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Instituto Universal Brasileiro Educação de Jovens e Adultos a Distância BRASILEIRO Curso a distância de: SUPLETIVO PREPARATÓRIO ENSINO MÉDIO Série HistóriaENSINO MÉDIO HISTÓRIA SÉRIE AULA 11 AS RAÍZES DO REPUBLICANISMO À REPUBLICA DA ESPADA INTRODUÇÃO De acordo com os acontecimentos ocorridos, veremos que, muito mais do que um fervoroso ideal republicano, houve o descrédito na monarquia, a partir da segunda metade do século XIX. Na verdade, as instituições monárquicas há muito vinham se mostrando inadequadas à nova realidade da nação, naquele período. Mais do que qualquer outro motivo, a decadência do sistema imperial, arcaico e destituído de bases sociais, exigia, ela própria, uma substituição. A República se fará nesses termos. o IDEAL REPUBLICANO Estaríamos incorrendo em erro se afirmássemos ter havido idéias republicanas, em sua verdadeira acepção, durante a fase colonial. Entretanto, alguns ideais esparsos se aproximavam do espírito republicano e não devem ser desprezados. Em 1710, por exemplo, quando da Guerra dos Mascates, o sargento-mor Bernardo Vieira de Melo men- cionara a adoção de um sistema republicano, em Pernambuco, caso fossem bem sucedidos na guerra. Contudo, é pre- ciso ressaltar que essa república se faria nos moldes da que então vigorava em Veneza destituída de qualquer senso democrático e, na realidade, tão somente uma oligarquia aristocrática. De qualquer forma, falar em república naqueles tempos coloniais era, realmente, algo revolucionário demais. Também por ocasião da Inconfidência Mineira se acendeu uma pequena chama republicana, soprada pelo to liberal dominante na época. Lembre-se de que o absolutismo na França atravessava seus derradeiros dias e a burguesia se achava em plena ascensão política, fatos que não passavam despercebidos aos nossos jovens que estudavam nos colégios e universidades européias. Igualmente se cogitou em república na Conjuração Baiana (1 798), na Revolução Pernambucana de na Confederação do Equador na Guerra dos Farrapos (1 835), na Sabinada 1837) e até na Revolta Praieira de Todavia, esses esparsos gritos republicanos nada mais eram do que um recurso e, além disso, à aristocracia rural não interessavam alterações profundas nas instituições; a estrutura de dominação poderia ser abalada, que a atemorizava. As lojas maçônicas, partidárias da república, com líderes como Joaquim Gonçalves Ledo e Januário da Cunha Barbosa, lutaram contra o monarquista José Bonifácio. Entretanto, não o puderam conter em sua campanha em prol da independência com manutenção da monarquia, após o retorno do D. João VI a Portugal, em 1820. Portanto, nessa ocasião, proclamada a independência e mantido o regime os ideais republicanos do grupo maçônico foram controlados. Ao assumir o ministério, José Bonifácio obrigava todos a obedecerem a sua própria orientação política. Conforme já foi salientado, José Bonifácio lutava pela um regime em que o impe- rador e seu ministro se guiassem num forte poder pessoal. José Bonifácio chegou a perseguir duramente os republicanos, obrigando o próprio Gonçalves Ledo a refugiar-se em Buenos Aires. trono se mantinha intacto, mas nada impedia que as idéias republicanas agora tomassem forma. Podemos assinalar como marco inicial da propaganda republicana o ano de com a fundação, no Rio de Janeiro, do Clube Republicano. Contava ele com elementos como Saldanha Marinho, Quintino Bocaiúva, Salvadorde Mendonça, Aristides Lobo e Rangel Pestana. primeiro manifesto republicano foi publicado no jornal "A República", em seu primeiro exemplar, a 3 de dezembro de De um modo geral, o manifesto se batia pela extinção do poder pessoal do Imperador, combatia o regime representativo, bem como a centralização do Poder Executivo. manifesto, porém, não teve a repercussão que se esperava, talvez pela falta de um clima Além disso, quando se procurou abordar o problema da extinção da escravatura, muitos republicanos tiveram seu ardor republicano refreado, pois eram senhores de escravos. Alguns acontecimentos, entretanto, no reativamento da campanha republicana, entre eles a questão religiosa e a questão militar. Império se mostrará absolutamente incapaz de solucioná-las