Prévia do material em texto
São Paulo, 7 e 8 de Abril de 2005. II Seminário de Tecnologia da Informação e Comunicação na Constrão Civil ENGENHARIA COLABORATIVA: UMA VISÃO PARA A ENGENHARIA SIMULTÂNEA E O USO DE AMBIENTES COLABORATIVOS PARA ARQUITETURA E ENGENHARIA CIVIL BOLLMANN, CAROLINE (1); SCHEER, SERGIO (2); STUMM, SILVANA B. (3) 1. Arquiteta, Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Construção Civil Universidade Federal do Paraná e-mail: arqui@onda.com.br 2. Engenheiro Civil, Mestre em Estruturas, Doutor em Informática, Professor Adjunto Programa de Pós-Graduação em Construção Civil e Grupo de Tecnologia de Informação e Comunicação Centro de Estudos de Engenharia Civil Universidade Federal do Paraná e-mail: scheer@ufpr.br 3. Engenheira Civil, Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Construção Civil Universidade Federal do Paraná. Departamento de Construção Civil e-mail: silvana_stumm@uol.com.br RESUMO A construção civil denota uma grande necessidade na integração de projetos, desde a elaboração do projeto arquitetônico, incluindo as etapas dos projetos complementares como o de instalações elétricas, hidráulico-sanitárias, estrutural dentre outros, até a execução do empreendimento propriamente dito. Os profissionais envolvidos em cada fase do processo de concepção, possuem especialidades distintas e diferentes métodos de trabalho. A aplicabilidade dos conceitos particulares de cada agente, sem interação no desenvolvimento dos projetos seqüenciais termina, muitas vezes, em resultados indesejáveis. A Engenharia Simultânea, apoiada em ambientes colaborativos, pode contribuir no aprimoramento dessas características inerentes a cada visão, tornando-se uma ferramenta essencial, não só na gestão de projetos como, também, durante todo o processo de execução da obra. Este trabalho tem como objetivo, portanto, corroborar na construção de uma visão sistemática da utilização desses recursos técnicos e metodológicos na busca de uma ambiência de integração de projetos de construção civil com uso de recursos intensivos de TI. Palavras chaves: Engenharia Simultânea, Colaboração, Coordenação de Projetos, Produtos. Caroline Bollmann; Sérgio Scheer e Silvana Bastos Stumm II Seminário de Tecnologia da Informação e Comunicação na Construção Civil 2 1. INTRODUÇÃO O resultado positivo para uma organização está diretamente relacionado a sua capacidade de oferecer melhores produtos ao mercado, agregados a um diferencial. De um modo geral, englobando necessidades do cliente, qualidade e preço. Neste contexto, surgem vários métodos de gestão do processo de desenvolvimento de produto orientados pelas condicionantes do mercado, sendo um deles denominado de Engenharia Simultânea. Para o mercado da construção civil, o produto pode ser entendido como o “Edifício” e o processo de produção, a “Obra”. Com o crescente desenvolvimento de tecnologias e o aumento da complexidade de projetos construtivos surge a necessidade de não somente gerar produtos (edifícios) cada vez melhores, mas também reduzir consideravelmente o prazo de execução. Este é o objetivo da Engenharia Simultânea (ES): permitir a obtenção de maior competitividade no desenvolvimento de produtos e processos, por meio da redução do tempo e do custo de desenvolvimento e melhor aceitação do cliente. A interação entre participantes envolvidos no desenvolvimento do produto é fundamental para o sucesso do trabalho em ambientes colaborativos. Segundo Piaget (1990) apud Cattani (2003), o conhecimento não procede nem do sujeito nem do objeto a ser conhecido, mas sim “de interações que se produzem a meio caminho entre sujeito e objeto, e que dependem, portanto, dos dois ao mesmo tempo”. Este trabalho aborda conceitos relativos à Engenharia Simultânea e aos ambientes colaborativos de projeto, buscando construir uma visão para integração de atividades. 