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W BA 01 03 _V 3. 0 FINANÇAS PÚBLICAS 2 Everton Santos Vasconcelos Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2024 FINANÇAS PÚBLICAS 1ª edição 3 2024 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR Homepage: https://www.cogna.com.br/ Diretora Sr. de Pós-graduação & OPM Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Turchetti Bacan Gabiatti Camila Braga de Oliveira Higa Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Juliana Schiavetto Dauricio Juliane Raniro Hehl Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Coordenador Ana Carolina Gulelmo Staut Revisor Milton Henrique do Couto Neto Editorial Beatriz Meloni Montefusco Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Rosana Silverio Siqueira Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Vasconcelos, Everton Santos Finanças Públicas/ Everton Santos Vasconcelos, – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A 2024. p. 32 ISBN 978-65-5903-575-5 1. Finanças públicas 2. Sistema tributário brasileiro 3. Orçamento público I. Título. CDD 745 _______________________________________________________________________________________________ Raquel Torres – CRB 8/10534 V331f © 2024 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. https://www.cogna.com.br/ 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Introdução a finanças públicas _______________________________ 07 Sistema Tributário Brasileiro _________________________________ 18 Orçamento público e políticas orçamentárias ________________ 30 Déficit e dívida pública _______________________________________ 44 FINANÇAS PÚBLICAS 5 Apresentação da disciplina Desde os tempos mais antigos, nossos ancestrais perceberam que a vida em comunidade traria mais benefícios para todos do que uma vida solitária. No entanto, teria aí um problema: como conciliar os diferentes interesses dos integrantes dos grupos? Nesse momento, surge a noção de Estado, que é uma entidade com poder para governar um povo em uma determinada área territorial. O objetivo, aqui, é oferecer meios básicos de sobrevivência para aquele povo. Para que isso ocorra, são necessários recursos financeiros. Aí começa a importância de conhecer os conceitos de Finanças Públicas. Nesta disciplina, estudante, além de conhecer um pouco sobre a origem do Estado e o conceito de governo e seus poderes, você estudará a importância da administração dos recursos financeiros para que o estado de bem-estar social possa alcançar toda a população. Além disso, serão apresentadas as formas de o poder público obter recursos financeiros mediante a arrecadação de taxas, tributos e contribuições. Em uma análise mais aprofundada, você verá os desafios que a sociedade brasileira enfrenta por causa da taxação dos diversos setores econômicos. Ainda abordando a arrecadação, a disciplina explicará o que é o orçamento público no Brasil, analisando como os recursos são alocados em diferentes programas e projetos, que são influenciados por fatores políticos, econômicos e sociais. Por fim, a disciplina fará uma apresentação de um tema muito recorrente em discussões sobre governos: a dívida pública. Itens 6 importantes, como o déficit público e sua influência na economia, serão apresentados. O estudo das Finanças Públicas não é indicado somente para aqueles que desejam trabalhar em órgãos públicos. Ele é de extrema importância para todos aqueles que creem em um país melhor e mais justo, que sabem que o conhecimento sobre tributos e do bem-estar social faz a diferença em nossas escolhas pessoais e profissionais. Bons estudos! 7 Introdução a finanças públicas Autoria: Everton Santos Vasconcelos Leitura crítica: Milton Henrique do Couto Neto Objetivos • Entender o surgimento dos agentes econômicos na sociedade humana. • Explicar o processo de criação do Estado como ente organizador de uma sociedade. • Analisar as formas que o Estado influencia a economia de uma sociedade. • Compreender os meios de que dispõe o Estado para se financiar. 8 1. Introdução: o homem como um ser gregário Muitas pesquisas já foram e ainda são realizadas com o intuito de saber mais sobre o surgimento da espécie homo sapiens no planeta. Dentre as conclusões já alcançadas, sabemos, hoje, que nossos antepassados perceberam que a vida em grupo – vida gregária, por assim dizer – traria muitas vantagens. Ao caçar em grupo, nossos ancestrais poderiam predar um animal de grande porte para alimentar um número maior de indivíduos. Laços criados entre membros de um mesmo grupo seriam importantes para manter a segurança de todos em disputas contra grupos rivais. Portanto, estar sozinho poderia significar uma vida mais curta. Figura 1 – A cooperação entre indivíduos de um grupo permitiu caçar grandes animais Fonte: shutterstock.com. 9 Os primeiros grupos humanos que povoaram a Terra tiveram como característica primordial serem do tipo caçadores e coletores, fixando-se em determinadas localidades enquanto elas lhes ofereciam subsistência. Era comum se deslocarem para outras regiões quando os recursos se escasseavam. Em algum momento da linha do tempo, os descendentes daqueles grupos nômades passaram a se fixar na terra, plantando e criando animais para seu sustento. Tudo que era produzido era dividido entre os membros do grupo. Conforme os grupos humanos cresciam, começaram a se deparar com alguns problemas. Grupos que antes viviam isolados passaram a ficar cada vez mais próximos, disputando recursos, como terra, animais, alimentos etc. Nesse cenário, era bastante comum haver batalhas entre grupos rivais, resultando em grandes perdas humanas de parte a parte. Em um determinado momento da História, aqueles grupos, cansados das perdas que aumentavam a cada confronto, decidem cessar as hostilidades, buscando uma convivência pacífica. Segundo Mendes (2020), ao buscarem uma convivência harmoniosa, os grupos, antes rivais, agora escolheriam entre seus pares representantes para criarem regras de convivência e promoverem a ordem. Estava criada a noção de Estado. Inicialmente, essa nova organização social canalizava privilégios para uma elite, desprezando um grupo mais amplo de indivíduos. Somente a partir do século XIX, algumas sociedades puderam evoluir para sistemas mais igualitários de direitos sociais estabelecidos em uma constituição. Além dos direitos sociais, cabe ao Estado garantir o direito à propriedade, combater o crime e assegurar o cumprimento dos contratos. Essas garantias só serão alcançadas mediante a criação de leis claras e objetivas, a existência de um sistema judiciário que seja ágil, acessível e que inspire confiança nos indivíduos. Para que esses e outros feitos fossem alcançados, a estrutura de poder do Estado se dividiu em 10 outros três poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, os quais, apesar de independentes, atuam em harmonia. Para que cada poder possa exercer suas funções na administração do Estado, são necessários recursos financeiros, os quais poderão se originar de receitas de serviços prestados pelo próprio Estado ou pela cobrança de impostos. A partir de agora estudaremos como o Estado se financia e as formas que intervém na sociedade que ele governa. 2. A relação entre economia e Estado Certamente, durante sua vida, você nutriu sonhos e desejos que,aumento na 53 arrecadação de receitas. Reduções nas taxas de impostos, evasão fiscal e queda na atividade econômica são fatores adicionais que podem diminuir as receitas do governo, exacerbando o déficit. Os gastos com juros sobre a dívida pública também desempenham um papel significativo na criação de déficits, especialmente em países com níveis elevados de endividamento. O aumento do endividamento governamental ao longo do tempo resulta em maiores pagamentos de juros e amortizações da dívida, o que pode aumentar os gastos do governo e contribuir para déficits nas contas públicas. Políticas fiscais expansionistas, como redução de impostos ou aumento dos gastos públicos, sem contrapartida em aumento da arrecadação ou eficiência na administração pública, também podem resultar em déficits orçamentários. Vale destacar que choques externos, como crises econômicas globais, instabilidade política, desastres naturais ou flutuações nos preços de commodities, podem impactar adversamente as finanças públicas e contribuir para déficits. Para combater déficits em suas contas públicas, os governos têm à disposição uma variedade de estratégias econômicas e políticas. Uma abordagem comum é buscar o aumento da arrecadação de receitas por meio de medidas fiscais, como ajustes tributários, aumento das taxas de impostos, redução da evasão fiscal e ampliação da base tributária. Paralelamente, a contenção de despesas é essencial, envolvendo cortes em programas não essenciais, revisão de subsídios, controle de gastos com pessoal e revisão de contratos. Estimular o crescimento econômico também é uma estratégia importante, uma vez que pode aumentar as receitas do governo por meio do aumento da atividade econômica e da criação de empregos. Isso pode ser alcançado por meio de políticas de investimento em 54 infraestrutura, estímulo ao empreendedorismo e inovação, bem como promoção do comércio internacional. Referências BRASIL. Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964. Estatui Normas Gerais de Direito Financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal. Brasília: Presidência da República, [2024]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4320.htm. Acesso em: 14 jun. 2024. CNN BRASIL. FMI lista as 20 maiores economias do mundo em 2023. CNN Brasil, 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/fmi- lista-as-20-maiores-economias-do-mundo-em-2023-veja-posicao-do-brasil/. Acesso em: 11 abr. 2024. GIAMBIAGI, F.; ALÉM, A. C. Finanças públicas: teoria e prática no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. KOHAMA, H. Contabilidade pública: teoria e prática. 15 ed. São Paulo: Atlas, 2016. PISCITELLI, R. B.; TIMBÓ, M. Z. F. Contabilidade pública: uma abordagem da administração pública. 14. ed. São Paulo: Atlas, 2019. SARAIVA, A. Endividamento das famílias cai pela 1ª vez em 4 anos, mas inadimplência bate recorde, diz CNC. Valor Econômico, 2024. Disponível em: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/01/11/endividamento-das-familias-cai- pela-1a-vez-em-4-anos-mas-inadimplencia-bate-recorde-diz-cnc.ghtml. Acesso em: 12 abr. 2024. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4320.htm https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/fmi-lista-as-20-maiores-economias-do-mundo-em-2023-veja-posicao-do-brasil/ https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/fmi-lista-as-20-maiores-economias-do-mundo-em-2023-veja-posicao-do-brasil/ https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/01/11/endividamento-das-familias-cai-pela-1a-vez-em-4-anos-mas-inadimplencia-bate-recorde-diz-cnc.ghtml https://valor.globo.com/brasil/noticia/2024/01/11/endividamento-das-familias-cai-pela-1a-vez-em-4-anos-mas-inadimplencia-bate-recorde-diz-cnc.ghtml 55 Sumário Apresentação da disciplina Objetivos Objetivos Objetivosde alguma forma, lutou ou tem lutado para torná-los realidade. De forma semelhante, você também já deve ter percebido que cada indivíduo possui desejos e sonhos bem diferentes entre si. Não há nada de errado nisso, desde que não infrinja as leis ou coloque em risco outras pessoas. No entanto, precisamos trazer a essa discussão um conceito bem conhecido nos estudos econômicos: as demandas de todos os indivíduos não poderão ser satisfeitas, pois os recursos (matérias- primas, tempo, terras etc.) são escassos. O fato é que, mesmo nessas condições, as pessoas buscarão seu próprio bem-estar. O termo economia tem origem no grego oikonomia, que significa “arte de administrar a casa”. Apesar de usar a matemática em inúmeras de suas aplicações, a economia é uma ciência essencialmente social, que se dedica a estudar como os recursos escassos das sociedades podem ser alocados, considerando as decisões de empresas, consumidores, trabalhadores etc. – agentes econômicos. 11 Figura 2 – Apesar de independentes, os agentes econômicos, a todo momento, se relacionam entre si Fonte: elaborada pelo autor. Os estudos econômicos também consideram a relação entre oferta e procura em seus modelos. Nesse sentido, os desejos de consumir e a capacidade de produção das firmas influenciam e são influenciados pela “lei da oferta e da procura”. Se um determinado bem tem uma forte demanda em uma sociedade, é lógico supor que seu preço aumentará, levando as firmas especializadas a fabricarem-no, aproveitando a oportunidade para aumentarem seus lucros. De uma forma geral, pode se supor que o mercado atenderá a todas as necessidades tanto dos agentes demandantes quanto dos ofertadores de bens e serviços. Pensar assim é um engano. 12 O Estado, nesse ponto, surge como um agente que suprirá as funções que o mercado não consegue atender, o que em economia se convencionou chamar de falhas de mercado. Ele pode intervir na economia quando um agente possui grande poder de produção sobre um determinado ramo econômico. Mendes (2020) destaca que o Estado pode intervir em ramos como o de fornecimento de água, com o intuito de oferecer preços mais baixos. O Estado intervém para suprir a sociedade com produtos que o mercado privado não consegue oferecer de maneira eficiente. Se não houvesse essa interferência, empresas de transportes públicos, por exemplo, só ofereceriam linhas de ônibus em trajetos extremamente rentáveis. Giambiagi e Além (2016) destacam que esse tipo de intervenção estatal é dado mediante o uso dos bens públicos. Para os autores, o uso desses bens pode ser exercido por qualquer indivíduo, sem prejudicar o uso de outros. Por outro lado, existem serviços públicos em que o Estado não pode cobrar de forma individualizada, como é o caso dos serviços de iluminação pública – não é possível oferecer esse serviço só para os indivíduos que propusessem a pagar por ele. A solução encontrada é que o Estado tenha a responsabilidade de oferecer bens ou serviços públicos se financiando mediante a cobrança de impostos e taxas (Giambiagi; Além, 2016). Como estudamos, nem sempre o mercado poderá atender de maneira eficiente a todas as demandas da sociedade. O Estado, então, surge como um agente regulador, ora intervindo para promover a concorrência perfeita, ora intervindo como fornecedor de serviços pouco atraentes para empresas privadas. Nas próximas linhas, estudaremos com maior profundidade sobre o papel do Estado na economia e de que forma ele acaba influenciando a vida em sociedade. 13 3. Atividade financeira do Estado Segundo Kohama (2016), os serviços públicos são disponibilizados para que a sociedade possa alcançar o maior nível de bem-estar social possível. Para o autor, serviços públicos são entendidos como “todos aqueles prestados pelo Estado ou delegados por concessão ou permissão sob condições impostas e fixadas por ele, visando à satisfação de necessidades da comunidade” (Kohama, 2016, p. 1). O oferecimento de serviços públicos está intimamente ligado à administração pública. Para Kohama (2016, p. 9), “administrar é gerir os serviços públicos; significa não só prestar serviços, executá-lo, como também dirigir, governar, exercer a vontade com o objetivo de obter um resultado útil”. Para que a administração pública possa atender aos anseios de bem-estar da sociedade, precisará de recursos financeiros. A atividade financeira do Estado se constitui em obter, criar, gerir e despender dinheiro para financiar a administração pública (Matias- Pereira, 2018). Na literatura especializada, damos o nome de finanças públicas à atividade financeira do Estado. Segundo Martins-Pereira (2018), cerca de 35% do PIB brasileiro correspondem a receitas tributárias, que serão empregadas nas funções do Estado, tais como saúde, educação, segurança nacional etc. Em finanças públicas, encontraremos como objeto de análise e controle a atividade fiscal, que deve ser entendida como o Estado obtendo e aplicando recursos para custear bens e serviços públicos (política fiscal). Nesse sentido, podemos subdividir as finanças públicas em duas políticas: a tributária, que trata da captação de recursos para atendimento das funções da Administração, e a orçamentária, que trata sobre a forma como os recursos arrecadados serão aplicados pelas esferas do poder público. 14 3.1 Funções econômicas do governo De acordo com Giambiagi e Além (2016), a ação do governo abrange três funções básicas através da política fiscal: alocativa, distributiva e estabilizadora. Figura 3 – As funções básicas do Estado Fonte: elaborada pelo autor 3.1.1 Função alocativa Como já estudamos, por mais completo que seja o mercado, ele não conseguirá atender a todas as demandas da sociedade. Aprofundando- nos na questão, descobriremos que o Estado, enquanto fornecedor de bens e serviços públicos, é quem deverá determinar a quantidade desses bens/serviços que serão ofertados e, em um segundo momento, determinar também o valor justo a ser cobrado de cada consumidor. 15 Para Giambiagi e Além (2016), visão corroborada por Matias-Pereira (2018), não se espera que o consumidor, por livre vontade, se apresente ao governo para pagar pelo uso dos bens públicos. Sendo assim, o financiamento desses serviços não poderá ser feito de forma voluntária. A função alocativa do Estado refere-se ao papel desempenhado pelo governo na alocação eficiente dos recursos na economia. Em termos simples, isso significa que o Estado intervém na economia para garantir que os recursos disponíveis sejam utilizados da melhor maneira possível para atender às necessidades da sociedade. Mesmo a função alocativa sendo prerrogativa do governo no poder, Giambiagi e Além (2016) destacam que o eleitor é quem, em última instância, detém o poder de priorizar bens e serviços públicos ao escolher seus representantes. Os eleitores podem sentir que precisam de mais segurança. Para isso, escolherão políticos que estejam dispostos a investir mais em serviços públicos de segurança, mesmo que isso resulte em maiores tributos. 3.1.2 Função distributiva Como o próprio nome nos sugere, a função distributiva se constitui na redistribuição de renda daqueles que a possuem em grande quantidade para aqueles que têm carência. É notória a má distribuição de renda no Brasil, o que ensejou, nas últimas décadas, diversas medidas para diminuir as discrepâncias entre as camadas da sociedade. Como medidas de distribuição de renda, o Estado pode aumentar alíquotas sobre a venda de bens considerados supérfluos ou de alto padrão, como carros de luxo. Por outro lado, com esses recursos obtidos, pode-se financiar a redução de tributos cobrados na cesta básica. Outra forma de distribuição usada em países com extrema 16 desigualdade social são os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. Nesses casos, o governo pode promover uma distribuição de renda mais justa e de forma direta. 