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A justiça no Brasil e a Nova República
Você vai entender os conceitos da justiça no Brasil e da Nova República, assim como a função do Supremo
Tribunal Federal (STF) e seu ativismo judicial, além dos direitos fundamentais e da credibilidade do Poder
Judiciário.
Prof.ª Isabela Almeida do Amaral
1. Itens iniciais
Propósito
Compreender o funcionamento da justiça no Brasil, a função do Supremo Tribunal Federal como árbitro do
conflito entre os Poderes no contexto atual com temas centrais, além da judicialização da política, do ativismo
judicial e da crise de credibilidade do Poder Judiciário.
Preparação
Antes de iniciar, tenha em mãos a Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB) de 1988 para
consultar os dispositivos constitucionais mencionados.
Objetivos
Reconhecer a construção das atribuições do Supremo Tribunal Federal como árbitro dos conflitos entre
os Poderes.
Identificar o conceito de ativismo judicial no contexto de judicialização da política.
Descrever a causa e o contexto da crise de credibilidade do Poder Judiciário.
Introdução
Como você já deve ter imaginado, a história do Brasil, com atenção especial aos governos militares,
encaminhou a nação para a promulgação da CRFB de 1988, a chamada Constituição Cidadã, já que esses
fatos estimulavam uma preocupação com a construção de um sistema constitucional efetivo.
 
Se a ideia era justamente proteger o povo, o território e o país, o mais justo era contar com o auxílio de uma
jurisdição constitucional. Assim, esse papel central ficou a cargo do Supremo Tribunal Federal (STF). Esse
órgão, aos poucos, ganhou protagonismo nas demandas quanto à proteção e à promoção de direitos
fundamentais.
 
No entanto, nos últimos anos, algumas críticas foram surgindo diante do ativismo judicial cada vez mais
presente em um contexto de judicialização excessiva e perda de credibilidade do próprio Poder Judiciário.
Tendo isso em vista, vamos estabelecer um panorama de três assuntos centrais relativos a esse quadro.
 
Em primeiro lugar, vamos abordar aspectos relacionados à separação dos Poderes e à jurisdição
constitucional. Com isso, vamos compreender uma das funções fundamentais do STF na democracia
brasileira: ser um árbitro dos conflitos entre os Poderes. Primeiramente, vamos conhecer a separação dos
Poderes, sua origem e alguns arranjos decorrentes dela na Constituição de 1988. Vamos abordar o
desenvolvimento e a legitimidade da jurisdição constitucional, assim como a função do STF como Corte
Constitucional. Vamos também delinear um panorama histórico da função do STF até a Nova República, a fim
de consolidar, na CRFB/1988, sua função como árbitro dos conflitos dos Poderes.
 
Em seguida, vamos entender o contexto que propiciou uma atuação judicial ativista e vamos ver a doutrina da
efetividade e os aspectos relacionados à normatividade dos direitos fundamentais. Também vamos
estabelecer um panorama do processo de judicialização da vida e da política, conceituar o ativismo judicial e
conhecer algumas repercussões literárias do tema.
 
Após, vamos abordar as críticas centrais a um modelo de supremacia judicial e o processo de perda de
confiança na atuação judicial. Primeiramente, vamos entender a teoria da supremacia judicial. No decorrer
disso, vamos tratar dos problemas centrais dessa teoria e do processo de judicialização excessiva, tendo em
vista principalmente o STF e seu modelo deliberativo.
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• 
 
Por fim, vamos conhecer algumas pesquisas empíricas a fim de constatarmos uma crise de credibilidade do
Judiciário na sociedade, tendo em conta uma crescente falta de confiança na instituição.
1. Construção do papel do Supremo Tribunal Federal
Supremo Tribunal Federal: o árbitro dos conflitos dos
poderes
Separação dos Poderes
É importante frisar que a CRFB/1988 consagra a separação dos Poderes em seu artigo 2º. Ademais, em seu
artigo 60, §4º, III, ela confirma sua importância ao instituí-la como cláusula pétrea, configurando, portanto, um
limite material ao poder de reforma constitucional.
Em outras palavras, isso significa dizer que,
além de ser uma marca essencial do Estado
brasileiro, a separação dos Poderes é um
princípio indissolúvel. 
 
Segundo Luís Roberto Barroso (2013, p.
196-198), ela ordena a divisão das funções
estatais, cada qual dotada de autonomia, e o
controle recíproco entre elas com o intuito de
evitar excessos de poder.
A separação dos Poderes, como já deve ser de
seu conhecimento, é uma consequência de
influências histórico-filosóficas diversas. Suas
origens remontam à Independência dos Estados Unidos da América (1776) e à Revolução Francesa (1789),
assim como a seus respectivos processos antecedentes.
 
Para Prieto Sanchís (2013, p. 32-65), podemos inferir dessas heranças, seja a norte-americana, seja a
europeia (que deriva principalmente dos estudos de Locke e Montesquieu), que a estrutura dos Estados
formados a partir desses processos históricos considerou como preocupação central a consolidação de
limitações ao poder estatal e a proteção de direitos individuais.
O grande intuito da separação dos Poderes sempre foi prevenir o arbítrio, além de
equilibrar o exercício do poder político.
No Brasil, a estrutura estatal com Poderes separados, explica Barroso (2013, p. 197), culmina em dois
corolários destacados pela literatura: “a especialização funcional e a necessidade de independência orgânica
de cada um dos Poderes em face dos demais”.
Justamente daí resulta a seguinte organização dos Três Poderes: 
 
Executivo
Legislativo
Judiciário
Eles são dotados de competências privativas e de independência quanto aos demais. No entanto, não pense
que há um modelo rígido. Pelo contrário: ele é flexível, com influências e controles recíprocos, além de estar
pautado na ideia de checks and balances.
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Checks and balances
Traduzida como sistema de freios e contrapesos, essa teoria foi desenvolvida pelo francês Montesquieu.
Suas ideias foram divulgadas por filósofos anteriores, como Locke. Na visão de freios e contrapesos,
destaca Bonavides (1988), estabelecem-se a autonomia e os limites para que os Poderes possam atuar
em segurança com o objetivo de impedir autoritarismos e tiranias.
De toda forma, conforme as disposições constitucionais, as funções típicas de cada Poder são as seguintes:
Poder Legislativo
Exerce a competência de legislar (artigos 44 a 75, CRFB/1988).
Poder Executivo
Exerce a competência de administrar ou governar (artigos 76 a 91, CRFB/1988).
Poder Judiciário
Cabe a função jurisdicional ligada ao processo e ao julgamento de conflitos jurídicos (artigos 92 a 126,
CRFB/1988).
Ainda há funções atípicas relacionadas ao sistema de freios e contrapesos. Isso pode ser ilustrado com o
artigo 62 da CRFB/1988, já que ele estabelece a possibilidade de o presidente da República editar normas por
meio de medidas provisórias.
 
O artigo 49, V, da CRFB/1988 também pode servir de exemplo, pois ele dispõe sobre a hipótese de o
Congresso Nacional sustar atos normativos do Executivo que exorbitem seu poder regulamentar ou os limites
impostos por via de delegação legislativa.
 
Voltemos agora nosso olhar para o Judiciário, nosso tema central. Ele tem como função precípua, portanto,
interpretar e aplicar o direito.
Essa função, como sabemos, possui diversos vieses. Vejamos dois deles: 
 
Proteger valores constitucionais. 
Contribuir para a concretização da Constituição.
O Judiciário o faz especialmente por meio do controle jurisdicional de constitucionalidade dos atos e omissões
do poder público.
 
Nosso intuito é de, no contexto apresentado, definir como se dá a relação do STF com os demais Poderes
segundo a lógica de freios e contrapesos. Por isso, vamos apresentar os debates sobre o surgimento do
controle de constitucionalidade, apontando as finalidades dele e sua legitimidade, além de sua consolidação
no Brasil.
Supremo Tribunal Federal e a jurisdição constitucional
• 
• 
É importante perceber que, com tal viés, em sua origem, a separação dos Poderes2
Progressivamente, no desenvolvimento da Nova República após a promulgação da
Constituição de 1988, foram percebidos alguns problemas da atuação expansiva do STF. Entre
as críticas tecidas na literatura brasileira acerca da atuação do Supremo, destacam-se:
 
I. O Judiciário, por uma questão de capacidade institucional, não tem a visão de políticas públicas necessária
para efetivar em larga escala os direitos fundamentais e os preceitos constitucionais. Ações nesse sentido
causam disfunções no sistema de separação dos Poderes à medida que põem em risco a continuidade de
políticas públicas conduzidas pelos Poderes majoritários.
 
II. A supremocracia, que revela a autoridade do STF em relação às demais instâncias judiciais e sua expansão
em detrimento dos demais Poderes, apresenta uma revelação sobre um problema de representatividade da
democracia brasileira.
 
III. Quanto ao aspecto deliberativo do STF, a ministrocracia se apresenta como um problema grave ao
evidenciar uma influência considerável da ação individual dos ministros sobre as pautas legislativas sem a
participação do plenário. Nesse caso, a atuação judicial é duplamente contramajoritária.
 
IV. Do ponto de vista deliberativo, a Corte brasileira é dotada de uma estrutura refinada que permite tanto a
argumentação e o debate entre ministros quanto a consideração de diversos pontos de vista por meio da
leitura de votos e da transparência e publicidade (derivadas da transmissão dos julgamentos pela TV Justiça).
 
Está correto o que se afirma em:
A
I e II.
B
II e III.
C
I, II e III.
D
II, III e IV.
E
I, II, III e IV.
A alternativa C está correta.
A assertiva I está correta diante da falta de capacidade institucional do Judiciário para a definição de
políticas públicas. Ademais, a expansão do Supremo sobre os demais Poderes demonstra um problema de
representatividade na democracia do Brasil, o que também deixa correta a assertiva II. Destacamos ainda
que a atuação individual dos ministros indica um problema contramajoritário (assertiva III).
4. Conclusão
Considerações finais
Vimos um panorama sobre o desenvolvimento da Justiça no Brasil, especialmente na Nova República,
abordando temas e conceitos importantes. Começamos pela estruturação dos Poderes no Estado brasileiro,
passando, em seguida, pela instituição do controle de constitucionalidade, que buscava dar efetividade aos
direitos constitucionalmente estabelecidos.
 
Também vimos os processos de judicialização da política e da vida, apontando a exacerbação do ativismo
judicial. Em seguida, apontamos a crise de credibilidade do Judiciário, verificando todos os aspectos ligados à
consolidação da Justiça no país.
 
