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DIREITO DO
CONSUMIDOR
Edição 2026.1
REVISADA
ATUALIZADA
AMPLIADA
Teoria • Jurisprudência • Lei Seca • Questões
Tudo em um só lugar
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 1
CADERNO DE CONSUMIDOR
APRESENTAÇÃO.............................................................................................................................. 11
NOÇÕES INTRODUTÓRIAS ............................................................................................................ 13
1. ORIGEM DO DIREITO DO CONSUMIDOR .......................................................................... 13
2. FINALIDADE DO DIREITO DO CONSUMIDOR .................................................................... 13
3. DEFINIÇÃO DE DIREITO DO CONSUMIDOR ...................................................................... 13
O DIREITO DO CONSUMIDOR E A CF/88 ...................................................................................... 15
1. DIREITO FUNDAMENTAL ..................................................................................................... 15
1.1. EFEITOS DO STATUS DE DIREITO FUNDAMENTAL ................................................. 15
2. PRINCÍPIO DA ORDEM ECONÔMICA.................................................................................. 16
3. COMPETÊNCIA LEGISLATIVA ............................................................................................. 16
4. PROTEÇÃO INFRACONSTITUCIONAL ................................................................................ 18
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR ...................................................................................... 19
1. INFLUÊNCIAS......................................................................................................................... 19
2. MICROSSISTEMA JURÍDICO................................................................................................ 19
3. LEI PRINCIPIOLÓGICA.......................................................................................................... 19
3.1. NORMA DE ORDEM PÚBLICA ...................................................................................... 20
3.2. NORMA DE INTERESSE SOCIAL ................................................................................. 20
4. POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO .................................................... 20
5. DIÁLOGO DAS FONTES........................................................................................................ 22
5.1. CRITÉRIOS TRADICIONAIS DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS DE NORMAS .............. 23
5.2. CRITÉRIO ATUAL ........................................................................................................... 23
5.3. DIÁLOGO ENTRE O CDC E O CC ................................................................................. 23
5.3.1. Diálogo sistemático de coerência ............................................................................ 23
5.3.2. Diálogo sistemático de complementaridade ............................................................ 23
5.3.3. Diálogo das influências recíprocas sistemáticas ..................................................... 24
6. PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO DO CONSUMIDOR ..................................................... 24
6.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS .......................................................................................... 24
6.2. PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE.............................................................................. 24
6.3. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA ............................................................................... 26
6.4. PRINCÍPIO DO EQUILÍBRIO .......................................................................................... 29
6.5. PRINCÍPIO DA DEFESA DO CONSUMIDOR PELO ESTADO ..................................... 29
6.6. PRINCÍPIO DA HARMONIZAÇÃO.................................................................................. 29
6.7. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA ................................................................................ 30
6.8. PRINCÍPIO DA CONFIANÇA .......................................................................................... 30
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 2
6.9. PRINCÍPIO DO COMBATE AO ABUSO ......................................................................... 31
6.10. PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO E DA INFORMAÇÃO ....................................................... 31
6.11. PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO ........................................................................................ 31
6.12. PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA E AMBIENTAL DO CONSUMIDOR ......... 32
6.13. PRINCÍPIO DA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO SUPERENDIVIDAMENTO COMO
FORMA DE EVITAR A EXCLUSÃO SOCIAL DO CONSUMIDOR............................................... 32
7. DIREITOS BÁSICOS DOS CONSUMIDORES ...................................................................... 32
7.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS .......................................................................................... 32
7.2. DIREITO À VIDA, À SAÚDE E À SEGURANÇA (I) ........................................................ 33
7.3. DIREITO À EDUCAÇÃO (II) ............................................................................................ 34
7.4. DIREITO À LIBERDADE DE ESCOLHA (II) ................................................................... 35
7.5. DIREITO À IGUALDADE NAS CONTRATAÇÕES (II) ................................................... 35
7.6. DIREITO À INFORMAÇÃO (III) ....................................................................................... 36
7.7. DIREITO À PROTEÇÃO CONTRA PRÁTICAS E CLÁUSULAS ABUSIVAS (IV) ......... 37
7.8. DIREITO À MODIFICAÇÃO E REVISÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS (V) ......... 37
7.8.1. Modificação das cláusulas contratuais .................................................................... 37
7.8.2. Revisão das cláusulas contratuais........................................................................... 38
7.9. DIREITO À EFETIVA PREVENÇÃO E REPARAÇÃO DE DANOS MORAIS E
PATRIMONIAIS, INDIVIDUAIS, COLETIVOS E DIFUSOS (VI) ................................................... 40
7.9.1. Reparação por dano moral ...................................................................................... 43
7.9.2. Reparação por dano moral coletivo ......................................................................... 44
7.9.3. Reparação por danos sociais................................................................................... 45
7.10. DIREITO DE ACESSO À JUSTIÇA (VII) ........................................................................ 46
7.11. DIREITO À INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA ............................................................. 46
7.12. DIREITO À PRESTAÇÃO ADEQUADA E EFICAZ DO SERVIÇO PÚBLICO ............... 47
7.13. DIREITO DE CRÉDITO RESPONSÁVEL....................................................................... 47
CAMPO DE INCIDÊNCIA DO CDC................................................................................................... 48
1. RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO ................................................................................... 48
2. CONSUMIDOR ....................................................................................................................... 48
2.1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 48
2.2. CONSUMIDOR EM SENTIDO ESTRITO ....................................................................... 48
2.3. CONSUMIDOR POR EQUIPARAÇÃO ........................................................................... 50
2.3.1. Em sentido coletivo .................................................................................................. 50
2.3.2. Bystander..................................................................................................................(DPE/RS – Defensor Público – FCC – 2025): O reconhecimento da
hipervulnerabilidade no âmbito do direito do consumidor se configura perante
a cumulação de circunstâncias pessoais que sobrepõe vulnerabilidades, a
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relevância de circunstâncias extremas que ampliam a vulnerabilização e no
exercício de direito essencial por individuo reconhecidamente vulnerável.
Correto!
(TJ/SP – Juiz Substituto – VUNESP – 2023): A vulnerabilidade
informacional está relacionada com a falta de conhecimentos específicos do
consumidor sobre o produto ou serviço que está adquirindo, possibilitando
que seja mais facilmente enganado quanto às características do bem ou
quanto à sua utilidade. Errado.
6.3. PRINCÍPIO DA BOA-FÉ OBJETIVA
Representa o padrão de conduta que deve ser observado por todos os fornecedores no
mercado de consumo, com base em valores éticos, de modo a respeitar as expectativas do
consumidor naquela relação jurídica.
O fundamento é constitucional, de modo implícito (art. 1º, III e art. 3º I da CF), decorrente da
dignidade da pessoa humana e da do princípio da solidariedade; e legal, de modo expresso (art. 4º,
III CDC e arts. 113, 187 e 422, CC).
CF Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel
dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado
Democrático de Direito e tem como fundamentos:
III - a dignidade da pessoa humana;
CF Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do
Brasil:
I - construir uma sociedade livre, justa e solidária;
CDC - Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo
o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia
das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios: (...)
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo
e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de
desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios
nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição Federal),
sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e
fornecedores;
CC Art. 113. Os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-
fé e os usos do lugar de sua celebração.
CC Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-
lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou
social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
CC Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão
do contrato, como em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.
A boa-fé objetiva não se confunde com a boa-fé subjetiva, tendo em vista que:
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Boa-fé objetiva Boa-fé subjetiva
É um princípio que orienta a conduta esperada
dos fornecedores, garantindo liderança e
transparência nas relações de consumo.
Refere-se à intenção interna da pessoa ao
realizar um ato. Esse conceito é menos
relevante para o Direito do Consumidor, que
se centra na boa fé objetiva como padrão de
conduta.
No Direito do Consumidor, a boa-fé objetiva desempenha funções essenciais na formação,
interpretação e execução dos contratos. Suas principais funções são:
a) Função Interpretativa ou Critério Hermenêutico (CC, art. 113 e CDC, art. 4º, III):
Na presença de cláusulas ambíguas ou de difícil compreensão, a boa-fé objetiva serve como
critério interpretativo, garantindo que a interpretação respeite as expectativas legítimas do
consumidor, sempre parte vulnerável na relação contratual.
b) Função Integrativa ou de Criação de Deveres Jurídicos:
A boa fé objetiva gera deveres adicionais no contrato, chamados deveres anexos, que
orientam uma conduta leal e cooperativa, sendo eles:
• Dever de informação: o fornecedor deve fornecer ao consumidor todas as informações
necessárias para o uso adequado do produto.
• Dever de cuidado: exige que o fornecedor adote práticas que evitem danos ao
consumidor, tanto patrimoniais quanto pessoais.
• Dever de cooperação: ambas as partes na relação de consumo devem cooperar para
satisfazer as obrigações do contrato.
STJ (REsp 595.631/SC) - Aplicação do princípio da boa-fé contratual.
Deveres anexos ao contrato. O princípio da boa-fé se aplica às relações
contratuais regidas pelo CDC, impondo, por conseguinte, a obediência aos
deveres anexos ao contrato, que são decorrência lógica deste princípio. O
dever anexo de cooperação pressupõe ações recíprocas de lealdade dentro
da relação contratual. A violação a qualquer dos deveres anexos implica em
inadimplemento contratual de quem lhe tenha dado causa.
O descumprimento dos deveres anexos caracteriza violação positiva do contrato ou
adimplemento ruim, ainda que a prestação principal tenha sido cumprida.
c) Função de Controle ou Limitativa do Exercício de Direitos Subjetivos:
A boa-fé objetiva funciona, ainda, como limite ao exercício dos direitos pelo fornecedor.
Assim, práticas abusivas são vedadas, e cláusulas contratuais incompatíveis com a boa-fé objetiva
são nulas, por afrontarem a lógica de equilíbrio e confiança que deve reger as relações de consumo.
CDC Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: (...)
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IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem
o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a
boa-fé ou a equidade;
CC Art. 187. Também comete ato ilícito o titular de um direito que, ao exercê-
lo, excede manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou
social, pela boa-fé ou pelos bons costumes.
6.4. PRINCÍPIO DO EQUILÍBRIO
Previsto no art. 4º, III, do CDC.
CDC - Art. 4º, III - harmonização dos interesses dos participantes das
relações de consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a
necessidade de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a
viabilizar os princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da
Constituição Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações
entre consumidores e fornecedores;
Deve haver um equilíbrio na relação jurídica entre consumidor e fornecedor, tanto no plano
material quanto no plano processual, feito pelo CDC.
• Plano material: o CDC promove o equilíbrio ao estabelecer a responsabilidade objetiva
do fornecedor por danos causados ao consumidor.
• Plano processual: o CDC contribui para o equilíbrio ao possibilitar a inversão do ônus
da prova em favor do consumidor, em situações específicas.
6.5. PRINCÍPIO DA DEFESA DO CONSUMIDOR PELO ESTADO
Traduz a ideia de que o Estado deve intervir nas relações de consumo para defender os
interesses dos consumidores.
Art. 4º, II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o
consumidor:
a) por iniciativa direta;
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações
representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de
qualidade, segurança, durabilidade e desempenho.
6.6. PRINCÍPIO DA HARMONIZAÇÃO
Previsto no art. 4º, III, do CDC.
Art. 4º, III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de
consumo e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade
de desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os
princípios nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição
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Federal), sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre
consumidores e fornecedores;
Esse princípio visa a conciliaçãodos interesses do consumidor e do fornecedor nas relações
de consumo, criando um equilíbrio entre as necessidades e direitos de ambas as partes.
6.7. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA
No contexto das relações de consumo, o princípio da transparência exige que o consumidor
tenha acesso a informações claras, completas, precisas e verdadeiras sobre os produtos ou
serviços em todas as fases da relação de consumo:
• Fase pré-contratual (art. 37): inclui etapas como oferta e publicidade, nas quais o
fornecedor deve fornecer informações que permitam ao consumidor tomar decisões
conscientes.
• Fase contratual (art. 46): durante a assinatura do contrato, o consumidor deve continuar
a receber informações claras sobre os termos e condições acordadas, possibilitando
uma experiência de consumo segura e informada.
• Fase pós-contratual (art. 10, §1º): mesmo após a rescisão do contrato, as obrigações
informativas permanecem, abrangendo garantias, serviços de assistência técnica, direito
de arrependimento e procedimentos de devolução e conserto de produtos.
Decorre do princípio da transparência, por exemplo, o dever do fornecedor informar ao
consumidor sobre eventuais defeitos do produto e providenciar recall, quando necessário, para
corrigir qualquer falha.
CDC Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo
o atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia
das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
6.8. PRINCÍPIO DA CONFIANÇA
O princípio da confiança não possui previsão expressa no CDC, sendo construído a partir
da boa-fé objetiva.
Ele traduz a ideia de que o fornecedor deve respeitar as legítimas expectativas do
consumidor na relação de consumo, tanto em relação ao conteúdo do contrato, quanto às
características do produto ou serviço (como qualidade, segurança e durabilidade).
A confiança depositada pelo consumidor deve ser honrada pelo fornecedor durante toda a
relação contratual.
STJ - A empresa que fornece estacionamento aos veículos de seus clientes
responde objetivamente pelos furtos, ocorridos no seu interior, uma vez que,
em troca dos benefícios financeiros indiretos decorrentes desse acréscimo
de conforto aos consumidores, o estabelecimento assume o dever de
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lealdade e segurança, como aplicação concreta do princípio da confiança.
(STJ, AgInt no AREsp 844449/SP, 4ª T. rel. Min. Isabel Gallotti, j. 06.09.2016).
6.9. PRINCÍPIO DO COMBATE AO ABUSO
Previsto no inciso VI, do art. 4º do CDC, estabelece que o fornecedor deve respeitar os
direitos do consumidor, evitando práticas abusivas que prejudiquem a parte vulnerável na relação
de consumo.
Art. 4º, VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no
mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização indevida
de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos
distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores;
Além de proteger os consumidores, o princípio do combate ao abuso também visa garantir
a justiça nas relações entre fornecedores, reprimindo práticas como a concorrência desleal e o uso
indevido de criações intelectuais e marcas.
6.10. PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO E DA INFORMAÇÃO
Assegura que os consumidores sejam devidamente informados para que possam tomar
decisões de consumo conscientes, evitando práticas impulsivas, como o superendividamento.
A educação pode ser:
• Formal, inserindo-se uma educação sobre consumo nas disciplinas do ensino básico;
• Informal, ministrada pelos meios de comunicação social, normalmente pelo PROCON,
pela promotoria do direito do consumidor ou, ainda, pela imprensa.
Art. 4º IV - educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto
aos seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo;
6.11. PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO
O Princípio da Precaução é previsto no Direito Ambiental, mas também é aplicado ao Direito
do Consumidor, conforme defendido por grande parte da doutrina. É extraído de normas
constitucionais e do CDC, que estabelecem a defesa do consumidor, da vida, da saúde e da
segurança. A precaução orienta que, sempre que haja um risco científico crível, deve-se adotar
medidas para minimizá-lo, mesmo que o perigo não seja concreto ou comprovadamente provável.
Em suma, o princípio da precaução vai além da proteção contra perigos concretos; ele
requer atenção aos riscos hipotéticos, buscando minimizar os danos que possam surgir de
situações ainda incertas ou não totalmente confirmadas.
O Princípio da Precaução não se confunde com o Princípio da Prevenção, isto porque:
Precaução Prevenção
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 32
Refere-se a riscos incertos e hipotéticos. O
perigo não é comprovadamente provável, mas
possível, e medidas devem ser adotadas para
minimizar esse risco.
Aplica-se a danos certos e muito prováveis,
em situações em que o perigo é concreto. A
prevenção visa evitar danos que já são
considerados quase certos de ocorrer.
6.12. PRINCÍPIO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA E AMBIENTAL DO CONSUMIDOR
Trata-se de um novo princípio, introduzido pela Lei 14.181/2021, conhecida como Lei do
Superendividamento. Esse princípio visa ampliar a educação do consumidor em questões
financeiras e ambientais, promovendo o consumo consciente e sustentável.
6.13. PRINCÍPIO DA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO SUPERENDIVIDAMENTO
COMO FORMA DE EVITAR A EXCLUSÃO SOCIAL DO CONSUMIDOR
Também foi introduzido pela Lei 14.181/2021, destina-se a proteger o consumidor
superendividado e evitar sua exclusão social. Conforme destacado por Pablo Stolze, o
superendividamento compromete diretamente o mínimo existencial do indivíduo, ou seja, as
condições básicas para uma vida digna.
7. DIREITOS BÁSICOS DOS CONSUMIDORES
7.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A principal inspiração do CDC é a Resolução 39/248 da ONU, de 1985, que apresenta os
direitos básicos dos consumidores, trazendo diretrizes para a cooperação jurídica internacional em
matéria de direito do consumidor.
O art. 6º do CDC traz os direitos básicos do consumidor, em um rol exemplificativo. Portanto,
não há o exaurimento de tais direitos.
Art. 6º São direitos básicos do consumidor:
I - a proteção da vida, saúde e segurança contra os riscos provocados por
práticas no fornecimento de produtos e serviços considerados perigosos ou
nocivos;
II - a educação e divulgação sobre o consumo adequado dos produtos e
serviços, asseguradas a liberdade de escolha e a igualdade nas
contratações;
III - a informação adequada e clara sobre os diferentes produtos e serviços,
com especificação correta de quantidade, características, composição,
qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que
apresentem;
IV - a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais
coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou
impostas no fornecimento de produtos e serviços;
V - a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações
desproporcionais ou sua revisão em razão de fatos supervenientes que as
tornem excessivamente onerosas;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 33
VI - a efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais,
individuais, coletivos e difusos;
VII - o acesso aos órgãos judiciários e administrativos com vistas à prevenção
ou reparação de danos patrimoniais e morais, individuais, coletivos ou
difusos, assegurada a proteção Jurídica, administrativa e técnica aos
necessitados;
VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do
ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for
verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente,segundo as regras
ordinárias de experiências;
IX - (Vetado);
X - a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.
Parágrafo único. A informação de que trata o inciso III do caput deste artigo
deve ser acessível à pessoa com deficiência, observado o disposto em
regulamento.
XI - a garantia de práticas de crédito responsável, de educação financeira e
de prevenção e tratamento de situações de superendividamento, preservado
o mínimo existencial, nos termos da regulamentação, por meio da revisão e
da repactuação da dívida, entre outras medidas;
XII - a preservação do mínimo existencial, nos termos da regulamentação, na
repactuação de dívidas e na concessão de crédito;
XIII - a informação acerca dos preços dos produtos por unidade de medida,
tal como por quilo, por litro, por metro ou por outra unidade, conforme o caso.
Antes de analisarmos as espécies de direitos básicos dos consumidores, importante
destacar a cláusula de abertura do microssistema, prevista no art. 7º do CDC, segundo a qual para
além dos direitos previstos no CDC, todo direito do consumidor, que esteja expresso em outra
espécie normativa vai ser inserido no sistema consumerista.
Art. 7° Os direitos previstos neste código não excluem outros decorrentes de
tratados ou convenções internacionais de que o Brasil seja signatário, da
legislação interna ordinária, de regulamentos expedidos pelas autoridades
administrativas competentes, bem como dos que derivem dos princípios
gerais do direito, analogia, costumes e equidade.
Parágrafo único. Tendo mais de um autor a ofensa, todos responderão
solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas de consumo.
Cita-se, como exemplo, a gratuidade do transporte coletivo urbano e semiurbano para os
maiores de 65 anos (art. 230, §2º da CF e art. 39 do Estatuto do Idoso). No transporte doméstico
de crianças com menos de 2 anos de idade não poderá ser aplicada tarifa maior do que o
equivalente a 10% da tarifa de adulto, desde que não ocupem assento e estejam no colo de um
passageiro com mais de 12 anos (art. 57 da Portaria 676/2000 da ANAC).
7.2. DIREITO À VIDA, À SAÚDE E À SEGURANÇA (I)
Consagra um direito ao consumidor e, ao mesmo tempo, um dever ao fornecedor, devendo
colocar à disposição dos consumidores somente produtos que não sejam perigosos ou que possam
causar danos.
Os arts. 8º, 9º e 10 do CDC versam sobre a segurança. Vejamos:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 34
Art. 8° Os produtos e serviços colocados no mercado de consumo não
acarretarão riscos à saúde ou segurança dos consumidores, exceto os
considerados normais e previsíveis em decorrência de sua natureza e fruição,
obrigando-se os fornecedores, em qualquer hipótese, a dar as informações
necessárias e adequadas a seu respeito.
§ 1º Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as
informações a que se refere este artigo, através de impressos apropriados
que devam acompanhar o produto.
§ 2º O fornecedor deverá higienizar os equipamentos e utensílios utilizados
no fornecimento de produtos ou serviços, ou colocados à disposição do
consumidor, e informar, de maneira ostensiva e adequada, quando for o caso,
sobre o risco de contaminação.
Art. 9° O fornecedor de produtos e serviços potencialmente nocivos ou
perigosos à saúde ou segurança deverá informar, de maneira ostensiva e
adequada, a respeito da sua nocividade ou periculosidade, sem prejuízo da
adoção de outras medidas cabíveis em cada caso concreto.
Art. 10. O fornecedor não poderá colocar no mercado de consumo produto
ou serviço que sabe ou deveria saber apresentar alto grau de nocividade ou
periculosidade à saúde ou segurança.
§ 1° O fornecedor de produtos e serviços que, posteriormente à sua
introdução no mercado de consumo, tiver conhecimento da periculosidade
que apresentem, deverá comunicar o fato imediatamente às autoridades
competentes e aos consumidores, mediante anúncios publicitários.
§ 2° Os anúncios publicitários a que se refere o parágrafo anterior serão
veiculados na imprensa, rádio e televisão, às expensas do fornecedor do
produto ou serviço.
§ 3° Sempre que tiverem conhecimento de periculosidade de produtos ou
serviços à saúde ou segurança dos consumidores, a União, os Estados, o
Distrito Federal e os Municípios deverão informá-los a respeito.
7.3. DIREITO À EDUCAÇÃO (II)
O direito à educação para o consumo destaca a importância de informar e educar os
consumidores, promovendo escolhas mais responsáveis. Desdobra-se em dois tipos de educação:
• Educação formal: inserida no currículo básico das escolas, com o objetivo de formar
consumidores mais conscientes desde cedo.
• Educação informal: transmitida por meios de comunicação e campanhas de
conscientização, com o intuito de informar o consumidor sobre seus direitos e sobre
práticas de consumo responsável. Órgãos como o PROCON, a imprensa e as
promotoras de defesa do consumidor desempenham um papel importante na difusão
dessa educação.
Além disso, a Lei 13.186/2015 institui a Política de Educação para o Consumo Sustentável,
promovendo um consumo que atenda às necessidades da geração atual sem comprometer a
capacidade das gerações futuras.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 35
7.4. DIREITO À LIBERDADE DE ESCOLHA (II)
Assegura que o consumidor tenha autonomia para decidir o que consumir, de acordo com
suas preferências, garantindo a livre iniciativa e a livre concorrência no mercado. Logo, protege o
consumidor contra práticas abusivas que limitam sua capacidade de escolha, especialmente
quando o fornecedor utiliza sua posição econômica para condicionar a aquisição de um produto ou
serviço à compra de outro, prática conhecida como "venda casada".
No julgamento do REsp 744.602/RJ, que tratava da proibição de consumo de alimentos
adquiridos fora das dependências do cinema, o STJ entendeu que tal prática configura uma violação
ao direito à liberdade de escolha do consumidor, conforme previsto no art. 6º, II, do CDC, e no art.
39, I, do CDC, que proíbe práticas abusivas, incluindo a venda casada.
ADMINISTRATIVO. RECURSO ESPECIAL. APLICAÇÃO DE MULTA
PECUNIÁRIA POR OFENSA AO CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR.
OPERAÇÃO DENOMINADA 'VENDA CASADA' EM CINEMAS. CDC, ART.
39, I. VEDAÇÃO DO CONSUMO DE ALIMENTOS ADQUIRIDOS FORA DOS
ESTABELECIMENTOS CINEMATOGRÁFICOS. 1. A intervenção do Estado
na ordem econômica, fundada na livre iniciativa, deve observar os princípios
do direito do consumidor, objeto de tutela constitucional fundamental especial
(CF, arts. 170 e 5º, XXXII). 2. Nesse contexto, consagrou-se ao consumidor
no seu ordenamento primeiro a saber: o Código de Defesa do Consumidor
Brasileiro, dentre os seus direitos básicos "a educação e divulgação sobre o
consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de
escolha e a igualdade nas contratações" (art. 6º, II, do CDC). 3. A denominada
'venda casada', sob esse enfoque, tem como ratio essendi da vedação a
proibição imposta ao fornecedor de, utilizando de sua superioridade
econômica ou técnica, opor-se à liberdade de escolha do consumidor entre
os produtos e serviços de qualidade satisfatório e preços competitivos. 4. Ao
fornecedor de produtos ou serviços, consectariamente, não é lícito, dentre
outras práticas abusivas, condicionar o fornecimento de produto ou de serviço
ao fornecimento de outro produto ou serviço (art. 39, I do CDC). 5. A prática
abusiva revela-se patente se a empresa cinematográfica permite a entrada
de produtos adquiridos na suas dependências e interdita o adquirido alhures,
engendrando por via oblíqua a cognominada 'venda casada', interdição
inextensível ao estabelecimento cuja venda de produtos alimentícios
constituiu a essência da sua atividade comercial como, verbi gratia, os bares
e restaurantes. 6. O juiz, na aplicação dalei, deve aferir as finalidades da
norma, por isso que, in casu, revela-se manifesta a prática abusiva. 7. A
aferição do ferimento à regra do art. 170, da CF é interditada ao STJ,
porquanto a sua competência cinge-se ao plano infraconstitucional. 8.
Inexiste ofensa ao art. 535 do CPC, quando o Tribunal de origem, embora
sucintamente, pronuncia-se de forma clara e suficiente sobre a questão posta
nos autos. Ademais, o magistrado não está obrigado a rebater, um a um, os
argumentos trazidos pela parte, desde que os fundamentos utilizados tenham
sido suficientes para embasar a decisão. 9. Recurso especial improvido.
(REsp 744.602/RJ, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA TURMA, julgado em
01/03/2007, REPDJ 22/03/2007, p. 286, DJ 15/03/2007, p. 264)
7.5. DIREITO À IGUALDADE NAS CONTRATAÇÕES (II)
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 36
O direito à igualdade nas contratações, também chamado de princípio da equivalência
negocial, assegura que todos os consumidores sejam tratados de maneira justa e sem
discriminação nas relações de consumo, fortalecendo a justiça e o equilíbrio nas relações de
consumo. Para isso, impede que o fornecedor adote práticas que estabeleçam condições desiguais
ou privilegiem determinados consumidores em detrimento de outros.
7.6. DIREITO À INFORMAÇÃO (III)
O direito à informação é essencial para que o consumidor faça escolhas conscientes e
seguras, constituindo um dos pilares de proteção do CDC. As informações sobre produtos e
serviços devem ser prestadas de forma clara, correta e completa. A omissão ou insuficiência de
dados viola esse direito e pode gerar dano moral, pois desequilibra a relação de consumo e
compromete o consentimento informado.
Conforme o STJ, o princípio caveat emptor (“que o comprador se cuide”) não se aplica no
CDC. O microssistema consumerista impõe ao fornecedor um dever ativo de informar, afastando
qualquer possibilidade de que o silêncio substitua a informação.
O dever de informação exige comportamento positivo e ativo, pois o CDC
afasta a regra do caveat emptor e não aceita que o silêncio equivalha à
informação, caracterizando-o, ao contrário, como patologia repreensível, que
só é relevante em desfavor do fornecedor, inclusive como oferta e publicidade
enganosa por omissão, punida civil, administrativa e criminalmente no CDC.
Comportamento positivo e ativo quer dizer que o microssistema de proteção
do consumidor não se coaduna com meia-informação, semi-informação,
proto-informação ou informação parcial, qualquer que seja o termo que se
escolha. Informação ou é prestada de forma completa, ou não é informação
no sentido jurídico (e prático) que lhe atribui o CDC. (REsp º 586.316 - MG,
MINISTRO HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em
13/09/2009).
Em aplicação prática desse dever, o STJ (REsp 1.561.445/SP) firmou que a operadora de
plano de saúde só pode alterar a rede credenciada se:
a) substituir o estabelecimento descredenciado por outro equivalente, preservando a
qualidade do serviço contratado; e
b) comunicar previamente os consumidores e a ANS com 30 dias de antecedência (art. 17
da Lei 9.656/98).
Outro exemplo relevante é a Súmula 595/STJ que responsabiliza as instituições de ensino
superior pelo fornecimento de informação inadequada e insuficiente quanto à oferta de cursos não
reconhecidos pelo Ministério da Educação:
Súmula 595, STJ: As instituições de ensino superior respondem
objetivamente pelos danos suportados pelo aluno/consumidor pela realização
de curso não reconhecido pelo Ministério da Educação, sobre o qual não lhe
tenha sido dada prévia e adequada informação.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 37
O STJ aplica esse mesmo entendimento em outras relações de consumo que envolvem
informação essencial para a adequada fruição do serviço, estendendo a responsabilidade ao
fornecedor que deixa de comunicar dados indispensáveis ao consumidor.
A agência de turismo responde solidariamente com a empresa de cruzeiro
por falha no dever de informar o consumidor sobre o horário do embarque.
REsp 2.166.023-PR, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, por
unanimidade, julgado em 4/2/2025, DJEN 7/2/2025.
7.7. DIREITO À PROTEÇÃO CONTRA PRÁTICAS E CLÁUSULAS ABUSIVAS (IV)
Em linhas gerais, considera-se abusiva toda a atuação do fornecedor no mercado de
consumo que viole a principiologia do Código de Defesa do Consumidor, é dizer, que esteja em
desconformidade com o padrão de conduta esperado das partes ou, ainda, que esteja em
desacordo com a boa-fé objetiva e com a confiança.
7.8. DIREITO À MODIFICAÇÃO E REVISÃO DE CLÁUSULAS CONTRATUAIS (V)
Visa assegurar o equilíbrio econômico da relação contratual. O CDC inovou ao prever o
dirigismo contratual, autorizando o Estado a intervir na economia interna do contrato, quando se
identificar um desequilíbrio econômico e financeiro na relação contratual.
Assim, o consumidor terá direito de modificar o contrato sempre que houver prestação
desproporcional. É feita uma análise objetiva, ou seja, basta que tenha uma cláusula
desproporcional para que o contrato seja modificado, a fim de se alcançar o equilíbrio entre as
partes.
O CC, influenciado pelo CDC, trouxe regras que também admitem a intervenção do Estado
na economia interna do contrato.
7.8.1. Modificação das cláusulas contratuais
O consumidor possui o direito de modificar cláusulas contratuais quando se verifica o
desequilíbrio desde o início. Observe que o contrato já nasce em desequilíbrio, afeta o sinalagma
genético (original) do contrato.
O art. 51 do CDC prevê que a cláusula contratual que colocar o consumidor em desvantagem
exagerada será nula de pleno direito. O consumidor poderá, portanto, solicitar a modificação da
cláusula geradora das prestações desproporcionais (com base no art. 6º, V, do CDC) ou a
declaração de sua nulidade (art. 51 do CDC).
Importante salientar que ocorre, aqui, o instituto da lesão (vício do NJ), o qual não deve se
confundir com a lesão prevista no CC, vejamos as diferenças no quadro abaixo:
LESÃO NO CDC LESÃO NO CC
Previsão: art. 6º, V Previsão: Art. 157
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 38
Caracterização: basta a presença de cláusula
que estabeleça prestações desproporcionais,
em prejuízo do consumidor.
Caracterização: além da desproporção das
prestações, exige-se a caracterização da
necessidade premente ou de inexperiência da
parte.
Consequência: a regra é a manutenção do
contrato, possibilitando-se ao consumidor
(parte não beneficiada) solicitar a modificação
(art. 6.º, V) ou a decretação da nulidade da
cláusula contratual (art. 51).
Consequência: a regra é a invalidade do
negócio jurídico. Excepcionalmente, o contrato
pode ser salvo, a depender da vontade da
parte favorecida (art. 157, § 2.º, do CC).
Análise objetiva. Análise subjetiva.
7.8.2. Revisão das cláusulas contratuais
A revisão contratual é permitida quando o contrato, embora originalmente equilibrado, torna-
se desproporcional por fatos supervenientes (sinalagma funcional). O CDC adota a Teoria da
Base Objetiva do Negócio Jurídico, que dispensa a análise da imprevisibilidade do evento; basta
uma demonstração de onerosidade excessiva para o consumidor.
STJ - O preceito insculpido no inciso V do art. 6º do CDC dispensa a prova
do caráter imprevisível do fato superveniente, bastando a demonstração
objetiva da excessiva onerosidade advinda para o consumidor. A
desvalorização da moeda nacional frente à moeda estrangeira que serviu de
parâmetro ao reajuste contratual, por ocasião da crise cambial de janeiro de
1999, apresentou graus expressivo de oscilação, a ponto de caracterizar a
onerosidade excessiva que impede o devedor de solver as obrigações
pactuadas (STJ, REsp 361.694/RS).
O CC, por outro lado, adotou a teoria da imprevisão, que permite a revisão ou resolução
de contratos quando ocorrem fatos supervenientese imprevisíveis, que tornam a execução
contratual onerosa para uma das partes.
Logo:
TEORIA DA BASE OBJETIVA DO NEGÓCIO
JURÍDICO (ART. 6º, V, CDC)
TEORIA DA IMPREVISÃO (ART. 478 DO CC)
Dispensa a análise da previsibilidade do fato
superveniente.
Exige a imprevisibilidade do fato
superveniente.
Basta a onerosidade excessiva para o
consumidor.
Além da onerosidade excessiva para o
devedor, exige “extrema vantagem” para o
credor.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 39
Consequência: a regra é a revisão do contrato.
Excepcionalmente, acarretará a resolução nos
casos em que não for possível salvá-lo.
Consequência: a regra é a resolução do
contrato. Excepcionalmente, pode ser revisto,
a depender da vontade do credor.
A COVID-19 gerou consequências jurídicas relevantes que ainda chegam aos tribunais,
especialmente no que se refere à possibilidade de revisão contratual após a pandemia. Com o fim
das normas transitórias editadas para o período, consolidaram-se decisões importantes do STJ
sobre o tema.
O Tribunal analisou a questão em dois contextos distintos:
1) Contrato de locação não residencial (coworking):
Admitiu a revisão do contrato de locação não residencial em razão da pandemia,
permitindo a redução proporcional e temporária dos aluguéis. Por se trará de uma empresa de
coworking, a pandemia trouxe uma drástica redução de faturamento, criando um desequilíbrio no
contrato. O STJ entendeu que a revisão era necessária para restaurar o equilíbrio entre as partes,
considerando a situação superveniente e imprevisível da pandemia (STJ, REsp 1984277-DF).
Caso concreto: a locatária do imóvel era uma empresa de coworking; em
razão das medidas de isolamento da Covid-19, a empresa teve uma redução
drástica do seu faturamento; diante disso, ajuizou ação de revisão contra a
proprietária do imóvel (locadora) pedindo a redução do valor dos aluguéis
pagos. O STJ concordou com o pleito. A revisão dos contratos com base nas
teorias da imprevisão ou da onerosidade excessiva, previstas no Código Civil,
exige que o fato (superveniente) seja imprevisível e extraordinário e que dele,
além do desequilíbrio econômico e financeiro, decorra situação de vantagem
extrema para uma das partes, situação evidenciada na hipótese. A revisão
dos contratos em razão da pandemia não constitui decorrência lógica ou
automática, devendo ser analisadas a natureza do contrato e a conduta das
partes - tanto no âmbito material como na esfera processual -, especialmente
quando o evento superveniente e imprevisível não se encontra no domínio da
atividade econômica das partes. Na hipótese, ficou demonstrada a efetiva
redução do faturamento da empresa locatária em virtude das medidas de
restrição impostas pela pandemia da covid-19. Por outro lado, a locatária
manteve-se obrigada a cumprir a contraprestação pelo uso do imóvel pelo
valor integral e originalmente firmado, situação que evidencia o desequilíbrio
econômico e financeiro do contrato. Nesse passo, embora não se contestem
os efeitos negativos da pandemia nos contratos de locação para ambas as
partes - as quais são efetivamente privadas do uso do imóvel ou da percepção
dos rendimentos sobre ele - no caso em debate, considerando que a empresa
locatária exercia a atividade de coworking e teve seu faturamento
drasticamente reduzido, a revisão do contrato mediante a redução
proporcional e temporária do valor dos aluguéis constitui medida necessária
para assegurar o restabelecimento do equilíbrio entre as partes. STJ. 4ª
Turma. REsp 1984277-DF, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em
16/08/2022 (Info 745).
2) Mensalidades escolares:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 40
Não é possível ao consumidor invocar o direito subjetivo da revisão contratual diante dos
efeitos advindos da pandemia da Covid-19, como fundamento para autorizar a redução proporcional
do valor das mensalidades escolares.
A situação decorrente da pandemia pela Covid-19 não constitui fato
superveniente apto a viabilizar a revisão judicial de contrato de prestação de
serviços educacionais com a redução proporcional do valor das
mensalidades. STJ. 4ª Turma. REsp 1998206-DF, Rel. Min. Luis Felipe
Salomão, julgado em 14/06/2022 (Info 741).
7.9. DIREITO À EFETIVA PREVENÇÃO E REPARAÇÃO DE DANOS MORAIS E
PATRIMONIAIS, INDIVIDUAIS, COLETIVOS E DIFUSOS (VI)
O CDC adota, como regra, o princípio da reparação integral (restitutio in integrum) dos
danos sofridos pelo consumidor. Por força desse princípio, o microssistema consumerista:
• não admite regras de mitigação da responsabilidade que reduzam a indenização devida
(como o art. 944, parágrafo único, do CC);
• veda a tarifação prévia do quantum indenizatório;
• proíbe cláusulas contratuais que exonerem ou atenuem a responsabilidade do
fornecedor
Art. 25. É vedada a estipulação contratual de cláusula que impossibilite,
exonere ou atenue a obrigação de indenizar prevista nesta e nas seções
anteriores.
§ 1° Havendo mais de um responsável pela causação do dano, todos
responderão solidariamente pela reparação prevista nesta e nas seções
anteriores.
§ 2° Sendo o dano causado por componente ou peça incorporada ao produto
ou serviço, são responsáveis solidários seu fabricante, construtor ou
importador e o que realizou a incorporação.
Excepcionalmente, nas relações em que o consumidor é pessoa jurídica, admite-se a
limitação da indenização em situações justificáveis, apenas quanto a vícios (não se aplica a defeito
do produto/serviço), nos termos do art. 51, I, do CDC. Exemplo: universidade que adquire grande
quantidade de produtos de limpeza para manutenção de suas instalações e, por contrato, limita o
valor da indenização por vícios.
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor
por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem
renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de consumo entre o
fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada,
em situações justificáveis;
Nos contratos de transporte aéreo internacional de passageiros, há conflito aparente
entre:
• o CDC (art. 22), que assegura a reparação integral;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 41
• as Convenções de Varsóvia e de Montreal, que estabelecem indenização tarifada para
danos materiais.
À luz do art. 178 da CF/88, o STF firmou entendimento de que, em matéria de transporte
aéreo internacional, prevalecem as normas e os tratados internacionais limitadores da
responsabilidade das transportadoras aéreas:
Nos termos do art. 178 da Constituição da República, as normas e os tratados
internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de
passageiros, especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm
prevalência em relação ao Código de Defesa do Consumidor. STF. Plenário.
RE 636331/RJ, Rel. Min. Gilmar Mendes e ARE 766618/SP, Rel. Min.
Roberto Barroso, julgados em 25/05/2017 (repercussão geral) (Info 866).
As Convenções de Varsóvia e de Montreal aplicam-se somente ao transporte internacional
(art. 178 da CF/88); no transporte nacional, aplica-se o CDC. A limitação tarifada alcança danos
materiais, não se aplicando, em regra, aos danos morais.
O STF atualizou a tese do Tema 210 para deixar expresso que não se aplica a danos
extrapatrimoniais:
Nos termos do art. 178 da Constituição da República, as normas e os tratados
internacionais limitadores da responsabilidade das transportadoras aéreas de
passageiros, especialmente as Convenções de Varsóvia e Montreal, têm
prevalência em relação ao Código de Defesa do Consumidor. O presente
entendimento não se aplica às hipóteses de danos extrapatrimoniais. STF.
Plenário. ARE 766618 ED/SP, Rel. Min.Luís Roberto Barroso, julgado em
30/11/2023 (Repercussão Geral – Tema 210) (Info 1119).
O STJ acompanha essa orientação:
As indenizações por danos morais decorrentes de extravio de bagagem e de
atraso de voo internacional não estão submetidas à tarifação prevista na
Convenção de Montreal, devendo-se observar, nesses casos, a efetiva
reparação do consumidor preceituada pelo CDC. A tese fixada pelo STF no
RE 636331/RJ (Tema 210) tem aplicação apenas aos pedidos de reparação
por danos materiais. STJ. 3ª Turma. REsp 1842066-RS, Rel. Min.
O mesmo raciocínio se aplica ao transporte aéreo internacional de cargas e mercadorias. O
STF fixou tese em repercussão geral (Tema 1.366):
1. A pretensão indenizatória por danos materiais em transporte aéreo
internacional está sujeita aos limites previstos em normas e tratados
internacionais firmados pelo Brasil, em especial as Convenções de Varsóvia
e de Montreal;
2. É infraconstitucional e fática a controvérsia sobre o afastamento da
limitação à pretensão indenizatória quando a transportadora tem
conhecimento do valor da carga ou age com dolo ou culpa grave.
STF. Plenário. RE 1.520.841/SP, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, julgado em
04/02/2025 (Repercussão Geral – Tema 1.366) (Info 1164).
Além disso, o STF reafirmou que:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 42
• o art. 178 da CF confere hierarquia específica aos tratados internacionais em matéria de
transporte internacional;
• as Convenções de Varsóvia e de Montreal regem o transporte de pessoas, bagagem e
carga;
• no transporte internacional de carga, a responsabilidade do transportador por destruição,
perda, avaria ou atraso segue o art. 22 da Convenção de Montreal, que limita a
indenização por quilograma (em Direitos Especiais de Saque – DES) ou ao valor
declarado na chamada "declaração especial de valor";
• essa limitação também se aplica às seguradoras, em ações regressivas.
O STJ adota a mesma linha:
A indenização decorrente de danos a cargas em transporte aéreo
internacional é disciplinada pela Convenção de Montreal (promulgada pelo
Decreto nº 5.910/2006), por força do art. 178 da Constituição Federal, que
estabelece a prevalência dos acordos internacionais subscritos pelo Brasil
sobre os normativos internos a respeito do tema. Caso concreto: uma
companhia aérea havia sido condenada a indenizar uma seguradora pelo
extravio de uma carga de equipamentos de informática, avaliada em cerca de
R$ 18 mil. O valor da indenização foi limitado pelo STJ ao patamar
estabelecido na Convenção de Montreal. Antes de pleitear a indenização
regressiva, a seguradora havia ressarcido os valores da carga danificada à
importadora segurada. STJ. 2ª Seção. EREsp 1289629-SP, Rel. Min. Luis
Felipe Salomão, julgado em 25/05/2022 (Info 738).
Também já decidiu ser possível a limitação, por legislação internacional especial, do direito
do passageiro à indenização por danos materiais decorrentes de extravio de bagagem:
É possível a limitação, por legislação internacional especial, do direito do
passageiro à indenização por danos materiais decorrentes de extravio de
bagagem. STJ. 3ª Turma. REsp 673.048-RS, Rel. Min. Marco Aurélio
Bellizze, julgado em 08/05/2018 (Info 626).
Assim, em virtude dessa previsão expressa quanto ao transporte internacional, deve-se
afastar o Código de Defesa do Consumidor e aplicar o regramento do tratado internacional.
Há ainda uma terceira hipótese em que se admite mitigar o valor da indenização, quando o
fornecedor promove recall e, mesmo assim, o consumidor, por decisão própria, não leva o produto
para reparo/substituição. Nesses casos, o STJ entende ser possível reconhecer concurso de culpas,
aplicando-se o art. 945 do CC:
Art. 945. Se a vítima tiver concorrido culposamente para o evento danoso, a
sua indenização será fixada tendo-se em conta a gravidade de sua culpa em
confronto com a do autor do dano.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(ENAM – FGV – 2025.2): Adão ajuizou ação indenizatória com base no
Código de Defesa do Consumidor, em face da Companhia Aérea Led
Zeppelin Airways, em razão da perda de conexão de um voo Rio-Paris-
Istambul que teve, como consequência, o extravio da bagagem e a ausência
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 43
em um compromisso de importância afetiva, o casamento da filha do
demandante. Em seu pedido houve a cumulação de danos materiais e
morais. Em defesa, a companhia aérea alegou, entre outros argumentos, que
a indenização, se acaso devida, deveria ser limitada ao teto estipulado na
Convenção de Varsóvia. Na qualidade de Magistrado(a) competente para o
julgamento, de acordo com a legislação civil vigente e o entendimento
majoritário nos Tribunais Superiores, assinale a opção que indica o
posicionamento correto para o argumento da ré, deve ser acolhido uma vez
que a Convenção de Varsóvia se sobrepõe ao Código de Defesa do
Consumidor. Errado! Deve ser acolhido apenas parcialmente, uma vez
que o limite indenizatório previsto na Convenção de Varsóvia aplica-se
apenas aos danos materiais.
