Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

A inclusão do debate sobre a consciência política e histórica da 
diversidade, as matrizes africanas e indígenas da cultura brasileira, o 
fortalecimento de identidades e de direitos dos afrodescendentes e 
indígenas, o conceito de afro-brasileiro e indígena. Ações educativas 
de combate ao racismo e às discriminações. Trabalho, cultura e 
resistência negra e indígena no Brasil. Cultura africana, sincretismo e 
miscigenação. Brasil/África e a formação do Atlântico Negro. A 
diversidade na educação. 
 
 Introdução 
 
Antes de tudo é importante saber que a escravidão existiu em todas as civilizações e 
em todas as culturas. A diferença se dava na base de sustentação do processo, no 
caso das Américas, a diferença entre raças foi o critério utilizado para respaldar esse 
feito. 
 
A expansão das Américas alterou a forma como os africanos viviam a escravização, 
visto que entre eles esta prática já existia. Os povos vencidos em guerras se tornavam 
escravos de seu oponente e às vezes eram até comercializados em rota existente no 
deserto do Saara. 
 
O tráfico de africanos realizado pelos europeus, além de trazer esta atividade para o 
mar, intensificou tal prática, onde se contabiliza aproximadamente a vinda de 11 
milhões de negros vitimados em guerras, ou simplesmente capturados para essa 
viagem de muita dor e sofrimento, que marcava o início de uma árdua trajetória. 
 
Degredado de sua terra, o negro foi obrigado a deixar para traz todos seus pertences, 
costumes, parentesco, ancestralidade e também a condição de ser humano e sua 
dignidade. A viagem já anunciava o que esperar da vida na nova terra e os desafios 
a serem enfrentados dentro de um cenário de silenciamento e total exclusão dos 
direitos. 
 
“‘Estamos em pleno mar... Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas… 
Era um sonho dantesco… o tombadilho 
Que das luzernas avermelha o brilho. 
Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros… estalar de açoite… 
Legiões de homens negros como a noite, Horrendos a dançar…” 
Castro Alves 
 
Castro Alves (1868), após quase duas décadas da promulgação da Lei Euzébio de 
Queiroz, que proibia o tráfico de escravos, em setembro de 1850, concluiu seu poema 
muito famoso, retratando as mazelas vividas pelos escravos dentro do navio 
negreiro. 
 
O terror dos momentos vividos durante a travessia entre o continente Africano e as 
Américas eram terrivelmente horrorosos e desumanos. Marcado com sangue, suor, 
lágrimas, gemidos de dor, dor do corpo, dor da alma, em se sentir impotente frente 
à condição cruel que lhes tirava a condição de humanidade. 
 
O poeta encontrou nas palavras, uma forma de denunciar que a lei não teria sido 
suficiente para acabar com a prática de comercialização de africanos, a qual apenas 
menos da metade, aproximadamente, chegava com vida ao destino final. 
 
O tráfico negreiro durou o período dos séculos XV ao XIX, e no Brasil se intensificou 
a partir da necessidade de mão de obra, nas plantações de açúcar e desde então, nas 
outras atividades comerciais desenvolvidas como ciclo do ouro e da agricultura. 
 
Atualmente no Rio de Janeiro, uma parte desta história considerada a mais dolorosa 
do Brasil, pode ser encontrada no “Memorial dos Pretos Novos”, onde foram 
sepultados durante o período 1769 a 1830 negros escravizados que terminavam as 
viagens doentes, fracos ou até mesmo mortos. 
 
As pesquisas arqueológicas estimam que foram enterrados entre 20 a 30 mil 
africanos, foram encontrados 5 mil fragmentos arqueológicos no local e 28 corpos 
identificados a partir dos ossos que não foram cremados, como sendo de pessoas 
entre 18 e 25 anos , sendo a maioria do sexo masculino. 
 
Após a proibição do tráfico negreiro, o cemitério foi fechado e quase esquecida a 
memória que ele conserva, pois no período de urbanização da cidade foi encoberto 
por cimento. A existência do Memorial dos Pretos Novos se torna relevante para 
garantir que essa história não seja esquecida. 
 
Agora, saiba mais sobre o Memorial Pretos Novos! 
A demanda por trabalhadores revela outra mazela desse período, que foi a forma, a 
qual o povo indígena que já habitava essa terra foi dizimado. 
 
A chegada dos europeus e o modo como se estabeleceram nas terras brasileiras, 
primeiramente batizadas pelos nativos de “Pindorama”, interferiu de forma 
desfavorável na vida dos índios. Estes foram subalternizados e colocados para 
realizar os trabalhos pesados, inclusive nas lavouras. 
 
Os indígenas tinham o costume de produzir para o próprio sustento, diferente de ter 
que plantar para além do necessário e com uma rotina de trabalho intensa 
estabelecida. Ainda de acordo com sua cultura esse era um trabalho destinado às 
mulheres, se tornando esse um dos motivos pelos quais foram rotulados como 
preguiçosos. 
 
O amplo conhecimento do espaço geográfico, também contribuiu para que a mão 
de obra indígena se tornasse escassa, facilitando as fugas para a mata fechada. Ainda 
nos dias de hoje existe registro de tribos que vivem sem contato com a civilização. 
As doenças trazidas pelos portugueses foi outro aspecto que contribuiu para o 
extermínio dos indígenas, pois, levava-os a morte. Acrescenta-se a esta lista de 
fatores, o fato de os jesuítas[1] dificultarem a escravização dos índios pelos 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftn1
colonizadores para que os mesmos fossem catequizados, apesar disso, eles também 
utilizavam da mão de obra escrava dos nativos. 
 
Mesmo com o enfraquecimento do ciclo da cana de açúcar a mão de obra escrava 
continuou sendo utilizada pelos portugueses pois, ampliaram a exploração das terras 
coloniais através da extração do ouro. É oportuno destacar, que para essa atividade 
os escravos africanos serviam para realizar o trabalho pesado e também para aplicar 
as técnicas superiores de extração de ouro que possuiam. 
 
Em 1850 por forte pressão internacional, foi criada a Lei Euzébio de Queiroz nº 581, 
em 4 de setembro, que deferia sobre a extinção do tráfico negreiro. Este foi o 
primeiro evento rumo à liberdade dos negros escravizados. Contudo, a promulgação 
dessa legislação não foi suficiente para que o comércio de escravos da África para o 
Brasil chegasse ao fim e essa atividade continuou acontecendo de forma clandestina. 
 