a contento. A questão religiosa Promulgada a Constituição de 1 824, ficava estabelecido que o Brasil teria como religião oficial, a Católica Apostólica Romana. Poder-se-ia, entretanto praticar outras religiões, pois haveria liberdade de culto. Existia também, o regime de padroado, herdado de Portugal, que mantinha a Igreja subordinada ao Estado, ao qual era facultada a escolha dos sacerdotes para o preenchimento de cargos eclesiásticos. Até o direito de criação de igrejas era desfrutado pelo Império. Os clérigos atuavam como espécie de funcionários públicos, já que eram pagos pelo Estado. Portanto, era óbvio que a intromissão do Estado nos assuntos da Igreja não era aprovada pela Santa Sé, gerando conflitos. A Maçonaria sempre esteve ligada aos movimentos políticos do Brasil, pois já vimos que estadistas importantes, como José Bonifácio por exemplo, prestigiavam as "lojas" maçônicas (antes, sociedades secretas). Mesmo D. Pedro I chegara a receber o título de grão-mestre da maçonaria, dai sua importância. A Igreja, porém, condenava a maçonaria, embora nunca a houvesse hostilizado. A maçonaria brasileira destaca- va-se, aliás, por características próprias: não era anti-religiosa (alguns padres a integravam) e muitos afirmavam que ela não era prejudicial às instituições brasileiras. Todavia, em o Papa Pio IX publicou a "Syllabus" e um de seus principais itens era a proibição aos membros da Igreja de pertencerem à maçonaria. Seria esse o ponto de partida para sérios conflitos entre o governo e dois bispos. primeiro deles foi o Bispo D. Pedro de Lacerda, que, numa solenidade maçônica levada a efeito no Rio de Janeiro, em exigiu que o padre Almeida Martins, maçom, abandonasse a maçonaria. A recusa que recebeu levou-o a suspender o sacerdote de suas ordens. Imediatamente, todo o corpo maçônico se levantava contra o episcopado. Outro incidente teve lugar em Olinda, quando o Bispo D. Vital de Oliveira exigiu que fossem banidos das con- frarias adeptos da Maçonaria. Antes, suspendera dois padres que se haviam recusado a abandonar suas atividades como maçons. Outros bispos, como o do Pará, tomaram atitudes idênticas, fato que levou as Irmandades a apelar ao governo, no sentido de que impedisse tais atitudes dos bispos; a resposta do governo a esses apelos, foi uma imediata intimação aos bispos, para que revogassem as suspensões. Contudo, os bispos negaram-se a atendê-lo, afirmando que não iriam permitir que o Estado interferisse em suas funções espirituais. Estava aberta a questão que dividiria o país em dois blocos: de um lado se achavam os que o governo; de outro, os que abraçavam a causa dos bispos. Reuniu-se o Conselho de Estado, sob a presidência de D. Pedro II, manifestando-se contrariamente aos bispos, por julgá-los "infratores da Constituição e das demais leis do país". No Rio de Janeiro, os bispos foram processados e condenados a quatro anos de prisão, cada um, no ano de 1874. No ano seguinte, porém, no ministério do Duque de Caxias, foram anistiados. Confirmava-se, assim, a situação de fun- cionários públicos dos clérigos, naquela época. Todo esse incidente foi mais um ponto negativo contra a monarquia, já bastante desgastada. Os católicos, a grande maioria, no Império, ressentiram-se com a coroa. Por sua vez, os republicanos, que tinham em suas metas a separação entre Igreja e Estado, rejubilaram-se diante da circunstância, totalmente favorável à sua campanha, causada pela questão religiosa.As questões militares Praticamente, até os princípios da Guerra do Paraguai, o exército mantinha-se ausente da vida política do país; suplantava-o a Guarda Nacional, milícia de proprietários. Com a Guerra do Paraguai, que exigiu força militar tecnicamente apta e profissional, veremos que o exército se transformará em importante força política e social. Quando a guerra terminou, nos militares brasileiros ficaram fortes impressões dos regimes republicanos, embora plenos de caudilhismo, dos países que nos faziam fronteira. Mas, voltan- do a paz, a instituição militar continuou em sua posição secundária na vida do país. o descontentamento advindo dessa situação gerará as chamadas questões militares. A primeira dessas questões remonta a quando da apresentação de um