(TJ/SC – Juiz Substituto – FGV – 2025): Seguradora Mondaí S/A ajuizou
ação regressiva em face de Linhas Aéreas Joaçaba S/A visando a obter o
pagamento da indenização concedida ao segurado Importadora de Veículos
Laurentino Ltda. Em razão de falha na prestação do serviço de transporte
aéreo internacional de carga, a mercadoria que seria negociada pela
Importadora de Veículos Laurentino Ltda. foi extraviada, sendo a seguradora
obrigada a indenizá-la por força do contrato. Em sua defesa, a autora alega
que: a) em razão da sub-rogação nos direitos da segurada, verifica-se relação
de consumo derivada, e que b) a ré deve pagar o valor integral do dano
sofrido pela segurada, diante das disposições do CDC. Consoante a
legislação aplicável e o entendimento dos tribunais superiores, é correto
afirmar que não há relação de consumo entre a segurada e a transportadora
aérea, tampouco entre esta e a seguradora; a indenização deve ser tarifada
consoante as disposições da Convenção de Montreal. Correto!
7.9.1. Reparação por dano moral
A reparação por dano moral tem fundamento constitucional (art. 5º, V e X, CF/88) e alcança
qualquer ofensa aos direitos da personalidade do consumidor, como honra, imagem, integridade
psíquica e dignidade.
O dano moral cumpre dupla função:
Função Compensatória Função Punitiva
Visa compensar o consumidor pelo seu abalo
psicológico, tendo em vista que não se poderá
recompor
Visa punir o fornecedor, possui caráter
pedagógico, a fim de evitar novas condutas
lesivas.
Em regra, o mero inadimplemento contratual não gera, por si só, dano moral. Entretanto, em
situações específicas, como festa de casamento ou negativa indevida de cobertura por plano de
saúde, pode haver ofensa à personalidade, ensejando indenização.
Há hipóteses em que o dano moral é presumido (in re ipsa), ou seja, dispensa prova do
prejuízo, bastando a ocorrência do fato ilícito. Exemplo clássico é a negativação indevida do nome
do consumidor.
O STJ consolidou entendimentos importantes por meio de súmulas:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 44
Súmula 370: Caracteriza dano moral a apresentação antecipada de cheque
pré-datado
Súmula 385: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito, não
cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição,
ressalvado o direito ao cancelamento;
Súmula 387: É lícita a cumulação das indenizações de dano estético e dano
moral;
Súmula 388: A simples devolução indevida de cheque caracteriza dano
moral.
O STJ entende que a Súmula 385 também se aplica às ações propostas contra o próprio
suposto credor que realizou a inscrição irregular. Assim, havendo inscrição anterior legítima, a
inscrição indevida posterior não gera, em regra, dano moral indenizável, permanecendo apenas odireito ao cancelamento.
Do mesmo modo, o reafirma ser lícita a cumulação de dano estético e dano moral, ainda
que decorrentes do mesmo fato, desde que ambos sejam identificáveis separadamente.
A 2ª Seção do STJ pacificou o entendimento de que a aquisição de produto alimentício
contendo, em seu interior, corpo estranho exposto ao consumo, ainda que não ingerido, gera
dano moral indenizável.
Trata-se de dano moral in re ipsa, pois a presença de corpo estranho em alimento
industrializado:
• excede os riscos normalmente esperados pelo consumidor;
• caracteriza defeito do produto;
• autoriza a responsabilização do fornecedor, independentemente de prova do prejuízo
concreto ou da ingestão do alimento.
A aquisição de produto de gênero alimentício contendo em seu interior corpo
estranho expõe o consumidor à risco concreto de lesão à sua saúde e
segurança, ainda que não ocorra a ingestão de seu conteúdo. Logo, isso
enseja o direito de o consumidor ser indenizado por danos morais,
considerando que há ofensa ao direito fundamental à alimentação adequada,
corolário do princípio da dignidade da pessoa humana. A simples
comercialização de produto contendo corpo estranho possui as mesmas
consequências negativas à saúde e à integridade física do consumidor que
sua ingestão propriamente dita. Existe, no caso, dano moral in re ipsa porque
a presença de corpo estranho em alimento industrializado excede aos riscos
comumente esperados pelo consumidor em relação a esse tipo de produto,
caracterizando-se a situação como um defeito do produto, a permitir a
responsabilização do fornecedor. STJ. 2ª Seção. REsp 1.899.304/SP, Rel.
Min. Nancy Andrighi, julgado em 25/08/2021.
7.9.2. Reparação por dano moral coletivo
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 45
A doutrina majoritária e o STJ (todas as turmas) admitem a possibilidade de dano moral
coletivo. Embora dor e abalo psicológico sejam características de um dano individual, o dano moral
coletivo visa proteger a dignidade social e o respeito aos direitos coletivos. Assim, o dano moral
coletivo ocorre quando a ofensa tem uma repercussão social significativa e fere valores e direitos
da coletividade.
O STJ estabelece critérios para a configuração do dano moral coletivo, que devem estar
presentes em cada caso concreto:
• Razoável significância do fato transgressor: a ofensa deve ser grave, não sendo
qualquer lesão capaz de configurar dano moral coletivo.
• Repulsa social: o ato ofensivo deve causar repulsa ou indignação na sociedade, algo
que possa ser verificado caso a caso.
Exemplos de casos de dano moral coletivo no STJ:
• 1ª Turma – comercialização de leite com vício de qualidade;
• 2ª Turma – negativa de passe livre para idosos em transporte coletivo urbano;
• 3ª Turma –instalação de caixa preferencial no segundo andar de uma agência bancária,
limitando o acesso;
• 4ª Turma – divulgação de publicidade ilícita de cigarros; infidelidade de bandeira em
posto de combustível (dano moral in re ipsa).
A reparação do dano moral coletivo possui dupla função:
• Punição do responsável pela lesão;
• Inibição da prática ofensiva
Como consequência, haverá redistribuição do lucro obtido de forma ilegítima pelo ofensor à
sociedade.
7.9.3. Reparação por danos sociais
O dano social diferencia-se do dano moral coletivo, pois se refere a condutas que afetam a
sociedade como um todo, comprometendo o nível de vida e a segurança coletiva. Enquanto o dano
moral coletivo se concentra na dignidade e nos valores sociais, o dano social impacta diretamente
a qualidade de vida da população.
As ações que causam danos sociais geram indenização punitiva, em casos de dolo ou culpa
grave, especialmente quando reduzem as condições de segurança coletiva. Também geram
indenização dissuasória, principalmente quando praticadas por pessoas jurídicas, que diminuem o
índice de qualidade de vida da população.
Exemplos:
• Pedestre que descarta lixo na rua;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 46
• Passageiro que usa o celular indevidamente em um avião;
• Pessoa que solta balões, colocando em risco a segurança pública.
Segundo o STJ, o dano social só poderá ser reconhecido em uma ação coletiva, não
podendo ser reconhecido de ofício. Assim, depende de pedido expresso de um dos legitimados
para a propositura de ações coletivas.
7.9.4. Reparação por desvio produtivo
A Teoria do Desvio Produtivo do Consumidor, desenvolvida por Marcos Dessaune,
reconhece que o tempo desperdiçado pelo consumidor para resolver problemas criados pelo
fornecedor constitui, por si só, um dano indenizável.
O desvio produtivo se configura quando o consumidor precisa interromper atividades úteis,
necessárias ou prazerosas para lidar com atendimentos ineficientes, falhas na prestação de
serviços, procedimentos administrativos excessivos ou negativas injustificadas de solução.
Esse tempo perdido, recurso limitado, irrepetível e de elevado valor existencial, representa
lesão à dignidade, à tranquilidade do dia a dia, à produtividade e ao próprio projeto de vida do
consumidor.
A jurisprudência tem reconhecido essa teoria como fundamento autônomo de
responsabilidade civil, especialmente quando:
• há atendimento repetitivo, circular ou ineficaz;
• o fornecedor impõe verdadeira “peregrinação” administrativa;
• a solução, que deveria ser simples ou imediata, é indevidamente postergada.
Como o tema foi cobrado?
(MPE/MA – Promotor de Justiça – Instituto AOCP – 2025): A teoria do
desvio produtivo do consumidor impõe ao produtor ou ao prestador de serviço
o dever de indenizar o consumidor pelo tempo de vida útil empregado para a
obtenção da solução do problema decorrente do defeito de um produto ou
serviço. Correto!
7.10. DIREITO DE ACESSO À JUSTIÇA (VII)
Entende-se como sendo direito ao acesso a um ordenamento jurídico justo, assegurado,
dentre outros: por meio da assistência jurídica, administrativa e técnica aos necessitados; foro
privilegiado, que confere a possibilidade de o consumidor demandar em seu domicílio; ações
coletivas, que tutelam interesses individuais homogêneos, ou coletivos propriamente ditos.
7.11. DIREITO À INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA
Decorre do direito de acesso à justiça. Será analisado na parte processual.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 47
7.12. DIREITO À PRESTAÇÃO ADEQUADA E EFICAZ DO SERVIÇO PÚBLICO
Os serviços públicos, que são considerados objetos de uma relação de consumo, devem ser
prestados de forma adequada e eficaz.
7.13. DIREITO DE CRÉDITO RESPONSÁVEL
O direito ao crédito responsável, incluído pela Lei 14.181/2021, direciona o ordenamento
jurídico em favor de práticas negociais saudáveis abrangentes das mais variadas formas de crédito.
Trata-se de conceito já admitido pela doutrina e pela jurisprudência.
Segundo Pablo Stolze, é norma que impõe condutas tendentes a que se alcance um estado
de coisas caracterizado pelo atendimento de três principais diretrizes.
• Diretriz ao Poder Público: o Poder Público tem a responsabilidade de direcionar seus
atos normativos, políticas públicas e atividades de fiscalização para reprimir práticas que
incentivam o crédito irresponsável. Isso inclui práticas regulamentares e fiscais de
concessão de crédito para proteger os consumidores de individualização abusiva.
• Diretriz aos credores: há um dever jurídico dos credores de não fornecer créditos
irresponsáveis, assim entendidos aqueles que, por um exame prévio do caso concreto,
não são factivelmente pagáveis pelo devedor. Esse dever jurídico tem conexão com o
dever de boa-fé objetiva, que exige comportamento ético de todos os particulares. Um
dos desdobramentos da boa-fé objetiva é o duty to mitigate the loss, segundo o qual o
credor tem o dever de cooperar com o devedor e adotar um comportamento que não
estimule o aumento da dívida. Em síntese, o credor não deve estimular o endividamentoimprudente do devedor.
• Diretriz aos devedores: o devedor tem o dever jurídico de adotar um comportamento
de prudência ao contrair dívidas, buscando abster-se de assumir compromissos além de
sua capacidade de pagamento.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 48
CAMPO DE INCIDÊNCIA DO CDC
1. RELAÇÃO JURÍDICA DE CONSUMO
O CDC regulamenta as relações de consumo, que se caracterizam pela presença de três
elementos essenciais: consumidor, fornecedor e produto ou serviço.
Esses elementos são interdependentes, ou seja, a existência de uma relação de consumo
depende da presença simultânea dos três.
• Consumidor e fornecedor são os elementos subjetivos da relação de consumo,
representando as partes envolvidas.
• Produto ou serviço é o elemento objetivo, o objeto da transação entre consumidor e
fornecedor.
2. CONSUMIDOR
2.1. INTRODUÇÃO
O CDC apresenta quatro definições de consumidor, sendo uma em sentido estrito e três
equiparadas.
2.2. CONSUMIDOR EM SENTIDO ESTRITO
É o consumidor previsto no art. 2º do CDC, também chamado de standart ou stricto sensu.
Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza
produto ou serviço como destinatário final.
Relação de
Consumo
Consumidor
Produto ou
serviço
Fornecedor
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 49
Essa definição inclui tanto pessoas físicas quanto jurídicas como consumidores. Além disso,
considera-se consumidor tanto a pessoa que adquire o produto quanto aquele que o utiliza, como,
por exemplo, quando uma pessoa compra uma camisa para outra usar.
A interpretação do termo "destinatário final" é crucial para definir quem é consumidor.
Existem três teorias que buscam esclarecer este conceito:
a) Teoria Maximalista:
Define como consumidor o destinatário final fático, ou seja, aquele que retira o produto do
mercado de consumo, independentemente do destino dado ao bem, seja para uso próprio ou
produção de outros bens. Exemplo: uma empresa que adquire um maquinário para sua linha de
produção é considerada consumidora.
Críticas: a Teoria Maximalista amplia demais o conceito de consumidor, abrangendo
pessoas que não são vulneráveis.
b) Teoria Finalista:
Destinatário final não é apenas o destinatário final, para ser considerado consumidor deve
adquirir o produto ou serviço para a satisfação de uma necessidade pessoal, importa a destinação
econômica. É a teoria adotada pelo CDC.
Com base na Teoria Finalista, o STJ não aplicou o CDC para o caso que uma boate comprou
um ar-condicionado. O STF não aplicou para o caso de uma empresa que adquiriu algodão com o
intuito de utilizar em sua produção têxtil.
c) Teoria Finalista Aprofundada/Mitigada:
Destinatário final será aquele que, mesmo não sendo o destinatário final, por ser vulnerável,
terá a proteção do CDC.
O STJ reconhece a Teoria Finalista Mitigada. Cita-se, como exemplo, o caso do taxista que
celebra um contrato de financiamento com uma instituição financeira para a aquisição de um veículo
que será empregado em sua atividade profissional. Embora não seja ele o destinatário final do
produto, poderá ser considerado consumidor por ser vulnerável (fática, jurídica e tecnicamente)
frente ao fornecedor.
É possível aplicar o CDC ao adquirente de unidade imobiliária, mesmo não
sendo o destinatário final do bem e apenas possuindo o intuito de investir ou
auferir lucro, com base na teoria finalista mitigada se tiver agido de boa-fé e
não detiver conhecimentos de mercado imobiliário nem expertise em
incorporação, construção e venda de imóveis, sendo evidente a sua
vulnerabilidade. Em outras palavras, o CDC poderá ser utilizado para
amparar concretamente o investidor ocasional (figura do consumidor
investidor)
STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 1786252/RJ, Rel. Min. Antonio Carlos
Ferreira, julgado em 17/05/2021.
STJ. 3ª Turma. REsp 1785802/SP, Rel. Min. Ricardo Villas Boas Cueva,
julgado em 19/02/2019.
Esquematizando:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 50
TEORIA FINALISTA TEORIA MAXIMALISTA
É dar destinação fática E econômica ao
produto, ou seja, retirar do mercado de
consumo e esgotá-lo economicamente (não
pode ser utilizado no ciclo de produção)
É dar destinação fática ao produto, ou seja, o
produto deixa o mercado de consumo. Não
importa o que a parte irá fazer com o produto.
Também chamada de subjetiva (analisa o que
é feito com a coisa)
Também chamada de objetiva (pouco importa
o que é feito com a coisa).
Conceito econômico. Conceito jurídico.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/MT – Juiz Substituto – FGV – 2024): A sociedade empresária Juína Táxi
Aéreo S/A vendeu uma aeronave para a sociedade empresária Juara
Administradora de Imóveis S/A, que será utilizada com o objetivo de facilitar
o deslocamento do acionista controlador, bem como dos diretores e
empregados de alto escalão, e, com isso, reduzir os custos de passagens e
hospedagens da adquirente. Considerando-se a natureza de sociedades
empresárias das partes e o objeto da compra e venda, bem como o
posicionamento do Superior Tribunal de Justiça sobre a relação de consumo,
é correto afirmar que há relação de consumo, adotando-se o conceito de
consumidor a partir da teoria maximalista, de modo que a pessoa jurídica de
qualquer natureza é consumidora quando adquire o produto para atender a
uma necessidade sua ou de terceiros. Errado!
2.3. CONSUMIDOR POR EQUIPARAÇÃO
2.3.1. Em sentido coletivo
É o consumidor previsto no parágrafo único do art. 2º do CDC.
Art. 2º, Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas,
ainda que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.
A finalidade é instrumental, viabilizando a tutela coletiva.
Por exemplo, determinado laboratório coloca no mercado de consumo medicamentos
danosos à saúde. As pessoas que adquiriram estão sofrendo um dano, são consideradas
consumidoras. O restante da coletividade, mesmo que não tenha adquirido o medicamento, também
é considerada consumidora, eis que está exposta. Diante disso, é possível que um dos legitimados
ajuíze uma ação coletiva objetivando a retirada dos medicamentos das farmácias.
2.3.2. Bystander
O consumidor bystander é a vítima de acidente de consumo, mesmo sem vínculo
contratual com o fornecedor. A equiparação é expressamente prevista:
Art. 17 - Para os efeitos desta Seção, equiparam-se aos consumidores todas
as vítimas do evento.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 51
São consumidores por equiparação todos os atingidos por defeito do produto ou falha na
prestação do serviço, ainda que não façam parte da cadeia contratual. São exemplos de
consumidores bystander:
• Pessoas que prestaram socorro às vítimas da Boate Kiss (consumidores em sentido
estrito) e acabaram sofrendo lesões.
• Pessoas que estavam na rua no momento da explosão ocorrida no shopping center de
Osasco.
A aplicação prática do art. 17 do CDC é amplamente desenvolvida pela jurisprudência do
STJ, que tem consolidado situações concretas nas quais terceiros, ainda que sem vínculo contratual
ou relação direta com o fornecedor, são reconhecidos como vítimas de acidente de consumo e,
portanto, equiparados a consumidores (bystanders).
A seguir, destacam-se julgados emblemáticos que demonstram em quais hipóteses há
equiparação, quando ela é afastada e quais são as consequências jurídicas dessa qualificação,
especialmente quanto à responsabilidade civil, competência e prazo prescricional.
a) Cheque falsificado usado em hotel – vítima é consumidora por equiparação:
A pessoa negativada por cheque falsificado utilizado para pagamento de estadia em hotel é
considerada bystander, pois houve falha de segurança do serviço, caracterizando acidente de
consumo.
A ação pode ser proposta no domicílio da vítima (art. 101, I, CDC).
Determinada pessoa teve seu nome inscritono Serviço de Proteção ao
Crédito porque alguém utilizou seu nome em um cheque falsificado para
pagar estadia em hotel. Diante do não pagamento do cheque, o Hotel levou
a protesto o título de crédito. Essa pessoa negativada será considerada
consumidora por equiparação, nos termos do art. 17 do CDC. Houve um
acidente de consumo causado pela suposta falta de segurança na prestação
do serviço por parte do estabelecimento hoteleiro que, no caso concreto,
poderia ter identificado a fraude. Logo, sendo a vítima considerada
consumidora e sendo o causador do dano um fornecedor de serviços, a ação
de indenização poderá ser proposta contra o Hotel no foro do domicílio do
autor (consumidor por equiparação), nos termos do art. 101, I, do CDC. STJ.
2ª Seção. CC 128079-MT, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 12/3/2014 (Info
542).
b) Mãe da titular do cartão bloqueado — não é bystander:
A mãe da titular do cartão não tem legitimidade ativa para pleitear dano moral decorrente de
bloqueio indevido do cartão da filha, tendo em vista que:
• Não era destinatária do serviço.
• Trata-se de vício do serviço, e não de acidente de consumo.
• O art. 17 (bystander) não se aplica a vícios.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 52
Não tem legitimidade ativa para propor ação indenizatória por danos morais
a mãe de pessoa impossibilitada de usar cartão de crédito em viagem
internacional. STJ. 3ª Turma. REsp 1.967.728-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi,
julgado em 22/03/2022 (Info 730).
c) Pescadores afetados por impacto ambiental — bystander reconhecido
Pescadores prejudicados por impactos ambientais causados por empresa de energia
elétrica são considerados consumidores por equiparação, pois houve acidente de consumo
decorrente da atividade empresarial.
Na hipótese de danos individuais decorrentes do exercício de atividade de
exploração de potencial hidroenergético causadora de impacto ambiental, é
possível, em virtude da caracterização do acidente de consumo, o
reconhecimento da figura do consumidor por equiparação, oque atrai a
incidência das disposições do Código de Defesa do Consumidor. Assim, os
pescadores autores podem ser considerados como consumidores por
equiparação (bystander), nos termos do art. 17 do CDC. STJ. 2ª Seção. REsp
2.018.386-BA, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 10/5/2023 (Info 774).
d) Torcedores atingidos em tumulto — responsabilidade do time mandante:
Em partida de futebol, danos causados por artefatos explosivos lançados contra torcedores
configuram falha de segurança. O time mandante responde civilmente pelos danos.
Hipótese típica de acidente de consumo, aplicando-se o art. 17.
Deve responder pelos danos causados aos torcedores o time mandante que
não se desincumbiu adequadamente do dever de minimizar os riscos da
partida, deixando de fiscalizar o porte de artefatos explosivos nos arredores
do estádio e de organizar a segurança de forma a evitar tumultos na saída da
partida. STJ. 3ª Turma. REsp 1773885-SP, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas
Cueva, julgado em 30/08/2022 (Info 747).
e) Funcionário de loja usando banheiro do shopping — relação de consumo
configurada:
O funcionário que utiliza banheiro de uso comum do shopping é equiparado ao consumidor
perante a administradora do centro comercial.
Danos sofridos configuram acidente de consumo.
O fato de a vítima ser funcionária de loja de shopping center e ter sofrido
acidente durante o horário de trabalho em área de uso comum (banheiro) não
afasta a aplicação do CDC. (STJ, REsp. nº 2.080.225 - SP, 3ª Turma, Rel.
Min. Nancy Andrighi, julgado em 03.10.2023, DJe 10.10.2023).
f) Consumidor direto não precisa ser vitimado:
O STJ estabelece que não é necessário que o consumidor contratante seja atingido pelo
acidente para que o terceiro seja considerado bystander. Basta que:
• exista relação de consumo no contexto do evento;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 53
• ocorra acidente de consumo;
• haja vítima, ainda que não integrante da cadeia de consumo.
O Código de Defesa do Consumidor, em nenhum dos seus dispositivos exige
que o consumidor, conjuntamente ao terceiro considerado consumidor por
equiparação (bystander), seja vitimado pelo acidente de consumo para que a
extensão se verifique. É para ao CDC suficiente a existência de uma relação
de consumo, ou seja, que o produto seja fornecido e o serviço esteja sendo
prestado dentro do escopo do Código de Defesa do Consumidor, para que,
advindo daí um acidente de consumo a vitimar alguém, integrante ou não da
cadeia de consumo, incidam os institutos protetivos do CDC. Haverá hipótese
em que o acidente ocorrerá em contexto em que o transporte não seja de
consumidores, na forma do art. 2º do CDC, e nem seja prestado por
fornecedor, na forma do art. 3º do CDC, como, por exemplo, no transporte de
empregados pelo empregador, o que, certamente, afastaria a incidência do
CDC, por inexistir, indubitavelmente, uma relação disciplinada pelo CDC, uma
relação de consumo. No entanto, quando a relação é de consumo e o
acidente ocorre no seu contexto, desimporta o fato de o consumidor não ter
sido vitimado para que o terceiro por ele diretamente prejudicado seja
considerado bystander. Assim, afasta-se a prescrição trienal do art. 206, §3º,
inciso V, do CCB, incidindo o prazo prescricional quinquenal previsto no art.
27 do CDC. STJ. 3ª Turma. REsp 1.787.318/RJ, Rel. Min. Paulo de Tarso
Sanseverino, julgado em 16/06/2020.
g) Pedestre atropelado por ônibus coletivo — bystander e prescrição quinquenal:
O pedestre atropelado durante a prestação do serviço de transporte coletivo é considerado
bystander, pois é vítima de acidente de consumo.
A prescrição aplicável é de 5 anos (art. 27, CDC).
1. Demanda indenizatória ajuizada por pedestre atropelado por ônibus
durante a prestação do serviço de transporte de pessoas. 2. Enquadramento
do demandante atropelado por ônibus coletivo, enquanto vítima de um
acidente de consumo, no conceito ampliado de consumidor estabelecido pela
regra do art. 17 do CDC ("bystander"), não sendo necessário que os
consumidores, usuários do serviço, tenham sido conjuntamente vitimados. 3.
A incidência do microssistema normativo do CDC exige apenas a existência
de uma relação de consumo sendo prestada no momento do evento danoso
contra terceiro (bystander). 4. Afastamento da prescrição trienal do art. 206,
§3º, inciso V, do CCB, incidindo o prazo prescricional quinquenal previsto no
art. 27 do CDC. 5. Não implementado o lapso prescricional quinquenal,
determinação de retorno dos autos ao primeiro grau de jurisdição para que lá
se continue no exame da pretensão indenizatória. 6. RECURSO ESPECIAL
PROVIDO. (REsp 1787318/RJ, Rel. Ministro PAULO DE TARSO
SANSEVERINO, TERCEIRA TURMA, julgado em 16/06/2020, DJe
18/06/2020).
h) Policial militar vítima de arma defeituosa – consumidor por equiparação:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 54
O STJ consolidou o entendimento de que o policial militar ferido em razão do disparo
acidental de arma de fogo defeituosa é considerado consumidor por equiparação (bystander), nos
termos do art. 17 do CDC.
Nessa hipótese, aplica-se o prazo prescricional quinquenal do art. 27 do CDC, e não o prazo
trienal do Código Civil.
1. A responsabilidade da fabricante de arma de fogo defeituosa deve ser
analisada à luz da teoria do fato do produto.
2. O policial militar é equiparado a consumidor em casos de acidente com
arma de fogo defeituosa, independentemente da natureza jurídica da relação
contratual estabelecida entre a fornecedora e a Fazenda Pública, adquirente
do armamento.
3. Por se tratar de consumidor por equiparação, aplica-se o prazo
prescricional quinquenal do Código de Defesa do Consumidor.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.948.463-SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira,
julgado em 11/2/2025 (Info 841).
Em se tratando de relação de consumo, o consumidorpoderá propor a ação no foro de seu
domicílio, nos termos do art. 101, I, do CDC:
Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e
serviços, sem prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste Título, serão
observadas as seguintes normas:
I - a ação pode ser proposta no domicílio do autor;
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/CE – Juiz Substituto – FGV – 2025): Sobre o conceito de consumidor
por equiparação (bystander) e sua aplicação, com base no Código de Defesa
do Consumidor (CDC) e na jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça
(STJ), o conceito de consumidor por equiparação restringe-se aos casos de
fato do produto ou do serviço que acarrete risco ou lesão à integridade física
ou psíquica do consumidor ou de terceiros, não se aplicando, como regra, às
hipóteses de vício do produto ou do serviço. Correto!
(DPE/PR – Defensor Público – FUNDATEC – 2024): Joaquim é funcionário
de uma loja localizada em um shopping. Em seu horário de expediente, ele
se lesionou no banheiro do shopping. Sobre esse caso, entende o Superior
Tribunal de Justiça que ao acessar o ambiente disponibilizado pelo shopping,
a pessoa, por qualquer condição, passa a desfrutar, direta ou indiretamente,
do serviço prestado, ainda que não adquira novos produtos ou serviços no
local, estando caracterizada, portanto, a relação de consumo, ainda que por
equiparação. Correto!
2.3.3. Potencial ou virtual
O consumidor potencial ou virtual está previsto no art. 29 do CDC, que amplia a proteção do
sistema consumerista às pessoas expostas às práticas comerciais ou contratuais (oferta,
publicidade, práticas abusivas, cobrança de dívidas, cadastros em bancos de dados), mesmo que
não haja contratação ou identificação individual:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 55
Art. 29. Para os fins deste Capítulo e do seguinte, equiparam-se aos
consumidores todas as pessoas determináveis ou não, expostas às práticas
nele previstas.
O STJ entende que o art. 29 deve ser interpretado junto ao princípio da vulnerabilidade. Por
essa razão, não aplica o CDC aos contratos de franquia, por entender que, nesse tipo de relação,
o franqueado não se encontra na posição de vulnerabilidade típica do consumidor.
O art. 29 constitui importante regra de extensão, pois permite:
• o controle preventivo de práticas comerciais;
• a proteção contra condutas que afetam indistintamente o público exposto;
• a tutela de interesses difusos e coletivos ligados ao mercado de consumo.
2.4. ESQUEMATIZANDO: ESPÉCIES DE CONSUMIDOR
3. FORNECEDOR
3.1. CONCEITO
O art. 3º do CDC define fornecedor como:
Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada,
nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que
desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção,
transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de
produtos ou prestação de serviços
A partir desse conceito, destacam-se pontos relevantes:
a) O Estado pode ser fornecedor, já que o CDC alcança “toda pessoa (…) pública ou
privada”.
Conceitos de
Consumidor no CDC
Consumidor stricto
sensu (art. 2º caput)
Consumidor
equiparado
Consumidor em
sentido coletivo (art.
2º, p. único)
Consumidor
bystander (art. 17)
Consumidor
potencial ou virtual
(art. 29)
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 56
b) Entes despersonalizados, como massa falida, sociedade de fato, espólio e até camelôs,
também podem ser fornecedores, pois o dispositivo os inclui expressamente.
c) A lista de atividades é meramente exemplificativa. Qualquer atividade que coloque
produtos ou serviços no mercado de consumo, ainda que não mencionada no texto, pode
caracterizar a figura do fornecedor.
3.2. ELEMENTO NUCLEAR
Assim como o conceito de consumidor tem como núcleo a expressão “destinatário final”,
o conceito de fornecedor tem como elemento essencial a expressão “desenvolvem atividade”.
Essa expressão refere-se à atividade profissional, que pressupõe:
• Habitualidade: a atividade deve ser realizada de forma contínua ou reiterada, e não de
modo esporádico.
• Especialização: domínio de técnica ou expertise que coloca o fornecedor em posição
de superioridade diante do consumidor.
• Finalidade econômica: existência de contraprestação. Não se confunde com finalidade
lucrativa.
Pessoas jurídicas sem fins lucrativos, inclusive entidades filantrópicas, podem ser
consideradas fornecedoras quando oferecem produtos ou serviços no mercado, com habitualidade
e especialidade, mediante remuneração.
O STJ reconhece expressamente essa possibilidade:
Processual civil. Recurso especial. Sociedade civil sem fins lucrativos de
caráter beneficente e filantrópico. Prestação de serviços médicos,
hospitalares, odontológicos e jurídicos a seus associados. Relação de
consumo caracterizada. Possibilidade de aplicação do Código de Defesa do
Consumidor. Para o fim de aplicação do Código de Defesa do Consumidor, o
reconhecimento de uma pessoa física ou jurídica ou de um ente
despersonalizado como fornecedor de serviços atende aos critérios
puramente objetivos, sendo irrelevantes a sua natureza jurídica, a espécie
dos serviços que prestam e até mesmo o fato de se tratar de uma sociedade
civil, sem fins lucrativos, de caráter beneficente e filantrópico, bastando que
desempenhem determinada atividade no mercado de consumo mediante
remuneração. Recurso especial conhecido e provido.
Por fim, a atividade considerada deve estar vinculada à atividade principal do fornecedor.
Exemplo: a finalidade principal de uma universidade é a prestação de serviços educacionais, se a
universidade vende um veículo utilizado em sua administração, essa venda não a transforma em
fornecedora, pois não há habitualidade nessa atividade.
3.3. MERCADO DE CONSUMO
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 57
A atividade profissional do fornecedor deve ser exercida no mercado de consumo, entendido
como o espaço de negócios não institucional no qual se desenvolvem atividades econômicas típicas
do ciclo de produção, circulação e distribuição de produtos, bem como da prestação de serviços.
Com base nessa interpretação, o STJ já afastou a aplicação do CDC em determinadas
situações que não configuram mercado de consumo, tais como:
• serviços advocatícios;
• contratos de crédito educativo;
• relações condominiais;
• locação predial urbana;
• serviços de saúde prestados pelos SUS, pois são serviços públicos indivisíveis e
universais.
A legislação consumerista não se aplica aos serviços de saúde prestados
pelo SUS, pois são serviços públicos indivisíveis e universais. Contudo,
mesmo que afastada a incidência do Código de Defesa do Consumidor, a
redistribuição do ônus probatório pode ser determinada em casos de
hipossuficiência técnica do paciente e melhor condição probatória do ente
público. REsp 2.161.702-AM, Rel. Ministro Marco Aurélio Bellizze, Segunda
Turma, por unanimidade, julgado em 18/3/2025, DJEN 25/3/2025.
• previdência privada complementar fechada (Súmula 563).
Súmula 563-STJ: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável às
entidades abertas de previdência complementar, não incidindo nos
contratos previdenciários celebrados com entidades fechadas.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/SE – Juiz Substituto – FGV – 2025): O Código de Defesa do Consumidor
é aplicável à relação entre locador, pessoa jurídica exploradora do mercado
imobiliário, e locatário, pessoa física. Errado!
4. PRODUTO
O conceito de produto está previsto no § 1º do art. 3º do CDC:
Art. 3º, § 1° Produto é qualquer bem, móvel ou imóvel, material ou imaterial.
Trata-se de conceito amplo, que abrange bens móveis e imóveis, bem como bens materiais
e imateriais, incluindo elementos do ambiente virtual. Como o CDC não define o que são bens
móveis ou imóveis, aplica-se, pelo diálogo das fontes, o50
2.3.3. Potencial ou virtual ................................................................................................... 54
2.4. ESQUEMATIZANDO: ESPÉCIES DE CONSUMIDOR .................................................. 55
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 3
3. FORNECEDOR ....................................................................................................................... 55
3.1. CONCEITO ...................................................................................................................... 55
3.2. ELEMENTO NUCLEAR ................................................................................................... 56
3.3. MERCADO DE CONSUMO ............................................................................................ 56
4. PRODUTO .............................................................................................................................. 57
5. SERVIÇO ................................................................................................................................ 57
5.1. REMUNERAÇÃO ............................................................................................................ 58
5.2. SERVIÇOS BANCÁRIOS, FINANCEIROS, DE CRÉDITO E SECURITÁRIOS ............ 58
5.3. SERVIÇOS HABITACIONAIS PROMOVIDOS PELOS SOCIEDADES COOPERATIVAS
58
5.4. SERVIÇOS PÚBLICOS ................................................................................................... 59
5.4.1. Uti singuli e uti universi............................................................................................. 59
5.4.2. Natureza da remuneração ....................................................................................... 60
5.5. SERVIÇOS NOTARIAIS .................................................................................................. 60
RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO..................................................... 61
1. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA ............................................................................... 61
2. TEORIA DA QUALIDADE ....................................................................................................... 61
2.1. QUALIDADE-SEGURANÇA ............................................................................................ 61
2.2. QUALIDADE-ADEQUAÇÃO............................................................................................ 61
3. DEFEITO X VÍCIO .................................................................................................................. 62
4. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO PRODUTO .................................................. 62
4.1. PREVISÃO LEGAL E NOÇÕES GERAIS....................................................................... 62
4.2. ESPÉCIES DE FORNECEDORES ................................................................................. 63
4.3. PRESSUPOSTOS ........................................................................................................... 63
4.4. PRODUTOS DEFEITUOSOS ......................................................................................... 64
4.5. RESPONSABILIDADE DO COMERCIANTE .................................................................. 65
4.6. DIREITO DE REGRESSO E DENUNCIAÇÃO DA LIDE ................................................ 66
4.7. CAUSAS DE EXCLUSÃO DA RESPONSABILIDADE ................................................... 67
5. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO SERVIÇO .................................................... 69
5.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 69
5.2. FORNECEDORES RESPONSÁVEIS ............................................................................. 70
5.3. SERVIÇO DEFEITUOSO ................................................................................................ 70
5.4. CAUSAS EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE .................................................. 71
5.5. RESPONSABILIDADE DO PROFISSIONAL LIBERAL.................................................. 73
5.5.1. Obrigação de meio e obrigação de resultado .......................................................... 73
5.5.2. Responsabilidade de médicos e de hospitais.......................................................... 74
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 4
6. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO PRODUTO E DO SERVIÇO ...................... 76
6.1. FATO GERADOR ............................................................................................................ 76
6.2. RESPONSABILIDADE OBJETIVA.................................................................................. 76
6.3. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA ................................................................................ 77
7. VÍCIO DE QUALIDADE DO PRODUTO................................................................................. 79
7.1. PREVISÃO LEGAL .......................................................................................................... 80
7.2. ESPÉCIES DE VÍCIO ...................................................................................................... 80
7.3. PONTA DE ESTOQUE .................................................................................................... 80
7.4. PRODUTO USADO ......................................................................................................... 80
7.5. PRAZOS PARA SANAR O VÍCIO ................................................................................... 80
7.6. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ................................................................................ 82
7.7. UTILIZAÇÃO IMEDIATA DAS ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS............................... 82
8. VÍCIO DE QUANTIDADE DO PRODUTO .............................................................................. 83
8.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 83
8.2. DIMINUIÇÃO DO VOLUME DO PRODUTO................................................................... 83
8.3. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO ..................................................................................... 84
8.4. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ................................................................................ 84
9. VÍCIO DE QUALIDADE DO SERVIÇO .................................................................................. 85
9.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 85
9.2. ESPÉCIES DE VÍCIOS.................................................................................................... 85
9.3. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO ..................................................................................... 86
9.4. RESPONSABILIDADE DOS PROFISSIONAIS LIBERAIS ............................................ 86
9.5. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ................................................................................ 86
10. VÍCIO DE QUANTIDADE DO SERVIÇO................................................................................ 86
10.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 86
10.2. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO ..................................................................................... 87
10.3. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS ................................................................................ 87
10.4. SERVIÇO PÚBLICO ........................................................................................................ 87
PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA ....................................................................................................... 90
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS ................................................................................................. 90
2. DECADÊNCIA .........................................................................................................................disposto nos arts. 79 a 84 do CC, que
tratam desses conceitos.
5. SERVIÇO
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 58
O Código de Defesa do Consumidor, em seu art. 3º, § 2º, define serviço:
Art. 3º, § 2° Serviço é qualquer atividade fornecida no mercado de consumo,
mediante remuneração, inclusive as de natureza bancária, financeira, de
crédito e securitária, salvo as decorrentes das relações de caráter trabalhista.
5.1. REMUNERAÇÃO
A remuneração é o elemento essencial para que uma atividade seja considerada serviço
sujeito ao CDC. Ela pode ocorrer de duas formas:
a) Direta:
Ocorre quando o consumidor paga diretamente ao fornecedor pela atividade ou produto.
Exemplo: compra de um sapato em loja física ou virtual.
b) Indireta:
O fornecedor recebe remuneração sem pagamento direto pelo consumidor. Exemplos: uso
de redes sociais “gratuitas” (o pagamento ocorre por meio de dados e publicidade), programas de
milhas vinculados ao uso do cartão de crédito.
O STJ, no Resp. 566.468/RJ, firmou entendimento de que é possível que haja remuneração
indireta, vejamos um trecho do julgado:
STJ: Inexiste violação ao art. 3.º, § 2.º, do Código de Defesa do Consumidor,
porquanto, para a caracterização da relação de consumo, o serviço pode ser
prestado pelo fornecedor mediante remuneração obtida de forma indireta.
5.2. SERVIÇOS BANCÁRIOS, FINANCEIROS, DE CRÉDITO E SECURITÁRIOS
As atividades desenvolvidas por instituições financeiras, como contratos bancários,
operações de crédito, seguros e produtos financeiros em geral, são consideradas serviços para fins
de aplicação do CDC.
A proteção consumerista incide tanto nos serviços típicos (conta corrente, empréstimos,
cartões de crédito) quanto nos serviços acessórios (cobranças, tarifas, seguros atrelados a
contratos etc.). Nesse sentido:
Súmula 297 do STJ – O CDC é aplicável as instituições financeiras.
Além disso, o STF, ao julgar a ADI 2591, reconheceu a constitucionalidade do art. 3º, §2º,
do CDC, confirmando a compatibilidade da incidência do CDC sobre serviços bancários e
financeiros.
5.3. SERVIÇOS HABITACIONAIS PROMOVIDOS PELOS SOCIEDADES
COOPERATIVAS
O CDC incide também sobre os empreendimentos habitacionais promovidos por
cooperativas.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 59
Súmula 602-STJ: O Código de Defesa do Consumidor é aplicável aos
empreendimentos habitacionais promovidos pelas sociedades cooperativas.
Embora cooperativas habitacionais tenham sido criadas com propósito de cooperação e
acesso facilitado à moradia, sua atuação prática muitas vezes reproduz a lógica de incorporação
imobiliária: administram recursos, comercializam unidades, estabelecem prazos e assumem
obrigações típicas de fornecedores.
Diante disso, o STJ equipara as cooperativas às incorporadoras, reconhecendo que o
cooperado:
• adquire o imóvel como destinatário final;
• encontra-se em situação de vulnerabilidade perante a cooperativa;
• merece proteção consumerista integral.
Assim, sempre que a cooperativa desempenha atividade de construção e comercialização
de imóveis, ela passa a atuar como fornecedora, submetendo-se às regras do CDC e garantindo
aos cooperados a tutela conferida aos consumidores.
5.4. SERVIÇOS PÚBLICOS
5.4.1. Uti singuli e uti universi
O serviço público pode ser objeto da relação de consumo, tal entendimento pode ser extraído
de diversos dispositivos do CDC, vejamos:
Art. 4º, VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos;
Art. 6º, X – a adequada e eficaz prestação dos serviços públicos em geral.
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias,
permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são
obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos
essenciais, contínuos.
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das
obrigações referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a
cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista neste código.
Porém, não é qualquer serviço público, será objeto da relação de consumo apenas quando
for possível identificar o usuário e quando for possível mensurar a prestação do serviço público.
Trata-se de serviços uti singuli, a exemplo do serviço de água e esgoto, de telefonia.
De outra banda, os serviços indivisíveis e imensuráveis, por serem uti universi, não são
abrangidos pelo CDC, a exemplo do serviço de iluminação pública. Igualmente, os serviços próprios
de Estado (saúde, educação, segurança pública) não podem ser tutelados pelo CDC, diante da
ausência de relação de consumo.
Os serviços públicos impróprios ou UTI SINGULI prestados por órgãos da
administração pública indireta ou, modernamente, por delegação a
concessionários, como previsto na CF (art. 175), são remunerados por tarifa,
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 60
sendo aplicáveis aos respectivos contratos o Código de Defesa do
Consumidor. (STJ AgRg no RECURSO ESPECIAL Nº 1.089.062 - SC
(2008/0205781-5) – SEGUNDA TURMA, Rel. Min. ELIANA CALMON julgado
em JULGADO: 01/09/2009)
5.4.2. Natureza da remuneração
Importante destacar as duas correntes existentes sobre a natureza da remuneração do
serviço público, a fim de distinguir quando será aplicado ou não o CDC. Ressalta-se que ambas as
correntes se referem aos serviços uti singuli, em que há divisibilidade e possibilidade de
mensuração.
1ª corrente 2ª corrente
Entende que APENAS os serviços públicos
remunerados mediante taxa ou tarifa estarão
sujeitos à incidência do CDC;
Entende que SOMENTE quando o serviço
público for remunerado por meio de tarifa ou
preço público haverá a incidência do CDC.
É a posição do STJ.
5.5. SERVIÇOS NOTARIAIS
Atualmente, o STJ possui precedente afastando a aplicação do CDC aos serviços notariais.
Como argumento, afirma que como o STF entende que as custas e emolumentos possuem natureza
administrativa-tributária não há como ser reconhecida uma relação de consumo, pois no lugar de
consumidor há contribuinte, bem como não há como considerar que os cartórios de notas e registros
sejam fornecedores, eis que seus serviços não integram o mercado de consumo
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 61
RESPONSABILIDADE CIVIL NAS RELAÇÕES DE CONSUMO
1. RESPONSABILIDADE CIVIL OBJETIVA
Nas relações de consumo, a responsabilidade civil adota, como regra, o modelo objetivo,
afastando a necessidade de comprovação de culpa do fornecedor. O CDC aplica a Teoria do Risco
da Atividade, segundo a qual quem exerce atividade econômica e aufere lucro deve assumir os
riscos decorrentes dela.
Assim, o fornecedor responde pelos danos causados por seus produtos ou serviços
independentemente de culpa, facilitando a proteção do consumidor, que não precisa demonstrar
a conduta culposa para obter a reparação.
Esse sistema também atende ao ideal de justiça distributiva, pois os riscos inerentes à
atividade são diluídos entre todos os consumidores, incorporados nos preços praticados, evitando
que o prejuízo recaia apenas sobre quem sofreu o dano.
2. TEORIA DA QUALIDADE
A Teoria da Qualidade impõe ao fornecedor o dever de garantir que produtos e serviços
colocados no mercado sejam seguros e adequados. O consumidor deve receber bens que não
apenas funcionem, mas que também não representem riscos.