2. A ENGENHARIA SIMULTÂNEA - ES Segundo Carter e Baker (1992), na década de oitenta as companhias começaram a perceber os efeitos da influência de novas tecnologias, o aumento na complexidade dos produtos e a ampliação das organizações. As empresas sentiram-se forçadas a pesquisar novos métodos de desenvolvimento de produtos. Um dos mais significativos eventos da Engenharia Simultânea (ES) ocorreu em 1982 quando o Defense Advanced Research Projects Agency Analysis (DARPA) iniciou um estudo para aperfeiçoar o processo de projeto. Cinco anos depois provaram ser um enfoque de trabalho importante onde outros grupos baseariam seus estudos futuros. E, em 1986, o Institute for Defense Analyses (IDA) adotou o termo ES para explicar a sistemática do método de projetos simultâneos. Esse termo representa uma consolidação de outras tendências e iniciativas mais restritas visando a integração do desenvolvimento de produtos. Segundo Hartley (1998), para a ES o conjunto é muito mais do que a soma das partes, razão pela qual, conforme o autor, a ES reduz prazos e custos. Há uma combinação do enfoque de equipe para a gestão de projetos com um certo número de técnicas capazes de assegurar a otimização do projeto. Para Fabrício (2002), a Engenharia Simultânea na construção civil é definida como “o desenvolvimento integrado das diferentes dimensões do empreendimento, envolvendo a formulação conjunta da operação imobiliária, do programa de necessidades, da concepção arquitetônica e tecnológica do edifício e do projeto para produção, realizado por meio da colaboração entre o agente promotor, a construtora e os projetistas, considerando as funções subempreiteiros e fornecedores de materiais, de forma a orientar o projeto à qualidade ao longo do ciclo de produção e uso do empreendimento”. A ES é uma ferramenta para erradicar as ineficiências e conseguir o máximo das capacitações existentes na organização (Hartley, 1998). 3. AMBIENTES COLABORATIVOS Ambientes colaborativos referem-se àqueles onde são possíveis diferentes usuários participarem, colaborarem ou cooperarem, sempre no sentido de uma produção que represente o objetivo em comum da ação (Carneiro et al, 1999). Engenharia Colaborativa: Uma Visão para a Engenharia Simultânea e o Uso de Ambientes Colaborativos para Aquitetura e Engenharia Civil II Seminário de Tecnologia e Comunicação na Construção Civil 3 Colaborar pressupõe trabalhar junto, ou seja, cada participante necessita da existência do outro e de uma interação com esse outro. Essa interação entre pessoas utiliza recursos do computador para viabilizar, intensificar ou mesmo armazenar os produtos decorrentes da interação como artigos, mensagens, projetos, desenhos, etc. Não existe interação sem comunicação e por isso, o ambiente colaborativo deve, inicialmente, possibilitá-la mediante o uso de computador. Ambientes colaborativos permitem a um grupo de usuários ou aplicações dispersas, em vários lugares do mundo, usar computadores e diversas mídias (texto, áudio, vídeo e imagens) para resolver problemas conjuntamente (Yavatkar e Lakshman, 1994). O desenvolvimento de tais ambientes envolve aspectos de várias áreas, incluindo interface com usuário, infraestrutura de comunicação, paradigmas de colaboração, ferramentas para trabalho em grupo e sistemas de objetos compartilhados. Segundo pesquisa de Yavatkar e Lakshman (1994), algumas características dos ambientes colaborativos podem ser citadas: • Interoperabilidade - Um ambiente colaborativo pode utilizar diversos programas de diferentes fabricantes e procedências, de forma combinada, para atingir algum objetivo. • Heterogeneidade de dados - Ambientes colaborativos envolvem a manipulação não só de documentos, mas também de informações armazenadas em bancos de dados. • Mobilidade - Com a disseminação de computadores portáteis e a possibilidade de haver usuários dispersos geograficamente, a mobilidade em ambientes colaborativos ocorre não apenas no contexto da plataforma, mas também do usuário. • Múltiplos Participantes - Ambientes colaborativose seus múltiplos participantes envolvem uma série de complexidades para o sistema, como a natureza heterogênea dos diversos computadores hospedeiros (hosts), diferenças de desempenho em partes distintas da rede e falhas transientes ou persistentes de algum dos participantes no sistema. 3.1. Computer- Supported Collaborative Work – CSCW É um sistema cooperativo capaz de permitir aos usuários acesso simultâneo. Refere-se à cooperação eficiente e efetiva em que os integrantes devem estar sempre bem informados uns sobre as atividades dos outros (Dourish e Belotti, 1992 apud Gross e Prinz, 2004). O surgimento do CSCW, segundo Moeckel (2000), deve-se a necessidade de profissionais em localizações distintas precisarem trabalhar juntos, para obter resultados mais rápidos. A tecnologia gerada pelas pesquisas sobre CSCW deu origem ao termo Groupware que se baseia na condução de reuniões envolvendo diversos usuários. É qualquer sistema computacional que permite o trabalho cooperativo de um grupo de indivíduos para se atingir mais rápido um mesmo objetivo. 