Prévia do material em texto
Ciênc. saúde foco, São Paulo, v.2, 2021. ACOMODAÇÃO NA OPTOMETRIA: UMA REVISÃO NARRATIVA Carlos Sérgio Caldas de Miranda Reis Valter Roberto Garcia Junior Tânia Tie Miura Ishiy Hanada RESUMO Acomodação é a capacidade ou função visual que o olho tem em aumentar seu poder de refração, permitindo assim, focalizar objetos das mais variadas distâncias desde a visão do ponto remoto até o ponto próximo. Ela atua como se fosse um mecanismo de ajuste, pois, quando o objeto se desloca da visão de longe para uma distância mais próxima, a imagem que estava formada na retina também se desloca no mesmo sentido. Este artigo objetiva narrar a acomodação na optometria, suas alterações oculares durante a acomadação, tipos de acomodação, velocidade e resposta acomodativa. Na Presbiopia, seus sintomas e tratamento, concluindo com a Afácia, seus sintomas e tratamento. Palavras-chave: Acomodação. Presbiopia. Afácia. ABSTRACT Accommodation is the visual ability or function that the eye has in increasing its refractive power, thus allowing it to focus on objects of the most varied distances from the view from the remote point to the nearest point. It acts as if it were an adjustment mechanism, because when the object moves from far vision to a closer distance, the image that was formed on the retina also moves in the same direction. This article aims to narrate accommodation in optometry, its ocular changes during accommodation, types of accommodation, speed and accommodative response. In Presbyopia, your symptoms and treatment, ending with Aphakia, your symptoms and treatment. Keywords: Accommodation. Presbyopia. Aphakia. COMO REFERÊNCIAR ESTE ARTIGO: REIS. C. S. C de. M.; GARCIA JÚNIOR, V. R.; HANADA, T. T. M. I. Acomodação na optometria: uma revisão narrativa. Ciênc. saúde foco, São Paulo, v. 2, 2021. Disponível em: [endereço de acesso]. Acesso em: [dia mês abreviado e ano]. 1 ACOMODAÇÃO Acomodação é a capacidade ou função visual que o olho tem em aumentar seu poder de refração, permitindo assim, focalizar objetos das mais variadas distâncias desde a visão do ponto remoto até o ponto próximo. Sá e Plut (2001, p. 1) definem acomodação como “o processo responsável pela mudança do poder refrativo do olho, garantindo que a imagem seja focalizada no plano retiniano”. Para Quitel (2016), acomodação é uma mudança óptica dinâmica da potência do olho, que permite modificar o foco da visão situado desde objetos observados ao longe até a visão de perto, com a finalidade de manter imagens claras e nítidas na retina. Para que a imagem fique nítida na retina, temos que dispor de um mecanismo que faz o aumento ou a diminuição do poder dióptrico do cristalino, este mecanismo acionado pelo musculo ciliar se chama acomodação (CASSIANO; RAMOS, 2010). Ela atua como se fosse um mecanismo de ajuste, pois, quando o objeto se desloca da visão de longe para uma distância mais próxima, a imagem que estava formada na retina também se desloca no mesmo sentido, isto é, focalizando após. Neste momento a acomodação entra em ação ajustando o foco novamente para o ponto ideal permitindo manter a imagem nítida. Figura 1 – Alterações oculares durante a acomodação Ciênc. saúde foco, São Paulo, v.2, 2021. Quando tentamos enxergar objetos distantes a acomodação tende a estar em repouso, sendo assim, o cristalino assume uma forma mais achatada ou fina devido ao tensionamento das zônulas ciliares. À medida que é necessário reajustar nosso foco, o corpo ciliar relaxa as zônulas, o que permite ao cristalino adquirir um formato mais esférico, aumentando seu poder dióptrico. Essa alteração entre os estados acomodativos ocorre diversas vezes ao dia de maneira rápida e precisa e é possível graças às atividades do músculo de Brucker, responsável pelo relaxamento das fibras meridionais e radiais do músculo ciliar (Acomodação Relativa Negativa), e pelo músculo de Roger Muller, constituído por fibras circulares do músculo ciliar e inervado pelo sistema nervoso parassimpático (Acomodação Relativa Positiva). Resumidamente, quando a acomodação está relaxada, ao focalizar um objeto no infinito óptico (6 metros) as fibras das zônulas ciliares estão contraídas e o músculo ciliar relaxado, ao ativar a acomodação em visão próxima, as fibras das zônulas ciliares relaxam enquanto o músculo ciliar contrai, realizando a acomodação. 