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Organizações regionais americanas e não americanas As organizações regionais para as relações internacionais e os bônus e os ônus da integração regional para as nações ao redor do mundo. Prof. João Rafael Gualberto de Souza Morais 1. Itens iniciais Propósito Analisar as razões que levam à constituição das organizações regionais americanas e não americanas, observando benefícios e prejuízos que elas acarretam sob os mais diversos interesses – econômicos, políticos, sociais, tecnológicos, dentre outros –, é fundamental para o profissional da área. Objetivos Identificar a Organização dos Estados Americanos e sua importância para os países que a integram. Determinar as organizações regionais americanas e seu impacto panorâmico sobre a região e o mundo. Analisar as principais organizações regionais fora da América e sua importância para as respectivas regiões. Introdução As organizações regionais atendem a um papel fundamental das relações internacionais: a integração. Por muito tempo, os entes internacionais precisaram desenvolver estratégias políticas para melhorar as relações uns com os outros, reduzindo o risco de guerras e conflitos e aumentando a prosperidade. Dessas estratégias desenvolveu-se a política externa, que consiste na política voltada para o ambiente internacional. A política externa possui, essencialmente, duas gramáticas: a das forças armadas e a diplomacia, as quais devem atuar integradamente para garantir a defesa dos interesses dos Estados, sendo o primeiro deles sempre a segurança. Nesse sentido, o aparato militar é primordialmente empregado como meio de dissuasão, ou seja, um instrumento para evitar que outros atores internacionais provoquem um conflito. Já a diplomacia deve ser a primeira linha de ação dos Estados e dispõe de vários recursos para melhorar as relações políticas entre eles. Esses recursos, quando combinados à vontade política voltada mais para cooperar que para competir, culminam em processos de integração, deliberados ou não, de modos distintos, como podemos observar ao longo da história. As organizações regionais, dessa forma, correspondem a um padrão relacional entre os entes internacionais que atravessa boa parte da história. Neste conteúdo, enfatizaremos seus contornos modernos e as principais existentes hoje, com ênfase nos aspectos econômicos, políticos e estratégicos. • • • 1. Organização dos Estados Americanos (OEA) Contexto A OEA é a organização de integração regional mais antiga do mundo, da qual foram colhidos diversos aprendizados para outras organizações posteriores. Surgiu no momento pós-Segunda Guerra Mundial, quando seus países buscavam formas de organização entre si com maior transparência e segurança em relação aos interesses nacionais e internacionais. Nessa toada, surgiu a Organização das Nações Unidas, concomitante com a OEA (1947 e 1948, respectivamente). Emblema da OEA Antes de abordarmos a OEA mais detidamente, discutiremos algumas questões relativas à integração regional e à história latino-americana. Como surgiram mais Estados, as relações internacionais tomaram proporções maiores e o ambiente externo, suscetível a competições e consequentes conflitos, passou a exigir uma cooperação entre os países. Diante desses conflitos históricos, surgem as instituições mediadoras. Nesse contexto, destacamos as instituições internacionais atuantes na integração dos países de uma mesma região, os quais compõem um cenário geopolítico específico. Com relação a esse papel integrador, vale apontar a dinâmica entre a competição e a cooperação bem como a necessidade política de buscar formas de estabelecer boa convivência e acordos mais integradores. A história da integração regional Antes de mergulharmos mais intensamente, vamos assistir a um vídeo com um breve panorama histórico sobre a integração regional. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. A integração regional é o campo mais promissor para a cooperação entre países. Há diversas experiências no mundo hoje, algumas muito bem-sucedidas, outras com mais problemas, mas praticamente todas têm sido capazes de conduzir a melhorias significativas nas relações comerciais e políticas entre os Estados, a partir de uma geopolítica em comum. Mapa das Treze Colônias em 1775 Geopolítica em comum Uma geopolítica em comum significa estar sujeito aos mesmos ou semelhantes aspectos geográficos, econômicos, sociais, culturais e políticos. Integração regional: conceito e experiências modernas Os principais exemplos de integração regional no mundo contemporâneo são: União Europeia, Nafta, Mercosul, Unasul, Mercado Comum Centro-Americano, Alca, Caricom ou dos países do Caribe, Asean, Apec, Ecowas, SADC. Essas organizações, segundo Menezes e Pena Filho (2006), se espalham por diversos continentes e se inspiram umas nas outras para buscarem suas respectivas evoluções, sempre atentas às suas respectivas condições geopolíticas para operar. Antes de mais nada, é importante que se diga: qualquer integração hoje no mundo é um processo em andamento, nada pode ser considerado acabado. A integração é um processo permanente, como a própria dinâmica da vida política, volátil às conjunturas. Exemplo A União Europeia é um exemplo bem-sucedido, visto que, desde sua fundação na década de 1990, tem fomentado a cooperação em diversos âmbitos entre os países europeus, aproximando nações com rivalidades violentas que atravessaram séculos, como França e Alemanha. A integração regional é um fruto da globalização e um fato da realidade mundial. Os resultados da integração oferecem dados sobre o sucesso dessas iniciativas. De fato, existem momentos de maior e menor dificuldade nesses processos, mas, no decorrer do tempo, podemos constatar que o saldo das integrações é bastante positivo, e podemos afirmar que essas formas de organização constituem hoje o principal vetor para o desenvolvimento em escala regional. Breve panorama político da formação americana A América tem um histórico longo de cooperação, sobretudo na América Latina, onde predominou, a maior parte do tempo, a herança da tradição diplomática ibérica, muito mais dada a tratados que às guerras. Na América do Norte, a partir da guerra de independência das 13 colônias americanas, observou-se mais conflitos que levaram à consolidação progressiva do atual território: guerras contra os nativos norte-americanos (“marcha para o oeste”), que fizeram do território original dos colonos recém- independentes um território continental, ao alcançar o Pacífico; e guerras contra o México que ampliaram o território demarcando a fronteira entre México e EUA no Rio Grande. Cumpre observar que a formação do território dos EUA se completou de porções adquiridas à Espanha, França e Inglaterra. Após a consolidação territorial, os EUA começaram a trilhar seu caminho como potência americana, voltando sua política para o conjunto das Américas, no que ficou conhecido como “Doutrina Monroe”, em 1823. Essa doutrina determinava que a América deveria ser gerida pelos interesses americanos, sem a ingerência das antigas potências coloniais europeias. Isso se coadunava com os processos de independência no continente, a decadência dos impérios coloniais ibéricos e com os interesses dos EUA em assumir uma posição hegemônica sobre a América. A geopolítica da América do Norte, assim, passa a observar os EUA assumindo, no decorrer do século XIX, o protagonismo político, com boas relações com o Canadá e com um México submetido pela força das armas e das indústrias estadunidenses. A América Central, majoritariamente herança do império espanhol, cai rapidamente também na órbita hegemônica dos EUA. A formação territorial dos EUA A América do Sul, mais distante, permanece especialmente atrelada às potências coloniais por mais algum tempo, enquanto os EUA consolidam sua posição mais ao norte e a Inglaterra exerce seu comando sobre as áreas de influência adquiridas aos ibéricos como consequência da proteção oferecida a eles contra Napoleão.pobres, com menos infraestrutura e poder político, condições que as deixam muito vulneráveis quando abrem seus mercados a nações mais ricas, ainda que ao nível regional. Por isso, é necessário que a integração seja adotada com cuidado, em etapas e respeitando as singularidades de cada nação, com a devida atenção às realidades políticas do sistema internacional. Podcast Agora, o professor Rodrigo Rainha encerra o tema falando sobre as organizações regionais americanas e não americanas. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore + Para saber mais sobre os assuntos tratados neste conteúdo, assista: Ao filme documentário Fantasmas de Ruanda, disponível no YouTube; ele expõe os problemas legados pelo colonialismo para as nações africanas, a relação assimétrica entre as grandes potências e as nações mais pobres e algumas realidades que operam as relações internacionais, a despeito dos discursos hegemônicos. Ao filme A batalha de Argel, que aborda de maneira realista a luta anticolonial na África. Leia: As obras da Teoria da Dependência e da CEPAL, de autores como Theotônio dos Santos, Fernando Henrique Cardoso, Maria da Conceição Tavares e Celso Furtado, elas ajudam a entender melhor as dinâmicas próprias do subdesenvolvimento. O mundo pós-americano, de Fareed Zakaria, que apresenta uma boa leitura da realidade do pós- Guerra Fria, concentrando nas dinâmicas dos países emergentes frente às estruturas de poder das grandes potências. Referências ALMEIDA, P. R. de. Integração Regional: uma introdução. São Paulo: Saraiva, 2013. CENTENO, M. A. Blood and debt: War and the nation-state in Latin America. Pennsylvania: Penn State Press, 2002. • • • • HAYTER, T. Aid as imperialism. Harmondsworth, Middlesex, England: Penguin books Ltd., 1971. MCCANN, F. D. Aliança Brasil Estados Unidos: 1937-1945. Rio de Janeiro: Bibliex, 1995. MEARSHEIMER, J. J. The tragedy of great power politics, New York: Norton, 2001. MENEZES, A. da M.; PENA FILHO, P. Integração Regional: os blocos econômicos nas relações internacionais. Rio de Janeiro: Elsevier Ltda., 2006. NYE JR., J. S. Cooperação e conflito nas relações internacionais. São Paulo: Gente, 2009. RODRIGUES, G. M. A. Organizações Internacionais. São Paulo: Moderna., 2014. ZAKARIA, F. O Mundo Pós-Americano. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Organizações regionais americanas e não americanas 1. Itens iniciais Propósito Objetivos Introdução 1. Organização dos Estados Americanos (OEA) Contexto A história da integração regional Conteúdo interativo Integração regional: conceito e experiências modernas Exemplo Breve panorama político da formação americana Saiba mais Elites e subdesenvolvimento Formação social colonial Baixa coesão social e material Sufocamento das potências hegemônicas OEA: origens, princípios e atribuições Saiba mais Surgimento e principais atribuições da OEA Curiosidade Vem que eu te explico! Integração regional: conceito e experiências modernas Conteúdo interativo OEA: origens, princípios e atribuições Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 2. Organizações americanas de alcance regional Organizações de alcance regional A hegemonia hemisférica dos EUA e o continente latino-americano A história da integração regional Conteúdo interativo Organizações regionais de cooperação para o comércio Mercosul Atenção Comunidade Andina (CAN) Resumindo Poucas metas estavam sendo alcançadas. Criação da Zona de Livre-Comércio (ZLC) Criação da União Aduaneira Andina Ingresso do Peru na ZLC Mercado Comum Centro-Americano (MCCA) Saiba mais Saiba mais Caricom Saiba mais Nafta Canadá México Alca Saiba mais Unasul Vem que eu te explico! Mercosul Conteúdo interativo ALCA Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 3. Organizações regionais não americanas Integração regional e o mundo Principais organizações regionais pelo mundo Ásia Saiba mais Asean Saiba mais Apec Saiba mais África A história da integração regional Conteúdo interativo Ecowas ou Cedeao 1 2 3 4 SADC Saiba mais Vem que eu te explico! Ásia Conteúdo interativo África Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Podcast Conteúdo interativo Explore + ReferênciasA influência sobre o Brasil seria já desde essa época a pedra angular na política no restante da América do Sul, como também rapidamente perceberiam os EUA entre o final do século XIX e a primeira metade do XX, fazendo do Brasil um parceiro estratégico no continente sul-americano. A formação sul-americana, por sua vez, observa ao longo do século XIX o surgimento de diversos Estados- nações oriundos dos impérios espanhol e português, diferentemente de como ocorreu com as grandes potências. Saiba mais Segundo Centeno (2002), diferentemente do caso europeu, a formação do Estado latino-americano não contou com uma estrutura burocrática e militar capaz de consolidar a centralidade política, mediada por elites dotadas desse interesse. Sua formação se deu a partir de impérios ultramarinos, com elites constituídas em continuidade com elites coloniais, com interesses voltados para o exterior. Por isso, as elites não possuíam a solidariedade mínima com o povo – africanos e indígenas escravizados –, necessária a um projeto nacional. América do Sul Esse panorama político da formação latino-americana, ainda que breve, elucida o pano de fundo dos processos de integração na região: Elites e subdesenvolvimento A afinidade entre as elites contribuiu para elevar o subdesenvolvimento regional, pois pactuariam por políticas voltadas a seus próprios interesses (privados), em detrimento do interesse público (nacional). Formação social colonial A dificuldade em promover o desenvolvimento é uma herança da formação social colonial a partir da carência de um projeto nacional. Baixa coesão social e material A fraqueza relativa dos Estados latino- americanos é um legado dessas circunstâncias, que não engendraram nações coesas socialmente e materialmente capazes de definirem e buscarem seus interesses. Sufocamento das potências hegemônicas A hegemonia das grandes potências formatou condições externas constrangedoras ao desenvolvimento nacional latino-americano, uma vez que estavam articuladas aos interesses das elites locais já desinteressadas de qualquer projeto soberano. OEA: origens, princípios e atribuições A OEA surgiu em 1948, em meio ao grande impulso internacional pela formação e pelo fortalecimento das organizações mundiais, destinada a promover a integração especial entre as nações latino-americanas. Seu aparato institucional se formou sobre as estruturas anteriormente concebidas pela Conferência Internacional Americana, realizada entre 1889 e 1890, em Washington, EUA, quando foi aprovada a fundação e uma união internacional das repúblicas americanas. Nessa ocasião, as nações acordadas estabeleceram como objetivo Da esquerda para a direita: Waldemar Falcão, Almirante Guilhem, Osvaldo Aranha, Souza Costa e Getúlio Vargas, 1939 (...) discutir e recomendar para adoção dos respectivos governos um plano de arbitragem para a solução de controvérsias e disputas que possam surgir entre eles, para considerar questões relativas ao melhoramento do intercâmbio comercial e dos meios de comunicação direta entre esses países, e incentivar relações comerciais recíprocas que sejam benéficas para todos e assegurem mercados mais amplos para os produtos de cada um desses países. (ALMEIDA, 2013, p. 23) A dinâmica da integração no continente americano está relacionada ao legado colonial e à ascensão hegemônica dos EUA, orientada pela Doutrina Monroe (“América para os americanos”), diante da decadência das grandes potências europeias, desgastadas por intensos conflitos entre o fim do século XIX e a primeira metade do século XX, com destaque para as guerras mundiais (1914-1945) das quais os EUA emergiriam como a liderança do hemisfério ocidental. Na primeira metade do século XX, no contexto interamericano, o Brasil assumia importância particular. Como isso era possível? Saiba mais Sendo uma nação estratégica, a maior da América do Sul, e dotado de um litoral, no Nordeste, com a mais curta distância até Dacar, o ponto mais ocidental da África e por onde os Aliados enviavam ajuda à luta britânica contra o Eixo no Norte da África – durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil era indispensável ao esforço de guerra Aliado. Em 1938, um ano antes da guerra, a nomeação de Oswaldo Aranha para o cargo de ministro das Relações Exteriores foi um forte sinal de Vargas no sentido de uma aliança definitiva com os EUA. Aranha fora embaixador em Washington antes, e era notório por suas afinidades com os norte-americanos. Os rumos para a Aliança Brasil-EUA estavam se firmando, e conduziriam à progressiva influência norte-americana na sociedade e esferas políticas brasileiras, muito intensificadas depois pelo contexto da Guerra Fria. Os rumos para a Aliança Brasil-EUA estavam se firmando, e conduziriam à progressiva influência norte-americana na sociedade e esferas políticas brasileiras, muito intensificadas depois pelo contexto da Guerra Fria. Assim, os EUA consolidaram a sua hegemonia sobre as Américas durante as décadas de 1930 e 1940. Em 1942, durante a Conferência do Panamá, em que ficou acertada a declaração de guerra continental aos países do Eixo, estavam dadas as bases para um processo de integração a partir da definição de uma base comum de valores: a liberdade econômica e a democracia. Surgimento e principais atribuições da OEA A OEA pode ser considerada um grande fruto dessas articulações que elevaram os EUA à posição hegemônica hemisférica. Ela funciona como uma das instituições mais ligadas ao conjunto de valores norte-americanos que consubstanciam e legitimam o exercício de seu poder internacional, e tem o objetivo de promover a paz, a segurança, a democracia e o desenvolvimento no âmbito regional. Curiosidade Criada em 1948, a OEA descende originalmente da União Internacional das Repúblicas Americanas, de fins do século XIX. Entre esse momento e a criação da OEA, sucederam muitas conferências a acordos que serviram, gradativamente, de ensaio para a formação desse organismo, diversas iniciativas integradas parcialmente que, com o decorrer do tempo, combinaram-se para formar a OEA. Nas primeiras décadas do século XX, constituiu-se um sistema de integração americano com diversos tratados. Nesse período, foram adotados acordos diversos para o estabelecimento de princípios que mais tarde integrariam a Carta da Organização dos Estados Americanos. Veja a seguir: Esse sistema resultou na União Pan-Americana e em instituições facilitadoras da cooperação regional: Organização Pan-Americana da Saúde (1902), Instituto Interamericano da Criança (1927), Comissão Interamericana de Mulheres (1928), Instituto Pan-Americano de Geografia e História (1928), entre outros. Em 1948, na Nona Conferência Internacional Americana, em Bogotá, adotou-se a Carta da Organização dos Estados Americanos, o Tratado Americano sobre Soluções Pacíficas, o “Pacto de Bogotá”, o Acordo Econômico de Bogotá e a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem. A função básica desses acordos era garantir a solução pacífica de controvérsias por conciliação. Além disso, a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem sublinhava o compromisso regional com a proteção internacional dos Direitos Humanos. A Carta da OEA, que está inserida na Organização das Nações Unidas e destina-se à participação em atividades voltadas para a paz e a segurança da região, sofreu algumas modificações com o tempo. A partir da década de 1990, quando a defesa da democracia de livre-mercado se tornou um princípio categórico das relações internacionais, diversas cúpulas entre os chefes de Estado e de governo americanos 1923 Quinta Conferência Internacional Americana. As nações americanas adotaram o Tratado de Gondra, ou Tratado para Evitar ou Prevenir Conflitos entre Estados Americanos. 