Prévia do material em texto
gico e até biológico), certa propensão a estudar mais cul- tura não material do que a material etc. Convém observar que o positivismo de Lévi-Strauss não foi tão exclusivo como po- deria parecer, à primeira vista, pelo fato de sua explicação ter enveredado pelo inconsciente. No entanto, tudo isso não quer dizer que não haja dife- rença entre uma escola e Esperamos, neste capítulo, dar relevo a tais diferenças de modo a tornar compreensíveis as linhas básicas do estruturalismo e, se possível, evidenciar melhor ainda funcionalismo já visto. Evidentemente, não 1. CONSIDERAÇÕES GERAIS podemos transformar o presente capítulo num ensaio subs- tançioso sobre o tema. Sintomaticamente, quando escrevemos sobre esta escola Nosso objetivo é puramente didático e nos alenta o fato em outro trabalho, em incluímo-la no mesmo capítulo de nossa abordagem ser de alguma forma útil a uma avalia- onde tratamos do funcionalismo. o fato deveu-se, em parte, a ção das várias tendências teóricas na antropologia. circunstâncias particulares; mas é inegável, por outro lado, que julgamos, na oportunidade, o estruturalismo como uma espécie de refinamento do funcionalismo. Ao menos, é for- 2. CONCEITO DE «ESTRUTURA» EM çoso reconhecer que esta escola não se opõe ao funciona- LÉVI-STRAUSS lismo. De certo modo, podemos afirmar que existem muito mais pontos de convergência entre elas do que de discor- Também Radcliffe-Brown fez uso do termo «estrutura». dância. Aliás, este termo é portador de vários significados dentro e De modo superficial, pode-se indicar alguns pontos em fora da antropologia cultural. Quando se fala de estrutura, comum. Primeiro, ambas se constituem em modelos de abor- pensa-se, normalmente, em algo sólido e fundamental, algo dagem que permitem explicar o aspecto sincrônico da cultura; dotado de substância, pouco mutável e básico. A noção de em outras palavras, tanto funcionalismo como o estrutura- estrutura está próxima da de arcabouço, armação ordenada, lismo de Lévi-Strauss defendem a tese da possibilidade de ex- esqueleto de sustentação, forma de disposição sistemática de plicação da cultura e da sociedade sem uma incursão neces- elementos etc. sária na história. Segundo, embora utilizando termos e expli- Para Étienne Wolff não paira sobre o termo «estrutura», cações um tanto diferentes, ambos tomam como ponto fun- em biologia, qualquer dúvida sobre seu sentido. Ela signi- damental o pressuposto de sociedade e cultura formar uma fica apenas «modo em que está construido um ou totalidade e nesta ou através desta se poder e se dever pro- «maneira pela qual as partes de um todo estão dispostas curar a explicação das partes componentes; dito de forma entre si: a estrutura do Esta noção corresponde àque- diferente, ambas as escolas fazem uso de uma análise siste- la mais comum e banal. Qualquer que seja a noção de es- mática. Terceira, têm em comum a marca da tradição fran- trutura nas ciências humanas, ela tem muito desta noção cesa, isto é, trazem em seu bojo algumas características co- acima apresentada. Talvez seja conveniente mostrar como muns: um positivismo mais ou menos acentuado, uma expli- termo começou a ser utilizado na pois foi através cação preponderantemente sociológica (Malinowski não despre desta que ela assumiu maior importância na antropologia. zou este aspecto, mas incorporou também o aspecto psicoló- Sabe-se que Lévi-Strauss bebeu nessa fonte, foi no estrutu- ralismo de Ferdinand de Saussure que ele se inspirou. Por 1. Luiz Gonzaga de MELLO e Aluísio S. ALVES JR. Introdução à Antropologia Cul- tural, 112/121. 2. Uso e Significado da Palavra em Biologia, 15. 