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D I R E I T O D O
CONSUMIDOR
Revisada
Atualizada
Ampliada
Edição 2025.1
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 1
CADERNO DE CONSUMIDOR
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................. 12
NOÇÕES INTRODUTÓRIAS ............................................................................................................ 13
1. ORIGEM DO DIREITO DO CONSUMIDOR ....................................................................... 13
2. FINALIDADE DO DIREITO DO CONSUMIDOR ................................................................ 13
3. DEFINIÇÃO DE DIREITO DO CONSUMIDOR .................................................................. 13
O DIREITO DO CONSUMIDOR E A CF/88 ...................................................................................... 14
1. DIREITO FUNDAMENTAL .................................................................................................. 14
1.1. EFEITOS DO STATUS DE DIREITO FUNDAMENTAL ................................................. 14
2. PRINCÍPIO DA ORDEM ECONÔMICA .............................................................................. 14
3. COMPETÊNCIA LEGISLATIVA .......................................................................................... 15
4. PROTEÇÃO INFRACONSTITUCIONAL ............................................................................ 17
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ...................................................................................... 18
1. INFLUÊNCIAS ..................................................................................................................... 18
2. MICROSSISTEMA JURÍDICO ............................................................................................ 18
3. LEI PRINCIPIOLÓGICA ...................................................................................................... 18
3.1. NORMA DE ORDEM PÚBLICA ...................................................................................... 19
3.2. NORMA DE INTERESSE SOCIAL ................................................................................. 19
4. POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO ................................................. 19
5. DIÁLOGO DAS FONTES .................................................................................................... 21
5.1. CRITÉRIOS TRADICIONAIS DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS DE NORMAS .............. 22
5.1.1. Critério cronológico .................................................................................................. 22
5.1.2. Critério da especialidade .......................................................................................... 22
5.1.3. Critério da hierarquia ................................................................................................ 22
5.2. CRITÉRIO ATUAL ........................................................................................................... 22
5.3. DIÁLOGO ENTRE O CDC E O CC ................................................................................. 22
5.3.1. Diálogo sistemático de coerência ............................................................................ 23
5.3.2. Diálogo sistemático de complementaridade ............................................................ 23
5.3.3. Diálogo das influências recíprocas sistemáticas ..................................................... 23
6. PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO DO CONSUMIDOR.................................................. 23
6.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS .......................................................................................... 23
6.2. PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE ............................................................................. 24
6.2.1. Vulnerabilidade técnica ............................................................................................ 24
6.2.2. Vulnerabilidade jurídica ............................................................................................ 24
6.2.3. Vulnerabilidade econômica ou fática ....................................................................... 25
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 2
6.2.4. Vulnerabilidade informacional .................................................................................. 25
6.3. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA ............................................................................... 26
6.3.1. Conceito e fundamento ............................................................................................ 26
6.3.2. Boa-fé objetiva e boa-fé subjetiva ............................................................................ 27
6.3.3. Funções da boa-fé ................................................................................................... 27
6.4. PRINCÍPIO DO EQUILÍBRIO .......................................................................................... 28
6.5. PRINCÍPIO DA DEFESA DO CONSUMIDOR PELO ESTADO ..................................... 28
6.6. PRINCÍPIO DA HARMONIZAÇÃO.................................................................................. 28
6.7. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA ................................................................................ 29
6.8. PRINCÍPIO DA CONFIANÇA .......................................................................................... 29
6.9. PRINCÍPIO DO COMBATE AO ABUSO ......................................................................... 30
6.10. PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO E DA INFORMAÇÃO ....................................................... 30
6.11. PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO ........................................................................................ 30
6.12. PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA E AMBIENTAL DO CONSUMIDOR ......... 30
6.13. PRINCÍPIO DA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO SUPERENDIVIDAMENTO COMO
FORMA DE EVITAR A EXCLUSÃO SOCIAL DO CONSUMIDOR..................................................... 31
7. DIREITOS BÁSICOS DOS CONSUMIDORES .................................................................. 31
7.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS .......................................................................................... 31
7.2. DIREITO À VIDA, À SAÚDE E À SEGURANÇA (I) ........................................................ 32
7.3. DIREITO À EDUCAÇÃO FORMAL E INFORMAL (II) .................................................... 33
7.4. DIREITO À LIBERDADE DE ESCOLHA (II) ................................................................... 33
7.5. DIREITO À IGUALDADE NAS CONTRATAÇÕES/EQUIVALÊNCIA NEGOCIAL (II) ... 34
7.6. DIREITO À INFORMAÇÃO (III) ....................................................................................... 34
7.7. DIREITO À PROTEÇÃO CONTRA PRÁTICAS E CLÁUSULAS ABUSIVAS (IV) ......... 35
7.8. DIREITO À MODIFICAÇÃO E REVISÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS (V) ......... 36
7.8.1. Modificação das cláusulas contratuais .................................................................... 36
7.8.2. Revisão das cláusulas contratuais........................................................................... 36
7.9. DIREITO À EFETIVA PREVENÇÃO E REPARAÇÃO DE DANOS MORAIS E
PATRIMONIAIS, INDIVIDUAIS, COLETIVOS E DIFUSOS (VI) ......................................................... 38
7.9.1. Reparação por dano moral ...................................................................................... 42
7.9.2. Reparação por dano moral coletivo ......................................................................... 44
7.9.3. Reparação por danos sociais................................................................................... 44
7.10. DIREITO DE ACESSO À JUSTIÇA (VII) ........................................................................ 45
7.11. DIREITO À INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA ............................................................. 45
7.12. DIREITO À PRESTAÇÃOno especial (diálogo de
coordenação e adaptação sistemática).
Por exemplo, o CC tornou-se suficiente para harmonizar as relações entre iguais, a aplicação
do CDC foi direcionada apenas para a proteção do vulnerável, o que explica a atual opção do STJ
pela teoria finalista (simples ou mitigada), na definição do conceito de consumidor.
6. PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO DO CONSUMIDOR
6.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Para a escola jusnaturalista, os princípios gerais do direito não possuíam força de lei. Sua
aplicação era feita em caráter suplementar. Havendo lacuna, utilizavam-se os princípios extraídos
do direito natural.
Para a escola positivista, os princípios são extraídos do próprio ordenamento jurídico, mas
não possuem força normativa. Fonte mediata de direito, sua aplicação dependia de lacunas.
Para a escola pós-positivista, os princípios estão previstos expressa ou implicitamente no
próprio ordenamento jurídico e possuem força normativa. Entendem que se diferem das normas
quanto à forma e quanto ao conteúdo.
OBS.: As cláusulas gerais são disposições normativas que utilizam,
no enunciado, uma linguagem aberta, fluida ou vaga, a ser preenchida
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 24
pelo magistrado quando da análise de um caso concreto. As cláusulas
gerais constituem uma moderna técnica legislativa que possibilita ao
intérprete determinar, previamente, qual a norma de conduta que
deveria ter sido observada naquele caso. E, para alcançar tal objetivo,
poderá aproveitar-se de princípios positivados ou não positivados no
ordenamento jurídico, concretizando seus valores na solução dos
casos concretos.
6.2. PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE
É o principal princípio do direito do consumidor, traz a ideia de que o consumidor se encontra
em uma posição de inferioridade em relação ao fornecedor.
Possui fundamento na CF, tendo em vista que a defesa do consumidor é um direito
fundamental, bem como um princípio que rege a ordem econômica, conforme vimos acima.
Encontra-se expressamente previsto no art. 4º, I do CDC.
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o
atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia
das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
I - Reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de
consumo
OBS.: a vulnerabilidade, aqui, possui presunção absoluta e decorre da
própria lei. Todos os consumidores são vulneráveis. O consumo de
alto padrão não afasta a vulnerabilidade.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MPE/PR – Banca Própria – 2023) Considerados os princípios da
vulnerabilidade do consumidor e da hipossuficiência do consumidor, é correto
afirmar que todo consumidor é vulnerável, mas nem todo consumidor é
hipossuficiente. Correta!
A doutrina (Cláudia Lima Marques) aponta três espécies de vulnerabilidade, as quais
diversas vezes já foram mencionadas em decisões proferidas pelo STJ.
6.2.1. Vulnerabilidade técnica
Desconhecimento, por parte do consumidor, das características do produto/serviço. Desta
forma, a vulnerabilidade decorre da não participação do consumidor na produção do bem.
Eventualmente, o consumidor profissional poderá ser considerado um vulnerável técnico,
nos casos em que o produto ou serviço adquirido não tiver relação com a sua formação,
competência ou área de atuação.
6.2.2. Vulnerabilidade jurídica
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 25
Desconhecimento, por parte do consumidor, dos seus direitos e deveres, incluindo aspectos
econômicos e contábeis.
6.2.3. Vulnerabilidade econômica ou fática
O consumidor é frágil diante do fornecedor, por uma série de motivos, vejamos:
• Em razão do forte poder econômico do fornecedor;
• Em razão de o fornecedor deter o monopólio fático ou jurídico da relação;
• Em razão de o fornecedor desenvolver uma atividade considerada essencial (ex.
provedor de internet, medicamento).
Para fixação, vejamos o quadro sistematizado, retirado do Livro Interesses Difusos e
Coletivos, bem como apresentado em aula pelo Prof. Landolfo.
VULNERABILIDADE DEFINIÇÃO EXEMPLO
TÉCNICA
Consiste na ausência de
conhecimentos específicos sobre o
produto que o consumidor adquire
ou utiliza.
É o caso do estudante que compra
um notebook sem possuir
conhecimentos técnicos
específicos sobre o produto
adquirido.
JURÍDICA
Consiste na falta de conhecimento,
pelo consumidor, dos direitos e
deveres inerentes à relação de
consumo.
É o caso da pessoa que firma um
compromisso de compra e venda
de um lote, junto a uma
incorporadora, sem possuir
conhecimento jurídico para
compreender todos os aspectos do
negócio.
ECONÔMICA
Consiste na condição de fragilidade
do consumidor frente ao fornecedor
que, por sua posição de monopólio,
fático ou jurídico, por seu forte
poderio econômico ou em razão da
essencialidade do serviço que
fornece, impõe sua superioridade a
todos que com ele contratem.
É o caso do pai de família que
contrata serviço de internet banda
larga fornecido em seu endereço
por uma única concessionária de
serviço público.
6.2.4. Vulnerabilidade informacional
A falta de informação é causa de vulnerabilidade. Aqui, o consumidor não detém informações
suficientes para realizar o processo decisório de aquisição ou não do produto ou serviço.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/SP – VUNESP – 2023): A vulnerabilidade fática ou socioeconômica é
aquela em que o fornecedor, por sua posição de monopólio, fático ou jurídico,
por seu poder econômico ou em face da essencialidade do serviço, impõe
sua superioridade a todos que com ele contratam. Correta!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 26
(DPE/SE – CESPE - 2022): O mecanismo que visa garantir igualdade formal-
material aos sujeitos da relação jurídica de consumo se traduz no princípio da
vulnerabilidade. Correta!
(MPE/SC – CESPE - 2021): O princípio da vulnerabilidade tem por objetivo
assegurar a igualdade formal-material aos sujeitos da relação jurídica de
consumo. Correta!
(DPE/MG - FUNDEP - 2019) Determinados grupos de consumidores, a
exemplo dos idosos, deficientes e mulheres, são considerados consumidores
hipervulneráveis. Errada! (mulheres não são hipervulneráveis nas relações
de consumo).
6.3. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA
6.3.1. Conceito e fundamento
Representa o padrão de conduta que deve ser observado por todos os fornecedores no
mercado de consumo, com base em valores éticos, de modo a respeitar as expectativas do
consumidor naquela relação jurídica.
O fundamento é constitucional, de modo implícito (art. 1º, III e art. 3º I da CF), decorrente da
dignidade da pessoa humana e da do princípio da solidariedade; e legal, de modo expresso (art. 4º,
III CDC e arts. 113, 187 e 422, CC).
CF Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel
dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:
III - a dignidade da pessoa humana;
CF Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do
Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
CDC - Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo
o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia
das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios: (...)
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo
e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de
desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípiosnos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição Federal),
sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e
fornecedores;
CC Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-
fé e os usos do lugar de sua celebração.
CC Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-
lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou
social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 27
CC Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão
do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.
6.3.2. Boa-fé objetiva e boa-fé subjetiva
Boa-fé objetiva trata-se de um princípio, ora estudado.
Boa-fé subjetiva trata-se do estado anímico da pessoa, ou seja, a sua intenção ao realizar
determinado ato. Não interessa ao direito do consumidor.
6.3.3. Funções da boa-fé
a) Função interpretativa ou critério hermenêutico (CC, art. 113 e CDC, art. 4º, III)
Quando houver, por exemplo, cláusulas contratuais de interpretação dúbia, a interpretação
deve ser orientada de acordo com a boa-fé objetiva.
b) Função integrativa ou de criação de deveres jurídicos
A boa-fé objetiva cria deveres anexos ao contrato que devem ser respeitados, tais como o
dever de cuidado, o dever de informação e o dever de cooperação.
• Dever de informação: o fornecedor deve informar ao consumidor todas as
características do produto, para o bom uso do bem de consumo;
• Dever de cuidado: impõe ao fornecedor o dever de adotar uma conduta protetiva,
voltada à prevenção de danos ao patrimônio e à pessoa do consumidor.
• Dever de cooperação: as partes de uma relação jurídica de consumo devem
cooperar entre si para que as obrigações sejam satisfeitas.
STJ (REsp 595.631/SC) - Aplicação do princípio da boa-fé contratual.
Deveres anexos ao contrato. O princípio da boa-fé se aplica às relações
contratuais regidas pelo CDC, impondo, por conseguinte, a obediência aos
deveres anexos ao contrato, que são decorrência lógica deste princípio. O
dever anexo de cooperação pressupõe ações recíprocas de lealdade dentro
da relação contratual. A violação a qualquer dos deveres anexos implica em
inadimplemento contratual de quem lhe tenha dado causa.
O descumprimento dos deveres anexos representa uma violação positiva do contrato ou,
ainda, um adimplemento ruim do contrato.
c) Função de controle ou limitativa do exercício de direitos subjetivos
A atuação do fornecedor é limitada pelo princípio da boa-fé objetiva. Os seus direitos não
podem ser exercidos de modo abusivo. A nulidade das cláusulas incompatíveis com a boa-fé
objetiva é uma limitação ao exercício de direito pelo fornecedor.
CDC Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: (...)
IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem
o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a
boa-fé ou a equidade;
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 28
CC Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-
lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou
social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
6.4. PRINCÍPIO DO EQUILÍBRIO
Previsto no art. 4º, III, do CDC.
CDC - Art. 4º, III - harmonização dos interesses dos participantes das
relações de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a
necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da
Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações
entre consumidores e fornecedores;
Deve haver um equilíbrio na relação jurídica entre consumidor e fornecedor, tanto no plano
material quanto no plano processual, feito pelo CDC.
O equilíbrio no plano material seria, por exemplo, o estabelecimento da responsabilidade
objetiva por dano ao consumidor. No plano processual, a inversão do ônus da prova visa equilibrar
a relação consumerista.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MPE/SC – CESPE - 2021) As técnicas de interpretação do CDC devem
pautar-se no princípio da especialidade e no fato de que todas as disposições
nele contidas devem voltar-se, teleológica e finalisticamente, para a
consecução da harmonia e do equilíbrio nas relações entre consumidores e
fornecedores. Correta!
6.5. PRINCÍPIO DA DEFESA DO CONSUMIDOR PELO ESTADO
Traduz a ideia de que o Estado deve intervir nas relações de consumo para defender os
interesses dos consumidores.
Art. 4º, II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o
consumidor:
a) por iniciativa direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações
representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de
qualidade, segurança, durabilidade e desempenho.
6.6. PRINCÍPIO DA HARMONIZAÇÃO
Previsto no art. 4º, III, do CDC.
Indica a necessidade de se conciliar os interesses dos participantes das relações de
consumo, a saber, consumidor e fornecedor.
Como o tema foi cobrado em concurso?
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 29
(DPE/TO – CESPE - 2022) O art. 47 do Código de Defesa do Consumidor
estipula que “as cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais
favorável ao consumidor”. O princípio que norteia tal dispositivo é
denominado de princípio da harmonização. Correta!
6.7. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA
Transparência, no contexto das relações de consumo, significa garantir ao consumidor
informações claras, completas, precisas e verdadeiras sobre os produtos ou serviços oferecidos,
desde a fase pré-contratual até o pós-contrato.
Assim, tem-se que a transparência deve permear todas as fases da relação de consumo,
incluindo a fase pré-contratual (oferta, publicidade, etc.), a contratual (execução do contrato) e a
pós-contratual (garantias, serviços de assistência técnica, direito de arrependimento, etc.). Mesmo
após o contrato ser cumprido ou encerrado, as obrigações de informação clara e precisa
permanecem, especialmente em situações como cobranças, devoluções, ou consertos de produtos.
Essa visão é também possui relação direta com os princípios da boa-fé e do equilíbrio nas relações
de consumo.
É o que se dá quando o produto apresenta defeito e o fornecedor realiza o recall.
CDC Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo
o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia
das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
6.8. PRINCÍPIO DA CONFIANÇA
Não possui previsão expressa, sendo extraído do princípio da boa-fé objetiva.
Traduz a ideia de que o fornecedor deve respeitar as legítimas expectativas do consumidor
na relação de consumo, tanto as expectativas relacionadas ao conteúdo do contrato quanto às
expectativas relacionadas ao bem de consumo (durabilidade, qualidade).
STJ - A empresa que fornece estacionamento aos veículos de seus clientes
responde objetivamente pelos furtos, ocorridos no seu interior, uma vez que,
em troca dos benefícios financeiros indiretos decorrentes desse acréscimo
de conforto aos consumidores, o estabelecimento assume o dever de
lealdade e segurança, como aplicação concreta do princípio da confiança.
(STJ, AgInt no AREsp 844449/SP, 4ª T. rel. Min. Isabel Gallotti, j. 06.09.2016).
TR
A
N
SP
A
R
ÊN
C
IA
Fase pré-contratual
(art. 37)
Fase contratual (art.
46)
Fase pós-contratual
(art. 10, §1º)
Ex: proibição de propaganda enganosa
Ex: dever de informação
Ex: recall
CS DE CONSUMIDOR– 2024.2 30
6.9. PRINCÍPIO DO COMBATE AO ABUSO
Previsto no inciso VI, do art. 4º do CDC.
Art. 4º, VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no
mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização indevida
de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos
distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores;
O fornecedor não pode desrespeitar, de forma abusiva, os direitos do consumidor.
Destaca-se que também se tutela a relação entre os fornecedores, combatendo, por
exemplo, as práticas de concorrência desleal.
6.10. PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO E DA INFORMAÇÃO
Os consumidores devem ser devidamente informados, a fim de que a decisão do ato de
consumo seja a mais consciente, evitando práticas de consumo irrefletidas, a exemplo do
superendividamento.
A educação pode ser:
• Formal, inserindo-se uma educação sobre consumo nas disciplinas do ensino
básico;
• Informal, ministrada pelos meios de comunicação social, normalmente pelo
PROCON, pela promotoria do direito do consumidor ou, ainda, pela imprensa.
Art. 4º (...) IV - educação e informação de fornecedores e consumidores,
quanto aos seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de
consumo;
6.11. PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO
Expressamente previsto em diplomas relativos ao Direito Ambiental.
Boa parte da doutrina defende que este princípio também se aplica ao direito do consumidor,
sendo extraído de normas constitucionais e CDC (previsão da defesa do consumidor, defesa da
vida, saúde e segurança do consumidor). Sempre que houver risco científico crível, alguma
providência deve ser adotada.
Em suma, o princípio da precaução traduz a ideia de que não basta a proteção contra o
perigo concreto, sendo necessário igualmente cautelar-se em relação ao perigo hipotético, no intuito
de minimizá-lo.
Difere-se do princípio da prevenção, pois este visa prevenir dano certo, muito provável e um
perigo concreto. No princípio da precaução, o dano não é provável, mas é possível, o risco é incerto
e o perigo é hipotético.
6.12. PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA E AMBIENTAL DO CONSUMIDOR
Trata-se de um novo princípio, incluído pela Lei 14.181/2021 que disciplinou o
superendividamento, é desdobramento do princípio da educação e informação que vimos acima.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 31
6.13. PRINCÍPIO DA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO SUPERENDIVIDAMENTO
COMO FORMA DE EVITAR A EXCLUSÃO SOCIAL DO CONSUMIDOR
Visa conferir uma maior proteção ao consumidor superendividado. Isto porque, segundo
Pablo Stolze, o superendividamento diretamente fulmina o mínimo existencial do indivíduo.
7. DIREITOS BÁSICOS DOS CONSUMIDORES
7.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A principal inspiração do CDC é a Resolução 39/248 da ONU, de 1985, que apresenta os
direitos básicos dos consumidores, trazendo diretrizes para a cooperação jurídica internacional em
matéria de direito do consumidor.
O art. 6º do CDC traz os direitos básicos do consumidor, em um rol exemplificativo. Portanto,
não há o exaurimento de tais direitos.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por
práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou
nocivos;
II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e
serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas
contratações;
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços,
com especificação correta de quantidade, características, composição,
qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que
apresentem;
IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais
coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou
impostas no fornecimento de produtos e serviços;
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações
desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as
tornem excessivamente onerosas;
VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais,
individuais, coletivos e difusos;
VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção
ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou
difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos
necessitados;
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do
ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for
verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras
ordinárias de experiências;
IX - (Vetado);
X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.
Parágrafo único. A informação de que trata o inciso III do caput deste artigo
deve ser acessível à pessoa com deficiência, observado o disposto em
regulamento.
XI - a garantia de práticas de crédito responsável, de educação financeira e
de prevenção e tratamento de situações de superendividamento, preservado
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 32
o mínimo existencial, nos termos da regulamentação, por meio da revisão e
da repactuação da dívida, entre outras medidas;
XII - a preservação do mínimo existencial, nos termos da regulamentação, na
repactuação de dívidas e na concessão de crédito;
XIII - a informação acerca dos preços dos produtos por unidade de medida,
tal como por quilo, por litro, por metro ou por outra unidade, conforme o
caso.
Antes de analisarmos as espécies de direitos básicos dos consumidores, importante
destacar a cláusula de abertura do microssistema, prevista no art. 7º do CDC, segundo a qual para
além dos direitos previstos no CDC, todo direito do consumidor, que esteja expresso em outra
espécie normativa vai ser inserido no sistema consumerista.
Art. 7° Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes de
tratados ou convenções internacionais de que o Brasil seja signatário, da
legislação interna ordinária, de regulamentos expedidos pelas autoridades
administrativas competentes, bem como dos que derivem dos princípios
gerais do direito, analogia, costumes e equidade.
Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão
solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo.
Cita-se, como exemplo, a gratuidade do transporte coletivo urbano e semiurbano para os
maiores de 65 anos (art. 230, §2º da CF e art. 39 do Estatuto do Idoso). No transporte doméstico
de crianças com menos de 2 anos de idade não poderá ser aplicada tarifa maior do que o
equivalente a 10% da tarifa de adulto, desde que não ocupem assento e estejam no colo de um
passageiro com mais de 12 anos (art. 57 da Portaria 676/2000 da ANAC).
Como tema foi cobrado em concurso?
(MPE/SC – CESPE – 2023): A educação e a divulgação sobre o consumo
adequado dos produtos e serviços constituem princípio da Política Nacional
das Relações de Consumo. Errado.
7.2. DIREITO À VIDA, À SAÚDE E À SEGURANÇA (I)
Consagra um direito ao consumidor e, ao mesmo tempo, um dever ao fornecedor, devendo
colocar à disposição dos consumidores somente produtos que não sejam perigosos ou que possam
causar danos.
Os arts. 8º, 9º e 10 do CDC versam sobre a segurança. Vejamos:
Art. 8° Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não
acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os
considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição,
obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações
necessárias e adequadas a seu respeito.
§ 1º Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as
informações a que se refere este artigo, através de impressos apropriados
que devam acompanhar o produto. (Redação dada pela Lei nº 13.486, de
2017)
§ 2º Ofornecedor deverá higienizar os equipamentos e utensílios utilizados
no fornecimento de produtos ou serviços, ou colocados à disposição do
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13486.htm
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13486.htm
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 33
consumidor, e informar, de maneira ostensiva e adequada, quando for o caso,
sobre o risco de contaminação. (Incluído pela Lei nº 13.486, de 2017)
Art. 9° O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou
perigosos à saúde ou segurança deverá informar, de maneira ostensiva e
adequada, a respeito da sua nocividade ou periculosidade, sem prejuízo da
adoção de outras medidas cabíveis em cada caso concreto.
Art. 10. O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto ou
serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou
periculosidade à saúde ou segurança.
§ 1° O fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua
introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade
que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades
competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários.
§ 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão
veiculados na imprensa, rádio e televisão, às expensas do fornecedor do
produto ou serviço.
§ 3° Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou
serviços à saúde ou segurança dos consumidores, a União, os Estados, o
Distrito Federal e os Municípios deverão informá-los a respeito.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MPE/MG – FUNDEP - 2022) Os produtos e serviços colocados no mercado
de consumo não acarretarão riscos à saúde ou à segurança dos
consumidores, exceto os considerados normais e previsíveis em decorrência
de sua natureza e fruição, obrigando-se os fornecedores, em qualquer
hipótese, a dar as informações necessárias e adequadas a seu respeito.
Correta!
7.3. DIREITO À EDUCAÇÃO FORMAL E INFORMAL (II)
Educação formal é a inserida no currículo básico das escolas, com o intuito de formar um
consumidor mais consciente.
Educação informal é aquela fornecida pelos meios de comunicação, por exemplo.
Salienta-se que a Lei 13.186/2015 implementa a Política de Educação para o consumo
sustentável, ou seja, é o consumo que atende as necessidades da atual geração sem prejudicar as
gerações futuras.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MPE/SC – CESPE - 2023) A educação e a divulgação sobre o consumo
adequado dos produtos e serviços constituem princípio da Política Nacional
das Relações de Consumo. Errado! Não se trata de princípio, mas sim de
direitos básicos do consumidor.
7.4. DIREITO À LIBERDADE DE ESCOLHA (II)
Direito ao livre consumo, assegurando a livre iniciativa e a livre concorrência.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 34
Aplicação prática: proibição de venda casada em cinemas (STJ, REsp 744.602/RJ).
ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. APLICAÇÃO DE MULTA
PECUNIÁRIA POR OFENSA AO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.
OPERAÇÃO DENOMINADA 'VENDA CASADA' EM CINEMAS. CDC, ART.
39, I. VEDAÇÃO DO CONSUMO DE ALIMENTOS ADQUIRIDOS FORA DOS
ESTABELECIMENTOS CINEMATOGRÁFICOS. 1. A intervenção do Estado
na ordem econômica, fundada na livre iniciativa, deve observar os princípios
do direito do consumidor, objeto de tutela constitucional fundamental especial
(CF, arts. 170 e 5º, XXXII). 2. Nesse contexto, consagrou-se ao consumidor
no seu ordenamento primeiro a saber: o Código de Defesa do Consumidor
Brasileiro, dentre os seus direitos básicos "a educação e divulgação sobre o
consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de
escolha e a igualdade nas contratações" (art. 6º, II, do CDC). 3. A denominada
'venda casada', sob esse enfoque, tem como ratio essendi da vedação a
proibição imposta ao fornecedor de, utilizando de sua superioridade
econômica ou técnica, opor-se à liberdade de escolha do consumidor entre
os produtos e serviços de qualidade satisfatório e preços competitivos. 4. Ao
fornecedor de produtos ou serviços, consectariamente, não é lícito, dentre
outras práticas abusivas, condicionar o fornecimento de produto ou de serviço
ao fornecimento de outro produto ou serviço (art. 39, I do CDC). 5. A prática
abusiva revela-se patente se a empresa cinematográfica permite a entrada
de produtos adquiridos na suas dependências e interdita o adquirido alhures,
engendrando por via oblíqua a cognominada 'venda casada', interdição
inextensível ao estabelecimento cuja venda de produtos alimentícios
constituiu a essência da sua atividade comercial como, verbi gratia, os bares
e restaurantes. 6. O juiz, na aplicação da lei, deve aferir as finalidades da
norma, por isso que, in casu, revela-se manifesta a prática abusiva. 7. A
aferição do ferimento à regra do art. 170, da CF é interditada ao STJ,
porquanto a sua competência cinge-se ao plano infraconstitucional. 8.
Inexiste ofensa ao art. 535 do CPC, quando o Tribunal de origem, embora
sucintamente, pronuncia-se de forma clara e suficiente sobre a questão posta
nos autos. Ademais, o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os
argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham
sido suficientes para embasar a decisão. 9. Recurso especial improvido.
(REsp 744.602/RJ, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em
01/03/2007, REPDJ 22/03/2007, p. 286, DJ 15/03/2007, p. 264)
7.5. DIREITO À IGUALDADE NAS CONTRATAÇÕES/EQUIVALÊNCIA NEGOCIAL (II)
Não se admite tratamento discriminatório entre os consumidores.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/CE (2020) No âmbito do direito do consumidor, a igualdade de
condições entre consumidores no momento da contratação, especificamente,
é garantida pelo princípio da equivalência negocial. Correta!
7.6. DIREITO À INFORMAÇÃO (III)
Informações sobre o bem de consumo devem ser adequadas e claras. A ofensa a esse
direito vem sendo admitida como razão para condenação por dano moral.
O direito à informação visa assegurar ao consumidor uma escolha consciente, permitindo
que suas expectativas em relação ao produto ou serviço sejam de fato atingidas, manifestando o
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 35
que vem sendo denominado de consentimento informado ou vontade qualificada. A omissão ou
fornecimento parcial de informações viola esse dever, gerando desequilíbrio na relação de consumo
e sujeitando o fornecedor a sanções legais.
O dever de informação exige comportamento positivo e ativo, pois o CDC
afasta a regra do caveat emptor e não aceita que o silêncio equivalha à
informação, caracterizando-o, ao contrário, como patologia repreensível, que
só é relevante em desfavor do fornecedor, inclusive como oferta e publicidade
enganosa por omissão, punida civil, administrativa e criminalmente no CDC.
Comportamento positivo e ativo quer dizer que o microssistema de proteção
do consumidor não se coaduna com meia-informação, semi-informação,
proto-informação ou informação parcial, qualquer que seja o termo que se
escolha. Informação ou é prestada de forma completa, ou não é informação
no sentido jurídico (e prático) que lhe atribui o CDC. (REsp º 586.316 - MG,
MINISTRO HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em
13/09/2009).
OBS.:O princípio caveat emptor ("que o comprador se cuide") não se
aplica no âmbito do CDC, que impõe ao fornecedor o dever de prestar
informações claras e completas, exigindo transparência e a boa-fé nas
relações de consumo.
Em razão do direito à informação, o STJ (Resp. 1.561.445/SP) entende que a operadora de
plano de saúde só poderá validamente alterar a lista de conveniados, mesmo que a iniciativa pelo
descredenciamento tenha partido de clínica médica, ou seja, só poderá fazer o descredenciamento
de estabelecimentos hospitalares, clínicas médicas, laboratórios,médicos e outros serviços, se
cumprir dois requisitos legais previstos no art. 17 da Lei nº 9.656/98 (Lei dos Planos de Saúde): a)
deverá substituir a entidade conveniada que saiu por outra equivalente, de forma a manter a
qualidade dos serviços contratados inicialmente; e b) deverá comunicar os consumidores e à
Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) com 30 dias de antecedência.
Outra hipótese resultou na edição da Súmula 595/STJ que responsabiliza as instituições de
ensino superior pelo fornecimento de informação inadequada e insuficiente quanto à oferta de
cursos não reconhecidos pelo Ministério da Educação:
Súmula 595, STJ: As instituições de ensino superior respondem
objetivamente pelos danos suportados pelo aluno/consumidor pela realização
de curso não reconhecido pelo Ministério da Educação, sobre o qual não lhe
tenha sido dada prévia e adequada informação.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/GO (2019) As instituições de ensino superior respondem
subjetivamente pelos danos suportados pelo aluno/consumidor pela
realização de curso não reconhecido pelo Ministério da Educação, sobre o
qual não lhe tenha sido dada prévia e adequada informação. Errada!
7.7. DIREITO À PROTEÇÃO CONTRA PRÁTICAS E CLÁUSULAS ABUSIVAS (IV)
Em linhas gerais, considera-se abusiva toda a atuação do fornecedor no mercado de
consumo que viole a principiologia do Código de Defesa do Consumidor, é dizer, que esteja em
desconformidade com o padrão de conduta esperado das partes ou, ainda, que esteja em
desacordo com a boa-fé objetiva e com a confiança.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 36
Analisaremos de forma detalhada em tópico próprio.
7.8. DIREITO À MODIFICAÇÃO E REVISÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS (V)
Visa assegurar o equilíbrio econômico da relação contratual. O CDC inovou ao prever o
dirigismo contratual, autorizando o Estado a intervir na economia interna do contrato, quando se
identificar um desequilíbrio econômico e financeiro na relação contratual.
Assim, o consumidor terá direito de modificar o contrato sempre que houver prestação
desproporcional. É feita uma análise objetiva, ou seja, basta que tenha uma cláusula
desproporcional para que o contrato seja modificado, a fim de se alcançar o equilíbrio entre as
partes.
O CC, influenciado pelo CDC, trouxe regras que também admitem a intervenção do Estado
na economia interna do contrato.
7.8.1. Modificação das cláusulas contratuais
O consumidor possui o direito de modificar cláusulas contratuais quando se verifica o
desequilíbrio desde o início. Observe que o contrato já nasce em desequilíbrio, afeta o sinalagma
genético (original) do contrato.
O art. 51 do CDC prevê que a cláusula contratual que colocar o consumidor em desvantagem
exagerada será nula de pleno direito. O consumidor poderá, portanto, solicitar a modificação da
cláusula geradora das prestações desproporcionais (com base no art. 6º, V, do CDC) ou a
declaração de sua nulidade (art. 51 do CDC).
Importante salientar que ocorre, aqui, o instituto da lesão (vício do NJ), o qual não deve se
confundir com a lesão prevista no CC, vejamos as diferenças no quadro abaixo:
LESÃO NO CDC LESÃO NO CC
Previsão: art. 6º, V Previsão: Art. 157
Caracterização: basta a presença de cláusula
que estabeleça prestações desproporcionais,
em prejuízo do consumidor.
Caracterização: além da desproporção das
prestações, exige-se a caracterização da
necessidade premente ou de inexperiência da
parte.
Consequência: a regra é a manutenção do
contrato, possibilitando-se ao consumidor
(parte não beneficiada) solicitar a modificação
(art. 6.º, V) ou a decretação da nulidade da
cláusula contratual (art. 51).
Consequência: a regra é a invalidade do
negócio jurídico. Excepcionalmente, o contrato
pode ser salvo, a depender da vontade da parte
favorecida (art. 157, § 2.º, do CC).
Análise objetiva. Análise subjetiva.
7.8.2. Revisão das cláusulas contratuais
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 37
O contrato inicia-se equilibrado, mas por situações supervenientes torna-se desequilibrado,
causando um prejuízo ao consumidor. Nestes casos, admite-se a revisão do contrato.
Aqui, afeta-se o sinalagma funcional do contrato.
Destaca-se que não se exige imprevisibilidade, basta que seja um fato superveniente, tendo
em vista que o CDC adotou a TEORIA DA BASE OBJETIVA DO NEGÓCIO JURÍDICO.
STJ - O preceito insculpido no inciso V do art. 6º do CDC dispensa a prova
do caráter imprevisível do fato superveniente, bastando a demonstração
objetiva da excessiva onerosidade advinda para o consumidor. A
desvalorização da moeda nacional frente à moeda estrangeira que serviu de
parâmetro ao reajuste contratual, por ocasião da crise cambial de janeiro de
1999, apresentou graus expressivo de oscilação, a ponto de caracterizar a
onerosidade excessiva que impede o devedor de solver as obrigações
pactuadas (STJ, REsp 361.694/RS).
O CC adotou a TEORIA DA IMPREVISÃO, segundo a qual além de o fato ser superveniente,
deverá ser imprevisível.
Vejamos o quadro abaixo, a fim de uma melhor compreensão acerca do tema.
TEORIA DA BASE OBJETIVA DO NEGÓCIO
JURÍDICO (ART. 6º, V, CDC)
TEORIA DA IMPREVISÃO (ART. 478 DO CC)
Dispensa a análise da previsibilidade do fato
superveniente.
Exige a imprevisibilidade do fato superveniente.
Basta a onerosidade excessiva para o
consumidor.
Além da onerosidade excessiva para o
devedor, exige “extrema vantagem” para o
credor.
Consequência: a regra é a revisão do contrato.
Excepcionalmente, acarretará a resolução nos
casos em que não for possível salvá-lo.
Consequência: a regra é a resolução do
contrato. Excepcionalmente, pode ser revisto, a
depender da vontade do credor.
A COVID-19, agora controlada globalmente, trouxe desafios jurídicos que ainda possuem
repercussão. Passado o susto inicial, bem como encerrada a vigência das disposições transitórias,
que inclusive foram criadas para tratar esta temática, tornou-se frequente nos tribunais a discussão
acerca da possibilidade de eventual revisão contratual em função da pandemia. Afinal, seria a
COVID-19 um fator suficiente para determinar a revisão de contratos?
O STJ tratou do tema em duas situações: mensalidades escolares e contrato de locação não
residencial.
1º - É cabível revisão judicial de contrato de locação não residencial - empresa de coworking
- com redução proporcional do valor dos aluguéis em razão de fato superveniente decorrente da
pandemia da Covid-19.
Caso concreto: a locatária do imóvel era uma empresa de coworking; em
razão das medidas de isolamento da Covid-19, a empresa teve uma redução
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 38
drástica do seu faturamento; diante disso, ajuizou ação de revisão contra a
proprietária do imóvel (locadora) pedindo a redução do valor dos aluguéis
pagos. O STJ concordou com o pleito. A revisão dos contratos com base nas
teorias da imprevisão ou da onerosidade excessiva, previstas no Código Civil,
exige que o fato (superveniente) seja imprevisível e extraordinário e que dele,
além do desequilíbrio econômico e financeiro, decorra situação de vantagem
extrema para uma das partes, situação evidenciada na hipótese. A revisão
dos contratos em razão da pandemia não constitui decorrência lógica ou
automática, devendo ser analisadas a natureza do contrato e a conduta das
partes - tanto no âmbito material como na esfera processual -, especialmente
quando o evento superveniente e imprevisível não se encontra no domínio da
atividade econômica das partes. Na hipótese, ficou demonstrada a efetiva
redução do faturamento da empresa locatária em virtude das medidas de
restrição impostas pela pandemia da covid-19. Por outro lado, a locatária
manteve-se obrigada a cumprir a contraprestação pelo uso do imóvel pelo
valor integral e originalmente firmado, situação que evidencia o desequilíbrioeconômico e financeiro do contrato. Nesse passo, embora não se contestem
os efeitos negativos da pandemia nos contratos de locação para ambas as
partes - as quais são efetivamente privadas do uso do imóvel ou da percepção
dos rendimentos sobre ele - no caso em debate, considerando que a empresa
locatária exercia a atividade de coworking e teve seu faturamento
drasticamente reduzido, a revisão do contrato mediante a redução
proporcional e temporária do valor dos aluguéis constitui medida necessária
para assegurar o restabelecimento do equilíbrio entre as partes. STJ. 4ª
Turma. REsp 1984277-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em
16/08/2022 (Info 745)1.
2º - Não é possível ao consumidor invocar o direito subjetivo da revisão contratual diante
dos efeitos advindos da pandemia da Covid-19, como fundamento para autorizar a redução
proporcional do valor das mensalidades escolares.
A situação decorrente da pandemia pela Covid-19 não constitui fato
superveniente apto a viabilizar a revisão judicial de contrato de prestação de
serviços educacionais com a redução proporcional do valor das
mensalidades. STJ. 4ª Turma. REsp 1998206-DF, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, julgado em 14/06/2022 (Info 741)2.
7.9. DIREITO À EFETIVA PREVENÇÃO E REPARAÇÃO DE DANOS MORAIS E
PATRIMONIAIS, INDIVIDUAIS, COLETIVOS E DIFUSOS (VI)
O CDC adotou, como regra, o princípio da reparação integral (restitutio in integrum) dos
danos aos consumidores. Por força desse princípio, não se admite, no microssistema do direito do
consumidor, a aplicação das regras de mitigação da responsabilidade (a exemplo da regra prevista
1 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. É cabível revisão judicial de contrato de locação não
residencial - empresa de coworking - com redução proporcional do valor dos aluguéis em razão de fato
superveniente decorrente da pandemia da Covid-19. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:
.
Acesso em: 26/01/2023
2 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Não é possível ao consumidor invocar o direito subjetivo da
revisão contratual diante dos efeitos advindos da pandemia da Covid-19, como fundamento para autorizar a
redução proporcional do valor das mensalidades escolares. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:
.
Acesso em: 26/01/2023
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 39
no art. 944, parágrafo único, do CC) ou de fixação de quantum indenizatório (tarifação), sendo
vedadas, igualmente, as estipulações que exonerem ou atenuem a responsabilidade dos
fornecedores.
Art. 25. É vedada a estipulação contratual de cláusula que impossibilite,
exonere ou atenue a obrigação de indenizar prevista nesta e nas seções
anteriores.
§ 1° Havendo mais de um responsável pela causação do dano, todos
responderão solidariamente pela reparação prevista nesta e nas seções
anteriores.
§ 2° Sendo o dano causado por componente ou peça incorporada ao produto
ou serviço, são responsáveis solidários seu fabricante, construtor ou
importador e o que realizou a incorporação.
Excepcionalmente, nos casos em que o consumidor for pessoa jurídica será possível minorar
a reparação do dado (apenas quando decorrer de vício, não se aplica para defeito do produto), nos
termos do art. 51, I, do CDC.
É o caso, por exemplo, de uma Universidade que adquire grande quantidade de produtos
de limpeza para a manutenção de suas instalações e, no contrato, estipulam que será reduzido o
valor.
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor
por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem
renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de consumo entre o
fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá ser
limitada, em situações justificáveis;
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/SC (2021) A empresa que integra a cadeia de fornecimento de serviços,
ainda que na condição de parceira, é subsidiariamente responsável por
eventuais danos causados ao destinatário final dos serviços. Errado.
