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PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Gabriel Godoi Diversidade sociocultural Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer como as variações de cultura, status econômico e origem étnica podem gerar necessidades especiais na sala de aula. Esclarecer os aspectos da complexidade e dos benefícios de uma educação bilíngue. Descrever algumas maneiras de promover uma educação multicultural. Introdução Neste capítulo, você estudará sobre os impactos que a cultura, o status econômico e a etnia podem trazer aos ambientes escolares. Conhecerá, também, o processo de construção de um ensino bilíngue e a discussão que se faz acerca de sua implementação nas escolas. Por fim, aprenderá algumas formas de se propor uma educação multicultural, que respeite as diferenças e se solidifique a partir delas, corroborando com a afirmação de Gadotti (2008, p. 109): “[...] para ser emancipatória, a educação precisa considerar as pessoas, suas culturas, respeitar o modo de vida dos indivíduos e suas identidades [...]”. Além disso, perceberá como diferentes culturas podem trazer benefí- cios para a sala de aula, favorecendo para que os estudantes entrem em contato com diferentes pontos de vista, que se conheçam perspectivas históricas não hegemônicas que incentivem os alunos a observarem todas as opiniões envolvidas, os conflitos históricos, e favoreça o conhecimento de movimentos sociais e formas de viver que não são comuns aos alunos. Dessa forma, pretendemos que você tome contato com as diferenças culturais, seus benefícios e desafios, para serem incluídas nas salas de aula. Entendemos que os professores são protagonistas dessas mudanças, assim como as modificações estruturais e legais do ensino púbico e privado em todos os seus níveis. As diferentes necessidades dos estudantes, tendo em vista a cultura, o status econômico e a origem étnico-racial no contexto da sala de aula Segundo Santrock (2009), cultura se refere a uma serie de padrões de compor- tamento, crenças, produções artísticas e modo de pensar de um determinado grupo de pessoas. Esses comportamentos são passados de geração à geração de forma orgânica, organizando o jeito de enxergar e lidar com o mundo por esses indivíduos. No mesmo sentido, Brewer e Campbell (1976) e Campbell e LeVine (1968) constataram que pessoas de todas as culturas compartilham determinadas tendências comuns quanto ao que acreditam, que são: a) acreditar que sua cultura é “natural” e “correta”, enquanto as outras são “estranhas” e “incorretas”; b) considerar seus costumes culturais como verdades univer- sais; c) favorecer seu grupo cultural; d) sentir orgulho de seu grupo cultural; e) hostilizar outros grupos culturais. Comparações entre grupos étnicos demonstram que os indivíduos perten- centes a esses grupos tendem a ter maneiras distintas de resolver problemas e se relacionar entre si: grupos de países como Inglaterra e EUA se comportam de maneira mais autônoma, enquanto de países como China e Japão optam pelo trabalho grupal (STEVENSON; HOFER, 1999). Essas diferenças foram denominadas individualismo e coletivismo. No individualismo, há uma priorização de valores e objetivos individuais (como independência e autonomia). Em contrapartida, o coletivismo prima pelos objetivos do grupo, enquanto os objetivos e valores pessoais são secun- dários (SANTROCK, 2009). O Brasil, como a maioria dos países das Américas, é formado por um grande número de diferentes culturas que habitaram, conquistaram, dominaram ou foram escravizadas em nosso território. Dessa forma, a cultura atual é formada por um diverso sincretismo de culturas provenientes de mais diferentes crenças, comportamentos e hábitos (Figura 1). Diversidade sociocultural2 reis Realce reis Realce reis Realce Figura 1. “Operários” (obra de Tarsila do Amaral): mostra as diferentes cores que moldaram o Brasil. Fonte: Blog da Ariana (2010, documento on-line). Os pesquisadores que se interessam por essa intersecção entre diferen- tes culturas entendem que é impossível analisar uma cultura inteira apenas observando-a, sem colocá-la em contraste com algo mais conhecido. Assim, interessam-se muito mais em comparar o que acontece em uma cultura com o que acontece em outra ou mais culturas (ROOPNARINE; METINDOGAN, 2006) do que na simples análise etnográfica dos territórios. Esse campo de análise, que propõe a sempre pensar em uma cultura no contraste com