Prévia do material em texto
UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DEPARTAMENTO DE MEDICINA INTERNA SERVIÇO DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA PROGRAMA DE RESIDÊNCIA MÉDICA EM ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA TRABALHO DE CONCLUSÃO DE RESIDÊNCIA MÉDICA MARIO JOSÉ DIAS TROMBETTA Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A: relato de caso e revisão de literatura Rio de Janeiro 2024 MARIO JOSÉ DIAS TROMBETTA Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A: relato de caso e revisão de literatura Trabalho de conclusão de Residência Médica, apresentado como requisito para obtenção do título de especialista em Endocrinologia e Metabologia pelo Hospital Universitário Pedro Ernesto, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Ciências Médicas, Departamento de Clínica Médica, Serviço de Endocrinologia e Metabologia, Programa de Residência Médica em Endocrinologia e Metabologia. Orientador: Prof. Daniel Barretto Kendler Rio de Janeiro 2024 "A prática da medicina é uma arte, não um comércio; uma vocação, não um negócio; uma vocação na qual seu coração será exercitado igualmente com sua cabeça'' William Osler RESUMO Introdução: A Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A (NEM2A) é uma síndrome hereditária de transmissão autossômica dominante, caracterizada pela predisposição ao desenvolvimento de tumores em glândulas endócrinas. O mecanismo fisiopatológico desta síndrome envolve mutações no gene RET, situado no cromossomo 10. O acometimento glandular é associado ao Carcinoma Medular da Tireoide (CMT), Feocromocitoma e Hiperparatireoidismo. Objetivo: Este estudo visa relatar um caso clínico de NEM2A, enfocando o diagnóstico, a propedêutica realizada e o desfecho clínico. A relevância do estudo esta na conscientização sobre esta rara síndrome, enfatizando a importância do diagnóstico precoce e do manejo adequado, que pode beneficiar significativamente o desfecho clínico do paciente. Método: O trabalho consiste em um estudo de caso único, complementado por uma revisão narrativa da literatura. A metodologia adotada incluiu a descrição detalhada do caso clínico, seleção baseada em sua relevância clínica e educacional, coleta e análise de dados clínicos, laboratoriais e de imagem com ênfase nas manifestações clínicas da NEM2A, processo diagnóstico, intervenções terapêuticas e acompanhamento. A revisão de literatura incluiu pesquisa bibliográfica em bases de dados e análise de estudos relevantes. Apresentação do caso: O caso analisado foi de uma paciente de 27 anos, apresentando nódulos tireoidianos, hiperparatireoidismo primário e histórico familiar positiva para NEM2A. Foi realizada tireoidectomia total e paratireoidectomia com as análises histopatológicas confirmando CMT e HPT. Após os procedimentos cirúrgicos, observou-se a normalização dos marcadores tumorais. A revisão de literatura discutiu aspectos genéticos, manifestações clínicas, diagnóstico, tratamento e prognóstico da NEM2A. Conclusão: O estudo reforça a necessidade de reconhecimento precoce da NEM2A e de uma abordagem multidisciplinar no seu manejo. A identificação de mutações no gene RET em pacientes e familiares em risco é crucial para um planejamento terapêutico eficaz. O caso clínico demonstrou a complexidade do diagnóstico e tratamento de NEM2A, enfatizando a importância da correlação genótipo-fenotípica e da necessidade de tratamentos personalizados baseados em uma avaliação detalhada de cada caso. Além disso, o estudo ressalta a importância de pesquisas futuras com coortes maiores, visando ampliar o conhecimento sobre a variabilidade clínica e as respostas ao tratamento em NEM2A. Palavras-chave: Neoplasia Endócrina Múltipla; Carcinoma Medular de Tireoide; Hiperparatireoidismo; Feocromocitoma ABSTRACT Introduction: Multiple Endocrine Neoplasia Type 2A (MEN2A) is a hereditary syndrome of autosomal dominant transmission, characterized by a predisposition to the development of tumors in endocrine glands. The pathophysiological mechanism of this syndrome involves mutations in the RET gene, found on chromosome ten. Glandular involvement is associated with Medullary Thyroid Carcinoma (MTC), Pheochromocytoma, and Hyperparathyroidism. Objective: This study aims to report a clinical case of MEN2A, focusing on the diagnosis, the diagnostic approach undertaken, and the clinical outcome. The significance of the study lies in raising awareness about this rare syndrome, emphasizing the importance of early diagnosis and appropriate management, which can significantly benefit the patient's clinical outcome. Method: The work consists of a single case study, complemented by a narrative review of the literature. The adopted methodology included a detailed description of the clinical case, selection based on its clinical and educational relevance, collection, and analysis of clinical, laboratory, and imaging data, with emphasis on the clinical manifestations of MEN2A, diagnostic process, therapeutic interventions, and follow-up. The literature review involved bibliographic research in databases and analysis of relevant studies. Case Presentation: The case analyzed was a 27- year-old patient presenting with thyroid nodules, primary hyperparathyroidism, and a positive family history for MEN2A. Total thyroidectomy and parathyroidectomy were performed, with histopathological analyses confirming MTC and HPT. After the surgical procedures, normalization of tumor markers was observed. The literature review discussed genetic aspects, clinical