Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

1 
 
Direitos da Personalidade - Silvio de Salvo Venosa 
 
Segundo M.ª Helena Diniz: “São direitos subjetivos da pessoa de 
defender o que lhe é próprio, ou seja, a sua integridade física 
(vida, alimentos, próprio corpo vivo ou morto, corpo alheio vivo 
ou morto, partes separadas do corpo vivo ou morto); a sua 
integridade intelectual (liberdade de pensamento, autoria 
científica, artística e literária) e sua integridade moral (honra, 
recato, segredo pessoal, profissional e doméstico, imagem, 
identidade pessoal, familiar e social). 
 
Para a satisfação de suas necessidades, o homem posiciona-se em 
um dos pólos da relação jurídica: compra, empresta, vende, contrai 
matrimônio, faz testamento etc. Desse modo, em torno de sua 
pessoa, o homem cria um conjunto de direitos e obrigações que 
denominamos patrimônio, que é a projeção econômica da 
personalidade (Diniz, 1982:81). 
 
Contudo, há direitos que afetam diretamente a personalidade, que 
não possuem conteúdo econômico direto e imediato. A 
personalidade não é exatamente um direito; é um conceito básico 
sobre o qual se apoiam os direitos. 
 
Há direitos denominados personalíssimos porque incidem sobre 
bens imateriais ou incorpóreos. A Escola de Direito Natural 
proclama a existência desses direitos, por serem inerentes à 
personalidade. São, fundamentalmente, os direitos à própria vida, 
à liberdade, à manifestação do pensamento. A CF/88 enumera 
uma série desses direitos e garantias individuais no art. 5º. 
2 
 
Cada vez mais na sociedade avulta de importância a discussão 
acerca do direito ao próprio corpo, sobre a doação e o transplante 
de órgãos e tecidos, matéria que também pertence a essa classe de 
direitos. Da mesma forma se posiciona o direito à natalidade e a 
seu controle, temas que tocam tanto o Direito como a Economia, 
Filosofia, Sociologia e religião. 
 
Como acentua Antônio Chaves (1982, t. 1, v. 1:491), esses direitos 
da personalidade ou personalíssimos relacionam-se com o Direito 
Natural, constituindo o mínimo necessário do conteúdo da própria 
personalidade. Diferem dos direitos patrimoniais porque o sentido 
econômico desses direitos é absolutamente secundário e somente 
aflorará quando transgredidos: então será pedido substitutivo, qual 
seja, uma reparação pecuniária indenizatória, que nunca se 
colocará no mesmo patamar do direito violentado. 
 
No dizer de Gilberto Haddad Jabur (2000:28): “os direitos da 
personalidade são, diante de sua especial natureza, carentes de 
taxação exauriente e indefectível. São todos indispensáveis ao 
desenrolar saudável e pleno das virtudes psicofísicas que 
ornamentam a pessoa”. 
 
Desse modo, não há que se entender que nossa lei, ou qualquer lei 
comparada, apresente um número fechado para elencar os direitos 
da personalidade. Terá essa natureza todo o direito subjetivo 
pessoal que apresentar as mesmas características. 
3 
 
Aponta Guillermo Borba (1991, v. 1:315) que, pela circunstância 
de os direitos da personalidade estarem intimamente ligados à 
pessoa humana, possuem os seguintes característicos: 
a) São inatos ou originários porque se adquirem ao nascer, 
independendo de qualquer vontade; 
b) são vitalícios, perenes ou perpétuos, porque perduram por toda 
a vida. Alguns se refletem até mesmo após a morte da pessoa. Pela 
mesma razão são imprescindíveis porque perduram enquanto 
perdurar a personalidade, isto é, a vida humana. Na verdade, 
transcendem a própria vida, pois são protegidos também após o 
falecimento; são também imprescritíveis; 
c) são inalienáveis, ou, mais propriamente, relativamente 
indisponíveis, porque em princípio, estão fora do comércio e não 
possuem valor econômico imediato; 
d) são absolutos, no sentido de que podem ser opostos erga 
omnes. Os direitos da personalidade são, portanto, direitos 
subjetivos de natureza privada. 
 
