atualmente, o próprio
órgão já ponderaria o que seria essencial ao exercício de suas atribuições e o que deveria se sujeitar
às corregedorias locais. O Min. Ricardo Lewandowski explicitava - com base nos princípios
federativo, republicano e democrático, bem como no princípio da autonomia dos tribunais - que a
competência correcional do CNJ seria de natureza material ou administrativa comum, nos termos
do art. 23, I, da CF, - assim como a desempenhada pelas corregedorias dos tribunais - cujo exercício
dependeria de decisão motivada apta a afastar a competência disciplinar destes, em situações
excepcionais.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 60
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 15
O Min. Celso de Mello mencionava que reduzir ou mitigar a autonomia dos tribunais locais
significaria degradar a autonomia institucional dos Estados-membros, e observava a importância da
preservação da integridade das garantias dos juízes, mecanismos de proteção dos próprios cidadãos.
Nessa contextura, o CNJ deveria se pautar pelo princípio da subsidiariedade, e interpretação
contrária colocaria em jogo a própria funcionalidade do órgão. O Presidente apontava que um dos
fatores que teriam ditado a edição da EC 45/2004 seria a relativa deficiência dos órgãos correcionais
especialmente tribunais. Nesse sentido, o CNJ não teria sido criado para extinguir ascorregedorias,
mas para remediar sua inoperância. Consignava que qualquer interpretação que pusesse em risco a
sobrevivência prática das corregedorias envolveria uma contradição no modo de conceber a EC
45/2004 e a função do CNJ. Haveria, portanto, a necessidade de compatibilizar a concepção da
competência do órgão com a necessidade de não prejudicar, como determinaria a Constituição, a
competência das corregedorias. Isso porque reconhecer-se a competência primária do CNJ sem
motivação implicaria reduzir um grau de jurisdição administrativa para os magistrados. Por fim,
deliberou-se suspender o julgamento.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 1º e 2.2.2012. (ADI-4638)
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O Plenário concluiu julgamento de referendo em medida cautelar em ação direta de
inconstitucionalidade ajuizada, pela Associação dos MagistradosBrasileiros - AMB, contra a
Resolução 135/2011, do Conselho Nacional de Justiça - CNJ. O diploma adversado dispõe sobre a
uniformização de normas relativas ao procedimento administrativo disciplinar aplicável aos
magistrados, acerca dos ritos e das penalidades, e dá outras providências - v. Informativo 653. Na
presente assentada, negou-se, por maioria, referendo à cautelar quanto aos §§ 3º, 7º, 8º e 9º da cabeça
do art. 14; aos incisos IV e V da cabeça do art. 17; e ao § 3º do art. 20 do ato questionado ("Art. 14.
Antes da decisão sobre a instauração do processo pelo colegiado respectivo, a autoridade
responsável pela acusação concederá ao magistrado prazo de quinze dias para a defesa prévia,
contado da data da entrega da cópia do teor da acusação e das provas existentes ... § 3º O Presidente
e o Corregedor terão direito a voto ... § 7º O relator será sorteado dentre os magistrados que integram
o Pleno ou o Órgão Especial do Tribunal, não havendo revisor. § 8º Não poderá ser relator o
magistrado que dirigiu o procedimento preparatório, ainda que não seja mais o Corregedor. § 9º. O
processo administrativo terá o prazo de cento e quarenta dias para ser concluído, prorrogável,
quando imprescindível para o término da instrução e houver motivo justificado, mediante
deliberação do Plenário ou Órgão Especial ... Art. 17 Após, o Relator determinará a citação do
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 61
Magistrado para apresentar as razões de defesa e as provas que entender necessárias, em 5 dias,
encaminhando-lhe cópia do acórdão que ordenou a instauração do processo administrativo
disciplinar, com a respectiva portaria, observando-se que: ... IV - considerar-se-á revel o magistrado
que, regularmente citado, não apresentar defesa no prazo assinado; V - declarada a revelia, o relator
poderá designar defensor dativo ao requerido, concedendo-lhe igual prazo para a apresentação de
defesa ... Art. 20 ... § 3º O Presidente e o Corregedorterão direito a voto").
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 8.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 17
A Min. Rosa Weber reiterou que o redesenho do Poder Judiciário promovido pela EC 45/2004
imporia releitura sistemática das normas constitucionais e infraconstitucionais envolvidas nesta
ação, inclusive a Lei Orgânica da Magistratura Nacional - Loman, à luz do novo paradigma
instituído a partir da criação do CNJ. Assim, tendo em conta a regra de transição do art. 5º, § 2º, da
referida emenda, a qual embasaria a Resolução 135/2011, asseverou que, enquanto não editado o
Estatuto da Magistratura, a uniformização das regras referentes aos procedimentos administrativos
disciplinares aplicáveis aos juízes representaria conditio sine qua non à plena efetividade da missão
institucional do Conselho. O Min. Ayres Britto destacou que esse órgão seria um aparato do Poder
Judiciário situado na cúpula da organização judiciária do país, a conferir peculiaridade federativa
ao aludido poder. Além disso, exerceria quarta função estatal, a saber, a de controle preventivo,
profilático e corretivo. Consignou, ainda, que o art. 96, I, a, da CF referir-se-ia a norma geral para
todo e qualquer processo, ao passo que o art. 14 da resolução impugnada seria de cunho especial,
de âmbito peculiarmente disciplinar. Frisou que o controle entregue, pela EC 45/2004, aos cuidados
do CNJ exigiria interpretação sistemática, para que esse órgão administrativo não se opusesse aos
tribunais. O Min. Gilmar Mendes reputou que o preceito apenas estabeleceria modelo correcional
pertencente ao CNJ como órgão de cúpula, sem que houvesse comprometimento do modelo
federativo ou da autonomia do Judiciário.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 8.2.2012. (ADI-4638)
Resolução 135/2011 do CNJ e uniformização de procedimento administrativo disciplinar - 18
Vencidos os Ministros Marco Aurélio, relator, Ricardo Lewandowski, Celso de Mello e Cezar
Peluso, Presidente, que referendavam a liminar por entenderem não ser permitido ao CNJ, via
resolução, criar, em processo disciplinar dos tribunais, novos procedimentos e definir quem
participaria do julgamento. Assinalavam que o art. 14, caput, do preceito reproduziria o conteúdo
do art. 27 da Loman, a implicar sobreposição passível de surtir efeitos normativos ou causar
confusão caso esta fosse alterada. Vencido, também, o Min. Luiz Fux, que a referendava
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 62
parcialmente para fixar o prazo de 140 dias a fim de que as corregedorias locais apurassem os fatos
que chegassem ao seu conhecimento e, superado este, caberia aintervenção do CNJ, sem prejuízo
da verificação da responsabilidade daquelas. Explicitava que o mencionado prazo seria formado a
partir da soma de 60 dias previstos no art. 152 da Lei 8.112/90 com a sua prorrogação por idêntico
período, acrescido de 20 dias para o administrador competente decidir o procedimento
administrativo disciplinar, consoante o art. 167 do mesmo diploma.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 8.2.2012. (ADI-4638)
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No que concerne ao § 1º do art. 15 ("O afastamento do Magistrado previsto no caput poderá ser
cautelarmente decretado pelo Tribunal antes da instauração do processo administrativo disciplinar,
quando necessário ou conveniente a regular apuração da infração disciplinar"), o Colegiado
referendou, também por votação majoritária, a liminar concedida. Aduziu-se tratar-se de nova
hipótese cautelar de afastamento de magistrado do cargo. Realçou-se que eventual restrição às
garantias da inamovibilidade e da vitaliciedade exigiria a edição de lei em sentido formal e material,
sob pena de ofensa aos princípios da legalidade e do devido processo. Ademais, a própria Loman
preveria essa medida quando da instauração de processo administrativo disciplinar ou do
recebimento de ação penal acusatória (artigos 27, § 3º, e 29). O Min. Celso de Mello lembrou que o
tema diria respeito à reserva de jurisdição. Vencida a Min. Rosa Weber, que denegava a pretensão
ao fundamento de que, em cognição sumária, o controle da observância dos deveres funcionais dos
magistrados estaria compreendido na competência do CNJ de editar normas de caráter primário para
regrar suas atribuições.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 8.2.2012. (ADI-4638)
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Na sequência, relativamente ao parágrafo único do art. 21 ("Na hipótese em que haja divergência
quanto à pena, sem que se tenha formado maioria absoluta por uma delas, será aplicada a mais leve,
ou, no caso de duas penas alternativas, aplicar-se-á a mais leve que tiver obtido o maior número de
votos"), o Tribunal, por maioria, deu interpretação conforme a Constituição para entender que deve
haver votação específica de cada uma das penas disciplinares aplicáveis a magistrados até que se
alcance a maioria absoluta dos votos, conforme preconizado no art. 93, VIII, da CF. Salientou-se
que essa solução evitaria que juízo condenatório fosse convolado em absolvição antea falta de
consenso sobre qual a penalidade cabível. O Min. Ayres Britto enfatizou que a norma seria
operacional econsagraria uma atenuação punitiva. Vencidos os Ministros relator, Ricardo
Lewandowski e Celso de Mello, que, por considerarem linear o critério referente à maioria absoluta,
concluíam que o CNJ não poderia dispor, em sede meramente administrativa, sobre a questão e atuar
de forma aleatória escolhendo a penalidade mais benéfica para o envolvido no processo.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 63
Registravam que a proposta olvidaria o voto médio. Por fim, o Supremo deliberou autorizar os
Ministros a decidirem monocraticamente a matéria em consonância com o entendimento firmado
nesta ação direta de inconstitucionalidade, contra o voto do Min. Marco Aurélio.
ADI 4638 Referendo-MC/DF, rel. Min. Marco Aurélio, 8.2.2012. (ADI-4638)
ADI 4610, Relator(a): Min. ROBERTO BARROSO
Órgão julgador: Tribunal Pleno
Julgamento: 11/11/2019; Publicação: 18/12/2019
Ementa
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. DIREITO CONSTITUCIONAL. LEI
FEDERAL Nº 11.798/2008. ARTS. 5º, IX, X E XI, E 7º, § 1º. COMPETÊNCIA CORRECIONAL
DO CONSELHO DA JUSTIÇA FEDERAL. DISPOSITIVOS QUE REGULAM COMPETÊNCIA
CONFERIDA PELA EC Nº 45/2004. REDAÇÃO EXPRESSA DO ART. 105, PARÁGRAFO
ÚNICO, II, CF/88. AUSÊNCIA DE INCONSTITUCIONALIDADE MATERIAL OU FORMAL.