Delineamos a separação dos Poderes e da jurisdição constitucional, assim como sua concretização. Tivemos
como propósito consolidar o desenvolvimento deles até a Nova República, que culminou em uma visão do STF
como árbitro dos conflitos dos Poderes.
 
Identificamos o conceito de ativismo judicial e sua relação com os direitos fundamentais. Para tanto,
estabelecemos um panorama dos problemas da falta de efetividade dos direitos como um problema anterior à
Constituição de 1988, o que propiciou a posterior judicialização da vida e da política — e, como consequência,
uma expansão da atuação judicial.
 
Finalmente, analisamos uma constante ocorrência de posturas ativistas e descrevemos as causas da crise da
supremacia judicial e da credibilidade do Poder Judiciário.
Podcast
Para encerrar, confira uma fala sobre a justiça no Brasil e a nova república.
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para ouvir o áudio.
Fala, mestre!
Neste espaço, a Dra. Ivone Caetano, primeira juíza negra do estado do Rio de Janeiro e primeira
desembargadora negra do TJRJ, complementa o que vimos até aqui.
Qual o papel da Justiça na redução das desigualdades sociais?
Conteúdo interativo
Acesse a versão digital para assistir ao vídeo.
Explore+
Não pare por aqui! Para que você possa continuar explorando os assuntos abordados, selecionamos as
seguintes recomendações:
 
Leia:
 
O estudo Análise econômica progressiva do direito – e o novo Direito Administrativo, de Susan Rose-
Ackerman. O texto trata da análise econômica do direito e os vícios do processo político. Publicado pela
editora 34, em 2004.
 
O livro Jurisdição constitucional, de Kelsen, para entender melhor o debate entre este e Schmitt sobre a quem
cabe o papel de guardião da Constituição. Publicado pela editora Martins Fontes, em 2013.
 
O livro Teoria dos princípios: da definição à aplicação dos conceitos jurídicos, de Humberto Ávila, para saber
mais sobre as teorias dos princípios. Publicado pela editora Malheiros, em 2019.
 
Assista a:
 
O tempo dos governantes incidentais, do Prof. Daniel Capecchino. É uma palestra sobre o presidencialismo de
coalizão, publicada no YouTube, em 2020.
Referências
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p. 455-482, 2000.
 
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Federal pós-democratização. Universitas JUS, v. 25, n. 1, p. 25-45, 2014.
 
ARGUELHES, D. W.; RIBEIRO, L. M. Ministrocracia: o Supremo Tribunal individual e o processo democrático
brasileiro. Novos estudos, v. 37, n. 1, p. 13-32, jan.-abr. 2018.
 
ASSOCIAÇÃO DE MAGISTRADOS BRASILEIROS; FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS; INSTITUTO DE PAGAMENTOS
ESPECIAIS DE SÃO PAULO. Estudo da imagem do judiciário brasileiro. Rio de Janeiro, dez. 2019.
 
BARROSO, L. R. A judicialização da vida e o papel do Supremo Tribunal Federal. Belo Horizonte: Fórum, 2018.
 
BARROSO, L. R. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do
novo modelo. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2013.
 
BARROSO, L. R. Da falta de efetividade à judicialização excessiva: direito à saúde, fornecimento gratuito de
medicamentos e parâmetros para atuação judicial. Parecer formulado a pedido do Estado do Rio de Janeiro.
Rio de Janeiro, 2008.
 
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Brooklyn Law Review, v. 71, 2006.
 
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VIEIRA, O. V. Supremocracia. Revista Direito GV, v. 4, n. 2, p. 441-464, jul.-dez. 2008.
 
WALDRON, J. The core of the case against judicial review. The Yale Law Journal, abr. 2006.
	A justiça no Brasil e a Nova República
	1. Itens iniciais
	Propósito
	Preparação
	Objetivos
	Introdução
	1. Construção do papel do Supremo Tribunal Federal
	Supremo Tribunal Federal: o árbitro dos conflitos dos poderes
	Separação dos Poderes
	O grande intuito da separação dos Poderes sempre foi prevenir o arbítrio, além de equilibrar o exercício do poder político.
	Poder Legislativo
	Poder Executivo
	Poder Judiciário
	Supremo Tribunal Federal e a jurisdição constitucional
	Exemplo
	A relação do STF com os demais Poderes ocorre especialmente nesse ponto, já que os atos emitidos pelo Legislativo e pelo Executivo são justamente o objeto de julgamento.
	Reflexão
	O processo legislativo, portanto, acabaria ligado ao favorecimento de grupos de interesse e geraria normas a partir de debates enviesados.
	Primeiro
	Segundo
	Terceiro
	Falha 1
	Falha 2
	Falha 3
	Devemos ressaltar a premissa de que as leis e os atos normativos são presumivelmente constitucionais, uma vez que, apesar do papel do Supremo, todos os Poderes mantêm o dever de guardar a Constituição, sendo tal presunção relativa.
	Até a Nova República: a construção do Supremo Tribunal Federal como árbitro dos conflitos
	O período se inicia com o fim da ditadura militar e tem como marco a promulgação da Constituição de 1988, que buscava consolidar a democracia e promover os direitos fundamentais.
	1824
	1891
	Embora a proteção de liberdades fundamentais ainda fosse incipiente, alguma posição de destaque foi dada ao Supremo.
	1930
	1934
	1937
	1946
	1967
	1988
	Ações de inconstitucionalidade
	Instrumentos viabilizados
	Controle de constitucionalidade
	As construções jurisprudenciais, no início dos anos 1990, teriam restringido a legitimação ativa para propor ADI e quais questões poderiam ser objeto de controle direto e abstrato.
	Após os anos 1990, no entanto, o comportamento dos ministros do STF sofreu uma mudança de preferência. Segundo Arguelhes (2014), isso possibilitou o contexto de judicialização da política e expansão do poder do Supremo.
	O ambiente de redemocratização progressivamente tornou possível a consolidação da jurisdição constitucional e a expansão da atuação do STF.
	STF como árbitro dos conflitos entre Poderes
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	Em relação às constituições anteriores, a de 1988 reforçou a jurisdição constitucional. Para resolver o problema da dificuldade contramajoritária, no entanto, ela estabeleceu mecanismos de participação dos outros Poderes no processo de averiguação da constitucionalidade de normas. Todos esses mecanismos estão elencados a seguir, exceto:
	Sabe-se que a história constitucional brasileira levou à afirmação da necessidade da jurisdição constitucional, consolidando progressivamente o STF como árbitro dos conflitos entre os Três Poderes. São marcas fundamentais desse processo:
	2. Ativismo judicial
	Ativismo judicial e direitos fundamentais
	Podemos dizer que o ativismo ocorre por haver lacunas na lei, principalmente aquelas relativas a temas novos e polêmicos.
	Não devemos esquecer que o Judiciário é o guardião constitucional e que ele sempre deve zelar pelos direitos fundamentais e pela democracia.
	Doutrina da efetividade e normatividade dos direitos fundamentais
	A possibilidade de recorrer à jurisdição para exigir do poder público a tutela de direitos contemplados constitucionalmente consolidava-se.
	Os princípios deveriam ser aplicados levando quais pontos em consideração?
	Eles deveriam ser aplicados pela possibilidade de colisão com outros princípios e pelo atendimento aos preceitos da ponderação (adequação, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito). A aplicação judicial seria feita segundo essa lógica, ou seja, quando houvesse uma demanda relacionada a direitos fundamentais.
	Judicialização da vida e da política
	O aumento progressivo de ações judiciais, embora possa denotar aspectos constitucionais importantes, como a efetivação do acesso à justiça e a credibilidade do sistema judicial para a resolução de conflitos, revelou, por outro lado, problemas quanto à efetividade da realização de funções dos Poderes majoritários.
	Mas você saberia explicar o que, de fato, significa isso?
	Teorias da expansão do Poder Judiciário
	Conceitualistas
	Funcionalistas
	Estratégicas
	O que é o ativismo judicial?
	Conteúdo interativo
	Verificando o aprendizado
	Dotada de normatividade, a Constituição de 1988 passou a ser aplicada diretamente pelos tribunais. Nessa busca por efetividade, registrou-se progressivamente uma expansão da atuação judicial, o que culminou em dois fenômenos: judicialização da política e ativismo judicial. Sobre essa judicialização, é correto dizer que
	Conforme descreve Luís Roberto Barroso (2018, p. 139), “a ideia de ativismo judicial está associada a uma participação mais ampla e intensa do Judiciário na concretização dos valores e fins constitucionais, com maior interferência no espaço de atuação dos outros dois Poderes”. A esse respeito, afirma-se que:
	3. Poder Judiciário
	A crise de credibilidade do Poder Judiciário
	Supremacia judicial
	Alguns autores passaram a levantar a hipótese de uma transição da jurisdição constitucional — por via da judicialização da política e do ativismo judicial — para a juristocracia.
	A Corte Constitucional teria a última palavra, tendo em vista sua função de pacificar conflitos entre Poderes e de garantir direitos fundamentais.
	Autoridade
	Interpretação constitucional
	Intérprete
	Constituição
	O ambiente de judicialização excessiva ocasionou uma situação de expansão da atuação judicial e também de ultrapassagem de limites de autocontenção e de propagação da postura ativista.
	Os problemas da supremacia judicial, a judicialização excessiva e a crise de legitimidade do Supremo Tribunal Federal
	Comentário
	No campo em questão, conforme destacam Diego Werneck Arguelhes e Leandro Molhano Ribeiro (2018), um problema central é a ascensão da ministrocracia.
	Mecanismo 1
	Mecanismo 2
	Mecanismo 3
	Para Silva (2013, p. 568, grifos nossos), “não há opinião do tribunal, mas apenas uma série de onze opiniões escritas”.
	Regra 1
	Regra 2
	Regra 3
	A crise de credibilidade e a falta de confiança no Judiciário
	Em primeiro lugar
	Em segundo lugar
	O Estudo da imagem do Judiciário brasileiro revelou que o Judiciário possui um índice de desconfiança de 44%.
	Causas da crise de credibilidade do Judiciário
	Conteúdo interativo
	Alternativa à supremacia judicial: a teoria dos diálogos constitucionais
	Seria de fato justo que as Cortes Constitucionais tenham a última palavra sobre a interpretação da Constituição?
	O potencial das teorias dialógicas está no fato de elas resolverem de forma satisfatória o problema da dificuldade contramajoritária da jurisdição constitucional.
	Fase 1
	Fase 2
	Verificando o aprendizado
	Combinadas com o ativismo judicial, as judicializações da vida e da política levaram a uma exacerbação da atuação judicial. No entanto, alguns autores, ainda assim, defendem a supremacia judicial como necessária à democracia. São exemplos dessas defesas as seguintes sentenças, exceto:
	Progressivamente, no desenvolvimento da Nova República após a promulgação da Constituição de 1988, foram percebidos alguns problemas da atuação expansiva do STF. Entre as críticas tecidas na literatura brasileiraacerca da atuação do Supremo, destacam-se:
	Está correto o que se afirma em:
	4. Conclusão
	Considerações finais
	Podcast
	Conteúdo interativo
	Fala, mestre!
	Qual o papel da Justiça na redução das desigualdades sociais?
	Conteúdo interativo
	Explore+
	Referênciasnão contemplava uma
função de controle de constitucionalidade pelos tribunais. O que havia era a ideia de que o juiz tinha um papel
de mero “boca da lei”, ou seja, sua função era extrair decisões do conteúdo da lei em um processo silogístico.
 