2.1. QUALIDADE-SEGURANÇA
A qualidade-segurança corresponde ao dever de assegurar que o produto não ofereça
riscos à saúde, à integridade física ou psíquica do consumidor. Somente produtos seguros podem
ser disponibilizados.
O não cumprimento desse dever resulta na aplicação do regime de responsabilidade por
fato do produto ou do serviço, e produtos que falham em atender a qualidade-segurança são
classificados como defeituosos.
2.2. QUALIDADE-ADEQUAÇÃO
O fornecedor também deve garantir que o produto seja adequado ao fim ao qual sedestina, o que envolve duas dimensões:
• Adequação-desempenho: o produto deve desempenhar corretamente suas funções.
Ex.: celular cujo Wi-Fi não funciona.
• Adequação-durabilidade: deve observar a durabilidade razoavelmente esperada.
Ex.: televisão que apresenta defeito após três meses de uso.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 62
Quando há falha na adequação, incide o regime de responsabilidade por vício do produto
ou do serviço.
A Teoria da Qualidade é reconhecida pelo STJ, que a utiliza para definir o regime de
responsabilidade e diferenciar defeito de vício, conforme o REsp 967.623/RJ:
STJ - No sistema do CDC, a responsabilidade pela qualidade biparte-se na
exigência de adequação e segurança, segundo o que razoavelmente se pode
esperar dos produtos e serviços. Nesse contexto, fixa, de um lado, a
responsabilidade pelo fato do produto ou do serviço, que compreende os
defeitos de segurança; e de outro, a responsabilidade por vício do produto ou
do serviço, que abrange os vícios por inadequação.
3. DEFEITO X VÍCIO
A distinção entre defeito e vício decorre diretamente da Teoria da Qualidade, que separa o
dever de segurança do dever de adequação. Observe o quadro:
DEFEITO VÍCIO
Corresponde à falha de segurança, resultante
do descumprimento do dever de qualidade-
segurança. O produto ou serviço passa a
apresentar uma potencialidade danosa que
normalmente não possui e que, portanto, é
inesperada para o consumidor.
Refere-se à inadequação do produto ou serviço
ao fim a que se destina, decorrente do
descumprimento do dever de qualidade-
adequação (vício de qualidade). Também
abrange a diferença quantitativa entre o que
foi informado e o que foi efetivamente entregue
ao consumidor (vício de quantidade).
4. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO PRODUTO
4.1. PREVISÃO LEGAL E NOÇÕES GERAIS
A responsabilidade civil pelo fato do produto está prevista no art. 12 do CDC, que dispõe:
Art. 12. O fabricante, o produtor, o construtor, nacional ou estrangeiro, e o
importador respondem, independentemente da existência de culpa, pela
reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos decorrentes
de projeto, fabricação, construção, montagem, fórmulas, manipulação,
apresentação ou acondicionamento de seus produtos, bem como por
informações insuficientes ou inadequadas sobre sua utilização e riscos.
§ 1° O produto é defeituoso quando não oferece a segurança que dele
legitimamente se espera, levando-se em consideração as circunstâncias
relevantes, entre as quais:
I - sua apresentação;
II - o uso e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi colocado em circulação.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 63
§ 2º O produto não é considerado defeituoso pelo fato de outro de melhor
qualidade ter sido colocado no mercado.
§ 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
Como regra, trata-se de responsabilidade objetiva, de modo que não se exige prova de
culpa. É necessário, contudo, que o dano decorra de um defeito, isto é, uma falha de segurança.
O art. 12 define os fornecedores responsáveis pelo fato do produto:
• Fabricante – participa da fabricação do produto, ainda que apenas de um componente;
o montador também se enquadra nessa categoria.
• Produtor – disponibiliza produtos não industrializados no mercado.
• Importador – coloca no mercado nacional produtos de origem estrangeira.
• Construtor – disponibiliza bens imóveis no mercado de consumo.
4.2. ESPÉCIES DE FORNECEDORES
A doutrina identifica, com base no art. 12, três espécies de fornecedores:
1) Fornecedor real:
É aquele que participa diretamente do processo de fabricação, produção ou construção do
produto, como o fabricante, o produtor e o construtor.
2) Fornecedor presumido:
Não participa do processo produtivo, mas é equiparado ao fabricante por presunção legal.
Exemplo: importador, que atua apenas como intermediário entre quem fabrica e o consumidor.
3) Fornecedor aparente:
É quem coloca sua marca no produto e gera no consumidor uma legítima expectativa de
confiabilidade. Os defeitos desses produtos são de responsabilidade do franqueador. Exemplo:
franqueadores.
O CDC adota uma técnica específica de responsabilização:
• Quando utiliza o termo fornecedor de forma genérica, todos os agentes da cadeia de
produção são solidariamente responsáveis (art. 14).
• Quando especifica os agentes (fabricante, produtor, construtor, importador), somente
esses serão responsáveis pelos danos decorrentes de defeito do produto (art. 12).
4.3. PRESSUPOSTOS
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 64
Para que a responsabilidade civil pelo fato do produto seja aplicada, é necessário que
estejam presentes os seguintes pressupostos:
1) Conduta:
Consiste na colocação do produto no mercado de consumo pelo fornecedor.
Exemplo: a compra de um óculos da marca “X” na Rua 25 de Março, em São Paulo, por
valor muito abaixo do praticado no mercado. Se o consumidor tentar responsabilizar a marca “X”,
não haverá responsabilidade, pois o fornecedor não colocou o produto falsificado no mercado. Há,
portanto, ausência de conduta imputável ao fornecedor.
2) Dano:
O dano deve ser extrínseco ao produto, isto é, deve ultrapassar a simples depreciação
econômica do bem. Exemplo: motocicleta adquirida com defeito nos freios. Se o consumidor
identifica o problema antes de qualquer acidente, não há dano, e, portanto, não há responsabilidade
pelo fato do produto.
3) Nexo causal:
É a relação de causa e efeito entre a conduta do fornecedor e o dano sofrido pelo
consumidor.
Uma vez demonstrado o nexo causal, cabe ao fornecedor comprovar a inexistência do
defeito ou a ocorrência de alguma das excludentes previstas no § 3º do art. 12 do CDC.
Demonstrada, pelo consumidor, a relação de causa e efeito entre o produto
e o dano, incumbe ao fornecedor o ônus de comprovar a inexistência de
defeito do produto ou a configuração de outra excludente de responsabilidade
consagrada no § 3º do art. 12 do CDC. STJ. 3ª Turma. REsp 1.955.890-SP,
Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 05/10/2021 (Info 714).
4) Defeito:
O defeito deve estar presente, mas há presunção legal (ou inversão legal do ônus da prova).
Assim, o consumidor não precisa comprovar diretamente a existência do defeito para pleitear a
responsabilidade.
4.4. PRODUTOS DEFEITUOSOS
O defeito de um produto corresponde a uma falha de segurança que o torna inadequado
ao uso que legitimamente se espera. O art. 12, § 1º, do CDC estabelece que o produto é
considerado defeituoso quando não oferece a segurança esperada, considerando-se sua
apresentação, os riscos razoáveis e a época em que foi colocado em circulação.
A doutrina classifica os defeitos em três espécies:
a) Defeito de concepção ou de criação:
São falhas decorrentes do projeto, da fórmula ou da estrutura técnica do produto, tornando-
o perigoso para todos os consumidores. Exemplos: erro no design de uma chapinha de cabelo que
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 65
a torna excessivamente perigosa; escolha inadequada de matéria-prima para determinado
medicamento.
Características:
• Inevitabilidade: não podem ser identificados por controle de qualidade;
• Universalidade: alcançam todos os produtos de uma mesma série.
b) Defeito de fabricação:
São falhas que surgem durante a produção, montagem, manipulação ou acondicionamento
do produto, afetando apenas algumas unidades. Exemplo: erro no acondicionamento de um
alimento, tornando-o impróprio para consumo.
Características:
• Inevitabilidade: escapam ao controle;
• Pontualidade: alcança apenas determinados produtos.
c) Defeito de comercialização:
Decorrede falhas na forma de apresentação do produto, incluindo informações insuficientes
ou inadequadas sobre seu uso, riscos ou modo de operação. Exemplo: produto eletrônico vendido
sem manual de instruções claro ou sem advertências sobre riscos específicos.
Aqui, a falha de segurança não está no produto em si, mas na maneira como é
disponibilizado ao consumidor. Por esse motivo, trata-se de um defeito extrínseco, ao contrário dos
defeitos de concepção e fabricação, que são intrínsecos.
O art. 8º do CDC reforça a necessidade de informações adequadas sobre o uso de produtos
industriais e a obrigatoriedade de cuidados como higienização de equipamentos e móveis,
justamente para evitar riscos decorrentes de defeitos de comercialização.
Art. 8,
§ 1º Em se tratando de produto industrial, ao fabricante cabe prestar as
informações a que se refere este artigo, através de impressos apropriados
que devam acompanhar o produto.
§ 2º O fornecedor deverá higienizar os equipamentos e utensílios utilizados
no fornecimento de produtos ou serviços, ou colocados à disposição do
consumidor, e informar, de maneira ostensiva e adequada, quando for o caso,
sobre o risco de contaminação.
4.5. RESPONSABILIDADE DO COMERCIANTE
A responsabilidade do comerciante possui natureza subsidiária, sendo aplicada apenas nas
hipóteses previstas no art. 13 do CDC. Em regra, o comerciante somente será acionado quando os
fornecedores principais não puderem ser responsabilizados.
Há doutrina minoritária que admite uma possível responsabilidade direta do comerciante,
mas sempre limitada às situações expressamente descritas no art. 13.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 66
O comerciante será responsabilizado nos seguintes casos:
a) Produto anônimo (art. 13, I)
Ocorre quando não é possível identificar qualquer dos fornecedores mencionados no art. 12
(fabricante, produtor, construtor, nacional ou estrangeiro, ou importador). Nesta situação, o
comerciante assume a responsabilidade pelos danos.
b) Produto mal identificado (art. 13, II)
Verifica-se quando o produto é colocado no mercado sem identificação clara do fornecedor.
Diante da ausência ou insuficiência de informações, o comerciante responde pelos danos causados.
c) Conservação inadequada (art. 13, III)
Aplica-se quando o dano decorre de falhas na conservação de produtos perecíveis,
responsabilidade que recai diretamente sobre o comerciante, por ser quem mantém o produto
armazenado e disponível ao consumidor.
A responsabilidade do comerciante não afasta a dos demais integrantes da cadeia de
fornecimento. A expressão “igualmente responsável”, utilizada no caput do art. 13 do CDC, reforça
que, mesmo quando o comerciante é chamado a responder, fabricante, produtor, importador e
demais fornecedores continuam obrigados a reparar o dano. Trata-se, portanto, de
responsabilidade que se soma às dos demais, e não que as substitui.
4.6. DIREITO DE REGRESSO E DENUNCIAÇÃO DA LIDE
O parágrafo único do art. 13 do CDC assegura ao comerciante que indenizou o consumidor
o direito de regresso contra os demais responsáveis, na medida da participação de cada um no
evento danoso:
Art. 13, Parágrafo único. Aquele que efetivar o pagamento ao prejudicado
poderá exercer o direito de regresso contra os demais responsáveis, segundo
sua participação na causação do evento danoso.
Embora o dispositivo trate especificamente da responsabilidade do comerciante, o direito de
regresso também se aplica às hipóteses do art. 12, em razão do caráter solidário da
responsabilidade na cadeia de fornecimento.
O art. 88 do CDC disciplina a forma de exercício dessa pretensão, permitindo duas vias ação
de regresso em processo autônomo ou exercício do direito nos mesmos autos da ação principal.
Contudo, o dispositivo veda expressamente a denunciação da lide, justamente para evitar incidentes
processuais que retardem a solução do conflito:
Art. 88. Na hipótese do art. 13, parágrafo único deste código, a ação de
regresso poderá ser ajuizada em processo autônomo, facultada a
possibilidade de prosseguir-se nos mesmos autos, vedada a denunciação da
lide.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 67
A finalidade dessa vedação é preservar a celeridade e a efetividade da tutela consumerista,
evitando que discussões internas entre fornecedores comprometam a rápida reparação dos danos
sofridos pelo consumidor.
O STJ consolidou o entendimento de que essa proibição se aplica não apenas à
responsabilidade do comerciante, mas também às hipóteses de responsabilidade pelo fato do
produto e pelo fato do serviço:
1. A vedação à denunciação da lide prevista no art. 88 do CDC não se
restringe à responsabilidade de comerciante por fato do produto (art. 13 do
CDC), sendo aplicável também nas demais hipóteses de responsabilidade
civil por acidentes de consumo (arts. 12 e 14 do CDC). 2. Revisão da
jurisprudência desta Corte. 3. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. (REsp
1165279/SP, Rel. Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, TERCEIRA
TURMA, julgado em 22/05/2012, DJe 28/05/2012).
4.7. CAUSAS DE EXCLUSÃO DA RESPONSABILIDADE
As causas de exclusão da responsabilidade pelo fato do produto estão previstas no § 3º do
art. 12 do CDC:
Art. 12, § 3° O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não será
responsabilizado quando provar:
I - que não colocou o produto no mercado;
II - que, embora haja colocado o produto no mercado, o defeito inexiste;
III - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros.
O ônus da prova recai sobre o fornecedor, que deverá comprovar uma das hipóteses abaixo.
a) Não colocou o produto no mercado:
Se o fornecedor comprovar que não colocou o produto em circulação, não poderá ser
responsabilizado. Exemplo: uma marca que não autorizou a venda de produtos falsificados não
responde por defeitos desses itens.
No episódio das “pílulas de farinha”, o laboratório alegou não ter colocado o produto no
mercado. O STJ, contudo, manteve a condenação, entendendo haver negligência, pois faltavam
padrões objetivos de controle e cuidado.
b) Inexistência do defeito:
Se o fornecedor demonstrar que o produto não possui defeito, a responsabilidade é excluída.
c) Culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros:
A culpa exclusiva do consumidor ocorre quando a conduta da vítima é a única causa do
acidente, como quando alguém usa um produto de forma contrária às instruções. Por outro lado, a
culpa exclusiva de terceiros acontece quando um agente externo é o único responsável pelo dano,
rompendo o nexo causal entre o defeito do produto e o prejuízo ao consumidor.
Ex.: Um eletricista que instala um ar-condicionado em uma rede elétrica inadequada (110V)
causando danos. Nesse caso, a responsabilidade do fornecedor é excluída.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 68
A culpa exclusiva não se confunde com culpa concorrente da vítima. Por exemplo, a
montadora faz um recall de determinado veículo, mesmo recebendo a notificação o consumidor não
leva o carro para o recall, vindo a sofrer um dado. Percebe-se que o dano ocorreu pela ação da
montadora, mas também pela atitude do consumidor, não haverá exclusão da responsabilidade.
Parcela da doutrina entende que a responsabilidade não poderá ser minorada, pois o CDC prevê a
reparação integral. De outra banda, há doutrina afirmando que seria possível minorar, aplicando-se
o art. 945 do CC por analogia (é o entendimento do STJ).
d) Caso fortuito e força maior:
A doutrina não é unânime quanto à distinção entre caso fortuito e força maior. O Código Civil
trata ambos como sinônimos:
CC, Art. 393. Parágrafo único. O caso fortuito ou de força maior verifica-se no
ato necessário, cujos efeitos não eram possíveis evitar ou impedir.
Para o Direito do Consumidor e seguindo o próprio STJ, não há distinção conceitual
relevante entre os termos. Contudo, para fins de responsabilidade, é essencial distinguirfortuito
interno e fortuito externo, distinção amplamente aceita pela doutrina e pela jurisprudência:
FORTUITO INTERNO FORTUITO EXTERNO
Relacionado à atividade do fornecedor.
Não guarda relação com a atividade do
fornecedor.
Ocorre antes da introdução do produto no
mercado.
Ocorre após a entrada no mercado.
Não exclui a responsabilidade.
Exclui a responsabilidade (rompe o nexo
causal).
e) Risco de desenvolvimento:
Refere-se a situações em que um defeito não poderia ser conhecido cientificamente quando
o produto foi colocado no mercado, sendo descoberto posteriormente.
Em relação à responsabilidade do fornecedor, há duas correntes:
1ª Corrente (minoritária): defende que o fornecedor não responde pelos riscos de
desenvolvimento. Segundo essa posição, no momento da introdução do produto no mercado o
defeito não existia ou não podia ser detectado, motivo pelo qual o fornecedor não poderia ser
responsabilizado.
2ª Corrente (majoritária): sustenta que os riscos de desenvolvimento não excluem a
responsabilidade do fornecedor. Os argumentos são:
• o art. 12, § 3º, não inclui os riscos de desenvolvimento entre as causas de exclusão da
responsabilidade;
• essa solução se harmoniza com os princípios da vulnerabilidade do consumidor e da
reparação integral, reforçados pela CF (arts. 5º, XXXII, e 170, V);
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 69
• o defeito oriundo de risco de desenvolvimento corresponde a uma forma de defeito de
concepção, cuja responsabilidade deve recair sobre o fornecedor;
• somente o fornecedor consegue socializar os riscos, distribuindo seus custos por meio
do preço.
O STJ acompanha essa posição. No REsp 1.774.372/RS, a 3ª Turma afirmou que o risco de
desenvolvimento constitui fortuito interno, não excludente da responsabilidade civil:
O risco do desenvolvimento, entendido como aquele que não podia ser
conhecido ou evitado no momento em que o medicamento foi colocado em
circulação, constitui defeito existente desde o momento da concepção do
produto, embora não perceptível a priori, caracterizando, pois, hipótese de
fortuito interno. (REsp 1774372/RS, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI,
TERCEIRA TURMA, julgado em 05/05/2020, DJe 18/05/2020).
CAUSAS EXCLUDENTES CAUSAS NÃO EXCLUDENTES
Não colocação do produto no mercado (art.
12, § 3.º, I).
Culpa concorrente da vítima (tem sido
admitida somente como fator de redução do
quantum da indenização).
Inexistência de defeito (art. 12, § 3.º, II) Caso fortuito ou força maior internos
Culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros
(art. 12, § 3.º, III).
Riscos do desenvolvimento (não excluem a
responsabilidade do fornecedor, segundo a
doutrina majoritária.
Caso fortuito ou força maior externos (embora
não previstos no CDC, têm sido admitidos pela
doutrina majoritária e pela jurisprudência do
STJ.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/SC – Juiz Substituto – FGV – 2024): O risco do desenvolvimento é
entendido como aquele que não podia ser conhecido ou evitado quando o
produto foi colocado em circulação, e caracteriza fortuito externo com relação
aos danos que não poderiam ser previstos, de modo a fazer com que o
produto deixe de ser considerado defeituoso. Errado. Caracteriza fortuito
interno e deve ser suportado pelo fornecedor, inclusive fazendo com
que o produto seja considerado defeituoso desde a sua introdução no
mercado de consumo.
5. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO FATO DO SERVIÇO
5.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
A responsabilidade pelo fato do serviço está prevista no art. 14 do CDC, que dispõe:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 70
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência
de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos
relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes
ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
§ 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o
consumidor dele pode esperar, levando-se em consideração as
circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido.
§ 2º O serviço não é considerado defeituoso pela adoção de novas técnicas.
§ 3° O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro.
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada
mediante a verificação de culpa.
Assim como na responsabilidade pelo fato do produto, destacam-se os seguintes pontos
comuns:
• a responsabilidade é objetiva;
• aplica-se a teoria do risco da atividade;
• o dano decorre de um defeito;
• o dano deve ser extrínseco ao serviço;
• os pressupostos de responsabilização são os mesmos.
5.2. FORNECEDORES RESPONSÁVEIS
No regime do fato do serviço, o CDC emprega o termo fornecedor em sentido amplo. Assim,
todos os integrantes da cadeia de fornecimento respondem solidariamente pelos danos decorrentes
do defeito do serviço.
Exemplo: na contratação de um pacote de viagens por meio de uma agência como a CVC,
eventuais danos podem decorrer do hotel, da companhia aérea ou de outros prestadores
envolvidos. Em qualquer caso, todos são responsáveis, pois integram a cadeia de fornecimento do
serviço contratado.
5.3. SERVIÇO DEFEITUOSO
O serviço é considerado defeituoso quando apresenta uma falha de segurança, decorrente
do descumprimento do dever de oferecer apenas serviços seguros no mercado de consumo. O
defeito provoca um evento inesperado, ultrapassando o risco normal da atividade.
Art. 14, § 1° O serviço é defeituoso quando não fornece a segurança que o
consumidor dele pode esperar, levando-se em consideração as
circunstâncias relevantes, entre as quais:
I - o modo de seu fornecimento;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 71
II - o resultado e os riscos que razoavelmente dele se esperam;
III - a época em que foi fornecido.
O defeito pode ocorrer em três momentos distintos:
a) Defeito na concepção
Surge na formulário ou estruturação do serviço. Exemplo: ataque cibernético ao site de um
banco que possui falha no sistema de segurança, causando prejuízo ao correntista.
b) Defeito na prestação
Manifesta-se durante a execução do serviço. Exemplo: danos à saúde de paciente hospitalar
em razão da má administração de medicamentos.
c) Defeito na comercialização
Decorre de informações insuficientes ou inadequadas sobre a fruição e os riscos do serviço.
Exemplo: acidente em academia de ginástica por falta de orientações adequadas sobre o uso
seguro de determinado aparelho.
5.4. CAUSAS EXCLUDENTES DE RESPONSABILIDADE
As causas de exclusão da responsabilidade pelo fato do serviço estão previstas no § 3º do
art. 14 do CDC:
Art. 14, §3º. O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando
provar:
I - que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste.
II - a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros.
As hipóteses são restritivas e o ônus da prova recai sobre o fornecedor.
a) Ausência de defeito:
Se o fornecedor demonstra que não há defeito na prestação do serviço, ocorre a exclusão
da responsabilidade, pois falta um dos pressupostos essenciais do acidente de consumo.
O encargo probatório é inteiramente do fornecedor.
b) Culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros:
A responsabilidade é excluída quando o dano decorre exclusivamente da conduta do próprio
consumidor ou de um terceiro estranho à relação de consumo. Nessas hipóteses, há rompimento
do nexo causal, afastando a responsabilidade objetiva do fornecedor.
Com base na culpa exclusiva de terceiro, o STJ excluiu a responsabilidade solidária de
agência vendedora de passagem área por cancelamento de voo pela companhia aérea.
A vendedora de passagem aéreanão responde solidariamente com a
companhia aérea pelos danos morais e materiais experimentados pelo
passageiro em razão do cancelamento do voo. STJ. 3ª Turma. REsp
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 72
2.082.256-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 12/9/2023 (Info
788).
No golpe do motoboy, comprovada a entrega voluntária do cartão e senha, a
responsabilidade da instituição financeira é afastada por culpa exclusiva do consumidor.
Exclui-se a responsabilidade da instituição financeira por danos decorrentes
de fraude praticada por terceiro, quando a compra, realizada em loja física,
foi realizada com a entrega voluntária do cartão original e de senha pessoal
pelo correntista, prática comumente conhecida como golpe do motoboy,
caracterizando culpa exclusiva do consumidor, ainda que vulnerável em
decorrência de doença grave. REsp 2.155.065-MG, rel. Ministra Nancy
Andrighi, rel. para acórdão Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira
Turma, por maioria, julgado em 11/3/2025.
c) Caso fortuito ou força maior:
Nos acidentes de consumo relacionados ao fato do serviço, o caso fortuito ou a força maior
excluem a responsabilidade somente quando forem externos.
• Caso fortuito ou força maior externo: é aquele absolutamente alheio à atividade
desempenhada pelo fornecedor. Exemplo: passageiro atingido por bala perdida
enquanto está dentro do ônibus.
• Caso fortuito ou força maior interno: relaciona-se à atividade desenvolvida pelo
fornecedor. Exemplo: acidente de trânsito envolvendo passageiros de ônibus. Não exclui
a responsabilidade.
Observe o quadro abaixo baseado na jurisprudência do STJ:
Fortuito Interno – Não exclui
responsabilidade
Fortuito Externo – Exclui responsabilidade
Furtos, roubos e latrocínios em estacionamento
de agência bancária.
Roubo em estacionamento particular,
independente da agência.
Roubo de talonário de cheques durante
transporte por empresa contratada pelo banco.
Roubo no interior de ônibus de transporte
coletivo.
Fraudes e delitos praticados por terceiros em
operações bancárias (Súmula 479).
Roubo de veículo conduzido por manobrista de
restaurante (valet).
Transação fraudulenta em plataforma de
criptomoedas com uso de login, senha e
autenticação de dois fatores (fortuito interno
ligado ao risco da atividade digital). REsp
2.104.122-MG.
Roubo em estação de metrô.
Roubo dentro de agência dos Correios com
serviço de banco postal.
Arremesso de pedra, do exterior, atingindo
passageiros de trem.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 73
Fortuito Interno – Não exclui
responsabilidade
Fortuito Externo – Exclui responsabilidade
Roubo dentro de estacionamento de
supermercado ou shopping.
Bala perdida disparada contra ônibus
Danos a passageiros de transporte coletivo
decorrentes de acidente de trânsito.
-
Roubo armado em fila de drive-thru.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(ENAM – FGV – 2025.2): Silvia ingressou com uma ação requerendo o
pagamento de indenização por danos morais em face da Viação Augustina
Ltda. Ela sustentou que, ao fazer uso dos serviços da empresa no transporte
público municipal, sofreu assédio sexual por parte de um passageiro
embriagado, fato que gerou, inclusive a prisão em flagrante do agressor.
Nesse contexto, considerando a legislação em vigor e a jurisprudência
sedimentada nos Tribunais Superiores, o pedido deverá ser julgado
procedente, uma vez que se trata de hipótese de responsabilidade objetiva
agravada, que não admite excludentes de responsabilidade. Errado! O
pedido deverá ser julgado improcedente, uma vez que, mesmo que
aplicada a responsabilidade objetiva, faz-se presente a hipótese de caso
fortuito externo.
5.5. RESPONSABILIDADE DO PROFISSIONAL LIBERAL
A responsabilidade dos profissionais liberais constitui uma exceção à responsabilidade
objetiva do CDC. Nesses casos, aplica-se a responsabilidade subjetiva, exigindo a comprovação
de culpa, conforme dispõe o § 4º do art. 14 do CDC:
Art. 14, §4º. A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será
apurada mediante a verificação de culpa.
Profissional liberal é aquele que exerce a atividade com alta especialização, de forma
pessoal, autônoma e sem subordinação, independentemente de grau de escolaridade.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MPE/BA – Promotor de Justiça – Fundação CEFETBAHIA – 2025): No
CDC, os profissionais liberais também respondem solidariamente e
objetivamente pelo fato do produto ou serviço que venha a causar danos aos
consumidores. Errado!
5.5.1. Obrigação de meio e obrigação de resultado
Na obrigação de meio, o fornecedor compromete-se a empregar todos os esforços
necessários para alcançar determinado resultado, sem garanti-lo. Assim, se o resultado não for
obtido, cabe ao consumidor comprovar a culpa do fornecedor.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 74
Na obrigação de resultado, o fornecedor assegura que o resultado será alcançado. Caso
isso não ocorra, presume-se a culpa do fornecedor.
Em procedimentos que combinam finalidade corretiva e estética, a obrigação é mista:
• na parte corretiva, há obrigação de meio;
• na parte estética, há obrigação de resultado.
O STJ afirma que as cirurgias plásticas estéticas configuram obrigações de resultado, mas
a responsabilidade do profissional é subjetiva, com presunção de culpa e inversão do ônus da prova
em favor do consumidor. Compete ao cirurgião demonstrar que não agiu com culpa para se
exonerar da responsabilidade.
Em procedimento cirúrgico para fins estéticos, conquanto a obrigação seja de
resultado, não se vislumbra responsabilidade objetiva pelo insucesso da
cirurgia, mas mera presunção de culpa médica, o que importa a inversão do
ônus da prova, cabendo ao profissional elidi-la de modo a exonerar-se da
responsabilidade contratual pelos danos causados ao paciente, em razão do
ato cirúrgico. (REsp 985.888/SP, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO,
QUARTA TURMA, julgado em 16/02/2012, DJe 13/03/2012).
O STJ também entende que a mera utilização de técnica adequada não basta para afastar
a presunção de culpa quando o resultado não corresponde ao que razoavelmente se espera.
Nesses casos, o médico somente se exime se comprovar a existência de fator imponderável, como
caso fortuito, força maior ou culpa exclusiva da vítima.
Além disso, essa presunção não se baseia na insatisfação subjetiva da paciente, mas em
um critério objetivo, há dever de indenizar quando o resultado final da cirurgia se revela
desarmonioso segundo o senso comum, ou seja, quando o resultado estético não representa
melhora em relação à condição anterior.
Em se tratando de cirurgia plástica estética não reparadora, caso o resultado
seja desarmonioso, segundo o senso comum, presume-se a culpa do
profissional e o dever de indenizar, ainda que não tenha sido verificada
imperícia, negligência ou imprudência. REsp 2.173.636-MT, Rel. Ministra
Maria Isabel Gallotti, Quarta Turma, por unanimidade, julgado em 10/12/2024,
DJEN 18/12/2024.
5.5.2. Responsabilidade de médicos e de hospitais
O hospital enquadra-se no caput do art. 14 do CDC, sendo, portanto, fornecedor e
respondendo objetivamente. Já o médico, por ser profissional liberal (§ 4º), responde
subjetivamente, mediante prova de culpa.
Essa distinção gerou, por muito tempo, um “duelo” entre responsabilidades, solucionado
pelo STJ por meio de três entendimentos consolidados:
1º Caso: dano causado pelo hospital:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 75
Quando o dano decorre de falha própria do estabelecimento hospitalar, como defeito na
segurança, infecção hospitalar, falha em equipamentos, má conservação, intoxicação alimentar, a
responsabilidade é exclusivamente do hospital, de forma objetiva.
Por exemplo, paciente em trabalho de parto aguarda longo período por indisponibilidade de
sala cirúrgica, resultando em sofrimento fetale óbito do bebê. O defeito estava na prestação do
serviço hospitalar, portanto, a responsabilidade é objetiva do hospital.
O estabelecimento hospitalar responde objetivamente pelos danos causados
aos pacientes toda vez que o fato gerador for o defeito do seu serviço (art.
14, caput, do CDC). Ex: estadia do paciente (internação e alimentação),
instalações, equipamentos, serviços auxiliares (enfermagem, exames,
radiologia) etc. Se o defeito estiver relacionado com um desses serviços do
hospital, a responsabilidade é objetiva, como foi no caso concreto. STJ. 4ª
Turma. AgInt no AgInt no REsp 1718427-RS, Rel. Min. João Otávio de
Noronha, julgado em 6/3/2023 (Info 768).
2º Caso: dano causado pelo médico
Quando o dano decorre da conduta do médico, a responsabilidade do hospital dependerá
de haver ou não vínculo:
a) Há vínculo entre médico e hospital: responsabilidade solidária.
• O hospital responde indiretamente pelos atos culposos do profissional (arts. 932 e 933
do CC).
• A culpa do médico deve ser comprovada pela vítima.
• É possível a inversão do ônus da prova (art. 6º, VIII, do CDC) diante da hipossuficiência
do paciente.
b) Não há vínculo entre médico e hospital
Se o médico apenas utiliza as dependências hospitalares (profissional convidado, prestador
eventual), o hospital não responde pelos danos causados.
A denunciação da lide é vedada nas relações de consumo (art. 88 do CDC). A jurisprudência
do STJ estende essa vedação a todas as hipóteses de acidentes de consumo, inclusive aos serviços
hospitalares e casos de erro médico, dada a responsabilidade objetiva do hospital (art. 14 do CDC).
Recentemente, o STJ reafirmou que , nos casos em que há falha sistêmica no atendimento
hospitalar, envolvendo diversos médicos plantonistas em dias distintos, não cabe denunciação da
lide. Nessas situações, a responsabilidade decorre do defeito do serviço hospitalar, e não da
conduta individual de um médico específico, aplicando-se a teoria do risco da atividade.
Não é possível ao hospital denunciar a lide aos médicos responsáveis pelos
atendimentos a paciente, aos quais é imputada a prática de erro médico. STJ.
3ª Turma. REsp 2.160.516-CE, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. para acórdão
Min. Humberto Martins, julgado em 1º/4/2025 (Info 846).
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 76
Por fim, é importante destacar que o STJ admite, de forma excepcional, a denunciação da
lide somente quando a eventual responsabilidade solidária do hospital depender necessariamente
da apuração da culpa do médico (hipótese rara).
5. Em circunstâncias específicas como a destes autos, na qual se imputa ao
hospital a responsabilidade objetiva por suposto ato culposo dos médicos a
ele vinculados, deve ser admitida, excepcionalmente, a denunciação da lide,
sobretudo com o intuito de assegurar o resultado prático da demanda e evitar
a indesejável situação de haver decisões contraditórias a respeito do mesmo
fato. STJ. 3ª Turma. REsp 1.832.371/MG, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado
em 22/06/2021.
6. RESPONSABILIDADE CIVIL PELO VÍCIO DO PRODUTO E DO SERVIÇO
Antes de analisar o vício do produto e o vício do serviço separadamente, é fundamental
compreender suas diferenças em relação à responsabilidade civil pelo fato do produto ou do serviço.
Veja o quadro comparativo:
Responsabilidade pelo Fato do
Produto/Serviço
Responsabilidade pelo Vício do
Produto/Serviço
Fato gerador: defeito Fato gerador: vício
Defeito: compromete a segurança do bem,
provocando danos externos (acidente de
consumo).
Vício: limita-se ao próprio produto ou serviço,
afetando a qualidade ou a economicidade.
Protege a incolumidade físico-psíquica do
consumidor.
Protege a incolumidade econômica do
consumidor.
Após essa distinção, passam-se aos elementos comuns entre vício do produto e vício do
serviço.
6.1. FATO GERADOR
O fato gerador da responsabilidade é o vício do produto ou do serviço, entendido como
inadequação ou falta de conformidade que afeta a utilidade, qualidade ou quantidade contratada.
6.2. RESPONSABILIDADE OBJETIVA
A responsabilidade pelo vício do produto ou do serviço é objetiva, dispensando a análise de
dolo ou culpa. Basta a ocorrência do dano, ou seja, a lesão à incolumidade econômica do
consumidor.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 77
Embora o CDC não declare expressamente a objetividade nesse capítulo, é pacífico, na
doutrina e na jurisprudência, que prevalece a regra geral da responsabilidade objetiva do
fornecedor, exceto quando o CDC determinar o contrário.
O principal exemplo de exceção é a responsabilidade do profissional liberal, prevista no art.
14, § 4º:
Art. 14. O fornecedor de serviços responde, independentemente da existência
de culpa, pela reparação dos danos causados aos consumidores por defeitos
relativos à prestação dos serviços, bem como por informações insuficientes
ou inadequadas sobre sua fruição e riscos.
§ 4° A responsabilidade pessoal dos profissionais liberais será apurada
mediante a verificação de culpa.
Como reforço à tese da responsabilidade objetiva pelo vício, destaca-se o art. 23 do CDC,
segundo o qual:
Art. 23. A ignorância do fornecedor sobre os vícios de qualidade por
inadequação dos produtos e serviços não o exime de responsabilidade.
O STJ consolidou que as instituições de ensino superior respondem objetivamente pelos
danos gerados pela oferta de curso não reconhecido pelo MEC, quando não houver informação
prévia e adequada ao aluno:
Súmula 595-STJ: As instituições de ensino superior respondem
objetivamente pelos danos suportados pelo aluno/consumidor pela realização
de curso não reconhecido pelo Ministério da Educação, sobre o qual não lhe
tenha sido dada prévia e adequada informação.
6.3. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA
Nos vícios de produto e de serviço, todos os fornecedores respondem solidariamente,
independentemente da posição que ocupam na cadeia de produção, distribuição ou
comercialização.
Isso ocorre porque, nesse capítulo do CDC, a expressão “fornecedor” é utilizada como
gênero, abrangendo todos os integrantes da cadeia de consumo.
A responsabilidade solidária está prevista nos arts. 18, 19 e 20 do CDC, que disciplinam,
respectivamente:
Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis
respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os
tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes
diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com
a indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou
mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua
natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o
consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas
condições de uso;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 78
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 2° Poderão as partes convencionar a redução ou ampliação do prazo
previsto no parágrafo anterior, não podendo ser inferior a sete nem superior
a cento e oitenta dias. Nos contratos de adesão, a cláusula de prazo deverá
ser convencionada em separado, por meio de manifestação expressa do
consumidor.
§ 3° O consumidor poderá fazer uso imediato das alternativas do § 1° deste
artigo sempre que, em razão da extensão do vício, a substituição das partes
viciadas puder comprometer a qualidade ou características do produto,
diminuir-lhe o valor ou se tratar de produto essencial.
§ 4° Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do § 1° deste
artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver substituição
poroutro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante complementação
ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo do disposto nos
incisos II e III do § 1° deste artigo.
§ 5° No caso de fornecimento de produtos in natura, será responsável perante
o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando identificado claramente
seu produtor.
§ 6° São impróprios ao uso e consumo:
I - os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos;
II - os produtos deteriorados, alterados, adulterados, avariados, falsificados,
corrompidos, fraudados, nocivos à vida ou à saúde, perigosos ou, ainda,
aqueles em desacordo com as normas regulamentares de fabricação,
distribuição ou apresentação;
III - os produtos que, por qualquer motivo, se revelem inadequados ao fim a
que se destinam.
Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de
quantidade do produto sempre que, respeitadas as variações decorrentes de
sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações constantes do
recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária, podendo
o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - o abatimento proporcional do preço;
II - complementação do peso ou medida;
III - a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo,
sem os aludidos vícios;
IV - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos.
§ 1° Aplica-se a este artigo o disposto no § 4° do artigo anterior.
§ 2° O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a
medição e o instrumento utilizado não estiver aferido segundo os padrões
oficiais.
Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os
tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por
aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da oferta
ou mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente e
à sua escolha:
I - a reexecução dos serviços, sem custo adicional e quando cabível;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 79
III - o abatimento proporcional do preço.
§ 1° A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros devidamente
capacitados, por conta e risco do fornecedor.
§ 2° São impróprios os serviços que se mostrem inadequados para os fins
que razoavelmente deles se esperam, bem como aqueles que não atendam
as normas regulamentares de prestabilidade.
Art. 34. O fornecedor do produto ou serviço é solidariamente responsável
pelos atos de seus prepostos ou representantes autônomos.
A jurisprudência do STJ reforça que todos os integrantes da cadeia de fornecimento
respondem solidariamente pelos vícios do produto ou do serviço. Alguns exemplos recorrentes:
a) Incorporador e construtor: são responsáveis solidários pelos vícios e defeitos de
construção em empreendimentos imobiliários. Exemplo: na aquisição de imóvel na planta
com vícios de qualidade, o consumidor pode acionar a incorporadora, a construtora ou
ambas.
b) Instituição financeira vinculada à montadora: nos casos de vício no veículo, há
solidariedade entre montadora, concessionária e, conforme o STJ, também a instituição
financeira ligada ao grupo econômico.
c) Franqueadoras e franqueados: se houver vícios nos serviços ou produtos
comercializados pela franquia, franqueadora e franqueado respondem solidariamente.
d) Seguradora e oficina credenciada ou indicada: a seguradora responde solidariamente
pelos vícios dos serviços executados pela oficina credenciada na reparação do automóvel
do consumidor.
Embora a regra geral seja a responsabilidade solidária, o CDC prevê duas exceções, ambas
direcionando a responsabilidade exclusivamente ao comerciante (fornecedor imediato):
1ª Exceção — Produtos “in natura” (art. 18, § 5º)
Quando o produto é in natura e não há identificação clara do produtor, apenas o fornecedor
imediato (comerciante) será responsável.
CDC, Art. 18, § 5°- No caso de fornecimento de produtos in natura, será
responsável perante o consumidor o fornecedor imediato, exceto quando
identificado claramente seu produtor.
2ª Exceção — Vício de quantidade com instrumento não aferido (art. 19, § 2º)
Quando o vício de quantidade decorre de pesagem ou medição feita com instrumento não
aferido, também responde somente o comerciante.
CDC, Art. 19, §2° - O fornecedor imediato será responsável quando fizer a
pesagem ou a medição e o instrumento utilizado não estiver aferido segundo
os padrões oficiais.
7. VÍCIO DE QUALIDADE DO PRODUTO
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 80
7.1. PREVISÃO LEGAL
O vício de qualidade do produto está previsto no art. 18 do CDC:
Art. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis
respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os
tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes
diminuam o valor, assim como por aqueles decorrentes da disparidade, com
as indicações constantes do recipiente, da embalagem, rotulagem ou
mensagem publicitária, respeitadas as variações decorrentes de sua
natureza, podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas.
7.2. ESPÉCIES DE VÍCIO
Da leitura do art. 18, extraem-se três espécies de vício:
a) Impropriedade
Ocorre quando o produto é inadequado ao fim a que se destina. Exemplos: produto com
validade vencida; celular cujo Wi-Fi não funciona.
b) Diminuição do valor
Configura-se quando o defeito desvaloriza economicamente o produto. Exemplo: veículo
zero quilômetro que sai da concessionária com a porta amassada.
c) Disparidade
Há vício quando existe diferença entre o que foi contratado e o que foi entregue. Exemplo:
consumidor compra rodas aro 18, mas recebe rodas aro 16.
7.3. PONTA DE ESTOQUE
Produtos vendidos como ponta de estoque, por apresentarem pequenos vícios visíveis,
como manchas ou falta de botão, não violam o CDC, desde que haja informação adequada e clara
ao consumidor.
7.4. PRODUTO USADO
A mesma lógica se aplica aos produtos usados: havendo informação prévia e adequada
sobre o estado do bem, não há impedimento à sua comercialização.
7.5. PRAZOS PARA SANAR O VÍCIO
Constatado o vício, o consumidor pode apresentar reclamação ao fornecedor, que terá 30
dias para sanar o problema, nos termos do art. 18, § 1º do CDC:
§ 1° Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias, pode o
consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 81
I - a substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas
condições de uso;
II - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos;
III - o abatimento proporcional do preço
O prazo de 30 dias para sanar o vício é flexível, podendo ser reduzido para 7 dias ou
prorrogado para até 180 dias. Caso essa flexibilização ocorra em contrato de adesão, ela deve
constar em cláusula específica, de modo a assegurar a prévia ciência do consumidor.
O CDC não exige qualquer formalidade para que o consumidor apresente a reclamação.
Basta que manifeste o vício ao fornecedor.
O STJ inicialmente admitia que o comerciante encaminhasse o consumidor diretamente à
assistência técnica. Contudo, em mudança de entendimento, firmou-se que o comerciante tem o
dever de receber o produto viciado e encaminhá-lo à assistência técnica, caso o consumidor assim
prefira, em razão da responsabilidade solidária da cadeia de fornecimento
Se o produto que o consumidor comprou apresenta um vício, ele tem o direito
de ter esse vício sanado no prazo de 30 dias (art. 18, § 1º do CDC). Para
tanto, o consumidor pode escolher para quem levará o produto a fim de ser
consertado:
a) para o comerciante;
b) paraa assistência técnica ou
c) para o fabricante.
Em outras palavras, cabe ao consumidor a escolha para exercer seu direito
de ter sanado o vício do produto em 30 dias: levar o produto ao comerciante,
à assistência técnica ou diretamente ao fabricante. STJ. 3ª Turma. REsp
1634851-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 12/09/2017 (Info 619).
Além disso, o STJ (REsp 1.935.157-MT) entende que a indenização por danos materiais
decorrente de vício do produto não se limita ao período que excede o prazo de 30 dias do art. 18,
§1º, do CDC. Havendo reconhecimento judicial do vício, o consumidor tem direito à reparação
integral, incluindo os prejuízos sofridos dentro dos primeiros 30 dias, isto porque:
• O art. 18, §1º, não constitui uma excludente temporária de responsabilidade, mas apenas
fixa o prazo para o fornecedor solucionar o vício antes que o consumidor exerça as
alternativas legais.
• O prazo de 30 dias não é uma “franquia” que permita ao fornecedor causar prejuízos
sem responsabilidade.
• A interpretação deve ser harmônica com o art. 6º, VI, do CDC, que consagra o princípio
da reparação integral, sem limitação temporal.
• Limitar a indenização apenas ao período posterior aos 30 dias transferiria indevidamente
ao consumidor os riscos da atividade empresarial.
• Reconhecido judicialmente o vício, a indenização deve abranger todos os danos
comprovados, inclusive os suportados dentro do prazo legal de reparo.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 82
• Isso não implica obrigação genérica de fornecimento de produto substituto durante o
período de reparo, mas apenas impede que o consumidor arque com prejuízos
decorrentes do vício.
7.6. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
Esgotado o prazo de 30 dias para sanar o vício (art. 18, § 1º, CDC), o consumidor pode
escolher entre três alternativas reparatórias:
1) Substituição do produto por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de
uso
“Mesma espécie” significa mesma marca e mesmo modelo, ou seja, um produto idêntico ao
adquirido originalmente. O CDC não exige que o produto substituto seja novo, apenas que esteja
em plenas condições de uso.