3.1.3 Função estabilizadora A funçãoestabilizadora do governo ganhou força a partir de meados do século XX (Giambiagi; Além, 2016). Apesar de alguns economistas defenderem um Estado que praticamente não interfira no mercado, deixando-o ao sabor de uma “mão invisível”, na função estabilizadora, o Estado interfere na economia, reequilibrando-a. Os ciclos econômicos podem gerar grandes desafios para a equipe econômica de um governo. Pode nos parecer um contrassenso, mas uma sociedade em que seja identificado um alto nível de emprego representa um grande problema tanto quanto uma sociedade com baixo nível de emprego. Nesses dois casos, caberá ao governo implementar medidas de contração da economia, por exemplo, o aumento da taxa básica de juros, retirando dinheiro do meio circulante, ou usando medidas para aquecer a economia, como reduzir o depósito compulsório dos bancos, colocando mais dinheiro no meio circulante. A função estabilizadora, dessa forma, consiste no uso de instrumentos de política econômica que possam promover o emprego, o desenvolvimento social e a estabilidade da economia. Podemos destacar como instrumentos da função estabilizadora: a promoção do emprego, o controle da inflação, a política cambial e o controle dos gastos públicos. Referências GIAMBIAGI, F; ALÉM, A. C. Finanças públicas: teoria e prática no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. 17 KOHAMA, H. Contabilidade pública: teoria e prática. 15. ed. São Paulo: Atlas, 2016. MATIAS-PEREIRA, J. Administração pública: foco nas instituições e ações governamentais. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2018. MENDES, M. Funções do estado em uma ordem social aberta. In: GIAMBIAGI, F.; FERREIRA, S. G.; AMBRÓZIO, A. M. H. (orgs.). Reforma do Estado brasileiro: transformando a ação do governo. São Paulo: Atlas, 2020. p. 31-43. 18 Sistema Tributário Brasileiro Autoria: Everton Santos Vasconcelos Leitura crítica: Milton Henrique do Couto Neto Objetivos • Compreender o processo de tributação no Brasil. • Analisar os principais tributos vigentes no país e como eles são repartidos pelos entes federativos. • Examinar os problemas de taxação da sociedade brasileira. 19 1. Introdução 1.1 Por que tributar? Para que o Estado possa atender às necessidades de bem-estar social, são necessárias fontes de recursos. A forma mais comum que o Estado dispõe para obter recursos suficientes para financiar sua estrutura administrativa, além de oferecer bens e serviços públicos, se dá pela cobrança de tributos da sociedade que ele governa. Graças a isso, o Estado, investido do poder político dado pelos eleitores, poderá promover as funções alocativa, distributiva e estabilizadora. Segundo Matias-Pereira (2018), um sistema de tributação tido como ideal deve possuir quatro características: • Equidade: um sistema de tributação é considerado ideal quando os indivíduos contribuem de forma equitativa para suprir os gastos governamentais. Equidade nos traz à mente o sentido daquilo que é justo e imparcial para cada cidadão. • Progressividade: indivíduos que possuem renda mais alta devem contribuir com parcelas maiores do que contribuintes de baixa renda. • Simplicidade: um sistema tributário eficiente deve ser de fácil compreensão pelo contribuinte, além de ser facilmente operacionalizado pelo poder público. • Neutralidade: os impostos não podem impactar negativamente a eficiência econômica da sociedade, reduzindo o consumo, pois assim prejudicaria todo o sistema tributário. Por mais que a sociedade anseie por melhores serviços prestados pelo poder público é, justamente, nela em que surgem reclamações sobre 20 a carga tributária que recai sobre todos. Para Giambiagi e Além (2016), essa discussão é comum a todas as sociedades espalhadas pelos quatro cantos do globo. O ato de tributar influencia também o comportamento dos agentes econômicos, que podem alterar suas decisões pessoais de consumir ou investir. Existem dois tipos de conflitos travados entre governo e os contribuintes. O primeiro deles é chamado de conflito vertical, que surge quando os contribuintes visam minimizar a carga tributária enquanto o governo tenta manter ou aumentá-la. Já os conflitos horizontais surgem na estrutura interna do governo pela divisão dos recursos arrecadados entre os diversos entes federativos (estados e municipalidades). Caberá aos políticos que estarão no poder em cada mandato de governo serem os mediadores entre uma sociedade que busca melhores bens e serviços públicos e a aplicação dos recursos financeiros obtidos pela tributação. 1.2 Histórico do Sistema Tributário Nacional Conforme Giambiagi e Além (2016), o Sistema Tributário Nacional (STN) não apresentou grandes mudanças desde a época do Império até o início dos anos de 1930. Nesse período, a principal fonte de receitas era originada do imposto de importação – por ser um país essencialmente agrícola, bens industrializados eram comprados no exterior. Por volta de 1891, uma das poucas mudanças observadas foi a separação entre as fontes tributárias. A partir de então, à União caberia as receitas dos impostos de importação, direitos de entrada, estadia e saída de navios, além das taxas de correios e telégrafos. Aos estados, caberiam a tributação sobre as exportações, sobre os imóveis rurais e urbanos, como também a transmissão de propriedades. 21 Com a promulgação da Constituição de 1934, os estados ganharam a competência para criar impostos sobre vendas e consignações, mas não poderiam mais cobrar impostos sobre exportações interestaduais. Já os municípios poderiam tributar receitas de indústrias, profissões e sobre propriedades prediais. A despeito de duas novas constituições (1937 e 1946), o STN sofreu poucas alterações. Nesse sentido, podemos destacar a perda do poder dos estados de tributar o consumo de combustível de veículos movidos a motor de explosão interna, um aumento nas receitas tributárias dos municípios e a criação de um sistema de transferência de impostos entre as esferas governamentais (Giambiagi; Além, 2016). Após o final da Segunda Guerra Mundial, com a crescente industrialização brasileira, as receitas tributárias mudaram de perfil: a tributação sobre as importações cedeu lugar para os tributos cobrados sobre os produtos industrializados. Por fim, o STN só ganharia uma nova estrutura a partir da promulgação da Lei nº 5.172/66 (Brasil, 1966). 1.3 A grande reforma do STN O grande objetivo da reforma do STN foi aumentar a capacidade de arrecadação do Estado, sem comprometer o crescimento da economia brasileira. Como objetivo secundário, podemos destacar a busca pela melhoria nos efeitos alocativos dos tributos. Antes de 1966, muitos tributos brasileiros não estavam tão bem estruturados. Faltavam-lhes itens importantes, como a caracterização dos fatos geradores e quem realmente tinha o poder de cobrá-los. Além disso, alguns tributos instituídos eram muito semelhantes entre si. Sendo assim, a reforma procurou meios de reduzir o número de 22 impostos vigentes e utilizar definições econômicas em vez de jurídicas para fundamentar os fatos geradores (Giambiagi; Além, 2016). Dois impostos foram criados após a reforma, que acabaram se tornando fundamentais para a arrecadação do governo. O primeiro deles foi o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), de competência da União. O segundo foi o Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM), que décadas depois se tornaria Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), de competência dos estados da federação. Esses impostos substituiriam, respectivamente, o imposto sobre o consumo e o imposto sobre vendas e consignações. A nova estrutura do STN é apresentada na figura a seguir: Figura 1 – Estrutura tributária brasileira a partir de 1966 Fonte: elaborada pelo autor. Para compensar a extinção de alguns tributos, ficou estabelecida a criação de fundos de transferências de recursos da União para os estados e para os municípios. Tanto o fundo de participaçãodos estados (FPE) quanto o fundo de participação dos municípios (FPM) teriam percentuais iguais – 10% – sobre as receitas tributárias originadas do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). 