PRECEDENTES. JURISPRUDÊNCIA DOMINANTE. 1. Não procede a alegação de
inconstitucionalidade material, ao argumento de que restaria ao Conselho da Justiça Federal somente
competência disciplinar em face dos servidores, e não dos magistrados. Com o advento da EC nº
45/2004, a competência correcional do Poder Judiciário federal passou a ser compartilhada entre as
corregedorias dos tribunais, o CNJ, e o CJF (ADI 4.638-MC-Ref, Rel. Min. Marco Aurélio). O texto
constitucional estabelece expressamente poderes correcionais a este Conselho, cujas decisões
possuem caráter vinculante (art. 105, parágrafo único, II). Ao assim dispor, a Constituição não fez
qualquer restrição, no sentido de que a competência limitar-se-ia aos servidores. 2. Também não
prosperam as alegações de vício formal dos dispositivos impugnados. Não há invasão de
competência do Supremo Tribunal Federal, na medida em que os atos não instituem novo regime
disciplinar, o que demandaria lei complementar de iniciativa desta Corte (art. 93, caput, CF/88).
Tais atos apenas regulam uma competência constitucionalmente instituída. 3. Igualmente, não há
violação aos arts. 2º e 96, II, b, da CF/88, na medida em que o Poder Legislativo exerceu
legitimamente seu poder de emenda, ao introduzir alteração inteiramente pertinente ao projeto
originário, este de iniciativa do Superior Tribunal Justiça. Tal poder de emenda foi exercido em
plena conformidade com a jurisprudência dominante desta Corte: ADI 3.288, Rel. Min. Ayres
Britto; RE 633.802-AgR, Rel. Min. Cármen Lúcia; ADI 1.835-MC, Rel. Min. Sepúlveda Pertence.
4. Ação julgada improcedente.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 64
Tema 13:
Funções essenciais à Justiça. O Ministério Público e a Defensoria Pública. Procuradorias.
Advocacia.
1ª QUESTÃO:
No que tange à organização do Ministério Público, responda fundamentadamente.
1) Pode o Ministério Público Estadual atuar nos Tribunais Superiores na condição de parte?
2) Pode o Ministério Público Estadual atuar nos Tribunais Superiores na condição de custus iures?
3) Pode o Ministério Público do Trabalho atuar nos Tribunais Superiores na condição de parte?
RESPOSTA:
AgRg no CC 122940 (INFO 670)
AgRg no CC 122940 / MS, Relator(a) Ministra REGINA HELENA COSTA
Órgão Julgador S1 - PRIMEIRA SEÇÃO
Data do Julgamento 07/04/2020
Data da Publicação/Fonte DJe 16/04/2020
Ementa
PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO CONFLITO DE COMPETÊNCIA.
CÓDIGO DE PROCESSO CIVIL DE 1973. APLICABILIDADE. MINISTÉRIO PÚBLICO
DO TRABALHO. INTERPOSIÇÃO DE RECURSO DIRETAMENTE PERANTE O
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. IMPOSSIBILIDADE. ILEGITIMIDADE
RECURSAL. AGRAVO REGIMENTAL NÃO CONHECIDO.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 65
I - Consoante o decidido pelo Plenário desta Corte na sessão realizada em 09.03.2016, o regime
recursal será determinado pela data da publicação do provimento jurisdicional impugnado.
In casu, aplica-se o Código de Processo Civil de 1973.
II - Os Ministérios Públicos dos Estados podem atuar, diretamente, na condição de partes,
perante os Tribunais Superiores, em razão da não existência de vinculação ou subordinação
entre o Parquet Estadual e o Ministério Público da União. Precedentes.
III - Tal orientação, todavia, não pode ser amoldada ao Ministério Público do Trabalho, órgão
vinculado ao Ministério Público da União, conforme dispõe o art. 128, I, b, da Constituição da
República.Ausente a legitimidade recursal do ora Agravante.
V - Agravo regimental não conhecido.
2ª QUESTÃO:
A Defensoria Pública impetra mandado de segurança em que visa suspender o processo legislativo
de projeto de lei de iniciativa do governador do estado, que visa a alteração de sua Lei Orgânica.
Em suas informações, o governador alega que a estrutura da Defensoria se encontra dentro do Poder
Executivo, cabendo a ele a iniciativa dos projetos de lei que demandem a sua reestruturação.
Responda, fundamentadamente, se a ordem deve ser concedida.
RESPOSTA:
ADI 5217, Relator(a): Min. NUNES MARQUES
Órgão julgador: Tribunal Pleno
Julgamento: 22/08/2023; Publicação: 28/09/2023
Ementa
EMENTA AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. INOVAÇÕES PROMOVIDAS
NA LEI ORGÂNICA DA DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO PARANÁ.
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE DEFENSORES PÚBLICOS. LEGITIMIDADE ATIVA.
INICIATIVA RESERVADA DA DEFENSORIA PÚBLICA PARA INSTAURAR PROCESSO
LEGISLATIVO QUE VENHA A DISPOR SOBRE A ESTRUTURA E A ORGANIZAÇÃO DO
ÓRGÃO. AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA. AÇÃO PARCIALMENTE PROCEDENTE. 1. A
Associação Nacional de Defensores Públicos é legítima para ajuizar ação direta de
inconstitucionalidade, porquanto configuradas a representatividade e a afinidade temática. 2. À luz
dos postulados do federalismo e da separação dos poderes, é obrigatória a observância, pelos
Estados e Distrito Federal, das normas de atribuição de iniciativa no processo legislativo previstas
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 66
na Carta da República, independentemente da espécie normativa envolvida (CF, art. 25, e ADCT,
art. 11). 3. É reservada à Defensoria Pública a iniciativa para instaurar processo legislativo que
venha a dispor sobre sua estrutura e organização, sendo vedado ao Governador do Estado apresentar
projeto de lei que vise à alteração da Lei Orgânica da instituição. 4. Convertida a apreciação do
referendo da medida de urgência em exame de mérito, de modo a, confirmada a providência
acauteladora, julgar-se parcialmente procedente o pedido formulado na inicial, declarando-se a
inconstitucionalidade da Lei Complementar n. 180, de 15 de dezembro de 2014, do Estado do
Paraná.
Tema 14:
Organização Judiciária do Estado do Rio de Janeiro. Organização administrativa.
Competência dos Órgãos Judiciais de 1ª e 2ª instâncias.
1ª QUESTÃO:
Por iniciativa do TJRJ, foi alterada a Lei de Organização Judiciário do Estado para fazer constar a
seguinte redação:
"§1º - O Presidente, os três Vice-Presidentes e o Corregedor-Geral da Justiça são eleitos, em votação
secreta, pela maioria dos membros do Tribunal de Justiça, pela forma prevista no Regimento Interno
do Tribunal, para servir pelo prazo de dois anos a contar do primeiro dia útil após o primeiro período
anual das férias coletivas da segunda instância, permitida a reeleiçãopor um período.
§2º - Concorrerão à eleição para os cargos referidos no parágrafo anterior, os membros efetivos do
Órgão Especial, sendo obrigatória a aceitação do cargo, salvo recusa manifestada e aceita antes da
eleição".
Contra tal norma, o Conselho Federal da OAB propõe ADIn. Entende o Conselho que tal matéria,
por dizer respeito à organização e ao funcionamento do Poder Judiciário, acha-se sujeita, por efeito
da reserva constitucional, ao domínio normativo de Lei Complementar. Aponta a afronta tanto ao
art. 93 da Constituição da República, quanto ao art. 102 da Lei Complementar 35/79. Não poderia,
portanto, a Lei de Organização Judiciária dispor sobre o franqueamento da eleição, indistintamente,
aos membros efetivos do Órgão Especial.
Em sede de informações, a Assembléia Legislativa alega que o art. 93 da Constituição não exige
que a matéria relativa à forma e às condições de provimento dos cargos de direção dos Tribunais de
Justiça dos Estados esteja incluída no chamado "Estatuto da Magistratura" (como o fazia
expressamente a Constituição anterior - verbis: "art. 115, I - eleger seus Presidentes e demais
titulares de sua direção, observando o disposto na Lei Orgânica da Magistratura Nacional" - com a
redação dada pela E.C. 01/69). Se a Constituição de 1988 não dispôs explicitamente sobre a cláusula
limitativa que existia na Carta de 69, é porque se entendeu ser prerrogativa autônoma dos Tribunais
o poder de eleger os seus órgãos dirigentes.
É razoável a tese da ALERJ?
Qual é o entendimento prevalente no STF?
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 67
RESPOSTA:
STF: ADIn 1422-RJ, relator Min. Ilmar Galvão, Tribunal Pleno, em 09/09/1999.
ADI 1422 / RJ - RIO DE JANEIRO
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE
Relator(a): Min. ILMAR GALVÃO
Julgamento: 09/09/1999 Órgão Julgador: Tribunal Pleno
Publicação
DJ 12-11-1999 PP-00089 EMENT VOL-01971-01 PP-00038
Parte(s)
REQTE. : CONSELHO FEDERAL DA ORDEM DOS ADVOGADOS DO BRASIL
REQDO. : GOVERNADOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
REQDO. : ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
Ementa
EMENTA: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEI Nº 2.432, DE 06.09.95, DO
ESTADO DO RIO DE JANEIRO, QUE DEU NOVA REDAÇÃO AOS §§ 1º E 2º DO ART. 18
DO CÓDIGO DE ORGANIZAÇÃO E DIVISÃO JUDICIÁRIAS DO MESMO ESTADO.
Incompatibilidade com a norma do art. 93 da Constituição Federal, por regular matéria própria do
Estatuto da Magistratura, reservada, no dispositivo constitucional mencionado, à lei complementar
federal. Recepção pela Carta de 1988 da norma do art. 102 da Lei Complementar nº 35/79
(LOMAN). Precedentes do STF (MS 20.911-PA, Rel. Min. Octavio Gallotti, e ADI 841-2-RJ, Rel.
Ministro Carlos Velloso). Procedência da ação.