outra para poder analisá-la de forma mais adequada, foi chamado de campo dos estudos interculturais. Estes envolvem tais comparaç õ es entre culturas, proporcionando informaç õ es sobre os graus de semelhanç a e discrepância entre as pessoas, buscando concluir em qual deles certos comportamentos sã o especí ficos a determinadas culturas ou amplamente difundidos entre os seres humanos. Por esse motivo, torna-se cada vez mais essencial que a escola seja um ambiente que também reflita a diversidade sociocultural à qual os estudantes estão ambientados no seu cotidiano. Quanto a isso, Campos, Grando e Passos (2015) entendem que compete à escola esse papel de interlocução entre as 3Diversidade sociocultural diferentes culturas. Isso amplia a capacidade de os estudantes compreenderem e modificarem suas realidades, além da própria escola enquanto instituição, pois é necessário que o sistema de ensino se adapte à interculturalidade dos territórios no qual se insere. No entanto, vários estudos concordam que a educação proposta no Brasil ignora em grande parte a diversidade existente em seus territórios, promovendo, assim, uma educação monocultural excludente. Santos (2017) concorda ao constatar que ainda se faz presente, nas escolas, o imaginário étnico-racial que privilegia a brancura e valoriza as raízes europeias. Essa atuação não possibilita aos estudantes se identificarem com os conceitos propostos, principalmente as crianças de baixo status socioeconômico. O status socioeconô mico (SSE) é um eixo de categorização de indi- víduos em determinados grupos, levando em conta, principalmente, suas caracterí sticas econô micas, de moradia, de saneamento básico, educacionais e ocupacionais. Santrock (2009) afirma que, nos Estados Unidos, o SSE tem implicaç õ es importantes para a educaç ã o, sendo que sujeitos com SSE baixo, em sua maioria, não permanecem muitos anos em instituições de ensino e tendem a ter menor influência em instituiç õ es da comunidade (como escolas), além de recursos financeiros limitados. No Brasil, a situação se mostra ainda mais grave: apesar de sua sociedade ser composta por uma ampla diversidade de povos e culturas, a desigualdade social e étnico-racial permanece um dos maiores problemas apontados no país. A desigualdade social também se mostra na infraestrutura das instituições presentes nos territórios. Em um local de SSE baixo, as escolas tendem a ser mais precárias, tendo pouco acesso a materiais didáticos, computadores e, em casos extremos, dificuldade para oferecer refeições adequadas. Spring (2006) cita, também, uma diferença no método de ensino e aprendizagem, onde escolas de baixa renda primam pela aprendizagem mecânica por meio da memorização, enquanto que, nas de rendas mais altas, se estimula o apri- moramento de habilidades de raciocínio. Também é importante ressaltar que as populações com baixo SSE normalmente são compostas por uma maioria de pessoas negras, pardas ou indígenas no Brasil. Dessa forma, outro eixo importante a se atentar para adequar a educação é a etnicidade de seu território. Etnicidade diz respeito a uma variedade de caracterí sticas compartilha- das por um determinado grupo de indivíduos, tais como heranç a cultural, nacionalidade, semelhanças fisiológicas, religiã o, dança, música, rituais de convivência e lí ngua. Diversidade sociocultural4 reis Realce reis Realce reis Realce Mas qual a diferença entre etnicidade e raça? Santrock (2009) define raça como um termo desatualizado,que foi suplantado pela ideia de etnia. Raça daria conta de uma diferenciação devido a características físicas e biológicas entre os sujeitos — por exemplo, a cor da pele, dos cabelos e dos olhos, o formato da cabeça, a estrutura óssea do corpo e o biotipo físico. A diferenciação de raças é reducionista, se comparada à etnia, e pode propiciar o surgimento de preconceitos, ou seja, atitudes, comportamentos ou pensamentos negativos, depreciativos e excludentes direcionados a determinados indivíduos, justifi- cados apenas pela pertença a determinado recorte populacional. Durante muito tempo, as características étnico-culturais de grupos não dominantes foram entendidas como inadequadas e inferiores (MEECE; KURTZ-COSTES, 2001). Dessa forma, coube às instituições de ensino adequar esses indivíduos aos valores hegemônicos. Devido a isso, é preciso fazer um movimento contrário ao anterior, tendo a percepção de que as diferenças não são desigualdades, sendo desnecessário