4. A IMPORTÂNCIA DA ES E AMBIENTES COLABORATIVOS PARA A CONSTRUÇÃO CIVIL O uso da ES nas empresas de construção civil deve sofrer adaptações, pois essa foi desenvolvida sob parâmetros da indústria seriada como a indústria automobilística. O processo de projeto nesse setor é percebido de forma mais ampla que na construção. Geralmente, o desenvolvimento de um produto acaba sendo acompanhado pelo desenvolvimento de inovação no seu conceito ou na tecnologia ou no marketing ou mesmo em vários desses aspectos. Na construção, ao contrário, grande parte é criada sob padrões tradicionais e não está orientada para a introdução de inovações (Fabrício e Melhado, 2002). Durante o processo de implantação da Engenharia Simultânea são de grande importância: • atitudes para valorizar o trabalho de equipe, pois engenheiros, por sua própria formação, tendem a valorizar o trabalho individual, dificultando a implementação da metodologia; • propiciar treinamento, capacitando os técnicos a trabalhar em grupo; • introduzir nos sistemas de avaliação de desempenho dos participantes, dimensões levando em conta o sucesso como membro de equipe, além da avaliação individual (Estorillo, 1998). Contudo, é preciso compreender as diversas fases de maturação de um time e o tipo de auxílio para superar as dificuldades inerentes as etapas. Aspectos culturais, por exemplo, podem influenciar, um novo perfil gerencial, a autonomia do time, etc. Destaca-se neste contexto a sistemática de implantação da ES. Outros aspectos que definem a abrangência da ES se dividem em fatores de natureza organizacional, como os mencionados e de natureza computacional incluindo ferramentas computacionais, comunicação, integração, etc. No entanto, apesar de promessas de vantagens competitivas grandes e estimulantes, obtê-las na prática Caroline Bollmann; Sérgio Scheer e Silvana Bastos Stumm II Seminário de Tecnologia da Informação e Comunicação na Construção Civil 4 não é uma tarefa fácil. Iniciativas precipitadas, isoladas ou mesmo descoordenadas --simplesmente convocar o pessoal de diversas áreas funcionais para discutir o projeto em torno de uma mesa ou fazer uso de sistemas CAE/CAD/CAM, por exemplo - não habilitam a empresa quanto aos princípios da ES. Segundo Anumba e Kamara (1999), a ES oferece melhor solução para os problemas da indústria da construção civil no que diz respeito à redução de custos, tempo e aperfeiçoamento da qualidade. Ambientes colaborativos são sistemas essenciais para o sucesso de trabalhos simultâneos na engenharia e arquitetura que dependem de várias formações profissionais na área de projetos e execução. Para ambientes colaborativos, o uso cada vez mais freqüente da internet tem fornecido excelentes possibilidades para elaborar e analisar projetos de arquitetura e engenharia, independente da localização geográfica de cada participante. Há a necessidade de envolver não só membros da mesma organização, mas sim, de diversas empresas. Partilhar informações, manter a comunicação alinhada, as tarefas em tempo real, gerenciar dados e documentos são algumas das características básicas quando se trabalha em ambiente colaborativo. É vital para usuários autorizados partilhar a última informação e acessar informações prévias (Vinucua, 2001 apud Sun e Gramoll, 2002). Essas informações além de textos descritivos sobre o status do projeto abordam os modelos 3D, desenhos de engenharia e análise de resultados, como apresentam Sun e Gramoll (2002). Vários estudos têm mostrado a importância em se utilizar os modelos 3D como o núcleo de modelagem por proporcionarem melhor representação aos objetos reais e possibilitarem a incorporação de informações não-gráficas acopladas pelos sistemas CAD (Feijó e Scheer, 1999). Para a atuação em ambientes colaborativos ser realmente eficaz, deve-se entender que partilhar os comandos é essencial e não as tarefas já executadas. 