23 Após a consolidação da nova estrutura de cobrança, a carga tributária brasileira ficou em torno de 25% do Produto Interno Bruto (PIB), permanecendo nesse patamar por toda a década de 1970. Ela só deu um pequeno salto, alcançando 27% do PIB, durante o ano de 1986, quando estava em vigência o Plano Cruzado (Giambiagi, Além; 2016). Durante os anos de 1990 e 1994, foram registradas novas altas na carga tributária. Em 1990, a influência direta se deu por conta do Plano Collor, que fez com que a carga tributária chegasse aos 30% do PIB. Já em 1994, ano de criação do Plano Real, que controlou a inflação do país, a carga ultrapassou 30% do PIB. 2. Estrutura básica do STN Para definirmos o que é um tributo, vamos ao art. 3º do Código Tributário Nacional (Brasil, 1966, [s. p.]): “tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção por ato ilícito, instituída em lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada”. No Brasil, existem duas espécies de tributos: os vinculados e os não vinculados. Tributos vinculados possuem uma obrigação atrelada ao seu recolhimento. Já os tributos não vinculados não apresentam tal característica. O imposto é um tipo de tributo não vinculado, isto é, uma vez instituído, ele será cobrado sem que haja qualquer obrigatoriedade de o Estado prestar serviço ou oferecer bens públicos em troca. Descrita entre os artigos 77 e 78 do Código Tributário Nacional (CTN), a taxa é um tributo que se caracteriza pelo pagamento pelo uso de um serviço público ou pelo exercício do poder de polícia do Estado. Esse poder deve ser entendido como as atividades inerentes à administração 24 pública em razão do interesse público. Assim, o poder de polícia do Estado se manifesta no que concerne à segurança pública, à higiene, à ordem, à promoção da saúde etc. O terceiro tributo vigente no país são as contribuições de melhoria. O CTN estabelece que esses tributos só podem ser cobrados em virtude de obra pública que gere valorização imobiliária para o contribuinte. União, estados e municípios podem instituir contribuições de melhoria para fazer face aos custos de obras públicas. Além das contribuições de melhoria, a Carta Magna de 1988 estabeleceu as contribuições federais, de competência exclusiva da União. Essas contribuições podem ser de três tipos: sociais, de intervenção no domínio econômico e de interesse das categorias profissionais ou econômicas. Juridicamente, as contribuições federais não estão descritas no CTN, mesmo assim são considerados como tributos. 2.1 Elementos fundamentais do tributo Antes de estudarmos mais a estrutura do STN, cabe-nos conhecermos os elementos fundamentais do tributo. Compreender esses conceitos será um facilitador para compreensão dos impostos, das taxas e das contribuições vigentes no Brasil. O fato gerador do tributo se caracteriza pelo exato momento em que, estabelecido por lei, o órgão competente tem o direito de cobrar a obrigação tributária. Nesse sentido, o fato gerador do ISS é a prestação de serviço – nesse momento, o município pode cobrar o tributo. A obrigação de cobrar o ICMS nasce quando uma mercadoria sai de um depósito e é enviada para o consumidor final – nesse momento, o estado tem o direito de cobrar o imposto. 25 O sujeito passivo da obrigação tributária é a pessoa que, por lei, tem a obrigação de pagar o tributo. Aqui, precisamos fazer uma distinção, uma vez que o sujeito passivo se divide em duas pessoas: contribuinte e responsável. Enquanto este tem por obrigação o recolhimento do tributo, aquele tem relação direta com o fato gerador. Em algumas situações, o Fisco não terá a possibilidade de arrecadar tributos, pois pode ser muito complexa a identificação do contribuinte de fato. Aí, fica a cargo do responsável calcular, reter e recolher o tributo após o fato gerador, como podemos identificar quando tratamos de Imposto de Renda Retido da Fonte (IRRF). Já o contribuinte tem a obrigação de recolher o valor, como podemos observar na cobrança de IPTU, quando o proprietário do imóvel deve pagar o tributo diretamente ao município onde está localizado o imóvel. A base de cálculo, como o próprio termo nos sugere, é o valor sobre o qual será aplicada a alíquota correspondente ao tributo. Ela deve estar claramente estabelecida em lei, baseando-se nos princípios da legalidade, da anterioridade e da irretroatividade. A alíquota é um percentual que, aplicado à base de cálculo, resulta no montante que deve ser recolhido aos cofres públicos. As alíquotas podem ser fixas, proporcionais ou específicas. Em algumas situações, além do valor do imposto obtido após a aplicação da alíquota sobre a base de cálculo, a lei estabelece a cobrança de um valor adicional. Como exemplo, temos a cobrança do valor adicional ao IR. 2.2 Princípios constitucionais dos tributos Basicamente, os princípios que regem o STN estão descritos na Carta Magna de 1988. Nenhuma norma jurídica que trate sobre tributos pode ser criada se não estiver em consonância com aqueles princípios constitucionais. 26 O primeiro princípio é o da legalidade, o qual estabelece que somente uma lei pode estabelecer um tributo ou alterar sua base de cálculo ou aumentar a alíquota para cálculo do valor a recolher. Por outro lado, a própria Constituição concede ao Poder Executivo a possibilidade de alterar as alíquotas do Imposto de Importação (II), Imposto de Exportação (IE), Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e o IPI, desde que cumpridos preceitos constitucionais. O princípio da irretroatividade tributária não permite que sejam criados tributos que possam retroagir para prejudicar o contribuinte. Em outras palavras, uma lei tributária nova não pode ser aplicada a fatos geradores ocorridos antes de sua vigência. Isso significa que uma nova lei tributária só pode ser aplicada a partir do momento em que entra em vigor, não podendo retroagir para cobrar tributos sobre fatos geradores que ocorreram antes de sua existência. O princípio da anterioridade estabelece que nenhum tributo pode ser cobrado no mesmo exercício financeiro em que tenha sido instituído ou aumentado. Em outras palavras, uma nova lei que institui ou aumenta um tributo só pode produzir efeitos no exercício financeiro seguinte ao da sua publicação. Esse princípio visa garantir que os contribuintes tenham um tempo mínimo para se preparar para o cumprimento de novas obrigações tributárias ou para a adaptação a aumentos de tributos, promovendo a segurança jurídica e a previsibilidade no âmbito fiscal. O princípio da isonomia tributária, conhecido também como princípio da igualdade ou da igualdade tributária, estabelece que todos os contribuintes devem ser tratados de forma igual perante a lei, sem discriminações ou privilégios, no que diz respeito à instituição e à cobrança de tributos. 27 O princípio da competência tributária define quais entidades têm o poder de instituir e cobrar determinados tributos. Ele estabelece as competências de cada ente federativo (União, estados, Distrito Federal e municípios) para criar leis tributárias e arrecadar impostos, taxas e contribuições. O princípio da capacidade contributiva estabelece que os tributos devem ser cobrados de acordo com a capacidade econômica do contribuinte, ou seja, aqueles que têm maior capacidade financeira devem arcar com uma parcela maior do ônus tributário. Essa capacidade contributiva não se limita apenas à renda ou ao patrimônio do contribuinte, mas considera também sua capacidade de pagar impostos sem comprometer suas necessidades básicas e sua qualidade de vida. 3. Principais impostos brasileiros Agora que já estudamos os principais conceitosde tributos, daremos atenção aos principais impostos vigentes no país, pois são eles que fornecem parte bastante considerável das fontes de recursos para a administração pública oferecer serviços à comunidade. 3.1 Impostos que competem à União O imposto de renda (IR) é um tributo cobrado sobre os ganhos financeiros de pessoas físicas e jurídicas. Ele é uma das principais fontes de arrecadação do governo brasileiro. Ele é um imposto progressivo, o que significa que sua alíquota aumenta de acordo com o aumento da renda do contribuinte. No caso das pessoas físicas, as alíquotas podem variar de 0% a 27,5%, dependendo da faixa de renda em que o contribuinte se enquadra. Há também diversas deduções e isenções previstas em lei que podem reduzir o valor a ser pago. 28 O Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incide sobre a produção e a comercialização de produtos industrializados, tendo como base de cálculo o valor total do produto. Sua alíquota pode ser específica (valor fixo por unidade do produto) ou ad valorem (percentual sobre o preço de venda), e varia de acordo com a natureza do produto e sua classificação na tabela do imposto. O objetivo principal do IPI é controlar a produção e a circulação de produtos industrializados no país, além de servir como instrumento de política econômica para estimular determinados setores industriais, promover o desenvolvimento regional, incentivar a exportação e desestimular o consumo de produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente. 3.2 Impostos que competem aos estados e ao Distrito Federal O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) incide sobre a circulação de mercadorias, a prestação de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação, bem como sobre a importação de bens e serviços. Sua alíquota pode variar de acordo com a natureza da mercadoria ou serviço e a legislação de cada estado. Além disso, o ICMS possui uma complexa sistemática de apuração e recolhimento, com diversas regras e obrigações acessórias. O Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) é um imposto cobrado anualmente sobre a propriedade de veículos automotores, como carros, motos, caminhões, ônibus e outros veículos. Ele tem como base de cálculo o valor venal do veículo, determinado pela tabela elaborada pelas autoridades fazendárias de cada estado. Sua cobrança é obrigatória para todos os proprietários de veículos automotores, sejam eles pessoas físicas ou jurídicas. 