Salienta-se que, para o STF e para o STJ, no caso de transporte aéreo internacional de
passageiro prevalece o sistema da indenização tarifada em relação aos danos materiais, com
fulcro no art. 178 da CF e na Convenção de Varsóvia (que prevalece sobre o CDC). Vejamos a
excelente explicação do Professor Márcio Cavalcante (Dizer o Direito):
É possível a limitação, por legislação internacional especial, do direito do
passageiro à indenização por danos materiais decorrentes de extravio de
bagagem. STJ. 3ª Turma. REsp 673048-RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze,
julgado em 08/05/2018 (Info 626).
Nos termos do art. 178 da Constituição da República, as normas e os tratados
internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de
passageiros, especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm
prevalência em relação ao Código de Defesa do Consumidor. STF. Plenário.
RE 636331/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes e ARE 766618/SP, Rel. Min.
Roberto Barroso, julgados em 25/05/2017 (repercussão geral) (Info 866).
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 40
A Convenção de Varsóvia é um tratado internacional, assinado pelo Brasil em 1929 e
promulgado por meio do Decreto nº 20.704/31. Posteriormente, ela foi alterada pelo Protocolo
Adicional 4, assinado na cidade canadense de Montreal em 1975 (ratificado e promulgado pelo
Decreto 2.861/1998). Daí falarmos em Convenções de Varsóvia e de Montreal.
Essas Convenções estipulam valores máximos que o transportador poderá ser obrigado a
pagar em caso de responsabilidade civil decorrente de transporte aéreo internacional. Dessa forma,
tais Convenções adotam o princípio da indenizabilidade restrita ou tarifada. Em caso de extravio de
bagagens, por exemplo, a Convenção determina que o transportador somente poderá ser obrigado
a pagar uma quantia máxima de cerca de R$ 4.500,00.
No presente caso, temos um conflito entre dois diplomas legais:
• O CDC, que garante ao consumidor o princípio da reparação integral do dano;
• As Convenções de Varsóvia e de Montreal determinam a indenização tarifada em
caso de transporte internacional.
Assim, a antinomia ocorre entre o art. 14 do CDC, que impõe ao fornecedor do serviço o
dever de reparar os danos causados, e o art. 22 da Convenção de Varsóvia, que fixa limite máximo
para o valor devido pelo transportador, a título de reparação.
Indaga-se: Qual dos dois diplomas irá prevalecer? Em caso de extravio de bagagem
ocorrido em transporte internacional envolvendo consumidor, aplica-se o CDC ou a indenização
tarifada prevista nas Convenções de Varsóvia e de Montreal?
As Convenções internacionais (apenas para os danos materiais).
Nos termos do art. 178 da Constituição da República, as normas e os tratados
internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de
passageiros, especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm
prevalência em relação ao Código de Defesa do Consumidor. STF. Plenário.
RE 636331/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes e ARE 766618/SP, Rel. Min.
Roberto Barroso, julgados em 25/05/2017 (repercussão geral – Tema 210)
(Info 866).
O STJ passou a acompanhar o mesmo entendimento do STF:
As indenizações por danos morais decorrentes de extravio de bagagem e de
atraso de voo internacional não estão submetidas à tarifação prevista na
Convenção de Montreal, devendo-se observar, nesses casos, a efetiva
reparação do consumidor preceituada pelo CDC.
A tese fixada pelo STF no RE 636331/RJ (Tema 210) tem aplicação apenas
aos pedidos de reparação por danos materiais.
STJ. 3ª Turma.REsp 1842066-RS, Rel. Min. A indenização decorrente de
danos a cargas em transporte aéreo internacional é disciplinada pela
Convenção de Montreal (promulgada pelo Decreto nº 5.910/2006), por força
do art. 178 da Constituição Federal, que estabelece a prevalência dos
acordos internacionais subscritos pelo Brasil sobre os normativos internos a
respeito do tema.
Caso concreto: uma companhia aérea havia sido condenada a indenizar uma
seguradora pelo extravio de uma carga de equipamentos de informática,
avaliada em cerca de R$ 18 mil. O valor da indenização foi limitado pelo STJ
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 41
ao patamar estabelecido na Convenção de Montreal. Antes de pleitear a
indenização regressiva, a seguradora havia ressarcido os valores da carga
danificada à importadora segurada.
STJ. 2ª Seção. EREsp 1289629-SP, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado
em 25/05/2022 (Info 738).
É possível a limitação, por legislação internacional especial, do direito do
passageiro à indenização por danos materiais decorrentes de extravio de
bagagem. STJ. 3ª Turma. REsp 673.048-RS, Rel. Min. Marco Aurélio
Bellizze, julgado em 08/05/2018 (Info 626).
Por que prevalecem as Convenções? Porque a Constituição Federal de 1988 determinou
que, em matéria de transporte internacional, deveriam ser aplicadas as normas previstas em
tratados internacionais. Veja:
Art. 178. A lei disporá sobre a ordenação dos transportes aéreo, aquático e
terrestre, devendo, quanto à ordenação do transporte internacional, observar
os acordos firmados pela União, atendido o princípio da reciprocidade.
Assim, em virtude dessa previsão expressa quanto ao transporte internacional, deve-se
afastar o Código de Defesa do Consumidor e aplicar o regramento do tratado internacional.
Duas importantes observações:
1) as Convenções de Varsóvia e de Montreal regulam apenas o transporte internacional
(art. 178 da CF/88). Em caso de transporte nacional, aplica-se o CDC;
2) as Convenções de Varsóvia e de Montreal devem ser aplicadas não apenas na hipótese
de extravio de bagagem, mas também em outras questões envolvendo o transporte aéreo
internacional.
Obs.: O entendimento acima é apenas em relação aos danos
materiais. Tratando-se de danos morais decorrentes de extravio de
bagagem e de atraso de voo internacional não estão submetidas à
tarifação prevista na Convenção de Montreal, devendo-se observar,
nesses casos, a efetiva reparação do consumidor preceituada pelo
CDC.
Vale salientar que o STF atualizou o entendimento da tese fixada no Tema 210 para deixar
claro que não se aplica aos casos de danos morais (extrapatrimoniais):
Nos termos do art. 178 da Constituição da República, as normas e os tratados
internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de
passageiros, especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm
prevalência em relação ao Código de Defesa do Consumidor. O presente
entendimento não se aplica às hipóteses de danos extrapatrimoniais. STF.
Plenário. ARE 766618 ED/SP, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, julgado em
30/11/2023 (Repercussão Geral – Tema 210) (Info 1119).
Por fim, ainda há uma terceira exceção, em que se admite a redução do quantum da
indenização. Por exemplo, nos casos de convocação para o recall quando o consumidor, por
deliberação própria, não leva o produto para o fornecedor, o STJ entende que a responsabilidade
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 42
do fornecedor poderá ser mitigada, já que houve um concurso de causas. Aplica-se a regra do art.
945 do CC.
Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a
sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em
confronto com a do autor do dano.
7.9.1. Reparação por dano moral
A reparação por dano moral possui fundamento constitucional (art. 5º, V e X)
Dano moral é a ofensa a um direito da personalidade, atributo personalíssimo do
consumidor. Importante consignar que a dor, o abalo, são consequências do dano moral.
Há uma dupla função atribuída ao dano moral: compensatória e punitiva.
Em regra, o simples inadimplemento contratual não gera dano moral. Contudo, em
determinadas situações específicas (festa de casamento, por exemplo) será possível extrair uma
ofensa à personalidade. É muito comum em negativa de cobertura pelo plano de saúde, uma vez
que frustra a expectativa do consumidor.
Há casos em que o dano moral é decorrente da prática ilícita, sendo o dano moral presumido
(in re ipsa). Ou seja, não será necessária a prova do efetivo dano, basta que ocorra o evento. Cita-
se, por exemplo, a negativação do nome do consumidor de forma equivocada.
O STJ possui várias súmulas que tratam de dano moral, vejamos:
Súmula 370: Caracteriza dano moral a apresentação antecipada de cheque
pré-datado
Súmula 385: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não
cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição,
ressalvado o direito ao cancelamento;
STJ – também é aplicada a Súmula 385 às ações voltadas contra o suposto credor que
efetuou a inscrição irregular. Assim, a inscrição indevida comandada pelo credor em cadastro de
proteção ao crédito, quando preexistente legítima inscrição, não enseja indenização por dano moral,
ressalvado o direito ao cancelamento.
Súmula 387: É lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano
moral;
• visa compensar o consumidor pelo seu
abalo psicológico, tendo em vista que não
se poderá recompor.
Boa-fé
subjetiva
• visa punir o fornecedor, possui caráter
pedagógico, a fim de evitar novas
condutas lesivas.
Boa-fé
objetiva
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 43
STJ – é lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano moral, ainda que
derivados de um mesmo fato, mas desde que um e outro possam ser reconhecidos
automaticamente, sendo, portanto, passíveis de identificação em separado.
Súmula 388: A simples devolução indevida de cheque caracteriza dano
moral.
Destaca-se que a 2ª Seção do STJ resolveu a divergência entre as suas 3ª e 4ª Turma
acerca da configuração do dano moral quando o consumidor encontra corpo estranho dentro do
produto industrializado.
A simples comercialização de alimento industrializado contendo corpo estranho é
suficiente para configuração do dano moral ou é necessária a sua ingestão?
1ª corrente: para ter direito à indenização é
necessário ingerir o produto
2ª corrente: a simples comercialização de
alimento industrializado contendo corpo
estranho é suficiente para indenização –
não precisaria ingerir o produto
Posição da 4ª Turma do STJ Posição da 3ª Turma do STJ
Não há dano moral na hipótese de aquisição
de gênero alimentício com corpo estranho no
interior da embalagem se não ocorre a
ingestão do produto considerado impróprio
para consumo, visto que referida situação
não configura desrespeito à dignidade da
pessoa humana, desprezo à saúde pública
ou mesmo descaso para com a segurança
alimentar.
A ausência de ingestão de produto impróprio
para o consumo configura, em regra,
hipótese de mero dissabor vivenciado pelo
consumidor, o que afasta eventual pretensão
indenizatória decorrente de alegado dano
moral.
A aquisição de produto de gênero alimentício
contendo em seu interior corpo estranho,
expondo o consumidor a risco concreto de
lesão à sua saúde e segurança, ainda que
não ocorra a ingestão de seu conteúdo, dá
direito à compensação por dano moral, dada
a ofensa ao direito fundamental à
alimentação adequada, corolário do princípio
da dignidade da pessoa humana.
STJ. 4ª Turma. AgInt no REsp 1877119/MG,
Rel. Min. Raul Araújo, julgado em
30/11/2020.
STJ. 4ª Turma. AgInt no AgInt no REsp
1814761/MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão,
julgado em 19/04/2021.
STJ. 3ª Turma. REsp 1828026/SP, Rel. Min.
Nancy Andrighi, julgado em 10/09/2019(Info
656).
STJ. 3ª Turma. AgInt no AREsp 1764400/SP,
Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em
16/08/2021.
Qual foi a posição que prevaleceu no STJ? Prevaleceu a 2ª corrente.
A aquisição de produto de gênero alimentício contendo em seu interior corpo
estranho expõe o consumidor à risco concreto de lesão à sua saúde e
segurança, ainda que não ocorra a ingestão de seu conteúdo. Logo, isso
enseja o direito de o consumidor ser indenizado por danos morais,
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 44
considerando que há ofensa ao direito fundamental à alimentação adequada,
corolário do princípio da dignidade da pessoa humana. A simples
comercialização de produto contendo corpo estranho possui as mesmas
consequências negativas à saúde e à integridade física do consumidor que
sua ingestão propriamente dita. Existe, no caso, dano moral in re ipsa porque
a presença de corpo estranho em alimento industrializado excede aos riscos
comumente esperados pelo consumidor em relação a esse tipo de produto,
caracterizando-se a situação como um defeito do produto, a permitir a
responsabilização do fornecedor. STJ. 2ª Seção. REsp 1.899.304/SP,
Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 25/08/2021.
7.9.2. Reparação por dano moral coletivo
Há, ainda, parte da doutrina que nega a existência de dano moral coletivo, uma vez que não
existe abalo coletivo, honra coletiva. Contudo, a doutrina majoritária e o STJ (todas as turmas)
admitem a possibilidade de dano moral coletivo, pois dor, abalo psicológico são consequências do
dano moral, por isso é possível a reparação.
Observa-se no STJ uma padronização, tendo em vista que, todas as vezes que se
reconheceu a existência de dano moral coletivo, foram fixados requisitos, quais sejam:
a) Razoável significância do fato transgressor – não será qualquer ofensa, deve ser um fato
grave.
b) Repulsa social – análise em cada caso concreto.
Exemplos:
• 1ª Turma – comercialização de leite com vício de qualidade;
• 2ª Turma – passe livre – idosos – transporte coletivo urbano;
• 3ª Turma – caixa preferencial em segundo andar da agência bancária;
• 4ª Turma – divulgação de publicidade ilícita de cigarros; infidelidade de bandeira
em posto de combustível (dano moral in re ipsa).
A reparação do dano moral coletivo possui dupla função:
• Punição do responsável pela lesão;
• Inibição da prática ofensiva
Como consequência, haverá redistribuição do lucro obtido de forma ilegítima pelo ofensor à
sociedade.
7.9.3. Reparação por danos sociais
Pertinente, ainda, conceituar dano social, o qual não se confunde com o dano moral coletivo.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 45
De acordo com a ótima explicação do Dizer o Direito3, danos sociais são lesões à sociedade,
no seu nível de vida, tanto por rebaixamento de seu patrimônio moral – principalmente a respeito
da segurança – quanto por diminuição na qualidade de vida. Os danos sociais são causa, pois, de
indenização punitiva por dolo ou culpa grave, especialmente, repetimos, se atos que reduzem as
condições coletivas de segurança, e de indenização dissuasória, se atos em geral da pessoa
jurídica, que trazem uma diminuição do índice de qualidade de vida da população.
Como exemplo, cita-se: o pedestre que joga papel no chão, o passageiro que atende ao
celular no avião, o pai que solta balão com seu filho.
Segundo o STJ, o dano social só poderá ser reconhecido em uma ação coletiva, não
podendo ser reconhecido de ofício. Assim, depende de pedido expresso de um dos legitimados
para a propositura de ações coletivas.
7.10. DIREITO DE ACESSO À JUSTIÇA (VII)
Entende-se como sendo direito ao acesso a um ordenamento jurídico justo, assegurado,
dentre outros: por meio da assistência jurídica, administrativa e técnica aos necessitados; foro
privilegiado, que confere a possibilidade de o consumidor demandar em seu domicílio; ações
coletivas, que tutelam interesses individuais homogêneos, ou coletivos propriamente ditos.
7.11. DIREITO À INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA
Decorre do direito de acesso à justiça. Será analisado na parte processual.
7.12. DIREITO À PRESTAÇÃO ADEQUADA E EFICAZ DO SERVIÇO PÚBLICO
Os serviços públicos, que são considerados objetos de uma relação de consumo, devem ser
prestados de forma adequada e eficaz.
7.13. DIREITO DE CRÉDITO RESPONSÁVEL
O direito ao crédito responsável, incluído pela Lei 14.181/2021, direciona o ordenamento
jurídico em favor de práticas negociais saudáveis abrangentes das mais variadas formas de crédito.
Trata-se de conceito já admitido pela doutrina e pela jurisprudência.
Segundo Pablo Stolze, é norma que impõe condutas tendentes a que se alcance um estado
de coisas caracterizado pelo atendimento de três principais diretrizes.
• A primeira mira o Poder Público. Cabe-lhe direcionar seus atos normativos, suas
políticas públicas e suas atividades de fiscalização no sentido de reprimir práticas
que contrariem o crédito responsável.
• A segunda dirige-se aos credores. Há um dever jurídico dos credores de não
fornecer créditos irresponsáveis, assim entendidos aqueles que, por um exame
prévio do caso concreto, não são factivelmente pagáveis pelo devedor. Esse
dever jurídico tem conexão com o dever de boa-fé objetiva, que exige
comportamento ético de todos os particulares. Um dos desdobramentos da boa-
fé objetiva é o duty to mitigate the loss, segundo o qual o credor tem o dever de
3 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Dano social não se confunde com dano material, moral ou estético. Buscador Dizer o
Direito, Manaus. Disponível em:
. Acesso em: 18/01/2023.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 46
cooperar com o devedor e adotar um comportamento que não estimule o
aumento da dívida. Em síntese, o credor não deve estimular o endividamento
imprudente do devedor.
• A terceira endereça-se aos próprios devedores. O devedor tem o dever jurídico
de adotar um comportamento de prudência ao contrair dívidas, buscando abster-
se de assumir compromissos além de sua capacidade de pagamento.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 47
CAMPO DE INCIDÊNCIA DO CDC
1. RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO
O campo de aplicação do CDC, basicamente, é a relação jurídica de consumo. Devendo
existir, necessariamente, consumidor, fornecedor e produtos ou serviços.
Destaca-se que as figuras acima são correlacionais (interdependentes). Ou seja, só haverá
uma relação de consumo quando estiver presente: fornecedor, consumidor e aquisição de um
produto ou de um serviço.
Consumidor e fornecedor são elementos subjetivos da RC, ao passo que o produto ou
serviço são os elementos objetivos da RC.
2. CONSUMIDOR
2.1. INTRODUÇÃO
O CDC traz quatro conceitos de consumidor: um em sentido estrito e três equiparados. A
seguir, analisaremos cada um deles.
2.2. CONSUMIDOR EM SENTIDO ESTRITO
É o consumidor previsto no art. 2º do CDC, também chamado de standart ou stricto sensu.
Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza
produto ou serviço como destinatário final.
Destaca-se que a pessoa jurídica também é considerada consumidora. Além disso, tanto a
pessoa que adquire quanto a pessoa que irá utilizar o produto são consideradas consumidores, a
exemplo da compra de uma camisa por “A” para que seja utilizada por “B”.
Relação de
Consumo
Consumidor
Produto ou
serviço
Fornecedor
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 48
Grande relevância possui a expressão “destinatário final”, tendo em vista que se trata de um
conceito aberto, havendo, em nosso ordenamento, três teorias que tratam do tema, vejamos:
TEORIA MAXIMALISTA – destinatário final é o consumidor que retira o produto do mercado
de consumo (destinatário fático).Não importa o destino que é dado ao bem de consumo, podendo
ser utilizado para consumo próprio ou para a produção de outros produtos. Por exemplo, a empresa
que adquire um maquinário para utilizar em sua produção têxtil é considerada consumidora.
Críticas: a Teoria Maximalista amplia demais o conceito de consumidor, abrangendo
pessoas que não são vulneráveis.
TEORIA FINALISTA – destinatário final não é apenas o destinatário final, para ser
considerado consumidor deve adquirir o produto ou serviço para a satisfação de uma necessidade
pessoal, importa a destinação econômica. É a teoria adotada pelo CDC.
Com base na Teoria Finalista, o STJ não aplicou o CDC para o caso que uma boate comprou
um ar-condicionado. O STF não aplicou para o caso de uma empresa que adquiriu algodão com o
intuito de utilizar em sua produção têxtil.
TEORIA FINALISTA APROFUNDADA/MITIGADA – destinatário final será aquele que,
mesmo não sendo o destinatário final, por ser vulnerável, terá a proteção do CDC.
O STJ reconhece a Teoria Finalista Mitigada. Cita-se, como exemplo, o caso do taxista que
celebra um contrato de financiamento com uma instituição financeira para a aquisição de um veículo
que será empregado em sua atividade profissional. Embora não seja ele o destinatário final do
produto, poderá ser considerado consumidor por ser vulnerável (fática, jurídica e tecnicamente)
frente ao fornecedor.
É possível aplicar o CDC ao adquirente de unidade imobiliária, mesmo não
sendo o destinatário final do bem e apenas possuindo o intuito de investir ou
auferir lucro, com base na teoria finalista mitigada se tiver agido de boa-fé e
não detiver conhecimentos de mercado imobiliário nem expertise em
incorporação, construção e venda de imóveis, sendo evidente a sua
vulnerabilidade. Em outras palavras, o CDC poderá ser utilizado para
amparar concretamente o investidor ocasional (figura do consumidor
investidor)
STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 1786252/RJ, Rel. Min. Antonio Carlos
Ferreira, julgado em 17/05/2021.
STJ. 3ª Turma. REsp 1785802/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Boas Cueva,
julgado em 19/02/2019.
Esquematizando:
TEORIA FINALISTA TEORIA MAXIMALISTA
É dar destinação fática E econômica ao
produto, ou seja, retirar do mercado de
consumo e esgotá-lo economicamente (não
pode ser utilizado no ciclo de produção)
É dar destinação fática ao produto, ou seja, o
produto deixa o mercado de consumo. Não
importa o que a parte irá fazer com o produto.
Também chamada de subjetiva (analisa o que
é feito com a coisa)
Também chamada de objetiva (pouco importa
o que é feito com a coisa).
Conceito econômico. Conceito jurídico.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 49
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/AP (2022) Admite-se, em determinadas hipóteses, a aplicação do CDC,
mesmo que o consumidor não seja o destinatário final do bem ou serviço,
quando caracterizada sua vulnerabilidade frente ao fornecedor. Correta!
DPE/MS (2022) Jorge adquiriu um veículo automotor zero quilômetro para a
atividade comercial da empresa de locação e transporte de produtos de festas
infantis que mantém em sociedade com o seu irmão, da qual ambos auferem
renda mensal de cerca de dois salários-mínimos, já considerados os lucros.
Dois meses após sua aquisição, o veículo apresentou problemas no sistema
de freios (ABS), tendo Jorge levado o bem à assistência técnica autorizada
vinculada à concessionária onde adquiriu o veículo. Em tal estabelecimento,
constatou-se a necessidade de troca de peças de alto valor, que a
concessionária alegou, indevidamente, não estarem cobertas pela garantia
de fábrica. Jorge buscou a Defensoria Pública para saber dos seus direitos.
A partir de tais fatos, e considerando que a concessionária está estabelecida
em comarca diversa daquela de domicílio de Jorge, é correto afirmar que se
trata de relação de consumo, ainda que Jorge utilize o bem em sua atividade
empresária, dada a aplicação da teoria finalista aprofundada; a competência
para a ação judicial poderá ser da comarca do domicílio do autor Jorge.
Correta!
DPE/BA (2016 FCC) - Sebastião juntou dinheiro que arrecadou ao longo de
20 anos trabalhando como caminhoneiro para adquirir um caminhão, zero
quilômetros, que passou a utilizar em seu trabalho, realizando fretes no
interior do Estado da Bahia. Ainda no prazo de garantia, o veículo apresentou
problemas e ficou imobilizado. Sua esposa, Raimunda, microempresária do
ramo da costura, adquiriu uma máquina bordadeira de valor elevado de uma
grande produtora mundial, que depois de poucas semanas de funcionamento,
também apresentou parou de funcionar. Ambos podem ser considerados
consumidores, ainda que não se configurem como usuários finais dos
produtos adquiridos, uma vez que, embora o Código de Defesa do
Consumidor adote a teoria finalista, em casos semelhantes, o Superior
Tribunal de Justiça já admitiu a mitigação desta teoria diante da prova da
hipossuficiência e do desequilíbrio na relação, caracterizando hipótese de
consumo intermediário.
2.3. CONSUMIDOR POR EQUIPARAÇÃO
2.3.1. Em sentido coletivo
É o consumidor previsto no parágrafo único do art. 2º do CDC.
Art. 2º, Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas,
ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.
A finalidade é instrumental, viabilizando a tutela coletiva.
Por exemplo, determinado laboratório coloca no mercado de consumo medicamentos
danosos à saúde. As pessoas que adquiriram estão sofrendo um dano, são consideradas
consumidoras. O restante da coletividade, mesmo que não tenha adquirido o medicamento, também
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 50
é considerada consumidora, eis que está exposta. Diante disso, é possível que um dos legitimados
ajuíze uma ação coletiva objetivando a retirada dos medicamentos das farmácias.
2.3.2. Bystander
Encontra-se previsto no art. 17 do CDC, in verbis:
Art. 17 - Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas
as vítimas do evento.
É a vítima de acidente de consumo, a exemplo das pessoas que prestaram socorro às
vítimas da Boate Kiss (consumidores em sentido estrito) e acabaram sofrendo lesões.
A explosão ocorrida no shopping center de Osasco, em relação às pessoas que estavam na
rua, é outro exemplo de consumidor bystander.
Observe o Info 542 do STJ, retirado do Dizer o Direito, em que há aplicação do art. 17 do
CDC ao caso de uma vítima que teve seu cheque falsificado e utilizado em um hotel, sendo
negativada.
Determinada pessoa teve seu nome inscrito no Serviço de Proteção ao
Crédito porque alguém utilizou seu nome em um cheque falsificado para
pagar estadia em hotel. Diante do não pagamento do cheque, o Hotel levou
a protesto o título de crédito. Essa pessoa negativada será considerada
consumidora por equiparação, nos termos do art. 17 do CDC. Houve um
acidente de consumo causado pela suposta falta de segurança na prestação
do serviço por parte do estabelecimento hoteleiro que, no caso concreto,
poderia ter identificado a fraude. Logo, sendo a vítima considerada
consumidora e sendo o causador do dano um fornecedor de serviços, a ação
de indenização poderá ser proposta contra o Hotel no foro do domicílio do
autor (consumidor por equiparação), nos termos do art. 101, I, do CDC. STJ.
2ª Seção. CC 128079-MT, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 12/3/2014 (Info
542).
Para elucidar, imagine a seguinte situação adaptada: João, ao tentar fazer uma compra a
prazo, percebeu que seu nome estava negativado no SERASA. Ao buscar mais informações, soube
que um Hotel, localizado em Cuiabá (MT), levou a protesto um cheque que seria seu e que teria
sido utilizado para pagar hospedagem. João investigou a fundo o caso e descobriu que alguém
falsificou seu talonário de cheques e o utilizou para pagar a conta do referido Hotel. Como não
conseguiureceber o valor, o representante do Hotel foi até um tabelionato de protesto e apontou o
cheque para protesto, indicando João como devedor. Com o protesto efetivado, o tabelionato
comunicou a existência do débito ao SERASA.
João ficou muito revoltado com a situação, uma vez que a falsificação era grosseira e, na
sua opinião, o Hotel não teve cuidados ao aceitar o cheque e, depois, ao levá-lo a protesto. João,
que mora em São Paulo, quer ajuizar uma ação de indenização por danos morais contra o Hotel.
Ele terá que propor a demanda em Cuiabá (MT) ou poderá intentar em São Paulo (SP)? João poderá
ajuizar a ação no foro de seu domicílio (no caso, São Paulo). Por quê?
João, no caso concreto, pode ser considerado como consumidor por equiparação
(bystander), uma vez que, mesmo não tendo mantido relação de consumo com o Hotel, suportou
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 51
os danos causados por um acidente de consumo ocasionado pelo fornecedor de serviços. Nesse
sentido, ele se enquadra no art. 17 do CDC. Esse é o entendimento consolidado do STJ. Confira:
(...) 1. Utilização de cheque furtado para a compra de produtos em joalheria,
ensejando a inscrição do seu titular no SPC e o protesto da cártula em
tabelionato. 2. Enquadramento da vítima no conceito ampliado de
consumidor, pois, embora não tenha mantida relação negocial com a
empresa demandada, sofreu dano moral causado por defeito na prestação
de serviço da empresa recorrente. 3. Aplicação da regra do art. 17 do Código
de Defesa do Consumidor. (...) STJ. 3ª Turma. AgRg nos EDcl no REsp
1192871/RS, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 20/09/2012.
Neste outro caso, entendeu o STJ que havia o dever do time mandante de indenizar os
danos causados aos torcedores:
Em partida de futebol, se houver tumulto causado por artefatos explosivos
jogados contra a torcida visitante, o time mandante deve responder pelos
danos causados aos torcedores. REsp 1.773.885-SP, Rel. Min. Ricardo Villas
Bôas Cueva, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em 30/08/2022. Info
747/STJ.
No julgamento do REsp nº 2.080.225-SP, o STJ entendeu que, ao utilizar o banheiro do
shopping, o funcionário de uma loja localizada no interior deste empreendimento estabelece uma
verdadeira relação de consumo com a pessoa jurídica administradora do shopping, pois estão
presentes os requisitos dos arts. 2º e 3º do CDC, assim como ocorre com qualquer cliente:
O fato de a vítima ser funcionária de loja de shopping center e ter sofrido
acidente durante o horário de trabalho em área de uso comum (banheiro) não
afasta a aplicação do CDC. (STJ, REsp. nº 2.080.225 - SP, 3ª Turma, Rel.
Min. Nancy Andrighi, julgado em 03.10.2023, DJe 10.10.2023).
Como o tempo foi cobrado em concurso?
DPE/PR – FUNDATEC - (2024) Joaquim é funcionário de uma loja localizada
em um shopping. Em seu horário de expediente, ele se lesionou no banheiro
do shopping. Sobre esse caso, entende o Superior Tribunal de Justiça que:
· Ao acessar o ambiente disponibilizado pelo shopping, a pessoa, por
qualquer condição, passa a desfrutar, direta ou indiretamente, do serviço
prestado, ainda que não adquira novos produtos ou serviços no local, estando
caracterizada, portanto, a relação de consumo, ainda que por equiparação.
Correto!
Além disso, o STJ reconhece figura do consumidor por equiparação na hipótese de danos
individuais decorrentes do exercício de atividade de exploração de potencial hidroenergético
causadora de impacto ambiental, em virtude da caracterização do acidente de consumo.
Caso adaptado: a Usina Hidrelétrica de Pedra do Cavalo, localizada na Bahia
e operada pelo Grupo Votorantim, causou impactos ambientais significativos
na região, afetando as atividades de pesca e mariscagem locais. Os
pescadores do local ajuizaram ação de indenização contra as empresas
integrantes do Grupo. Na hipótese de danos individuais decorrentes do
exercício de atividadede exploração de potencial hidroenergético causadora
de impactoambiental, é possível, em virtude da caracterização do acidente
deconsumo, o reconhecimento da figura do consumidor por equiparação,
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 52
oque atrai a incidência das disposições do Código de Defesa do Consumidor.
Assim, os pescadores autores podem ser considerados como consumidores
porequiparação (bystander), nos termos do art. 17 do CDC. STJ. 2ª Seção.
REsp 2.018.386-BA, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 10/5/2023 (Info
774).
Em se tratando de relação de consumo, o consumidor poderá propor a ação no foro de seu
domicílio, nos termos do art. 101, I, do CDC:
Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e
serviços, sem prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste Título, serão
observadas as seguintes normas:
I - a ação pode ser proposta no domicílio do autor;
Como o tempo foi cobrado em concurso?
DPE/AP (2022) De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, a vítima
afetada pela explosão de um micro-ondas é considerada consumidora para
fins de responsabilização civil, mesmo que não possua vínculo contratual com
o fornecedor do produto. Correta!
2.3.3. Potencial ou virtual
Está previsto no art. 29 do CDC.
Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos
consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas
nele previstas.
Todas as pessoas expostas às práticas comerciais ou contratuais (oferta, publicidade,
práticas abusivas, cobrança de dívidas, cadastros em bancos de dados), ainda que não seja
possível identificar, concretamente, serão consideradas consumidoras potenciais ou virtuais.
OBS.: de acordo com STJ, é preciso conjugar o art. 29 do CDC com o
princípio da vulnerabilidade. Por isso, o CDC não é aplicado ao
contrato de franquia.
Trata-se de importante norma de extensão, pois viabiliza um controle preventivo e abstrato
das práticas ofensivas aos interesses dos consumidores.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 53
2.4. ESQUEMATIZANDO: ESPÉCIES DE CONSUMIDOR
Como o tema foi cobrado em concurso?
AGE/MG (2022) A porta principal de um determinado supermercado veio a
cair sobre as costas de Bento Santiago, quando ele esperava sua esposa que
fazia compras no interior do estabelecimento. Em razão do acidente, Bento
sofreu traumatismo lombar, necessitando de tratamento médico e de
medicamentos. Diante da situação narrada, com base no Código de Defesa
do Consumidor (Lei nº 8.078/1990), assinale a afirmativa correta. Bento
Santiago deve ser considerado como consumidor por equiparação,
aplicando-se a responsabilidade civil objetiva do supermercado por fato do
serviço. Correta!
DPE/AP (2022) Cristina é uma confeiteira de renome que trabalha há mais
de quinze anos produzindo bem-casados, doces recheados que são servidos
a convidados em festas de casamento. Cristina não possui registro da
atividade empresarial desenvolvida e atende seus clientes em sua própria
residência, em Brasília, sendo a venda desses doces sua única fonte de
renda. Maria e João, residentes em São Paulo, viajaram para Brasília com o
intuito de encomendar bem-casados a Cristina, os quais seriam servidos na
festa de casamento do casal. No dia da festa, realizada em São Paulo, os
doces encomendados foram, então, entregues aos convidados; contudo, os
pais de Maria, entre outros convidados, sofreram infecção gastrointestinal em
razão da ingestão desses doces. Após análise técnica, verificou-se que os
bem-casados servidos no evento, que foram vendidos e produzidos por
Cristina, estavam impróprios para o consumo na ocasião. Correta!
MPE/AP (2021) No Código de Defesa do Consumidor, a regra que permite a
tutela do denominado “consumidor por equiparação” é aplicada a casos de
vítimas de acidentes de consumo por fato do produto. Correta!
TJ/RO (2019) Para colocação dos seus produtos e serviços na economia,ADEQUADA E EFICAZ DO SERVIÇO PÚBLICO ............... 45
7.13. DIREITO DE CRÉDITO RESPONSÁVEL....................................................................... 45
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 3
CAMPO DE INCIDÊNCIA DO CDC .................................................................................................. 47
1. RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO ............................................................................... 47
2. CONSUMIDOR.................................................................................................................... 47
2.1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 47
2.2. CONSUMIDOR EM SENTIDO ESTRITO ....................................................................... 47
2.3. CONSUMIDOR POR EQUIPARAÇÃO ........................................................................... 49
2.3.1. Em sentido coletivo .................................................................................................. 49
2.3.2. Bystander ................................................................................................................. 50
2.3.3. Potencial ou virtual ................................................................................................... 52
2.4. ESQUEMATIZANDO: ESPÉCIES DE CONSUMIDOR .................................................. 53
3. FORNECEDOR ................................................................................................................... 54
3.1. CONCEITO ...................................................................................................................... 54
3.2. ELEMENTO NUCLEAR ................................................................................................... 54
3.3. MERCADO DE CONSUMO ............................................................................................ 55
4. PRODUTO ........................................................................................................................... 56
5. SERVIÇO ............................................................................................................................ 56
5.1. REMUNERAÇÃO ............................................................................................................ 56
5.2. SERVIÇOS BANCÁRIOS, FINANCEIROS, DE CRÉDITO E SECURITÁRIOS ............ 56
5.3. SERVIÇOS HABITACIONAIS PROMOVIDOS PELOS SOCIEDADES COOPERATIVAS
56
5.4. SERVIÇOS PÚBLICOS ................................................................................................... 57
5.4.1. UTI SINGULI E UTI UNIVERSI ................................................................................ 57
5.4.2. NATUREZA DA REMUNERAÇÃO .......................................................................... 58
5.5. SERVIÇOS NOTARIAIS .................................................................................................. 59
RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO ..................................................... 60
1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 60
1.1. RESPONSABILIDADE CIVIL SUBJETIVA X OBJETIVA ............................................... 60
1.2. FUNDAMENTO DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA NO CDC ................................. 60
1.3. JUSTIÇA DISTRIBUTIVA ................................................................................................ 60
2. SISTEMÁTICA DO CDC ..................................................................................................... 60
3. TEORIA DA QUALIDADE ................................................................................................... 61
3.1. QUALIDADE-SEGURANÇA ............................................................................................ 61
3.2. QUALIDADE-ADEQUAÇÃO ........................................................................................... 61
4. DEFEITO X VÍCIO ............................................................................................................... 61
5. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO PRODUTO .............................................. 62
5.1. PREVISÃO LEGAL E NOÇÕES GERAIS ...................................................................... 62
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 4
5.2. ESPÉCIES DE FORNECEDORES ................................................................................. 63
5.2.1. Fornecedor real ........................................................................................................ 63
5.2.2. Fornecedor presumido ............................................................................................. 63
5.2.3. Fornecedor aparente ................................................................................................ 63
5.3. PRESSUPOSTOS ........................................................................................................... 63
5.3.1. Conduta .................................................................................................................... 63
5.3.2. Dano ......................................................................................................................... 64
5.3.3. Nexo causal .............................................................................................................. 64
5.3.4. Defeito ...................................................................................................................... 64
5.4. PRODUTOS DEFEITUOSOS ......................................................................................... 64
5.4.1. Defeito de concepção ou de criação ....................................................................... 65
5.4.2. Defeito de fabricação ............................................................................................... 65
5.4.3. Defeito de comercialização ...................................................................................... 65
5.5. RESPONSABILIDADE DO COMERCIANTE .................................................................. 66
5.6. DIREITO DE REGRESSO E DENUNCIAÇÃO DA LIDE ................................................ 67
5.7. CAUSAS DE EXCLUSÃO DA RESPONSABILIDADES ................................................ 67
5.7.1. Não colocou o produto no mercado ......................................................................... 68
5.7.2. Defeito inexiste ......................................................................................................... 68
5.7.3. Culpa exclusiva ........................................................................................................ 68
5.7.4. Caso fortuito e força maior ....................................................................................... 69
5.7.5. Risco de desenvolvimento ....................................................................................... 69
5.7.6. Sistematizando ......................................................................................................... 70
6. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO SERVIÇO ................................................ 70
6.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 70
6.2. FORNECEDORES RESPONSÁVEIS ............................................................................. 71
6.3. SERVIÇO DEFEITUOSO ................................................................................................ 71
6.3.1. Defeito na concepção............................................................................................... 71
6.3.2. Defeito na prestação ................................................................................................ 72
6.3.3. Defeito na comercialização ......................................................................................o
fornecedor deve adotar práticas comerciais condizentes com as regras
existentes no sistema jurídico de proteção ao consumidor, sendo certo que
se equiparam aos consumidores todas as pessoas determináveis ou não,
expostas às práticas em questão. Correta!
Conceitos de
Consumidor no
CDC
Consumidor stricto
sensu (art. 2º
caput)
Consumidor
equiparado
Consumidor em
sentido coletivo
(art. 2º, p. único)
Consumidor
bystander (art. 17)
Consumidor
potencial ou virtual
(art. 29)
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 54
3. FORNECEDOR
3.1. CONCEITO
O art. 3º do CDC traz o conceito de fornecedor, vejamos:
Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada,
nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que
desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção,
transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de
produtos ou prestação de serviços
Pelo conceito, podemos fazer algumas observações:
a) O Estado poderá ser considerado fornecedor, eis que fornecedor é “toda pessoa (...)
pública ou privada (...);
b) A massa falida, a sociedade de fato, o espólio, os camelôs, igualmente, podem ser
considerados fornecedores, tendo em vista que são entes despersonalizados;
c) A enumeração das atividades é exemplificativa. Assim, qualquer outra atividade, não
prevista em lei, que represente a colocação de produtos ou a prestação de serviços no mercado de
consumo, poderá ser considerada para se reconhecer a figura do fornecedor.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/AC (2019) De acordo com o dispositivo pertinente do Código de Defesa
do Consumidor (CDC), o conceito correto de fornecedor é toda pessoa física
ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira, bem como os entes
despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, montagem,
criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou
comercialização de produtos ou prestação de serviços.
3.2. ELEMENTO NUCLEAR
Quando se analisou o conceito de consumidor, vimos que o elemento nuclear (o mais
importante) era a expressão “destinatário final”. Há, da mesma forma, no conceito de fornecedor
um elemento nuclear, qual seja: “desenvolvem atividade”.
Esta expressão refere-se à atividade profissional, ou seja, aquela que reúne:
• Habitualidade – é a atividade exercida de forma reiterada, não apenas
eventualmente.
• Especialização – é o domínio da técnica, colocando o fornecedor em situação
de superioridade em relação ao consumidor.
• Finalidade econômica – é a contraprestação. Não se confunde com finalidade
lucrativa.
OBS.: as pessoas jurídicas sem fins lucrativos, inclusive as que
ostentam a certificação de filantrópicas, podem ser abrigadas pelo
conceito de fornecedoras, caso forneçam no mercado, com certa
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 55
habitualidade e especialidade, produto ou serviço, mediante
remuneração.
Observe o Resp. 519.310/SP, em que o STJ se manifestou sobre a possibilidade de
entidades beneficentes ou filantrópicas prestarem serviços:
Processual civil. Recurso especial. Sociedade civil sem fins lucrativos de
caráter beneficente e filantrópico. Prestação de serviços médicos,
hospitalares, odontológicos e jurídicos a seus associados. Relação de
consumo caracterizada. Possibilidade de aplicação do Código de Defesa do
Consumidor. Para o fim de aplicação do Código de Defesa do Consumidor, o
reconhecimento de uma pessoa física ou jurídica ou de um ente
despersonalizado como fornecedor de serviços atende aos critérios
puramente objetivos, sendo irrelevantes a sua natureza jurídica, a espécie
dos serviços que prestam e até mesmo o fato de se tratar de uma sociedade
civil, sem fins lucrativos, de caráter beneficente e filantrópico, bastando que
desempenhem determinada atividade no mercado de consumo mediante
remuneração. Recurso especial conhecido e provido.
Ressalta-se que a atividade deve estar relacionada à atividade principal do fornecedor.
Assim, por exemplo, a finalidade principal de uma universidade é a prestação de serviços
educacionais. Quando a universidade vende um carro, usado em seu serviço administrativo, para
adquirir outro, não será considerada fornecedora, pois não há habitualidade na sua conduta.
3.3. MERCADO DE CONSUMO
A atividade profissional deve ser desenvolvida no mercado de consumo, espaço de negócios
não institucional no qual se desenvolvem atividades econômicas próprias do ciclo de produção e
circulação dos produtos ou de fornecimento de serviços.
Com este entendimento, o STJ já afastou a aplicação do CDC para os seguintes casos:
• Serviços advocatícios;
• Contratos de crédito educativo
• Relação condominial
• Locação predial urbana
• Previdência privada complementar fechada (Súmula 563)
Súmula 563-STJ: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às
entidades abertas de previdência complementar, não incidindo nos
contratos previdenciários celebrados com entidades fechadas.