1933 Sétima Conferência Internacional Americana em Montevidéu. Adotou-se a convenção sobre Direitos e Deveres dos Estados, reafirmando o princípio segundo o qual os entes soberanos signatários são juridicamente iguais e possuem os mesmos direitos e capacidade igualpara exercê-los. têm ocorrido a fim de intensificar a determinação de planejamentos e ações efetivas para aumentar a integração e o desenvolvimento regionais. As funções da OEA podem ser resumidas em: Garantia da paz e segurança no continente. Solução pacífica de controvérsias e problemas políticos, econômicos e jurídicos. Promoção e consolidação da democracia representativa. Promoção do desenvolvimento econômico, social e cultural por meio de iniciativas de cooperação. Combate à pobreza, considerada um obstáculo ao desenvolvimento dos povos e da democracia. Diminuição dos armamentos convencionais para aumento de recursos destinados aos problemas sociais do continente. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Integração regional: conceito e experiências modernas Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. OEA: origens, princípios e atribuições Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Com relação ao processo de formação da OEA e sua estrutura como organização de bloco econômico, podemos afirmar que A garante o livre-comércio, unidade tarifária e circulação de fatores produtivos, e harmonização das políticas monetária e fiscal. Possui uma autoridade central que determina as políticas industrial, social e econômica. B oferece condições para a livre circulação de pessoas, mercadorias e moedas, idêntico ao tipo de integração observada na União Europeia. C • • • • • • nesse modelo de integração, os países integrados têm dificuldades em adotar tarifas externas comuns para os países de fora do bloco, o que acarreta poucos benefícios para a integração. D nesse tipo de acordo, os membros trocam livremente fatores produtivos, mercadorias e formam um governo comum supranacional que torna dispensável a soberania nacional. E a OEA tem características mais próximas a modelos de articulação e defesa de alguns interesses, principalmente econômicos, do que propriamente um bloco aos moldes da União Europeia. A alternativa A está correta. A União Econômica Completa constitui o caso mais desenvolvido de integração regional, dentre todos os modelos observados hoje no mundo, e se baseia em dinâmicas de interdependência em diversas dimensões da vida humana, muito além da mera livre circulação de mercadorias e fatores de produção, constituindo, para além disso, um sistema de governo para orientar políticas econômicas, industriais, fiscais e em outras áreas da governança, conformando aspectos comuns entre seus membros. O processo de formação da OEA se difere completamente no conceito das Américas, sendo, então, algo muito mais próximo como a constituição de mesas e ambientes de organização e influência do que efetivamente um bloco nesses moldes. Questão 2 O contexto geopolítico latino-americano possui alguns elementos importantes que devemos considerar na análise de suas políticas de integração. São eles: A A afinidade entre as elites latino-americanas e os seus respectivos povos, que, somada à liderança hegemônica dos EUA, gera condições propícias ao desenvolvimento do continente. B A hegemonia dos EUA, que se consolida desde o século XVII e substitui o domínio das potências europeias segundo a lógica da Doutrina Monroe. C O legado colonial e um conjunto de guerras totais que serviram para fortalecer os Estados latino-americanos. D A ausência de elites comprometidas com o interesse nacional combinada à hegemonia de grandes potências que tutelam a soberania dos países latino-americanos, constituindo severos entraves ao desenvolvimento. E A dificuldade dos Estados latino-americanos em desenvolverem o seu potencial industrial em virtude da competição com as nações da América do Norte, todas muito mais desenvolvidas e dotadas de mercados altamente competitivos. A alternativa D está correta. o legado colonial deixou de herança às nações latino-americanas elites voltadas para seus próprios interesses, com pouca solidariedade com o povo (trabalhadores e camadas médias). Essa dinâmica interna, combinada com a hegemonia das grandes potências, produz forças que constrangem projetos nacionais e soberanos para o continente latino-americano. 2. Organizações americanas de alcance regional Organizações de alcance regional Neste módulo, abordaremos outras organizações regionais americanas, mais limitadas a contextos específicos, como o Mercosul, o Nafta, o Mercado Comum Centro-Americano, o Caricom, a Comunidade Andina e a Unasul. Antes, porém, faremos uma breve discussão sobre a conjuntura política do continente americano, notadamente o impacto da hegemonia norte-americana combinado à configuração das elites e disputas políticas locais. A hegemonia hemisférica dos EUA e o continente latino- americano É importante observar que os objetivos destacados da OEA, bem como todos os outros acordos integracionistas regionais americanos se dão em um contexto marcado pela hegemonia dos EUA. A história da integração regional Entender as dinâmicas regionais é impossível sem antes conhecer a força estadunidense nessas relações. Veja a seguir: Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Organizações regionais de cooperação para o comércio A cooperação comercial é a razão principal por trás das organizações regionais pelo mundo. O continente americano não foge a essa regra e há diversas delas nele. Abordaremos as mais relevantes para a política e a economia regional. Mercosul O Mercosul nasceu do Tratado de Assunção, assinado em 26 de março de 1991 pelos presidentes do Paraguai, André Rodrigues, do Uruguai, Luís Alberto Lacalle Herrera, da Argentina, Carlos Sul Menem e do Brasil, Fernando Collor de Mello. Ficou decidido, por meio desse acordo, a criação do mercado comum até o final do ano de 1994. O novo mercado comum abrangia uma área de 11 milhões de quilômetros quadrados, mais da metade de toda a América do Sul (algo em torno de 70%), abarcando 64% da população e 60% do PIB da região. O Mercosul configura, assim, um “mercado comum”, não sendo, portanto, uma forma de integração mais avançada. Seu acordo prevê livre circulação de bens, serviços e fatores de produção. E estabelece a intenção de firmar, no futuro próximo, uma política comercial comum em relação a outros países. Essa meta corresponde a um dos objetivos centrais de qualquer processo de integração, isto é, usar um poder de barganha associado, mediante argumentos comuns e em bloco. Atenção A pouca seriedade desses princípios têm sido, historicamente, um erro dos países latino-americanos, cujo tamanho em relação a outras economias inviabiliza a resolução de acordos dentro das suas necessidades. “Ao propor falar em conjunto, adquire-se uma força maior, o poder de pressão na barganha comercial aumenta e, quem sabe, pode-se garantir ganhos adicionais no comércio internacional para os países do Mercosul” (MENEZES; PENA FILHO, 2006, p. 56). Além disso, o tratado prevê a adoção de políticas coordenadas na área fiscal, monetária e cambial, de comércio exterior e de capital, visando garantir condições iguais de competição entre os membros integrados, mediante a adoção de políticas macroeconômicas coordenadas e uma tarifa externa comum para ser aplicada a países de fora. Para o Brasil, o Mercosul tem sido importante como atestam os números do comércio. No entanto, a integração tem falhado em seu objetivo maior, que visava a uma expansão sobre outros países do continente, como aqueles da Comunidade Andina. Uma vez estabelecida uma integração regional de maior amplitude, surgiriam as condições para um diálogo mais equilibrado com as grandes potências, sobretudo os EUA e sua proposição para a Área de Livre-Comércio das Américas (Alca). (...) nas discussões finais da Alca (...) viu-se um Mercosul unido, com uma linguagem única nas discussões e decisões a serem tomadas. O trabalho dos membros integrados, principalmente do Brasil,teve resultados concretos na unificação dos objetivos daquela discussão de integração continental. O poder de barganha dos integrados aumentou uma vez que o Mercosul tenta se entender diretamente com os Estados Unidos. (MENEZES; PENA FILHO, 2006, p. 63) Portanto, a despeito das dificuldades, muitas delas normais e esperadas em qualquer processo de integração, o Mercosul oferece