5. ENGENHARIA COLABORATIVA: INDÚSTRIAS SERIADAS x CONSTRUÇÃO CIVIL Na construção civil o processo tradicional envolve profissionais da arquitetura e engenharia de diversas formações. Apesar dos esforços dos coordenadores de projeto, alguns problemas de integração entre os participantes podem surgir. Essa é a etapa na qual o coordenador deve permanecer extremamente atento às tarefas indicadas aos envolvidos. Cada agente sente-se inseguro quanto às definições concluídas pelos outros profissionais. O papel da ES é auxiliar as organizações industriais a alcançar um nível mínimo de desempenho como a entrega de um produto certo, no tempo certo, atendendo tanto ao cliente quanto o mercado (Wognum e Veenvliet, 1999). É transferir o foco da produção para os estágios primários do projeto, incluindo marketing. Na construção civil, esse processo não permite o desenvolvimento de novas soluções de projeto e execução, pois a distribuição das etapas é realizada de forma hierárquica – projeto arquitetônico, estrutural, elétrico, etc. A falta de interação entre os profissionais nesse modelo não colabora com o desenvolvimento de novas tecnologias, métodos construtivos e maior qualidade do projeto (desenvolvimento e construtibilidade). A chamada Engenharia Colaborativa busca o desenvolvimento de projetos e produtos de maneira compartilhada entre os participantes. São grupos multifuncionais e multidisciplinares com uma única visão: os componentes do produto devem ter boa representatividade. Segundo Kruglianskas (1994) apud Estorilio (1998), o projeto bem gerenciado converge naturalmente para a abordagem da Engenharia Simultânea e o uso de ambientes colaborativos favorece a compressão do tempo de desenvolvimento de projetos e, conseqüentemente, de execução. A redução de tempo e materiais desperdiçados, retrabalhos desnecessários no desenvolvimento de novos produtos e processos melhoram o desempenho de uma organização. Assim, Engenharia Colaborativa dá suporte para alcançar um nível suficiente de eficiência, qualidade, flexibilidade e inovações. Wognum e Veenvliet (1999), realizaram um estudo abrangendo as particularidades da indústria e da engenharia civil, separadamente. Essa pesquisa mostra os problemas existentes na implementação da Engenharia Simultânea em ambientes colaborativos. Os problemas encontrados são os mesmos, independendo do tipo de indústria. Em contrapartida, na engenharia civil e arquitetura, o processo de planejamento, os projetos arquitetônico, elétrico, hidráulico, estrutural, entre outros, são etapas altamente fragmentadas devido às normas regulamentadoras e/ou legais. Engenharia Colaborativa: Uma Visão para a Engenharia Simultânea e o Uso de Ambientes Colaborativos para Aquitetura e Engenharia Civil II Seminário de Tecnologia e Comunicação na Construção Civil 5 Durante cada fase de projeto, profissionais de diferentes companhias e de diversas formações trabalham juntos e, muitas vezes, as funções são temporárias. A característicada maioria dos projetos de engenharia e arquitetura é a falta de interação entre participantes afirmam Wognum e Veenvliet (1999). Somado a esse aspecto está o fato de haver uma relação de hierarquia entre construtores e fornecedores. Durante a etapa de orçamento os membros são competidores, durante a elaboração do projeto trabalham colaborativamente, dizem os autores citados. Os problemas observados na indústria e na engenharia civil apresentam similaridades e diferenças interessantes (Quadro 1). As similaridades existem no nível operacional, na organização de projetos, no gerenciamento e suporte. As diferenças estão relacionadas à natureza de cada área e seus aspectos específicos. Quadro 1 - Indústria Seriada x Construção Civil INDÚSTRIA CONSTRUÇÃO CIVIL Estratégia Inovação do produto é vital Cada produto é único Adaptação Otimização de todo processo Otimização pontual Organização X Ambiente Pressão constante Pressão: necessidades de mercado e clientes Custos Diretamente ligado à qualidade do produto como chave do desempenho Alta competitividade de mercado Clientes Tipo de indústria e produto a desenvolver Foco principal Fabrício e Melhado (2003), explicam que o desenvolvimento de um novo produto na indústria manufatureira é, em geral, abordado de forma mais ampla que na construção e por isso a indústria da construção civil apresenta algumas especificidades importantes. Por exemplo, o planejamento do negócio, conforme os autores citam, o projeto, e a produção são muito mais pulverizados (a cargo de diferentes agentes) que na manufatura. O negócio envolve aspectos fundiários que condicionam o sucesso do edifício à capacidade de incorporar terrenos, deslocando parte dos requisitos de sucesso do empreendimento da esfera produtiva para a área imobiliária. Além disso, o longo ciclo de vida do produto (décadas) dificulta o planejamento de todas as transformações e solicitações que o edifício sofrerá durante sua existência e cria superposições entre o ciclo de vida do empreendimento, o ciclo de vida do usuário e as dinâmicas urbanas. Ainda, segundo os autores, as dimensões culturais, históricas e urbanas envolvidas