262 263 34outro lado, não se pode esquecer que o termo fora empre- Esta longa citação permite esclarecer alguns aspectos fun- gado antes por Radcliffe-Brown num sentido um tanto diver- damentais do posicionamento de Lévi-Strauss. Em primeiro so. Para este autor, estrutura social correspondia à rede de lugar, agora se entende por que dissemos que o estruturalis- relações sociais padronizadas de uma sociedade. Mais adiante mo tem muito em comum com funcionalismo tanto um se verá em que difere seu conceito de estrutura daquele uti- como outro procurou centrar sua visão no aspecto sistêmico, lizado por Por enquanto, vejamos o que diz Ben- que não significa estático. Em segundo lugar, a predileção veniste sobre o termo «estrutura» na de Lévi-Strauss e de seus discipulos pelo termo «estrutura», principio da 'estrutura' como objeto de estudo ao invés de ajudar, de certo modo dificultou o entendimento ficou estabelecido, pouco antes de 1930, por um pequeno da visão estruturalista, isto porque o termo em questão evoca grupo de lingüistas que se propuseram reagir contra a de maneira decisiva a idéia de estabilidade, de consistência, concepção exclusivamente histórica da lingua, contra uma sem desprezar, é verdade, a noção de sistema. Como se verá, lingüistica que dissociava a lingua em elementos isola- ao longo de nossa exposição, as linhas básicas do pensamento de Lévi-Strauss estão, direta ou indiretamente, contidas na dos e se ocupava com seguir suas transformações. Todos noção exuberante de «sistema». A novidade básica da abor- estão de acordo em considerar que este movimento tem dagem straussiana está no fato de ela procurar um refina- sua origem nos cursos de Ferdinand de Saussure, minis- mento da abordagem sistemática na antropologia cultural; tal trados em Genebra, tal como foram coletados por seus refinamento consiste em, metodologicamente, ter Lévi-Strauss alunos e publicados com o de Cours de linguisti- feito uso da epistemologia e da sociologia do conhecimento, que générale... chegando à conclusão de que o fundamental nas relações es- Ao seu ver, a noção essencial é a de 'sistema'. A no- truturais ou sistêmicas permanece de maneira latente. A não vidade de sua doutrina reside nessa idéia, rica em impli- consideração desse ponto pode levar o pesquisador a afundar cações que demorou muito para discernir e desenvolver, no lodaçal da tautologia enganosa das «funções de que a lingua é um sistema. o Cours de Saussure a Para ele, estruturas apenas se mostram a uma observação apresenta como tal, em formulações que é necessário re- feita de fora». Isto mostra que autor estava ciente da difi- cordar: 'a lingua é um sistema que apenas conhece sua culdade de se estudar com objetividade os aspectos sociais da ordem 'a é um sistema convencional de própria sociedade. Ora, paradoxalmente, o laivo de subjeti- lingua é um sistema cujas partes podem e de- vismo que normalmente se percebe na estrutura- vem ser consideradas em sua solidariedade sincrônicas'. lista de Lévi-Strauss deve-se, em grande parte, ao fato de ele E, sobretudo, Saussure afirma a propriedadé do sistema tentar fugir do subjetivismo. Isto é, ele propõe uma noção de sobre os elementos que o compõem: É uma grande ilu- estrutura que não se confunde com a realidade estudada, mas são considerar um termo simplesmente como a união de deve se basear nela. Para ele, a estrutura seria apenas uma um certo som com um certo conceito. Defini-lo assim matriz ou modelo de análise construído a partir da observação seria isolá-lo do sistema de que parte; seria crer que da realidade social. Nisso reside a principal diferença do seu se pode começar pelos termos e construir o sistema so- conceito de estrutura comparado com conceito usado por mando-os; pelo contrário, deve-se partir do todo solidá- Radcliffe-Brown. rio para obter, por análise, os elementos que ele engloba. Será oportuno deixer que o próprio Lévi-Strauss apresen- Esta última frase contém, em princípio, toda a essência te seu pensamento relativo ao conceito de estrutura ou estru- turas. da concepção Mas Saussure sempre se refere ao «O princípio fundamental é que a noção de estru- tura social não se refere à realidade empírica, mas aos 3. BENVENISTE. Estrutura em 24/5. 4. Claude LEVI-STRAUSS. Os Limites do Concelto de Estrutura em Etnologia, p. 38. 