manifestations, diagnosis, treatment, and prognosis of MEN2A. Conclusion: The study reinforces the need for early recognition of MEN2A and a multidisciplinary approach in its management. Identifying mutations in the RET gene in patients and at-risk family members is crucial for effective therapeutic planning. The clinical case demonstrated the complexity of diagnosing and treating MEN2A, emphasizing the importance of genotype-phenotype correlation and the need for personalized treatments based on a detailed assessment of each case. Furthermore, the study highlights the importance of future research with larger cohorts, aiming to expand knowledge about the clinical variability and treatment responses in MEN2A. Keywords: Multiple Endocrine Neoplasia; Medullary Thyroid Carcinoma; Hyperparathyroidism; Pheochromocytoma LISTA DE TABELAS Tabela 1 — Prevalência das manifestações clínicas nos Subtipos da NEM2A ........................27 Tabela 2 — Indicações de rastreamento do gene RET .............................................................31 LISTA DE FIGURAS Figura 1 — Tomografia Computadorizada de Pescoço – Corte Axial .................................... 14 Figura 2 — Tomografia Computadorizada de Pescoço - Corte coronal .................................. 15 Figura 3 — Tireoidectomia Total associado a Paratireoidectomia - Intraoperatório ............... 16 Figura 4 — Peça cirúrgica – Tireoide ...................................................................................... 17 Figura 5 — Estrutura da Proteína RET .................................................................................... 23 Figura 6 — Correlações genótipo-fenótipo, frequência alélica e níveis de risco para o comportamento do carcinoma medular de tireoide .................................................................. 29 Figura 7 — Diretrizes sugeridas de triagem e tratamento para indivíduos sob risco de NEM2 . ................................................................................................................................................. 33 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 — Progressão dos valores séricos de Calcitonina e CEA .........................................18LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CEA Antígeno Carcinoembrionário CMT Carcinoma Medular de Tireoide FEO Feocromocitoma GDNF Glial cell line-derived Neurotrophic Factor GFrα Correceptor de superfície celular da família dos receptores proteicos α HPTP Hiperparatireoidismo Primário HSCR Doença de Hirschsprung LAC Líquen Amiloide Cutâneo MEN2A Multiple Endocrine Neoplasia Type 2A MTC Medullary Thyroid Carcinoma NEM2 Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2 NEM2A Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A NEM2B Neoplasia Endócrina Mltipla Tipo 2B PTH Paratormônio TIRADS Thyroid Imaging Reporting and Data System TK1 Tyrosine Kinase 1 TK2 Tyrosine Kinase 2 VR Valor de referência SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................... 10 2 METODOLOGIA ............................................................................................... 11 2.1 DESCRIÇÃO DO CASO CLÍNICO ..................................................................... 11 2.2 REVISÃO DE LITERATURA ............................................................................. 11 3 RELATO DE CASO ........................................................................................... 13 3.1 EXAMES COMPLEMENTARES ........................................................................ 18 4 REVISÃO DE LITERATURA .......................................................................... 21 4.1 NEOPLASIA ENDÓCRINA MULTIPLA TIPO 2 .............................................. 21 4.2 PROTO-ONCOGENE RET .................................................................................. 21 4.3 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA NEM2A .................................................. 23 4.3.1 Carcinoma Medular de Tireoide ....................................................................... 23 4.3.2 Feocromocitoma .................................................................................................. 24 4.3.3 Hiperparatireoidismo Primário ......................................................................... 25 4.4 VARIANTES FENOTÍPICAS DA NEM2A ..................................................... 25 4.4.1 NEM2A Clássica.................................................................................................. 25 4.4.2 NEM2A com Líquen Amiloidótico Cutâneo ..................................................... 25 4.4.3 NEM2A com Doença de Hirschsprung ............................................................. 26 4.4.4 Carcinoma Medular de Tireoide Familiar: ...................................................... 26 4.5 CORRELAÇÃO GENÓTIPO-FENÓTIPO ..................................................... 27 4.6 RASTREAMENTO GENÉTICO ...................................................................... 30 4.7 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO DE TRANSFORMAÇÃO NEOPLÁSICA. 31 5 CONCLUSÃO ..................................................................................................... 34 REFERÊNCIAS .................................................................................................. 