no projeto de arquitetura contribuem para dificultar o processo do projeto. Ao contrário da manufatura, na construção, os clientes contratantes costumam interferir significativamente na gestão do empreendimento e na sua produção. A formação dos engenheiros e arquitetos é fragmentada e pouco voltada à gestão de processos. Como destacam Lana e Andery (2001) apud Fabrício e Melhado (2003), o mercado de trabalho é mais dinâmico que os perfis curriculares das universidades brasileiras. Por fim, a construção costuma trabalhar com pequenas escalas, o que reduz, relativamente, a possibilidade de amortização dos custos do projeto. Muitas vezes, a realização do protótipo se confunde com a realização do empreendimento e, assim, a ES se sobrepõe à gestão do empreendimento. Leclair (2003), estuda as características de vários empreendimentos e destaca que os empreendimentos de construção de edifícios guardam características importantes como a variabilidade das empresas participantes, tendo não só o empreendedor um papel de destaque, projetistas, fornecedores, subempreiteiros e agentes financeiros também desempenham um papel importante. Outra característica é o porte pequeno dos empreendimentos de engenharia se comparados à indústria automobilística. Além disso, em alguns casos de insucesso no lançamento, os empreendimentos de edifícios podem ser abortados embora implique em prejuízos não previstos. Com isso, Leclair (1993), ressalta o caráter próprio, específico e, em certos sentidos, até híbrido da construção. 6. REQUISITOS FUNDAMENTAIS PARA A IMPLANTAÇÃO DA ENGENHARIA COLABORATIVA NA CONSTRUÇÃO CIVIL A concepção de um empreendimento de construção, segundo Jouini e Modler (2000), agrupa três problemas principais: • a concepção do negócio – expressa na formulação do programa de necessidades; Caroline Bollmann; Sérgio Scheer e Silvana Bastos Stumm II Seminário de Tecnologia da Informação e Comunicação na Construção Civil 6 • o projeto do produto – edifício traduzido nos projetos de arquitetura e de engenharia e • a fase em que se projeta a execução da obra. Para ser eficaz no uso dos princípios da Engenharia Colaborativa, a empresa precisa de um mapa estratégico e de progressão. Isso pode ser feito com auxílio de ferramentas e diagnóstico, através das quais pode-se definir o perfil de maturidade da empresa e estabelecer metas estratégicas de aperfeiçoamento do ambiente de desenvolvimento. Além disso, como é recomendável em qualquer transformação profunda e extensa, a implantação da Engenharia Colaborativa deve ser feita em ciclos sucessivos, em um processo sistemático de implantação capaz de viabilizar todo o seu potencial. Para Anumba e Kamara (1999), existem fatores que facilitam o processo de implementação: necessidade de mudança; compartilhar informações; conhecer a natureza das organizações de projeto; padronizar contratos; eliminar retrabalhos (fazer certo na primeira vez); bom relacionamento entre projetistas e construtores (sintonia entre integrantes do processo). O processo da Engenharia Simultânea e a Engenharia Colaborativa requerem uma equipe sintonizada com o desenvolvimento das tarefas e muita cooperação entre vários setores envolvidos na produção. Os dados devem estar ao alcance de todos os agentes e as informações devem ser de fácil compreensão. Para suportar esse fluxo é necessário conhecer alguns requisitos para implantação do processo: • existência de sistema de informações integrado, visando gerenciamento de projetos, a alocação de recursos e o gerenciamento das informações (desenhos/ processos/ pareceres técnicos, etc); • equipamentos e softwares que permitam a transferência e acesso fácil às informações como intranet/internet, correio eletrônico; videoconferência e bancos de documentação eletrônica; • existência de um sistema de engenharia (normas de gerenciamento de projetos) para estabelecer e monitorar se as metas foram atingidas e o cumprimento dos requisitos dos projetos e que defina os critérios das certificações de produto, processo e fornecedores; • um ambiente orientado por projetos, capaz de prever a distinção clara entre projetos de desenvolvimento tecnológico e de produto/processo; a classificação dos projetos em categorias, segundo critérios de complexidade de gerenciamento e domínio técnico (projetos: de redução de custo; de pequena, média e grande complexidade; de desenvolvimento tecnológico) e estabeleça rotinas específicas para execução de cada tipo de projeto; • trabalho em times, exigindo dos