Diz-se que os direitos da personalidade são extrapatrimoniais 
porque inadmitem avaliação pecuniária, estando fora do 
patrimônio econômico. As indenizações relativas a ataques desses 
direitos como danos de índole moral, são substitutivo de um 
desconforto, mas não se equiparam à remuneração. Apenas no 
sentido metafórico e poético podemos afirmar que pertencem ao 
patrimônio moral de uma pessoa. São irrenunciáveis porque 
pertencem à própria vida, da qual se projeta a personalidade. 
4 
 
Geralmente, os direitos da personalidade decompõem-se em 
direito à vida, à própria imagem, ao nome e à privacidade. Os 
direitos de família puros, como por exemplo, o direito ao 
reconhecimento da paternidade e o direito a alimentos, também se 
inserem nessa categoria. 
 
O novo CC trata desses direitos no Capítulo II (arts. 11 a 21). 
Esses princípios devem orientar a doutrina e o julgador, pois 
pertencem, em síntese, aos princípios gerais de direito. No sentido 
do que expusemos neste tópico, o art. 11 abre o tema: “Com 
exceção dos casos previstos em lei, os direitos da personalidade 
são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício 
sofrer limitação voluntária.” A lei refere-se apenas a três 
características desses direitos, entre as apontadas: 
intransmissibilidade, irrenunciabilidade e indisponibilidade. 
 
Os direitos da personalidade são os que resguardam a dignidade 
humana. Desse modo, ninguém pode, por ato voluntário, dispor de 
sua privacidade, renunciar à liberdade, ceder seu nome de registro 
para utilização por outrem, renunciar ao direito de pedir alimentos 
no campo de família, por exemplo. 
 
Há, porém, situações na sociedade atual que tangenciam a 
proibição. Na busca de audiência e sensacionalismo, já vimos 
exemplos de programas televisivos nos quais pessoas autorizam 
que sua vida seja monitorada e divulgada permanentemente; que 
sua liberdade seja cerceada e sua integridade física seja colocada 
em situações de extremo limite de resistência etc. 
5 
 
Ora, não resta dúvida de que, nesses casos, os envolvidos 
renunciam negocialmente a direitos em tese irrenunciáveis. A 
sociedade e a tecnologia, mais uma vez, estão à frente da lei mais 
moderna. Já há notícia de que se tenha discutido eventual 
irregularidade nessas contratações. 
 
Desse modo, cumpre ao legislador regulamentar as situações 
semelhantes, no intuito de evitar abusos que ordinariamente 
ocorrem nesse campo, uma vez que ele próprio previu, no art. 11 
do novo código, a “exceção dos casos previstos em lei”. Evidente, 
porém, que nunca haverá de se admitir invasão da privacidade de 
alguém, utilização de sua imagem ou de seu nome sem sua 
expressa autorização. 
 
Aquele que for ameaçado ou lesado em seus direitos da 
personalidade poderá exigir que cesse a ameaça ou lesão e 
reclamar perdas e danos, sem prejuízo de outras sanções, como 
dispõe o art. 12. Nesse prisma, a indenização por danos morais 
assume grande relevância. 
 
O CPC fornece instrumentos eficazes para que a vítima obtenha 
celeremente provimento jurisdicional que faça cessar a ameaça ou 
lesão a direito personalíssimo. Afora os princípios gerais que 
disciplinam a ação cautelar que podem ser utilizados conforme a 
utilidade e conveniência, consoante o art. 497 do Novo CPC. 
 
 
6 
 
 
Na ação que tenha por objeto a prestação de fazer ou de não fazer, 
o juiz, se procedente o pedido, concederá a tutela específica ou 
determinará providências que assegurem a obtenção da tutela pelo 
resultado prático equivalente”. 
 
 
Esse instrumento é importante meio para que não se concretize a 
ameaça ou para que se estanque a lesão aos direitos da 
personalidade. Assim, o juiz pode conceder essa modalidade de 
tutela liminarmente, vide art. 297 e 139, IV do novo CPC . 
 
