Prévia do material em texto
Principais Conceitos em Terapia Familiar Sistêmica Teoria Geral dos Sistemas A Teoria Geral dos Sistemas desenvolvida pelo biólogo alemão Von Bertalanffy (2001)1 nos anos ’40/ ’50, preconiza que cada organismo é um sistema, um conjunto dinâmico de elementos e de processos entre os quais se exercem interações recíprocas. Isto significa dizer que a Teoria Geral dos Sistemas enfatiza a inter-relação e a interdependência entre os componentes que formam um sistema, o qual é visto como uma totalidade integrada, sendo impossível estudar seus elementos isoladamente; ou seja, ainda que possamos discernir as partes individuais de um sistema, o todo é sempre mais do que a mera soma de suas partes. Em outras palavras, a importância da teoria geral de sistemas é significativa tendo em vista a necessidade de se avaliar a organização como um todo e não somente em departamentos ou setores. É exatamente na teoria geral dos sistemas que se fundamenta a Terapia Familiar Sistêmica, cuja abordagem está mais voltada para o estudo dos acontecimentos e das pessoas em uma função interativa do que para as motivações intrínsecas de cada individuo. Paciente Identificado A idéia da escola sistêmica, segundo Vera Calil (1987)2, é a de considerar o chamado membro sintomático como um representante circunstancial de uma disfunção no sistema familiar. Segundo um exemplo da autora, quando a relação do casal se torna tumultuada por brigas e agressões, isto faz com que a família se sinta ameaçada em seu equilíbrio. 1 Bertalanffy discordava da perspectiva cartesiana de universo, e sugeria que se estudassem os sistemas globalmente, pois, segundo ele, cada um dos elementos ao serem reunidos para constituir uma unidade funcional maior, desenvolve qualidades que não se encontram em seus componentes de forma isolada. 2 Terapia familiar e de casal (1987). Neste caso, é comum que surja a figura do ‘bode expiatório’, eleito pela própria família como sendo o paciente identificado, geralmente ocupando o lugar de um dos filhos. Este desenvolverá um sintoma com o objetivo de chamar a atenção e de possibilitar que os pais se unam em seu socorro, mantendo a família afastada do real problema, neste caso específico, o desentendimento entre o casal. Aquele que desenvolve o sintoma é quem, usualmente, carrega a patologia de toda a família. Assim, podemos afirmar que o ‘paciente identificado’ funciona como regulador homeostático do jogo familiar. Ele demonstra uma absoluta centralidade de sua função como ‘doente’, bloqueando o surgimento de qualquer outro problema na família. Segundo Andolfi (1984) ele não é mais visto como pessoa, mas tão somente como uma ‘doença’. Dupla-Mensagem ou Duplo-Vínculo A teoria do duplo-vínculo foi formulada pelo antropólogo Gregory Bateson e seus colaboradores em Palo Alto, Califórnia, em 1956. Ela se baseia na análise da comunicação, partindo de observações do paciente psicótico e sua família. È o processo que ocorre quando alguém recebe uma mensagem contraditória vinda de uma mesma pessoa. Trata-se de um conceito da psicologia que se refere a comportamentos e mensagens ambivalentes onde são expressos comportamentos de afeto e agressão simultaneamente, onde as duas pessoas estão fortemente envolvidas emocionalmente e não conseguem se desvincular uma da outra. A contradição nesses dois níveis de comunicação leva à confusão e à imobilidade. O sujeito fica na incerteza sobre qual dos dois níveis de mensagem transmitida ele deverá responder. Para que o duplo vínculo se torne um sério distúrbio, ele precisa ocorrer no contexto de um relacionamento que seja significante para ambos os participantes. A teoria criada por Bateson descrevia sequências de comunicações paradoxais presentes nas famílias com membros esquizofrênicos. Segundo o autor, os esquizofrénicos não são capazes de diferenciar mensagens literais de comunicações