Quando não houver disponibilidade do mesmo produto, o consumidor pode optar por um
produto diferente, observando-se:
• se o novo produto for mais caro, o consumidor paga a diferença;
* se for mais barato, o consumidor recebe a diferença.
2) Restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada
O reembolso deve ser integral, incluindo a atualização monetária. Além disso, é possível a
cumulação com eventuais perdas e danos, o que também se aplica às alternativas I e III.
3) Abatimento proporcional do preço:
Consiste na redução proporcional do valor pago, adequada ao grau do vício apresentado.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/CE – Juiz Substituto – FGV – 2025): Júlia adquiriu um refrigerador novo
de uma loja de eletrodomésticos, com nota fiscal e garantia de fábrica de 12
meses. O produto, no entanto, apresentou problemas de resfriamento logo no
segundo mês de uso. A assistência técnica autorizada realizou três reparos,
mas o defeito persistiu. Júlia, então, solicitou a substituição do refrigerador,
mas a loja alegou que apenas a fabricante deveria arcar com a troca.
A consumidora, inconformada, ajuizou ação pleiteando a substituição
imediata do produto por outro da mesma espécie, a restituição do valor pago
e uma indenização por danos morais. Sobre a solicitação de Júlia, com base
no Código de Defesa do Consumidor e na jurisprudência do STJ, Júlia tem o
direito de escolher entre a substituição do produto, a restituição do valor pago
ou o abatimento proporcional do preço, sendo a responsabilidade solidária
entre todos os fornecedores. Correto!
7.7. UTILIZAÇÃO IMEDIATA DAS ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 83
Há situações em que o CDC dispensa a observância do prazo de 30 dias para correção do
vício, permitindo ao consumidor exercer de imediato qualquer das alternativas reparatórias previstas
no art. 18, § 1º. Nessas hipóteses, o fornecedor não tem direito ao prazo para conserto.
A reparação imediata é aplicável quando:
a) a substituição das partes viciadas puder comprometer a qualidade ou as características
do produto;
b) o vício diminuir o valor do produto;
c) tratar-se de produto essencial.
8. VÍCIO DE QUANTIDADE DO PRODUTO
8.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
O vício de quantidade está disciplinado no art. 19 do CDC:
Art. 19. Os fornecedores respondem solidariamente pelos vícios de
quantidade do produto sempre que, respeitadas as variações decorrentes de
sua natureza, seu conteúdo líquido for inferior às indicações constantes do
recipiente, da embalagem, rotulagem ou de mensagem publicitária, podendo
o consumidor exigir, alternativamente e à sua escolha:
I - o abatimento proporcional do preço;
II - complementação do peso ou medida;
III - a substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo,
sem os aludidos vícios;
IV - a restituição imediata da quantia paga, monetariamente atualizada, sem
prejuízo de eventuais perdas e danos.
§ 1° Aplica-se a este artigo o disposto no § 4° do artigo anterior.
§ 2° O fornecedor imediato será responsável quando fizer a pesagem ou a
medição e o instrumento utilizado não estiver aferido segundo os padrões
oficiais.
8.2. DIMINUIÇÃO DO VOLUME DO PRODUTO
O vício de quantidade ocorre quando existe disparidade entre o que é declarado ao
consumidor e o que é efetivamente entregue, havendo uma diminuição do volume do produto.
Trata-se, portanto, de vício quantitativo, não qualitativo. Exemplo: o rótulo indica que a caixa
de leite contém 1 litro, mas, ao pesar, o consumidor verifica que possui apenas 800 ml.
O STJ entende que a redução do volume sem informação destacada e suficiente viola o
dever de transparência e caracteriza vício de quantidade, atraindo a responsabilidade objetiva do
fornecedor. Ex.: um fabricante de refrigerantes comercializava latas com 350 ml durante muitos
anos. Posteriormente, reduziu o conteúdo para 300 ml, mantendo o mesmo preço e informando a
nova quantidade apenas em letras miúdas no rótulo.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 84
DIREITO DO CONSUMIDOR. VÍCIO DE QUANTIDADE DE PRODUTO NO
CASO DE REDUÇÃO DO VOLUME DE MERCADORIA. Ainda que haja
abatimento no preço do produto, o fornecedor responderá por vício de
quantidade na hipótese em que reduzir o volume da mercadoria para
quantidade diversa da que habitualmente fornecia no mercado, sem informar
na embalagem, de forma clara, precisa e ostensiva, a diminuição do
conteúdo. É direito básico do consumidor a "informação adequada e clara
sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de
quantidade, características, composição, qualidade e preço, bem como sobre
os riscos que apresentem" (art. 6º, III, do CDC). Assim, o direito à informação
confere ao consumidor uma escolha consciente, permitindo que suas
expectativas em relação ao produto ou serviço sejam de fato atingidas,
manifestando o que vem sendo denominado de consentimento informado ou
vontade qualificada. Diante disso, o comando legal somente será
efetivamente cumprido quando a informação for prestada de maneira
adequada, assim entendida aquela que se apresenta simultaneamente
completa, gratuita e útil, vedada, no último caso, a diluição da comunicação
relevante pelo uso de informações soltas, redundantes ou destituídas de
qualquer serventia. Além do mais, o dever de informar é considerado um
modo de cooperação, uma necessidade social que se tornou um autêntico
ônus proativo incumbido aos fornecedores (parceiros comerciais, ou não, do
consumidor), pondo fim à antiga e injusta obrigação que o consumidor tinha
de se acautelar (caveat emptor). Além disso, o art. 31 do CDC, que cuida da
oferta publicitária, tem sua origem no princípio da transparência(art. 4º,
caput) e é decorrência do princípio da boa-fé objetiva. Não obstante o amparo
legal à informação e à prevenção de danos ao consumidor, as infrações à
relação de consumo são constantes, porque, para o fornecedor, o lucro
gerado pelo dano poderá ser maior do que o custo com a reparação do
prejuízo causado ao consumidor. Assim, observe-se que o dever de informar
não é tratado como mera obrigação anexa, e sim como dever básico,
essencial e intrínseco às relações de consumo, não podendo afastar a índole
enganosa da informação que seja parcialmente falsa ou omissa a ponto de
induzir o consumidor a erro, uma vez que não é válida a "meia informação"
ou a "informação incompleta". Com efeito, é do vício que advém a
responsabilidade objetiva do fornecedor. Ademais, informação e confiança
entrelaçam-se, pois o consumidor possui conhecimento escasso dos
produtos e serviços oferecidos no mercado. Ainda, ressalte-se que as leis
imperativas protegem a confiança que o consumidor depositou na prestação
contratual, na adequação ao fim que razoavelmente dela se espera e na
confiança depositada na segurança do produto ou do serviço colocado no
mercado. Precedentes citados: REsp 586.316-MG, Segunda Turma, DJe
19/3/2009; e REsp 1.144.840-SP, Terceira Turma, DJe 11/4/2012. REsp
1.364.915-MG, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em 14/5/2013.
8.3. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO
No caso de vício de quantidade, não há prazo para correção.
O prazo de 30 dias previsto no art. 18 aplica-se somente ao vício de qualidade.
8.4. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 85
No vício de quantidade, o consumidor pode exercer imediatamente qualquer das alternativas
reparatórias previstas no art. 19 do CDC.
I – Abatimento proporcional do preço;
II – Desfazimento do negócio, com restituição integral do valor pago;
III – Complementação do peso ou da medida;
IV – Substituição do produto por outro da mesma espécie, marca ou modelo. Não havendo
o produto idêntico, o consumidor pode escolher outro:
• Se for mais caro, paga a diferença;
• Se for mais barato, recebe a diferença;
V – Restituição da quantia paga, sem prejuízo de eventuais perdas e danos (aplicável a
todas as alternativas).
CDC, Art. 19, §1º - Aplica-se a este artigo o disposto no § 4° do artigo anterior.
CDC, Art. 18, § 4°- Tendo o consumidor optado pela alternativa do inciso I do
§ 1° deste artigo, e não sendo possível a substituição do bem, poderá haver
substituição por outro de espécie, marca ou modelo diversos, mediante
complementação ou restituição de eventual diferença de preço, sem prejuízo
do disposto nos incisos II e III do § 1° deste artigo
9. VÍCIO DE QUALIDADE DO SERVIÇO
9.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
O vício de qualidade do serviço está previsto no art. 20 do CDC, que dispõe:
Art. 20. O fornecedor de serviços responde pelos vícios de qualidade que os
tornem impróprios ao consumo ou lhes diminuam o valor, assim como por
aqueles decorrentes da disparidade com as indicações constantes da oferta
ou mensagem publicitária, podendo o consumidor exigir, alternativamente e
à sua escolha:
Como visto anteriormente, serviço é a atividade prestada no mercado de consumo,
profissionalmente e mediante remuneração, seja ela direta ou indireta.
9.2. ESPÉCIES DE VÍCIOS
O vício de qualidade do serviço pode se manifestar de três formas:
a) Inadequação
O serviço torna-se impróprio ao fim a que se destina. Exemplo: em uma sessão de cinema,
o filme permanece sem áudio por 20 minutos.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 86
b) Diminuição do valor
O serviço sofre redução de utilidade ou valor econômico. Exemplo: universidade que
recomenda obras literárias, mas não as disponibiliza em sua biblioteca.
c) Disparidade.
Ocorre quando existe diferença entre o que foi ofertado e o que foi efetivamente entregue
ao consumidor.
9.3. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO
No vício de serviço, não existe prazo para correção, razão pela qual o consumidor pode
exercer imediatamente qualquer das alternativas reparatórias previstas no art. 20.
9.4. RESPONSABILIDADE DOS PROFISSIONAIS LIBERAIS
Nos vícios de serviço, o profissional liberal responde objetivamente.
A responsabilidade será subjetiva apenas quando se tratar de acidente de consumo (fato do
serviço), conforme regra do art. 14, § 4º, do CDC.
9.5. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
Diante do vício, o consumidor pode exigir:
I – Reexecução do serviço, sem custo adicional
A reexecução pode ser realizada pelo próprio fornecedor ou por terceiro capacitado, às
expensas do fornecedor (art. 20, § 1º).
Art. 20, § 1° A reexecução dos serviços poderá ser confiada a terceiros
devidamente capacitados, por conta e risco do fornecedor.
II – Restituição da quantia paga, monetariamente atualizada, sem prejuízo da
possibilidade de perdas e danos.
III – Abatimento proporcional do preço.
10. VÍCIO DE QUANTIDADE DO SERVIÇO
10.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
Embora não haja previsão legal expressa sobre o vício de quantidade do serviço, aplicam-
se, por analogia, os arts. 19 e 20 do CDC.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 87
O vício de quantidade do serviço ocorre quando há disparidade entre o que foi contratado e
o que foi efetivamente executado. Exemplo: o consumidor contrata um pintor para realizar a pintura
interna e externa da residência, mas o profissional executa apenas a pintura interna.
10.2. PRAZO PARA SANAR O VÍCIO
Assim como no vício de quantidade do produto, não há prazo de 30 dias para saneamento.
10.3. ALTERNATIVAS REPARATÓRIAS
O consumidor pode exigir, imediatamente, conforme sua escolha:
I – Abatimento proporcional do preço
II – Complementação do serviço
III – Restituição imediata da quantia paga, sem prejuízo de eventuais perdas e danos
Essas alternativas configuram direito potestativo do consumidor.
10.4. SERVIÇO PÚBLICO
Como visto anteriormente, somente os serviços públicos divisíveis e mensuráveis,
remunerados por tarifa ou preço público, integram relações de consumo protegidas pelo CDC.
O art. 22 do CDC impõe obrigações específicas aos fornecedores de serviços públicos:
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias,
permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são
obrigados a fornecer serviços adequados1, eficientes2, seguros3 e, quanto
aos essenciais, contínuos4.
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das
obrigações referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a
cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista neste código.
A partir do dispositivo, destacam-se os seguintes deveres:
1. Adequados: o serviço público deve atender ao dever de qualidade-adequação, com
desempenho compatível com sua finalidade.
2. Eficientes: exige-se bom desempenho a baixo custo, refletindo o princípio da eficiência
administrativa.
3. Seguros: o serviço não pode expor o consumidor a riscos. Trata-se do dever de
qualidade-segurança.
4. Contínuos: aplica-se aos serviços públicos considerados essenciais, cuja interrupção
é vedada de forma geral.
Como o CDC não lista tais serviços, utiliza-se por analogia o art. 10 da Lei 7.783/1989
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 88
Art. 10 - São considerados serviços ou atividades essenciais:
I - tratamento e abastecimento de água; produção e distribuição de energia
elétrica, gás e
combustíveis;
II - assistência médica e hospitalar;
III - distribuição e comercialização de medicamentos e alimentos;
IV - funerários;
V - transporte coletivo;
VI - captação e tratamento de esgoto e lixo;
VII - telecomunicações;
VIII - guarda, uso e controle de substâncias radioativas, equipamentos e
materiais nucleares;
IX - processamento de dados ligados a serviços essenciais;
X - controle de tráfego aéreo;
XI compensação bancária.
A doutrina diverge quantoà possibilidade de interrupção de serviços essenciais quando há
inadimplemento do usuário:
• 1ª corrente: entende que não é possível a interrupção, pois o art. 22 exige continuidade.
• 2ª corrente: admite a interrupção, pois a continuidade prevista no art. 22 refere-se à
disponibilidade universal do serviço, e não necessariamente ao fornecimento individual
ao usuário inadimplente.
O STJ adotou a segunda corrente, afirmando que é lícita a interrupção quando, após aviso
prévio, o consumidor permanece inadimplente:
Administrativo. Energia elétrica. Corte. Falta de pagamento. É lícito à
concessionária interromper o fornecimento de energia elétrica, se, após aviso
prévio, o consumidor de energia elétrica permanecer inadimplente no
pagamento da respectiva conta (L. 8.987/95, art. 6.º, § 3.º, II).
Entendimentos do STJ sobre interrupção do serviço público:
a) Interrupção do serviço essencial ao consumidor pessoa física:
É possível o corte, desde que observados os seguintes requisitos:
• aviso prévio ao consumidor;
• a dívida não seja antiga;
• não se trate de débito decorrente de fraude em medidor contestada judicialmente;
• inexistam riscos à integridade física do usuário, especialmente em situações de
miserabilidade, em respeito à dignidade humana.
b) Interrupção para pessoa jurídica de direito público consumidora:
A interrupção também é admissível, desde que seja precedida de aviso prévio e sejam
preservadas as unidades públicas que prestam necessidades inadiáveis da comunidade, como:
hospitais; prontos-socorros; centros de saúde; escolas; creches.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 89
De acordo com o art. 11, parágrafo único, da Lei 7.783/1989, considera-se necessidade
inadiável aquela cuja interrupção coloca em perigo iminente a sobrevivência, saúde ou segurança
da população.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 90
PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Embora o consumidor tenha o direito de ser ressarcido pelos danos sofridos, esse direito
não é eterno, em respeito ao princípio da segurança jurídica.
Por isso, o CDC estabelece prazos específicos para o exercício desses direitos, distinguindo:
• vício do produto ou do serviço → prazo decadencial (art. 26);
• fato do produto ou do serviço → prazo prescricional (art. 27).
Essa separação demonstra o caráter pragmático do CDC na organização dos regimes de
responsabilidade.
2. DECADÊNCIA
2.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
A decadência está prevista no art. 26 do CDC, que estabelece:
Art. 26. O direito de reclamar pelos vícios aparentes ou de fácil constatação
caduca em:
I - trinta dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos não
duráveis;
II - noventa dias, tratando-se de fornecimento de serviço e de produtos
duráveis.
§ 1° Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega efetiva do
produto ou do término da execução dos serviços.
§ 2° Obstam a decadência:
I - a reclamação comprovadamente formulada pelo consumidor perante o
fornecedor de produtos e serviços até a resposta negativa correspondente,
que deve ser transmitida de forma inequívoca;
II - (Vetado).
III - a instauração de inquérito civil, até seu encerramento.
§ 3° Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no momento
em que ficar evidenciado o defeito.
O vício aparente é aquele imediatamente perceptível pelo consumidor. Exemplo: o
consumidor adquire uma TV bivolt, mas ao receber o produto percebe que ela é 110V.
Os prazos são:
• 30 dias → produtos e serviços não duráveis;
• 90 dias → produtos e serviços duráveis.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 91
2.2. PRODUTO OU SERVIÇO DURÁVEL
Para identificar se um produto é durável ou não durável, doutrina e jurisprudência adotam o
critério da vida útil. Assim, considera-se:
• Produto durável: aquele cuja vida útil é longa. Exemplo: um livro, que pode ser utilizado
repetidamente ao longo do tempo.
• Produto não durável: aquele cuja vida útil é curta. Exemplo: uma garrafa de água,
consumida rapidamente.
Quanto ao serviço, a durabilidade é aferida pelo tempo de duração dos seus efeitos, e não
pelo tempo gasto em sua execução.
2.3. CONCEITOS IMPORTANTES
a) Obsolescência programada:
A obsolescência programada consiste na redução artificial da vida útil de um bem de
consumo. Isso ocorre, por exemplo, quando o fornecedor:
• deixa de disponibilizar peças de reposição durante a vida útil do produto;
• altera componentes, tornando peças incompatíveis com modelos anteriores;
• utiliza baterias ou componentes que duram muito pouco, levando o consumidor a concluir
que trocar o aparelho é mais barato do que repará-lo.
Em determinadas situações, a obsolescência programada pode caracterizar vício do
produto, conforme já reconhecido pelo STJ que entende que quando constatado vício oculto relativo
à fabricação, aplica-se o art. 26, § 3º, do CDC, sendo o fornecedor responsável mesmo após o
término da garantia contratual.
Além disso, o art. 32 do CDC reforça a proteção do consumidor ao estabelecer que
fabricantes e importadores devem assegurar a oferta de componentes e peças de reposição
enquanto houver fabricação ou importação do produto:
Art. 32. Os fabricantes e importadores deverão assegurar a oferta de
componentes e peças de reposição enquanto não cessar a fabricação ou
importação do produto.
Parágrafo único. Cessadas a produção ou importação, a oferta deverá ser
mantida por período razoável de tempo, na forma da lei.
O art. 32, porém, não define o que seria esse “prazo razoável”. Esse silêncio legislativo é
proposital. Diante da enorme diversidade de produtos, tecnologias e cadeias de suprimento, o
legislador optou por não engessar situações tão diferentes com um prazo único e inflexível. Cada
situação deve ser analisada individualmente, de acordo com a demanda do consumidor e a
realidade do mercado envolvido.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 92
Por essa razão, o STJ afirma que não é possível aplicar, por analogia, o prazo de 30 dias
do art. 18, §1º, destinado exclusivamente ao saneamento de vícios do produto, ao dever de
fornecimento de peças previsto no art. 32.
Não é possível aplicar, por analogia, o prazo de 30 dias previsto no art. 18, §
1º, do Código de Defesa do Consumidor ao cumprimento da obrigação de
fornecimento de peças de reposição, conforme disposto no art. 32 do mesmo
diploma legal. STJ. 4ª Turma. REsp 1.604.270-DF, Rel. Min. João Otávio de
Noronha, julgado em 1º/4/2025 (Info 846).
b) Consumo sustentável:
O consumo sustentável envolve a aquisição e o uso de bens de consumo que garantam a
qualidade de vida da geração presente, sem comprometer os recursos e necessidades das
gerações futuras.
O conceito está previsto na Lei 13.186/2015:
Art. 1º. Parágrafo único. Entende-se por consumo sustentável o uso dos
recursos naturais de forma a proporcionar qualidade de vida para a geração
presente sem comprometer as necessidades das gerações futuras.
2.4. CONTAGEM DO PRAZO
A contagem do prazo decadencial varia conforme a natureza do vício.
a) Vício aparente ou de fácil constatação:
O prazo inicia-se na entrega efetiva do produto ou no término da execução do serviço,
conforme o art. 26, § 1º, do CDC:
Art. 26, § 1° Inicia-se a contagem do prazo decadencial a partir da entrega
efetiva do produto ou do término da execução dos serviços.
b) Vício oculto
Nos vícios ocultos, o prazo decadencial inicia-se no momento em que o defeito se torna
evidente, e não na data da compra. Aqui, o marco inicial fica vinculado ao critério de vida útil do
bem.
Art. 26, § 3° Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no
momento em que ficar evidenciado o defeito.
2.5. CAUSAS QUE OBSTAM A DECADÊNCIA
Não há consenso sobre o significado de “obstar”.
Parte da90
2.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ..................................................................... 90
2.2. PRODUTO OU SERVIÇO DURÁVEL ............................................................................. 91
2.3. CONCEITOS IMPORTANTES ........................................................................................ 91
2.4. CONTAGEM DO PRAZO ................................................................................................ 92
2.5. CAUSAS QUE OBSTAM A DECADÊNCIA .................................................................... 92
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 5
2.6. GARANTIA LEGAL E GARANTIA CONTRATUAL ......................................................... 93
2.7. CONVENÇÃO DE PRAZOS DECADENCIAIS ............................................................... 93
3. PRESCRIÇÃO......................................................................................................................... 94
3.1. PREVISÃO LEGAL .......................................................................................................... 94
3.2. CONTAGEM DO PRAZO ................................................................................................ 94
3.3. CAUSAS DE INTERRUPÇÃO E SUSPENSÃO ............................................................. 94
3.4. PRESCRIÇÃO DE OUTRAS PRETENSÕES REPARATÓRIAS ................................... 95
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA .............................................................. 97
1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ............................................................................ 97
2. HIPÓTESE DE DESCONSIDERAÇÃO .................................................................................. 98
3. TEORIAS SOBRE A DESCONSIDERAÇÃO ......................................................................... 98
3.1. TEORIA MAIOR ............................................................................................................... 98
3.2. TEORIA MENOR ............................................................................................................. 99
4. DESCONSIDERAÇÃO DO CC X DESCONSIDERAÇÃO DO CDC ..................................... 99
5. CPC E DESCONSIDERAÇÃO ............................................................................................. 100
PRÁTICAS COMERCIAIS ............................................................................................................... 101
1. PUBLICIDADE ...................................................................................................................... 101
1.1. CONCEITO .................................................................................................................... 101
1.2. DIFERENCIAÇÕES ....................................................................................................... 101
1.3. PRINCÍPIOS DA PROTEÇÃO PUBLICITÁRIA ............................................................ 101
1.3.1. Princípio da identificação da publicidade............................................................... 101
1.3.2. Princípio da vinculação contratual da publicidade................................................. 101
1.3.3. Princípio da transparência da fundamentação da publicidade ............................. 102
1.3.4. Princípio da inversão do ônus da prova ................................................................ 102
2. PUBLICIDADE ENGANOSA ................................................................................................ 103
2.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ................................................................... 103
2.2. RESPONSABILIDADE .................................................................................................. 103
2.3. FORMAS DE PUBLICIDADE ENGANOSA .................................................................. 104
2.4. SUJEITOS RESPONSÁVEIS ........................................................................................ 104
2.5. RESPONSABILIDADE DA AGÊNCIA E DO VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO............. 104
3. PUBLICIDADE ABUSIVA ..................................................................................................... 105
3.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES ................................................................... 105
3.2. HIPÓTESE DE PUBLICIDADE ABUSIVA NO CDC ..................................................... 105
3.3. RESPONSABILIDADE .................................................................................................. 106
3.4. SUJEITOS RESPONSÁVEIS ........................................................................................ 106
4. PRÁTICAS ABUSIVAS ......................................................................................................... 106
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 6
COBRANÇA DE DÍVIDAS ............................................................................................................... 109
1. REPETIÇÃO DO INDÉBITO ................................................................................................. 109
1.1. PREVISÃO LEGAL ........................................................................................................ 109
1.2. PRESSUPOSTOS ......................................................................................................... 109
1.3. (DES) NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DE MÁ-FÉ ........................................... 110
2. ARQUIVO DE CONSUMO.................................................................................................... 110
2.1. CONCEITO .................................................................................................................... 111
2.2. ESPÉCIES ..................................................................................................................... 111
2.3. NATUREZA JURÍDICA .................................................................................................. 111
3. BANCO DE DADOS DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO .......................................................... 111
3.1. AÇÕES........................................................................................................................... 111
3.2. FINALIDADE .................................................................................................................. 112
3.3. NEGATIVAÇÃO ............................................................................................................. 112
3.4. QUALIDADE DAS INFORMAÇÕES ............................................................................. 112
3.5. RESPONSABILIDADE POR INFORMAÇÃO INVERÍDICA ......................................... 112
4. DIREITOS DOS CONSUMIDORES PERANTE OS ARQUIVOS DE CONSUMO .............. 113
4.1. DIREITO À COMUNICAÇÃO POR ESCRITO DO ASSENTO (ART. 43, §2º) ............ 113
4.2. DIREITO DE ACESSO À INFORMAÇÃO ..................................................................... 114
4.3. DIREITO À CORREÇÃO DA INFORMAÇÃO ............................................................... 115
5. RESPONSABILIDADE PELO CANCELAMENTO DA INSCRIÇÃO .................................... 115
5.1. RESPONSÁVEL ............................................................................................................ 115
5.2. PRAZO ........................................................................................................................... 115
6. RESPONSABILIDADE PELO ARQUIVAMENTO INDEVIDO ............................................. 116
7. LIMITES TEMPORAIS DOS REGISTROS NEGATIVOS .................................................... 116
PROTEÇÃO CONTRATUAL ........................................................................................................... 118
1. PRINCÍPIOS NORTEADORES DA PROTEÇÃO CONTRATUAL....................................... 118
1.1. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA ..............................................................................doutrina entende que obstar = suspender o prazo, que voltaria a correr do ponto
em que parou após a resposta do fornecedor ou após o encerramento do inquérito civil. Outra parte
defende que obstar = interromper o prazo, fazendo-o recomeçar do zero quando cessar a causa
impeditiva.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 93
Os tribunais superiores ainda não firmaram entendimento definitivo sobre se o efeito é de
suspensão ou interrupção.
O § 2º do art. 26 do CDC prevê duas hipóteses que obstam o curso do prazo decadencial.
I – Reclamação formulada ao fornecedor:
O prazo fica obstado quando o consumidor formula reclamação comprovada diretamente ao
fornecedor do produto ou serviço, até que este apresente resposta negativa inequívoca.
Somente a reclamação feita ao fornecedor obsta o prazo, reclamações realizadas no Procon
não suspendem/interrompem a decadência.
II – Instauração de inquérito civil:
A instauração do inquérito civil também obsta o prazo decadencial até seu encerramento.
O inquérito civil encerra-se quando ocorre:
• a homologação da promoção de arquivamento, ou
• a propositura da ação civil pública.
2.6. GARANTIA LEGAL E GARANTIA CONTRATUAL
O art. 24 do CDC estabelece que a garantia legal de adequação do produto ou serviço
independe de termo expresso, sendo vedada qualquer exoneração contratual:
Art. 24. A garantia legal de adequação do produto ou serviço independe de
termo expresso, vedada a exoneração contratual do fornecedor.
Todo bem de consumo deve ser adequado ao fim a que se destina, em observância ao dever
de qualidade-adequação. Por esse motivo, a garantia legal é obrigatória e decorre automaticamente
da lei.
A chamada garantia estendida, amplamente ofertada no mercado, é considerada por parte
da doutrina uma verdadeira “picaretagem”, pois, durante a vida útil do produto, o consumidor já está
protegido pela garantia legal, independentemente de contratação adicional.
É importante esclarecer que os prazos previstos no art. 26 do CDC (30 ou 90 dias) não são
prazos de garantia, mas sim prazos para reclamar e exigir o cumprimento da garantia legal.
A garantia contratual, por sua vez, é regulada pelo art. 50 do CDC, tem natureza facultativa
e deve ser concedida por escrito. Seu caráter é complementar, de modo que:
• durante o prazo da garantia contratual,
• não corre o prazo da garantia legal.
Assim, se o fornecedor concede 1 ano de garantia contratual para um produto durável, o
prazo de 90 dias da garantia legal começará a contar apenas após o término desse um ano.
2.7. CONVENÇÃO DE PRAZOS DECADENCIAIS
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 94
O STJ firmou entendimento de que é válida a convenção de prazos decadenciais em
contratos de consumo, desde que respeitados os deveres anexos da boa-fé, especialmente:
• informação clara;
• redação expressa, ostensiva e legível.
A razão é que o CDC não elimina a liberdade contratual, mas a limita para preservar o
equilíbrio entre as partes, uma vez que as relações de consumo são, naturalmente, assimétricas.
Aplica-se, de forma complementar, o art. 211 do CC, que admite convenções sobre prazos
decadenciais, desde que não contrariem norma cogente.
3. PRESCRIÇÃO
3.1. PREVISÃO LEGAL
A prescrição no CDC aplica-se exclusivamente aos casos de responsabilidade pelo fato do
produto ou do serviço, isto é, aos acidentes de consumo. A disciplina está prevista no art. 27:
Art. 27. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos
causados por fato do produto ou do serviço prevista na Seção II deste
Capítulo, iniciando-se a contagem do prazo a partir do conhecimento do dano
e de sua autoria.
3.2. CONTAGEM DO PRAZO
O prazo prescricional inicia-se a partir do conhecimento do dano e de quem o causou.
Diferencia-se, portanto, do regime do Código Civil, em que a contagem geralmente começa
na data do dano, e não no momento do conhecimento.
3.3. CAUSAS DE INTERRUPÇÃO E SUSPENSÃO
O CDC não prevê causas próprias de interrupção ou suspensão da prescrição.
Assim, aplicam-se, de forma complementar, as hipóteses previstas no Código Civil (arts. 197
a 204), desde que compatíveis com a natureza da relação de consumo.
Art. 197. Não corre a prescrição:
I - entre os cônjuges, na constância da sociedade conjugal;
II - entre ascendentes e descendentes, durante o poder familiar;
III - entre tutelados ou curatelados e seus tutores ou curadores, durante a
tutela ou curatela.
Art. 198. Também não corre a prescrição:
I - contra os incapazes de que trata o art. 3o;
II - contra os ausentes do País em serviço público da União, dos Estados ou
dos Municípios;
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm#art3
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 95
III - contra os que se acharem servindo nas Forças Armadas, em tempo de
guerra.
Art. 199. Não corre igualmente a prescrição:
I - pendendo condição suspensiva;
II - não estando vencido o prazo;
III - pendendo ação de evicção.
Art. 200. Quando a ação se originar de fato que deva ser apurado no juízo
criminal, não correrá a prescrição antes da respectiva sentença definitiva.
Art. 201. Suspensa a prescrição em favor de um dos credores solidários, só
aproveitam os outros se a obrigação for indivisível.
Art. 202. A interrupção da prescrição, que somente poderá ocorrer uma vez,
dar-se-á:
I - por despacho do juiz, mesmo incompetente, que ordenar a citação, se o
interessado a promover no prazo e na forma da lei processual;
II - por protesto, nas condições do inciso antecedente;
III - por protesto cambial;
IV - pela apresentação do título de crédito em juízo de inventário ou em
concurso de credores;
V - por qualquer ato judicial que constitua em mora o devedor;
VI - por qualquer ato inequívoco, ainda que extrajudicial, que importe
reconhecimento do direito pelo devedor.
Parágrafo único. A prescrição interrompida recomeça a correr da data do ato
que a interrompeu, ou do último ato do processo para a interromper.
Art. 203. A prescrição pode ser interrompida por qualquer interessado.
Art. 204. A interrupção da prescrição por um credor não aproveita aos outros;
semelhantemente, a interrupção operada contra o codevedor, ou seu
herdeiro, não prejudica aos demais coobrigados.
§ 1o A interrupção por um dos credores solidários aproveita aos outros; assim
como a interrupção efetuada contra o devedor solidário envolve os demais e
seus herdeiros.
§ 2o A interrupção operada contra um dos herdeiros do devedor solidário não
prejudica os outros herdeiros ou devedores, senão quando se trate de
obrigações e direitos indivisíveis.
§ 3o A interrupção produzida contra o principal devedor prejudica o fiador.
3.4. PRESCRIÇÃO DE OUTRAS PRETENSÕES REPARATÓRIAS
Há pretensões reparatórias que não se enquadram nem no regime de responsabilidade por
vício (decadência) e nem no regime de responsabilidade por fato do produto/serviço (prescrição
quinquenal).
Exemplos: repetição de indébito, inscrição indevida, inadimplemento contratual (como atraso
de voo ou atraso na entrega de imóvel).
Essas pretensões não possuem prazo específico no CDC, originando divergência
doutrinária:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 96
1ª corrente: defende a aplicação analógica do art. 27 → prazo quinquenal (5 anos).
2ª corrente: sustenta que o art. 27 não se aplica, pois não há semelhança com acidentes de
consumo. Assim, devem ser utilizados os prazos prescricionais do Código Civil, mediante diálogo
das fontes.
A jurisprudência do STJ não é uniforme sobre qual prazo aplicar em cada situação. Veja o
quadro:
Outras pretensões reparatórias Jurisprudência do STJ
Inadimplemento contratual (atraso de voo, atraso na
entrega de imóvel)
Prazo decenal (CC, art. 205). REsp
1.591.223/PR
Repetição do indébito nas cobranças de água,
esgoto e telefonia
Prazo decenal (CC, art. 205). Súmula 412
Repetiçãodo indébito – disciplinas não ministradas
por instituição de ensino superior
Prazo trienal (CC, art. 206, § 3º, IV). REsp
1.238.737/SC
Indenização por negativação indevida
Prazo decenal (CC, art. 205). 4ª Turma,
REsp 1.276.311/RS
Prazo trienal (CC, art. 206, § 3º, V). 3ª
Turma, REsp 1.365.844/RS
Ação do segurado contra a seguradora Prazo anual (CC, art. 206, § 1º).
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 97
DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA
1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
A desconsideração da personalidade jurídica no CDC está prevista no art. 28, que dispõe:
Art. 28. O juiz poderá desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade
quando, em detrimento do consumidor, houver abuso de direito, excesso
de poder, infração da lei, fato ou ato ilícito ou violação dos estatutos ou
contrato social. A desconsideração também será efetivada quando houver
falência, estado de insolvência, encerramento ou inatividade da pessoa
jurídica provocados por má administração.
§ 1° (Vetado).
§ 2° As sociedades integrantes dos grupos societários e as sociedades
controladas, são subsidiariamente responsáveis pelas obrigações
decorrentes deste código.
§ 3° As sociedades consorciadas são solidariamente responsáveis pelas
obrigações decorrentes deste código.
§ 4° As sociedades coligadas só responderão por culpa.
§ 5° Também poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua
personalidade for, de alguma forma, obstáculo ao ressarcimento de prejuízos
causados aos consumidores.
O ponto de partida para compreender a desconsideração é o princípio da autonomia
patrimonial, que separa o patrimônio da pessoa jurídica do patrimônio de seus sócios. Essa
separação visa estimular a atividade empresarial, oferecendo segurança e previsibilidade.
Entretanto, alguns agentes econômicos passaram a abusar da autonomia patrimonial,
utilizando a pessoa jurídica para ocultar bens, fraudar credores ou transferir indevidamente
patrimônio para a esfera pessoal.
Diante desses abusos, surge a teoria da desconsideração da personalidade jurídica, que
permite afastar temporariamente a autonomia patrimonial para atingir bens pessoais dos
responsáveis.
Esse afastamento, porém, não é irrestrito. O CDC adota a chamada Teoria Menor,
especialmente no § 5º, mas o STJ esclareceu que essa teoria não permite atingir bens de pessoas
que não integram o quadro societário:
Para fins de aplicação da Teoria Menor da desconsideração da personalidade
jurídica, o § 5º do art. 28 do CDC não dá margem para admitir a
responsabilização pessoal de quem não integra o quadro societário da
empresa (administrador não sócio). STJ. 3ª Turma. REsp 1862557/DF, Rel.
Min. Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 15/6/2021. STJ. 4ª Turma. REsp
1860333-DF, Rel. Min. Marco Buzzi, julgado em 11/10/2022 (Info 754).
A desconsideração pode aparecer em diferentes regimes jurídicos, com teorias distintas:
a) Código Civil — Teoria Maior
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 98
Aplica-se quando há desvio de finalidade ou confusão patrimonial (art. 50 do CC).
b) Lei do CADE — Teoria Maior
Modelo semelhante ao caput do art. 28 do CDC: exige requisitos específicos, como abuso
ou infração à lei.
c) Lei 9.605/98 (Crimes Ambientais) — Teoria Menor
Assim como o § 5º do art. 28 do CDC, admite a desconsideração sempre que a
personalidade jurídica for obstáculo ao ressarcimento, independentemente de demonstração formal
de abuso.
2. HIPÓTESE DE DESCONSIDERAÇÃO
A desconsideração da personalidade jurídica, nos termos do art. 28 do CDC, poderá ocorrer
quando presentes quaisquer das seguintes situações:
• Abuso de direito;
• Excesso de poder;
• Infração da lei;
• Fato ou ato ilícito;
• Violação dos estatutos ou do contrato social;
• Falência;
• Estado de insolvência;
• Encerramento ou inatividade da pessoa jurídica, quando decorrentes de má
administração;
• Sempre que a personalidade jurídica representar obstáculo ao ressarcimento dos
prejuízos causados aos consumidores.
3. TEORIAS SOBRE A DESCONSIDERAÇÃO
3.1. TEORIA MAIOR
A Teoria Maior admite a desconsideração da personalidade jurídica somente quando houver
a comprovação de desvio de finalidade (teoria maior subjetiva) ou confusão patrimonial (teoria
maior objetiva), sempre acompanhados de prejuízo ao credor.
Esse regime é previsto no art. 50 do Código Civil, que exige a demonstração de um dos
fundamentos acima para afastar a autonomia patrimonial e atingir o patrimônio dos sócios.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 99
Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo
desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento
da parte, ou do Ministério Público quando lhe couber intervir no processo,
desconsiderá-la para que os efeitos de certas e determinadas relações de
obrigações sejam estendidos aos bens particulares de administradores ou de
sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente pelo abuso.
3.2. TEORIA MENOR
A Teoria Menor da desconsideração, adotada pelo CDC e pela Lei 9.605/1998 (Crimes
Ambientais), exige apenas a prova do prejuízo ao credor/consumidor, dispensando a demonstração
de abuso, fraude, desvio de finalidade ou confusão patrimonial.
No âmbito do CDC, basta que o consumidor demonstre estado de insolvência do fornecedor,
e que a personalidade jurídica representa obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos.
Apesar da flexibilização probatória, o STJ ressalta que, na regra geral, o sócio não gestor
não deve ser responsabilizado pessoalmente, salvo quando comprovado que participou, ainda que
culposamente, da administração ou da prática dos atos que resultaram no dano.
Para fins de aplicação da Teoria Menor da desconsideração da personalidade
jurídica (art. 28, § 5º, do CDC), basta que o consumidor demonstre o estado
de insolvência do fornecedor e o fato de a personalidade jurídica representar
um obstáculo ao ressarcimento dos prejuízos causados. Vale ressaltar,
contudo, que, a despeito de não se exigir prova de abuso ou fraude para
aplicação da Teoria Menor da desconsideração da personalidade jurídica, em
regra, não é possível a responsabilização pessoal de sócio que não
desempenhe atos de gestão. Este sócio será, contudo, responsabilidade se
ficar provado que ele contribuiu, ao menos culposamente, para a prática de
atos de administração. STJ. 3ª Turma. REsp 1.900.843-DF, Rel. Min. Paulo
de Tarso Sanseverino, Rel. para acórdão Min. Ricardo Villas Bôas Cueva,
julgado em 23/5/2023 (Info 777).
4. DESCONSIDERAÇÃO DO CC X DESCONSIDERAÇÃO DO CDC
DESCONSIDERAÇÃO NO CC DESCONSIDERAÇÃO NO CDC
Depende de requerimento da parte ou do
Ministério Público
Pode ser aplicada de ofício pelo juiz,
porquanto prevista em norma de ordem
pública
Adoção da Teoria Maior: exige-se, para além
da prova do prejuízo ao consumidor, a
demonstração de desvio de finalidade (teoria
maior subjetiva) ou confusão patrimonial
(teoria maior objetiva)
Adoção da Teoria Menor: basta a prova de
prejuízo ao consumidor, independentemente
de desvio de finalidade ou confusão
patrimonial
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 100
Hipóteses autorizadoras: a) desvio de
finalidade b) confusão patrimonial, bem como
benefício direto ou indireto dos sócios ou
administradores.
Hipóteses autorizadoras: a) abuso de direito;
b) excesso de poder; c) infração da lei; d) fato
ou ato ilícito; e) violação dos estatutos ou
contrato social; f) falência, estado de
insolvência, encerramento ou inatividade da
pessoa jurídica provocados por má
administração; ou g) sempre que sua
personalidade for, de alguma forma, obstáculo
ao ressarcimento de prejuízos causados aos
consumidores
5. CPC E DESCONSIDERAÇÃO
O CPC/2015 incorporou avanços importantes no tratamento processual da desconsideração
da personalidadejurídica:
a) Previsão expressa da desconsideração inversa:
O Código positivou a desconsideração inversa, já reconhecida pela jurisprudência do STJ,
permitindo atingir o patrimônio da pessoa jurídica quando o sócio utiliza a empresa para ocultar
bens pessoais.
CPC, Art. 133. O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será
instaurado a pedido da parte ou do Ministério Público, quando lhe couber
intervir no processo.
§ 2º Aplica-se o disposto neste Capítulo à hipótese de desconsideração
inversa da personalidade jurídica.
b) Desnecessidade de processo autônomo:
O CPC acolheu o entendimento consolidado no STJ: a desconsideração não exige ação
própria, podendo ser requerida em qualquer fase processual.
CPC, Art. 134. O incidente de desconsideração é cabível em todas as fases
do processo de conhecimento, no cumprimento de sentença e na execução
fundada em título executivo extrajudicial
Art. 134, CPC: O incidente é cabível em todas as fases do processo de conhecimento, no
cumprimento de sentença e na execução de título extrajudicial.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 101
PRÁTICAS COMERCIAIS
1. PUBLICIDADE
1.1. CONCEITO
Publicidade é o anúncio divulgado em qualquer meio de comunicação com a finalidade de
atrair o consumidor para a prática de um ato de consumo.
Exemplo: anúncios veiculados em redes sociais.
1.2. DIFERENCIAÇÕES
Publicidade não se confunde com propaganda.
• Publicidade → possui finalidade comercial, direcionada à oferta de produtos ou
serviços.
• Propaganda → tem caráter ideológico, podendo ser política, religiosa, governamental
ou de interesse social, sem objetivo comercial. Exemplos: propaganda eleitoral;
campanhas públicas sobre aleitamento materno.
No Brasil, o controle da publicidade é misto, pois ocorre pelo Estado, por meio da legislação
consumerista (controle legal) e pelo CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação
Publicitária), que exerce controle privado e ético sobre a atividade.
1.3. PRINCÍPIOS DA PROTEÇÃO PUBLICITÁRIA
1.3.1. Princípio da identificação da publicidade
Previsto no art. 36 do CDC.
Art. 36. A publicidade deve ser veiculada de tal forma que o consumidor, fácil
e imediatamente, a identifique como tal.
O consumidor tem o direito de saber, ao visualizar um anúncio, que se trata de publicidade
remunerada. A marcação clara evita confusão e impede técnicas que ocultem a intenção comercial.
• Merchandising: é permitido, desde que o anunciante utilize créditos ou avisos que
informem, de maneira destacada, que haverá exibição publicitária sobre determinado
produto.
• Publicidade subliminar: é considerada prática abusiva e viola o princípio da
identificação, pois influencia o consumidor sem sua percepção consciente.
1.3.2. Princípio da vinculação contratual da publicidade
Previsto nos arts. 30 e 35 do CDC:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 102
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada
por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e
serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular
ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.
Art. 35. Se o fornecedor de produtos ou serviços recusar cumprimento à
oferta, apresentação ou publicidade, o consumidor poderá, alternativamente
e à sua livre escolha:
I - exigir o cumprimento forçado da obrigação, nos termos da oferta,
apresentação ou publicidade;
II - aceitar outro produto ou prestação de serviço equivalente;
III - rescindir o contrato, com direito à restituição de quantia eventualmente
antecipada, monetariamente atualizada, e a perdas e danos.
Uma vez divulgada, a publicidade obriga o fornecedor e integra automaticamente o contrato,
desde que preenchidos dois requisitos:
• Veiculação da oferta — o anúncio precisa existir;
• Precisão suficiente — indicações claras sobre as principais características do produto ou
serviço.
Em caso de descumprimento, o consumidor pode:
1. exigir cumprimento forçado;
2. aceitar produto ou serviço equivalente;
3. rescindir o contrato, com restituição integral e perdas e danos.
Erros evidentes, como anunciar um produto de R$ 1.500,00 por R$ 50,00, podem afastar a
vinculação, desde que analisados caso a caso. Aplica-se o princípio da boa-fé objetiva,
considerando expectativas razoáveis de ambas as partes.