Desse modo, o provimento jurisdicional de urgência pode, por 
exemplo, determinar que o réu cesse a utilização indevida de um 
nome, paralise a divulgação de um fato desabonador ou impeça 
que se concretize invasãode privacidade. Para que se assegure a 
eficácia da tutela antecipatória, o juiz poderá impor multa diária 
ao réu, suficientemente constrangedora, a fim de que a decisão 
seja comprida, vide art. 536 e parágrafo do CPC. Essa multa é de 
cunho processual e não se confunde, antes se adiciona, com a 
indenização por perdas e danos que ordinariamente faz parte do 
pedido, a ser concedida na sentença. 
7 
 
Por outro lado, é certo que os direitos da personalidade 
extinguem-se com a morte, mas há resquícios que podem a ela se 
sobrepor. 
 
A ofensa à honra dos mortos pode atingir seus familiares, ou, 
como assevera Larenz (1978:163), pode ocorrer que certos 
familiares próximos estejam legitimados a defender a honra 
pessoal da pessoa falecida atingida. 
 
Nesse sentido, o parágrafo único do art. 12 do novo Código 
dispõe: “Em se tratando de morto, terá legitimação para requerer 
a medida prevista nesse artigo o cônjuge sobrevivente, ou 
qualquer parente em linha reta, ou colateral até o quarto grau.” 
 
Não se pode negar, contudo, ao companheiro ou companheira, na 
união estável, o direito de defender a honra do morto. Nesses 
casos, no entanto, e em outros que a riqueza da vida em sociedade 
faz brotar, a legitimidade para a causa deve ser examinada no caso 
concreto, evitando-se abusos e o alargamento da legitimidade para 
extensão não colimada pelo legislador. 
 
Na repressão às ofensas aos direitos da personalidade, cabe 
importante papel à jurisprudência, que não pode agir com timidez, 
mormente nos tempos hodiernos, quando as comunicações tornam 
cada vez mais fácil difundir transgressões a essa classe de direitos. 
 
Além dos danos materiais e morais que podem ser concebidos, há 
todo um sistema penal repressivo em torno desses direitos. 
8 
 
O capítulo do novo Código tocante aos direitos da personalidade, 
refere-se especificamente ao direito e proteção à integridade do 
corpo da pessoa, a seu nome e imagem e à inviolabilidade da vida 
privada da pessoa natural. Não é exaustiva a enumeração legal, 
pois a ofensa a qualquer modalidade de direito da personalidade, 
dentro da variedade que a matéria propõe, pode ser coibida, 
segundo o caso concreto. 
 
O art. 20 faculta ao interessado pleitear a proibição da divulgação 
de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição 
ou a utilização da imagem de uma pessoa, sem prejuízo de 
indenização que couber, se for atingida a honra, a boa fama ou a 
respeitabilidade ou se se destinarem a fins comerciais. 
 
O mesmo dispositivo estatui que essa proibição não vingará, 
quando esses comportamentos forem autorizados ou a divulgação 
ou atividade semelhante for necessária à administração da justiça 
ou à manutenção da ordem pública. 
 
O princípio geral é no sentido de que qualquer pessoa pode 
impedir tais formas de divulgação. A matéria entrosa-se também 
como os direitos intelectuais e direitos de autor. Em qualquer caso, 
porém, deve ser comprovado o legítimo interesse. Nem sempre 
esse legítimo interesse saltará à evidência à primeira vista. O 
prudente critério, em síntese, será do juiz ao analisar o caso 
concreto. 
 
Sem dúvida, a imagem da pessoa é uma das principais projeções 
de nossa personalidade e atributo fundamental dos direitos ditos 
9 
 
personalíssimos. O uso indevido da imagem traz, de fato, 
situações de prejuízo e constrangimento. No entanto, em cada 
situação é preciso avaliar se, de fato, há abuso na divulgação da 
imagem. Nesse sentido: 
 
“É inquestionável direito da pessoa, posto que respeitante à 
personalidade, em não ter divulgada a sua imagem, tenha ou não 
a divulgação fins lucrativos. Caso em que a autora, em 
logradouro público, se viu enredada em cena de cunho 
constrangedor e que, posto solicitada, desautorizou fosse 
reproduzida em programa de televisão, o que, no entanto, não 
impediu a emissora de fazê-lo, o que, segundo alega, causou-lhe 
situações embaraçosas e conseqüências negativas para o meio 
social em que vive” (TJRJ – 10.ª Câm. Cível; Ac n.º 987/2000-RJ; 
Rel. Des. Jayro dos Santos Ferreira; j. 4-4-2000; v.u). 
 
