Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

1 
A CONCEPÇÃO DESCENDENTE E TEOCRÁTICA 
DE PODER NO OCIDENTE MEDIEVAL 
A concepção política que prevaleceu na Idade Média, no 
ocidente europeu, teve origem entre os séculos IV e V, por obra 
dos “doutores” ou “padres” da Igreja. Essa concepção tinha como 
pressupostos a natureza descendente do poder e o caráter divino 
da instituigdo governamental.’ 
Até o declinio da Idade Média, as idéias politicas estavam 
vinculadas & matriz do pensamento cristio. No medievo todos 
os problemas que diziam respeito à organizagdo da vida coletiva 
e ao comportamento dos homens buscavam justificativas na reli- 
gião. Antes que a era medieval chegasse ao fim, algo transfor- 
mou-se nessa forma de pensar. Entre os séculos XHI e XIV fo- 
ram elaboradas doutrinas nas quais estavam formuladas novas 
concepgdes sobre o poder politico e sua relagdo com a institui- 
ção religiosa. Até entdo, predominavam teorias sobre o governo, 
dentro de um marco teoldgico, referenciadas pela cosmologia 
cristd da época e compativeis com o exercicio do poder espiritual 
que a Igreja monopolizava. 
) A contragosto deixei de fora a anilise das concepedes e formas “populistas” 
coexistentes na Idade Média. O necessario rigor analitico desaconselha um 
tratamento sumário. Nos limites do presente trabalho dirigi a atenção para 
a concepedo descendente-teocratica que predominou na macropolitica me- 
dieval para, num segundo momento, mostrar a natureza da ruptura, no 
ocaso da Idade Média, com a tradigio teocritica e o aparecimento de dou- 
trinas politicas inovadoras e preconizadoras de ideais modernos. 
28 : ORIGENS MEDIEVAIS DA DEMOCRACIA MODERNA 
A civilização do ocidente medieval era, em muitos aspec- 
tos, profundamente mistica: o homem de então entendia que a 
presenga divina se manifestava em todos os aspectos da vida; 
que os seres humanos estavam na terra como peregrinos a cami- 
nho da salvagio eterna; que a ordem social era expressão da 
vontade de Deus e que cabia aos homens organizi-la de acordo 
com aquela Vontade. O poder de governar era algo que se exer- 
cia pela graga divina, e os governantes tinham a missão suprema 
de conduzir a comunidade humana ;umo 20 encontro de Deus e 
ao conhecimento de Sua Verdade. 
A titularidade do poder público estava concentrada nas mãos 
de duas monarquias: a eclesidstica e a secular. Para entendermos 
essas duas “ordens” e as defini¢es do exercicio do governo, é 
vital a compreensio de que o pensamento politico medieval foi ela- 
borado a partir de uma perspectiva escatoldgica, holistica e hie- 
rarquica do mundo. 
Enquanto na Antigiiidade o pensamento grego formulou 
um conceito ciclico da Historia, através da concepgdo do “Eter- 
no Retorno”, o judaismo e posteriormente o cristianismo atribui- 
ram um sentido à Historia e introduziram a idéia de tempo 
retilineo, que vai do “Génese” ao “Juizo Final”. Segundo a pers- 
pectiva cristd, no inicio da criação os homens viviam em uma 
perfcita comunhão com Deus, que foi quebrada pelo pecado ori- 
ginal. A partir dai a condição da salvagdo eterna só é possivel 
por meio de uma vida virtuosa na passagem do homem pela ter- 
ra. O conjunto dos cristios constituia a Igreja, o Corpus Christi, 
um todo indivisivel e orgânico a caminho do reencontro da paz 
celestial. Nessa perspectiva, o que predominava era o senlimen- 
to de conjunto, o reino do grupo como valor, e a subordinagio 
da ordem mundana aos valores transcendentais e absolutgs. O 
todo organico e indivisivel que constituia a comunidade humana 
devia ser ordenado de acordo com a vontade divina, que dispde 
cada coisa em seu devido lugar e atribui a cada homem um papel 
a desempenhar no corpo social. Na era medieval, a visdo organi- 
cista levou a hierarquizagio da sociedade, a uma rigida atribui- 
ção de papéis e 4 valorização da subordinagio de cada um as 
necessidades do conjunto social. A condugdo desse conjunto — 
que os medievais chamaram de Cristandade — era atribuigdo de 
homens investidos da missão divina de governar. 