Para entender a origem dessa ideia, devemos recorrer à literatura especializada. Ela nos remete à construção
do modelo relativo ao caso Marbury versus Madison (1803), pois deriva daí a possibilidade de controle difuso
de constitucionalidade das leis.
Exemplo
À época, houve uma importante fundamentação de Marshall, então ministro da Suprema Corte norte-
americana, segundo a qual a constituição visaria controlar os Poderes do Estado em um conflito entre os
atos normativos e a Constituição. Por uma questão de hierarquia, considerou-se que esta deveria
prevalecer. 
No caso específico que estamos verificando, não foi reconhecida a competência da Corte. No entanto, ficou
estabelecido o precedente de possibilidade do controle de constitucionalidade e a autoridade dela para
revisar os atos do Congresso.
 
No Brasil, a Constituição Federal consolidou a expansão do controle de constitucionalidade e a sistematização
de um modelo misto de controles difuso e concentrado. O primeiro é exercido por juízes e tribunais perante
um caso concreto; o segundo, independentemente de um caso do tipo, busca a invalidação da lei para
garantir a segurança jurídica das relações.
 
O fato é que o STF, como instância máxima do Judiciário brasileiro, possui competência explícita atribuída
constitucionalmente para julgar a constitucionalidade — ou inconstitucionalidade — de leis e atos normativos.
Isso ocorre independentemente de caso concreto ou em tese, havendo, conforme assevera o artigo 120 da
CRFB/1988, a consequência de sua manutenção ou suspensão da ordem jurídica.
A relação do STF com os demais Poderes ocorre especialmente nesse ponto, já que os
atos emitidos pelo Legislativo e pelo Executivo são justamente o objeto de julgamento.
A legitimidade da jurisdição constitucional decorre da supremacia da Constituição. Segundo esse princípio, as
normas constitucionais devem prevalecer em detrimento das demais, pois são elas que estabelecem os
valores fundantes do Estado. 
Reflexão
O que se quer dizer com isso? As normas constitucionais estabelecem valores essenciais que precisam
permanecer independentemente das maiorias transitórias do processo político. 
Para parte da literatura, em que pese o Judiciário não ser composto por membros eleitos pelo voto popular,
sua legitimidade para controlar a constitucionalidade dos atos normativos deriva de dois fatores:
independência e autonomia.
 
Além disso, a possibilidade de controle garante a pacificação dos conflitos, tendo em vista que os julgamentos
se dão, em última instância, com efeito vinculante para que haja estabilidade e harmonia social.
A Corte Constitucional ainda teria como característica seu isolamento político e sua estabilidade interna.
Ambos possibilitariam melhores julgamentos e uma vinculação à CRFB/1988.
 
O argumento é reforçado diante dos estudos de análise econômica do direito. Podemos entender por qual
motivo, segundo essa literatura especializada, os processos deliberativos, na prática, passam por distorções
nas democracias contemporâneas.
 
Segundo a teoria da public choice, o processo político — de discussão e aprovação das leis, as quais, em
regra, são propostas pelo Executivo e votadas pelo Legislativo — sofre influências de motivações de grupos
de interesse.
 
Guiados por uma lógica econômica de maximizar seus interesses ou visando à reeleição, eles, portanto,
guiariam suas decisões políticas de acordo com demandas privadas, desvirtuando o que é de interesse
público.
Public choice
A escolha pública, afirma Butler (2015), é o ramo da teoria econômica aplicado à política e aos serviços
públicos. Segundo essa teoria, o político é um servidor humanístico, priorizando seu autointeresse. 
O processo legislativo, portanto, acabaria ligado ao favorecimento de grupos de interesse
e geraria normas a partir de debates enviesados.
No Brasil, um exemplo desse problema seria o presidencialismo de coalizão, que demarca uma lógica de
atuações do Executivo e do Legislativo. Vejamos:
 
1. O presidente da República exerce um controle de agenda sobre o Congresso Nacional.
2. Esse controle gera a necessidade de uma coalização a fim de implantar projetos políticos.
3. Isso produz custos para a aprovação de projetos.
4. Além disso, abre margem para que os interesses privados penetrem nas escolhas públicas.
Diante de problemas substanciais e concretos que afetam o processo legislativo, podemos então vislumbrar
uma saída necessária: recorrer ao Judiciário a fim de garantir a aplicação e a efetivação da Constituição
Federal.
 
A jurisdição constitucional seria, pontua Cyrino (2016, p. 82), um “mecanismo poderoso de garantia do
procedimento democrático representativo brasileiro”. Já seu limite estaria consubstanciado no exame de
proporcionalidade.
Você pode verificar, assim, que a possibilidade de recorrer à jurisdição constitucional seria positiva por três
aspectos centrais. Jeremy Waldron (2006, p. 1376), com o intuito de realizar uma análise crítica de seus
argumentos, divide-os da seguinte maneira:
Primeiro
As questões julgadas seriam tidas em contextos específicos por meio de ações propostas sobre
objetos definidos.
Segundo
A abordagem dos tribunais estaria vinculada ao texto constitucional e aos direitos nela preconizados.
Terceiro
As lógicas de raciocínio e fundamentação judiciais estariam, ainda que diante da dificuldade
contramajoritária, inseridas em uma tentativa de deliberação racional.
O processo de controle de constitucionalidade
das leis e dos atos normativos conta com a
participação dos demais Poderes no sistema
brasileiro. Ele assim opera pelo fato de tanto o
Executivo — na figura do presidente da
República — quanto o Legislativo, além da
mesa do Senado Federal e a da Câmara dos
deputados, possuírem legitimidade para propor
ação no STF (artigo 103, incisos I, II e III, CRFB/
1988).
 
Infere-se então que o presidente também pode realizar um juízo de constitucionalidade a fim de fazer um
controle de projeto de lei por meio do veto (artigo 66, §1º, CRFB/1988), o qual, inclusive, pode ser rejeitado
pelo Congresso Nacional com quórum qualificado (artigo 66, §4º, CRFB/1988).
Notemos ainda que o Legislativo conta com a Comissão de Constituição e Justiça, que avalia a
constitucionalidade de leis antes de levá-las à votação (art. 58, CRFB/1988).
 
Esses mecanismos reduziriam a dificuldade contramajoritária da jurisdição constitucional. Em linha contrária,
parte da literatura argumenta que o controle jurisdicional de constitucionalidade seria um mecanismo
inapropriado de decisão final em sociedades democráticas.
O argumento está centrado na dificuldade contramajoritária. Segundo essa linha de pensamento, as
questões constitucionais, ao serem resolvidas por uma Corte Constitucional, ficariam alheias à
vontade dos cidadãos e prejudicariam os ideais democráticos.
Para Waldron (2006, p. 1376), os argumentos a favor da jurisdição constitucional teriam falhas intrínsecas:
1
Falha 1
As questões tratadas em sede de constitucionalidade nos tribunais são abordadas em termos gerais
— e não individuais. A legislação é o local mais apropriado para esse tipo de questão, tendo em vista
seu caráter geral e abstrato.
2
Falha 2
O Judiciário pode ficar preso a formalismos rígidos, sem considerar a existência de novos direitos, e
sujeito a distorções do raciocínio, ao incluir determinados direitos ou omiti-los, ainda que esteja
vinculado a uma carta de direitos estabelecida constitucionalmente.
3
Falha 3
O raciocínio e a fundamentação das decisões tomadas são refinados no caso do Legislativo, uma
vez que a deliberação é feita por representantes eleitos e possui a possibilidade de participação
popular, além de não estar restrita a precedentes.
Entendemos que a ilegitimidade da jurisdiçãoconstitucional estaria atrelada ao fato de que o Judiciário não
deveria ter a capacidade de anular atos normativos. O motivo é simples: eles foram aprovados por uma
instância legitimada pelas eleições segundo a lógica da representação democrática e o princípio majoritário.
 
Por sua vez, a legitimidade dos ministros se daria tão somente de forma indireta — por meio da indicação do
Executivo — e não acarretaria responsabilização. Afinal, não existe o incentivo da reeleição para as tomadas
de decisão de acordo com o interesse público e a vontade popular.
 
Em que pesem as discordâncias teóricas, a Constituição Federal estabelece que compete ao STF a guarda da
Constituição. É inequívoco seu papel de árbitro dos conflitos à medida que a função dele na democracia
brasileira está atrelada à verificação das ações dos demais Poderes, tendo como norte a Constituição Federal.
Devemos ressaltar a premissa de que as leis e os atos normativos são presumivelmente
constitucionais, uma vez que, apesar do papel do Supremo, todos os Poderes mantêm o
dever de guardar a Constituição, sendo tal presunção relativa.
A atuação dos ministros tem de ser de relativa deferência, ou seja, de respeito às decisões tomadas pelas
outras esferas de poder, na medida em que os legisladores, pelo princípio democrático, são as autoridades
que detêm o batismo do voto popular.
 