ADI 2700, Relator(a): Min. GILMAR MENDES
Órgão julgador: Tribunal Pleno
Julgamento: 23/08/2019; Publicação: 09/09/2019
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 68
Ementa
AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE – EMENDA CONSTITUCIONAL 28/2002,
QUE MODIFICOU O ARTIGO 156 DA CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO,
INSTITUI NORMAS SOBRE FORMA DE VOTAÇÃO NA RECUSA DE PROMOÇÃO DO JUIZ
MAIS ANTIGO, PUBLICIDADE DE SESSÕES ADMINISTRATIVAS DO TRIBUNAL DE
JUSTIÇA, MOTIVAÇÃO E PUBLICAÇÃO DOS VOTOS – VIOLAÇÃO AO ART. 93, CAPUT,
E INCISOS II, “d” E X, AO ART. 96, INCISO I, “a”, TODOS DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL
– EDIÇÃO DA EMENDA CONSTITUCIONAL 37/2006: PERDA DO OBJETO INEXISTENTE
– AÇÃO JULGADA PROCEDENTE. 1. O Tribunal entende que, nessa hipótese, ocorre violação à
própria Constituição (art. 93, caput), a qual reserva a lei complementar de iniciativa do Supremo
Tribunal Federal o tratamento dos temas atinentes ao Estatuto da Magistratura. 2. Até o advento da
lei complementar prevista no art. 93, caput, da Constituição, o Estatuto da Magistratura continua a
ser disciplinado pela Lei Complementar 35/79 (LOMAN). 3. Por sua vez, o art. 96, inciso I, “a”, da
Constituição Federal impõe a necessidade de provocação do Tribunal de Justiça, sem a qual haveria
interferência do Poder Legislativo na autonomia orgânico-administrativa afeta ao Poder Judiciário,
com ofensa ao art. 2º da Constituição Federal. 4. Feitas essas considerações, é de se concluir que
normas, como as questionadas, conforme seu alcance, devem resultar de lei complementar federal
(art. 93, caput, da Constituição Federal), ou, se for o caso, de lei de organização judiciária, por
iniciativa do tribunal competente (art. 93, II, “d”, da Constituição Federal), ou do respectivo
Regimento Interno, no que couber (art. 96, I, “a”, da Constituição Federal), inclusive em relação a
forma de votação nas decisões administrativas. 5. Em se tratando de Ação Direta de
Constitucionalidade, o interesse de agir só existe se a lei está em pleno vigor. Ocorre, todavia que
aedição da Emenda Constitucional n. 37/2006 não esvaziou o objeto da presente demanda,
notadamente porque, de igual modo, disciplina matéria de competência exclusiva do Supremo
Tribunal Federal (regime jurídico da magistratura), por meio de Lei Complementar. 6. Ação julgada
procedente, confirmando a medida cautelar deferida pelo Plenário.
No entanto, a matério voltou à pauta do STF, que ainda não tem decisão definitiva:
INFORMATIVO Nº 666
TÍTULO
Magistratura: lei estadual e competência legislativa - 1
PROCESSO
ADI - 4393
ARTIGO
O Plenário iniciou julgamento de ação direta de inconstitucionalidade ajuizada, pelo Procurador-
Geral da República, contra a Lei 5.535/2009, do Estado do Rio de Janeiro. O diploma adversado
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 69
versa sobre fatos funcionais da magistratura estadual, tais como regras relativas a provimento,
investidura, direitos e deveres. O Min. Ayres Britto, Presidente e relator, preliminarmente, afastou
assertiva de que o requerente não teria impugnado todo o complexo normativo sobre a matéria em
foco. Sustentava-se que remanesceriam, no ordenamento estadual, disposições sobre a mesma
temática, visto que a Resolução 1/75, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, trataria
daorganização, funcionamento, disciplina, vantagens, direitos e deveres da magistratura. Afirmou
que a citada resolução, quanto a esses temas, estaria revogada. Logo, não haveria que se falar em
sua subsistência no arcabouço normativo. Explicou que, com a entrada em vigor da Lei Orgânica da
Magistratura Nacional - Loman (LC 35/79), todas as resoluções de tribunais de justiça, na parte em
que disporiam dos assuntos veiculados por ela, teriam sido revogadas. Assinalou que a lei ora
contestada e a mencionada resolução não constituiriam um único complexo normativo, de forma
que eventual declaração de inconstitucionalidade da Lei estadual 5.535/2009 não teria, por
consequência, a repristinação da resolução, porque esta teria sido revogada pela Loman. Destacou,
ainda, que a resolução disciplinaria matéria reservada a lei complementar, nos termos do art. 93
da CF, o que corroboraria sua perda de eficácia. Rejeitou, de igual modo, a segunda preliminar
arguida, no sentido de que a impugnação à Lei fluminense 5.535/2009 seria genérica, sem
apreciação específica de cada um dos dispositivos. Considerou que o fundamento jurídico do pedido,
em relação a todas as normas contidas no aludido diploma, seria o de vício formal. Dessa maneira,
a providência de discriminá-los individualmente seria dispensável para o conhecimento da ação.
Salientou que a questão jurídico-constitucional teria sido exposta de forma clara, a permitir a
compreensão da controvérsia. Por fim, rechaçou a terceira preliminar, de suposta ofensa reflexa ao
texto constitucional. Consignou que o vício formal descrito na inicial deveria ser aferido mediante
cotejo entre o art. 93 da CF e os preceitos da lei estadual. Por conseguinte, se fosse necessária análise
comparativa entrea Loman e o diploma fluminense, isso decorreria da alegação de ofensa direta ao
sistema constitucional de repartição de competências legislativas. Resgatou posicionamento da
Corte nesse sentido. ADI 4393/RJ, rel. Min. Ayres Britto, 16 e 17.5.2012. (ADI-4393)
Íntegra doInformativo 666
de Minas Gerais autorização prévia para processar o
Governador de Estado. Dessa forma, resta cabível a submissão da presente denúncia à deliberação
da Corte Especial, no estágio processual atual.
2. O crime previsto no art. 89 da Lei n. 8.666/1993 tem cominada pena máxima de 5 anos de
detenção, operando-se a prescrição, na forma do art. 109, III, do Código Penal, em 12 anos.
3. Tendo em vista que, no caso, já transcorreu lapso de mais 12 anos desde a data do alegado
cometimento do fato - 14/1/2004 -, e não havendo qualquer causa interruptiva, a contar dessa data,
porque ainda nem recebida a denúncia, há de se decretar a prescrição da pretensão punitiva estatal
em relação ao delito descrito no art. 89 da Lei n. 8.666/1993.
4. A exordial acusatória expôs osuposto fato criminoso quando se reportou ao alegado
superfaturamento de R$ 5.092.116,69 (cinco milhões, noventa e dois mil, cento e dezesseis reais e
sessenta e nove centavos). No que concerne às circunstâncias, aduziu que tal teria ocorrido no
âmbito de pagamentos realizados nas datas de 18/3/2004, 15/4/2004 e 20/7/2004, acrescentando,
ainda, um montante pago que teria se originado de empréstimo obtido no Banco de
Desenvolvimento de Minas Gerais. De sua parte, o acusado foi devidamente qualificado e a ele foi
imputado, em razão dessa descrição fática, o delito descrito no art. 1º, I, do Decreto-Lei n. 201/1967.
5. Assim, no caso em exame, devidamente atendidos os requisitos do art. 41 do CPP. A
jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, no que concerne ao tema da inépcia da denúncia,
entende que, se a peça acusatória permite que a defesa exerça seu mister, não há que se falar em tal
vício processual. Precedente: "Nos termos da jurisprudência desta Corte Superior de Justiça, 'não há
como reconhecer a inépcia da denúncia se a descrição da pretensa conduta delituosa foi feita de
forma suficiente ao exercício do direito de defesa, com a narrativa de todas as circunstâncias
relevantes, permitindo a leitura da peça acusatória a compreensão da acusação, com base no artigo
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 9
41 do Código de Processo Penal' (RHC 46.570/SP, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura,
Sexta Turma, julgado em 20/11/2014, DJe 12/12/2014)".
6. Do exame minucioso de todas as provas documentais e testemunhais acostadas aos 14 volumes
de autos e aos 32 apensos, não se tem qualquer prova ou mesmo elemento indiciário da participação
do acusado, seja na ciência de eventual desvio da verba reportada na inicial
acusatória, seja na efetivação de algum ato, a esse título, em favor de terceiro, no caso, a Câmara de
Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte.
7. A ausência de justa causa se revela na falta absoluta de lastro probatório mínimo que autorize a
instauração da instância penal. Precedente: "I - A peça acusatória deve vir acompanhada com o
mínimo embasamento probatório apto a demonstrar, ainda que de modo indiciário, a efetiva
realização do ilícito penal por parte do denunciado. Se não houver um lastro probatório mínimo a
respaldar a denúncia, de modo a tornar esta plausível, não haverá justa causa a autorizar a
instauração da persecutio criminis. [...] (Apn 290/PR, Rel. Ministro Felix Fischer, Corte Especial,
julgado em 16/3/2005, DJ 26/9/2005, p. 159)".
8. Prescrição da pretensão punitiva estatal decretada em relação ao crime previsto no art. 89 da Lei
n. 8.666/1993 e rejeição da denúncia, por ausência de justa causa, quanto ao crime descrito no art.
1º, I, do Decreto-Lei n. 201/1967.
Tema 03:
O Poder Legislativo I. O sistema bicameral. O Senado Federal. A Câmara dos Deputados.
Competências. Impeachment.
1ª QUESTÃO:
Edvaldo Ramos, Deputado Federal, impetrou Mandado de Segurança, perante o STF, visando a
obtenção de ordem a fim de paralisar as atividades da Comissão de Sindicância, instituída pela Mesa
da Câmara dos Deputados em 03/02/2003, para apuração e oferecimento de relatório acerca de
condutas que teriam sido atentatórias ao decoro parlamentar.
Postulou, ainda, nessa especial sede, fosse declarada a nulidade do ato que instituiu a referida
Comissão, com o conseqüente arquivamento do inquérito administrativo cuja validade insistiu em
contestar.
Relatou que o ato supostamente atentatório ao decoro parlamentar fora praticado na legislatura
anterior e, em razão do princípio da unidade da legislatura, não poderia ser investigado; que o
Presidente da Câmara dos Deputados, ao agir na condição de Presidente da Mesa da referida Casa
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 10
Legislativa, desrespeitou princípios constitucionais básicos, tais como a isonomia, a legalidade e o
contraditório quando da edição do ato que instituiu a sindicância.