29 3.3 Impostos que competem aos municípios O Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS) incide sobre a prestação de serviços listados na lei que o criou, independentemente da natureza jurídica da pessoa que os presta, do local onde são executados ou do resultado obtido. A alíquota do ISS e as regras de sua cobrança são determinadas pelo município onde o serviço é prestado. O Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) é um imposto cobrado sobre a propriedade de imóveis localizados em áreas urbanas. Ele incide sobre a propriedade de imóveis urbanos, sejam eles residenciais, comerciais, industriais ou de uso misto. Sua base de cálculo é o valor venal do imóvel, determinado pelo município com base em critérios, como a área do terreno, a localização, as características construtivas e o valor de mercado. Referências BRASIL. Lei nº 5.172, de 25 de outubro de 1966. Dispõe sobre o Sistema Tributário Nacional e institui normas gerais de direito tributário aplicáveis à União, Estados e Municípios. Brasília: Presidência da República, [2024]. Disponível em: https://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5172compilado.htm. Acesso em: 14 jun. 2024. GIAMBIAGI, F.; ALÉM, A. C. Finanças públicas: teoria e prática no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. MATIAS-PEREIRA, J. Administração pública: foco nas instituições e ações governamentais. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2018. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5172compilado.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l5172compilado.htm 30 Orçamento público e políticas orçamentárias Autoria: Everton Santos Vasconcelos Leitura crítica: Milton Henrique do Couto Neto Objetivos • Explicar o que é o orçamento público no Brasil. • Analisar e interpretar orçamentos públicos para entender como os recursos são alocados em diferentes áreas e programas governamentais. • Analisar os fatores políticos, econômicos e sociais que influenciam o processo orçamentário e as decisões de alocação de recursos. 31 1. Introdução 1.1 A atividade financeira do Estado: o orçamento No âmbito do poder público, podemos dizer que a atividade financeira do Estado é composta por uma série de atos que são diretamente voltados para a obtenção e gestão de recursos financeiros. Com isso, espera-se que todas as necessidades públicas sejam satisfeitas. Para que possa controlar seus recursos financeiros, a administração pública lança mão do orçamento público. Trata-se do instrumento mais importante das finanças públicas porque é nele em que estão descritas todas as despesas que poderão ser feitas pelo poder público, sempre com uma relação direta com as receitas que serão arrecadadas. Para saber o que poderá ser gasto, o processo de estimação de receitas deve ser realizado com bastante cautela. Erros na previsão de receitas podem acarretar a redução de recursos destinados às atividades governamentais. Por outro lado, uma boa relação política e técnica entre os poderes Executivo e Legislativo é fundamental para que o orçamento seja elaborado e aprovado. Nessa relação, podemos destacar a participação do povo na elaboração do orçamento, uma vez que ele será discutido pelos parlamentares escolhidos pela sociedade. São esses representantes que discutirão quais as prioridades que devem ser atendidas. Segundo o art. 2º da Lei nº 4.320/64 (Brasil, 1964, [s. p.]), o orçamento é um documento legal que, “de forma a evidenciar a política econômico- financeira e o programa de trabalho do governo”, prevê a receita e fixa a despesa. Além disso, aquela lei também estabelece algumas peculiaridades do orçamento, tais como: possibilidade de controle 32 pelos cidadãos; seu uso como um instrumento de gestão; os recursos oriundos dos tributos serão aprovados e controlados pelo Poder Legislativo. O Brasil levou mais de 24 anos para que o orçamento público fosse, de fato, associado ao planejamento de políticas públicas, deixando de ser um documento organizador de contas contábeis. Somente na Constituição de 1988, com a obrigação da elaboração de planos plurianuais pelos entes federativos, é que tanto o orçamento quanto o planejamento passaram a ser considerados como um único sistema de gestão. Matias-Pereira (2018) destaca a preocupação dispensada ao controle do orçamento aos nos falar sobre a Lei nº 8.443/1992 que, para auxiliar os trabalhos de fiscalização do orçamento pelo Congresso Nacional, estabeleceu as atribuições de controle externo referentes ao Tribunal de Contas da União (TCU). O controle do orçamento da União, pelo Poder Executivo, é feito pelo controle interno, que tem como princípio organizar e disciplinar os sistemas de contabilidade, administração financeira e de planejamento (Matias-Pereira, 2018). O controle administrativo é uma prática exercida pelo Executivo e pelos órgãos administrativos dos demais poderes sobre suas próprias atividades. Seu propósito é garantir a conformidade com as leis, bem como atender às demandas do serviço e às exigências técnicas. Envolve aspectos relacionados à legalidade, à conveniência e à eficiência, todos voltados para alcançar o completo atendimento dos interesses coletivos. Tal controle pode ser realizado tanto por órgãos internos da administração como por tribunais administrativos e órgãos correcionais. 33 2. Uma visão mais aprofundada sobre as normas orçamentárias 2.1 Plano plurianual (PPA) Um plano plurianual (PPA) é um instrumento de planejamento de médio prazo utilizadopelo governo para estabelecer diretrizes, objetivos e metas a serem alcançados ao longo de vários anos (Giambiagi; Além, 2016). Geralmente, tem duração de quatro anos e abrange programas e ações em diferentes áreas, como educação, saúde, infraestrutura e desenvolvimento econômico. O objetivo é promover a continuidade e a coerência das políticas públicas, garantindo a eficiência na alocação de recursos e o atendimento das necessidades da sociedade a longo prazo. A lei do PPA deve estabelecer, de maneira regionalizada, as diretrizes, os objetivos e as metas da administração pública para as despesas de capital e outras delas decorrentes, visando ao equilíbrio entre os investimentos das diversas regiões do país e ao crescimento econômico sustentável e equitativo. Isso significa que o PPA deve considerar as particularidades de cada região, promovendo um desenvolvimento mais justo e equilibrado entre os diferentes territórios nacionais. Essa abordagem regionalizada permite a alocação de recursos de acordo com as demandas específicas de cada localidade, contribuindo para uma distribuição mais eficiente dos investimentos públicos e uma maior inclusão social. O PPA serve também como base para a elaboração dos orçamentos anuais, fornecendo diretrizes para a alocação de recursos e a execução das políticas governamentais. 34 2.2 Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) estabelece as metas e prioridades do governo para o próximo ano, orientando a elaboração da Lei Orçamentária Anual (LOA). Define as diretrizes para a execução do orçamento, como limites de gastos e critérios para alocação de recursos. Por exemplo, pode determinar investimentos em saúde e educação, além de indicar políticas fiscais e metas de resultado primário. Quadro 1 – Instrumentos de política orçamentária brasileira Fonte: elaborado pelo autor. Junto à Carta Magna de 1998, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) estabelece diretrizes específicas relacionadas à elaboração e execução da LDO, entre outras questões relacionadas às finanças públicas. A LRF define, por exemplo, prazos e critérios para a elaboração da LDO, bem como parâmetros para o equilíbrio fiscal e a transparência na gestão dos recursos públicos. Portanto, enquanto a LRF fornece diretrizes gerais, é o Congresso Nacional que, de fato, regulamenta e aprova a LDO. Giambiagi e Além (2016) apontam que a relação entre o PPA e a LDO é estreita, pois ambos são instrumentos de planejamento do governo. O PPA estabelece as diretrizes, os objetivos e as metas de médio prazo para um período de quatro anos, enquanto a LDO define as metas e prioridades para o próximo ano. Assim, a LDO funciona como uma 35 ponte entre o PPA e a LOA, garantindo que as ações e os programas previstos no PPA sejam compatíveis com o orçamento anual e as metas fiscais estabelecidas. 2.3 Lei Orçamentária Anual (LOA) A Lei Orçamentária Anual (LOA) é elaborada anualmente pelo Poder Executivo, com base na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), e é submetida ao Congresso Nacional para aprovação. Ela contempla o orçamento fiscal, o orçamento de investimento das empresas estatais e o orçamento da seguridade social. A LOA define as prioridades e metas do governo para o ano seguinte, especificando os valores a serem destinados a cada área, como saúde, educação, segurança, infraestrutura, entre outros. Além disso, estabelece as regras para execução do orçamento, como limites de gastos, critérios para alocação de recursos e autorização para realização de despesas. Uma vez aprovada pelo Legislativo, a LOA torna-se lei e passa a ser o principal instrumento de gestão financeira do governo durante o ano fiscal subsequente. Tanto a Constituição Federal de 1988 quanto a Lei nº 4.320/1964 estabelecem as seguintes fases do processo orçamentário (Giambiagi; Além, 2016): • Elaboração da proposta orçamentária pelo Poder Executivo. • Apreciação pelo Poder Legislativo. • Discussão e votação da proposta orçamentária pelo Legislativo. • Sanção e promulgação pelo Chefe do Poder Executivo. • Execução orçamentária. 