projeto à Câmara dos Deputados, que propunha reforma no montepio militar. Tal projeto era de inspiração do marquês de Na Escola Militar, organizou-se um "Diretório", sob a presidência do Tenente-Coronel Sena Madureira, que se lançou à condenação do referido projeto, expondo seu parecer na imprensa. Diante disso, o Ministro da Guerra proibiu, terminantemente, a discussão de problemas militares na imprensa, por parte dos oficiais. A outra questão se verificou em 884. Nesse ano ofereceu-se ruidosa acolhida a um jangadeiro cearense, Francisco do Nascimento pelo fato de haver impedido que escravos de Fortaleza embarcassem para o Sul. A recepção foi oferecida na Escola de Tiro de Campo Grande, no Rio de Janeiro, cujo comando se achava em mãos do mesmo Sena Madureira (já envolvido na questão anterior). Chamado a justificar seu procedimento, o oficial acabou sendo demi- tido do comando que exercia, por ordem do Ministro da Guerra. A terceira questão foi no ano imediatamente posterior ao do conflito descrito há pouco. Principiou quando o Coronel Cunha Matos foi injustamente atacado pelo deputado piauiense Simplício Coelho de Rezende. Ocorre que Cunha Matos notara certas irregularidades na Companhia de Infantaria do numa inspeção, decidindo promover a remoção do comandante-geral dessa companhia. citado deputado piauiense, tentando defender o comandante-geral, atacou Cunha Matos, que, por sua vez, respondeu a esses ataques pela imprensa. Estava, portanto, infringindo uma determinação anterior, tendo sido advertido e preso por 48 horas. fato ocorreu no mês de julho de incidente tomou vulto quando, na tribuna do Senado, Cunha Matos foi defendido pelo Visconde de Pelotas, senador liberal pelo Rio Grande do Sul. Nessa mesma o comandante da Escola de Tiro do Rio Pardo, Sena Madureira, mais uma vez se colo- ca em evidência, ao publicar no jornal "A Federação" (republicano) um artigo em que se defende das acusações que sobre ele se lançaram, quando de sua demissão, em No seio do exército, os oficiais injustiçados eram alvo da solidariedade por parte dos outros militares, destacando- se, dentre eles, a figura do Marechal-do-Campo Deodoro da Fonseca, que, juntamente com o Visconde de Pelotas, assina um enérgico manifesto "ao Parlamento e à Nação". Tal manifesto havia sido escrito por Rui Barbosa. governo tentava controlar as manifestações militares, mas só conseguia pôr em prática medidas conciliatórias, que superassem as crises. Os problemas continuavam, porém, insolúveis. Exército firmava-se e o sistema imperial se decompunha cada vez mais e, com ele o poder civil. Entretanto, é preciso ressaltar aqui que não havia interesse na derrubada da monarquia; muitos militares eram monarquistas convictos, particularmente os oficiais superiores. republicano havia tomado conta dos tenentes e por influência de Benjamin Constant, profes- sor da Escola Militar, cujo papel na proclamação da República será destacado. Além do problema da abolição, da crise religiosa e das crises militares, outro fator importante deve ser menciona- do, por haver influído na mudança de regime: a sucessão ao trono. D. Pedro já se achava bastante idoso e doente e, com sua morte, certamente o trono seria ocupado por sua filha Isabel, casada com Gastão Conde d'Eu. Havia o temor de um terceiro reinado, de o Poder Moderador ser desempenhado por uma mulher, "carola", para a maioria dos republicanos. Os mais exaltados chegavam, inclusive, a falar no governo de um "rei francês" referindo-se ao marido da Princesa Isabel, tido como presunçoso e avarento.A impopularidade do conde d'Eu, contudo, era inexplicável, pois ela já dera mostras de retidão e competência, quando das Campanhas do Sul. De qualquer forma, souberam os republicanos tirar o melhor proveito dessa impopularidade, em favor de sua campanha. A época era de grande efervescência e o clima revolucionário em prol da República já se havia iniciado com o movimento abolicionista. Contudo, Oliveira Viana assim comenta o momento histórico: não era a da República que criava novos adeptos do ideal republicano, mas a descrença na monarquia; não se pedia, não se reclamava tanto a República quanto se condenava ou se acusava a Monarquia." A própria heterogeneidade dos