264 265modelos construídos em conformidade com esta. Assim que prevista no próprio sistema ou estrutura, outra imprevi- aparece a diferença entre duas noções, tão vizinhas que sível, isto é, imponderável por se dever a acasos e circuns- foram confundidas muitas vezes: a de estrutura social e tâncias exógenas à estrutura. Enquanto entendemos, terceiro a de relações sociais. As relações sociais são a matéria- requisito apresentado pelo autor, referente à previsão, mostra prima empregada para a construção dos modelos que tor- que modelo estrutura só permite prever as transformações, nam manifesta a própria estrutura social... digamos, regulares e jamais irregulares que podem até mo- Pensamos, com efeito, que, para merecer nome de dificar a estrutura. Salvo melhor juízo, percebem-se três níveis estrutura, os modelos devem, exclusivamente, satisfazer a diversos na realidade social: seu funcionamento, as modifi- quatro condições: cações estruturadas e as transformações ou modificações exó- Em primeiro lugar, uma estrutura oferece um caráter genas. Segundo autor, mesmo neste último caso, visto que de sistema. Ela consiste em elementos tais que uma mo- ele não faz restrições à capacidade de previsão do modelo dificação qualquer de um deles acarreta uma modifica- estrutural, a estrutura, quando bem construída, permite prever ção de todos os outros. rumo das transformações. que parece difícil, para não Em segundo lugar, todo modelo pertence a um gru- dizer impossível, é prever as transformações mesmas. Parece po de transformações, cada uma das quais corresponde mais fácil inferir os efeitos dessas transformações quando ti- a um modelo da mesma familia, de modo que con- verem lugar. junto dessas transformações constitui um grupo de mo- Com relação ao quarto critério apresentado pelo autor delos. talvez seja melhor termo parece-nos Em terceiro lugar, as propriedades indicadas acima dispensável, pois é óbvio; afinal, se a estrutura é um modelo permitem prever de que modo reagirá modelo, em caso que procura reproduzir a realidade empírica, ela só merecerá de modificação de um de seus elementos. tal nome quando funcionamento puder explicar todos os Enfim, modelo deve ser construído de tal modo que fatos seu funcionamento possa explicar todos os fatos obser- 3. ESTRUTURA E Como se pode depreender do exposto, nosso autor não identifica a cultura ou a sociedade com uma estrutura social Muito embora Lévi-Strauss tenha criticado duramente a única. Aliás, o próprio conceito de sistema permite realçar Malinowski por seu teoria das caráter, até certo ponto indefinido e impreciso, sem fron- necessidades quer nos parecer que nosso autor também teiras definidas, da realidade social ou cultural. fato de não escapa a um certo «determinismo Ele dá a autor referir-se a estruturas (no plural) está de acordo com entender que as diferenças entre as culturas particulares são a noção de sistema que sempre comporta as noções de sub- apenas superficiais, de pequena monta. As men- sistemas. Todo sistema pode ser um subsistema de um sis- tais seriam universais e estariam por trás de tema maior e mais complexo. Por outro lado, também é ver- dade, todo sistema pode compreender vários subsistemas me- todas as culturas. Seriam elas as responsáveis, em última aná- lise, pelas formas particulares assumidas em cada cultura. nores e mais simples. Esta idéia de complementaridade e de- Nesse aspecto, pode-se dizer que Lévi-Strauss aproxima-se pendência-reciprocidade ou interdependência, como foi dito, já existia subentendida ou não no funcionalismo. que ficou- bastante dos evolucionistas. Parece-nos que a idéia de estru- turas mentais inconscientes de Lévi-Strauss aproxima-se muito claro em Lévi-Strauss é que ele percebeu, por assim dizer, dois tipos de dinâmica na realidade social: uma previsível, por- do conceito de «unidade psíquica da introduzido por Bastian (1826-1935) e adotado pelos A 5. Claude LEVI-STRAUSS. Antropologia Estrutural, 315/6. 