A CONCEPÇÃO DESCENDENTE E TEOCRATICA DE PODER 29 
A ascensio da Igreja Catolica, como instituigdo interligada 
ao governo temporal, foi o trago mais marcante e significativo 
da politica medieval. O cristianismo colocou um problema des- 
conhecido pelas sociedades pregressas: o exercicio da sobera- 
nia, isto é, da plenitudo potestatis, a partir de duas instituigdes 
diferentes e complementares entre si: o papado e o império. 
Na teoria, 0 que se afirmava era que ambas as autoridades 
tinham caréter divino, designadas por Deus para o governo da 
Cristandade. Esta distribuição de poder pressupunha responsa- 
bilidade conjunta com a salvagdo dos homens, através de ajuda 
mútua e complementariedade de fungdes. 
Na pratica, a idéia de um governo unificado, para toda a 
comunidade humana, sob duas monarquias, enfrentou, pelo me- 
nos, duas ordens de problemas: em primeiro lugar, o ideal do 
Império Mundial, mesmo que restrito 4 Europa cristd, nunca foi 
plenamente efetivado. Os Sacro-Impérios, criados na Idade Mé- 
dia, sempre conviveram com os reis locais, monarcas nos seus 
reinos e, portanto, detentores de autoridade politico-juridica so- 
bre os seus territérios. Além do mais, as conquistas bárbaras, 
ocorridas entre os séculos IV e XI, fragmentaram o territorio eu- 
ropeu, tornando dificil um governo unificado. Em segundo lu- 
gar, a distribuigdo do poder entre as monarquias papal e imperial 
foi causa de grandes conflitos politicos e de intensas polémicas 
teéricas que marcaram a historia medieval. 
A politica sob a ótica patristica 
Desde os primeiros séculos da era cristd floresceram as idéias 
de que todo poder de governar tem origem divina; que existem 
duas autoridades — a espiritual e a temporal — às quais os homens 
devem cbediéncia; que o governo existe em conseqiiéncia do 
pecado original, cabendo ao governante reprimir o mal e garan- 
tir a paz aqui na terra. 
Nos ensinamentos contidos nas Sagradas Escrituras estão 
os principios que iriam marcar o pensamento politico da Europa 
cristd: o cristdo neste mundo é apenas um viajante, porque “sua 
verdadeira morada é noutro lugar”. O “fermento evangélico” 
prepara um “mundo novo”, possivel desde a Redenção de Cris- 
to, “que se aparta pouco a pouco do dominio do mal” e possibi- 
lita 20 homem chegar à sua verdadeira morada (Chatelet, 1993,
ORIGENS MEDIEVAIS DA DEMOCRACIA MODERNA 
F- 940). O mundo da politica estava subordinado a esta realidade 
mistica, que lhe dava sentido. Era ela que estabelecia os principios 
€ as normas da vida coletiva. As reflexdes biblicas constituiram a 
base das doutrinas desenvolvidas posteriormente pelos padres 
da Igreja. 
A teoria patristica incorporou & sua concepgio sobrenatu- 
ral e escatologica da politica, de orientagdo judaica, o legado 
grego-romano da “lei natural”, segundo o qual existe uma justi- 
¢a universal que governa o mundo e é reconhecida pelos ho- 
mens, através da razão. 