35 10 1 INTRODUÇÃO A Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A (NEM2A) é uma síndrome hereditária de transmissão autossômica dominante caracterizada pela predisposição ao desenvolvimento de tumores em múltiplas glândulas endócrinas. Esta síndrome é causada por mutações no gene RET, localizado no cromossomo 10, responsável pela codificação de um receptor tirosina quinase. A NEM2A é tipicamente associada ao Carcinoma medular da tireoide (CMT), feocromocitoma e hiperparatireoidismo. A incidência desta patologia é baixa, ocorrendo 1 caso a cada 80.000 -200.000 nascidos vivos, mas seu reconhecimento é crucial devido o potencial de realização de triagem genética nos familiares, possibilitando o diagnóstico do paciente em sua fase assintomática.(MELMED et al., 2019) O presente trabalho tem como objetivo relatar um caso clínico de NEM2A, abordando os desafios diagnósticos e terapêuticos enfrentados, e realizar uma revisão da literatura atual sobre o tema. A relevância deste estudo reside na necessidade de conscientização sobre esta rara síndrome, enfatizando a importância do diagnóstico precoce por meio da realização do rastreamento genético que pode melhorar significativamente o prognóstico de familiares afetados mediante intervenção profilática. 11 2 METODOLOGIA Este trabalho consiste em um estudo de caso único, complementado por uma revisão narrativa da literatura. A metodologia empregada divide-se em duas partes principais: a descrição do caso clínico e a revisão de literatura. 2.1 DESCRIÇÃO DO CASO CLÍNICO: ● Seleção do Caso: O caso clínico foi selecionado com base em sua relevância clínica e educacional, representando um exemplo típico de Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A (NEM2A). O paciente, cujos dados foram anonimizados para preservar sua privacidade, foi acompanhado no serviço de Endocrinologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto. ● Coleta de Dados: Os dados clínicos, laboratoriais e de imagem foram coletados retrospectivamente a partir dos registros médicos do paciente. Isso incluiu história clínica, exames físicos, resultados de exames laboratoriais, imagens radiológicas, tratamentos realizados e acompanhamento. ● Análise do Caso: O caso foi analisado com foco nas manifestações clínicas da NEM2A, no processo diagnóstico, nas intervenções terapêuticas e no acompanhamento. Aspectos éticos foram rigorosamente observados, garantindo a confidencialidade e a conformidade com as diretrizes de pesquisa em seres humanos. 2.2 REVISÃO DE LITERATURA: ● Definição de Estratégia de Busca: A pesquisa bibliográfica foi realizada nas bases de dados PubMed, Scopus, LILACS e Google Scholar. Foram utilizadas combinações das palavras-chave "Multiple Endocrine Neoplasia Type 2A", "Medullary Thyroid Carcinoma", "pheochromocytoma", "hyperparathyroism" e "gene RET". ● Seleção de Estudos: Foram incluídos artigos originais, revisões, relatos de caso e diretrizes clínicas, em português e inglês. A seleção priorizou estudos com relevância clínica e aplicabilidade ao contexto brasileiro. 12 ● Extração e Análise de Dados: Os dados extraídos incluíram informações sobre epidemiologia, genética, manifestações clínicas, diagnóstico, tratamento e prognóstico da NEM2A. A análise focou em identificar padrões, controvérsias e lacunas no conhecimento atual. ● Síntese dos Dados: Os resultados foram sintetizados de forma a proporcionar uma visão abrangente e atualizada sobre a NEM2A, com ênfase nas implicações para a prática clínica no Brasil. 13 3 RELATO DE CASO Paciente do sexo feminino, 27 anos, negra, foi encaminhada ao ambulatório de Endocrinologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto devido a um aumento da região cervical e ao diagnóstico de NEM2A em sua irmã de 28 anos, após diagnóstico de CMT e teste genético positivo para mutação no códon 634 (p.Cys634Phe) do éxon 11 do proto-oncogene RET. Mediante o exposto, paciente realizou ultrassonografia de tireoide que demonstrava nódulo em lobo esquerdo, 42 x 27 mm, heterogêneo, contorno e limites precisos, calcificações de permeio (TIRADS 4) e nódulo em 1/3 médio de lobo direito, 12 x 09 mm, circunscrito (TIRADS 2). Exame laboratoriais evidenciaram hiperparatireoidismo primário: Cálcio: 11,2 mg/dL (VR: 8,6-10,2 mg/dL) ; Albumina: 4,9 g/dL (VR: 3,4 a 4,8 g/dL); Fósforo 2,9 mg/dL (2,7 a 4,5 mg/dL); PTH 134 pg/mL (VR: 15-65 pg/mL) e Marcadores tumorais elevados: Calcitonina 15577 pg/mL (VRentretanto não visualizado linfonodomegalias ao método ou demais alterações sugestivas de acometimento metastático. (Figura 01 e Figura 02) Posteriormente, a paciente foi internada e submetida a Tireoidectomia Total, Paratireoidectomia Total e esvaziamento central (Figuras 03 e 04) sem presença de intercorrências intraoperatórias. Por conseguinte, o cuidado pós-operatório imediato foi realizado em leito de terapia intensiva para realização de reposição endovenosa de cálcio e monitorização laboratorial seriada. Assim, a paciente teve alta hospitalar cinco dias após o ato cirúrgico com prescrição de Levotiroxina 75 mcg uma vez ao dia, Carbonato de cálcio 500 mg três vezes ao dia e Calcitriol 0,25 mcg duas vezes ao dia. Dessa forma, laudo histopatológico evidenciou Carcinoma Medular de Tireoide Multicêntrico, com maior massa tumoral de 3,8 cm, sem presença de invasão angiolinfática e perineural e dois adenomas de paratireoide. Paciente retornou ambulatorialmente, com queixas relacionadas ao hipoparatireoidismo pós-cirúrgico, sendo realizado ajuste de dose de suplementação de carbonato de cálcio para 4 comprimidos ao dia. Dosagens de Calcitonina e CEA em pós-operatório demonstraram normalização sérica (Representado em Gráfico 1). No momento, paciente mantendo acompanhamento ambulatorial, em bom estado clínico. 