O fato da legislação não surtir efeito imediato após sua criação, deu origem a 
expressão popular “para inglês ver”, e esta só começou a se efetivar a partir da 
década de 1870 com a intensificação da fiscalização no espaço marítimo. Com o 
enfraquecimento da mão de obra escrava, o país se buscou incentivar a entrada de 
trabalhadores imigrantes, especialmente de origem europeia. 
 
Surgiram outras legislações importantes como a Lei do Ventre Livre, de 1871 que 
garantia a liberdade dos filhos dos escravizados nascidos após sua promulgação. A 
Lei dos Sexagenários, de 1885, que garantia a liberdade à população negra com mais 
de 65 anos, sendo essas conquistas do povo escravizado no caminho rumo à 
liberdade, que se oficializou em 1888, com a promulgação da Lei Áurea. 
 
 
[1] Jesuítas padres da Companhia de Jesus criada em 1534 pelo padre Inácio de 
Loyola e foi oficialmente reconhecida pela Igreja a partir do papa Paulo III em 1540. 
Divulgavam o cristianismo a partir ensino da catequese, com o objetivo de alcançar 
o mundo impedindo o crescimento do protestantismo. A participação da ordem no 
período colonial foi fator que interferiu significativamente no processo de 
constituição da nação, principalmente no tocante a questão religiosa. 
Liberto ou livre 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftnref1
 
“Houve sol, e grande sol,naquele domingo de 1888, em que o Senado votou a lei, que 
a regente sancionou, e todos saímos à rua. Todos respiravam felicidade, tudo era 
delírio” Machado de Assis 
 
A felicidade descrita pelo autor, nem de longe retrata o cenário no qual a abolição 
da escravidão no Brasil foi extinta. O regime escravista já não se sustentava com o 
avanço do capitalismo, a pressão internacional, as articulações sociais 
protagonizadas por abolicionistas e negros libertos ou refugiados, foram aspectos 
que impulsionaram a promulgação da Lei Áurea. 
 
O Brasil foi o país que mais importou negros escravizados, e a partir dessa prática 
consolidou suas estruturas sociais dificultando o processo de abolição, pois, a nação 
dependia da mão de obra escrava. A esta situação atribui se o fato do Brasil ter sido 
a última na nação a criar uma lei para abolir a escravidão. 
 
Segundo Martins (2017, p.45) os longos anos de escravização do povo negro, 
construiu um estereótipo de que este era um povo sem alma, sem voz, sem cultura, 
que só serviam para exploração da mão de obra. Nesse sentido, fica evidente que ao 
se pensar a promulgação da lei, não houve a preocupação de como seria a vida dos 
negros após garantirem a liberdade. 
 
Para Schwarcz (2012, p.19) “[...] após a Abolição, a liberdade não significou 
igualdade”, isso porque não foi se quer pensada uma política pública de moradia, 
saúde, educação e trabalho para o povo liberto. Muito pelo contrário a grande 
preocupação se concentrava em como os donos de escravos se ressarciriam desse 
prejuízo e exigiam dessa forma uma indenização da coroa. 
 
O processo como se deu a libertação dos negros escravizados interferiu e interfere 
no desenvolvimento da sociedade brasileira até os dias atuais. Não recebendo 
nenhum tipo de indenização, os senhores donos de escravos expulsaram de suas 
terras e casas os negros libertos e estes por sua vez caíam num abandono e numa 
miséria ainda maior do que a que já vivenciavam. Agora, a fome e o abandono 
caminham lado a lado com a “alegria da liberdade”. 
 
A abolição não libertou a mentalidade da camada elitista do país e nem provocou 
mudança na estrutura da organização social, justificando a ausência do pensamento 
de igualdade denunciado por Schwarcz (2012). Explicitamente não havia interesse 
em que a população negra alterasse sua posição social, permanecendo na condição 
de subjugada. 
 
Algumas estratégias foram colocadas em prática para que o desejo de manutenção 
do status quo[1] se concretizasse apesar da abolição. A primeira delas foi criar leis que 
criminalizavam a população negra, atribuindo lhes mais uma característica, a de 
criminoso, reforçando seu lugar numa posição social subalterna. 
 
“Em 1889, um ano após a abolição, ocorreu a Proclamação da República, ainda em 
Governo provisório, e foi criado o novo Código Penal (1894), que previa a redução da 
maioridade penal de 14 para 9 anos, e demarcava, assim, as desigualdades raciais, 
(pré) determinando penalizações, que afetavam, principalmente, os meninos negros. 
Publicações de Nina Rodrigues16 sobre criminalidade, em finais do século XIX, como: 
“As raças humanas e criminalidade penal no Brasil” (1894), “Negros criminosos” (1895), 
“Mestiçagem, degenerescência e crime” (1899), apresentam teses que fortaleciam os 
ideais políticos discriminatórios, ao defenderem a degenerescência dos negros e 
mestiços e tendências ao crime. (Martins, 2017, p.45) 
 
Martins (2017) apresenta publicações que comprovam a visão violenta sobre o negro 
e traz também a questão da degenerescência, pensamento esse que teve como um 
dos principais representantes o cientista Nina Rodrigues e consistia em defender que 
o cruzamento entre raças humanas diferentes acarretaria na perda da qualidade da 
espécie, e que grupos raciais não se desenvolvem igualmente. 
 
A degenerescência se encontra no campo das teorias raciais e estava apoiada 
equivocadamente no pensamento do médico e naturalista inglês Robert Charles 
Darwin (1809-1882), que no século XIX provocou grande revolução no campo da 
biologia com sua Teoria da Evolução Natural, que consistia num estudo de evolução 
das espécies da fauna e da flora sobre a adaptação ao meio ambiente. 
 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftn1
Todavia, alastravam-se interpretações da Teoria da Seleção Natural como análise do 
meio social, onde povos que se consideravam civilizados, acreditavam com suas 
concepções preconceituosas e racistas que deveriam dominar outras culturas mais 
“atrasadas” e assim levar-lhes desenvolvimento e civilização. Esse foi um movimento 
que contribuiu com a importação do termo raça da ciência para sociologia, como 
forma de reconhecer a hierarquização das raças. 
 
[...] o conceito de raças “puras” foi transportado da botânica e da zoologia para 
legitimar as relações de dominação e sujeição entre as classes sociais (nobreza e plebe), 
sem que houvesse diferenças morfobiológicas notáveis entre os indivíduos pertencentes 
a ambas as classes. (MUNANGA, 2004, p. 17). 
 