1.3.3. Princípio da transparência da fundamentação da publicidade
Previsto no parágrafo único do art. 36 do CDC.
Parágrafo único. O fornecedor, na publicidade de seus produtos ou serviços,
manterá, em seu poder, para informação dos legítimos interessados, os
dados fáticos, técnicos e científicos que dão sustentação à mensagem.
O fornecedor deve comprovar a veracidade do anúncio, por meio de fundamentos técnicos.
A ausência dessa base gera responsabilidade administrativa, civil e penal. Exemplo: empresa de
sabão em pó que afirma remover qualquer mancha em 5 minutos deve possuir testes e dados que
sustentem essa alegação.
1.3.4. Princípio da inversão do ônus da prova
Previsto no art. 38 do CDC.
Art. 38. O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação publicitária cabe a quem as patrocina.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 103
Trata-se de inversão legal do ônus da prova, cabe ao fornecedor demonstrar que a
publicidade não é enganosa ou abusiva, bem como provar que o produto corresponde ao que foi
anunciado.
O STJ ressalva que esse dispositivo não se aplica, em regra, aos casos de concorrência
desleal:
A disposição do Código de Defesa do Consumidor acerca do ônus probatório
da veracidade e correção da informação ou comunicação publicitária, a
princípio, não se aplica em demanda envolvendo concorrência desleal. STJ.
3ª Turma. REsp 1.866.232-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado
em 21/3/2023 (Info 768).
2. PUBLICIDADE ENGANOSA
2.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
A publicidade enganosa está prevista no art. 37, § 1º, do CDC:
§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de
caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo,
mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da
natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço
e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.
A publicidade enganosa ocorre sempre que a comunicação induz o consumidor a erro, ainda
que não haja intenção do fornecedor, pode ocorrer de forma comissiva (informação falsa) ou de
forma omissiva (falta de informação essencial).
A análise da enganosidade é feita em abstrato, considerando:
• critérios objetivos → conteúdo da mensagem;
• critérios subjetivos → público-alvo.
Por isso, o STJ admite o uso do puffing, que consiste em exageros publicitários evidentes,
incapazes de enganar o consumidor médio. Exemplos de puffing: “o mais gostoso”, “a melhor
comédia”, “o mais aconchegante”.
Caso concreto: STJ considerou lícita a propaganda veiculada pela Heinz, que
afirmava: “Heinz, melhor em tudo o que faz”. A expressão utilizada
impugnada, utilizada pela empresa como claim, caracteriza-se como puffing,
ou seja, é recurso que utiliza o exagero publicitário como método de
convencimento dos consumidores. STJ. 4ª Turma. REsp 1759745-SP, Rel.
Min. Marco Buzzi, julgado em 28/2/2023 (Info 765).
2.2. RESPONSABILIDADE
A responsabilidade pela publicidade enganosa é objetiva.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 104
Assim, não importa se o fornecedor agiu com dolo ou culpa: basta que a publicidade tenha
sido capaz de induzir o consumidor em erro.
2.3. FORMAS DE PUBLICIDADE ENGANOSA
1) Comissiva:
Ocorre quando o fornecedor divulga informação falsa ou imprecisa, que leva o consumidor
a erro.
2) Omissiva:
O STJ entende que a publicidade enganosa por omissão ocorre quando o fornecedordeixa
de informar dado essencial do produto ou serviço, induzindo o consumidor a erro, mesmo sem
intenção de enganar. Nesses casos, a publicidade se torna ilícita porque impede que o consumidor
faça uma escolha consciente, violando o dever de informação previsto no art. 6º, III, do CDC e
caracterizando a forma omissiva prevista no art. 37, § 3º.
Art. 37, § 3° Para os efeitos deste código, a publicidade é enganosa por
omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou
serviço.
Por exemplo, a instituição de ensino divulgou o curso como Educação Física, sem
esclarecimento de que se tratava apenas de Licenciatura. A consumidora, acreditando estar se
matriculando em curso que permitiria atuar em academias e outros ambientes não escolares,
somente ao final descobriu que seu diploma não a habilitava para essas atividades.
2.4. SUJEITOS RESPONSÁVEIS
Respondem pela publicidade enganosa:
• o fornecedor anunciante; e
• o fornecedor que se beneficia da publicidade enganosa.
Exemplo: tanto a montadora quanto a concessionária que utiliza ou tira proveito da
publicidade serão responsáveis perante o consumidor.
2.5. RESPONSABILIDADE DA AGÊNCIA E DO VEÍCULO DE COMUNICAÇÃO
Quanto à agência de publicidade (que elabora o anúncio) e ao veículo de comunicação (que
o divulga), a doutrina apresenta três correntes:
1ª Corrente: defende que agência e veículo são objetivamente responsáveis, com base no
art. 7º, parágrafo único, do CDC, pois teriam concorrido para o dano.
CDC, Art. 7º, Parágrafo único - Tendo mais de um autor a ofensa, todos
responderão solidariamente pela reparação dos danos previstos nas normas
de consumo.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 105
2ª Corrente: sustenta que agência e veículo são subjetivamente responsáveis, com
fundamento nos arts. 186 e 942 CC, pois não seriam fornecedores para fins do CDC. A
responsabilidade dependeria de dolo ou culpa, e não seria solidária automática. Há precedente do
STJ adotando essa linha.
CC, Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou
imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente
moral, comete ato ilícito.
3ª Corrente: para essa corrente, agência e veículo não respondem em nenhuma hipótese.
Segundo precedente do STJ:
• apenas o fornecedor anunciante é responsável;
• o CDC impõe deveres ao anúncio e ao anunciante, não aos veículos de comunicação;
• art. 38 do CDC (ônus da prova da veracidade da publicidade) não cria responsabilidade
para a mídia.
3. PUBLICIDADE ABUSIVA
3.1. PREVISÃO LEGAL E CONSIDERAÇÕES
A publicidade abusiva está prevista no art. 37, § 2º, do CDC:
§ 2° É abusiva, dentre outras a publicidade discriminatória de qualquer
natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se
aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita
valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se
comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança.
A publicidade abusiva ofende valores fundamentais da sociedade e do consumidor,
repercutindo diretamente na proteção constitucional da dignidade da pessoa humana, da infância,
do meio ambiente e da segurança.
Por isso, a doutrina considera tratar-se de conceito jurídico indeterminado, cuja identificação
exige análise à luz dos valores da Constituição Federal e do sistema jurídico. Exemplos típicos:
publicidade voltada a crianças (hipervulneráveis), ou anúncios que incitam condutas perigosas.
3.2. HIPÓTESE DE PUBLICIDADE ABUSIVA NO CDC
O CDC elenca hipóteses exemplificativas de publicidade considerada abusiva (art. 37, §
2º):
• publicidade discriminatória;
• publicidade que explora o medo ou a superstição;
• publicidade que incita à violência;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 106
• publicidade antiambiental;
• publicidade que induz o consumidor à insegurança ou a comportamentos perigosos;
• publicidade dirigida a crianças (categoria especialmente protegida).
3.3. RESPONSABILIDADE
A responsabilidade pela publicidade abusiva é objetiva, não dependendo de prova de dolo
ou culpa do fornecedor anunciante.
Basta que a publicidade se enquadre nas hipóteses abusivas previstas no CDC ou ofenda
valores jurídicos relevantes.
3.4. SUJEITOS RESPONSÁVEIS
Respondem pela publicidade abusiva:
• o fornecedor anunciante, e
• o fornecedor que se beneficia da publicidade.
A responsabilidade decorre da prática ilícita, nos termos do art. 186 do CC, aplicado de
forma complementar ao sistema consumerista.
4. PRÁTICAS ABUSIVAS
O art. 39 do CDC apresenta um rol exemplificativo de práticas consideradas abusivas.
Trata-se de conceito jurídico indeterminado, identificado a partir dos princípios da boa-fé
objetiva, lealdade, confiança e equilíbrio nas relações de consumo.
A seguir, cada inciso é analisado com explicações e exemplos.
I – Venda casada:
Condicionar o fornecimento de um produto/serviço ao fornecimento de outro, ou impor limites
quantitativos injustificados, configura prática abusiva.
Exemplos:
• impedir o consumidor de entrar no cinema com refrigerante adquirido fora;
• exigir contratação de serviço adicional para obter empréstimo bancário;
• tarifação mínima mensal de telefonia — porém o STJ entende que é legal, pois garante
continuidade do serviço (Súmula 356).
Súmula 356: É legítima a cobrança de tarifa básica pelo uso dos serviços de
telefonia fixa.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 107
II – Recusa injustificada de atendimento:
O fornecedor não pode recusar atendimento ao consumidor quando houver estoque e
disponibilidade.
Exemplos:
• taxista recusar corrida por ser “perto demais”;
• seguradora que se recusa a vender seguro de vida a pessoa curada de leucemia.
III – Envio de produtos ou serviços não solicitados:
O envio de qualquer produto ou serviço sem solicitação prévia é abusivo.
Exemplos:
• envio de revistas não solicitadas;
• envio de cartão de crédito sem pedido do consumidor.
Súmula 532 do STJ - Constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de
crédito sem prévia e expressa solicitação do consumidor, configurando-se ato
ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa administrativa.
Produtos ou serviços enviados sem solicitação serão considerados como amostras grátis,
sem obrigação de pagamento.
IV – Aproveitamento da fraqueza do consumidor:
É proibido aproveitar-se da idade, saúde, conhecimento ou condição social do consumidor
para forçar contratação.
Exemplo: exigir cheque-caução de paciente em situação vulnerável.
V – Vantagem manifestamente excessiva:
Há abusividade quando a relação contratual se torna desproporcional ou desequilibrada.
VI – Serviços sem orçamento prévio:
Prestar serviço sem orçamento e sem autorização expressa do consumidor é abusivo.
O orçamento deve conter discriminação dos materiais, mão de obra e prazo de execução,
possui validade de 10 dias.
Se o serviço é realizado sem autorização, equivale a amostra grátis.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/MT – Juiz Substituto – FGV – 2025): Salvo estipulação em contrário, o
valor orçado terá validade pelo prazo de 15 dias, contado de seu recebimento
pelo consumidor. Errado.
VII – Informação depreciativa:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 108
É proibido repassar informações depreciativas sobre o consumidor por ter exercido seus
direitos (ex.: registrar reclamação no Procon).
VIII – Produto ou serviço fora das normas técnicas:
Colocar no mercado produto/serviço em desacordo com normas oficiais ou da ABNT é
abusivo.
Exemplo: Produtos irregulares revelados na Operação Carne Fraca.
IX – Recusa de venda mediante pronto pagamento:
Proibida a recusa em vender produtos ou prestar serviços a quem se disponha a pagar à
vista, salvo hipóteses legais de intermediação.
X – Elevação de preços sem justa causa:
A elevaçãoinjustificada de preços é prática abusiva.
Exemplo: comerciantes que aumentam substancialmente o valor de máscaras durante o
período da pandemia.
Conforme a Lei 13.455/2017, o fornecedor pode:
• cobrar preços menores para pagamento à vista;
• cobrar preços maiores para pagamentos com cartão, cheque ou a prazo.
O fornecedor deve informar, em local e formato visíveis, eventuais descontos oferecidos em
razão do prazo ou do instrumento de pagamento utilizado.
XII - Falta de estipulação de prazo:
É abusivo deixar de estabelecer prazo para cumprimento da obrigação ou deixar a definição
do termo a critério exclusivo do fornecedor.
XIII – Aplicação de índice diverso do contratado:
Configura prática abusiva alterar o índice ou fórmula de reajuste acordado com o
consumidor. Exemplo: o consumidor adquire um terreno com correção prevista pelo IGPM, mas o
fornecedor aplica outro índice, modificando o contrato sem justificativa legal.
XIV – Permitir ingresso acima da capacidade autorizada:
É prática abusiva permitir a entrada de número superior ao máximo permitido pela autoridade
administrativa competente, por comprometer a segurança dos consumidores.
O inciso XIV foi incluído pela Lei 13.425/2017, que estabelece normas de prevenção e
combate a incêndios e desastres em estabelecimentos, edificações e locais de reunião de público.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(DPE/AC – Defensor Público – CEBRASPE – 2024): Considera-se prática
abusiva contra o consumidor o ato do fornecedor de deixar de estipular prazo
para o cumprimento de sua obrigação. Correto!
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 109
COBRANÇA DE DÍVIDAS
1. REPETIÇÃO DO INDÉBITO
1.1. PREVISÃO LEGAL
A repetição do indébito está prevista no parágrafo único do art. 42 do CDC:
Art. 42, Parágrafo único. O consumidor cobrado em quantia indevida tem
direito à repetição do indébito, por valor igual ao dobro do que pagou em
excesso, acrescido de correção monetária e juros legais, salvo hipótese de
engano justificável.
Assim, sempre que o consumidor for cobrado indevidamente e efetuar pagamento, terá
direito à devolução em dobro, salvo se o fornecedor comprovar o engano justificável.
1.2. PRESSUPOSTOS
Para que o consumidor tenha direito à repetição do indébito, são necessários três elementos:
• Cobrança indevida de dívida de consumo;
• Pagamento indevido ou em excesso;
• Culpa ou dolo do fornecedor.
No Código Civil, exige-se má-fé do credor para a devolução em dobro.
No CDC, basta a culpa, e apenas o engano justificável afasta a devolução em dobro,
hipótese em que há inversão legal do ônus da prova (ope legis).
Repetição do indébito no CDC (art. 42,
parágrafo único)
Repetição do indébito no CC (art. 940)
Cobrança indevida de dívida de consumo. Cobrança indevida de dívida civil.
Pode decorrer de cobrança extrajudicial ou
judicial.
Aplica-se apenas à cobrança judicial.
Exige pagamento indevido pelo consumidor.
Não exige pagamento: basta a cobrança judicial
indevida.
Basta culpa ou dolo do fornecedor. Exige má-fé do credor.
Repetição sempre pelo dobro do valor que o
consumidor pagou em excesso.
Depende da situação:
• se a dívida já estava paga → devolução em
dobro;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 110
Repetição do indébito no CDC (art. 42,
parágrafo único)
Repetição do indébito no CC (art. 940)
• se o valor cobrado é maior que o devido →
restituição apenas do excesso.
O STJ reconhece que é possível aplicar o art. 940 do CC em relações de consumo, desde
que não estejam presentes os pressupostos do art. 42, parágrafo único, do CDC.
Mesmo diante de uma relação de consumo, se inexistentes os pressupostos
de aplicação do art. 42, parágrafo único, do CDC, deve ser aplicado o sistema
geral do Código Civil, no que couber. O art. 940 do CC é norma complementar
ao art. 42, parágrafo único, do CDC e, no caso, sua aplicação está alinhada
ao cumprimento do mandamento constitucional de proteção do consumidor.
STJ. 3ª Turma. REsp 1645589-MS, Rel. Min. Ricardo Villas Bôas Cueva,
julgado em 04/02/2020 (Info 664).
1.3. (DES) NECESSIDADE DE COMPROVAÇÃO DE MÁ-FÉ
O STJ consolidou o entendimento de que o consumidor tem direito à repetição em dobro
dos valores cobrados indevidamente, independentemente da comprovação de má-fé do fornecedor.
A tese foi fixada no julgamento do EAREsp 1.501.756/SC, que reafirmou o seguinte:
A repetição em dobro, prevista no parágrafo único do art. 42 do CDC, é
cabível quando a cobrança indevida consubstanciar conduta contrária à boa-
fé objetiva, ou seja, deve ocorrer independentemente da natureza do
elemento volitivo. (EAREsp 300.663/RS, publicado em 30/03/2021)
Portanto:
• O consumidor tem direito à devolução em dobro do valor indevidamente cobrado.
• Não é necessária prova de dolo ou má-fé.
• Basta demonstrar que a cobrança indevida violou a boa-fé objetiva, isto é, que a conduta
do fornecedor foi incompatível com os deveres de correção, lealdade, cuidado e
transparência.
• A tese aplica-se às cobranças realizadas a partir de 30/03/2021.
Diferentemente da boa-fé subjetiva, que depende da intenção, a boa-fé objetiva se centra
no comportamento devido, garantindo a proteção das expectativas legítimas do consumidor e o
equilíbrio nas relações de consumo.
Assim, qualquer cobrança indevida realizada em violação à boa-fé objetiva, seja por
negligência, falta de verificação, omissão ou descuido, gera o dever de repetição em dobro.
2. ARQUIVO DE CONSUMO
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 111
2.1. CONCEITO
Arquivos de consumo correspondem à atividade de coleta e armazenamento de informações
sobre consumidores. Essas informações podem ser utilizadas:
• para estabelecer perfis de consumo, ou
• para embasar decisões comerciais, como a concessão de crédito.
2.2. ESPÉCIES
Existem duas espécies de arquivos de consumo, diferenciadas pela fonte e pelo destino das
informações:
Fonte da informação Destino da informação
Cadastro Consumidor Fornecedor específico
Banco de dados Fornecedor Mercado de consumo
2.3. NATUREZA JURÍDICA
Nos termos do art. 43, § 3º do CDC, os bancos de dados, cadastros de consumidores e
serviços de proteção ao crédito possuem natureza de entidade de caráter público.
Essa natureza jurídica é fundamental, pois:
• garante maior controle social sobre as informações;
• reforça o dever de veracidade, atualização e segurança dos dados;
• permite o uso do habeas data para acessar, corrigir ou complementar informações
constantes nesses bancos.
Assim, qualquer consumidor pode exigir, judicialmente ou administrativamente, o acesso, a
correção, a inclusão ou a exclusão de dados referentes ao seu nome.
3. BANCO DE DADOS DE PROTEÇÃO AO CRÉDITO
Os bancos de dados destinados à proteção ao crédito reúnem e divulgam informações
fornecidas pelos fornecedores, permitindo que todo o mercado de consumo tenha acesso a dados
relevantes sobre o histórico do consumidor.
3.1. AÇÕES
Os bancos de proteção ao crédito desenvolvem três funções principais:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 112
• Coleta de dados: recebem informações fornecidas pelos fornecedores sobre o
comportamento financeiro do consumidor.
• Armazenamento de dados: mantêm registros organizados e atualizados sobre o
histórico de crédito.
• Circulação das informações: compartilham tais dados com o mercado, possibilitando
que outros fornecedores consultem o histórico do consumidor.
3.2. FINALIDADE
A finalidade dos bancos de proteção ao crédito é assegurar a segurança nas relações
comerciais, permitindo que a concessão de crédito seja feita de forma mais consciente, responsável
e informada.
Essas informações servem de base para análise de risco pelos fornecedores.
3.3. NEGATIVAÇÃO
A negativação consiste na inclusão de informação negativa a respeito do consumidor,
indicando ao mercado que ele deixou de cumprir determinadaobrigação financeira.
É, portanto, um juízo desfavorável sobre sua capacidade de pagamento.
3.4. QUALIDADE DAS INFORMAÇÕES
De acordo com o art. 43, § 1º do CDC, os dados registrados em bancos de consumo devem
observar requisitos essenciais de qualidade:
Art. 43, § 1° Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos,
claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não podendo
conter informações negativas referentes a período superior a cinco anos.
As qualidades exigidas são:
• Objetividade: informações diretas e verificáveis. Ex.: “Consumidor está em mora por
não pagar o débito X”.
• Clareza: compreensão simples e transparente.
• Verdade: as informações devem refletir exatamente a realidade.
• Linguagem de fácil compreensão: sem termos técnicos obscuros ou confusos.
3.5. RESPONSABILIDADE POR INFORMAÇÃO INVERÍDICA
A doutrina consumerista majoritária entende que a responsabilidade deveria ser solidária
entre o fornecedor e o banco de dados. Contudo, o STJ entende que a responsabilidade por
informação inverídica transmitida ao banco de dados é somente do fornecedor, que é quem a gera
e a envia.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 113
O órgão de proteção ao crédito não é obrigado a verificar previamente a veracidade das
informações repassadas pelos fornecedores.
4. DIREITOS DOS CONSUMIDORES PERANTE OS ARQUIVOS DE CONSUMO
4.1. DIREITO À COMUNICAÇÃO POR ESCRITO DO ASSENTO (ART. 43, §2º)
O art. 43, § 2º, do CDC estabelece:
Art. 43, § 2° A abertura de cadastro, ficha, registro e dados pessoais e de
consumo deverá ser comunicada por escrito ao consumidor, quando não
solicitada por ele.
A regra assegura ao consumidor o direito de ser informado previamente sobre a futura
negativação ou inserção de seu nome em cadastro restritivo, possibilitando-lhe evitar ou minimizar
danos, por meio do pagamento, contestação ou regularização do débito.
Atualmente, tanto a 3ª quanto a 4ª Turma do STJ admitem que a notificação prévia do art.
43, § 2º, do CDC pode ser realizada por meios eletrônicos (e-mail, SMS ou até WhatsApp), desde
que comprovados o envio e o efetivo recebimento.
Considerando a regra vigente no ordenamento jurídico pátrio - de que a
comunicação dos atos processuais, através da citação e da intimação, deve
ser realizada pelos meios eletrônicos, que, inclusive, se aplica ao processo
penal, nos termos da jurisprudência deste Tribunal, com mais razão deve ser
admitido o meio eletrônico como regra também para fins da notificação do art.
43, § 2º, do CDC, desde que comprovados o envio e o recebimento no e-mail
ou no número de telefone (se utilizada a mensagem de texto de celular ou o
aplicativo whatsapp) informados pelo consumidor ao credor. No contexto
atual da sociedade brasileira, marcado por intenso e democrático avanço
tecnológico, com utilização, por maciça camada da população, de dispositivos
eletrônicos com acesso à internet, na quase totalidade do território nacional,
constata-se que não subsiste a premissa fática na qual se baseou a Terceira
Turma nos precedentes anteriores, que vedavam a utilização exclusiva dos
meios eletrônicos. Portanto, a notificação prévia do consumidor acerca do
registro do seu nome no cadastro de inadimplentes, nos termos do art. 43, §
2º, do CDC, pode ser realizada por meio eletrônico, desde que devidamente
comprovados o envio e a entrega da notificação, realizados por e-mail,
mensagem de texto de celular (SMS) ou até mesmo pelo aplicativo whatsapp.
STJ. 3ª Turma. REsp 2.092.539/RS, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado
em 17/9/2024.
É válida a comunicação escrita, conforme prevê o art. 43, § 2º, do CDC,
enviada por carta ou e-mail, para fins de notificação do consumidor
acerca da inscrição de seu nome em cadastro de inadimplentes, desde
que os dados do consumidor sejam fornecidos pelo credor ao órgão
mantenedor do cadastro de inadimplentes. STJ. 4ª Turma. REsp
2.158.450-RS, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 10/12/2024
(Info 837).
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 114
A responsabilidade pela comunicação prévia da negativação é exclusiva do mantenedor do
serviço de proteção ao crédito, e não do fornecedor que enviou a informação. Além disso, não há
necessidade de comunicação prévia quando a informação de mora foi obtida a partir de órgão
público, hipótese em que a inscrição pode ocorrer diretamente.
A seguir, algumas súmulas e entendimentos consolidados do STJ sobre o tema:
Súmula 359, STJ: Cabe ao órgão mantenedor do cadastro de proteção ao
crédito a notificação do devedor antes de proceder à inscrição.
Súmula 404, STJ: É dispensável o Aviso de Recebimento (AR) na carta de
comunicação ao consumidor sobre a negativação de seu nome em bancos
de dados e cadastros.
Súmula 550-STJ: A utilização de escore de crédito, método estatístico de
avaliação de risco que não constitui banco de dados, dispensa o
consentimento do consumidor, que terá o direito de solicitar esclarecimentos
sobre as informações pessoais valoradas e as fontes dos dados considerados
no respectivo cálculo.
Súmula 572, STJ: O Banco do Brasil, na condição de gestor do Cadastro de
Emitentes de Cheques sem Fundos (CCF), não tem a responsabilidade de
notificar previamente o devedor acerca da sua inscrição no aludido cadastro,
tampouco legitimidade passiva para as ações de reparação de danos
fundadas na ausência de prévia comunicação.
A inscrição e manutenção do nome do devedor em cadastros de
inadimplentes está adstrita ao prazo de cinco anos contados do primeiro dia
seguinte à data de vencimento da dívida, que deverá estar inserida no banco
de dados da administradora do cadastro. STJ. 4ª Turma. REsp 2.095.414-
SP, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 11/6/2024 (Info 817).
É desnecessário o consentimento prévio e expresso do consumidor para a
disponibilização de informações em relatório de consulta com a finalidade de
proteção ao crédito. STJ. 4ª Turma. AgInt no REsp 2.122.804-SP, Rel. Min.
Raul Araújo, julgado em 12/8/2024 (Info 823).
4.2. DIREITO DE ACESSO À INFORMAÇÃO
O art. 43, caput, do CDC assegura:
Art. 43. O consumidor, sem prejuízo do disposto no art. 86, terá acesso às
informações existentes em cadastros, fichas, registros e dados pessoais e de
consumo arquivados sobre ele, bem como sobre as suas respectivas fontes.
O consumidor tem o direito de acessar gratuitamente todas as informações registradas a
seu respeito em arquivos de consumo, cadastros e bancos de dados.
O acesso deve ser imediato, permitindo ao consumidor verificar o conteúdo e corrigir
eventuais equívocos. Se houver negativa de acesso, o consumidor poderá:
• impetrar habeas data; e
• pleitear responsabilidade civil pelos danos eventualmente sofridos.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 115
Além disso, o acesso deve ser garantido sem discriminação, inclusive às pessoas com
deficiência, com fornecimento de informações acessíveis.
4.3. DIREITO À CORREÇÃO DA INFORMAÇÃO
O art. 43, § 3º, do CDC dispõe:
Art. 43, § 3° O consumidor, sempre que encontrar inexatidão nos seus dados
e cadastros, poderá exigir sua imediata correção, devendo o arquivista, no
prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração aos eventuais destinatários
das informações incorretas.
Assim, o consumidor possui o direito de exigir a retificação de dados incorretos constantes
nos arquivos de consumo.
Prazos para correção:
• Correção imediata: quando o consumidor apresenta prova documental suficiente (ex.:
comprovante de pagamento).
• Correção em até 7 dias: quando a informação precisa ser verificada, conforme regra da
Lei do Cadastro Positivo (Lei 12.414/2011).
Após a correção, o banco de dados deve, em até 5 dias úteis, comunicar a atualização aos
demais destinatários que tiveram acesso à informação incorreta.
Assim como no direito de acesso, a correção é gratuita, e, havendo negativainjustificada,
cabe habeas data, além de responsabilidade civil por eventuais danos.
5. RESPONSABILIDADE PELO CANCELAMENTO DA INSCRIÇÃO
5.1. RESPONSÁVEL
Após o pagamento integral da dívida, a responsabilidade pelo cancelamento da negativação
é do fornecedor-credor, que deve comunicar o banco de dados para que a inscrição seja excluída.
Essa responsabilidade não se confunde com o cancelamento de protesto, em que o ônus é
do próprio consumidor.
5.2. PRAZO
O prazo para exclusão da inscrição é de cinco dias úteis, aplicando-se por analogia o art.
43, § 3º, do CDC.
Súmula 548, STJ: Incumbe ao credor a exclusão do registro da dívida em
nome do devedor no cadastro de inadimplentes no prazo de cinco dias úteis,
a partir do integral e efetivo pagamento do débito.
Como o tema foi cobrado em concurso?
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 116
(ENAM – FGV – 2025.2): Incumbe ao devedor a iniciativa de exclusão do
registro da dívida em seu nome no cadastro de inadimplentes, devendo o
gestor do banco de dados, no prazo de cinco dias úteis, comunicar a alteração
ao prestador de serviço que encaminhou a negativação. Errado! Incumbe
ao credor.
6. RESPONSABILIDADE PELO ARQUIVAMENTO INDEVIDO
“Arquivamento indevido” é gênero que engloba três situações distintas:
1. Arquivamento sem comunicação prévia → responsabilidade do órgão mantenedor do
cadastro.
2. Arquivamento de informação inverídica → responsabilidade do fornecedor-credor
(que enviou os dados errados).
3. Não cancelamento da negativação após a quitação → responsabilidade do
fornecedor-credor.
Em todas essas hipóteses, a responsabilidade é objetiva, independentemente de culpa ou
dolo.
Súmula 385, STJ: Da anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito,
não cabe indenização por dano moral, quando preexistente legítima inscrição,
ressalvado o direito ao cancelamento.
Isso significa:
• Se o consumidor já possui negativação legítima anterior, a nova inscrição irregular não
gera dano moral indenizável, mas cabe o cancelamento da anotação indevida.
• Se não houver inscrição anterior legítima, o dano moral pelo arquivamento indevido é,
como regra, in re ipsa (presumido).
A anotação irregular em cadastro de proteção ao crédito que antecede a
inscrição legítima caracteriza dano moral in re ipsa. REsp 2.160.941-SP, Rel.
Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, por unanimidade, julgado em
5/11/2024, DJe 8/11/2024.
7. LIMITES TEMPORAIS DOS REGISTROS NEGATIVOS
O CDC estabelece dois limites temporais para a manutenção e divulgação de informações
negativas nos arquivos de consumo:
1) Prazo máximo de 5 anos:
Nenhuma informação negativa pode permanecer registrada por período superior a cinco
anos, contados a partir da data da inadimplência.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 117
Art. 43, § 1° Os cadastros e dados de consumidores devem ser objetivos,
claros, verdadeiros e em linguagem de fácil compreensão, não podendo
conter informações negativas referentes a período superior a cinco anos.
Esse prazo é absoluto: após cinco anos, o registro deve ser excluído, ainda que a dívida não
tenha sido paga.
2) Proibição de qualquer registro negativo após a prescrição da ação de cobrança
Mesmo antes de completar cinco anos, se ocorrer a prescrição da ação de cobrança, o
fornecedor e os sistemas de proteção ao crédito não podem mais divulgar informações negativas
sobre o débito.
Art. 43, § 5° Consumada a prescrição relativa à cobrança de débitos do
consumidor, não serão fornecidas, pelos respectivos Sistemas de Proteção
ao Crédito, quaisquer informações que possam impedir ou dificultar novo
acesso ao crédito junto aos fornecedores.
Trata-se de proteção adicional:
• 5 anos é o limite máximo;
• prescrição pode reduzir esse prazo, tornando a divulgação vedada antes mesmo dos
cinco anos.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 118
PROTEÇÃO CONTRATUAL
1. PRINCÍPIOS NORTEADORES DA PROTEÇÃO CONTRATUAL
1.1. PRINCÍPIO DA TRANSPARÊNCIA
Previsto no art. 46 do CDC, o princípio da transparência assegura o prévio conhecimento do
conteúdo contratual pelo consumidor e a necessidade de redação clara, objetiva e compreensível.
CDC, Art. 46. Os contratos que regulam as relações de consumo não
obrigarão os consumidores, se não lhes for dada a oportunidade de tomar
conhecimento prévio de seu conteúdo, ou se os respectivos instrumentos
forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance.
A transparência deve estar presente:
• na fase pré-contratual (informações claras antes da contratação);
• na fase contratual (clareza na redação e no conteúdo);
• na fase pós-contratual (cumprimento e comunicação adequada).
A inobservância gera a não vinculação do consumidor ao contrato.
1.2. PRINCÍPIO DA INTERPRETAÇÃO FAVORÁVEL
Previsto no art. 47 do CDC, determina que eventuais dúvidas na interpretação das cláusulas
devem ser resolvidas da maneira mais favorável ao consumidor.
CDC, Art. 47. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais
favorável ao consumidor.
Esse princípio reforça a hipervulnerabilidade jurídica do consumidor perante contratos
geralmente padronizados e de adesão.
1.3. PRINCÍPIO DA VINCULAÇÃO DO FORNECEDOR
Previsto nos arts. 30 e 48 do CDC, estabelece que a oferta, publicidade e declarações do
fornecedor passam a integrar o contrato, vinculando-o.
Art. 30. Toda informação ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada
por qualquer forma ou meio de comunicação com relação a produtos e
serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer veicular
ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado.
Art. 48. As declarações de vontade constantes de escritos particulares,
recibos e pré-contratos relativos às relações de consumo vinculam o
fornecedor, ensejando inclusive execução específica, nos termos do art. 84 e
parágrafos.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 119
Assim, tudo aquilo que o fornecedor anuncia, promete ou documenta passa a constituir
obrigações contratuais exigíveis.
1.4. PRINCÍPIO DA PRESERVAÇÃO DOS CONTRATOS
Previsto no art. 51, § 2º do CDC, visa manter a continuidade e estabilidade das relações
contratuais, afastando apenas a cláusula abusiva, sem invalidar o contrato como um todo.
Art. 51, § 2° A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o
contrato, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração,
decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.
2. DIREITO DE ARREPENDIMENTO
Também chamado de prazo de reflexão, o direito de arrependimento está previsto no art. 49
do CDC:
Art. 49. O consumidor pode desistir do contrato, no prazo de 7 dias a contar
de sua assinatura ou do ato de recebimento do produto ou serviço, sempre
que a contratação de fornecimento de produtos e serviços ocorrer fora do
estabelecimento comercial, especialmente por telefone ou a domicílio.
Parágrafo único. Se o consumidor exercitar o direito de arrependimento
previsto neste artigo, os valores eventualmente pagos, a qualquer título,
durante o prazo de reflexão, serão devolvidos, de imediato, monetariamente
atualizados.
O prazo do direito de arrependimento é de 7 dias, contado da assinatura do contrato ou do
recebimento do produto ou do serviço.
Aplica-se exclusivamente às contratações fora do estabelecimento comercial, como
compras pela internet, compras por telefone, vendas porta a porta e compras por catálogos (ex.:
Natura, Avon).
Trata-se de direito potestativo, ou seja, o consumidor não precisa justificar sua desistência.
3. TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL
Como regra, o não cumprimento da obrigação autoriza o credor a resolver o contrato, nos
termos do art. 475 do Código Civil:
Art. 475. A parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do
contrato, se não preferirexigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos
casos, indenização por perdas e danos.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 120
Entretanto, há situações em que a resolução contratual se mostra desproporcional e
incompatível com a boa-fé objetiva, como ocorre quando o consumidor, após dez anos de
pagamentos pontuais, tem o contrato cancelado ou a cobertura negada por inadimplência ínfima,
como o não pagamento de duas parcelas.
Nessas hipóteses, aplica-se a Teoria do Adimplemento Substancial, que impede a resolução
contratual quando:
• o devedor cumpriu substancialmente a obrigação;
• o inadimplemento é mínimo ou irrelevante diante do todo;
• a resolução acarretaria desequilíbrio e violação da boa-fé objetiva.
A Teoria não se aplica aos casos de adjudicação compulsória e nem aos contratos de
alienação fiduciária em garantia regidos pelo DL 911/69.
A teoria do adimplemento substancial é inaplicável à adjudicação
compulsória, a qual, no compromisso de compra e venda de bem imóvel,
exige a quitação integral do preço, ainda que tenha ocorrido a prescrição das
parcelas que perfazem o saldo devedor. STJ. 3ª Turma. REsp 2.207.433-SP,
Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 3/6/2025 (Info 26 - Edição
Extraordinária).
Não se aplica a teoria do adimplemento substancial aos contratos de
alienação fiduciária em garantia regidos pelo Decreto-Lei 911/69. STJ. 2ª
Seção. REsp 1.622.555-MG, Rel. Min. Marco Buzzi, Rel. para acórdão Min.
Marco Aurélio Bellizze, julgado em 22/2/2017 (Info 599).
4. CLÁUSULAS ABUSIVAS
4.1. DEFINIÇÃO
O art. 51 do CDC disciplina as cláusulas abusivas. Trata-se de uma cláusula geral, de modo
que qualquer disposição contratual contrária ao sistema constitucional e ao sistema consumerista
será considerada abusiva.
Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de produtos e serviços que:
I - impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do fornecedor
por vícios de qualquer natureza dos produtos e serviços ou impliquem
renúncia ou disposição de direitos. Nas relações de consumo entre o
fornecedor e o consumidor pessoa jurídica, a indenização poderá ser limitada,
em situações justificáveis;
II - subtraiam ao consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos
casos previstos neste código;
III - transfiram responsabilidades a terceiros;
IV - estabeleçam obrigações consideradas iníquas, abusivas, que coloquem
o consumidor em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a
boa-fé ou a equidade;
V - (Vetado);
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 121
VI - estabeleçam inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor;
VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem;
VIII - imponham representante para concluir ou realizar outro negócio jurídico
pelo consumidor;
IX - deixem ao fornecedor a opção de concluir ou não o contrato, embora
obrigando o consumidor;
X - permitam ao fornecedor, direta ou indiretamente, variação do preço de
maneira unilateral;
XI - autorizem o fornecedor a cancelar o contrato unilateralmente, sem que
igual direito seja conferido ao consumidor;
XII - obriguem o consumidor a ressarcir os custos de cobrança de sua
obrigação, sem que igual direito lhe seja conferido contra o fornecedor;
XIII - autorizem o fornecedor a modificar unilateralmente o conteúdo ou a
qualidade do contrato, após sua celebração;
XIV - infrinjam ou possibilitem a violação de normas ambientais;
XV - estejam em desacordo com o sistema de proteção ao consumidor;
XVI - possibilitem a renúncia do direito de indenização por benfeitorias
necessárias.
XVII - condicionem ou limitem de qualquer forma o acesso aos órgãos do
Poder Judiciário;
XVIII - estabeleçam prazos de carência em caso de impontualidade das
prestações mensais ou impeçam o restabelecimento integral dos direitos do
consumidor e de seus meios de pagamento a partir da purgação da mora ou
do acordo com os credores;
XIX - (VETADO).
§ 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:
I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do
contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se
a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras
circunstâncias peculiares ao caso.
§ 2° A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato,
exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer
ônus excessivo a qualquer das partes.
§ 3° (Vetado).
§ 4° É facultado a qualquer consumidor ou entidade que o represente
requerer ao Ministério Público que ajuíze a competente ação para ser
declarada a nulidade de cláusula contratual que contrarie o disposto neste
código ou de qualquer forma não assegure o justo equilíbrio entre direitos e
obrigações das partes.
4.2. AFERIÇÃO OBJETIVA
A abusividade é analisada objetivamente, não importa dolo ou culpa do fornecedor.
4.3. NULIDADE DE PLENO DIREITO
As cláusulas abusivas são inválidas desde o nascimento, não produzindo efeitos. Assim, a
sentença que reconhece a abusividade de determinada cláusula contratual possui efeitos ex tunc.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 122
4.4. RECONHECIMENTO DE OFÍCIO
A doutrina amplamente majoritária entende que o juiz pode reconhecer de ofício cláusulas
abusivas, pois se trata de nulidade absoluta e são normas de ordem pública.
Contudo, o STJ entende que o juiz não pode reconhecer de ofício nulidade de cláusulas,
nos termos da Súmula 381.
Súmula 381 - Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer, de
ofício, da abusividade das cláusulas.
4.5. IMPRESCRITIBILIDADE
Por ser uma nulidade de pleno direito, não há prescrição.
4.6. INTEGRAÇÃO DE CONTRATO
Com base no princípio da prevenção, quando o juiz declara nula uma cláusula abusiva,
ele deve integrar o contrato, substituindo a disposição inválida por parâmetros fornecidos pela lei,
pela jurisprudência ou pelos usos e costumes.
Exemplo: cláusula contratual que prevê multa moratória de 5%. Reconhecida a abusividade,
o magistrado pode aplicar diretamente o art. 52, §1º, do CDC, fixando a multa em 2%, integrando
adequadamente o contrato.
4.7. ESPÉCIES DE CLÁUSULAS ABUSIVAS
O art. 51 do CDC apresenta um rol exemplificativo, admitindo outras hipóteses além das
expressamente listadas.
I — Cláusulas que afastem ou limitem a responsabilidade do fornecedor
São nulas as cláusulas que impossibilitem, exonerem ou atenuem a responsabilidade do
fornecedor por vícios dos produtos ou serviços, ou impliquem renúncia de direitos.
Mesmo nas relações em que o consumidor é pessoa jurídica, admite-se a limitação de
indenização apenas quando houver justificativa plausível, como:
• vantagem patrimonial ao consumidor;
• participação efetiva na fase pré-contratual;
• preservação do equilíbrio contratual.
Exemplo: furto de veículo em estacionamento de shopping.
Súmula 130, STJ: A empresa responde, perante o cliente, pela reparação de
danos ou furto de veículos ocorridos em seu estacionamento
II — Cláusulas que subtraiam a opção de reembolso:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 123
Nos casos previstos no CDC, especialmente no direito de arrependimento, o consumidor
tem direito ao reembolso integral. É nula qualquer cláusula que busque limitar esse direito.
III — Transferência indevida de responsabilidades a terceiros
Ex.: contratar o buffet “A” e, no dia do evento, comparecer o buffet “B”.
IV — Cláusulas iníquas (injustas), abusivas ou que gerem desvantagem exagerada:
Trata-se de uma das cláusulas gerais mais relevantes do CDC.
O operador do Direito deve preencher, no caso concreto, os conceitos indeterminados,
aferindo boa-fée equilíbrio.
O §1º do art. 51 presume a desvantagem exagerada quando a cláusula:
Art. 51, § 1º Presume-se exagerada, entre outros casos, a vantagem que:
I - ofende os princípios fundamentais do sistema jurídico a que pertence;
II - restringe direitos ou obrigações fundamentais inerentes à natureza do
contrato, de tal modo a ameaçar seu objeto ou equilíbrio contratual;
III - se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se
a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras
circunstâncias peculiares ao caso.
Exemplos reconhecidos pelo STJ:
• Súmula 302/STJ: cláusula de plano de saúde que limita no tempo a internação.
Súmula 302 – é abusiva a cláusula contratual de plano de saúde que limita
no tempo a internação hospitalar do segurado.
• Exclusão de cobertura para doenças infectocontagiosas (como AIDS);
• Restrição indevida de transplantes;
• Suspensão de atendimento por atraso de uma única parcela (teoria do adimplemento
substancial).
• Súmula 597/STJ: cláusula de plano de saúde que prevê carência maior que 24 horas
para urgência ou emergência é abusiva.
Súmula 597-STJ: A cláusula contratual de plano de saúde que prevê carência
para utilização dos serviços de assistência médica nas situações de
emergência ou de urgência é considerada abusiva se ultrapassado o prazo
máximo de 24 horas contado da data da contratação.
VI — Inversão do ônus da prova em prejuízo do consumidor:
O CDC disciplina a inversão de forma protetiva (art. 6º, VIII; art. 38). Cláusula contratual que
imponha inversão desfavorável ao consumidor é nula.
VII — Imposição compulsória de arbitragem:
O CDC admite arbitragem, desde que não seja compulsória.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 124
VIII — Cláusulas que imponham representante ao consumidor:
São as chamadas cláusulas-mandato, que obrigam o consumidor a constituir representante
para concluir ou realizar outro negócio jurídico. São nulas.
IX — Cláusulas que deixem ao fornecedor a opção de concluir o contrato:
São abusivas as cláusulas que concedem ao fornecedor a escolha de concluir ou não o
contrato, enquanto vinculam o consumidor.
X — Cláusulas que permitam variação unilateral de preço:
O preço deve estar definido na fase pré-contratual. É proibida qualquer cláusula que autorize
o fornecedor a alterar o valor unilateralmente ao longo da execução do contrato.
XI — Cláusulas que autorizem o cancelamento unilateral pelo fornecedor:
O cancelamento deve ser bilateral.
Ainda assim, mesmo quando bilateral, a cláusula poderá ser abusiva se gerar desvantagem
exagerada ao consumidor, à luz do art. 51, IV (ex.: contratos de longa duração).
XII — Cláusulas que imponham ao consumidor os custos de cobrança:
É abusiva a cláusula que obriga o consumidor a arcar com despesas de cobrança sem
conceder igual direito contra o fornecedor.
XIII — Cláusulas que permitam modificação unilateral do contrato:
É nula a cláusula que autoriza o fornecedor a alterar, sozinho, o conteúdo ou a qualidade do
contrato após sua celebração.
XIV — Cláusulas que infrinjam normas ambientais:
Qualquer disposição contratual que viole ou possibilite a violação de regras ambientais é
abusiva.
XV — Cláusulas em desacordo com o sistema de proteção do consumidor:
Abrange qualquer cláusula contrária ao CDC ou ao regime protetivo do consumidor.
Exemplo: Carência em planos de saúde: é admitida, mas limitada a 24 horas para situações
de urgência e emergência.
Também se inclui aqui a cláusula de foro de eleição que dificulte o acesso à Justiça em
contratos de adesão.
XVI — Renúncia à indenização por benfeitorias necessárias:
Benfeitorias necessárias visam à conservação do bem. A renúncia à indenização é
considerada abusiva.
Não se aplica aos contratos de locação urbana, que não se submetem ao CDC.
XVII — Restrições ao acesso ao Poder Judiciário:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 125
Introduzida pela Lei do Superendividamento, considera abusiva qualquer cláusula que
condicione ou limite o direito do consumidor de recorrer ao Judiciário.