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/AP (2022) Aplicam-se as normas do CDC aos contratos previdenciários
celebrados com entidades fechadas. Errada!
DPE/BA (2016 – FCC) – O CDC aplica-se às entidades abertas de
previdência complementar e aos serviços remunerados prestados uti singuli,
mas não se aplica às entidades fechadas de previdência complementar e nem
aos serviços públicos uti universi. Correta!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 56
4. PRODUTO
O conceito de produto encontra-se no §1º, do art. 3º, do CDC, vejamos:
Art. 3º, § 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
Claramente, observa-se que o conceito de produto é amplo, abrangendo qualquer bem
móvel ou imóvel, material ou imaterial (ambiente virtual). Em virtude do diálogo das fontes, como o
CDC não traz o que é um bem móvel ou imóvel, utilizam-se os arts. 79 a 84 do CC.
5. SERVIÇO
O art. 3º, §2º do CDC traz o conceito de serviço, in verbis:
Art. 3º, § 2° Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo,
mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de
crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.
5.1. REMUNERAÇÃO
A característica principal do serviço, para a incidência do CDC, é a remuneração, a qual
poderá ser direta ou indireta.
DIRETA – identifica-se a contraprestação pecuniária do consumidor diretamente ao
fornecedor. Por exemplo, o consumidor vai até o fornecedor (loja) e adquire um sapato.
INDIRETA – o fornecedor obtém a remuneração não diretamente do consumidor. Cita-se,
como exemplo, o uso de redes sociais, bem como as milhas dos cartões de crédito.
O STJ, no Resp. 566.468/RJ, firmou entendimento de que é possível que haja remuneração
indireta, vejamos um trecho do julgado:
STJ: Inexiste violação ao art. 3.º, § 2.º, do Código de Defesa do Consumidor,
porquanto, para a caracterização da relação de consumo, o serviço pode ser
prestado pelo fornecedor mediante remuneração obtida de forma indireta.
5.2. SERVIÇOS BANCÁRIOS, FINANCEIROS, DE CRÉDITO E SECURITÁRIOS
Todo contrato bancário, de seguro, enfim que envolvam instituições financeiras e de créditos
serão considerados serviços abrangidos pelo CDC.
Há entendimento sumulado sobre o assunto.
Súmula 297 do STJ – O CDC é aplicável as instituições financeiras.
Por fim, destaca-se que o próprio STF já se manifestou sobre a constitucionalidade do §2º
do art. 3º do CDC, na ADI 2591.
5.3. SERVIÇOS HABITACIONAIS PROMOVIDOS PELOS SOCIEDADES
COOPERATIVAS
Súmula 602-STJ: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável aos
empreendimentos habitacionais promovidos pelas sociedades cooperativas
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 57
Existem determinados empreendimentos habitacionais que são planejados, construídos e
comercializados por sociedades cooperativas. Um exemplo famosoé o da Cooperativa Habitacional
dos Bancários de São Paulo (Bancoop). A Bancoop foi criada com o objetivo de construir e vender
imóveis (em geral, apartamentos) para os trabalhadores bancários.
A ideia das cooperativas habitacionais é nobre, considerando que o objetivo, em tese, é o
de facilitar que um grupo de pessoas consiga adquirir sua casa própria de forma facilitada, com
preços menores, juros mais baixos e prazo mais extenso para pagamento. Isso porque, na teoria,
a cooperativa não possui finalidade de lucro. Sua finalidade seria apenas a de facilitar para que
aquele grupo de pessoas consiga atingir seu objetivo, que, no caso, seria construir um
empreendimento imobiliário para moradia.
Algumas vezes, contudo, na prática, os fins originais das cooperativas habitacionais foram
desvirtuados, sendo comum notícias de irregularidades e até mesmo de crimes cometidos por
determinados dirigentes de sociedades cooperativas. Assim, infelizmente, aconteceram vários
casos de sociedades cooperativas que atrasaram a entrega ou mesmo não entregaram os
empreendimentos habitacionais que lançaram e pelos quais as pessoas pagaram com o objetivo
de ali morarem.
Essas questões foram levadas até o Judiciário e surgiu a seguinte dúvida: os adquirentes
desses imóveis podem ser considerados consumidores? As cooperativas habitacionais podem ser
classificadas como fornecedoras? Essa relação jurídica é regida pelo Código de Defesa do
Consumidor?
SIM. O STJ, há muito tempo, firmou a posição de que a cooperativa que promove um
empreendimento habitacional assume posição jurídica equiparada a uma incorporadora imobiliária,
estando sujeita, portanto, às disposições do Código de Defesa do Consumidor. Quando lança um
plano habitacional, a cooperativa age como prestadora de serviços, e os seus cooperados
(adquirentes) se equiparam a consumidores. Os cooperados adquirem o imóvel como destinatários
finais e são considerados vulneráveis, razão pela qual se enquadram no conceito de consumidores.
5.4. SERVIÇOS PÚBLICOS
5.4.1. UTI SINGULI E UTI UNIVERSI
O serviço público pode ser objeto da relação de consumo, tal entendimento pode ser extraído
de diversos dispositivos do CDC, vejamos:
Art. 4º, VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos;
Art. 6º, X – a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias,
permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são
obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos
essenciais, contínuos.
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das
obrigações referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a
cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista neste código.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 58
Porém, não é qualquer serviço público, será objeto da relação de consumo apenas
quando for possível identificar o usuário e quando for possível mensurar a prestação do serviço
público. Trata-se de serviços uti singuli, a exemplo do serviço de água e esgoto, de telefonia.
De outra banda, os serviços indivisíveis e imensuráveis, por serem uti universi, não são
abrangidos pelo CDC, a exemplo do serviço de iluminação pública. Igualmente, os serviços próprios
de Estado (saúde, educação, segurança pública) não podem ser tutelados pelo CDC, diante da
ausência de relação de consumo.
Os serviços públicos impróprios ou UTI SINGULI prestados por órgãos da
administração pública indireta ou, modernamente, por delegação a
concessionários, como previsto na CF (art. 175), são remunerados por tarifa,
sendo aplicáveis aos respectivos contratos o Código de Defesa do
Consumidor. (STJ AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.089.062 - SC
(2008/0205781-5) – SEGUNDA TURMA, Rel. Min. ELIANA CALMON julgado
em JULGADO: 01/09/2009)
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TRF1 - FGV - 2023) É aplicável, considerando a expressa previsão de que o
fornecedor pode ser pessoa jurídica de direito privado ou público, quando se
tratar de serviços públicos uti singuli remunerados por tarifa, como, por
exemplo, o serviço postal. Correto!
(TJ/MA - CESPE - 2022) Pedro José, residente na cidade de Bacabal-MA,
verificou que um poste de iluminação pública próximo à sua residência estava
permanentemente apagado. Inconformado, após várias tentativas de solução
do problema sem obter sucesso, Pedro José propôs ação contra a
concessionária de energia elétrica da localidade, alegando que faz o
pagamento da fatura de energia elétrica regularmente em dia, e requereu a
aplicação do CDC. O serviço de iluminação pública é prestado a toda a
coletividade, e não se enquadra no conceito previsto no CDC por se encontrar
fora do mercado de consumo. Correto!
PGR (2022) Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias,
permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são
obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos
essenciais, contínuos. Caso haja descumprimento, total ou parcial, as
pessoas jurídicas serão compelidas a cumprir as obrigações consumeristas
e a reparar os danos causados. Correta!
5.4.2. NATUREZA DA REMUNERAÇÃO
Importante destacar as duas correntes existentes sobre a natureza da remuneração do
serviço público, a fim de distinguir quando será aplicado ou não o CDC. Ressalta-se que ambas as
correntes se referem aos serviços uti singuli, em que há divisibilidade e possibilidade de
mensuração.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 59
1ª corrente 2ª corrente
Entende que APENAS os serviços públicos
remunerados mediante taxa ou tarifa estarão
sujeitos à incidência do CDC;
Entende que SOMENTE quando o serviço
público for remunerado por meio de tarifa ou
preço público haverá a incidência do CDC.
É a posição do STJ.
5.5. SERVIÇOS NOTARIAIS
Atualmente, o STJ possui precedente afastando a aplicação do CDC aos serviços notariais.
Como argumento, afirma que como o STF entende que as custas e emolumentos possuem natureza
administrativa-tributária não há como ser reconhecida uma relação de consumo, pois no lugar de
consumidor há contribuinte, bem como não há como considerar que os cartórios de notas e registros
sejam fornecedores, eis que seus serviços não integram o mercado de consumo.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 60
RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO
1. INTRODUÇÃO
Inicialmente, destaca-se que este tema é de suma importância para concursos públicos, eis
que é sempre objeto de cobrança em provas.
1.1. RESPONSABILIDADE CIVIL SUBJETIVA X OBJETIVA
O direito privado tradicional estava fundado na ideia de responsabilidade subjetiva, ou seja,
para que houvesse a responsabilidade seria necessária a comprovação de culpa, analisando-se a
conduta do causador do dano.
Obviamente, para a sociedade de consumo em massa, adotar a teoria da responsabilidade
civil subjetiva seria como inviabilizar o direito do consumidor, tendo em vista que seria praticamente
impossível demonstrar a culpa do fornecedor.
O Direito do Consumidor trouxe uma nova sistemática para a responsabilidade civil,
consagrando a responsabilidade objetiva em caso de danos aos consumidores. Desta forma, não é
necessário a comprovação da culpa.
1.2. FUNDAMENTO DA RESPONSABILIDADE OBJETIVA NO CDC
Funda-se na Teoria do Risco da Atividade, ou seja, o fornecedor ao exercer uma atividade
no mercado de consumo aceita os riscos dessa atividade e não o consumidor.
Em outras palavras, quem exerce uma atividade no mercado de consumo, dela obtendo
vantagem econômica, tem o dever de responder pelos eventuais vícios ou defeitos dos produtos ou
serviços fornecidos, independentemente de culpa.
1.3. JUSTIÇA DISTRIBUTIVA
A teoria do risco da atividade é a única capaz de trazere promover a justiça distributiva nas
relações de consumo. A partir do momento em que há transferência para o fornecedor dos riscos
da atividade, ele pode, por meio dos mecanismos de preço, diluir os riscos por toda a sociedade.
2. SISTEMÁTICA DO CDC
Antes de analisar cada um dos regimes de responsabilidades consagrados no CDC, observe
o esquema abaixo:
Regimes de
responsabilidade civil
Responsabilidade
pelo fato do produto
e do serviço
Responsabilidade
pelo vício do produto
e do serviço
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 61
A aplicação de cada regime será feita com base na Teoria da Qualidade.
3. TEORIA DA QUALIDADE
A Teoria da Qualidade está fundamentada na ideia de que o fornecedor possui um dever de
qualidade, ou seja, os produtos colocados no mercado de consumo devem ter qualidade tanto no
prisma da segurança quanto no da adequação.
3.1. QUALIDADE-SEGURANÇA
Significa que os produtos não podem oferecer riscos à saúde, integridade física e psíquica
do consumidor.
Apenas os produtos seguros podem ser colocados no mercado de consumo pelo fornecedor.
O descumprimento do dever de qualidade-segurança atrai a incidência do regime de
responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço.
Por fim, produtos ou serviços que não possuem qualidade-segurança são considerados com
DEFEITO.
3.2. QUALIDADE-ADEQUAÇÃO
O fornecedor só pode colocar no mercado de consumo produtos que sejam adequados ao
fim a que se destinam.
A adequação divide-se em:
• Adequação desempenho - deve desempenhar as funções a que se destina. Por
exemplo, o telefone celular em que o wi-fi não funciona, não desempenha suas
funções.
• Adequação durabilidade - deve observar o prazo de durabilidade esperado. Ex.:
televisão que em 3 meses estraga.
O descumprimento do dever de qualidade-adequação atrai a incidência do regime de
responsabilidade pelo vício do produto ou do serviço.
Trata-se de VÍCIO do produto ou do serviço, quando ausente a qualidade-adequação
esperada.
A Teoria da Qualidade, conforme se observa no Resp. 967.623/RJ, já foi adotada pelo STJ,
para definir o regime de responsabilidade civil, bem como para diferenciar defeito de vício. Vejamos:
STJ - No sistema do CDC, a responsabilidade pela qualidade biparte-se na
exigência de adequação e segurança, segundo o que razoavelmente se pode
esperar dos produtos e serviços. Nesse contexto, fixa, de um lado, a
responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço, que compreende os
defeitos de segurança; e de outro, a responsabilidade por vício do produto ou
do serviço, que abrange os vícios por inadequação.
4. DEFEITO X VÍCIO
Como visto acima, a distinção entre defeito e vício relaciona-se à Teoria da Qualidade,
observe a tabela abaixo:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 62
DEFEITO VÍCIO
É a falha de segurança (decorrente do
descumprimento do dever de qualidade-
segurança) que insere no produto ou serviço
uma potencialidade danosa por ele
normalmente não possuída, e, assim,
inesperada para o consumidor.
É a inadequação do produto ou serviço ao fim
a que se destina, decorrente do
descumprimento do dever de qualidade-
adequação (vício de qualidade), ou ainda, a
diferença quantitativa entre o que é informado
ao consumidor e o que é efetivamente
fornecido (vício de quantidade).
5. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO PRODUTO
5.1. PREVISÃO LEGAL E NOÇÕES GERAIS
O art. 12 do CDC disciplina a responsabilidade civil pelo fato do produto, in verbis:
Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o
importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes
de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação,
apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por
informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
§ 1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele
legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias
relevantes, entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.
§ 2º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor
qualidade ter sido colocado no mercado.
§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
Inicialmente, observa-se que se trata de responsabilidade objetiva, independente de culpa.
Os danos são causados por um defeito no produto, caracterizando falha de segurança.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MP/SP (2022) A responsabilidade do fabricante será apurada mediante a
verificação de culpa. Errada!
O art. 12 do CDC enumera os fornecedores responsáveis pelo fato do produto, são eles:
• Fabricante – é aquele que, efetivamente, participa da fabricação de determinado
produto, mesmo que seja apenas um componente do produto. Igualmente, o
montador do produto será considerado fabricante.
• Produtor - é aquele que disponibiliza no mercado de consumo produtos não
industrializados;
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 63
• Importador – é aquele que coloca no mercado de consumo nacional produtos de
origem estrangeiras;
• Construtor – é aquele que disponibiliza no mercado de consumo um bem imóvel.
5.2. ESPÉCIES DE FORNECEDORES
A doutrina, com base no art. 12 do CDC, identifica três espécies de fornecedores: real,
presumido e aparente.
5.2.1. Fornecedor real
Para a doutrina, é aquele que efetivamente participa do processo de fabricação do produto,
a exemplo do fabricante, do produtor e do construtor.
5.2.2. Fornecedor presumido
É aquele que não participa diretamente do processo de fabricação/produção/construção do
produto é, apenas, um intermediário entre quem fabrica e o consumidor.
Ex.: o importador (é considerado fornecedor por presunção legal).
5.2.3. Fornecedor aparente
É aquele que põe uma marca nos produtos disponibilizados ao consumidor e cria no mesmo
a confiança no produto comercializado. Os defeitos desses produtos são de responsabilidade do
franqueador.
Ex.: franqueadores.
Obs.: O CDC trouxe uma técnica de responsabilização dos
fornecedores. Quando o CDC usar a expressão FORNECEDOR como
gênero, ou seja, sem discriminar quem são, TODOS que participaram
da cadeia de produção são responsáveis (art. 14 do CDC).
Por outro lado, quando o CDC discriminar os fornecedores
(FABRICANTE, IMPORTADOR, CONSTRUTOR, PRODUTOR),
APENAS estes serão considerados responsáveis pelos danos
causados aos consumidores (art. 12 do CDC).
DICA DO PROFESSOR: CPI do Fabricante. Respondem solidariamente pelo fato do
produto o CONSTRUTOR/PRODUTOR/IMPORTADOR/FABRICANTE.
5.3. PRESSUPOSTOS
Para que haja a responsabilização dos fornecedores pelo fato do produto é necessário a
presença de determinados pressupostos, tais como conduta, dano, nexo causal e defeito. A seguir
iremos analisar cada um deles.
5.3.1. Conduta
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 64
Caracteriza-se pela colocação do produto no mercado de consumo pelo fornecedor.
Cita-se, como exemplo, a compra de óculos da marca “X” na Rua 25 de Março, em SP, pela
metade do preço. Ao acionar judicialmente o fornecedor da marca “X”, este não poderá ser
responsabilizado, pois não colocou o produto (falsificado) no mercado de consumo. Há, claramente,
ausência de conduta.
5.3.2. Dano
O dano deve ser extrínseco ao produto, ou seja, o defeito deverá causar um dano externo,
extrapolando os limites da depreciação econômica do produto.
Por exemplo, a aquisição de uma motocicleta com problemas de freios, em que o
consumidordetecta o problema antes que ocorra um acidente (não gera responsabilidade pelo fato
do produto).
5.3.3. Nexo causal
É a relação de causa e efeito entre a conduta praticada pelo fornecedor e o dano causado
ao consumidor.
Demonstrada, pelo consumidor, a relação de causa e efeito entre o produto
e o dano, incumbe ao fornecedor o ônus de comprovar a inexistência de
defeito do produto ou a configuração de outra excludente de responsabilidade
consagrada no § 3º do art. 12 do CDC. STJ. 3ª Turma. REsp 1.955.890-SP,
Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 05/10/2021 (Info 714).
5.3.4. Defeito
O defeito deve estar presente, mas há uma presunção legal ou uma inversão legal do ônus
da prova. Assim, o consumidor não precisa provar que o defeito existe.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/TO (2022) No que diz respeito à incidência das excludentes da
responsabilidade civil pelo fato do produto e ao ônus da prova nas relações
de consumo, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça admite a
existência de excludentes de responsabilidade civil, com base no Código de
Defesa do Consumidor, elencando as hipóteses de sua ocorrência, assim
como inverte o ônus da prova ao impor ao fornecedor a comprovação acerca
da inexistência de nexo de causalidade.
MPE/TO (2022) Segundo a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, os
pressupostos para a responsabilidade civil do fornecedor por fato do produto
incluem a conduta, o nexo de causalidade, o dano e o defeito. Correta!
5.4. PRODUTOS DEFEITUOSOS
Como visto acima, defeito é uma falha de segurança no produto. O §1º, do art. 12 do CDC
define quando um produto será considerado defeituoso.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 65
§ 1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele
legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias
relevantes, entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.
A doutrina classifica o defeito do produto em três espécies: defeito de concepção ou de
criação, defeito de fabricação e defeito de comercialização.
5.4.1. Defeito de concepção ou de criação
São os decorrentes de falhas no projeto ou na fórmula do produto.
Ex.: erro no design de uma “chapinha” para cabelo, que torna tal produto exageradamente
perigoso ao consumidor; falha na escolha de matéria-prima de determinado medicamento.
Suas principais características são:
• Inevitabilidade: escapam a qualquer controle de qualidade;
• Universalidade: alcançam todos os produtos de uma mesma série.
5.4.2. Defeito de fabricação
São os decorrentes de falhas nos processos de fabricação, montagem, manipulação ou
acondicionamento dos produtos.
Ex.: erro no acondicionamento de um produto alimentício, que se torna impróprio ao
consumo.
Podemos citar como as seguintes características:
• Inevitabilidade: escapam ao controle;
• Pontualidade: alcança apenas determinados produtos.
5.4.3. Defeito de comercialização
São os decorrentes de falhas na apresentação do produto, assim como de informações
inadequadas ou insuficientes ao consumidor.
Aqui, a falha de segurança não está no produto em si, mas sim no modo como este se
apresenta. Por essa razão, a doutrina em geral o considera um defeito extrínseco, diferentemente
dos defeitos de concepção e fabricação, considerados intrínsecos ao produto.
Atenção para o art. 8º, in verbis:
Art. 8,
§ 1º Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as
informações a que se refere este artigo, através de impressos apropriados
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 66
que devam acompanhar o produto. (Redação dada pela Lei nº 13.486, de
2017)
§ 2º O fornecedor deverá higienizar os equipamentos e utensílios utilizados
no fornecimento de produtos ou serviços, ou colocados à disposição do
consumidor, e informar, de maneira ostensiva e adequada, quando for o caso,
sobre o risco de contaminação. (Incluído pela Lei nº 13.486, de 2017)
5.5. RESPONSABILIDADE DO COMERCIANTE
O art. 13 do CDC traz as hipóteses em que o comerciante será responsabilizado pelo fato
do produto, vejamos:
Art. 13. O comerciante é igualmente responsável, nos termos do artigo
anterior, quando:
I - o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador não puderem ser
identificados;
II - o produto for fornecido sem identificação clara do seu fabricante, produtor,
construtor ou importador;
III - não conservar adequadamente os produtos perecíveis.
Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado poderá
exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo sua
participação na causação do evento danoso.
O inciso I traz a hipótese de produto anônimo, ou seja, quando não for possível identificar
um dos fornecedores do art. 12 do CDC.
O inciso II trata dos produtos que forem mal identificados.
O inciso III, por fim, traz a responsabilidade do comerciante quando este não conservar o
produto de maneira correta.
Ressalta-se que a responsabilidade do comerciante é subsidiária, apenas nas hipóteses do
art. 13 do CDC serão responsáveis. Doutrina minoritária defende que a responsabilidade é direta,
mas condicionada aos casos do referido artigo.
Contudo, a responsabilidade do comerciante não irá afastar a dos demais obrigados (CPI
dos fornecedores), como se observa pela expressão “igualmente responsável” contida no caput do
art. 13.
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/MT (2022) De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, em
regra, o comerciante responde pelo fato do produto, independentemente da
existência de culpa, quando o produto for fornecido sem identificação clara
do seu fabricante, produtor, construtor ou importador. Correta!
DPE/CE (2022) Suzana, que não possui inscrição no Registro Público de
Empresas Mercantis, produz e vende bolos para festas há mais de 10 anos.
Em razão de seu renome e experiência neste mercado, foi contratada por
Deise para o aniversário do seu filho. No dia seguinte à festividade, vários
convidados sofreram intoxicação alimentar e, após análise técnica, verificou-
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 67
se que o bolo servido no evento estava impróprio ao consumo. Considerando
essa situação hipotética, poderá ser aplicado o Código de Defesa do
Consumidor, e todos os convidados afetados, na condição de consumidores
por equiparação, poderão pleitear a reparação de danos em face de Suzana,
observado o prazo prescricional de 5 anos. Correta!
5.6. DIREITO DE REGRESSO E DENUNCIAÇÃO DA LIDE
O art. 13, parágrafo único, do CDC traz a possibilidade do exercício do direito de regresso,
vejamos:
Art. 13, Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado
poderá exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo
sua participação na causação do evento danoso.
Como analisado no item anterior, o comerciante responde igualmente pelos danos causados
ao consumidor. Desta forma, caso o comerciante seja obrigado a indenizar o consumidor poderá,
posteriormente, exercer o direito de regresso contra os demais obrigados. Salienta-se que, apesar
de o direito de regresso estar previsto no parágrafo único do art. 13, é perfeitamente possível que
um seja utilizado nos casos do art. 12 do CDC, em razão da solidariedade.
Nos termos do art. 88 do CDC, a ação de regresso pode ser exercida em um processo
autônomo ou nos autos do mesmo processo, havendo expressa vedação sobre a possibilidade de
denunciação da lide.
Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único deste código, a ação de
regresso poderá ser ajuizada em processo autônomo, facultada a
possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a denunciação da
lide.
Justifica-se a vedação de denunciação da lide para que não haja discussão sobre matériasdiversas, podendo retardar a prestação jurisdicional ao consumidor.
OBS.: Para o STJ, atualmente, a denunciação da lide é vedada tanto
nos casos de responsabilidade pelo fato do produto quanto pelo fato
do serviço. Não há lógica em fazer distinção.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/MG (2022) A vedação à denunciação da lide prevista no Código de
Defesa do Consumidor não se restringe à responsabilidade de comerciante
por fato do produto, sendo aplicável também nas demais hipóteses de
responsabilidade civil por acidentes de consumo. Correta!
MPE/AP (2021) A vedação à denunciação da lide estabelecida no Código de
Defesa do Consumidor limita-se às ações de responsabilidade por fato do
produto. Errada!
5.7. CAUSAS DE EXCLUSÃO DA RESPONSABILIDADES
As causas de exclusão da responsabilidade civil pelo fato do produto encontram-se
tipificadas no § 3º do art. 12 do CDC, vejamos:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 68
§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
Antes da análise de cada causa de exclusão, é importante salientar que o ônus da prova
será sempre do fornecedor.
5.7.1. Não colocou o produto no mercado
Caso o fabricante, o construtor, o produtor ou o importador comprove que não colocou o
produto no mercado sua responsabilidade será excluída. Lembrar do exemplo dos óculos
falsificados (acima).
No caso das pílulas de farinha o laboratório alegou que não havia colocado o produto no
mercado de consumo. Apesar disso, o STJ condenou o laboratório, por entender que houve
negligência, tendo em vista a ausência de um padrão objetivo de cuidado.
5.7.2. Defeito inexiste
Ficando comprovado que não há defeito no produto, por ausência de pressuposto, haverá a
exclusão da responsabilidade.
5.7.3. Culpa exclusiva
Ocorre quando o fornecedor comprovar que o dano ocorreu por culpa exclusiva do
consumidor ou de terceiros.
Ocorre a culpa exclusiva do consumidor quando a conduta da vítima é a única causa do
acidente de consumo. É o caso do consumidor que, sem observar as instruções de uso de uma
tinta para cabelo, sofre queimadura em seu couro cabeludo ou, ainda, daquele que faz uso de
medicamento em dose excessiva, contrariando prescrição médica.
A culpa exclusiva de terceiro ocorre quando a conduta de um terceiro estranho à relação de
consumo produz, por si só, o resultado danoso. Nesse caso, como a conduta do terceiro rompe o
nexo causal entre o defeito do produto e o dano suportado pelo consumidor, fica excluída a
responsabilidade do fornecedor, a exemplo do eletricista que, ao instalar um ar-condicionado,
coloca em uma rede 110v.
OBS.: Culpa exclusiva não se confunde com culpa concorrente da
vítima. Por exemplo, a montadora faz um recall de determinado
veículo, mesmo recebendo a notificação o consumidor não leva o carro
para o recall, vindo a sofrer um dado. Percebe-se que o dano ocorreu
pela ação da montadora, mas também pela atitude do consumidor, não
haverá exclusão da responsabilidade. Parcela da doutrina entende
que a responsabilidade não poderá ser minorada, pois o CDC prevê a
reparação integral. De outra banda, há doutrina afirmando que seria
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 69
possível minorar, aplicando-se o art. 945 do CC por analogia (é o
entendimento do STJ).
5.7.4. Caso fortuito e força maior
Não há na doutrina consenso sobre os conceitos de caso fortuito e força maior, o CC trata
como sinônimos. Para o direito do consumidor, como nem mesmo o STJ faz distinção, serão
tratadas como expressões sinônimas.
CC, Art. 393. Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no
ato necessário, cujos efeitos não eram possíveis evitar ou impedir.
Para determinar a exclusão da responsabilidade por caso fortuito ou força maior é
necessária a distinção entre fortuito interno e fortuito externo, a qual encontra respaldo tanto na
doutrina quanto em inúmeros casos julgados pelo STJ.
FORTUITO INTERNO FORTUITO EXTERNO
Guarda relação com a atividade do fornecedor.
Não está relacionado com a atividade do
fornecedor.
Anterior a introdução no mercado de consumo. Posterior à entrada no mercado de consumo.
Não afasta a responsabilidade do fornecedor.
Exclui a responsabilidade do fornecedor, pois
rompe o nexo de causalidade.
5.7.5. Risco de desenvolvimento
É aquele que não podia ser conhecido cientificamente quando o produto foi colocado no
mercado de consumo vindo a ser descoberto posteriormente, depois de um certo tempo de uso.
O Fornecedor responde pelos riscos de desenvolvimento?
1ª CORRENTE (Minoritária): defende que o fornecedor não responde pelos riscos de
desenvolvimento, porque quando o produto foi colocado no mercado de consumo o defeito não
existia, ele não podia ser identificado. Assim, não existindo o defeito, o fornecedor não poderá ser
responsabilizado.
2ª CORRENTE (Majoritária): defende que os riscos de desenvolvimento não excluem a
responsabilidade do fornecedor por risco de desenvolvimento, pois, conforme o Prof. Landolfo
(explicação retirada do livro, pág. 518):
• O CDC, em seu art. 12, § 3.º, não inseriu os riscos de desenvolvimento entre as
causas de exclusão da responsabilidade do fornecedor;
• Tal solução é a única que se harmoniza com os princípios da vulnerabilidade e
da restituição integral dos danos, máxime em sistema que, por comando
constitucional (arts. 5.º, XXXII, e 170, V), impõe a efetiva tutela dos interesses do
consumidor (art. 5.º, XXXII, da CF);
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 70
• O defeito decorrente de risco do desenvolvimento representa uma espécie do
gênero defeito de concepção, pelo qual deve responder o fornecedor, único
capaz de distribuir, por meio dos mecanismos de preço, os custos sociais dos
danos causados por tais riscos, a todos os consumidores (socialização dos
riscos)
O risco do desenvolvimento, entendido como aquele que não podia ser
conhecido ou evitado no momento em que o medicamento foi colocado em
circulação, constitui defeito existente desde o momento da concepção do
produto, embora não perceptível a priori, caracterizando, pois, hipótese de
fortuito interno. (REsp 1774372/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI,
TERCEIRA TURMA, julgado em 05/05/2020, DJe 18/05/2020).
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/SC – FGV – 2024: O risco do desenvolvimento é entendido como aquele que não
podia ser conhecido ou evitado quando o produto foi colocado em circulação, caracteriza
fortuito interno e deve ser suportado pelo fornecedor, inclusive fazendo com que o produto
seja considerado defeituoso desde a sua introdução no mercado de consumo.
Correta!
5.7.6. Sistematizando
CAUSAS EXCLUDENTES CAUSAS NÃO EXCLUDENTES
Não colocação do produto no mercado (art. 12,
§ 3.º, I).
Culpa concorrente da vítima (tem sido admitida
somente como fator de redução do quantum da
indenização).
Inexistência de defeito (art. 12, § 3.º, II) Caso fortuito ou força maior internos
Culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros
(art. 12, § 3.º, III).
Riscos do desenvolvimento (não excluem a
responsabilidade do fornecedor, segundo a
doutrina majoritária.
Caso fortuito ou força maior externos (embora
não previstos no CDC, têm sido admitidos pela
doutrina majoritária e pela jurisprudência do
STJ.
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/PI (2022) As instituições financeiras respondem objetivamente pelos
danos gerados por fortuito interno, relativos a fraudes e delitos praticados por
terceiros no âmbito das operações bancárias. Correta!
6. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO SERVIÇO
6.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
A responsabilidade pelo fato do serviço está regulamentadano art. 14 do CDC, in verbis:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 71
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência
de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos
relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes
ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
§ 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o
consumidor dele pode esperar, levando-se em consideração as
circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido.
§ 2º O serviço não é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.
§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada
mediante a verificação de culpa.
Em comum, com a responsabilidade civil pelo fato do produto, destacam-se os seguintes
pontos:
• Responsabilidade é objetiva;
• Adota-se a teoria do risco da atividade
• O dano é causado por um defeito
• O dano é extrínseco ao serviço
• Os pressupostos de responsabilidade são os mesmos
6.2. FORNECEDORES RESPONSÁVEIS
Em relação à responsabilidade pelo fato do serviço, o CDC utiliza-se a expressão fornecedor
como gênero. Com isso, todos os que participarem da cadeia de produção serão considerados
responsáveis.
Cita-se, como exemplo, a aquisição de um pacote de viagens na CVC, o dano poderá ocorrer
no hotel, no transporte aéreo, mas TODOS serão considerados responsáveis.
6.3. SERVIÇO DEFEITUOSO
É aquele que possui uma falha de segurança, decorrente do descumprimento do dever de
só oferecer serviços seguros no mercado de consumo, que causa um evento inesperado.
Art. 14, § 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o
consumidor dele pode esperar, levando-se em consideração as
circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido.
O defeito poderá ser na prestação do serviço, na concepção do serviço ou, ainda, na
comercialização do serviço.
6.3.1. Defeito na concepção
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 72
É aquele que surge na própria formulação do serviço. Por exemplo, ataque cibernético ao
site de um banco, que possui falha no programa de segurança, com lesão ao consumidor
correntista.
6.3.2. Defeito na prestação
É aquele que se manifesta no ato da prestação do serviço, a exemplo de um dano à saúde
do paciente de um hospital, causado pela má administração de medicamentos.
6.3.3. Defeito na comercialização
Decorrente de “informações insuficientes ou inadequadas sobre sua fruição e riscos”. Por
exemplo, acidente numa academia de ginástica, por instruções insuficientes sobre o uso seguro e
adequado de um dado aparelho.
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/PI (2022) Se um defeito gera danos morais, ele deixa de ser considerado
vício e passa a ser considerado um fato. Correta!
6.4. CAUSAS EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE
Estão previstas no § 3º do art. 14, do CDC.
Art. 14, §3º. O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando
provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste.
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
6.4.1. Ausência de defeito
Ocorre a exclusão, pois ausente pressuposto da responsabilidade. Salienta-se que o ônus
da prova é do fornecedor.
6.4.2. Culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros
Em ambos os casos, há o rompimento do nexo de causalidade, assim a responsabilidade
fica excluída.
Novamente, o terceiro deve ser estranho à relação de consumo.
Com base na culpa exclusiva de terceiro, o STJ excluiu a responsabilidade solidária de
agência vendedora de passagem área por cancelamento de voo pela companhia aérea.
A vendedora de passagem aérea não responde solidariamente com a
companhia aérea pelos danos morais e materiais experimentados pelo
passageiro em razão do cancelamento do voo. STJ. 3ª Turma. REsp
2.082.256-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 12/9/2023 (Info
788).
6.4.3. Caso fortuito ou força maior
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 73
Em matéria de acidente de consumo, por fato de serviço, o caso fortuito ou a força maior
irão excluir a responsabilidade quando forem EXTERNOS.
• Caso fortuito e força maior externo: é aquele absolutamente estranho à atividade
do fornecedor. Por exemplo, um passageiro que é atingido por uma bala perdida
no ônibus.
• Caso fortuito e força maior interno: é aquele que está relacionado à atividade do
fornecedor, a exemplo de um acidente envolvendo os passageiros de um ônibus.
Haverá responsabilidade.
Observe o quadro abaixo baseado na jurisprudência do STJ:
FORTUITO INTERNO FORTUITO EXTERNO
Furtos, roubos e latrocínios nas dependências
de estacionamento da agência bancária.
Roubo nas dependências de estacionamento
particular independente e desvinculada de
agência bancária.
Roubo de talonário de cheques durante
transporte por empresa contratada pelo banco.
Roubo no interior de ônibus de transporte
coletivo
Fraudes e delitos praticados por terceiros no
âmbito de operações bancárias (Súmula 479).
Roubo de veículo conduzido por manobrista de
restaurante (serviço de valet parking)
Roubo no interior de agência dos correios na
qual é oferecido o serviço de banco postal.
Roubo em estação de metrô
Roubo no interior de estacionamento de
supermercado ou shopping center.
Arremesso de pedra, de fora do trem, causando
lesões em passageiros.
Danos sofridos por passageiros de transporte
coletivo, em razão de acidente de trânsito.
Bala perdida que atinge o passageiro de ônibus
Roubo armado ocorrido em fila do drive-thru
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/MG (2022) Por se tratar de fortuito externo, o estabelecimento comercial
não detém legitimidade passiva para responder pela reparação de danos
sofridos pelo consumidor vítima de crime ocorrido em drive-thru. Errada!
DPE/PB (2022) No ano de 2022, Bruno descobriu que seu nome fora incluído
em cadastros de restrição ao crédito por uma dívida de 2018. Após
informações obtidas extrajudicialmente, verificou-se que o aludido débito se
referia a um empréstimo bancário contratado de forma fraudulenta por
terceiros, que utilizaram documentos com falsificação grosseira em nome de
Bruno. No presente caso, à luz do Código de Defesa do Consumidor e do
posicionamento predominante do Superior Tribunal de Justiça, a instituição
financeira tem responsabilidade objetiva pelos danos causados, por se tratar
de fortuito interno em fraude bancária praticada por terceiros. Correta!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 74
DPE/MS (2022) Pluto, um cãozinho de pequeno porte, foi levado a uma loja
integrante de uma grande rede de pet shops, para realização de banho e tosa.
Ao chegarem em casa, Tício, tutor do cão, percebeu que o animal estava
incomodado com algo, oportunidade em que viu alguns ferimentos pequenos
compatíveis com aqueles provocados por tesoura. Isso o levou a acreditar
que o profissional tosador tivesse causado tais ferimentos. Indignado, Tício
imediatamente retornou ao pet shop e registrou a reclamação, bem como fez
fotos dos ferimentos. Em seguida, procurou a Defensoria Pública para saber
de seus direitos. Diante disso, será correto explicar a Tício que a hipótese é
de defeito do serviço e que cabe à fornecedora comprovar que o defeito
inexiste, seja porque o dano resulta de culpa exclusiva do consumidor ou de
terceiro. Correta!
6.5. RESPONSABILIDADE DO PROFISSIONAL LIBERAL
Trata-se de uma exceção à responsabilidade objetiva, tendoem vista que a responsabilidade
dos profissionais liberais é SUBJETIVA, ou seja, é necessária a comprovação da culpa, nos termos
do § 4º do art.14 do CDC.
Art. 14, §4º. A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será
apurada mediante a verificação de culpa.
Profissional liberal é aquele que exerce a sua atividade profissional com grande
especialização, com autonomia, sem subordinação e pessoalmente, independentemente do seu
grau de escolaridade.
OBS.: Se você contrata um médico em especial, a responsabilidade
dele é subjetiva; se contrata uma sociedade de médicos, a
responsabilidade é objetiva. Deve haver o atendimento personalizado
para caracterizar a responsabilidade subjetiva.
6.5.1. Obrigação de meio e obrigação de resultado
Na obrigação de meio, o fornecedor se compromete a empregar todos os esforços
necessários para a entrega do resultado, mas o resultado não é garantido. Diante de um contrato
de meio, cabe ao consumidor provar a culpa do fornecedor, quando o resultado não for alcançado.
Na obrigação de resultado o fornecedor garante o resultado. Assim, caso o resultado não
seja alcançado, presume-se a culpa do fornecedor.
OBS.: Cirurgia Mista: Numa cirurgia corretiva e estética o resultado é
misto. Tornando mista também a responsabilidade. Na parte estética,
haverá um contrato de resultado; na cirurgia corretiva, haverá um
contrato de meio.
O STJ entende que as cirurgias plásticas estéticas/embelezadoras são obrigações de
resultado. Contudo, a responsabilidade continua sendo subjetiva, ou seja, deve-se demonstrar a
culpa do profissional liberal, que é presumida. Cabendo ao réu demonstrar que não houve culpa
(inverte o ônus da prova). Para diferenciar, determinou que nas obrigações de meio a culpa é
provada; ao passo que nas obrigações de resultado, a culpa é presumida.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 75
Em procedimento cirúrgico para fins estéticos, conquanto a obrigação seja de
resultado, não se vislumbra responsabilidade objetiva pelo insucesso da
cirurgia, mas mera presunção de culpa médica, o que importa a inversão do
ônus da prova, cabendo ao profissional elidi-la de modo a exonerar-se da
responsabilidade contratual pelos danos causados ao paciente, em razão do
ato cirúrgico. (REsp 985.888/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO,
QUARTA TURMA, julgado em 16/02/2012, DJe 13/03/2012)
6.5.2. Responsabilidade de médicos e de hospitais
O hospital enquadra-se no caput do art. 14 do CDC, como fornecedor. Sendo sua
responsabilidade objetiva. Ao passo que o médico, está enquadrado no § 4º, como profissional
liberal, responde mediante culpa, sendo sua responsabilidade subjetiva.
Com isso, ficava o duelo entre o médico (subjetiva) e o hospital (objetiva), chegou ao STJ
que possui três entendimentos:
1º Quando o dano é causado pelo hospital (ex.: falha na segurança, intoxicação alimentar,
infecção hospitalar), responsabilidade apenas do hospital e na forma objetiva.
Caso adaptado: Regina, grávida, sentiu dores intensas e desconforto pélvico.
Foi levada por até um hospital particular. Ficou constado que estava em
trabalho de parto avançado. A indicação médica era a realização imediata da
cesárea, mas não havia sala de cirurgia disponível. Somente depois de um
longo tempo, foi disponibilizada uma sala de cirurgia. Em razão da demora
para a realização do parto, houve sofrimento fetal agudo e o bebê já foi
retirado sem vida. O estabelecimento hospitalar responde objetivamente
pelos danos causados aos pacientes toda vez que o fato gerador for o defeito
do seu serviço (art. 14, caput, do CDC). Ex: estadia do paciente (internação
e alimentação), instalações, equipamentos, serviços auxiliares (enfermagem,
exames, radiologia) etc. Se o defeito estiver relacionado com um desses
serviços do hospital, a responsabilidade é objetiva, como foi no caso
concreto. STJ. 4ª Turma. AgInt no AgInt no REsp 1718427-RS, Rel. Min. João
Otávio de Noronha, julgado em 6/3/2023 (Info 768).
2º Quando o dano é causado pelo médico, a responsabilidade do hospital deverá ser
analisada da seguinte forma:
a) Há vínculo do médico com o hospital: respondem solidariamente a instituição hospitalar
e o profissional responsável, apurada a sua culpa profissional. Nesse caso, o hospital é
responsabilizado indiretamente por ato de terceiro, cuja culpa deve ser comprovada pela
vítima de modo a fazer emergir o dever de indenizar da instituição, de natureza absoluta
(arts. 932 e 933 do CC), sendo cabível ao juiz, demonstrada a hipossuficiência do
paciente, determinar a inversão do ônus da prova (art. 6º, VIII, do CDC).
b) Não há vínculo do médico com o hospital: não responde pelo dano causado pelo médico.
São as hipóteses em que o médico utiliza apenas o espaço do hospital.
Atenção! O STJ entendeu que é possível, excepcionalmente, a denunciação à lide pelo
hospital em caso de erro médico.