integrantes, autonomia, participação, compromisso e visão sistêmica / polivalência (generalista x especialista); • a existência de reuniões de grupos de tecnologia com o objetivo de manter e ampliar as habilidades dos integrantes (capacitação), compartilhar experiências e conhecimento e promover a geração de novas ferramentas e tecnologias; • parcerias com fornecedores e clientes possibilitando a realização de reuniões técnicas desde o início dos projetos; o uso de metodologias de projeto similares e a análise e discussão dos resultados de testes; • disponibilização de ferramentas integradas de projeto (equipamentos e softwares de CAD, CAE, CAM, além de softwares dedicados). O fluxograma apresentado na Figura 1 foi elaborado a partir das idéias de aplicação da Engenharia Simultânea utilizadas no Departamento de Transportes de Virgínia (VDOT, 2004) e considera um enfoque voltado as idéias sobre Engenharia Colaborativa para a construção civil. Este fluxograma estabelece uma seqüência para a participação de todas as partes interessadas no ciclo de vida do projeto, com os objetivos de melhorar a coordenação e a comunicação do projeto, e finalmente, de melhorar a qualidade do processo de projeto. A partir da solicitação para o uso e aplicaçãoda Engenharia Colaborativa no processo de projeto, são definidas três fases principais: escopo, desenvolvimento e produção. Essas fases norteiam cinco reuniões principais com todos os times envolvidos a fim de determinar e finalizar toda a etapa de projeto antes de dar início à execução da obra. O Escopo do projeto é o primeiro marco interdisciplinar das equipes. O processo é iniciado pelo gerente de projeto que monta uma equipe de projetos, distribuindo finalidades e necessidades. Nesta etapa são definidos e distribuídos todos os recursos materiais para implantação do empreendimento. Cada equipe define seu escopo individual e prepara-se para desenvolver um escopo coletivo. O produto desta etapa é o escopo do projeto que permite a todos os participantes definirem os elementos que o compreendem, Engenharia Colaborativa: Uma Visão para a Engenharia Simultânea e o Uso de Ambientes Colaborativos para Aquitetura e Engenharia Civil II Seminário de Tecnologia e Comunicação na Construção Civil 7 envolvendo o orçamento e a programação para projetar e desenvolver os projetos. Entre as finalidades do escopo inclui-se a de definir e refinar as idéias iniciais e tornar conhecidos os conceitos de construtibilidade que confirmam a data estimada para execução como atingível e a estimativa de custo inicial da construção aceitável. Fases de Desenvolvimento: o produto da primeira fase de desenvolvimento é a verificação preliminar do projeto. Esta etapa permite que as equipes de diferentes projetistas revejam, juntas, um jogo preliminar dos projetos. Serve como revisão e aceitação do "alinhamento" dos projetos e também como verificação do status das partes envolvidas para o gerente definir novas tarefas e funções, além de dar seqüência no processo. A análise de documentação necessária para aprovação, classificação do projeto e definição do grupo de tecnologia também se inclui nesta etapa. Todo o material será avaliado pelo promotor do processo uma vez de acordo com a proposta preliminar fará a aprovação da mesma junto ao gerente, o qual definirá as fases de produção dos projetos. Fases de Produção: estando a proposta preliminar aprovada, inicia-se o desenvolvimento dos anteprojetos de cada equipe, definem-se as tecnologias a serem utilizadas, bem como as possíveis parcerias com fornecedores e clientes. O produto desta fase é a verificação final do processo que é mais um marco interdisciplinar das equipes permitindo aos envolvido rever juntos o projeto final e as tecnologias a serem adotadas na execução do projeto. O esforço principal é adquirir todos os requisitos necessários para cada equipe finalizar o seu trabalho. O projeto de execução é o produto final da fase de produção, sendo a última reunião das equipes realizada antes da implantação efetiva do empreendimento. É o último marco interdisciplinar que permite aos envolvidos no processo rever juntos os projetos finais desenvolvidos. Isso é realizado para assegurar que todas as equipes estão cientes da informação atual do projeto incluindo a programação, orçamentos, tecnologias. Nesta etapa os projetos estão virtualmente completos e somente ajustes pequenos podem ser requisitados. As especificações estão, também, definidas neste momento. O conjunto