Há aspectos objetivos e subjetivos nesse campo que devem ser 
analisados. A exposição da nudez é tolerada em nosso país, por 
exemplo, em um desfile carnavalesco, mas não o será em outras 
situações. Não há abuso e não deve ferir suscetibilidade, por 
exemplo, a divulgação de imagem de alguém pela imprensa, com 
o mero cunho jornalístico. 
 
Essa mesma divulgação pode ser prejudicial, por exemplo, se se 
trata de pessoa protegida pelo programa de assistência a vítimas e 
a testemunhas ameaçadas (Lei n.º 9.807/99), podendo gerar direito 
a indenização se o divulgador era sabedor do fato. Da mesma 
forma, é abusiva objetivamente a divulgação de imagem da pessoa 
em sua vida íntima, no recôndito de seu lar. 
10 
 
Em cada caso dessas hipóteses, para fins de indenização, deve ser 
avaliado se a divulgação atingiu a honra, a boa fama ou a 
respeitabilidade da pessoa envolvida. Se a manifestação teve 
finalidades comerciais, aflora diretamente o dever de indenizar. 
Nem sempre, no entanto, a proteção objetiva a imagem da pessoa 
e direitos da personalidade correlatos implicarão dever de 
indenizar. 
 
O parágrafo único do art. 20, do novo CC, aduz que, se a pessoa 
atingida é morto ou ausente, são partes legítimas para requerer a 
proteção o cônjuge, os ascendentes ou os descendentes. Nessa 
hipótese, também se avaliará se há prejuízo avaliável e 
indenizável. 
 
A divulgação de escritos, gravações de voz ou outras 
manifestações que a tecnologia permite esbarra na proteção aos 
direitos intelectuais e gera direito à indenização, mormente se 
utilizados com fins comerciais. 
 
O art. 21 dessa lei reporta-se à tutela da privacidade, ao direito de 
estar só: 
 
“A vida privada da pessoa natural é inviolável, e o juiz, a 
requerimento do interessado, adotará as providências necessárias 
para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma.” 
 
A tutela da intimidade torna-se cada vez mais preocupação de 
todos e não afeta unicamente pessoas que se destacam na 
sociedade. A notoriedade, é verdade, traz um preço social. Caberá, 
11 
 
porém, ser estabelecido um limite no qual se proteja a vida íntima 
das pessoas notórias. 
 
Em matéria de direito matrimonial, nesse mesmo campo da 
personalidade, o legislador de novo Código preocupou-se com a 
proteção da intimidade do casamento, estatuindo o art. 1.513: 
 
“É defeso a qualquer pessoa, de direito público ou privado, 
interferir na comunhão de vida constituída pela família.” 
 
Deve haver sempre posição firme do jurista no sentido de defender 
a preservação da intimidade, tanto são os ataques que sofre 
modernamente. Não se pode permitir que a tecnologia, os meios 
de comunicação e a própria atividade do Estado invadam um dos 
bens mais valiosos do ser humano, que é seu direito à intimidade, 
direito de estar só ou somente na companhia dos que lhe são 
próximos e caros. As fotografias e imagens obtidas à socapa, de 
pessoas dentro de seu lar, em atividades essencialmente privadas, 
são exemplo claro dessa invasão de privacidade, que deve ser 
coibida e pode gerar direito à indenização. 
 
Os fatos comezinhos da vida privada de cada um não devem 
interessar a terceiros. Tanto mais será danosa a atividade quanto 
mais renomada e conhecida socialmente for a vítima, mas todos, 
independentemente de seu nível de projeção social e cultural, 
gozam de proteção.

Mais conteúdos dessa disciplina