De acordo com os “padres da Igreja”, as leis humanas de- 
vem buscar seu fundamento na lei da natureza, que por sua vez 
tem origem na lei divina — fruto da vontade de Deus e conhecida 
pelos homens por meio da revelagio contida nas Sagradas Escri- 
turas. A lei natural, segundo a patristica, encontrou sua plenitude 
no estado de “inocéncia e simplicidade primitivas em*que vivia 
o homem antes da queda” (Chevallier, 1982, p. 174): estado de 
perfeitas liberdade, igualdade ¢ harmonia entre os seres huma- 
nos e destes com a natureza. Esta ordem natural foi destruida 
pelo pecado, que introduziu a violéncia e a desigualdade. O ho- 
mem decaido necessitou de leis punitivas e de governos coerciti- 
vus a Tim de tornar possivel a paz e a ordem neste mundo. O 
poder politico e a submissdo dos governados (súditos) — ao mes- 
mo tempo castigos e remédios para o pecador — são, assim, dese- 
jados por Deus e “em certo sentido naturais (mas em relagdo a 
uma natureza desviada, decaida)” (Chevallier, 1982, p. 174). 
Santo Agostinhoe o pensamento politico medieval’ 
Santo Agostinho tem sido considerado o maior dos padres 
da Igreja Latina. De sua produção teoldgica, destaca-se De civitate 
Dei, redigida entre 413 e 426. Esta obra representa a prinieira 
grande tentativa de uma interpretação cristd da Histéria. 4 cida- 
de de Deus ¢ formada de duas partes. A primeira, composta de 
dez livros, contém uma grandiosa apologiz do cristianismo e se 
dedica a refutar os argumentos pagdos. A segunda, contendo doze 
livros, constitui uma verdadeira teologia da História. De civitate 
@ Qs comentarios que se seguem sobre o pensamento politico de Santo 
Agostinho tiveram como referéncia a segunda parte de sua obra 4 cida- 
de de Deus. 
A LUNLEFCAL DESCENDENTE E TEOCRATICA DE PODER 21 
Dei, Confessiones, De Trinitate, os Sermões e os Tratados exegé- 
ticos formam o conjunto mais significativo da obra agostiniana. 
Agostinho'nasceu perto de Hipona, na província romana 
de Numídia, na África, em 354 e morreu em 430. Viveu no tem- 
po em que as invasões bárbaras contribuíram para o colapso do 
Império Romano, época em que a Igreja Cristã iniciava sua traje- 
tória de dominação na Europa. 
No seio da Cristandade o ambiente era de grandes debates 
e lutas teológicas. A era das perseguições aos cristãos, desde a 
conversão do Imperador Constantino, no início do século 1V, já 
havia se encerrado, mas iniciara-se um período de confronto com 
as doutrinas “pagãs” e “heréticas”. Dentre elas destacou-se o 
maniqueísmo,' a cuja influência Agostinho não esteve imune, 
chegando a associar-se à seita por um período de nove anos, 
antes de sua conversão ao cristianismo. 
O pensamento do bispo de Hipona é marcado por uma 
perspectiva escatológica, holística, hierárquica e fortemente 
dualista. Partindo do princípio de que a natureza humana é com- 
posta de corpo e alma, ele via o homem, ao mesmo tempo, como 
cidadão do mundo e habitante da cidade celeste. 
A cidade terrena deve sua existência & desobediência pri- 
meva e está ligada aos “impulsos humanos mais baixos”. O pe- 
cado introduziu a desordem e a violéncia, e a fundação da cida- 
de dos homens foi marcada pelo fratricidio cometido por Caim, 
seu fundador.* 
A cidade celeste significa a comunhão com Deus, expres- 
são do mais perfeito Amor. Essas duas realidades da existéncia 
humana não constituem fendmenos histéricos: as “Cidades” têm 
fundamento mistico; o combate entre elas acontece no interior 
* O maniqueismo foi uma seita criada por um “sábio” persa, chamado 
pelos gregos de Mani, que nasceu por volta do ano 215, Os adeptos 
desta seita acreditavam que o mundo estava irreconciliavelmente divi- 
dido entre os reinos da luz e das trevas, o bem e o mal. Os maniqueistas 
praticavam a ascese extrema na busca da luz que os salvaria. 
& Santo Agostinho viu no fiatricidio “o arquétipo do que deveria aconte- 
cer mais tarde: Roma seria fundada e, logo depois, Remo seria assassina- 
do por seu irmdo Rémulo (...) O nascimento da civitas parece estar liga- 
do a uma morte fundamental” (Chtelet e Pisier, 1993, p. 26).