Sendo assim, o conceito racial desenvolvido pela ciência passou a ser utilizado para 
classificar seres humanos e estabelecer as relações sociais de acordo com a 
ancestralidade, características físicas dos diferentes grupos, interferindo também nas 
relações de classes. 
 
Mesmo com a ciência afirmando que não existe diferença biológica entre raças, 
negando dessa forma a superioridade e inferioridade da espécie humana em relação 
ao aspecto racial, as estruturas sociais e as relações de poder seguem exibindo os 
reflexos negativos dessa teoria. 
 
Segundo Munanga (2004, p.22) 
 
Se na cabeça de um geneticista contemporâneo ou de um biólogo molecular a raça 
não existe, no imaginário e na representação coletivos de diversas populações 
contemporâneas existem ainda raças fictícias e outras construídas a partir das 
diferenças fenotípicas como a cor da pele e outros critérios morfológicos. É a partir 
dessas raças fictícias ou “raças sociais” que se reproduzem e se mantêm os racismos 
populares. 
 
Atualmente o Dicionário de Conceitos Históricos apresenta a existência de duas 
ideias sobre o conceito de raça no Brasil. Sendo uma, “[...] que tende a considerar a 
inexistência de diferenças raciais, esvaziando a ideia de raça como conceito [...]”, e a 
outra, está vinculada ao “[...] imaginário social, para o qual raça é uma realidade, ainda 
que o discurso dominante nesse imaginário seja o da miscigenação” (SILVA; SILVA, 
2006, p.346). 
 
O debate racial no Brasil ainda é um tema complexo para ser discutido mesmo apesar 
de vir ganhando ampla visibilidade no cenário político, econômico e social. O enredo 
ao qual a ideia da miscigenação foi apresentada a sociedade desde então, vem se 
atualizando e naturalizando através de diferentes mecanismos fazendo com que seu 
efeito se perpetue nas variadas esferas das relações sociais. 
 
 
 
[1] Status quo: expressão originada do latim que significa “estado atual”. Seu 
significado está relacionado ao estado dos fatos, das situações e das coisas, 
independente do momento. O termo status quo é geralmente acompanhado por 
outras palavras como manter, defender, mudar e etc. 
 A formação da Consciência do Povo Brasileiro 
 
Assim como acontece na infância do indivíduo, existem experiências que provocam 
danos em nossas estruturas que carregamos por toda vida. Assim, a leitura realizada 
até aqui permite perceber problemas sérios desde o inicio da colonização do país. 
 
O reconhecimento das diferenças inferiorizantes entre índios e negros em relação ao 
europeu chancela a valorização do mundo ocidental, forçando o apagamento desses 
povos através da negação da própria cultura, 
 
“Os portugueses, sabendo que era impossível mudar as características físicas desses 
seresconsiderados inferiores, apostaram em provocar mudanças em suas culturas” 
(MUNANGA, GOMES, 2010, p. 14). 
 
A presença majoritária de índios, negros e mestiços no território brasileiro atraia 
olhares e opiniões negativas provenientes da comunidade internacional acerca do 
futuro do país. Acreditava-se que o fato de ser uma nação composta por um grupo 
racial considerado inferior, as chances de se tornar um país desenvolvido e civilizado 
eram mínimas. 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftnref1
 
A partir dessa perspectiva surgiu a tentativa de branquear o país através de leis e de 
teorias raciais. O Decreto de nº 528, de 8 de junho de 1890, pouco após a abolição 
evidencia uma dessas ações ao declarar que: 
 
Art. 1º É inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos indivíduos válidos 
e aptos para o trabalho, que não se acharem sujeitos à ação criminal do seu 
país, excetuados os indígenas da Ásia, ou da África que somente mediante 
autorização do Congresso Nacional poderão ser admitidos de acordo com as condições 
que forem então estipuladas.( Grifos nossos) 
 
O povo não branco deixou de ser bem vindo ao país quando começou- se a pensar 
no Brasil como nação e não como uma terra a ser explorada, demonstrando o início 
da historia de exclusão, que vem acompanhando esses grupos raciais até os dias 
atuais. 
 
Contudo, a legislação não foi suficiente para alterar a composição da população, 
mesmo com estatísticas feitas por estudiosos, como o antropólogo João Batista 
Lacerda (1911), que defendia a ideia de que em cem anos já não existiriam negros e 
mestiços no país. 
 
O branqueamento da nação foi apoiado na teoria de hierarquização das raças, tendo 
o branco ocidental como um projeto de ideal de homem civilizado, onde quanto 
mais as características raciais de índios, negros e mestiços são dissolvidas e 
assimiladas às do homem branco, melhor sua possibilidade de alterar posição e 
relações sociais. 
 
Segundo Bento (2002, p.1), 
 
“Na descrição desse processo o branco pouco aparece, exceto como modelo universal 
de humanidade, alvo da inveja e do desejo dos outros grupos raciais não brancos e, 
portanto, encarados como não tão humanos.” 
 
O não reconhecimento de outras culturas e modos de ver o mundo, apresentando 
uma forma hegemônica de civilização, reforça a inferioridade dos grupos raciais não 
brancos, interferindo na construção da identidade desse povo e consequentemente 
da nação. 
 
Ideias variadas foram colocadas sobre a questão racial do país, mas nenhuma delas 
estava pautada no princípio de igualdade. Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), 
citado anteriormente como autor de obras que criminalizavam os negros, foi um dos 
principais nomes nacionais a defender as teorias racistas europeias, expressando um 
pensamento eugenista[1] e conservador. Segundo Munanga, “[...] o processo de 
formação da identidade nacional no Brasil recorreu aos métodos eugenistas, visando 
o embranquecimento da sociedade.” (2008, p.15). 
 
Outro personagem de destaque a disseminar uma teoria sobre a questão racial no 
Brasil foi Silvio Romero (1851-1914) que defendia a contribuição da raça branca no 
processo de mestiçagem. Contrário à ideia de degeneração da nação, Romero via na 
mistura racial um futuro ocidental e próspero, uma vez que a superioridade branca 
iria sobrepor às demais raças. 
 
Era preciso solucionar a questão do “problema racial” que estava posto, se não era 
possível exterminar ou branquear a pele era preciso branquear a alma “[...] 
principalmente pela assimilação dos valores culturais do branco” (MUNANGA, 2012, 
p. 38). 
 