adeptos do republicanismo explica essa insatisfação: havia os republicanos históricos de convictos de seus ideais, mas moderados, como Quintino Bocaiúva; a juventude exaltada, revolu- cionária, composta de elementos exaltados, como Silva Jardim; os militares idosos, sem idéias definidas; os jovens militares, dotados de idéias positivistas e liderados por Benjamin Constant; os monarquistas escravistas, adeptos da república mais por terem se decepcionado com a assinatura da Lei Áurea; e, finalmente, os católicos ressentidos com o Império, face aos acontecimentos que marcaram a questão religiosa. A PROCLAMAÇÃO DA REPUBLICA o gabinete Ouro Preto Em junho de forma-se o gabinete liberal de Visconde de Ouro Preto, sobre quem as simpatias da Princesa Isabel. gabinete anterior, conservador, tendo a João Alfredo, teve que enfrentar uma forte oposição, a insubordinação das Forças Armadas, não conseguindo firmar-se no poder. Ouro Preto, sentindo a gravidade do momento, procura pôr em prática um programa reformista, visando inclusive à federação das províncias (autonomia dos municípios e províncias). Seu programa incluía, ainda, liberdade de religião, reforma do Conselho de Estado, liberdade de ensino, temporariedade do Senado, enfim, medidas que levassem o país tanto ao desenvolvimento social como econômico. Contudo, nenhuma dessas promessas pôde acalmar o ardor da oposição ao governo, fortemente impulsionada por Rui Barbosa (que chegara até a recusar-se a fazer parte do ministério). A campanha anti-governamental se fazia no "Diário de Notícias". Ouro Preto ainda procurou uma solução para a insatisfação dos militares, convidando dois oficiais superiores a ocuparem as pastas da Guerra e da Marinha: o Barão de Ladário e o Visconde de Maracaju. Além disso, entregou o cargo de ajudante-general do Exército a Floriano Peixoto e nomeou diversos oficiais para presidentes de Nada disso, entretanto, pôde impedir o fechamento da Câmara, em junho de Sua convocação extraordinária se daria a 20 de novembro. Enquanto prosseguia a campanha jornalística de Rui Barbosa contra o governo, realizava-se na Fiscal um grande baile (9 de novembro de 1889). Homenageavam-se, nessa ocasião, alguns oficiais do cruzador chileno "almirante Cochrane". Ao mesmo tempo, na Escola Militar, o Tenente-Coronel Benjamin Constant fez um discurso, atacando violenta- mente o governo. Alguns dias depois, os alunos da Escola Superior de Guerra e oficiais de várias unidades sediadas no Rio apóiam Benjamin. Um golpe foi então articulado e programado para o dia 17, contando com o apoio de Floriano Peixoto. Contudo, um boato precipitaria os acontecimentos: falava-se em todo lugar que Deodoro e Benjamin haviam sido presos. Os conspiradores, diante dos últimos acontecimentos, estavam certos de que o governo não tardaria a reagir. Aproveitando-se da grande agitação provocada pelo boato, Benjamin e Deodoro conduziram as tropas ao Campo da Aclamação. Nesse local, fortemente cercado por marinheiros, soldados e força policial, reunira-se o ministério Ouro Preto. Ao aproximar-se Deodoro nenhuma arma se apontou em direção a ele; o que se ouviram foram vivas a Deodoroe à República. ministério ali reunido caíra numa autêntica armadilha. Era o dia 15 de novembro de 1889. Penetrando no quartel, onde se reunira o ministério, Deodoro declarou-o deposto e, em seguida, reuniu as tropas, para que desfilassem na cidade. Em todos esses acontecimentos, um único tiro foi dado, contra o Ministro da Marinha, Barão de Ladário, que ten- tou resistir à ordem de prisão que lhe fora dada, quando procurava reunir-se ao ministério, no Interior do quartel-general. Tais acontecimentos não tiveram grande repercussão, mas o Imperador, avisado por telegrama do que se pas- sara, deixou Petrópolis. papel de Deodoro na proclamação é muito discutido, desconhecendo-se qualquer fato antecedente que hou- vesse mostrado ardor republicano de sua parte. Ao contrário, Deodoro era monarquista e grande amigo do Imperador. É possível que, intimamente, Deodoro se contentasse apenas com uma mudança de gabinete, mas, como já estivesse envolvido demais nos acontecimentos, seria praticamente impossível retroceder. Ainda indeciso quanto a que atitude tomar, Deodoro