14 Figura 1 — Tomografia Computadorizada de Pescoço – Corte Axial Fonte: Os autores (2024). 15 Figura 2 — Tomografia Computadorizada de Pescoço - Corte coronal Fonte: Os autores (2024). 16 Figura 3 — Tireoidectomia Total associado a Paratireoidectomia - Intraoperatório Fonte: Os autores (2024). 17 Figura 4 — Peça cirúrgica – Tireoide Fonte: Os autores (2024). 18 Gráfico 1 — Progressão dos valores séricos de Calcitonina e CEA Fonte: Os autores (2024). 3.1 EXAMES COMPLEMENTARES: Data de Realização: 29/07/2022 Tomografia Computadorizada do Pescoço: Laudo: Tireoide em posição habitual, com dimensões aumentadas e contorno lobulado, apresentando duas formações nodulares heterogêneas, predominantemente hipodensas, de limites definidos e contornos irregulares, hipocaptantes de contraste, à direita medindo 1,3 x 1,2 cm e à esquerda, medindo 3,1 x 2,4 cm. Há outra lesão nodular densa, com impregnação homogênea pelo contraste, medindo 2,0 x 1,5 cm, situada junto ao polo inferior do lobo esquerdo da tireoide. Glândulas submandibulares e parótidas com forma, dimensões e densidade normais. Estruturas da faringe e laringe sem alterações. Gordura parafaríngea e paralaríngea preservada. Traqueia e esôfago cervical de aspecto preservado. Não há evidência de linfonodomegalias. Planos musculares preservados 19 Tomografia Computadorizada do Tórax: Raros pequenos nódulos não calcificados, menores que 0,4 cm, esparsos em ambos os pulmões. Calcificação residual no lobo médio. Restante do parênquima pulmonar sem alterações expressivas. Traqueia e brônquios principais sem alterações. Não há evidência de linfonodomegalias. Ausência de derrame pleural. Aorta e artéria pulmonar com calibre preservado. Remanescente tímico. Tomografia Computadorizada do Abdome e Pelve: Fígado com dimensões, contorno e densidade normais. Não há dilatação das vias biliares. Vesícula biliar normodistendida. Baço, pâncreas e glândulas adrenais sem alterações evidentes. Pequeno baço acessório no hilo esplênico, medindo 1,4 cm. Rins tópicos, de volume e espessura parenquimatosa preservada, concentrando satisfatoriamente o meio de contraste. Não há evidências de cálculos ou hidronefrose. Aorta e artérias ilíacas de calibre e curso normais, bem opacificadas. Não há linfonodomegalias. Bexiga sem alterações evidentes. Ausência de líquido livre intracavitário. Data de realização: 04/08/2023 Análise Histopatológica: Amostra 1: Tireoide: Macroscopia: Tireoide pesando 30g com superfície bosselada e castanha, recoberta por delgada cápsula. O lobo direito mede 3,5 x 2,0 x 1,7cm e, aos cortes, notam-se formação brancacenta, nodular, lobulada e firme no 1/3 médio, medindo 1,2 x 1,2cm e distando 0,1cm da cápsula do órgão. O restante do parênquima mostra-se carnoso e vinhoso. O istmo mede 2,5 x 1,0 x 0,5cm e, aos cortes, é acastanhada e carnosa. O lobo esquerdo mede 4,0 x 3,5 x 3,0 cm e, aos cortes, nota-se massa tumoral medindo 3,8 x 3,0 cm, que ocupa quase todo o lobo, brancacenta, nodular, lobulada e firme, distando 0,1 cm da cápsula do órgão. Microscopia: Carcinoma medular de tireoide formando 2 massas tumorais, medindo a maior. 3,8cm no lobo esquerdo e o menor 1,2 cm no lobo direito. As lesões não ultrapassam a cápsula tireoidiana. Não foram identificados êmbolos neoplásicos linfáticos e invasão 20 perineural. Restante da tireoide e istmo de aspecto habitual. Obs.: Confirmar por imuno- histoquímica. Amostra 2: Paratireoide inferior esquerda Macroscopia: Amostra recebida para exame fixada em formol, identificado como paratireoide inferior esquerda constituída por estrutura de conformação nodular de tecido pardo- claro e elástico E (capsulada) recebida parcialmente seccionada, medindo 2 x 1,5 1,3cm. Aos cortes, o aspecto se repete. Microscopia: Adenoma de Paratireoide Amostra 3: Paratireoide superior esquerda Macroscopia: Amostra recebida para exame fixada em formol, identificado como paratireoide superior esquerda e constituída por estrutura de conformação nodular, de tecido pardo-claro, elástico e capsulado, medindo 0,6 cm x 0,4 x 0,3 cm. Aos cortes, o aspecto se repete Microscopia: Adenoma de Paratireoide Amostra 4: Paratireoide superior direita e Linfonodo Macroscopia: Amostra recebida para exame fixada em formol, identificado como esvaziamento cervical à direita nível VI e constituída por 2 fragmentos Irregulares de tecido amarelo e untuoso, medindo, em ·conjunto, 3,0 x 2,0 x 0,6cm, do qual foram isoladas 2 formações nodulares acastanhadas e elásticas, medi do. a maior 0,7 x 0,5 x 0,2cm. Microscopia: Paratireoide e um linfonodo sem malignidade 21 4 REVISÃO DE LITERATURA: 4.1 NEOPLASIA ENDÓCRINA MULTIPLA TIPO 2 A Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 (NEM2) é uma síndrome genética de padrão autossômico dominante, caracterizada pela associação de neoplasias endócrinas e não endócrinas. Esta síndrome se divide em duas entidades principais: Neoplasia Endócrina Multipla Tipo 2A (NEM2A) e a Neoplasia Endócrina Multipla Tipo 2B (NEM2B), representando aproximadamente 95% e 5% dos casos, respectivamente(SALES; CERCATO; HALPERN, 2023). A NEM2A é caracterizada pela ocorrência de carcinoma medular da tireoide (CMT) em associação com feocromocitoma e/ou hiperparatireoidismo primário. Por outro lado, a NEM2B se distingue pela ausência de acometimento das paratireoides e a apresentação de neuromas mucosos, ganglioneuromatose intestinal, características marfanoides e dismorfismo facial. Nesse contexto, as manifestações fenotípicas que determinarão a classificação entre as duas síndromes, assim como o grau de pré-disposição de formação neoplásica nas glândulas endócrinas são definidos pela característica da mutação e sua localização nos códons específicos do gene RET.