32. ORIGENS MEDIEVAIS DA DEMOCRACIA MODERNA 
do homem. O que Agostinho “tem em vista não são propriamen- 
te duas corporações distintas e visíveis tais como o Estado terre- 
Mo e a Igreja; mas antes duas comunidades inspiradas em atitu- 
des mentais e morais divergentes” (Boehner e Gilson, 197C, p. 197). 
Enquanto a cidade celeste é a parte dos homens que peregrina na 
busca do “supremo bem” na expectativa do juizo final, aqueles 
que se associam pela afeição das coisas temporais formam a ci- 
dade terrena.’ 
“Dois amores fundaram duas cidades, a saber: o amor proprio, 
levado ao desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus, levado 
a0 desprezo de si proprio, a celestial. Glorifica-se a primeira * 
em si mesma, e a Segunda em Deus (...). Uma ensoberbe-se em 
sua gléria e outra diz a Dzus: ‘Sois minha gloria e quem me 
exalta a cabega’. Numa, seus principes e as nagdes avassaladas 
véem-se sob o julgo da concupiscéncia de dominio; noutra 
servem em mutua caridade, os governantes aconselhando, e os 
súditos obedecendo” (De civitate Dei XIV, 28). 
A verdadeira significação da histéria humana estd no com- 
bate entre o bem e o mal, configurado no contraste entre as duas 
“Cidades”. Ambas avangam, mas enquanto uma “sucumbe a dis- 
persdo”, a outra se unifica na “concérdia”. Por mais corrompida 
que esteja a humanidade, segundo o autor de 4 cidade de Deus, 
existe a possibilidade da salvagdo e da felicidade eterna. 
Embora nada autorize afirmar que Agostinho tenha identi- 
ficado as “Cidades” com as instituições existentes, para ele, sem 
dúvida, a Igreja cristd configurou o fato mais importante e deci- 
sivo da “histéria da salvação”, pois gerou a perspectiva ‘concreta 
do desenlace da luta entre o “supremo bem” e o “supremo mal”. 
Mas, se a Igreja, no seu pensamento, assumiu tão importante 
significado, nem por isso considerou o governo temporal como 
um simples apéndice dela. O Império se colocava ao lado da 
Igreja na grande tarefa de condugio da humanidade ao caminho 
da retiddo de Deus. 
As duas “ordens” — a secular e a eclesiastica — desempe- 
nhavam o laborioso trabalho de realização da paz, “suprema as- 
piragdo dos homens”. A paz terrena é a “ordenada concérdia 
A jdéia da oposicdo entre as duas “Cidades™ já havia sido expressa por 
Paulo de Tarso, mas foi somente com Agostinho que ela foi desenvolvi- 
da em toda a sua plenitude. 
A CONCEPCAU DESCENDENTE E TEOCRATICA DE PODER 33 
entre governantes e governados” e a paz celeste é a “ordena- 
dissima e concordissima unido para gozar de Deus e em Deus” 
(De civitate Dei XIX, 13). A paz na terra só pode ser alcangada por 
meio da concérdia. Como a tendéncia dos homens é dividirem-se 
entre si, a virtude do governante consiste em garantir a paz e a 
unido. Mas como alcanga-las? Através da “ordem”, que é a “dis- 
posigdo das diversas coisas no lugar que lhes corresponde” (De 
civitate Dei XIX, 13). A tarefa moral do homem consiste na reali- 
zação dessa ordem; as forgas que a realizam sdo o amor e a liber- 
dade. O homem é um ser dotado de livre-arbitrio e vontade pró- 
pria. A liberdade de sua vontade o faz decidir sobre o objeto do 
seu amor e sobre os seus atos. Tanto a vida espiritual quanto a vida 
material sdo orGenadas de acordo com uma hierarquia de valo- 
res e posigdes. A virtude do homem está em dispor os seus sen- 
timentos e as coisas materiais nos seus devidos lugares. 