resultados inegáveis, sob o ponto de vista econômico e político, para as relações de nações em desenvolvimento com aquelas mais desenvolvidas. É a união dos países do bloco que tem proporcionado uma maior capacidade de ação política frente aos interesses mais poderosos da arena internacional, como atesta esse exemplo anterior, a respeito das discussões sobre a implantação da Alca. Foi com o somatório das forças das nações do bloco que a proposta pôde ser melhor discutida e rejeitada, principalmente a partir da postura resoluta do governo brasileiro, que, ainda em campanha (2002), comprometeu-se com a não adesão àquele bloco. Comunidade Andina (CAN) Esse acordo de integração surgiu a partir de uma dissidência da Alalc, Associação Latino-Americana de Livre- Comércio, que, como vimos, não obteve sucesso na década de 1960. Em 1969, um grupo de países da região andina, por meio do Acordo de Cartagena (também conhecido como Pacto Andino), formou um bloco para integrar suas economias, composto por Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru. Durante a década de 1970, o grupo contou com a inclusão da Venezuela e teve uma baixa, o Chile, em 1973, que olhava mais para parceiros do mundo desenvolvido. As metas firmadas em Cartagena, que deram vida à CAN, incluíam a liberação comercial, a coordenação política para o desenvolvimento industrial dos membros, tratamento especial e coordenado para as multinacionais, criação de financiamentos de pesquisa em ciência, tecnologia e educação, a criação de uma tarifa externa comum, coordenação das políticas econômicas e investimentos em infraestrutura. Resumindo Os objetivos gerais daquela integração previam: aumentar o crescimento econômico dos países envolvidos; criar mais empregos; promover desenvolvimento equilibrado e harmônico, diminuindo as desigualdades observadas entre os países por meio de políticas de cooperação econômica e social, dentre outras. Essas políticas, de acordo com Menezes e Pena Filho (2006, p. 69), visavam reduzir a vulnerabilidade externa dos países da região frente aos mercados mais poderosos, além de elevar o padrão de vida. Além disso, havia a meta fixada de fazer do bloco o começo de uma ampla integração latino-americana. Contudo, a ampliação dos mercados não gerou os investimentos na produção esperados, e os investimentos externos também foram tímidos. Como é típico da realidade local, o poder público tem limitações para planejamentos de longo prazo e a tendência a conceber empréstimos para resolver problemas que produzem elevados custos políticos a partir de tensionamentos sociais. A integração, assim como os respectivos Estados-membros, também sofrem com esses problemas, pois o bloco deixa de explorar suas possibilidades com a abertura do mercado para uma economia de escala. Foram décadas de reuniões para promover as metas concebidas na carta inicial. Acompanhe a seguir: Até 1990 Poucas metas estavam sendo alcançadas. 1991 Criação da Zona de Livre-Comércio (ZLC) Venezuela, Colômbia, Bolívia e Equador criaram a Zona de Livre-Comércio (ZLC), adotando taxas comuns para a circulação de suas mercadorias, porém mantendo suas taxas individuais para países de fora do bloco. 1995 Criação da União Aduaneira Andina Foi criada a União Aduaneira Andina, com uma tarifa externa comum, o que, como vimos, indica um processo de integração mais profundo. 1997 Ingresso do Peru na ZLC O Peru se incorpora à ZLC e foi decidida a criação do Mercado Comum, e no ano seguinte os membros aceitaram estabelecer planos para uma política externa comum. Nesses acordos foi previsto um tratamento especial para as menores economias do bloco. Apesar das dificuldades, um balanço rápido dos números aponta para as vantagens dessa integração. Segundo dados do Banco Mundial de 2004, a CAN possuía 117 milhões de habitantes. O território abarcado por ela é de 4.721.000 de quilômetros quadrados e o PIB regional ultrapassava os 250 milhões de dólares. A renda per capita estava acima dos 2.000 dólares. Mercado Comum Centro-Americano (MCCA) A América Latina enfrenta problemas de desenvolvimento a partir de seu legado colonial, pois sua formação condicionou suas nações ao papel de complementação da economia dos países mais ricos (suas antigas metrópoles e seus parceiros), além daquele de comprar os gêneros industriais provenientes do mundo industrializado. O MCCA nasceu, assim, em 1960, em meio ao contexto de conflitos na região da América Central. Sua criação foi parte de iniciativas voltadas para tentar aumentar os índices de cooperação e paz locais, a partir do Tratado de Manágua, que foi o marco inicial para os trabalhos, seguido pelo Tratado de Integração Centro- Americana, em 1961, que, no decorrer dos anos, deram vida ao bloco, que contava com Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador. A Costa Rica entrou em 1962. Saiba mais A organização do bloco se dá a partir dos encontros entre ministros e vice-ministros da Integração Centro-Americana, além das reuniões dos presidentes dos bancos centrais e chefes de governo dos países-membros. À semelhança das iniciativas de integração vistas antes, esta visava a implementação de estratégias para a integração econômica, a elevação dos números do comércio entre os membros e a criação de acordos comerciais do bloco com outros blocos regionais ou países, por meio de instituições voltadas para a coordenação das finanças, comércio e indústria, administração pública, saúde, educação, transportes e comunicações. Todo esse arcabouço tinha metas com prazos que eram otimistas considerando as realidades da região. Não obstante, os resultados atingidos foram capazes de produzir alguns resultados na melhoria das trocas comerciais, ainda que por pouco tempo. Comércio saltou de 8, na década de 1950, para 30 milhões de dólares na década de 1960. Depois, obteve outros saltos estatísticos chegando a 286 milhões na década de 1970. Em 1960, o comércio intrarregional era 6% do total da área com o mundo, e saltou para 23% em 1970. A participação do setor industrial no PIB saltou de 13% para 17,5% e o PIB total da região cresceu 7% durante o período (MENEZES; PENA FILHO, 2016, p. 79). • • • • Bandeira da Caricom A região carece da estabilidade necessária à integração, pois os conflitos bélicos e Estados imersos em problemas socioeconômicos geram desconfiança e impedem a liberdade econômica e de trânsito de fatores de produção, uma vez que muitos atores tendem a seguir agindo por sua própria conta por terem muitas divergências políticas e ideológicas entre si. Isso acarreta ainda mais barreiras alfandegárias, que deveriam ser as primeiras “vítimas” de uma integração. A infraestrutura local é muito precária por conta de todos esses problemas, e a integração não foi capaz de promover estratégias de investimento que canalizassem os ganhos com o aumento da riqueza, oriunda da ampliação do comércio, para obras e melhorias na infraestrutura. O balanço ao final da década de 1980 apontava um decréscimo do comércio, que caíra de 1.2 bilhão de dólares para 538 milhões. Somente o fim da Guerra Fria traria alguma estabilidade e chegada de investimentos à região. Em 1985, o bloco assinou um tratado com a Comunidade Europeia (hoje União Europeia), que visa ao aumento dos investimentos na região, a fim de promover o desenvolvimento. Foi o primeiro passo para rumos melhores. Em 1992, já em meio ao pós-Guerra Fria e à chamada “Iniciativa para as Américas” lançada pelo presidente dos EUA George Bush, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Panamá assinaram o Protocolo de Tegucigalpa, que retomará o impulso pela integração, que passa a contar também coma Guatemala e a Costa Rica pouco depois. Saiba mais A população total do bloco soma, hoje, mais de 40 milhões de pessoas e o PIB total se aproxima dos 78 bilhões de dólares. Um dado relevante e nada surpreendente é o fato de o principal parceiro comercial do bloco serem os EUA. Segundo Almeida (2013), entre 1999-2002 o comércio intrarregional cresceu 17% e as exportações entre os membros integrados chegaram a mais de 3 bilhões de dólares em 2002. Caricom Essa zona de integração compreende os países do Caribe e foi criada em 4 de julho de 1973 pelo Tratado de Chaguaramas, que só entraria em vigor em 2002. A Caricom é integrada por Anguila, Antígua e Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Bermudas, Dominica, Granada, Guiana, Haiti, Ilhas Caimã, Ilhas Turcas, Ilhas Virgens Britânicas, Jamaica, Montserrat, St. Kitts e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinos, Suriname e Trinidad e Tobago. O Caricom descende da Federação das Índias Ocidentais britânicas, criada em 1958, que durou apenas quatro anos e foi o primeiro passo em busca de um entendimento regional. Até o Tratado de 1973, alguns passos importantes seriam dados, como a criação do Banco de Desenvolvimento Caribenho, em 1968, e o mercado comum em 1972. Cumpre notar que Cuba não faz parte dessa integração, nem de qualquer outra, por conta do isolamento econômico e diplomático imposto pelo bloqueio norte-americano desde os tempos da Guerra Fria. Recentemente, o país vem se abrindo e renegociando suas relações com os EUA, a partir de histórica pressão internacional. Saiba mais Cumpre notar que Cuba não faz parte dessa integração, nem de qualquer outra, por conta do isolamento econômico e diplomático imposto pelo bloqueio norte-americano desde os tempos da Guerra Fria. Recentemente, o país vem se abrindo e renegociando