6. Lucy MAIR. Introdução à Antropologia Social, p. 26. 266 267 36respeito de modelos conscientes e inconscientes, nosso autor xima de autores como Freud, Marx e Vilfredo Pareto. Quanto acredita que máximo que se pode conseguir com as abor- ao primeiro, é notório o realce dado ao inconsciente que todos dagens tradicionais da antropologia, principalmente o funcio- acalentamos por toda a vida; quanto a Marx, lembrariamos nalismo, é detectar os modelos conscientes, as normas e pa- a teoria da ideologia, o papel da superestrutura. Já com re- drões de comportamento da sociedade. Ele propõe um mé- lação a Pareto, que publicou o seu Trattato di Sociologia Ge- todo capaz de captar os modelos inconscientes responsáveis nerale, em 1915, apresentaremos um trecho que escrevemos pelos modelos conscientes que não passam de efeitos defor- em 1976, a respeito da sua teoria dos residuos e das deri- mados dos primeiros. vações: Veja-se o que ele próprio diz: «Seis são as classes de residuos apresentadas: Classe «Com efeito, os modelos conscientes que se cha- I: instinto das combinações; classe II: persistência dos mam comumente normas incluem-se entre os mais agregados; classe III: necessidade de manifestar com atos pobres que existem, em razão de sua função, que é de externos os sentimentos; classe IV: residuos em relação perpetuar as crenças e usos, mais do que de expor-lhe com a sociedade; classe V: integridade do individuo e de as causas. Assim, a análise estrutural se choca com uma suas dependências; classe VI: resíduos sexuais... Acredi- situação paradoxal, bem conhecida pelo lingüista: quanto tamos que o texto do autor que passaremos a transcrever mais a estrutura aparente, mais dificil torna-se poderá pôr termo às nossas dificuldades quanto à inter- apreender a estrutura profunda, por causa dos modelos pretação do que sejam e derivações: conscientes e deformados que se interpõem como obsta- 'Na discussão sobre as derivações, é capital fato de culos entre observador e seu objeto... que elas não correspondem precisamente aos Mas, quando ele dá toda atenção a estes modelos nos quais têm origem, e de tal fato surgem as principais (conscientes, produtos da cultura indigena, etnólogo dificuldades para constituir-se a ciência social, porquanto está bem longe de esquecer que normas culturais não apenas as derivações nos são conhecidas; e às vezes per- são, automaticamente, estruturas. São antes documentos manece incerto como se pode delas descobrir os residuos para ajudar a descobri-las: documentos brutos, dos quais descendem; o que não aconteceria se as deri- contribuições teóricas, comparáveis às trazidas pelo pró- vações tivessem a indole das teorias lógico-experimen- prio etnólogo. Durkheim e Mauss compreenderam exata- tais... Para reparar um pouco este defeito, importa jun- mente que as representações conscientes dos indigenas tar um grande número de derivações pertencentes ao merecem sempre mais atenção que as teorias proceden- mesmo argumento, e procurar a parte constante, distin- tes como representações conscientes, igualmente da guindo-a da variável'.' sociedade do observador. Mesmo inadequadas, as primei- ras oferecem uma melhor via de acesso às categorias (in- Aliás, a propósito da classificação dos residuos, Bous- conscientes) do pensamento indigena, na medida em que quet chega a afirmar que o próprio autor (Pareto) lhe lhe estão estruturalmente ligadas, Sem subestimar a im- confessara que esta classificação era por demais provi- sória e estava fadada a envelhecer com muita brevidade. portância e o caráter inovador deste passo, deve-se no entanto reconhecer que Durkheim e Mauss não o levarám É fácil compreender esta afirmação, afinal, identificar os adiante, tão longe como residuos já é uma tarefa dificilima. o que sabemos sobre os resíduos é que eles são argumentos 'intuitivos' comuns discernimento do autor entre o nivel de consciência e o a todos os homens de todos os lugares e de todos os de inconsciência, entre modelos conscientes do pesquisa- tempos; talvez pudéssemos dizer que a palavra dor e os modelos conscientes do grupo pesquisado, apro- to' fosse imprecisa devesse ser talvez, por 7. Claude LEVI-STRAUSS. Antropologia Estrutural, p. 318. 