A demanda, portanto, é por uma postura relativamente autocontida, pois o intérprete deve limitar a si mesmo
a fim de preservar as decisões tomadas — desde que não estejam eivadas pelo vício de inconstitucionalidade
— pela autoridade do legislativo ou pelo chefe do Executivo.
Até a Nova República: a construção do Supremo Tribunal Federal como
árbitro dos conflitos
Uma última questão diz respeito ao contexto brasileiro específico que levou o Judiciário a ganhar importância
e se tornar um árbitro dos conflitos entre os Poderes na Nova República.
O período se inicia com o fim da ditadura militar e tem como marco a promulgação da
Constituição de 1988, que buscava consolidar a democracia e promover os direitos
fundamentais.
Até 1988, como destaca Rodrigo Brandão (2012), as condições fáticas não contribuíam para a expansão do
poder político do Judiciário:
1824
A respeito do Império, a Constituição de 1824 não previa o controle de constitucionalidade. O modelo
norte-americano republicano, influente à época, não era compatível com a tradição imperial. Desse
modo, essa Constituição delegava uma série de competências ao poder moderador, enquanto a
função de protegê-la permanecia delegada ao Parlamento.
1891
Posteriormente, em 1889, com a Proclamação da República, D. Pedro II, ciente da crise política,
buscou resolver os problemas de conflitos entre os órgãos estatais. Ele inclusive chegou a enviar
juristas para os Estados Unidos a fim de que eles estudassem o modelo de controle de
constitucionalidade norte-americano.
Já era de se esperar que a Constituição de 1891, sofrendo essas influências, adotasse o
presidencialismo, o bicameralismo e a divisão entre as justiças Federal e Estadual, além de
estabelecer alguns direitos fundamentais.
Como podemos observar, nesse contexto, diante de um desrespeito evidente às normas da
Constituição na República Velha, foi desenvolvida a doutrina do habeas corpus. Tal medida foi
ampliada pelo Supremo Tribunal com o propósito de garantir outros direitos além da liberdade de
locomoção.
Embora a proteção de liberdades fundamentais ainda fosse incipiente, alguma posição
de destaque foi dada ao Supremo.
1930
Com o advento da Revolução Tenentista e o estabelecimento do Estado Novo, houve o rompimento
com a legalidade anterior. Após algum avanço com a última Carta, houve uma regressão no modelo de
controle diante da supressão da magistratura e do afastamento dos ministros não alinhados ao
governo. Ademais, os atos do governo provisório instaurado na ocasião não eram passíveis de
controle de constitucionalidade.
1934
A Constituição de 1934 manteve as influências do modelo norte-americano, mas tentou resolver
problemas revelados por um transplante acrítico — ocorrido na experiência anterior — para o Brasil.
Com isso, não havia unicidade da interpretação constitucional, de modo que os precedentes não
vinculavam.
Para tanto, atribuiu-se competência ao Senado Federal para revogar leis declaradas inconstitucionais
pelo Supremo por meio de um mecanismo de requisição. Além disso, instituiu-se a reserva do
plenário; com ela, a maioria absoluta dos membros do STF deveria se manifestar para que houvesse a
declaração de inconstitucionalidade de uma lei.
Por fim, foi criada uma modalidade de controle concentrado. As ações de inconstitucionalidade
somente poderiam ser julgadas pelo Supremo.
1937
Após a Intentona Comunista e os rumores sobre o Plano Cohen, a Constituição da Polaca foi instituída
com o intuito de corroborar o governo autoritário. O Legislativo deixou de funcionar.
Foi então que Getúlio Vargas concentrou em si as funções dos Poderes Executivo e Legislativo, tendo
ainda a faculdade de suspender, caso quisesse, uma decisão de declaração de inconstitucionalidade
do Supremo. Nesse contexto, a Corte não podia tratar de questões políticas no âmbito de seus
julgamentos.
1946
Após Getúlio Vargas ter sido deposto no ano anterior, a Constituição de 1946 reestabeleceu os
institutos da Constituição de 1934.
1967
Com o golpe militar em 1964 e, em seguida, a promulgação da Constituição de 1967, foi estabelecido
um controle judicial concentrado, abstrato e repressivo da constitucionalidade. No entanto, o
contexto não favoreceu um fortalecimento e expansão do Supremo.
É fácil compreender que isso ocorreu porque a maioria dos ministros era a favor do regime. Além
disso, a legitimação para a propositura de ações diretas de inconstitucionalidade estava restrita ao
procurador-geral da República, que poderia ser discricionariamente retirado do cargo se propusesse
ações contrárias às ideias do Executivo.
1988
A Constituição de 1988 consolidou a expansão do controle de constitucionalidade e a sistematização
de um modelo misto de controle difuso e concentrado.
Algumas características centrais possibilitaram que, na Nova República, o STF se tornasse um árbitro do
conflito entre Poderes:
1
Ações de inconstitucionalidade
Houve o aumento do número de legitimados para a propositura das ações de inconstitucionalidade
— entre os quais constam as mesas do Senado e da Câmara dos Deputados, além do presidente da
República
2
Instrumentos viabilizados
Foram viabilizados dois instrumentos para os casos de inconstitucionalidade por omissão dos
poderes políticos que firam os direitos fundamentais: a ação direta de inconstitucionalidade (ADI)
por omissão e o mandado de injunção.
3
Controle de constitucionalidade
Foram estabelecidos mecanismos de participação do Legislativo e do Executivo para consolidar a
legitimidade democrática do controle de constitucionalidade.
Quanto à participação dos Poderes majoritários, devemos destacar alguns aspectos centrais de sua relação
com o controle exercido pelo Supremo.
O Executivo possui, de acordo com o artigo 103, I, da CRFB/1988, legitimidade para propor dois tipos
de ação direta: de inconstitucionalidade e constitucionalidade. O Legislativo possui as mesmas
prerrogativas, informam as alíneas II e III do mesmo artigo. Por fim, há a possibilidade de
promulgação de emenda constitucional em contrariedade a uma decisão do STF — exceto se houver
violação de cláusulas pétreas.
Além dos mecanismos citados, que influenciam o funcionamento dos Poderes e acirram sua relação, eles
podem, caso haja conflitos, recorrer ao STF para a resolução e a resguarda da Constituição. Para isso, foram
criados outros instrumentos relevantes.
 
O advogado-geral da União (AGU) recebeu a incumbência de defender o interesse da União nos processos de
controle de constitucionalidade. Como forma de fiscalizar, por sua vez, foi instituída a obrigação do 
procurador-geral da República (PGR) de se manifestar nesses casos.
 
Emadição ao desenho institucional e às disposições constitucionais ditas variáveis exógenas, há
entendimentos, como o de Diego Werneck Arguelhes (2018), de que o protagonismo atual do STF se
desenvolveu também pelo seu comportamento — ora mais autocontido, ora mais expansivo.
Para Arguelhes e Ribeiro (2018), embora fatores como:
 
Desenhos institucionais• 
Democratização
Demandas sociais
Comportamento dos atores políticos
 
Sejam relevantes na consolidação e na expansão do Supremo, ainda existe a necessidade de consideração
acerca das preferências dos ministros do STF sobre como exercer o poder e quanto deve ser exercido.
 
Para Arguelhes (2018, p. 29), em um primeiro momento, após a promulgação da Constituição de 1988, o STF
adotou mecanismos de interpretação judicial restritivos, reconfigurando-os “para menos poderes de que
dispunham segundo o texto da Constituição de 1988”.
As construções jurisprudenciais, no início dos anos 1990, teriam restringido a legitimação
ativa para propor ADI e quais questões poderiam ser objeto de controle direto e abstrato.
Segundo o ponto de vista de Arguelhes, observamos que as interpretações restritivas operaram como forma
de canalizar parte da pauta do Supremo para mecanismos mais lentos de controle (no caso, incidental e
concreto) via recurso extraordinário — e não necessariamente a fim de restringir radicalmente o poder da
própria instituição.
 
As causas desse primeiro momento de restrição estariam ligadas à composição do STF, que se manteve
praticamente intacta durante a redemocratização. Além disso, aponta Arguelhes (2018), ocorreu uma ação
estratégica em um momento em que as regras do jogo democrático ainda eram recentes e por conta do receio
de que houvesse uma explosão de litígios.
Após os anos 1990, no entanto, o comportamento dos ministros do STF sofreu uma
mudança de preferência. Segundo Arguelhes (2014), isso possibilitou o contexto de
judicialização da política e expansão do poder do Supremo.
Além dos desenhos institucionais, as preferências dos ministros que compõem a Corte são cruciais para
entendermos seu protagonismo atual. No contexto de 1988, frisa Oscar Vilhena Vieira (2018), havia uma
desconfiança da democracia e uma incerteza quanto ao texto e à estrutura constitucional que estava sendo
moldada.
 
Esse ambiente fez com que os constituintes adotassem uma dupla estratégia de proteção contra as
incertezas do futuro. Inicialmente, eles entrincheiraram diversos direitos com o objetivo de resguardá-los das
maiorias futuras.
 
Vejamos o que Vieira diz sobre os constituintes:
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• 
Atribuíram amplos poderes ao Supremo Tribunal Federal para bloquear decisões futuras do sistema
representativo que viessem a ameaçar esses mesmos interesses, privilégios ou direitos, ainda que por
intermédio de emendas à Constituição; para julgar as principais autoridades, entre as quais os próprios
membros do parlamento; e para resolver os conflitos entre os Poderes.
(Vieira, 2018, p. 165)
Vieira destaca ainda três fatores institucionais que contribuiriam para a expansão do Supremo:
 
Hiperconstitucionalização de direitos
Superposição de atribuições
Ampliação do acesso ao tribunal
 
Tais fatores, pontua Vieira (2018), não foram respondidos imediatamente com uma atuação expansiva.
O ambiente de redemocratização progressivamente tornou possível a consolidação da
jurisdição constitucional e a expansão da atuação do STF.
Foram estabelecidos constitucionalmente diversos instrumentos de participação dos demais Poderes a fim de
reduzir a dificuldade contramajoritária e estabelecer um mecanismo de freios e contrapesos que funcionasse
de acordo com o princípio de separação entre eles.
 
Com o intuito de atender às finalidades e aos valores constitucionais, o Supremo foi se consolidando como
instância de resolução de conflitos entre Poderes e se legitimando — especialmente pela proteção dos
direitos fundamentais.
STF como árbitro dos conflitos entre Poderes
Assista ao vídeo e veja uma discussão sobre o funcionamento do Supremo como um árbitro dos conflitos
entre os três Poderes.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
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Em relação às constituições anteriores, a de 1988 reforçou a jurisdição constitucional. Para
resolver o problema da dificuldade contramajoritária, no entanto, ela estabeleceu mecanismos
de participação dos outros Poderes no processo de averiguação da constitucionalidade de
normas. Todos esses mecanismos estão elencados a seguir, exceto:
A
A legitimidade do presidente da República para propor ações no STF.
B
A legitimidade das mesas da Câmara dos Deputados e do Senado para propor ações no STF.
C
O controle presidencial de leis por meio de veto e pautado em um juízo de constitucionalidade.
D
A possibilidade de o Congresso Nacional rejeitar vetos presidenciais com quórum simples.
E
O auxílio da Comissão de Constituição e Justiça como órgão do Congresso Nacional que avalia a
constitucionalidade de leis antes de sua votação.
A alternativa D está correta.
O veto presidencial somente pode ser rejeitado mediante o voto da maioria absoluta dos deputados e
senadores, informa o artigo 66, § 4º, da CRFB/1988.
Questão 2
Sabe-se que a história constitucional brasileira levou à afirmação da necessidade da jurisdição
constitucional, consolidando progressivamente o STF como árbitro dos conflitos entre os Três
Poderes. São marcas fundamentais desse processo:
 
I. O aumento do número de legitimados para a propositura de ações de inconstitucionalidade.
 
II. A previsão constitucional da ação direta de inconstitucionalidade por omissão e do mandado de injunção
para o caso de omissões do poder público que firam direitos fundamentais.
 
