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Programa Mais Médicos para o Brasil EIXO TRANSVERSAL Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso MÓDULO 33 Programa Mais Médicos para o Brasil EIXO TRANSVERSAL Ministério da Saúde Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) 2024 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso MÓDULO 33 Instituições patrocinadoras: Ministério da Saúde Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Secretaria-Executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz B823m Brasil. Ministério da Saúde. Metodologia do trabalho de conclusão de curso [módulo 33] / Ministério da Saúde, Universidade Aberta do SUS, Fiocruz Brasília. Brasília : Fundação Oswaldo Cruz, 2024. Inclui referências. 103 p. : il. (Programa Mais Médicos para o Brasil. Eixo transversal). ISBN 978-65-01-26025-9 1. Metodologia científica. 2. Trabalho de conclusão de curso. 3. Normalização bibliográfica. I. Título II. Universidade Aberta do SUS. III. Fiocruz Brasília. IV. Série. CDU 610 Ficha Técnica © 2024. Ministério da Saúde. Sistema Universidade Aberta do SUS. Fundação Oswaldo Cruz. Alguns direitos reservados. É permitida a reprodução, disseminação e utilização dessa obra, em parte ou em sua totalidade, nos termos da licença para usuário final do Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES). Deve ser citada a fonte e é vedada a sua utilização comercial. Referência bibliográfica MINISTÉRIO DA SAÚDE. UNIVERSIDADE ABERTA DO SUS. FIOCRUZ BRASÍLIA. Metodologia do trabalho de conclusão de curso [módulo 33]. In: MINISTÉRIO DA SAÚDE. Programa Mais Médicos para o Brasil. Eixo transversal. Brasília: Ministério da Saúde, 2024. 103 p. Ministério da Saúde Nísia Trindade Lima | Ministra Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS) Felipe Proenço de Oliveira | Secretário Departamento de Saúde da Família (DESF) Renata Maria de Oliveira Costa | Diretor Coordenação Geral de Estratégia da Saúde da Família (CGESF) Antônio Leopoldo Nogueira Neto | Coordenador Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) Nísia Trindade Lima | Presidente Secretaria-executiva da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Maria Fabiana Damásio Passos | Secretária-executiva Coordenação de Monitoramento e Avaliação de Projetos e Programas (UNA-SUS) Alysson Feliciano Lemos | Coordenador Assessoria de Planejamento (UNA-SUS) Aline Santos Jacob Assessoria Pedagógica UNA-SUS Márcia Regina Luz Sara Shirley Belo Lança Vânia Moreira Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) Fundação Oswaldo Cruz Brasília Av. L3 Norte, Campus Universitário Darcy Ribeiro Gleba “A”, 2º andar CEP: 70.904-130 Telefone: (61) 3329-4517 Site: https://www.unasus.gov.br/ Ficha de créditos Revisor Técnico-Científico UNA-SUS Márcia Regina Luz Sara Shirley Belo Lança Vânia Moreira Designer Gráfico UNA-SUS Claudia Schirmbeck Apoio Técnico UNA-SUS Aline Santos Jacob Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (ARES) – UNA-SUS Fhillipe de Freitas Campos Juliana Araujo Gomes de Sousa Tainá Batista de Assis Engenheiro de Software UNA-SUS José Rodrigo Balzan Onivaldo Rosa Júnior Desenvolvedor de Moodle UNA-SUS Claudio Monteiro Jaqueline de Carvalho Queiroz Josué de Lacerda Silva Luciana Dantas Soares Alves Lino Vaz Moniz Márcio Batista da Silva Rodrigo Mady da Silva Coordenador UNA-SUS Alysson Feliciano Lemos Conteudistas Unidade 1 Adelson Guaraci Jantsch Diogo Luis Scalco Edison José Corrêa Marcelo Pellizzaro Dias Afonso Unidade 2 Sheila Rubia Lindner Dalvan Antônio de Campos Thays Berger Conceição Unidade 3 Daniel Almeida Gonçalves Maria Elisabete Salvador Rita Maria Lino Tarcia Sumário 1. Fundamentos básicos da metodologia científica 1.1. Introdução da unidade 1.2. O que é e para que serve a ciência? 1.3. O desenvolvimento da pesquisa científica e a necessidade de ética em pesquisa 1.4. A ética em pesquisa no Brasil 1.5. Outros cuidados éticos na pesquisa científica 1.6. A importância da pesquisa para a medicina de família e comunidade e para a atenção primária à saúde 1.7. Desenhos de estudo 1.7.1. Conceitos importantes em epidemiologia 1.7.2. Estudos experimentais versus observacionais 1.7.3. Pesquisas quantitativas 1.7.4. Pesquisa qualitativa 1.7.5. Métodos mistos de pesquisa 1.7.6. Pesquisa-ação participativa 1.7.7. A hierarquia das evidências 1.8. Análise crítica da evidência 1.9. Fechamento da unidade 2. Projeto de Intervenção (PI) 2.1. Introdução da unidade 2.2. Importância de realizar um projeto de intervenção 2.3. Projeto de intervenção 2.3.1. O que é um projeto de intervenção? 2.3.2. Pressupostos teóricos aplicados ao PI 2.4. Estrutura metodológica do projeto de intervenção 2.4.1. Desenvolvendo um projeto de intervenção 2.5. Aspectos éticos do projeto de intervenção 2.6. Fechamento da unidade 3. Projeto de intervenção aplicado ao Trabalho de Conclusão de Curso – TCC 3.1. Introdução da unidade 3.2. Leitura crítica de obras científicas 3.2.1. Técnicas de leitura – aspetos iniciais 3.2.2. Técnicas de leitura – interpretação crítica 10 11 11 16 20 24 24 26 26 27 28 40 42 45 48 49 50 51 52 52 53 53 55 60 61 69 70 71 72 72 73 76 3.2.3. Fontes de busca 3.3. Redação técnica e científica 3.3.1. Diferenças entre a redação literária, técnica e científica 3.3.2. O conhecimento da língua portuguesa e os textos científicos 3.3.3. Construção de frases e parágrafos 3.3.4. Etapas da construção do texto científico 3.3.5. Como evitar plágio 3.4. Projeto de intervenção aplicado ao TCC 3.5. Citação de obras 3.6. Referências norma ABNT 3.7. Fechamento da unidade 4. Encerramento do módulo Bibliografia Minicurrículo dos conteudistas 77 78 79 81 81 83 85 87 89 90 91 92 93 99 Ao final deste módulo, você deverá ser capaz de: • Compreender os fundamentos da ética em pesquisa e da necessidade dos Comitês de Ética em Pesquisa • Diferenciar os principais desenhos de estudo no meio científico • Utilizar diferentes técnicas na realização de leitura crítica de obras científicas • Produzir textos científicos • Utilizar as principais etapas para construção do Projeto de Intervenção Para estudar e apreender todas as informações e conceitos abordados, bem como trilhar todo o processo ativo de aprendizagem, estabelecemos uma carga horária de 45 horas para este módulo. Objetivos de aprendizagem do módulo Carga horária de estudo recomendada para este módulo Fundamentos básicos da metodologia científica UNIDADE 01 Objetivo geral da unidade: Ao final desta unidade, o profissional deverá conhecer os fundamentos básicos da pesquisa científica e sua aplicabilidade na Atenção Primária à Saúde. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 11 1.1. INTRODUÇÃO DA UNIDADE Boas-vindas, profissional estudante! Vamos iniciar agora uma importante jornada no estudo da metodologia científica, como preparação para a construção do seu Trabalho de Conclusão de Curso – TCC. Para tanto, é importante retornarmos a alguns conceitos fundamentais como o que é ciência, o que é pesquisa científica e a importância desses temas no nosso cotidiano de médicos de família e comunidade. Vamos recuperar a importância da ética em pesquisa, lembrando de alguns episó- dios muito tristes da história recente da ciência no mundo ocidental, para então fecharmos essa unidade com uma breve apresentação dos desenhos de estudos científicos mais comuns na literatura médica. Esses conhecimentos serão fundamentais, não somente para a redação do seu Tra- balho de Conclusão de Curso – TCC –, que deve contar com embasamento robusto e estrutura válida, mas, principalmente, para sua familiarização com a leitura cientí- fica, imprescindível para sua atualização profissional permanente e para uma atuação verdadeiramente baseada nas melhores evidências disponíveis. Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: • Reconhecer a importância da pesquisa científica para o desenvolvimentosão os “estudos antes-e-depois” e os “estudos paralelos”. Nos “estudos antes-e-depois” o que aconteceu previamente à EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 39 intervenção é usado como controle e é comparado com os efeitos sobre o desfe- cho no período após a intervenção. Como exemplo são comparadas as incidências de uma determinada doença nos anos anterior e posterior à implementação de um programa de prevenção da mesma doença. Nos “estudos paralelos” diferentes grupos populacionais recebem diferentes intervenções (ou não recebem) – sem randomização – e os efeitos entre os desfechos são medidos após a intervenção. Como exemplo, em uma cidade é implementado um programa de prevenção (in- tervenção) de uma determinada doença e em outra cidade vizinha não (controle) e ao final de um determinado período são comparadas as incidências do desfecho (doença) entre ambas as cidades. Propósito Como os ensaios clínicos, os quasi-experimentos são estudos que têm como obje- tivo avaliar relação de causa e efeito entre variáveis independentes (intervenção) e variáveis dependentes (desfecho). São geralmente utilizados para avaliação de efe- tividade de intervenções comunitárias. A seguir apresentamos algumas vantagens e desvantagens dos ensaios clínicos. Vantagens Desvantagens Avaliação de efetividade em vez de eficácia. Mais sujeitos a vieses decorrentes da ausência de randomização da interven- ção. Reduz capacidade de inferir cau- salidade. Geralmente utilizados para estudos com grandes grupos populacionais, a partir de intervenções comunitárias. Maior risco de fatores de confundi- mento interferirem no resultado. Mais baratos e fáceis de serem aplica- dos que experimentos. Exemplo de quasi-experimento No artigo Yoga in primary health care: A quasi-experimental study to access the effects on quality of life and psychological distress, publicado em 2018 no periódico Complement Ther Clin Practi., Ponte et al. pretendiam determinar os efeitos da yoga sobre quali- dade de vida e estresse psicológico, bem como avaliar a viabilida- de da introdução da ioga em ambiente de atenção primária à saúde (APS). Foi realizado um estudo quasi-experimental em um centro EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 40 de saúde de uma cidade do Brasil entre julho de 2016 e abril de 2017. A intervenção consistiu na participação dos indivíduos em um grupo de yoga com práticas de uma hora semana ao longo de 24 semanas. Foram analisados 49 indivíduos no grupo de intervenção e 37 no grupo controle. Ao final do estudo o grupo de intervenção apresentou significativa melhora em todos os domínios de qualida- de de vida e redução do estresse psicológico em relação aos níveis pré-intervenção, o que não ocorreu no grupo controle. No entanto, como havia diferença nos níveis basais entre os grupos (interven- ção e controle) de características como escolaridade, situação con- jugal, depressão e qualidade de vida, tais resultados devem ser ana- lisados com cautela. A intervenção foi bem aceita, segura e indicativa de um efeito positivo da yoga sobre qualidade de vida e estresse psicológico. Os autores apontaram a necessidade da realização de estudos com mais indivíduos, mais longos e randomizados para confirmar tais achados. Ponte SB, Lino C, Tavares B, Amaral B, Bettencourt AL, Nunes T, Silva C, Mota- -Vieira L. Yoga in primary health care: A quasi-experimental study to access the effects on quality of life and psychological distress. Complement Ther Clin Pract. 2019 Feb; 34:1-7. doi: 10.1016/j.ctcp.2018.10.012. Epub 2018 Oct 25. PMID: 30712710. 1.7.4. PESQUISA QUALITATIVA No livro Robert E. Stake sobre Pesquisa Qualitativa de 2011, o primeiro capítulo resume no seu título uma definição bastante interessante sobre pesquisa qualita- tiva: Pesquisa Qualitativa - Estudando como as Coisas Funcionam. O termo “como” condensa a ideia de forma como algo acontece. Pode também significar “para quem”, “em que contexto”, “apesar de quais dificuldades”. A primeira ideia que vem à cabeça sobre a diferença entre pesquisas quantitativas e qualitativas poderia ser resumida na seguinte frase: “Enquanto pesquisas quantitativas buscam mensurar algum fenômeno, pesquisas qualitativas buscam descrevê-lo, independente da sua magnitude”. Esta ideia não está de todo errada, mas não corresponde à realidade. Em seu livro, Robert E. Stake demonstra como o pensamento qualitativo e quantitativo estão en- trelaçados, compartilhando definições e sentidos comuns entre si. Seja na definição de conceitos (qualitativa) ou na exploração do impacto dos resultados de estudos quantitativos, aspectos qualitativos sempre estão misturados. A definição de “de- mência” em um paciente segue critérios diagnósticos que precisam ser descritos no estudo para que, ao relatar os resultados, pesquisadores possam dialogar com outros artigos. Contudo, a definição dos critérios é uma etapa final de um processo absolutamente qualitativo de descrição de um fenômeno. Os critérios podem definir EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 41 um diagnóstico e um tratamento, mas foram identificados e explorados por pergun- tas qualitativas. Em termos pragmáticos, contudo, quando desenhamos uma pesquisa, a definição da pergunta a ser estudada discrimina se iremos abordá-la qualitativamente ou quantitativamente. Se buscamos explorar um fenômeno, buscando entender “como” ele acontece, nossa abordagem precisará ser qualitativa no nosso estudo. Pesquisas qualitativas compreendem uma série de métodos de pesquisa, coletas de dados, processos analíticos e bases filosóficas para a realização de estudos voltados a descrever, identificar e compreender como um fenômeno funciona. Cada um destes métodos possui, portanto, suas próprias vantagens e desvantagens no momento da aplicação. Entrevistas individuais podem explorar com profundidade um fenômeno junto a um indivíduo, mas podem ser muito trabalhosas para serem transcritas e ana- lisadas. Uso de registros de consulta em prontuário podem ser facilmente transcritos, mas podem não refletir tudo o que se passou durante uma consulta. Exemplo de estudo qualitativo Fixação de profissionais de saúde e motivação para seguir trabalhan- do no cenário da APS é um problema em diversos países, desde aqueles ricos e com uma APS bem estruturada, como Canadá, até outros, ainda em desenvolvimento. Neste estudo, Shah et al. busca- ram identificar quais os principais fatores envolvidos na motivação de profissionais médicos atuantes na APS para continuar nela trabalhan- do ou buscar outro rumo profissional. Esta pergunta visa explorar junto aos médicos informações qualitativas sobre este fenômeno, uma vez que os autores, a priori, não sabiam quais eram as razões pelas quais os médicos seguiam ou não trabalhando na APS. Desta forma, os autores realizaram uma pesquisa qualitativa em um distrito rural do Paquistão na província de Khyber Puktunkhwa. Utilizaram um modelo conceitual para orientar entrevistas com profissionais de saúde. Este modelo compreendia fatores ligados à organização dos serviços de saúde, fatores individuais de cada profissional e fatores externos ao trabalho (família, contexto social e do país). Foram entrevistados médicos ligados diretamente à assistência da população, gestores distritais e regionais. Foram revisados também documentos oficiais da gestão, da organização do sistema e dos serviços de saúde. A partir dos dados coletados e analisados, os autores identificaram os seguintes fatores ligados à falta de motivação para seguir traba- lhando na APS naquela província: (1) remuneração inadequada; (2) habitações fornecidas pelos distritos sanitários em condições inacei- táveis; (3) ambiente de trabalho precário; (4) interferência política sobre EIXO TRANSVERSAL| MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 42 o processo de trabalho; e (5) suprimentos e instalações médicas ina- dequadas. Muitos médicos aceitavam trabalhar nas unidades de saúde públicas nesta província acreditando que esses empregos eram mais seguros e com horários de trabalho convenientes. Médicos do sexo masculino pareciam estar mais motivados porque enfrenta- ram menos desafios do que as mulheres nas unidades de saúde, es- pecialmente durante as realocações. No geral, os fatores organiza- cionais surgiram como os mais significativos, em que a política de recursos humanos, política de crescimento de carreira, avaliação de desempenho profissional e benefícios monetários desempenharam um papel importante. Entre as mulheres médicas, o fato de ser mulher e ser casada foi considerado como o fator individual mais importan- te na retenção e motivação na APS. Sayed Masoom Shah, Shehla Zaidi, Jamil Ahmed, and Shafiq Ur Rehman; Motiva- tion and Retention of Physicians in Primary Healthcare Facilities: A Qualitative Study From Abbottabad, Pakistan; Int J Health Policy Manag. 2016 Aug; 5(8): 467–475. 2016 Apr 9. doi: 10.15171/ijhpm.2016.38 1.7.5. MÉTODOS MISTOS DE PESQUISA Este termo provavelmente soará como novidade para você, prezado profissional estudante. Tanto o termo “métodos mistos de pesquisa”, bem como a aplicação desta metodologia - ou dos princípios que regem o conjunto de metodologias mistas - ainda não são algo popular em nosso país. Ainda é possível escutar pessoas utili- zando a expressão “pesquisa quanti-quali” como sendo um desenho de estudo que combina informações quantitativas e qualitativas. Contudo, esta expressão não cor- responde àquilo que o conceito de métodos mistos realmente implica para os de- senhos de estudos. Métodos mistos de pesquisa não se aplicam somente a desenhos de estudo na área da saúde, mas também têm sido utilizados nas áreas de educação, negócios, eco- nomia e ciências sociais. Podem ser definidos como “desenhos de estudo que fazem uso de dados quantitativos e qualitativos deliberadamente coletados para que sejam analisados de forma integrada”. Duas palavras nesta definição são importantes para compreendermos o porquê métodos mistos de pesquisa não são somente “pes- quisa quanti-quali”. Primeiro, o uso “deliberado” de ambos os tipos de dados, ou seja, à priori os dados serão coletados objetivando capturar aspectos quantitativos e qua- litativos do fenômeno de interesse. Cada informação coletada tem um propósito no estudo e a forma como estes dados serão combinados também deve estar plane- jada de antemão. A palavra Integração também se destaca no conceito. Como iremos combinar estes dados para conseguirmos uma informação mista é crucial e deve, novamente, ser planejado de antemão. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 43 Ao desenvolver estas metodologias, a intenção dos pesquisadores é somar aquilo que abordagens qualitativas e quantitativas têm de melhor. Além disso, ao integrar informações de ambos os lados, ganha-se um terceiro dado da realidade que não seria possível utilizando apenas uma ou outra abordagem. Pesquisadores que uti- lizam métodos mistos de pesquisa costumam dizer que “com métodos mistos de pesquisa, 1 + 1 = 3”, ou seja, ganhamos evidências qualitativas, quantitativas e da in- tegração dos dados. Pragmaticamente, estudos de métodos mistos compreendem três tipos genéricos de desenhos, a depender de como os dados são coletados. Caso os dados sejam cole- tados concomitantemente, passará a se chamar estudo de métodos mistos convergen- tes. Caso os dados sejam coletados em momentos distintos, passará a se chamar estudo de métodos mistos sequencial, sendo que, caso os dados quantitativos sejam coletados por primeiro, o estudo será chamado de estudo de métodos mistos sequen- cial explanatório, pois os dados qualitativos que virão depois poderão “explicar” ou “ex- planar” os dados quantitativos que vieram primeiro. Se o oposto ocorrer – dados qua- litativos sendo coletados por primeiro – o estudo será chamado de estudo de métodos mistos sequencial exploratório, pois aquela informação qualitativa coletada primeira- mente poderá gerar questionários e inquérito para que se explore o fenômeno na po- pulação, não somente em uma amostra pequena do estudo qualitativo. Ao apostar neste tipo de abordagem metodológica, combinando e integrando in- formações quanti e qualitativas, pesquisadores assumem alguns riscos também. Da mesma forma que os benefícios produzem uma operação na qual “1 + 1 = 3”, as de- mandas metodológicas, operacionais e analíticas também seguem a mesma fórmula. Muito trabalho para organizar dados quantitativos, dados qualitativos e para a inte- gração e interpretação de ambos. Finalmente, uma última explicação é necessária aqui. Pesquisa com métodos mistos não restringe o tipo de dado quantitativo ou qualitativo que será utilizado. Questioná- rios, inquéritos, instrumentos de medida psicométricos, dados de prontuário eletrôni- co, resultados de exames laboratoriais, renda familiar são todas informações que podem ser utilizadas como dados quantitativos. Entrevistas, grupos focais, textos cien- tíficos, leis descrevendo políticas públicas, relatos escritos de consultas médicas são, por outro lado, informações que podem ser utilizadas como dados qualitativos. Em seu livro “The mixed methods research workbook” de 2020, Michael Fetters or- ganiza uma lista de vantagens e limitações desta abordagem de pesquisa. Vantagens Desvantagens Utiliza as fortalezas de abordagens qua- litativas para compensar as fraquezas de abordagens quantitativas, e vice-versa. Aparente incompatibilidade teórica e filosófica entre os métodos quantitati- vos e qualitativos. Aprimora o escopo e aprofunda o co- nhecimento envolvido na pesquisa. Pode ser que a pergunta de pesquisa não precisa de uma abordagem de métodos mistos de pesquisa. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 44 Integra dados de forma comparativa para examinar achados similares, discor- dantes ou aparentemente discordantes sobre um fenômeno. Difícil adquirir habilidades técnicas para conduzir abordagens quantitati- vas e qualitativas com primor. Utiliza os dados quantitativos para orien- tar a coleta de dados qualitativos - e vice-versa. Requer mais recursos para sua reali- zação. Pode ajudar a desenvolver um modelo qualitativamente, para depois testá-lo quantitativamente. Estende o escopo que cada metodo- logia inicialmente poderia ter. Pode desenvolver um modelo teórico quantitativamente, para depois validá-lo qualitativamente. Requer o trabalho colaborativo de pessoas com diferentes competên- cias e origens de formação. * Publicar dados de métodos mistos pode ser mais difícil do que publicar dados estritamente qualitativos ou quantitativos. Fonte: Michael D. Fetters The Mixed Methods Research Workbook: Activities for Designing, Im- plementing, and Publishing Projects; SAGE Publications, 2019 * Pode ser uma limitação, mas que, também, pode se reverter em benefício, pela colaboração que se pode obter do trabalho em equipe. Exemplo de estudo utilizando métodos mistos de pesquisa na APS No artigo Harms from discharge to primary care: mixed methods analy- sis of incident reports um estudo de métodos mistos realizado na In- glaterra em 2015 os pesquisadores buscavam identificar a frequên- cia com que desfechos indesejáveis pacientes poderiam sofrer após receberem alta hospitalar. Um em cada cinco pacientes sofre algum problema em casa relacionado à internação hospitalar em até três semanas após receber alta do hospital. Para identificar quais são os fatores associados a estes eventos indesejáveis e identificar possí- veis medidas para minimizá-los no futuro, os pesquisadores reali- zaram um estudo de métodos mistos convergentes,utilizando dados de alta hospitalar combinando com dados de prontuário de pacien- tes e registros de visita a serviços de emergência para identificar os efeitos adversos pós alta hospitalar. Eventos foram categorizados e tabulados conforme a frequência com que ocorriam. Além disso, o perfil de morbidade e dados biomédicos de cada paciente também foram mensurados (dados quantitativos). Informações escritas no EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 45 prontuário destes pacientes na atenção primária e nos serviços de emergência forneceram informação qualitativa para identificar os principais eventos que poderiam ser agrupados em grandes temas (motivos) que levaram à ocorrência do desfecho. Dessa forma, os pesquisadores descobriram que o momento da alta hospitalar era decisivo para a ocorrência destes desfechos. Um total de 598 relatórios de alta foram analisados, identificando quatro temas principais: erros na comunicação do relatório de alta (n = 151; 54% causando danos); erros nos encaminhamentos para a atenção primária e para o médico de família (n = 136; 73% causando danos); erros na pres- crição de medicamentos (n = 97; 87% causando danos); e falta de forne- cimento de materiais de suporte para o cuidado no domicílio, como curativos, fraldas, etc. (n = 62; 94% causando danos). Fatores ligados aos profissionais (não seguir protocolos de referência); e fatores organiza- cionais (falta de diretrizes claras ou processos ineficientes) também con- tribuíram para ocorrência de eventos indesejáveis. Como oportunidades de melhoria, surgiram: (1) desenvolver e testar ferramentas eletrônicas para facilitar o relatório de alta do pacien- te com requisitos mínimos de informação acordados, minimizando assim a falha de comunicação; (2) formar sistemas unificados de en- caminhamento do hospital para a atenção primária e; (3) promover uma cultura de segurança dos pacientes com listas de verificação para uma ‘alta segura’, com supervisores que auditem a alta dos pa- cientes, sempre com o envolvimento da família. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram não somente identificar as causas e os fatores contribuintes, mas também identificar a frequência com que cada evento ocorreu nesta amostra de pacientes. Huw Williams, Adrian Edwards, Peter Hibbert, Philippa Rees, Huw Prosser Evans, Sukhmeet Panesar, Ben Carter, Gareth Parry, Meredith Makeham, Aled Jones, Anthony Avery, Aziz Sheikh, Sir Liam Donaldson and Andrew Carson-Stevens; Harms from discharge to primary care: mixed methods analysis of incident reports; Br J Gen Pract 2015; DOI: 10.3399/bjgp15X687877 1.7.6. PESQUISA-AÇÃO PARTICIPATIVA A pesquisa-ação participativa – PAR – é uma abordagem metodológica de pesqui- sa bastante distinta das descritas anteriormente, pois envolve, como o próprio nome diz, a participação direta da população de estudo. Tradicionalmente, indivíduos se- lecionados para participar de um estudo deveriam ser influenciados, ao mínimo, pelos pesquisadores, evitando distorções das falas e de opiniões, e evitando a indução de respostas. Para a pesquisa-ação participativa, este seria justamente o EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 46 meio pelo qual a construção de conhecimento deve se dar, explorando junto à po- pulação de estudo o seu conhecimento e experiência sobre o assunto e envolven- do-as no desenho de intervenções sobre a própria realidade. A pesquisa-ação participativa tem forte influência de autores ligados à educação construtivista, sendo Paulo Freire um autor bastante citado pelos pesquisadores que utilizam esta metodologia. Assim como métodos mistos de pesquisa, pesqui- sa-ação participativa trata-se muito mais de uma metodologia ou estratégia de pes- quisa do que um método (coorte, caso-controle) em si. Algumas metodologias mais recentes e que buscam envolver atores na exploração de um problema e sua resolução têm sido mais popularizadas em países como Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. Melhoria Contínua da Qualidade – Quality Im- provement – e seus diversos instrumentos para identificação de problemas e elabo- ração conjunta de soluções têm sido bastante difundidos no cenário da atenção primária. Contudo, muitos autores e profissionais envolvidos com esta metodologia de trabalho ressaltam que Melhoria Contínua da Qualidade não se trata de uma me- todologia de pesquisa, mas sim de trabalho em equipe. Por meio de ações pontu- ais e utilizando técnicas e instrumentos validados, os profissionais de saúde podem, de forma mais organizada e pragmática, identificar problemas, propor e aplicar so- luções sobre o cenário em que vivem, atuando como agentes da transformação da realidade onde atuam. Maggie Walter destaca a seguir algumas vantagens e desvantagens na realização de Pesquisa-ação participativa: Vantagens Desvantagens Trata-se de pesquisa aplicada a proble- mas identificados na prática. Isso signi- fica que ela tem como objetivo produzir resultados e mudanças positivas sobre a realidade onde é aplicada. Por princípio, não possui um líder de pes- quisa. O processo deve ser democrático e gerido pelo grupo, o que pode levar a conflitos de agendas e interesses. Metodologia de pesquisa colaborativa, envolvendo a comunidade de interes- se (população de estudo) no desenho do estudo, objetivos e resultados. Em algumas situações, pode ser impra- ticável. Encontrar um grupo com inte- resses comuns - ou que compartilhem de um mesmo problema - não ne- cessariamente resultará em consenso sobre a origem do problema, ou ainda, sobre como deve ser resolvido. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 47 Envolve compromisso com a popula- ção na qual o estudo está sendo reali- zado. Este compromisso faz com que a pesquisa consiga mais facilmente acessar aquilo que a comunidade en- volvida compreende e percebe sobre o problema estudado. Geralmente não possui um cronogra- ma estritamente definido. Por nature- za, o processo de pesquisa não tem uma data para ser concluído, o que leva pesquisadores a tentar responder à questão “quando saberemos que o problema foi resolvido?” ou ainda, “quando saberemos se tentar resolver este problema é impraticável?” Deve partir da comunidade (população de estudo). Seu locus de controle so- bre o projeto é o que leva a identifica- ção de problemas que são importantes para a comunidade, geralmente não percebidos por quem é de fora. Fonte: Maggie Walter; Participatory Action Research; in Social Research Methods. Rehabilitation Counseling Bulletin, v37 n1 p2-5 Sep 1993 Sue Duke et al. conduziram um estudo muito interessante que, apesar de não ser diretamente realizado na APS ou por médicos de família, aborda um aspecto do cuidado dos pacientes que nos diz respeito, que são os cuidados paliativos no fim da vida e a comunicação com familiares e cuidadores no momento em que estes pacientes recebem alta hospitalar e voltam para suas casas. Os autores reali- zaram a implementação de uma metodologia de comunicação chamada de “Family-Focused Support Conversation”, ferramenta usada em cuidados paliativos. Ao perceber o potencial de uso desta ferramenta e a necessidade de melhorar a comunicação entre pro- fissionais de saúde do hospital e familiares de pacientes em fim de vida, os pesquisadores buscaram implementá-la neste cenário, ins- trumentalizando médicos dos hospitais para conduzirem conversas com pacientes e familiares no momento da alta hospitalar. Para a implementação desta ferramenta os pesquisadores realiza- ram uma pesquisa-ação participativa na qual familiares e médicos atuaram como atores da pesquisa, produzindo mudanças no ins- trumento inicial, tornando-o mais adequado para todos os atores envolvidos e adaptando-o ao contexto de alta hospitalar. “Norma- lization Process Theory”foi a abordagem teórica utilizada na pes- quisa, pois atendia às premissas dos autores de que o processo de implementação de uma inovação em saúde sempre acontece de EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 48 forma dinâmica e é influenciado por fatores contextuais e pelos atores envolvidos. Depois de uma revisão da literatura sobre o tema e metodologias de comunicação, os pesquisadores conduziram ofi- cinas com os participantes, praticando o uso da ferramenta e iden- tificando elementos cruciais para cada um dos envolvidos, o que facilitou para que a ferramenta fosse lapidada e adaptada para o cenário de prática ao qual seria aplicado. Isto ajudou a refinar a fer- ramenta, padronizar seu uso e assegurar todos os envolvidos de que todas as partes interessadas foram levadas em consideração e opinaram para sua construção, aumentando, desta forma, sua usabilidade e a probabilidade de que será efetiva na comunicação entre profissionais de saúde e familiares. Abaixo, imagem ilustrativa dos passos elaborados na pesquisa para adaptar o instrumento de comunicação ao cenário de aplicação. BMC Palliat Care; 2020 Sep 21;19(1):146. doi: 10.1186/s12904-020-00647-5. Co-construction of the family-focused support conversation: a participatory learning and action research study to implement support for family members whose relatives are being discharged for end-of-life care at home or in a nursing home. Sue Duke, Natasha Campling, Carl R May, Susi Lund, Neil Lunt, Alison Richardson Olá, sou João, um dos enfermeiros que cuidam da sua mãe. Posso falar com você sobre os planos de alta da sua mãe? Vocês já pensaram em como vocês podem gerenciar essas preocupa- ções como uma família? Existem coisas que podemos fazer para ajudar com essas preocupações? Obrigado. Em resumo, nós discutimos e sua esperança de (levar sua mãe para casa). Se você tiver alguma dúvida, a melhor pessoa para entrar em contato é (detalhes de contato). Reconhecemos que este possa ser um momento cheio de incertezas para as famílias (pausa). Vocês conversaram em família sobre a alta de sua mãe? Que preocupações você tem como família? Introduza o tema da conversa Apoie os membros da família a considerar como eles podem abordar suas preocupações para tomar uma decisão informada sobre seu papel no cuidado. Resuma a discussão e os planos de ação, forneça os dados para contato. Reconheça a importância da situação Identifique preocupações Cumprimento inicial e Introdução Significância Compreensão EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 49 1.7.7. A HIERARQUIA DAS EVIDÊNCIAS Você se lembra da hierarquia das evidências, tradicionalmente apresentada como uma pirâmide? Nela, a ordem dos estudos representa a força da evidência, inver- samente relacionada ao risco de viés, também denominado de erro sistemático. Essa hierarquia é importante na interpretação sobre o grau de confiança que podemos ter dos resultados encontrados, no entanto, ao conhecer os propósitos de cada desenho de estudo, você percebeu que apesar dessa hierarquia, cada desenho terá a sua importância em situações específicas. Figura 3. A pirâmide das evidências revisada Fonte: (MURAD et al., 2016) Na nova pirâmide das evidências, fica clara a diferença das revisões sistemáticas (estudos secundários) dos estudos primários que compõem a base restante da pirâ- mide. A descrição dos tipos de revisões, incluindo a revisão sistemática, extrapola a proposta deste texto e pode ser aprofundada na leitura complementar indicada. Aprenda mais sobre Revisão Sistemática e as suas diferenças para outros tipos de revisão no manuscrito “Tipos de revisão de literatura”, da UNESP Botucatu: https://www.fca.unesp.br/Home/ Biblioteca/tipos-de-evisao-de-literatura.pdf (BIBLIOTECA PROF PAULO DE CARVALHO MATTOS, 2015). Saiba mais EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 50 1.8. ANÁLISE CRÍTICA DA EVIDÊNCIA Um dos passos mais importantes da aplicação da Prática em Saúde Baseada em Evidências é a análise crítica da evidência científica encontrada. Como andar de bi- cicleta, essa habilidade precisa ser praticada com paciência antes de se alcançar a proficiência, pouco adiantando o estudo teórico isolado. Essa tarefa, no entanto, pode amedrontar você, caro profissional estudante, espe- cialmente se nunca se engajou nesse tipo de exercício anteriormente. Para auxiliá- -lo nesse desafio de análise, foram desenvolvidas listas de verificação (checklists) de modo a sistematizar e facilitar a análise de forma sequencial. O resultado da análise por meio dessas listas não deve ser interpretado a partir de um escore final de pon- tuação, mas sim por meio de uma avaliação qualitativa dos seus itens e o quanto que as falhas metodológicas identificadas podem comprometer a confiança no re- sultado por meio da inserção de vieses no estudo. Assim, se os riscos de vieses são importantes, nossa confiança no resultado reduz, o que pode comprometer a apli- cação da evidência na nossa prática. 1.9. FECHAMENTO DA UNIDADE Parabéns, caro profissional estudante! Você recuperou os principais conceitos relacionados à ciência e ao conhecimento científico, à ética em pesquisa e aos desenhos de estudo nesta unidade. Você agora está preparado para seguir em frente para a próxima unidade, onde con- versaremos sobre a construção do Projeto de Intervenção. Aproveite todos os novos conhecimentos aqui adquiridos para enriquecer ainda mais o seu Trabalho de Con- clusão de Curso! Siga em frente e boa sorte nas novas etapas. Até breve! A Universidade de Cardiff, no País de Gales, apresenta um repositório bas- tante completo destas listas de apoio para análise crítica, já classificadas segundo o tipo de estudo em análise, neste site: . Use sempre para o seu desenvolvimento crítico e para maior clareza sobre o grau de segurança dos resultados do estudo. Projeto de Intervenção (PI) UNIDADE 02 Objetivo de aprendizagem para a unidade: Ao final desta unidade, o profissional deverá compreender os fundamentos teórico-metodológicos e práticos para a elaboração de um Projeto de Intervenção. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 52 2.1. INTRODUÇÃO DA UNIDADE Nesta unidade convidamos você a estruturar o seu projeto de intervenção com todas as etapas. O Pi é uma ferramenta importantíssima tanto para os seus estudos quanto para o seu processo cotidiano de trabalho. Com ele você estabelece a re- flexão sobre o contexto de trabalho, permitindo observar e diagnosticar a realidade e seus problemas, bem como agir sobre eles. Essas intervenções auxiliam na mudança e melhorias no processo de trabalho das equipes e, principalmente, dos níveis de saúde da população, fomentando a necessidade de realização do planejamento das atividades no serviço. Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: • Identificar a importância do uso do Projeto de Intervenção • Conhecer os pressupostos teóricos que orientam um Projeto de Intervenção • Compreender a estrutura metodológica para elaboração do Projeto de Intervenção • Utilizar as principais etapas para construção do Projeto de Intervenção • Elaborar um Projeto de Intervenção apresentando sua experiência Bons estudos! 