O mito da democracia racial foi outra teoria estratégica e eficaz para solucionar o 
“problema” racial de branquear o Brasil interna e externamente, pois, cuidou de 
harmonizar as relações sociais entre a população, bem como modificar a imagem e 
expectativa de desenvolvimento negativa que a comunidade internacional tinha do 
país. 
 
[...] a elite “pensante” do País tinha clara consciência de que o processo de 
miscigenação, ao anular a superioridade numérica do negro e ao alienar seus 
descendentes mestiços graças à ideologia de branqueamento, ia evitar os prováveis 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftn1
conflitos raciais conhecidos em outros países, de um lado, e, por outro, garantir o 
comando do País ao segmento branco [...] (MUNANGA, 2008, p.75) 
 
Gilberto Freyre (1900 - 1987) sociólogo pernambucano foi um dos grandes 
responsáveis por propagar e consolidar o pensamento do mito da democracia racial. 
Essa teoria defendia a ideia de que no Brasil não existia diferenças entre raças e que 
as relações sociais se desenvolviam em perfeita harmonia, negando a presença de 
discriminação. 
 
O mito da democracia racial cumpre o papel de incutir no consciente da população 
a integração das raças, corroborando de alguma forma com a ideia de Romero, no 
tocante a positividade da miscigenação. 
Numa espécie de negociação, aspectos culturais das raças em outro momento 
inferiorizadas, passaram a fazer parte do cenário nacional harmonioso. O samba, a 
capoeira, a feijoada e a beleza indígena, foram incorporados e evidenciados de forma 
positiva como componentes valorosos de uma sociedade igualitária que só poderia 
ser encontrado aqui, no Brasil. 
 
Segundo SCHWARCZ (2012, p. 68), 
 
“[...] nesse movimento de nacionalização uma série de símbolos vão virando mestiços, 
assim, como uma alentada convivência cultural miscigenada se torna modelo de 
igualdade racial” (grifos nossos). 
 
O mestiço ganha destaque e se transforma em um símbolo de identidade 
brasileira, gerando orgulho a população por atrair olhares curiosos sobre uma 
sociedade onde raças diferentes convivem de forma pacífica. 
 
Para Carlos Hasemberg (1992), a democracia racial foi uma poderosa ideologia 
utilizada para excluir as diferenças raciais do cenário político e reprimir a demanda 
dos negros por igualdade. 
 
Já Munanga (2008, p. 77) revela um olhar mais profundo ao destacar a perversidade 
dessa teoria a partir do impacto causado na própria consciência da população não 
branca, encobrindo sua condição com um discurso de convivência harmônica. 
 
[...] o mito da democracia racial, baseado na dupla mestiçagem biológica e cultural 
entre as três raças originárias, tem uma penetração muito profunda na sociedade 
brasileira: exalta a ideia de convivência harmoniosa entre os indivíduos de todas as 
camadas sociais e grupos étnicos, permitindo às elites dominantes dissimular as 
desigualdades e impedindo os membros das comunidades não brancas de terem 
consciência dos sutis mecanismos de exclusão da qual são vítimas na sociedade. 
 
A propagação de uma ideia de convivência harmoniosa, a exposição positiva de 
alguns aspectos culturais e das belezas naturais provocaram em toda população um 
sentimento de pertença, impedindo que percebessem que esse pensamento só 
garantia a manutenção das posições sociais. 
 
Gilberto Freyre em sua obra Casa Grande e Senzala muda o foco das questões 
biológicas e se volta à propagação da imagem de mestiçagem cultural mesmo com 
a diferença entre as raças. 
 
[...] ao tratar da identidade nacional em termos culturais, Freyre esvaziou a discussão 
em torno da desigualdade social e racial, idealizando uma sociedade sem conflitos, 
unindo casa grande e senzala, sobrados e mocambos, escravos e senhores, negros e 
brancos, todos formando a unidade nacional. (GERMANO, 1999, p.45) 
 
Corroborando com Germano (1999), Martins (2017, p.50) afirma que, 
 
“a partir da mestiçagem, dificultou a luta contra a discriminação racial, pois ao não 
reconhecer que o Brasil era um país racista, não era necessáriocriar mecanismos legais 
para o combate do racismo. Ou seja, a convivência cultural miscigenada tornava-se 
sinônimo de igualdade racial.” 
 
O movimento agora estava concentrado em unir as diferenças da população e 
combiná-las na composição de um cenário harmonioso e não destacá-las, 
hierarquizando-as. A igualdade racial de fachada, segundo Cavalleiro (1998), diminui 
o cuidado em promover uma “convivência multiétnica” e propicia um ambiente de 
tratamento das diferenças subsidiado no preconceito. 
 
Segundo Meira (2019, p.59) 
 
“O projeto de branquear a nação brasileira, assim como o “mito da democracia racial”, 
são vistos, pelos estudiosos, como prejuízo a todos os envolvidos nesse processo, pois 
são pilares que originam o racismo na sociedade brasileira”. 
 
Atualmente mesmo com a exposição da democracia racial de fachada, a perversidade 
que ela provoca é visivelmente percebida num olhar superficial em nossa sociedade, 
pois continua afastando a ideia da existência da desigualdade, que assola a 
população negra, indígena e miscigenada do país, que continuam ocupando as 
posições sociais inferiores e tendo oferta de politicas públicas de baixa qualidade. 
 
 
 
 
[1] Eugenismo: Ideia criada e propagada por Francis Galton, em 1883. Defendia que 
o conceito de seleção natural de Charles Darwin, seu primo, também poderia ser 
utilizado com seres humanos. Buscava comprovar que a capacidade intelectual era 
hereditária, justificando dessa forma a exclusão da população negra, imigrantes 
asiáticos e deficientes de todos os tipos. 
Nos últimos anos a temática racial 
Introdução 
 
Nos últimos anos a temática racial vem sendo amplamente debatida no Brasil. 
Mesmo com esta exposição, trata-se de um assunto delicado que causa 
constrangimento e evidencia pensamentos e ideias que muitas pessoas escondem 
ou sequer reconhecem dentro de si. 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftnref1
 
Por muito tempo a história do povo indígena e africano escravizado, foi invisibilizada 
e desvalorizada no processo de constituição da nação, de forma que este povo era 
sempre retratado em condições sociais, biológicas e intelectuais subalternas ao do 
homem branco. 
 
O processo de colonização e pós-colonização que subsidiou as bases estruturais de 
nossa sociedade, evidenciou o etnocentrismo[1] reforçando-o com teorias raciais 
que reverberam e trazem graves consequências a população brasileira até os dias 
atuais. 
 