III. As preferências dos ministros que compõem a Corte, a qual, antes dos anos 1990, era orientada por uma
postura mais proativa e expansiva em questão de controle de constitucionalidade.
 
Está correto o que se afirma em:
A
I, apenas.
B
II, apenas.
C
I e II.
D
II e III.
E
I, II e III.
A alternativa C está correta.
Levando em conta a evolução da história constitucional brasileira, são marcas fundamentais desse
processo tanto a previsão da ação direta de inconstitucionalidade por omissão e do mandado de injunção
para os casos de omissão do poder público que firam direitos fundamentais da CRFB/1988 quanto as
preferências dos ministros que compõem a Corte.
2. Ativismo judicial
Ativismo judicial e direitos fundamentais
Atualmente, é cada vez mais comum haver discussões acerca do ativismo judicial. Perguntas como Até que
ponto o Poder Judiciário deve agir? já estão vindo à tona.
 
Em primeiro lugar, é importante saber que tal fenômeno não está restrito ao Brasil.
Podemos dizer que o ativismo ocorre por haver lacunas na lei, principalmente aquelas
relativas a temas novos e polêmicos.
Diante da função de interpretação constitucional à luz de princípios, o STF acaba decidindo sobre essas
questões, gerando inconformismo naqueles que consideram essa atuação exacerbada. Se pararmos para
refletir sobre a linha histórica constitucional até chegarmos à Constituição de 1988, teremos como destaque a
questão dos direitos fundamentais.
 
Esses direitos são representados, em grande parte, pelo estado democrático de direito. Ele, por sua vez, está
estritamente ligado à posição que o Poder Judiciário deve ocupar e à própria separação dos Poderes.
Não devemos esquecer que o Judiciário é o guardião constitucional e que ele sempre
deve zelar pelos direitos fundamentais e pela democracia.
Doutrina da efetividade e normatividade dos direitos fundamentais
No contexto da promulgação da Constituição de 1988 e da superação do regime militar anterior, uma de suas
preocupações centrais era a construção de um sistema constitucional que fosse, de fato, efetivo.
 
Já dotada de normatividade, a Constituição Cidadã passou a contar com a aplicabilidade direta pelos
tribunais, o que abriu margem para o desenvolvimentoda jurisdição constitucional.
Ao longo da década de 1990, tendo em vista a função de destaque do Judiciário na consolidação
constitucional, foi desenvolvida na literatura a doutrina brasileira da efetividade.
 
Tendo como pano de fundo o contexto de uma Constituição garantidora de direitos fundamentais, um regime
democrático e a existência — conforme visto no módulo anterior — da jurisdição constitucional, a doutrina da
efetividade buscava, em síntese, conferir às normas constitucionais uma aplicabilidade direta e imediata.
A possibilidade de recorrer à jurisdição para exigir do poder público a tutela de direitos
contemplados constitucionalmente consolidava-se.
Os direitos chamados fundamentais também eram dotados de normatividade, como defendia a teoria dos
princípios pautada principalmente nos estudos de Ronald Dworkin e Robert Alexy.
 
Em outras palavras, enquanto as regras se aplicam em uma lógica de tudo ou nada, de modo que ela incidirá
desde que tenha ocorrido o fato descrito na regra, os princípios possuem uma dimensão de peso. Eles são
mandados de otimização.
Os princípios deveriam ser aplicados levando quais pontos em consideração?
Eles deveriam ser aplicados pela possibilidade de
colisão com outros princípios e pelo atendimento aos
preceitos da ponderação (adequação, necessidade e
proporcionalidade em sentido estrito). A aplicação
judicial seria feita segundo essa lógica, ou seja,
quando houvesse uma demanda relacionada a
direitos fundamentais.
Todos os direitos fundamentais estabelecidos constitucionalmente podem ser exigíveis, inclusive por via
judicial.
 
Ainda nos casos de descumprimento pelos Poderes majoritários quanto a preceitos e valores constitucionais,
a jurisdição constitucional pode ser acionada e atuar para conferir efetividade e concretude à Constituição. Já
a dificuldade contramajoritária, que permeia a jurisdição constitucional, tem como contra-argumento a
necessidade de proteção de direitos fundamentais e de manutenção das regras do jogo democrático.
Judicialização da vida e da política
Podemos dizer que houve progressivamente um aumento da judicialização de demandas e o consequente
crescimento da atuação judicial. Isso opera de forma concomitante e contínua aos processos de busca de
efetividade da Constituição e de conferência da normatividade aos direitos fundamentais, tendo como
parâmetro uma Carta Magna como a nossa, ou seja, analítica e com um denso catálogo de direitos.
 
Nos últimos anos, verificou-se uma intensa judicialização de diversos aspectos da vida brasileira, sejam eles
econômicos, sejam sociais, sejam políticos. Embora isso seja um fenômeno mundial, em certa medida, existem
aspectos particulares ao Brasil.
O aumento progressivo de ações judiciais, embora possa denotar aspectos
constitucionais importantes, como a efetivação do acesso à justiça e a credibilidade do
sistema judicial para a resolução de conflitos, revelou, por outro lado, problemas quanto à
efetividade da realização de funções dos Poderes majoritários.
Quanto mais vezes o Judiciário for acionado para resolver conflitos legais e constitucionais, mais demonstrado
estará que os demais Poderes não estão sendo eficientes na entrega de suas competências. Nesse sentido,
pontua Barroso (2018, p. 24), “a judicialização evidencia, assim, uma deficiência grave no funcionamento da
política majoritária, que é aquela conduzida pelos órgãos eletivos — Legislativo e Executivo”.
 
O fenômeno da judicialização da vida surgiu em concomitância com a própria judicialização da política e a
expansão do STF.
Mas você saberia explicar o que, de fato, significa isso?
Na seara política, tal fenômeno seria, aponta Brandão (2013, p. 177), “o processo pelo qual as Cortes
e os juízes passam a dominar progressivamente a produção de políticas públicas e de normas que
antes vinham sendo decididas (ou, como é amplamente aceito, que devem ser decididas) por outros
departamentos estatais, especialmente o Legislativo e o Executivo”.
Teorias da expansão do Poder Judiciário
Brandão (2013) explica que, de modo geral, há três teorias acerca do processo de expansão do Poder
Judiciário. Veja:
Conceitualistas
A judicialização da política existe em decorrência de uma formulação no conceito de democracia. Em
outras palavras, isso se dá porque, ao abarcar, além do princípio majoritário, os direitos das minorias,
as constituições passaram a conter um extenso rol de direitos fundamentais positivados. Além disso,
o pluralismo decorrente da democracia revelaria uma série de atores políticos dotados de direitos
potencialmente demandáveis por meio da via judicial.
Judicialização quantitativa 
Houve, em primeiro lugar, em sentido
quantitativo, uma explosão de litigiosidade,
ou seja, um aumento considerável de
demandas judiciais acerca de diversos
aspectos da vida.
Judicialização qualitativa 
Deu-se em seguida, à medida que,
explica Barroso (2018, p. 23), as questões
de relevância nacional, em diversas
matérias, “passaram a ter o seu último
capítulo perante os tribunais”.
Funcionalistas
A judicialização decorre de um aspecto estrutural vinculado ao federalismo e a uma separação dos
Poderes excessivamente rígida. Essa estrutura teria gerado mecanismos de veto e conflitos entre
entes federativos e Poderes do Estado que culminariam no Judiciário, tendo em vista sua função de
dirimir tais conflitos, especialmente aqueles relativos à sede de controle da constitucionalidade.
Estratégicas
As teorias estratégicas focam outros fatores, como a atuação estratégica de grupos políticos a fim de
judicializar direitos em prol de seu interesse. Também menciona-se a incerteza quanto ao futuro
político a partir da ideia de seguro político de Ginsburg, segundo a qual os atores institucionais,
eventualmente perdedores dos processos políticos, estabelecem limites para a atuação das maiorias
do futuro.
Ginsburg (2008) explica que, havendo incerteza eleitoral, os grupos políticos perdedores poderiam incentivar
a constitucionalização de alguns temas a fim de estabelecer limites à atuação dos grupos eleitos.
 
Como cabe ao Judiciário a função de dirimir os conflitos entre Poderes — e em meio a entes, partidos
políticos e outros atores sociais —, o estímulo à judicialização no contexto brasileiro advém de diversos
aspectos do sistema jurídico como um todo.
Vamos entender melhor a visão de Rodrigo Brandão (2013) sobre o assunto. O autor destaca quatro
condições políticas e institucionais para a expansão do Judiciário no contexto brasileiro. Veja:
 
Fragmentação do poder político decorrente do sistema de governo presidencialista.
Sistema proporcional de lista aberta para o legislativo e o federalismo.
Presidencialismo de coalizão.
Atribuição de competências delegadas ao Executivo.
A partir do entendimento de Brandão, verifica-se ainda a existência de condições institucionais
consubstanciadas na extensão do catálogo de direitos constitucionalmente estabelecidos.
 