Pergunta-se:
a) Procede a alegação do impetrante de que o princípio da unidade da legislatura impede a
investigação?
b) O princípio do contraditório deve ser observado pela Comissão de Sindicância na investigação
preliminar e sumária?
c) Em que consiste o sistema bicameral?
RESPOSTA:
a)
Pet 7734, Relator(a): Min. EDSON FACHIN
Órgão julgador: Segunda Turma
Julgamento: 30/10/2018; Publicação: 13/02/2019
Ementa
Ementa: AGRAVO REGIMENTAL. INQUÉRITO. DECLÍNIO DE COMPETÊNCIA.
APLICAÇÃO DE ENTENDIMENTO DO PLENO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL NA
QUESTÃO DE ORDEM DA AÇÃO PENAL 937. RETORNO DOS AUTOS AO JUÍZO DA 11ª
VARA DA SEÇÃO JUDICIÁRIA DO ESTADO DE GOIÁS. MANDATOS DISTINTOS
EXERCIDOS SEM SOLUÇÃO DE CONTINUIDADE. ASSUNÇÃO A CARGO
PARLAMENTAR VAGO NA CONDIÇÃO DE SUPLENTE. PRORROGAÇÃO DE
COMPETÊNCIA. IMPOSSIBILIDADE. INSURGÊNCIA DESPROVIDA. 1. O Plenário do
Supremo Tribunal Federal, ao julgar Questão de Ordem suscitada nos autos da AP 937, de relatoria
do eminente Ministro Luís Roberto Barroso, decidiu que a competência desta Corte para processar
e julgar parlamentares, nos termos do art. 102, I, “b”, da Constituição Federal, restringe-se aos
delitos praticados no exercício e em razão da função pública. 2. Em se tratando de mandatos políticos
distintos, exercidos sem solução de continuidade, não remanesce a unidade de legislatura dos cargos
parlamentares para fins de prorrogação de competência. Ao lado disso, a condição de suplente não
confere ao assim nomeado as prerrogativas decorrentes ao regime jurídico constitucional próprio
dos congressistas, que decorre da efetiva diplomação e posse no cargo. Precedentes. 3. À míngua
das balizas estabelecidas pelo Pleno do Supremo Tribunal Federal, não subsiste a competência de
foro no âmbito da Corte, sendo imperativo o declínio de competência do INQ 3.444 para o juízo
responsável. 4. Agravo regimental desprovido.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 11
MS 24.458 MC/DF - Distrito Federal; Relator Ministro Celso de Mello; STF.
INFORMATIVO Nº 298
TÍTULO
Princípio da Unidade de Legislatura e Falta de Decoro Parlamentar - MS (MC) 24.458-DF
(Transcrições)
PROCESSO
MS - 24458
ARTIGO
Princípio da Unidade de Legislatura e Falta de Decoro Parlamentar - MS (MC) 24.458-DF
(Transcrições) RELATOR: MIN. CELSO DE MELLO DECISÃO: Trata-se de mandado de
segurança, com pedido de medida liminar, impetrado com a finalidade de obter, do Supremo
Tribunal Federal, ordem que paralise as atividades da Comissão de Sindicância instituída, em
03/02/2003, pela Mesa da Câmara dos Deputados (fls. 44), para apurar e oferecer relatório a respeito
de condutas alegadamente atentatórias ao decoro parlamentar, em que teria incidido o Deputado
Federal Francisco Pinheiro Landim, supostamente envolvido em "tráfico de influência, junto à
Justiça Federal, em benefício de narcotraficantes" (fls. 45). Postula-se, ainda, nesta sede processual,
seja declarada a nulidade do Ato nº 01, de 03/02/2003 (fls. 44), com o conseqüente "arquivamento
do inquérito administrativo" (fls. 41), cuja validadeé ora questionada na presente impetração
mandamental. O impetrante, para justificar a impugnação que deduz perante esta Suprema Corte,
sustenta que o eminente Presidente da Câmara dos Deputados, ao agir na condição de Presidente da
Mesa dessa Casa legislativa, teria desrespeitado, quando da edição do Ato nº 01/2003, postulados
constitucionais básicos, lesando, dentre outros, os princípios da isonomia, da legalidade, da
presunção de inocência, da garantia de defesa e aquele que veda o "bis in idem". Passo a apreciar o
pedido de medida liminar. COMPETÊNCIA ORIGINÁRIA DO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL PARA APRECIAR MANDADO DE SEGURANÇA IMPETRADO CONTRA A
MESA DA CÂMARA DOS DEPUTADOS. Reconheço, preliminarmente, que a qualidade do órgão
estatal ora apontado como coator - Mesa da Câmara dos Deputados - faz instaurar a competência
originária do Supremo Tribunal Federal para processar e julgar, na espécie, a presente ação de
mandado de segurança (CF, art. 102, I, "d"). O ABUSO DE PODER, DE QUE DERIVA LESÃO
A DIREITOS SUBJETIVOS, ALEGADAMENTE PRATICADO COM SUPOSTO
DESRESPEITO A PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS, LEGITIMA A POSSIBILIDADE DE
CONTROLE JURISDICIONAL. Impõe-se observar, de outro lado, por necessário, que o exame da
impugnação deduzida na presente sede mandamental justifica - na estrita perspectiva do princípio
da separação de poderes - algumas reflexões prévias em torno das relevantíssimas questões
pertinentes ao controle jurisdicional do poder político e às implicações jurídico-institucionais que
necessariamente decorrem do exercício do judicial review. Como sabemos, o regime democrático,
analisado na perspectiva das delicadas relações entre o Poder e o Direito, não tem condições de
subsistir, quando as instituições políticas do Estado falharem em seu dever de respeitar a
Constituição e as leis, pois, sob esse sistema de governo, não poderá jamais prevalecer a vontade de
uma só pessoa, de um só estamento, de um só grupo ou, ainda, de uma só instituição. Na realidade,
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 12
impõe-se, a todos os Poderes da República, o respeito incondicional aos valores que informam a
declaração de direitos e aos princípios sobre os quais se estrutura, constitucionalmente, a
organização do Estado. Delineia-se, nesse contexto, a irrecusável importância jurídico-institucional
do Poder Judiciário, investido do gravíssimo encargo de fazer prevalecer a autoridade da
Constituição e de preservar a força e o império das leis, impedindo, desse modo, que se subvertam
as concepções que dão significado democrático ao Estado de Direito, em ordem a tornar
essencialmente controláveis, por parte de juízes e Tribunais, os atos estatais que importem em
transgressão a direitos, garantias e liberdades fundamentais, assegurados pela Carta da República.
Vê-se, daí, na perspectiva do caso ora em exame, que a intervenção do Poder Judiciário, nas
hipóteses de suposta lesão a direitos subjetivos amparados pelo ordenamento jurídico do Estado,
reveste-se de plena legitimidade constitucional, ainda que essa atuação institucional se projete na
esfera orgânica do Poder Legislativo, como se registra naquelas situações em que se atribuem, à
instância parlamentar, condutas tipificadoras de abuso de poder. Isso significa, portanto -
considerada a fórmula política do regime democrático - que nenhum dos Poderes da República está
acima da Constituição e das leis. Nenhum órgão do Estado - situe-se ele no Poder Judiciário, ou no
Poder Executivo, ou no Poder Legislativo - é imune à força da Constituição e ao império das leis.
Uma decisão judicial - que restaure a integridade da ordem jurídica e que torne efetivos os direitos
assegurados pelas leis - não pode ser considerada um ato de interferência na esfera do Poder
Legislativo, consoantejá proclamou, em unânime decisão, o Plenário do Supremo Tribunal Federal,
qualquer que seja a natureza do órgão legislativo cujas deliberações venham a ser questionadas em
sede jurisdicional, especialmente quando houver, como no caso, alegação de desrespeito aos
postulados que estruturam o sistema constitucional: "O CONTROLE JURISDICIONAL DE
ABUSOS PRATICADOS POR COMISSÃO PARLAMENTAR DE INQUÉRITO NÃO OFENDE
O PRINCÍPIO DA SEPARAÇÃO DE PODERES. - A essência do postulado da divisão funcional
do poder, além de derivar da necessidade de conter os excessos dos órgãos que compõem o aparelho
de Estado, representa o princípio conservador das liberdades do cidadão e constitui o meio mais
adequado para tornar efetivos e reais os direitos e garantias proclamados pela Constituição. Esse
princípio, que tem assento no art. 2º da Carta Política, não pode constituir e nem qualificar-se como
um inaceitável manto protetor de comportamentos abusivos e arbitrários, por parte de qualquer
agente do Poder Público ou de qualquer instituição estatal. - O Poder Judiciário, quando intervém
para assegurar as franquias constitucionais e para garantir a integridade e a supremacia da
Constituição, desempenha, de maneira plenamente legítima, as atribuições que lhe conferiu a própria
Carta da República. O regular exercício da função jurisdicional, por isso mesmo, desde que pautado
pelo respeito à Constituição, não transgride o princípio da separação de poderes. Desse modo, não
se revela lícito afirmar, na hipótese de desvios jurídico-constitucionais nas quais incida uma
Comissão Parlamentar de Inquérito, que o exercício da atividade de controle jurisdicional possa
traduzir situação de ilegítima interferência na esfera de outro Poder da República. O CONTROLE
DO PODER CONSTITUI UMA EXIGÊNCIA DE ORDEM POLÍTICO-JURÍDICA ESSENCIAL
AO REGIME DEMOCRÁTICO. - O sistema constitucional brasileiro, ao consagrar o princípio da
limitação de poderes, teve por objetivo instituir modelo destinado a impedir a formação de instâncias
hegemônicas de poder no âmbito do Estado, em ordem a neutralizar, no plano político-jurídico, a
possibilidade de dominação institucional de qualquer dos Poderes da República sobre os demais
órgãos da soberania nacional. Com a finalidade de obstar que o exercício abusivo das prerrogativas
estatais possa conduzir a práticas que transgridam o regime das liberdades públicas e que sufoquem,
pela opressão do poder, os direitos e garantias individuais, atribuiu-se, ao Poder Judiciário, a função
eminente de controlar os excessos cometidos por qualquer das esferas governamentais, inclusive
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 13
aqueles praticados por Comissão Parlamentar de Inquérito, quando incidir em abuso de poder ou
em desvios inconstitucionais, no desempenho de sua competência investigatória." (RTJ 173/806,
Rel. Min. CELSO DE MELLO) Em suma: a observância dos direitos e garantias constitui fator de
legitimação da atividade estatal. Esse dever de obediência ao regime da lei se impõe a todos -
magistrados, administradores e legisladores. É que o poder não se exerce de forma ilimitada. No
Estado democrático de Direito, não há lugar para o poder absoluto. O CONTROLE
JURISDICIONAL DOS ABUSOS IMPUTADOS AO PODER POLÍTICO - PORQUE TRADUZ
REAFIRMAÇÃO DAAUTORIDADE DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA - NÃO