O hospital é parte legítima na ação de indenização por erro médico, pois, com
base na teoria da aparência, para o consumidor, o vínculo entre os médicos
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 76
que fizeram as cirurgias e o hospital não é relevante, importando tão somente
a satisfação do seu direito de reparação. Nos processos em que a
responsabilização solidária do hospital depender da apuração de culpa do
médico em procedimento que causou danos ao paciente, é possível,
excepcionalmente, a denunciação da lide pelo estabelecimento, para que o
profissional passe a integrar o polo passivo da ação. STJ. 3ª Turma. REsp
1.832.371/MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 22/06/2021.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/SC – FGV – 2024) A responsabilidade civil dos hospitais, no âmbito das
relações de consumo é objetiva quando a hipótese versar sobre danos
decorrentes de seus próprios serviços (internações, refeições etc.), mas
dependerá de comprovação da culpa profissional do médico que lá atuar com
vínculo de emprego ou subordinação. Correta!
(TJ/MA – CESPE - 2022) Antônio Mariano, famoso cirurgião cardiovascular,
empregado do hospital Rede do Bem S.A., realizou, em São Paulo-SP, nas
dependências desse hospital, procedimento cirúrgico para implante de
marca-passo em Gustavo, residente em Pedrinhas-MA. Realizado o
procedimento, ficou demonstrado erro médico, o que ocasionou graves danos
à saúde de Gustavo. A respeito dessa situação hipotética, assinale a opção
correta, de acordo com o Código de Defesa do Consumidor e a jurisprudência
do Superior Tribunal de Justiça. A responsabilidade do hospital é objetiva,
pois retrata situação de fato do serviço. Correta!
DPE/CE (2022) Adriana se submeteu a uma cirurgia plástica de
abdominoplastia de fins meramente estéticos, a qual foi executada pelo
médico Tiago. Após a realização do procedimento, o resultado não saiu como
o esperado, e seu abdômen ficou com assimetrias e diversas cicatrizes com
formação de queloide. Considerando o posicionamento majoritário do
Superior Tribunal de Justiça sobre o assunto, em eventual demanda de
reparação civil dos danos decorrentes dessa situação hipotética, será
possível a inversão do ônus da prova, por se tratar de obrigação de resultado.
Correta!
7. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO PRODUTO E DO SERVIÇO
Antes de estudarmos cada aspecto da responsabilidade civil pelo vício do produto e,
posteriormente, pelo vício do serviço, destacamos as principais diferenças da responsabilidade civil
pelo fato do produto ou serviço. Vejamos a tabela abaixo:
RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO
DO PRODUTO E DO SERVIÇO
RESPONSABILIDADE PELO VÍCIO DO
PRODUTO E DO SERVIÇO
Fato gerador: DEFEITO Fato gerador: VÍCIO
DEFEITO: compromete a segurança do bem de
consumo, provocando danos externos
(acidente de consumo)
VÍCIO: fica circunscrito ao produto ou serviço,
interferindo na qualidade ou na economicidade
do bem de consumo.
Incolumidadefísico-psíquica do consumidor. Incolumidade econômica do consumidor.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 77
A seguir analisaremos os pontos em comum do vício do produto e do vício do serviço, para,
posteriormente, a análise das peculiaridades de cada um.
7.1. FATO GERADOR
O fato gerador é o vício do produto ou do serviço.
7.2. RESPONSABILIDADE OBJETIVA
Novamente, trata-se de responsabilidade objetiva, não sendo necessário perquirir se o
fornecedor agiu com dolo ou com culpa.
Basta, portanto, a prática do dano, a ofensa à incolumidade econômica do consumidor.
Destaca-se que, ao contrário da responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço, não
há previsão expressa de que a responsabilidade é objetiva pelo vício do produto ou do serviço.
Contudo, é pacífico tanto na doutrina quanto na jurisprudência que é responsabilidade objetiva,
tendo em vista que no CDC, como regra, a responsabilidade civil do fornecedor será objetiva.
A responsabilidade civil será subjetiva apenas quando o CDC expressamente previr, a
exemplo da responsabilidade do profissional liberal (art. 14, §4º).
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência
de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos
relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes
ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada
mediante a verificação de culpa.
Destaca-se o art. 23 do CDC, como reforço a tese de responsabilidade objetiva, eis que
prevê que a ignorância do fornecedor sobre os vícios não exime sua responsabilidade, in verbis:
Art. 23. A ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por
inadequação dos produtos e serviços não o exime de responsabilidade.
Atenção! Súmula 595 do STJ consagrou a responsabilidade objetiva
das instituições de ensino superior, quando o curso não for
reconhecido.
Súmula 595-STJ: As instituições de ensino superior respondem
objetivamente pelos danos suportados pelo aluno/consumidor pela realização
de curso não reconhecido pelo Ministério da Educação, sobre o qual não lhe
tenha sido dada prévia e adequada informação.
7.3. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA
Todos os fornecedores, independentemente de sua posição na cadeia de produção,
distribuição e comercialização, serão responsáveis pelos vícios de produto ou de serviço. Como
visto acima, aqui, a expressão “fornecedor” foi usada como gênero.
Vejamos os arts. 18, 19 e 20 do CDC.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 78
Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis
respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os
tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes
diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com
a indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou
mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua
natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o
consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas
condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 2° Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo
previsto no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior
a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá
ser convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do
consumidor.
§ 3° O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1° deste
artigo sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes
viciadas puder comprometer a qualidade ou características do produto,
diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
§ 4° Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1° deste
artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver substituição
por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante complementação
ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo do disposto nos
incisos II e III do § 1° deste artigo.
§ 5° No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante
o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente
seu produtor.
§ 6° São impróprios ao uso e consumo:
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados,
corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda,
aqueles em desacordo com as normas regulamentares de fabricação,
distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim a
que se destinam.
Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de
quantidade do produto sempre que, respeitadas as variações decorrentes de
sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações constantes do
recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária, podendo
o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - o abatimento proporcional do preço;
II - complementação do peso ou medida;
III - a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo,
sem os aludidos vícios;
IV - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos.
§ 1° Aplica-se a este artigo o disposto no § 4° do artigo anterior.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 79
§ 2° O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a
medição e o instrumento utilizado não estiver aferido segundo os padrões
oficiais.
Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os
tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por
aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da oferta
ou mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente e
à sua escolha:
I - a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 1° A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente
capacitados, por conta e risco do fornecedor.
§ 2° São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins
que razoavelmente deles se esperam, bem como aqueles que não atendam
as normas regulamentares de prestabilidade.
Art. 34. O fornecedor do produto ou serviço é solidariamente responsável
pelos atos de seus prepostos ou representantes autônomos.
7.3.1. Jurisprudência do STJ e Solidariedade
a) Incorporador e construtor
Serão responsáveis solidários pelos vícios e defeitos de construção surgidos no
empreendimento imobiliário.
Imagine que ao adquirir um imóvel na planta, posteriormente, o proprietário verifica inúmeros
vícios de qualidade. Nestes casos, o consumidor poderá demandar tanto a incorporadora quanto a
construtora, ou ainda, ambas.
b) Instituição financeira vinculada à montadora
Havendo vício no veículo, tanto a montadora quanto a concessionária de veículos serão
responsáveis solidários.
c) Franqueadoras e franqueados
Ocorrendo vícios dos serviços ou produtos da franquia a responsabilidade será tanto da
franqueadora como do franqueado.
d) Seguradora e oficina indicada ou credenciada
Haverá responsabilidade solidária pelos vícios dos serviços executados no automóvel do
consumidor.
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/AP (2022) Regina ingressou com ação judicial em face da montadora de
automóveis(primeira ré) e da revendedora (segunda ré), alegando que sofreu
prejuízo na compra de um veículo. A consumidora narra que, em outubro de
2020, adquiriu o veículo anunciado na mídia como sendo o lançamento do
modelo na versão ano 2021, o que foi confirmado pelo vendedor que a
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 80
atendeu na concessionária. No mês seguinte, a montadora lançou novamente
aquele modelo denominando versão ano 2021, entretanto, contando com
mais acessórios, o que impactou na desvalorização do carro de Regina.
Diante dessa situação, é correto afirmar que há abusividade na prática
comercial que induziu Regina a erro, ao frustrar sua legítima expectativa e
quebrar a boa-fé objetiva; a responsabilidade solidária da montadora e da
revendedora está caracterizada pelo vício decorrente da disparidade com
indicações constantes na mensagem publicitária e informadas à
consumidora. Correta!
TJ/GO (2021) Relativamente aos vícios de quantidade, o fornecedor imediato
será responsável quando fizer a pesagem ou a medição e o instrumento
utilizado não estiver aferido segundo os padrões oficiais, nesse caso
afastando-se a responsabilidade da fabricante. Correta!
7.3.2. Exceções à solidariedade
1ª EXCEÇÃO: tratando-se de fornecimento de produto in natura, sem identificação clara de
seu produtor (art. 18, § 5.º), apenas o comerciante irá responder. Foi cobrada na prova do MPPR.
CDC, Art. 18§ 5°- No caso de fornecimento de produtos in natura, será
responsável perante o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando
identificado claramente seu produtor.
2ª EXCEÇÃO: tratando-se de vício de quantidade decorrente de produto pesado ou medido
com instrumento não aferido segundo os padrões oficiais (art. 19, § 2.º). A responsabilidade será
do fornecedor imediato (comerciante).
CDC, Art. 19, §2° - O fornecedor imediato será responsável quando fizer a
pesagem ou a medição e o instrumento utilizado não estiver aferido segundo
os padrões oficiais.
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/SC (2022) Vera é representante autônoma de determinada linha de
produtos fornecidos por uma empresa de maquiagem. A vendedora
apresentou um produto para Ana com indicação de promoção na compra
acima de determinado número de itens, o que foi prontamente adquirido por
Ana. No momento do pagamento, ajustado para uma semana depois, Ana foi
surpreendida com a informação de não haver mais a promoção, tendo que
pagar o valor integral dos itens, então já em uso. Vera alegou que se
equivocou na informação anterior. Diante disso, Ana ajuizou ação em face de
Vera e da empresa fornecedora da maquiagem, que foram regularmente
citadas. Como julgador da causa, analisando a responsabilidade civil e a
legitimidade passiva, é correto decidir haver legitimidade da fornecedora da
maquiagem, que é solidariamente responsável pelos atos de seus
representantes autônomos. Correta!
8. VÍCIO DE QUALIDADE DO PRODUTO
8.1. PREVISÃO LEGAL
Está previsto no art. 18 do CDC, vejamos:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 81
Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis
respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os
tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes
diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com
as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou
mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua
natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
8.2. ESPÉCIES DE VÍCIO
Pela leitura do art. 18 do CDC, percebe-se três espécies de vícios, vejamos cada uma delas:
a) Impropriedade
É o caso de produto com prazo de validade vencido, do celular que o wi-fi não funciona. São
produtos não adequados aos fins a que se destinam.
b) Diminuição do valor
Cita-se, como exemplo, a compra de um veículo zero km que sai da concessionária com a
porta amassada. Haverá, obviamente, uma diminuição do valor do automóvel.
c) Disparidade
Ocorre quando há diferença entre aquilo que foi contratado e aquilo que foi efetivamente
entregue ao consumidor. Por exemplo, compra de rodas aro 18, pela internet, ao receber o produto
o consumidor nota que se trata de rodas aro 16.
8.3. PONTA DE ESTOQUE
Como se sabe, ponta de estoque são comércios que vendem determinados produtos com o
preço mais barato, tendo em vista algum vício que apresentam. Por exemplo, camisas sem botão,
blusão com alguma mancha.
A ponta de estoque não ofende o CDC, desde que haja a adequada informação ao
consumidor.
8.4. PRODUTO USADO
Em relação aos produtos usados, o entendimento é o mesmo. Havendo a correta informação
ao consumidor não há impedimento para a comercialização.
8.5. PRAZOS PARA SANAR O VÍCIO
Constatado o vício, o consumidor deverá fazer uma reclamação ao fornecedor, o qual terá
30 DIAS para sanar o vício de qualidade do produto, nos termos do art. 18, §1º do CDC.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o
consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas
condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 82
Indaga-se:
1) O prazo é flexível? Sim! O prazo pode ser diminuído (7 dias) ou aumentado (180 dias).
Ressalta-se que se a flexibilização for prevista em contrato de adesão, deverá ser feita
em separado, cláusula específica, a fim de que o consumidor tenha conhecimento.
2) Exige-se formalidade para a reclamação? O CDC não traz nenhuma formalidade para
que o consumidor faça a reclamação ao consumidor.
Havendo assistência técnica no Município, mesmo se tratando de responsabilidade solidária,
o STJ entende que é perfeitamente possível que o comerciante não aceite a reclamação,
encaminhando à assistência técnica. Não se exige a intermediação entre comerciante e o serviço
de assistência técnica.
DIREITO DO CONSUMIDOR E CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO CIVIL
PÚBLICA. DEVER DE PRESTAÇÃO DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA.
INTERMEDIAÇÃO PELO COMERCIANTE. ORGANIZAÇÃO DOS
SERVIÇOS. DIREITO DOS FORNECEDORES E EQUIPARADOS. JUROS
DE MORA. TERMO A QUO. CITAÇÃO NA DEMANDA COLETIVA.
PRECEDENTES.1. Demanda em que se discute a responsabilidade do
comerciante de intermediar a relação entre consumidor e assistência técnica
disponibilizada pelo fornecedor. 2. A boa-fé objetiva, alçada à condição de
princípio geral de direito, transita incessantemente em duplo sentido, exigindo
a conduta leal e cooperada, na relação de consumo entre consumidores e
fornecedores.3. A assistência técnica é caracterizada pela especialização do
serviço prestado, com finalidade de correção de vícios de produtos
comercializados.4. Sua organização eficaz e eficiente concretiza a proteção
do consumidor em razão de produtos viciados postos no comércio, bem como
o direito de reparação do vício no prazo legal de 30 dias garantido aos
fornecedores e seus equiparados.5.Disponibilizado serviço de assistência
técnica, de forma eficaz, efetiva e eficiente, na mesma localidade do
estabelecimento do comerciante, a intermediação do serviço apenas
acarretaria delongas e acréscimo de custos, não justificando a imposição
pretendida na ação coletiva.6. "Os juros de mora incidem a partir da citação
do devedor na fase de conhecimento da Ação Civil Pública, quando esta se
fundar em responsabilidade contratual, se que haja configuração da mora em
momento anterior." Precedentes.7. Recurso especial parcialmente provido.
Por fim, destacamos mudança de entendimento do STJ, no Info 619, segundo o qual existe
dever do comerciante de receber e enviar os aparelhos viciados para a assistência técnica:
Se o produtoque o consumidor comprou apresenta um vício, ele tem o direito
de ter esse vício sanado no prazo de 30 dias (art. 18, § 1º do CDC). Para
tanto, o consumidor pode escolher para quem levará o produto a fim de ser
consertado:
a) para o comerciante;
b) para a assistência técnica ou
c) para o fabricante.
Em outras palavras, cabe ao consumidor a escolha para exercer seu direito
de ter sanado o vício do produto em 30 dias: levar o produto ao comerciante,
à assistência técnica ou diretamente ao fabricante. STJ. 3ª Turma.REsp
1634851-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 12/09/2017 (Info 619).
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 83
Observe a explicação do Professor Márcio Cavalcante4:
O consumidor já teve a frustração de ter adquirido um produto que apresentou vício. Não é
razoável que, além disso, ele tenha que ter o desgaste de procurar onde é a assistência técnica,
agendar uma visita e ir até o local levar o produto. Deve-se facilitar a situação do consumidor e, por
isso, o mais correto é que ele tenha a opção de escolher para quem irá encaminhar o produto com
vício.
A responsabilidade da loja (comerciante) decorre da solidariedade passiva imposta pelo
microssistema do CDC a todos os fornecedores integrantes da cadeia de consumo para a reparação
dos vícios que os produtos alienados ao consumidor final venham apresentar.
Impedir que o consumidor retorne ao comerciante para que ele encaminhe o produto para
que o fabricante repare o vício representa impor-lhe dificuldades ao exercício de seu direito de
possuir um bem que sirva aos seus propósitos.
O comerciante tem muito mais acesso ao fabricante do bem danificado por ele
comercializado do que o consumidor.
8.6. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
I – Substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições
Por mesma espécie entende-se mesma marca e mesmo modelo, ou seja, o produto deve
ser exatamente o mesmo. O CDC não exige que o produto seja novo, mas sim que esteja em
perfeitas condições de uso.
Por fim, não havendo mais o mesmo produto, o consumidor, caso assim queira, poderá optar
por outro produto, observando:
• Se mais caro, deverá pagar a diferença;
• Se mais barato, deverá receber a diferença.
II – Restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo de
eventuais perdas e danos
Salienta-se que eventuais perdas e danos pode ser aplicado para as demais alternativas
reparatórias (I e III).
III – Abatimento proporcional do preço
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/SP – VUNESP – 2024) Nas hipóteses em que verificado vício do produto ou do
serviço e inércia do fornecedor quanto à reparação no prazo legal, faculta(m)-se ao
consumidor a substituição do produto por outro da mesma espécie, a restituição da
quantia paga, sem prejuízo das perdas e danos ou o abatimento do preço, alternativas
passíveis de utilização imediata, se comprova dos comprometimento da qualidade, das
características do produto ou diminuição do valor, em razão da extensão dos vícios.
Correta!
4 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Dever do comerciante de receber e enviar os aparelhos viciados para a assistência
técnica ou para o fabricante. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:
. Acesso em: 20/01/2023.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 84
8.7. UTILIZAÇÃO IMEDIATA DAS ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
Há casos em que o CDC prevê a reparação imediata, ou seja, não é necessário que se
observe o prazo de 30 dias, são eles:
a) Substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou características do
produto;
b) Diminuir-lhe o valor
c) Tratar-se de produto essencial.
Art. 18, § 3° O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1°
deste artigo sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das
partes viciadas puder comprometer a qualidade ou características do produto,
diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/SE (2022) De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, a
responsabilidade dos fornecedores pelos danos ao consumidor decorrentes
de vícios do produto é extracontratual, objetiva e solidária. Correta! (a banca
considerou extracontratual por ser oriunda do CDC, da lei e não de um
contrato).
9. VÍCIO DE QUANTIDADE DO PRODUTO
9.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
Encontra-se previsto no art. 19 do CDC, in verbis:
Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de
quantidade do produto sempre que, respeitadas as variações decorrentes de
sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações constantes do
recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária, podendo
o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - o abatimento proporcional do preço;
II - complementação do peso ou medida;
III - a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo,
sem os aludidos vícios;
IV - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos.
§ 1° Aplica-se a este artigo o disposto no § 4° do artigo anterior.
§ 2° O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a
medição e o instrumento utilizado não estiver aferido segundo os padrões
oficiais.
Nada mais é do que uma disparidade quantitativa entre aquilo que é informado ao
consumidor e aquilo que efetivamente lhe é entregue. Por exemplo, o rótulo informa que a caixa de
leite possui 1L, consumidor pesa e verifica que possui 800ml.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 85
9.2. DIMINUIÇÃO DO VOLUME DO PRODUTO
Determinado fabricante de refrigerante, durante muitos anos, disponibilizou em sua latinha
350 ml. Posteriormente, modificou o conteúdo líquido da latinha para 300 ml, informando no rótulo
a nova quantidade, mas em letras miúdas, sem que tenha havido diminuição do preço. O STJ
entendeu que, mesmo com a informação no rótulo, caracterizava vício de quantidade do produto,
vejamos a decisão:
DIREITO DO CONSUMIDOR. VÍCIO DE QUANTIDADE DE PRODUTO NO
CASO DE REDUÇÃO DO VOLUME DE MERCADORIA. Ainda que haja
abatimento no preço do produto, o fornecedor responderá por vício de
quantidade na hipótese em que reduzir o volume da mercadoria para
quantidade diversa da que habitualmente fornecia no mercado, sem informar
na embalagem, de forma clara, precisa e ostensiva, a diminuição do
conteúdo. É direito básico do consumidor a "informação adequada e clara
sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de
quantidade, características, composição, qualidade e preço, bem como sobre
os riscos que apresentem" (art. 6º, III, do CDC). Assim, o direito à informação
confere ao consumidor uma escolha consciente, permitindo que suas
expectativas em relação ao produto ou serviço sejam de fato atingidas,
manifestando o que vem sendo denominado de consentimento informado ou
vontade qualificada. Diante disso, o comando legal somente será
efetivamente cumprido quando a informação for prestada de maneira
adequada, assim entendida aquela que se apresenta simultaneamente
completa, gratuita e útil, vedada, no último caso, a diluição da comunicação
relevante pelo uso de informações soltas, redundantes ou destituídas de
qualquer serventia. Além do mais, o dever de informar é considerado um
modo de cooperação, uma necessidade social que se tornou um autêntico
ônus proativo incumbido aos fornecedores (parceiros comerciais, ou não, do
consumidor), pondo fim à antiga e injusta obrigação que o consumidor tinha
de se acautelar (caveat emptor). Além disso, o art. 31 do CDC, que cuida da
oferta publicitária, tem sua origem no princípio da transparência (art. 4º,
caput) e é decorrência do princípio da boa-fé objetiva. Não obstante o amparo
legal à informação e à72
6.4. CAUSAS EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE .................................................. 72
6.4.1. Ausência de defeito .................................................................................................. 72
6.4.2. Culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros ...................................................... 72
6.4.3. Caso fortuito ou força maior ..................................................................................... 72
6.5. RESPONSABILIDADE DO PROFISSIONAL LIBERAL ................................................. 74
6.5.1. Obrigação de meio e obrigação de resultado .......................................................... 74
6.5.2. Responsabilidade de médicos e de hospitais ......................................................... 75
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 5
7. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO PRODUTO E DO SERVIÇO ................... 76
7.1. FATO GERADOR ............................................................................................................ 77
7.2. RESPONSABILIDADE OBJETIVA.................................................................................. 77
7.3. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA ................................................................................ 77
7.3.1. Jurisprudência do STJ e Solidariedade ................................................................... 79
7.3.2. Exceções à solidariedade ........................................................................................ 80
8. VÍCIO DE QUALIDADE DO PRODUTO ............................................................................. 80
8.1. PREVISÃO LEGAL .......................................................................................................... 80
8.2. ESPÉCIES DE VÍCIO ...................................................................................................... 81
8.3. PONTA DE ESTOQUE .................................................................................................... 81
8.4. PRODUTO USADO ......................................................................................................... 81
8.5. PRAZOS PARA SANAR O VÍCIO ................................................................................... 81
8.6. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ................................................................................ 83
8.7. UTILIZAÇÃO IMEDIATA DAS ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ............................... 84
9. VÍCIO DE QUANTIDADE DO PRODUTO .......................................................................... 84
9.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 84
9.2. DIMINUIÇÃO DO VOLUME DO PRODUTO .................................................................. 85
9.3. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO ..................................................................................... 86
9.4. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ................................................................................ 86
10. VÍCIO DE QUALIDADE DO SERVIÇO ............................................................................... 86
10.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 86
10.2. ESPÉCIES DE VÍCIOS ................................................................................................... 86
10.3. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO ..................................................................................... 87
10.4. RESPONSABILIDADE DOS PROFISSIONAIS LIBERAIS ............................................ 87
10.5. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ................................................................................ 87
11. VÍCIO DE QUANTIDADE DO SERVIÇO ............................................................................ 87
11.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 87
11.2. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO ..................................................................................... 87
11.3. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ................................................................................ 87
11.4. SERVIÇO PÚBLICO ........................................................................................................ 87
PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA ....................................................................................................... 90
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS.............................................................................................. 90
2. DECADÊNCIA ..................................................................................................................... 90
2.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 90
2.2. PRODUTO OU SERVIÇO DURÁVEL ............................................................................. 90
2.3. CONCEITOS IMPORTANTES ........................................................................................ 91
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 6
2.4. CONTAGEM DO PRAZO ................................................................................................ 92
2.5. CAUSAS QUE OBSTAM A DECADÊNCIA .................................................................... 92
2.6. GARANTIA LEGAL E GARANTIA CONTRATUAL ......................................................... 93
2.7. CONVENÇÃO DE PRAZOS DECADENCIAIS ............................................................... 94
3. PRESCRIÇÃO ..................................................................................................................... 94
3.1. PREVISÃO LEGAL .......................................................................................................... 94
3.2. CONTAGEM DO PRAZO ................................................................................................ 94
3.3. CAUSAS DE INTERRUPÇÃO E SUSPENSÃO ............................................................. 94
3.4. PRESCRIÇÃO DE OUTRAS PRETENSÕES REPARATÓRIAS ................................... 95
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA .............................................................. 97
1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ......................................................................... 97
2. HIPÓTESE DE DESCONSIDERAÇÃO .............................................................................. 97
3. TEORIAS SOBRE A DESCONSIDERAÇÃO ..................................................................... 98
3.1. TEORIA MAIOR ............................................................................................................... 98
3.2. TEORIA MENOR ............................................................................................................. 98
4. DESCONSIDERAÇÃO DO CC X DESCONSIDERAÇÃO DO CDC .................................. 99
5. CPC E DESCONSIDERAÇÃO ........................................................................................... 99
PRÁTICAS COMERCIAIS ............................................................................................................... 101
1. PUBLICIDADE................................................................................................................... 101
1.1. CONCEITO .................................................................................................................... 101
1.2. DIFERENCIAÇÕES ....................................................................................................... 101
1.3. PRINCÍPIOS DA PROTEÇÃO PUBLICITÁRIA ............................................................ 101
1.3.1. Princípio da identificação da publicidade ............................................................... 101
1.3.2. Princípio da vinculação contratual da publicidade................................................. 101
1.3.3. Princípio da transparênciaprevenção de danos ao consumidor, as infrações à
relação de consumo são constantes, porque, para o fornecedor, o lucro
gerado pelo dano poderá ser maior do que o custo com a reparação do
prejuízo causado ao consumidor. Assim, observe-se que o dever de informar
não é tratado como mera obrigação anexa, e sim como dever básico,
essencial e intrínseco às relações de consumo, não podendo afastar a índole
enganosa da informação que seja parcialmente falsa ou omissa a ponto de
induzir o consumidor a erro, uma vez que não é válida a "meia informação"
ou a "informação incompleta". Com efeito, é do vício que advém a
responsabilidade objetiva do fornecedor. Ademais, informação e confiança
entrelaçam-se, pois o consumidor possui conhecimento escasso dos
produtos e serviços oferecidos no mercado. Ainda, ressalte-se que as leis
imperativas protegem a confiança que o consumidor depositou na prestação
contratual, na adequação ao fim que razoavelmente dela se espera e na
confiança depositada na segurança do produto ou do serviço colocado no
mercado. Precedentes citados: REsp 586.316-MG, Segunda Turma, DJe
19/3/2009; e REsp 1.144.840-SP, Terceira Turma, DJe 11/4/2012. REsp
1.364.915-MG, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 14/5/2013.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 86
9.3. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO
Não existe prazo para sanar o vício de quantidade, o prazo é apenas para o vício de
qualidade. Assim, as alternativas reparatórias podem ser exercidas imediatamente.
9.4. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
I – Abatimento proporcional do preço;
II – Desfazimento do negócio;
III – Complementação do peso ou da medida;
IV – Substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo. Não havendo,
pode o consumidor escolher outro (preço maior, paga a diferença; preço menor, recebe a diferença);
V – Restituição da quantia paga, sem prejuízo de eventuais perdas e danos (aplica para
todos).
Importante!
CDC, Art. 19, §1º - Aplica-se a este artigo o disposto no § 4° do artigo anterior.
CDC, Art. 18, § 4°- Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do
§ 1° deste artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver
substituição por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante
complementação ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo
do disposto nos incisos II e III do § 1° deste artigo
10. VÍCIO DE QUALIDADE DO SERVIÇO
10.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
O art. 20 do CDC consagra a hipótese de vício de serviço, vejamos:
Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os
tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por
aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da oferta
ou mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente e
à sua escolha:
Como visto anteriormente, serviço é atividade prestada no mercado de consumo, de forma
profissional, mediante remuneração, de forma direta ou indireta.
10.2. ESPÉCIES DE VÍCIOS
Há, também, três espécies de vícios de qualidade do serviço, quais sejam:
a) Inadequação: o serviço é impróprio ao fim que se destina. Por exemplo, consumidor vai
ao cinema e o filme fica sem áudio por 20 min.
b) Diminuição do valor: é o caso de uma Universidade que indica determinadas obras
literárias, mas não as possui em sua biblioteca.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 87
c) Disparidade: divergência entre o que é oferecido e o que é entregue ao consumidor.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(PGR 2022) A ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por inadequação
dos produtos e serviços o exime de responsabilidade. Errado!
10.3. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO
Não há prazo, assim o consumidor pode exercer as alternativas reparatórias imediatamente.
10.4. RESPONSABILIDADE DOS PROFISSIONAIS LIBERAIS
O profissional liberal, aqui, possui responsabilidade OBJETIVA. Apenas quando se tratar de
acidente de consumo é que a responsabilidade será subjetiva.
10.5. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
O consumidor poderá exigir:
I – Reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível;
§ 1° A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente
capacitados, por conta e risco do fornecedor.
II – Restituição da quantia paga, atualizada monetariamente, sem prejuízo de perdas e
danos;
III – Abatimento proporcional do preço.
11. VÍCIO DE QUANTIDADE DO SERVIÇO
11.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
Não há expressa previsão legal, aplica-se por analogia os arts. 19 e 20 do CDC.
Vício de quantidade do serviço é a disparidade entre aquilo que é contratado pelo
consumidor e o que efetivamente foi executado. Por exemplo, consumidor contrata um pintor para
realizar a pintura interna e externa de sua casa, mas só houve pintura interna.
11.2. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO
Não há prazo para o saneamento do vício.
11.3. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
I – Abatimento proporcional do preço;
II – Complementação do serviço;
III – Restituição imediata da quantia paga, sem prejuízo de eventuais perdas e danos.
Obs.: Trata-se de direito potestativo.
11.4. SERVIÇO PÚBLICO
Conforme visto acima, apenas os serviços públicos divisíveis e mensuráveis serão objetos
de uma relação de consumo protegida pelo CDC, desde que remunerados por tarifa ou preço
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 88
público. O art. 22 do CDC impõe uma série de exigências aos fornecedores de serviços públicos,
vejamos:
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias,
permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são
obrigados a fornecer serviços adequados1, eficientes2, seguros3 e, quanto
aos essenciais, contínuos4.
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das
obrigações referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a
cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista neste código.
ADEQUADOS: o dever de qualidade-adequação também é imposto ao serviço público, o
qual deve ter um bom desempenho, sendo adequado ao fim a que se destina;
EFICIENTES: bom desempenho a um baixo custo;
SEGUROS: dever de qualidade-segurança, não podem colocar em risco o consumidor;
CONTÍNUOS: refere-se aos serviços públicos considerados essenciais (art. 10 da Lei
7.783/1989), utiliza este artigo por analogia, eis que o CDC não prevê.
Art. 10 - São considerados serviços ou atividades essenciais:
I - tratamento e abastecimento de água; produção e distribuição de energia
elétrica, gás e
combustíveis;
II - assistência médica e hospitalar;
III - distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos;
IV - funerários;
V - transporte coletivo;
VI - captação e tratamento de esgoto e lixo;
VII - telecomunicações;
VIII - guarda, uso e controle de substâncias radioativas, equipamentos e
materiais nucleares;
IX - processamento de dados ligados a serviços essenciais;
X - controle de tráfego aéreo;
XI compensação bancária.
Indaga-se: É possível a interrupção de serviço público essencial em razão do
inadimplemento do consumidor?
Parte da doutrina entende que não é possível a interrupção, tendo em vista que o art. 22 do
CDC exige que sejam prestados de forma contínua. Posição diversa defende a possibilidade, pois
o art. 22 do CDC refere-se à disponibilidade do serviço público para toda a coletividade, sendo
possível a interrupção para o usuário inadimplente, até mesmo para que o serviço seja mantido aos
demais.
O STJ entende que é possível a interrupção, quando, após o aviso, o consumidor continua
inadimplente.
Administrativo. Energia elétrica. Corte. Falta de pagamento. É lícito à
concessionária interromper o fornecimento de energia elétrica, se, após aviso
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 89
prévio, o consumidor de energia elétrica permanecer inadimplente no
pagamento da respectiva conta(L. 8.987/95, art. 6.º, § 3.º, II).
Destacam-se a seguir alguns entendimentos, do STJ, sobre serviço público:
• Interrupção do serviço público essencial em caso de inadimplência do
consumidor. É possível?
É possível o corte que: 1) seja precedido de aviso prévio; 2) não se trate de dívidas antigas;
3) não se trate de dívida referente a suposta fraude em medidor contestada em juízo pelo
consumidor; e 4) não haja riscos de lesões à integridade física do usuário, especialmente quando
este se encontrar em estado de miserabilidade em respeito à dignidade da pessoa humana.
• Interrupção do serviço público essencial em caso de inadimplência de pessoa
jurídica de direito público consumidora.
É possível o corte, desde que preservadas as unidades públicas provedoras de
necessidades inadiáveis as comunidades* (hospitais, prontos-socorros, centros de saúde, escolas
e creches). Como também ser feito mediante aviso prévio.
Obs.: Necessidades inadiáveis da comunidade são aquelas que, se
não atendidas, colocam em perigo iminente a sobrevivência, saúde ou
segurança da população (art. 11, parágrafo único, da Lei 7.783/1989).
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/SC (2021) O CDC se aplicará à relação entre concessionária de serviço
público essencial e o usuário final que seja pessoa jurídica, para o
fornecimento do serviço, somente quando houver lacuna do Código Civil.
Errado.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 90
PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Por um lado, aquele que é lesado possui o direito de ser ressarcido, mas tal direito não pode
ser eterno. Daí surgem as ideias de prescrição e decadência, consagrando a segurança jurídica.
O CDC foi pragmático, separando o regime de responsabilidade pelo vício do produto e do
serviço (prazo decadencial – art. 26) do regime de responsabilidade pelo fato do produto ou do
serviço (prazo prescricional – art. 27).
2. DECADÊNCIA
2.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
A decadência está prevista no art. 26 do CDC:
Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação
caduca em:
I - trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não
duráveis;
II - noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos
duráveis.
§ 1° Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do
produto ou do término da execução dos serviços.
§ 2° Obstam a decadência:
I - a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o
fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente,
que deve ser transmitida de forma inequívoca;
II - (Vetado).
III - a instauração de inquérito civil, até seu encerramento.
§ 3° Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no momento
em que ficar evidenciado o defeito.
VÍCIO APARENTE OU DE FÁCIL CONSTATAÇÃO: é aquele que é perceptível pelo
consumidor. Por exemplo, o consumidor compra uma TV bivolt, mas ao receber o produto percebe
que é 110V.
• Tratando-se de produto ou serviço não durável, o prazo será de 30 dias;
• Tratando-se de produto ou serviço durável, o prazo será de 90 dias.
2.2. PRODUTO OU SERVIÇO DURÁVEL
A doutrina e a jurisprudência, para determinarem a durabilidade de um produto, baseiam-se
no critério de vida útil do produto. Assim, por exemplo, um livro é considerado um bem durável, pois
sua vida útil é grande; já uma garrafa de água é um bem não durável, tendo em vista que sua vida
útil é pequena.
Em relação ao serviço, a durabilidade é aferida pela duração dos efeitos do serviço. Não se
considera o tempo de execução do serviço.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 91
Como o tema foi cobrado em concurso?
Delegado PC/RR (2022) Segundo o Código de Defesa do Consumidor – Lei
nº 8.078/1990 e alterações, o direito de reclamar pelos vícios aparentes ou
de fácil constatação caduca em trinta dias, tratando-se de fornecimento de
serviço e de produtos não duráveis.
DPE/AP (2022) Paulo adquiriu um forno numa loja de eletrodomésticos, o
qual lhe foi entregue no mesmo dia. No entanto, algumas semanas depois,
ao ser instalado pelo próprio consumidor em sua residência, constatou-se que
o referido produto possuía um defeito aparente, consistente na rachadura do
vidro. Consoante disposto no CDC, o direito de reclamar por tal vício caduca
em noventa dias, a partir da entrega efetiva do produto. Correta!
TJ/AP (2022) Romeu comprou uma churrasqueira inox com acendimento
elétrico que incluía sistema de rotação automática e contínua dos espetos
(modelo 150), conforme visto no mostruário. No dia seguinte, a mercadoria
foi entregue e Romeu verificou se havia alguma avaria, testou o acendimento
elétrico e guardou-a em seguida, uma vez que sua residência estava em
obras. Quatro meses depois, realizou uma festa para inaugurar a casa
reformada, momento em que atentou para o fato de que o produto foi
entregue com configuração diferente (modelo 100), uma vez que não possuía
o recurso de rotação automática dos espetos. Imediatamente, o consumidor
entrou em contato com a loja, explicou o erro na entrega do produto e solicitou
sua substituição ou o ressarcimento do valor pago, o que lhe foi negado.
Romeu então propôs ação de obrigação de fazer. Nesse caso, à luz do
Código de Defesa do Consumidor, é correto afirmar que se trata de vício de
qualidade do produto, e ocorreu decadência, uma vez que a reclamação junto
à fornecedora foi feita quatro meses após a aquisição e o recebimento do
produto. Correta!
2.3. CONCEITOS IMPORTANTES
OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA: é a redução artificial da vida útil de um bem de
consumo. É o caso do fornecedor que não disponibiliza peças de reposição, no prazo de vida útil
do produto, bem como daquele que altera as peças dos produtos. Por exemplo, bateria que dura
pouco, trocar acaba sendo mais oneroso do que a aquisição de um novo celular.
Em algumas situações, pode ser considerada vício do produto, conforme decidiu o STJ.
DIREITO DO CONSUMIDOR E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO
ESPECIAL. AÇÃO E RECONVENÇÃO. JULGAMENTO REALIZADO POR
UMA ÚNICA SENTENÇA. RECURSO DE APELAÇÃO NÃO CONHECIDO
EM PARTE. EXIGÊNCIA DE DUPLO PREPARO. LEGISLAÇÃO LOCAL.
INCIDÊNCIA DA SÚMULA N. 280/STF. AÇÃO DE COBRANÇA AJUIZADA
PELO FORNECEDOR. VÍCIO DO PRODUTO. MANIFESTAÇÃO FORA DO
PRAZO DE GARANTIA. VÍCIO OCULTO RELATIVO À FABRICAÇÃO.
CONSTATAÇÃO PELAS INSTÂNCIAS ORDINÁRIAS.
RESPONSABILIDADE DO FORNECEDOR. DOUTRINA E
JURISPRUDÊNCIA. EXEGESE DO ART. 26, § 3º, DO CDC.
CDC, Art. 32 - Os fabricantes e importadores deverão assegurar a oferta de
componentes e peças de reposição enquanto não cessar a fabricação ou
importação do produto.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 92
Parágrafo único. Cessadas a produção ou importação, a oferta deverá ser
mantida por período razoável de tempo, na forma da lei (cf. Decreto 2.181/97,
art. 13, XXI – SNDC).
CONSUMO SUSTENTÁVEL: é a aquisição de bens de consumo que, a um só tempo,
assegurem a qualidade de vida da geração atual, respeitando a qualidade de vida das gerações
futuras. O consumo sustentável está previsto na Lei 13.186/15.
Art. 1º. Parágrafo único. Entende-se por consumo sustentável o uso dos
recursos naturais de forma a proporcionar qualidade de vida para a geração
presente sem comprometer as necessidades das gerações futuras.
2.4. CONTAGEM DO PRAZO
Se o vício é parente ou de fácil constatação, inicia-se a partir da entrega do produto ou do
término da execução do serviço;
§ 1° Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do
produto ou do término da execução dos serviços.
Se o vício é oculto, inicia-se a partir do conhecimento do vício. Ficando atrelado ao critério
de vida útil do bem de consumo.
§ 3° Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no momento
em que ficar evidenciadoo defeito.
2.5. CAUSAS QUE OBSTAM A DECADÊNCIA
O CDC traz, no §2º do art. 26, duas causas que obstam o prazo decadencial.
Obs.: Parte da doutrina entende que obstar é sinônimo de suspensão
do prazo decadencial, assim após a resposta do fornecedor ou do
encerramento do inquérito civil o prazo volta a correr do que restava.
Outra parte entende que obstar, aqui, é sinônimo de interrupção do
prazo decadencial, voltando a correr desde o início (recomeça).
Não há precedentes nos tribunais superiores sobre o tema (suspensão ou interrupção).
Vejamos as causas que obstam a decadência:
I – A reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o fornecedor de
produtos ou serviços até a resposta negativa correspondente, que deve ser transmitida de forma
inequívoca.
Ressalta-se que APENAS a reclamação feita ao fornecedor irá obstar o prazo. Assim, a
reclamação feita ao Procon não tem o condão de obstar o prazo de decadência.
II – A instauração de inquérito civil, até seu encerramento
O IC encerra-se com a homologação da promoção de arquivamento, bem como com a
propositura da ação civil pública.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 93
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/SC (2022) Matilda aproveitou a promoção na papelaria e encomendou
uma caixa de canetas esferográficas para presentear seus amigos nas
festividades de fim de ano que ocorreria dois meses depois, sendo os
produtos entregues no prazo ajustado. Ocorre que vários dos seus
presenteados informaram sobre problemas como vazamento da tinta e
ressecamento que impediam a realização da escrita. Indignada, Matilda
retornou à papelaria, registrando a reclamação por escrito e buscando a
solução para o problema. A esse respeito, é correto afirmar que a reclamação
comprovadamente formulada perante a fornecedora do produto obsta a
decadência. Correta!
2.6. GARANTIA LEGAL E GARANTIA CONTRATUAL
Art. 24. A garantia legal de adequação do produto ou serviço independe de
termo expresso, vedada a exoneração contratual do fornecedor.
Todo bem de consumo deve ser adequado ao fim a que se destina (dever de qualidade-
adequação). A garantia legal é obrigatória.
A garantia estendida oferecida aos consumidores, para o professor, é verdadeira
“picaretagem”, tendo em vista que durante o prazo de vida útil do produto há a garantia legal.
Salienta-se que os prazos do art. 26 do CDC não são prazos de garantia, mas sim prazos
para reclamar que a garantia seja exercida.
O art. 50 do CDC traz a garantia contratual, a qual é facultativa. Quando concedida, deve
ser oferecida por escrito.