metafóricas, provocando situações de crise quando lhes é proposto algo ambíguo. Concluindo, segundo estes autores, para que tenha lugar uma situação de duplo-vínculo são necessárias as seguintes condições: duas pessoas com um alto nível de envolvimento (em geral a mãe e o seu bebê); um paradoxo infringido pela mãe ao bebê que é chamado de "vítima"; a repetição desta experiência que passa a ser habitual; a impossibilidade da "vítima" de abandonar o campo, ou seja, escapar ao paradoxo (Féres, 1996). Homeostase O sistema familiar oferece resistência à mudança, mantendo, tanto quanto o possível, os seus padrões de interação, isto é a sua homeostasia. De fato, a ideia de homeostase significa a tendência que organismos vivos têm em manter o estado de equilíbrio sempre que este for alterado por condições adversas externas ou internas ao seu funcionamento. Em outras palavras, a homeostase é entendida como a tentativa do grupo familiar em manter as condições internas constantes, face ao ambiente externo variante. O conceito de ‘homeostase familiar’ (Andolfi, 1980) torna-se uma das metáforas definidoras da terapia sistêmica, possibilitando entender o que mantém as pessoas imobilizadas. Elas assim o fazem, porque resistem às mudanças preferindo, ao contrário, manter o seu estado intocável de homeostase disfuncional. As técnicas de intervenção terapêutica se manifestariam como tentativas de quebrar essa homeostase disfuncional, interrompendo sequências comportamentais recorrentes para que a família se reorganize sem a necessidade do sintoma. Um dos exemplos que ilustra a maneira como os sintomas dos pacientes preservam a estabilidade da família, diz respeito a uma jovem esquizofrênica que apresentava como um de seus sintomas, uma profunda depressão. Entretanto, quando ela conseguia agir de forma decisiva e atuante, os pais se desestabilizavam, tornando-se confusos e impotentes. Ao manter-se indecisa ou apática, a paciente protegia os pais de assumirem as suas próprias dificuldades e fraquezas. Ela se sentia responsabilizada por manter a homeostase disfuncional daquele grupo familiar e, para isso, era necessário manter-se doente. Equipe Terapêutica A terapia familiar sistêmica costuma trabalhar, inequivocamente, em equipe. Seus centros de formação são locais de aprendizagem e treinamento. Algumas Escolas da terapia familiar sistêmica – especialmente a Escola de Milão e a Escola Psicodinâmica - costumam trabalhar com uma equipe de campo formada por dois terapeutas homens e duas mulheres para equilibrar quanto às questões de gênero. De qualquer forma, todos os componentes da equipe terapêutica (neste caso específico, com especial destaque aos da Escola de Milão) exercem as mais diversas funções, desde o atendimento inicial através do primeiro telefonema, como no preenchimento das fichas de inscrição com os detalhes de cada membro da família, até o trabalho como terapeuta e co-terapeuta de campo. Aqueles terapeutas – incluindo alunos, supervisores e observadores - que não estejam trabalhando no campo naquele momento, estarão observando esta mesma sessão, posicionados atrás do espelho unidirecional. Assim, a terapia familiar sistêmica conta com o trabalho de uma equipe terapêutica que se mescla e que se intercala entre os seus terapeutas nas mais distintas funções, desde o trabalho de atendimento às demandas apresentadas pelas famílias no contato telefônico, até ás sessões propriamente ditas, como também às supervisões clínicas. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA ANDOLFI, M. A Terapia Familiar. Lisboa: Editorial Vega, 1980 BATESON, G. Comunication: la matriz social de la psiquiatria. Buenos Aires: Paidos, 1965. FÉRES, C. Terapia familiar: divergências. PUC, RJ, 1996. PALLAZOLI, M. S. Paradox and Counterparadox. Jason Aronson, New York, 1978 Disciplina: Psicoterapia de Casal e Família Professora: Elza Ibrahim 2024.2