TRANSGRIDE O PRINCÍPIO DA SEPARAÇÃO DE PODERES. Ainda que em seu próprio
domínio institucional, nenhum órgão estatal pode, legitimamente, pretender-se superior ou supor-se
fora do alcance da autoridade suprema da Constituição Federal e das leis da República. O respeito
efetivo pelos direitos individuais e pelas garantias fundamentais outorgadas pela ordem jurídica aos
cidadãos em geral representa, no contexto de nossa experiência institucional, o sinal mais expressivo
e o indício mais veemente de que se consolidou, em nosso País, de maneira real, o quadro
democrático delineado na Constituição da República. A separação de poderes - consideradas as
circunstâncias históricas que justificaram a sua concepção no planoda teoria constitucional - não
pode ser jamais invocada como princípio destinado a frustrar a resistência jurídica a qualquer ensaio
de opressão estatal ou a inviabilizar a oposição a qualquer tentativa de comprometer, sem justa
causa, o exercício do direito de protesto contra abusos que possam ser cometidos pelas instituições
do Estado. As razões ora expostas - que bem traduzem anterior decisão por mim proferida (MS
24.082/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO, DJU de 03/10/2001) - justificam a possibilidade de o
Supremo Tribunal Federal conhecer da presente ação mandamental, eis que a alegação de ofensa a
princípios de índole constitucional - precisamente por introduzir, no exame da controvérsia, um
dado de natureza jurídica - descaracteriza a existência de questão exclusivamente política,
permitindo, desse modo, ante a inocorrência de ato interna corporis, o pleno exercício, por esta
Corte, de sua jurisdição constitucional. Lapidar, sob tal aspecto, o magistério, erudito e
irrepreensível, de PEDRO LESSA ("Do Poder Judiciário", p. 65/66, 1915, Francisco Alves): "Em
substância: exercendo atribuições políticas, e tomando resoluções políticas, move-se o poder
legislativo num vasto domínio, que tem como limites um círculo de extenso diâmetro, que é a
Constituição Federal. Enquanto não transpõe essa periferia, o Congresso elabora medidas e normas,
que escapam à competência do poder judiciário. Desde que ultrapassa a circunferência, os seus atos
estão sujeitos ao julgamento do poder judiciário, que, declarando-os inaplicáveis por ofensivos a
direitos, lhes tira toda a eficácia jurídica." (grifei) É por essa razão que a jurisprudência
constitucional do Supremo Tribunal Federal jamais tolerou que a invocação da natureza interna
corporis do ato emanado das Casas legislativas pudesse constituir um ilegítimo manto protetor de
comportamentos abusivos e arbitrários do Poder Legislativo. Daí a precisa observação de PONTES
DE MIRANDA ("Comentários à Constituição de 1967 com a Emenda nº 1, de 1969", tomo III/644,
3ª ed., 1987, Forense), cujo magistério - embora acentuando a incognoscibilidade judicial das
questões políticas atinentes à oportunidade, à conveniência, à utilidade ou ao acerto do ato emanado
do órgão estatal - registra advertência, que cumpre não ignorar: "Sempre que se discute se é
constitucional ou não, o ato do poder executivo, ou do poder judiciário, ou do poder legislativo, a
questão judicial estáformulada, o elemento político foi excedido, e caiu-se no terreno da questão
jurídica." (grifei) Assentadas essas premissas, e considerando que o Deputado Federal Pinheiro
Landim, parte ora impetrante, alega múltiplas transgressões ao que dispõe o texto da Constituição
da República - notadamente no que se refere aos postulados constitucionais da isonomia, da
legalidade, da presunção de inocência, do contraditório e da vedação ao "bis in idem" -, entendo,
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 14
presente esse específico contexto, que se revela suscetível de conhecimento esta ação de mandado
de segurança, eis que a invocação de temas constitucionais faz instaurar, de modo pleno, a jurisdição
do Supremo Tribunal Federal, para apreciar a controvérsia exposta nesta sede processual. O
PRINCÍPIO DA UNIDADE DE LEGISLATURA NÃO IMPEDE A INSTAURAÇÃO DE
PROCEDIMENTO DE CASSAÇÃO DE MANDATO LEGISLATIVO, AINDA QUE POR ATOS
ATENTATÓRIOS AO DECORO PARLAMENTAR COMETIDOS, POR TITULAR DE
MANDATO LEGISLATIVO, NA LEGISLATURA ANTERIOR. Tenho para mim, ao examinar,
em sede de estrita delibação, a pretensão mandamental deduzida pelo ora impetrante - não obstante
as razões tão excelentemente desenvolvidas por seus eminentes Advogados - que tal postulação
parece não se revestir de plausibilidade jurídica, especialmente em face da existência de decisão
plenária, proferida pelo Supremo Tribunal Federal, quando do julgamento do MS 23.388/DF, Rel.
Min. NÉRI DA SILVEIRA, ocasião em que esta Suprema Corte, tendo presente situação
virtualmente idêntica à que ora se registra neste processo ("Caso Talvane Neto"), rejeitou a tese de
que a Casa legislativa não pode decretar a cassação de mandato de qualquer de seus membros, por
falta de decoro parlamentar, se o fato motivador dessa deliberação houver ocorrido na legislatura
anterior. Essa decisão, emanada do Plenário do Supremo Tribunal Federal, acha-se consubstanciada
em acórdão assim ementado: "Mandado de segurança. 2. Ato da Mesa da Câmara dos Deputados,
confirmado pela Comissão de Constituição e Justiça e Redação da referida Casa legislativa, sobre a
cassação do mandato do impetrante, por comportamento incompatível com o decoro parlamentar.
3. Pretende-se a extinção do procedimento de perda do mandato. Sustenta-se que a cassação do
mandato, para nova legislatura, fica restrita à hipótese de, no curso dessa legislatura, se verificarem
condutas, dela contemporâneas, capituláveis como atentatórias do decoro parlamentar. 4. Não
configurada a relevância dos fundamentos da impetração. Liminar indeferida. 5. Parecer da
Procuradoria-Geral da República pela prejudicialidade do mandado de segurança, em face da perda
de objeto; no mérito, pela denegação da ordem. 6. Tese invocada, acerca da inexistência de
contemporaneidade entre o fato típico e a competência da atual legislatura, que se rejeita. 7. Não há
reexaminar, em mandado de segurança, fatos e provas (...). 9. Mandado de segurança indeferido."
(grifei) Cabe destacar, neste ponto, que o princípio da unidade de legislatura - que faz cessar, a partir
de cada novo quadriênio, todos os assuntos iniciados no período imediatamente anterior,
dissolvendo-se, desse modo, todos os vínculos com a legislatura precedente (JOSÉ AFONSO DA
SILVA, "Princípios do Processo de Formação das Leis no DireitoConstitucional", p. 38/39, item n.
14, 1964, RT) - rege, essencialmente, o processo de elaboração legislativa, tanto que, encerrado o
período quadrienal a que se refere o art. 44, parágrafo único, da Constituição Federal, dar-se-á, na
Câmara dos Deputados, o arquivamento das proposições legislativas, com a só exceção de alguns
projetos taxativamente relacionados na norma regimental (Regimento Interno da Câmara dos
Deputados, art. 105). É por essa razão que o eminente Professor JOSÉ AFONSO DA SILVA, ao
tratar do postulado da unidade de legislatura, examina-o dentre os princípios que informam o
processo constitucional de formação das leis. De outro lado, e ao contrário da limitação de ordem
temporal imposta à atividade investigatória das Comissões Parlamentares de Inquérito - cujo âmbito
de atuação não pode ultrapassar a legislatura em que instauradas (HC 71.193/SP, Rel. Min.
SEPÚLVEDA PERTENCE - MS 22.858/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO) -, cumpre rememorar
que o Supremo Tribunal Federal, como precedentemente assinalado, já firmou orientação no sentido
de que o princípio da unidade de legislatura não se reveste de efeito preclusivo, em tema de cassação
de mandato legislativo, por falta de decoro parlamentar, ainda que por fatos ocorridos em legislatura
anterior (MS 23.388/DF, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA, Pleno). Isso significa, portanto, que o
princípio da unidade de legislatura não representa obstáculo constitucional a que as Casas
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legislativas venham, ainda que por fatos anteriores à legislatura em curso, a instaurar - contra quem
já era titular de mandato na legislatura precedente - procedimento de caráter político- -
administrativo, destinado a viabilizar a decretação da perda do mandato, por fato atentatório ao
decoro parlamentar, cometido por quem então se achava investido na condição de membro de
qualquer das Casas do Congresso Nacional (CF, art. 55, I, "e", §§ 1º e 2º). Parece revelar-se
essencial, portanto, para os fins a que se refere o art. 55, § 2º da Constituição da República, a
existência de uma necessáriarelação de contemporaneidade entre a prática do ato contrário ao
decoro parlamentar, de um lado, e o exercício do mandato legislativo, de outro, mesmo que o ato
ofensivo à dignidade institucional do mandato (e, também, à honorabilidade do Parlamento), tenha
ocorrido na legislatura imediatamente anterior, praticado por quem, naquele momento, já era
integrante do Poder Legislativo, tal como expressamente o reconheceu o Plenário do Supremo
Tribunal Federal, no precedente mencionado. Cumpre identificar, neste ponto, a "ratio" subjacente
a esse entendimento que resultou do julgamento plenário do MS 23.388/DF, Rel. Min. NÉRI DA
SILVEIRA: é que a ordem jurídica não pode permanecer indiferente a condutas de membros do
Congresso Nacional - ou de quaisquer outras autoridades da República - que hajam eventualmente
incidido em censuráveis desvios éticos, no desempenho da elevada função de representação política
do Povo brasileiro. Foi por tal motivo que o Plenário desta Suprema Corte, atento aos altíssimos
valores que informam e condicionam todas as atividades governamentais - não importando o
domínio institucional em que elas tenham lugar -, veio a proferir o seu dictum, reconhecendo a
possibilidade jurídico-constitucional de qualquer das Casas do Congresso Nacional adotar medidas
destinadas areprimir, com a cassação do mandato de seus próprios membros, fatos atentatórios à
dignidade do ofício legislativo e lesivos ao decoro parlamentar, mesmo que ocorridos no curso de
anterior legislatura, desde que, já então, o infrator ostentasse a condição de membro do Parlamento.
