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CONCEITO e PARTIDO ARQUITETÔNICO

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definições fazendo uso dos termos “conseqüência” e 
“resultado”, nos quais uma idéia de lógica permanece implícita: 
 
“A mencionada definição é a seguinte: Arquitetura seria, então, toda e qualquer intervenção no meio ambiente 
criando novos espaços, quase sempre com determinada intenção plástica, para atender a necessidades 
imediatas ou a expectativas programadas, e caracterizada por aquilo que chamamos de partido. Partido seria 
uma conseqüência formal derivada de uma série de condicionantes ou de determinantes; seria o resultado físico 
da intervenção sugerida. Os principais determinantes, ou condicionadores, do partido seriam: 
 
a. a técnica construtiva, segundo os recursos locais, tanto humanos, como materiais, que inclui aquela intenção 
plástica, às vezes, subordinada aos estilos arquitetônicos. 
 
b. o clima. 
 
c. As condições físicas e topográficas do sítio onde se intervém. 
 
d. o programa das necessidades, segundo os usos, costumes populares ou conveniências do empreendedor. 
 
e. as condições financeiras do empreendedor dentro do quadro econômico da sociedade. 
 
f. a legislação regulamentadora e/ou as normas sociais e/ou as regras da funcionalidade” (2). 
 
É certo que todo arquiteto defende seu projeto como um produto da aplicação da lógica face aos dados fornecidos 
para sua elaboração. Mas, em arquitetura parece que temos uma lógica para cada projetista, pois se dependês-
semos meramente da lógica, o processo seria universal e já não caberia qualquer preocupação sobre o assunto. 
Talvez, neste caso, a ação de projetar e construir já teriam sido integralmente resolvidos pela indústria, através de 
seus computadores e máquinas. 
 
E o que se vê é justamente o contrário, há um claro incômodo a respeito – “Esa incómoda situación del partido”, 
afirma Corona-Martinez (3) –, sempre surgem novas explicações e teorias, como se sempre mais estivéssemos 
interessados em desvendar um mistério, perscrutar as mentes criadoras para pôr às claras algo nebuloso, abrir uma 
“caixa preta”: 
“Le Corbusier enfatizou ainda mais o uso da lógica matemática de Descartes ao dizer que o início do processo 
de criação é a definição da planta arquitetônica, que por sua vez é a representação do programa arquitetônico 
(função da edificação). Assim, a projeção vertical da planta resultaria, segundo ele, nas paredes que por sua 
vez se tornariam volumes: linhas que se transformam em planos que se transformam em volumes; é a 
seqüência linear e crescente do raciocínio cartesiano. 
 
Embora se saiba que Descartes ainda é apreciado nas escolas de arquitetura do Brasil para o ensino-aprendiz-
agem do projeto arquitetônico, sabe-se também que em algum momento do processo de criação surge algo es-
tranho que parece não caber na lógica cartesiana: é a caixa preta; um conceito usualmente utilizado pelos 
arquitetos para significar o momento em que a subjetividade psicológica do arquiteto define, por meio de um 
rabisco (croqui) o partido do projeto. 
 
Apesar dos arquitetos conhecerem esse processo, ninguém até hoje explicou o que acontece dentro dessa 
caixa preta, dizem que é inexplicável” (4). 
 
Duas publicações recentes abordam estes temas, suas reflexões são a base para uma compreensão e críticas 
contemporâneas desta problemática. São elasAdoção do partido em arquitetura, de Laert Pedreira Neves 
e Composição, partido e programa – uma revisão de conceitos em mutação, de Anna Paula Canez e Cairo 
Albuquerque da Silva, este último se tratando de uma coletânea de ensaios de vários autores. 
 