Por fim, destaca-se que possui caráter complementar, ou seja, durante o prazo de garantia
contratual não irá correr o prazo de garantia legal. São duas espécies de garantias que acumulam-
se.
Por exemplo, oferecida garantia contratual de um ano, o prazo de 90 dias (bem durável) só
terá início após o prazo de um ano da garantia contratual.
CDC, Art. 50 A garantia contratual é complementar à legal e será conferida
mediante termo escrito.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/MA – CESPE - 2022) Ao contrário da garantia legal, que é sempre
obrigatória, a garantia contratual é mera faculdade do fornecedor. Correta!
PGE/RO (2022) De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, a
proteção contratual relativa ao direito de arrependimento assegura ao
consumidor, no caso de reservas de hotéis nacionais pela Internet com
antecedência de 10 dias, o direito de rescindir unilateralmente o contrato em
até 7 dias após a reserva, sem ressalvas. Correta!
MPE/SC (2021) A garantia atribuída pelo CDC ao consumidor será afastada
caso o fornecedor conceda garantia contratual que não inclua o afastamento
da responsabilidade e esteja escrita com destaque. Errada!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 94
TJ/MS (2020) De acordo com o Código de Defesa do Consumidor, a garantia
legal de adequação do produto independe de termo expresso, sendo vedada,
em qualquer hipótese, a exoneração contratual do fornecedor. Correta!
2.7. CONVENÇÃO DE PRAZOS DECADENCIAIS
O STJ firmou entendimento no sentido de que é possível a convenção de prazos
decadenciais, mesmo nos casos de contrato de consumo, desde que sejam respeitados os deveres
anexos à contratação: informação clara e redação expressa, ostensiva e legível. Isto porque o
CDC não elimina a liberdade contratual, mas limita para que haja equilíbrio entre as partes, já que
as relações de consumo são naturalmente desequilibradas.
Aplica-se, em caráter complementar, o disposto no art. 211 do CC.
3. PRESCRIÇÃO
3.1. PREVISÃO LEGAL
O art. 27 do CDC consagra a prescrição, a qual, como visto, aplica-se apenas ao regime de
responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço, ou seja, casos em que há acidente de
consumo.
Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos
causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste
Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano
e de sua autoria.
3.2. CONTAGEM DO PRAZO
O prazo inicia-se a partir do conhecimento do dano e da autoria. Diferentemente do que
ocorre no Direito Civil, em que a contagem se inicia a partir da ocorrência do dano.
3.3. CAUSAS DE INTERRUPÇÃO E SUSPENSÃO
Não há previsão no CDC. Assim, havendo compatibilidade utilizam-se as causas previstas
no Código Civil (arts. 197 a 204)
Art. 197. Não corre a prescrição:
I - entre os cônjuges, na constância da sociedade conjugal;
II - entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar;
III - entre tutelados ou curatelados e seus tutores ou curadores, durante a
tutela ou curatela.
Art. 198. Também não corre a prescrição:
I - contra os incapazes de que trata o art. 3o;
II - contra os ausentes do País em serviço público da União, dos Estados ou
dos Municípios;
III - contra os que se acharem servindo nas Forças Armadas, em tempo de
guerra.
Art. 199. Não corre igualmente a prescrição:
I - pendendo condição suspensiva;
II - não estando vencido o prazo;
III - pendendo ação de evicção.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 95
Art. 200. Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo
criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva.
Art. 201. Suspensa a prescrição em favor de um dos credores solidários, só
aproveitam os outros se a obrigação for indivisível.
Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez,
dar-se-á:
I - por despacho do juiz, mesmo incompetente, que ordenar a citação, se o
interessado a promover no prazo e na forma da lei processual;
II - por protesto, nas condições do inciso antecedente;
III - por protesto cambial;
IV - pela apresentação do título de crédito em juízo de inventário ou em
concurso de credores;
V - por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor;
VI - por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe
reconhecimento do direito pelo devedor.
Parágrafo único. A prescrição interrompida recomeça a correr da data do ato
que a interrompeu, ou do último ato do processo para a interromper.
Art. 203. A prescrição pode ser interrompida por qualquer interessado.
Art. 204. A interrupção da prescrição por um credor não aproveita aos outros;
semelhantemente, a interrupção operada contra o codevedor, ou seu
herdeiro, não prejudica aos demais coobrigados.
§ 1o A interrupção por um dos credores solidários aproveita aos outros; assim
como a interrupção efetuada contra o devedor solidário envolve os demais e
seus herdeiros.
§ 2o A interrupção operada contra um dos herdeiros do devedor solidário não
prejudica os outros herdeiros ou devedores, senão quando se trate de
obrigações e direitos indivisíveis.
§ 3o A interrupção produzida contra o principal devedor prejudica o fiador.
3.4. PRESCRIÇÃO DE OUTRAS PRETENSÕESREPARATÓRIAS
Algumas pretensões reparatórias, a exemplo da repetição do indébito, da inscrição indevida,
do inadimplemento contratual, não se enquadram nos regimes de responsabilidades vistos acima,
bem como não possuem previsão de decadência ou prescrição no CDC.
Diante disso, há duas correntes na doutrina:
1ªC: Entende que o prazo prescricional será o do art. 27 do CDC, ou seja, 5 anos. Haveria
a utilização de analogia.
2ªC: Sustenta que não se aplica o art. 27 do CDC, pois não há semelhança. Afirmam, assim,
que se deve utilizar os prazos do CC, valendo-se de um diálogo sistemático de
complementariedade.
No STJ não há jurisprudência uniformidade, como se pode ver pelo quadro abaixo:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 96
OUTRAS PRETENSÕES REPARATÓRIAS JURISPRUDÊNCIA DO STJ
Inadimplemento contratual (atraso de voo ou na
entrega do imóvel).
Prazo decenal (CC, art. 205), REsp
1591223/PR)
Ação de repetição do indébito para cobrança de
água, esgoto e telefonia
Prazo decenal (CC, art. 205), Súmula 412
Ação de repetição do indébito referente a
disciplinas não ministradas por instituição de
Ensino Superior
Prazo trienal (CC, art. 206, § 3º, IV), REsp
1238737/SC
Ação de indenização por negativação indevida Prazo decenal (CC, art. 205), 4ª Turma, REsp
1276311/RS
Prazo trienal (CC, art. 206, § 3º, V), 3ª Turma,
Resp 1365844/RS
Ação de indenização do segurado contra a
seguradora
Prazo anual, art. 206, § 1º, do CC.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MP/SC - 2024) O prazo prescricional para o exercício da pretensão de repetição de
indébito de tarifas de água e esgoto, em patente relação de consumo, sujeita-se à
regulação do Código Civil e não do Código de Defesa do Consumidor. Correto!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 97
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA
1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
O art. 28 do CDC consagra a desconsideração da personalidade jurídica.
Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade
quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso
de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou
contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver
falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa
jurídica provocados por má administração.
§ 1° (Vetado).
§ 2° As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades
controladas, são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações
decorrentes deste código.
§ 3° As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas
obrigações decorrentes deste código.
§ 4° As sociedades coligadas só responderão por culpa.
§ 5° Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua
personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos
causados aos consumidores.
A fim de estimular a atividade empresarial, separam-se os patrimônios da pessoa física do
da pessoa jurídica, consagrando-se o princípio da autonomia patrimonial. Contudo, muitos
empresários valiam-se deste princípio, transferindo o patrimônio da pessoa jurídica para o seu
patrimônio pessoal.
Em razão disso, surge a teoria da desconsideração da personalidade jurídica, a qual afasta,
momentaneamente, a pessoa jurídica (nos casos definidos em lei) para que o patrimônio pessoal
seja atingido. Tal afastamento contudo, não é irrestrito nem abrange todo e qualquer sócio, como
salientado pelo STJ:
Para fins de aplicação da Teoria Menor da desconsideração da personalidade
jurídica, o § 5º do art. 28 do CDC não dá margem para admitir a
responsabilização pessoal de quem não integra o quadro societário da
empresa (administrador não sócio). STJ. 3ª Turma. REsp 1862557/DF, Rel.
Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 15/6/2021. STJ. 4ª Turma. REsp
1860333-DF, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 11/10/2022 (Info 754).
A desconsideração poderá ser encontrada:
a) No CC, TEORIA MAIOR
b) Na Lei do CADE, que é igual a prevista no caput do art. 28 do CDC (traz requisitos).
TEORIA MAIOR
c) Na Lei 9.605/98, Lei dos Crimes Ambientais, é igual ao §5º do CDC. TEORIA MENOR
2. HIPÓTESE DE DESCONSIDERAÇÃO
A personalidade jurídica poderá ser desconsidera quando houver:
• Abuso de direito;
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 98
• Excesso de poder;
• Infração da lei;
• Fato ou ato ilícito;
• Violação dos estatutos ou contrato social;
• Falência;
• Estado de insolvência;
• Encerramento ou inatividade da pessoa jurídica provocados por má
administração;
• Sempre que a personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento
de prejuízos causados aos consumidores.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MP/SC (2024) Ainda que não haja infração de lei ou abuso de direito, a
desconsideração da personalidade jurídica é medida que se impõe se a
pessoa jurídica for obstáculo ao ressarcimento de prejuízo causado a
consumidor. Correto!
DPE/SE (2022) São subsidiariamente responsáveis pelas obrigações
decorrentes do vício de produto ou serviço as sociedades controladas.
Correta!
3. TEORIAS SOBRE A DESCONSIDERAÇÃO
3.1. TEORIA MAIOR
Admite a desconsideração APENAS quando restar provado desvio de finalidade (teoria
maior subjetiva) ou confusão patrimonial (teoria maior objetiva) mais prejuízo ao credor (art. 50 do
CC).
Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo
desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento
da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo,
desconsiderá-la para que os efeitos de certas e determinadas relações de
obrigações sejam estendidos aos bens particulares de administradores ou de
sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente pelo
abuso. (Redação dada pela Lei nº 13.874, de 2019)
3.2. TEORIA MENOR
Basta que se prove o prejuízo ao credor (CDC e Lei 9.605/1998), NÃO precisa provar o
abuso da personalidade jurídica.
Salienta-se que, mesmo na Teoria Menor da desconsideração da personalidade jurídica, o
sócio não gestor, em regra, não será responsabilizado pessoalmente, salvo se ficar demonstrado
que ele contribuiu, ao menos culposamente, para a prática de atos de administração.
Para fins de aplicação da Teoria Menor da desconsideração da personalidade
jurídica (art. 28, § 5º, do CDC), basta que o consumidor demonstre o estado
de insolvência do fornecedor e o fato de a personalidade jurídica representar
um obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos causados. Vale ressaltar,
contudo, que, a despeito de não se exigir prova de abuso ou fraude para
aplicação da Teoria Menor da desconsideração da personalidade jurídica, em
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 99
regra, não é possível a responsabilização pessoal de sócio que não
desempenhe atos de gestão. Este sócio será, contudo, responsabilidade se
ficar provado que ele contribuiu, ao menos culposamente, para a prática de
atos de administração. STJ. 3ª Turma. REsp 1.900.843-DF, Rel. Min. Paulo
de Tarso Sanseverino, Rel. para acórdão Min. Ricardo Villas Bôas Cueva,
julgado em 23/5/2023 (Info 777).
4. DESCONSIDERAÇÃO DO CC X DESCONSIDERAÇÃO DO CDC
DESCONSIDERAÇÃO NO CC DESCONSIDERAÇÃO NO CDC
Depende de requerimento da parte ou do
Ministério Público
Pode ser aplicada de ofício pelo juiz, porquanto
prevista em norma de ordem pública
Adoção da Teoria Maior: exige-se, para além
da prova do prejuízo ao consumidor, a
demonstração de desvio de finalidade (teoria
maior subjetiva) ou confusão patrimonial (teoria
maior objetiva)
Adoção da Teoria Menor: basta a prova de
prejuízo ao consumidor, independentemente
de desvio de finalidade ou confusão patrimonial
Hipóteses autorizadoras: a) desvio de
finalidade b) confusão patrimonial, bem como
benefício direto ou indireto dos sóciosou
administradores.
Hipóteses autorizadoras: a) abuso de direito; b)
excesso de poder; c) infração da lei; d) fato ou
ato ilícito; e) violação dos estatutos ou contrato
social; f) falência, estado de insolvência,
encerramento ou inatividade da pessoa jurídica
provocados por má administração; ou g)
sempre que sua personalidade for, de alguma
forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos
causados aos consumidores
5. CPC E DESCONSIDERAÇÃO
O CPC passou a prever, expressamente, a desconsideração da personalidade jurídica
inversa (já era admitida pelo STJ), na qual se afasta o patrimônio do sócio para alcançar o
patrimônio da pessoa jurídica.
CPC, Art. 133. O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será
instaurado a pedido da parte ou do Ministério Público, quando lhe couber
intervir no processo.
§ 2o Aplica-se o disposto neste Capítulo à hipótese de desconsideração
inversa da personalidade jurídica.
Ademais, o CPC encampou a jurisprudência do STJ, afirmando que não há necessidade
processo autônomo para que seja desconsiderada a personalidade jurídica, podendo ocorrer em
qualquer fase processual.
CPC, Art. 134. O incidente de desconsideração é cabível em todas as fases
do processo de conhecimento, no cumprimento de sentença e na execução
fundada em título executivo extrajudicial.
Como o tema foi cobrado em concurso?
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 100
TJ/SC (2022) João ajuizou ação objetivando compensação por danos morais
em decorrência de problemas na prestação de serviço por fornecedora
pessoa jurídica, na qual se configurava evidente relação de consumo.
Transitada em julgado a sentença de procedência do pedido, na fase de
cumprimento de sentença, João requereu a desconsideração da
personalidade jurídica da executada sob o fundamento de obstáculo ao
ressarcimento de prejuízos causados ao consumidor. Diante disso, à luz do
Código de Defesa do Consumidor, na qualidade de julgador, é correto afirmar
que o requerimento deve ser deferido, se for verificado que a personalidade
da pessoa jurídica, de alguma forma, seja obstáculo ao ressarcimento de
prejuízos causados ao consumidor.
DPE/CE (2022) Daniel, com base em relação de consumo, propôs ação
contra uma loja de relógios, denominada “Relojoaria Hora Certa LTDA.”. Na
própria petição inicial, o consumidor requereu a desconsideração da
personalidade jurídica, buscando a responsabilização dos administradores,
sócios e de outra sociedade integrante do grupo societário, denominada
“Rolamentos TPR LTDA.”. Nessa situação, a responsabilidade da sociedade
“Rolamentos TPR LTDA.” será subsidiária à da empresa “Relojoaria Hora
Certa LTDA.”. Correta!
TJ/AP (2022) A consumidora Samantha propôs incidente de
desconsideração de personalidade jurídica em face de determinada loja de
bijuterias construída na forma de sociedade limitada. Narra a autora que, na
fase de cumprimento de sentença que condenou a empresa a pagar
indenização à consumidora, não logrou êxito em localizar bens para
satisfazer a execução, embora diversas tenham sido as tentativas para tanto.
Samantha alega ainda que, na fase cognitiva, a fornecedora foi declarada
revel e sequer compareceu às audiências designadas pelo Juízo. A respeito
disso, é correto afirmar que o pedido deve ser julgado procedente, à luz da
aplicação da teoria menor da desconsideração da personalidade jurídica,
prevista no Código de Defesa do Consumidor. Correta!
MPE/SC (2021) Nas relações de consumo, em que se adota a teoria menor,
a decretação da desconsideração da personalidade jurídica depende da
prova de falência, estado de insolvência e encerramento ou inatividade da
pessoa jurídica, aliados ao obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados
aos consumidores. Errado!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 101
PRÁTICAS COMERCIAIS
1. PUBLICIDADE
1.1. CONCEITO
É o anúncio vinculado, em qualquer meio de comunicação, com a finalidade de atrair o
consumidor para um ato de consumo.
Por exemplo, publicidade nas redes sociais.
1.2. DIFERENCIAÇÕES
Publicidade não se confunde com propaganda.
A propaganda visa promover uma ideologia, seja religiosa, seja política, não possui objetivo
comercial. Por exemplo, cita-se a propaganda eleitoral, propaganda do governo sobre aleitamento
materno.
No Brasil, o controle da publicidade é misto, tendo em vista que há um controle legal e um
controle privado (CONAR).
1.3. PRINCÍPIOS DA PROTEÇÃO PUBLICITÁRIA
1.3.1. Princípio da identificação da publicidade
Previsto no art. 36 do CDC.
Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil
e imediatamente, a identifique como tal.
O consumidor possui o direito, ao se deparar com uma publicidade, de saber que se trata
de uma publicidade. Ou seja, que foi pago para estar em determinado local.
MERCHANDISING - permitido desde que o anunciante se utilize dos créditos para informar
que será exibido uma publicidade de determinado produto.
PUBLICIDADE SUBLIMINAR - prática abusiva e fere o princípio da identificação da
publicidade.
1.3.2. Princípio da vinculação contratual da publicidade
Encontra-se previsto nos arts. 30 e 35 do CDC.
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada
por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e
serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular
ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.
Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à
oferta, apresentação ou publicidade, o consumidor poderá, alternativamente
e à sua livre escolha:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 102
I - exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta,
apresentação ou publicidade;
II - aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente;
III - rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente
antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e danos.
Uma vez feita a publicidade, preenchidos certos requisitos, há vinculação do fornecedor,
equivale à oferta.
Os requisitos são:
• Veiculação – anúncio do produto;
• Precisão suficiente – principais informações sobre o bem de consumo.
Como efeitos pode-se afirmar que a publicidade obriga o fornecedor, bem como irá integrar
o contrato.
Havendo recusa do fornecedor em cumprir a oferta veiculada na campanha publicitária, o
consumidor poderá exigir o cumprimento forçado da obrigação, por meio de tutela específica;
poderá aceitar outro produto e, por fim, poderá rescindir o contrato, sem prejuízo de eventuais
perdas e dados.
Em relação aos casos de erro de publicidade, a exemplo de preços irrisórios, chamados pela
doutrina de erro grosseiro.
Por exemplo, um produto que custa R$ 1.500,00 ser anunciado por R$ 50,00, não ocorrerá
a vinculação. Será analisado caso a caso. Aplica-se aqui a boa-fé objetiva, lealdade entre as partes.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/TO (2022) Considerando-se o disposto no Código de Defesa do
Consumidor (CDC) e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, caso o
fornecedor de um produto adquirido na Internet se recuse a cumprir a oferta
sob a alegação de que não possui mais o produto em estoque, o consumidor
poderá exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta à
qual aderiu, ainda que o fornecedor tenha que adquirir o produto junto a
outros revendedores existentes no mercado de consumo. Correta!
MPE/SC (2021) Em caso de recusa do fornecedor ao cumprimento da oferta
divulgada na imprensa, o consumidor terá o direito de compeli-lo a cumprir tal
oferta, até mesmo por meio de outro produto equivalente. Correta!
1.3.3. Princípio da transparência da fundamentação da publicidade
Previsto no parágrafo único do art. 36 do CDC.
Parágrafo único.O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços,
manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os
dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à mensagem.
O fornecedor deve demonstrar a veracidade do seu anúncio, fundamentando, sob pena de
responsabilidade administrativa, civil e penal.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 103
Por exemplo, empresa de sabão em pó que anuncia a eliminação de qualquer mancha pelo
produto em 5 min.
1.3.4. Princípio da inversão do ônus da prova
Previsto no art. 38 do CDC.
Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação publicitária cabe a quem as patrocina.
Caberá ao fornecedor provar que a publicidade não é abusiva ou enganosa, bem como que
o seu produto corresponde ao anúncio.
Trata-se de inversão legal do ônus da prova.
Além disso, para o STJ, em tese, o art. 38 do CDC não se aplica aos casos de concorrência
desleal.
A disposição do Código de Defesa do Consumidor acerca do ônus probatório
da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária, a
princípio, não se aplica em demanda envolvendo concorrência desleal. STJ.
3ª Turma. REsp 1.866.232-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado
em 21/3/2023 (Info 768).
2. PUBLICIDADE ENGANOSA
2.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
Está prevista no § 1º, do art. 37 do CDC.
§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de
caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo,
mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da
natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço
e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
Ocorre quando induz o consumidor a erro, mesmo que esta não seja a intenção do
fornecedor. Pode ocorrer de maneira comissiva ou omissiva (falta informação).
Salienta-se que enganosidade é aferida em abstrato, levando em consideração os critérios
objetivos (conteúdo) e o subjetivos (pessoas a quem se destina).
Por isso, o STJ considera lícito o uso de puffing nas propagandas. Isto é recurso que utiliza
o exagero publicitário como método de convencimento dos consumidores, a exemplo das
expressões “mais gostoso”; “o melhor sabor”; ‘o lugar mais aconchegante”; “o mais acolhedor”; “a
melhor comédia” etc.
Caso concreto: STJ considerou lícita a propaganda veiculada pela Heinz, que
afirmava: “Heinz, melhor em tudo o que faz”. A expressão utilizada
impugnada, utilizada pela empresa como claim, caracteriza-se como puffing,
ou seja, é recurso que utiliza o exagero publicitário como método de
convencimento dos consumidores. STJ. 4ª Turma. REsp 1759745-SP, Rel.
Min. Marco Buzzi, julgado em 28/2/2023 (Info 765).
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 104
2.2. RESPONSABILIDADE
A responsabilidade pela publicidade enganosa será objetiva, assim não importa se o agente
agiu com dolo ou culpa.
2.3. FORMAS DE PUBLICIDADE ENGANOSA
2.3.1. Comissiva
Pressupõe a prestação de uma informação por parte do fornecedor, apta a induzir o
consumir em erro.
2.3.2. Omissiva
O consumidor é induzido a erro pela omissão de uma informação essencial, a exemplo de
uma campanha publicitária para vender um serviço de pós-graduação, com a omissão de que ainda
não havia sido aprovado pelo CAPS.
§ 3° Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por omissão
quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço.
Neste sentido, vejamos o julgado a seguir:
Caso concreto: Regina prestou vestibular para ingresso em uma instituição
de ensino privada, no curso de Educação Física, que tinha duração
anunciada de 3 anos e meio. Ela foi aprovada e fez a sua matrícula.Quando
foi assinar o contrato, recebeu a informação de que o curso era de Educação
Física, de uma forma ampla, sem qualquer restrição, abrangendo a
qualificação para o exercício de todas as atividades inerentes a profissão, em
todos os estabelecimentos. A autora concluiu o curso em agosto de 2010 e
recebeu o certificado de LICENCIATURA em Educação Física. Ocorre que
foi aí que ela descobriu que o curso de licenciatura em educação física tinha
por objetivo a formação de professores de educação física para atuarem na
rede escolar formal, que compreende o ensino infantil, o ensino fundamental
e o ensino médio. Em outras palavras, ela não poderia atuar em academias,
por exemplo.
A autora afirmou que a instituição de ensino vendeu o curso com sendo de
Educação Física, sem nunca informar que seria apenas Licenciatura.
Diante disso, o STJ reconheceu seu direito de cursar o restante do
bacharelado de forma gratuita e de receber indenização por danos morais.
STJ. 3ª Turma.AgInt no REsp 1738996-RJ, Rel. Min. Paulo de Tarso
Sanseverino, julgado em 30/05/2022 (Info 746).
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/PE (2022) Determinada publicidade televisiva sobre um produto eletrônico
informava que os dados sobre preço e forma de pagamento pelo produto
poderiam ser obtidos por meio de contato telefônico, que se realizava de
modo tarifado. Instado a julgar o processo que descreveu na causa de pedir
tais fatos, e considerando o direito à informação como garantia fundamental
da pessoa humana e como algo que impacta na autodeterminação e
liberdade de escolha do consumidor, seguindo o entendimento do Superior
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 105
Tribunal de Justiça, é correto considerar que a situação narrada configura
publicidade enganosa por omissão, mesmo se a compra não tiver sido
concretizada;
TJ/MG (2022) A sociedade empresária Empreendimentos Lua Redonda Ltda.
está promovendo um loteamento. Ela inseriu na publicidade do
empreendimento várias fotografias e um texto, esclarecendo que os lotes
eram ofertados aos seguidores de determinada religião e morar em um deles
era condição suficiente para se livrar da condenação eterna após a morte.
Acrescentou que o dirigente religioso do grupo já havia adquirido cinco lotes,
o que era verdade. A publicidade é enganosa. Correta!
DPE/PR (2022) A publicidade é enganosa por omissão quando deixar de
informar sobre dado essencial do produto ou serviço. Correta!
MPE/SC(2021) Nas relações de consumo, admite-se a ocorrência de
publicidade enganosa por omissão, já que esta poderá induzir à contratação
por erro. Correta!
2.4. SUJEITOS RESPONSÁVEIS
Será tanto o fornecedor anunciante quanto o fornecedor que tirar proveito da publicidade
enganosa.
Por exemplo, montadora e a concessionária que tirar proveito da publicidade.
2.5. RESPONSABILIDADE DA AGÊNCIA E DO VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO
Em relação à agência que elaborou a publicidade e ao veículo que veiculou a publicidade,
há na doutrina três entendimentos, quais sejam:
1ªC: Serão objetivamente responsáveis, nos termos do art. 7º, parágrafo único do CDC,
tendo em vista que concorreram para o dano causado ao consumidor.
CDC, Art. 7º, Parágrafo único - Tendo mais de um autor a ofensa, todos
responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas
de consumo.
2ªC: serão subjetivamente responsáveis, nos termos do art. 186 e 942 do CC, pois
concorreram para o dano, seja através de dolo ou de culpa. Por não serem fornecedores, não se
poderia aplicar o art. 7º do CDC. Há precedente no STJ.
CC, Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou
imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente
moral, comete ato ilícito.
3ªC: Não haverá responsabilidade em nenhuma hipótese. Há precedente no STJ.
RECURSO ESPECIAL - PREQUESTIONAMENTO - INOCORRÊNCIA -
SÚMULA 282/STF- FALTA DE COMBATE AOS FUNDAMENTOS DO
ACÓRDÃO - APLICAÇÃO ANALÓGICA DA SÚMULA 182 – PRINCÍPIO DA
DIALETICIDADE RECURSAL - AÇÃO CIVIL PÚBLICA - CONSUMIDOR -
VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO - EVENTUAL PROPAGANDA OU
ANÚNCIO ENGANOSO OU ABUSIVO- AUSÊNCIA DE
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 106
RESPONSABILIDADE - CDC, ART. 38 - FUNDAMENTOS
CONSTITUCIONAIS. I - Falta prequestionamento quando o dispositivo legal
supostamente violado não foi discutido na formação do acórdão recorrido. II
- É inviável o recurso especial que não ataca os fundamentos do acórdão
recorrido. Inteligência da Súmula 182.III - As empresas de comunicação não
respondem por publicidade de propostas abusivas ou enganosas. Tal
responsabilidade toca aos fornecedores-anunciantes, que a patrocinaram
(CDC, Arts. 3º e 38). IV - O CDC, quando trata de publicidade, impõe deveres
ao anunciante - não às empresas de comunicação (Art. 3º, CDC).V -
Fundamentação apoiada em dispositivo ou princípio constitucional é imune a
recurso especial.
3. PUBLICIDADE ABUSIVA
3.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
O §2º do art. 37 do CDC consagra a publicidade abusiva, vejamos:
§ 2° É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer
natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se
aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita
valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar
de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.
Diz respeito aos valores do consumidor, ofende valores da sociedade. Por exemplos,
publicidade dirigida para crianças.
É um conceito jurídico indeterminado, considerando publicidade abusiva aquela que ofende
os valores da CF e do sistema jurídico.
3.2. HIPÓTESE DE PUBLICIDADE ABUSIVA NO CDC
O CDC prevê uma série de hipóteses exemplificativas, em seu art. 37, §2º, sobre quais
publicidades seriam abusivas, são elas:
• Publicidade discriminatória;
• Publicidade exploradora do medo ou superstição;
• Publicidade incitadora de violência;
• Publicidade antiambiental;
• Publicidade indutora de insegurança;
• Publicidade dirigida a crianças.
3.3. RESPONSABILIDADE
A responsabilidade pela publicidade abusiva é objetiva, prescinde da prova do dolo ou da
culpa do fornecedor anunciante.
3.4. SUJEITOS RESPONSÁVEIS
Serão responsáveis tanto o fornecedor anunciante como também o fornecedor que tira
proveito da publicidade, nos termos do at. 186 do CC.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 107
4. PRÁTICAS ABUSIVAS
O art. 39 do CDC, em um rol exemplificativo, consagra as práticas consideradas abusivas.
Não há no CDC o conceito de prática abusiva, mais uma vez trata-se de um conceito indeterminado.
Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras
práticas abusivas:
I - condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de
outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos;
II - recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida
de suas disponibilidades de estoque, e, ainda, de conformidade com os usos
e costumes;
III - enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer
produto, ou fornecer qualquer serviço;
IV - prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista
sua idade, saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus
produtos ou serviços;
V - exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva;
VI - executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização
expressa do consumidor, ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores
entre as partes;
VII - repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo
consumidor no exercício de seus direitos;
VIII - colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em
desacordo com as normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou,
se normas específicas não existirem, pela Associação Brasileira de Normas
Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional de
Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro);
IX - recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem
se disponha a adquiri-los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos
de intermediação regulados em leis especiais;
X - elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços.
XI - Dispositivo incluído pela MPV nº 1.890-67, de 22.10.1999, transformado
em inciso XIII, quando da conversão na Lei nº 9.870, de 23.11.1999
XII - deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar
a fixação de seu termo inicial a seu exclusivo critério.
XIII - aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente
estabelecido.
XIV - permitir o ingresso em estabelecimentos comerciais ou de serviços de
um número maior de consumidores que o fixado pela autoridade
administrativa como máximo. (Incluído pela Lei nº 13.425, de 2017)
Parágrafo único. Os serviços prestados e os produtos remetidos ou entregues
ao consumidor, na hipótese prevista no inciso III, equiparam-se às amostras
grátis, inexistindo obrigação de pagamento.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/SC (2021) A prática abusiva, para configurar-se como ilícita, depende
da verificação de efetivo dano ao destinatário final. Errada!
Consideram-se abusivas as práticas que afrontam a principiologia do CDC, especialmente
as que se distanciam da boa-fé e da confiança do consumidor. A seguir analisaremos cada um dos
incisos do art. 39, pontuando algumas informações.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/MPV/Antigas/1890-67.htm#art9
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9870.htm#art39xiii
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 108
I - Condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto
ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos
Trata-se da venda casada.
É o caso, por exemplo, do consumidor proibido de entrar na sala de cinema com uma latinha
de refrigerante adquirida fora da loja de conveniência do cinema, bem como de empréstimos
bancários.
Salienta-se que a limitação quantitativa também é prática abusiva. A tarifa básica mensal de
telefonia, na prática, é considerada uma limitação quantitativa, mas o STJ entende que se trata de
prática legal, nos termos da súmula 356, pois é uma condição para que o serviço seja mantido de
forma contínua.
Súmula nº 356: É legítima a cobrança de tarifa básica pelo uso dos serviços
de telefonia fixa.
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/PE (2022) Gustavo ajuizou ação buscando a nulidade de contrato de
seguro de vida que garantia a quitação do débito, firmado no ato da
contratação de consórcio de veículo automotor, bem como a devolução dos
valores pagos. Aduziu o consumidor que, no ato da contratação, pretendeu
celebrar o seguro com outra seguradora, sendo-lhe informado pelo
representante do consórcio que se tratava, o prêmio, do melhor preço do
mercado, e que a peculiaridade do sistema de consórcio não permitia
contratação do seguro de forma independente pelo consorciado. Em sua
defesa, a ré alegou que a adesão ao seguro prestamista se deu de forma
clara e compreensível pelo consumidor e se justificava essencial ao contrato,
de modo a garantir quitação do débito e não comprometimento do equilíbrio
financeiro do grupo consorcial. Diante da narrativa, o pedido de Gustavo deve
ser julgado procedente, posto que não foi dada a opção de o consumidor
realizar livre contratação com outra seguradora, configurando venda casada.
Correta!
DPE/CE (2022) Segundo as normas sobre práticas abusivas regulamentadas
pelo Código de Defesa do Consumidor, é lícito ao fornecedor de produtos
condicionar o fornecimento de produto, com justa causa, a limites
quantitativos. Correta!
II - Recusar atendimento às demandas dos consumidores, na exata medida de suas
disponibilidades de estoque, e, ainda, de conformidade com os usos e costumes
É o exemplo do taxista que se recusa a atender corrida para local perto. Outro exemplo, foi
o caso da seguradoraque se recusou a vender seguro de vida à pessoa curada de leucemia.
III - Enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer
qualquer serviço
Cita-se, como exemplo, o envio de revistas ou de cartão de crédito sem que o consumidor
tenha solicitado ou autorizado.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 109
Súmula 532 do STJ - Constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de
crédito sem prévia e expressa solicitação do consumidor, configurando-se ato
ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa administrativa.
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/MT (2022) Mário recebeu, sem prévia ou expressa solicitação, cartão de
crédito do banco do qual é correntista. Segundo entendimento sumulado do
Superior Tribunal de Justiça, o banco realizou prática comercial abusiva, ato
ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa administrativa. Correta!
IV - Prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade,
saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços
É o caso do cheque-caução, por exemplo.
V - Exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva
A relação contratual de consumo deve ser equilibrada, desproporções são causas abusivas.
VI - Executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa do
consumidor, ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as partes
Para a execução do serviço é necessário orçamento e, posteriormente, autorização do
consumidor.
O prévio orçamento deve discriminar os materiais, a mão-de-obra, o prazo de execução.
O orçamento é válido por 10 dias (art. 40,§1º, CDC).
Havendo a realização do serviço, sem o prévio orçamento e sem autorização, será
equivalente a amostra grátis.
VII - Repassar informação depreciativa, referente a ato praticado pelo consumidor no
exercício de seus direitos
Cita-se, como exemplo, o fornecedor que informa a outros fornecedores que determinado
consumidor fez reclamação ao Procon.
VIII - Colocar, no mercado de consumo, qualquer produto ou serviço em desacordo com as
normas expedidas pelos órgãos oficiais competentes ou, se normas específicas não existirem, pela
Associação Brasileira de Normas Técnicas ou outra entidade credenciada pelo Conselho Nacional
de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro)
É o exemplo da operação Carne Fraca.
IX - Recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, diretamente a quem se disponha
a adquiri-los mediante pronto pagamento, ressalvados os casos de intermediação regulados em
leis especiais
Não pode o fornecedor usar intermediadores, quando o pagamento for à vista.
X - Elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 110
Foi o caso dos comerciantes que aumentaram substancialmente o valor de máscaras para
o rosto, em razão dos acidentes ocorridos no Porto de Santos, o qual deixo o ar poluído.
Obs.: Doutrina majoritária defendia que a cobrança diferenciada, em
razão do meio de pagamento (cartão de crédito, por exemplo) é prática
abusiva, sendo o mesmo entendimento do STJ. Contudo, em 2017,
editou-se a Lei 13.455/2017, segundo a qual os fornecedores podem
fazer diferenciação de preço, em razão da forma de pagamento.
Ademais, prevê que qualquer cláusula que impeça a diferenciação
será considerada nula. Vejamos a sempre didática e excelente
explicação do Prof. Márcio Cavalcante (Dizer o Direito):
Os estabelecimentos comerciais (e outros fornecedores de bens ou serviços) podem cobrar
mais caro pelo produto caso o consumidor opte por pagar com cartão de crédito ou com cheque em
vez de pagar com dinheiro? Os fornecedores de bens e serviços podem dar descontos para quem
paga no dinheiro?
ANTES: NÃO podiam.
Isso era considerado prática abusiva.
A partir da MP 764/2016 (Lei
13.455/2017): SIM
A MP, convertida na Lei 13.455/2017,
passou a permitir esta prática.
A jurisprudência dizia que:
A diferenciação entre o pagamento em
dinheiro, cheque ou cartão de crédito
caracteriza prática abusiva no mercado
de consumo, nociva ao equilíbrio
contratual.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.479.039-MG, Rel.
Min. Humberto Martins, julgado em
6/10/2015.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.133.410/RS, Rel.
Min. Massami Uyeda, julgado em
16/03/2010.
Fundamento legal para essa conclusão do
STJ: art. 39, V e X, do CDC e no art. 36, §
3º, X e XI, da Lei nº 12.529/2011.
Veja o que diz a Lei nº 13.455/2017:
Art. 1º Fica autorizada a diferenciação
de preços de bens e serviços
oferecidos ao público em função do
prazo ou do instrumento de pagamento
utilizado.
Parágrafo único. É nula a cláusula
contratual, estabelecida no âmbito de
arranjos de pagamento ou de outros
acordos para prestação de serviço de
pagamento, que proíba ou restrinja a
diferenciação de preços facultada no
caput deste artigo.
Repare, portanto, que o caput do art. 1º da Lei nº 13.455/2017 permite expressamente a
diferenciação de preços de bens e serviços em função:
• Do prazo. Ex.: pagamentos à vista podem ser mais baratos que os realizados a
prazo; ou
• Do instrumento de pagamento utilizado. Ex.: é permitido que o lojista cobre
um preço mais caro se o consumidor optar por pagar em cheque ou cartão em
vez de dinheiro.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 111
E o art. 39, V e X, do CDC e o art. 36, § 3º, X e XI, da Lei nº 12.529/2011?
Como já dito no quadro acima, o fundamento legal para o STJ proibir a diferenciação de
preços era o art. 39, V e X, do CDC e o art. 36, § 3º, X e XI, da Lei nº 12.529/2011. Confira:
CDC Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras
práticas abusivas:
V - exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva;
X - elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços;
Lei nº 12.529/2011:
Art. 36 (...)
§ 3º As seguintes condutas, além de outras, na medida em que configurem
hipótese prevista no caput deste artigo e seus incisos, caracterizam infração
da ordem econômica:
(...)
X - discriminar adquirentes ou fornecedores de bens ou serviços por meio da
fixação diferenciada de preços, ou de condições operacionais de venda ou
prestação de serviços;
XI - recusar a venda de bens ou a prestação de serviços, dentro das
condições de pagamento normais aos usos e costumes comerciais;
Tais dispositivos foram derrogados pela Lei nº 13.455/2017 e agora a interpretação a ser
dada é a de que não mais é proibida a diferenciação de preços de bens e serviços oferecidos ao
público em função do prazo ou do instrumento de pagamento utilizado.
A Lei nº 10.962/2004 dispõe sobre a oferta e as formas de afixação de preços de produtos
e serviços para o consumidor.
A Lei nº 13.455/2017 acrescentou mais um artigo a essa determinando que, se o fornecedor
praticar descontos para pagamentos à vista, em dinheiro etc., ele é obrigado a fixar um aviso
informando isso em local e formato visíveis ao consumidor.
Confira o dispositivo inserido na Lei nº 10.962/2004:
Art. 5º-A. O fornecedor deve informar, em local e formato visíveis ao
consumidor, eventuais descontos oferecidos em função do prazo ou do
instrumento de pagamento utilizado.
Parágrafo único. Aplicam-se às infrações a este artigo as sanções previstas
na Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990.
XII - Deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação ou deixar a fixação de
seu termo inicial a seu exclusivo critério
Como o tema foi cobrado em concurso?
(DPE/AC - 2024) Considera-se prática abusiva contra o consumidor o ato do fornecedor
de deixar de estipular prazo para o cumprimento de sua obrigação. Correto!
XIII - Aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente estabelecido
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 112
Por exemplo, o consumidor compra um terreno, sendo o índicede correção atrelado ao
IGPM, quando o fornecedor aplica índice diverso incorre em prática abusiva.
XIV - Permitir o ingresso em estabelecimentos comerciais ou de serviços de um número
maior de consumidores que o fixado pela autoridade administrativa como máximo
Este inciso foi acrescido pela Lei 13.425/2017, que estabelece medidas de prevenção e
combate a incêndio e a desastres em estabelecimentos, edificações e áreas de reunião de público.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/SC (2019) Segundo dispõe o Código de Defesa do Consumidor, o
orçamento prévio entregue pelo fornecedor de serviço ao consumidor, terá
validade pelo prazo de 10 (dez) dias, contado de seu recebimento pelo
consumidor e, após aprovado por este último, gera obrigações apenas para
o primeiro. Errada!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 113
COBRANÇA DE DÍVIDAS
1. REPETIÇÃO DO INDÉBITO
1.1. PREVISÃO LEGAL
Está previsto no art. 42, parágrafo único do CDC, vejamos:
Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem direito à
repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em excesso,
acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de engano
justificável.
Com isso, todas as vezes que o consumidor for cobrado de maneira indevida, terá direito ao
recebimento em dobro do valor daquilo que pagou.
1.2. PRESSUPOSTOS
• Cobrança indevida de dívida de consumo
• Pagamento em excesso
• Culpa ou dolo do fornecedor
No CC para direito à repetição do indébito, exige-se prova de dolo, da má-fé do
credor. No CDC, basta a culpa.
Aqui, apenas o engano justificável irá afastar, trata-se de inversão do ônus da prova
ope legis.
1.3. JURISPRUDÊNCIA DO STJ E REPETIÇÃO DO INDÉBITO
Em relação à repetição indébito, há no STJ decisões conflitantes, vejamos:
• Cobrança indevida de tarifa de serviço público: basta a verificação da culpa (1ª
SEÇÃO, REsp 1084815/SP). Alinhada com a doutrina majoritária - a repetição é pelo
dobro
• Demais casos (que não sejam serviços públicos): exige-se prova da má-fé (2ª
SEÇÃO, REsp 1.032.952/SP) – repetição pelo dobro apenas se houver má-fé.
• Cobrança oriunda de cláusula posteriormente declarada nula: repetição simples (2ª
SEÇÃO, REsp 328338/MG).
• Controvérsia nos tribunais em relação ao objeto da cobrança: repetição simples (2ª
SEÇÃO, REsp 528186/RS)
• Má interpretação da legislação: repetição simples (1ª SEÇÃO, REsp 1155827/SP)
Entretanto, no julgamento do EAREsp nº 1.501.756-SC, o STJ firmou o entendimento de
que o consumidor tem direito à devolução em dobro dos valores cobrados indevidamente, mesmo
sem a comprovação de má-fé por parte do fornecedor. Esse direito aplica-se às cobranças
realizadas após a data de publicação do acórdão do EAREsp 300.663/RS, de 30 de março de 2021,
que fixou a seguinte tese:
“A repetição em dobro, prevista no parágrafo único do art. 42 do CDC, é
cabível quando a cobrança indevida consubstanciar conduta contrária à boa-
fé objetiva, ou seja, deve ocorrer independentemente da natureza do
elemento volitivo.”