abandonar uma cultura em detrimento de outra, nem tampouco se fechar em uma mesma cultura No entanto, não é raro que os educadores, inconscientemente, reproduzam preconceitos em algum nível, pois eles estão incrustados no nosso cotidiano. Diversos analistas afirmam que os estudantes pertencentes a grupos étnicos não hegemônicos assumem uma posiç ã o menosprezada dentro dos sistemas educacionais. Refere-se que, especialmente os alunos afrodescendentes e provenientes de países latino-americanos pobres, acabam recebendo poucas oportunidades dentro da escola, pois são expostos a uma equipe técnica de educadores que têm expectativas acadê micas baixas em relaç ã o a eles e en- frentam estereó tipos negativos de minorias é tnicas. Isso pode ser entendido pela falta de diversidade étnica entre os pro- fessores. Santrock (2009) demonstra que 90% dos professores nas escolas norte-americanas sã o brancos, nã o latinos, e estima que a porcentagem de professores de minorias será ainda menor nos pró ximos anos. Tendo isso em vista, Santos (2017) reafirma a importância de refletirmos sobre a formação de professores. Pois é a partir das formações de base desses sujeitos que serão criadas ferramentas que ajudem a sociedade a superar a visão etnocêntrica e monocultural da educação, visando à efetivação de uma educação menos excludente e mais humana. 5Diversidade sociocultural reis Realce reis Realce Souza e Pereira (2013) concordam e complementam, dizendo que a for- mação deve ser continuada, para que surjam novas práticas que sincretizam a realidade dos professores e as exigências básicas da educação dos alunos, em concordância com suas vivências. Podemos perceber, portanto, que os autores valorizam a formação dos educadores, pois ela é a base fundamental na qual os profissionais embasarão suas propostas de aula e de convívio com os estudantes. Tente perceber se a sua faculdade tem no currículo cadeiras que chamam a atenção para a questão de etnia, status socioeconômico, gênero, entre outras marcas culturais. Caso ela ainda não aborde esses temas, procure incentivar que seu curso se adapte a esses conceitos ou pense criticamente sobre como os conteúdos que você aprende encaixar-se-iam para os indivíduos de diferentes origens étnicas. Finalmente, ao falar sobre a indispensabilidade de um ensino pautado na diversidade, é preciso pensar em cursos de formação de professores, que os capacite para atuarem em congruência com diferentes contextos. A concepção da pessoa como corpo propicia a compreensão de que a produção de conhe- cimentos e aprendizagens na escola perpassa o contexto sócio-histórico no qual se insere e alunos e familiares se forjam corporalmente. Apesar do contexto de dificuldades no qual os estudantes de baixo SSE se inserem, existem diversas estratégias que podem auxiliar na aprendizagem desses alunos. Santrock (2009) exemplifica da seguinte forma: nã o exagere na disciplina — busque sempre um equilíbrio adequado entre disciplina e liberdade das crianç as; priorize a motivação — as crianç as de baixo status socioeconômico normalmente não são tão motivadas em seus ambientes familiares, portanto devem ser sempre desafiadas; procure auxiliar os cuidadores — muitos pais que habitam á reas carentes nã o sã o capazes de oferecer muito auxí lio nos estudos de seus filhos; envolva pessoas talentosas da comunidade — pais que moram em á reas carentes podem ser pessoas bastante talentosas, preocupadas e responsá veis, de tal maneira que podem surpreender os professores. Na maioria das comunidades carentes, há pessoas cuja sabedoria e experiê ncia desafiam estereó tipos. Encontre essas pessoas e peç a para elas atuarem como voluntá rias, ajudando as crianç as de sua classe na aprendizagem, em viagens de estudo e a tornar a escola mais atraente; Diversidade sociocultural6 foque nos pontos fortes das crianç as — muitas dessas crianç as che- gam à escola com um considerá vel conhecimento nã o revelado, e os professores podem tentar descobrir essa riqueza. Os benefícios e a complexidade de uma educação bilíngue Na perspectiva estadunidense, Santrock (2009) conceitua a educaç ã o bilí ngue como eixo de aula que permite o ensino das disciplinas acadê micas para crianç as imigrantes em seu idioma de origem, ao mesmo tempo em que ensina o idioma do território de forma mais vagarosa. No entanto, planejar uma educação que seja primordialmente bilíngue é uma das metas da educação básica no Brasil há muitos