Muitas foram as lutas travadas para que a contribuição do negro e indígena no 
desenvolvimento da sociedade brasileira fosse reconhecida e que a partir desse 
reconhecimento esta ação se desdobrasse em políticas públicas de acesso à 
educação, saúde, moradia entre outras. Pois, mesmo com o fim da colonização, no 
Brasil, não se pensou de que forma as pessoas que deixariam a condição de escravas 
passariam a ter uma vida digna de cidadão brasileiro. 
 
Atualmente com a promulgação da Lei 10.639/03 alterada pela Lei 11.645/08, que 
trata da obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena nos 
estabelecimentos de ensino públicos ou privados e ampliou-se a possibilidade de 
debates e discussões sobre o tema, promovendo aprendizagem e desenvolvimento 
de uma consciência crítica dessa temática que tratada de forma velada pela 
sociedade em nosso país. 
 
[1] Etnocentrismo: O etnocentrismo é um termo que designa o sentimento de 
superioridade que uma cultura tem em relação a outras. Consiste em postular 
indevidamente como valores universais os valores próprios da sociedade e da cultura 
a que o indivíduo pertence. Ele parte de um particular que se esforça em generalizar 
e deve, a todo custo, ser encontrado na cultura do outro. 
 
Nesse percurso conheceremos um pouco mais sobre a história da escravidão no 
Brasil, às teorias raciais e a proposta de uma educação antirracista para que 
possamos contribuir com a construção de uma sociedade mais justa e democrática 
para todos os seus filhos. 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftn1
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftnref1
Tecendo uma nova história 
 
A resistência dos povos negros, indígenas e mestiços não parou nas teorias e nem 
em seus mecanismos de naturalização e atualização. Orientados pelo contexto de 
politicas públicas percebe-se a evolução no tratamento da questão racial no país, 
embora se reconheça que ainda há necessidade de avançar no tocante a ações de 
reparação a estes povos. 
 
1950_ 1ª declaração da UNESCO sobre raça na tentativa de esclarecer cientificamente 
o que é aceito sobre o conceito de raça e também um repúdio ao racismo. 
 
1951_Lei Afonso Arinos proibia a discriminação racial no país, a diferença entre raças. 
 
1970_ Atuação do Movimento Negro para implementação de políticas públicas de 
ação afirmativa[1]. 
 
1980_ Criação dos Conselhos de Participação da Comunidade Negra. 
 
1987 _ Instituiu o Programa Nacional de Abolição da Escravatura. 
 
1988_ Constituição Federal de 1988, art.5º,§42, prevê a prática do racismo como 
crime inafiançável e imprescritível. 
 
1989_ Lei 7.716, conhecida como Lei Caó, determinava como crime a discriminação 
racial e a intolerância religiosa com prévia penalização. 
 
1990 _ Instituição da Secretaria Estadual de Defesa e Promoção das Populações 
Negras; Marcha Zumbi Contra o Racismo. 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftn1
 
1995 _ Criação do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI), por Fernando Henrique 
Cardoso. 
 
1996 _ Promulgação da Lei de Diretrizes e Bases Nacionais para Educação, trazendo 
no art. 26,§4º, a determinação do Ensino da História do Brasil, considerando a 
contribuição das diferentes culturas e etnias para a formação do povo brasileiro, 
especialmente os índios, negros e europeus. 
 
2001 _ Conferência de Durban, na África do Sul, no ano de 2001, promovida pela 
ONU (Organização das Nações Unidas), onde o Brasil participou como signatário[2]. 
 
2002 _ Programa Nacional de Ações afirmativas; Programa Nacional de Direitos 
Humanos II, que inclui medidas de combate à discriminação. 
 
2003 _ Alteração do art. 26 A da Lei de Diretrizes e Base da Educação nº 9394/96, 
instituindo a obrigatoriedade da historia e da cultura afro-brasileira e africana no 
ensino fundamental e médio; 
 
Institui ainda: 20 de novembro no art.79b, como Dia Nacional da Consciência Negra. 
 
Organizações das Nações Unidas (ONU), institui 21 de março como o Dia 
Internacional Contra a Discriminação Racial. 
 
Criação da Secretaria de Políticas Públicas de Promoção da Igualdade Racial da 
Presidência da República. 
 
2004 _ Aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações 
Étnicos - Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. 
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftn2
 
Criação da Secretaria de Educação Continuada e Alfabetização e Diversidade 
(SECAD). 
 
2008 _ Alteração da Lei 10639/03 pela Lei 11.645/08, incluindo o ensino da cultura 
indígena. 
 
2012 _ A Lei 12.711 de 2012, chamada Lei das Cotas, define que as Instituições de 
Ensino Superior vinculadas ao Ministério da Educação e as instituições federais de 
ensino técnico de nível médio devem reservar 50% de suas vagas para as cotas. 
 
A Lei 12.990/14, reserva de vagas para negros em concursos públicos. 
 
Implantação do serviço 24 horas DISQUE 100, para denuncias contra direitoshumanos e racismo. 
 
O percurso das principais políticas públicas apresentado demonstra os resultados 
das lutas em prol dos povos negros, indígenas e mestiços, tendo como responsáveis 
ativistas de movimentos sociais, pessoas comprometidas com a justiça social e 
garantia dos diretos humanos. 
 
A importância de cada marco é imensurável, mas destaca-se entre eles, a atuação do 
Movimento Negro que ocupou o lugar de principal protagonista na luta pela 
igualdade e garantia de direitos do povo negro, que ao ressignificar o conceito de 
raça no Brasil como uma construção social, consegue segundo Gomes (2012): 
 
(...) indagar a própria história do Brasil e da população negra em nosso país, constrói 
novos enunciados e instrumentos teóricos, ideológicos, políticos e analíticos para 
explicar como o racismo brasileiro opera não somente na estrutura do Estado, mas 
também na vida cotidiana das suas próprias vítimas. Além disso, dá outra visibilidade 
à questão étnico-racial, interpretando-a como trunfo e não como empecilho para a 
construção de uma sociedade mais democrática, onde todos, reconhecidos na sua 
diferença, sejam tratados igualmente como sujeitos de direitos. (GOMES, 2012, p. 731). 
 