Escola Cáritas Croquis de Mario Biselli 
 
Destes textos emergem duas idéias principais. Em primeiro lugar, a de que o partido é a idéia inicial de um projeto e 
em segundo, que esta idéia é uma criação autoral e inventiva, e artística na medida em que faz uso da composição. 
Vemos em Neves as definições nesta seqüência. Em primeiro lugar: “Denomina-se Partido Arquitetônico a idéia 
preliminar do edifício projetado. 
Idealizar um projeto requer, pelo menos, dois procedimentos: um em que o projetista toma a resolução de 
escolha dentre inúmeras alternativas, de uma idéia que deverá servir de base ao projeto do edifício do tema 
proposto; e outro em que a idéia escolhida é desenvolvida para resultar no projeto. É do primeiro procedimento, 
o da escolha da idéia, que resulta o partido, a concepção inicial do projeto do edifício, a feitura do seu esboço” 
(5). 
Antes, no texto introdutório: 
“É importante ressaltar que projetar um edifício é, na essência, o ato de criação que nasce na mente do 
projetista. É fruto da imaginação criadora, da sensibilidade do autor, de sua percepção e intuição próprias. É re-
sultado do trabalho do pensamento. Sendo assim, constitui-se em algo de difícil controle, interferência e ordena-
mento” (6). 
Em Composição, partido e programa – uma revisão de conceitos em mutação, o texto de Rogério de Castro Oliveira 
faz uso de uma linguagem mais complexa, mas de conteúdo similar e complementar. Primeiramente uma argumen-
tação genérica: 
 
“Em suma, no projeto de arquitetura, a concepção do partido arquitetônico pressupõe a proposição de confi-
gurações que descobrem, ou inventam, relações espaciais e programáticas a partir de uma dispersão inicial, 
indeterminada, de possibilidades projetuais. 
 
A coerência de tais construções deriva, antes, de um progressivo fechamento interno do que de determinação 
externa. O partido é, por hipótese, uma prefiguração do objeto, que o projetista elege como ponto de partida e 
fio condutor: cabe à investigação epistemológica construir contextos de explicitação das razões que asseguram 
pertinência e validade a essas arquiteturas projetadas” (7). 
 
Escola Cáritas Croquis de Mario Biselli 
 
 
Ainda no mesmo texto, quando se dedica a uma comparação entre os projetos de Le Corbusier e Lúcio Costa para a 
Cidade Universitária do Rio de Janeiro em 1939: 
 
“Para Lúcio Costa... ao contrário, tomar partido implica dar início a um percurso inventivo que se traça sobre um 
campo de relações em constante formação e renovação, ainda que aos tateios e sujeito a inúmeros e 
imprevisíveis retornos e desvios. 
 
Tais relações simultaneamente externas e internas ao objeto projetado implicam a construção de correspon-
dências entre formas e conteúdos, organizando-se progressivamente em esquemas que conectam partes antes 
separadas. Este dinamismo atribui à construção do partido um sentido eminentemente operativo, antecipador 
das configurações compositivas que conduzirão à finalização do projeto” (8). 
 
Todas estas definições, desde as mais simples como as de Neves, às mais sofisticadas, como as de Rogério de 
Castro Oliveira, procuram sempre mais elucidar, ilustrar e compreender o projeto de arquitetura e o momento de 
adoção do partido arquitetônico. 
 
Nota-se que no âmbito da experiência prática no Brasil, e em face da maneira como o tema tem sido abordado tradi-
cionalmente, que cada autor, cada arquiteto poderia igualmente descrever a projetação de maneira muito similar, 
alterando a ênfase neste ou naquele aspecto, simplificando ou elaborando mais e mais o texto, mantendo, contudo a 
sua essência. 
 
Deste modo pode-se concluir, a partir destes teóricos brasileiros, que o Partido Arquitetônico é a idéia inicial de um 
projeto, que a sua formulação é uma criação autoral e inventiva com base na coerência e na lógica funcional, e que, 
o partido, sendo uma prefiguração do projeto, faz da projetação um processo que vai do todo em direção à parte. 
 
 
Aeroporto de Florianópolis Croquis de Mario Biselli 
 
Este conceito de Partido Arquitetônico parece ser um dos traços mais característicos da herança corbusiana no 
Brasil: 
“Le Corbusier abordava o programa de arquitetura

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