2.2. IMPORTÂNCIA DE REALIZAR UM PROJETO DE INTERVENÇÃO Como você já deve ter observado em sua prática profissional e em seus estudos, as condições de saúde-doença nos territórios são diversas, complexas e influenciadas por fatores socioeconômicos, culturais e biológicos. Assim, nos serviços de saúde da APS, os profissionais médicos e demais profissionais da saúde lidam no seu coti- diano com diversos desafios e problemas de saúde (GIOVANELLA et al., 2019). Tal cenário,faz com que algumas demandas de saúde importantes para população ads- crita fiquem descobertas ou com alguma fragilidade nas ações desenvolvidas. Intervir sobre os problemas de saúde e seus determinantes sociais e biológicos é tarefa cotidiana dos profissionais que, como você, atuam na Atenção Primária à Saúde (APS) seja em ações individuais, coletivas ou intersetoriais. Neste sentido, a intervenção é base do seu trabalho como profissional médico, entretanto, para algumas formas de intervenção, ainda há um desafio para inserção do planejamento. É neste contexto que o Projeto de Intervenção (PI) surge como uma ferramenta para reflexão sobre o contexto de trabalho, permitindo observar e diagnosticar a reali- dade e seus problemas, bem como agir sobre eles. Essas intervenções auxiliam na mudança e melhorias no processo de trabalho das equipes e, principalmente, dos níveis de saúde da população, fomentando a necessidade de realização do plane- jamento das atividades no serviço. Além disso, trabalhar com o PI possibilita a não reprodução da visão hegemônica EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 53 no campo científico acerca da distinção entre o “saber” e o “fazer”. Assim, essas in- tervenções possibilitam a aproximação entre a produção do conhecimento, nos moldes científicos, das práticas de saúde, e principalmente dos usuários do serviço de saúde, principais interessados neste processo. A participação dos colegas de equipe de saúde e da população é fundamental para que esta aproximação se efetive na prática, fazendo com que esses não fiquem apenas na condição de pes- quisadores e público-alvo da intervenção, mas que tenham papel ativo na constru- ção das soluções para os problemas da comunidade (XAVIER, et al., 2018). Você já deve ter percebido que tal perspectiva se alinha com a abordagem huma- nizada no Sistema Único de Saúde (SUS), trazida pela Política Nacional de Huma- nização. Essa política, propõe a ampliação do escopo das intervenções em saúde a partir dos problemas dos territórios, necessidade de saúde e seus determinan- tes e condicionantes. Assim, os PI alinham-se a uma perspectiva ampliada da saúde, envolvendo ações e serviços que atuem nas situações de adoecimentos, mas também atuando nos territórios, nas comunidades e sobre as condições de vida para favorecer a ampliação de escolhas saudáveis pelos indivíduos e famí- lias (BRASIL, 2008). Desta forma, a importância do PI no contexto de SUS perpassa principalmente pelo seu potencial de mudança na realidade por meio de intervenções contextu- alizadas, planejadas e que incluam a participação popular e a promoção da saúde. Como você verá ao longo desta unidade, o PI permitirá o exercício focalizado de uma atividade de reconhecimento, planejamento, ação e monitoramento/avalia- ção, que são a base para uma atuação adequada na APS. Devido a isso, neste curso você desenvolverá um PI como atividade de Trabalho de Conclusão do Curso (TCC). Acompanhe no item a seguir a explicação do que é um Projeto de Intervenção! 2.3. PROJETO DE INTERVENÇÃO 2.3.1. O QUE É UM PROJETO DE INTERVENÇÃO? O PI é uma ação planejada que visa a tomada de decisão para ações sobre deter- REFLEXÃO A prática em saúde no SUS exige um exercício crítico constante sobre a atuação profissional, conforme Freire (1996 p.34) “É pensando cri- ticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a próxima prática”. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 54 minados problemas com vista a alcançar objetivos definidos. Dessa forma, trata-se de uma intervenção organizada a priori para responder a necessidades identifica- das. O PI é material objetivo e focalizado, pois seu intuito é a ação para a resolução de problemas da realidade (XAVIER, et al., 2018). De modo geral, esse tipo de projeto tem como principal objetivo a transformação ou mudança de estruturas e processos em uma determinada realidade, enquanto os projetos de pesquisa objetivam conhecer algo da realidade, sem a preocupação de agir sobre os problemas identificados. Essa diferenciação é fundamental para o correto desenvolvimento do seu trabalho final deste curso, visto que não deverá ser proposto um projeto que enfoque estritamente a pesquisa. Por estas características, o PI aproxima o universo acadêmico ao da prática, mos- trando que, em vez de antagônicos, essas esferas são complementares. Ele permite perceber o uso do conhecimento científico enquanto uma ferramenta de transfor- mação social e mudança positiva da realidade. Neste sentido, o PI é utilizado em diversas áreas do conhecimento, podendo ser de- senvolvido em contextos específicos ou organizações, com a finalidade de modifi- car a estrutura, processo de trabalho, práticas sociais e dinâmicas consideradas ina- dequadas, mediante parâmetros estabelecidos (MOURA; BARBOSA, 2006). Ou seja, um PI visa sempre solucionar problemas ou atender a necessidades identificadas, e seu desenvolvimento deve partir de uma ação conjunta com a integração de todas as pessoas afetadas pela intervenção (XAVIER, et al., 2018). Quando abordamos o PI especificamente na saúde e no contexto da APS, ele é uma proposta de ação desenvolvida a partir de um diagnóstico da realidade para atuar em um ou mais problemas presentes no território, comunidade ou em grupos da população adscrita, seja no âmbito assistencial ou da gestão, visando a melhoria das condições de saúde ou modificação positiva nos seus determinantes e condi- cionantes (XAVIER, et al., 2018). Outro aspecto central para compreender o que é um PI são os seus pressupostos e bases teóricas. Embora sua finalidade seja a prática, a ideia e ferramentas meto- dológicas que o sustentam são oriundas de dois lugares: a Pesquisa-Ação e o Pla- nejamento em Saúde (XAVIER, et al., 2018). As teorizações e ferramentas disponi- bilizadas por essas duas abordagens estão na estrutura constituinte dos PI, especialmente no campo da saúde. Entretanto, o fato de ser objetivo, focalizado e transformador da realidade não significa que o PI esteja fora do conhecimento cien- tífico. Pelo contrário, ele é uma modalidade de produção cientí- fica, pois baseia-se na racionalidade e tem como fundamento teorias específicas e conhecimentos sistematizados produzidos sobre problemas que precisam ser superados. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 55 Acompanhe no item a seguir quais são os pressupostos teóricos do Projeto de Intervenção! 2.3.2. PRESSUPOSTOS TEÓRICOS APLICADOS AO PI Conforme apontam Xavier et al. (2018 p.286), em análise sobre os PI nos serviços de saúde: Os que atuam no mundo prático, a exemplo dos serviços de saúde, acredi- tam muitas vezes não lançar mão de modelos teóricos; e alguns acadêmi- cos preferem se distanciar do universo das práticas. Contudo, tanto acadê- micos quanto trabalhadores que atuam nos serviços de saúde teorizam, mobilizam saberes diversos em sua prática de trabalho e constroem co- nhecimento, sistematizando efeitos e resultados de suas ações. As práticas estão permeadas de teorias. Sendo assim, percebe-se que os PI não só estão embasados por pressupostos te- óricos como também, na sua ação prática, produzem novas possibilidades de teo- rização e construção de conhecimento. A partir disso, vamos conhecer a relação da Pesquisa-Ação e do Planejamento em Saúde com o PI. 2.3.2.1. PRESSUPOSTOS DA PESQUISA-AÇÃO APLICADOS AO PI A Pesquisa-Ação, como seu próprio nome sugere, tem por objetivo ir além da pes- quisa convencional, descritiva ou analítica, com o pesquisador em um papel ativo frente aos problemas identificados, buscando caminhos e ações para solucioná-los. Ou seja, além do levantamento dos dados e produção de informações, o desenvol- vimento dessa modalidade de pesquisa pressupõe uma relação dialética entre a pesquisa e a ação de modoque ambas não podem ser dissociadas no desenvolvi- mento do processo. Segundo Tholen (2011, p. 30) a Pesquisa-Ação é uma modalidade de: …pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do pro- blema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. Conforme o autor destaca, os pesquisadores não são neutros e participam ativamen- te das etapas em busca de aprimoramento das práticas analisadas e da construção de novos conhecimentos (THIOLLENT, 2011). Assim, a Pesquisa-Ação não apresenta uma estrutura linear, mas sim característica de etapas em espiral ligando o planeja- mento, a ação e a apuração de fatos com o resultado da ação e da avaliação (TRIPP, 2005). Veja na figura a seguir a representação visual das etapas em espiral. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 56 Com certeza você já percebeu que é possível pensarmos em algumas característi- cas comuns entre Pesquisa-Ação e PI: • grande interação entre profissional da saúde e as pessoas do local em que se de- senvolve o trabalho; • objeto de trabalho não definido pelas pessoas, mas sim pela realidade da situa- ção social e problemas identificados; • objetivo de sempre resolver, completamente ou em parte, as situações indeseja- das que são verificadas na realidade; • trabalho incorporando integralmente a participação popular, não só como objeto de intervenção, mas como ator ativo no processo; • planejamento das ações com vistas ao êxito, definindo metas e objetivos, inter- venções, atores implicados no processo, atividade de cada ator, critérios de mo- nitoramento e avaliação, entre outros. Deste modo, percebe-se que a Pesquisa-Ação está na base do PI, tanto no aspecto teórico quanto metodológico. Contudo, deve-se atentar para a diferença da finalida- de dos dois tipos de trabalho. Enquanto o PI é focado na intervenção contextualiza- da, ou seja, busca a partir do conhecimento da realidade promover ações mais efe- tivas e melhorias no processo de trabalho, a Pesquisa-Ação tem dois enfoques: o prático e o de conhecimento. O PI até pode gerar novos conhecimentos, todavia esse não é seu enfoque principal, mas sim a organização da assistência para melhorias de problemas identificados. Decisão de iniciar Projeto de pesquisa de ação Planejar Refletir Ag ir Observar Refletir Pla ne ja r Agir Observar Melhor saúde EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 57 Thiollent (2011) propõe diferentes momentos para o desenvolvimento de uma pes- quisa-ação, sendo que os procedimentos propostos auxiliam na elaboração e no desenvolvimento dos PI. O autor destaca quatro momentos específicos: • Fase exploratória: consiste no diagnóstico inicial ou da realidade onde os proble- mas do território e da comunidade são identificados, bem como as pessoas inte- ressadas em participar da pesquisa e suas expectativas. É o momento para defi- nição dos objetivos e identificação de possíveis ações (Thiollent 2011). • Tema da pesquisa: é o momento de identificação da área temática de conheci- mento onde o problema elencado para trabalho se insere. Nesta etapa é impor- tante definir o marco teórico norteador que trará o olhar pretendido para o proble- ma e a forma de agir sobre ele (Thiollent 2011). • Colocação de problemas: é o momento de observar cuidadosamente a temáti- ca escolhida e levantar uma ou mais problemáticas para ser abordado na inter- venção. No caso do PI, destaca-se a necessidade de serem elencados problemas de ordem prática, visto que o enfoque é a mudança e melhorias de uma determi- nada situação (Thiollent 2011). • Lugar da teoria: neste momento, deve-se definir um marco teórico que irá guiar seu trabalho, dando base para suas interpretações, construção de hipóteses e de- finição da intervenção. Apesar de ter enfoque na prática, o PI não dispensa a teoria, pois é nela que você encontrará a direção para sua intervenção (Thiollent 2011). Agora que conhecemos os pressupostos da Pesquisa-Ação relacionados ao PI, vamos seguir os estudos tratando sobre os pressupostos de planejamento em Saúde no próximo item. 2.3.2.2. PRESSUPOSTOS DO PLANEJAMENTO EM SAÚDE APLICADOS AO PI O planejamento tem grande relevância dentro da operacionalização do SUS, embora ainda seja um desafio no cotidiano dos gestores e equipes de saúde. Planejar é, de forma abrangente, perceber a realidade como está colocada, avaliá-la com parâ- metros definidos e construir previamente um referencial para caminhos futuros. Ou seja, traçar caminhos, segui-los com antecedência para que as coisas fiquem como deveriam ser, realizar cálculos que precedem e presidem a ação. Por ser um recurso do campo da administração, mas aplicado em diversos outros campos do conhecimento, o planejamento tem suas peculiaridades quando tra- balhado na saúde. Nesse sentido, ressalta-se o Planejamento Estratégico e Situ- acional (PES) proposto por Carlos Matus, a partir de um olhar crítico sobre os métodos tradicionais de planejamento difundidos na América Latina nos anos 50 (IIDA,1993). EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 58 Neste sentido, o PES é um método que atua a partir de problemas, especialmen- te a partir daqueles mal estruturados e complexos que não possuem solução normativa ou conhecida previamente. Além disso, os problemas são sempre ob- servados a partir de suas dimensões social, política, econômica, cultural, entre outras (MATUS, 1989), porque assume-se a complexidade e intersetorialidade dos problemas, reconhecendo que: 1. suas causas não se limitam a uma dimensão ou setor específico; 2. sua solução pode depender do diálogo entre várias dimensões, da interlocução de mais de um setor e dos diversos atores envolvidos no processo. Com ênfase na utilidade de suas ferramentas metodológicas para o PI, destaca-se que, apesar de ter sido desenhado para utilização em nível central e global, possui um formato flexível que permite a aplicação em níveis regionais, locais e até seto- riais. Apesar disso, sugere sempre a necessidade de situar os problemas em um contexto mais amplo, mantendo a explicação situacional que permite a análise da viabilidade para a intervenção na realidade. Como já vimos na Pesquisa-Ação, o PES também aponta para a necessidade de superar a visão tradicional da ciência, reconhecendo os sujeitos implicados no pro- cesso como atores comprometidos com os resultados das ações planejadas, ou seja, não apenas como um mero expectador, mas sim um agente. Sendo que isso deve contribuir para contextualização das demandas e maior senso prático, com projeções de curto, médio e longo prazo (MATUS, 1989). Outro aspecto do PES, que deve ser considerado no desenvolvimento do PI, é o re- conhecimento dos problemas/limitações políticas. Sabe-se que os diferentes agentes estão colocados em distintas posições de poder e, principalmente, as restrições de poder aparecem como limitadores ao avanço de determinados planos. Devido a isso, é necessária uma ampla articulação com os níveis de gestão, assistência e co- munidade para que seja possível viabilizar as intervenções (MATUS, 1989). Como proposta metodológica para sua operacionalização, o PES é composto por 4 momentos distintos, mas interligados, descritos a seguir: • momento explicativo: diagnóstico da realidade com seleção de problemas con- siderados relevantes para os atores sociais, bem como análise e descrição dos problemas selecionados; O PES diferencia-se do planejamento tradicional, pois incorpora aspectos de gerência, organizacionais e enfatiza o momento tá- tico-operacional em que se observa a conjuntura em que o pla- nejamento está sendo desenvolvido, possibilitando avaliação e atualização constante do plano.Assim o planejamento fica intrin- secamente ligado às intervenções e aos resultados/impactos, não somente ao cálculo que visa anteceder a ação. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 59 • momento normativo: definição e desenho da situação objetivo/situação futura que se deseja frente aos problemas, bem como construção das intervenções e ações concretas para atingir os resultados, tendo como referência as metas defi- nidas. Realização da pré análise de viabilidade; • momento estratégico: realização da análise de viabilidade do planejamento pro- posto nas dimensões social, política, econômica, cognitiva, organizativa, entre outras. Esse processo deve focar em situações em que os atores não controlam todos os fatores para realização do plano; • momento tático-operacional: realização de intervenções e ações, ou seja, a imple- mentação do plano. Deve-se considerar que o plano não se trata de um mero desenho no papel, mas sim um compromisso de ação para obtenção de novas situações mais favoráveis do que as iniciais. Para isso, também deve-se fazer o monitoramento, ajustes nas rotas traçadas (quando necessário) e avaliação das intervenções. A partir disso, podemos pensar nos pressupostos e ferramentas do planejamento para o desenvolvimento adequado do PI. Inicialmente é necessário ter claras algumas questões como: • Onde se quer chegar? • Quais objetivos se tem? • O que se considera ideal? Caso isso não esteja delimitado e estabelecido corre-se o risco de se ter um projeto sem direção e pouco efetivo. Todavia, considerando o planejamento um processo dinâmico, as respostas para essas perguntas não devem estar fechadas e pré-es- tabelecidas a priori, mas sim construídas no processo. Não equilibrar esses dois pontos (definição e contextualização) pode fazer com que se caia em um equívoco comum: o processo de planejamento restrito a como se acha que as coisas deve- riam ser (IIDA,1993; KLEBA; KRAUSER; VENDRUSCOLO, 2011). Neste sentido, o PI deve ser baseado na realidade e testado na prática, tendo fac- tibilidade técnica e política para que não se torne apenas um exercício para os que fazem o plano. Existem alguns cuidados, baseados no planejamento em saúde, re- levantes para o PI. Acompanhe a seguir: • ter objetivos claros e estabelecer as condições ideais para esses; • ter um bom diagnóstico da realidade do local em que se pretende atuar, incluin- do equipe de saúde e comunidade nesta construção; • estabelecer metas claras para os objetivos traçados; • verificar as condições e viabilidade das intervenções antes de propô-las; • estabelecer as formas de operacionalizar, os recursos necessários e os responsá- veis para as intervenções propostas; e • determinar ferramentas para monitoramento e avaliação das intervenções propostas. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 60 Exemplificando, não basta no processo de construção do PI afirmar que se quer reduzir as taxas de diabetes mellitus tipo 2. Isso é o que se deseja. Para que se tra- balhe na perspectiva do planejamento em saúde é necessário identificar, por meio de diagnóstico da realidade, se este realmente é um problema relevante para a co- munidade, quais os principais grupos afetados, bem como os condicionantes e de- terminantes do excesso de peso naquele contexto. A partir disso, é momento de estabelecer objetivos e metas claras para redução das taxas do excesso de peso na comunidade, de preferência apontando quais os grupos ou faixas etárias serão alvo das ações. Somente aí deve-se pensar em como serão executadas as intervenções, considerando a viabilidade mediante aos recursos e relações de poder na gestão. Serão ações de promoção da alimentação adequada e saudável e de atividades físicas, de prevenção ou de tratamento? Individuais, co- letivas e/ou intersetoriais? Onde serão realizadas as ações? Quem realizará? Com quais recursos? Em quanto tempo? Tendo isso pactuado, deve-se, então, definir marcadores para que seja possível re- alizar um monitoramento das intervenções, por meio de verificação da adesão às ações por parte do público-alvo, ou mesmo analisando a redução nas taxas de in- divíduos com essa morbidade a médio e longo prazo. Esse procedimento permite corrigir problemas na intervenção para que seja possível atingir os objetivos e metas traçados. E, no final do processo, avaliar os resultados do PI como um todo, obser- vando se a intenção inicial de redução das taxas de excesso de peso, por exemplo, foi cumprida, analisando as especificidades. Agora que identificamos a importância do PI e conhecemos os pressupostos para o seu desenvolvimento, vamos compreender a sua estrutura metodológica. 