A perspectiva de reinterpretar a questão étnico-racial como um trunfo inaugurado 
pelo Movimento Negro e sua articulação política junto a outros atores que se 
sensibilizavam pela causa, acarretou no aumento da visibilidade a esse debate, 
possibilitou o inicio de um processo de reconhecimento à contribuição do povo 
negro na formação da nação e expôs a incidência negativa da forma como a questão 
racial vinha sendo tratada, na vida, no dia a dia dessa população, como afirma 
Gomes a seguir: 
 
Ao politizar a raça, esse movimento social desvela a sua construção no contexto das 
relações de poder, rompendo com visões distorcidas, negativas e naturalizadas sobre 
os negros, sua história, cultura, práticas e conhecimentos; retira a população negra do 
lugar da suposta inferioridade racial pregada pelo racismo e interpreta 
afirmativamente a raça como construção social; coloca em xeque o mito da democracia 
racial. (GOMES, 2012, p.731). 
 
Colocar em xeque o mito da democracia racial e toda perversidade que se confere a 
sua apropriação está sendo fundamental para ampliação dos debates que permeiam 
as questões raciais como construção da identidade, empoderamento, 
representatividade, pertencimento e outros desdobramentos provocados por sua 
ampla expansão e efetividade. 
 
Assim como o Movimento Negro, a Conferência de Durban, na África do Sul, no ano 
de 2001, promovida pela ONU (Organização das Nações Unidas), foi essencial, pois, 
reforçou as condições para implementação de ações afirmativas no âmbito das 
políticas educacionais e práticas escolares. 
 
Neste evento o Brasil apresentou a proposta de um programa de cotas para 
estudantes negros nas universidades públicas brasileiras e gerou muita controvérsia. 
Apesar disso, a chamada “Declaração de Durban” motivou diversas ações aqui no 
Brasil, sendo uma delas a inclusão do critério de autodeclaração de cor/raça nas 
entrevistas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 
 
A Lei, n°10.639 promulgada em 9, de janeiro de 2003, que tornou obrigatório o 
ensino da História da Cultura afro-brasileira, bem como de História da África e dos 
Africanos, nos estabelecimentos de ensino públicos e privados no Brasil, foi resultado 
dessa articulação. 
 
A promulgação da lei 10639/03, tornou a LDB/96 a primeira Lei de Diretrizes e Bases 
brasileira a incorporar a questão racial e é a partir desse aporte legal que as variadas 
iniciativas para implementá-la ganham lugar no espaço escolar. Formação de 
professores para diversidade étnico-raciais, formulação e distribuição de materiais 
didáticos, projetos educativos, fóruns e debates relacionados ao tema são ações que 
ajudaram na realização dessa etapa. 
 
A Lei 10.639/03 objetiva provocar uma alteração no sentido e na concepção da escola 
vigente, para Gomes (2007, p.106) ela projeta uma “ação específica voltada para um 
segmento da população brasileira com um comprovado histórico de exclusão, de 
desigualdades de oportunidades educacionais e que luta pelo respeito à diferença”. 
 
Em 10 de março de 2008, a Lei 11.645/08 altera a Lei 10.639/03, incluindo o ensino 
da cultura indígena em seu texto, visando reconhecer e valorizar esse outro grupo 
por sua contribuição histórica econômica e cultural, assim como a do negro apagada 
pelo currículo etnocêntrico. É o que aponta o parágrafo 1 do artigo 26-A da lei 
11.645/08: 
 
§ 1º O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da 
história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir 
desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a 
luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e 
o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições 
nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. (BRASIL, 2008.). 
 
Certamente essa legislação é um marco que fortalece a representação da questão 
étnico-racial nos currículos e programas de ensino. A euforia dessa conquista no 
âmbito da legislação escolar se justifica a partir de estudiosos que afirmam ser este 
um poderoso território de disputa e de poder. 
 
Santos (2011, p.9) afirma que o “currículo e seus dispositivos de poder e controle” é 
uma das principais estratégias para que as heranças culturais dos afro-brasileiros 
sejam silenciadas e privilegiando o modelo de civilização ocidental com o objetivo 
de “preservar nossa ascendência europeia”. 
 
Segundo Sacristán (2001, p.147), “o currículo reflete o conflito entre interesses dentro 
de uma sociedade e os valores dominantes que regem os processos educativos”. 
 
Corroborando com ambos, Cavalleiro (2003) enfatiza a escola como reprodutora do 
silêncio social sobre a temática racial, atuando dessa forma como mantenedora dos 
mecanismos de exclusão e discriminação racial. 
 
Arroyo (2011) em sua obra intitulada “Currículo Território de Disputa”, sinaliza novos 
comportamentos que tem interferido na produção e organização dos currículos das 
instituições. Novamente a participação dos movimentos sociais aparece 
protagonizando o que Arroyo (2011) denomina “novidade”. 
 
Segundo o autor, primeiramente os movimentos vem pressionando a escola para 
que suas narrativas sejam contempladas no currículo oficial. Posteriormente destaca 
a mudança de entendimento dos movimentos no sentido de que a afirmação social 
como sujeitos de direitos não se faz unicamente via escola, mas também na ocupação 
de outros espaços, produzindo dessa forma conteúdo, resultado das lutas para que 
componha o currículo oficial. 
Políticas Públicas de Ações Afirmativas são medidas especiais de políticas públicas 
e/ou ações privadas de cunho temporário ou não. Este tipo de ação visa uma 
reparação histórica de desigualdades e desvantagens acumuladas e vivenciadas por 
um grupo racial ou étnico, de modo que essas medidas aumentam e facilitam o 
acesso desses grupos, garantindo a igualdade de oportunidade. Entender de forma 
ampla e consciente as Ações Afirmativas é também questionar o passado, efetivar o 
presente e planejar o futuro de forma consciente. Disponível em: 
[2] País signatário: Quer dizer que a nação subscreveu a algum tipo de manifesto, 
contrato, acordo, carta ou outro documento com o qual concorda com o conteúdo 
apresentado e assina se comprometendo com o mesmo. 
https://acoes-afirmativas.ufsc.br/
https://acoes-afirmativas.ufsc.br/
file:///C:/Users/Nicholas/AppData/Local/Temp/E-book_História%20e%20cultura%20afro-brasileira,%20africana%20e%20indígena%20(CAI).doc%23_ftnref2
Fios para nova história“Numa sociedade racista NÃO basta não ser racista é necessário ser antirracista” 
Ângela Davis 
 
Na direção de outra faceta da história de constituição da nação, visando considerar 
a contribuição e valorização dos povos negro, indígena e mestiço nesse processo, a 
proposta de uma educação antirracista desponta para além de uma orientação 
pedagógica como uma nova postura que reflete uma concepção mais democrática 
de vida em sociedade. 
 