(SARAVANA-BAWAN; PASTERNAK, 2022) 4.2 PROTO-ONCOGENE RET O proto-oncogene RET (Rearranged during Transfection) é crucial no mecanismo fisiopatogênico do desenvolvimento da Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 (NEM2), caracterizado pela presença de uma mutação germinativa ativadora. Localizado no cromossomo 10 (10q11.2) e composto por 21 exons, o RET codifica uma proteína transmembrana da superfamília das caderinas, atuando como receptor de tirosinaquinase. Dessa forma, apresenta papel essencial no desenvolvimento embrionário de sistemas como o urogenital, nervoso central e periférico, com destaque para o sistema nervoso entérico. Sua expressão predomina em tecidos endócrinos,incluindo as células C da tireoide e a porção medular das glândulas adrenais.(GILD et al., 2023) A proteína RET (Figura 3) apresenta três domínios celulares distintos: um domínio N- terminal extracelular com peptídeo sinalizador, domínios caderina e regiões ricas em cisteína; um domínio transmembrana; e uma região carboxiterminal intracelular contendo dois domínios 22 tirosinoquinase (TK1 e TK2), separados por 28 aminoácidos, onde se localizam os resíduos tirosina fosforilados durante a ativação do receptor, essenciais para as vias de sinalização intracelular.(SAHAKIAN; CASTINETTI; ROMANET, 2023) Sob condições normais, o receptor RET é ativado por um complexo envolvendo o GDNF (Glial Cell Line-Derived Neurotrophic Factor) e um correceptor de superfície celular da família dos receptores proteicos α (GFrα). A interação deste complexo com o RET induz a dimerização do receptor e a subsequente autofosforilação tirosinoquinase, desencadeando uma cascata de eventos de sinalização intracelular para o controle do crescimento e diferenciação celular.(SAHAKIAN; CASTINETTI; ROMANET, 2023) Na NEM2, mutações no domínio extracelular do RET causam autodimerização e ativação da sinalização intracelular independente do ligante. Já mutações no domínio intracelular resultam na ativação constante do receptor, mesmo sem dimerização. Esses mecanismos contribuem para o descontrole da proliferação, sobrevivência, diferenciação, interação e motilidade celulares, levando à ativação oncogênica e ao fenótipo neoplásico.(MATHIESEN et al., 2022) 23 Figura 5 — Estrutura da Proteína RET A proteína do receptor RET contém um domínio extracelular que possui quatro domínios semelhantes a caderina e uma região rica em cisteína. A proteína RET também possui uma única região que atravessa a membrana plasmática, e um domínio intracelular contendo um grande domínio de tirosina quinase intercalado. Fonte: Adaptado de Drosten e M Pützer (2008). 4.3 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA NEM2A 4.3.1 Carcinoma Medular de Tireoide O CMT é uma neoplasia maligna derivada das células C ou parafoliculares de origem neuroectodérmica, que possuem como características a produção de calcitonina e a ausência de captação de iodo. No geral, embora seja responsável por aproximadamente 5% dos casos de tumores malignos tireoidiano, representa 15 % de toda a mortalidade relacionada a este grupo de patologias, devido à sua natureza agressiva e maior 24 probabilidade de propagação linfática e hematogênica(SARAVANA-BAWAN; PASTERNAK, 2022) O CMT possui dois espectros distintos de manifestação fisiopatogênica: O CMT Familiar representa 20 a 25% dos casos, possuindo como mecanismo a presença de uma mutação germinativa no proto-oncogene RET de transmissão autossômica dominante, enquanto os 75 a 80% dos casos restantes apresentam a doença de modo esporádico e, em 40 a 50% destes, a mutação do gene RET também pode ser encontrada, mas de maneira somática, apenas no tecido tumoral. Dessa forma, em relação à apresentação clínica , a forma familiar costuma ocorrer em idade mais jovem (terceira década) que os esporádicos (quinta década), além de serem geralmente multicêntricos (65 a 90% dos casos), bilaterais, envoltos por hiperplasia de células C e associados às manifestações que integram a NEM2. (R PAUL ROBERTSON, 2023) 4.3.2 Feocromocitoma O Feocromocitoma é um tumor neuroendócrino originado das células cromafins da medula adrenal que possui como característica, a produção de catecolaminas, incluindo epinefrina, norepinefrina e dopamina. Mais de 30% dos FEOs estão associados a mutações germinativas, incluindo mutações rearranjadas na transcrição (RET), observada na neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2A). Nesse sentido, sua manifestação ocorre em até 50% dos pacientes com NEM2A e 2B, apresentando maior incidência de doença bilateral (síncrona ou metacrônica), multifocal e extra-adrenal em comparação aos casos esporádicos. A idade de apresentação ocorre geralmente na segunda à quarta décadas de vida em pacientes com NEM2, cerca de 10 a 20 anos mais precoce a apresentação esporádica. Os sintomas são semelhantes aos da doença esporádica, sendo comuns hipertensão, palpitações, dores de cabeça e diaforese, apesar de uma parcela significativa dos indivíduos serem assintomáticos. (WEBB et al., 1980) Ademais, os FEOs raramente são a doença de apresentação da NEM2. Porém, devem sempre ser considerados e descartados antes do tratamento de quaisquer condições associadas. Se um feocromocitoma for identificado, ele deverá ser tratado como prioridade. A triagem deve ser realizada para pacientes com NEM2 com metanefrinas plasmáticas ou catecolaminas urinárias de 24 