anos, desde a Lei nº 11.161/2005 (revogada pela Lei nº 13.415/2017), que estabelece a oferta da língua estrangeira. Não obstante, implementar o ensino bilíngue é um assunto que é fortemente debatido dentro dos ambientes acadêmicos. Vieira-Machado e Lopes (2016) descrevem que há muita complexidade na construção de políticas que procuram garantir uma educação bilíngüe, tendo em vista situações em que a Língua Brasileira de Sinais, Libras, ganha status de primeira língua, e a língua portuguesa escrita, de segunda língua. Por um lado, alguns analistas defendem que expor crianças e adolescentes a uma nova língua pode trazer diversos benefícios para o desenvolvimento sociocognitivo da população, como o melhor desempenho nas áreas de controle de atenç ã o, a formaç ã o de conceito, o raciocí nio analí tico, a flexibilidade e complexidade cognitiva — além de aumentar os conhecimentos sobre lín- gua escrita e falada e a competência no discernimento de erros gramaticais (BIALYSTOK, 1997). Aprender uma nova língua é mais fácil para crianças do que para adolescentes e adultos, embora para os últimos seja mais rápido (SANTROCK, 2009). Isso em função da plasticidade cerebral, que é maior durante as primeiras fases do desenvolvimento. Aprender outra língua pode também servir como instrumento de inclusão, como propõem os defensores do ensino obrigatório da Língua Brasileira de Sinais na educação infantil. Eles entendem que é necessário incluir as pessoas surdas de forma mais adequada na sociedade. Assim, trabalhar o bilinguismo Português-Libras traria benefícios tanto para os brasileiros que usam Libras como sua linguagem natural — assim, podendo receber informações em sua língua de origem na escola, aumentando, consequentemente, sua capacidade de compreensão dos conteúdos — quanto faria bem para os falantes naturais 7Diversidade sociocultural reis Realce reis Realce da Língua Portuguesa do Brasil, pois eles poderiam trocar informações e acessar uma parcela da população brasileira que tem um processo de fala completamente diferente da maioria dos estudantes (Figura 2). Figura 2. O ensino de idiomas nas escolas. Fonte: vectorikart/Istockphoto.com. O Brasil sempre recebeu imigrantes de todas as partes do mundo, desde os italianos e alemães no Rio Grande do Sul, os holandeses no Nordeste, os japoneses em São Paulo e, mais recentemente, a imigração em alta escala de ve- nezuelanos e haitianos. Somos um dos países que apresenta a maior diversidadeétnico-racial da América Latina. Devido a isso, a educação deve ser pensada não apenas em forma de ensinar conceitos básicos de educação e cidadania, mas, também, de fazer com que essas diferentes culturas que compõem o povo brasileiro possam estar no protagonismo dos estudos, conectando-se entre si e com os conteúdos com seu cotidiano, para que os estudantes possam absorver a língua da melhor forma possível. Entretanto, por mais que a proposição de uma educação bilíngue traga diversos benefícios já pesquisados no desenvol- vimento cognitivo dos estudantes, a sua implementação nas instituições de ensino não é uma tarefa fácil, muito menos óbvia. Muitos analistas entendem que os projetos de educação bilíngue ainda não são estruturados o suficiente para que os efeitos sejam observáveis. Estima-se que, para a adição de uma nova língua, as crianças precisam de, em média, quatro anos para proficiência em conversação e sete para proficiência Diversidade sociocultural8 em leitura e escrita, considerando-se a língua inglesa (HAKUTA; BUTLER; WITT, 2000). Com base nisso, os argumentos contra os programas bilíngues se suportam na negatividade de sua brevidade e no pouco aprofundamento, em que as crianças, muitas vezes, recebem poucos anos de educação bilíngue, embora precisem de mais para desenvolver competência. Diversos analistas que também criticam os programas em voga nas redes de ensino contrapõem que, em muitos casos, as crianç as imigrantes recebem apenas um ano de educaç ã o bilí ngue nos EUA (HAKUTA; BUTLER; WITT, 2000). As tentativas de implantação do ensino bilíngue O bilinguismo é a habilidade de falar dois idiomas. No atual contexto brasileiro, a educação bilíngue está atrelada à política nacional de inclusão (VIEIRA- -MACHADO; LOPES, 2016). Por isso, existem muitas contrové rsias que cercam o tema do bilingü ismo, principalmente por envolver os milhõ es de crianç as imigrantes, ou de origem étnica diferente do território, em cujos lares a língua do país