Um marco legal regulatório como a Lei 10.639/03 por si, a presença da questão racial 
nas propostas pedagógicas e o aumento da produção literário-didática, dentre 
outros, não é suficiente para alcançar o que realmente se deseja como proposta de 
uma postura antirracista. 
 
Entende-se por essa postura crenças, políticas, movimentos, ações que se opõem ao 
racismo, cujo principal objetivo é contribuir para que as pessoas não tenham que 
enfrentar discriminação com base na raça e vivam numa sociedade que promove e 
respeita a igualdade. 
 
Para uma prática antirracista efetiva faz-se necessário superar o desafio de 
descolonizar o currículo que perpassa, principalmente, por romper com o 
silenciamento praticado nos espaços escolares. Segundo Gomes (2012, p.105) 
 
[...] a discriminação racial se faz presente como fator de seletividade na instituição 
escolar e o silêncio é um dos rituais pedagógicos por meio do qual ela se expressa. Não 
se pode confundir esse silêncio com o desconhecimento sobre o assunto ou a sua 
invisibilidade. É preciso colocá-lo no contexto do racismo ambíguo brasileiro e do mito 
da democracia racial e sua expressão na realidade social e escolar. O silêncio diz de 
algo que se sabe, mas não se quer falar ou é impedido de falar. 
 
A autora continua afirmando que esse silêncio precisa ser indagado na busca de 
saber o motivo pelo qual não se fala. E destaca a importância dessa ação, pois, ao 
falar o “outro” é questionado e provocado a pensar, discutir e se posicionar sobre o 
assunto. 
 
Para Gomes (2012) a promulgação da Lei 10.639/03 abre a possibilidade de romper 
com as estruturas no campo “curricular e epistemológico”, inaugurando um diálogo 
intercultural. Em sua visão romper com o silêncio na perspectiva desse diálogo é o 
primeiro desafio para uma educação antirracista. 
 
Outro desafio posto seria a formação de professores, rompido o silêncio e a 
visibilidade, o desconhecimento da temática na perspectiva de uma educação 
antirracista tem sido amplamente questionado pelos movimentos sociais, com o 
objetivo de desconstruir estruturas que subsidiam práticas engessadas, que não 
criticam a realidade, não fazem uso do dialogo intercultural, não produzindo dessa 
forma uma educação democrática. 
 
A importância da mudança de postura da escola em relação ao tipo de educação 
ministrada aos seus sujeitos se ancora no fato da instituição escolar ser um espaço 
importante de construção do conhecimento na perspectiva da valorização e 
reconhecimento das três raças que originaram nossa sociedade. 
 
Candau (2003, p. 24) afirma que “[...] o cotidiano da escola é palco de diferentes 
relações sociais e reflete a diversidade cultural presente na sociedade [...]”, sendo 
assim é também o espaço onde as primeiras discriminações são expostas. É na escola 
que o sujeito lida de frente com os estereótipos inferiorizantes que marcam os 
fenótipos e a cultura não branca, a falta de representatividade e o silenciamento 
através de um currículo etnocêntrico, que insiste em sobrepor um tipo de cultura, 
inferiorizando outras. 
 
O conhecimento sobre as relações étnico-raciais era adquirido a partir da 
participação em movimentos sociais ou eventos ligados a instituições fora do espaço 
escolar. Hoje com a legislação vigente tem se a oportunidade de evidenciar essa nova 
ideologia nos palcos da escola, através dos livros e publicações que já atualizaram o 
conteúdo para a perspectiva de educação antirracista, filmes, documentários, 
debates, teatros e tantas outras estratégias que são comuns no âmbito da escola. 
 
Nesse contexto, o professor ocupa um papel fundamental, segundo Meira (2019), a 
formação dos professores aparece como objeto das principais pesquisas sobre a 
temática e mesmo quando a pesquisa contempla outro recorte dentro do tema racial, 
a importância da formação dos professores aparece como pano de fundo. Frente 
essa demanda várias ações foram organizadas para implementação efetiva da Lei 
10.639/03 nas escolas. 
 
Em 2004 foi homologada e publicada as Diretrizes Curriculares Nacionais Para o 
Ensino das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da Historia e da Cultura Afro-
brasileira e Africana (DCNERER), documento orientador das práticas pedagogas de 
ensino, contendo informações importantes sobre este conteúdo e sobre o histórico 
que justifica a criação da Lei 10.639/03. 
 
O documento traz em seu texto a perspectiva de ação da escola, bem como ressalta 
a importância desse espaço como sendo propício para “a educação das relações 
étnico-raciais que impõe aprendizagens entre brancos e negros, trocas de 
conhecimentos, quebra de desconfianças, projeto conjunto para construção de uma 
sociedade justa, igual, equânime” (Brasil, 2004, p.15). 
 
Toda sua estrutura se baseia na construção de uma identidade nacional heterogênea, 
buscando garantir o reconhecimento de todos os que contribuíram para a formação 
da nação, o conhecimento e desconstrução das teorias raciais, revelando como se 
reverberam até hoje no inconsciente imaginário nacional. 
 
Para orientar a construção de ações na perspectiva da educação antirracista ou 
educação para as relações étnico-raciais, o documento explicita alguns princípios a 
serem observados: 
 
- Consciência política e histórica da diversidade; 
 
- Fortalecimento de identidades e de direitos; 
 
- Ações educativas de combate ao racismo e a discriminações. 
 
Nos desdobramentos de cada principio é notável o convite à mudança de postura, 
dos modos de pensar e conceber a realidade de nosso país, não só por parte de 
indivíduos, mas também das instituições. 
 
Associado as DCNERER foi elaborado sob a coordenação da Secretaria de Educação 
Continuada, Alfabetização e Diversidade (SECAD), o Plano Nacional para 
Implementação das Leis 10639/2003 e 11645/2008, tendo a “finalidade intrínseca a 
institucionalização da implementação da Educação das Relações Etnicorraciais, 
maximizando a atuação dos diferentes atores por meio da compreensão e do 
cumprimento das” referidas legislações (Brasil, 2009, p.16), visando auxiliar dessa 
forma no enfrentamento dos desafios encontrados na etapa de implementação. 
 