Listaremos a seguir quatro condições: 
 
Acesso amplo ao controle de constitucionalidade abstrato por grupos de interesse e partidos de
oposição por intermédio da legitimidade para a propositura de ações.
Possibilidade de modulação dos efeitos das decisões em sede de jurisdição constitucional.
Emenda Constitucional nº 3/1993, que deu um efeito vinculante às decisões com efeitos erga omnes
que se aplicam aos destinatários da norma e também aos órgãos administrativos e judiciais.
Constitucionalização abrangente.
Os quatro fatores listados — assim como outros — culminaram na judicialização de atividades legislativas e
administrativas.
O que é o ativismo judicial?
Neste vídeo, vamos descrever as características do ativismo judicial.
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Verificando o aprendizado
Questão 1
Dotada de normatividade, a Constituição de 1988 passou a ser aplicada diretamente pelos
tribunais. Nessa busca por efetividade, registrou-se progressivamente uma expansão da
atuação judicial,o que culminou em dois fenômenos: judicialização da política e ativismo
judicial. Sobre essa judicialização, é correto dizer que
A
trata-se de um modo proativo e expansivo de atuação judicial independentemente da expansão de demandas
em juízo para a resolução de conflitos e a discussão de direitos fundamentais.
B
segundo a teoria conceitualista, seria uma decorrência do conceito de democracia, já que, além do princípio
majoritário, existe um extenso rol de direitos fundamentais positivados potencialmente demandáveis por meio
da via judicial.
C
para a teoria funcionalista, decorre da flexibilidade do federalismo e da separação dos Poderes, atenuando o
conflito entre os entes e os Poderes.
D
conforme as teorias estratégicas, a atuação tática de grupos políticos para judicializar demandas é restrita,
uma vez que já há limites consubstanciados na Constituição para as maiorias futuras, criando um cenário de
certeza e segurança jurídica.
E
as condições institucionais e políticas no Brasil não contribuíram para a expansão do Judiciário, não havendo,
assim, um terreno propício para uma atuação proativa dos tribunais, especialmente do STF.
A alternativa B está correta.
Esse é o conceito preconizado pela teoria funcionalista, aponta, entre outros autores, Rodrigo Brandão
(2013).
Questão 2
Conforme descreve Luís Roberto Barroso (2018, p. 139), “a ideia de ativismo judicial está
associada a uma participação mais ampla e intensa do Judiciário na concretização dos valores
e fins constitucionais, com maior interferência no espaço de atuação dos outros dois
Poderes”. A esse respeito, afirma-se que:
 
I. O oposto do ativismo judicial é a autocontenção, modo de comportamento em que o Judiciário tem uma
postura de maior deferência aos Poderes majoritários e às suas decisões políticas.
 
II. As três principais críticas feitas ao ativismo judicial são aquelas relativas às capacidades institucionais dos
tribunais, às limitações ao debate público e ao fato de o STF, composto por 11 ministros, ser uma instância
tradicionalmente conservadora do status quo.
 
III. Os papéis contramajoritário, representativo e iluminista do STF não podem ser exercidos por intermédio de
posturas ativistas, pois eles demandam uma maior deferência em relação às instâncias políticas.
 
Está correto o que se afirma em:
A
I, apenas.
B
II, apenas.
C
I e II.
D
II e III.
E
I, II e III.
A alternativa C está correta.
A autocontenção é a postura de maior deferência aos Poderes majoritários. Ela constitui, portanto, um
oposto do ativismo, que se traduz como uma postura mais ativa das instâncias judiciais. As principais
críticas ao ativismo, com efeito, gravitam em torno da legitimidade democrática dos tribunais, além de suas
capacidades institucionais.
3. Poder Judiciário
A crise de credibilidade do Poder Judiciário
Supremacia judicial
O contexto de judicialização da vida e da política, combinado com o ativismo judicial, levou a uma
exacerbação da atuação judicial. A ausência de comedimento e deferência nas decisões judiciais,
principalmente do STF — embora enaltecida pelo valor e pela proteção conferidos aos direitos fundamentais
—, passou a sofrer críticas severas devido à suposta deturpação da separação dos Poderes.
Alguns autores passaram a levantar a hipótese de uma transição da jurisdição
constitucional — por via da judicialização da política e do ativismo judicial — para a
juristocracia.
Para que você entenda da melhor forma possível, vamos fazer, em primeiro lugar, uma análise da supremacia
judicial. Em seguida, vamos apresentar seus problemas e distorções, consolidando, por fim, as causas da crise
de credibilidade do Judiciário atual.
 
O debate sobre a jurisdição constitucional e a possibilidade de controle dos atos normativos por uma instância
judicial propiciaram a discussão acerca da seguinte questão: quem detém a última palavra sobre o significado
da Constituição?
 
Doutrinariamente, veja o que parte da literatura argumenta:
A Corte Constitucional teria a última palavra, tendo em vista sua função de pacificar
conflitos entre Poderes e de garantir direitos fundamentais.
Para os defensores da supremacia judicial, existem evidências práticas que justificam sua necessidade,
mesmo que haja divergências históricas entre os países que adotam tal modelo.
 
Larry Alexander e Frederick Schauer (2000), pensando no caso da Suprema Corte norte-americana, propõem
quatro linhas de defesa da supremacia judicial. Veja.
Autoridade
Existe um argumento lógico que reside no fato de que há uma autoridade
inerente à Suprema Corte para a resolução de algumas questões. Essa
soberania deriva da aceitação da sociedade quanto à vigência e à produção
de efeitos dessas decisões. Ou seja, a própria aceitação geral confere
legitimidade às decisões proferidas.
Interpretação constitucional
Centra-se na função pacificadora e no ponto ótimo das decisões judiciais.
Apesar dos argumentos contrários, afirmando que a interpretação
constitucional retira o foco da deliberação pública, os autores acreditam que
a interpretação pela Suprema Corte não elimina o desacordo subjacente.
Ela, por outro lado, garante a estabilidade e a harmonia social em relação à
supremacia do próprio texto constitucional. Ademais, a Suprema Corte seria a
melhor instituição para exercer tal competência por conta de seu isolamento
político e do alto grau de estabilidade interna e procedimental.
Intérprete
Defende-se a ideia de que o Supremo é um intérprete das demandas levadas
a ele. Essa visão atribui valor ao arranjo institucional, à ordenação dos órgãos
e à estabilidade entre eles. Assim, a Corte teria como função atribuída
constitucionalmente dizer o que é a norma constitucional, embora tenha de
respeitar o princípio da inércia da jurisdição.
Constituição
Argumenta-se que o entendimento do significado da Constituição é uma
condição necessária de sua legalidade. Por isso, uma multiplicidade de
órgãos atuando na função interpretativa aumentaria o número de conflitos.
Assim, é necessário haver uma supremacia judicial, considerando que o
Judiciário possui as restrições institucionais necessárias para uma maior
consistência interpretativa.
Como você pode ver, essa linha de argumentação responde a alguns pontos fundamentais. Em primeiro plano,
a supremacia judicial não violaria a prioridade legislativa na construção normativa. Mas somente podemos
inferir isso porque a separação dos Poderes, quando incorporada pela Constituição, cria espaços específicos
de atuação de cada poder.
 
Na lógica de freios e contrapesos, a CRFB/1988 formula mecanismos de interferência recíproca entre Poderes.
Além disso, para que houvesse atuação judicial, os legitimados para a propositura de ações de
constitucionalidade teriam de postular judicialmente.
 
Além disso, se considerarmos os problemas de representatividade atuais, veremos que nem sempre a atuação
legislativa é vinculada ao interesse público. Portanto, pode haver distorções nas leis.
 
Assim, o caminho do meio seria reconhecer:
A despeito da defesa consistente desse viés analítico, diversas críticas à supremacia judicial têm surgido nos
últimos anos diante do contexto de uma progressiva judicialização da vida e da política.
 
Essa situação ocorreu especialmente no Brasil, considerando a seguinte transição radical ocorrida na Nova
República: de uma falta de efetividade para uma judicialização excessiva.
O ambiente de judicialização excessiva ocasionou uma situação de expansão da atuação
judicial e também de ultrapassagem de limites de autocontenção e de propagação da
postura ativista.
A judicialização excessiva criou uma necessidade de encontrar alternativas para um modelo de supremacia
judicial em que somente o Judiciário detém a última palavra sobre o significado constitucional.
Os problemas da supremacia judicial, a judicialização excessiva e a crise de
legitimidade do Supremo Tribunal Federal
Fabiana Luci de Oliveira e Luciana Gross Cunha (2017, p. 277) destacam que existe no Brasil um desrespeitoendêmico à lei. Para elas, a “percepção geral é de que, no país, há baixo respaldo da sociedade às regras e às
autoridades responsáveis pela sua aplicação, havendo, portanto, um problema de enforcement”.
 
Essa talvez seja a causa central de uma judicialização excessiva, a qual está aliada à necessidade de tornar
efetivos os preceitos constitucionais. A questão é que, embora o Judiciário pudesse ser uma instância
fornecedora de soluções para os conflitos, outros problemas surgiram no meio do caminho.
 
Em primeiro lugar, o Judiciário, por uma questão de capacidade institucional, não tem a visão de políticas
públicas necessária para efetivar os direitos fundamentais em larga escala. Tal questão pode ser demonstrada
no âmbito da judicialização do direito à saúde.
Embora a determinação judicial, por exemplo, para que a administração pública forneça medicamentos em
diversas hipóteses tenha o intuito legítimo de universalizar a saúde, essa atuação causa disfunções.
De um lado… 
O valor democrático procedimental das
eleições dos Poderes majoritários.
E de outro… 
O Judiciário pode atuar em prol de
valores democráticos substantivos
relacionados à proteção e à promoção
dos direitos fundamentais.
 
Como sabemos, em alguns casos, a administração pública fica condenada a arcar com valores irrazoáveis de
tratamentos ou mesmo de medicamentos sem eficácia comprovada. Em outros, ocorrem problemas
federativos sobre qual ente deveria ser responsabilizado nesses processos.
 
Existe ainda um excesso de demandas ao Judiciário, as quais, como postula Barroso (2008, p. 4), põem “em
risco a própria continuidade das políticas de saúde pública, desorganizando a atividade administrativa e
impedindo a alocação racional dos escassos recursos públicos”.
 
Como você pode ver, isso interferiria na própria lógica das funções atribuídas aos três Poderes à medida que
ações judiciais fossem afetando negativamente o funcionamento de políticas coletivas com o propósito de
promover o direito fundamental à saúde.
 
Em segundo lugar — e não é nenhuma novidade —, o problema da morosidade da justiça no Brasil é algo
grave, como podemos observar em um estudo realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2000.
O relatório do CNJ (2000, p. 112) demonstra que a taxa de congestionamento, responsável por medir o
percentual dos processos judiciais que permaneceram sem solução, oscilou, comparado ao total em trâmite
no período de um ano, “entre 70,6%, no ano de 2009, e 73,4%, em 2016”. Embora tenha havido uma queda em
2019 — último ano analisado até o presente momento —, a taxa ainda permanecia no valor de 68,5%, sendo
relativamente alta.
 