horas, quando a primeira não estiver disponível, devido à maior sensibilidade dos tumores no NEM2 é encontrada na adrenal, entretanto, de forma rara, pode ocorrer acometimento extra-adrenal, especialmente em glândulas suprarrenais acessórias ou em paragangliomas, representando menos de 10%. (SCHLAG et al., 2015) 25 4.3.3 Hiperparatireoidismo Primário O HPTP está presente em 30% dos pacientes com NEM2A, sendo raramente a apresentação inicial da NEM2A. Geralmente é encontrada na quarta ou quinta década de vida. Sua apresentação na NEM2A é geralmente multiglandular, de curso clínico leve e apresenta baixa taxa de recorrência após a cirurgia inicial. Muitas vezes é diagnosticado no momento da cirurgia do CMT, em que as paratireoides podem apresentar alterações macroscópicas como adenomas ou hiperplasia previamente às manifestações laboratoriais. Dessa forma, é preconizado de modo simultâneo a remoção destas com presença de alteração, preservando as demais em caso de ausência de alteração estrutural e hipercalcemia. (SCHLAG et al., 2015) (GUERIN et al., 2018) 4.4 VARIANTES FENOTÍPICAS DA NEM2A A NEM2A é subdividida em quatro variantes(WELLS et al., 2015) 4.4.1 NEM2A Clássica Representa a variante mais comum (55 % dos casos), caracterizada pela apresentação do Carcinoma Medular de Tireoide em combinação com feocromocitoma e/ou múltiplos tumores das glândulas paratireoides em um único paciente, ou a presença de dois ou mais tipos de tumor em vários membros de uma única família. Este subtipo é marcado pela presença do CMT em quase 100% dos casos, enquanto a frequência de feocromocitoma e hiperplasia de paratireoides são de 40-50 % e 10-20%, respectivamente. (MATHIESEN et al., 2022) 4.4.2 NEM2A com LAC: 26 Este subtipo é marcado pela presença de lesões dermatológicas localizadas na região escapular dorsal, correspondente aos dermátomos T2-T6. Neste contexto, representa 10% dos casos e o sintoma clássico do Líquen Amiloidótico Cutâneo é a presença de prurido intenso, o qual melhora quando há exposição ao sol e pode apresentar períodos de estresse como fator de piora. Posteriormente, ocorre uma hiperpigmentação local, aparentemente secundária ao atrito desencadeado por arranhões. Nesse contexto, a realização da análise histopatológica da lesão demonstra a presença de conteúdo amiloide na derme. Ademais, NEM2A com LAC pode apresentar a lesão cutânea como manifestação clínica inicial, antecedendo o desenvolvimento do carcinoma medular e as demais neoplasias endócrinas. (ROHMER; PRUNIER- MIREBEAU; POTORAC, 2019) 4.4.3 NEM2A com HSCR Doença de Hirschsprung (HSCR), também conhecida como cólon agangliônico, representa a principal causa genética de obstrução intestinal funcional, com uma incidência de 1 a cada 5000 nascimentos. O proto-oncogene RET é o principal gene envolvido na patogênese tanto de NEM2 quanto de HSCR, mas enquanto mutações ativadoras causam NEM2, mutações inativadoras estão envolvidas em HSCR. Essas duas doenças são coexpressas em um número muito pequeno de famílias. HSCR ocorre em aproximadamente 7% dos pacientes com NEM2A que carregam mutaçõesRET no exon 10. Uma explicação para o efeito paradoxal, ou seja, a mesma mutação pode estar associada a um efeito de ganho de função, como CMT, bem como com uma perda de função, como aganglionose em HSCR, é que a ativação constitutiva do RET pode ser suficiente para desencadear a transformação neoplásica das células C e das células cromafins adrenais, mas insuficiente para gerar uma resposta trófica em neurônios precursores devido à falta de expressão da proteína RET na superfície celular.(SCHLAG et al., 2015) 4.4.4 Carcinoma Medular de Tireoide Familiar: O CMTF é definido pela presença isolada de CMT em pelo menos 4 indivíduos na mesma família, com ausência de história de feocromocitoma ou hiperparatireoidismo primário. Anteriormente, era considerada uma síndrome autônoma, entretanto, conforme o acompanhamento dos pacientes se tornou mais 27 extenso, as variantes do proto-oncogene RET que inicialmente acreditava-se favorecer a oncogênese nas células C tireoidianas, também foi associada ao desenvolvimento de feocromocitoma e hiperparatireoidismo primário, embora geralmente com menor penetrância.(WELLS et al., 2015) Tabela 1 — Prevalência das manifestações clínicas nos Subtipos da NEM2A Fonte: Os autores (2024). 4.5 CORRELAÇÃO GENÓTIPO-FENÓTIPO A realização de grandes estudos populacionais de análise genética a partir da identificação do proto-oncogene RET demonstrou a associação das apresentações clínicas (fenótipos) e mutações específicas no proto-oncogene RET (genótipo)(Figura 6). Esta correlação permitiu que a identificação do códon acometido possua função diagnóstica e de estimação do fenótipo patológico como: idade ao diagnóstico, agressividade tumoral, presença ou ausência de outras neoplasias, como feocromocitoma e hiperparatireoidismo.