A teologia de Agostinho contém um congeito de liberdzde 
individual e de vida coletiva referenciado por uma visão cristd 
do mundo. A liberdade é o exercicio de uma faculdade interior e 
diz respeito à relagdo de cada homem com a divindade. Em sua 
doutrina estd suposta a existéncia de uma ordem preestabelecida 
por Deus que constitui o Bem; o reconhecimento dela, pelo ho- 
mem, é a condigdo de sua salvagdo. O problema da liberdade 
humana consiste na aceitagdo ou na rejeigdo desse Bem: “a von- 
tade que opta pelo mal, torna-se má; a que escolhe o bem, torna- 
se boa” (Boehner e Gilsor, 1970, p. 191). “A vida moral se tra- 
duz, forgosamente, numa seqiiéncia de atos individuais. Cada 
um deles implica uma tomada de posição” (Boehner e Gilson, 
1970, p. 194). A liberdade do homem, portanto, permite-the es- 
celher entre o amor a Deus ou o amor ao gozo terreno; entre a 
salvagdo ou a condenação eternas. Louis Dumont chama a aten- 
ção para a natureza dessa liberdade, diversa da modemna. Segun- 
do ele, numa sociedade holistica como a medieval, o valor da 
pessoa singular e o livre-arbitrio, para fazerem sentido, tiveram 
de se apresentar sob a forma de “individuo fora do mundo”, isto 
é, do “individuo que caminha na terra mas tem o coragdo no 
céu”. Para este individuo, a verdadeira liberdade não diz respei- 
to as coisas deste mundo, e ndo importa que na vida terrena os 
homens ndo sejam livres nem iguais. Na sociedade medieval, “o 
individuo como valor era concebido como alguém situado no 
exterior daorganizag3o social e politica dada, estava fora e aci-
VAISEDO MEDISVAIS DA DEMOCRACIA MODERNA 
ma dela”. A liberdade verdadeira só existe por uma transcen- 
dência, porque diz respeito à relação de cada ser humano com 
Deus (Dumont, 1985, p. 35-62). 
: Para o autor de 4 cidade de Deus, a escolha de cada homem 
:em como conseqiiéncia a salvagdo ou a condenação eternas. 
Emnora este desfecho seja decorrente do uso que cada um faz da 
sua liberdade, nem por isso a vida coletiva deixa de ter importan- 
cia no processo escatolégico. Para Agostinho, as instituições poli- 
ticas têm relevancia por serem um dom de Deus que possibilita 
aos homens realizarem a necessdria concordia aqui na terra. 
O objetivo da vida em sociedade ¢ a realizagio da pazea - 
ordem é o meio de alcangé-la. O ordenamento pressupde a defi- 
nição do lugar e da fungdo de cada coisa. Cada homem, assim 
como cada instituição, deve ocupar o lugar que lhe é destinado, 
de acordo com a vontade divina. Aqueles que ndo se mantive- 
rem ua trangiiilidade da ordem ndo devem escapar ao julgamen- 
to nem ao poder do Ordenador. Somente quando Deus for “tudo 
em ‘*odos”, as soberanias e as dominagdes humanas serão elimi- 
nadas. Enquanto isto não acontece, o escravo deve obedecer ao 
amo ¢ a serviddo ¢ legitima, da mesma forma que a coerção po- 
litica e a submissdo dos súditos são necessérias. 
Na perspectiva agostiniana, a politica tem um significado 
diverso daquele atribuido, pelos gregos, à vida na pólis. Enquanto 
para os antigos a busca da boa sociedade tem como objetivo pos- 
sibilitar ao homem o “bem viver”, para os medievais, o mével da 
ação politica é a paz de Deus. No medievo “a cidade deixa’de ser 
o lugar da felicidade, para transformar-se no da disciplina garanti- 
dora da auséncia de conflito” (Bignotto, 1992, p. 352). 
Agostinho foi considerado por Hannah Arendt o “maior teó- 
rico da politica cristd” (1972, p. 102). Segundo ela, De civitate Dei 
exerceu uma influéncia mais duradoura do que qualquer outra! obra 
nas posteriores doutrinas sobre o governo, na Idade Média. Seu au- 
tor, ao definir a politica como condição necesséria à salvação eter- 
na, colocou-a além do dominio puramente secular. Por uma miseri- 
córdia de Deus, os homens foram dotados de instituições políticas, 
tornando possível ao corpo social ascender a um estado mais próxi- 
mo do ideal divino. À Igreja e ao Império, duas monarquias possui- 
doras da Graça, caberia fundar na justiça a auténtica paz e conduzir 
os homens à sua verdadeira morada: a Morada Celestial. 