ouvira os vivas à República, que partiam dos militares (nas janelas do quartel-general) e dos civis (no Campo da Aclamação). Por fim, a influência de Benjamin Constant e Sólon Sampaio Ribeiro, republicanos convictos e exaltados, fê-lo decidir-se pela República. Governo Provisório Uma vez extinto o sistema representativo, uma das primeiras iniciativas do Governo Provisório foi o banimento da família imperial. o Imperador e sua família partiram para o exílio, na madrugada do dia 17 de novembro de 1889, embarcando no navio mercante "Alagoas". Governo Provisório, encabeçado por Deodoro, ficou assim constituído: Benjamin Constant (Ministro da Guerra); Rui Barbosa (Fazenda); Eduardo Wandenkolk (Marinha); Quintino Bocaiúva (Exterior); Campos Sales (Justiça); Aristides Lobo (Interior); Demétrio Ribeiro (Agricultura). A República Federativa foi proclamada pelo Decreto n° 1 de 15 de novembro, tendo sido fechadas as Assembléias Provinciais e as Câmaras Municipais; a vitaliciedade do Senado é abolida. A Assembléia Constituinte é convocada para o dia 15 de novembro de tendo sido criada a bandeira da República, a 19 de novembro. Conservando as mesmas cores da bandeira imperial, acrescentava-se-lhe apenas o lema positivista "Ordem e Progresso". Outras das principais medidas tomadas pelo Governo Provisório foram: separação entre Igreja e Estado; insti- tuição do casamento civil e do registro civil; "grande naturalização", para todos os estrangeiros que a desejassem; pro- mulgação do Código Penal; reforma financeira e do ensino. o "encilhamento" A reforma financeira a que nos referimos no item anterior foi obra de Rui Barbosa, Ministro da Fazenda, sendo conhecida como "encilhamento" (que quer dizer jogo, aposta, aventura, etc.). Tendo como meta prio- ritária o estímulo à economia, o governo facilitou o crédito. Desse modo, os bancos passaram a emitir uma quantidade fabulosa de papel-moeda. Multiplicaram-se companhias absurdas, cujo único fim foi a exploração de suas ações, na Bolsa de Valores, com cotações imaginárias. Era de se esperar que, face à multiplicação do meio circulante, crescesse a inflação, o que realmente veio a ocor- rer. Era o caos financeiro. As empresas que se haviam criado não podiam pagar suas dívidas. Crescia a inflação, enquanto baixava a taxa cambial, favorecendo as moedas estrangeiras. próprio Rui Barbosa reconheceu o erro cometido e tomou algumas medidas paliativas, cujo efeito quase não se notou; a oposição dos outros ministros aos planos de Rui era evidente. Demétrio Ribeiro, Ministro da Agricultura, chegou a demitir-se, devido a desentendimentos gerados quando da aplicação da reforma bancária. A presidência do Marechal Deodoro da Fonseca (1891) mandato do Governo Provisório estendeu-se até a promulgação da nova Carta Constitucional, em 15 de novembro de 1890.A segunda Constituição brasileira entrou em vigor a partir de 24 de fevereiro de iniciando-se ai o período conhecido como "República Velha", que vai até 1 930. A primeira foi a de 1824 durante a Monarquia. Deodoro da Fonseca foi eleito Presidente da República através de voto indireto, pelo Congresso. Ele conseguiu 129 votos contra 97 atribuídos a Prudente de Morais (presidente da Câmara dos Deputados). Disputavam a Vice- Presidência o ex-Ministro da Marinha, Eduardo Wandenkolk, e o ex-Ministro da Guerra, Floriano Peixoto. Venceu este último. Entretanto, a votação elevada da chapa oposta à de Deodoro e Floriano demonstrava claramente a forte oposição que enfrentaria esse governo. A Constituição de 1891 determinava que o governo do país se dividisse em três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário. poder Legislativo compunha-se do Senado (três senadores por Estado, eleitos por nove anos) e da Câmara dos Deputados (número de deputados proporcional ao de habitantes e mandato de três anos). Ambos formavam o Congresso Nacional. Ao Presidente da República cabia desempenhar o Poder Executivo (mandato de quatro anos e reeleição proibi- da). Escolhia seus ministros e responsabilizava-se pela execução das leis, uma vez aprovadas pelo Congresso. Por sua vez, o Poder Judiciário caracterizava-se pela descentralização, isto é, cada unidade da Federação deve- ria aparelhar-se