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 114
A boa-fé objetiva refere-se ao comportamento ético e transparente nas relações, exigindo
atitudes corretas, independentemente de intenções pessoais. Diferente da boa-fé subjetiva, que
depende das intenções de cada parte, a boa-fé objetiva se foca no cumprimento de deveres de
lealdade e clareza, buscando equilibrar a relação de consumo e proteger expectativas legítimas,
como o direito à informação completa e precisa.
1.4. CC x CDC
Para melhor fixação da diferença entre a repetição do indébito no CDC e no CC, vejamos:
NO CDC (art. 42, parágrafo único) CC (art. 940)
Cobrança indevida de dívida de consumo Cobrança indevida da dívida Civil
Cobrança extrajudicial ou judicial Cobrança judicial
Exige efetivo pagamento da dívida Basta a cobrança da dívida
Exige a má-fé ou culpa do fornecedor Exige-se a má-fé do credor
A repetição do indébito é sempre pelo dobro do
valor que o consumidor pagou em excesso
Convém distinguir: para a cobrança de dívidas
já pagas, no todo ou em parte, a repetição é
pelo dobro do valor cobrado; já para a cobrança
de valor superior ao devido, a repetição é pelo
valor equivalente ao que foi cobrado em
excesso
Vejamos o julgado do STJ, em que se aplicou diálogo de fontes entre CC e CDC ao caso de
repetição de indébito em caso de relação de consumo:
Em caso de cobrança judicial indevida, é possível aplicar a sanção prevista
no art. 940 do Código Civil mesmo sendo uma relação de consumo.
O art. 940 do CC e o art. 42 do CDC incidem em hipóteses diferentes,
tutelando, cada um deles, uma situação específica envolvendo a cobrança de
dívidas pelos credores.
Mesmo diante de uma relação de consumo, se inexistentes os pressupostos
de aplicação do art. 42, parágrafo único, do CDC, deve ser aplicado o sistema
geral do Código Civil, no que couber.
O art. 940 do CC é norma complementar ao art. 42, parágrafo único, do CDC
e, no caso, sua aplicação está alinhada ao cumprimento do mandamento
constitucional de proteção do consumidor.
STJ. 3ª Turma. REsp 1645589-MS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva,
julgado em 04/02/2020 (Info 664).
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/MT (2022) Luzia, idosa, estava acostumada a pagar em média 100 reais
por mês em sua conta de luz. Contudo, no mês de maio de 2022,
surpreendeu-se com a cobrança de 500 reais em sua fatura. Em junho,
novamente a cobrança foi de aproximadamente 500 reais. A usuária realizou
o pagamento das faturas, mesmo com dificuldades financeiras e acreditando
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 115
que o valor não estava correto. Ao procurar a Defensoria Pública, relatou o
ocorrido e informou que não havia mudado seu padrão de consumo, pois
continua morando sozinha e usando os mesmos eletrodomésticos. Por meio
da prerrogativa de requisição, a empresa fornecedora de energia foi instada
a revisar os valores e a prestar esclarecimentos, mas se manteve silente.
Diante do caso, a ação judicial promovida pela Defensoria Pública poderá
requerer a repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em
excesso, acrescido de correção monetária e juros legais.
TJ/SC (2022) Tobias contratou os serviços de construção civil da empresa
cujo sócio-administrador é Natanael. Os serviços foram entregues da forma
e modo estabelecidos em contrato. Natanael, que conhecia Tobias do clube
que ambos frequentavam, durante uma atividade esportiva e diante de outros
participantes, cobrou-lhe o pagamento de suposta parcela ajustada que
permanecia em aberto. Tobias, então, procedeu com o pagamento que,
posteriormente, foi identificado como indevido. Sobre a cobrança de dívidas,
à luz do Código de Defesa do Consumidor e do entendimento do Superior
Tribunal de Justiça, é correto afirmar que Tobias pode alegar em juízo que a
cobrança de Natanael, em lugar público, causou-lhe constrangimento,
violando a norma consumerista. Correta!
MPE/SC (2021) O direito à repetição do indébito possui critérios objetivos, e,
como norma protetiva ao consumidor, o engano do credor não afasta a
aplicação da pena. Correta!
MP/DFT (2021) Não se aplica o prazo prescricional do art. 27 do Código de
Proteção e Defesa do Consumidor às ações de repetição de indébito por
descontos indevidos decorrentes de defeito na prestação de serviços
bancários. Errada!
2. ARQUIVO DE CONSUMO
7.14. 2.1. CONCEITO
Correspondem à atividade de armazenar informações acerca dos consumidores, seja para
estabelecer um perfil ou para embasar a decisão do fornecedor ao conceder um crédito.
7.15. 2.2. ESPÉCIES
Há duas espécies de arquivos de consumo, observe o quadro abaixo:
FONTE DA INFORMAÇÃO DESTINO DA INFORMAÇÃO
CADASTRO Consumidor Fornecedor específico
BANCO DE DADOS FornecedorMercado de consumo
2.3. NATUREZA JURÍDICA
Os bancos de dados e cadastros relativos a consumidores, os serviços de proteção ao
crédito e congêneres são considerados entidades de caráter público (art. 43, §3º, CDC). Esta
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 116
característica é relevante pois permitirá o manejo de habeas data para acessar ou retificar a
informação constante no banco de dados.
3. BANCO DE DADOS DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO
Como visto acima, denominam-se bancos de dados pois as informações são alimentadas
pelo fornecedor, destinando-se ao mercado de consumo.
3.1. AÇÕES
Os bancos de dados realizam as seguintes ações:
• Coleta de dados
• Armazenamento de dados
• Circulação das informações
3.2. FINALIDADE
Os bancos de proteção ao crédito visam a proteção do crédito, a fim de que sua concessão
seja feita da forma mais segura possível.
3.3. NEGATIVAÇÃO
É uma informação que traz um juízo negativo acerca do consumidor, informando aos
fornecedores que aquele consumidor não efetuou o pagamento de determinada dívida.
3.4. QUALIDADE DAS INFORMAÇÕES
Nos termos do art. 43, §1º do CDC, devem respeitar determinadas qualidades.
§ 1° Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos, claros,
verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não podendo conter
informações negativas referentes a período superior a cinco anos.
São elas:
• Objetividade: “consumidor está em mora, pois não pagou seu débito”
• Clareza: perceptível para qualquer consumidor;
• Verdadeira: deve espelhar a realidade;
• Linguagem de fácil compreensão.
3.5. RESPONSABILIDADE POR INFORMAÇÃO INVERÍDICA
Doutrina consumerista entende que a responsabilidade deveria ser tanto do fornecedor
quanto do banco de dados. Contudo, o STJ firmou entendimento no sentido de que a
responsabilidade será apenas do fornecedor.
Não é dever do órgão de proteção ao crédito averiguar que as informações passadas pelos
fornecedores são verdadeiras.
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/DF (2019) Situação hipotética: A emissora de televisão X veiculou ao
público informações inverídicas a respeito da audiência da emissora de
televisão Y, sua concorrente, com base em dados adulterados de sociedade
empresária oficial de pesquisa de opinião. Em razão disso, a emissora Y deu
entrada em processo litigioso contra a emissora X. Assertiva: Segundo
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 117
entendimento do STJ, é possível a aplicação da legislação consumerista no
referido processo litigioso, para proteger o público de práticas abusivas e
desleais do fornecedor de serviços. Correta!
4. DIREITOS DOS CONSUMIDORES PERANTE OS ARQUIVOS DE CONSUMO
4.2. DIREITO À COMUNICAÇÃO POR ESCRITO DO ASSENTO (ART. 43, §2º)
§ 2° A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de consumo
deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não solicitada por
ele.
O consumidor deve ser comunicado sobre a tendência de o seu nome ser negativado. Trata-
se de uma comunicação prévia, a fim de que seja possível prevenir eventual dano.
A comunicação deve ser feita por escrito, não se admite que seja feita por e-mail ou SMS.
A notificação prévia à inscrição do consumidor em cadastro de inadimplentes,
prevista no §2º, do art. 43, do CDC, não pode ser realizada, exclusivamente,
por e-mail ou por mensagem de texto de celular (SMS). Na sociedade
brasileira contemporânea, fruto de um desenvolvimento permeado,
historicamente, por profundas desigualdades econômicas e sociais, não se
pode ignorar que o consumidor, parte vulnerável da relação, em muitas
hipóteses, não possui endereço eletrônico (e-mail) ou, quando o possui, não
tem acesso facilitado a computadores, celulares ou outros dispositivos que
permitam acessá-lo constantemente e sem maiores dificuldades,
ressaltando-se a sua vulnerabilidade técnica, informacional e
socioeconômica. A notificação do consumidor acerca da inscrição de seu
nome em cadastro restritivo de crédito exige o prévio envio de
correspondência ao seu endereço, sendo vedada a notificação exclusiva por
meio de e-mail ou mensagem de texto de celular (SMS). STJ. 3ª Turma. REsp
2.056.285-RS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 25/4/2023 (Info 773).
Todavia, a 4ª Turma do STJ, divergindo do entendimento da 3ª Turma, admite a
possibilidade de comunicação via e-mail.
É válida a comunicação remetida por e-mail para fins de notificação do
consumidor acerca da inscrição de seu nome em cadastro de inadimplentes,
desde que comprovado o envio e entrega da comunicação ao servidor de
destino. STJ. 4ª Turma. REsp 2.063.145-RS, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti,
julgado em 14/3/2024 (Info 808).
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MP/SC - 2024) A prévia comunicação ao consumidor da inscrição do seu nome em
cadastros de proteção ao crédito, prevista no Art. 43, §2º do CDC pode ser feita tanto por
meio físico quanto por meio eletrônico. Errado!
A responsabilidade pela comunicação é apenas do mantenedor do serviço de proteção ao
crédito, não é responsabilidade do fornecedor.
Por fim, se a informação de mora sobre o consumidor foi coletada a partir de um órgão
público, não há necessidade da comunicação prévia do consumidor.
A seguir algumas súmulas e jurisprudencia pertinentes sobre o assunto:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 118
Súmula 359, STJ: Cabe ao órgão mantenedor do cadastro de proteção ao
crédito a notificação do devedor antes de proceder à inscrição.
Súmula 404, STJ: É dispensável o Aviso de Recebimento (AR) na carta de
comunicação ao consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos
de dados e cadastros.
Súmula 550-STJ: A utilização de escore de crédito, método estatístico de
avaliação de risco que não constitui banco de dados, dispensa o
consentimento do consumidor, que terá o direito de solicitar esclarecimentos
sobre as informações pessoais valoradas e as fontes dos dados considerados
no respectivo cálculo.
Súmula 572, STJ: O Banco do Brasil, na condição de gestor do Cadastro de
Emitentes de Cheques sem Fundos (CCF), não tem a responsabilidade de
notificar previamente o devedor acerca da sua inscrição no aludido cadastro,
tampouco legitimidade passiva para as ações de reparação de danos
fundadas na ausência de prévia comunicação. Exceção à regra de
comunicação pelo mantenedor do banco de dados.
A inscrição e manutenção do nome do devedor em cadastros de
inadimplentes está adstrita ao prazo de cinco anos contados do primeiro dia
seguinte à data de vencimento da dívida, que deverá estar inserida no banco
de dados da administradora do cadastro. STJ. 4ª Turma. REsp 2.095.414-
SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 11/6/2024 (Info 817).
É desnecessário o consentimento prévio e expresso do consumidor para a
disponibilização de informações em relatório de consulta com a finalidade de
proteção ao crédito. STJ. 4ª Turma. AgInt no REsp 2.122.804-SP, Rel. Min.
Raul Araújo, julgado em 12/8/2024 (Info 823).
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/CE (2022) De acordo com o posicionamento sumular do Superior
Tribunal de Justiça a respeito de banco de dados e cadastros de
consumidores, é prescindível o aviso de recebimento (AR) na
correspondência de comunicação ao consumidor acerca da negativação de
seu nome em bancos de dados e cadastros.
4.3. DIREITO DE ACESSO À INFORMAÇÃO (ART. 43, CAPUT)
Art. 43. O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às
informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de
consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas fontes.
O consumidor possui o direito de ter acesso às informações sobre si, de forma gratuita
(aplica-se a lei do habeas data e a lei do cadastro positivo).
O acesso deve ser disponibilizado imediatamente. Diante da negativa, cabe habeas data,
podendo, ainda, gerar responsabilidade.da fundamentação da publicidade ............................. 102
1.3.4. Princípio da inversão do ônus da prova ................................................................ 103
2. PUBLICIDADE ENGANOSA ............................................................................................. 103
2.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 103
2.2. RESPONSABILIDADE .................................................................................................... 104
2.3. FORMAS DE PUBLICIDADE ENGANOSA .................................................................. 104
2.3.1. Comissiva ............................................................................................................... 104
2.3.2. Omissiva ................................................................................................................. 104
2.4. SUJEITOS RESPONSÁVEIS ........................................................................................ 105
2.5. RESPONSABILIDADE DA AGÊNCIA E DO VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO ............ 105
3. PUBLICIDADE ABUSIVA .................................................................................................. 106
3.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ................................................................... 106
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 7
3.2. HIPÓTESE DE PUBLICIDADE ABUSIVA NO CDC ..................................................... 106
3.3. RESPONSABILIDADE .................................................................................................. 106
3.4. SUJEITOS RESPONSÁVEIS ........................................................................................ 106
4. PRÁTICAS ABUSIVAS ..................................................................................................... 107
COBRANÇA DE DÍVIDAS ............................................................................................................... 113
1. REPETIÇÃO DO INDÉBITO ............................................................................................. 113
1.1. PREVISÃO LEGAL ........................................................................................................ 113
1.2. PRESSUPOSTOS ......................................................................................................... 113
1.3. JURISPRUDÊNCIA DO STJ E REPETIÇÃO DO INDÉBITO ....................................... 113
1.4. CC x CDC ...................................................................................................................... 114
2. ARQUIVO DE CONSUMO ................................................................................................ 115
7.14. 2.1. CONCEITO ............................................................................................................. 115
7.15. 2.2. ESPÉCIES .............................................................................................................. 115
2.3. NATUREZA JURÍDICA .................................................................................................. 115
3. BANCO DE DADOS DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO ...................................................... 116
3.1. AÇÕES ............................................................................................................................ 116
3.2. FINALIDADE ................................................................................................................... 116
3.3. NEGATIVAÇÃO ............................................................................................................... 116
3.4. QUALIDADE DAS INFORMAÇÕES ............................................................................. 116
3.5. RESPONSABILIDADE POR INFORMAÇÃO INVERÍDICA ......................................... 116
4. DIREITOS DOS CONSUMIDORES PERANTE OS ARQUIVOS DE CONSUMO .......... 117
4.2. DIREITO À COMUNICAÇÃO POR ESCRITO DO ASSENTO (ART. 43, §2º) .............. 117
4.3. DIREITO DE ACESSO À INFORMAÇÃO (ART. 43, CAPUT) ....................................... 118
4.4. DIREITO À CORREÇÃO DA INFORMAÇÃO (ART. 43, § 3º) ....................................... 119
5. RESPONSABILIDADE PELO CANCELAMENTO DA INSCRIÇÃO ................................ 119
5.1. RESPONSÁVEL ............................................................................................................ 119
5.2. PRAZO ........................................................................................................................... 119
6. RESPONSABILIDADE PELO ARQUIVAMENTO INDEVIDO .......................................... 119
7. LIMITES TEMPORAIS DOS REGISTROS NEGATIVOS ................................................ 120
PROTEÇÃO CONTRATUAL ........................................................................................................... 121
1. PRINCÍPIOS NORTEADORES DA PROTEÇÃO CONTRATUAL ................................... 121
1.1. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA .............................................................................. 121
1.2. PRINCÍPIO DA INTERPRETAÇÃO FAVORÁVEL ....................................................... 121
1.3. PRINCÍPIO DA VINCULAÇÃO DO FORNECEDOR .................................................... 121
1.4. PRINCÍPIO DA PRESERVAÇÃO DOS CONTRATOS................................................. 121
2. DIREITO DE ARREPENDIMENTO .................................................................................. 122
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 8
3. TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL .............................................................. 122
4. CLÁUSULAS ABUSIVAS .................................................................................................. 124
4.1. DEFINIÇÃO ................................................................................................................... 124
4.2. AFERIÇÃO OBJETIVA .................................................................................................. 125
4.3. NULIDADE DE PLENO DIREITO ................................................................................. 125
4.4. RECONHECIMENTO DE OFÍCIO ................................................................................ 125
4.5. IMPRESCRITIBILIDADE ............................................................................................... 125
4.6. INTEGRAÇÃO DE CONTRATO ................................................................................... 126
4.7. ESPÉCIES DE CLÁUSULAS ABUSIVAS ..................................................................... 126
5. CRÉDITOS E FINANCIAMENTOS AO CONSUMIDOR .................................................. 130
5.1. SUPERENDIVIDAMENTO ............................................................................................ 130
5.2. MULTA MORATÓRIA .................................................................................................... 131
5.3. LIQUIDAÇÃO ANTECIPADA DO DÉBITO ................................................................... 131
6. CONTRATO DE COMPRA E VENDA À PRESTAÇÃO E ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM
GARANTIA ................................................................................................................................... 132
7. CONTRATO DE ADESÃO ................................................................................................ 132
7.1. CARACTERÍSTICAS ..................................................................................................... 133
7.2. CLÁUSULA RESOLUTÓRIA ......................................................................................... 133
7.3. FORMA .......................................................................................................................... 133
7.4. CLÁUSULAS RESTRITIVAS DE DIREITOS DO CONSUMIDOR ............................... 133
PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO SUPERENDIVIDAMENTOCS DE CONSUMIDOR – 2024.2 119
Por fim, destaca que as pessoas portadoras de necessidades especiais também devem ter
acesso às informações.
4.4. DIREITO À CORREÇÃO DA INFORMAÇÃO (ART. 43, § 3º)
Art. 43, § 3° O consumidor, sempre que encontrar inexatidão nos seus dados
e cadastros, poderá exigir sua imediata correção, devendo o arquivista, no
prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração aos eventuais destinatários
das informações incorretas.
O consumidor possui o direito à correção de informações incorretas a seu respeito. O prazo
para a correção é imediato (quando comprovado o pagamento) ou de 7 dias (quando for necessário
averiguar a informação), nos termos da Lei de Cadastro Positivo (lei n. 12.414/2011). Além disso, o
banco de dados possui cinco dias para transmitir nova informação aos demais destinatários.
Havendo negativa de correção, caberá habeas data. Além disso, a correção também é
gratuita.
5. RESPONSABILIDADE PELO CANCELAMENTO DA INSCRIÇÃO
5.1. RESPONSÁVEL
Após o pagamento da dívida, a responsabilidade pelo cancelamento da negativação é do
fornecedor-credor, que deve informar ao banco de dados.
Obs.: não se confunde com o cancelamento do protesto, em que a
responsabilidade é do próprio consumidor.
5.2. PRAZO
O prazo é de cinco dias, usando o art. 43, §3º do CDC por analogia.
Súmula 548, STJ: Incumbe ao credor a exclusão do registro da dívida em
nome do devedor no cadastro de inadimplentes no prazo de cinco dias úteis,
a partir do integral e efetivo pagamento do débito.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(DPE/ES - 2023) De acordo com entendimento sumulado do STJ, o
cancelamento da anotação do cadastro caberá ao credor, no prazo de cinco
dias úteis, a partir do integral e efetivo pagamento do débito. Correto!
6. RESPONSABILIDADE PELO ARQUIVAMENTO INDEVIDO
A expressão “arquivamento indevido” é gênero que abrange as seguintes espécies:
• Arquivamento sem a comunicação prévia, responsabilidade será do órgão
mantenedor
• Arquivamento de informação inverídica, responsabilidade será do fornecedor-credor
• Não cancelamento da negativação após a quitação do débito, a responsabilidade
será do fornecedor-credor
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 120
Aqui, a responsabilidade será SEMPRE objetiva, independentemente de quem for o
responsável.
Súmula 385, STJ: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito,
não cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição,
ressalvado o direito ao cancelamento.
Como regra, o dano moral pelo arquivamento indevido é in re ipsa, salvo se houver
negativação ilegítima, em que terá apenas o direito à correção.
7. LIMITES TEMPORAIS DOS REGISTROS NEGATIVOS
O CDC prevê dois limites temporais:
• Prazo máximo de cinco anos para a manutenção de qualquer informação negativa
do consumidor nos arquivos de consumo (CDC, art. 43, § 1). A contagem inicia a
partir da inadimplência;
Art. 43, § 1° Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos,
claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não podendo
conter informações negativas referentes a período superior a cinco anos.
• Proibição de divulgação de quaisquer informações negativas após a consumação da
prescrição da ação de cobrança (CDC, art. 43, § 5°).
Art. 43, § 5° Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do
consumidor, não serão fornecidas, pelos respectivos Sistemas de Proteção
ao Crédito, quaisquer informações que possam impedir ou dificultar novo
acesso ao crédito junto aos fornecedores.
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/PI (2022) A inscrição no cadastro de inadimplentes pode ser mantida
pelo tempo em que perdurar a dívida. Errada!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 121
PROTEÇÃO CONTRATUAL
1. PRINCÍPIOS NORTEADORES DA PROTEÇÃO CONTRATUAL
1.1. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA
Previsto no art. 46 do CDC, possui como desdobramento o prévio conhecimento do conteúdo
do contrato pelo consumidor, bem como que o contrato tenha redação clara e objetiva.
CDC, Art. 46. Os contratos que regulam as relações de consumo não
obrigarão os consumidores, se não lhes for dada a oportunidade de tomar
conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos instrumentos
forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance.
Nas relações de consumo o fornecedor deve ser transparente na fase pré-contratual,
contratual e pós-contratual agindo com a máxima transparência possível, tanto em relação ao
produto como também em relação ao conteúdo do contrato.
A inobservância gera a não vinculação do consumidor ao contrato.
1.2. PRINCÍPIO DA INTERPRETAÇÃO FAVORÁVEL
Previsto no art. 47 do CDC, determina que havendo dúvida sobre determinada cláusula do
contrato, deve-se interpretar da maneira mais favorável ao consumidor.
CDC, Art. 47. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais
favorável ao consumidor.
1.3. PRINCÍPIO DA VINCULAÇÃO DO FORNECEDOR
Está previsto nos arts. 30 e 48 do CDC.
O fornecedor fica vinculado à oferta.
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada
por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e
serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular
ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.
Art. 48. As declarações de vontade constantes de escritos particulares,
recibos e pré-contratos relativos às relações de consumo vinculam o
fornecedor, ensejando inclusive execução específica, nos termos do art. 84 e
parágrafos.
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/PE (2022) As declarações de vontade, mesmo quando constantes de
escritos particulares, vinculam o fornecedor. Correta!
1.4. PRINCÍPIO DA PRESERVAÇÃO DOS CONTRATOS
Encontra-se no art. 51, §2º do CDC.
Uma cláusula contratual nula não invalida as demais, salvo se sua ausência comprometa o
restabelecimento do equilíbrio da relação contratual.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 122
Art. 51, § 2° A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o
contrato, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração,
decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.
2. DIREITO DE ARREPENDIMENTO
Também chamado de prazo de reflexão, está previsto no art. 49 do CDC.
Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar
de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre
que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do
estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio.
Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento
previsto neste artigo, os valores eventualmente pagos, a qualquer título,
durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato, monetariamente
atualizados.
O prazo do direito de arrependimento é de 7 dias, contado da assinatura do contrato ou do
recebimento do produto ou do serviço.
ATENÇÃO! Apenas para compras fora do estabelecimento comercial, a exemplo da compra
feita por telefone, pela internet, por revistinhas (Natura, Avon).
OBS.: trata-se de direito potestativo do consumidor, pode exercer sem
necessidade de justificar.
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/PA (2019) Manoel adquiriu um produto esportivo, por meio do comércio
eletrônico, de fornecedor especializado em artigos esportivos. Dentro do
prazo estipulado pelo fornecedor, o produto foi entregue a Manoel. Dois dias
após o recebimento do produto, Manoel contatou o fornecedor por meio de
aplicativo de mensagens de celular para desfazer o negócio. Manoel tem
direito potestativo de desistir do contrato, o que coloca o fornecedor em
estado de sujeição. Correta!
3. TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL
Como regra, o não cumprimento da obrigação autoriza queo credor resolva o negócio, nos
termos do art. 475 do CC.
Art. 475. A parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do
contrato, se não preferir exigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos
casos, indenização por perdas e danos.
Porém, há casos em que a resolução do contrato não é proporcional, a exemplo do
consumidor que tem sua cobertura do plano de saúde negada e depois cancelada por não ter
pagado duas parcelas, depois de pagar pontualmente por 10 anos.
Os arts. 187 e 422 do CC, bem como o art. 4º, III do CDC servem de fundamento para a
Teoria do Adimplemento Substancial.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 123
OBS.: A 2ª Seção do STJ, em decisão de 22 de fevereiro de 2017,
afastou a incidência da Teoria do Adimplemento Substancial nos
contratos de leasing, prevalecendo o Decreto-Lei 911/1969 (REsp
1.622.555)
INFORMATIVO 599 - REsp. 1.622.555 - A controvérsia posta no recurso
especial reside em saber se a ação de busca e apreensão, motivada pelo
inadimplemento de contrato de financiamento de automóvel, garantido por
alienação fiduciária, deve ser extinta, por falta de interesse de agir, em razão
da aplicação da teoria do adimplemento substancial. Inicialmente, releva
acentuar que a teoria, sem previsão legal específica, desenvolvida como
corolário dos princípios da boa-fé contratual e da função social dos contratos,
preceitua a impossibilidade de o credor extinguir o contrato estabelecido entre
as partes, em virtude de inadimplemento, do outro contratante/devedor, de
parcela ínfima, em cotejo com a totalidade das obrigações assumidas e
substancialmente quitadas. Para o desate da questão, afigura-se de suma
relevância delimitar o tratamento legislativo conferido aos negócios fiduciários
em geral, do que ressai evidenciado, que o Código Civil se limitou a tratar da
propriedade fiduciária de bens móveis infungíveis (arts. 1.361 a 1.368-A), não
se aplicando às demais espécies de propriedade fiduciária ou de titularidade
fiduciária disciplinadas em lei especial, como é o caso da alienação fiduciária
dada em garantia, regida pelo Decreto-Lei 911/1969, salvo se o regramento
especial apresentar alguma lacuna e a solução ofertada pela "lei geral" não
se contrapuser às especificidades do instituto regulado pela mencionada lei.
No ponto, releva assinalar que o Decreto-lei 911/1969, já em sua redação
original, previa a possibilidade de o credor fiduciário, desde que comprovada
a mora ou o inadimplemento – sendo, para esse fim, irrelevante qualquer
consideração acerca da medida do inadimplemento – valer-se da medida
judicial de busca e apreensão do bem alienado fiduciariamente, a ser
concedida liminarmente. Além de o Decreto-Lei não tecer qualquer restrição
à utilização da ação de busca e apreensão em razão da extensão da mora
ou da proporção do inadimplemento, preconizou, expressamente, que a
restituição do bem livre de ônus ao devedor fiduciante é condicionada ao
pagamento da “integralidade da dívida pendente, segundo os valores
apresentados pelo credor fiduciário na inicial”. Por oportuno, é de se destacar
que, por ocasião do julgamento do REsp n. 1.418.593-MS, sob o rito dos
repetitivos, em que se discutia a possibilidade de o devedor purgar a mora,
diante da entrada em vigor da Lei n. 10.931/2004, que modificou a redação
do art. 3º, § 2º, do Decreto-Lei, a Segunda Seção do STJ bem especificou o
que consistiria a expressão “dívida pendente”, assim compreendida como as
parcelas vencidas e não pagas, as parcelas vincendas e os encargos,
segundo os valores apresentados pelo credor fiduciário na inicial, cujo
pagamento integral viabiliza a restituição do bem ao devedor, livre de
ônus. Afigura-se, pois, de todo incongruente inviabilizar a utilização da ação
de busca e apreensão na hipótese em que o inadimplemento revela-se
incontroverso e quando a lei especial de regência expressamente condiciona
a possibilidade de o bem ficar com o devedor fiduciário somente nos casos
de pagamento da integralidade da dívida pendente.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 124
4. CLÁUSULAS ABUSIVAS
4.1. DEFINIÇÃO
O CDC, em seu art. 51, disciplina as cláusulas abusivas.
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor
por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem
renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de consumo entre o
fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada,
em situações justificáveis;
II - subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos
casos previstos neste código;
III - transfiram responsabilidades a terceiros;
IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem
o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a
boa-fé ou a equidade;
V - (Vetado);
VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor;
VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem;
VIII - imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico
pelo consumidor;
IX - deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora
obrigando o consumidor;
X - permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de
maneira unilateral;
XI - autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que
igual direito seja conferido ao consumidor;
XII - obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua
obrigação, sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor;
XIII - autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a
qualidade do contrato, após sua celebração;
XIV - infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais;
XV - estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor;
XVI - possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias
necessárias.
XVII - condicionem ou limitem de qualquer forma o acesso aos órgãos do
Poder Judiciário; (Incluído pela Lei nº 14.181, de 2021)
XVIII - estabeleçam prazos de carência em caso de impontualidade das
prestações mensais ou impeçam o restabelecimento integral dos direitos do
consumidor e de seus meios de pagamento a partir da purgação da mora ou
do acordo com os credores; (Incluído pela Lei nº 14.181, de 2021)
XIX - (VETADO). (Incluído pela Lei nº 14.181, de 2021)
§ 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:
I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do
contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se
a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras
circunstâncias peculiares ao caso.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14181.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14181.htm#art1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2021/Lei/L14181.htm#art1
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 125
§ 2° A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato,
exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer
ônus excessivo a qualquer das partes.
§ 3° (Vetado).
§ 4° É facultado a qualquer consumidor ou entidade que o represente
requerer ao Ministério Público que ajuíze a competente ação para ser
declarada a nulidade de cláusula contratual que contrarie o disposto neste
código ou de qualquer forma não assegure o justo equilíbrio entre direitos e
obrigações das partes.
Novamente, temos uma cláusula geral, assim toda e qualquer cláusula do contrato que
estiver em desconformidade com o sistema constitucional e consumeristaserá considerada
abusiva.
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/MS (2020) Qualquer consumidor pode, individualmente, requerer ao
Ministério Público que ajuíze a competente ação para ser declarada a
nulidade de cláusula contratual que não assegure o justo equilíbrio entre
direitos e obrigações das partes. Correta!
4.2. AFERIÇÃO OBJETIVA
Não se perquire a culpa ou dolo do fornecedor.
4.3. NULIDADE DE PLENO DIREITO
As cláusulas abusivas são inválidas desde o nascimento, não produzindo efeitos. Assim, a
sentença que reconhece a abusividade de determinada cláusula contratual possui efeitos ex tunc.
4.4. RECONHECIMENTO DE OFÍCIO
Para doutrina amplamente majoritária, o juiz está autorizado a reconhecer de ofício as
cláusulas abusivas, em razão da nulidade ser de pleno direito, bem como se tratar de uma norma
de ordem pública.
Contudo, o STJ entende que o juiz não pode reconhecer de ofício nulidade de cláusulas,
nos termos da Súmula 381.
Súmula 381 Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de
ofício, da abusividade das cláusulas.
Obs.: Segundo o professor, embora a súmula se refira apenas a
contratos bancários, por questão de equidade, com base no
entendimento atual do STJ, é aplicada a toda e qualquer relação
contratual.
4.5. IMPRESCRITIBILIDADE
Por ser uma nulidade de pleno direito, não há prescrição.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 126
4.6. INTEGRAÇÃO DE CONTRATO
Em razão do princípio da prevenção dos contratos, quando o juiz declara a nulidade de uma
cláusula abusiva, deve fazer a integração do contrato com base na lei, na jurisprudência ou, ainda,
nos usos e costumes.
Por exemplo, a cláusula que impõe multa moratória de 5% é claramente abusiva. Ao declarar
a nulidade, o juiz poderá se valer do próprio CDC, fixando o valor de 2%, promovendo assim a
integração do contrato.
4.7. ESPÉCIES DE CLÁUSULAS ABUSIVAS
Previstas no art. 51 do CDC, em um rol exemplificativo. Portanto, admitem-se outras.
I - Impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor por vícios de
qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem renúncia ou disposição de direitos. Nas
relações de consumo entre o fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá ser
limitada, em situações justificáveis
Como exemplo, cita-se o caso de veículo em estacionamento de shopping. Havendo o furto
de algum objeto, haverá a responsabilidade.
Súmula 130, STJ: A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de
danos ou furto de veículos ocorridos em seu estacionamento
Nos casos em que o consumidor for pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada,
quando houver situação justificável, ou seja:
• Vantagem patrimonial para o consumidor;
• Efetiva participação do consumidor na fase pré-contratual;
• Manutenção do equilíbrio das prestações.
II - Subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos casos previstos
neste código
Nos casos de arrependimento, consumidor tem direito ao reembolso do que foi pago, não
pode haver nos contratos cláusulas limitando tal direito.
III - Transfiram responsabilidades a terceiros
Por exemplo, contratação de buffet “A”, mas no dia da festa aparece o buffet “B”.
IV - Estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem o consumidor
em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade
É uma das cláusulas gerais mais importantes do CDC, cabendo ao operador do direito, em
cada caso contrato, o preenchimento dos conceitos jurídicos indeterminados, estabelecendo a
norma de conduta.
As hipóteses de desvantagem exagerada estão previstas no §1º do art. 51 do CDC.
§ 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 127
I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do
contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se
a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras
circunstâncias peculiares ao caso.
Com base neste inciso, há na jurisprudência do STJ diversos casos de reconhecimento de
abusividade, vejamos:
Súmula 302 – é abusiva a cláusula contratual de plano de saúde que limita
no tempo a internação hospitalar do segurado.
• É abusiva a cláusula que exclui o tratamento de doenças infectocontagiosas, caso
da Aids;
• É abusiva a cláusula que restringe a cobertura de transplante de órgãos;
• É abusiva a cláusula que suspende o atendimento em razão do atraso de pagamento
de uma única parcela (teoria do adimplemento substancial);
Destaca-se, aqui, a nova Súmula do STJ que considera abusiva a cláusula que prevê
carência para atendimento de emergência e urgência.
Súmula 597-STJ: A cláusula contratual de plano de saúde que prevê carência
para utilização dos serviços de assistência médica nas situações de
emergência ou de urgência é considerada abusiva se ultrapassado o prazo
máximo de 24 horas contado da data da contratação.
VI - Estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor
O CDC traz inúmeras regras sobre a inversão do ônus da prova (analisaremos em ponto
específico). Assim, qualquer cláusula que tente inverter o ônus da prova do art. 38 será considerada
abusiva.
VII - Determinem a utilização compulsória de arbitragem
Salienta-se que o CDC admite arbitragem, apenas a imposição compulsória de arbitragem
é abusiva.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(DPE/AC - 2024) Nos contratos de relação de consumo, cláusula que determinar a
utilização compulsória da arbitragem como meio de evitar demanda judicial será
considerada nula. Correto!
VIII - Imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico pelo
consumidor
São as chamadas cláusulas mandato.
IX - Deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora obrigando o
consumidor
X - Permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de maneira unilateral
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 128
No contrato o preço é ajustado na fase pré-contratual, não se permite que no curso do
processo sejam feitas alterações no preço.
XI - Autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que igual direito seja
conferido ao consumidor
A cláusula de cancelamento do contrato deve ser bilateral, mas não significa que não será
abusiva se ela referir o art. 51, IV do CDC.
Ex.: Contratos de longa duração – abusividade das cláusulas de cancelamento unilateral,
mesmo que bilaterais (art. 51, IV).
XII - Obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua obrigação, sem que
igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor
XIII - Autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a qualidade do
contrato, após sua celebração
XIV - Infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais
XV - Estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor
Qualquer cláusula que afrontar o CDC ou o sistema de proteção será abusiva.
Carência para cobertura de plano de saúde é admitida, mas há prazo máximo de 24h para
casos de urgência e emergência (Lei 9.656/98, art. 12, V, “c”).
Súmula 597-STJ: A cláusula contratual de plano de saúde que prevê carência
para utilização dos serviços de assistência médica nas situações de
emergência ou de urgência é considerada abusiva se ultrapassado o prazo
máximo de 24 horas contado da data da contratação.
O mesmo ocorre com a cláusula de foro de eleição em contrato de adesão.
XVI - Possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias necessárias.
Benfeitoria necessária são aquelas que visam à conservação do bem.
Obs.: Não se aplica aos contratos de locação urbana, uma vez que
estão fora da relação de consumo.
XVII- condicionem ou limitem de qualquer forma o acesso aos órgãos do Poder Judiciário.
Incluída pela Lei do Superendividamento.
XVIII - estabeleçam prazos de carência em caso de impontualidade das prestações mensais
ou impeçam o restabelecimento integral dos direitos do consumidor e de seus meios de pagamento
a partir da purgação da mora ou do acordo com os credores.
Incluída pela Lei do Superendividamento.
Frequentemente os Tribunais Superiores, sobretudo o STJ, são instados a se manifestar
sobre a abusividade de cláusulas contratuais, o que varia muito em função do contrato. Veja, por
exemplo, este recente caso sobre contrato de programa de fidelidade:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 129
O contrato de programa de fidelidade é um contrato de adesão. Vale
ressaltar, contudo, que nos contratos de adesão não existe ilegalidade
intrínseca, razão pela qual só serão declaradas abusivas e, portanto, nulas,
aquelas cláusulas que estabeleçam obrigações consideradas iníquas, que
coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, que tragam
desequilíbrio de direitos e obrigações típicos àquele contrato específico, que
frustrem os interesses básicos das partes presentes naquele tipo de relação,
ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou equidade, nos termos do art. 51, IV,
do CDC. A adesão ao programa de fidelidade deve ser considerada como
contrato unilateral e benéfico considerando que dispensa contraprestação
pecuniária do seu beneficiário e prevê responsabilidade somente ao seu
instituidor. Os contratos benéficos, que por sua natureza são intuito personae,
devem ser interpretados restritivamente, consoante disposto no art. 114 do
CC/02. STJ. 3ª Turma. REsp 1878651-SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado
em 04/10/2022 (Info 753).
O limite de desconto do empréstimo consignado não se aplica aos contratos
de mútuo bancário em que o cliente autoriza o débito das prestações em
contracorrente. São lícitos os descontos de parcelas de empréstimos
bancários comuns em contracorrente, ainda que utilizada para recebimento
de salários, desde que previamente autorizados pelo mutuário e enquanto
esta autorização perdurar, não sendo aplicável, por analogia, a limitação
prevista no § 1º do art. 1º da Lei nº 10.820/2003, que disciplina os
empréstimos consignados em folha de pagamento. STJ. 2ª Seção. REsp
1863973-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 09/03/2022
(Recurso Repetitivo – Tema 1085) (Info 728).
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/AC (2022) Não será abusiva a negativa de custeio, pela operadora do
plano de saúde, do tratamento de fertilização in vitro, quando não houver
previsão contratual expressa. Correta!
DPE/SE (2022) De acordo com o STJ, em contrato de compra e venda de
imóvel em construção, cláusula que preveja cobrança de juros antes da
entrega das chaves ao comprador é considerada lícita. Correta!
DPE/MT (2022) João realizou contratação de plano de saúde há 1 mês. O
plano de saúde previa cláusula contratual de carência de 180 dias para
internações de um modo geral. Contudo, João sofreu um AVC logo após a
contratação completar 30 dias e foi para a emergência de hospital particular
que constava na rede referenciada de cobertura do plano de saúde. Ao
chegar no hospital, teve a notícia de que o plano não cobriria o atendimento
em razão do período de carência. Nesse caso, de acordo com entendimento
sumulado do STJ, a conduta do plano é ilícita, porque, em situações de
urgência ou emergência, a carência máxima deve ser de 24 horas da
contratação.
TJ/SP (2021) Nos contratos de locação de cofre particular, é abusiva a
cláusula limitativa de valores e de objetos a serem armazenados, sobre os
quais recairá a obrigação de guarda e de proteção do banco locador. Correta!
TJ/GO (2021) De acordo com a definição do Código de Defesa do
Consumidor, uma cláusula contratual em avença consumerista que
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 130
estabeleça a ambas as partes a utilização compulsória de arbitragem será
nula de pleno direito, sendo irrelevante que se imponha a ambas as partes a
compulsoriedade. Correta!
DPE/BA (2021) Felisberto assinou com uma incorporadora contrato de
promessa de compra e venda de imóvel na planta, com a intenção de utilizar
o imóvel que seria construído para a moradia de sua família. No contrato,
ficou estabelecido que em caso de rescisão da promessa de compra e venda,
a restituição das parcelas pagas seria feita somente ao término da obra.
Diante dessa situação, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça
preconiza que cláusulas dessa natureza são abusivas, razão pela qual a
restituição das parcelas deve ser feita imediatamente, de modo que, caso o
comprador tenha dado causa à rescisão, a restituição será parcial, porém,
imediata. Correta!
MPE/SC (2019) É abusiva a cláusula contratual de plano de saúde que limita
no tempo a internação hospitalar do segurado. Correta!
5. CRÉDITOS E FINANCIAMENTOS AO CONSUMIDOR
O art. 52 do CDC disciplina os contratos de crédito e financiamento, trazendo inúmeras
informações que o fornecedor deverá dar ciência ao consumidor.
Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de
crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá,
entre outros requisitos, informá-lo prévia e adequadamente sobre:
I - preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;
II - montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;
III - acréscimos legalmente previstos;
IV - número e periodicidade das prestações;
V - soma total a pagar, com e sem financiamento.
§ 1° As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações no seu
termo não poderão ser superior a dois por cento do valor da prestação.
§ 2º É assegurado ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou
parcialmente, mediante redução proporcional dos juros e demais acréscimos.
Resumidamente, visam dar ciência ao consumidor do real custo do empréstimo, evitando o
superendividamento.