do projeto está pronto para a revisão final da construtibilidade e então, ser divulgado e executado. O entendimento desse fluxo de informações para a utilização da Engenharia Colaborativa no processo de projeto clarifica a necessidade de existir um gerenciador. O processo tradicional de desenvolvimento de projetos caracteriza-se pela existência de um coordenador de projeto que é o elemento centralizador entre vários projetistas envolvidos no processo (Schmitt et al, 2001 apud Bordin, 2003). O processo de aplicação enfatiza a responsabilidade do gerente de projeto de controlar o fluxo de informações e a comunicação entre as equipes envolvidas. É o responsável direto por esse processo. Os crescentes desafios, tanto na execução quanto na concepção de novos projetos, mostram a necessidade em se realizar tarefas simultaneamente com parceiros e colaboradores. Outro requisito fundamental é a formação de recursos humanos e treinamento. A especialização em Engenharia Colaborativa ofertada pelo SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem) no Paraná é um raro exemplo e tem, como principal objetivo, capacitar profissionais para atuarem de maneira competitiva no mercado de trabalho, criando condições para atuação em projetos formados por equipes multidisciplinares e multiculturais. O motivo para estruturação do treinamento baseia-se na internacionalização dos mercados; concorrência; redução de custos e prazos; recursos tecnológicos para executar tarefas à distância; necessidade de profissionais, fornecedores e desenvolvedores; complexidade e ciclo de vida mais curto dos produtos; exigências de rastreabilidade, documentação e especificação do produto em função de múltiplos fornecedores. Em especial, para a área de construção existe a necessidade de um enfoque mais atual do processo de projeto. Por ser uma indústria com características específicas é preciso estender os conhecimentos já existentes nas áreas que aplicam a Engenharia Colaborativa suprindo a carência desse setor. Caroline Bollmann; Sérgio Scheer e Silvana Bastos Stumm II Seminário de Tecnologia da Informação e Comunicação na Construção Civil 8 Figura 1 – Engenharia Colaborativa no Processo de Projeto da Construção Civil Engenharia Colaborativa: Uma Visão para a Engenharia Simultânea e o Uso de Ambientes Colaborativos para Aquitetura e Engenharia Civil II Seminário de Tecnologia e Comunicação na Construção Civil 9 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS O desenvolvimento de projetos simultâneos em ambientes colaborativos, de fato, pode colaborar muito para empresas da construção civil alcançarem uma postura mais competitiva frente ao mercado. Vários são os benefícios proporcionados pela sua utilização vinculada às diversas ferramentas computacionais existentes: redução de tempo e de custos no desenvolvimento dos projetos, maior qualidade dos projetos e conseqüentemente do produto final, desenvolvimento de projetos que viabilizem redução do prazo de execução da obra, entre outros. Como em qualquer novo método de trabalho, na implantação do processo de Engenharia Simultânea e no uso da Engenharia Colaborativa é necessário que a empresa, como um todo, esteja preparada para o desenvolvimento desse novo ambiente. A construção civil apresenta uma série de características próprias que condicionam a aplicação de técnicas produtivas e de projeto. Os processos de gestão não são “pacotes” que podem ser transferidos de um setor industrial para outro (Midler,1996 apud Fabrício e Melhado, 2000). Além disso, a integração precoce de todos os agentes do empreendimento na concepção do projeto pode contribuir de forma significativa para o objetivo principal do empreendimento. A valorização do trabalho em equipe, bem como fornecer treinamento aos profissionais envolvidos, são atitudes vitais para se alcançar o sucesso desejado. REFERÊNCIAS ANUMBA, C.J.; KAMARA, J.M. Concurrent engineering in construction – state of the art. Loughborough University, UK, p. 461-470, 1999. BORDIN, L; SCHMITT, C.M.; GUERRERO, J.M.C.N. A importância de melhor gerenciar a utilização de sistemas colaborativos para o desenvolvimento de projetos na indústria da construção civil. UFRGS, Porto Alegre, RS, 2003. CARNEIRO, M.L.F.; NITZE,J.A.;GELLER, M. Aprendizagem cooperativa / colaborativa: uma abordagem multifacetada. Disponível em http://www.niee.ufrgs.br/~alunospg99/mara/mara.htm. Acesso em 29/11/2004. CARTER, D.E.; BAKER, B.S. CE Concurrent engineering – the product development