A CONCEPÇÃO DE TEOCRÁTICA DE PODER 35 
À medida que Agostinho desenvolve sua teologia da Histó- 
ria na magnifica obra que é A cidade de Deus, vai se esbogando a 
imagem de “um grande drama escrito por Deus e levado & cena 
pela humanidade” {Boehner e Gilson, 1970, p. 281). Esse grande 
tedlogo viveu no ocaso do Império Romano e, a partir dai, a cultu- 
ra cristd, até o século XIII, se moveu referenciada pela sua ótica, 
Com Tomis de Aquino o agostinianismo perdeu a exclusividade, 
mas nem por isso deixou de iluminar toda a Idude Média Crista. 
A doutrina gelasiana e a teoria das duas espadas 
O papa Gelasio I viveu no final do século V. Através de 
uma carta escrita, no ano de 494, ao imperador bizantino Anasticio 
I, ele apresentou uma teoria acerca da distribuigdo do poder e 
das responsabilidades entre a Igreja e o Império. Sua proposta 
tornou-se a base doutrindria dos governos na Idade Média e tam- 
bém fonte de polémicas, sendo usada tanto para defender a su- 
perioridade papal quanto a autonomia real. Tudo indica que 
Gelasio defendia “um sistema de responsabilidade igual e con- 
junta” (Loyh, 1989, p. 163), mas sua terminologia se prestou a 
interpretagdes diversas. Segundo a teoria gelasiana, a Cristanda- 
de caminhava sob a coudugio de duas monarquias distintas, mas 
complementares. A Igreja caberia a responsabilidade da condu- 
ção espiritual e ao Império caberia o encaminhamento das coisas 
temporais. Entre as duas deveria prevalecer o espirito de ajuda 
mútua e de integragdo. 
Na carta ao imperador ele diz: 
*Há principalmente duas coisas, augusto imperador, pelas 
quais este mundo é governado: a autoridade sagrada dos pon- 
tifices e o poder real. Destas duas coisas, os sacerdotes sio 
portadores de uma responsabilidade tanto maior porquanto 
devem prestar contas 20 Senhor até dos atos dos reis, subme- 
tendo-os ao julgamento divino... Deveis curvar uma cabega 
submissa perante os ministros das coisas divinas e... é deles 
que deveis receber os meios-de vossa salvagdo.” Após um 
breve comentirio, Gelsio prossegue: ‘Nas coisas respeitantes 
a disciplina pública, os chefes religiosos entendem que o 
poder imperial vos foi conferido do alto e eles proprios obe- 
decem às vossas leis, temendo parecer que são contrérios à 
vossa vontade nos negécios do mundo’ (Citado por Dumont, 
1985, p. 55). 
36 ORIGENS MEDIEVAIS DA DEMOCRACIA MODERNA 
Louis Dumont aponta para a “distinção hierárquica entre 
auctoritas do sacerdote e a potestas do rei”. Não se trata de sub- 
missão de uma ou outra das monarquias, mas de uma “comple- 
meniariedade hierárquica” (1985, p. 53). 
A teoria gelasiana estava inteiramente dentro da concep- 
ção agostiniana de dualidade da natureza do homem e de suas 
instituições políticas, assim como de ordenação hierárquica da 
socicdade. A identificação da autoridade espiritual com a tem- 
pora' era um principio pagdo que ndo mais tinha razio de ser na 
era cristd. “Os imperadores cristãos necessitavam dos bispos por 
amo: & vida eterna, e os bispos utilizavam a lei imperial para 
organizar o curso dos assuntos temporais” (Sabine, 1964, p. 201). 