suas relações com os EUA, a partir de histórica pressão internacional. O Tratado de Chaguaramas segue o fio das integrações já vistas: abertura comercial, desenvolvimento regional, políticas exteriores em comum, melhoria do nível de vida dos povos locais, expansão do comércio com outros países, elevar os níveis de competitividade das economias caribenhas para enfrentar as nações fora da região, aumento dos investimentos em infraestrutura, e a busca conjunta por benefícios para a região nos fóruns internacionais, função primordial de qualquer bloco de integração de nações em desenvolvimento em um mundo marcado por imensas assimetrias de poder. A área total do bloco é de 500 mil km², com aproximadamente 15 milhões de habitantes. As exportações totais ultrapassam os 17 bilhões de dólares, a maioria para fora do bloco, pois o comércio intrarregional ainda é fraco. O turismo é a principal fonte de renda da região como um todo, o que não constitui elemento de exportação, e, nesse ponto, as economias locais competem. Localizaçãao da Caricom Apesar das dificuldades, a integração caribenha avança, em processo constante de construção. Segundo Menezes e Pena Filho (2006, p. 90), “há avanços e recuos, acertos e erros, mas, no final, acaba sendo útil aos interesses da maioria dos países integrados.” Exemplo disso é o caso do Haiti que, durante a crise de 2004, contou com a atuação conjunta dos ministros das relações exteriores dos diversos membros da Caricom, que buscaram as soluções diplomáticas junto com os EUA e a França, algo impensável outrora. Nafta O Acordo de Livre-Comércio da América do Norte é um acordo entre EUA, Canadá e México assinado em 1990 pelos respectivos países, e entrou em vigor em 1994. O objetivo seria a implementação paulatina de uma zona de livre-comércio entre os três países, com a abolição total das tarifas aduaneiras entre eles. Desde o início, a integração suscitou desafios e preocupações. Integrar duas economias fortes com uma menor requer políticas cuidadosas para evitar possíveis desequilíbrios. O objetivo do processo é a melhoria dos resultados comerciais absolutos para todos, gerando mais riqueza e melhorias sociais. Integração Os processos de integração geralmente não falham em ampliar os mercados integrados e promover geração de riqueza. Entretanto, em países com profundas desigualdades de renda, essa riqueza tende a ser mal distribuída em uma estrutura política viciada a atender aos interesses dominantes. A seguir, veja como foi o processo de integração de Canadá e México: Canadá Muito antes do Nafta, o Canadá era o principal parceiro comercial dos EUA. Em 1990, o comércio entre os dois girava em torno de 176 bilhões de dólares; em 1992 foi a 189 bilhões. O total de produtos estadunidenses exportados para o Canadá significava nada menos que 20% das exportações totais dos EUA. O Canadá, por sua vez, exportava 100 bilhões de dólares para seu vizinho, o que representava já 19% de toda importação dos EUA. Para se ter uma ideia, a exportação do Canadá para os EUA representava 75% do total exportado para o mundo, e mais de 60% das importações advinham também dos EUA. México No caso do México, a situação era oposta. Com aspectos sociais e culturais diferentes dos EUA, as duas nações têm poucas afinidades além da proximidade territorial, e possuem, como vimos, um histórico complicado, conflituoso. Ainda assim, a proximidade fez o caminho: o México, também pouco antes do acordo ser assinado, era o terceiro parceiro mais importante dos Estados Unidos, com exportações em torno de 80 bilhões/ano. Assim como o Canadá, o México dependia intensamente da relação com o vizinho do norte: 75% das exportações e 70% das importações eram com os EUA. Fora isso, o mercado do turismo era ocupado por 85% de americanos, com uma taxa de investimento externo de 60% provenientes dos EUA. Os EUA vendiam para o México principalmente produtos eletrônicos, carros e equipamentos, enquanto os mexicanos exportavam petróleo e derivados, alimentos e também carros e algum maquinário, em menor escala (MENEZES; PENA FILHO, 2016, p. 92). Quando da assinatura do acordo, criou-se um mercado de 370 milhões de pessoas (1994), com um PIB de quase 8 trilhões de dólares. “O Canadá e o México juntos eram, na verdade, cerca de 15% da economia dos Estados Unidos” (MENEZES; PENA FILHO, 2006, p. 94). Hoje, segundo dados do Banco Mundial, o PIB gira em torno de 10/11 trilhões de dólares, com uma população de 420 milhões de pessoas. Mapa dos países interantes do Nafta Área de Livre Comércio das Américas (logo) O tratado determinava a definição de regras sobre a origem do produto. Um bem produzido fora da área de integração não teria tratamento especial dentro do Nafta, o que buscava forçar uma produção localizada para gerar empregos e mais controle sobre as condições de produção e trabalho. As normas sobre proteção à saúde, bem como aquelas referentes ao meio ambiente e aos direitos do consumidor deveriam ser partilhadas. Os três países deveriam manter constantes diálogos para corrigir eventuais problemas e melhorar a transparência, e seria concedido o direito a certas salvaguardas, sendo a mais importante delas o direito à suspensão de redução de uma tarifa sobre algum bem estratégico cujo aumento da importação ameaçasse a indústria nacional. No balanço geral, a integração aumentou a produção e circulação de riqueza entre os três países. Entre os mexicanos, porém, observou-se a insistência dos mesmos problemas sociais anteriores ao acordo. Alguns deles até se agravaram, como o crime organizado e a prostituição na região da fronteira. Mais um exemplo que nos leva a concluir que a geração de riqueza não basta para promover a prosperidade: é preciso meios e políticas públicas para orientar a sua distribuição, algo que ainda passa muito pela soberania dos Estados, que, por sua vez, está sujeita aos interesses dominantes em cada um deles. Alca Nessa busca de maior unidade regional, o governo brasileiro, em 1993, sugere a criação da Área de Livre- Comércio Sul-Americana, ALCA. Com os problemas apresentados pelo Mercosul em seus primórdios, o governo brasileiro se viu incentivado a buscar o quanto antes um processo de integraçãoampliado a todo o continente sul-americano. A diferença entre a economia dos EUA e a dos demais países da região era e continua sendo imensa. Mesmo combinados, as demais nações só significam uma pequena porção da economia americana: o PIB dos EUA ultrapassava já àquela época os 10 trilhões de dólares, ao passo que os demais países somados mal chegavam aos 2,5 trilhões. Dessa forma, os EUA representariam quase 80% da Alca. Segundo Menezes e Pena Filho (2006, p. 108), “essa disparidade assusta, e alguns falam em anexação, e não em integração, ou seja, temem que a economia maior acabe engolindo as menores.” A ideia brasileira para a Alcsa naufragou rapidamente, e foi logo após que, em Miami, em 1994, 34 países do continente se encontraram para a criação da Alca (Cuba sempre esteve fora, sob alegação de que era antagonista dos valores liberais e democráticos). A globalização se tornara um imperativo do sistema internacional, inegociável, e as economias mais vulneráveis precisavam pensar em estratégias para evitar o isolamento e aproveitar a integração, que cada vez mais desponta, em um mundo marcado por desigualdades estruturais, como um bom meio para o desenvolvimento do comércio e, por meio dele, do aumento da riqueza para as nações mais pobres (e a questão permanecerá sendo a da distribuição). Algumas dificuldades atrapalharam a Alca, sendo a principal delas, no campo das negociações comerciais, a questão dos subsídios agrícolas norte-americanos, que os EUA sistematicamente legaram para a esfera de negociações da OMC, o que significava, na prática, uma procrastinação. O Mercosul desejava uma maior abertura comercial do setor agrícola dos EUA e estes queriam mais abertura nos setores de serviços, compras governamentais e propriedade intelectual. Esses impasses travaram diversas vezes as negociações. Bandeira da Unasul Saiba mais A Alca está ainda em fase de desenvolvimento. Em comparação à União Europeia, sua inspiração, é compreensível que sua resolução esteja truncada. Diferentemente da região europeia integrada, o continente americano possui muitas disparidades e problemas de infraestrutura que precisam ser minimamente equacionados antes de uma integração nessa escala, continental. E isso tudo, como já foi observado, depende da vontade e trabalho dos países americanos para o tratamento dessas mazelas que se reproduzem sobre estruturas da formação social latino-americana. Não obstante o receio em integrar uma zona de livre-comércio com uma nação tão mais rica e poderosa, os países latino-americanos temem o isolamento caso seus vizinhos alcancem acordos bilaterais ou sub- regionais com os EUA. Dessa competição podem surgir esforços regionais cada vez mais integrados que possam ajudar a cuidar dos problemas que assolam o continente. Isso depende de um amplo consenso em torno da integração regional, que ainda está em construção por aqui. Unasul A União das Nações Sul-Americanas constitui um bloco formado pelos 12 países da América do Sul (a única exceção é a Guiana Francesa) destinado à integração econômica, social, cultural e política entre seus membros. A Unasul constitui um modelo de integração mais profundo que os dois citados já no continente sul-americano. Ela se aproxima mais, pois, do modelo europeu ao visar uma área de integração não apenas de livre-comércio, mas também cultural, política e social. A ideia é aprofundar as relações entre as nações em todos os aspectos: políticos, econômicos, sociais, ambientais, científicos e tecnológicos e culturais entre países que somam quase 400 milhões de habitantes. O Brasil desponta para o papel natural de líder da região, com um PIB que representa 50% da América do Sul. Apesar da ampla adesão espontânea, com o agravamento das crises políticas e econômicas na região, os trabalhos da organização foram pouco priorizados, levando ao abandono por alguns membros, como Colômbia e Equador, respectivamente em 2018 e 2019. Nesse ano, foi criada, por oito países, outra inciativa semelhante, o Fórum para o Progresso e Desenvolvimento da América do Sul, ou PROSUL, que contou com a migração praticamente imediata também de Brasil, Argentina, Chile e Paraguai. Atualmente, as iniciativas de integração regional na América do Sul enfrentam diversos problemas decorrentes das crises internas a diversos países, ainda agravadas pela pandemia do coronavírus. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Mercosul Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. ALCA Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 No contexto da integração regional nas Américas, até o presente momento, apenas iniciativas de escopo mais limitado, sub-regional, tiveram algum êxito. Marque a alternativa que explica a razão para a inviabilização de um projeto de integração total nas Américas, à semelhança daquele observado na Europa: A Os países latino-americanos temem a interferência dos EUA em suas questões domésticas e privilegiam, por conta disso, acordos com potências da Ásia e África. B As disparidades econômicas, sociais e políticas entre as nações latino-americanas e os EUA impõem severos desafios a uma integração em escala continental. C Os EUA não desejam compartilhar seus mercados com as nações menos prósperas porque temem a má qualidade dos produtos latino-americanos, além de temerem o aumento dos influxos da imigração mexicana. D O Mercosul tem trabalhado para evitar a integração das Américas em uma área de livre-comércio porque isso vai de encontro aos interesses dos membros desse bloco. E A integração americana tem sido dificultada pelas exigências dos EUA com relação à defesa da democracia e dos direitos humanos, ainda descumpridas por diversos países da região. A alternativa B está correta. Um processo de integração regional em escala continental, como a Alca, por exemplo, requer precondições políticas, econômicas e sociais que ainda parecem distantes da maioria dos países do continente. Nessas circunstâncias, a integração esbarra em muitas dificuldades práticas com relação à infraestrutura e vulnerabilidade dos diversos mercados para enfrentarem a competição com as nações mais poderosas do bloco. Isso leva a muitas negociações difíceis e demandas por muitas exceções para cada regra, o que, ao fim, inviabiliza a integração. Questão 2 O Nafta integrou duas economias ricas a uma mais pobre. Desde o início, muitos observadores apontaram para riscos inerentes a essa situação. Passadas algumas décadas, os resultados já apontam na direção de algumas conclusões sobre os custos e os benefícios de se integrar economias altamente competitivas com outras ainda em desenvolvimento. A respeito disso, marque a opção que melhor define a questão da integração do México ao Nafta. A O México busca aumentar suas exportações de petróleo para Canadá e EUA. B Para os EUA e o Canadá, a integração com o México só oferece benefícios, com o bônus ainda de encerrar a imigração de mexicanos para as terras ao norte do Rio Grande. C O México obteve ganhos, mas precisou assegurar proteções especiais para suas indústrias estratégicas e aceitou a restrição à circulação de mão de obra, tendo seus interesses prejudicados. D O México obteve aproximação com as nações da América Central, como líder regional, com iniciativas de integração bem-sucedidas. E A relação entre EUA e México demandava naturalmente um processo de integração entre eles, proveitoso para ambos já que suas economias sempre foram complementares. A alternativa C está correta. Com a adesão ao Nafta, por um lado, o México obteve a ampliação do mercado, com maior geração de riqueza, mas, por outro, poucas políticas orientadas para aumentar o investimento em infraestrutura e outros setores sociais capazes de aumentar a distribuição dessa riqueza. Além disso, existe a preocupação com a liberalização de certos setores econômicos, como a indústria petroquímica.Países membros sa União Europeia após a saída do Reino Unido (Brexit) 3. Organizações regionais não americanas Integração regional e o mundo Após discutirmos os principais processos de integração regional nas Américas, passaremos à questão de forma mais global. Analisaremos alguns dos principais processos na Europa, Ásia e África, a fim de compreender essas dinâmicas locais e o que pode ser aprendido deles. Abriremos mão do bloco mais conhecido, a União Europeia, e analisaremos o movimento em blocos econômicos no mundo a partir dos anos de 1990. Bandeira da União Europeia Principais organizações regionais pelo mundo Desde 1945, a ordem internacional se conformou estrategicamente a partir do equilíbrio nuclear. Sobre ele, as nações se organizaram em torno de seus respectivos centros de gravidade – EUA e URSS –, o que nem sempre era uma escolha, e investiram em outros aspectos do poder nacional, todas elas protegidas por uma das superpotências. O desenvolvimento das zonas de integração esteve, pois, inserido nessa lógica, e foi facilitado por processos de “terceirização” da segurança, o que atenuou em muito tensões bilaterais sempre agravadas por históricas corridas armamentistas. É nesse contexto que surge a União Europeia, com relativa desmilitarização entre os Estados europeus a partir das garantias de segurança da superpotência norte-americana. A análise desses processos precisa levar em consideração os movimentos de fundo, que correspondem ao núcleo duro do sistema, ainda carente de um poder centralizado que produza alguma forma de ordem sólida e duradoura. Tal condição do ambiente internacional sugere, assim, os processos de integração como a melhor saída para promover harmonia entre as nações, mesmo com a manutenção dos arsenais. Mao Tse-tung proclamando a República Popular da China A esperança de seus idealizadores é remodelar as relações entre os Estados, desfazendo inimizades históricas, por meio da educação de novas gerações de estadistas e povos. Ásia Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o continente asiático tem passado por tentativas de integração. A guerra deixou, assim como na Europa, bastante destruição e, somado a ela, o processo de descolonização que emergiu levou a duros conflitos por toda a segunda metade do século XX. Todavia, com a revolução comunista na China, os EUA voltaram seus olhares para o Japão. O papel de contendor na Ásia estava aberto pela lacuna deixada pela China, e deveria ser preenchido pelos japoneses. Entretanto, estes jamais aceitaram passivamente o papel de “peões” da estratégia americana na Ásia- Pacífico, e tentaram, durante todo esse tempo, conservar sua soberania. O Japão pouco ou nada participa de esforços militares internacionais, o que contraria os EUA. Na guerra do Golfo, por exemplo, o país enviou apenas um navio médico. Isso faz parte de uma política japonesa para evitar de se tornar a “Inglaterra” do Pacífico, em alusão à aliança quase sempre incondicional dos ingleses com os americanos. O crescimento da China tem significado uma ameaça para o Japão e as demais nações da região, pois ninguém pode determinar com precisão quais serão as consequências dessa alteração do equilíbrio de poder local com a substituição gradativa da hegemonia dos EUA pela chinesa. Índia e Rússia também elevam, progressivamente, suas esferas de influência na região, e as três têm participado, inclusive, de diversas iniciativas de cooperação em defesa integradas, uma delas o Brics. Saiba mais A ameaça do crescimento chinês, que, notadamente, inclui muitos investimentos militares, tem feito até países como a Austrália, sem qualquer tradição militar, buscarem proteção mediante investimentos sem precedentes em materiais de defesa e acordos de cooperação. Subregiões da Ásia em regiões, conforme critério das Nações Unidas Quanto ao contexto geopolítico e econômico da Ásia, podemos destacar resumidamente: Veja a seguir como funcionam os principais acordos comerciais regionais operando na Ásia. Asean A Associação das Nações do Sudeste Asiático foi o primeiro bloco de integração asiático, criado em 1967, e é composta, atualmente, por Brunei, Camboja, Cingapura, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Tailândia e Vietnã. A Asean tem como finalidade aquelas essenciais a qualquer integração: promover estratégias de desenvolvimento regional e preservação da estabilidade política em uma região marcada por diversos conflitos e golpes. Mais especificamente, prevê acordos comerciais para os setores agrícola e industrial entre os membros, de modo a derrubar barreiras alfandegárias e proporcionar o aumento do comércio e geração de riqueza. Contexto geopolítico A Ásia, para muitos, se assemelha, hoje, à Europa de 1914. Nesse sentido, discute-se onde chegará a China. É necessário pontuar que os tempos são diferentes e os custos de um