36 2.4 Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é uma legislação brasileira promulgada em 2000, que estabelece normas e princípios para a gestão fiscal responsável por parte dos entes federativos (União, estados, municípios e Distrito Federal). Seu principal objetivo é promover o equilíbrio das contas públicas, prevenindo o endividamento excessivo e garantindo a sustentabilidade financeira a longo prazo. A LRF não é propriamente uma lei orçamentária, mas deve ser comentada aqui por sua influência na elaboração da LDO e LOA. A LRF cria limites para as despesas com pessoal, dívida pública, concessão de garantias, operações de crédito, entre outros. Além disso, impõe regras de transparência e controle, como a publicação de demonstrativos fiscais e a realização de audiências públicas para discutir a elaboração do orçamento. Entre suas principais disposições, a LRF prevê a necessidade de elaboração e cumprimento de metas fiscais, a proibição de aumento de despesas com pessoal nos últimos 180 dias do mandato do chefe do Executivo, a limitação dos gastos com pessoal ao percentual da Receita Corrente Líquida, entre outras medidas. 3. Princípios orçamentários Princípios orçamentários são diretrizes fundamentais que norteiam a elaboração, a execução e o controle do orçamento público. Eles garantem a transparência, a eficiência, a responsabilidade e a legalidade na gestão dos recursos públicos. No Brasil, algumas instituições orçamentárias são consideradas como princípios orçamentários (Giambiagi; Além, 2016). Os princípios mais importantes serão vistos nas próximas linhas. 37 O princípio da legalidade estabelece que todas as receitas e despesas públicas devem estar previstas em lei. Isso significa que nenhum recurso público pode ser utilizado sem respaldo legal explícito. Em outras palavras, o orçamento público deve ser elaborado e executado de acordo com as disposições legais vigentes, como a Constituição Federal, as leis orçamentárias específicas e as demais normas aplicáveis. O princípio da universalidade informa que o orçamento público deve abranger todas as receitas e despesas do governo, sem exceções. Isso significa que todas as fontes de recursos e todos os gastos, sejam eles correntes ou de capital, devem estar contemplados no orçamento, proporcionando uma visão abrangente e completa das finanças públicas. Em outras palavras, o orçamento público deve incluir não apenas as receitas tributárias mas também outras fontes de recursos, como operações de crédito, transferências intergovernamentais e receitas de empresas estatais. Da mesma forma, todas as despesas do governo, sejam elas relacionadas a pessoal, custeio, investimentos ou transferências, devem ser detalhadamente especificadas no orçamento. O princípio da anualidade estabelece que o orçamento público deve ser elaborado e vigorar para um período de um ano fiscal, geralmente coincidindo com o ano civil. Isso significa que o planejamento e a execução das receitas e despesas do governo devem ser realizados anualmente, com base nas necessidades e prioridades estabelecidas para o exercício financeiro seguinte. O princípio do orçamento bruto, conhecido também como princípio da integralidade, preconiza que todas as receitas e despesas devem ser apresentadas de forma bruta, ou seja, sem compensações ou deduções entre elas. Isso significa que as receitas devem ser registradas em sua totalidade, sem considerar eventuais descontos ou abatimentos, e as 38 despesas devem ser contabilizadas sem considerar receitas vinculadas ou compensações entre órgãos ou programas. O princípio do equilíbrio orçamentário preconiza que as despesas autorizadas no orçamento devem ser compatíveis com as receitas estimadas, de forma a evitar déficits orçamentários. Isso significa que o governo deve planejarsuas despesas de forma a não gastar mais do que arrecada, garantindo, assim, a sustentabilidade das finanças públicas. No princípio da unidade orçamentária, o orçamento público deve ser único e integrado, abrangendo todas as receitas e despesas do governo, sem fragmentações por programas ou órgãos. Isso significa que todas as atividades e políticas governamentais devem ser contempladas dentro de um único documento orçamentário, proporcionando uma visão global e integrada das finanças públicas. O princípio da especificação determina que as receitas e despesas devem ser claramente discriminadas e identificadas no orçamento público. Isso significa que cada fonte de receita e cada tipo de despesa devem ser detalhados de forma específica e precisa. Ao especificar as receitas, o orçamento deve indicar a origem de cada uma delas, como tributos, transferências, operações de crédito, entre outras, bem como as respectivas estimativas de arrecadação. Já no que diz respeito às despesas, é necessário identificar claramente os programas, os projetos, as atividades e os órgãos aos quais os recursos serão destinados, além de detalhar os valores previstos para cada item de despesa. O orçamento público e sua execução devem ser transparentes e acessíveis ao público. Trata-se, então, do princípio orçamentário da publicidade. Isso significa que as informações orçamentárias devem ser divulgadas de forma clara, objetiva e compreensível, permitindo que os cidadãos, os órgãos de controle e a sociedade em geral acompanhem e fiscalizem as ações do governo. 39 O princípio da programação orçamentária determina que o orçamento público deve refletir um plano de trabalho detalhado, com programas e metas claramente definidas. Isso significa que as receitas e despesas devem estar vinculadas a objetivos específicos e planejados previamente, de modo a garantir que os recursos sejam utilizados de forma eficiente e eficaz na realização das políticas públicas. O princípio da não afetação das receitas estabelece que as receitas públicas não devem ser vinculadas ou destinadas a fins específicos, exceto nos casos previstos em lei. Isso significa que, em princípio, as receitas arrecadadas pelo governo devem ser utilizadas de forma geral e livre, sem restrições que limitem sua destinação a determinadas despesas ou programas. 4. O ciclo orçamentário brasileiro Como já vimos, a elaboração das leis orçamentárias deve envolver diretamente os poderes Executivo e Legislativo. Elas nascem no Poder Executivo, que as envia para o Congresso Nacional para apreciação, discussão e votação em sessão conjunta, isto é, com a presença dos senadores e dos deputados federais. Para que a tramitação das leis (PPA, LDO e LOA) ocorra sem maiores sobressaltos, negociações são necessárias para a escolha dos membros da comissão do orçamento e dos relatores dos projetos, para a validação do modelo macroeconômico a ser usado para a previsão da receita, para a elaboração dos textos dos relatórios etc. 4.1 Elaboração do PPA O ciclo orçamentário brasileiro se inicia com a elaboração do PPA. Sendo assim, o Presidente da República encaminha ao Congresso Nacional, por intermédio do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, 40 o projeto de PPA. Esse projeto, que engloba o texto da lei e diversos anexos, deve ser submetido até 31 de agosto do primeiro ano de seu mandato presidencial, com vigência estipulada de quatro anos. Após essa etapa, o projeto passa por uma tramitação legislativa, sendo publicado e direcionado à Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização (CMO) para análise e debate. O passo seguinte é a análise do projeto de PPA. O relator, incumbido dessa tarefa, deve examinar minuciosamente tanto o projeto de PPA quanto as emendas propostas, seguindo as diretrizes estabelecidas no Parecer Preliminar. No seu relatório, precisa justificar de forma clara e fundamentada a aceitação ou rejeição das emendas, além de explicar quaisquer outras alterações realizadas no texto original do projeto de lei. O resultado desse trabalho é a proposta de substitutivo, que inclui as modificações sugeridas a partir das emendas aceitas e das sugestões apresentadas pelo próprio relator. Após a aprovação pela CMO, o parecer é levado ao Plenário do Congresso Nacional para discussão e votação. Durante esse processo, os congressistas têm a prerrogativa de solicitar destaques para votar emendas separadamente, com o intuito de alterar os pareceres aprovados anteriormente pela CMO. Após a votação, o projeto é devolvido à CMO para redação final, recebendo o nome de Autógrafo. Esse documento, contendo o texto definitivamente aprovado do projeto ou substitutivo, é assinado pelo Presidente do Congresso e enviado à Casa Civil da Presidência da República para sanção. 