(RAUE; FRANK-RAUE, 2012) Nesse contexto, com o avanço da biologia molecular, foram identificadas algumas correlações específicas entre mutações no RET e os subtipos NEM 2 – 85% dos indivíduos com NEM 2A apresentam mutações no códon 634 (éxon 11), e 10 a 15% apresentam mutações nos códons 609, 611, 618 e 620. Além disso, os casos de NEM 2A associados com doença de Hirschsprung apresentaram mutações no éxon 10 (códon 609, 611, 618, 620); nos indivíduos 28 com NEM 2A e LAC, as mutações se localizam no códon 634, éxon 11(RAUE; FRANK- RAUE, 2012) Além disso, em relação as demais neoplasias endócrinas, foi identificado que os feocromocitomas são detectados em aproximadamente 50% dos indivíduos com mutações no códon 634 e no códon 918, e, raramente, são observados em mutações no éxon 10 (códon 609, 611, 618, 620) ou éxon 15 (códon 791; 804.61,62). O hiperparatireoidismo na NEM 2A é comumente associado a mutações no códon 634 e, em particular, a substituição de cisteína pela arginina (mutação C634r). (AMODRU et al., 2020) Nesse contexto, a realização da análise genética do gene RET implicações importantes no manejo clínico dos indivíduos com NEM 2 e seus familiares. A documentação da associação genótipo-fenótipo foi utilizada na elaboração de guidelines as recomendações no manejo clínico e rastreamento dos indivíduos com NEM2 e seus familiares(WELLS et al., 2015) 29 Figura 6 — Correlações genótipo-fenótipo, frequência alélica e níveis de risco para o comportamento do carcinoma medular de tireoide. Mutações raras baseadas em muitas poucas famílias com variantes genéticas de significado desconhecido não estão incluídas. Estas variantes por mudança de aminoácido são exibidas de acordo com a abreviação.Frequência de variantes em NEM2a/2b e MTC esporádico. Fonte: Adaptado de Gild e Clifton- bligh (2023). 30 4.6 RASTREAMENTO GENÉTICO O avanço na compreensão do mecanismo fisiopatogênico do CMT e da NEM2A permitiu a identificação da importância das mutações no gene RET nas características oncogênicas e de hereditariedade na NEM2A. Nesse contexto, a American Thyroid Association possui recomendações formais na realização da análise do gene RET (Tabela 2) com diversas finalidades: método diagnóstico, ferramenta na decisão terapêutica e nas estratégias que visam a prevenção em saúde.(WELLS et al., 2013) Nesse contexto, a realização da análise genética é recomendada em diferentes contextos clínicos: diagnóstico molecular em paciente com presença de suspeita clínica; ferramenta na determinação da propedêutica do paciente de acordo com a correlação genótipo-fenótipo da mutação encontrada; Identificação da mutação RET específica para facilitar a realização do rastreamento em familiares com parentesco de primeiro grau(WELLS et al., 2015) Dessa forma, a realização do rastreamento de indivíduos que estão sob risco de serem portadores de NEM2 em fase assintomática ou doença clínica aparente possui alto potencial de benefício clínico devido o padrão de herança autossômica dominante e a alta penetrância que as mutações do gene RET apresentam. A identificação precoce de pacientes acometidos permite que a doença pré-clínica seja detectada, resultando na realização de medidas de prevenção e terapêuticas que promovam melhoras índices prognósticos e de qualidade de vida do paciente. Caso paciente apresente rastreio positivo, a realização da tireoidectomia profilática visa a realização da intervenção cirúrgica antes do desenvolvimento neoplásico ou enquanto o acometimento estiver restrito a tecido tireoidiano, o que possibilita a cura do CMT. (TORRESAN et al., 2022) 31 Tabela 2 — Indicações de rastreamento do gene RET Fonte: Adaptado de Wells, Jr. e Asa (2015). 4.7 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO DE TRANSFORMAÇÃO NEOPLÁSICA A Associação Americana de Tireoide, em 2015, estabeleceu uma classificação relacionada com as categorias de risco do CMT de acordo com a mutação germinativa detectada no gene RET (Figura 7). Dependendo da categoria de risco, define-se o momento mais adequado para a realização do teste genético, para o início de exames como calcitonina e USG cervical, e a idade ideal para a tireoidectomia profilática.(WELLS et al., 2015) Nesse contexto, a identificação de indivíduos que possuam mutações que acometem o gene RET antes do desenvolvimento do CMT ou enquanto a lesão neoplásica estiver restrita ao tecido tireoidiano com realização de intervenção cirúrgica precoce representa a única possibilidade de cura. Entretanto, apesar das recomendações publicadas pela ATA, é essencial a avaliação do risco-benefício da tireoidectomia profilática em idade muito precoces, em que a taxa de 32 complicações relacionadas ao procedimento é maior. Assim, a fim de se aprimorar o processo de decisão do melhor momento para abordagem, é recomendado a elaboração de equipes multidisciplinares compostas por endocrinologistas, cirurgiões com alto volume de procedimentos, pediatras, além da participação dos pais como participantes na tomada de decisão. A classificação de risco possui 3 categorias: • Highest Risk (HST): Pacientes com NEM2B devido à mutação M918T. O rastreamento genético é recomendado desde o nascimento, com exames de calcitonina e USG cervical iniciando antes dos 6 e 12 meses de vida, respectivamente, e tireoidectomia total recomendada no primeiro ano de vida. • High Risk (H): Pacientes com NEM2A com a mutação C634 e pacientes com NEM2B pela mutação A883F. O rastreamento anual com exame físico, USG cervical e dosagem de calcitonina deve começar aos 3 anos, com tireoidectomia total profilática indicada até os 5 anos, dependendo dos níveis de calcitonina e achados ultrassonográficos. • Moderate Risk (MOD): Para pacientes com CMTF e mutações distintas das M918T, C634 e A883F. O rastreio anual com exame físico, USG cervical e dosagem de calcitonina começa aos 5 anos, com a tireoidectomia total profilática sendo indicada na infância ou adolescência, baseada nos níveis séricos de calcitonina e nos achadosdo exame físico ou USG cervical. 