nã o é a primeira da família de origem (ECHEVARRIA; GRAVES, 2007). Qual, então, seria a melhor maneira de ensino para essas crianç as? Diversos pesquisadores, atuantes no campo da educação bilíngue, já se posi- cionaram como apoiadores da educaç ã o com base em dois idiomas, no caso dos estudantes que tê m dificuldades para aprender um assunto ensinado em uma língua que não compreendem totalmente. Diversos estudos já demonstraram que, quando as lí nguas sã o integradas em sala de aula, os alunos aprendem a segunda lí ngua mais facilmente, o que permite que participem de forma mais integrada das atividades acadêmicas. Todavia, os resultados das pesquisas demonstram apenas um apoio comedido a esse ensino. Defensores agora reconhecem que, mesmo uma educação em apenas uma língua, pode produzir bons resultados, desde que esta seja competente (LESAUX; SIEGEL, 2003). No Brasil, Vieira-Machado e Lopes (2016) contam que a partir da institu- cionalização da educação bilíngue, com a emergência da legislação específica sobre a Libras (Lei nº 10.436/2002 e Decreto nº 5.626/2005), a equipe técnica de educadores foi modificada. Nesse momento, os indivíduos que sabem Libras passaram a ocupar os espaços docentes nas escolas. Esses indivíduos eram em geral intérpretes das comunidades religiosas ou familiares dos alunos. Nesse contexto, devemos ter cuidado com uma tendência à redução da noção de inclusão à presença de intérpretes em escolas, à contratação obrigatória de professores surdos e ouvintes bilíngues, bem como à expansão das matrículas 9Diversidade sociocultural reis Realce de surdos nesses espaços. A inclusão necessária deve ser capaz de propiciar maiores possibilidades de criação de espaços escolares bilíngues capazes de potencializar as discussões na direção de uma política de respeito às diferenças e à sua história, e, para além, facilitar a inclusão de todos os estudantes que não utilizam a língua do território como a principal, no caso dos imigrantes e refugiados de guerra. Por fim, Santrock (2009) salienta que tirar conclusõ es muito amplas e preditivas sobre a eficá cia da educaç ã o bilí ngue é difí cil — os programas pesquisados variam consideravelmente dependendo de fatores como o nú mero de anos a que os estudantes são expostos a esse tipo e educação, a forma que a instruç ã o é passada, a qualidade do ensino para além da educaç ã o bilí ngue, os professores, a equipe técnica da escola, as características intrínsecas da turma — por exemplo, variáveis de cultura, o status socioeconômico e a etnicidade de seus componentes. O Brasil regulamenta o ensino da diversidade cultural nas escolas por meio de leis como a nº. 10.639/2003 e a nº. 11.645/2008. Elas tornam obrigatório o ensino da cultura e história dos povos originários indígenas e negros no currículo escolar brasileiro. Embora os objetivos das políticas de reparação, reconhecimento e valorização da história e cultura afrodescendentes no Brasil sejam priorizar a multiculturalidade do ensino, não foram atribuídas ferramentas específicas que viabilizassem essas práticas pedagógicas no dia a dia. Isto é, as prefeituras propõem e implementam políticas mais gerais que dificilmente propiciam o alcance dos objetivos ou diluem a sua eficácia (BRASIL, 2003, 2008). Como promover uma educação multicultural? Educaç ã o multicultural se refere à proposta educacional que prioriza a diver- sidade étnico-racial e inclui regularmente as perspectivas de diversos grupos culturais. Os defensores da implementação desse modelo de educação entendem que crianç as pertencentes a grupos étnicos não hegemônicos e marginalizados devem ser habilitadas pelas instituições de ensino. A educaç ã o multicultural benefi ciaria todos os estudantes, promovendo, dessa forma, a eliminação das diferenças de desempenho escolar entre o alunos de grupos étnico-raciais minoritários (SANTROCK, 2009; CAMPOS; GRANDO; PASSOS, 2015). Diversidade sociocultural10 reis Realce O termo habilitar é entendido, no campo da educação, como sendo a proposta de capacitar os estudantes em níveis intelectual e de competiç ã o (SANTROCK, 2009). A habilitação desses estudantes tem como objetivo aumentar a possibilidade de indivíduos de grupos étnicos não hegemônicos se inserirem no mercado de trabalho, proporcionando oportunidades iguais a toda a sociedade. O ensino multicultural, quanto disciplina a ser ensinada, deve levar em conta questões como status socioeconômico, etnicidade e