4.2 Elaboração da LDO A elaboração do projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) cabe à Secretaria de Orçamento Federal, sendo então submetido ao Congresso Nacional pelo Presidente da República, que detém o poder 41 exclusivo de iniciar as leis orçamentárias. Este projeto, composto pelo texto legal e seus anexos, deve ser entregue ao Congresso até o dia 15 de abril de cada ano. O relator encarregado do projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) inicia seu trabalho elaborando um Relatório Preliminar, que, ao ser aprovado pela CMO, transforma-se em Parecer Preliminar. Esse parecer estabelece diretrizes, como condições para o cancelamento de metas, critérios para aceitação de emendas e normas para a apresentação e avaliação de emendas individuais e coletivas. Além disso, o Parecer Preliminar avalia os cenários econômico-fiscais e sociais, assim como os parâmetros macroeconômicos utilizados no projeto e as informações dos anexos, buscando análises preliminares do conteúdo proposto. Para enriquecer essa análise, a CMO realiza uma audiência pública com o Ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão antes da elaboração do Relatório Preliminar. Durante esse processo, parlamentares e Comissões Permanentes da Câmara e do Senado podem apresentar emendas. O relator é encarregado de examinar o projeto de lei de diretrizes orçamentárias e as emendas à luz do parecer preliminar. No relatório, deve justificar sua decisão sobre as emendas e quaisquer outras modificações no projeto. O resultado desse processo é a proposta de substitutivo, contendo as emendas e alterações propostas. O relatório e o substitutivo são submetidos à votação na CMO, exigindo a maioria dos membros de cada casa (Câmara Federal e Senado) para aprovação. Após a aprovação na CMO, o parecer é votado no Plenário do Congresso. Os congressistas podem pedir destaque para votar emendas separadamente. Concluída a votação, a matéria volta à CMO para a redação final. O texto final, assinado pelo Presidente do Congresso, 42 vai para sanção do Presidente. Ele pode vetar, e a parte não vetada é publicada no Diário Oficial como lei. O veto é apreciado pelo Congresso. 4.3 Elaboração da LOA O Presidente da República envia ao Congresso Nacional, até 31 de agosto, o projeto de lei orçamentária anual (LOA). Esse projeto, composto por diversos documentos, é submetido à apreciação do Congresso, no qual passa por análise na CMO e audiências públicas com representantes do Executivo e das diversas áreas orçamentárias. Um relator da receita, designado pela CMO, em colaboração com o Comitê da Receita, avalia a previsão de receita do Executivo para garantir sua adequação aos parâmetros econômicos. Se houver discrepâncias, a CMO pode sugerir uma nova estimativa. O relator produz o Relatório da Receita, examinando a situação macroeconômica, o impacto do endividamento e a trajetória da arrecadação. Além disso, fornece pareceres sobre emendas e caso ocorram mudanças na legislação tributária durante o processo. As emendas à despesa variam entre remanejamento, apropriação e cancelamento. No remanejamento, recursos são adicionados a certas dotações,anulando-se equivalentes de outras, exceto da Reserva de Contingência. Já na apropriação, os recursos são adicionados e anulados da Reserva de Recursos ou outras dotações. O cancelamento simplesmente reduz dotações existentes. Para aprovação, a emenda deve ser compatível com o PPA e a LDO, indicar recursos necessários e não violar normas regimentais. Bancadas estaduais e comissões permanentes do Senado e da Câmara podem apresentar emendas em suas áreas. 43 Após a aprovação do parecer da CMO, o projeto segue para discussão e votação no Plenário do Congresso Nacional. Durante essa fase, os congressistas têm o direito de solicitar destaque para votação separada de emendas, com o apoio de um décimo dos membros do Congresso. Concluída a votação, o projeto retorna à CMO para a redação final. O texto aprovado, conhecido como Autógrafo, é assinado pelo Presidente do Congresso e enviado à Casa Civil para a sanção presidencial. O Presidente tem o prazo de 15 dias úteis para vetar total ou parcialmente o autógrafo, comunicando os motivos ao Presidente do Senado. O veto é, então, submetido à apreciação do Congresso Nacional. Referências BRASIL. Lei nº 4.320, de 17 de março de 1964. Estatui Normas Gerais de Direito Financeiro para elaboração e controle dos orçamentos e balanços da União, dos Estados, dos Municípios e do Distrito Federal. Brasília: Presidência da República, [2024]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4320.htm. Acesso em: 14 jun. 2024. GIAMBIAGI, F.; ALÉM, A. C. Finanças públicas: teoria e prática no Brasil. 5. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016. MATIAS-PEREIRA, J. Administração pública: foco nas instituições e ações governamentais. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2018. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4320.htm 44 Déficit e dívida pública Autoria: Everton Santos Vasconcelos Leitura crítica: Milton Henrique do Couto Neto Objetivos • Conceituar o que é dívida pública. • Apresentar de que forma a dívida pública pode ser apresentada. • Analisar medidas tomadas pela Estado brasileiro para conter o aumento da dívida pública. • Examinar como o déficit público influencia na economia da sociedade brasileira. 45 1. Introdução Na esfera da vida privada, qualquer cidadão ou empresa que tenha como objetivo adquirir um novo bem ou ampliar sua linha de produção poderá recorrer a um empréstimo bancário. A instituição financeira, antes de conceder o empréstimo, avaliará uma série de fatores daquele que solicita o aporte financeiro. Os fatores vão desde a apresentação de garantias até a avaliação da capacidade de pagamento do solicitante. Ao se obter o empréstimo, automaticamente, cria-se, em quem o solicitou, uma obrigação de pagamento que, em muitos casos, pode ser de longo prazo. Dívida é uma palavra que pode assustar muitas pessoas. Sem preconceitos ao termo, dívida não é algo ruim, desde que o dinheiro obtido na operação financeira tenha sido empregado em alguma atividade bastante rentável e que também exista fluxo de caixa positivo capaz de pagar as parcelas do empréstimo. Por outro lado, dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) (Saraiva, 2024) apontaram que o percentual de famílias brasileiras endividadas caiu para 76,6% no ano de 2023. Essa realidade não se restringe às famílias ou às empresas; o poder público também pode se endividar para cumprir suas obrigações constitucionais, o que chamamos de dívida pública. Para Kohama (2016), a dívida pública é um procedimento adotado pelas administrações públicas modernas. Sempre que existe uma quantidade maior de despesas do que a arrecadação de receitas (déficit público), o Estado recorre a empréstimos no mercado financeiro. Para Giambiagi e Além (2016), existem três restrições capazes de limitar o endividamento público. A primeira delas seria o mercado. Nesse caso, a administração pública deve recorrer a credores, como bancos, brasileiros ou estrangeiros, para obter crédito para suas demandas. 46 Os autores deixaram claro um ponto: a obtenção do empréstimo só ocorrerá se os devedores gozarem de boa reputação de pagamento, isto é, os bancos e as demais instituições financeiras só emprestarão recursos se tiverem certeza que serão pagos oportunamente. A segunda restrição é a inflação. Se a quantidade de recursos que a administração pública necessita for vultosa e não houver forma de se obtê-la no mercado, caberá ao governo da ocasião emitir mais meios de pagamento – moeda. Muito dinheiro no meio circulante pode acarretar um aumento nos níveis de preços, que é a inflação. A última das restrições tem uma relação direta entre as instituições e a política fiscal implementada por elas (Giambiagi; Além, 2016). Para os autores, países que possuem instituições mais desenvolvidas, com alto grau de maturidade fiscal, transmitem maior confiança a seus credores. Em contrapartida, países menos desenvolvidos, onde o controle das forças políticas é mais frágil, os credores evitam efetuar transações financeiras de empréstimos. Outro tema que merece bastante atenção, tendo uma ligação forte com o endividamento público, é o controle do déficit público, que ocorre quando o governo gasta mais dinheiro do que arrecada em receitas. Isso pode acontecer por várias razões, como a necessidade de financiar programas governamentais, investimentos em infraestrutura, pagamento de juros da dívida pública ou em momentos de recessão econômica, quando as receitas fiscais diminuem. Com origem no latim, o termo déficit, atualmente, é usado para designar um saldo negativo nas contas, sobretudo quando se estuda finanças públicas. Quando um governo opera com déficit, ele geralmente precisa financiar essa diferença entre gastos e receitas por meio da emissão de dívida pública, como a venda de títulos do governo. Essa dívida acumulada resulta em um aumento do endividamento público, que pode ter implicações econômicas de longo prazo, como o pagamento de juros 47 sobre a dívida e a possibilidade de limitar a capacidade do governo de implementar políticas fiscais expansionistas no futuro. 