8. PARETO. Trattato di sociologia generale, vol. II, 553. 268 269'principios' ou ainda, mais precisamente, por 'estruturas em grande parte, à recepção interdisciplinar da obra de Lévi- mentais inconscientes', utilizando a expressão de Lévi- Refere-se, em seguida, ao estilo elegante do mestre Strauss, mas no sentido geral de 'atividade inconsciente francês, bem como à sua linguagem hermética eivada de do espirito' em oposição ao consciente e so- filosofia que lhe confere uma aura de sacralidade, ao menos, para os antropólogos. Depois de analisar a explicação sobre incesto apresentado por Lévi-Strauss, o professor Roberto que se pode dizer, com certeza, é que a consideração mostra como este autor trata da troca e da reciprocidade na do inconsciente no agir humano é geralmente aceita como sua abordagem. Entre outras coisas, diz professor Roberto: dado importante. que, na verdade, deixa os estudiosos um tanto receosos é a sua operacionalização. Como atingir in- alguns elementos críticos, poderíamos consciente? Eis a questão. Nisto reside paradoxo: a obje- dizer que, se estruturalismo representa a aplicação ao tividade do comportamento humano está em se considerar e sexo do do bem escasso, e só essa aplicação, levar em conta inconsciente camuflado; isto contudo pode sua originalidade estaria fortemente comprometida. Te- levar a um outro subjetivismo, o do pesquisador, que ao cons- ríamos, na melhor das hipóteses, um Lewis Morgan da truir seus modelos de análise pode, simplesmente, fazer uso sincronia, em vez do autêntico da diacronia, mas ambos de seus modelos pré-fabricados pelo próprio inconsciente. Ai voltados para explicações econômicas, 'materialistas', das está ponto mais vulnerável do estruturalismo straussiano. regras do comportamento sexual... Muitas críticas já foram alinhadas contra este procedi- As conclusões do famoso Essai sur le don são bem mento arbitrário de Lévi-Strauss. professor Reinholdo, por conhecidas. Nesse estudo, hoje encarado como clássico, exemplo, indaga: Mauss buscou explicar que a troca nas sociedades pri- mitivas consiste menos em transações econômicas do que até hoje não se conhece o inconsciente, através em presentes recíprocos, que esses presentes recíprocos da psicanálise, como é possivel basear nele os fundamen- têm mais importância nessas sociedades do que na nossa, tos da cultura? É mister precaver-se contra perigo de e que essa forma primitiva de troca não é um fato de inventar em lugar de descobrir estruturas latentes. A ci- natureza meramente econômica, mas constitui o que ência deve ser objetiva e Lévi-Strauss quer primar pela Mauss, com muita propriedade, chama um fato social objetividade. se os fenômenos culturais são me- total... ras aparências, expressões indiretas de uma infra-estru- tura mais fundamental, e se homem pode falar só em Nosso autor crê que principio de reciprocidade sentido metafórico, a respeito dessa essência inconscien- a estrutura fundamental da organização social dos ho- mens manifesta-se nu e cru entre os primitivos. Mas, te, então estruturalista não pode fazer mais do que isso: em forma revestida e elaborada, pode ser pego em fla- ele é também forçado a falar em metáforas conscientes grante agindo também nas sociedades sobre uma realidade professor Roberto é de opinião, e concordamos com o professor Roberto Motta também tece sua em ele, que salto mortal passar disso para a postulação magistral artigo sobre livro de Lévi-Strauss, As Estruturas explícita de estruturas mentais a-históricas de reciprocidade, Elementares do Parentesco, dando-lhe um muito suges- inatas no cérebro tivo: As Estruturas Inúteis: Ponto de Partida da Obra de Lévi-Strauss. Neste artigo, Roberto Motta começa por dizer Uma coisa em que todos, como acreditamos, estão de que «as confusões a respeito do estruturalismo prendem-se, acordo em relação às colocações de Lévi-Strauss é que elas são ecléticas, metafóricas e contestáveis. Por que não seria 9. Luiz Gonzaga de MELLO. Valor das Teorias Sociológicas de Vilfredo Pareto, p. 205/6. 