rompimento da ordem internacional seriam muito mais elevados à China do que foram à Alemanha. No entanto, o ambiente internacional tem por característica fundamental a volatilidade e imprevisibilidade. E é justamente para lidar melhor com isso que instituições e processos de integração são pensados e implementados. Contexto econômico A região cresceu imensamente nas últimas décadas, muito em parte devido ao astronômico crescimento chinês. Assim como o continente americano, a Ásia não tem ainda as condições para um arranjo de cooperação continental. Pontua-se, portanto, que a região é bastante heterogênea, com parcerias diversas, sub-regionais. Segundo dados da OMC, atualmente (2021), há 186 acordos comerciais regionais operando na Ásia, que respondem por mais de 50% do total do comércio global. Emblema da Asean Embora acordada em 1967 na Declaração de Bangkok (firmada por cinco países, originalmente, Filipinas, Cingapura, Malásia, Indonésia e Tailândia), o primeiro encontro só aconteceu em 1976, quando assinou-se o Tratado de Amizade e Cooperação que definiu os princípios e metas a serem alcançados pela integração. São eles: O respeito mútuo pela soberania e identidade nacional dos Estados-membros; o direito de cada Estado em conduzir seus negócios livres da interferência externa. A não interferência nos assuntos internos um do outro. A renúncia ao uso da força. A efetiva cooperação entre si. A aceleração do crescimento econômico, do progresso social e do desenvolvimento cultural. Prover assistência mútua para educação, estudos sobre a região e administração. Promover mais colaboração mútua para expansão das atividades comerciais. Manter cooperação ativa com outras organizações regionais ou globais. Nota-se que a maioria desses princípios se resumem, àquela altura, à preocupação com a soberania e a paz, o que é sintomático de uma região envolvida pela insegurança. Uma das razões desse estágio ainda “primitivo” para uma integração na região naquele momento é o relativo abandono pela política das instituições internacionais ocidentais. Enquanto a Europa contou, desde o princípio, com grande aproximação e ajuda dos EUA para mediar as instituições, tomando a ONU como grande berçário, nada remotamente semelhante se passou na Ásia, onde foram privilegiadas estratégias de relações bilaterais, incapazes de promover a mesma estabilidade em escala regional. • • • • • • • • Mapa com os países intregrantes da Asean. Outra razão é a dificuldade da região para a estabilidade de regimes democráticos e, portanto, mais capazes de instituir mecanismos de transparência para a efetividade de relações de cooperação. A região sofre com os legados do sistema colonial e das guerras de libertação, que deixaram muitas deficiências na infraestrutura e mazelas sociais diversas e profundas, o que torna a política local carente da estabilidade necessária a um processo de integração mais afirmativo. Dessa forma, a intenção era uma rede de assistência mútua para a resolução dos problemas comuns entre os países da região, notadamente aqueles relacionados ao subdesenvolvimento herdado da posição da Ásiadurante séculos do sistema colonial, seguido por guerras intensas de descolonização. Por essa razão, podemos observar que os fundamentos da cooperação a partir do acordo de Bangkok eram sobretudo políticos, para melhor simetria entre os países da região. Saiba mais Nesse contexto, os atores regionais foram realistas nas primeiras fases do processo, e evitaram o emprego do termo “integração regional”, em função das dificuldades políticas primárias da região. Diferentemente da Europa, a Ásia desejava, inicialmente, a integração política, pois era fundamental desenvolver o projeto de comunidade. Os passos mais visíveis na direção de uma integração econômica vieram depois, em 1992, em meio ao já discutido contexto do imediato pós-Guerra Fria, quando a região viu a assinatura da Declaração de Cingapura, que deu a largada para a criação da Zona de Livre-Comércio, planejada para entrar em funcionamento em 15 anos, o que evidencia novamente as limitações regionais para a integração. Dito isso, cabe sublinhar que a Asean ainda busca atingir os objetivos primários de aumentar os laços cooperativos na política regional de modo que possa, também, fomentar mais cooperação econômica. Apec Outro bloco que se destaca no cenário asiático e global é a Cooperação Econômica para a Região da Ásia- Pacífico, Apec, criada em 1989. Trata-se do maior bloco regional do mundo, que cobre 2.5 bilhão de pessoas distribuídas por diversos Estados com grande heterogeneidade política, econômica e cultural (como a Asean) ao longo da Ásia e América, e é responsável por 46% de todo o volume de exportações mundiais. O bloco é composto por Austrália, Brunei, Canadá, Chile, China, Indonésia, Japão, Coreia do Sul, Malásia, México, Nova Zelândia, Papua Nova Guiné, Peru, Filipinas, Rússia, Cingapura, Tailândia, Vietnã e Estados Unidos, além de Taiwan (Formosa) e Hong Kong. A formação da Apec surgiu de alguns fóruns entre os países-membros da Asean e algumas outras nações da região da Ásia-Pacífico. O crescimento individual de algumas economias da Asean, conforme visto no item anterior, serviu de estímulo para se pensar mecanismos de expandir o comércio e buscar meios de uma integração de maior amplitude, a partir dos novos patamares alcançados por algumas das principais nações da região, somadas às nações mais desenvolvidas da região, China, Japão e Austrália. Mapa dos membros da Apec Bandeira da Apec Além disso, a região engloba também outra grande potência: os EUA. Os interesses norte-americanos na região são antigos, datando do século XIX. Lembremos que foi uma expedição dos EUA, liderada pelo Comodoro Perry, em 1853, que abriu os portos do Japão, forçando a abertura comercial do país. Desde então, os EUA se tornaram a principal potência do Pacífico, tendo, inclusive, travado uma guerra total contra o Japão pela hegemonia local, durante a Segunda Guerra Mundial. Dessa forma, a expansão de algumas economias locais, impulsionadas por elevados investimentos em educação, ciência e tecnologia, como os “tigres” (Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul), o Japão e a China, atraiu a atenção dos EUA, que se sentiam ameaçados pela crescente capacidade competitiva desses países nos mercados locais. Para além disso, as tensões políticas e militares, potencialmente agravadas por diferenças ideológicas e religiosas, levaram à intensa militarização da região desde a Guerra Fria. Essa corrida armamentista, dotada também de armamentos nucleares, tornou imperativo que se buscasse mais formas de aumentar a integração e cooperação entre a região. Saiba mais A consolidação do grupo tem sido difícil em função, sobretudo, de problemas entre as nações mais poderosas do bloco para atingir o consenso sobre diversas questões, como tarifas e questões de segurança. A expansão chinesa pelas águas do Mar do Sul da China tem se chocado com interesses de outros países locais, sobretudo o Japão, gerando crescentes tensões também com os EUA. Segundo o conceito de “uni- multipolaridade” de Huntington, já aludido, a hegemonia norte-americana vem sofrendo diversas perdas de espaço pelo mundo, inclusive na Ásia-Pacífico, à medida que a China se projeta. Essas tensões, segundo Almeida (2013), assumem nível ainda mais crítico porque a região não para de aumentar sua participação no comércio mundial, com aproximadamente 40% do comércio mundial, um PIB de mais de 18 trilhões, exportações de quase 3 trilhões e importações de mais de 3 trilhões. África O continente africano, à semelhança de outros que passaram pelo processo colonial, apresenta diversos e profundos problemas socioeconômicos, de infraestrutura e de segurança humana, em muitos países em níveis críticos, culminando em Estados falidos ou à beira da falência e guerras civis que se alastram por décadas, como o conflito do Congo. Segundo o Relatório da Organização das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Humano de 1998, pouco após o fim da Guerra Fria, os quinze piores países foram todos da África. Segundo dados do IDH, entre os primeiros 120 colocados, apenas 8 são países da África, e o primeiro deles está ranqueado na posição 61 (Maurício). Entre os 70 piores, porém, os países africanos sobram: 46, inclusive os últimos dez. A história da integração regional No vídeo a seguir, vamos conhecer um pouco da história do continente. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Ecowas ou Cedeao A Comunidade dos Estados da África Ocidental foi criada em 1975, pelo Tratado de Lagos, com representantes de 15 Estados da África Ocidental, com a ausência de Cabo Verde, integrado um ano depois, quando entrou em funcionamento o acordo. A comunidade integrava, na prática, quatro projetos interacionistas anteriores: 1 Projeto liberiano, que preparou a Organização Interina para a Cooperação Econômica da África Ocidental. 2 Conferência para a Coordenação Industrial e pela Organização para a Agricultura e Alimentação (ECA/FAO-ONU). 3 Conferência de Niamey, no Niger, patrocinada pela ECA-ONU, que visava à ampliação da atuação da Comunidade Econômica da África do Oeste (CEAO), organização atuante nos ex- territórios franceses. 