33 Figura 7 — Diretrizes sugeridas de triagem e tratamento para indivíduos sob risco de NEM2 34 5 CONCLUSÃO: O caso clínico analisado demonstra a complexidade inerente ao diagnóstico e tratamento de NEM2A, enfatizando a relevância da identificação precoce de mutações no gene RET. A correlação entre a genotipagem e as manifestações fenotípicas da doença no caso estudado fornece um valioso entendimento da heterogeneidade dessa síndrome, com implicações significativas para a prática clínica. Este trabalho ressalta a necessidade imperativa de um reconhecimento precoce da NEM2A, bem como uma abordagem multidisciplinar no seu manejo. A identificação de mutações no gene RET em pacientes e em familiares em risco é crucial para um planejamento terapêutico eficaz, permitindo intervenções preventivas e tratamento adequado do carcinoma medular da tireoide e das outras manifestações associadas. Desse modo, ressalta-se a necessidade de tratamentos personalizados para pacientes com NEM2A, baseados em uma avaliação detalhada de cada caso, incluindo a idade do paciente, o estágio da doença, a genotipagem do RET e comorbidades presentes, metodologia consoante a medicina individualizada e de precisão, visando a melhores desfechos clínicos e de qualidade de vida em conjunto a redução de efeitos adversos dos tratamentos aplicados.(HOEBEN; JOOSTEN; VAN DEN BEUKEN-VAN EVERDINGEN, 2021) Contudo, o caso discutido revela limitações enfrentadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro, particularmente a indisponibilidade do teste genético do gene RET de forma gratuita. A ausência dessa ferramenta diagnóstica, disponível apenas por meio de projetos de pesquisa, impede a análise genética detalhada em muitos pacientes. A limitação da análise a um único caso clínico restringe a generalização dos resultados. A integração do teste genético do gene RET no SUS é essencial para ampliar o rastreamento e reduzir o subdiagnóstico da NEM2A. O acesso ampliado a tecnologias diagnósticas permitiria estudos mais abrangentes, essenciais para entender a variabilidade clínica e as respostas ao tratamento na NEM2A. 35 REFERÊNCIAS 1. AMODRU, V. et al. MEN2-related pheochromocytoma: current state of knowledge, specific characteristics in MEN2B, and perspectives. Endocrine. Springer, 1 set. 2020. 2. GILD, M. L. et al. Medullary Thyroid Cancer: Updates and Challenges. Endocrine Reviews, v. 44, n. 5, p. 934–946, 15 set. 2023. 3. HOEBEN, A.; JOOSTEN, E. A. J.; VAN DEN BEUKEN-VAN EVERDINGEN, M. H. J. Personalized medicine: Recent progress in cancer therapy. Cancers. MDPI AG, 2 jan. 2021. 4. MATHIESEN, J. S. et al. Multiple endocrine neoplasia type 2: A review. Seminars in Cancer Biology. Academic Press, 1 fev. 2022. 5. MELMED, S. et al. Williams Textbook of Endocrinology. 14. ed. Philadelphia: Elsevier, 2019. 6. RAUE, F.; FRANK-RAUE, K. Genotype-phenotype correlation in multiple endocrine neoplasia type 2. Clinics, 2012. 7. ROHMER, V.; PRUNIER-MIREBEAU, D.; POTORAC, I. Multiple Endocrine Neoplasia-Type 2. In: COLAO, A.; JAFFRAIN-REA, M. L.; BECKERS, A. (Eds.). Polyendocrine Disorders and Endocrine Neoplastic Syndromes. Cham: Springer, 2019. p. 1–23. 8. SALES, P.; CERCATO, C.; HALPERN, A. O Essencial em Endocrinologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan Ltda., 2023.p. 746-754. 9. SARAVANA-BAWAN, B.; PASTERNAK, J. D. Multiple endocrine neoplasia 2: an overview. Therapeutic Advances in Chronic Disease. SAGE Publications Ltd, 1 fev. 2022. 10. SCHLAG, P. M. et al. Recent Results in Cancer Research. v. 204. Switzerland: Springer International, 2015. 11. TORRESAN, F. et al. Prophylactic and Early Thyroidectomy in RET Germline Mutation Carriers in Pediatric and Adult Population: Long-Term Outcomes of a Series of 63 Patients. Cancers, v. 14, n. 24, 1 dez. 2022. 12. WELLS, S. A. et al. Multiple endocrine neoplasia type 2 and familial medullary thyroid carcinoma: An update. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, v. 98, n. 8, p. 3149–3164, ago. 2013. 13. WELLS, S. A. et al. Revised American thyroid association guidelines for the management of medullary thyroid carcinoma. Thyroid, v. 25, n. 6, p. 567–610, 1 jun. 2015. 14. GUERIN, C. et al. Looking beyond the thyroid: advances in the understanding of pheochromocytoma and hyperparathyroidism phenotypes in MEN2 and of non- MEN2 familial forms. Endocrine-Related Cancer, Great Britain, v. 25, n. 2, p. 15-18, 9 maio 2017. 36 15. WEBB, T.A.; SHEPS, S.G.; CARNEY, J.A. Differences between sporadic pheochromocytoma and pheochromocytoma in multiple endocrine neoplasia, type 2. American Journal of Surgical Pathology, v. 4, n. 2, p. 121-126, 1980. doi:10.1097/00000478-198004000-00003. Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A: relato de caso e revisão de literatura Neoplasia Endócrina Múltipla Tipo 2A: relato de caso e revisão de literatura RESUMO ABSTRACT LISTA DE TABELAS LISTA DE FIGURAS LISTA DE GRÁFICOS SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 2 METODOLOGIA 3 RELATO DE CASO Data de Realização: 29/07/2022 Data de realização: 04/08/2023 Análise Histopatológica: Amostra 2: Paratireoide inferior esquerda Amostra 3: Paratireoide superior esquerda Amostra 4: Paratireoide superior direita e Linfonodo 4 REVISÃO DE LITERATURA: 4.3 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS DA NEM2A 4.3.1 Carcinoma Medular de Tireoide 4.3.2 Feocromocitoma 4.3.3 Hiperparatireoidismo Primário 4.4 VARIANTES FENOTÍPICAS DA NEM2A 4.4.1 NEM2A Clássica 4.4.2 NEM2A com LAC: 4.4.3 NEM2A com HSCR 4.4.4 Carcinoma Medular de Tireoide Familiar: 4.5 CORRELAÇÃO GENÓTIPO-FENÓTIPO 4.6 RASTREAMENTO GENÉTICO 4.7 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO DE TRANSFORMAÇÃO NEOPLÁSICA A classificação de risco possui 3 categorias: 5 CONCLUSÃO: REFERÊNCIAS