1.1 ALTERAÇÕES OCULARES DURANTE A ACOMODAÇÃO Embora o cristalino seja o elemento principal, ele não atua de maneira isolada durante a acomodação. É necessário um trabalho conjunto das outras estruturas oculares para produzir a re-focalização da imagem sobre a retina nas mais variadas distâncias ajustando não apenas o poder dióptrico através da acomodação, mas também os eixos visuais para que a imagem seja tida como única e o ponto focal. Figura 2 – Reação da Pupila durante a acomodação Pupilas: Com a aproximação do objeto, através da inervação do III par craniano, a pupila realiza miose, diminuindo seu diâmetro e os círculos de difusão da imagem e ajustando o ponto focal da imagem. Câmara Anterior: Com o aumento da curvatura do cristalino a borda pupilar é deslocada para frente, diminuindo a profundidade da câmara anterior tornando-a mais rasa. Figura 3 – Diferença do tamanho da câmara anterior durante a acomodação Cristalino: Peça chave no processo de acomodação, o cristalino passará por uma série de mudanças: seu diâmetro fica menor, em média de 8 a 10 mm em um adulto, à medida que sua espessura aumenta, reduzindo o raio de curvatura da face anterior. A face posterior por sua Ciênc. saúde foco, São Paulo, v.2, 2021. vez sofre apenas uma ligeira mudança no raio de curvatura. Por fim, o índice de refração total do cristalino também aumenta, devido à nova disposição das fibras. Processos Ciliares: Além disto, os processos ciliares avançam para frente, porém, nunca entram em contato com o cristalino. Figura 4 – Avanço dos processos ciliares durante a acomodação 1.2 TIPOS DE ACOMODAÇÃO A acomodação é obtida através de uma série de estímulos visuais os quais em conjunto produzem o poder total acomodativo para que a imagem seja focalizada na retina, sendo assim, podemos subclassificar a acomodação em tônica, reflexa, por convergência e proximal. ● Tônica: É a acomodação que está presente inclusive na ausência de estímulo, apenas pela presença do tônus muscular do músculo ciliar. ● Reflexa: Feita de maneira automática pelo sistema visual ao perceber uma diminuição do contraste na imagem retiniana, o que sugere o desenfoque da imagem. Tem uma amplitude relativamente baixa, até 2 dioptrias e trata-se da primeira e mais importante resposta acomodativa. ● Por convergência: Ocorre devido à inervação neurológica conjugada do III par craniano (nervo oculomotor) dos músculos ciliares e reto mediais, onde ao estimular a convergência a fim de eliminar a disparidade vergencial quando os objetos se aproximam é também realizada a acomodação. ● Proximal: Como o próprio nome já diz, é acomodação estimulada pela presença, ou percepção aparente, de objetos próximos a uma distância de até 3 metros. De maneira isolada, compreende 80% do poder acomodativo total necessário para a focalização da imagem, contudo, quando o sistema acomodativo está pleno, representa entre 4 e 10% do valor total da acomodação presente, o que faz com que ela tenha caráter terciário na acomodação. 1.3 VELOCIDADE DE ACOMODAÇÃO O olho é capaz de realizar trocas rápidas e precisas entre visão de longe e perto de maneira contínua durante o dia, após haver um estímulo acomodativo, o sistema óptico rapidamente troca o foco entre visão de longe para a nova distância focal em um tempo médio de reação muito veloz, abaixo depróximo de 0,5 segundo Após o estímulo cessar e a necessidade visual retornar para longe o tempo aumenta significativamente, acima de 1 segundo, contudo, ainda muito veloz. Com o passar dos anos, a idade começa a impactar na velocidade da acomodação, assim como limita a amplitude também, estes impactos estão diretamente relacionados com as características fisiológicas do cristalino, sendo elas: a esclerose das fibras do cristalino, a perda de tônus muscular do corpo ciliar, o retardo no processamento central neural e a diminuição de sensibilidade dos fotorreceptores. 1.4 RESPOSTA ACOMODATIVA A resposta acomodativa é a alteração dióptrica do sistema acomodativo ocular em consequência a uma demanda visual próxima. Fisiologicamente é esperado que o sistema possua um retardo acomodativo, conhecido como LAG acomodativo, termo utilizado quando há uma resposta acomodativa abaixo do estímulo acomodativo, ou seja, o olho acomoda menos do que realmente deveria. Por outro lado, há casos em que o sistema possa ter uma resposta dióptrica excessiva em relação ao estímulo de acomodação, ou seja, o olho acomoda mais do que deveria, denominamos esta resposta excessiva como LEAD acomodativo. Ciênc. saúde foco, São Paulo, v.2, 2021. 