Sabemos todos que o cidadão tem o direito de exigir que o Estado seja dirigido por administradores
íntegros, por legisladores probos e por juízes incorruptíveis, que desempenhem as suas funções com
total respeito aos postulados ético-jurídicos que condicionam o exercício legítimo da atividade
pública. O direito ao governo honesto - nunca é demasiado reconhecê-lo - traduz uma prerrogativa
insuprimível da cidadania. O sistema democrático e o modelo republicano não admitem, nem podem
tolerar a existência de regimes de governo sem a correspondente noção de fiscalização e de
responsabilidade. Nenhum membro de qualquer instituição da República está acima da Constituição,
nem pode pretender-se excluído da crítica social ou do alcance da fiscalização da coletividade. A
imputação, a qualquer membro do Congresso Nacional, de atos que importem em transgressão ao
decoro parlamentar revela-se fato que assume, perante o corpo de cidadãos, a maior gravidade, a
exigir, por isso mesmo, por efeito de imposição ética emanada de um dos dogmas essenciais da
República, a plena apuração e o esclarecimento da verdade, tanto mais se se considerar que o
Parlamento recebeu, dos cidadãos, não só o poder de representação política e a competência para
legislar, mas, também, o mandato para fiscalizar os órgãos e agentes dos demais Poderes. Qualquer
ato de ofensa ao decoro parlamentar culmina por atingir, injustamente, a própria respeitabilidade
institucional do Poder Legislativo, residindo, nesse ponto, a legitimidade ético-jurídica do
procedimento constitucional de cassação do mandato parlamentar, em ordem a excluir, da
comunhão dos legisladores, aquele - qualquer que seja - que se haja mostrado indigno do
desempenho da magna função de representar o Povo, de formular a legislação da República e de
controlar as instâncias governamentais do poder. Não se poderá jamais ignorar que o princípio
republicano consagra o dogma de que todos os agentes públicos - legisladores, magistrados, e
administradores - são responsáveis perante a lei e a Constituição, devendo expor-se, plenamente, às
conseqüências que derivem de eventuais comportamentos ilícitos. Cumpre insistir na asserção de
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 16
que a prática de atos atentatórios ao decoro parlamentar, mais do que ferir a dignidade individual do
próprio titular do mandato legislativo, projeta-se, de maneira altamente lesiva, contra a
honorabilidade, a respeitabilidade, o prestígio e a integridade político-institucional do Parlamento,
vulnerando, de modo extremamente grave, valores constitucionais que atribuem, ao Poder
Legislativo, a sua indisputável e eminente condição de órgão da própria soberania nacional. É por
essa razão que o eminente Professor MIGUEL REALE ("Decoro Parlamentar e Cassação de
Mandato Eletivo", in Revista de Direito Público, vol. X/89), ao versar o tema em questão, adverte
que o ato indecoroso do parlamentar importa em falta de respeito à própria dignidade institucional
do Poder Legislativo: "O 'status' dodeputado, em relação ao qual o ato deve ser medido (e será
comedido ou decoroso em razão dessa medida) implica, por conseguinte, não só o respeito do
parlamentar a si próprio, como ao órgão ao qual pertence (...). No fundo, falta de decoro parlamentar
é falta de decência no comportamento pessoal, capaz de desmerecer a Casa dos representantes
(incontinência de conduta, embriaguez, etc) e falta de respeito à dignidade do Poder Legislativo, de
modo a expô-lo a críticas infundadas, injustas e irremediáveis, de forma inconveniente." Não é por
outro motivo que PINTO FERREIRA ("Comentários à Constituição Brasileira", vol. 3/28, 1992,
Saraiva), em magistério lapidar sobre a matéria, assinala: "Outro motivo mencionado pela
Constituição do País para a perda do mandato de deputado ou senador é o procedimento reputado
incompatível com o decoro parlamentar. É, então, um poder discricionário que tem a Câmara de
expulsar os seus membros, quando sua conduta venha a ferir a própria honorabilidade da
Assembléia. Conquanto o deputado ou senador tenha todas as condições para continuar em seu
cargo, a própria Câmara ajuíza que ele é indesejável ou intolerável, surgindo a cassação como uma
medida disciplinar. ....................................................... (...) A desqualificação do parlamentar não
impede que ele venha a candidatar-se novamente. Eventualmente pode reeleger-se. Mas sobra,
ainda, à Câmara, o exercício do seu poder para cassar novamente o mandato do dito membro."
(grifei) A submissão de todos à supremacia da Constituição e aos princípios que derivam da ética
republicana representa o fator essencial de preservação da ordem democrática, por cuja integridade
devemos todos velar, enquanto legisladores, enquanto magistrados ou enquanto membros do Poder
Executivo. Não foi por outro motivo que o Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao analisar a
extensão do princípio da moralidade - que domina e abrange todas as instâncias de poder -,
proclamou que esse postulado, enquanto valor constitucional revestido de caráter ético--jurídico,
condiciona a legitimidade e a validade de quaisquer atos estatais: "A atividade estatal, qualquer que
seja o domínio institucional de sua incidência, está necessariamente subordinada à observância de
parâmetros ético-jurídicos que se refletem na consagração constitucional do princípio da moralidade
administrativa. Esse postulado fundamental, que rege a atuação do Poder Público, confere
substância e dá expressão a uma pauta de valores éticos sobre os quais se funda a ordem positiva do
Estado. O princípio constitucional da moralidade administrativa, ao impor limitações ao exercício
do poder estatal, legitima o controle jurisdicional de todos os atos do Poder Público que transgridam
os valores éticos que devem pautar o comportamento dos agentes e órgãos governamentais." (ADI
2.661/MA, Rel. Min. CELSO DE MELLO - Pleno) Impõe-se uma última observação a propósito
do princípio da unidade de legislatura. No caso ora em exame, embora tratando-se de fato ocorrido
na legislatura anterior, ele só deixou de ser apurado, em virtude da extinção anômala do respectivo
procedimento, por efeito da livre e unilateral declaração de vontade emanada do próprio impetrante,
que renunciou ao mandatodeque, então, era titular. Daí o fato de a nova Mesa da Câmara dos
Deputados haver deliberado, em 03/02/2003, sobre a necessidade de abertura de novo procedimento,
em ordem a legitimar, em função de novas investigações, a regular instauração, em momento
oportuno, do processo de cassação de mandato, por alegada falta de decoro parlamentar, que teria
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 17
sido cometida pelo ora impetrante. Veja-se que, no precedente referido (MS 23.388/DF, Rel. Min.
NÉRI DA SILVEIRA, Pleno), o fato - também praticado em legislatura anterior (16/12/98) - veio a
ser objeto de procedimento de cassação de mandato, instaurado no último mês de determinada
legislatura (janeiro/99), que teve prosseguimento e conclusão no início da legislatura seguinte,
quando certo Deputado Federal teve o seu mandato cassado, por falta de decoro parlamentar (em
07/04/99), transitando, o respectivo processo de cassação, de uma legislatura para outra, sem
qualquer solução de continuidade. Presente referida situação (fato ocorrido em legislatura anterior,
em cujo âmbito foi instaurado o concernente procedimento de cassação, encerrado na legislatura
subseqüente, com os respectivos atos processuais havendo sido praticados em seqüência
ininterrupta) - situação essa em tudo aparentemente mais desfavorável que a ora exposta pelo
impetrante -, esta Suprema Corte, mesmo assim, veio a reconhecer que a Carta Política não exige
que haja necessária relação de contemporaneidade entre o fato típico e a legislatura sob cujo domínio
temporal teria ocorrido o evento motivador da responsabilização política do legislador, por falta de
decoro parlamentar, consoante esclareceu o Plenário do Supremo Tribunal Federal: "3. Pretende-se
a extinção do procedimento de perda do mandato. Sustenta-se que a cassação do mandato, para nova
legislatura, fica restrita à hipótese de, no curso dessa legislatura, se verificarem condutas, dela
contemporâneas, capituláveis como atentatórias do decoro parlamentar (...) 6. Tese invocada, acerca
da inexistência de contemporaneidade entre o fato típico e a competência da atual legislatura, que
se rejeita." (MS 23.388/DF, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA - grifei) APARENTE
INOCORRÊNCIA DE OFENSA AO PRINCÍPIO DO "NON BIS IN IDEM". Vê-se, do próprio
precedente resultante do julgamento do MS 23.388/DF, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA (Pleno),
que parece revelar-se inconsistente a alegação de que a Mesa da Câmara dos Deputados, com a
edição do Ato nº 01/2003, teria infringido o postulado que veda o "bis in idem". Na realidade, o
procedimento de apuração preliminar da conduta alegadamente indecorosa do ora impetrante,
instaurado na legislatura anterior, não se concluiu, em decorrência de obstáculo exclusivamente
criado pelo próprio impetrante, que renunciou ao seu mandato (fls. 46/49), impedindo, assim, ante
a superveniente perda de objeto, a conclusão da sindicância. Torna-se evidente, pois, que, em virtude
dessa anômala extinção da sindicância administrativa - a que deu causa, unicamente, o próprio
impetrante (fls. 46/49) - o órgão legislativo dela encarregado não teve condições de concluí-la e de
relatá-la, o que, por si só, afasta a alegação de que a instauração de nova sindicância, sob a
responsabilidade de órgão legislativo composto por novos integrantes, teria importado em ofensa ao
princípio do "non bis in idem". Essedesrespeito ao postulado que veda o "bis in idem" simplesmente
não ocorreu, eis que, na legislatura anterior, não se registrou, contra o ora impetrante, e a propósito
dos mesmos fatos ensejadores da atual sindicância, a inflição de qualquer sanção de índole político-
administrativa, nem se verificou o encerramento de qualquer procedimento de caráter disciplinar.