gênero, tendo como diretriz a justiça social. Dessa forma, os objetivos a serem focados são redução de preconceitos e pedagogia de equidade. A redução de preconceitos seria a supressão de visões estereotipadas do outro, enquanto que a pedagogia de equidade se caracteriza pela transformação do ensino, incorporando mate- riais e estratégias de aprendizagem mais apropriadas para o manejo tanto de meninos quanto de meninas, nos diversos grupos étnicos. Existem diversas propostas educacionais que visam à diminuição da dife- rença acadêmica entre os alunos. A seguir, listamos algumas dessas possibi- lidades que os educadores podem tentar implementar em suas salas de aula. No link a seguir você tem acesso a uma palestra na qual são mostradas algumas possibilidades de se pensar a multiculturalidade da prática educativa. https://goo.gl/zv4YSx Práticas possíveis para a sala de aula O programa Quantum, desenvolvido pela Fundação Ford, nos Estados Unidos, em 1995 (CARNEGIE CONCIL ON ADOLESCENT DEVELOPMENT, 1995) tratou-se de uma experiência estadunidense na qual os estudantes eram assessorados por mentores particulares e recebiam um benefício em dinheiro ao se aplicarem em determinadas atividades. Para ter acesso ao programa, exigia-se que os estudantes realizassem determinadas atividades fora do seu período de aula, as quais poderiam ser: 11Diversidade sociocultural https://goo.gl/zv4YSx reis Realce reis Realce reis Realce reis Realce reis Realce atividadesacadê micas fora do perí odo escolar, podendo incluir leitura, redaç ã o, matemá tica, ciê ncias, estudos sociais, monitoria a colegas e informá tica; participação em serviç os comunitá rios no território, incluindo monitoria de alunos de primeiro a quarto ano, limpeza das redondezas e trabalho voluntá rio em hospitais, casas de repouso e bibliotecas; atividades de conhecimento cultural e desenvolvimento pessoal, in- cluindo testes de aptidão, conhecimento sobre os cursos de formação superior que melhor se encaixam com seu perfil, habilidades para a vida, como cozinha e cálculo, planejamento familiar e de carreira. A avaliaç ã o final do programa Quantum constatou que 63% dos alunos que contavam com mentores concluí ram o ensino mé dio, contra apenas 42% dos estudantes que não fizeram parte do programa; 42% dos estudantes que contavam com mentores estavam matriculados num curso superior, contra apenas 16% dos outros alunos; os estudantes que não participaram do programa Quantum também dependiam duas vezes mais da assistê ncia social do que o grupo acompanhado de mentores; o í ndice de detenç õ es també m era maior entre os estudantes não participantes. A educadora Nieto (2005), ao descrever práticas que auxiliam a multicul- turalizar a escola, deu as recomendações a seguir. A escola, sua equipe técnica e o currículo pedagógico devem ser cla- ramente contra qualquer tipo de discriminação sócio-racial e, também, devem propiciar um espaço seguro para que os estudantes possam discutir sobre esses temas. A educaç ã o multicultural deve fazer parte intrínseca da escola, desde o currículo, os quadros de avisos, nos refeitó rios, as reuniões de pais e mestres, até suas atitudes fora de sala de aula. Assim sendo, todo o estudante deve ser exposto à multiculturalidade. Isso inclui fazer com que todos sejam bilí ngues e estudem diferentes perspectivas culturais. Os estudantes devem conseguir problematizar e ter conscientização acerca de suas próprias culturas. Isso envolve torná -los mais capacitados para analisar culturas e mais atentos aos fatores histó ricos, polí ticos e sociais que moldam sua visã o sobre cultura e etnicidade. A meta é de que, ao serem expostos a essas discussões, os alunos se motivem a trabalhar por justiç a econô mica e polí tica. Diversidade sociocultural12 Conhecer a comunidade onde a escola está situada e de onde provêm os alunos é muito importante para se criar um currículo pedagógico que faça sentido para aqueles estudantes e melhore o entendimento da bagagem é tnica e cultural deles. Santrock (2009) também dá algumas dicas de como os professores podem atuar de forma a promover uma educação multicultural em suas salas de aula. Ele cita alguns tópicos relevantes, os quais são apresentados a seguir. O ensino culturalmente relevante é um aspecto importante da educaç ã o multicultural — ou seja, deve buscar conexões entre os conteúdos de aula e os cotidianos fora da escola da origem dos alunos. A abordagem de recursos do conhecimento