5.1. SUPERENDIVIDAMENTO
Obs.: Em razão da Lei 14.141/2021, iremos aprofundar o estudo do
superendividamento em tópico próprio.
É a impossibilidade fática de o consumidor pagar todas as obrigações contraídas.
Relacionam-se às dívidas oriundas de relação de consumo, não entram aqui as dívidas de ilícito
civil (ex. pensão alimentícia).
O superendividamento pode ser passivo ou ativo.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 131
PASSIVO: decorre de fatos extraordinários, a exemplo do desemprego, doenças. Recebe
proteção do CDC. Recebe proteção da Lei 14.181/2021
ATIVO: o consumidor se torna insolvente em razão da sua vontade. Pode ser:
• Consciente: decorre da má-fé do consumidor, o qual sabe que não poderá honrar
todas as obrigações assumidas. Não recebe proteção da Lei 14.181/2021
• Inconsciente: apesar de contrair a dívida de forma voluntária, age de boa-fé, pois a
acreditava que teria como cumprir suas obrigações. Recebe proteção do CDC.
Recebe proteção da Lei 14.181/2021
5.2. MULTA MORATÓRIA
O §1º estabelece um teto máximo de 2% para a multa moratória (vale para toda e qualquer
relação de consumo – STJ), a qual possui como base de cálculo o valor da prestação vencida e não
o valor total do contrato.
Art. 52, § 1° As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações
no seu termo não poderão ser superior a dois por cento do valor da
prestação.
Além disso, é admitida apenas de forma bilateral, ou seja, para o consumidor e para o
fornecedor.
5.3. LIQUIDAÇÃO ANTECIPADA DO DÉBITO
Garante ao consumidor a redução proporcional dos juros e demais acréscimos.
§ 2º É assegurado ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou
parcialmente, mediante redução proporcional dos juros e demais acréscimos.
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/MS (2020) Desde que expressamenteprevisto no contrato, é assegurada
ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou parcialmente,
mediante redução proporcional dos juros e demais acréscimos. Errada!
SU
P
ER
EN
D
IV
ID
A
M
EN
TO
PASSIVO
ATIVO
CONSCIENTE
INCONSCIENTE
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 132
6. CONTRATO DE COMPRA E VENDA À PRESTAÇÃO E ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM
GARANTIA
O CDC, em seu art. 53 do CDC, traz proteção aos contratos de compra e venda à prestação
e de alienação fiduciária em garantia, prevendo que a cláusula que impõe a perda total de
prestações é abusiva. Sendo, contudo, possível a perda parcial.
Art. 53. Nos contratos de compra e venda de móveis ou imóveis mediante
pagamento em prestações, bem como nas alienações fiduciárias em garantia,
consideram-se nulas de pleno direito as cláusulas que estabeleçam a perda
total das prestações pagas em benefício do credor que, em razão do
inadimplemento, pleitear a resolução do contrato e a retomada do produto
alienado.
§ 1° (Vetado).
§ 2º Nos contratos do sistema de consórcio de produtos duráveis, a
compensação ou a restituição das parcelas quitadas, na forma deste artigo,
terá descontada, além da vantagem econômica auferida com a fruição, os
prejuízos que o desistente ou inadimplente causar ao grupo.
§ 3° Os contratos de que trata o caput deste artigo serão expressos em
moeda corrente nacional.
Na jurisprudência do STJ há hipóteses de cláusulas de decaimento que vão de 5% até 50%
daquilo do que já foi pago.
A restituição deve ser feita de maneira imediata.
Súmula 543 - Na hipótese de resolução de contrato de promessa de compra
e venda de imóvel submetido ao Código de Defesa do Consumidor, deve
ocorrer a imediata restituição das parcelas pagas pelo promitente comprador
- integralmente, em caso de culpa exclusiva do promitente
vendedor/construtor, ou parcialmente, caso tenha sido o comprador quem
deu causa ao desfazimento.
Para analisar a razoabilidade da cláusula de decaimento, várias situações devem ser
levadas em considerações:
• Uso do bem pelo consumidor;
• Custos do empreendimento (publicidade, taxa de corretagem, taxa de
administração).
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/PR (2022) Nos contratos de compra e venda de móveis ou imóveis
mediante pagamento em prestações, o devedor inadimplente terá direito à
compensação ou à restituição integral das parcelas quitadas à data da
resolução contratual, monetariamente atualizada, descontada a vantagem
econômica auferida com a fruição. Correta!
7. CONTRATO DE ADESÃO
Disciplinado no art. 54 do CDC, vejamos:
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 133
Art. 54. Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas
pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor
de produtos ou serviços, sem que o consumidor possa discutir ou modificar
substancialmente seu conteúdo.
§ 1° A inserção de cláusula no formulário não desfigura a natureza de adesão
do contrato.
§ 2° Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que a
alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o disposto no
§ 2° do artigo anterior.
§ 3o Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com
caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao
corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor.
§ 4° As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão
ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.
7.1. CARACTERÍSTICAS
PREDETERMINAÇÃO - o consumidor não participa da composição das cláusulas do
contrato, são previamente estabelecidas pelo fornecedor.
UNIFORMIDADE – valem para TODOS os contratos de consumo, não possuem variação
significativa de um contrato para outro.
RIGIDEZ – são estáveis.
7.2. CLÁUSULA RESOLUTÓRIA
Admite-se cláusula resolutória, desde que alternativa e a escolha do consumidor, nos termos
do § 2º do art. 54.
Art. 54, § 2° Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde
que a alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o
disposto no § 2° do artigo anterior.
7.3. FORMA
Em regra, o contrato de adesão não precisa ser escrito. Contudo, quando for, deve obedecer
às regras do art. 54, § 3º, quais seja:
• Redação em termos claros e com caracteres ostensivos e legíveis;
• Tamanho da fonte não pode ser inferior ao corpo 12.
7.4. CLÁUSULAS RESTRITIVAS DE DIREITOS DO CONSUMIDOR
É possível que haja, nos contratos de adesão, cláusulas restritivas de direitos do
consumidor, mas devem aparecer de maneira clara e ser de fácil percepção ao consumidor.
Art. 54, § 4.º As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor
deverão ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil
compreensão.
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/PE (2022) A inserção de cláusula no formulário do contrato desconfigura
a natureza de adesão do contrato, pois se exige que as cláusulas tenham
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 134
sido estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produto ou serviço.
Errada!
MPE/SC (2021) A validade da cláusula compromissória em contrato de
adesão caracterizado por relação de consumo está condicionada à efetiva
concordância do consumidor no momento da instauração do litígio entre as
partes. Correta!
DPE/GO (2021) Josefa, idosa, contratou empréstimo junto a uma instituição
financeira e, no decorrer do contrato, pagou tempestivamente todas as
parcelas. Ao final, notou que havia desembolsado valor desproporcional em
relação ao valor contratado, razão pela qual procurou a Defensoria para
orientação e eventuais medidas cabíveis. Sobre a situação na ausência de
pactuação de juros, aplica-se a média de mercado, divulgada pelo Bacen,
praticada nas operações da mesma espécie, salvo se a taxa praticada for
mais vantajosa ao consumidor. Correta!
MPE/MT (2019) Os instrumentos do contrato de adesão serão redigidos com
caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não poderá ser
inferior ao corpo doze. Correta!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 135
PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO SUPERENDIVIDAMENTO5
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A Lei 14.181/2021, conhecida como Lei do Superendividamento, acrescentou dentro da
Seção III (Contratos de Adesão) do CDC o Capítulo VI-A, o qual dispõe sobre:
• prevenção do superendividamento da pessoa natural;
• crédito responsável e
• educação financeira do consumidor.
Além disso, a Lei do Superendividamento inseriu três novos princípios no art. 4º, dois novos
instrumentos no art. 5º que trata da Política Nacional das Relações de Consumo, três novos direitos
básicos do consumidor, previstos no art. 6º, bem como incluiu duas novas cláusulas abusivas ao
art. 51 do CDC.
A Lei nº 14.181/2021 é fruto de todos esses anos de pesquisa e discussão sobre o tema.
Vale ressaltar que, não se pode falar a respeito desse assunto no Brasil sem mencionar os inúmeros
trabalhos e pesquisas desenvolvidos pela Prof. Cláudia Lima Marques.
O superendividamento está diretamente relacionado com o mínimo existencial do indivíduo,
conforme explicam Pablo Stolze e Carlos Eduardo Elias de Oliveira: “o superendividamento contém
traços de uma morte civil social. O indivíduo com o “nome sujo” e sem margem de crédito tende ao
ostracismo. Não consegue montar novos negócios. Enfrenta estigmas ao buscar emprego. Sujeita-
se a viver “de favor”. Enfim, o superendividamento pode levar o indivíduo a um estado de
desesperança e, nas palavras de Raul Seixas, na música Ouro de Tolo, ficar sentado ‘no trono de
um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar’. O motivo
é que o superendividamento fulmina o mínimo existencial do indivíduo.”
A Lei nº 14.181/2021 entrou em vigor nadata de sua publicação (02/07/2021). Quanto à
validade, Lei nova não se aplica para os negócios e atos ocorridos antes da sua vigência. Por outro
lado, a Lei nova já rege os efeitos produzidos após a sua entrada em vigor.
Art. 3º A validade dos negócios e dos demais atos jurídicos de crédito em
curso constituídos antes da entrada em vigor desta Lei obedece ao disposto
em lei anterior, mas os efeitos produzidos após a entrada em vigor desta Lei
subordinam-se aos seus preceitos.
2. CONCEITO DE SUPERENDIVIDAMENTO
De acordo com o art. 52-A, §1º, do CDC, entende-se por superendividamento a
impossibilidade manifesta de o consumidor pessoa natural, de boa-fé, pagar a totalidade de suas
dívidas de consumo, exigíveis e vincendas, sem comprometer seu mínimo existencial, nos termos
da regulamentação.
Cláudia Lima Marques define o superendividamento como a “impossibilidade global do
devedor-pessoa física, consumidor, leigo e de boa-fé, de pagar todas as suas dívidas atuais e
5 Ponto feito com base nas explicações do Professor Márcio Cavalcante. Disponível em
https://www.buscadordizerodireito.com.br/novidades_legislativas/detalhes/24b16fede9a67c9251d3e7c7161c
83ac?palavra-chave=14.181&criterio-pesquisa=e
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 136
futuras de consumo (excluídas as dívidas com o Fisco, oriundas de delitos e alimentos) em um
tempo razoável com sua capacidade atual de rendas e patrimônio”.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/MA – CESPE - 2022) O superendividamento consiste na impossibilidade
manifesta de o consumidor, pessoa natural, de boa-fé, pagar suas dívidas
exigíveis e vincendas, sem comprometer seu mínimo existencial. Correto!
3. INAPLICABILIDADE
As regras de proteção do superendividamento, previstas nos arts. 54-A a 54-G do CDC, não
serão aplicadas as dívidas do consumidor que:
• tiverem sido contraídas mediante fraude ou má-fé;
• forem oriundas de contratos celebrados dolosamente com o propósito de não realizar
o pagamento;
• decorrerem da aquisição ou contratação de produtos e serviços de luxo de alto valor.
Trata-se de aplicação, pela lei, do “princípio da proteção simplificada do luxo”,
“segundo o qual o Direito protege situações de luxo sem o mesmo prestígio de
situações essenciais ou úteis. Esse conceito está atrelado ao conceito de paradigma
da essencialidade, revelado pela Professora Teresa Negreiros. Segundo a jurista
carioca, os direitos devem ser classificados quanto à essencialidade em direitos
essenciais, direitos úteis e direitos supérfluos. Quanto menor for o grau de
essencialidade do direito, menor deve ser a intervenção do Direito. Esse princípio
guia também a proteção dada aos casos de superendividamento. O intervencionismo
estatal em favor de quem está em situação de superendividamento não deve
alcançar casos oriundos de aquisição de produtos de luxo de alto valor, mesmo no
caso de consumo. Quem, por exemplo, endivida-se por adquirir um veículo luxuoso
de altíssimo valor não pode, posteriormente, invocar as ferramentas interventivas da
Lei do Superendividamento. Sobram-lhe, apenas, as proteções gerais do Direito,
sem prestígios interventivos. A própria Lei de Superendividamento é expressa nesse
sentido (art. 54-A, § 3º, CDC).” (GAGLIANO, Pablo Stolze; OLIVEIRA, Carlos
Eduardo Elias de. Comentários à Lei do Superendividamento).
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MP/SC - 2024) Excluem-se do processo de repactuação de dívidas junto aos
credores do consumidor super endividado as dívidas oriundas de contratos
celebrados dolosamente sem o propósito de realizar pagamento, ainda que
decorrentes de relações de consumo; e as dívidas provenientes de contratos
de financiamentos imobiliários e de crédito rural, salvo os contratos de crédito
com garantia real. Errado!
DPE/PB (2022) Sobre o tratamento do superendividamento incluído
recentemente no Código de Defesa do Consumidor, não se aplica à
contratação de produtos e serviços de luxo de alto valor.
DPE/RS (2022) Em 2020, Carlos passou por grave crise financeira. Além de
ter ficado desempregado, contraiu COVID-19, doença que gerou sequelas
cujo tratamento com fisioterapias, psicólogos e remédios lhe foi
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 137
extremamente oneroso. No mesmo ano, Carlos tornou-se pai, acarretando-
lhe um aumento de despesas para a mantença do filho. Em decorrência,
Carlos contraiu dívidas com o cartão de crédito e com um empréstimo
pessoal. Ainda, adquiriu um automóvel importado novo, mediante
financiamento. Carlos se encontra em situação de superendividamento
passivo, podendo ingressar com ação revisional, a fim de pleitear a
elaboração de um plano de pagamento das suas dívidas, de maneira que seja
preservado o mínimo para sua subsistência. Correta!
4. INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Como vimos acima, o art. 52 do CDC prevê informações que deverão ser obrigatoriamente
prestadas pelo fornecedor quando o contrato envolver relação de crédito ou de financiamento. Veja:
Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de
crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá,
entre outros requisitos, informá-lo prévia e adequadamente sobre:
I - preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;
II - montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;
III - acréscimos legalmente previstos;
IV - número e periodicidade das prestações;
V - soma total a pagar, com e sem financiamento.
A Lei nº 14.181/2021 inseriu o art. 54-B exigindo informações adicionais para os contratos
que envolvam fornecimento de crédito ou venda a prazo:
Art. 54-B. No fornecimento de crédito e na venda a prazo, além das
informações obrigatórias previstas no art. 52 deste Código e na legislação
aplicável à matéria, o fornecedor ou o intermediário deverá informar o
consumidor, prévia e adequadamente, no momento da oferta, sobre:
I - o custo efetivo total e a descrição dos elementos que o compõem;
II - a taxa efetiva mensal de juros, bem como a taxa dos juros de mora e o
total de encargos, de qualquer natureza, previstos para o atraso no
pagamento;
III - o montante das prestações e o prazo de validade da oferta, que deve ser,
no mínimo, de 2 (dois) dias;
IV - o nome e o endereço, inclusive o eletrônico, do fornecedor;
V - o direito do consumidor à liquidação antecipada e não onerosa do débito,
nos termos do § 2º do art. 52 deste Código e da regulamentação em vigor.
§ 1º As informações referidas no art. 52 deste Código e no caput deste artigo
devem constar de forma clara e resumida do próprio contrato, da fatura ou de
instrumento apartado, de fácil acesso ao consumidor.
§ 2º Para efeitos deste Código, o custo efetivo total da operação de crédito
ao consumidor consistirá em taxa percentual anual e compreenderá todos os
valores cobrados do consumidor, sem prejuízo do cálculo padronizado pela
autoridade reguladora do sistema financeiro.
§ 3º Sem prejuízo do disposto no art. 37 deste Código, a oferta de crédito ao
consumidor e a oferta de venda a prazo, ou a fatura mensal, conforme o caso,
devem indicar, no mínimo, o custo efetivo total, o agente financiador e a soma
total a pagar, com e sem financiamento.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 138
Nos contratos de adesão, o fornecedor deve prestar ao consumidor, previamente, as
informações de que tratam o art. 52 e o art. 54-B do CDC, além de outras porventura determinadas
na legislação em vigor. Além disso, fica obrigado a entregar ao consumidor cópia do contrato, após
a sua conclusão (§ 2º do art. 54-G).
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/AP (2022) No que tange ao superendividamento, é correto afirmar que a
Lei nº 14.181/2021 inseriu como nova proibição na oferta de crédito ao
consumidor a indicação de que a operação de crédito poderá ser concluídasem consulta a serviços de proteção ao crédito ou sem avaliação da situação
financeira do consumidor. Correta!
5. NOVAS PROIBIÇÕES NA OFERTA DE CRÉDITO AO CONSUMIDOR
É vedado, expressa ou implicitamente, na oferta de crédito ao consumidor, publicitária ou
não:
a) indicar que a operação de crédito poderá ser concluída sem consulta a serviços de
proteção ao crédito ou sem avaliação da situação financeira do consumidor;
b) ocultar ou dificultar a compreensão sobre os ônus e os riscos da contratação do crédito
ou da venda a prazo;
c) assediar ou pressionar o consumidor para contratar o fornecimento de produto, serviço
ou crédito, principalmente se se tratar de consumidor idoso, analfabeto, doente ou em estado de
vulnerabilidade agravada ou se a contratação envolver prêmio;
d) condicionar o atendimento de pretensões do consumidor ou o início de tratativas à
renúncia ou à desistência de demandas judiciais, ao pagamento de honorários advocatícios ou a
depósitos judiciais.
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/RR (2022) Na oferta de crédito ao consumidor, é vedada a indicação,
expressa ou implícita, de que a operação de crédito poderá ser concluída sem
consulta a serviços de proteção ao crédito. Correta!
DPE/MS (2022) Vânia, professora do ensino médio, firmou contrato com a
operadora de cartão de crédito X. Ao realizar a compra de uma geladeira
mediante pagamento parcelado, demonstrou insatisfação com o denominado
“custo efetivo”, referente aos juros e demais encargos financeiros devidos à
fornecedora. A consumidora compareceu ao atendimento pela Defensoria
Pública e apresentou o contrato que fora assinado com a operadora, sendo
verificado também na entrevista realizada com a assistida, que Vânia sabia,
de modo claro e inequívoco, do custo efetivo antes de parcelar a compra.
Diante desse caso, é correto afirmar que mesmo tendo Vânia concordado
com o custo efetivo no ato da contratação, ainda assim pode ser considerada
nula de pleno direito a cláusula que se mostre excessivamente onerosa para
a consumidora. Correta!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 139
6. NOVOS DEVERES PRÉVIOS DO FORNECEDOR VOLTADOS À CONTRATAÇÃO
CONSCIENTE DE CRÉDITO
Na oferta de crédito, antes da contratação, o fornecedor ou o intermediário deverá:
I - informar e esclarecer adequadamente o consumidor, considerada sua idade, sobre a
natureza e a modalidade do crédito oferecido, todos os custos incidentes e as consequências
genéricas e específicas que eles sofrerão em caso de inadimplemento;
II - avaliar, de forma responsável, as condições de crédito do consumidor, mediante análise
das informações disponíveis em bancos de dados de proteção ao crédito, observado o disposto
neste Código e na legislação sobre proteção de dados;
III - informar a identidade do agente financiador e entregar ao consumidor, ao garante e a
outros coobrigados cópia do contrato de crédito.
7. DESCUMPRIMENTO DOS DEVERES DE INFORMAÇÃO
O descumprimento dos deveres previstos nos arts. 52, 54-C e 54-D poderá acarretar
judicialmente:
a) a redução dos juros, dos encargos ou de qualquer acréscimo ao principal; e
b) a dilação do prazo de pagamento previsto no contrato original, conforme a gravidade da
conduta do fornecedor e as possibilidades financeiras do consumidor;
c) o pagamento de indenização por danos patrimoniais e morais ao consumidor;
d) outras sanções previstas na legislação consumerista (ex: multa imposta pelo PROCON).
8. HIPÓTESES EM QUE O CONTRATO DE FORNECIMENTO DE PRODUTO OU
SERVIÇO SERÁ CONSIDERADO CONEXO, COLIGADO OU INTERDEPENDENTE
EM RELAÇÃO AO CONTRATO DE CRÉDITO
Veja a redação do art. 54-F:
Art. 54-F. São conexos, coligados ou interdependentes, entre outros, o
contrato principal de fornecimento de produto ou serviço e os contratos
acessórios de crédito que lhe garantam o financiamento quando o fornecedor
de crédito:
I - recorrer aos serviços do fornecedor de produto ou serviço para a
preparação ou a conclusão do contrato de crédito;
II - oferecer o crédito no local da atividade empresarial do fornecedor de
produto ou serviço financiado ou onde o contrato principal for celebrado.
Existe divergência na doutrina se contratos conexos, coligados ou interdependentes seriam
espécies distintas ou expressões sinônimas. Para evitar qualquer discussão nesse sentido, o
legislador optou por incluir os três no dispositivo.
Para Carlos Roberto Gonçalves, contratos coligados são aqueles que, embora distintos,
estão ligados por uma cláusula acessória, implícita ou explícita.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 140
Nos contratos coligados, as partes celebram uma pluralidade de negócios jurídicos tendo
por desiderato um conjunto econômico, criando entre eles efetiva dependência.
Conforme explica Daniel Carnacchioni: “nos contratos coligados ou conexos, há a agregação
de vários negócios para a viabilização de uma operação econômica. (...) Nos contratos coligados
estes são desejados como um todo, pois isoladamente cada contrato não viabilizaria o interesse
dos contratantes. Os contratos condicionam-se reciprocamente em sua existência e validade e,
agregados, formam uma unidade econômica.
O contrato reputado como sendo o principal determina as regras que deverão ser seguidas
pelos demais instrumentos negociais que a este se ajustam. Assim, por exemplo, havendo
invalidade do contrato principal (ex: compra e venda de um carro), o contrato acessório de
concessão do crédito para aquisição deste bem também deverá ser anulado.
Consoante explica Flávio Tartuce: “diante do princípio da gravitação jurídica, pelo qual o
acessório segue o principal, tudo o que ocorre no contrato principal repercute no acessório. Desse
modo, sendo nulo o contrato principal, nulo será o acessório: sendo anulável o principal o mesmo
ocorrerá com o acessório; ocorrendo prescrição da dívida do contrato principal, o contrato acessório
estará extinto; e assim sucessivamente.”
Os parágrafos do art. 54-F preveem regras nesse sentido:
Art. 54-F (...)
§ 1º O exercício do direito de arrependimento nas hipóteses previstas neste
Código, no contrato principal ou no contrato de crédito, implica a resolução
de pleno direito do contrato que lhe seja conexo.
§ 2º Nos casos dos incisos I e II do caput deste artigo, se houver inexecução
de qualquer das obrigações e deveres do fornecedor de produto ou serviço,
o consumidor poderá requerer a rescisão do contrato não cumprido contra o
fornecedor do crédito.
§ 3º O direito previsto no § 2º deste artigo caberá igualmente ao consumidor:
I - contra o portador de cheque pós-datado emitido para aquisição de produto
ou serviço a prazo;
II - contra o administrador ou o emitente de cartão de crédito ou similar
quando o cartão de crédito ou similar e o produto ou serviço forem fornecidos
pelo mesmo fornecedor ou por entidades pertencentes a um mesmo grupo
econômico.
§ 4º A invalidade ou a ineficácia do contrato principal implicará, de pleno
direito, a do contrato de crédito que lhe seja conexo, nos termos do caput
deste artigo, ressalvado ao fornecedor do crédito o direito de obter do
fornecedor do produto ou serviço a devolução dos valores entregues,
inclusive relativamente a tributos.
Vale ressaltar que, mesmo antes da Lei, já podiam ser encontradas, na jurisprudência do
STJ, julgados aplicando as regras que agora foram positivadas. Nesse sentido, confira esse
interessante caso:
Consumidor adquiriu veículo novo e, para pagar o carro, contratou leasing
oferecido pelo banco da própria montadora. O automóvel apresentou vício
redibitório que o tornou imprestável ao uso. O banco que realizou o
financiamento foi também considerado responsável? O contrato de leasing
também foi rescindido? Sim. A instituição financeira vinculada à
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 141
concessionária do veículo (“banco da montadora”) possui responsabilidadesolidária por vício do produto (veículo novo defeituoso), uma vez que ela foi
parte integrante da cadeia de consumo. Todos aqueles que participam da
introdução do produto ou serviço no mercado devem responder
solidariamente por eventual defeito ou vício. O contrato de arrendamento
mercantil não foi feito de forma independente. Ao contrário, está atrelado ao
contrato de compra e venda, de forma que é possível vislumbrar a existência
de uma “operação casada”. STJ. 3ª Turma. REsp 1379839-SP, Rel. originária
Min. Nancy Andrighi, Rel. para Acórdão Min. Paulo de Tarso Sanseverino,
julgado em 11/11/2014 (Info 554).
9. PRÁTICAS ABUSIVAS ESPECÍFICAS PARA O FORNECEDOR DE PRODUTO OU
SERVIÇO QUE ENVOLVA CRÉDITO
O art. 39 do CDC traz uma relação de práticas consideradas abusivas nas relações de
consumo em geral.
A Lei nº 14.181/2021 acrescentou o art. 54-G prevendo uma nova lista de práticas abusivas,
agora específicas para o fornecedor de produto ou serviço que envolva crédito:
Art. 54-G. Sem prejuízo do disposto no art. 39 deste Código e na legislação
aplicável à matéria, é vedado ao fornecedor de produto ou serviço que
envolva crédito, entre outras condutas:
I - realizar ou proceder à cobrança ou ao débito em conta de qualquer quantia
que houver sido contestada pelo consumidor em compra realizada com
cartão de crédito ou similar, enquanto não for adequadamente solucionada a
controvérsia, desde que o consumidor haja notificado a administradora do
cartão com antecedência de pelo menos 10 (dez) dias contados da data de
vencimento da fatura, vedada a manutenção do valor na fatura seguinte e
assegurado ao consumidor o direito de deduzir do total da fatura o valor em
disputa e efetuar o pagamento da parte não contestada, podendo o emissor
lançar como crédito em confiança o valor idêntico ao da transação contestada
que tenha sido cobrada, enquanto não encerrada a apuração da contestação;
II - recusar ou não entregar ao consumidor, ao garante e aos outros
coobrigados cópia da minuta do contrato principal de consumo ou do contrato
de crédito, em papel ou outro suporte duradouro, disponível e acessível, e,
após a conclusão, cópia do contrato;
III - impedir ou dificultar, em caso de utilização fraudulenta do cartão de
crédito ou similar, que o consumidor peça e obtenha, quando aplicável, a
anulação ou o imediato bloqueio do pagamento, ou ainda a restituição dos
valores indevidamente recebidos.
No empréstimo cuja liquidação seja feita mediante consignação em folha de pagamento, a
formalização e a entrega da cópia do contrato ou do instrumento de contratação ocorrerão após o
fornecedor do crédito obter da fonte pagadora a indicação sobre a existência de margem
consignável.
10. CONCILIAÇÃO NO SUPERENDIVIDAMENTO
A Lei nº 14.181/2021 também acrescentou três artigos (arts. 104-A, 104-B e 104-C) tratando
sobre a conciliação no superendividamento, o processo de repactuação de dívidas e o plano de
pagamentos, novidades extremamente importantes.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 142
Como o tema foi cobrado em concurso?
PGE/PA (2022) A instituição de núcleos de conciliação e mediação de
conflitos oriundos de superendividamento é um dos instrumentos para a
execução da Política Nacional das Relações de Consumo. Correta!
DPE/MS (2022) William firmou com determinada instituição bancária contrato
de empréstimo consignado, sendo certo que possuía outras dívidas que o
levaram à condição de superendividado. Diante disso, procurou atendimento
na Defensoria Pública, pois pretendia honrar com o pagamento das dívidas,
mas não sabia como fazê-lo. Visto isso, é correto afirmar que poderá ser
instaurado processo por superendividamento para revisão e integração dos
contratos, precedido de audiência conciliatória que não tenha obtido êxito
com qualquer dos credores. Correta!
10.1. PROCESSO DE REPACTUAÇÃO DE DÍVIDAS
A requerimento do consumidor superendividado pessoa natural, o juiz poderá instaurar
processo de repactuação de dívidas.
Será, então, designada audiência conciliatória, presidida pelo juiz ou por conciliador
credenciado no juízo, com a presença de todos os credores.
Na audiência, o consumidor apresentará proposta de plano de pagamento com prazo
máximo de 5 anos, preservados o mínimo existencial, as garantias e as formas de pagamento
originalmente pactuadas.
O pedido do consumidor para instaurara processo de repactuação:
• não importará em declaração de insolvência civil; e
• poderá ser repetido somente após decorrido o prazo de 2 anos, contado da
liquidação das obrigações previstas no plano de pagamento homologado, sem
prejuízo de eventual repactuação.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MP/SC - 2024) O pedido de repactuação de super dívida não importará em declaração de
insolvência civil e poderá ser repetido somente após decorrido o prazo de dois anos, contado
da apresentação do plano de pagamento homologado, ainda que não liquidadas as
obrigações, sem prejuízo de eventual repactuação. Errado!
10.2. DÍVIDAS QUE NÃO PODEM SER OBJETO DO PROCESSO DE REPACTUAÇÃO
Estão excluídas do processo de repactuação as seguintes dívidas:
a) oriundas de contratos celebrados dolosamente sem o propósito de realizar pagamento;
b) provenientes de contratos de crédito com garantia real;
c) provenientes de financiamentos imobiliários;
d) provenientes de crédito rural.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 143
10.3. NÃO COMPARECIMENTO DO CREDOR
O não comparecimento injustificado de qualquer credor, ou de seu procurador com poderes
especiais e plenos para transigir, à audiência de conciliação acarretará:
a) a suspensão da exigibilidade do débito;
b) a interrupção dos encargos da mora; e
c) a sujeição compulsória ao plano de pagamento da dívida se o montante devido ao credor
ausente for certo e conhecido pelo consumidor.
Além disso, o esse credor ausente somente irá receber após ter sido feito o pagamento dos
demais credores que compareceram à audiência conciliatória.
10.4. SENTENÇA JUDICIAL QUE HOMOLOGAR O PLANO TERÁ EFICÁCIA DE TÍTULO
EXECUTIVO
No caso de conciliação, com qualquer credor, a sentença judicial que homologar o acordo
descreverá o plano de pagamento da dívida e terá eficácia de título executivo e força de coisa
julgada (§ 3º do art. 104-A).
10.5. CONTEÚDO DO PLANO DE PAGAMENTO
Deverão constar no plano de pagamento:
I - medidas de dilação dos prazos de pagamento e de redução dos encargos da dívida ou
da remuneração do fornecedor, entre outras destinadas a facilitar o pagamento da dívida;
II - referência à suspensão ou à extinção das ações judiciais em curso;
III - data a partir da qual será providenciada a exclusão do consumidor de bancos de dados
e de cadastros de inadimplentes;
IV - condicionamento de seus efeitos à abstenção, pelo consumidor, de condutas que
importem no agravamento de sua situação de superendividamento.
10.6. NÃO HAVENDO ÊXITO NA CONCILIAÇÃO (ART. 104-B)
Se não houver êxito na conciliação em relação a quaisquer credores, o juiz, a pedido do
consumidor, instaurará processo por superendividamento com a finalidade de:
• revisão e integração dos contratos; e
• repactuação das dívidas remanescentes mediante plano judicial compulsório.
Nesse caso, o juiz fará a citação de todos os credores cujos créditos não tenham integrado
o acordo porventura celebrado.
Serão considerados no processo por superendividamento, se for o caso, os documentos e
as informações prestadas em audiência.
10.7. PRAZO PARA CREDORES SE MANIFESTAREM CONTRARIAMENTE AO PLANO
Depois de citados, os credores terão o prazo de 15 dias para:
• juntar documentos e
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 144
• apresentar as razões pelas quais se negam a aceder (anuir) ao plano voluntário ou
se negam a renegociar.
10.8. ADMINISTRADOR
O juiz poderá nomear administrador, desde que isso não onere as partes, o qual,no prazo
de até 30 dias, após cumpridas as diligências eventualmente necessárias, apresentará plano de
pagamento que contemple medidas de temporização ou de atenuação dos encargos.
10.9. GARANTIA MÍNIMA AOS CREDORES NO PLANO
O plano judicial compulsório assegurará aos credores, no mínimo, o valor do principal
devido, corrigido monetariamente por índices oficiais de preço.
Além disso, preverá a liquidação total da dívida, após a quitação do plano de pagamento
consensual, em, no máximo, 5 anos, sendo que a primeira parcela será devida no prazo máximo
de 180 dias, contado de sua homologação judicial, e o restante do saldo será devido em parcelas
mensais iguais e sucessivas (art. 104-B, § 4º).
10.10. CONCILIAÇÃO ADMINISTRATIVA
Os órgãos do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor, como o PROCON, também
podem fazer a fase conciliatória. É a chamada conciliação administrativa, prevista no novo art. 104-
C do CDC:
Art. 104-C. Compete concorrente e facultativamente aos órgãos públicos
integrantes do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor a fase
conciliatória e preventiva do processo de repactuação de dívidas, nos moldes
do art. 104-A deste Código, no que couber, com possibilidade de o processo
ser regulado por convênios específicos celebrados entre os referidos órgãos
e as instituições credoras ou suas associações.
§ 1º Em caso de conciliação administrativa para prevenir o
superendividamento do consumidor pessoa natural, os órgãos públicos
poderão promover, nas reclamações individuais, audiência global de
conciliação com todos os credores e, em todos os casos, facilitar a elaboração
de plano de pagamento, preservado o mínimo existencial, nos termos da
regulamentação, sob a supervisão desses órgãos, sem prejuízo das demais
atividades de reeducação financeira cabíveis.
§ 2º O acordo firmado perante os órgãos públicos de defesa do consumidor,
em caso de superendividamento do consumidor pessoa natural, incluirá a
data a partir da qual será providenciada a exclusão do consumidor de bancos
de dados e de cadastros de inadimplentes, bem como o condicionamento de
seus efeitos à abstenção, pelo consumidor, de condutas que importem no
agravamento de sua situação de superendividamento, especialmente a de
contrair novas dívidas.
Como o tema foi cobrado em concurso?
MPE/MG (2022) São vedadas, na oferta de crédito ao consumidor,
mensagens publicitárias ou propagandas com o uso de termos como “sem
juros”, “sem acréscimo” ou “juros zero”. Errada!
MPE/RJ (2022) Maria estava com um montante de dívidas, decorrentes de
operações de crédito e compras parceladas, que se tornaram impagáveis,
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 145
salvo com prejuízo de seu mínimo existencial. Após deixar de pagar todas as
suas dívidas, Maria teve o seu nome inscrito em órgãos de proteção ao
crédito, em razão da sua inadimplência. Ao tomar conhecimento da
publicidade da instituição financeira X, a qual informava que poderia contratar
operação de crédito sem consulta a serviços de proteção ao crédito, bem
como sem avaliação da sua situação financeira, Maria tomou um empréstimo
no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais), com o intuito de não pagar, tendo
em vista não ter bens penhoráveis para tanto. Após, Maria contratou um
advogado que requereu a instauração de processo judicial com fundamento
no denominado superendividamento. Tendo em vista a disciplina legal do
superendividamento, pode-se corretamente afirmar que é vedado, na oferta
de crédito ao consumidor, indicar que a operação de crédito poderá ser
concluída sem consulta a serviços de proteção ao crédito ou sem avaliação
da situação financeira do consumidor. Correta!
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 146
DEFESA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO
1. INTRODUÇÃO
Como vimos, ao longo do nosso Caderno Sistematizado, o CDC trouxe inúmeros direitos e
garantias aos consumidores. Visando a efetivação de tais direitos e garantias, trouxe os meios de
defesa do consumidor em juízo, tanto de forma coletiva quanto de forma individual, os quais iremos
analisar a partir de agora.
Obs.: o estudo da tutela coletiva é feito em Direitos Difusos e Coletivos.
2. TUTELA ESPECÍFICA
O art. 84 do CDC regulamenta a obrigação de fazer (impõe prestação positiva) e de não
fazer (impõe um comportamento negativo).
Art. 84. Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer
ou não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou determinará
providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do
adimplemento.
A tutela específica inovou o ordenamento jurídico brasileiro, eis que até então não havia tal
previsão no CPC/73. O Código de Processo Civil de 2015, em seus arts. 497, 499, 500, 536 e 537,
disciplina de forma semelhante a tutela específica prevista no art. 84 do CDC.
Art. 497. Na ação que tenha por objeto a prestação de fazer ou de não fazer,
o juiz, se procedente o pedido, concederá a tutela específica ou determinará
providências que assegurem a obtenção de tutela pelo resultado prático
equivalente.
Parágrafo único. Para a concessão da tutela específica destinada a inibir a
prática, a reiteração ou a continuação de um ilícito, ou a sua remoção, é
irrelevante a demonstração da ocorrência de dano ou da existência de culpa
ou dolo.
Art. 499. A obrigação somente será convertida em perdas e danos se o autor
o requerer ou se impossível a tutela específica ou a obtenção de tutela pelo
resultado prático equivalente.
Art. 500. A indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa
fixada periodicamente para compelir o réu ao cumprimento específico da
obrigação.
Art. 536. No cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de
obrigação de fazer ou de não fazer, o juiz poderá, de ofício ou a requerimento,
para a efetivação da tutela específica ou a obtenção de tutela pelo resultado
prático equivalente, determinar as medidas necessárias à satisfação do
exequente.
§ 1o Para atender ao disposto no caput, o juiz poderá determinar, entre outras
medidas, a imposição de multa, a busca e apreensão, a remoção de pessoas
e coisas, o desfazimento de obras e o impedimento de atividade nociva,
podendo, caso necessário, requisitar o auxílio de força policial.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 147
§ 2o O mandado de busca e apreensão de pessoas e coisas será cumprido
por 2 (dois) oficiais de justiça, observando-se o disposto no art. 846, §§ 1o a
4o, se houver necessidade de arrombamento.
§ 3o O executado incidirá nas penas de litigância de má-fé quando
injustificadamente descumprir a ordem judicial, sem prejuízo de sua
responsabilização por crime de desobediência.
§ 4o No cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de
obrigação de fazer ou de não fazer, aplica-se o art. 525, no que couber.
§ 5o O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao cumprimento de
sentença que reconheça deveres de fazer e de não fazer de natureza não
obrigacional.
Art. 537. A multa independe de requerimento da parte e poderá ser aplicada
na fase de conhecimento, em tutela provisória ou na sentença, ou na fase de
execução, desde que seja suficiente e compatível com a obrigação e que se
determine prazo razoável para cumprimento do preceito.
§ 1o O juiz poderá, de ofício ou a requerimento, modificar o valor ou a
periodicidade da multa vincenda ou excluí-la, caso verifique que:
I - se tornou insuficiente ou excessiva;
II - o obrigado demonstrou cumprimento parcial superveniente da obrigação
ou justa causa para o descumprimento.
§ 2o O valor da multa será devido ao exequente.
§ 3º A decisão que fixa a multa é passível de cumprimento provisório,
devendo ser depositada em juízo, permitido o levantamento do valor após o
trânsito em julgado da sentença favorável à parte. (Redação dadapela Lei
nº 13.256, de 2016) (Vigência)
§ 4o A multa será devida desde o dia em que se configurar o descumprimento
da decisão e incidirá enquanto não for cumprida a decisão que a tiver
cominado.
§ 5o O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao cumprimento de
sentença que reconheça deveres de fazer e de não fazer de natureza não
obrigacional.
Por exemplo, o consumidor de plano de saúde tem o direito a cobertura de médico
especialista, não tendo médico especialista credenciado, o plano deve custear consultas. Verifica-
se que a tutela específica nada mais é do que dar ao consumidor aquilo que ele possui direito.
Importante consignar que o STJ (Resp. 1.760.955/SP) afirmou que é cabível o reembolso
de despesas efetuadas por beneficiário de plano de saúde em estabelecimento não contratado,
credenciado ou referenciado pela operadora ainda que a situação não se caracterize como caso de
urgência ou emergência, limitado ao valor da tabela do plano de saúde contratado. O art. 12, VI, da
Lei nº 9.656/98 afirma que o reembolso de despesas médicas realizadas em hospital não
credenciado ocorre em casos de urgência ou emergência. O STJ, contudo, confere uma
interpretação mais ampliativa desse dispositivo, afirmando que as hipóteses de urgência e
emergência são apenas exemplos (e não requisitos) desse reembolso.
2.1. IMPACTOS DO CPC NA TUTELA ESPECÍFICA DO DIREITO DO CONSUMIDOR
2.1.1. Adiantamento da tutela específica – CDC, art. 84, §3º
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art846§1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art846§1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art525
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/Lei/L13256.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/Lei/L13256.htm#art2
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/Lei/L13256.htm#art4
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 148
No CDC já havia a possibilidade de antecipação dos efeitos da tutela, quando presente o
periculum in mora e o fumus boni iuris (art. 84, §3º).
§ 3° Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo justificado receio
de ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a tutela liminarmente
ou após justificação prévia, citado o réu.
O CPC/2015 disciplinou as tutelas de urgência da seguinte forma:
• Tutela de urgência (em caráter antecedente ou incidental) - é aplicado ao consumidor
em caráter complementar, ao direito do consumidor interessa a antecipação da
tutela.
• Tutela de evidência (CPC, arts. 311, I a IV) - ampliou-se os efeitos da tutela de
evidência que também vão impactar no direito do consumidor.
2.1.2. Multa coercitiva (astreintes) – CDC, art. 84, §4º:
O CDC já previa a possibilidade de fixação da multa, vejamos:
§ 4° O juiz poderá, na hipótese do § 3° ou na sentença, impor multa diária ao
réu, independentemente de pedido do autor, se for suficiente ou compatível
com a obrigação, fixando prazo razoável para o cumprimento do preceito.
O CPC/2015 determinou que o beneficiário da multa será o próprio consumidor demandante,
bem como que a multa poderá ser fixada na fase de conhecimento, em tutela provisória, na sentença
ou na fase de execução (CPC, art. 537, caput).
Além disso, disciplinou a possibilidade de execução provisória da multa, aplicando-se às
relações de consumo. Por fim, o CPC/2015 também autoriza o juiz a modificar o valor da multa
APENAS das parcelas VINCENDAS, não poderá modificar das parcelas vencidas.