A doutrina de Gelasio ¢ um resumo dos ensinamentos pa- 
tristicos e tem inspiragdo no principio dos “dois gládios” — um 
espiritual e outro temporal —, que foi utilizado na Idade Média 
para estabelecer as atribuigdes das duas monarq iias. A formula 
das duas espadas langou mão de uma express3o encontrada no 
Evangelho de São Lucas (22,38) ¢ foi enriquecida por vérios escrito- 
res medievais, tornando-se uma tradição do pensamento politico 
da época. Nessa perspectiva, o que chama atenção é a distingdo 
entre as dimensões temporal e espiritual do governo, em um todo 
unificado e conduzido por duas ordens soberanas — o imperium e o 
sacerdotiu_m — com atribuições e atributos diferentes, mas ccm uma 
mesma missão: a realizagio da von.ade de Deus sobre a terra. 
A dupla monarquia® 
& 
Como ja afirmamos anteriormente, a relação entre as duas 
monarquias soberanas nunca foi isenta de ambigiiidades e pro- 
vocou grandes conflitos politicos, assim como intensas polémi- 
cas tedricas. 
A monarquia eclesidstica 
O papado irrompeu no cenario europeu entre os séculos 
IV_' e V e, na concepgio que se tornou dominante no ocidente 
cristao, converteu-se em “monarquia universal”. 
@ Para caracterizar as monarquias eclesidstica ¢ secular usamos como re- 
ferent:l:a o texto de Ullmann. ULLMANN, Walter. Principios de gobierno 
y politica em la Eded Media. Madrid: Alianza, 1985. 
A CONCEPCAO DESCENDENTE É TEOLRADRLA LR TUA -~ 
O papa era o representante de Deus sobre a terra e seu poder 
não tinha origem terrena, mas sobrenatural. Por isso ele possuia a 
scientia especifica que lhe permitia, de acordo com os principios 
cristãos, conhecer a verdade e as necessidades humanas e “emitir 
a correspondente norma” (Ullmann, 1985, p. 75). Cabia a ele ze- 
lar pelo cumprimento destas normas, eliminando qualquer amea- 
ça herética. Para esse empreendimento, o Sumo Pontifice contava 
com a ajuda do soberano secular para exterminar os hereges. Em 
alguns reinos, a promessa do cumprimento dessa tarefa constituia 
objeto de juramento per parte do rei, no ato de sua coroag3o. 
A plenitudo potestatis papal tinha clara conotação Juridi- 
ca. A Igreja Romana se denominava sedes justitiae. O Papa pos- 
sufa o poder supremo de estabelecer normas e criar direito. Em- 
bora os decretos papais fossem sempre referentesa uma situação 
particular (suas disposigdes vinculatorias se dirigiam a um bis- 
po, ou a uma comunidade), adquiriram validade universal. Se- 
gundo Ulimann: 
“A produgio legislativa do papado medieval alcangou di- 
mensdes para as quais resulta dificil encontrar paralelo em 
outros governos da época. (...} As cartas-decretos papais eram 
simplesmente o que poderia denominar-se teologia aplicada, 
concretamente, ao corpo cristio. (...) O direito papal não era 
outra coisa sendo a transformação da pura doutrina (teolégi- 
ca) em regra de ação obrigatéria” (Ullmann, 1985, p. 71-72). 
A extensão do poder do papa era tal que lhe conferia autori- 
dade para punir aqueles que infringiam as regras por ele emitidas, 
mesmo que em assuntos alheios à religido. Era um poder descen- 
dente e total; abarcava todas as esferas e supostamente o mundo. O 
papa estava autorizado a depor reis e excomunga-los, assim como 
determinar à populagio dos reinos não obedecer-lhe, sob pena de 
censura eclesiastica. Contava entre as suas atribuigdes de supremo 
monarca: confirmar e ratificar tratados, anular pactos, proibir co- 
mércio com pagdos, emitir ordens para confiscar propriedades. 
“O governo papal era um governo sui generis que só pode ser 
apreciado desde sua propria perspectiva. incorporou todos 
os aspectos da concepção teocratica-descendente de gover- 
no e direito, de maneira classica e inalteravel. O conceito de 
‘monarquia chegou assim à maior altura. Era impossivel eleva- 
lo mais” (Ullmann, 1985, p. 98).

Mais conteúdos dessa disciplina