2.4. ESTRUTURA METODOLÓGICA DO PROJETO DE INTERVENÇÃO Como vimos, os PI devem ser adequados à realidade e, portanto, o andamento deles ocorrerá em velocidade e tempos particulares a cada intervenção. Para finalidade de trabalho de conclusão de curso, constitui-se em etapa obrigatória a construção do PI, sendo sua implantação/execução recomendável. Os TCCs podem assumir formatos distintos a depender das diretrizes do curso e do tipo de trabalho que se propõem para esta etapa final. Na presente espe- A metodologia utilizada para o desenvolvimento do PI não será a da Pesquisa-Ação e do PES dentro da complexidade a que estes se propõem. Conforme apresentado, o caminho é utilizar ferramentas dessas abordagens para fornecer o apoio necessá- rio para a construção e implementação do PI. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 61 cialização, por tratar-se de um PI, propõe-se uma estrutura com os seguintes itens: Introdução; Objetivos; Revisão da Literatura; Metodologia; e Resultados Esperados. A partir disso, vamos apresentar a estrutura metodológica do PI, que dará base para você construir cada um dos itens do seu TCC. Ou seja, ao passar por esses conteú- dos, conhecerá quais informações deverão compor os capítulos do seu PI, para que ele esteja adequado à aplicação. Por isso, é importante que o trabalho siga os passos operacionais que serão descritos a seguir. Acompanhe! 2.4.1. DESENVOLVENDO UM PROJETO DE INTERVENÇÃO Desenvolver o PI implica: identificar, envolvendo os atores da sociedade, os proble- mas da realidade em que se vai atuar; selecionar um tema relevante para abordar; definir objetivos; conhecer a literatura sobre as melhores práticas já testadas para agir sobre o tipo de problema identificado; traçar ações/estratégias para atuar sobre esses problemas; monitorar/avaliar sua aplicação; e sugerir possíveis resultados que se espera obter com a intervenção. Nessa fase, vamos passar por cada uma dessas etapas, de forma objetiva e clara, para auxiliá-lo na construção do TCC. Vamos, então, iniciar pela fase exploratória. 2.4.1.1. FASE EXPLORATÓRIA Neste momento você precisará realizar um diagnóstico social e epidemiológico de comunidade sob sua responsabilidade, pois reconhecer a realidade na qual se está inserido é o primeiro passo na elaboração de seu PI. Como trabalhamos no campo da saúde com o conceito ampliado, deve-se observar os determinantes biológicos, sociais e ambientais da saúde. Você pode obter informações de três diferentes formas, conforme descrito a seguir: 1. percorrer o território que pretende atuar e fazer anotações de suas percepções; 2. buscar informações nas bases de dados e sistemas de informação em saúde da unidade, município ou do Ministério da Saúde; e 3. conversar de forma individual e coletiva com os trabalhadores de saúde das equipes e com membros da população adscrita. Recomenda-se que as informações obtidas sejam analisadas e sistematizadas para a construção de um diagnóstico da realidade que permita visualizar os problemas vigentes na comunidade. Por exemplo, se você obtiver dados epidemiológicos, sugere-se organizá-los em porcentagempara melhor compreensão. Quando tiver relatos dos profissionais e usuários ou anotações sobre a comunidade, busque fazer uma análise básica, bus- cando o que se repete nas falas, as contradições entre elas e as divergências entre o que se fala e o que você observa. Fazer essas análises simples permitirá que você EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 62 compreenda mais profundamente os problemas e fortalezas da comunidade em que se irá realizar a intervenção. Para facilitar sua organização e ordenar a construção do seu PI, recomendamos que você organize as informações em uma tabela com três itens: 1. problema identificado - problema deve ser descrito em uma frase afirmativa; 2. fatores que influenciam a ocorrência do problema - uma lista de fatores que influenciam a ocorrência do problema deve ser elencada a partir do conheci- mento que tem de sua comunidade e realidade local. 3. Consequências - as possíveis consequências de saúde para os indivíduos, caso o problema não seja abordado também devem ser listadas. Veja a seguir dois exemplos e observe os modelos de tabela, que embora apenas ilustrativos, a partir de territórios fictícios, são bastante próximos a algumas realida- des locais. Com isso, ao ler os exemplos, talvez você identifique situações similares em seu território ou considere-os distantes da realidade onde atua. O mais impor- tante, é que você saiba que este modelo é apenas para explicação didática. Problema identificado Fatores que influenciam a ocorrência do problema Consequências Alto número de ges- tantes com menos de 6 consultas de acompanhamento pré-natal. • Fechamento de alguns serviços na UBS para remanejamento de profissionais para atendimento de casos sintomáticos COVID-19. • Área adscrita com população que não utiliza os serviços do SUS, pois tem plano de saúde. • A UBS é muito distante de sua casa. • Custo de deslocamento para a UBS. • Descoberta tardia da gestação. • A gestante esconde a gestação dos familiares responsáveis. • Dificuldade de a gestante compa- recer à consulta por não ter com quem deixar os outros filhos e não se liberar dos afazeres domésti- cos. • Não consegue liberação do traba- lho. • Possibilidade de o RN ter baixo peso ao nascer. • Chance de prematurida- de. • Risco aumentado de mor- te materno-infantil. • Índice de complicações maternas durante a ges- tação e no momento do parto aumentado. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 63 Baixo número de crianças menores de um ano de idade com calendário vaci- nal completo. • Percepção errada da população sobre a vacinação em relação a doenças já erradicadas. • Indisponibilidade de vacina na UBS. • Dificuldade de acesso. • Risco aumentado para desenvolvimento das doenças relativas às imu- nizações que não foram realizadas. • Crianças não vacinadas estão mais suscetíveis a maior morbimortalidade. • Risco de doenças graves ressurgirem. Essas informações serão imprescindíveis para que você e os profissionais de saúde envolvidos trabalhem as etapas seguintes do seu PI, pois esse diagnóstico da fase exploratória subsidiará as tomadas de decisão a seguir e irá compor a etapa de in- trodução do seu PI. 2.4.1.2. DEFINIÇÃO DO TEMA A definição do tema é um momento crucial onde, a partir do reconhecimento da re- alidade local, você escolhe a temática mais relevante para a melhoria dos níveis de saúde da comunidade a ser abordada em seu PI (Projeto de Intervenção). No Pro- grama Mais Médicos para o Brasil, é possível acomodar uma variedade de temas, pois eles tratam de questões amplas que podem ser alvo de diferentes ações. Confira a seguir uma lista ampliada de temáticas que poderão ser trabalhadas por você no seu PI: • Ações de melhoria da comunicação do profissional/equipe/UBS com os usuários; • Ações de monitoramento e avaliação do trabalho; • Ações do médico/equipe/UBS de Educação Permanente para promover me- lhorias do cuidado; • Ações em Educação Popular; • Acolhimento e/ou Classificação de risco; • Acompanhamento a Gestantes e Pré-Natal; • Adscrição de Clientela; • Articulação intersetorial - projetos e ações que implicam participação de servi- ços / instituições de outros setores fora da Saúde; • Atenção/Visita domiciliar; • Biossegurança; • Busca ativa; EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 64 • Cadastramento familiar e dos usuários do território; • Cobertura Vacinal / Imunização; • Condicionalidades do Programa Bolsa Família (PBF); • Cuidado às Pessoas em Situação de Violência; • Cuidados Paliativos; • Diagnóstico Situacional; • Doenças Crônicas Não-Transmissíveis (Hipertensão, Diabetes, Câncer, Doenças Cardiovasculares, Doenças Respiratórias, Obesidade); • Doenças Infecciosas Transmissíveis (Hanseníase, Tuberculose, HIV/AIDS, Sífilis e outras IST, SARS, Influenza); • Estratégias de agendamento; • Fomento à participação popular na organização da equipe / UBS; • Humanização do cuidado; • Integração com as e-Multi; • Integração com Saúde Bucal; • Integração com serviços de outros níveis de atenção na Rede de Atenção à Saúde (Hospitais, Centros Especializados, CAPS, UPA, Policlínicas); • Mapeamento da área de abrangência; • Oferta de Atendimento Integral e Igualitário; • Organização da demanda (espontânea e programada) • Orientação ao autocuidado; • Práticas Integrativas em Saúde (PIS); • Programação da Oferta de serviços para população adscrita; • Promoção à Saúde e Prevenção de Doenças; • Saúde da Criança; • Saúde da Mulher; • Saúde da Pessoa Portadora de Deficiência; • Saúde da População em Situação de Rua; • Saúde da População Indígena; • Saúde da População LGBTQIA+; • Saúde da População Negra; • Saúde da População Privada de Liberdade; • Saúde das Populações do Campo, Florestas e Águas; EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 65 • Saúde do Adolescente e do Jovem; • Saúde do Homem; • Saúde do Idoso; • Saúde do Trabalhador; • Saúde Mental; • Saúde Sexual e Reprodutiva; • Segurança do Paciente; • Vigilância em Saúde; Assim, caberá a você definir qual o tema prioritário na sua comunidade, consideran- do a viabilidade de nele atuar. Nesses temas você poderá optar em trabalhar por fases do ciclo da vida ou ainda trabalhar com grupos vulneráveis específicos na sua comunidade, priorizando aqueles com piores indicadores de saúde. Considerando especialmente o potencial transformador, é fundamental que a de- finição do que será o tema do PI seja resultado de debates e acordo entre os en- volvidos, ou seja, você, a equipe, a gestão e a comunidade. Essa negociação é im- portante, porque mobiliza-os para atuar sobre as pactuações. A definição do tema, bem como informações sobre ele também irão compor o capítulo de Introdução do seu PI.. 2.4.1.3. ESCOLHA DO PROBLEMA A partir do diagnóstico inicial e do tema escolhido será necessário explicitar o pro- blema que se deseja trabalhar. Nesse momento você deve resgatar as informações que foram organizadas em tabela durante a fase exploratória e compartilhar com sua equipe. Naturalmente você listou diversos problemas, sendo necessário, nesta etapa, analisar qual problema será trabalhado no PI. Tenha em mente que a intervenção sempre deve ser feita a partir de um problema relevante para equipe de saúde e comunidade, que seja de sua governabilidade e passível de atuação em equipe. Para isso, elencamos algumas perguntas que você pode utilizar para discutir com sua equipe no momento da escolha do problema em sua comunidade. Veja seguir: • Qual impacto a situação atual tem nos resultados de saúde e qualidade de vida das pessoas? • Quais custos em saúde são necessários para resolução? • Quais grupos de pessoas estão em maior risco? • Quais configurações ou situações são dealto risco ou representam uma oportu- nidade única de intervenção? EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 66 • Como a comunidade local percebe a situação? • Qual é a sua capacidade de agir? • A resolução trará benefícios duradouros para a comunidade? As respostas a essas questões indicarão se o problema é passível de ser escolhido ou não. É possível elencar mais de um problema para o PI, todavia se deve cuidar para não tornar o projeto muito abrangente e pouco eficiente. Os problemas escolhidos, bem como as justificativas para sua escolha, deverão ser descritos na introdução do PI. 2.4.1.4. OBJETIVOS Com a realidade reconhecida, o tema e os problemas definidos é o momento de traçar os objetivos que se pretende alcançar com a intervenção. Nesta etapa, você precisará ter em mente o que propor para resolver a situação que se coloca como problemática na comunidade e que motivou a realização do seu projeto, com base em conhecimento científico. Os objetivos precisam ser afirmativos, definindo aquilo que se pretende atingir, in- cluindo público-alvo e local, e as mudanças que serão implementadas. Além disso, devem ter coerência frente à metodologia do trabalho, sendo que no caso do PI deve-se atentar para que os objetivos sejam de intervenção e não de pesquisa. É necessário traçar um objetivo geral e objetivos específicos, conforme as recomen- dações a seguir: • objetivo geral: deve estar relacionado aos resultados mais abrangentes para os quais o projeto pretende contribuir; • objetivos específicos: devem expressar exatamente o que você espera atingir ao final do trabalho, podendo incluir, também, os produtos que se espera gerar com a execução do projeto de intervenção. Com o intuito de lhe auxiliar na construção dos seus objetivos, elencamos algumas perguntas que você poderá responder para verificar se os objetivos traçados estão Busque ter um olhar abrangente e criativo, procure escolher um problema diferente daqueles que você já aborda diariamente. Inove, mas sempre ponderando trabalhar um problema contex- tualizado em sua realidade local. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 67 adequados. • Seus objetivos declaram ações diretas a serem tomadas na execução do seu projeto? • Qual é um prazo realista para atingir o objetivo, considerando os recursos dispo- níveis e seu contexto situacional? • Os critérios para serem considerados alcançáveis estão claros e será possível men- surar os resultados obtidos? • As condições necessárias para a obtenção dos resultados estão claras? Sugere-se que os objetivos construídos sejam apresentados e discutidos com seus colegas de equipe, gestão e/ou membros da comunidade para determinar quais são relevantes e inspirá-los a apoiar e contribuir no desenvolvimento das ações programadas. Os objetivos definidos, servirão como âncora e estrutura para o planejamento do pro- grama. Eles precisam fornecer um conjunto de pontos finais claros, em torno dos quais você pode organizar as estratégias de intervenção ou atividades. À medida que o pla- nejamento avança e a situação evolui, suas estratégias e atividades podem mudar, mas os objetivos bem estabelecidos permanecem relativamente constantes. Conforme o nome sugere, os objetivos, geral e específicos, irão compor o capítulo de Objetivos do seu PI. 2.4.1.5. REVISÃO DA LITERATURA A revisão da literatura é uma parte do trabalho em que se busca e aprofunda os as- pectos teóricos e práticos, disponíveis na literatura científica sobre o tema e proble- ma que serão abordados no PI. Destaca-se que, desde o início do trabalho, tem-se contato com diversas literaturas sobre o tema. Neste sentido, recomenda-se que essas leituras prévias sejam incluídas, visto que subsidiaram as fases iniciais do PI. Para realizar essa etapa, você terá auxílio do orientador desde o início e para uma construção completa você deverá pesquisar sobre o tema do seu projeto para iden- tificar os conhecimentos já produzidos e que irão contribuir como base para a inter- venção que será desenvolvida. Utilize materiais com base científica como artigos, livros, teses, dissertações, monografias, legislações, portarias, instrutivos, protoco- los, políticas, entre outros para sustentar seu PI. Recomenda-se que sejam trabalhados minimamente os tópicos a seguir: • definição conceitual do tema e problema a ser trabalhado; • contextualização social e histórica do problema escolhido; • Informações e dados epidemiológicos sobre o seu tema no âmbito internacional, nacional e local; • políticas públicas sobre o seu tema e problemas; EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 68 • a relevância da intervenção que você deseja realizar; e • experiência, dados e procedimentos sobre intervenções realizadas sobre proble- mas semelhantes em outros contextos. Tenha em mente que uma boa revisão da literatura auxilia na construção de pro- postas de intervenção adequadas, cientificamente e alinhadas às melhores práti- cas. Para isso, deve-se pesquisar referências atualizadas em bases de dados con- fiáveis como, por exemplo: • Scientific Eletronic Library Online: http://www.scielo.org/php/index.php • Pubmed: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed • Biblioteca Virtual em Saúde: https://brasil.bvs.br/ • Google Acadêmico: http://scholar.google.com.br/ Você pode utilizar outras bases de sua confiança, sendo que é importante dialogar com seu orientador e contar com sua ajuda nesta fase. 2.4.1.6. PROPOSTA DE AÇÃO METODOLÓGICA Essa etapa concentra-se na seleção e descrição das estratégias, intervenções e ati- vidades que irão possibilitar o alcance dos objetivos traçados, bem como na atribui- ção dos recursos necessários para executá-los com eficácia. Você também contará com o auxílio do orientador desde a fase inicial para construção desse material. Na construção das propostas de ação metodológica é necessário detalhar o que será feito na implementação do PI. Essa construção serve para formalizar as inter- venções, sendo, também, um guia para os atores envolvidos no processo. Assim, você precisará descrever, de forma minuciosa, quais os participantes, os instrumen- tos e os procedimentos que serão empregados para superar os problemas identi- ficados e selecionados para o PI. Para o desenvolvimento desta etapa você pode se perguntar: Quais estratégias e atividades irão nos aproximar dos objetivos dentro dos limites de nossos recursos (tempo, recursos econômicos e pessoas)? Além disso, certifique-se que suas propostas de ações estão alinhadas e baseadas em evidências científicas robustas. A descrição apresentada no percurso metodológico deve ser clara, com textos rápidos e objetivos. Entretanto, deverá ser com- pleta ao ponto que permita que qualquer pessoa que leia o projeto, consiga compreender e colocar as ações em prática. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 69 Confira a seguir alguns pontos que devem estar respondidos na elaboração do per- curso metodológico: • Para quem será feito? Elencar aqueles que serão diretamente afetados. • O que será feito? Apresentar uma descrição clara e detalhada das ações/inter- venções que serão executadas. • Como será feito? Descrever o passo a passo ações/intervenções propostas no PI. • Onde será feito? Apresentar o local em que será desenvolvido o PI. É importante que o local esteja relacionado com área adscrita. • Quando será feito? Indicar o tempo necessário para desenvolver e implementar a proposta do PI. • Quem fará? Indicar os atores responsáveis por cada ação/intervenção proposta. Além disso, para monitorar e avaliar as atividades desenvolvidas do PI, nesta etapa é necessário definir as formas de monitoramento e avaliação com indicadores claros e relacionados aos objetivos. Todas as decisões e formalizações do PI devem serfeitas em conjunto e consenso com os atores envolvidos no projeto. Recomenda-se, para fins de organização da implementação do PI, a construção de um cronograma com as datas, atividades, população alvo, participante responsável e objetivos a serem alcançados. Esse material facilitará a visualização e cumprimen- to dos prazos, durante a execução do projeto. O material construído neste momento irá compor o capítulo da Metodologia do seu PI. 2.4.1.7. RESULTADOS ESPERADOS No desenvolvimento de projetos, costuma-se fazer uma previsão dos resultados que serão alcançados a partir da implementação das atividades planejadas. Isso exige uma percepção crítica, visto que apresentar os resultados esperados é im- portante ser realista, tem base da literatura e prever as possíveis barreiras que serão encontradas ao longo da execução. Dessa forma, a etapa dos resultados esperados será a última parte do projeto. No PI para o TCC deste curso, você poderá descrever intervenções já realizadas ou que ainda serão realizadas. Assim você deverá considerar essas duas possibilidades e suas diferenças. No primeiro caso, a descrição será de resultados obtidos, ou seja, quais os resulta- dos alcançados com a execução das intervenções. Os resultados devem estar ali- nhados com os objetivos do trabalho e devem ser apresentados com linguagem adequada e com análise das informações obtidas. No segundo caso, será necessário imaginar quais são os resultados esperados, com base na literatura e na sua experiência prática, como médico na APS. Neste caso, re- EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 70 comenda-se que o material tenha, pelo menos, os três pontos destacados a seguir: • retomado de forma sucinta os problemas escolhidos e objetivos traçados; • retomar o os benefícios dos métodos escolhidos para as intervenções; • descrever o que se espera alcançar com a intervenção. Independentemente da situação do seu PI, o material construído nesta etapa irá compor o capítulo da Resultados Esperados no projeto. 2.5. ASPECTOS ÉTICOS DO PROJETO DE INTERVENÇÃO Se cotidianamente, em sua profissão, dilemas éticos se apresentam, no desenvol- vimento do seu Projeto de Intervenção não será diferente. Neste sub tópico, vamos apresentar algumas informações para auxiliá-lo a compreender e abordar as situ- ações que surgirão neste processo. Os aspectos éticos são base para uma boa convivência em sociedade, visto que repre- sentam as regras, preceitos e pressupostos de aspecto valorativo e moral de indivíduos, grupos sociais ou sociedades. No campo da saúde, as discussões sobre ética são centrais na produção de conhecimento, bem como na prática cotidiana dos profissionais da saúde. As pesquisas em saúde, quando envolvem a participação de seres humanos, devem seguir procedimentos éticos pré-definidos e aprovadas por comitês de ética em pesquisa antes de serem executadas (CNS, 2012). Sendo este procedimento uma forma de proteção dos indivíduos, sociedade e dos próprios pesquisadores. Na prática cotidiana, as profissões da saúde possuem os códigos de ética, de seus respectivos conselhos de classe, que visam estabelecer os parâmetros referentes aos direitos, deveres, proibições e responsabilidades para o exercício da profissão. Sendo assim, as práticas profissionais devem ser balizadas por estes pressupostos éticos, com a previsão de punição em caso de violações. Conforme já abordamos ao longo desta unidade, o PI não será uma pesquisa, mas sim uma intervenção com base em diagnós- tico da realidade e conhecimentos científicos já consolidados. Neste sentido, por se tratar de uma ação no serviço de saúde, semelhante às que ocorrem no cotidiano de trabalho, com planejamento e execução, e fazer parte de um processo formativo de especialização, ressalta-se que não há necessidade de aprova- ção do trabalho por comitê de ética em pesquisa para o desenvolvimento do PI. En- tretanto, isso não significa que não há necessidade de cuidados éticos, pelo contrário, é indispensável conhecê-los e colocá-los em prática no desenvolvimento do PI. Assim, vamos trazer alguns pressupostos tanto da ética em pesquisa quanto da ética profis- sional para auxiliar no desenvolvimento de um PI adequado em relação aos aspectos éticos. Acerca dos cuidados em relação ao público-alvo da intervenção, destacam-se EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 71 alguns pontos adaptados da resolução nº466, de 12 de dezembro de 2012 (CNS, 2012): • respeito às pessoas que compõem o público-alvo da intervenção em sua digni- dade e autonomia, reconhecendo sua vulnerabilidade, assegurando sua vontade de contribuir e permanecer, ou não nas atividades do PI; • ponderar entre os riscos e benefícios, tanto conhecidos como potenciais, indivi- duais ou coletivos, comprometendo-se com o máximo de benefícios e o mínimo de danos e riscos das intervenções propostas; • ser adequado aos princípios científicos que o justifiquem e com possibilidades concretas de responder aos problemas; • utilizar os métodos e ferramentas adequadas para responder aos problemas identificadas; • obter concordância e anuência formal e/ou verbal das pessoas que compõem que irão participar do PI como membros e como o público-alvo; • construir procedimentos para assegurar a confidencialidade e privacidade dos participantes, principalmente em intervenções que atuem sobre problemas em grupos vulneráveis e que possam ser estigmatizados. Esses cuidados devem ser considerados desde o início da construção do PI. Em relação ao código de ética médico (CFM, 2019), destaca-se alguns itens dos con- ceitos fundamentais que fornecem subsídio para o desenvolvimento do projeto: • II - O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional. • XI - O médico guardará sigilo a respeito das informações de que detenha conheci- mento no desempenho de suas funções, com exceção dos casos previstos em lei. • XIV - O médico empenhar-se-á em melhorar os padrões dos serviços médicos e em assumir sua responsabilidade em relação à saúde pública, à educação sani- tária e à legislação referente à saúde. • XVII - As relações do médico com os demais profissionais devem basear-se no respeito mútuo, na liberdade e na independência de cada um, buscando sempre o interesse e o bem-estar do paciente. • XXVI - A medicina será exercida com a utilização dos meios técnicos e científicos disponíveis que visem aos melhores resultados. Além disso, no Capítulo III, aponta em seu artigo primeiro que é vedada ao médico “Causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, im- prudência ou negligência’’ (CFM, 2019 p. 21). Ou seja, como vimos o PI é a organização de uma ação planejada a partir da realidade. Neste sentido, ele deverá estar integrado à atuação profissional do médico no APS, con- siderando os aspectos éticos já presentes na prática. Entretanto, destaca-se que a pos- sibilidade de construir este projeto, com participação da equipe, gestão e/ou usuários é uma oportunidade de formalizar e qualificar aspectos éticos do trabalho na APS. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 72 2.6. FECHAMENTO DA UNIDADE Os Pis são ferramentas importantíssimas para seu desenvolvimento profissional. Invista nas suas habilidades de estruturar os Pis. Nessa Unidade, você pôde identificar a importância do uso do Projeto de Interven- ção, conhecer os pressupostos teóricos que orientam um Projeto de Intervenção, compreender a estrutura metodológica para elaboração do Projeto de Intervenção, utilizar as principais etapas para construção do Projeto de Intervenção e elaborar um Projeto de Intervenção. Projeto de intervenção aplicado ao Trabalho de Conclusão de Curso – TCC UNIDADE 03 Objetivodo co- nhecimento e da sociedade • Compreender os fundamentos da ética em pesquisa e da necessidade dos Comitês de Ética em Pesquisa • Diferenciar os principais desenhos de estudo no meio científico Muito sucesso nessa jornada! 1.2. O QUE É E PARA QUE SERVE A CIÊNCIA? Mais adiante, profissional estudante, você precisará desenvolver o seu Trabalho de Conclusão de Curso - TCC. Esse trabalho marcará o final de uma importante etapa de sua formação, demonstrando a sua competência científica como um dos pré-requisitos para a conclusão do seu Curso de Especialização. Na próxima unidade, você relembrará como deve construir um projeto de inter- venção, método escolhido para o seu TCC, mas, antes disso, é importante relem- brarmos alguns conceitos importantes, que o auxiliarão a embasar melhor o seu trabalho. Tais definições lhe serão muito úteis para todas as leituras científicas que você ainda fará, no ininterrupto processo de educação continuada em sua vida profissional. E, se em algum momento você desejar se aprofundar no mundo aca- dêmico, como por exemplo na escrita de um artigo científico, esses tópicos serão a base sólida de que você precisará. Vamos começar então do mais básico. O que é ciência? E o que é pesquisa ou método científico? EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 12 PARA REFLETIR Você já parou para pensar o que define o conhecimento científico? Apesar das suas múltiplas definições na literatura, o conhecimento científico, de maneira geral, é apresentado como real ou factual – lida com fatos; contingente – suas hipóteses podem ser atestadas ou refutadas por meio da experimentação e não pela razão; siste- mático – segue uma lógica ordenada formando um sistema de ideias denominado teoria; verificável – o que não pode ser compro- vado não pertence ao âmbito da ciência; falível – por definição, é sempre um saber provisório e refutável; e, aproximadamente, exato – busca a acurácia e a precisão. Todavia o desenvolvimento de novas técnicas pode reformular a teoria existente, alterando-se resulta- dos e saberes (PEREIRA et al., 2018). Por meio do conhecimento científico é possível alcançar um conhe- cimento mais objetivo e racional, comparativamente a outras formas de saber. O conhecimento científico se contrapõe, desse modo, a outros três tipos de conhecimento: popular, religioso e filosófico (MARCONI; LAKATOS, 2003). Assim temos: Conhecimento Científico • Real (factual) • Contingente • Sistemático • Verificável • Falível • Aproximadamente exato Conhecimento Popular • Valorativo • Reflexivo • Assistemático • Verificável • Falível Conhecimento Filosófico • Valorativo • Racional • Sistemático • Não verificável • Infalível • Exato Conhecimento Religioso (Teológico) • Valorativo • Inspiracional • Sistemático • Não verificável • Infalível • Exato EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 13 Dessa forma, podemos conceituar ciência como “todo um con- junto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático co- nhecimento com objeto limitado, capaz de ser submetido à verifica- ção” (FERRARI, 1974, p.8). E para organizar essas “atitudes e atividades racionais”, torna-se necessário um método, que foi inicialmente descrito por Galileu Galilei, a partir do raciocínio in- dutivo, e por Francis Bacon, a partir do raciocínio dedutivo. Este método científico pode ser definido como o “conjunto de processos que o espírito humano deve em- pregar na investigação e demonstração da verdade”. (CERVO; BERVIAN, 1978, p.17) A construção do conhecimento científico depende, portanto, do método científico, o que equivale dizer que, sem ele, não existe ciência (SILVA, 2015). Existe hoje uma longa lista de métodos, para além do indutivo inaugurado por Galileu e do dedutivo descrito por Bacon, apresentada a seguir. Essa diversidade de métodos não apaga o conceito do método de uma forma mais geral, que rege a reflexão e a experimentação adequadas (PEREIRA et al., 2018). Infográfico 1. Métodos científicos 1 Método Indutivo cuja aproximação dos fenômenos caminha geralmente para planos cada vez mais abrangentes, indo das constatações mais particulares às leis e teorias (conexão ascendente); método que considera o conhecimento como baseado na experiência; a generalização deriva de observações de casos da realidade concreta e são elaboradas a partir de constata- ções particulares; 2 Método Dedutivo partindo das teorias e leis, na maioria das vezes prevê a ocorrência dos fenômenos particulares (conexão descendente); se o conhecimento é insuficiente para explicar um fenômeno, surge o problema; para expres- sar as dificuldades do problema são formuladas hipóteses; das hipóte- ses deduzem-se consequências a serem testadas ou falseadas (tornar falsas as consequências deduzidas das hipóteses); enquanto o método dedutivo procura confirmar a hipótese, o hipotético-dedutivo procura evidências empíricas para derrubá-las; EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 14 3 Método Hipotético-dedutivo que se inicia por uma percepção de uma lacuna nos conhecimentos, acerca da qual formula hipóteses e, pelo processo de inferência deduti- va, testa a predição da ocorrência de fenômenos abrangidos pela hipó- tese, se o conhecimento é insuficiente para explicar um fenômeno, surge o problema; para expressar as dificuldades do problema são formuladas hipóteses; das hipóteses deduzem-se consequências a serem testadas ou falseadas (tornar falsas as consequências deduzidas das hipóteses); 4 Método dialético que penetra o mundo dos fenômenos, por meio de sua ação recíproca, da contradição inerente ao fenômeno e da mudança dialética que ocorre na natureza e na sociedade. Empregado em pesquisa qualitativa, consi- dera que os fatos não podem ser considerados fora de um contexto social; as contradições se transcendem dando origem a novas contradi- ções que requerem soluções; 5 Método Histórico consiste em investigar acontecimentos, processos e instituições do passado para verificar a sua influência na sociedade de hoje. Para melhor compreender o papel que atualmente desempenham na sociedade, remonta aos períodos de sua formação e de suas modificações; 6 Método Comparativo é utilizado tanto para comparações de grupos no presente, no passado, ou entre os atuais e os do passado, quanto entre sociedades de iguais ou de diferentes estágios de desenvolvimento; 7 Método Monográfico consiste no estudo de determinados indivíduos, profissões, instituições, condições, grupos ou comunidades, com a finalidade de obter generalizações; 8 Método Estatístico significa a redução de fenômenos sociológicos, políticos, econômicos, entre outros, em termos quantitativos. A manipulação estatística permite comprovar as relações dos fenômenos entre si, e obter generalizações sobre sua natureza, ocorrência ou significado; EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 15 9 Método Tipológico apresenta certas semelhanças com o método comparativo. Ao compa- rar fenômenos sociais complexos, o pesquisador cria tipos ou modelos ideais (que não existam de fato na sociedade), construídos a partir da análise de aspectos essenciais do fenômeno; 10 Método Funcionalista é a rigor mais um método de interpretação do que de investigação. Estuda a sociedade do ponto de vista da função de suas unidades, isto é, como um sistema organizado de atividades; 11 Método Estruturalista o método parte da investigação de um fenômeno concreto, eleva-se, a seguir, ao nível abstrato, por intermédio da construção de um modelo que represente o objeto de estudo, retomando por fim ao concreto, dessa vez como uma realidade estruturada e relacionada com a experi- ência do sujeito social. Fonte: (PEREIRA et al., 2018) Segundo Silva (2015), “o método científicogeral da Unidade: Ao final desta Unidade, você deverá ser capaz de conhecer os fundamentos básicos da redação técnica e científica para a elaboração estruturada dos elementos textuais e capítulos do Projeto de Intervenção (PI) aplicado ao TCC. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 74 3.1. INTRODUÇÃO DA UNIDADE Nesta Unidade, convidamos você a nos acompanhar em um processo de aprendi- zado sobre as técnicas de leitura e de redação, bem como sobre a estrutura meto- dológica para elaboração e formatação do seu Projeto de Intervenção (PI) aplica- do ao Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Esse aprendizado também permitirá ampliar seu desempenho tanto profissional, quanto acadêmico a partir do aprimoramento de habilidades e competências re- lacionadas à construção de documentos técnicos e científicos. Nessa perspectiva, tenha em mente que promover ações que visem beneficiar o trabalho junto a sua equipe e comunidade requer exigências metodológicas que podem subsidiar a ela- borações, execução, avaliação e monitoramento eficaz de projetos. Ao final desta unidade, você deverá ser capaz de: • Conhecer as técnicas para a leitura crítica de obras científicas • Conhecer as caraterísticas técnicas e aspectos éticos da redação científica • Compreender os aspectos técnicos e éticos para citação de obras científicas • Conhecer a estrutura metodológica e formatação dos capítulos do PI • Utilizar diferentes técnicas na realização de leitura crítica de obras científicas • Produzir textos científicos Bons estudos! 3.2. LEITURA CRÍTICA DE OBRAS CIENTÍFICAS Nas diferentes áreas do saber, incluindo nossa área de saúde, a prática da leitura regular de obras científicas, utilizando técnicas básicas para leitura crítica, promo- vendo a compreensão das principais etapas relacionadas à interpretação correta dos textos acadêmicos, é fundamental para estimular exercício de raciocínio, pro- mover qualificação profissional e ampliar conhecimento especializado para tomada assertiva de decisões. Nesse cenário, você deve considerar a leitura dos artigos científicos (ênfase dessa Unidade) que representam publicações acadêmicas de autoria original e que dis- cutem ideias, métodos, resultados, entre outros. São estudos produzidos em di- versas áreas do conhecimento e têm por finalidade: • comunicar os resultados de pesquisas à comunidade de profissionais e pesquisadores; • servir de medida de produtividade de pesquisadores e instituições; • veicular conhecimento e elucidar – depurar ideias; • testar e provar teorias, registrar e rever dados de diferentes campos da pesquisa; • servir como meio de intercâmbio de conhecimentos entre pesquisadores EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 75 A leitura crítica de artigos, dessa forma, contempla o entendimento aprofundado de questões, hipóteses, ideias, opiniões, reflexões, críticas e contrapontos sobre determinados assuntos. Identificar os aspetos relacionados à forma e à estrutura metodológica de capítulos, seções e itens é importante, pois auxilia na elaboração adequada dos estudos e documentos que você poderá produzir nos meios profis- sional e acadêmico. 3.2.1. TÉCNICAS DE LEITURA – ASPETOS INICIAIS A leitura produtiva de obras científicas pode ser realizada das seguintes formas: 1. leitura seletiva: em que você busca por textos que, de fato, interessam; 2. leitura crítica ou reflexiva: em que você reflete sobre a visão global do assunto a fim de sintetizar as ideias principais do estudo; 3. leitura interpretativa: quando você compreende as considerações dos autores e informações relacionadas aos problemas e hipóteses formulados. Então, é ne- cessário comparar, diferenciar e julgar para construir sua própria ideia sobre o assunto. Infográfico 5. Dicas de leitura. Escolha ambiente e momento oportuno em que sua mente esteja descansada e atenta, pois favo- rece a concentração. Lembre-se, não se trata de folhear o estudo como Divida a leitura em duas etapas: Na 1ª leitura atenha-se ao resumo a fim de obter A 2ª leitura compreende aspectos técnico-científi- EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 76 Existem muitas informações relevantes nos estudos e nem todas podem ser absorvidas de uma só vez. A depender das regras editoriais das revistas científicas e do tipo de estudo (revisão bibliográfica, relato de experiência etc.), você poderá encontrar a seguinte divisão metodológica de capítulos, itens e seções de um estudo publicado, descrita em resumo e de forma geral: 1. Título: oferece noção objetiva sobre os temas principal e secundário. 