2. Classificação da dívida pública 2.1 Conceito de receitas e despesas públicas É importante conhecermos um pouco mais sobre receitas e despesas públicas, devido à relação estabelecida entre elas no estudo da dívida pública. Segundo Kohama (2016), a receita pública é fruto de qualquer recolhimento efetuado aos cofres públicos, proveniente de dinheiro ou outros bens que possam ser expressos em valor segundo nossa legislação. Por outro lado, existem entradas de capital que não figurarão como receitas, como são os casos da emissão de papel moeda, as antecipações de entradas de receitas e as entradas compensatórias de ativo e passivo financeiro. As receitas podem ser orçamentárias e extraorçamentárias. As receitas orçamentárias, como o próprio nome nos sugere, são aquelas que estão previstas no orçamento público. As receitas extraorçamentárias são formadas por entradas de recursos que não pertencem ao Estado, mas ele age como fiel depositário delas. Outra forma de classificar as receitas é segundo critérios econômicos. As receitas nesse critério se classificam em correntes e de capital. As receitas correntes são, segundo o § 1º, do artigo 11, da Lei nº 4.320/64: “receitas tributárias, de contribuições, patrimonial, agropecuária, industrial, de serviços e outras e (...) as provenientes de recursos financeiros recebidos de outras pessoas de direito público ou privado” (Brasil, 1964, [s. p.]). As receitas de capital têm como origem os recursos obtidos em operações financeiras de empréstimos, vendas de bens ou cessão de direitos, o 48 superávit do orçamento corrente e os recursos recebidos de outras pessoas de direito público ou privado que tenham como objetivo atender a despesas classificáveis como despesas de capital (Kohama, 2016). Tabela 1 – Fontes de recursos governamentais Emissão de títulos públicos Empréstimos nacionaisEmpréstimos internacionais O governo emite títulos de dívida (como títulos do Tesouro) e os vende ao público ou a institui- ções financeiras. Os investidores compram esses títulos em troca da amortização do valor principal acrescido de juros. O governo pode obter emprés- timos de bancos ou instituições financeiras brasileiras, realizan- do o pagamento em prazos esti- pulados em contratos. O governo pode obter emprés- timos de instituições financeiras internacionais, de outros gover- nos ou de organizações, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Interamericano do Desenvolvimento (BID). Fonte: elaborada pelo autor. Os gastos públicos fixados em lei orçamentária, destinados à execução tanto dos serviços públicos quanto à aquisição de bens, são chamados de despesas públicas. Da mesma forma que as receitas, as despesas públicas também são classificadas em orçamentárias e extraorçamentárias. As despesas orçamentárias são autorizadas pelo Poder Legislativo, não podendo ser realizadas sem o correspondente crédito orçamentário. Já as despesas extraorçamentárias, que não dependem de autorização legislativa, não estão descritas em lei orçamentária e se destinam a fazer a restituição de valores recebidos, como cauções, depósitos, consignações etc. Segundo a categoria econômica, as despesas são classificadas como correntes e de capital. As despesas correntes correspondem aos gastos de natureza operacional, isto é, os valores são usados pela administração pública para a manutenção de sua estrutura e prestação de serviços (Kohama, 2016). As despesas de capital são os gastos destinados à aquisição ou à formação de bens de capital. De forma resumida, em cada ano, na época da elaboração e aprovação do orçamento, o poder público enfrenta um desafio: estimar as receitas e fixar 49 as despesas. É um desafio, pois, por lei, as despesas são fixadas segundo a arrecadação das receitas. No entanto, nada garante que as receitas estimadas para um determinado ano serão efetivamente recolhidas aos cofres públicos. Assim, para cobrir seus gastos, o governo poderá recorrer a empréstimos e financiamentos. 2.2 A relação entre a dívida pública e o PIB A dívida pública é tida como um padrão de medida de saúde financeira de um país. No entanto, devemos sempre nos atentar para alguns pontos importantes nessa análise (Giambiagi; Além, 2016). Nesse sentido, um ponto que deve ser considerado é o tamanho da economia do país. Isso nos ajudaria a responder se uma dívida pública de 100 bilhões de dólares é alta ou baixa. Se considerarmos a economia dos EUA, que encerrou 2023 com um PIB nominal de quase 27 trilhões de dólares (CNN Brasil, 2023), podemos considerar se tratar de uma dívida relativamente baixa. O mesmo não pode ser dito ao considerarmos a economia da Suíça, que encerrou 2023 com um PIB de 905 bilhões de dólares. Economistas e estudiosos das finanças públicas optam, então, por considerar a relação entre o PIB e a dívida pública em suas análises. Tabela 2 – Dívida pública em países selecionados–2010 Países Dívida do governo geral (% PIB) Espanha 131 Estados Unidos 110 França 114 Grécia 182 Itália 147 Japão 230 Polônia 56 Suécia 47 Fonte: adaptado de Giambiagi e Além (2016, p. 227). 50 A tabela anterior mostra que países bastante desenvolvidos, como é o caso do Japão e EUA, possuem dívidas superiores aos seus PIBs. Se olharmos somente para os dados, sem analisar as conjunturas política e econômica, poderíamos alcançar conclusões erradas. No entanto, por esses países possuírem bastante credibilidade junto a seus credores – por serem politicamente estáveis, possuírem bom histórico de pagamentos, terem uma economia forte etc. –, conseguem rolar suas dívidas por prazos maiores e taxas de juros mais baixas (Giambiagi; Além, 2016). Países em desenvolvimento têm mais dificuldade tanto para a rolagem da dívida quanto para a obtenção de novos créditos. Para fugirem dessa realidade, são obrigados a realizar operações de empréstimos com taxas de juros mais altas. A dívida pública pode ser composta por empréstimos de longo e de curto prazos. Kohama (2016) ainda nos diz que ela provém de outras fontes, como fianças, consignações, restos a pagar etc. No entanto, o mesmo autor a classifica em dívida fundada (ou consolidada), que pode ser interna ou externa, e dívida flutuante (ou administrativa). 2.3 Dívida pública fundada A dívida fundada possui como característica principal uma obrigação de longo prazo contraída pela administração pública. Essa dívida, de valor previamente determinado, se origina na emissão de títulos públicos, bem como mediante a assinatura de contratos de financiamentos junto a instituições financeiras (Kohama, 2016). A dívida é contraída para atender a desequilíbrios orçamentários ou a obras e serviços públicos e de grande importância. O prazo dessas obrigações é superior a 12 meses, sendo o pagamento efetuado mediante a amortização do principal, isto é, o valor obtido na operação, mais juros (Kohama, 2016; Pisciltelli; Timbó, 2019). Kohama 51 (2016) faz um alerta relativo ao prazo: a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) estabelece, em seu art. 3º, que operações de crédito inferiores a 12 meses, cujas receitas já constem no orçamento, são também consideradas como dívida fundada. Quando esse tipo de dívida é contraído pela emissão de títulos públicos ou mediante contratos de financiamentos realizados com instituições financeiras brasileiras, falamos em dívida fundada interna (Kohama, 2016). Se os empréstimos foram contratados no exterior, dizemos se tratar de dívida fundada externa. 2.4 Dívida flutuante A dívida flutuante, chamada também de dívida administrativa, é contraída pelo governo para fazer face a eventos de insuficiência de caixa por um curto prazo. Essa insuficiência, segundo Kohama (2016), surge por causa do descasamento entre a realização da despesa e a arrecadação das receitas. Piscitelli e Timbó (2019) nos dizem que a dívida flutuante independe de autorização orçamentária e é composta por: • Restos a pagar (despesas que foram contratadas, mas não pagas no mesmo exercício financeiro). • Serviços da dívida (juros, comissões, corretagem, taxas e encargos). • Depósitos (consignações) de terceiros. • Operações de crédito por antecipação de receitas. • Papel moeda ou moeda fiduciária. 52 A dívida flutuante já afetou a execução do orçamento em um dado momento, não necessitando, portanto, de autorização legislativa para sua realização. Além disso, Kohama (2016) alega que essa dívida surge por causa da condição de depositário exercida pelo poder público, isto é, recursos que não são mais dele, mas ainda estão sob sua responsabilidade. 3. Déficit público De maneira geral, o déficit público é uma situação em que os gastos do governo excedem suas receitas em um determinado período, resultando em um saldo negativo nas finanças públicas. De forma mais clara, ocorre quando o governo gasta mais do que arrecada em impostos, taxas e outras fontes de receita. De forma contrária, o superávit público é uma situação em que as receitas do governo excedem suas despesas em um determinado período, resultando em um saldo positivo nas finanças públicas. O déficit das contas públicas pode ser ocasionado por uma variedade de fatores, tanto estruturais quanto conjunturais, que resultam em um desequilíbrio entre as receitas e as despesas do governo. Um dos principais catalisadores desse desequilíbrio é a recessão econômica, período no qual a atividade econômica diminui, levando a uma queda na arrecadação de impostos ao mesmo tempo em que aumenta os gastos com programas de assistência social, como seguro-desemprego e assistência médica. Além disso, o aumento dos gastos governamentais, seja por meio de políticas de estímulo econômico, investimentos em infraestrutura ou incremento nos custos de programas sociais, pode acarretar déficits orçamentários se não houver um correspondente