Disso resulta que inexiste, no caso, qualquer possibilidade de dupla punição político-administrativa,
motivada pelo mesmo fato, a ser eventualmente imposta pela Casa Legislativa a que pertence o ora
impetrante, uma vez que - insista-se - a imputação existente contra o Deputado Federal Pinheiro
Landim, além de não haver constituído objeto de apreciação definitiva na legislatura anterior, sequer
resultou em qualquer sanção ao parlamentar em referência. PROCEDIMENTO INQUISITÓRIO
(FASE PRÉ-PROCESSUAL) E GARANTIA DE DEFESA. Também não me parece, em sede de
estrita delibação, que a Comissão de Sindicância tenha desrespeitado a garantia da plenitude de
defesa, pois ainda não se instaurou o processo político-administrativo a que se refere o art. 55, § 2º,
da Constituição. É que a Comissão de Sindicância - que constitui a longa manus do Conselho de
Ética e Decoro Parlamentar - atua, no presente momento, numa fase estritamente pré-processual,
realizando diligências investigatórias destinadas a comprovar, ainda que de modo sumário e
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 18
preliminar, os fatos que poderão substanciar, em momento oportuno, o ulterior oferecimento de
acusação formal ("representação") contra o ora impetrante, por suposta prática de atos alegadamente
incompatíveis com o decoro parlamentar. Isso significa, portanto, que a fase ritual em que
presentemente se aacha o procedimento de apuração sumária e preliminar dos fatos não comporta a
prática do contraditório, nem impõe a observância da garantia da plenitude de defesa, eis que a
investigação promovida pela Comissão de Sindicância reveste-se, no presente momento, do caráter
de unilateralidade, impregnada que se acha de inquisitividade, circunstância essa que torna
insuscetível de invocação a cláusula da plenitude de defesa e do contraditório. É por essa razão que
JOSÉ FREDERICO MARQUES ("Elementos de Direito Processual Penal", vol. I/157, item n. 82,
2ª ed., 1965, Forense), ao versar o tema da investigação penal, adverte que não tem pertinência,
nessa fase procedimental, caracterizada pela nota da unilateralidade da apuração dos fatos, a
invocação do princípio do contraditório, exatamente por ainda não haver sido instaurado o
concernente processo: "Um procedimento policial de investigação, com o contraditório, seria
verdadeira aberração, pois inutilizaria todo esforço investigatório que a polícia deve realizar para a
preparação da ação penal." Essa lição revela-se inteiramente aplicável à atividade igualmente
investigatória desenvolvida pela Comissão de Sindicância, instituída pela Mesa da Câmara dos
Deputados, pois, também no caso ora em exame, mostra-se prematura a pretendida observância da
garantia do contraditório e da plenitude de defesa, eis que ainda não se instaurou, na forma do art.
7º do Regulamento do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, e para
osfins a que se refere o art. 55, § 2º, da Carta Política, o pertinente processo de perda do mandato,
por suposta falta de decoro parlamentar. O fato irrecusável é um só: a Comissão de Sindicância -
que promove a investigação preliminar e sumária - atua como verdadeira fact-finding commission.
Nela não há a figura do acusado, porque ainda inexistente qualquer acusação formal e também
porque inocorrente a própria instauração do processo político-administrativo a que alude o art. 55,
§ 2º, da Carta Política, e cuja disciplina ritual observará o que dispõe o art. 7º do Regulamento do
Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, oportunidade em que será,
então, assegurada ampla defesa ao parlamentar, com todos os meios a ela inerentes, inclusive aquele
referente à garantia do contraditório (CF, art. 55, § 2º). É certo que o Estado, em tema de punições
de índole disciplinar ou de caráter político-administrativo, não pode exercer a sua autoridade de
maneira abusiva ou arbitrária, desconsiderando, no exercício de sua atividade censória, o postulado
da plenitude de defesa, pois - cabe enfatizar -, o reconhecimento da legitimidade ético-jurídica de
qualquer sanção punitiva imposta peloPoder Público exige, ainda que se cuide de procedimento
meramente administrativo (CF, art. 5º, LV), a fiel observância do princípio do devido processo legal,
consoante adverte autorizado magistério doutrinário (MANOEL GONÇALVES FERREIRA
FILHO, "Comentários à Constituição Brasileira de 1988", vol. 1/68-69, 1990, Saraiva; PINTO
FERREIRA, "Comentários à Constituição Brasileira", vol. 1/176 e 180, 1989, Saraiva; JESSÉ
TORRES PEREIRA JÚNIOR, "O Direito à Defesa na Constituição de 1988", p. 71/73, item n. 17,
1991, Renovar; EDGARD SILVEIRA BUENO FILHO, "O Direito à Defesa na Constituição", p.
47-49, 1994, Saraiva; CELSO RIBEIRO BASTOS, "Comentários à Constituição do Brasil", vol.
2/268-269, 1989, Saraiva; MARIA SYLVIA ZANELLA DI PIETRO, "Direito Administrativo", p.
401-402, 5ª ed., 1995, Atlas; LÚCIA VALLE FIGUEIREDO, "Curso de Direito Administrativo",
p. 290 e 293-294, 2ª ed., 1995, Malheiros, v.g.). Ocorre, no entanto, que essa diretriz constitucional
(CF, art. 5º, LV), assim interpretada pelo magistério da doutrina e pela jurisprudência dos Tribunais,
somente terá aplicação, se e quando se tratar de processo (administrativo ou judicial), não, porém,
quando se cuidar, como no caso, de simples apuração sumária, por Comissão de Sindicância,
destinada a subsidiar futura acusação formal contra qualquer parlamentar, a quem vier a ser
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imputada a prática de ato incompatível com o decoro inerente às Casas legislativas. Uma vez
instaurado o processo de decretação de perda de mandato, por suposta infração ao que dispõe o art.
55, II, da Constituição, resultante de formal oferecimento da representação, por parte de quem
dispuser de legitimidade ativa para tanto (CF, art. 55, § 2º), aí, então, impor-se-á, por efeito do que
determina a própria Carta Política (CF, art. 55, § 2º), a observância da garantia indisponível da
plenitude de defesa. Antes, porém, tal como já enfatizado, não se revelará aplicável a garantia a que
se refere o art. 55, § 2ºda Constituição, pois, na fase pré-processual de apuração sumária e preliminar
dos fatos e respectivos elementos probatórios, inexiste - considerado o contexto emergente da
presente causa - qualquer possibilidade jurídica de imposição da sanção constitucional de perda do
mandato, tal como se discutiu, amplamente, no Plenário desta Corte, quando do julgamento do MS
21.861/DF, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA. AUTONOMIA DA INVESTIGAÇÃO
PARLAMENTAR, AINDA QUE OS FATOS A SEREM APURADOS POSSAM QUALIFICAR-
SE COMO ILÍCITOS PENAIS. De outro lado, cumpre enfatizar que a Comissão de Sindicância -
considerada a extrema gravidade dos fatos submetidos à sua apuração - dispõe de plena liberdade
de atuação para investigar e para esclarecer os eventos que motivaram, no plano institucional, a
reação da Câmara dos Deputados. O aprofundamento e a extensão das investigações promovidas
pela Comissão de Sindicância, instituída pela Mesa da Câmara dos Deputados, visam a um só
propósito: o de permitir a apuração da verdade real sobre os fatos que caracterizariam a alegada falta
de decoro parlamentar. A circunstância de esses mesmos episódios constituírem objeto de
investigação penal não impede, nem inibe a Câmara dos Deputados, por intermédio da Comissão de
Sindicância, de também apurar os fatos, na exata medida em que as informações deles decorrentes
mostrarem-se relevantes para os fins a que alude o art. 55, II, da Constituição da República. Cabe
relembrar, neste ponto, que o Plenário do Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, reconheceu
a possibilidade de qualquer das Casas do Congresso Nacional - agindo nos estritos limites de sua
competência institucional - realizar investigações ou promover inquéritos e sindicâncias, com o
objetivo de apurar fatos sujeitos a procedimentos incluídos em sua esfera de atribuições
(precisamente como no caso), não obstante esses mesmos fatos possam constituir objeto de
inquéritos policiais ou, até mesmo, de processos judiciais em curso: "AUTONOMIA DA
INVESTIGAÇÃO PARLAMENTAR. - O inquérito parlamentar, realizado por qualquer CPI,
qualifica-se como procedimento jurídico-constitucional revestido de autonomia e dotado de
finalidade própria, circunstância esta que permite à Comissão legislativa - sempre respeitados os
limites inerentes à competência material do Poder Legislativo e observados os fatos determinados
que ditaram a sua constituição - promover a pertinente investigação, ainda que os atos
investigatórios possam incidir, eventualmente, sobre aspectos referentes a acontecimentos sujeitos
a inquéritos policiais ou a processos judiciais que guardem conexão com o evento principal objeto
da apuração congressual. Doutrina. Precedente: MS 23.639-DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO
(Pleno)." (MS 23.652/DF, Rel. Min. CELSO DE MELLO) Esse entendimento jurisprudencial
reflete-se, por igual, no magistério de eminentes autores (JOÃO DE OLIVEIRA FILHO,
"Comissões Parlamentares de Inquérito", in Revista Forense, vol. 151/9-22, 13; ALCINO PINTO
FALCÃO, "Comissões Parlamentares de Inquérito - Seus Poderes Limitados - Relações com a
Justiça - Testemunhas", in Revista Forense, vol. 185/397-399, item n. 4; JOSÉ LUIZ MÔNACO
DA SILVA, "Comissões Parlamentares de Inquérito", p. 34-35, 1999, Ícone; ROGÉRIO LAURIA
TUCCI, "Comissão Parlamentar deInquérito (Atuação - Competência - Caráter investigatório)", in
Revista Brasileira de Ciências Criminais, vol. 6/171-185, 180; CARLOS MAXIMILIANO,
"Comentários à Constituição Brasileira de 1946", vol. 2/80, item n. 315, 5ª ed., 1954, Freitas
Bastos): "Em virtude da natureza da investigação parlamentar, nada impede, entre nós, que ela se
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realize paralelamente com o inquérito policial ou o processo judiciário." (NELSON DE SOUZA
SAMPAIO, "Do Inquérito Parlamentar", p. 45/46, 1964, Fundação Getúlio Vargas - grifei)
Presentes todas as razões ora expostas, mas considerando, sobretudo, o precedente firmado pelo
Plenário do Supremo Tribunal Federal (MS 23.388/DF, Rel. Min. NÉRI DA SILVEIRA, "Caso
Talvane Neto"), entendo que resulta descaracterizada, na espécie, a plausibilidade jurídica da
pretensão mandamental ora deduzida. Cabe enfatizar, neste ponto, que o deferimento da medida
liminar, que resulta do concreto exercício do poder cautelar geral outorgado aos juízes e Tribunais,
somente se justifica em face de situações que se ajustem aos pressupostos referidos no art. 7º, II, da
Lei nº 1.533/51: a existência de plausibilidade jurídica (fumus boni juris), de um lado, em concurso
com a possibilidade de lesão irreparável ou de difícil reparação (periculum in mora), de outro. Sem
que concorram esses dois requisitos - que são necessários, essenciais e cumulativos -, não se legitima
a concessão da medida liminar. Orienta-se, nesse sentido, a jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal: "Mandado de segurança. Liminar. Embora esta medida tenha caráter cautelar, os motivos
para a sua concessão estão especificados no art. 7º, II da Lei nº 1.533/51, a saber: a) relevância do
fundamento da impetração; b) que do ato impugnado possa resultar a ineficácia da medida, caso seja
deferida a segurança. Não concorrendo estes dois requisitos, deve ser denegada a liminar." (RTJ
112/140, Rel. Min. ALFREDO BUZAID - grifei) Sendo assim, em sede de mera delibação, e tendo
em consideração os fundamentos que venho de expor, indefiro o pedido de medida liminar. 2.