A respeito do índice de atendimento à demanda, que revela se os tribunais baixaram processos em números
equivalentes às novas demandas, verifica-se que ele vem crescendo desde 2016. Uma explicação para isso
são as diversas ações do CNJ no sentido de acelerar o julgamento dos processos.
Comentário
O índice precisa permanecer acima do valor de 100% a fim de que não sejam acumulados novos casos. 
Embora revele uma notícia positiva para resolver os problemas de morosidade, a taxa deve ser mantida em
crescimento para que se possa chegar a um ponto ótimo e contribuir com a diminuição da taxa de
congestionamento (ainda uma das mais altas do mundo).
 
Em terceiro lugar, parte da literatura acredita que a judicialização excessiva gerou uma distorção da
supremacia judicial e da separação dos três Poderes. No meio acadêmico, o contexto de ativismo judicial
exacerbado gerou críticas incisivas ao Judiciário, minando sua credibilidade.
 
Veja a seguir como Hélio Pinheiro Pinto define a juristocracia.
Expansão crescente do Poder Judiciário e do protagonismo jurídico, social e político de seus juízes aos
quais passa a substituir os Poderes Executivo e Legislativo na resolução dos grandes dilemas coletivos
da vida nacional, ocupando espaços que antes eram exclusivamente dominados pelos agentes políticos
eleitos pelo povo. E que, com isso, perderam progressivamente autonomia institucional e importância
político-social, deflagrando-se um processo de enfraquecimento lento e gradativo do regime
democrático.
(Pinto, 2018, p. 54)
Em uma linha parecida, Oscar Vilhena Vieira (2008), ao estudar a expansão da autoridade do Supremo e dos
tribunais, elenca três correntes como causas do fenômeno.
 
A juristocracia, que é sua primeira teoria, afirma que a causa central desse fenômeno seria a expansão do
neoliberalismo e da globalização, gerando a noção de que os tribunais seriam um locus de maior estabilidade
e segurança jurídica que o Legislativo.
 
De acordo com uma segunda linha de pensamento, a causa estaria alinhada a uma retração do sistema
representativo. Esse sistema seria incapaz de cumprir as promessas constitucionais e democráticas de
igualdade e justiça; portanto, ele teria aberto margem para a ampliação do Poder do Judiciário.
Além da juristocracia, Vieira (2008, p. 444-445) estabelece que, no Brasil, ocorreu o fenômeno da
supremocracia. Tal termo se refere a dois aspectos:
 
Expansão da autoridade do Supremo em detrimento dos demais Poderes.
Autoridade do Supremo em relação às demais instâncias do Judiciário.
Embora não faça um julgamento de valor em relação ao fenômeno, o autor revela os problemas de
representatividade. Isso esclarece a necessidade de uma geração de debates sobre a racionalização da
jurisdição constitucional e a lapidação do processo deliberativo a fim de reduzir possíveis tensões políticas
geradas.
 
Outra linha crítica da literatura brasileira centra-se no modelo deliberativo do STF e em seus impactos na
legitimidade desse tribunal.
No campo em questão, conforme destacam Diego Werneck Arguelhes e Leandro Molhano
Ribeiro (2018), um problema central é a ascensão da ministrocracia.
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Os autores Arguelhes e Ribeiro (2018, p. 13-14) entendem o fenômeno como uma influência considerável da
ação individual dos ministros do STF sobre o status quo legislativo. Por isso, “o poder judicial foi exercido
individualmente por ministros do STF sem participação relevante do plenário da instituição ou até mesmo
contra ele”.
 
Assim, três mecanismos práticos da ministrocracia possibilitariam que as ações individuais de ministros
influenciassem o processo decisório da Corte como um todo:
Mecanismo 1
A tomada de decisão feita por intermédio, principalmente, de liminares individuais e decisões
monocráticas.
Mecanismo 2
Os pedidos de vista a fim de controlar a agenda do tribunal.
Mecanismo 3
As declarações ou sinalizações públicas sobre decisões futuras.
Você já deve ter percebido que, dessa forma, tais ações prejudicariam a deliberação da Corte e revelariam
posições individuais no lugar das coletivas e institucionais — como elas, aliás, deveriam ser.
 
Além da supremocracia, Arguelhes e Ribeiro (2018) revelam um problema mais específico em relação à
atuação do STF. Para os autores, ele denota uma crise de legitimidade interna e tem implicações externas.
Quando a ação de um único ministro é suficiente para impedir maiorias legislativas eventuais de aprovar
mudanças no status quo — seja diretamente, no caso de “judicial review individual” pelo relator, seja
indiretamente por meio de ameaças e sinalizações na imprensa —, teríamos um “falso positivo” no
exercício do poder judicial. Isto é, controle de constitucionalidade sem uma maioria de votos dos
membros do tribunal.
(Arguelhes; Ribeiro, 2018, p. 29)
A atuação judicial seria, assim, “duplamente contramajoritária” e minaria a legitimidade da Corte.
 
Ainda sobre os problemas deliberativos do STF, Virgílio Afonso da Silva (2009, p. 217), ao tratar da origem do
modelo de constitucionalidade brasileiro — e das influências dos modelos norte-americano e europeu —,
aborda algumas características centrais da deliberação no Supremo:
 
Em primeiro lugar, haveria uma “quase total ausência de trocas de argumentos entre os ministros”.• 
Em segundo, a “inexistência de unidade institucional e decisória”, demodo que o tribunal não decide de
maneira coletiva e institucional, e sim por meio da “soma dos votos individuais de seus ministros”.
Por fim, existe uma “carência de decisões claras, objetivas e que veiculem a opinião do tribunal”.
Diante desse e de outros problemas, Silva (2013) menciona a necessidade de se incrementar a interação e o
diálogo entre os ministros. Além disso, realiza um estudo sobre a prática deliberativa do STF, revelando que
algumas regras e práticas internas dificultam a ocorrência de uma deliberação entre os membros da Corte.
 
Assim, esse conjunto de situações prejudica a legitimidade do tribunal. O modelo de deliberação é puramente
agregativo, uma vez que cada ministro dá o seu voto e que cada um deles é publicado com suas razões
específicas.
Para Silva (2013, p. 568, grifos nossos), “não há opinião do tribunal, mas apenas uma série de
onze opiniões escritas”.
 
Silva (2013) lista as três principais regras que possuem um efeito negativo nas deliberações do STF. Confira.
Regra 1
O papel quase irrelevante do relator, considerando que sua escolha é arbitrária e que seu voto
somente é revelado na sessão plenária. Isso inviabiliza uma discussão prévia — ainda mais se
considerarmos que todos os demais ministros apresentam seus votos prontos na sessão.
Regra 2
A forma de comunicação entre os ministros por meio de leitura de votos em uma determinada ordem.
Regra 3
A possibilidade de interromper uma sessão plenária antes que os ministros tenham tido a
oportunidade de expressar sua opinião sobre o caso em questão também prejudica o debate e o
diálogo.
Algumas práticas consuetudinárias também são prejudiciais a uma deliberação de fato. Veja quais são elas:
 
Os ministros adotam estratégias advocatícias a fim de convencer os outros membros da Corte, como a
divulgação de teses e informações somente favoráveis ao voto.
 
Um individualismo judicial decorrente da emissão de votos individuais, o que acarreta uma ausência de
interação e consenso, sendo reforçado ainda pela ideia de que o juiz tem de convencer seu “auditório”. 
 
Uma publicidade extrema já agravada pelas transmissões de julgamento pela TV Justiça e pelos perfis
do STF no X (antigo Twitter) e no YouTube. Em contrapartida, podemos entender que isso possibilita
transparência e controle social, além de contribuir para que os ministros não mudem de opinião e para
que o teste de argumentos fique restrito, evitando perda de prestígio diante da visibilidade.
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A publicação dos votos dissidentes não leva a um diálogo real nem à troca de opiniões com votos
escritos, apesar de poder melhorar o processo decisório por meio da consideração das discordâncias e
trazer transparência. Acaba por ser uma mera formalidade de publicação.
 
Os impasses gerados para a separação dos Poderes e a democracia geraram críticas à supremacia
judicial. Somando-se a isso, surgiram objeções específicas ao modelo de deliberação do STF.
Os diversos problemas analisados então passaram a minar a legitimidade e a credibilidade da Corte
Constitucional brasileira. Contudo, esse movimento de perda de credibilidade do Judiciário vai além dos
exames literários. Ele, na verdade, perpassa a confiança da sociedade ao longo dos anos tanto para a
proteção e a promoção dos direitos fundamentais quanto para a própria democracia.
A crise de credibilidade e a falta de confiança no Judiciário
Um ponto central para avaliar a crise de credibilidade do Judiciário diz respeito à confiança que a população
tem nas instâncias judiciais, especialmente o STF, que, conforme apontamos, tem um papel de destaque no
contexto brasileiro tanto por ser sua última instância como pelo protagonismo que vem ganhando nos últimos
anos.
Vamos analisar agora as pesquisas empíricas do Índice de Confiança na Justiça Brasileira (ICJBrasil) referente
aos anos de 2012 a 2017 e a relação estabelecida entre o STF e a sociedade. Para isso, vamos nos basear nos
estudos realizados tanto por Joaquim Falcão e Fabiana Luci de Oliveira, no ano de 2013, quanto por três
entidades em 2019: a Associação de Magistrados Brasileiros (AMB), a Fundação Getulio Vargas (FGV) e o
Instituto de Pagamentos Especiais de São Paulo (Ipespe).
 
O ICJBrasil tem como intuito realizar um levantamento qualitativo a fim de acompanhar o sentimento da
população em relação ao Judiciário. Para tanto, esse levantamento se subdivide em dois índices. Veja.
A pesquisa do ICJBrasil é realizada em sete estados e no Distrito Federal. Vamos apresentar, a seguir, os
índices relativos ao Relatório ICJBrasil (2017):
 
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De percepção 
Avalia a opinião dos cidadãos sobre a
Justiça e a prestação de direitos.
De comportamento 
Analisa se a população recorre ao
Judiciário para a resolução de
conflitos.
Quanto à confiança nas instituições, 24% dos entrevistados afirmaram em 2017 que confiavam ou confiavam
muito no Poder Judiciário. Esse percentual era maior que o do Congresso Nacional (7%), dos partidos políticos
(7%) e do governo federal (6%).
Um fato curioso é que o Poder Judiciário ficou aquém da confiança nas Forças Armadas, na Igreja
Católica, nas redes sociais, na imprensa escrita, nas emissoras de TV, nas grandes empresas, no
Ministério Público e na polícia. O percentual, no entanto, estava no mesmo patamar da confiança no STF.
Podemos verificar, na pesquisa do ICJBrasil (2017, p. 13), que a confiança no Judiciário caiu 10 pontos entre
2013 e 2017, passando de 34% a 24%.
 