fala que os professores e educadores devem fazer visitas às residências dos alunos, no intuito de desenvolver relacionamentos sociais com seus familiares e aprender mais sobre a origem cultural e é tnica deles — isso ajuda a melhor incorporar esse conhecimento em suas aulas. A educaç ã o centrada em aná lise de problemas é outra característica essencial da educaç ã o multicultural, pois os alunos são estimulados a problematizar sistematicamente questõ es que envolvem equidade e justiç a social — isso implica em maior contato dos estudantes com seus valores, assim como na possibilidade de análise de alternativas e consequê ncias de suas atitudes. A sala de aula quebra-cabeç a é uma prática educativa que envolve ter estudantes de diversas origens culturais, socioeconômicas e étnicas, realizando cooperativamente diferentes partes de determinada atividade acadêmica para alcanç ar um objetivo comum. Contato pessoal positivo com outros alunos de diferentes origens cultu- rais, projetos curriculares com enfoque em questões étnicas, grupos mistos de trabalho e educadores e diretores incentivadores e aliados ajudaram a melhorar as relações entre indivíduos (FOREHAND; RAGOSTA; ROCK, 1976). Ao conversar sobre questões pessoais, preocupações, interesses, etc., os estudantes tendem a aumentar o reconhecimento do outro como indivíduo, ao invés de pertencer a um grupo apenas. Com essa aproximação, há uma descoberta importante para o relacionamento interpessoal e o rompimento de barreiras étnicas — mesmo com diferentes origens, as pessoas compartilham sentimentos, esperanças, preocupações. 13Diversidade sociocultural Para o aumento da empatia com relação aos outros, os estudantes precisam adquirir perspectiva. Proporcione práticas, exercícios e projetos que os façam entrar em contato e colocar-se a partir da perspectiva de outras culturas — isso ajuda a combater o preconceito e aumenta a flexibilidade cognitiva. O pensamento crí tico sobre as relações interétnicas e a inteligê ncia emo- cional refletem positivamente na redução do preconceito em relação aos outros. Em contrapartida, aqueles estudantes que apresentam pensamento mais raso acerca dessas questões, em geral, são também mais preconceituosos. Quando se aprende a fazer perguntas e pensar nas questões de forma crítica, substituindo a resposta automática que posterga o julgamento, os estudantes se tornam menos preconceituosos e mais abertos. Algumas ferramentas que podem ajudar a reduzir, lidar ou, até mesmo, eliminar seu preconceito são: trabalhar com imagens de crianç as de diversos grupos culturais e é tnicos — por meio da seleção de textos e histórias para os alunos també m refle- tiram essa diversidade multicultural; priorizar materiais didáticos que valorizem e dissertem acerca do en- tendimento cultural e é tnico — por meio do uso de dramatizaç ã o para ilustrar papé is e famí lias nã o estereotipados de diversas origens; ajudar os estudantes a desconstruir as ideias estereotipadas que têm de determinadas culturas — por meio da criação de uma regra rígida e clara na qual não serão toleradas nenhuma brincadeira de mau gosto ou exclusão de qualquer estudante devido à sua etnia; conversar com os pais sobre a importância da educação multicultural na sociedade — por meio da ajuda na compreensão das origens dos preconceitos e das ideias estereotipadas para que eles também possam promover uma educação multicultural em seus domicílios. Para aumentar a tolerâ ncia, promova discussões seguras para todas as opiniões e permita que seus alunos expressem as suas perspectivas culturais sobre determinados temas, salientando que o consenso sempre é a melhor estratégia. A escola e a comunidade devem ser vistas como uma equipe. A melhor maneira de se ter acesso aos estudantes, à sua cultura e ao seu cotidiano é fazendo com que a escola se torne parceira da comunidade. Dessa forma, os estudantes vão se sentir mais motivados para aprender, pois conseguirão enxergar onde os conteúdos vistos em sala de aula podem ser aplicados no seu dia a dia. Diversidade sociocultural14 BIALYSTOK, E. Effects of bilingualism and biliteracy on children’s emerging concepts of print. Developmental Psychology, v. 33, n. 3, p. 429- 440, May 1997. BLOG DA ARIANA. Será que o que você considera como “diversidade” realmente o é? Preconceito é sinônimo de discriminação? 2010. Disponível em: . Acesso em: 05 jun. 2018. BRASIL. 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