XVIII — Carência por impontualidade ou impedimento ao restabelecimento dos
direitos:
Também incluída pela Lei do Superendividamento. São nulas as cláusulas que:
• criem novas carências em razão de atraso no pagamento, ou
• impeçam o restabelecimento integral dos direitos do consumidor após a purgação da
mora ou acordo com credores.
Os Tribunais Superiores, especialmente o STJ, analisam constantemente cláusulas
abusivas. A avaliação depende do tipo contratual e de seus efeitos no equilíbrio da relação.
O contrato de programa de fidelidade é um contrato de adesão. Vale
ressaltar, contudo, que nos contratos de adesão não existe ilegalidade
intrínseca, razão pela qual só serão declaradas abusivas e, portanto,
nulas, aquelas cláusulas que estabeleçam obrigações consideradas
iníquas, que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada, que
tragam desequilíbrio de direitos e obrigações típicos àquele contrato
específico, que frustrem os interesses básicos das partes presentes
naquele tipo de relação, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou
equidade, nos termos do art. 51, IV, do CDC. A adesão ao programa de
fidelidade deve ser considerada como contrato unilateral e benéfico
considerando que dispensa contraprestação pecuniária do seu beneficiário e
prevê responsabilidade somente ao seu instituidor. Os contratos benéficos,
que por sua natureza são intuito personae, devem ser interpretados
restritivamente, consoante disposto no art. 114 do CC/02. STJ. 3ª Turma.
REsp 1878651-SP, Rel. Min. Moura Ribeiro, julgado em 04/10/2022 (Info
753).
O limite de desconto do empréstimo consignado não se aplica aos contratos
de mútuo bancário em que o cliente autoriza o débito das prestações em
contracorrente. São lícitos os descontos de parcelas de empréstimos
bancários comuns em contracorrente, ainda que utilizada para recebimento
de salários, desde que previamente autorizados pelo mutuário e enquanto
esta autorização perdurar, não sendo aplicável, por analogia, a limitação
prevista no § 1º do art. 1º da Lei nº 10.820/2003, que disciplina os
empréstimos consignados em folha de pagamento. STJ. 2ª Seção. REsp
1863973-SP, Rel. Min. Marco Aurélio Bellizze, julgado em 09/03/2022
(Recurso Repetitivo – Tema 1085) (Info 728).
5. CRÉDITOS E FINANCIAMENTOS AO CONSUMIDOR
O art. 52 do CDC disciplina os contratos de crédito e financiamento, estabelecendo as
informações que devem ser fornecidas prévia e adequadamente ao consumidor. São elas:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 126
Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de
crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá,
entre outros requisitos, informá-lo prévia e adequadamente sobre:
I - preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;
II - montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;
III - acréscimos legalmente previstos;
IV - número e periodicidade das prestações;
V - soma total a pagar, com e sem financiamento.
§ 1° As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações no seu
termo não poderão ser superior a dois por cento do valor da prestação.
§ 2º É assegurado ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou
parcialmente, mediante redução proporcional dos juros e demais acréscimos.
Em síntese, o dispositivo busca garantir transparência sobre o custo real do crédito,
prevenindo situações de superendividamento.
5.1. SUPERENDIVIDAMENTO1
O superendividamento consiste na impossibilidade fática de o consumidor honrar todas as
obrigações assumidas. Abrange apenas dívidas decorrentes de relação de consumo, não incluindo
dívidas de natureza civil extracontratual (como pensão alimentícia).
Divide-se em:
a) Superendividamento passivo:
Decorre de fatos extraordinários, como desemprego oudoença.
Recebe proteção do CDC e da Lei 14.181/2021.
b) Superendividamento ativo:
Ocorre quando o próprio consumidor se torna insolvente em razão das dívidas assumidas.
Subdivide-se em:
• Consciente: há má-fé; o consumidor sabe que não poderá cumprir as obrigações. Não
recebe proteção da Lei 14.181/2021.
• Inconsciente: o consumidor assume a dívida acreditando, de boa-fé, que conseguiria
cumpri-la. Recebe proteção do CDC e da Lei 14.181/2021.
5.2. MULTA MORATÓRIA
O §1º do art. 52 fixa o teto da multa moratória em 2%, aplicável a todas as relações de
consumo (conforme entendimento do STJ). A base de cálculo é exclusivamente a prestação
vencida, e não o valor total do contrato.
Art. 52, § 1° As multas de mora decorrentes do inadimplemento de obrigações
no seu termo não poderão ser superior a dois por cento do valor da
prestação.
1 Em razão da Lei 14.181/2021, o tema será aprofundado em tópico próprio.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 127
Além disso, a estipulação da multa deve ser bilateral, ou seja, aplicável tanto ao consumidor
quanto ao fornecedor.
5.3. LIQUIDAÇÃO ANTECIPADA DO DÉBITO
O §2º do art. 52 assegura ao consumidor o direito de quitar antecipadamente o débito, seja
total ou parcialmente. Nessa hipótese, deve haver redução proporcional dos juros e demais
acréscimos, já que tais encargos são calculados com base no tempo de utilização do crédito.
§ 2º É assegurado ao consumidor a liquidação antecipada do débito, total ou
parcialmente, mediante redução proporcional dos juros e demais acréscimos.
6. CONTRATO DE COMPRA E VENDA À PRESTAÇÃO E ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM
GARANTIA
O art. 53 do CDC protege o consumidor nos contratos de compra e venda a prazo (de móveis
ou imóveis) e nas alienações fiduciárias em garantia, vedando cláusulas que imponham a perda
total das prestações pagas em caso de inadimplemento. É admitida, contudo, a perda parcial, desde
que razoável.
Art. 53. Nos contratos de compra e venda de móveis ou imóveis mediante
pagamento em prestações, bem como nas alienações fiduciárias em garantia,
consideram-se nulas de pleno direito as cláusulas que estabeleçam a perda
total das prestações pagas em benefício do credor que, em razão do
inadimplemento, pleitear a resolução do contrato e a retomada do produto
alienado.
§ 1° (Vetado).
§ 2º Nos contratos do sistema de consórcio de produtos duráveis, a
compensação ou a restituição das parcelas quitadas, na forma deste artigo,
terá descontada, além da vantagem econômica auferida com a fruição, os
prejuízos que o desistente ou inadimplente causar ao grupo.
§ 3° Os contratos de que trata o caput deste artigo serão expressos em
moeda corrente nacional.
O STJ admite cláusulas de decaimento parcial, variando entre 5% e 50% das parcelas
pagas, a depender das circunstâncias do caso. A restituição deve ocorrer de forma imediata,
conforme a Súmula 543:
Súmula 543 - Na hipótese de resolução de contrato de promessa de compra
e venda de imóvel submetido ao Código de Defesa do Consumidor, deve
ocorrer a imediata restituição das parcelas pagas pelo promitente comprador
- integralmente, em caso de culpa exclusiva do promitente
vendedor/construtor, ou parcialmente, caso tenha sido o comprador quem
deu causa ao desfazimento.
Para definir se o percentual retido é razoável, avaliam-se fatores como uso do bem pelo
consumidor e custos do empreendimento, incluindo: publicidade, taxa de corretagem, taxa de
administração.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 128
7. CONTRATO DE ADESÃO
O art. 54 do CDC disciplina o contrato de adesão, definido como aquele cujas cláusulas são
previamente estabelecidas pela autoridade competente ou unilateralmente pelo fornecedor, sem
que o consumidor possa discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo.
Art. 54. Contrato de adesão é aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas
pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo
fornecedor de produtos ou serviços, sem que o consumidor possa discutir ou
modificar substancialmente seu conteúdo.
§ 1° A inserção de cláusula no formulário não desfigura a natureza de adesão
do contrato.
§ 2° Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde que a
alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o disposto no
§ 2° do artigo anterior.
§ 3o Os contratos de adesão escritos serão redigidos em termos claros e com
caracteres ostensivos e legíveis, cujo tamanho da fonte não será inferior ao
corpo doze, de modo a facilitar sua compreensão pelo consumidor.
§ 4° As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor deverão
ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil compreensão.
7.1. CARACTERÍSTICAS
Os contratos de adesão possuem três características centrais:
• Predeterminação: o consumidor não participa da elaboração das cláusulas, que são
definidas previamente pelo fornecedor.
• Uniformidade: aplicam-se a todos os consumidores de forma padronizada, sem
variação significativa entre um contrato e outro.
• Rigidez: têm conteúdo estável, não comportando negociações individuais.
7.2. CLÁUSULA RESOLUTÓRIA
É admitida a cláusula resolutória nos contratos de adesão, desde que seja alternativa e que
a escolha entre as opções seja atribuída ao consumidor, conforme o art. 54, §2º.
Art. 54, § 2° Nos contratos de adesão admite-se cláusula resolutória, desde
que a alternativa, cabendo a escolha ao consumidor, ressalvando-se o
disposto no § 2° do artigo anterior.
7.3. FORMA
Embora o contrato de adesão não precise ser escrito, quando o for, deve observar as
exigências do art. 54, §3º:
• linguagem clara e caracteres ostensivos e legíveis;
• fonte não inferior ao corpo 12.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 129
7.4. CLÁUSULAS RESTRITIVAS DE DIREITOS DO CONSUMIDOR
Cláusulas que limitem direitos do consumidor podem existir nos contratos de adesão, mas
devem ser apresentadas de forma destacada, possibilitando compreensão imediata, nos termos do
art. 54, §4º.
Art. 54, § 4.º As cláusulas que implicarem limitação de direito do consumidor
deverão ser redigidas com destaque, permitindo sua imediata e fácil
compreensão.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 130
PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO SUPERENDIVIDAMENTO
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A Lei 14.181/2021, conhecida como Lei do Superendividamento, promoveu uma profunda
atualização no CDC ao inserir o Capítulo VI-A dentro da Seção III (Contratos de Adesão). Esse novo
capítulo trata de três eixos essenciais:
• prevenção do superendividamento da pessoa natural;
• crédito responsável;
• educação financeira do consumidor.
Além disso, a Lei introduziu importantes alterações estruturais no CDC:
• três novos princípios no art. 4º;
• dois novos instrumentos da Política Nacional das Relações de Consumo no art. 5º;
• três novos direitos básicos do consumidor no art. 6º;
• duas novas cláusulas abusivas no art. 51.
A norma resulta de décadas de estudos e debates, sendo impossível tratar do tema no Brasil
sem mencionar os trabalhos e pesquisas da Prof.ª Cláudia Lima Marques, referência absoluta no
assunto.
O superendividamento está intrinsecamente ligado à proteção do mínimo existencial,
conforme ensinam Pablo Stolze e Carlos Eduardo Elias de Oliveira. Para os autores: “O
superendividamento contém traços de uma morte civil social. O indivíduo com o ‘nome sujo’ e sem
margem de crédito tende ao ostracismo. Não consegue montar novos negócios. Enfrenta estigmas
ao buscar emprego. Sujeita-se a viver ‘de favor’. Enfim, o superendividamento pode levar o indivíduo
a um estado de desesperança e, nas palavras de Raul Seixas, na música Ouro de Tolo, ficar
sentado ‘no trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte
chegar’. O motivo é que o superendividamento118
1.2. PRINCÍPIO DA INTERPRETAÇÃO FAVORÁVEL ....................................................... 118
1.3. PRINCÍPIO DA VINCULAÇÃO DO FORNECEDOR .................................................... 118
1.4. PRINCÍPIO DA PRESERVAÇÃO DOS CONTRATOS................................................. 119
2. DIREITO DE ARREPENDIMENTO ...................................................................................... 119
3. TEORIA DO ADIMPLEMENTO SUBSTANCIAL .................................................................. 119
4. CLÁUSULAS ABUSIVAS...................................................................................................... 120
4.1. DEFINIÇÃO ................................................................................................................... 120
4.2. AFERIÇÃO OBJETIVA .................................................................................................. 121
4.3. NULIDADE DE PLENO DIREITO ................................................................................. 121
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 7
4.4. RECONHECIMENTO DE OFÍCIO ................................................................................ 122
4.5. IMPRESCRITIBILIDADE ............................................................................................... 122
4.6. INTEGRAÇÃO DE CONTRATO ................................................................................... 122
4.7. ESPÉCIES DE CLÁUSULAS ABUSIVAS ..................................................................... 122
5. CRÉDITOS E FINANCIAMENTOS AO CONSUMIDOR ...................................................... 125
5.1. SUPERENDIVIDAMENTO ............................................................................................ 126
5.2. MULTA MORATÓRIA .................................................................................................... 126
5.3. LIQUIDAÇÃO ANTECIPADA DO DÉBITO ................................................................... 127
6. CONTRATO DE COMPRA E VENDA À PRESTAÇÃO E ALIENAÇÃO FIDUCIÁRIA EM
GARANTIA ....................................................................................................................................... 127
7. CONTRATO DE ADESÃO .................................................................................................... 128
7.1. CARACTERÍSTICAS ..................................................................................................... 128
7.2. CLÁUSULA RESOLUTÓRIA ......................................................................................... 128
7.3. FORMA .......................................................................................................................... 128
7.4. CLÁUSULAS RESTRITIVAS DE DIREITOS DO CONSUMIDOR ............................... 129
PREVENÇÃO E TRATAMENTO DO SUPERENDIVIDAMENTO .................................................. 130
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS ............................................................................................... 130
2. CONCEITO DE SUPERENDIVIDAMENTO ......................................................................... 131
3. INAPLICABILIDADE ............................................................................................................. 131
4. INFORMAÇÕES ADICIONAIS ............................................................................................. 131
5. NOVAS PROIBIÇÕES NA OFERTA DE CRÉDITO AO CONSUMIDOR............................ 133
6. NOVOS DEVERES PRÉVIOS DO FORNECEDOR VOLTADOS À CONTRATAÇÃO
CONSCIENTE DE CRÉDITO .......................................................................................................... 133
7. DESCUMPRIMENTO DOS DEVERES DE INFORMAÇÃO ................................................ 133
8. HIPÓTESES EM QUE O CONTRATO DE FORNECIMENTO DE PRODUTO OU SERVIÇO
SERÁ CONSIDERADO CONEXO, COLIGADO OU INTERDEPENDENTE EM RELAÇÃO AO
CONTRATO DE CRÉDITO.............................................................................................................. 134
9. PRÁTICAS ABUSIVAS ESPECÍFICAS PARA O FORNECEDOR DE PRODUTO OU
SERVIÇO QUE ENVOLVA CRÉDITO ............................................................................................ 135
10. CONCILIAÇÃO NO SUPERENDIVIDAMENTO ................................................................... 136
10.1. PROCESSO DE REPACTUAÇÃO DE DÍVIDAS .......................................................... 136
10.2. DÍVIDAS QUE NÃO PODEM SER OBJETO DO PROCESSO DE REPACTUAÇÃO . 136
10.3. NÃO COMPARECIMENTO DO CREDOR.................................................................... 137
10.4. SENTENÇA JUDICIAL QUE HOMOLOGAR O PLANO TERÁ EFICÁCIA DE TÍTULO
EXECUTIVO ................................................................................................................................. 137
10.5. CONTEÚDO DO PLANO DE PAGAMENTO ................................................................ 138
10.6. NÃO HAVENDO ÊXITO NA CONCILIAÇÃO (ART. 104-B) ......................................... 138
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 8
10.7. PRAZO PARA CREDORES SE MANIFESTAREM CONTRARIAMENTE AO PLANO
138
10.8. ADMINISTRADOR......................................................................................................... 138
10.9. GARANTIA MÍNIMA AOS CREDORES NO PLANO .................................................... 138
10.10. CONCILIAÇÃO ADMINISTRATIVA ........................................................................... 139
DEFESA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO ........................................................................................ 140
1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 140
2. TUTELA ESPECÍFICA .......................................................................................................... 140
2.1. IMPACTOS DO CPC NA TUTELA ESPECÍFICA DO DIREITO DO CONSUMIDOR.. 142
3. COMPETÊNCIA PELO DOMICÍLIO DO CONSUMIDOR .................................................... 143
4. DIREITO À INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA .................................................................. 143
4.1. PREVISÃO LEGAL ........................................................................................................ 143
4.2. REQUISITOS ................................................................................................................. 144
4.3. MOMENTO DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA .................................................... 144
4.4. CUSTEIO DA PROVA ................................................................................................... 145
4.5. EFEITOS DA INVERSÃO.............................................................................................. 145
4.6. INVERSÃO LEGAL (OPE LEGIS) DO ÔNUS DA PROVA........................................... 145
5. TUTELA DO CONSUMIDOR NOS CONTRATOS DE PLANO DE SAÚDE ....................... 146
CRIMES CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO ...................................................................... 153
1. PREVISÃO LEGAL ............................................................................................................... 153
2. SUJEITO ATIVO ................................................................................................................... 153
3. SUJEITO PASSIVO .............................................................................................................. 153
4. OMISSÃO SOBRE A NOCIVIDADE (ART. 63).................................................................... 153
4.1. OBJETIVIDADE JURÍDICA ........................................................................................... 154
4.2. FIGURA EQUIPARADA................................................................................................. 154
4.3. TIPO SUBJETIVO .........................................................................................................fulmina o mínimo existencial do indivíduo.”
A Lei entrou em vigor na data de sua publicação (02/07/2021).
Quanto ao regime jurídico aplicável, negócios e atos jurídicos ocorridos antes da vigência
da lei continuam regidos pela legislação anterior quanto à sua validade. Entretanto, os efeitos
produzidos após a entrada em vigor da nova lei passam a ser regidos por seus preceitos, conforme
determina o art. 3º:
Art. 3º A validade dos negócios e dos demais atos jurídicos de crédito em
curso constituídos antes da entrada em vigor desta Lei obedece ao disposto
em lei anterior, mas os efeitos produzidos após a entrada em vigor desta Lei
subordinam-se aos seus preceitos.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 131
2. CONCEITO DE SUPERENDIVIDAMENTO
Nos termos do art. 52-A, §1º, do CDC, considera-se superendividamento a impossibilidade
manifesta de o consumidor pessoa natural, de boa-fé, pagar a totalidade de suas dívidas de
consumo, tanto exigíveis quanto vincendas, sem comprometer o seu mínimo existencial, conforme
regulamentação aplicável.
Para Cláudia Lima Marques, superendividamento é: “a impossibilidade global do devedor-
pessoa física, consumidor, leigo e de boa-fé, de pagar todas as suas dívidas atuais e futuras de
consumo (excluídas as dívidas com o Fisco, oriundas de delitos e alimentos) em um tempo razoável
com sua capacidade atual de rendas e patrimônio.”
3. INAPLICABILIDADE
As regras de proteção ao superendividamento (arts. 54-A a 54-G do CDC) não se aplicam
quando as dívidas:
• tiverem sido contraídas mediante fraude ou má-fé;
• decorrerem de contratos celebrados dolosa e intencionalmente para não serem pagos;
• resultarem da aquisição de produtos ou serviços de luxo de alto valor.
Essa limitação decorre do chamado princípio da proteção simplificada do luxo, segundo o
qual o Direito não confere o mesmo nível de proteção para situações supérfluas ou de alto valor,
em comparação com aquelas ligadas à essencialidade da vida cotidiana.
Trata-se da aplicação do paradigma da essencialidade, desenvolvido por Teresa Negreiros,
que classifica os direitos em: essenciais, úteis e supérfluos.
Quanto menor a essencialidade, menor deve ser a intervenção estatal. Assim, o
superendividamento não protege o consumidor que se endivida com a compra de um bem de luxo.
Nesses casos, aplicam-se apenas as proteções gerais do Direito Privado, sem os instrumentos
interventivos da Lei do Superendividamento.
4. INFORMAÇÕES ADICIONAIS
O art. 52 do CDC estabelece as informações mínimas que devem ser prestadas ao
consumidor nos contratos que envolvam crédito ou financiamento. São elas:
Art. 52. No fornecimento de produtos ou serviços que envolva outorga de
crédito ou concessão de financiamento ao consumidor, o fornecedor deverá,
entre outros requisitos, informá-lo prévia e adequadamente sobre:
I - preço do produto ou serviço em moeda corrente nacional;
II - montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual de juros;
III - acréscimos legalmente previstos;
IV - número e periodicidade das prestações;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 132
V - soma total a pagar, com e sem financiamento.
A Lei 14.181/2021 inseriu o art. 54-B exigindo informações adicionais para
os contratos que envolvam fornecimento de crédito ou venda a prazo:
Além das informações do art. 52, o fornecedor ou intermediário deve informar ao
consumidor, de forma prévia e adequada:
Art. 54-B. No fornecimento de crédito e na venda a prazo, além das
informações obrigatórias previstas no art. 52 deste Código e na legislação
aplicável à matéria, o fornecedor ou o intermediário deverá informar o
consumidor, prévia e adequadamente, no momento da oferta, sobre:
I - o custo efetivo total e a descrição dos elementos que o compõem;
II - a taxa efetiva mensal de juros, bem como a taxa dos juros de mora e o
total de encargos, de qualquer natureza, previstos para o atraso no
pagamento;
III - o montante das prestações e o prazo de validade da oferta, que deve ser,
no mínimo, de 2 (dois) dias;
IV - o nome e o endereço, inclusive o eletrônico, do fornecedor;
V - o direito do consumidor à liquidação antecipada e não onerosa do débito,
nos termos do § 2º do art. 52 deste Código e da regulamentação em vigor.
§ 1º As informações referidas no art. 52 deste Código e no caput deste artigo
devem constar de forma clara e resumida do próprio contrato, da fatura ou de
instrumento apartado, de fácil acesso ao consumidor.
§ 2º Para efeitos deste Código, o custo efetivo total da operação de crédito
ao consumidor consistirá em taxa percentual anual e compreenderá todos os
valores cobrados do consumidor, sem prejuízo do cálculo padronizado pela
autoridade reguladora do sistema financeiro.
§ 3º Sem prejuízo do disposto no art. 37 deste Código, a oferta de crédito ao
consumidor e a oferta de venda a prazo, ou a fatura mensal, conforme o caso,
devem indicar, no mínimo, o custo efetivo total, o agente financiador e a soma
total a pagar, com e sem financiamento.
Nos contratos de adesão, o fornecedor deve informar previamente todas as exigências dos
arts. 52 e 54-B, além de outras previstas na legislação. Após a conclusão do contrato, deve fornecer
cópia integral ao consumidor, conforme determina o art. 54-G, §2º.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MPE/BA – Promotor de Justiça – Fundação CEFETBAHIA – 2025): Co
fornecimento de crédito e na venda a prazo, além das informações
obrigatórias previstas no art. 52 do CDC (preço do produto ou serviço em
moeda corrente nacional; montante dos juros de mora e da taxa efetiva anual
de juros; acréscimos legalmente previstos; número e periodicidade das
prestações; soma total a pagar, com e sem financiamento), o fornecedor ou
o intermediário deverá informar ao consumidor, prévia e adequadamente, no
momento da oferta, sobre: o custo efetivo total e a descrição dos elementos
que o compõem; a taxa efetiva mensal de juros, bem como a taxa dos juros
de mora e o total de encargos, de qualquer natureza, previstos para o atraso
no pagamento; o montante das prestações e o prazo de validade da oferta,
que deve ser, no mínimo, de 2 (dois) dias; o nome e o endereço, inclusive o
eletrônico, do fornecedor; e o direito do consumidor à liquidação antecipada
e não onerosa do débito. Correto!
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 133
5. NOVAS PROIBIÇÕES NA OFERTA DE CRÉDITO AO CONSUMIDOR
A Lei 14.181/2021 passou a vedar, de forma expressa ou implícita, determinadas práticas
na oferta de crédito ao consumidor, seja ela publicitária ou não. É proibido:
a) Indicar que o crédito pode ser concedido sem consulta aos serviços de proteção ao
crédito ou sem avaliação da situação financeira do consumidor;
b) Ocultar ou dificultar a compreensão dos ônus e riscos envolvidos na contratação do
crédito ou da venda a prazo;
c) Assediar ou pressionar o consumidor para contratar produto, serviço ou crédito — com
especial atenção a consumidores idosos, analfabetos, doentes ou em vulnerabilidade agravada, ou
quando a contratação envolver prêmio;
d) Condicionar o atendimento de pretensões do consumidor, ou o início de negociações, à
renúncia ou desistência de demandas judiciais, ao pagamento de honorários advocatícios ou à
realização de depósitos judiciais.
6. NOVOS DEVERES PRÉVIOS DO FORNECEDOR VOLTADOS À CONTRATAÇÃO
CONSCIENTE DE CRÉDITO
Antes da contratação, o fornecedor ou intermediário deve observar três deveres básicos:
I — Informar e esclarecer adequadamente o consumidor, considerando sua idade, sobre:
• a natureza e a modalidade do crédito,
• todos os custos incidentes,
• as consequências genéricas e específicas do inadimplemento;
II — Avaliar de forma responsável a capacidade de crédito do consumidor, mediante
análise das informações disponíveis nos bancos de dados de proteção ao crédito, respeitandoo
CDC e a legislação de proteção de dados;
III — Informar a identidade do agente financiador e entregar cópia do contrato ao
consumidor, ao garante e aos demais coobrigados.
7. DESCUMPRIMENTO DOS DEVERES DE INFORMAÇÃO
A violação dos deveres previstos nos arts. 52, 54-C e 54-D do CDC poderá gerar,
judicialmente:
a) redução dos juros, encargos ou quaisquer acréscimos ao valor principal;
b) dilação do prazo de pagamento originalmente contratado, considerando a gravidade da
conduta do fornecedor e as condições financeiras do consumidor;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 134
c) condenação ao pagamento de indenização por danos patrimoniais e morais;
d) aplicação de outras sanções previstas na legislação consumerista, como multas
aplicadas pelo PROCON.
8. HIPÓTESES EM QUE O CONTRATO DE FORNECIMENTO DE PRODUTO OU SERVIÇO
SERÁ CONSIDERADO CONEXO, COLIGADO OU INTERDEPENDENTE EM RELAÇÃO
AO CONTRATO DE CRÉDITO
O art. 54-F do CDC estabelece as situações em que o contrato principal de fornecimento de
produto ou serviço será considerado conexo, coligado ou interdependente ao contrato de crédito
que viabiliza seu financiamento. Veja:
Art. 54-F. São conexos, coligados ou interdependentes, entre outros, o
contrato principal de fornecimento de produto ou serviço e os contratos
acessórios de crédito que lhe garantam o financiamento quando o fornecedor
de crédito:
I - recorrer aos serviços do fornecedor de produto ou serviço para a
preparação ou a conclusão do contrato de crédito;
II - oferecer o crédito no local da atividade empresarial do fornecedor de
produto ou serviço financiado ou onde o contrato principal for celebrado.
Há divergência doutrinária sobre se “contratos conexos”, “coligados” e “interdependentes”
seriam expressões distintas ou sinônimas. Para evitar tais controvérsias, o legislador incluiu as três
expressões no dispositivo.
• Carlos Roberto Gonçalves define contratos coligados como negócios distintos, mas
unidos por uma cláusula acessória (implícita ou explícita), criando relação de
dependência recíproca.
• Daniel Carnacchioni explica que há uma agregação de vários contratos para viabilizar
uma operação econômica única. Cada contrato, isoladamente, não atenderia aos
interesses das partes; juntos, formam uma unidade econômica. O contrato principal
irradia efeitos sobre os contratos acessórios.
• Flávio Tartuce, aplicando o princípio da gravitação jurídica, destaca que “o acessório
segue o principal”:
o se o contrato principal é nulo → o acessório também é nulo;
o se o principal é anulável → o acessório também o será;
o se ocorre prescrição da dívida do principal → extingue-se o acessório;
Os parágrafos do art. 54-F preveem regras nesse sentido:
Art. 54-F (...)
§ 1º O exercício do direito de arrependimento nas hipóteses previstas neste
Código, no contrato principal ou no contrato de crédito, implica a resolução
de pleno direito do contrato que lhe seja conexo.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 135
§ 2º Nos casos dos incisos I e II do caput deste artigo, se houver inexecução
de qualquer das obrigações e deveres do fornecedor de produto ou serviço,
o consumidor poderá requerer a rescisão do contrato não cumprido contra o
fornecedor do crédito.
§ 3º O direito previsto no § 2º deste artigo caberá igualmente ao consumidor:
I - contra o portador de cheque pós-datado emitido para aquisição de produto
ou serviço a prazo;
II - contra o administrador ou o emitente de cartão de crédito ou similar
quando o cartão de crédito ou similar e o produto ou serviço forem fornecidos
pelo mesmo fornecedor ou por entidades pertencentes a um mesmo grupo
econômico.
§ 4º A invalidade ou a ineficácia do contrato principal implicará, de pleno
direito, a do contrato de crédito que lhe seja conexo, nos termos do caput
deste artigo, ressalvado ao fornecedor do crédito o direito de obter do
fornecedor do produto ou serviço a devolução dos valores entregues,
inclusive relativamente a tributos.
Mesmo antes da positivação dessas regras, o STJ já aplicava a lógica da coligação
contratual.
Consumidor adquiriu veículo novo e, para pagar o carro, contratou leasing
oferecido pelo banco da própria montadora. O automóvel apresentou vício
redibitório que o tornou imprestável ao uso. O banco que realizou o
financiamento foi também considerado responsável? O contrato de leasing
também foi rescindido? Sim. A instituição financeira vinculada à
concessionária do veículo (“banco da montadora”) possui responsabilidade
solidária por vício do produto (veículo novo defeituoso), uma vez que ela foi
parte integrante da cadeia de consumo. Todos aqueles que participam da
introdução do produto ou serviço no mercado devem responder
solidariamente por eventual defeito ou vício. O contrato de arrendamento
mercantil não foi feito de forma independente. Ao contrário, está atrelado ao
contrato de compra e venda, de forma que é possível vislumbrar a existência
de uma “operação casada”. STJ. 3ª Turma. REsp 1379839-SP, Rel. originária
Min. Nancy Andrighi, Rel. para Acórdão Min. Paulo de Tarso Sanseverino,
julgado em 11/11/2014 (Info 554).
9. PRÁTICAS ABUSIVAS ESPECÍFICAS PARA O FORNECEDOR DE PRODUTO OU
SERVIÇO QUE ENVOLVA CRÉDITO
Além das práticas abusivas gerais do art. 39 do CDC, a Lei 14.181/2021 acrescentou o art.
54-G, criando lista própria de práticas proibidas para o fornecedor que atua com produto ou serviço
envolvendo crédito.
Art. 54-G. Sem prejuízo do disposto no art. 39 deste Código e na legislação
aplicável à matéria, é vedado ao fornecedor de produto ou serviço que
envolva crédito, entre outras condutas:
I - realizar ou proceder à cobrança ou ao débito em conta de qualquer quantia
que houver sido contestada pelo consumidor em compra realizada com
cartão de crédito ou similar, enquanto não for adequadamente solucionada a
controvérsia, desde que o consumidor haja notificado a administradora do
cartão com antecedência de pelo menos 10 (dez) dias contados da data de
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 136
vencimento da fatura, vedada a manutenção do valor na fatura seguinte e
assegurado ao consumidor o direito de deduzir do total da fatura o valor em
disputa e efetuar o pagamento da parte não contestada, podendo o emissor
lançar como crédito em confiança o valor idêntico ao da transação contestada
que tenha sido cobrada, enquanto não encerrada a apuração da contestação;
II - recusar ou não entregar ao consumidor, ao garante e aos outros
coobrigados cópia da minuta do contrato principal de consumo ou do contrato
de crédito, em papel ou outro suporte duradouro, disponível e acessível, e,
após a conclusão, cópia do contrato;
III - impedir ou dificultar, em caso de utilização fraudulenta do cartão de
crédito ou similar, que o consumidor peça e obtenha, quando aplicável, a
anulação ou o imediato bloqueio do pagamento, ou ainda a restituição dos
valores indevidamente recebidos.
Nos empréstimos com consignação em folha, a formalização e entrega da cópia do contrato
ocorrerão somente após o fornecedor do crédito receber da fonte pagadora a informação sobre a
existência de margem consignável.
10. CONCILIAÇÃO NO SUPERENDIVIDAMENTO
A Lei 14.181/2021 acrescentou os arts. 104-A, 104-B e 104-C ao CDC, criando o
procedimento de conciliação, o processo de repactuação de dívidas e o plano de pagamento,
constituindo o eixo central do tratamento do superendividamento.
10.1. PROCESSO DE REPACTUAÇÃO DE DÍVIDAS
A pedido do consumidor superendividado pessoa natural, o juiz poderá instaurar processo
de repactuação de dívidas.
Será designada audiência de conciliação, conduzida pelo juiz ou conciliador credenciado,
com a presença de todos os credores.
Na audiência, o consumidor apresentará plano de pagamento com:
• prazo máximo de 5 anos;
• preservação do mínimo existencial;
• manutenção das garantias e das formasde pagamento originalmente pactuadas.
O pedido de instauração do processo não implica declaração de insolvência civil, só poderá
ser renovado após 2 anos da liquidação do plano homologado, sem prejuízo de eventual
repactuação.
10.2. DÍVIDAS QUE NÃO PODEM SER OBJETO DO PROCESSO DE REPACTUAÇÃO
Não podem ser incluídas no processo de repactuação as dívidas:
a) oriundas de contratos celebrados dolosamente sem intenção de pagamento;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 137
b) decorrentes de créditos com garantia real;
c) provenientes de financiamentos imobiliários;
d) oriundas de crédito rural.
10.3. NÃO COMPARECIMENTO DO CREDOR
O não comparecimento injustificado de credor (ou procurador com poderes especiais) à
audiência acarretará:
a) suspensão da exigibilidade do débito;
b) interrupção dos encargos de mora;
c) submissão compulsória ao plano de pagamento, se o valor da dívida for certo e
conhecido pelo consumidor.
Nesses casos, o credor ausente apenas receberá após o pagamento dos credores
presentes.
Já quando o credor comparece à audiência, ainda que discorde do plano apresentado pelo
consumidor, não é obrigado a aderir a ele nem a apresentar contraproposta. Nessa situação, por
se tratar de exercício regular de direito, não se aplicam as penalidades previstas no art. 104-A, §2º,
do CDC.
Na audiência preliminar referente à repactuação de dívidas por
superendividamento, embora recomendável à luz dos princípios da boa-fé e
da cooperação entre os litigantes, não há obrigação legal para o credor
apresentar contraproposta ou aderir ao plano de pagamento formulado pelo
devedor, sendo inaplicável as sanções do art. 104-A, § 2º, do CDC. REsp
2.188.689-RS, Rel. Ministro Marco Buzzi, Quarta Turma, por unanimidade,
julgado em 17/6/2025.
No mesmo sentido, o STJ destacou que, sendo ônus do devedor a apresentação do plano
de pagamento, não há fundamento normativo para punir o credor que comparece, mas opta por não
apresentar proposta de acordo, salvo hipóteses excepcionais que possam justificar a concessão de
tutela cautelar pelo juiz.
Por ser ônus do devedor a apresentação de proposta conciliatória, deve ser
afastada a aplicação das consequências do art. 104-A, § 2º, do CDC, ao
credor que compareceu à audiência com advogado com poderes para
transigir, e não apresentou proposta de acordo, sem serem identificados
motivos de ordem cautelar. STJ. 3ª Turma. REsp 2.191.259-RS, Rel. Min.
Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 20/3/2025 (Info 845).
10.4. SENTENÇA JUDICIAL QUE HOMOLOGAR O PLANO TERÁ EFICÁCIA DE
TÍTULO EXECUTIVO
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 138
Havendo conciliação, a sentença que homologar o plano terá eficácia de título executivo e
força de coisa julgada (art. 104-A, §3º).
10.5. CONTEÚDO DO PLANO DE PAGAMENTO
O plano deve conter:
I — medidas de dilação de prazos, redução de encargos ou diminuição da remuneração
do fornecedor;
II — indicação da suspensão ou extinção das ações judiciais em curso;
III — a data para exclusão do consumidor de cadastros de inadimplentes;
IV — condicionamento de seus efeitos à abstenção de condutas que agravem o
superendividamento.
10.6. NÃO HAVENDO ÊXITO NA CONCILIAÇÃO (ART. 104-B)
Se a conciliação não tiver êxito com quaisquer credores, o juiz, a pedido do consumidor,
instaurará processo por superendividamento para:
• revisão e integração dos contratos, e
• repactuação das dívidas remanescentes mediante plano judicial compulsório.
Todos os credores que não participaram de eventual acordo serão citados, e os documentos
fornecidos na audiência serão considerados no processo.
10.7. PRAZO PARA CREDORES SE MANIFESTAREM CONTRARIAMENTE AO PLANO
Após a citação, os credores terão 15 dias para:
• juntar documentos; e
• apresentar as razões pelas quais não aderem ao plano voluntário ou não desejam
renegociar.
10.8. ADMINISTRADOR
O juiz poderá nomear administrador, desde que não gere custos para as partes.
No prazo de 30 dias, após as diligências necessárias, o administrador apresentará plano
de pagamento, contendo medidas de temporização ou atenuação dos encargos.
10.9. GARANTIA MÍNIMA AOS CREDORES NO PLANO
O plano compulsório deve assegurar:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 139
• pagamento de, no mínimo, o valor principal, corrigido monetariamente;
• liquidação total da dívida em até 5 anos, após a quitação do plano consensual (quando
houver).
A primeira parcela deve vencer em até 180 dias da homologação; as demais serão mensais,
iguais e sucessivas (art. 104-B, §4º).
10.10. CONCILIAÇÃO ADMINISTRATIVA
Os órgãos do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (como PROCONs) também
podem conduzir a fase conciliatória, de forma concorrente e facultativa.
Art. 104-C. Compete concorrente e facultativamente aos órgãos públicos
integrantes do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor a fase
conciliatória e preventiva do processo de repactuação de dívidas, nos moldes
do art. 104-A deste Código, no que couber, com possibilidade de o processo
ser regulado por convênios específicos celebrados entre os referidos órgãos
e as instituições credoras ou suas associações.
§ 1º Em caso de conciliação administrativa para prevenir o
superendividamento do consumidor pessoa natural, os órgãos públicos
poderão promover, nas reclamações individuais, audiência global de
conciliação com todos os credores e, em todos os casos, facilitar a
elaboração de plano de pagamento, preservado o mínimo existencial, nos
termos da regulamentação, sob a supervisão desses órgãos, sem prejuízo
das demais atividades de reeducação financeira cabíveis.
§ 2º O acordo firmado perante os órgãos públicos de defesa do consumidor,
em caso de superendividamento do consumidor pessoa natural, incluirá a
data a partir da qual será providenciada a exclusão do consumidor de bancos
de dados e de cadastros de inadimplentes, bem como o condicionamento de
seus efeitos à abstenção, pelo consumidor, de condutas que importem no
agravamento de sua situação de superendividamento, especialmente a de
contrair novas dívidas.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 140
DEFESA DO CONSUMIDOR EM JUÍZO
1. INTRODUÇÃO
Como vimos ao longo deste Caderno Sistematizado, o CDC assegura ao consumidor uma
série de direitos e garantias fundamentais. Para que esses direitos sejam efetivamente protegidos,
o Código prevê mecanismos de defesa em juízo, tanto na esfera individual quanto na coletiva.
A partir deste ponto, analisaremos esses meios de defesa, com foco especial na tutela
individual do consumidor2.
2. TUTELA ESPECÍFICA
O art. 84 do CDC disciplina as ações que tenham por objeto o cumprimento de obrigação
de fazer (prestação positiva) ou obrigação de não fazer (comportamento negativo).
Art. 84. Na ação que tenha por objeto o cumprimento da obrigação de fazer
ou não fazer, o juiz concederá a tutela específica da obrigação ou determinará
providências que assegurem o resultado prático equivalente ao do
adimplemento.
A tutela específica representou novidade em relação ao sistema anterior, pois não havia
previsão semelhante no CPC/1973. Essa lógica passou a ser incorporada expressamente pelo
CPC/2015, especialmente nos arts. 497, 499, 500, 536 e 537, que tratam de forma semelhante o
cumprimento específico da obrigação.
Art. 497. Na ação que tenha por objeto a prestação de fazer ou de não fazer,
o juiz, se procedente o pedido, concederá a tutela específica ou determinará
providências que assegurem a obtenção de tutela pelo resultado prático
equivalente.
Parágrafo único. Para a concessão da tutela específica destinada a inibir a
prática, a reiteração ou a continuação de um ilícito, ou a sua remoção, é
irrelevante a demonstração da ocorrência de dano ou da existência de culpa
ou dolo.
Art. 499. A obrigação somente será convertida em perdas e danos se o autoro requerer ou se impossível a tutela específica ou a obtenção de tutela pelo
resultado prático equivalente.
Parágrafo único. Nas hipóteses de responsabilidade contratual previstas nos
arts. 441, 618 e 757 da Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil),
e de responsabilidade subsidiária e solidária, se requerida a conversão da
obrigação em perdas e danos, o juiz concederá, primeiramente, a faculdade
para o cumprimento da tutela específica.
2 A tutela coletiva será estudada no Caderno de Direitos Difusos e Coletivos.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 141
Art. 500. A indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa
fixada periodicamente para compelir o réu ao cumprimento específico da
obrigação.
Art. 536. No cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de
obrigação de fazer ou de não fazer, o juiz poderá, de ofício ou a requerimento,
para a efetivação da tutela específica ou a obtenção de tutela pelo resultado
prático equivalente, determinar as medidas necessárias à satisfação do
exequente.
§ 1o Para atender ao disposto no caput, o juiz poderá determinar, entre outras
medidas, a imposição de multa, a busca e apreensão, a remoção de pessoas
e coisas, o desfazimento de obras e o impedimento de atividade nociva,
podendo, caso necessário, requisitar o auxílio de força policial.
§ 2o O mandado de busca e apreensão de pessoas e coisas será cumprido
por 2 (dois) oficiais de justiça, observando-se o disposto no art. 846, §§ 1o a
4o, se houver necessidade de arrombamento.
§ 3o O executado incidirá nas penas de litigância de má-fé quando
injustificadamente descumprir a ordem judicial, sem prejuízo de sua
responsabilização por crime de desobediência.
§ 4º No cumprimento de sentença que reconheça a exigibilidade de obrigação
de fazer ou de não fazer, aplica-se o art. 525, no que couber.
§ 5º O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao cumprimento de
sentença que reconheça deveres de fazer e de não fazer de natureza não
obrigacional.
Art. 537. A multa independe de requerimento da parte e poderá ser aplicada
na fase de conhecimento, em tutela provisória ou na sentença, ou na fase de
execução, desde que seja suficiente e compatível com a obrigação e que se
determine prazo razoável para cumprimento do preceito.
§ 1o O juiz poderá, de ofício ou a requerimento, modificar o valor ou a
periodicidade da multa vincenda ou excluí-la, caso verifique que:
I - se tornou insuficiente ou excessiva;
II - o obrigado demonstrou cumprimento parcial superveniente da obrigação
ou justa causa para o descumprimento.
§ 2o O valor da multa será devido ao exequente.
§ 3º A decisão que fixa a multa é passível de cumprimento provisório,
devendo ser depositada em juízo, permitido o levantamento do valor após o
trânsito em julgado da sentença favorável à parte.
§ 4o A multa será devida desde o dia em que se configurar o descumprimento
da decisão e incidirá enquanto não for cumprida a decisão que a tiver
cominado.
§ 5o O disposto neste artigo aplica-se, no que couber, ao cumprimento de
sentença que reconheça deveres de fazer e de não fazer de natureza não
obrigacional.
A tutela específica consiste, em essência, em entregar ao consumidor exatamente aquilo a
que ele tem direito. Exemplo: se o consumidor possui direito contratual à consulta com médico
especialista pelo plano de saúde, mas não há profissional credenciado disponível, a operadora deve
custear o atendimento, garantindo o resultado equivalente ao cumprimento da obrigação.
Nessa mesma lógica, embora o art. 12, VI, da Lei 9.656/98 mencione expressamente apenas
as hipóteses de urgência e emergência, o STJ esclareceu que tais situações são exemplificativas,
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art846§1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art846§1
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13105.htm#art525
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 142
não constituindo rol taxativo. Trata-se de aplicação direta da ideia de entrega do resultado
equivalente, típica da tutela específica prevista no art. 84 do CDC.
Diante disso, reconheceu-se ser cabível o reembolso das despesas realizadas fora da rede
credenciada, sempre limitado ao valor da tabela do plano contratado, mesmo quando não se tratar
de urgência ou emergência.
2.1. IMPACTOS DO CPC NA TUTELA ESPECÍFICA DO DIREITO DO CONSUMIDOR
O CPC/2015 dialoga diretamente com o art. 84 do CDC e expandiu os mecanismos de
efetivação da tutela específica, reforçando os instrumentos já previstos no Código.
a) Adiantamento da tutela específica:
O CDC já previa, expressamente, a possibilidade de antecipação dos efeitos da tutela, desde
que presentes o fumus boni iuris e o periculum in mora, conforme o art. 84, §3º:
Art. 84, § 3° Sendo relevante o fundamento da demanda e havendo
justificado receio de ineficácia do provimento final, é lícito ao juiz conceder a
tutela liminarmente ou após justificação prévia, citado o réu.