legalmente para executá-lo. Seu principal órgão era o Supremo Tribunal Federal, formado por mi- nistros escolhidos pelo Presidente da República. Em suma, duas características básicas podem ser apontadas na Constituição de "1891": o federalismo e o presiden- cialismo, e suas determinações mais importantes eram: o estado de sítio, o habeas corpus, a abolição dos títulos de nobreza, a inviolabilidade de domicílio e correspondência, liberdade de religião, pensamento e imprensa, garantia de direitos a todos os cidadãos. Essa Constituição mantinha a separação entre Igreja e Estado; determinava que o voto fosse direto, aberto e universal, para maiores de 21 anos, mas proibido aos analfabetos, mulheres, religiosos e praças. A forte oposição a Deodoro já era notória desde o Governo Provisório, devido principalmente aos excessos de autori- dade que ele cometia. No dia 20 de janeiro de 1891, deu-se a demissão coletiva de todo o ministério do Governo Provisório. Deodoro confiou ao Barão de Lucena, monarquista convicto, a tarefa de formar novo gabinete. Os ataques às ati- tudes de Deodoro passaram a ser mais veementes, aumentando a sua irritação. Tendo sido aprovada uma "lei de responsabilidade do Presidente da República", Deodoro fechou o Congresso, a 3 de novembro de 1891 e, embora des- tituído de poderes para isso, proclamou o estado de sítio. De todos os Estados chegavam telegramas e manifestações de apoio aos atos de Deodoro. Apenas o Pará, na pessoa de seu governador, Lauro Sodré, não enviou seu apoio ao governo. No Rio Grande do Sul, em meio a grande agitação é deposto o governador Júlio de Castilho, enquanto no Rio de Janeiro ocorre a Revolta da Esquadra, a 23 de novembro. almirante Custódio José de Melo, após tomar vários navios, ameaça bombardear a cidade, e obriga o governo a render-se. Deodoro contava com o apoio da maioria da guarnição militar mas, receando a guerra civil, decide renunciar. governo foi entregue ao Vice-Presidente Floriano Peixoto, encerrando Deodoro a sua carreira política e militar. A presidência de Floriano Peixoto (1891 1894) A consolidação da República dá-se no governo do Marechal Floriano Peixoto, conhecido como o Marechal de Ferro, pela energia com que sufocou as rebeliões político-militares de seu governo. Tão logo assumiu a presidência, Floriano anulou o ato anterior que fechou o Congresso, suspendeu o estado de sítio, bem como concedeu liberdade aos presos políticos. Contudo, nenhuma providência tomou quanto às eleições que se deveriam fazer para a presidência. Em abril de 892, recebe o famoso Manifesto dos Treze Generais, intimação dos militares no sentido de que procedesse às eleições. Aproveitando-se de uma contradição existente no texto constitucional, Floriano manteve-se no poder: a Comissão de Justiça da Câmara Federal manifestou-se inteiramente a favor de sua permanência no poder.Vários civis e militares que haviam exigido a volta de Deodoro ao poder foram presos e exilados para a região amazônica. Uma rebelião na fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, é logo sufocada. Todos os governadores apoiaram Deodoro em seu golpe foram afastados de seus cargos. Em fevereiro de 1 893, no Rio Grande do Sul, ocorrem sérias lutas partidárias, que originam a guerra civil. castilhistas, ou pica-paus, tendo a chefiá-los o presidente do Estado, Júlio de Castilhos, lutavam contra os federalis- tas, também chamados maragatos, liderados por Silveira Martins, monarquista, e pelo caudilho Gumercindo Saraiva. Os federalistas almejavam expulsar Castilhos do poder, sendo favoráveis à supremacia do poder federal sobre o estadual e ao parlamentarismo nos moldes em que vigorara, durante a monarquia. Floriano apoiava os republicanos castilhistas, face à necessidade de apoio da bancada gaúcha no Congresso. Em 893, dá-se a articulação da revolução federalista com a revolta da Armada. Esta última foi a explosão de uma velha rivalidade existente entre o Exército e a Marinha (era acusada de nutrir idéias de restauração enquanto os oficiais do Exército provinham em geral da pequena burguesia e, desde a Guerra do Paraguai, mostravam- se a favor de reformas). Contudo, a união dos federalistas com a Armada tinha uma finalidade imediata: a