3. COMPETÊNCIA PELO DOMICÍLIO DO CONSUMIDOR
Encontra previsão no art. 101 do CDC, vejamos:
Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e
serviços, sem prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste título, serão
observadas as seguintes normas:
I - a ação pode ser proposta no domicílio do autor;
II - o réu que houver contratado seguro de responsabilidade poderá chamar
ao processo o segurador, vedada a integração do contraditório pelo Instituto
de Resseguros do Brasil. Nesta hipótese, a sentença que julgar procedente
o pedido condenará o réu nos termos do art. 80 do Código de Processo Civil.
Se o réu houver sido declarado falido, o síndico será intimado a informar a
existência de seguro de responsabilidade, facultando-se, em caso afirmativo,
o ajuizamento de ação de indenização diretamente contra o segurador,
vedada a denunciação da lide ao Instituto de Resseguros do Brasil e
dispensado o litisconsórcio obrigatório com este.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 149
Trata-se de competência territorial, portanto, relativa. Salienta-se que é uma faculdade do
consumidor, com o intuito de facilitar o seu acesso à justiça, nada impede que a demanda seja feita
no local do dano.
A cláusula de foro de eleição, quando estabelecida em contrato de adesão, é abusiva.
É possível, ainda, que a competência seja da Justiça Federal nas causas entre consumidor
e concessionária de serviço público de telefonia, quando a ANATEL for litisconsorte passiva
necessária, assistente ou opoente (Súmula vinculante n. 27).
Como o tema foi cobrado em concurso?
TJ/PE (2022) Lucas ingressou com ação de indenização em face da
instituição de ensino privada onde cursa faculdade, tendo ajuizado a causa
no endereço do seu domicílio. A demanda teve por base o contrato de
prestação de serviços que continha cláusula de eleição de foro na cidade
vizinha, domicílio da executada. Em razão disso, a instituição de ensino
requereu, prima facie, a extinção do feito por incompetência do juízo. Nesse
caso, é correto afirmar que se trata de relação de consumo e Lucas está
autorizado a demandar no seu domicílio, a despeito da cláusula de eleição de
foro. Correta!
MPE/SC (2019) Compete à Justiça Federal julgar causas entre consumidor e
concessionária de serviço público de telefonia, quando a ANATEL for
litisconsorte passiva necessária, assistente, ou opoente. Correta!
4. DIREITO À INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA
4.1. PREVISÃO LEGAL
Encontra-se previsto no art. 6º, VIII do CDC, visando a facilitação da defesa dos direitos do
consumidor em juízo.
Art. 6.º, VIII. A facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão
do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for
verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras
ordinárias de experiências
Ressalta-se que esta hipótese é uma inversão judicial do ônus da prova. Ou seja, ocorrerá
a critério do juiz, que irá apreciar as circunstâncias do caso concreto, desde que haja
verossimilhança ou hipossuficiência do consumidor (são alternativos).
4.2. REQUISITOS
4.4.1. Verossimilhança das alegações
Entendendo que a alegação do consumidor é verossímil, ou seja, aparenta ser verdadeira,
com base em indícios de prova, o juiz poderá inverter o ônus da prova.
É uma probabilidade do direito.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 150
4.4.2. Hipossuficiência do consumidor
É a dificuldade do consumidor em produzir a prova de um fato necessário a satisfação de
sua pretensão.
Poderá ser:
• Técnica: o consumidor desconhece as características do produto, possui dificuldade
em demonstrar os vícios;
• Econômica: dificuldade de produzir a prova por questões financeiras, a exemplo de
uma perícia de valor elevado.
Obs.: Hipossuficiência e vulnerabilidade não se confundem. A
vulnerabilidade está relacionada à relação jurídica de direito material,
em que uma das partes está em condição de inferioridade por
questões técnicas, econômicas ou jurídicas, todo consumidor é
vulnerável. Já a hipossuficiência relaciona-se à relação jurídico-
processual, em que há dificuldade de produção de prova, por questões
técnicas ou econômicas, nem todo consumidor é hipossuficiente.
Obs2.: Hipossuficiente não se confunde com necessitado.
4.3. MOMENTO.................................................. 135
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS............................................................................................ 135
2. CONCEITO DE SUPERENDIVIDAMENTO ..................................................................... 135
3. INAPLICABILIDADE .......................................................................................................... 136
4. INFORMAÇÕES ADICIONAIS ......................................................................................... 137
5. NOVAS PROIBIÇÕES NA OFERTA DE CRÉDITO AO CONSUMIDOR ........................ 138
6. NOVOS DEVERES PRÉVIOS DO FORNECEDOR VOLTADOS À CONTRATAÇÃO
CONSCIENTE DE CRÉDITO ...................................................................................................... 139
7. DESCUMPRIMENTO DOS DEVERES DE INFORMAÇÃO ............................................ 139
8. HIPÓTESES EM QUE O CONTRATO DE FORNECIMENTO DE PRODUTO OU SERVIÇO
SERÁ CONSIDERADO CONEXO, COLIGADO OU INTERDEPENDENTE EM RELAÇÃO AO
CONTRATO DE CRÉDITO .......................................................................................................... 139
9. PRÁTICAS ABUSIVAS ESPECÍFICAS PARA O FORNECEDOR DE PRODUTO OU
SERVIÇO QUE ENVOLVA CRÉDITO ......................................................................................... 141
10. CONCILIAÇÃO NO SUPERENDIVIDAMENTO ............................................................... 141
10.1. PROCESSO DE REPACTUAÇÃO DE DÍVIDAS ......................................................... 142
10.2. DÍVIDAS QUE NÃO PODEM SER OBJETO DO PROCESSO DE REPACTUAÇÃO 142
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 9
10.3. NÃO COMPARECIMENTO DO CREDOR ................................................................... 143
10.4. SENTENÇA JUDICIAL QUE HOMOLOGAR O PLANO TERÁ EFICÁCIA DE TÍTULO
EXECUTIVO ....................................................................................................................................... 143
10.5. CONTEÚDO DO PLANO DE PAGAMENTO ............................................................... 143
10.6. NÃO HAVENDO ÊXITO NA CONCILIAÇÃO (ART. 104-B) ......................................... 143
10.7. PRAZO PARA CREDORES SE MANIFESTAREM CONTRARIAMENTE AO PLANO
143
10.8. ADMINISTRADOR ........................................................................................................ 144
10.9. GARANTIA MÍNIMA AOS CREDORES NO PLANO ................................................... 144
10.10. CONCILIAÇÃO ADMINISTRATIVA ............................................................................ 144
DEFESA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO ........................................................................................ 146
1. INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 146
2. TUTELA ESPECÍFICA ...................................................................................................... 146
2.1. IMPACTOS DO CPC NA TUTELA ESPECÍFICA DO DIREITO DO CONSUMIDOR.. 147
2.1.1. Adiantamento da tutela específica – CDC, art. 84, §3º ......................................... 147
2.1.2. Multa coercitiva (astreintes) – CDC, art. 84, §4º: .................................................. 148
3. COMPETÊNCIA PELO DOMICÍLIO DO CONSUMIDOR ................................................ 148
4. DIREITO À INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA ............................................................... 149
4.1. PREVISÃO LEGAL ........................................................................................................ 149
4.2. REQUISITOS ................................................................................................................. 149
4.4.1. Verossimilhança das alegações ............................................................................ 149
4.4.2. Hipossuficiência do consumidor ............................................................................ 150
4.3. MOMENTO DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA .................................................... 150
4.4. CUSTEIO DA PROVA ................................................................................................... 150
4.5. EFEITOS DA INVERSÃO.............................................................................................. 151
5. TUTELA DO CONSUMIDOR NOS CONTRATOS DE PLANO DE SAÚDE .................... 152
CRIMES CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO ...................................................................... 166
1. PREVISÃO LEGAL ........................................................................................................... 166
2. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................... 166
3. SUJEITO PASSIVO .......................................................................................................... 166
4. OMISSÃO SOBRE A NOCIVIDADE (ART. 63) ................................................................ 166
4.1. OBJETIVIDADE JURÍDICA ........................................................................................... 167
4.2. FIGURA EQUIPARADA ................................................................................................ 167
4.3. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 168
4.4. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 168
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 10
5. DEIXAR DE COMUNICAR A NOCIVIDADE DESCOBERTA POSTERIORMENTE À
COLOCAÇÃO NO MERCADO .................................................................................................... 168
5.1. DIFERENÇA PARA O ART. 63 ..................................................................................... 168
5.2. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 168
5.3. FORMA EQUIPARADA (PARÁGRAFO ÚNICO) .......................................................... 169
5.4. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 169
5.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 169
6. EXECUÇÃO DE SERVIÇO CONTRARIANDO DETERMINAÇÃO DE AUTORIDADE
COMPETENTE............................................................................................................................. 170
6.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 170
6.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 170
6.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 170
7. AFIRMAÇÃO FALSA E OMISSÃO DE INFORMAÇÃO RELEVANTE SOBRE PRODUTOS
OU SERVIÇOS............................................................................................................................. 171
7.1. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................ 171
7.2. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 171
7.3. CONFLITO DE NORMAS .............................................................................................. 171
7.4. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 171
7.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 172
8. PUBLICIDADE ENGANOSA OU ABUSIVA OU CAPAZ DE INDUZIR O CONSUMIDOR A
SE COMPORTAR DE FORMA PREJUDICIALDA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA
Trata-se de REGRA DE INSTRUÇÃO, devendo a decisão judicial que determiná-la ser
proferida preferencialmente na fase de saneamento do processo ou, pelo menos, assegurar à parte
a quem não incumbia inicialmente o encargo a reabertura de oportunidade para manifestar-se nos
autos.
Salienta-se que a jurisprudência desta Corte é no sentido de que a inversão
do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do CDC, é regra de instrução e não
regra de julgamento, motivo pelo qual a decisão judicial que a determina deve
ocorrer antes da etapa instrutória, ou quando proferida em momento
posterior, garantir a parte a quem foi imposto o ônus a oportunidade de
apresentar suas provas. STJ. 4ª Turma. REsp 1.286.273-SP, Rel. Min. Marco
Buzzi, julgado em 08/06/2021 (Info 701).
Trata-se de distribuição dinâmica do ônus da prova, ou seja, o magistrado tem o poder de
redistribuir (inverter) o ônus da prova, caso verifique a verossimilhança da alegação ou a
hipossuficiência do consumidor.
4.4. CUSTEIO DA PROVA
Há duas correntes acerca do custeio do ônus da prova, vejamos:
1ªC: a inversão do ônus da prova também importa em inversão do seu custeio.
2ªC: inversão do ônus da prova não se confunde com o custeio da prova, são coisas
distintas.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 151
4.5. EFEITOS DA INVERSÃO
A inversão do ônus da prova deve recair sobre fatos pontuais, específicos e não sobre todo
o processo.
Obs.: Não se admite a inversão que acarrete prova diabólica para o
fornecedor.
4.6. INVERSÃO LEGAL (OPE LEGIS) DO ÔNUS DA PROVA
Vimos acima que a inversão do ônus da prova prevista no art. 6º, inciso VIII e tão aplicada
na prática forense corresponde à hipótese de inversão ope iudicis do ônus probatório, ou seja,
depende de decisão judicial, não se operando automaticamente e dependendo do preenchimento
dos requisitos do CDC.
Não obstante, há outras hipóteses no CDC que permitem uma inversão ope legis do ônus
probatório, isto é, o ônus é legalmente atribuído a outrem
Art. 12, § 3º, II: O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não
será responsabilizado quando provar que, embora haja colocado o produto
no mercado, o defeito inexiste;
Art. 14, § 3º, I: O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando
provar
que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
Art. 38: O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação
publicitária cabe a quem as patrocina.
Importante lembrar, ainda, que além das hipóteses de inversão judicial e legal do ônus
probatório, nada impede que as partes promovam a inversão convencional, isto é, deliberem
consensualmente sobre a distribuição do ônus probatório.
Nesta hipótese, estaremos diante de verdadeiro negócio jurídico processual, devendo-se
respeitar as limitações para a celebrado do acordo (art. 373, §3º, CPC):
a) Não recair sobre direito indisponível da parte;
b) não tornar excessivamente difícil a uma parte o exercício do direito.
Por fim, lembramos que é nula de pleno direito a cláusula contratual que estabeleça inversão
do ônus da prova em prejuízo do consumidor (art. 51, VI, do CDC).
Como o tema foi cobrado em concurso?
DPE/PR (2022) O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação publicitária cabe a quem as patrocina, havendo sua inversão
quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for o
consumidor hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências.
Errada!
DPE/MS (2022) A Defensoria Pública do Estado Alfa ajuizou ação coletiva em
face da Instituição Financeira ZZ, sob o argumento, plenamente verossímil,
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 152
em razão das circunstâncias do caso, de que estariam sendo cobrados
serviços dos consumidores sem que tivessem sido previamente solicitados.
À solicitação de inversão do ônus da prova foi oposto o argumento, pela
instituição demandada, de que a legislação de regência não admitia tal
possibilidade em ação coletiva dessa espécie. À luz da sistemática vigente,
cabe afirmar que a inversão do ônus da prova, na situação descrita, é correta,
pois o termo consumidor deve ser interpretado em sentido amplo, enquanto
destinatário da proteção, de modo a facilitar a sua defesa, individual ou
coletiva.
TJ/AP (2022) Osmar ingressou com ação judicial em face da fabricante do
telefone celular, alegando que houve problemas ainda no período de vigência
da garantia legal. No momento da contestação, a parte ré apresentou o laudo
realizado pela assistência técnica autorizada da fabricante, indicando que o
problema apresentado no aparelho celular se relaciona ao mau uso,
documento esse acompanhado por fotografia que demonstra marcas
compatíveis com choque físico no bem, ao passo que Osmar requereu a
inversão do ônus da prova. A respeito de tal situação, é correto afirmar que
embora se trate de relação de consumo, com inversão do ônus da prova como
um direito básico garantido ao consumidor, não está dispensado o dever da
parte autora de fazer prova quanto ao fato constitutivo do seu direito. Correta!
TJ/GO (2021) O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação publicitária cabe a quem alega sua falsidade ou incorreção.
Errada!
5. TUTELA DO CONSUMIDOR NOS CONTRATOS DE PLANO DE SAÚDE
A Lei 9.656/1998 dispõe sobre planos e seguros privados de assistência à saúde, trazendo
algumas diretrizes para a implementação dos contratos nesta seara. Cabe observar, contudo, que
o contrato de saúde é um instrumento eminentemente de direito privado, logo há, em teoria, ampla
margem negocial entre os contratantes. O que por um lado é positivo, pois assegura à autonomia
da vontade e a liberdade contratual. Por outro, se desmedida, tal liberdade ofenderá os demais
objetivos que devem ser perquiridos com sua celebração, em específico, o direito à saúde.
Desta forma, é comum ver discussões judiciais sobre a validade de cláusulas e até mesmo
de contratos de seguro saúde em sua integralidade.
➔ QUESTÃO: O rol de procedimentos e eventos da ANS é meramente explicativo ou
taxativo? O plano de saúde pode se recusar a cobrir tratamento médico voltado à cura
de doença coberta pelo contrato sob o argumento de que o referido tratamento não está
previsto na lista de procedimentos da ANS?6
Imagine que João, cliente da Unimed, está acometido de uma doença que causa o desgaste
de suas vértebras. Seu médico receitou determinado procedimento cirúrgico. Ocorre que o plano
6 Ponto extraído da publicação CAVALCANTE, Márcio André Lopes. O rol de procedimentos e eventos da ANS é meramente
explicativo ou taxativo? O plano de saúde pode se recusar a cobrir tratamento médico voltado à cura de doença coberta pelo contrato
sob o argumento de que o referido tratamento não está previsto na lista de procedimentos da ANS?. Buscador Dizer o Direito, Manaus.
Disponível em: . Acesso em:
24/01/2023.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 153
de saúde não autorizou o custeio argumentando que esse tratamento não está no rol de
procedimento previsto pela Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS.
Diante disso, João ajuizou ação contra a Unimed sustentando a tese de que o rol
procedimentos e eventos da ANS é meramente explicativo (e não exaustivo).
Lembremos que ANS é a sigla para Agência Nacional de Saúde Suplementar. Trata-se de
uma autarquia sob regime especial criada pela Lei nº 9.961/2000.
Uma das atribuições da ANS é a de elaborar uma lista de procedimentos que deverão ser
custeados pelas operadoras de planos de saúde. Essa competência está prevista no art. 4º, III, da
Lei nº 9.961/2000. Logo, a ANS prepara uma lista de tratamentos que deverão ser obrigatoriamente
fornecidos pelos planos de saúde.
A Lei nº 9.656/98 também confere........................................................................... 172
8.1. DIFERENÇA ENTRE OS TIPOS .................................................................................. 172
8.2. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................ 173
8.3. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 173
8.4. CONFLITO DE NORMAS .............................................................................................. 173
8.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 174
9. DEIXAR DE ORGANIZAR DADOS-BASE À PUBLICIDADE .......................................... 174
9.1. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................ 174
9.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 174
9.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 174
10. EMPREGAR NA REPARAÇÃO COMPONENTES USADOS SEM AUTORIZAÇÃO ..... 174
10.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 174
10.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 175
10.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 175
11. COBRANÇA VEXATÓRIA OU VIOLENTA....................................................................... 175
11.1. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................ 175
11.2. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 175
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 11
11.3. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 176
11.4. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 176
12. IMPEDIR ACESSO ÀS INFORMAÇÕES SOBRE O CONSUMIDOR ............................. 176
12.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 176
12.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 176
12.3. Consumação e tentativa ................................................................................................ 176
13. DEIXAR DE CORRIGIR INFORMAÇÃO INEXATA SOBRE O CONSUMIDOR ............. 177
13.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 177
13.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 177
13.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 177
14. DEIXAR DE ENTREGAR TERMO DE GARANTIA ADEQUADAMENTE PREENCHIDO
177
14.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 177
14.2. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 178
15. AGRAVANTES .................................................................................................................. 178
16. PENA DE MULTA NOS CRIMES DO CDC (art. 77) ........................................................ 179
17. VALOR DE FIANÇA NO CDC........................................................................................... 180
18. ASSISTENTE DE ACUSAÇÃO E AÇÃO PENAL SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA (art. 80 c/c
art. 82, III e IV) .............................................................................................................................. 180
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 12
APRESENTAÇÃO
Olá!
Inicialmente gostaríamos de agradecer a confiança em nosso material. Esperamos que seja
útil na sua preparação, em todas as fases. A grande maioria dos concurseiros possui o hábito de
trocar o material de estudo constantemente, principalmente, em razão da variedade que se tem
hoje, cada dia surge algo novo. O ideal é você utilizar sempre a mesma fonte, fazendo a
complementação necessária, eis que quanto mais contato temos com determinada fonte de estudo,
mais familiarizados ficamos, o que se torna primordial na hora da prova.
O Caderno Sistematizado de Direito do Consumidor possui como base as aulas do Prof.
Leonardo Garcia (CERS) e Landolfo Andrade (G7), com o intuito de deixar o material mais completo,
utilizados as seguintes fontes complementares: a) Interesses Difusos e Coletivos Esquematizados,
2023, (Cleber Masson, Landolfo Andrade.); b) Código de Defesa do Consumidor Comentado artigo
por artigo, 2024, (Leonardo de Medeiros Garcia).
Na parte jurisprudencial, utilizamos os informativos do site Dizer o Direito
(www.dizerodireito.com.br), os livros: Principais Julgados STF e STJ Comentados, Vade Mecum de
Jurisprudência Dizer o Direito, Súmulas do STF e STJ anotadas por assunto (Dizer o Direito).
Destacamos que é importante você se manter atualizado com os informativos, reserve um
dia da semana para ler no site do Dizer o Direito.
Como você pode perceber, reunimos em um único material diversas fontes (aulas + doutrina
+ informativos + lei seca + questões) tudo para otimizar o seu tempo e garantir que você faça uma
boa prova.
Por fim, como forma de complementar o seu estudo, não esqueça de fazer questões. É muito
importante!! As bancas costumam repetir certos temas.
Vamos juntos!! Bons estudos!!
Equipe Cadernos Sistematizados.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 13
NOÇÕES INTRODUTÓRIAS
1. ORIGEM DO DIREITO DO CONSUMIDOR
Inicialmente, destaca-se que o ser humano realiza atos de consumo desde sempre, há,
inclusive, menção no Código de Hamurabi. Contudo, focaremos o estudo a partir da história mais
recente da humanidade, especialmente à época que surgiu a sociedade de consumo em massa.
Pós-revolução industrial muitas pessoas que viviam no campo migraram para as cidades em
busca de empregos, causando, consequentemente, a insuficiência de serviços públicos e o
surgimento de dois grandes grupos: fornecedores (controlam os meios de produção) e
consumidores (que, por não controlarem os bens de produção, se submetem ao poder econômico
do primeiro grupo). Estava formada a sociedade de consumo em massa, levada por técnicas
eficientes de marketing a consumir de modo impulsivo e sem reflexão.
Neste cenário, o direito privado tradicional mostrou-se ineficaz para tutelar os agentes
econômicos vulneráveis: os consumidores.
Atribui-se a um discurso do Presidente norte-americano John F. Kennedy, no ano de 1962
– no qual foram referidos como direitos básicos o direito à segurança, o direito à informação, o
direito de escolha e o direito de ser ouvido –, o despertar para uma reflexão mais profunda sobre a
importância da proteção dos direitos dos consumidores.
No ano de 1972 realizou-se, em Estocolmo, a Conferência Mundial do Consumidor. A
Organização das Nações Unidas (ONU), no ano de 1985, por meio da Resolução 39/248,
estabeleceu diretrizes para o Direito do Consumidor, reconhecendo a necessidade de proteção
desse agente econômico vulnerável, em suas relações frente aos fornecedores.
No Brasil, a CF/88 erigiu o Direito do Consumidor à categoria de direito fundamental.
Em 1990, editou-se o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990).2. FINALIDADE DO DIREITO DO CONSUMIDOR
Basicamente, visa proteger o consumidor (agente vulnerável), reduzindo a desigualdade
existente entre ele e o fornecedor na relação de consumo, com o consequente restabelecimento do
equilíbrio.
3. DEFINIÇÃO DE DIREITO DO CONSUMIDOR
Direito do Consumidor é o conjunto de normas e princípios que regula a tutela de um sujeito
especial de direitos, a saber, o consumidor, como agente privado vulnerável, nas suas relações
frente a fornecedores.
Destaca-se que o enfoque, no Brasil, é a proteção do sujeito vulnerável, por isso se tutela o
consumidor. Na França, diferentemente, tutela-se o consumo (Direito do Consumo), ou seja, foca-
se no objeto.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 14
O DIREITO DO CONSUMIDOR E A CF/88
1. DIREITO FUNDAMENTAL
A CF/88 consagrou a defesa do consumidor como um direito fundamental, nos termos do
art. 5º, XXXII, in verbis:
Art. 5º XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor.
Perceba que se trata de um direito público subjetivo geral, de proteção contra a ação estatal
(direito de defesa) e de um direito a uma ação afirmativa ou positiva do Estado em favor dos
consumidores (direito a prestações).
É um direito de terceira geração/dimensão.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/MA – CESPE - 2022) A defesa do consumidor é um direito constitucional
fundamental e também um dos princípios da atividade econômica. Correta!
1.1. EFEITOS DO STATUS DE DIREITO FUNDAMENTAL
A doutrina aponta três consequências da consagração do Direito do Consumidor como um
direito fundamental. Vejamos:
a) Proteção como parte do núcleo imodificável da CF – trata-se, portanto, de uma cláusula
pétrea (art. 60, §4º);
b) Eficácia vertical e eficácia horizontal (direta ou indireta) do direito fundamental – o Estado
deverá garantir que os fornecedores respeitem o direito do consumidor. Será direta,
quando utilizar o texto constitucional para proteção dos direitos dos consumidores; será
indireta, quando utilizar norma infraconstitucional para proteção, por exemplo as normas
do CDC.
c) Garantia constitucional deste novo ramo do direito, tendo em vista a força normativa da
Constituição. Significa que nenhuma lei poderá desrespeitar a normatividade do CDC,
pois está lastreada na força normativa da Constituição, o que garante a eficácia de suas
normas.
Assim, havendo conflito entre o CDC e outra lei infraconstitucional, deve prevalecer o CDC
que tem proteção constitucional, respeitando-se a força normativa.
OBS.: Para alguns, aplica-se aqui a Teoria da Proibição do
Retrocesso, segundo a qual, qualquer norma que tente diminuir ou
suprimir direitos dos consumidores deve ser considerada
inconstitucional.
2. PRINCÍPIO DA ORDEM ECONÔMICA
A CF, em seu art. 170, V, consagra o Direito do Consumidor como um princípio da ordem
econômica. Desta forma, o Estado poderá intervir na economia para a defesa dos consumidores.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 15
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e
na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme
os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
V - defesa do consumidor
Para a doutrina, este princípio possui um caráter conformador, pois autoriza a intervenção
do Estado na economia – decorrência do Estado Social de Direito -, bem como conforma a atuação
do fornecedor, garantindo a sua livre iniciativa, mas, também, garantindo a proteção do consumidor.
É uma forma de harmonizar o sistema, evitando o desequilíbrio na relação consumerista.
Destaca-se que a livre iniciativa e a defesa do consumidor não são incompatíveis entre si,
atuam em harmonia como vetores a orientar, delimitar e justificar a ação interventiva do Estado no
domínio econômico, visando assegurar a todos uma existência digna.
Ademais, pode-se afirmar que se trata de um princípio de ação política, tendo em vista que
legitima o Estado a adotar políticas protetoras ao consumidor.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/MA – CESPE - 2022) A defesa do consumidor é um direito constitucional
fundamental e também um dos princípios da atividade econômica. Correta!
3. COMPETÊNCIA LEGISLATIVA
Nos termos do art. 24 da CF, a competência para legislar sobre produção e consumo (inciso
V), bem como sobre responsabilidade por danos ao consumidor (inciso VIII) é CONCORRENTE
entre a União, os Estados e o DF.
Trata-se de uma competência vertical ou não cumulativa.
A União possui competência para legislar sobre as normas gerais, ao passo que os Estados
e o DF podem legislar de forma suplementar, ou seja, com o intuito de adequar a legislação federal
às peculiaridades locais.
Destaca-se que havendo inércia da União, poderá ser exercida a competência plena, nos
termos dos §§ 3º e 4º, do art. 24 da CF.
Art. 24. Compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar
concorrentemente sobre:
(...)
V - produção e consumo;
(...)
VIII - responsabilidade por dano ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e
direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico;
(...)
§ 3º Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a
competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades.
§ 4º A superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia
da lei estadual, no que lhe for contrário.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 16
O STF, no julgamento da ADI 4512/MS, julgou constitucional lei estadual que obrigue plano
de saúde a justificar recusa de tratamento, não havendo violação à competência privativa da União,
tendo em vista que trata de proteção ao consumidor, matéria de competência concorrente.
STF ADI 4512/MS: É constitucional lei estadual que obrigue os planos de
saúde a fornecerem aos consumidores informações e documentos
justificando as razões pelas quais houve recusa de algum procedimento,
tratamento ou internação. O Mato Grosso do Sul editou uma lei estadual
prevendo que, se o plano de saúde recusar algum procedimento, tratamento
ou internação, ele deverá fornecer, por escrito, ao usuário, um comprovante
fundamentado expondo as razões da negativa. O STF entendeu que essa
norma não viola competência privativa da União, considerando que ela
trata sobre proteção ao consumidor, matéria inserida na competência
concorrente (art. 24, V, da CF/88). STF. Plenário. ADI 4512/MS, Rel. Min.
Cármen Lúcia, julgado em 7/2/2018 (Info 890)
Igualmente, os Municípios possuem competência para legislar sobre direito do consumidor,
tratando-se de interesse local, nos termos do art. 30 da CF.
Art. 30. Compete aos Municípios:
I - legislar sobre assuntos de interesse local;
Cita-se, como exemplo, lei municipal que obrigue agências bancárias a disponibilizarem
bebedouros ou banheiros aos clientes; lei municipal que regule o tempo de espera em filas.
Recurso extraordinário. Constitucional. Consumidor. Instituição bancária.
Atendimento ao público. Fila. Tempo de espera. Lei municipal. Norma de
interesse local, legitimidade. Lei municipal 4.188/01. Banco. Atendimento ao
público e tempo máximo de espera na fila. Matéria que não se confunde com
a atinente às atividades bancárias. Matéria de interesse local e de proteção
ao consumidor. Competência legislativa do município. Recurso extraordinário
conhecido e provido. (STF, RE 432.789)
STF Info 917 - É constitucional lei municipal que proíbe a conferência de
mercadorias realizada na saída de estabelecimentos comerciais localizados
na cidade. A Lei prevê que, após o cliente efetuar o pagamento nas caixas
registradoras da empresa instaladas, não é possível nova conferência na
saída. Os Municípios detêm competência para legislar sobre assuntos de
interesse local (art. 30, I, da CF/88), ainda que, de modo reflexo, tratem de
direito comercial oudo consumidor. STF. 2ª Turma. RE 1052719 AgR/PB,
Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 25/9/2018 (Info 917).
Súmula Vinculante 38-STF: É competente o município para fixar o horário
de funcionamento de estabelecimento comercial.
Por fim, conforme leciona o Prof. Márcio Cavalcante (Dizer o Direito), não existe um critério
objetivo para definir, de maneira absolutamente segura, em que consiste o interesse local e quando
a legislação ultrapassa isso. Assim, deve-se prestigiar a vereança local, que bem conhece a
realidade e as necessidades da comunidade.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 17
4. PROTEÇÃO INFRACONSTITUCIONAL
O legislador constituinte, no art. 48 do ADCT, determinou que em 120 dias, após a
promulgação da CF/88, o Congresso Nacional deveria editar um Código de Defesa do Consumidor,
confirmando a grande importância deste ramo do direito na tutela dos vulneráveis.
Art. 48 ADCT - O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da
promulgação da Constituição, elaborará código de defesa do consumidor.
Em 1990, editou-se a Lei 8.078/90, Código de Defesa do Consumidor (CDC) que organizou,
sistematicamente, as normas de proteção a este sujeito especial de direitos, a partir de princípios e
regras específicas, que serão analisados ao longo do nosso Caderno Sistematizado.
OBS.: De acordo com STF e STJ, o CDC não pode ser aplicado em
situações anteriores a sua vigência. Salvo nos casos de prestações
sucessivas, em que o contrato é por prazo indeterminado, a exemplo
dos contratos de plano de saúde
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 18
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR
1. INFLUÊNCIAS
O Código de Defesa do Consumidor foi inspirado em vários modelos legislativos estrangeiros
(Portugal, Espanha, México, Direito Comunitário Europeu), mas foi o Código de Consumo francês
nossa principal influência.
Salienta-se que o CDC foi uma norma extremamente revolucionária, servindo, hoje, como
modelo para outros países da América Latina.
2. MICROSSISTEMA JURÍDICO
O CDC inaugurou um microssistema jurídico, pois trouxe princípios gerais que devem
orientar a aplicação das normas consumeristas em todas as relações jurídicas de consumo.
Instituiu uma base principiológica sólida que confere coesão ao sistema, sem ter a
preocupação de exauri-lo.
Por exemplo, não trata de cada espécie de relação jurídica, mas trouxe uma base sólida de
princípios que devem ser observados em todas e quaisquer relações jurídicas que envolvam
fornecedor e consumidor.
STJ - O microssistema jurídico criado pela legislação consumerista busca
dotar o consumidor de instrumentos que permitam um real exercício dos
direitos a ele assegurados e, entre os direitos básicos do consumidor,
previstos no art. 6.º, VIII, está a facilitação da defesa dos direitos privados
Podemos citar, ainda, a multidisciplinaridade como outra característica do CDC, visto que
cuida de questões que se acham inseridas nos Direitos Constitucional, Civil, Penal, Processual e
Administrativo, sempre com o intuito de promover a efetiva tutela dos interesses dos consumidores.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/MA – CESPE - 2022) O CDC é interpretado pela doutrina como
microssistema, o que demonstra sua multidisciplinaridade e organicidade, a
indicar um isolamento em relação ao restante do ordenamento jurídico.
Errada!
(MPE/SC – CESPE - 2023) O CDC é uma lei abrangente que trata das
relações de consumo tanto na esfera civil quanto nas esferas administrativa
e penal. Correta!
3. LEI PRINCIPIOLÓGICA
O CDC é uma lei principiológica, tendo em vista que consagra os princípios que devem ser
seguidos em todas as relações de consumo.
É, nos termos do seu art. 1º, uma norma de ordem pública e de interesse social, inserida
(como já vimos), no microssistema.
Art. 1º CDC - O presente código estabelece normas de proteção e defesa do
consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos dos arts. 5°,
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 19
inciso XXXII, 170, inciso V, da Constituição Federal e art. 48 de suas
Disposições Transitórias.
3.1. NORMA DE ORDEM PÚBLICA
De acordo com o Prof. Landolfo de Andrade, as normas de ordem pública ou cogentes são
aquelas que, por estabelecerem valores básicos e fundamentais de nossa ordem jurídica,
transcendem o interesse das partes, prevalecendo sobre a vontade destas.
São normas que permitem a intervenção do juiz de ofício, a fim de que seja preservado o
interesse do consumidor e o interesse social. Por exemplo, em tese, o juiz pode inverter o ônus da
prova de ofício, declarar a nulidade de cláusulas abusivas (doutrina entende que para qualquer
contrato de consumo).
ATENÇÃO! A Súmula 381 do STJ proíbe que o juiz declare de ofício
as cláusulas abusivas nos contratos bancários.
Súmula 381 STJ – Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer,
de ofício, da abusividade da cláusula.
Cláudia Lima Marques, em entendimento minoritário, afirma que o CDC poderá retroagir e
ser aplicado a relações que tenham ocorrido antes de sua vigência, justamente por ser considerado
uma norma de ordem pública. Atente-se, contudo, que nem o STF e nem o STJ aceitam esta tese.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MPE/SC – CESPE - 2021) O CDC estabelece normas de ordem pública e de
interesse social dirigidas à proteção e à defesa de todos os consumidores, o
que inclui, por equiparação, as vítimas de defeito de conformidade ou de vício
do serviço. Errada!
3.2. NORMA DE INTERESSE SOCIAL
Para Landolfo Andrade, o CDC é uma norma de interesse social, pois interessa mais
diretamente à sociedade do que aos particulares.
O CDC visa proteger a relação de consumo. Ou seja, o combate aos abusos, não interessa
apenas às partes, mas sim a toda coletividade, pois estas relações são disseminadas.
4. POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO
O art. 4º do CDC é considerado uma norma narrativa, pois traz os objetivos e os princípios
da relação de consumo, não se limitando a estabelecer um programa. Funciona como um guia para
a aplicação das demais normas do CDC.
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o
atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia
das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de
consumo;
II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor:
a) por iniciativa direta;
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 20
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações
representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de
qualidade, segurança, durabilidade e desempenho.
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo
e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de
desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios
nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição Federal),
sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e
fornecedores;
IV - educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos
seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo;
V - incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de
qualidade e segurança de produtos e serviços, assim como de mecanismos
alternativos de solução de conflitos de consumo;
VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no
mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização indevida
de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciaise signos
distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores;
VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos;
VIII - estudo constante das modificações do mercado de consumo.
IX - fomento de ações direcionadas à educação financeira e ambiental dos
consumidores;
X - prevenção e tratamento do superendividamento como forma de evitar a
exclusão social do consumidor.
Salienta-se que os incisos IX e X foram incluídos pela Lei 14.181/2021, conhecida como Lei
do Superendividamento. Portanto, agora foram elencados como novos “princípios” da defesa do
consumidor a educação financeira, a educação ambiental e a prevenção e tratamento do
superendividamento como forma de evitar a exclusão social do consumidor.
Objetivos da política nacional das relações de consumo:
• Defesa dos interesses dos consumidores;
• Transparência nas relações de consumo;
• Harmonia entre consumidores e fornecedores.
Destaca-se que embora inspirada na reconhecida necessidade de proteger o consumidor,
agente vulnerável nas relações de consumo, não tem caráter paternalista, ou seja, não visa
favorecer ilimitada e injustificadamente este especial sujeito de direitos. Ao contrário, quando se fala
em “política nacional de relações de consumo”, o que se busca é a propalada harmonia que deve
regê-las a todo momento.
Obs.: O art. 4º, ao definir os fins, impõe obrigações de resultados. Por
isso, é dotado de eficácia plena, designando um programa de
interesse público, voltado à consecução de uma finalidade – defesa do
consumidor – imposta pela CF e na Lei.
CS DE CONSUMIDOR – 2024.2 21
O art. 5º do CDC consagra os instrumentos que o Poder Público poderá utilizar para executar
a Política Nacional das Relações de Consumo. Observe:
Art. 5° Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo,
contará o poder público com os seguintes instrumentos, entre outros:
I - manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor
carente;
II - instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no âmbito
do Ministério Público;
III - criação de delegacias de polícia especializadas no atendimento de
consumidores vítimas de infrações penais de consumo;
IV - criação de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas
Especializadas para a solução de litígios de consumo;
V - concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de
Defesa do Consumidor.
VI - instituição de mecanismos de prevenção e tratamento extrajudicial e
judicial do superendividamento e de proteção do consumidor pessoa
natural;
VII - instituição de núcleos de conciliação e mediação de conflitos oriundos
de superendividamento.
A Lei 14.181/2021 acrescentou dois novos incisos ao art. 5º do CDC, a fim de proteger o
consumidor do superendividamento.
Obs.: Os princípios (art. 4º do CDC), são diretrizes gerais e abstratas
que orientam a política de consumo, já os instrumentos (art. 5º do
CDC), são os meios concretos utilizados para a execução dessa
política.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(DPE/AC – CESPE – 2024 – adaptada) O reconhecimento da vulnerabilidade
do consumidor no mercado de consumo é um instrumento com o qual o poder
público contará para a execução da Política Nacional das Relações de
Consumo. Errada! Trata-se de princípio.
(MPE/SC – CESPE - 2021) A racionalização dos serviços públicos constitui
um princípio a ser observado pela Política Nacional das Relações de
Consumo. Correta!
(TJ/AC - VUNESP - 2019) A Política Nacional das Relações de Consumo é
regida pelo seguinte princípio, dentre outros, educação e informação de
consumidores e fornecedores quanto aos seus direitos e deveres, com vistas
à melhoria do mercado de consumo. Correta!
5. DIÁLOGO DAS FONTES
É uma técnica utilizada para solucionar conflitos de interesses. Por ser uma norma
principiológica, os princípios do direito do consumidor alcançam as relações consumeristas em todo
o ordenamento jurídico.
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Para melhor entendimento, o Professor usa o exemplo de uma laranja. Afirma que por ser
uma norma principiológica, o CDC faz um corte transversal na laranja, alcançando todos os seus
gomos. Desta forma, será aplicado aos planos de saúde, às relações hoteleiras, às mensalidades
escolares, ao transporte de passageiros, enfim todos os ramos da atividade econômica.
Há leis setoriais, as quais regulam cada atividade econômica. Haverá, com isso, uma relação
de convivência entre o CDC e estas leis. Consequentemente, há casos em que pode ocorrer um
conflito aparente de normas, como numa discussão envolvendo a abusividade de cláusulas de um
contrato de plano de saúde.
5.1. CRITÉRIOS TRADICIONAIS DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS DE NORMAS
Os critérios tradicionais excluem uma das normas do ordenamento jurídico, verdadeiro
monólogo. Atualmente, são insuficientes para a solução de conflitos entre normas.
5.1.1. Critério cronológico
A lei mais nova retira do sistema a lei anterior com ela conflitante.
5.1.2. Critério da especialidade
A lei geral nova não revoga a lei especial anterior, a não ser que incorpore ou regule
inteiramente a matéria que tratava a lei especial antiga.
5.1.3. Critério da hierarquia
A lei hierarquicamente superior tem prioridade de aplicação e pode afastar ou revogar a lei
inferior com ela conflitante.
5.2. CRITÉRIO ATUAL
Como visto acima, o diálogo das fontes é um novo critério de solução de conflitos entre
normas. Por este critério, as duas leis serão aplicadas uma em caráter principal e a outra de forma
complementar/subsidiária.
O STF reconhece o uso da teoria do diálogo das fontes, vejamos:
A Emenda Constitucional 40, na medida em que conferiu maior vagueza à
disciplina constitucional do sistema financeiro (dando nova redação ao art.
192), tornou ainda maior esse campo que a professora Claudia Lima Marques
denominou “diálogo entre fontes” – no caso, entre a lei ordinária (que
disciplina as relações consumeristas) e as leis complementares (que
disciplinam o sistema financeiro nacional). (STF, ADI 2.591/DF).
OBS.: O CDC será sempre aplicado em caráter primário e as outras
normas serão aplicadas subsidiariamente, desde que compatíveis
com a principiologia do CDC.
5.3. DIÁLOGO ENTRE O CDC E O CC
Identifica-se três espécies de diálogos entre o CDC e o CC (Cláudia Lima Marques), a seguir
analisaremos cada uma delas.
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5.3.1. Diálogo sistemático de coerência
Consiste no aproveitamento da base conceitual de uma lei pela outra. Conceitos gerais do
CC (pessoa jurídica, nulidades, provas, contratos) podem ser aproveitados na aplicação do CDC,
que deles não se ocupou.
Salienta-se que o CDC se preocupou apenas com a construção de conceitos específicos,
considerados importantes para a sistemática de defesa dos sujeitos consumidores (ex.: consumidor,
fornecedor, produto, serviço).
5.3.2. Diálogo sistemático de complementaridade
É a adoção de princípios e normas, em caráter complementar, por um dos sistemas, quando
se fizer necessário para a solução de um caso concreto.
Na relação de consumo, aplica-se prioritariamente o CDC, e só subsidiariamente, no que
couber e for complementarmente necessário, o CC.
Por exemplo, o CDC, em seu art. 42, parágrafo único, dispõe que o consumidor cobrado em
quantia indevida tem direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em
excesso. Porém, não estabelece o prazo para o consumidor buscar a satisfação dessa pretensão
em juízo. Nesse caso, como não há norma específica a reger a hipótese, aplica-se,
complementarmente, o prazo prescricional de dez anos, estabelecido pela regra geral do Código
Civil de 2002 (art. 205).
5.3.3. Diálogo das influências recíprocas sistemáticas
É a influência do sistema especial no geral e do sistema geral