Talvez um aumento no percentual, ainda que pequeno, entre os anos de 2014 e 2015 tenha se dado graças ao
desenrolar da Operação Lava Jato (iniciativa de combate à corrupção e à lavagem de dinheiro que teve início
em março de 2014, gerando uma visibilidade maior à atuação judicial e ao Ministério Público).
No entanto, entre os anos de 2013 e 2017, o grau de confiança da população na atuação judicial caiu em
número considerável, o que representa um descrédito da instituição.
 
A pesquisa do ICJBrasil (2017, p. 16-17) também revelou que menos de um quarto da população brasileira
confiava no STF. A causa desse descrédito era atribuída, em geral, à morosidade da Justiça, tendo 81% dos
entrevistados respondido que havia uma lentidão nos julgamentos. O mesmo percentual alegou que o custo
de acesso à justiça seria alto.
 
Conforme menciona o estudo realizado, os índices são ainda mais preocupantes quanto às dimensões de
honestidade, competência e independência da instituição.
Em 2017, 78% dos entrevistados consideraram o Poder Judiciário nada ou pouco honesto, ou seja, a
maioria da população entendeu que essa instituição tem baixa capacidade para resistir a subornos. Além
disso, 73% dos respondentes consideraram que o Judiciário é nada ou pouco competente para
solucionar os casos; e, 66% acreditam que o Judiciário é nada ou pouco independente em relação à
influência dos outros Poderes do Estado.
(Ramos et al., 2017, p. 16-17)
Com base nos dados e em outros avaliados ao longo da pesquisa, o relatório do ICJBrasil (2017, p. 7) obteve
dois resultados importantes. Confira.
Em primeiro lugar
Houve uma queda na avaliação da Justiça, com subíndices sofrendo uma baixa significativa entre os
anos anteriores e o de 2017 (data da pesquisa).
Em segundo lugar
Ocorreu uma queda na confiança nas instituições de forma geral.
Para os pesquisadores, os resultados demonstram uma insatisfação quanto aos problemas de corrupção.
Outros resultados relevantes revelam que, apesar da má avaliação do Judiciário, as pessoas ainda recorrem a
ele para a resolução de conflitos e variáveis como escolaridade e idade não influenciam na confiança na
instituição.
 
Em 2019, foi a vez de outro estudo propor um diagnóstico estatístico sobre a imagem do Judiciário. Dessa
vez, ele foi realizado por três instituições: FGV, AMB e Ipespe.
O Estudo da imagem do Judiciário brasileiro revelou que o Judiciário possui um índice de
desconfiança de 44%.
Ainda que seja menor que os índices dos demais Poderes, representados pelo presidente da República (66%)e pelo Congresso Nacional (79%), esse percentual revela-se alto.
 
Daí também se conclui um relativo descrédito da instituição, ainda mais se levarmos em conta que o grau de
confiança nos Estados Unidos (NCSC, 2019), por exemplo, quase alcança os 70% quando se trata da Suprema
Corte. Ainda assim, devemos ressaltar que, naquele país, os números de confiança caíram de 2018 para 2019.
 
Apesar de ser a instância que ainda permanece com legitimidade, na opinião dos entrevistados, maior que a
dos outros dois Poderes majoritários para definir questões políticas relevantes, parece evidente haver uma
maior demanda por participação popular.
 
Além disso, mesmo que não possa haver uma percepção pública sobre a interferência do STF na competência
dos outros Poderes, as pesquisas revelam um grau de discordância e desconfiança considerável em relação
às decisões do Supremo.
Ainda que não haja um resultado definitivo, se combinarmos os resultados das duas pesquisas analisadas
(2017 e 2019), vamos ver que, ao longo dos anos, tem havido uma perda de credibilidade popular do Judiciário
— e notadamente do STF.
 
Assim, além das críticas da literatura sobre a atuação expansiva da Corte Constitucional, com fundamentos
mais estruturais, estando ligados à separação dos Poderes, aos valores democráticos e ao processo
deliberativo, o grau de confiança popular no Judiciário definitivamente caiu nos últimos anos. Essa queda é
uma variável relevante na estruturação democrática das instituições.
 
Está clara a ocorrência de um processo de perda da credibilidade. Isso gera discussões complexas sobre
quem deve ter a última palavra acerca das questões constitucionais e sobre a legitimidade da jurisdição
constitucional para a tomada de decisões políticas relevantes no cenário brasileiro atual.
Causas da crise de credibilidade do Judiciário
Neste vídeo, apontamos as causas para a crise de credibilidade do Poder Judiciário. Assista.
Conteúdo interativo
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Alternativa à supremacia judicial: a teoria dos diálogos constitucionais
Com o surgimento de problemas por conta da propagação das demandas judiciais e do ativismo judicial, além
da retirada de temas importantes da ação dos Poderes majoritários, começaram a ser construídas, na
literatura, alternativas para o modelo de supremacia judicial.
Seria de fato justo que as Cortes Constitucionais tenham a última palavra sobre a
interpretação da Constituição?
Vamos abordar o modelo proposto pelas teorias dialógicas (apesar de haver outras concepções alternativas).
Estamos cientes de que existem controvérsias entre autores sobre os aspectos específicos de várias linhas de
diálogos possíveis, porém não vamos analisar tal viés.
 
Nosso tratamento vai ser realizado de forma ampla. O intuito é estabelecer a compreensão da lógica geral da
teoria dos diálogos constitucionais como uma alternativa ao modelo de supremacia judicial.
 
Para Christine Bateup (2006), as teorias dialógicas enfatizam o fato de que o Judiciário não possui o
monopólio sobre a interpretação constitucional. Portanto, deve haver um processo dialético e interativo de
construção dos significados constitucionais para preencher uma lacuna de legitimidade da jurisdição
constitucional.
 
A autora concilia as teorias dialógicas que privilegiam a dialética entre os Poderes de Estado com a ideia de
constitucionalismo popular. Seu intuito, com isso, é: 
 
Guiar um desvio de foco do Judiciário para outras instâncias deliberativas.
Promover a participação popular na construção da interpretação constitucional.
A ideia de Bateup (2006) diz respeito a uma compreensão abrangente do diálogo constitucional. Segundo o
autor, isso resultaria em uma concepção de equilíbrio e parceria entre diversos mecanismos possíveis de
dialética.
 
O papel judicial seria o de facilitador e fomentador da discussão constitucional na sociedade como um todo.
Para resolver o problema contramajoritário, completa Bateup (2006), isso abarcaria a possibilidade de haver
contribuições institucionais na própria interpretação constitucional.
 
Veja o que as teorias dialógicas vislumbram, segundo Rodrigo Brandão.
O controle de constitucionalidade não como uma barreira intransponível às instituições democráticas,
mas como instrumento catalisador de um diálogo entre as instituições políticas sobre a melhor forma de
harmonizar as liberdades individuais e os interesses da coletividade.
(Brandão, 2012, p. 273)
As maiorias eventuais do Poder Legislativo, desse modo, teriam a prerrogativa de reverter decisões sobre a
inconstitucionalidade de determinada matéria.
O potencial das teorias dialógicas está no fato de elas resolverem de forma satisfatória o
problema da dificuldade contramajoritária da jurisdição constitucional.
O mecanismo tradicional que conduziria as possibilidades da teoria dos diálogos no exemplo brasileiro é a
Emenda Constitucional prevista no artigo 60 da CRFB/1988. Digamos que ela teria o condão de
potencialmente superar uma jurisprudência do STF acerca da inconstitucionalidade de determinada matéria.
 
Destacamos que, segundo as alíneas I, II e III do artigo 60, as emendas constitucionais podem ser propostas
tanto pelo chefe do Executivo Federal quanto pelo Legislativo, tendo, portanto, a participação dos Poderes
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majoritários. Além disso, elas são processadas pelo Legislativo, enquanto sua aprovação, por dois turnos,
depende de um quórum qualificado (artigo 60, § 2º, CRFB/1988).
 
O desafio entre os Poderes requer um trabalho em duas fases. Confira.
Fase 1
Emenda superadora de decisões de
inconstitucionalidade do STF.
Fase 2
Possibilidade de controle de emendas pelo STF
inerente às teorias dos diálogos constitucionais.
O resultado de ambas as fases geraria maior interação, debate público e busca de pontos de equilíbrio entre
os Poderes na lógica de freios e contrapesos.
 
O ponto central aqui é que, diante das falhas da supremacia judicial e dos problemas práticos de um ativismo
judicial exacerbado e da judicialização crescente, alternativas são possíveis.
 
Na lógica de freios e contrapesos do princípio de separação dos Poderes, buscam-se os meios de estabelecer
maior diálogo entre as instituições judiciais, legislativas e executivas. Espera-se que, como reforço da ideia de
democracia representativa, sejam promovidas tanto a abertura de canais de participação popular quanto a
construção de um significado constitucional dialético e democrático.
Verificando o aprendizado
Questão 1
Combinadas com o ativismo judicial, as judicializações da vida e da política levaram a uma
exacerbação da atuação judicial. No entanto, alguns autores, ainda assim, defendem a
supremacia judicial como necessária à democracia. São exemplos dessas defesas as
seguintes sentenças, exceto:
A
A autoridade das Cortes Constitucionais para a resolução de algumas questões é inerente na medida em que
ela deriva de uma aceitação da própria sociedade quanto à vigência e à produção de efeitos das decisões em
sede de controle constitucional.
B
As Cortes Constitucionais possuem uma função pacificadora, sendo necessárias para a estabilidade e a
harmonia social; além disso, há um ponto ótimo das decisões judiciais que deriva do isolamento político e da
estabilidade interna da Corte.
C
A função de intérprete das Cortes Constitucionais deriva do arranjo institucional, que busca manter a
ordenação e a estabilidade entre os órgãos.
D
A manutenção e a estabilidade da legalidade requerem que exista uma segurança jurídica quanto ao
significado da Constituição. Se houvesse uma multiplicidade de intérpretes, o número de conflitos na
sociedade aumentaria drasticamente.
E
As Cortes Constitucionais, em geral, possuem legitimidade representativa devido à sua composição, que é
feita de membros eleitos pelo voto popular.
A alternativa E está correta.
Os integrantes das Cortes Constitucionais, como regra, são nomeados isolada ou conjuntamente pelo
Poder Executivo e/ou pelo Legislativo.
Questão

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