Requisitem-se informações ao eminente Presidente da Câmara dos Deputados, em sua condição de
Presidente do órgão colegiado ora apontado como coator, encaminhando-se, a Sua Excelência, cópia
da presente decisão. Publique-se. Brasília, 18 de fevereiro de 2003. * decisão publicada em
21.2.2003.
2ª QUESTÃO:
Em sede de ADPF, determinado partido da base de apoio do Governo, a fim de balizar o
procedimento de impeachment em quese visa ao afastamento do Presidente da República em
exercício, requer, entre outros pedidos, que as regras procedimentais do processo penal sejam
aplicadas no citado rito, sobretudo:
a) quanto à necessidade de se aplicar ao processo de impeachment as garantias típicas do Processo
Penal e do Processo Administrativo sancionador;
b) que os arts. 18, 22, § 1º, 27, 28 e 29 da Lei 1.079/50 devem ser lidos à luz dos princípios da ampla
defesa e do contraditório, de modo que toda a atividade probatória seja desenvolvida, em primeiro
lugar, pela acusação e, posteriormente, pela defesa, bem como que, em cada fase, a ouvida do
acusado seja o último ato da instrução;
c) que seja realizada interpretação conforme a Constituição do art. 19 da Lei n. 1.079/50, para se
fixar, com efeito ex tunc - abrangendo os processos em andamento -, a interpretação segundo a qual
o recebimento da denúncia referido no dispositivo legal deve ser precedido de audiência prévia do
acusado, no prazo de quinze dias.
Responda, fundamentamente, como deve ser decidida a questão, e ainda:
1) como é repartida a divisão de tarefas entre as casas legislativas e qual o tipo de controle efetuado:
jurídico ou político? Fundamente.
DIREITO CONSTITUCIONAL - CP01 - 05 - CPV - 1º PERÍODO 2025 21
2) uma vez admitida a denúncia na Câmara, pode o Senado efetuar juízo de admissibilidade dessa
mesma denúncia, contrariando a casa do povo?
3) existe alguma etapa no procedimento, tanto na Câmara, quanto no Senado, em que se permite a
votação secreta?
RESPOSTA:
RESPOSTA:
ADPF 378 MC / DF - DISTRITO FEDERAL
MEDIDA CAUTELAR NA ARGÜIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO
FUNDAMENTAL
Relator(a): Min. EDSON FACHIN
Relator(a) p/ Acórdão: Min. ROBERTO BARROSO
Julgamento: 17/12/2015 Órgão Julgador: Tribunal Pleno
Ementa: DIREITO CONSTITUCIONAL. MEDIDA CAUTELAR EM AÇÃO DE
DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL. PROCESSO DE IMPEACHMENT.
DEFINIÇÃO DA LEGITIMIDADE CONSTITUCIONAL DO RITO PREVISTO NA LEI Nº
1.079/1950. ADOÇÃO, COMO LINHA GERAL, DAS MESMAS REGRAS SEGUIDAS EM
1992. CABIMENTO DA AÇÃO E CONCESSÃO PARCIAL DE MEDIDAS CAUTELARES.
CONVERSÃO EM JULGAMENTO DEFINITIVO. I. CABIMENTO DA ADPF E DAS
MEDIDAS CAUTELARES INCIDENTAIS 1. A presente ação tem por objeto central analisar a
compatibilidade do rito de impeachmentde Presidente da República previsto na Lei nº 1.079/1950
com a Constituição de 1988. A ação é cabível, mesmo se considerarmos que requer, indiretamente,
a declaração de inconstitucionalidade de norma posterior à Constituição e que pretende superar
omissão parcial inconstitucional. Fungibilidade das ações diretas que se prestam a viabilizar o
controle de constitucionalidade abstrato e em tese. Atendimento ao requisito da subsidiariedade,
tendo em vista que somente a apreciação cumulativa de tais pedidos é capaz de assegurar o amplo
esclarecimento do rito do impeachment por parte do STF. 2. A cautelar incidental requerida diz
respeito à forma de votação (secreta ou aberta) e ao tipo de candidatura (indicação pelo líder ou
candidatura avulsa) dos membros da Comissão Especial na Câmara dos Deputados. A formação da
referida Comissão foi questionada na inicial, ainda que sob outro prisma. Interpretação da inicial de
modo a conferir maior efetividade ao pronunciamento judicial. Pedido cautelar incidental que pode
ser recebido, inclusive, como aditamento à inicial. Inocorrência de violação ao princípio do juiz
natural, pois a ADPF foi à livre distribuição e os pedidos da cautelar incidental são abrangidos pelos
pleitos da inicial. II. MÉRITO: DELIBERAÇÕES POR MAIORIA 1. PAPÉIS DA CÂMARA DOS
DEPUTADOS E DO SENADO FEDERAL NO PROCESSO DE IMPEACHMENT (ITENS C, G,
H E I DO PEDIDO CAUTELAR): 1.1. Apresentada denúncia contra o Presidente da República por
crime de responsabilidade, compete à Câmara dos Deputados autorizar a instauração de processo
(art. 51, I, da CF/1988). A Câmara exerce, assim, um juízo eminentemente político sobre os fatos
narrados, que constitui condição para o prosseguimento da denúncia. Ao Senado compete,
privativamente, processar e julgar o Presidente (art. 52, I), locução que abrange a realização de um
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juízo inicial de instauração ou não do processo, isto é, de recebimento ou não da denúncia autorizada
pela Câmara. 1.2. Há três ordens de argumentos que justificam esse entendimento. Em primeiro
lugar, esta é a única interpretação possível à luz da Constituição de 1988, por qualquer enfoque que
se dê: literal, histórico, lógico ou sistemático. Em segundo lugar, é a interpretação que foi adotada
pelo Supremo Tribunal Federal em 1992, quando atuou no impeachment do então Presidente
Fernando Collor de Mello, de modo que a segurança jurídica reforça a sua reiteração pela Corte na
presenteADPF. E, em terceiro e último lugar, trata-se de entendimento que, mesmo não tendo sido
proferido pelo STF com força vinculante e erga omnes, foi, em alguma medida, incorporado à ordem
jurídica brasileira. Dessa forma, modificá-lo, estando em curso denúncia contra a Presidente da
República, representaria uma violação ainda mais grave à segurança jurídica, que afetaria a própria
exigência democrática de definição prévia das regras do jogo político. 1.3. Partindo das premissas
acima, depreende-se que não foram recepcionados pela CF/1988 os arts. 23, §§ 1º, 4º e 5º; 80, 1ª
parte (que define a Câmara dos Deputados como tribunal de pronúncia); e 81, todos da Lei nº
1.079/1950, porque incompatíveis com os arts. 51, I; 52, I; e 86, § 1º, II, todos da CF/1988. 2. RITO
DO IMPEACHMENT NA CÂMARA (ITEM C DO PEDIDO CAUTELAR): 2.1. O rito do
impeachment perante a Câmara, previsto na Lei nº 1.079/1950, partia do pressuposto de que a tal
Casa caberia, nos termos da CF/1946, pronunciar-se sobre o mérito da acusação. Em razão disso,
estabeleciam-se duas deliberações pelo Plenário da Câmara: a primeira quanto à admissibilidade da
denúncia e a segunda quanto à sua procedência ou não. Havia, entre elas, exigência de dilação
probatória. 2.2. Essa sistemática foi, em parte, revogada pela Constituição de 1988, que, conforme
indicado acima, alterou o papel institucional da Câmara no impeachment do Presidente da
República. Conforme indicado pelo STF e efetivamente seguido no caso Collor, o Plenário da
Câmara deve deliberar uma única vez, por maioria qualificada de seus integrantes, sem necessitar,
porém, desincumbir-se de grande ônus probatório. Afinal, compete a esta Casa Legislativa apenas
autorizar ou não a instauração do processo (condição de procedibilidade). 2.3. A ampla defesa do
acusado no rito da Câmara dos Deputados deve ser exercida no prazo de dez sessões (RI/CD, art.
218, § 4º), tal como decidido pelo STF no caso Collor (MS 21.564, Rel. para o acórdão Min. Carlos
Velloso). 3. RITO DOIMPEACHMENT NO SENADO (ITENS G E H DO PEDIDO CAUTELAR):
3.1. Por outro lado, há de se estender o rito relativamente abreviado da Lei nº 1.079/1950 para
julgamento doimpeachment pelo Senado, incorporando-se a ele uma etapa inicial de instauração ou
não do processo, bem como uma etapa de pronúncia ou não do denunciado, tal como se fez em 1992.
Estas são etapas essenciais ao exercício, pleno e pautado pelo devido processo legal, da competência
do Senado de processar e julgar o Presidente da República. 3.2. Diante da ausência de regras
específicas acerca dessas etapas iniciais do rito no Senado, deve-se seguir a mesma solução jurídica
encontrada pelo STF no caso Collor, qual seja, a aplicação das regras da Lei nº 1.079/1950 relativas
a denúncias por crime de responsabilidade contra Ministros do STF ou contra o PGR (também
processados e julgados exclusivamente pelo Senado). 3.3. Conclui-se, assim, que a instauração do
processo pelo Senado se dá por deliberação da maioria simples de seus membros, a partir de parecer
elaborado por Comissão Especial,