11. Roberto MOTTA. As Estruturas o Ponto de Partida da Obra de Lévi- 10. Reinhold Aloysio ULLMANN. Antropologia Cultural, p. 23/4. Strauss, p. 69, 71. 270 271uma estrutura elementar básica do humano, por exem- plo, o conflito? Por que este seria apenas aparente? No mo- que as incita desesperadamente a resistir a qualquer mo- dificação em sua estrutura, que permitiria à história ir- mento em que se critica a tendenciosidade das estruturas con- cretas e conscientes dos povos estudados, por que os modelos romper em seu seio. As que tinham preservado melhor construidos pelo pesquisador não são também? seus caracteres distintivos, ainda recentemente, aparecem- nos como sociedades inspiradas pela preocupação predo- minante de perseverar em seu ser... 4. CULTURAS FRIAS E CULTURAS QUENTES Em resumo, estas sociedades que se poderiam cha- mar de frias, porque o seu meio interno está próximo do Sabe-se que tratar de sociedades simples ou de pequena zero de temperatura histórica, distinguem-se, por seu efe- escala tem sido uma constante na antropologia. Também tivo restrito e por seu modo mecânico de funcionamento, Lévi-Strauss não fugiu a essa norma. Mesmo porque ele das sociedades 'quentes', aparecidas em diversos pontos próprio acha que é mais fácil detectar as estruturas mentais do mundo após a revolução neolitica, e onde diferencia- inconscientes básicas a partir de sociedades simples do que ções entre castas e classes são solicitadas sem tréguas, no seio das sociedades complexas. Movido pela necessidade como fonte de porvir e de explicar esta preferência, nosso autor tratou em vários es- Como se pode perceber, o estruturalismo de Lévi-Strauss critos sobre problema de cultura e natureza, raça e cultura, é bem diverso do de Karl Marx. Este último apóia-se na his- etnologia e história etc. A impressão que se tem, numa visão tória e chega a valorizá-la, enquanto Lévi-Strauss permanece, de conjunto, é que Lévi-Strauss, ao se preocupar muito em impregnado de saudosismo e supervalo- descobrir as constantes do pensamento humano, findou por rizando a natureza. Lévi-Strauss cultua a dialética da destrui- supervalorizá-lo. Sente-se isso, na medida em que ele iden- ção ou da descaracterização do homem. Marx, por seu turno, tifica a cultura, ao menos na forma assumida em cada so- cultua a história como forma de construir e aperfeiçoar a ciedade particular, como uma espécie de corrupção ou obs- condição Embora o próprio Marx fosse, no fundo, curecimento das estruturas elementares da mente humana. um pessimista também, quando via no mar de conflitos e Em outras palavras, parece que nosso vê a cultura não contradições humanas o poder econômico explorar os fra- como uma epifania da natureza, mas como uma tentativa cos, quando via na superestrutura uma arma em favor dos (também inconsciente) de escamoteá-la ou de racionalizá-la poderosos. Tanto um como outro via nas «normas so- principalmente por parte dos povos ou sociedades complexas. ciais» uma forma de engodo ou de racionalização que visava Assim, até certo ponto, pode-se dizer que nosso autor vê a à preservação do status quo; com uma diferença: o que agra- história como um produto da natureza. No momento em que dava a Marx, desagradava a Lévi-Strauss. ele enaltece a harmonia e sabedoria das culturas dos povos simples chamadas por ele de sociedades frias ou culturas Apesar da simplificação com que foi apresentado o pro- frias ele aproxima-se muito do bom selvagem de Rous- blema, ele não é tão simples assim. Sabe-se que a diferença seau. Até parece que Lévi-Strauss é partidário da teoria da entre sociedades «frias» e sociedades «quentes» não pode se involução