environment for the 1999s. Reading, Massachusetts, 1992. CATTANI, A. Utilização de recursos da tecnologia da informação para qualificação de trabalhadores da construção civil em leitura e interpretaçãode plantas. Ambiente Construído, Revista do ANTAC, Porto Alegre, RS, v.3, n.1 ,p. 83-92 , jan./mar. 2003. ESTORILIO, C.C. A engenharia simultânea em empresas do setor industrial brasileiro: sua utilização e alternativa de difusão. Curitiba, 1998. Dissertação (Mestrado) – CEFET-PR. FABRICIO, M.M. Projeto Simultâneo na Construção de Edifícios. São Paulo, 2002. Tese (Doutorado) – EP-USP. FABRICIO, M.M.; MELHADO, S.B. Por um processo de projeto simultâneo. In: II Workshop Nacional sobre Gestão do Processo de Projeto na Construção de Edifícios, 2002, Porto Alegre. Anais.. (CD-ROM). Porto Alegre: PUC/RS - UFSM - EESC/USP, 2002 FABRICIO, M.M.; MELHADO, S.B. Desafios do processo de projeto na construção de edifícios. EESC/USP, EPUSP, 2000. FABRICIO, M.M.; MELHADO, S.B. Fatores de competitividade e a engenharia simultânea na construção de edifícios. In: IV Congresso Brasileiro de Gestão e Desenvolvimento de Produtos. Gramado, 2003. Anais. p.1 -9. 2003. FEIJÓ, Bruno; SCHEER, S. Virtual prototyping for the construction industry. In: IABSE Symposium, 1999, Rio de Janeiro. Structures for the Future - The Search for Quality - IABSE Reports. Zurich: IABSE, 1999. v. 83. GROSS, T.; PRINZ, W. Modelling shared contexts in cooperative environments: concepts, implementation and evaluation. Computer Supported Cooperative Work . 2004. p.1-21. Caroline Bollmann; Sérgio Scheer e Silvana Bastos Stumm II Seminário de Tecnologia da Informação e Comunicação na Construção Civil 10 HARTLEY, J.R. traduzido por HORBE, F. J. S. Engenharia simultânea: um método para reduzir prazos, melhorar a qualidade e reduzir custos. Porto Alegre, 1998. JOUINI, S.; MIDLER, C. Crise de la demande et strategies dóffres innovantes dans le secteur du bâtiment. Paris, Plan Urbanisme Construction Architecture / Chantier, 2000. LECLAIR, P. Définition des fonctions et responsabilités des acteurs-projets dans divers secteurs. In: BOBROFF, J. (Org.). La gestion de projet dans la construction – enjeus, organisation, methodes et metiers. Paris, École Nationale des Ponts et Chaussées, 1993. p.133-150. MOECKEL, A. Modelagem de processos de desenvolvimento em ambiente de engenharia simultânea: implementações com as tecnologias workflow e bscw. Curitiba, 2000. 123 f. Dissertação (Mestrado em Tecnologia) – Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. SUN, Q.; GRAMOLL, K. Internet-based collaborative engineering analysis. Concurrent Engineering: Research and Applications, v.10, n.4, p. 341-348, dez. 2002. WOGNUM, P.M; VEENVLIET, K.TH. Concurrent engineering in industry and civil engineering, Netherlands, University of Twente, p.421-478, 1999. VDOT. Virginia Departament of Transportation. Disponível em: http//:www.virginiadot.org/projects/concureng-default.asp. Acesso em 29/11/2004. YAVATKAR, R. LAKSHMAN, K. Communication support for distributed collaborative applications. ACM Journal on Multimidia Systems, v. 2, p.74-88, 1994. > /ColorImageDict > /JPEG2000ColorACSImageDict > /JPEG2000ColorImageDict > /AntiAliasGrayImages false /DownsampleGrayImages true /GrayImageDownsampleType /Bicubic /GrayImageResolution 300 /GrayImageDepth -1 /GrayImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeGrayImages true /GrayImageFilter /DCTEncode /AutoFilterGrayImages true /GrayImageAutoFilterStrategy /JPEG /GrayACSImageDict > /GrayImageDict > /JPEG2000GrayACSImageDict > /JPEG2000GrayImageDict > /AntiAliasMonoImages false /DownsampleMonoImages true /MonoImageDownsampleType /Bicubic /MonoImageResolution 1200 /MonoImageDepth -1 /MonoImageDownsampleThreshold 1.50000 /EncodeMonoImages true /MonoImageFilter /CCITTFaxEncode /MonoImageDict > /AllowPSXObjects false /PDFX1aCheck false /PDFX3Check false /PDFXCompliantPDFOnly false /PDFXNoTrimBoxError true /PDFXTrimBoxToMediaBoxOffset [ 0.00000 0.00000 0.00000 0.00000 ] /PDFXSetBleedBoxToMediaBox true /PDFXBleedBoxToTrimBoxOffset [ 0.00000 0.00000 0.00000 0.00000 ] /PDFXOutputIntentProfile () /PDFXOutputCondition () /PDFXRegistryName (http://www.color.org) /PDFXTrapped /Unknown /Description /ENU (Use these settings to create PDF documents with higher image resolution for improved printing quality. The PDF documents can be opened with Acrobat and Reader 5.0 and later.) /JPN /DEU/PTB /DAN /NLD /ESP /SUO /ITA /NOR /SVE >> >> setdistillerparams > setpagedevice