Com o CPC/2015, essa sistemática foi reforçada por meio da disciplina das tutelas
provisórias, que agora se aplicam de forma complementar às relações de consumo:
• Tutela de urgência (antecedente ou incidental): corresponde diretamente à lógica do
art. 84, §3º, de permitir a antecipação da tutela sempre que houver risco de dano ou
perigo na demora.
• Tutela de evidência (CPC, art. 311, I a IV): ampliou as hipóteses em que a tutela pode
ser concedida independentemente da demonstração do perigo, o que também impacta
positivamente o direito do consumidor, especialmente em situações de abusividade ou
prova documental robusta.
b) Multa coercitiva (astreintes):
O CDC já previa a possibilidade de imposição de multa diária (astreintes) para garantir o
cumprimento da obrigação:
Art. 84, § 4° O juiz poderá, na hipótese do § 3° ou na sentença, impor multa
diária ao réu, independentemente de pedido do autor, se for suficiente ou
compatível com a obrigação, fixando prazo razoável para o cumprimento do
preceito.
O CPC/2015 reforçou e detalhou essa disciplina:
• a multa pertence ao consumidor, que é o beneficiário direto (CPC, art. 537, caput);
• pode ser fixada em qualquer momento (tutela provisória, sentença, fase de
conhecimento e fase de execução);
• admite-se a execução provisória da multa, regra que também se aplica às relações de
consumo;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 143
• o juiz pode alterar o valor da multa, mas somente para as parcelas vincendas, não
podendo modificar as parcelas já vencidas.
3. COMPETÊNCIA PELO DOMICÍLIO DO CONSUMIDOR
A competência nas ações de responsabilidade civil do fornecedor está prevista no art. 101
do CDC:
Art. 101. Na ação de responsabilidade civil do fornecedor de produtos e
serviços, sem prejuízo do disposto nos Capítulos I e II deste título, serão
observadas as seguintes normas:
I - a ação pode ser proposta no domicílio do autor;
II - o réu que houver contratado seguro de responsabilidade poderá chamar
ao processo o segurador, vedada a integração do contraditório pelo Instituto
de Resseguros do Brasil. Nesta hipótese, a sentença que julgar procedente
o pedido condenará o réu nos termos do art. 80 do Código de Processo Civil.
Se o réu houver sido declarado falido, o síndico será intimado a informar a
existência de seguro de responsabilidade, facultando-se, em caso afirmativo,
o ajuizamento de ação de indenização diretamente contra o segurador,
vedada a denunciação da lide ao Instituto de Resseguros do Brasil e
dispensado o litisconsórcio obrigatório com este.
A competência do domicílio do consumidor é territorial, portanto, relativa, e constitui
faculdade do autor, destinada a facilitar o acesso à Justiça. Nada impede que o consumidor
proponha a ação no local do dano ou em outro foro competente.
A cláusulade eleição de foro inserida em contrato de adesão é considerada abusiva, por
violar a proteção processual do consumidor.
A Justiça Federal poderá ser competente nas ações entre consumidor e concessionária de
telefonia, quando a ANATEL atuar como litisconsorte passiva necessária, assistente ou opoente.
Súmula Vinculante 27 - Compete à Justiça Estadual julgar causas entre
consumidor e concessionária de serviço público de telefonia, quando a
ANATEL não seja litisconsorte passiva necessária, assistente nem opoente.
4. DIREITO À INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA
4.1. PREVISÃO LEGAL
O direito à inversão do ônus da prova está previsto no art. 6º, VIII, do CDC, como forma de
facilitar a defesa dos direitos do consumidor em juízo:
Art. 6.º, VIII. A facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão
do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for
verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras
ordinárias de experiências
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L5869.htm#art80
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 144
Trata-se de inversão judicial do ônus da prova (ope iudicis). A decisão é discricionária,
cabendo ao juiz avaliar o caso concreto e verificar a presença de um dos requisitos: verossimilhança
ou hipossuficiência (alternativos).
4.2. REQUISITOS
a) Verossimilhança das alegações:
A verossimilhança consiste na aparência de verdade das alegações do consumidor,
baseada em indícios ou prova mínima. É a probabilidade do direito.
b) Hipossuficiência do consumidor:
Hipossuficiência é a dificuldade de produzir prova necessária ao atendimento da pretensão.
Pode ser:
• Técnica: desconhecimento das características do produto ou serviço; dificuldade de
demonstrar vícios ou falhas;
• Econômica: impossibilidade de arcar com prova de alto custo (ex.: perícia).
Hipossuficiência e vulnerabilidade não se confundem.
Vulnerabilidade Hipossuficiência
Material (direito material) Processual (direito processual)
Condição de inferioridade do consumidor na
relação de consumo
Dificuldade de produzir prova necessária ao
processo
Técnica, jurídica ou econômica Técnica ou econômica
Atinge todos os consumidores Atinge alguns consumidores
Justifica a proteção especial do CDC
Justifica a inversão do ônus da prova (art. 6º,
VIII)
Equilibrar a relação de consumo Facilitar o acesso à prova e à tutela jurisdicional
Presumida sempre Depende do caso concreto
4.3. MOMENTO DA INVERSÃO DO ÔNUS DA PROVA
A inversão é regra de instrução, devendo ser decidida, preferencialmente, na fase de
saneamento do processo, ou, se posterior, garantindo-se à parte prejudicada oportunidade para
produzir prova.
O STJ consolidou esse entendimento:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 145
Salienta-se que a jurisprudência desta Corte é no sentido de que a inversão
do ônus da prova prevista no art. 6º, VIII, do CDC, é regra de instrução e não
regra de julgamento, motivo pelo qual a decisão judicial que a determina deve
ocorrer antes da etapa instrutória, ou quando proferida em momento
posterior, garantir a parte a quem foi imposto o ônus a oportunidade de
apresentar suas provas. STJ. 4ª Turma. REsp 1.286.273-SP, Rel. Min. Marco
Buzzi, julgado em 08/06/2021 (Info 701).
A técnica decorre da distribuição dinâmica do ônus da prova, autorizando o magistrado a
redistribuir o encargo conforme as circunstâncias.
4.4. CUSTEIO DA PROVA
Há duas correntes sobre o custeio da prova quando ocorre a inversão do ônus probatório:
1ª Corrente: a inversão do ônus da prova implica também a inversão do seu custeio, quem
passa a ter o encargo probatório deve arcar com os custos correspondentes.
2ª Corrente: a inversão do ônus da prova não se confunde com o custeio da prova, o encargo
e o pagamento são questões distintas, podendo o juiz definir quem arcará com os custos,
independentemente da inversão.
4.5. EFEITOS DA INVERSÃO
A inversão deve recair sobre fatos específicos e determinados, e não sobre a totalidade do
processo.
Não se admite inversão que gere prova diabólica ao fornecedor, isto é, prova impossível ou
excessivamente difícil de ser produzida.
4.6. INVERSÃO LEGAL (OPE LEGIS) DO ÔNUS DA PROVA
Como visto, a inversão prevista no art. 6º, VIII, do CDC corresponde à inversão judicial (ope
iudicis), depende de decisão do juiz e somente ocorre quando presentes os requisitos de
verossimilhança ou hipossuficiência.
Contudo, o CDC também prevê hipóteses de inversão legal (ope legis), em que a lei atribui
diretamente o ônus probatório ao fornecedor, independentemente de decisão judicial.
Art. 12, § 3º, II: O fabricante, o construtor, o produtor ou importador só não
será responsabilizado quando provar que, embora haja colocado o produto
no mercado, o defeito inexiste;
Art. 14, § 3º, I: O fornecedor de serviços só não será responsabilizado quando
provar que, tendo prestado o serviço, o defeito inexiste;
Art. 38: O ônus da prova da veracidade e correção da informação ou
comunicação publicitária cabe a quem as patrocina.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 146
Além das inversões judicial e legal, é possível ainda a inversão convencional, quando as
partes, de forma consensual, ajustam a distribuição do ônus da prova. Trata-se de verdadeiro
negócio jurídico processual, que deve observar as limitações do art. 373, §3º, do CPC:
a) o acordo não pode recair sobre direitos indisponíveis;
b) não pode tornar excessivamente difícil o exercício do direito por uma das partes.
Por fim, é nula de pleno direito a cláusula contratual que estabeleça a inversão do ônus da
prova em prejuízo do consumidor, conforme art. 51, VI, do CDC.
5. TUTELA DO CONSUMIDOR NOS CONTRATOS DE PLANO DE SAÚDE
A Lei 9.656/1998 dispõe sobre os planos e seguros privados de assistência à saúde,
estabelecendo diretrizes para a elaboração e execução desses contratos.
O contrato de plano de saúde é, em essência, um instrumento de direito privado, marcado
pela autonomia privada e pela liberdade contratual. Essa liberdade, porém, encontra limite no
direito fundamental à saúde, se exercida de forma desmedida, pode frustrar a finalidade do
contrato e violar a proteção do consumidor.
Por isso, é extremamente comum a judicialização de conflitos envolvendo:
• validade de cláusulas contratuais;
• extensão da cobertura;
• até mesmo a validade global do contrato
A ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), autarquia especial criada pela Lei
9.961/2000, é responsável por elaborar o rol de procedimentos e eventos em saúde que devem
ser custeados pelas operadoras de planos de saúde (art. 4º, III).
A Lei 9.656/1998 reforça essa atribuição:
Art. 10, § 4º A amplitude das coberturas no âmbito da saúde suplementar,
inclusive de transplantes e de procedimentos de alta complexidade, será
estabelecida em norma editada pela ANS, que publicará rol de procedimentos
e eventos em saúde suplementar, atualizado a cada incorporação.
Em junho de 2022, a 2ª Seção do STJ decidiu que o rol de procedimentos e eventos em
saúde suplementar é, em regra, taxativo, fixando as seguintes teses (EREsp 1.886.929/SP, Info
740):
1. O rol da ANS é, em regra, taxativo.
2. A operadora não é obrigada a custear tratamento não constante do rol se houver, para
a cura do paciente, outro procedimento eficaz, efetivo e seguro já incorporado.
3. Admite-se cobertura ampliada por contratação específica ou aditivo contratual.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 147
4. Excepcionalmente, pode haver cobertura de tratamento fora do rol, desde que o
procedimento não tenha sido expressamente negado pela ANS, haja comprovação de
eficácia à luz da medicina baseada em evidências, haja recomendações técnicas
(CONITEC, NATJUS, órgãos estrangeiros) e seja buscado diálogo interinstitucional com
órgãos técnicos, sem inclusão da ANS no polo passivo.
Esse entendimentoé o chamado “rol taxativo mitigado”.
Diante da forte reação social (especialmente em relação a pessoas com TEA, doenças raras
e deficiências), o Congresso editou a Lei 14.454/2022, que alterou o art. 10 da Lei 9.656/98. Foram
incluídos os §§ 12 e 13:
Art. 10,
§ 12. O rol de procedimentos e eventos em saúde suplementar, atualizado
pela ANS a cada nova incorporação, constitui a referência básica para os
planos privados de assistência à saúde contratados a partir de 1º de janeiro
de 1999 e para os contratos adaptados a esta Lei e fixa as diretrizes de
atenção à saúde.
§ 13. Em caso de tratamento ou procedimento prescrito por médico ou
odontólogo assistente que não estejam previstos no rol referido no § 12 deste
artigo, a cobertura deverá ser autorizada pela operadora de planos de
assistência à saúde, desde que:
I - exista comprovação da eficácia, à luz das ciências da saúde, baseada em
evidências científicas e plano terapêutico; ou
II - existam recomendações pela Comissão Nacional de Incorporação de
Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC), ou exista
recomendação de, no mínimo, 1 (um) órgão de avaliação de tecnologias em
saúde que tenha renome internacional, desde que sejam aprovadas também
para seus nacionais.
A mesma lei ainda alterou o art. 1º da Lei 9.656/98, para reforçar expressamente a aplicação
simultânea do CDC aos planos de saúde, em linha com a Súmula 608/STJ.
Súmula 608 - Aplica-se o Código de Defesa do Consumidor aos contratos de
plano de saúde, salvo os administrados por entidades de autogestão.
A Lei 14.454/2022 foi questionada na ADI 7.265/DF, proposta pela Unidas (autogestão em
saúde), sob o argumento de que esvaziaria a função regulatória da ANS, comprometeria o equilíbrio
econômico dos planos e violaria a livre iniciativa, isonomia, segurança jurídica e o modelo
constitucional da saúde suplementar.
Em 18/09/2025, o STF, por maioria (7x4), julgou a ação parcialmente procedente, com os
seguintes eixos reconheceu a constitucionalidade da Lei 14.454/2022, porém, conferiu interpretação
conforme à Constituição ao §13 do art. 10, restringindo e objetivando os critérios de cobertura fora
do rol.
O STF fixou que, como regra, a ausência de determinado procedimento no rol da ANS
impede sua concessão judicial. Excepcionalmente, haverá obrigatoriedade de cobertura extra
rol se, e somente se, forem preenchidos cumulativamente cinco requisitos objetivos:
1. Prescrição por profissional habilitado: tratamento ou procedimento prescrito por
médico ou cirurgião-dentista que acompanhe o paciente.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 148
2. Inexistência de veto ou análise pendente pela ANS: o procedimento não pode ter sido
expressamente rejeitado pela ANS. Não pode estar em processo de avaliação para
inclusão no rol (PAR).
3. Ausência de alternativa terapêutica adequada no rol vigente: não deve existir, no rol
atual, outro tratamento eficaz e apropriado para o caso. Se houver opção adequada no
rol, a operadora não é obrigada a custear tratamento diverso.
4. Comprovação científica de eficácia e segurança: eficácia e segurança comprovadas
com base em medicina baseada em evidências e/ou ATS, respaldadas por evidências
científicas de alto nível. Não basta ser tratamento experimental, nova moda terapêutica
ou mera opinião.
5. Registro aprovado na ANVISA: medicamento, produto ou tecnologia com registro na
Anvisa, garantindo análise prévia pela autoridade sanitária brasileira.
O STF também traçou diretrizes obrigatórias para o julgador. Sob pena de nulidade da
decisão, o juiz ou Tribunal deve:
a) Verificar prévio requerimento administrativo: comprovar que houve pedido à
operadora e que houve negativa, mora irrazoável ou omissão.
b) Analisar o ato da ANS: examinar, à luz da legislação e do caso concreto, eventual ato
administrativo de não incorporação, sem ingressar no mérito técnico regulatório.
c) Consultar o NATJUS ou outro órgão técnico: aferir o preenchimento dos critérios
apoiando-se em parecer técnico, preferencialmente do NATJUS, não podendo fundamentar a
decisão apenas na prescrição, relatório ou laudo do médico assistente.
d) Oficiar a ANS em caso de deferimento: se deferir o pedido, deve comunicar a ANS para
que avalie a possível inclusão do tratamento no rol.
Por fim, colacionamos a seguir os julgados mais recentes sobre este tópico tão sensível para
os concursos públicos, e em seguida, trazemos algumas questões para ilustrar como o tema tem
sido exigido nas provas.
Tese fixada pelo STF:
1. É constitucional a imposição legal de cobertura de tratamentos ou
procedimentos fora do rol da ANS, desde que preenchidos os parâmetros
técnicos e jurídicos fixados nesta decisão.
2. Em caso de tratamento ou procedimento não previsto no rol da ANS, a
cobertura deverá ser autorizada pela operadora de planos de assistência à
saúde, desde que preenchidos, cumulativamente, os seguintes requisitos:
(i) prescrição por médico ou odontólogo assistente habilitado;
(ii) inexistência de negativa expressa da ANS ou de pendência de análise em
proposta de atualização do rol (PAR);
(iii) ausência de alternativa terapêutica adequada para a condição do paciente
no rol de procedimentos da ANS;
(iv) comprovação de eficácia e segurança do tratamento à luz da medicina
baseada em evidências de alto grau ou ATS, necessariamente respaldadas
por evidências científicas de alto nível; e
(v) existência de registro na Anvisa.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 149
3. A ausência de inclusão de procedimento ou tratamento no rol da ANS
impede, como regra geral, a sua concessão judicial, salvo quando
preenchidos os requisitos previstos no item 2, demonstrados na forma do art.
373 do CPC. Sob pena de nulidade da decisão judicial, nos termos do art.
489, §1º, V e VI, e art. 927, III, §1º, do CPC, o Poder Judiciário, ao apreciar
pedido de cobertura de procedimento ou tratamento não incluído no rol,
deverá obrigatoriamente: (a) verificar se há prova do prévio requerimento à
operadora de saúde, com a negativa, mora irrazoável ou omissão da
operadora na autorização do tratamento não incorporado ao rol da ANS;
(b) analisar o ato administrativo de não incorporação pela ANS à luz das
circunstâncias do caso concreto e da legislação de regência, sem incursão
no mérito técnico-administrativo;
(c) aferir a presença dos requisitos previstos no item 2, a partir de consulta
prévia ao Núcleo de Apoio Técnico do Poder Judiciário (NATJUS), sempre
que disponível, ou a entes ou pessoas com expertise técnica, não podendo
fundamentar sua decisão apenas em prescrição, relatório ou laudo médico
apresentado pela parte; e
(d) em caso de deferimento judicial do pedido, oficiar a ANS para avaliar a
possibilidade de inclusão do tratamento no rol de cobertura obrigatória.
STF. Plenário. ADI 7.265/DF, Rel. Min. Luís Roberto Barroso, julgado em
18/09/2025 (Info 1191).
A glotoplastia para feminilização de voz, no contexto do processo
transexualizador, é procedimento de cobertura obrigatória pelos planos de
saúde, mesmo sem previsão expressa no rol da ANS, ensejando indenização
por danos morais a sua negativa. STJ. 3ª Turma. REsp 2.223.262-SP, Rel.
Min. Daniela Teixeira, julgado em 22/9/2025 (Info 864).
É possível que a operadora de plano de saúde seja obrigada a fornecer
cobertura para os exames PET SCAN ou PET-CT, porque expressamente
previstos no rol de procedimentos da ANS, quando efetivamente necessários
para o adequado diagnóstico, estadiamento e acompanhamento de câncer e
outras enfermidades (cobertas contratualmente), que não tenham sido
diagnosticadas por exames tradicionais, devendo haver ainda a observância
de expressa indicação médica, para hipóteses além daquelas elencadas no
rol da ANS. STJ. 4ª Turma. REsp 2.060.900-SP, Rel. Min. Raul Araújo,
julgado em 22/9/2025 (Info 865).
Oplano de saúde não é obrigado a fornecer medicamento de uso domiciliar,
não incluído no rol da ANS, para gestante com trombofilia. STJ. 4ª Turma.
REsp 2.224.187-SP, Rel. Min. João Otávio de Noronha, julgado em 15/9/2025
(Info 864).
A recusa indevida de internação de paciente em situação de emergência, sob
alegação de carência contratual, configura dano moral. STJ. 3ª Turma. REsp
2.198.561-SE, Rel. Min. Daniela Teixeira, julgado em 23/6/2025 (Info 26 -
Edição Extraordinária).
É lícita a negativa de cobertura por operadora do plano de saúde de
medicamento de uso domiciliar à base de canabidiol não listado no rol da
ANS. STJ. 3ª Turma. Processo em segredo de justiça, Rel. Min. Nancy
Andrighi, julgado em 17/6/2025 (Info 855).
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 150
A hidroterapia e as terapias multidisciplinares pelos métodos Bobath e
Pediasuit, prescritos para o tratamento de beneficiário diagnosticado com
paralisia cerebral, devem ser cobertas pela operadora de plano de saúde,
seja porque tais técnicas são utilizadas durante as sessões de fisioterapia,
terapia ocupacional e fonoaudiologia, procedimentos esses previstos no rol
da ANS em número ilimitado e sem quaisquer diretrizes de utilização; seja
porque, a partir dos parâmetros delineados pela ANS, os referidos métodos
não podem ser considerados experimentais. STJ. 2ª Seção. REsp 2.125.696-
SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 3/4/2025 (Info 856).
A cobertura da órtese craniana indicada para o tratamento de braquicefalia e
plagiocefalia posicional não encontra obstáculo nos arts. 10, VII, da Lei
9.656/98 e 17, parágrafo único, VII, da Resolução Normativa 465/2021. STJ.
4ª Turma. AgInt no REsp 2.014.786-DF, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti,
julgado em 24/3/2025 (Info 26 - Edição Extraordinária).
É obrigatória a cobertura pela operadora do plano de saúde de sessões de
terapia especializada prescritas para o tratamento de transtorno do espectro
autista (TEA), especificadamente musicoterapia, equoterapia e hidroterapia.
STJ. 3ª Turma. AgInt no REsp 2.161.153-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi,
julgado em 10/2/2025 (Info 845).
O cumprimento dos requisitos para a cobertura de tratamento fora do rol da
ANS, em especial, a verificação de sua eficácia científica do tratamento
proposto, resta superado quando da inclusão da terapêutica na referida lista.
STJ. 3ª Turma. AgInt no AREsp 2.757.775-RJ, Rel. Min. Nancy Andrighi,
julgado em 10/2/2025 (Info 845).
O sistema de infusão contínua de insulina é classificado como dispositivo
médico e não pode ser excluído da cobertura dos planos de saúde, mesmo
não estando no rol da ANS, desde que observados os parâmetros
estabelecidos pela jurisprudência e pela Lei 14.454/2022. STJ. 4ª Turma.
REsp 2.162.963-RJ, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 17/12/2024
(Info 23 - Edição Extraordinária).
A área geográfica de abrangência em que a operadora fica obrigada a
garantir todas as coberturas de assistência à saúde contratadas pelo
beneficiário é limitada ao território nacional, salvo se houver previsão
contratual em sentido contrário. STJ. 3ª Turma. REsp 2.167.934-SP, Rel. Min.
Nancy Andrighi, julgado em 15/10/2024 (Info 831).
A operadora de plano de saúde somente poderá suspender ou encerrar
unilateralmente o vínculo contratual por inadimplência após o sexagésimo dia
de atraso, e desde que tenha previamente notificado o beneficiário até o
quinquagésimo dia da mora. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 2.477.912-SE,
Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 9/9/2024 (Info 23 - Edição
Extraordinária).
(I) É de cobertura obrigatória pelos planos de saúde a cirurgia plástica de
caráter reparador ou funcional indicada pelo médico assistente, em paciente
pós-cirurgia bariátrica, visto ser parte decorrente do tratamento da obesidade
mórbida; (II) Havendo dúvidas justificadas e razoáveis quanto ao caráter
eminentemente estético da cirurgia plástica indicada ao paciente pós-cirurgia
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 151
bariátrica, a operadora de plano de saúde pode se utilizar do procedimento
da junta médica, formada para dirimir a divergência técnico-assistencial,
desde que arque com os honorários dos respectivos profissionais e sem
prejuízo do exercício do direito de ação pelo beneficiário, em caso de parecer
desfavorável à indicação clínica do médico assistente, ao qual não se vincula
o julgador. STJ. 2ª Seção. REsps 1.870.834-SP e 1.872.321-SP, Rel. Min.
Ricardo Villas Bôas Cueva, julgado em 13/09/2023 (Recurso Repetitivo –
Tema 1069) (Info 787).
A operadora de plano de saúde deve custear o procedimento de
criopreservação de óvulos, como medida preventiva à infertilidade, enquanto
possível efeito adverso do tratamento de quimioterapia prescrito para câncer
de mama, até a alta da quimioterapia. STJ. 3ª Turma. REsp 1.815.796-RJ,
Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 26/05/2020 (Info 673). STJ.
3ª Turma. REsp 1.962.984-SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em
15/8/2023 (Info 785).
Em regra, a resilição unilateral é válida por se tratar de contrato de trato
sucessivo ou execução continuada, mas é abusiva quando realizada durante
o tratamento médico que assegure a sobrevivência ou a preservação da
incolumidade física e/ou psíquica do beneficiário. STJ. 3ª Turma. AgInt no
AgInt no AREsp 1.995.955-RJ, Rel. Min. Humberto Martins, julgado em
26/6/2023 (Info 12 – Edição Extraordinária).
A recusa da operadora do plano de saúde em custear medicamento
registrado pela ANVISA e prescrito pelo médico do paciente é abusiva, ainda
que se trate de fármaco off-label ou utilizado em caráter experimental,
especialmente na hipótese em que se mostra imprescindível à conservação
da vida e saúde do beneficiário. STJ. 4ª Turma. AgInt no AREsp 1.964.268-
DF, Rel. Min. Raul Araújo, julgado em 12/6/2023 (Info 782).
A cobertura de internação domiciliar, em substituição à internação hospitalar,
deve abranger os insumos necessários para garantir a efetiva assistência
médica ao beneficiário - insumos a que ele faria jus caso estivesse internado
no hospital -, sob pena de desvirtuamento da finalidade do atendimento em
domicílio, de comprometimento de seus benefícios e da sua subutilização
enquanto tratamento de saúde substitutivo à permanência em hospital. STJ.
3ª Turma. REsp 2017759-MS, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em
14/2/2023 (Info 765).
Na vigência dos contratos de plano de saúde ou de seguro de assistência à
saúde, a pretensão condenatória decorrente da declaração de nulidade de
cláusula de reajuste nele prevista prescreve em 20 anos (art. 177 do
CC/1916) ou em 3 anos (art. 206, § 3º, IV, do CC/2002), observada a regra
de transição do art. 2.028 do CC/2002. Essa conclusão foi fixada no Tema
610 (REsp 1361182-RS). Houve proposta de alteração desse entendimento,
mas a maioria dos Ministros optou por mantê-lo. STJ. 2ª Seção. Pet 12602-
DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, Rel. Acd. Ministro João Otávio de Noronha,
julgado em 8/2/2023 (Info 763).
Falecendo o titular do plano de saúde coletivo, seja este empresarial ou por
adesão, nasce para os dependentes ou agregados o direito de pleitear a
sucessão da titularidade, nos termos dos arts. 30 ou 31 da Lei nº 9.656/98, a
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 152
depender da hipótese, desde que assumam o seu pagamento integral. STJ.
3ª Turma. REsp 1841285/DF, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em
23/03/2021 (Info 690).
Compete à Justiça comum julgar as demandas relativas a plano de saúde de
autogestão empresarial, exceto quando o benefício for regulado em contrato
de trabalho, convenção ou acordo coletivo, hipótese em que a competência
será da Justiça do Trabalho, ainda que figure como parte trabalhador
aposentado ou dependente do trabalhador. STJ. 2ª Seção. EDcl no REsp
1799343/SP, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgadoem 24/06/2020 (Tema IAC 5).
STJ. 2ª Seção. EDcl no CC 165863/SP, Rel. Min. Paulo de Tarso
Sanseverino, julgado em 24/06/2020 (Tema IAC 5).
É obrigatória a cobertura, pela operadora do plano de saúde, de cirurgias de
transgenitalização e de plástica mamária com implantação de próteses em
mulher transexual. STJ. 3ª Turma. REsp 2.097.812-MG, Rel. Min. Nancy
Andrighi, julgado em 21/11/2023 (Info 798).
Como o tema foi cobrado em concurso?
(MPE/SP – Promotor de Justiça – MPE/SP – 2025): No caso de negativa da
operadora de plano de saúde coletivo em custear cirurgias plásticas para
pacientes que passaram por cirurgia bariátrica, sob a justificativa de cláusula
contratual que exclui essa cobertura, é correto afirmar que os planos de saúde
não têm obrigação de custear cirurgias plásticas de qualquer natureza,
considerando seu caráter predominantemente estético. Errado! Eventual
cláusula que exclua a cobertura do procedimento é abusiva, uma vez que a
cirurgia plástica pode ser essencial para a plena recuperação da saúde do
paciente.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 153
CRIMES CONTRA AS RELAÇÕES DE CONSUMO
1. PREVISÃO LEGAL
Os crimes relacionados às relações de consumo estão previstos do art. 61 ao art. 80 do
CDC.
2. SUJEITO ATIVO
É o fabricante ou fornecedor de produtos e serviços, conforme definição do art. 3º do CDC:
Art. 3° Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada,
nacional ou estrangeira, bem como os entes despersonalizados, que
desenvolvem atividade de produção, montagem, criação, construção,
transformação, importação, exportação, distribuição ou comercialização de
produtos ou prestação de serviços.
Para fins penais, excluem-se as pessoas jurídicas, somente pessoas físicas podem ser
sujeito ativo nesses crimes.
3. SUJEITO PASSIVO
O sujeito passivo é o consumidor, assim entendido:
Art. 2° Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza
produto ou serviço como destinatário final.
Parágrafo único. Equipara-se a consumidor a coletividade de pessoas, ainda
que indetermináveis, que haja intervindo nas relações de consumo.
O parágrafo único do art. 2º equipara a consumidor a coletividade de pessoas, ainda que
indetermináveis, que tenha participado da relação de consumo. Aqui, a pessoa jurídica também é
incluída.
Alguns crimes do CDC podem ter sujeitos diversos desses modelos gerais, conforme o tipo
penal específico.
4. OMISSÃO SOBRE A NOCIVIDADE (ART. 63)
Art. 63. Omitir dizeres ou sinais ostensivos sobre a nocividade ou
periculosidade de produtos, nas embalagens, nos invólucros, recipientes ou
publicidade:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 154
§ 1° Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de alertar, mediante
recomendações escritas ostensivas, sobre a periculosidade do serviço a ser
prestado.
§ 2° Se o crime é culposo:
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.
4.1. OBJETIVIDADE JURÍDICA
A conduta punida é omitir dizeres ou sinais ostensivos (claros e visíveis) sobre a
periculosidade (risco de causar dano – ex.: inflamável) ou nocividade (potencial prejudicial à
saúde – ex.: alta taxa de colesterol), quando essa informação não é apresentada de forma clara:
• nas embalagens (parte externa);
• nos invólucros ou recipientes (parte interna);
• na publicidade (anúncios, panfletos, mídias).
A infração também ocorre quando as informações são apresentadas de forma discreta,
sem real destaque.
O §2º prevê a modalidade culposa, igualmente punível.
A Lei 8.137/90, art. 7º, II, também tipifica conduta semelhante:
Lei 8.137/90 - Art. 7° Constitui crime contra as relações de consumo:
II - vender ou expor à venda mercadoria cuja embalagem, tipo, especificação,
peso ou composição esteja em desacordo com as prescrições legais, ou que
não corresponda à respectiva classificação oficial;
Pena - detenção, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, ou multa.
Parágrafo único. Nas hipóteses dos incisos II, III e IX pune-se a modalidade
culposa, reduzindo-se a pena e a detenção de 1/3 (um terço) ou a de multa à
quinta parte.
Nucci entende que o art. 7º, II, derrogou tacitamente o art. 63 do CDC, pois é lei posterior,
trata da mesma conduta (descumprimento de normas de rotulagem) e prevê pena maior, aplicando
o princípio da especialidade inversa (norma posterior + mais severa).
Portanto, segundo Nucci, art. 63 do CDC permanece aplicável somente quando a omissão
ocorre na publicidade (não abrangida pela Lei 8.137/90), na hipótese de serviços (figura equiparada
do §1º) e na modalidade culposa (§2º), pois o art. 7º, II, não prevê forma culposa para essa situação
específica.
4.2. FIGURA EQUIPARADA
Prevista no §1º do art. 63 do CDC, essa figura aplica-se aos serviços, diferentemente do
caput, que trata de produtos.
O fornecedor deve alertar o consumidor por escrito e de forma ostensiva sobre a
periculosidade do serviço a ser prestado, a fim de garantir que o tomador do serviço tenha pleno e
inequívoco conhecimento do risco envolvido.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 155
Recomendações verbais ou não ostensivas configuram o crime.
4.3. TIPO SUBJETIVO
O crime é doloso, não havendo elemento subjetivo específico.
Tanto o caput quanto o §1º admitem modalidade culposa, conforme previsto no §2º.
4.4. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
Trata-se de crime de mera conduta. A consumação ocorre quando o produto ou serviço é
colocado à disposição do consumidor sem os avisos exigidos, independentemente de dano
concreto.
Por ser crime omissivo puro (unissubsistente), não admite tentativa.
5. DEIXAR DE COMUNICAR A NOCIVIDADE DESCOBERTA POSTERIORMENTE À
COLOCAÇÃO NO MERCADO
Art. 64. Deixar de comunicar à autoridade competente e aos consumidores a
nocividade ou periculosidade de produtos cujo conhecimento seja posterior à
sua colocação no mercado:
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de retirar do
mercado, imediatamente quando determinado pela autoridade competente,
os produtos nocivos ou perigosos, na forma deste artigo.
5.1. DIFERENÇA PARA O ART. 63
No art. 63 do CDC, a nocividade ou periculosidade do produto já é conhecida pelo fornecedor
antes de sua colocação no mercado. No art. 64, por sua vez, a nocividade ou periculosidade é
descoberta posteriormente, quando o produto já está sendo comercializado e utilizado pelos
consumidores.
Trata-se, portanto, de situação superveniente, surgida depois que o produto foi
disponibilizado no mercado.
5.2. TIPO OBJETIVO
A conduta típica consiste em deixar de comunicar a nocividade ou periculosidade do produto
tanto à autoridade competente quanto aos consumidores.
Há um duplo dever de comunicação, a falta de qualquer uma dessas comunicações já
caracteriza o crime.
A informação deve alcançar todos os consumidores em geral, inclusive aqueles que não
adquiriram o produto, já que o risco é potencialmente coletivo.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 156
Portanto, a comunicação aos consumidores deve ser feita por meios de comunicação em
massa, garantindo ampla divulgação.
5.3. FORMA EQUIPARADA
O parágrafo único do art. 64 trata da hipótese de recall obrigatório, determinado pela
autoridade competente:
Art. 64, Parágrafo único. Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de retirar
do mercado, imediatamente quando determinado pela autoridade
competente, os produtos nocivos ou perigosos, na forma deste artigo.
A comunicação ao público nem sempre é suficiente. Em determinadas situações, a
autoridade administrativa determina que o fornecedor retire o produto do mercado, por representar
risco concreto e relevante.
A conduta típica configura-se quando o fornecedor deixa de retirar imediatamente do
mercado os produtos nocivos ou perigosos após determinação oficialda autoridade competente.
Somente haverá crime quando o recall for oficialmente ordenado. Recall voluntário não
realizado não caracteriza o delito previsto no parágrafo único do art. 64.
Entretanto, se o produto que não foi retirado voluntariamente causar lesão corporal ou morte,
o fornecedor poderá responder pelos respectivos crimes (lesão, homicídio etc.).
O dever de agir é imediato, significando que o fornecedor deve iniciar prontamente a retirada.
A remoção completa pode ser materialmente impossível; o que caracteriza o crime é a demora
injustificada em começar o procedimento de retirada.
5.4. TIPO SUBJETIVO
O crime é doloso, sem necessidade de finalidade específica.
Não se admite modalidade culposa.
5.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação ocorre com a simples não comunicação da nocividade ou periculosidade
(caput) ou com a não retirada imediata do produto determinado pela autoridade competente
(parágrafo único), ainda que nenhum dano ao consumidor ocorra.
Trata-se de crime de mera conduta, que se aperfeiçoa com a omissão.
Por ser crime omissivo puro, não admite tentativa.
O crime do art. 64 aplica-se apenas a produtos, diferentemente do art. 63, que também
abrange serviços em seu §1º.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 157
6. EXECUÇÃO DE SERVIÇO CONTRARIANDO DETERMINAÇÃO DE AUTORIDADE
COMPETENTE
Art. 65. Executar serviço de alto grau de periculosidade, contrariando
determinação de autoridade competente:
Pena Detenção de seis meses a dois anos e multa.
§ 1º As penas deste artigo são aplicáveis sem prejuízo das correspondentes
à lesão corporal e à morte.
§ 2º A prática do disposto no inciso XIV do art. 39 desta Lei também
caracteriza o crime previsto no caput deste artigo.
A Lei 13.425/2017 incluiu no art. 39, XIV, do CDC, como prática abusiva:
Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras
práticas abusivas:
XIV - permitir o ingresso em estabelecimentos comerciais ou de serviços de
um número maior de consumidores que o fixado pela autoridade
administrativa como máximo.
Essa conduta configura, automaticamente, o crime do art. 65.
6.1. TIPO OBJETIVO
A conduta típica é executar serviço de alto grau de periculosidade em desconformidade com
determinação da autoridade competente.
Pontos essenciais:
• “Serviço de alto grau de periculosidade” é elemento normativo: trata-se de expressão
aberta, dependente de análise técnica do caso concreto. Aferição por perícia.
• Só haverá crime se a execução ocorrer contrariando ordem, norma, autorização ou
restrição imposta pela autoridade administrativa.
• Se o serviço perigoso for executado em conformidade com as determinações legais, não
há crime.
6.2. TIPO SUBJETIVO
O delito é doloso.
Não se admite forma culposa.
6.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação ocorre com a execução do serviço em desconformidade com a determinação
administrativa.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 158
Para a doutrina majoritária, é crime material (consuma-se com a efetiva execução do
serviço). Nucci, entretanto, entende ser crime formal, pois prescinde de resultado lesivo e presume-
se a potencialidade do perigo.
Admite tentativa no caput, quando possível fracionar a execução (ex.: início da atividade
perigosa interrompido antes da conclusão).
7. AFIRMAÇÃO FALSA E OMISSÃO DE INFORMAÇÃO RELEVANTE SOBRE PRODUTOS
OU SERVIÇOS
Art. 66. Fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir informação relevante
sobre a natureza, característica, qualidade, quantidade, segurança,
desempenho, durabilidade, preço ou garantia de produtos ou serviços:
Pena - Detenção de três meses a um ano e multa.
§ 1º Incorrerá nas mesmas penas quem patrocinar a oferta.
§ 2º Se o crime é culposo;
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.
7.1. SUJEITO ATIVO
Além do fornecedor, responde também quem patrocina a oferta enganosa (art. 66, §1º).
Exemplo: pessoa que financia a divulgação de produto que sabe ser inadequado ou enganoso.
7.2. TIPO OBJETIVO
O tipo penal abrange três condutas:
a) Fazer afirmação falsa ou enganosa:
• Conduta comissiva.
• Deve ter potencial para levar o consumidor a erro.
b) Omitir informação relevante:
• Conduta omissiva.
• A omissão deve ser relevante, isto é, possuir potencial lesivo.
• A omissão de informação irrelevante é atípica.
c) Patrocinar a oferta enganosa:
• Aquele que financia, impulsiona ou apoia a veiculação da oferta também responde pelo
delito.
A informação falsa/enganosa ou omitida deve referir-se a produtos ou serviços, conforme
descrito no tipo.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 159
7.3. CONFLITO DE NORMAS
Nucci sustenta que o art. 7º, II, da Lei 8.137/90 teria derrogado tacitamente o art. 66 do CDC
no tocante a produtos, pois é lei posterior e com pena mais grave.
Assim, segundo essa corrente:
• o art. 66 do CDC permaneceria em vigor apenas quanto a serviços e à modalidade
culposa do §2º;
• para produtos, incidiria o art. 7º, II, da Lei 8.137/90:
Lei 8.137/90, Art. 7° Constitui crime contra as relações de consumo:
II - vender ou expor à venda mercadoria cuja embalagem, tipo, especificação,
peso ou composição esteja em desacordo com as prescrições legais, ou que
não corresponda à respectiva classificação oficial.
Pena - detenção, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, ou multa.
Parágrafo único. Nas hipóteses dos incisos II, III e IX pune-se a modalidade
culposa, reduzindo-se a pena e a detenção de 1/3 (um terço) ou a de multa à
quinta parte.
7.4. TIPO SUBJETIVO
O delito é doloso, mas admite modalidade culposa, conforme §2º.
7.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação ocorre com a simples prática da conduta afirmação falsa/enganosa ou
omissão relevante.
É crime formal, prescindindo de prejuízo ao consumidor.
Admite tentativa na modalidade comissiva (ex.: afirmação falsa interrompida). Não admite
tentativa na modalidade omissiva (crime omissivo puro).
8. PUBLICIDADE ENGANOSA OU ABUSIVA OU CAPAZ DE INDUZIR O CONSUMIDOR A
SE COMPORTAR DE FORMA PREJUDICIAL
Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser
enganosa ou abusiva.
Pena Detenção de três meses a um ano e multa.
Art. 68. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser capaz
de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa a
sua saúde ou segurança.
Pena - Detenção de seis meses a dois anos e multa
8.1. DIFERENÇA ENTRE OS TIPOS
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 160
diferença é o objeto material, observe a tabela abaixo:
A distinção está no objeto material, conforme síntese:
Art. 67 Art. 68
É publicidade enganosa ou abusiva.
Publicidade capaz de induzir comportamento
prejudicial à saúde ou segurança.
Publicidade abusiva: viola os direitos do
consumidor.
Basta a potencialidade de dano, ainda que
nenhum prejuízo ocorra.
Segundo Herman Benjamin, no art. 68, a propaganda deve ser capaz de alterar o
comportamento do consumidor (ex.: estimular início do consumo de cigarro ou álcool).
Para Nucci, o art. 68 pode conflitar com o princípio da adequação social, pois é difícil afirmar
que propaganda induz comportamentos já socialmente difundidos.
8.2. SUJEITO ATIVO
Além do fornecedor, também responde quem produz ou divulga a publicidade. Exemplo:
publicitário que cria peça enganosa sem conhecimento do fornecedor → responde sozinho.
Se o fornecedor tem ciência da fraude, há concurso de pessoas.
8.3. TIPO SUBJETIVO
Exige-se dolo, sem necessidade de finalidade específica. Ambos os artigos preveem dolo
eventual, pois utilizam “sabe ou deveria saber”.
A forma culposa foi vetada.
8.4. CONFLITO DE NORMAS
A Lei 8.137/90, art. 7º, VII, também criminaliza a indução do consumidor a erro por meio de
afirmação falsa:
Lei 8.137/90 - Art. 7° Constitui crime contra as relações de consumo:
VII - induzir o consumidor ou usuário a erro, por via de indicação ou afirmaçãofalsa ou enganosa sobre a natureza, qualidade do bem ou serviço, utilizando-
se de qualquer meio, inclusive a veiculação ou divulgação publicitária;
Pena - detenção, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, ou multa.
Há entendimento no sentido de que a Lei 8.137/90 deve ser aplicada quando houver
finalidade específica de induzir o consumidor a erro. Por isso, quando o dolo do agente for apenas
o de veicular publicidade enganosa ou abusiva, sem intenção específica de induzir a erro, aplica-se
o art. 67 do CDC.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 161
Nucci entende que o CDC só se aplica quando a publicidade envolver comportamentos
prejudiciais à saúde ou segurança (art. 68). Se a publicidade disser respeito a bens ou serviços,
incidiria a Lei 8.137/90.
Herman Benjamin diferencia as normas pelo resultado:
• Art. 67 do CDC: crime de mera conduta, basta realizar a propaganda enganosa ou
abusiva, mesmo que o consumidor não seja induzido a erro.
• Art. 7º, VII, da Lei 8.137/90: crime material, exige que o consumidor seja efetivamente
induzido a erro ou tenha seu direito subjetivo violado.
8.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação ocorre com a simples realização da propaganda, independentemente de
prejuízo.
• Art. 67: crime de mera conduta, o ilícito se perfaz apenas pela veiculação da publicidade
enganosa ou abusiva.
• Art. 68: crime formal, basta a capacidade de indução; caso o consumidor seja
efetivamente induzido, isso constitui apenas exaurimento.
A doutrina admite tentativa, desde que possível fracionar o ato de veiculação (ex.: anúncio
interceptado antes de ser publicado).
9. DEIXAR DE ORGANIZAR DADOS-BASE À PUBLICIDADE
Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos, técnicos e científicos que dão base
à publicidade:
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.
9.1. TIPO OBJETIVO
Trata-se de infração que pune a publicidade irresponsável, isto é, aquela realizada sem
embasamento técnico que comprove a veracidade das afirmações feitas. Exemplo: propaganda que
afirma que determinado produto reduz o colesterol em 50%; essa declaração deve ser suportada
por estudos, testes e dados técnicos confiáveis. Caso contrário, configura o delito.
9.2. SUJEITO ATIVO
Além do fornecedor, pode ser sujeito ativo qualquer pessoa responsável pela elaboração da
publicidade, como publicitário, responsável por testes científicos e profissional encarregado da
validação técnica dos dados.
9.3. TIPO SUBJETIVO
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 162
Exige-se dolo, ou seja, a vontade consciente de divulgar publicidade sem dados fáticos,
técnicos ou científicos de suporte.
Não há forma culposa.
9.4. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação ocorre com a simples omissão na organização dos dados necessários
durante a elaboração da publicidade, independentemente de qualquer prejuízo ao consumidor.
É crime de mera conduta.
Conforme observa Herman Benjamin, o tipo busca proteger a lisura e a seriedade do
processo publicitário.
Por ser crime omissivo puro (unissubsistente), não admite tentativa.
10. EMPREGAR NA REPARAÇÃO COMPONENTES USADOS SEM AUTORIZAÇÃO
Art. 70. Empregar na reparação de produtos, peça ou componentes de
reposição usados, sem autorização do consumidor:
Pena Detenção de três meses a um ano e multa.