derrubada de Floriano. Os principais líderes da Marinha eram Saldanha da Gama e Custódio de Melo, este último o responsável pela revolta da esquadra do Rio de Janeiro. governo decreta o estado de sítio e guarnece toda a costa do Rio e Niterói com forças do Exército. Formam-se os batalhões patrióticos. porto de Paranaguá cai em mãos de Custódio de Melo. Paraná e Santa Catarina são invadidos pelos fede- ralistas. Apesar de alguns insucessos, as forças legalistas (florianistas) acabam vencendo. Os revoltosos fogem para a Argentina e Uruguai. Milhares de prisioneiros são fuzilados. À custa de sangue e violência, a República fora salva. Vocabulário Bancada: Conjunto de senadores ou deputados de um Estado. Chapa: Lista de candidatos às eleições. Confraria: Irmandade; associação religiosa. Encíclica: Carta circular pontifícia sobre dogma ou disciplina. Episcopado: Dignidade e exercício da jurisdição de bispo. Heterogeneidade: Mistura de várias tendências; complexidade. Contrário à lei; ilegítimo. Inquérito: Interrogatório de testemunhas; sindicância. Interventor: Aquele que assume o governo de um Estado da Federação, como representante do governo Federal, em épocas especiais. Inviolabilidade: Qualidade do que é inviolável, isto é, que não pode ser infringido, desrespeitado, que é indevassável. Messiânico: Relativo a um messias, aquele que é encarado como reformador social, misticamente. Montepio: Instituição em que cada membro, mediante parcela mensal, adquire o direito de deixar, por sua morte, uma pensão à família. Prioritária: Que deve estar em primeiro lugar. Prorrogar: Prolongar; dilatar um prazo estabelecido. Remanescente: Que ou aquilo que restou; sobra. Revezar-se: Alternar-se. Saneamento: Ato ou efeito de sanear, isto é, tornar higiênico, limpo, habitável. Veto: Proibição; suspensão; oposição.EXERCÍCIOS PARA VOCÊ ESTUDAR 1. Neste exercício, fazemos algumas afirmações. d) (X) as assembléias provinciais e as câmaras munici- Algumas são verdadeiras, outras, falsas. Indique as ver- pais foram dissolvidas. dadeiras com (V) e as falsas com (F). e) o caráter vitalício do senado foi abolido. f) ( ) a bandeira brasileira tinha como lema marxista: a) (V) Floriano Peixoto era denominado de o "Marechal "Ordem e Progresso". de Ferro" pelo rigor com que sufocou as rebeliões g) ( ) outras medidas foram tomadas como: a separação durante o seu governo. entre Igreja e Estado, a instituição do casamento civil, a b) (V) As primeiras medidas tomadas no governo de naturalização de estrangeiros, a promulgação do código Floriano Peixoto foram reabrir o Congresso, suspender o penal e reformas na economia e educação. estado de sítio e conceder anistia aos presos políticos. c) (V) "Manifesto dos Treze Generais" exigia a convo- 3. Neste exercício, fazemos algumas afirmações. cação para novas eleições presidenciais. Algumas estão corretas, outras, incorretas. Indique as d) (F) Floriano Peixoto acatou a decisão do "Manifesto corretas com (C) e as incorretas com (I). dos Treze Generais", renunciando ao cargo de presi- dente da república. a) poder judiciário é caracterizado, ainda hoje, Comentário: Floriano Peixoto não acatou a decisão dos pela atuação do seu principal órgão, o supremo tribunal generais, puniu-os com a exoneração do exército. federal. b) Duas características principais da constituição de 2. Marque com um (X), as alternativas que expressam foram o federalismo e o presidencialismo. as principais medidas tomadas pelo Governo Provisório c) Uma importante característica da constituição era o voto para maiores de 21 anos, direto, aberto e universal. a) (X) a extinção da monarquia. d) A Constituição de 1891 permitia a votação de b) ( ) a permanência do imperador D. Pedro II, no Brasil. analfabetos, mulheres, religiosos e praças. c) (X) a convocação de um novo ministério e a confir- Comentário: A Constituição de não permitia a mação do regime republicano federativo. votação de analfabetos, mulheres, religiosos e praças. EXERCÍCIOS PARA VOCÊ RESOLVER Marque com um (X) a alternativa que completa correta- b) ( ) a lei de responsabilidade do Presidente da Re- mente os testes abaixo: pública. c) ( ) o Tratado de Petrópolis. 