Muitas ações direcionadas aos diferentes níveis de ensino foram ofertadas como 
politicas públicas afirmativas como exposto a seguir: 
 
[...] formação continuada presencial e a distância de professores na temática da 
diversidade Etnicorracial em todo o país, publicação de material didático, realização de 
pesquisas na temática, fortalecimento dos Núcleos de Estudos Afro-brasileiros (NEAB`s) 
constituídos nas Instituições Públicas de Ensino, através do Programa UNIAFRO 
(SECAD/SESU), os Fóruns Estaduais e Municipais de Educação e Diversidade 
Etnicorracial, a implementação da Comissão
 Técnica
 Nacional
 de
 Diversidade
 para
 
Assuntos
 Relacionados
 à
 Educação
 dos
 Afrobrasileiros
(CADARA), as publicações 
específicas sobre a Lei dentro da Coleção Educação Para Todos, a inserção da discussão 
inclusão e diversidade como um dos eixos temáticos da Conferência Nacional da 
Educação Básica, a criação do Grupo Interministerial para a realização da proposta do 
Plano Nacional de Implementação da Lei 10639/03, participação orçamentária e 
elaborativa no Programa Brasil Quilombola, como também na Agenda Social 
Quilombola, participação na Rede de Educação Quilombola, além de assistência 
técnica a Estados e Municípios para a implementação das Leis 10639/2003e 
11645/2008 [...] (Brasil, 2009, p.21-22). 
 
Demais ações como ampla distribuição de cartilhas das DCNERER, disponibilização 
do livro Orientações e Ações para Educação das Relações Etnicorraciais, publicado 
pelo MEC/SECAD em 2006, O Programa Diversidade na Universidade, a oferta de 
formação continuada presencial de professores e educadores organizada pelo 
Programa UNIAFRO, coordenado pelos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB), 
distribuição de títulos da coleção títulos da Coleção Educação para Todos 
(SECAD/UNESCO). Destaque para o programa A Cor da Cultura, muito acessado por 
educadores, desde 2004 produz e divulga produtos audiovisuais, ações culturais e 
coletivas que visam práticas positivas, valorizando a história sob a perspectiva de 
uma proposta de educação afirmativa. 
 
Todas essas ações e muitas outras que não foram citadas aqui compõem o plano 
responsável pelo largo espaço que a questão étnico-racial vem alcançando nos 
debates políticos, econômicos e sociais e sua ampla visibilidade nas mídias e 
propostas educativas. 
 
A luta por esse debate é tão complexa que mesmo com toda exposição da produção 
teórica e cultural em favor do reconhecimento da população negra, indígena e 
mestiça, a perversidade das ideologias raciais atuam no consciente da população que 
percebe a questão sendo amplamente exposta e atribuem essas importantes 
conquistas ao de que “ser preto está na moda”. 
Considerações Finais 
 
Uma das principais conclusões que podemos chegar é sobre o tamanho do desafio 
que a sociedade brasileira ainda tem para tentar reparar os danos causados pelo 
longo processo de exclusão e privação dos direitos da população indígena, negra e 
mestiça. As mazelas causadas a esses povos oriundas da forma a qual foram inseridos 
no processo de colonização, reverberam sobre sua situação econômica, política e 
social até os dias de hoje. 
 
A dominação e extermínio dos povos indígenas, o controle e exploração de suas 
terras, são batalhas presentes no cotidiano, demonstrando resquício de um 
pensamento presente no consciente da elite pensante do Brasil desde o inicio de sua 
constituição. Os mecanismos de dominação se atualizam na falta de políticas 
públicas de proteção, conservação, programa de saúde e educação específicos para 
o efetivo atendimento à população e principalmente, a ameaça e exploração de 
terras demarcadas, gerando conflitos violentos e banho de sangue. 
 
Quanto aos descendentes dos africanos, que foram escravizados e trazidos ao Brasil, 
continuam sendo perseguidos e vitimados em guerras justificadas pela violência de 
um sistema que criou no consciente da sociedade a imagem estereotipada do negro 
criminoso, com baixa capacidade intelectual e aparência estética inferior por suas 
características fenotípicas diferentes. 
 
As teorias raciais do branqueamento e do mito da democracia racial ainda estão 
presentes e provocam efeitos substanciais na vida desses povos, bem como dos 
miscigenados. O racismo instaurado nas estruturas sociais do país se reverbera em 
variadas situações do cotidiano, naturalizadas e atualizadas por mecanismos que 
acompanham a evolução dos tempos. 
 
A permanência do discurso de igualdade racial de fachada ganha força quando os 
próprios discriminados, sob influência do pensamento coletivo incutido pelas teorias 
raciais, não se reconhecem como vítimas de um sistema excludente que culpabiliza 
o individuo por não conseguir alterar sua posição social, enfraquecendo dessa forma 
a consciência política necessária para a luta por igualdade. 
 
Contudo não podemos deixar de reconhecer importantes conquistas alcançadas a 
fim de superar e desconstruir essa realidade constituída a partir de uma imagem de 
subalternação e falta de oportunidades, graças às lutas e enfrentamentos 
protagonizados pelos movimentos sociais, em especial o movimento social negro e 
os demais atores sociais comprometidos com a causa da justiça social. 
 
A ressignificação do conceito de raça biológica para um conceito cunhado a partir 
da ideia de raça como uma construção social foi um importante passo para fortalecer 
o pensamento sobre a base racista presente na estrutura de nosso país, forçando 
uma abertura na agenda para elaboração de políticas de afirmação. 
 
A inclusão da temática racial contemplada pelas Leis 10.639/03 e posteriormente 
pela 11.645/08, como obrigatoriedade nas escolas de ensino fundamental e médio e 
também a inclusão da temática nos cursos de formação de professores, foi outra 
conquista em larga escala para a luta em favor do reconhecimento e valorização da 
contribuição de todas as culturas no processo de constituição da nação. 
 
As referidas legislações inauguram o conhecimento da realidade apagada pelos 
currículos hegemônicos que contemplavam somente conteúdos que elegiam a 
civilização europeia branca como modelo de sociedade. Lança luz a história de 
negação da cultura, da religiosidade e da ancestralidade dos povos negros e 
indígenas, provocando a sociedade a refletir e se posicionar frente à questão racial. 
 
Outro aspecto importante resultante da promulgação das Leis 10.639/03 e 11.645/08 
é a proposta concreta de uma educação antirracista na perspectiva de combater o 
silenciamento do ensino da temática racial nas instituições, trazendo consigo a 
expectativa de que ao se inteirar dos novos conhecimentos, os professores possam 
apresentar uma mudança de postura no tratamento do combate ao preconceito e 
ao racismo.