10.1. TIPO OBJETIVO
A conduta típica consiste em utilizar peças ou componentes usados na reparação de um
produto sem autorização do consumidor. Exemplo: substituição de amortecedores em oficina
mecânica com uso de peça usada, sem conhecimento e consentimento do cliente.
Se o uso da peça usada ocorre na confecção do produto, e não na reparação, não se aplica
o art. 70. Exemplo: montagem de computador com peças usadas → não há crime do CDC.
Nessa hipótese, pode configurar-se o crime do art. 175 do Código Penal: Fraude no
Comércio:
CP Art. 175 - Enganar, no exercício de atividade comercial, o adquirente ou
consumidor:
I - vendendo, como verdadeira ou perfeita, mercadoria falsificada ou
deteriorada;
II - entregando uma mercadoria por outra:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa.
10.2. TIPO SUBJETIVO
O crime admite somente dolo, consistente na vontade de utilizar peça usada sem
autorização.
Não há modalidade culposa.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 163
10.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
Segundo Nucci, trata-se de crime material, exigindo prejuízo ao consumidor. Assim, só há
crime se a peça usada for cobrada como nova, causando danos econômico.
O entendimento de Nucci, enquadra-se, na realidade, no art. 175 do CP (Fraude no
Comércio), e não no art. 70 do CDC.
Para Herman Benjamin, o crime é formal e de perigo abstrato, consumando-se com o
simples emprego da peça usada sem autorização, independentemente de prejuízo. Mesmo que a
peça usada seja superior à nova, o crime subsiste.
A tentativa é possível, desde que a conduta seja fracionável. Por exemplo, quando o
fornecedor tenta instalar a peça usada, mas não consegue por circunstâncias alheias à sua vontade.
11. COBRANÇA VEXATÓRIA OU VIOLENTA
Art. 71. Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimento
físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou enganosas ou de qualquer
outro procedimento que exponha o consumidor, injustificadamente, a ridículo
ou interfira com seu trabalho, descanso ou lazer:
Pena Detenção de três meses a um ano e multa.
11.1. SUJEITO ATIVO
Pode ser o comerciante, o credor ou qualquer pessoa que atue em seu nome realizando a
cobrança.
11.2. TIPO OBJETIVO
A conduta consiste em utilizar meios indevidos para realizar a cobrança de dívida oriunda
de relação de consumo, tais como:
a) Ameaça ou constrangimento físico ou moral: inclui intimidações, pressão psicológica
ou qualquer violência dirigida ao consumidor.
b) Informações falsas, incorretas ou enganosas: afirmar desconto inexistente para induzir
o consumidor ao pagamento imediato.
c) Procedimentos que exponham o consumidor injustificadamente ao ridículo ou que
interfiram indevidamente em seu trabalho, descanso e lazer. Exemplo: ligações insistentes e
sucessivas, a cada poucos minutos, que perturbam o cotidiano do consumidor.
O tipo penal só incide quando a cobrança se refere a dívida decorrente de relação de
consumo. Se a cobrança envolver dívida não relacionada ao CDC, e o particular utiliza meios
vexatórios ou violentos, pode caracterizar:
Art. 345 - Fazer justiça pelas próprias mãos, para satisfazer pretensão,
embora legítima, salvo quando a lei o permite:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 164
Pena - detenção, de quinze dias a um mês, ou multa, além da pena
correspondente à violência
11.3. TIPO SUBJETIVO
O delito é doloso, bastando a vontade consciente de utilizar meios ilícitos na cobrança da
dívida.
Não há modalidade culposa.
11.4. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação ocorre com a simples prática da conduta, isto é, com o ato de cobrar por
meio de ameaça, coação, informação enganosa ou procedimento vexatório, ainda que o consumidor
não efetivamente se sinta ameaçado ou constrangido.
Trata-se, portanto, de crime formal. Entretanto, parte da doutrina entende que o crime seria
material, por exigir efetiva exposição ao ridículo, mas prevalece a compreensão de que se trata de
crime formal.
A tentativa é possível quando a ação puder ser fracionada, como no caso de comunicação
escrita interceptada antes de chegar ao consumidor.
12. IMPEDIR ACESSO ÀS INFORMAÇÕES SOBRE O CONSUMIDOR
Art. 72. Impedir ou dificultar o acesso do consumidor às informações que
sobre ele constem em cadastros, banco de dados, fichas e registros:
Pena Detenção de seis meses a um ano ou multa.
12.1. TIPO OBJETIVO
O tipo penal abrange duas condutas:
• Impedir: negar completamente o acesso do consumidor aos seus próprios dados;
• Dificultar: criar obstáculos injustificados, retardando ou inviabilizando a consulta das
informações.
O acesso deve ser garantido155
4.4. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 155
5. DEIXAR DE COMUNICAR A NOCIVIDADE DESCOBERTA POSTERIORMENTE À
COLOCAÇÃO NO MERCADO ........................................................................................................ 155
5.1. DIFERENÇA PARA O ART. 63 ..................................................................................... 155
5.2. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 155
5.3. FORMA EQUIPARADA ................................................................................................. 156
5.4. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 156
5.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 156
6. EXECUÇÃO DE SERVIÇO CONTRARIANDO DETERMINAÇÃO DE AUTORIDADE
COMPETENTE ................................................................................................................................ 157
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 9
6.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 157
6.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 157
6.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 157
7. AFIRMAÇÃO FALSA E OMISSÃO DE INFORMAÇÃO RELEVANTE SOBRE PRODUTOS
OU SERVIÇOS ................................................................................................................................ 158
7.1. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................ 158
7.2. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 158
7.3. CONFLITO DE NORMAS.............................................................................................. 159
7.4. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 159
7.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 159
8. PUBLICIDADE ENGANOSA OU ABUSIVA OU CAPAZ DE INDUZIR O CONSUMIDOR A SE
COMPORTAR DE FORMA PREJUDICIAL ..................................................................................... 159
8.1. DIFERENÇA ENTRE OS TIPOS .................................................................................. 159
8.2. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................ 160
8.3. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 160
8.4. CONFLITO DE NORMAS.............................................................................................. 160
8.5. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 161
9. DEIXAR DE ORGANIZAR DADOS-BASE À PUBLICIDADE .............................................. 161
9.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 161
9.2. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................ 161
9.3. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 161
9.4. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 162
10. EMPREGAR NA REPARAÇÃO COMPONENTES USADOS SEM AUTORIZAÇÃO ......... 162
10.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 162
10.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 162
10.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 163
11. COBRANÇA VEXATÓRIA OU VIOLENTA .......................................................................... 163
11.1. SUJEITO ATIVO ............................................................................................................ 163
11.2. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 163
11.3. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 164
11.4. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 164
12. IMPEDIR ACESSO ÀS INFORMAÇÕES SOBRE O CONSUMIDOR ................................. 164
12.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 164
12.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 164
12.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 165
13. DEIXAR DE CORRIGIR INFORMAÇÃO INEXATA SOBRE O CONSUMIDOR ................. 165
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 10
13.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 165
13.2. TIPO SUBJETIVO ......................................................................................................... 165
13.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 165
14. DEIXAR DE ENTREGAR TERMO DE GARANTIA ADEQUADAMENTE PREENCHIDO.. 166
14.1. TIPO OBJETIVO ............................................................................................................ 166
14.2. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA .................................................................................... 166
15. AGRAVANTES ...................................................................................................................... 166
16. PENA DE MULTA NOS CRIMES DO CDC ......................................................................... 167
17. VALOR DE FIANÇA NO CDC .............................................................................................. 168
18. ASSISTENTE DE ACUSAÇÃO E AÇÃO PENAL SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA ................. 168
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 11
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mencionem, estejam eles em cadastros internos ou externos, bancos de dados informatizados,
fichas e registros diversos.
12.2. TIPO SUBJETIVO
O delito exige dolo, consistente na vontade consciente de impedir ou dificultar o acesso.
Não se admite modalidade culposa.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 165
12.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação ocorre com a simples prática da conduta de impedir ou dificultar o acesso,
independentemente de:
• ocorrência de prejuízo ao consumidor;
• existência de informação negativa nos registros;
• eventual obtenção posterior dos dados por outros meios.
O bem jurídico tutelado é o direito de acesso às informações pessoais, sejam elas favoráveis
ou desfavoráveis.
Por se tratar de crime plurissubsistente, admite tentativa, já que a ação pode ser
fracionada.
13. DEIXAR DE CORRIGIR INFORMAÇÃO INEXATA SOBRE O CONSUMIDOR
Art. 73. Deixar de corrigir imediatamente informação sobre consumidor
constante de cadastro, banco de dados, fichas ou registros que sabe ou
deveria saber ser inexata:
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.
13.1. TIPO OBJETIVO
A conduta consiste em deixar de corrigir informação inexata sobre o consumidor mantida
em: cadastros, bancos de dados, fichas, registros internos ou externos.
A correção deve ser imediata, ou seja, realizada tão logo o fornecedor tenha ciência da
inexatidão. Portanto, a demora injustificada na retificação configura o crime.
O objeto material é a própria informação incorreta. Exemplo: registro que aponta
inadimplência já quitada pelo consumidor.
13.2. TIPO SUBJETIVO
O delito admite somente a modalidade dolosa.
Não se pune a forma culposa, como na hipótese de gerente que, por negligência, deixa de
corrigir o dado.
13.3. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
O crime se consuma com a simples omissão em realizar a correção, independentemente
de prejuízo ao consumidor.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 166
Trata-se de crime formal, pois o resultado lesivo não é exigido, embora possa ocorrer (ex.:
negativa indevida de crédito).
Por ser crime omissivo próprio, de execução unissubsistente, não admite tentativa.
14. DEIXAR DE ENTREGAR TERMO DE GARANTIA ADEQUADAMENTE PREENCHIDO
Art. 74. Deixar de entregar ao consumidor o termo de garantia
adequadamente preenchido e com especificação clara de seu conteúdo;
Pena Detenção de um a seis meses ou multa.
14.1. TIPO OBJETIVO
A conduta típica consiste em deixar de entregar ao consumidor o termo de garantia
devidamente preenchido e com conteúdo claro. Assim, haverá crime:
• quando o termo não é entregue;
• quando é entregue incompleto;
• quando contém dados inexatos, imprecisos ou dúbios.
Objeto material: o termo de garantia, documento que assegura ao consumidor o direito à
substituição ou reparo da mercadoria ou serviço.
A infração não depende de exigência do consumidor, a entrega correta é obrigatória por lei.
Crítica doutrinária (Nucci): trata-se de matéria que poderia ser resolvida na esfera
administrativa, afastando-se do princípio da intervenção mínima.
14.2. CONSUMAÇÃO E TENTATIVA
A consumação ocorre com a simples omissão, ou seja, com a não entrega do documento
completo e adequado. Trata-se de crime de mera conduta.
Por se tratar de crime omissivo puro (unissubsistente), não admite tentativa.
15. AGRAVANTES
O art. 76 do CDC prevê circunstâncias agravantes específicas aplicáveis aos crimes contra
as relações de consumo, em razão da maior reprovabilidade dessas condutas.
Art. 76. São circunstâncias agravantes dos crimes tipificados neste código:
I - serem cometidos em época de grave crise econômica ou por ocasião de
calamidade;
II - ocasionarem grave dano individual ou coletivo;
III - dissimular-se a natureza ilícita do procedimento;
IV - quando cometidos:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 167
a) por servidor público, ou por pessoa cuja condição econômico-social seja
manifestamente superior à da vítima;
b) em detrimento de operário ou rurícola; de menor de dezoito ou maior de
sessenta anos ou de pessoas portadoras de deficiência mental interditadas
ou não;
V - serem praticados em operações que envolvam alimentos, medicamentos
ou quaisquer outros produtos ou serviços essenciais .
Embora não haja decisão específica dos Tribunais Superiores sobre a agravante do art. 76,
I do CDC, o STJ já analisou agravante semelhante prevista no art. 61, II, j, do Código Penal,
relacionada a crimes cometidos por ocasião de calamidade pública.
No HC 654.255/SP, a 6ª Turma do STJ firmou entendimento de que o simples fato de o delito
ter ocorrido durante a pandemia não autoriza automaticamente a aplicação da agravante. É
necessária a comprovação de que o agente efetivamente se valeu do contexto de calamidade para
facilitar ou intensificar a prática delitiva.
HABEAS CORPUS. TRÁFICO DE DROGAS (16,8 G DE COCAÍNA E 35,3 G
DE MACONHA). FIXAÇÃO DA PENA-BASE. DOSIMETRIA DA PENA.
ARTS. 59 E 68 DO CP. DOSIMETRIA. EXASPERAÇÃO DA PENA-BASE.
DISCRICIONARIEDADE VINCULADA DO MAGISTRADO. AUSÊNCIA DE
LIMITES LEGAIS MÁXIMOS E MÍNIMOS. PATAMAR DE EXASPERAÇÃO
DA PENA-BASE. AGRAVANTES E ATENUANTES. ART. 61, II, J, DO CP.
CALAMIDADE PÚBLICA. CONTEXTO DE PANDEMIA. NECESSIDADE DE
DEMONSTRAÇÃO DA MAIOR REPROVABILIDADE DA CONDUTA.
PRINCÍPIO DA INDIVIDUALIZAÇÃO DA PENA. CAUSA DE DIMINUIÇÃO
DA PENA. MAUS ANTECEDENTES. ART. 33, § 4º, DA LEI N. 11.343/2006.
IMPOSSIBILIDADE. 1. Quando a quantidade ou a variedade da droga não é
significativa, não há falar em exasperação da pena-base, sob pena de ofensa
ao princípio da proporcionalidade. 2. A incidência da agravante do art. 61, II,
j, do Código Penal exige demonstração de que o agente se valeu do contexto
de pandemia para prática do delito. 3. O art. 33, § 4º, da Lei 11.343/2006
exige que o paciente seja primário e de bons antecedentes, condição essa
não preenchida pelo paciente. 4. Ordem parcialmente concedida para
redimensionar a pena a 5 anos e 3 meses de reclusão, em regime fechado,
e 530 dias-multa, à razão mínima, pelos fundamentos declinados. (HC
654.255/SP, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA,
julgado em 25/05/2021, DJe 07/06/2021).
Esse raciocínio aplica-se diretamente aos crimes do CDC. A agravante do art. 76, I somente
incide quando demonstrado que a situação de crise ou calamidade foi explorada pelo agente, não
bastando sua mera existência.
16. PENA DE MULTA NOS CRIMES DO CDC
O art. 77 do CDC estabelece um regime próprio para fixação da pena de multa nos crimes
contra as relações de consumo:
Art. 77. A pena pecuniária prevista nesta Seção será fixada em dias-multa,
correspondente ao mínimo e ao máximo de dias de duração da pena privativa
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 168
da liberdade cominada ao crime. Na individualização desta multa, o juiz
observará o disposto no art. 60, §1° do Código Penal.
Diferentemente do Código Penal, que fixa a quantidade de dias-multa entre 10 e 365 dias-
multa, o CDC determina que os dias-multa devem corresponder à quantidade mínima e máxima de
dias da pena privativa de liberdade prevista para o crime.
Exemplo: pena cominada1 a 6 meses (30 a 180 dias). A multa variará de 30 a 180 dias-
multa.
O CDC remete expressamente ao art. 60, §1º, do CP, que autoriza o aumento da multa até
o triplo, quando, em razão da situação econômica do réu, a multa fixada no máximo se revelar
ineficaz.
CP Art. 60 - Na fixação da pena de multa o juiz deve atender, principalmente,
à situação econômica do réu.
§ 1º - A multa pode ser aumentada até o triplo, se o juiz considerar que, em
virtude da situação econômica do réu, é ineficaz, embora aplicada no
máximo.
Como o CDC não fixa o valor do dia-multa, aplica-se subsidiariamente o art. 49, §1º, do CP:
CP Art. 49, § 1º - O valor do dia-multa será fixado pelo juiz não podendo ser
inferior arefinamento textual, resultando em explicações
claras, diretas, atualizadas e organizadas em ordem lógica. Assim, você estuda com leveza, rapidez
e eficiência, sem perder profundidade.
2. Jurisprudência Sistematizada e Atualizada:
A parte jurisprudencial foi construída com base nos principais materiais e fontes oficiais.
Todo esse conteúdo foi sintetizado e organizado didaticamente, permitindo que você memorize
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3. Atualização Legislativa Completa:
A Edição 2026.1 contempla todas as alterações legislativas relevantes até 31/12/2025,
incluindo inovações relacionadas à proteção do consumidor, responsabilidade civil, práticas
abusivas, contratos, comércio eletrônico e direitos coletivos.
A Estratégia dos Aprovados:
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Use sempre a mesma fonte. Leia, releia, marque e revisite. A familiaridade com o conteúdo
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E lembre-se: fazer questões é obrigatório.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 12
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Vamos juntos rumo à sua aprovação!
Equipe Cadernos Sistematizados
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 13
NOÇÕES INTRODUTÓRIAS
1. ORIGEM DO DIREITO DO CONSUMIDOR
Desde os tempos mais remotos, o ser humano realiza atos de consumo, com registros que
remontam ao Código de Hamurabi. No entanto, nosso foco será a história recente, em especial o
surgimento da sociedade de consumo em massa.
Após a Revolução Industrial, muitas pessoas que viviam no campo migraram para as
cidades em busca de trabalho, resultando em uma sobrecarga dos serviços públicos e no
surgimento de dois grandes grupos: fornecedores (que controlam os meios de produção) e
consumidores (que, por não controlam os bens de produção, ficam sujeitos ao poder econômico do
primeiro grupo). Assim, formou-se uma sociedade de consumo em massa, incentivada pelo
marketing a consumir de forma impulsiva e irrefletida.
Nesse contexto, o direito privado tradicional mostrou-se insuficiente para proteger os
consumidores, agentes econômicos. Em 1962, um discurso do presidente norte-americano John F.
Kennedy destacou os direitos básicos dos consumidores, como o direito à segurança, à informação,
à escolha e o direito de ser ouvido, marcando o início de uma reflexão mais profunda sobre a
necessidade de proteção ao consumidor.
Em 1972, ocorreu em Estocolmo a Conferência Mundial do Consumidor, e, em 1985, a
Organização das Nações Unidas (ONU) distribuiu diretrizes para o Direito do Consumidor na
Resolução 39/248, reconhecendo a vulnerabilidade dos consumidores nas relações com
fornecedores.
No Brasil, a Constituição Federal de 1988 elevou o Direito do Consumidor à categoria de
direito fundamental. Em 1990, foi instituído o Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990),
consolidando essa proteção no ordenamento jurídico brasileiro.
2. FINALIDADE DO DIREITO DO CONSUMIDOR
O Direito do Consumidor tem como objetivo principal proteger o consumidor, considerado o
agente vulnerável na relação de consumo, reduzindo a desigualdade existente entre ele e o
fornecedor, com o consequente restabelecimento do equilíbrio.
3. DEFINIÇÃO DE DIREITO DO CONSUMIDOR
O Direito do Consumidor é o conjunto de normas e princípios que regula a tutela do
consumidor, sujeito especial de direitos, reconhecido como agente privado vulnerável nas suas
relações com fornecedores.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 14
No Brasil, o foco é a proteção do consumidor como sujeito vulnerável. Em contrapartida, na
França, a abordagem é no consumo em si (Direito do Consumo), priorizando o objeto da relação de
consumo.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 15
O DIREITO DO CONSUMIDOR E A CF/88
1. DIREITO FUNDAMENTAL
A Constituição Federal de 1988 elevou a defesa do consumidor ao status de direito
fundamental, conforme dispõe o art. 5º, XXXII:
Art. 5º XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor.
Esse direito configura um direito público subjetivo geral, que envolve:
• Proteção contra ações estatais lesivas (dimensão negativa: direito de defesa);
• Exigência de ações estatais positivas voltadas à tutela do consumidor (dimensão
positiva: direito a prestações).
O Direito do Consumidor integra a categoria dos direitos de terceira geração (ou
dimensão), caracterizados como direitos difusos, coletivos e voltados ao bem-estar social e à
proteção da coletividade.
1.1. EFEITOS DO STATUS DE DIREITO FUNDAMENTAL
A doutrina identifica três consequências diretas da constitucionalização da defesa do
consumidor:
a) Proteção como parte do núcleo imodificável da CF:
A defesa do consumidor integra as cláusulas pétreas (art. 60, §4º), razão pela qual não pode
ser abolida, nem mesmo por emenda constitucional.
b) Eficácia vertical e horizontal:
O direito fundamental do consumidor obriga o Estado a promover políticas de proteção ao
consumidor (eficácia vertical) e exige que particulares, especialmente fornecedores, respeitem o
direito do consumidor (eficácia horizontal).
A proteção pode ocorrer:
• Diretamente, pelo próprio texto constitucional;
• Indiretamente, por meio de normas infraconstitucionais, como o CDC, que concretizam
o comando constitucional.
c) Garantia constitucional do Direito do Consumidor:
O CDC possui respaldo constitucional, nenhuma lei infraconstitucional pode contrariar seus
princípios e garantias. Em caso de conflito entre o CDC e outra norma infraconstitucional, prevalece
o CDC, dada sua posição reforçada pelo texto constitucional.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 16
Parte da doutrina aplica aqui a Teoria da Proibição do Retrocesso, segundo a qual normas
que reduzam a proteção do consumidor devem ser consideradas inconstitucionais, por violarem o
núcleo de direitos já concretizados.
2. PRINCÍPIO DA ORDEM ECONÔMICA
A Constituição Federal de 1988 incluiu a defesa do consumidor entre os princípios da ordem
econômica, conforme o art. 170, V:
Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e
na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme
os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:
V - defesa do consumidor
Esse princípio possui caráter conformador, autorizando o Estado, enquanto Estado Social
de Direito, a intervir na economia para garantir adequada proteção ao consumidor, sem suprimir a
liberdade de iniciativa dos fornecedores.
A função do princípio é equilibrar a relação de consumo, harmonizando a atividade
econômica para evitar que o consumidor seja prejudicado pelo poder econômico. A defesa do
consumidor e a livre iniciativa não se opõem; ao contrário, atuam de forma complementar,
permitindo que o mercado funcione com eficiência e justiça social.
Trata-se também de um princípio de ação política, pois legitima o Estado a desenvolver
políticas públicas de proteção ao consumidor, reforçando uma ordem econômica justa, equilibrada
e orientada à dignidade das pessoas.
3. COMPETÊNCIA LEGISLATIVA
A Constituição Federal prevê, no art. 24, que a competência para legislar sobre produção e
consumo (inciso V) e sobre responsabilidade por danos ao consumidor (inciso VIII) é
concorrente entre a União, os Estados e o Distrito Federal.
A competência concorrente possui natureza vertical ou não cumulativa, com a seguinte
distribuição:
• União → edita normas gerais;
• Estados e Distrito Federal → exercem competência suplementar, adaptandoa legislação
às peculiaridades locais.
Na omissão da União quanto às normas gerais, os Estados e o DF podem exercer
competência plena, conforme os §§ 3º e 4º do art. 24:
Art. 24. (...)
§ 3º Inexistindo lei federal sobre normas gerais, os Estados exercerão a
competência legislativa plena, para atender a suas peculiaridades.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 17
§ 4º A superveniência de lei federal sobre normas gerais suspende a eficácia
da lei estadual, no que lhe for contrário.
A jurisprudência do STF confirma a amplitude da competência concorrente em matéria de
defesa do consumidor.
STF ADI 4512/MS: É constitucional lei estadual que obrigue os planos de
saúde a fornecerem aos consumidores informações e documentos
justificando as razões pelas quais houve recusa de algum procedimento,
tratamento ou internação. O Mato Grosso do Sul editou uma lei estadual
prevendo que, se o plano de saúde recusar algum procedimento, tratamento
ou internação, ele deverá fornecer, por escrito, ao usuário, um comprovante
fundamentado expondo as razões da negativa. O STF entendeu que essa
norma não viola competência privativa da União, considerando que ela trata
sobre proteção ao consumidor, matéria inserida na competência concorrente
(art. 24, V, da CF/88). STF. Plenário. ADI 4512/MS, Rel. Min. Cármen Lúcia,
julgado em 7/2/2018 (Info 890).
Os Municípios também podem legislar sobre consumo quando se tratar de interesse local,
nos termos do art. 30, I, da CF:
Art. 30. Compete aos Municípios:
I - legislar sobre assuntos de interesse local;
Exemplos clássicos de normas municipais legítimas:
• regras sobre tempo de espera em filas bancárias;
• exigência de bebedouros e banheiros para clientes;
• disciplina de atendimento ao público em estabelecimentos comerciais.
Recurso extraordinário. Constitucional. Consumidor. Instituição bancária.
Atendimento ao público. Fila. Tempo de espera. Lei municipal. Norma de
interesse local, legitimidade. Lei municipal 4.188/01. Banco. Atendimento
ao público e tempo máximo de espera na fila. Matéria que não se confunde
com a atinente às atividades bancárias. Matéria de interesse local e de
proteção ao consumidor. Competência legislativa do município. Recurso
extraordinário conhecido e provido. (STF, RE 432.789)
STF Info 917 - É constitucional lei municipal que proíbe a conferência de
mercadorias realizada na saída de estabelecimentos comerciais localizados
na cidade. A Lei prevê que, após o cliente efetuar o pagamento nas caixas
registradoras da empresa instaladas, não é possível nova conferência na
saída. Os Municípios detêm competência para legislar sobre assuntos
de interesse local (art. 30, I, da CF/88), ainda que, de modo reflexo,
tratem de direito comercial ou do consumidor. STF. 2ª Turma. RE
1052719 AgR/PB, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, julgado em 25/9/2018
(Info 917).
Súmula Vinculante 38-STF: É competente o município para fixar o horário
de funcionamento de estabelecimento comercial.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 18
Segundo Márcio Cavalcante (Dizer o Direito), não há critério objetivo totalmente seguro para
delimitar o que é “interesse local”. Assim, deve-se prestigiar a atuação legislativa municipal, que
conhece de forma mais próxima a realidade e as necessidades da comunidade.
4. PROTEÇÃO INFRACONSTITUCIONAL
O legislador constituinte, por meio do art. 48 do ADCT, determinou que o Congresso
Nacional deveria elaborar um Código de Defesa do Consumidor no prazo de 120 dias após a
promulgação da Constituição de 1988, reforçando a centralidade da proteção ao consumidor no
novo modelo constitucional:
Art. 48 ADCT - O Congresso Nacional, dentro de cento e vinte dias da
promulgação da Constituição, elaborará código de defesa do consumidor.
Em cumprimento a essa determinação constitucional, foi editada, em 1990, a Lei 8.078/90,
o Código de Defesa do Consumidor (CDC), diploma que sistematizou as normas de proteção ao
consumidor com base em princípios próprios, regras específicas e mecanismos de tutela preventiva
e repressiva.
Segundo entendimento pacífico do STF e do STJ, o CDC não possui aplicação retroativa.
Assim, não se aplica a fatos ocorridos antes de sua vigência, salvo nas hipóteses de prestações
sucessivas em contratos de trato continuado ou prazo indeterminado, como ocorre nos contratos
de plano de saúde, que continuam sendo executados após a entrada em vigor do diploma
consumerista.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 19
CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR
1. INFLUÊNCIAS
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) foi inspirado em diversos modelos legislativos
estrangeiros, como os de Portugal, Espanha, México e o Direito Comunitário Europeu, com forte
influência do Código de Consumo Francês.
O CDC representou uma inovação legislativa no Brasil e, atualmente, serve de referência
para diversos países da América Latina, consolidando-se como modelo de proteção ao consumidor
no cenário comparado.
2. MICROSSISTEMA JURÍDICO
O CDC inaugurou um verdadeiro microssistema jurídico, estruturado sobre princípios
gerais que orientam a aplicação das normas consumeristas em todas as relações de consumo.
Essa base principiológica confere unidade, coerência e sistematicidade, sem pretender esgotar
todas as situações possíveis.
O STJ reconhece que o microssistema do CDC tem por finalidade dotar o consumidor de
instrumentos capazes de viabilizar o efetivo exercício dos direitos assegurados, destacando-se,
entre eles, o direito à facilitação da defesa, previsto no art. 6º, VIII.
O CDC também é multidisciplinar, abrangendo temas de:
• Direito Constitucional;
• Direito Civil;
• Direito Penal;
• Direito Processual;
• Direito Administrativo.
Essa multidisciplinaridade reforça sua função de instrumento amplo e essencial à proteção
do consumidor.
3. LEI PRINCIPIOLÓGICA
O CDC é considerado uma lei principiológica, pois consagra princípios fundamentais que
orientam e integram todas as relações de consumo.
O próprio art. 1º reforça seu caráter imperativo e protetivo, ao definir o CDC como norma
de ordem pública e interesse social:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 20
Art. 1º CDC - O presente código estabelece normas de proteção e defesa do
consumidor, de ordem pública e interesse social, nos termos dos arts. 5°,
inciso XXXII, 170, inciso V, da Constituição Federal e art. 48 de suas
Disposições Transitórias.
3.1. NORMA DE ORDEM PÚBLICA
Segundo Landolfo de Andrade, normas de ordem pública (cogentes) são aquelas que
estabelecem valores essenciais da ordem jurídica, prevalecendo sobre a vontade das partes.
Por serem cogentes, permitem ao juiz intervir de ofício sempre que necessário para garantir
o interesse público, como, por exemplo inverter o ônus da prova, declarar cláusulas abusivas em
contratos de consumo.
Nos contratos bancários, esse poder é limitado. A Súmula 381 do STJ determina:
Súmula 381 STJ – Nos contratos bancários, é vedado ao julgador conhecer,
de ofício, da abusividade da cláusula.
A doutrinadora Cláudia Lima Marques sustenta que, por ser norma de ordem pública, o CDC
poderia ter aplicação retroativa. Todavia, STF e STJ não acolhem essa tese, restringindo a
retroatividade do CDC apenas aos contratos de trato sucessivo, como os planos de saúde.
3.2. NORMA DE INTERESSE SOCIAL
O CDC também é uma norma de interesse social, o que significa que sua aplicação
ultrapassa os interesses individuais das partes, visando proteger a coletividade.
A defesa do consumidor fortalece o funcionamento do mercado, combate práticas abusivas
e contribui para o equilíbrio das relações de consumo, beneficiando toda a sociedade, dado o
caráter massivo dessas relações.
4. POLÍTICA NACIONAL DAS RELAÇÕES DE CONSUMO
O art. 4º do CDC é uma norma narrativa e principiológica, pois estabelece os objetivose
princípios que estruturam a Política Nacional das Relações de Consumo. Atua como eixo
interpretativo de todo o microssistema consumerista e como parâmetro de atuação para
fornecedores, consumidores e para o próprio Estado.
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o
atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia
das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
I - reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de
consumo;
II - ação governamental no sentido de proteger efetivamente o consumidor:
a) por iniciativa direta;
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 21
b) por incentivos à criação e desenvolvimento de associações
representativas;
c) pela presença do Estado no mercado de consumo;
d) pela garantia dos produtos e serviços com padrões adequados de
qualidade, segurança, durabilidade e desempenho.
III - harmonização dos interesses dos participantes das relações de consumo
e compatibilização da proteção do consumidor com a necessidade de
desenvolvimento econômico e tecnológico, de modo a viabilizar os princípios
nos quais se funda a ordem econômica (art. 170, da Constituição Federal),
sempre com base na boa-fé e equilíbrio nas relações entre consumidores e
fornecedores;
IV - educação e informação de fornecedores e consumidores, quanto aos
seus direitos e deveres, com vistas à melhoria do mercado de consumo;
V - incentivo à criação pelos fornecedores de meios eficientes de controle de
qualidade e segurança de produtos e serviços, assim como de mecanismos
alternativos de solução de conflitos de consumo;
VI - coibição e repressão eficientes de todos os abusos praticados no
mercado de consumo, inclusive a concorrência desleal e utilização indevida
de inventos e criações industriais das marcas e nomes comerciais e signos
distintivos, que possam causar prejuízos aos consumidores;
VII - racionalização e melhoria dos serviços públicos;
VIII - estudo constante das modificações do mercado de consumo.
IX - fomento de ações direcionadas à educação financeira e ambiental dos
consumidores;
X - prevenção e tratamento do superendividamento como forma de evitar a
exclusão social do consumidor.
Trata-se de norma programática de interesse público qualificado, dotada de eficácia plena,
pois impõe obrigações de resultado voltadas à tutela do consumidor. Está diretamente vinculada à
proteção constitucional do consumidor (arts. 5º, XXXII, e 170, V, da CF) e ao comando do art. 48
do ADCT, que determinou a elaboração do Código de Defesa do Consumidor.
A Lei 14.181/2021 (Lei do Superendividamento) ampliou o conteúdo do art. 4º ao acrescentar
os incisos IX e X, introduzindo novos princípios vinculados à: educação financeira, educação
ambiental, prevenção e tratamento do superendividamento e evitação da exclusão social do
consumidor.
O art. 4º apresenta como objetivos fundamentais:
• defesa dos interesses dos consumidores;
• transparência nas relações de consumo;
• harmonia entre consumidores e fornecedores.
Embora reconheça a vulnerabilidade do consumidor, o CDC não é paternalista. O intuito é
promover equilíbrio e harmonia, e não uma proteção desequilibrada ou injustificada. O próprio termo
“Política Nacional das Relações de Consumo” destaca essa busca pela estabilidade e cooperação
entre os polos da relação.
O art. 5º do CDC apresenta os instrumentos de que o Poder Público dispõe para executar a
Política Nacional das Relações de Consumo. São eles:
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 22
Art. 5° Para a execução da Política Nacional das Relações de Consumo,
contará o poder público com os seguintes instrumentos, entre outros:
I - manutenção de assistência jurídica, integral e gratuita para o consumidor
carente;
II - instituição de Promotorias de Justiça de Defesa do Consumidor, no âmbito
do Ministério Público;
III - criação de delegacias de polícia especializadas no atendimento de
consumidores vítimas de infrações penais de consumo;
IV - criação de Juizados Especiais de Pequenas Causas e Varas
Especializadas para a solução de litígios de consumo;
V - concessão de estímulos à criação e desenvolvimento das Associações de
Defesa do Consumidor.
VI - instituição de mecanismos de prevenção e tratamento extrajudicial e
judicial do superendividamento e de proteção do consumidor pessoa natural;
VII - instituição de núcleos de conciliação e mediação de conflitos oriundos
de superendividamento.
A Lei 14.181/2021 acrescentou os incisos VI e VII, reforçando a proteção do consumidor
contra o superendividamento.
Os princípios do art. 4º do CDC funcionam como diretrizes gerais, abstratas, que orientam
toda a política de consumo. Já os instrumentos do art. 5º representam os meios concretos utilizados
pelo Poder Público para colocar essa política em prática.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/RJ – Juiz Substituto – FGV – 2025): Na execução da Política Nacional
das Relações de Consumo, o poder público poderá contar, dentre outros, com
o seguinte instrumento instituição de núcleos de conciliação e mediação de
conflitos oriundos de superendividamento. Correto!
(DPE/AC – Defensor Público – CEBRASPE – 2024): Assinale a opção em
que é apresentado um instrumento com o qual o poder público contará para
a execução da Política Nacional das Relações de Consumo, prevenção e
tratamento do superendividamento como forma de evitar a exclusão social do
consumidor. Errado, é um objetivo.
5. DIÁLOGO DAS FONTES
O Diálogo das Fontes é uma técnica destinada a resolver conflitos entre normas. Como o
CDC é uma legislação fortemente principiológica, seus princípios irradiam efeitos sobre todo o
ordenamento jurídico, alcançando diversos setores da atividade econômica.
Para facilitar a compreensão, costuma-se usar a metáfora da laranja: o CDC atua como um
"corte transversal", alcançando todos os “gomos” , planos de saúde, hospedagem, mensalidades
escolares, transporte de passageiros, entre outros. Em cada um desses segmentos há leis
específicas, que coexistem com o CDC.
A técnica do Diálogo das Fontes evita a ideia de que o CDC “substitui” a lei especial. Pelo
contrário, harmoniza ambos os sistemas. Assim, quando surge um aparente conflito (como no caso
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 23
da abusividade de cláusulas em contratos de planos de saúde), busca-se a solução que respeite os
princípios consumeristas, sem ignorar as particularidades da legislação específica.
5.1. CRITÉRIOS TRADICIONAIS DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS DE NORMAS
Os critérios clássicos de solução de conflitos atuam eliminando uma das normas, o que gera
um verdadeiro “monólogo”. No cenário atual, são considerados insuficientes para lidar com conflitos
mais complexos. São eles:
1. Critério cronológico: a lei mais nova revoga a anterior quando há incompatibilidade.
2. Critério da especialidade: a lei especial prevalece sobre a geral, salvo se a lei geral
posterior regular integralmente a matéria tratada pela especial antiga.
3. Critério da hierarquia: a norma hierarquicamente superior prevalece sobre a inferior,
podendo afastá-la ou revogá-la.
5.2. CRITÉRIO ATUAL
O Diálogo das Fontes surge como alternativa aos critérios tradicionais. Em vez de excluir
uma das normas, permite a aplicação conjunta de ambas: uma como regra principal e a outra como
complementar ou subsidiária. Trata-se de um verdadeiro “diálogo”.
O STF reconhece expressamente essa técnica:
A Emenda Constitucional 40, na medida em que conferiu maior vagueza à
disciplina constitucional do sistema financeiro (dando nova redação ao art.
192), tornou ainda maior esse campo que a professora Claudia Lima Marques
denominou “diálogo entre fontes” –no caso, entre a lei ordinária (que
disciplina as relações consumeristas) e as leis complementares (que
disciplinam o sistema financeiro nacional). (STF, ADI 2.591/DF).
O CDC será aplicado sempre de forma primária. As demais normas só incidem
subsidiariamente, desde que compatíveis com sua principiologia.
5.3. DIÁLOGO ENTRE O CDC E O CC
Segundo Cláudia Lima Marques, o CDC e o CC dialogam de três maneiras distintas:
1) Diálogo sistemático de coerência:
Ocorre quando uma lei aproveita bases conceituais da outra.
Exemplo: conceitos gerais do CC — pessoa jurídica, nulidades, provas, contratos — podem
ser utilizados na aplicação do CDC, que se limitou a construir apenas os conceitos essenciais à
proteção do consumidor (como consumidor, fornecedor, produto e serviço).
2) Diálogo sistemático de complementaridade:
Um sistema complementa o outro quando necessário.
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 24
Em relações de consumo, aplica-se prioritariamente o CDC; o CC atua de forma subsidiária,
quando o CDC não oferece solução específica.
O art. 42, parágrafo único, do CDC prevê a repetição do indébito em dobro, mas não
estabelece o prazo prescricional para ajuizamento da ação. Nesse caso, utiliza-se subsidiariamente
o prazo geral de 10 anos do CC/2002 (art. 205).
3) Diálogo das influências recíprocas sistemáticas:
Há uma troca de influências entre o sistema especial (CDC) e o sistema geral (CC).
O CC organiza as relações entre partes em situação de igualdade; já o CDC direciona sua
proteção ao vulnerável. Esse diálogo explica, por exemplo, a opção do STJ pela teoria finalista
(simples ou mitigada) para definir o conceito de consumidor.
6. PRINCÍPIOS GERAIS DO DIREITO DO CONSUMIDOR
6.1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
As diferentes escolas de pensamento jurídico abordam os princípios gerais do direito de
maneiras distintas:
• Escola Jusnaturalista: os princípios gerais do direito não possuem força de lei e são
aplicados de maneira suplementar, sendo utilizados para preencher lacunas jurídicas a
partir dos valores e preceitos do direito natural.
• Escola Positivista: os princípios são extraídos do próprio ordenamento jurídico, mas
não têm força normativa direta. Considerada uma fonte mediata de direito, sua aplicação
ocorre apenas quando há lacunas na legislação.
• Escola Pós-positivista: os princípios têm força normativa e estão previstos, expressa
ou implicitamente, no próprio ordenamento jurídico. Diferem das normas em forma e
conteúdo, sendo considerados essenciais na orientação das decisões judiciais.
OBS.: As cláusulas gerais são disposições normativas que utilizam, no
enunciado, uma linguagem aberta, fluida ou vaga, a ser preenchida
pelo magistrado quando da análise de um caso concreto. Possibilita
ao intérprete determinar, previamente, qual a norma de conduta que
deveria ter sido observada naquele caso. E, para alcançar tal objetivo,
poderá aproveitar-se de princípios positivados ou não positivados no
ordenamento jurídico, concretizando seus valores na solução dos
casos concretos.
6.2. PRINCÍPIO DA VULNERABILIDADE
CS DE CONSUMIDOR – 2026.1 25
É o principal princípio do direito do consumidor, traz a ideia de que o consumidor se encontra
em uma posição de inferioridade (econômica, técnica, jurídica ou informacional) em relação ao
fornecedor.
O fundamento desse princípio está na própria Constituição Federal, que consagra a defesa
do consumidor como um direito fundamental e como um princípio da ordem econômica. No CDC, o
Princípio da Vulnerabilidade está expressamente previsto no art. 4º, inciso I, reforçando a
necessidade de proteger o consumidor em sua relação desigual com o fornecedor.
Art. 4º A Política Nacional das Relações de Consumo tem por objetivo o
atendimento das necessidades dos consumidores, o respeito à sua
dignidade, saúde e segurança, a proteção de seus interesses econômicos, a
melhoria da sua qualidade de vida, bem como a transparência e harmonia
das relações de consumo, atendidos os seguintes princípios:
I - Reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor no mercado de
consumo
OBS.: a vulnerabilidade, aqui, possui presunção absoluta e decorre da
própria lei. Todos os consumidores são vulneráveis. O consumo de
alto padrão não afasta a vulnerabilidade.
Segundo a Cláudia Lima Marques, a vulnerabilidade se subdivide em três espécies principais
(já reconhecidas em decisões do STJ) e uma adicional, a vulnerabilidade informacional:
1) Vulnerabilidade técnica:
Desconhecimento, por parte do consumidor, das características do produto/serviço. Desta
forma, a vulnerabilidade decorre da não participação do consumidor na produção do bem.
Eventualmente, o consumidor profissional poderá ser considerado um vulnerável técnico,
nos casos em que o produto ou serviço adquirido não tiver relação com a sua formação,
competência ou área de atuação.
2) Vulnerabilidade jurídica:
Desconhecimento, por parte do consumidor, dos seus direitos e deveres, incluindo aspectos
econômicos e contábeis.
3) Vulnerabilidade econômica ou fática:
O consumidor é frágil diante do fornecedor, por uma série de motivos, vejamos:
• Em razão do forte poder econômico do fornecedor;
• Em razão de o fornecedor deter o monopólio fático ou jurídico da relação;
• Em razão de o fornecedor desenvolver uma atividade considerada essencial (ex.
provedor de internet, medicamento).
4) Vulnerabilidade informacional:
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Decorre da falta de informações adequadas e suficientes para que o consumidor tome
decisões informadas sobre a compra de produtos ou serviços.
Para fixar:
Vulnerabilidade Definição Exemplo
Técnica
Falta de conhecimento específico
sobre o produto/serviço.
Estudante que compra um
notebook sem entender as
especificações técnicas.
Jurídica
Falta de conhecimento específico
sobre o produto/serviço.
Pessoa que compra um lote sem
conhecimento jurídico sobre o
contrato.
Econômica ou fática
Fragilidade diante do poder
econômico ou monopólio do
fornecedor.
Pai de família que contrata
internet com a única operadora
disponível.
Informacional
Falta de informações suficientes
para uma decisão de compra
consciente.
Consumidor que adquire
medicamento sem informações
adicionais sobre seus efeitos e
contraindicações.
A doutrina e a jurisprudência vêm reconhecendo a existência de uma categoria especial de
consumidores cuja situação de fragilidade no mercado supera a vulnerabilidade ordinária presumida
pelo CDC. Trata-se da hipervulnerabilidade, que caracteriza consumidores cujo grau de fragilidade
é mais intenso, relevante ou agravado, exigindo proteção reforçada do sistema jurídico. Enquadram-
se nesse grupo, por exemplo, gestantes, crianças, idosos, pessoas enfermas, pessoas com
deficiência, analfabetos e outros indivíduos cuja condição pessoal, física, psíquica ou social acentua
sua desvantagem em face do fornecedor.
Como o tema foi cobrado em concurso?
(TJ/CE – Juiz Substituto – FGV – 2025): Carlos, servidor público, sem
qualquer formação ou experiência no setor imobiliário, adquiriu duas
unidades residenciais na planta com o objetivo de revendê-las após a
entrega. Como a incorporadora atrasou a obra em mais de dois anos, sem
justificativa plausível, Carlos ajuizou uma ação pleiteando a indenização e a
aplicação do Código de Defesa do Consumidor (CDC). A incorporadora
contestou, alegando que Carlos é um investidor e, por isso, não pode ser
qualificado como consumidor. A respeito da situação narrada, com base nas
teorias aplicáveis ao conceito de consumidor e no entendimento do STJ,
Carlos poderá ser considerado consumidor, desde que seja demonstrada sua
vulnerabilidade técnica, jurídica ou informacional, nos termos da teoria
finalista mitigada adotada pela jurisprudência, mesmo na qualidade de
investidor. Correto!