2 PRESBIOPIA A presbiopia não é um defeito de refração, é caracterizada pela diminuição da amplitude máxima de acomodação com o avanço da idade e a diminuição da capacidade do cristalino de acomodar devido a uma condição fisiológica, a esclerose das suas fibras. O processo de endurecimento do cristalino inicia no nascimento, isto por que as fibras novas do cristalino são multiplicadas em sua superfície, nas camadas mais externas, empurrando as fibras antigas para o interior em um processo que se assemelha muito com o crescimento de uma cebola, as fibras mais velhas por sua vez, compactadas no núcleo do cristalino, perdem sua membrana e núcleo, formando uma massa compacta e homogênea, o que resulta em uma perda de elasticidade por parte do cristalino, diminuindo assim, a amplitude de acomodação e reduzindo a capacidade do indivíduo em focalizar imagens em visão de perto. Figura 5 – Focalização da imagem de perto na presbiopia Com exceção dos casos precoces, não deve ser considerada como uma patologia, pois, trata-se de uma condição fisiológica do ser humano devido ao processo natural de envelhecimento. Comumente a presbiopia se manifesta por volta dos 40 anos de idade, podendo variar de acordo com a região geográfica, populações mais próximas da linha do equador tendem a desenvolver a presbiopia mais precocemente, enquanto populações mais afastadas desenvolvem a presbiopia tardiamente, em todos os casos, a presbiopia tende a agravar-se com o passar dos anos. Do ponto de vista refrativo, pacientes hipermétropes, por conta da necessidade de corrigir seu defeito refrativo com o uso da acomodação, tendem a notar a presbiopia mais precocemente do que os demais defeitos refrativos, enquanto por outro lado, os míopes, por possuírem um ponto remoto próximo, naturalmente notam a presbiopia de maneira mais tardia. Por conta disto, ao avaliar a presbiopia utilizamos frequentemente o termo adição, o qual se refere à necessidade de compensação para perto levando em conta que o defeito refrativo para longe já esteja corrigido, por refletir a evolução da presbiopia, podemos montar uma tabela de acompanhamento da adição com relação à idade, conforme a seguir: Tabela 1 - acompanhamento da adição com relação à idade Idade (anos) Compensação (dpts) até 40 1,00 41-44 1,25 45-48 1,50 49-52 1,75 53-56 2,00 57-60 2,25 61-64 2,50 65-68 2,75 69 para acima 3,00 2.1 SINTOMAS DA PRESBIOPIA O sintoma clássico da presbiopia é a dificuldade para leitura, mesmo utilizando correção óptica para longe, a tendência a afastar a leitura é comum entre os présbitas em uma tentativa de diminuir a necessidade acomodativa para a focalização do objeto. Por conta da inervação conjugada do III par, é comum que pacientes présbitas tenham dificuldades ao ler em situações com baixa luminosidade, como realizar leituras à noite, com luz artificial fraca, pois, o estímulo da miose também estimula a acomodação. 2.2 TRATAMENTO Diversos são os tratamentos disponíveis para a presbiopia, no âmbito óptico, destacam- Ciênc. saúde foco, São Paulo, v.2, 2021. se as lentes progressivas, capazes de corrigir não só a dificuldade em visão de perto como, de forma conveniente ao paciente, também os defeitos refrativos para longe. A grande vantagem destas lentes é que possuem uma progressão, a qual permite também a focalização em distâncias intermediárias, ideais para o uso do computador, bem como esteticamente são mais aceitáveis. Caso o paciente não tenha necessidade de correção para longe, há lentes regressivas, tidas como intermediárias, onde há uma graduação um pouco menor do que a necessidade para perto, a fim de permitir uma visão de perto prolongada, estendendo desde a leitura mais próxima a uma visão intermediária que permita um uso funcional em uma mesa de trabalho. Ainda vale ressaltar que as opções mais antigas ainda seguem disponíveis no mercado, lentes bifocais ou somente para perto, que embora menos confortáveis ou cômodas, ainda se tornam uma opção atrativa, pois, são soluções relativamente baratas em comparação às outras e me mais fácil adaptação, indicadas especialmente em pacientes de idade avançada que nunca utilizaram correção, com problemas vergenciais ou ainda monoculares. Para pacientes extremamente preocupados com a estética temos opções em lentes de contato, utilizando a técnica de monovisão (muito difundida na prática cirúrgica), por exemplo, ou lentes de contato bifocais e multifocais. Cirurgicamente a cirurgia refrativa é uma opção, contudo, o método mais utilizado é o implante de uma lente intra-ocular (LIO) na câmara anterior, corrigindo um olho para perto, e outro para longe. 