4 Iniciativa patrocinada pela Nigéria e pelo Togo, que finalmente levou à Ecowas, em 1975 (MENEZES; PENA FILHO, 2006, p. 151). Emblema da Comunidade dos Estados da África Ocidental Países integrantes da Ecowas Com a criação dessa organização, os países da África Ocidental iniciaram um amplo projeto de cooperação. Os objetivos são os mesmos de outros projetos, como promover a cooperação e integração econômica na política industrial, agrícola, energética, em comunicações e transportes, recursos naturais, comércio, assuntos financeiros e questões sociais e culturais. De sua estrutura administrativa, cumpre sublinhar o Conselho dos Chefes de Estado e de Governo, o Fundo para a Cooperação, Compensação e Desenvolvimento e a Secretaria Executiva, que regulamentam e administram as iniciativas do grupo, resolvendo eventuais conflitos dentro do espírito da cooperação que a integração encarna. Após alcançar alguns resultados iniciais, o grupo traçou como meta a criação de uma União Econômica e Monetária, ainda em fase de planejamento. A partir dos anos 1990, a organização teve novos impulsos dentro do processo da globalização. Entretanto, os impactos desse cenário de intensa abertura comercial não foram bons para os países do bloco, incapazes, como vimos também em outras regiões periféricas, de competir com a agressividade dos mercados mais ricos. Em função disso, em 1993, as nações do bloco assinaram um novo tratado de revisão, para adaptarem-se às novas circunstâncias. Como já vimos, a atuação em bloco bem planejada pode ser a única forma para compensar as imensas assimetrias de poder entre as nações ricas e as periféricas. No caso das nações africanas, essas assimetrias atingem o desnível mais acentuado. Com tudo isso, o bloco vem produzindo alguns resultados, apesar de ser ainda muito pouco competitivo em termos globais. A título de ilustração,o PIB do Mercosul é dez vezes maior que o da Ecowas. Em perspectiva ampla, no entanto, a organização ainda não alcançou resultados que sejam capazes de solucionar os principais problemas de desenvolvimento da região, ainda que alguns resultados possam ser notados. SADC A Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (do inglês Southern Africa Development Community) foi criada em 1992. A iniciativa está intimamente ligada aos problemas geopolíticos gerados pela situação vivida pela África do Sul, que por toda segunda metade do século XX foi governada pelo regime do apartheid. Essa situação fez da história da África Austral um drama particular nas relações internacionais, marcada por intensa instabilidade política com guerras que continuaram após as independências de nações da região, como Angola e Moçambique. O regime da África do Sul foi responsável por financiar regimes de minoria branca pela região, ocasionando guerras que só encontrariam o fim com a desmobilização do dito regime, ao final da Guerra Fria. Bandeira da SADC Localização da SADC no mundo A SADC tem sua origem no SADCC, a Conferência para a Coordenação do Desenvolvimento da África Austral, criada na década de 1980 pelos países da região, com exceção da África do Sul. A SADCC tinha como objetivo coordenar esforços das nações da região visando melhorar suas respectivas situações socioeconômicas por meio da integração e fazer frente ao regime segregacionista da África do Sul. A África do Sul, governada à época por descendentes de holandeses, financiou conflitos em Angola, Moçambique e Zimbábue para frear o processo de tomada do poder na região por governos africanos, que decorria dos processos de descolonização. O regime do apartheid foi ficando gradualmente isolado pela comunidade internacional e ao nível local, cercado por regimes não apenas agora liderados por africanos nativos, mas também alinhados ao bloco soviético. Para tentar reverter a situação, o governo sul-africano atuou para desestabilizar os governos desses países por meio do financiamento de grupos como o RENAMO, em Moçambique, e o UNITA, em Angola. Nesse último país, inclusive, chegou a haver envolvimento direto de forças da SADF (forças armadas sul-africanas), durante os anos 1970 e 1980. Saiba mais Em fins da década de 1980, em meio ao fim da Guerra Fria, a situação do regime sul-africano se tornara insustentável com o estrangulamento promovido pelas sanções internacionais e o desgaste com toda pressão exercida sobre os vizinhos da África Austral. “A queda do Muro de Berlim, o colapso do bloco soviético e a nova fase da globalização forçaram mudanças substanciais no subcontinente africano”, dentre as quais destacava-se a queda do regime do apartheid (MENEZES; PENA FILHO, 2006, p. 160). Somente após a queda do apartheid, foi possível a inclusão da África do Sul no processo de integração, governada por Nelson Mandela. Ainda assim, os Estados que integram a recém- criada SADC lidam com desconfianças em relação ao Estado sul-africano, em função do desnível de desenvolvimento e poder militar, que só se compara ao de Angola na região. Isso levou a políticas, por parte da África do Sul, voltadas para inspirar maior confiança em seus vizinhos, como a desnuclearização de seus arsenais, único caso conhecido de país que se “desnuclearizou”. Sinalizando os novos tempos, o primeiro memorando da SADC tinha como princípios fundamentais: Soberania e igualdade entre os Estados-membros Solidariedade, paz e segurança Direitos humanos, democracia e observância da lei Equidade, equilíbrio e benefício Como se pode perceber, os princípios norteadores da SADC primam mais pela cooperação do que pela criação de um mercado comum ou uma união aduaneira, como no caso da Ecowas. Isso sugere um bom grau de realismo por parte das nações do bloco, conscientes dos imensos problemas para produzir a integração almejada. Os países da África Austral possuem realidades socioeconômicas bastante diferentes, com destaque para a desigualdade, já citada, entre a África do Sul e os demais, herança de imensos investimentos ocidentais durante a segunda metade do século XX, antes da progressiva condenação internacional que impôs sanções ao país. Enquanto o PIB da África do Sul bate os 127 bilhões de dólares, o PIB total dos países do SADC, incluindo a própria África do Sul, chega a 176 bilhões. Países integrantes da SADC Além disso, problemas diplomáticos legados pelo histórico da África do Sul serviram para complicar mais a integração, elevando as desconfianças. Primeiramente, com o regime segregacionista, depois com a ascensão de Nelson Mandela e a popularidade que alcançou no mundo, o que ofuscou os demais líderes da região, gerando incômodos coletivos. Afinal, se tratava de um líder sul-africano em evidência e é preciso entender que o histórico tornava difícil a aceitação plena dessa ideia. Além disso, o novo governo sul-africano, do Congresso Nacional Africano, não foi capaz de impor a ordem rapidamente ao país, o que levou à preservação, por algum tempo, de estruturas do regime anterior, resultando inclusive na continuação da venda de armas ao UNITA. Tudo isso contribuía para azedar as relações entre a África do Sul e seus vizinhos. Atualmente, a integração segue complicada em função da fragmentação que permanece entre os países da região, principalmente em relação à nação mais poderosa, a África do Sul. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. • • • • Ásia Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. África Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 É sabido que o continente africano apresenta graves problemas em matéria de infraestrutura e desenvolvimento humano, além dos conflitos por sua divisão territorial. Nesse sentido, indique o principal motivo para esse cenário: A A falta de apoio das nações desenvolvidas. B O efeito do colonialismo e imperialismo na região. C A taxa de crescimento impulsionada por nações do antigo bloco socialista. D O longo processo de independência dos povos da região. E A falta de incentivo de órgãos como FMI e Banco Mundial para a integração da região. A alternativa B está correta. A colonização destruiu estruturas sociais autóctones na África, promovendo devastação ambiental, econômica e humana, deixando poucas condições para a promoção de estratégias de desenvolvimento posteriormente ao sistema colonial. Questão 2 O contexto do pós-Segunda Guerra conformou que a ordem internacional se daria a partir do equilíbrio nuclear. Sobre o equilíbrio nuclear, avalie as alternativas: As nações se organizaram em torno de centros de poder. EUA e URSS eram centros de poder na ordem internacional. EUA investiu em outros aspectos do poder nacional. URSS investiu somente no poder bélico nuclear. Tanto EUA como URSS foram decisivos para o desenvolvimento das zonas de integração, o que foi facilitado por processos de “terceirização” da segurança. Marque a alternativa correta: A Somente I, II e III estão corretas. B Somente I, II e IV estão corretas. C Somente I, II, III e IV estão corretas. D Somente I, II, III e V estão corretas. E Somente I, III e IV estão corretas. A alternativa D está correta. A bipolaridade condicionou as regiões do mundo às esferas de influência de EUA ou de URSS, de modo coordenado com os respectivos arsenais nucleares, diluindo tensões históricas locais nas regiões altamente nuclearizadas, como a Europa. 1. 2. 3. 4. 5. 4. Conclusão Considerações finais As organizações regionais são fundamentais para melhorar as capacidades relativas das nações, em termos globais, para ampliarem suas economias com a consequente geração de mais riqueza. Não obstante, é preciso ter um olhar crítico sobre elas para identificar os problemas que elas também podem acarretar se adotadas com pouca cautela por nações mais