ou decadência da humanidade afinal, as socie- explicar pelas estruturas mentais inconscientes nem pela pró- dades «quentes» dotadas de histórias ou inseridas na roda pria estrutura concreta que Lévi-Strauss visa atingir. Lidamos viva da história afastam-se cada vez mais da ordem «na- com fatos: padronização e desvio. Tanto nas sociedades frias tural», boa»... como nas quentes há o comportamento desviante. Como diz professor Souto: conceito de desvio normalmente é emi- Eis alguma coisa sobre este ponto do próprio autor: nentemente relativo; cada norma social, qualquer que seja, é «Inseridas na história, essas sociedades (frias) pare- desviante em relação a outra que de algum modo a con- cem ter elaborado ou retido uma sabedoria particular, 12. Claude LEVI-STRAUSS. Antropologia Estrutural Dois, p. 36. 272 273 39tradiga, e Quer nos parecer que pro- rente. Pois quando se procura mudar a cultura sempre se re- blema entre sociedades frias e quentes está em que uma é corre a categorias do espirito, consciente ou simples e a outra, complexa, uma, tem um controle centra- mente. Muito sugestiva a estorinha relatada por Sahlins: lizado e a outra, um controle difuso. Quer dizer que, na apa- rência de harmonia das sociedades simples, há uma intole- pouco antes dos eventos de maio de 1968, tive rância acentuada que proibe meio termo. Inversamente, oportunidade de assistir a um debate informal entre um numa sociedade complexa há, desarmonia e membro americano do Tribunal Ruddel que, passando desordem, mas há lugar para mais tolerância e respeito à por Paris de volta de Compenhague, tinha ouvido falar pessoa. que ingresso das sociedades frias na da moda estruturalista dos seus colegas franceses e deira da história» decorre do aumento mesmo do número de um antropólogo parisiense. Depois de longo questiona- membros nas várias sociedades levando-as a adotar modelo mento e discussão, americano sintetizou seus pontos burocrático de que fala Max Weber. Não acreditamos nas ex- de vista desta forma: 'Tenho um amigo, disse ele, que plicações simples e deterministas. Preferimos, antes, uma ex- está fazendo um estudo sociológico das estátuas eqües- plicação pluralista. o aumento do contingente populacional tres no Central Park. É uma espécie de estruturalismo. só se tornou possivel com uma maxiutilização dos recursos Ele encontra uma relação direta entre status cultural naturais por meio de um aprimoramento tecnológico. Em do cavaleiro e número de pernas que cavalo tem le- suma, se necessário fosse optar por uma qualificação da his- vantadas. Uma perna suspensa tem uma conotação po- tória em termos de qualidade, que a história é um lítica e histórica diferente de um cavalo empinando-se processo de aprimoramento humano. Mas que realmente nas pernas traseiras ou de outro em galope voador. É acreditamos é que a história deve ser vista como uma reali- claro que tamanho da estátua também faz diferença. dade «dialética», se se preferir, no sentido que ela é a um problema é que, concluiu ele, as pessoas já não cor- tempo produto e agente, agente e produto: ela deriva da rem mais a cavalo. As coisas que são obsoletas numa potencialidade humana mas concorre decisivamente para sociedade, sem dúvida, essas você pode estruturar. Mas aumento das potencialidades humanas. A forma atual de uma os problemas e econômicos não estão decididos cultura é apenas uma forma possivel, não a única que po- e a decisão dependerá de forças e de recursos reais'. deria ter assumido. antropólogo parisiense pensou sobre assunto um Nessa perspectiva, tanto o estruturalismo de Lévi-Strauss momento. verdade, disse finalmente, as pessoas já como de Marx parecem úteis ao estudo da cultura, da rea- não correm mais a cavalo. Mas elas ainda constroem es- lidade histórica e humana. Seus métodos são válidos, mas as suas conclusões nem sempre o são, por se tornarem tenden- ciosos. que se pode dizer é que as mudanças e as transfor- mações não são a negação da estrutura, mas