3 AFACIA Afacia nada mais é do que a ausência do cristalino, ou seja, é um estado de refração ocular aplicado a todas as situações em que o cristalino não está presente. Geralmente é ocasionada por uma extração cirúrgica, na maioria das vezes por conta de uma catarata senil, podendo ser também por cataratas traumáticas ou congênitas. Sem o cristalino, a pessoa fica com uma ausência quase total da acomodação. Vale ressaltar que o cristalino é um filtro natural do olho para os raios ultravioletas, sendo assim, sem a presença do mesmo é necessário um período de adaptação para a nova condição visual, onde os pacientes comumente reportam uma visão azulada. Outro problema é a fotofobia, pois, além dos raios ultravioletas, o cristalino também absorve grande parte da radiação luminosa protegendo e prevenindo a retina da formação de radicais livres. Sem o cristalino, a câmara anterior se torna mais profunda, o que incita a um aumento do volume do humor aquoso, contudo, sem alterar a PIO (pressão intra-ocular), dentre as principais complicações cirúrgicas está a iridectomia, uma condição onde é necessário perfurar a íris para permitir o escoamento do humor aquoso durante o procedimento cirúrgico e que pode resultar em uma entrada de luz em demasia, aumentando ainda mais a fotofobia. Após o implante da LIO (lente intra-ocular) o paciente se torna um pseudofácico. Figura 6 - Paciente pós cirurgico (iridectomia) 3.1 SINTOMAS DA AFACIA A fotofobia é um sintoma comum nos pacientes afácicos, principalmente nos recém operados, a visão azulada devido à falta do filtro ultravioleta também é uma queixa frequente, podendo ainda haver a iridonesis, condição a qual a íris, sem o apoio do cristalino, fica “tremendo” constantemente. 3.2 TRATAMENTO É possível tratar pacientes com o uso de óculos, contudo, caso a cirurgia seja feita de maneira monocular,a correção apresenta um desafio por conta do balanceamento de peso, anisoconia e estética, e mesmo que seja bilateral, o peso das lentes ainda será um empecilho a ser superado por conta do alto poder dióptrico que o cristalino possui. O Implante de uma lente intraocular é a solução mais comum para os pacientes afácicos na fase adulta, contudo, bastante controverso para crianças e especialmente contra indicado nos casos congênitos e até os 12 primeiros meses de vida, isto por que este é o período de maiores mudanças anatômicas e refrativas do globo ocular, o que faz com que certamente o implante não seja uma solução ideal. Por conta destes fatores, as lentes de contato se tornam uma solução atrativa para a Ciênc. saúde foco, São Paulo, v.2, 2021. correção de visual em crianças afácicas, sua característica óptica é capaz de prevenir a anisoconia, o que favorece o desenvolvimento visual correto, bem como são mais cômodas, confortáveis e estéticas que os óculos. Levando em conta estes fatores, as lentes de contato parecem ser a melhor solução se tratando de correção visual nas crianças afácicas, pois, evitam a anisoconia, bem como são mais confortáveis e cômodas do que os óculos. REFERÊNCIAS ALVES, Aderbal de Albuquerque. Refração. 4 ed. Rio de Janeiro: Editora Cultura Médica, 2005. CASSIANO, Guilherme; RAMOS, R. A. Acomodação: uma breve revisão bibliográfica. 2010. Disponível em:http://www.ibtplc.com.br/ArtigosDetalhes.aspx?idArtigo=55. Acesso em: 15 nov. 2020. ELDER, Duke. Refração Prática. 10 ed. Rio de Janeiro: Editora Rio Med, 1997. GROSVENOR, Theodore. Optometría de Atención Primaria. Madri – Espanha: ditoria Masson. Elsevier, 2004. GUITEL, V. A. A acomodação e o desconforto de visão. 2016. Disponível: https://opticanet.com.br/secaodesktop/colunaseartigos/9825/a-acomodacao-e-o-desconforto- de-visao. Acesso em: 19 set. 2020. KAUFMAN, Paul L.; ALM, Albert. Fisiología del ojo Aplicación Clínica. 8 ed. Madri - Espanha: Editora Panamericana, Elsevier, [2002]. MENDES, Cristina da Cunha. Variações de parâmetros acomodativos ao longo do dia. Dissertação (Mestradoem Optometria Avançada) - Universidade do Minho Escola de Ciências. 2012. Disponível em: https://repositorium.sdum.uminho.pt/. Acesso em: 05 dez. 2020. MIRANDA, A. Visão: da refração ocular ao cálculo das lentes. São Paulo: Edições Inteligentes, 2004. REINECKE, Robert D.; HERM Robert J. Refração: um texto programado. Rio de Janeiro: Editora Rio Med, 1996. SAL, L. C. F. de.; PLUTT, Mauro. Acomodação accommodation. Arq Bras Oftalmol, n. 64, p. 481-483, 2001. VAUGHAN, Daniel; ASBURY Taylor; EVA, Paul Riordan. Oftalmologia Geral. 15. ed. São Paulo: Editora Atheneu, 2003. https://opticanet.com.br/secaodesktop/colunaseartigos/9825/a-acomodacao-e-o-desconforto-de-visao https://opticanet.com.br/secaodesktop/colunaseartigos/9825/a-acomodacao-e-o-desconforto-de-visao https://repositorium.sdum.uminho.pt/