1. Deodoro da Fonseca renunciou a presidência do Brasil, d) ( ) o Convênio de Taubaté. sendo o cargo entregue ao vice-presidente que era 3. Com relação a Constituição da República de a) ( ) Floriano Peixoto. afirmamos que b) ( ) Prudente de Morais. c) ( ) Campos Sales. a) ( ) essa Constituição estabeleceu a existência de três d) ( ) Rodrigues Alves. poderes, o executivo, legislativo e judiciário, onde repre- sentantes do executivo e legislativo seriam escolhidos indi- 2. Deodoro da Fonseca ao decretar o fechamento do retamente, através do Congresso Nacional. Congresso Nacional desrespeitou a Constituição, come- b) ( ) essa Constituição estabeleceu a existência de tendo atos violando quatro poderes, o moderador, o executivo, o legislativo e o judiciário, onde o poder moderador, representado pelo a) ( ) o manifesto dos treze generais. presidente tinha poderes ilimitados.c) ) essa Constituição estabeleceu a existência de três dente Deodoro e a crise do poderes, o executivo, legislativo e judiciário, onde os repre- c) ) o não reconhecimento da república por vários paí- sentantes do poder judiciário seriam escolhidos pelo ses. imperador, D. Pedro II. d) a influência das idéias socialistas defendidas pelos d) ( ) essa Constituição estabeleceu a existência de um militares. único poder, o moderador, onde o exercício do poder era de controle exclusivo do monarca. 5. Um dos acontecimentos que caracterizou o governo constitucional de Marechal Deodoro da Fonseca foi 4. Entre os fatores que promoveram a crise do governo provisório. Destacamos o seguinte motivo: a) a "Revolução Pernambucana", no nordeste. b) a dissolução do Congresso Nacional em 3 de novembro de 1891. a) ( ) os constantes protestos dos monarquistas e re- c) ( ) a "Revolta da Armada", na baía de publicanos. d) a ruptura das relações diplomáticas entre Brasil e b) ( ) os excessos de autoridade cometidos pelo presi- Portugal. CHAVE DE RESPOSTAS 1. pais características são: a implantação do federalismo a) (X) Floriano Peixoto. e do presidencialismo. Esta constituição, ainda deter- Comentário: Deodoro da Fonseca foi o nosso primeiro minava que o voto deveria ser aberto e universal, presidente militar. Seu governo foi marcado por extremo estendidas aos homens maiores de 21 anos, excluindo autoritarismo e atos inconstitucionais. Após sofrer forte analfabetos, mulheres, religiosos e praças. oposição dos setores militares, Deodoro decidiu pela renúncia ao cargo de presidente. Era o fim do Governo 4. Provisório. A consolidação da República dar-se-ia no b) (X) os excessos de autoridade cometidos pelo presiden- governo do Marechal Floriano Peixoto. te Deodoro. Comentário: Além dos fatores citados no comentário da 2. questão n° 2, ressaltamos a crise e falência b) a lei de responsabilidade do Presidente da Re- dos primeiros tempos da República, motivadas pela pública. política econômica conhecida como que Comentário: Atos inconstitucionais considerados de visava equilibrar as finanças do Estado, facilitando a extremo autoritarismo como: a dissolução ou fechamento aquisição de crédito, gerando uma maior circulação de do Congresso Nacional, a implantação do estado de sítio papel moeda. Inúmeras "empresas fantasmas" surgiram, no país e a demissão coletiva de todo o seu ministério houve especulação financeira e crescimento da inflação. (Governo Provisório), fizeram Deodoro da Fonseca renunciar à presidência da República. governo 5. brasileiro foi entregue ao vice-presidente Floriano b) (X) a dissolução do Congresso Nacional em 3 de no- Peixoto. vembro de 1891 Comentário: Dissolução quer dizer, fechamento. Isto 3. mesmo, houve a interrupção dos trabalhos realizados no a) (X) a existência de três poderes, o executivo, legisla- Congresso Nacional, logo após a criação da Lei de tivo e judiciário, onde os representantes do executivo e Responsabilidade do Presidente da República, que prevê legislativo seriam escolhidos indiretamente, através do o juramento do Presidente em não violar as leis contidas Congresso Nacional. na constituição do país. Sabemos, no entanto, que a Comentário: A Constituição de é considerada a Constituição fora desrespeitada, à medida que atos incons- Constituição da República do Brasil. Suas princi- titucionais foram cometidos por Deodoro da Fonseca.