é a própria 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS confirmação de que ela existe. Por outro lado, pode-se dis- cutir se Lévi-Strauss conseguiu ou não detectar estruturas Nossa posição frente às várias orientações teóricas da (modelos de análise) capazes de prever ou explicar as mu- antropologia tem sido a mesma, desde muito tempo. Acredi- danças; mas não se pode negar que os modelos estruturais tamos que, não obstante os rótulos utilizados, os vários mo- as superestruturas tenham a missão de apenas inibir as delos de análise têm muito mais em comum do que diver- mudanças e transformações sócio-culturais. Diriamos que a gências. As várias abordagens apresentam um caráter com- subversão da natureza ou da estrutura é, muitas vezes, apa- plementar. Todas oscilam entre universal e particular, entre cultura como fenômeno universal e culturas particula- 13. Cláudio SOUTO. Teoria Sociológica Geral, 86. 14. Marshall SAHLINS. Cultura e Razão Prática, p. 31. 274 275 40res, entre natureza e cultura, entre natureza e história, entre misturar as várias abordagens. o valor de cada abordagem estrutura e mudança, entre o padrão das ciências exatas e o está seu conjunto. 0 que vale dizer, o funcionalismo, o das ciências humanas, entre o mundo natural e o mundo estruturalismo, a escola americana e o evolucionismo são construído pelo homem. No final das contas, na maioria das bons quando considerados como um sistema de análise. Con- vezes, as várias abordagens procuram atingir mesmo obje- tudo, todos passam a desejar, no momento em que se tentar tivo percorrendo caminhos diversos. Alguém poderia objetar tomar categorias de cada um numa mesma análise ou pes- que tal posicionamento torna-se muito cômodo, porém muito quisa. Nada impede, contudo, que o pesquisador numa mes- ambíguo. De qualquer forma, é possível perceber que as dife- ma pesquisa faça várias abordagens diferentes de um mesmo renças metodológicas variam de acordo com o aspecto do problema. Aliás, tal procedimento é até aconselhável. Em objeto concreto de estudo. o que vale para a realidade so- suma, embora a ciência não se confunda com o senso cial a visão do fato social total vale também para a mum, ninguém faz ciência com proveito sem uma boa dose avaliação das várias abordagens. o estruturalismo é um tanto de bom senso. generalizante e, por vezes, um pouco impreciso, exatamente, por se propor uma compreensão ampla da realidade cultural. Exigir mais dele é pedir mais do que ele pode dar. Ao con- trário, a escola americana pode descer às particularidades da cultura, porque a ela interessa explicar a sociedade ou a cul- tura particular e simples. E assim por diante. Com relação ao estruturalismo de Lévi-Strauss, reitera- mos o que já dissemos, é louvável e proveitoso o realce que ele dá à visão globalizante do fenômeno cultural, salientando o caráter «gestáltico», total. Muito importante também o ter mostrado que o significado das partes depende dessa tota- lidade, ou seja, não são as partes que explicam o todo, mas este que as pode explicar. A analogia do jogo para explicar esse mecanismo cultu- ral também se apresenta muito estimulante. Não menos es- timulante é o sistema de trocas na sociedade, trocas de bens materiais, de mulheres e de palavras. Não admira a tomada de empréstimo à lingüistica do modelo estruturalista, afinal o idioma ou a lingua é também um produto cultural; como o é também a atividade econômica. Não resta dúvida que o siste- ma de troca é universal, como também a reciprocidade. Ocorre que, como diz o povo, nada de novo existe sob sol. Esta idéia já está implicita no funcionalismo e em toda tradi- ção do pensamento sociológico francês. Isso não desmerece as colocações estruturalistas. Por outro lado, um ponto há que se destacar. Torna-se perigoso a mistura de modelos de abordagem antropológica. Tal mistura resultará, com certeza, num verdadeiro pandemô- nio teórico. o pesquisador há de ter a sensibilidade de não 276 277 41