2. Resumo: é a descrição sintética do estudo e, geralmente, inicia-se com uma breve introdução do assunto principal, mas também pode começar pelos obje- tivos. Em seguida, encontram-se as informações mais importantes (resumidas) da metodologia. Os resultados mais relevantes também são apresentados de forma resumida. Por fim, a conclusão expressa, de forma concisa, as respostas ao objetivo proposto. 3. Introdução: contextualiza o assunto e situa o leitor sobre os temas principal e secundário. Contém a pergunta de pesquisa e os problemas levantados, incluin- do cenário macro e micro; contempla exemplos da literatura sobre assuntos cor- relatos e a forma como lidaram com os mesmos problemas e desfechos. Geral- mente finaliza com uma justifica e a proposta dos objetivos. 4. Metodologia: são as etapas da condução e delineamento do desenho do estudo para alcançar os objetivos propostos. Trata-se do passo a passo considerando- -se a reprodutibilidade do estudo, isto é, quando se deseja demonstrar a forma de replicar os mesmos métodos por outros autores. Faça anotações e questionamentos a cada capítulo; destaque os pontos importantes, Ler duas ou mais vezes traz clareza do estudo, porém, faça isso em momentos diferentes. Dê pausas e descanse sua mente, pois auxilia na consolidação do conhecimento e reflexão das EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 77 5. Resultados: é a apresentação dos resultados após a execução da metodologia e análises estatísticas. Podem estar descritos por textos no formato descritivo e/ ou por elementos gráficos como tabelas, quadros, gráficos etc. Neste capítulo descrevem-se apenas os dados, não contendo explicações e justificativas (en- contradas na Discussão). 6. Discussão: considerada a alma do estudo, é o capítulo mais importante em que os autores justificam, explicam, discutem, refletem e comparam os dados dos re- sultados. São as intepretações dos autores embasadas pela literatura. Isto é, bus- ca-se corroborar ou contrapor os achados com os da comunidade científica. 7. Conclusão: trata-se de um capítulo breve, em que os autores apenas respon- dem aos objetivos propostos de forma concisa. 8. Referências: lista de obras utilizadas para citar e referenciar o estudo. Com esta divisão em mente, as seguintes etapas da leitura devem ser consideradas: 1. priorize a busca por fontes confiáveis como as bases de dados bibliográficas e selecione estudos do seu interesse a partir do título. Em seguida, leia o resumo e as palavras-chave (Descritores em Saúde – DeCS), a fim de compreender a ideia principal a partir de uma rápida visão do estudo; 2. leia todo o estudo pela primeira vez e considere que compreender as termino- logias amplia seu vocabulário técnico-científico sobre o assunto e melhora seu conhecimento para leituras adicionais. Porém, nesta etapa, obtenha definições pontuais dos termos, caso contrário será cansativo, podendo perder o foco do assunto principal. 3. dê uma pausa e, em seguida, leia o estudo de forma aprofundada e procure res- ponder para si mesmo: • Introdução: qual a temática principal e secundária do estudo? Qual o objetivo e a hipótese? Há evidências do problema a partir de outras fontes recentes? • No momentooportuno, leia as principais referências, pois amplia o conheci- mento e promove reflexões de contraponto. • Metodologia: qual o tipo de estudo, quais as etapas, qual o delineamento e quais os critérios utilizados? Tudo isso é coerente com o tipo de estudo e com os objetivos propostos? Em alguns casos, você poderá encontrar o item limitação do estudo que indica os problemas/entraves encontrados na con- dução da pesquisa. Nesses casos, a comunidade científica aprecia a transparência dos autores. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 78 • Resultado: houve resultados? Quais os principais achados? São quantitativos ou qualitativos? São coerentes com o tipo de estudo e com a metodologia propostos? • Discussão: quais as principais reflexões dos autores? Há evidências de estudos semelhantes que possam ser comparadas aos resultados? • Conclusões: o trabalho responde à hipótese e a cada objetivo? 4. dê atenção aos elementos gráficos: • Compreenda os gráficos, quadros, tabelas, entre outros, por meio dos respec- tivos textos explicativos no corpo do estudo. Leia o título e a legenda a fim de conhecer o cenário, em seguida, concentre-se nos dados como, por exemplo, das abscissas e ordenadas; linhas e colunas; 5. destaque o que mais chamou sua atenção em cada capítulo; 6. releia alguns capítulos analisando se você viu um resultado que chamou sua atenção e para compreender melhor a forma como o autor chegou nesse dado, siga para a metodologia e veja a respectiva técnica da coleta de dados e análise estatística. Assim, detalhes despercebidos vêm à tona, melhorando a compres- são do estudo. 3.2.2. TÉCNICAS DE LEITURA – INTERPRETAÇÃO CRÍTICA Compreender os estudos também depende de estar atento aos detalhes. Desse modo, você estará apto à interpretação crítica, que consiste na reflexão cuidadosa das principais ideias a partir da visão dos autores. A leitura crítica de um artigo científico é especialmente atenta aos detalhes. Segundo Vieira S. & Hossne W.S., 2001, pág. 18, “[…] parece razoável desconfiar da qualidade de artigos científicos que relatam […] taxas de crescimento constantes de REFLEXÃO Em relação aos detalhes que devem chamar sua atenção, observe, por exemplo: a coerência entre o objetivo, o método e a conclusão; proporção e representatividade da população/amostra estudada com os resultados encontrados. Fique atento aos estudos com ex- perimentos que relatam dados milagrosos em amostras insignifican- tes, por exemplo, pois dependendo do contexto podem oferecer falsa impressão de resultados. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 79 10% ao mês e experimentos nos quais todos os pacientes que receberam a droga foram curados […]”. Os autores ainda destacam que “[…] seria ingênuo acreditar em um artigo que alardeia um tratamento que curou 66% dos pacientes, se esse per- centual foi calculado sobre uma amostra de três pessoas”. Igualmente importantes são os equívocos metodológicos ou estatísticos e, particularmente, a omissão de informações relevantes. Isto é, o estudo deve conter as respostas para a maioria dos seus questionamentos. Em relação à interpretação pessoal dos estudos, à luz de diferentes perspectivas, exercite seu próprio ponto de vista; esteja aberto às novas ideias, argumentos, di- vergências e novos pontos de vista. Com o tempo, sua maturidade profissional poderá permitir ricas discussões a partir de correlações entre a vivência da prática e o olhar dos autores. Outra técnica que auxilia na adequada interpretação crítica é consul- tar estudos semelhantes que possam complementar o assunto. Isso ampliará o escopo de conhecimento dos temas correlatos favorecendo melhor entendimento de suas ideias. Lembre-se, leitura crítica não significa que você deve buscar falhas, mas estar atento às incoerências metodológicas e julgar com prudência e senso crítico. 3.2.3. FONTES DE BUSCA A forma, o local, o tipo e a data da fonte para obtenção e seleção de artigos também constituem aspectos e etapas importantes, pois há uma quantidade significativa de estudos disponíveis, especialmente na Internet. Na área da saúde, algumas regras devem ser consideradas em relação à busca por informações científicas: • priorize as bases de dados bibliográficas (em detalhes, a seguir) caso a busca seja, necessariamente, por artigos; • considere websites de bibliotecas para a busca de dissertações, teses, entre outros tipos de estudos. Para a busca de informações especializadas como protocolos, considere, por exemplo, portais de universidades, sociedades, associações e organizações; • verifique a autoria, data da publicação (diferente da data de postagem) e referên- cias disponíveis sobre a informação postada; • priorize informações que apresentem o link da publicação original. Não é raro en- contrar considerações equivocadas, sobretudo, mediante tradução; • julgue com prudência websites que sejam patrocinados ou apoiados por empre- sas privadas. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 80 A busca em bases de dados bibliográficas requer algumas técnicas, tais como: • identifique os DeCS (palavra-chave indexada) relacionados à temática que deseja estudar. Dica: digite apenas a palavra relacionada ao assunto no campo de busca do DeCS no portal BVS; • faça a busca com os DeCS selecionados em portais como, por exemplo, BVS ou PubMed. Lembre-se que o PubMed requer DeCS em inglês e você pode obter a tradução oficial na BVS; • selecione os artigos a partir do título e ano de publicação; utilize mais filtros para triar a seleção, se desejar; • priorize artigos recentes, haja vista o avanço rápido das informações científicas, como, por exemplo, atualização de protocolos, políticas, leis e diretrizes. 3.3. REDAÇÃO TÉCNICA E CIENTÍFICA O domínio das técnicas básicas de elaboração de documentos acadêmicos e pro- fissionais pode nortear a adequada redação técnica e científica e, consequentemen- te, melhorar a compreensão das leituras. Destacam-se alguns aspectos fundamen- tais, tais como: regras da língua portuguesa; estruturação e paragrafação do texto; estilo de redação para obras científicas; técnicas e métodos da escrita formal, clareza e objetividade e, cuidado para evitar plágio. Muitas vezes, as regras da escrita formal, principalmente, as gramaticais, são igno- radas na produção de documentos nos ambientes profissional e acadêmico, gerando dúvidas na leitura e má interpretação das informações. O cuidado com a escrita deve ser, por isso, uma das etapas mais relevantes do processo de elaboração de documentos técnico-científicos, particularmente na área da saúde. Trata-se da aqui- sição gradual de habilidades e competências que você precisa empreender e que demanda tempo e amadurecimento das ideias para a construção do texto, sua leitura crítica e necessária revisão. Você pode consultar as bases de dados bibliográficas (Medline, Lilacs, Web of Science, Scopus, Cochrane etc.) disponíveis em portais como Bi- blioteca Virtual em Saúde (BVS) e PubMed, constituem acervo padrão ouro de informações científicas em saúde para a comunidade médica. Apresentam banco significativo de publicações provenientes, sobretudo, de revistas (periódicos) indexadas a cada Base. Essa indexação ocorre a partir de um exigente e rigoroso crivo editorial, em que as revistas são avaliadas por cerca de dez anos a fim de obter aprovação e pertencer ao acervo das bases. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 81 3.3.1. DIFERENÇAS ENTRE A REDAÇÃO LITERÁRIA, TÉCNICA E CIENTÍFICA A eleição de um estilo de escrita, de uma forma geral, representa o viés de expressão dos pensamentos e ideias. Existem, conforme o contexto e a situação comunicativa, diferen- tes estilos de redação, com variado grau de formalidade. A escrita acadêmicautiliza a for- malidade, obedece à norma culta do idioma e opta pela linguagem técnica. Na produção literária, por exemplo, predomina a subjetividade, possibilitando múltiplas interpretações, por meio da linguagem conotativa com sentido figurado. Já a redação técnica e científica utiliza linguagem denotativa, buscando apenas uma interpretação, dado seu caráter objetivo. Confira alguns exemplos a partir do olhar da Atenção Primária à Saúde (APS) e dicas sobre o que você deverá observar, por exemplo: autoria e local da postagem; termos coloquiais como gírias ou formais e científicos; objetividade ou subjetividade; voz, modo e tempo verbal. • Texto informal – Pensamentos reflexivos sobre a prática na APS: “Acho que a é maneira como eu chego mesmo, eu não vou chegar pra um jovem e ir conversando a mesma coisa com um idoso, ou chegar pra um idoso e falar o que eu tava falando com um jovem. É totalmente diferente, né? O jovem tá com hormônios a flor da pele e o idoso não, tá naquela calma. A gente saber res- peitar se é evangélico, católico, sei lá outro tipo de religião, sabe? A gente tem que saber a maneira certa de conversar, acho que facilita.” (DANTAS, 2010, p. 99) Fonte: reflexão de um profissional médico da APS. • Texto jornalístico – matéria sobre a prática na APS: “A Oeste do Estado do Pará, mais especificamente entre a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns e a Floresta Nacional dos Tapajós, que se localiza a única estrada dos povos ribeirinhos: o Rio Tapajós, afluente da margem direita do Rio Amazo- nas. Principal meio de transporte e comunicação das comunidades ribeirinhas dos rios Amazonas, Tapajós e Arapiuns, localizadas nos municípios de Santarém, Aveiro e Belterra, é às margens dos rios que residem milhares de família”. “E é também pela correnteza dos rios que a saúde chega aos Povos das Águas. O barco-hospital Abaré, cujo nome indígena significa “amigo, cuidador”, pode ser visto atracado no rio Arapiuns, de onde segue em direção aos locais de mais difícil acesso na Amazônia. Através dele, a primeira embarcação do Brasil qualificada pelo Ministério da Saúde como Unidade de Saúde da Família Fluvial, são aten- didas cerca de 70 comunidades e 13 mil ribeirinhos”. Fonte: “Se tudo chega por barco, a saúde também tem que chegar”. Publicado em 5 de fevereiro de 2021 por Daniele Olímpio de Campos. • Texto literário – Uma poesia: “Cantigas de andar junto; de onde ainda nem chegamos, acende o zelo de ser único na vontade de todos. Ver de frente o que acende para espalhar mais alvos. Como cada um ser junto na astúcia de entender caminho e rumo. Cada estreito EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 82 nosso há de alcançar os vãos num fazer de espalhar lugares. E onde chegar serão árvores nossas mãos de uma raiz só. Dessa raiz que rompe que remove o lugar e que aprofunda em longes. Como horizonte fosse igual andar sustentando-nos em cada olhar acendido em cada vontade de alcançar-se. Assim os gestos vão gestando os vãos como meninos nas varandas olhando para além dos muros”. (PEDREIRA, 2021, p. 18) Fonte: poesia de um médico de família às comemorações dos 40 anos da Socie- dade Brasileira de Medicina e Comunidade e aos 45 anos da especialidade no Brasil. • Texto técnico acadêmico – Um artigo científico sobre a prática médica na APS: “O presente estudo apresenta como objetivo analisar a Atenção Primária à Saúde (APS) como ambiente de aprendizagem para os discentes do curso de Medici- na. Realizou-se um estudo transversal descritivo, com abordagem qualitativa, por meio de quatro grupos focais com internos dos quatro cursos de Medicina em Fortaleza (Ceará, Brasil). Utilizou-se o método de interpretação dos sentidos, tendo sido identificadas duas categorias empíricas. Para os alunos, a Atenção Primária é um cenário de ensino importante para correlação teoria e prática, mas sem di- mensionar a importância desta no Sistema Único de Saúde (SUS). Não incluindo, portanto, a defesa do SUS como um princípio importante em sua profissão. No entanto, o incentivo à docência na Atenção Primária e o desenvolvimento de as- pectos humanísticos durante a formação seriam fatores motivadores para atuação nessa área.” Fonte: Resumo do artigo. COELHO, M.G.M., et al. Atenção Primária à Saúde na perspectiva da formação do profissional médico. Interface (Botucatu). 2020; 24: e190740. Os textos científicos visam expressar ideias e defendem-nas com argumentos, para trans- mitir conhecimento, registrar e demonstrar resultados de estudos acadêmicos. Sua pro- dução envolve atividades de pesquisa que obedecem a planejamento rigoroso e respei- tam a adequação às normas metodológicas. Deve, por isso, seguir padrões exigidos pela comunidade científica. A falta de critério e rigor por parte da redação ou estilo inadequa- do são alguns dos principais problemas observados pelos editores e revisores de revis- tas científicas. Nessa perspectiva, muitos estudos são rejeitados, sobretudo, pela falta de cuidado na redação, que muitas vezes dificulta a interpretação dos dados. REFLEXÃO Assim, a redação científica apresenta aspectos fundamentais rela- cionados ao estilo objetividade; transparência; formalidade; reprodu- tibilidade; concisão; clareza; precisão; imparcialidade e, impessoali- EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 83 3.3.2. O CONHECIMENTO DA LÍNGUA PORTUGUESA E OS TEXTOS CIENTÍFICOS O respeito às regras da norma culta da língua portuguesa permite a elaboração de textos fluídos, elegantes, formais, mas, sobretudo, objetivos e compreensíveis. Dessa forma, o emprego adequado de: voz, tempos e modos verbais; pontuação; vocabu- lário preciso; elaboração e articulação coerente de ideias; frases e parágrafos bem construídos, são aspectos que favorecem textos de fácil interpretação. O dicionário de sinônimos, por exemplo, é uma ferramenta útil que auxilia na defi- nição do significado das palavras, apresentação ortográfica e etimologia delas a fim de favorecer clareza ao texto. Pode melhorar a leitura ao trazer termos que expres- sam pensamentos de forma mais técnica, pois serve de consulta em relação às pa- lavras similares, evitando-se repetições. Nele você encontrará palavras formais pouco comuns que podem tornar seus textos originais. Não repita palavras no mesmo parágrafo; busque sinônimos. O uso correto da língua portuguesa em textos científicos, necessariamente contribui para a forma com a qual os autores se expressam e descrevem suas ideias; os padrões que elegem para cada capítulo ou seção; a forma como iniciam e finalizam as frases/ parágrafos e o modo como contextualizam seus assuntos em cada etapa do estudo. Você pode melhorar significativamente seu estilo de redação e a adoção adequa- da de regras e normas da língua portuguesa a partir do hábito de leitura de textos técnico científicos bem redigidos. Compreender como a informação emerge de um texto ou como as ideias são representadas pelas palavras, constituem aspectos fun- damentais de aprendizado. Você também irá se identificar com a forma de escrita de determinados autores. O treino, ao longo do tempo, traz apropriação de termos e enriquece seu repertório de vocabulário, bem como a compreensão da norma culta e do linguajar técnico, produzindo textos fluídos e agradáveis à leitura. 3.3.3. CONSTRUÇÃO DE FRASES E PARÁGRAFOS A primeira frase é a abertura de um parágrafo e deve conter a informação inicial dade. A partir desses aspectos, o texto resulta em perfeita articulação, coerência, coesão de ideias e sequência lógica de posicionamentos. Em resumo, ao escrever textos acadêmicos: vá direto ao ponto e man- tenha o foco; use a norma culta e o vocabulário técnico de sua área de conhecimento; dê atenção às normas metodológicas; e não copie, não faça plágio, em vez disso cite e referencie. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologiado Trabalho de Conclusão de Curso 84 para introduzir o assunto essencial. Ela orienta sobre o que será abordado no pará- grafo e deve ser escrita de forma a transmitir progressão fluente e natural do pen- samento. Isto é, a primeira frase chama o assunto principal e as demais ampliam o tema. Trata-se de uma prévia de todos os argumentos seguintes. As frases subsequentes devem sustentar o conteúdo principal apresentado na pri- meira. São sentenças do corpo do parágrafo que fornecem o argumento mais im- portante e definem o raciocínio, elucidam conceitos, explicam teorias e descrevem resultados, ou seja, são o cerne da unidade de pensamento. A última frase reúne e conclui todos os argumentos do parágrafo, deve agregar valor às ideias ou introdu- zir o assunto do próximo parágrafo. Alguns autores dedicam especial atenção à escrita das primeira e última frases, pois são sentenças que elucidam rapidamente o assunto, favorecendo o entendimento, pois frases muito elaboradas dificultam a compreensão do texto, especialmente na escrita científica. Evite-as, bem como os parágrafos intermináveis, pois geram de- sorientação no leitor, tornando o texto confuso e cansativo. Não seja prolixo, não faça rodeios. A essência do parágrafo necessita de gerenciamento cuidadoso, especialmente quando há muita informação. As sentenças devem estar alinhadas de forma lógica e harmônica, ordenadas das mais simples às mais complexas, de forma crescente. Um parágrafo bem escrito faz sentido na primeira leitura, evitando-se releituras. Pausas são necessárias para trazer clareza à construção do texto, evitando o cansaço. Evite frases de início com grande impacto, como definições curtas e objetivas sobre um argumento que deve ser elaborado de forma gradativa ao longo do parágrafo. Na prática, o leitor lê a frase e pula o parágrafo por considerar que o cerne da infor- mação já foi descrito no início. Ao começar um parágrafo, varie a forma de iniciar a partir de uma referência de um autor, por exemplo: “Silva (2019, 12p) ressalta que...”. O leitor pode pular um parágra- fo ou frase se considerar que se trata apenas de um recorte da obra. Em contrapar- tida, ao iniciar o parágrafo com argumentos pessoais, seguidos de exemplos exter- nos, suas ponderações serão valorizadas em detrimento de outras fontes. Isto é, primeiro evidencie as suas ideias, em seguida, fundamente-as com a literatura. Considere utilizar outros recursos a fim de variar seu estilo de escrita. Ao mencionar estudos e autores, detalhe sobre o nome da universidade, do centro ou serviço a que os autores pertencem; sobre o impacto do estudo em termos de citações ex- pressivas num curto espaço de tempo; uma amostra significativa, entre outros de- talhes que poderão trazer interesse do leitor ao seu texto. Por exemplo: EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 85 “Segundo Christopher Dede, professor de tecnologias de aprendizagem da Universidade de Harvard, nos EUA, as recentes inovações tecnológicas, como games e simulações têm evidenciando o que deveria ser o cerne de todo processo educacional: interação”. (Dede, 2019) “Nessa perspectiva, o impacto da capacitação sobre o comportamento dos médicos em relação ao cuidado com seus pacientes foi produto de uma revisão sistemática de 64 ensaios clínicos randomizados”. (Davis, 1999) “Descobertas do ganhador de Prêmio Nobel, Carl Wieman, em um estudo realizado na Universidade British Columbia, no Canadá, concluíram que o ensino interativo resultou em uma melhora significativa na frequência às aulas. Ressalta-se que essa universidade foi considerada líder mundial em educação STEM (Science, Technology, Engineering, Mathematic)”. (Sirakaya, 2020) Não escreva demasiadamente em um único parágrafo e evite encerrá-lo abrupta- mente por receio de estar longo e confuso. Nestes casos, é necessário dividir os parágrafos. Lembre-se, um texto bem escrito pode transmitir a ideia principal em poucas frases e o treino auxilia na reconstrução lógica ao reorganizar as ideias. Finalizar o parágrafo é tão importante quanto iniciar. Por outro lado, parágrafos muito curtos não são adequados (menos de 40 palavras ou menos de três linhas). São prejudiciais ao entendimento de argumentos, pois não contemplam a construção de frases necessárias para o início, meio e fim do pensa- mento. Geralmente ocorre quando o autor não desenvolve adequadamente uma ideia. São denominadas ”frases órfãs”. Nestes casos devem ser incorporadas aos pa- rágrafos anterior ou subsequente, conforme adequação do conteúdo. 3.3.4. ETAPAS DA CONSTRUÇÃO DO TEXTO CIENTÍFICO Ao iniciar um texto científico é necessário que você tenha uma linha de raciocínio clara que explique suas ideias, seus pensamentos e, sobretudo, o conhecimento especia- lizado relacionado ao assunto sobreo qual deseja escrever. Para tanto, evite iniciar a partir de uma folha em branco. Comece esse processo pela rica literatura existente, em seguida, organize suas ideias e rascunhe uma sequência com base nas leituras selecionadas. Essa etapa inicial traz clareza, enriquece e abre novas perspectivas de ideias e como serão organizadas no texto. Não é raro alterar, aprimorar e redefinir ideias pré-concebidas após leituras, porém, é necessário comparar, diferenciar e julgar com a finalidade de formar suas próprias reflexões sobre o assunto. Crie um roteiro e elabore uma exposição crescente e interligada dos assuntos para que o texto flua com clareza e harmonia. Apresente um delineamento de ideias e fundamente-as com exemplos da literatura, que valorizam, elucidam, trazem co- nhecimento especializado e credibilidade ao seu texto. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 86 “O pesquisador que não souber o que está procurando, não compreenderá o que encontrar”. Claude Bernard. Aprenda com os autores e inspire-se na literatura. Seguem algumas perguntas a serem feitas sobre os textos lidos e sobre os escritos por você: • O que o autor incluiu no resumo? • Que tipo de informação há em cada seção/capítulo? • Observe o estilo de redação. Qual a voz, modo e tempo verbal utilizado em cada seção/capítulo? • Como as menções e referências foram utilizadas? • Qual o tipo de estudo e itens do delineamento metodológico? • Como os resultados foram apresentados? Textos deram lugar a quadros e tabelas, por exemplo? • Como o autor iniciou a discussão e como apresentou as informações subsequen- tes? Trouxe comparações e exemplos de outras fontes? • O autor concluiu o estudo respondendo a cada objetivo? Como treino, observe a forma como os autores constroem suas frases, parágrafos e sequência de ideias. Orientações normativas e diretrizes auxiliam a construção de bons textos, assim, algumas regras são necessárias, tais como: • identifique a temática principal e secundária do assunto a ser tratado. • pesquise como seu estudo se familiariza com a literatura existente. Faça alguns questionamentos • que perguntas não foram respondidas e quais conhecimentos ainda não temos sobre o assunto selecionado? • sua temática, sua pergunta e sua hipótese são relevantes e contribuem para a co- munidade científica? • em que o seu estudo se diferencia das pesquisas atuais existentes? • sintetize o assunto de forma ordenada, do macro para o microuniverso; • defina uma lógica coerente para o texto, que permita compreender as ideias mais simples e alcançar, gradualmente, o conhecimento mais complexo e específico, a fim de conduzir uma leitura linear; • oriente o leitor e contextualize o assunto de forma geral e, em seguida, especifique. Traga evidências da literatura para ilustrar e apoiar suas ideias; • use vocabulário especializado, termos técnicos e científicos e, se desejar, crie um EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 87 glossário; • organize a estrutura de cada seção/capítulo;• associe novos conceitos às ideias apresentadas ao escrever cada seção/capítulo, evitando a famosa colcha de retalhos. Não escreva exatamente a mesma ideia em diferentes momentos do texto, pois as informações devem fluir de forma crescen- te, sem repetições; • tenha em mente a reprodutibilidade do seu estudo; não omita dados a fim de resumir o texto; prefira reescrever de forma objetiva; • evite valorações pessoais como frases que qualifiquem positiva ou negativamente; evite frases e linguagem vagas e ambíguas; prefira frases afirmativas às negativas; não use variações de grau (diminutivo, aumentativo, superlativo) e excesso de adjetivação; • seja imparcial; evite fazer suposições, afirmações, negações e declarações não com- provadas, pois suas ideias devem estar embasadas cientificamente a partir de evi- dências publicadas e citadas corretamente; • use linguagem objetiva e não subjetiva; utilize, preferencialmente, 3ª pessoa (por ter caráter formal e impessoal); • evite vícios de linguagem como ecos, por exemplo, avaliação da produção, cacó- fatos, como por cada tratamento e gerundismos, como espera-se estar comprovando; • não use jargões, neologismos, modismos, gírias e estrangeirismos; • os termos em língua estrangeira devem estar em itálico, exceto nomes próprios. 3.3.5. COMO EVITAR PLÁGIO Há posturas éticas adotadas quando se escreve um texto científico e, por falta de clareza e conhecimento, são cometidos equívocos que podem ser considerados plágios. O plágio consiste na utilização da informação extraída de outras publica- ções sem referenciar a fonte original, podendo resultar em consequências graves. O ato de copiar o texto, escrito por outra pessoa, sem a sua permissão, referência ou citação é considerado crime. O plágio pode ocorrer da seguinte forma: copiar o texto ou vários parágrafos exata- mente como o autor publicou sem citar ou referenciar a fonte e, escrever com suas palavras a partir de um texto de uma obra sem citar ou referenciá-la. Você pode evitar o plágio realizando adequada citação e referenciar as obras mencionadas no seu texto ou utilizadas para consulta. As citações e referências são inseridas no corpo do texto e capítulo Referências e/ou Bibliografia Consultada. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 88 LEI GERAL DE PROTEÇÃO DE DADOS Segundo o portal do Mistério de Defesa do governa brasileiro, a Lei Geral de Prote- ção de Dados Pessoais (LGPD), Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018, dispõe sobre o tratamento de dados pessoais (inclusive nos meios digitais, por pessoa natural ou por pessoa jurídica de direito público ou privado), com o objetivo de proteger os di- reitos fundamentais de liberdade e de privacidade e, o livre desenvolvimento da personalidade da pessoa natural. Conforme o art. 5º da LGPD, dado pessoal é toda informação relacionada à pessoa natural identificada ou identificável. Em relação aos direitos dos titulares de dados pessoais, destaca-se que toda pessoa natural tem assegurada a titularidade de seus dados pessoais e garantidos os direitos fundamentais de liberdade, de intimidade e de privacidade, nos termos da LGPD (artigo 17 da LGPD). O titular dos dados pes- soais tem direitos, que podem ser exercidos mediante requerimento expresso ao Ministério da Defesa. Os direitos do titular são: confirmação da existência de trata- mento; acesso aos dados; correção de dados incompletos, inexatos ou desatuali- zados; eliminação dos dados pessoais, entre outros. Em resumo, essa lei define o que são dados pessoais e esclarece que todos os dados tratados, tanto no meio físico quanto digital, estão sujeitos à regulação. O principal objetivo é garantir o uso sério dos dados das pessoas em quaisquer meios. A lei também garante que as empresas e profissionais tenham transparência e ética para lidar com as informações pessoais durante coleta, armazenamento, processa- mento e tratamentos de dados das pessoas, sobretudo na Internet e serviços de atendimento público aos usuários. Para saber mais sobre a LGPD você pode acessar o site a seguir e ler a lei integralmente: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2018/lei/l13709.htm REFLEXÃO Na sua prática profissional ou acadêmica como médico de família, você deve lidar com as informações de pacientes, provenientes do serviço onde atua ou de outras instituições, de forma ética e sigilosa. Por exemplo: você necessita estudar dados de seus pacientes para realizar análises ou uma pesquisa científica. Para tanto, poderá utili- zar banco de dados, prontuários ou documentos (digital ou papel) EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 89 3.4. PROJETO DE INTERVENÇÃO APLICADO AO TCC Os capítulos e seções que deverão compor o Projeto de Intervenção (PI) estão des- critos a seguir. O Projeto de Intervenção NÃO será implantado, isto é, trata-se de um desenho de estudo e seu facilitador e seu orientador estarão disponíveis para au- xiliar nessa elaboração. Em termos de regras gramaticais, utilize preferencialmente 3ª pessoa singular. Por exemplo: • “Conclui-se que o presente estudo...”; “Concluiu-se que o presente estudo...”; “Foi possível concluir que...”; • “Observa-se que o relato...”; “Foi possível observar que...”; • “Compreende-se que essa metodologia...”; “Foi possível compreender que...”; • “Conforme pôde ser identificado na análise”; “Conforme se identificou na análise...”; • “Identificou-se que os estudos foram analisados...” • “Os resultados foram apresentados na forma de quadros e tabelas.” Considere os seguintes elementos textuais para a elaboração das etapas metodo- lógicas do seu PI. Elementos textuais do Projeto de Intervenção: • Título • Resumo • Palavra-chave e Descritores em Saúde • Introdução • Justificativa • Objetivos • Fundamentação Teórica • Metodologia tanto do serviço onde atua ou externos. O processo de coleta, arma- zenamento e organização dos dados deve ser cuidadosamente re- alizado por você. Isto é, seja ético e respeite a privacidade e sigilo dessas informações; não divulgue ou discuta em qualquer meio, so- bretudo, em mídias sociais e, esteja atento aos locais onde irá arma- zenar ou tratar os dados para que não haja exposição. Lembre-se, os dados dos pacientes são protegidos por lei. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 90 • Resultados Esperados • Considerações Finais • Referências Título: escreva o título de forma concisa, abordando a temática principal do PI. Até 15 palavras. Palavras-chave e Descritores em Saúde: selecione duas áreas temáticas (por meio de palavras-chave) e três a cinco DeCS referentes ao assunto principal e secundá- rio do PI. Resumo: escreva as principais ideias desenvolvidas no PI de forma objetiva. Aborde o problema/situação, o objetivo, as ações e os resultados esperados. Introdução: inicie escrevendo sobre o problema/situação selecionado (relaciona- do a sua prática). Identifique e apresente o cenário no qual o problema/situação se encontra incluindo definições, conceitos, estatísticas e outros dados que conside- rar necessários. Traga evidências sobre a ocorrência do problema/situação a partir de exemplos da literatura. Cite e referencie as obras corretamente. Em seguida, escreva o que se pretende resolver, transformar ou melhorar. Deixe claro que o PI é uma resposta a um determinado problema/situação percebido por você em seu local de trabalho atual ou anterior, caso tenha mudado. Basicamente, a Introdução deve conter: 1. Descrição do problema/situação. 2. Evidências de sua ocorrência. 3. Propostas de melhorias e como poderão ser monitoradas. Justificativa: escreva a importância e os benefícios de seu PI; justifique o motivo pelo qual seu projeto é relevante. Procure articular a relevância funcional do seu problema/situação, acrescentando a sua experiência práticacomo profissional médico de um serviço de saúde pública. Destaque o motivo pelo qual é importan- te resolver o problema/situação identificado. Fundamentação Teórica: escreva os pressupostos teóricos que forneçam emba- samento científico e coerência sobre o problema/situação. Inclua exemplos da li- teratura como, experiências, relatos, políticas públicas, leis, entre outras informa- ções, bem como relatos de autores sobre a forma pela qual solucionaram ou apri- moraram o problema/situação que você selecionou. Por outro lado, não descar- te exemplos da literatura cujos resultados não foram satisfatórios. Essas informações também podem mostrar a relevância do seu PI. Cite e referencie as obras corretamente. Objetivos: devem ser claros, realistas, exequíveis. Trata-se do motivo principal do PI. Possui coerência entre o problema/situação selecionado e a finalidade que se deseja alcançar. É divido em objetivo geral e específico. O objetivo geral descreve a ação principal de forma generalizada do que se quer alcançar. Já o(s) objetivo(s) específico(s) corresponde à descrição das etapas necessárias a fim de alcançar o objetivo geral. Deve ser descrito de forma numerada e com verbos de ação no in- finitivo ao iniciar cada frase do objetivo. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 91 Metodologia: trata-se do percurso para alcançar os objetivos propostos. Escreva, em tópicos e em detalhes, as seguintes informações: 1. O local onde a intervenção deverá ser realizada, como estado, cidade e serviço de saúde (não há necessidade de especificar o nome do serviço). 2. O período (em meses e ano) necessário para que o PI tenha início, desenvolvimento e encerramento. 3. Os participantes envol- vidos no contexto da intervenção (participantes e público-alvo, incluindo população e amostra, se houver). 4. As ações que serão realizadas, descritas em detalhes. Isto é, defina as intervenções por meio de etapas, incluindo previsão de tempo e parti- cipantes envolvidos; escreva também as formas de avaliação e monitoramento das ações ao longo do tempo. O monitoramento permite verificar se o projeto está ca- minhando como planejado. Resultados Esperados: é a descrição dos resultados previstos que poderão ser al- cançados a partir da “implantação” do PI. Escreva reflexões pessoais sobre as con- tribuições que o projeto poderá trazer e relate o que você espera obter com as ações propostas. Considerações Finais: escreva reflexões pessoais sobre como o serviço em que atua poderá se beneficiar das ações propostas e, de que forma o projeto poderá ter con- tinuidade a fim de trazer melhorias pontuais em longo prazo. Caso desejar, traga re- ferências de estudos semelhantes que obtiveram resultados importantes. Referências: liste as publicações descritas por ordem alfabética, contendo as fontes que foram utilizadas nos capítulos do PI. Formato ABNT. 3.5. CITAÇÃO DE OBRAS Citação é a menção de informações de uma obra no seu texto. Essa prática é neces- sária a fim de promover credibilidade ao seu texto; fornecer informações a respeito de pesquisas desenvolvidas na área do seu estudo e, permitir rica discussão sobre as considerações de outros autores sobre o assunto que esteja abordando. Não há necessidade em utilizar citações caso escreva com suas próprias palavras a partir de uma reflexão pessoal. Também não são necessárias citações quando você estiver escrevendo informações de senso ou conhecimento comum. Por exemplo, o ventrículo esquerdo é o maior músculo do coração comparando-se ao ventrículo direito. As citações podem ser diretas, indiretas e citação da citação. A citação direta ocorre quando a menção possui até três linhas (transcrição curta). Lembre-se, a transcri- ção ou cópia de um parágrafo, frase ou expressão é proveniente do autor da fonte consultada. Escreva entre aspas, acompanhada da fonte consultada. Exemplo 1, formato ABNT: De acordo com Belkin et al. (1982, p. 76),”nos adultos, a divisão celular tem por finalidade exclusiva a compensação das perdas celulares somáticas e a reprodução”. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 92 Exemplo 2, formato ABNT: “Nos adultos, a divisão celular tem por finalidade exclusiva a compensação das perdas celulares somáticas e a reprodução”. (BELKIN et al., 1982, p. 76) A citação direta com mais de três linhas (transcrição longa) apresenta-se com trans- crições em parágrafo independente, recuo de 4 cm, letra menor que a utilizada no texto e espaço simples. Exemplo 1 formato ABNT: Valendo-se de várias hipóteses, Sinhorini (1983, p. 55) constata que: [...] o granuloma tuberculoso é constituído por dois sistemas inde- pendentes: o macrófago que controlaria tanto o escape de antí- geno da lesão, quanto o crescimento bacteriano da mesma, e o imunocompetente, representado pela hipersensibilidade e ex- presso morfologicamente pelo halo de células jovens da perife- ria da lesão, responsável pelo controle da saída de antígeno do granuloma e também pelo caráter crônico-produtivo do mesmo. Exemplo 2, formato ABNT: Valendo-se de várias hipóteses é possível constatar que: [...] o granuloma tuberculoso é constituído por dois sistemas in- dependentes: o macrófago que controlaria tanto o escape de an- tígeno da lesão, quanto o crescimento bacteriano da mesma, e o imunocompetente, representado pela hipersensibilidade e ex- presso morfologicamente pelo halo de células jovens da perife- ria da lesão, responsável pelo controle da saída de antígeno do granuloma e também pelo caráter crônico-produtivo do mesmo. (SINHORINI, 1983, p. 55) A citação indireta (paráfrase) é a reprodução das ideias e informações a partir da consulta de outras obras. A paráfrase exige atenção e deve manter-se fiel à ideia central do texto original. Exemplo 1, formato ABNT: Para Silva (2002, p. 5), o metabolismo dos carboidratos pode alterar os níveis glicêmicos. A citação da citação (apud) é a menção de um texto que você teve acesso a partir de outra obra. Você deve utilizar os termos apud ou “citado por”. Exemplo 1, formato ABNT: Buhler (1960, p. 11) citado por Klein et al. (2003, p. 54) chegou a uma sur- preendente conclusão: verificou que desde o nascimento até o terceiro mês de vida. Exemplo 2, formato ABNT: Martin (2002, p. 19) apud Elliot (2010, p. 13), chegou às mesmas conclusões dos estudos. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 93 Exemplo 3, formato ABNT: O currículo e as questões educacionais mais genéricas sempre estiveram atrelados à história dos conflitos de classe, raça, sexo e religião, tanto nos Estados Unidos quanto em outros países (APPLE, 1994 apud MOREIRA; SILVA, 2002, p. 39). 3.6. REFERÊNCIAS NORMA ABNT Gerenciadores de referências são softwares, geralmente gratuitos e encontrados na Internet, que auxiliam a formatação e indexação de referências em trabalhos acadêmicos. Permitem armazenar, gerenciar e citar as referências de acordo com normas específicas. Isto é, normalizam citações e geram automaticamente as res- pectivas referências formatadas. Os gerenciadores podem estar vinculados a uma rede acadêmica onde é possível criar grupos de compartilhamento de arquivos, en- contrar pesquisadores de uma mesma área e analisar tendências. São exemplos de Gerenciadores de referências: • EndNote Web - http://www.myendnoteweb.com • Zotero - http://www.zotero.org • Citeulike - http://www.citeulike.org • JabRef - http://jabref.sourceforge.net • RefBase - http://www.refbase.net • RefWorks - http://www.refworks.com • Reference Manager - http://www.refman.com • Mendeley - https://www.mendeley.com/ 3.7. FECHAMENTO DA UNIDADE O hábito da leitura especializada em saúde promove melhorias significativas no de- sempenho profissional ao aprimorar competências para interpretação eficaz dos estudos e, consequentemente, favorece a redação técnicae científica para elabo- ração adequada de projetos. Nessa Unidade, você pôde conhecer a forma pela qual os autores se expressam a partir da escrita e estilo de redação. Esse aprendizado será útil ao longo do tempo, em que você poderá treinar e se familiarizar com os métodos, técnicas, termos, formas, vocabulários, a fim de escrever no idioma formal e técnico, produzindo textos claros, objetivos e, sobretudo, fluídos. 4. ENCERRAMENTO DO MÓDULO Parabéns, caro profissional estudante! Nesta unidade, você conheceu os fundamentos básicos da leitura crítica e redação técnico-científica para a elaboração do Projeto de Intervenção aplicado ao TCC. Confira e aproveite os exercícios e discussão das Unidades deste Módulo a fim de aprimorar suas habilidades e competências em relação aos registros e documentação na sua prática profissional. Boa sorte nas novas etapas do Curso. Até breve! EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 95 Referências CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A. Metodologia científica: para uso dos estudantes universitários. 2a ed. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1978. CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. Resolução CNS no 196, de 10 de outubro de 1996. Brasil: [s.n.]. Disponível em: . , 1996 CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE. Resolução no 510, de 7 de abril de 2016. Brasil: [s.n.]. , 2016 DEMO, P. Introdução à Metodologia da Ciência. 2a ed. São Paulo: Atlas, 1985. FERRARI, A. T. Metodologia da ciência. Rio de Janeiro: Kennedy, 1974. JANTSCH, A. G. Scientific research , primary care and family medicine : three essential ingredients for improving the quality of health care. Rev Bras Med Fam Comunidade, v. 15, n. 42, p. 1–11, 2020. MARCONI, M. DE A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos de Metodologia Científica. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. MURAD, M. H. et al. New evidence pyramid. Evid Based Med, v. 21, n. 4, p. 125–127, 2016. Disponível em: . OSTOS, N. S. C. 20 anos do Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto René Rachou (1999-2019). In: LUZ, Z. M. P. 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Aprova as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 98 envolvendo seres humanos e revoga as Resoluções CNS nos. 196/96, 303/2000 e 404/2008. 2012. CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE - CNS. RESOLUÇÃO Nº 510, DE 07 DE ABRIL DE 2016. Determina diretrizes éticas específicas para as ciências humanas e sociais (CHS) e é resultado de anos de trabalho de pessoas e instituições que há muito apontavam a inadequação de uma única orientação de cunho biomédico para pesquisas em diferentes áreas. 2016. CLARK, J. SPENCER; PORATH, SUZANNE; THIELE, JULIE;AND JOBE, MORGAN, “Action Research” (2020). NPP eBooks. 34. FREIRE P. Pedagogia da Autonomia. 33.ed. São Paulo: Paz e Terra; 1996. GÉRVAS, J. PÉREZ-FERNÁNDEZ, M. Proteção dos pacientes contra excessos e danos das atividades preventivas in. 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Graduação em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (2009). Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/2143500321613029 ADELSON GUARACI JANTSCH Possui graduação em medicina pela Universidade Federal do Paraná (2003) e resi- dência em Medicina de Família e Comunidade pelo Grupo Hospitalar Conceição (2005), Mestrado em Saúde Coletiva - Epidemiologia pelo Instituto de Medicina Social da UERJ em 2016 com o estudo de desigualdades educacionais impactando a ocor- rência de multimorbidade no estudo Pró-Saúde. Possui Doutorado em Saúde Cole- tiva - Epidemiologia pelo Instituto de Medicina Social da UERJ em 2020 com a tese intitulada “The impact of residency training in family medicine in promoting the attri- butes of primary care in Rio de Janeiro” Trabalhou como Médico de Família e Comu- nidade em Lages/SC em 2006, em Curitiba entre 2007 e 2011 e no Rio de Janeiro entre 2011 e 2015. Foi docente do curso de medicina da UNIPLAC/Lages, do curso de medicina da Faculdade Evangélica do Paraná de junho de 2007 a fevereiro de 2009. Foi preceptor do programa de residência em Medicina de Família e Comuni- dade da prefeitura do Rio de Janeiro entre 2012 e 2014 e foi coordenador do mesmo programa enrte 2014 e 2018. Colaborou com o grupo EURACT para formação de formadores em Medicina de Família e Comunidade entre 2013 e 2017 e é colabora- dor do Centro Besrour junto ao colégio canadense de médicos de família que visa promover a APS e a medicina de família em países de baixa e média renda. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/6985435062388171 DIOGO LUIS SCALCO Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de Santa Catarina (2002). Residência em Medicina de Família e Comunidade no Hosp. Nossa Senhora Con- EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 102 ceição - Porto Alegre, RS (2005). Mestrado em epidemiologia pela Universidade Federal de Pelotas (2008). Médico de Família e Comunidade da SMS da Prefeitura Municipal de Florianópolis, onde atua como médico no Centro de Saúde João Paulo desde 2012. Preceptor do Programa de Residência de Medicina de Família e Co- munidade da SMS da Prefeitura Municipal de Florianópolis desde 2011 e facilitador do mesmo programa de residência desde 2020. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/8976105695888541 EDISON JOSÉ CORRÊA Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais UFMG (1968). Especialista em Pediatria. Atualmente é professor adjunto IV da Universi- dade Federal de Minas Gerais (aposentado, Professor Convidado).Diretor da Fa- culdade de Medicina da UFMG (1994/1998), Pró-Reitor de Extensão da UFMG (1998/2006). Presidente (2003/2005), coordenador da Comissão de Saúde (2006/2007) e Assessor (2006 -2013) do Fórum de Pró Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras. Coordenador Técnico e Vice - Diretor do Núcleo de Educação em Saúde Coletiva NESCON/UFMG (2007-atual) e coordenador do Programa Ágora/Curso de Especialização em Atenção Básica em Saúde da Família/ Universidade Aberta do Brasil - núcleo UFMG. Profissional liberal - pediatra neo- natologista Maternidade Octaviano Neves (1971-2007). Tem experiência na área de Pediatria/Neonatologia e Administração Universitária, com ênfase em Exten- são Universitária, atuando principalmente nos seguintes temas: extensão univer- sitária, saúde coletiva, universidades-transformação social, atenção primária à saúde, escolas médicas, educação médica e especialização em saúde da família (Educação a Distância). Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/0682662099208286 SHEILA RUBIA LINDNER Possui graduação em enfermagem, mestrado em Saúde Pública (2005) e douto- rado em Saúde Coletiva (2013) pela Universidade Federal de Santa Catarina. É pesquisadora na temática de violência e saúde; direitos humanos, seguridade social e sistemas de justiça. É professora adjunta do Departamento de Saúde Pública, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Mestrado Pro- fissional em Saúde Mental e Atenção Psicossocial da Universidade Federal de Santa Catarina. Coordena o Observatório da Seguridade Social e Sistemas de Justiça (OSJ/UFSC). É coordenadora do Núcleo da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) da UFSC. Coordena a cooperação institucional entre a UFSC e as Uni- versity of British Columbia (UBC) do Canadá e University of Melbourne (UNIMELB) da Austrália. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/3507140374697938 EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 103 DALVAN ANTÔNIO DE CAMPOS Nutricionista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, Mestre e Doutor em Saúde Coletiva pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC). Tra- balha com pesquisa em Saúde Coletiva, no Departamento de Saúde Pública/UFSC, vinculado ao Núcleo de Estudos EPICENES, é membro da equipe editorial da revista Saúde & Transformação Social e atua no desenvolvimento e oferta de cursos de es- pecialização,capacitação e autoinstrucionais na Universidade Aberta do SUS - UFSC. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/2272195512817044 THAYS BERGER CONCEIÇÃO Doutoranda e Mestre em Saúde Coletiva, pela Universidade Federal de Santa Cata- rina (UFSC). Graduada em Enfermagem, pela UFSC. Membro da equipe de produ- ção de material didático para cursos de Prevenção e Controle do Sobrepeso e Obe- sidade, parceria entre a Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição e o Ministério da Saúde (CGAN/MS) e UFSC. Membro da equipe de coordenação de tutoria e TCC do Curso de Especialização Multiprofissional na Atenção Básica, da Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS). Participa dos Grupo de Pesquisa Condições de saúde dos idosos de Florianópolis - Epi Floripa e do Grupo de Pesquisa Violência e Saúde. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/8067887275425001 DANIEL ALMEIDA GONÇALVES Possui graduação em Medicina pela Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (1999), mestrado em Psiquiatria e Psicologia Médica (2009) e Doutorado em Saúde Coletiva (2012) pela Universidade Federal de São Paulo. Atu- almente é coordenador pedagógico do curso de Especialização em Saúde da Família/ UNASUS Unifesp, Médico Técnico Administrativo em Educação do Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP/EPM, supervisor da residência médica de Me- dicina de Família e Comunidade da Universidade Federal de São Paulo e supervi- sor de Educação Médica da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medi- cina - SPDM/PAIS. Também atua como médico clínico da Prefeitura Municipal de São Paulo. Tem experiência na área de Medicina, atuando principalmente nos se- guintes temas: Medicina de Família e Comunidade, Atenção Primária à Saúde, Cui- dados Paliativos, Educação Médica, Saúde Coletiva, Saúde Pública e Saúde Mental. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/5392203984984554 MARIA ELISABETE SALVADOR Possui graduação em Enfermagem pela Universidade Federal de São Paulo / Escola EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 104 Paulista de Medicina (UNIFESP) (1988), mestrado em Ciências da Saúde (1997), Dou- torado em Ciências da Saúde (2002) pela UNIFESP e Pós-doutorado 2022-2024. Atualmente é professora associada no Depto de Informática em Saúde da UNIFESP. Assessora técnica científica da SPDM Afiliadas. Coordenadora de Educação a Dis- tância e Metodologia Científica dos Cursos de Especialização UNA-SUS, UNIFESP. Líder do Grupo de Estudos, Pesquisa e Inovação Interdisciplinar em Informática Médica da CNPq. Orientadora do Programa de Mestrado Profissional em Tecnolo- gia, Gestão e Saúde Ocular da UNIFESP. Tem experiência nas áreas: Informática em Saúde; Cardiologia; Saúde Coletiva e Metodologia Científica, atuando com ensino, pesquisa e, desenvolvimento / avaliação de projetos científicos. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/2940944860729134 RITA MARIA LINO TARCIA Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (1984); mestrado e doutorado em Semiótica e Linguística Geral pela Faculdade de Filoso- fia, Letras e Ciências Humanas – FFLCH da Universidade de São Paulo/USP (2001). Professora Adjunta do Departamento de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina (Unifesp); Professora, Doutora e Pesquisadora no Programa de Pós- -Graduação em Ensino em Ciências da Saúde do Centro de Desenvolvimento do Ensino Superior em Saúde – CEDESS/Unifesp; Coordenadora Pedagógica do Curso de Especialização em Saúde da Família da UNASUS/Unifesp. Pesquisadora de pro- cessos educativos interativos e mediados por tecnologias na educação em saúde. Diretora Administrativa financeira da ABED – 2019-2023. Endereço do currículo na plataforma lattes: http://lattes.cnpq.br/5091970329164141 EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 105 Programa Mais Médicos para o EIXO TRANSVERSAL REALIZAÇÃO Ministério da Saúde Universidade Aberta do SUS (UNA-SUS) 2024 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso MÓDULO 33alcança seus objetivos, de forma cientí- fica, quando cumpre ou se propõe a cumprir as seguintes etapas: “I) Tema que será pesquisado: refere-se a uma situação ou ideia que necessi- ta ser pesquisada. II) Elaboração do objetivo geral: transforme o título da situação ou ideia em um objetivo. III) Descobrimento do problema: para qualquer situação ou ideia existe um problema desconhecido e precisa ser investigado. IV) Elaboração de hipóteses para resolver o problema: são as opções (tentati- vas) possíveis para solucionar o problema. V) Elaboração dos objetivos específicos: transforme as hipóteses em objetivos específicos. VI) Plano de pesquisa: são atividades oriundas dos objetivos específicos, e que serão desenvolvidas. É a pesquisa de campo. VII) Descrição da metodologia: descrição de como as atividades do plano de pesquisa serão desenvolvidas. VIII) Cronograma do desenvolvimento do plano de pesquisa: agendamento do tempo de execução de cada atividade do plano de pesquisa. IX) Execução do plano de pesquisa: desenvolvimento da pesquisa de campo. X) Obtenção dos dados: são os dados obtidos da pesquisa de campo. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 16 XI) Resultados da pesquisa: organização dos dados em tabelas, gráficos, etc. XII) Discussão da pesquisa: discutir os resultados da pesquisa. XIII) Considerações finais da pesquisa executada: finalização da pesquisa.” A pesquisa científica é, por fim, a atividade científica pela qual é possível alcançar o conhecimento e descobrir a realidade – elo fundamental entre o método e co- nhecimento (Infográfico a seguir). Nessa perspectiva, é constantemente necessária, uma vez que a realidade não se apresenta integralmente na superfície dos fatos, e os seus resultados nunca esgotam a realidade, sendo esta última sempre mais exu- berante do que a pesquisa (DEMO, 1985). Infográfico 2. Relação entre os conceitos de ciência e conhecimento Fonte: (PEREIRA et al., 2018) 1.3. O DESENVOLVIMENTO DA PESQUISA CIENTÍFICA E A NECESSIDADE DE ÉTICA EM PESQUISA Você agora compreende o que fundamenta o conhecimento científico e certamen- te confia nos benefícios desse tipo de pensamento para a evolução da sociedade como um todo. Mas será que a ciência possui algum tipo de efeito colateral? PARA REFLETIR Você se lembra de alguma situação em que a ciência tenha sido empregada com prejuízo para os seres humanos, seja no âmbito biológico, psicológico, social, espiritual ou ambiental? Nos séculos XIX e XX, o desenvolvimento científico e tecnológico se acelerou de forma assustadora, expandindo o conhecimento a propor- ções inimagináveis e provocando profundas mudanças sociais em todo Ciência ConhecimentoPesquisa RaciocínioMétodo EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 17 o mundo. Se por um lado, a ciência foi responsável pelo surgimento de insumos e tecnologias capazes de elevar a expectativa e a qualidade de vida em maior ou menor grau em todos os continentes do planeta, ela se mostrou impotente perante necessidades básicas da sociedade, seja pela brutal desigualdade na distribuição de seus benefícios persis- tente até os dias hoje, ou mesmo por sua aplicação contra o próprio ser humano. A mesma ciência que fez o homem pisar na Lua, criou máqui- nas direcionadas para morte e destruição. A II Guerra Mundial tornou-se icônica, não só por inaugurar o uso de armas de destruição em massa, com a explosão das bombas atômi- cas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, mas também pelos horro- res do Nazismo e do Holocausto, incluindo experimentos absoluta- mente abomináveis com seres humanos. Devido aos experimentos brutais conduzidos, no Tribunal de Nuremberg – tribunal militar inter- nacional encarregado de julgar os crimes ocorridos na II Guerra Mundial – 20 dos 23 julgados eram médicos, sendo que destes 7 foram con- denados à morte. Em defesa, os acusados argumentaram que não havia legislação que definisse, até aquele momento, o que seria legal ou ilegal em pesquisas envolvendo seres humanos. E isso era um fato: na prática, aqueles experimentos execráveis pouco diferiam dos inú- meros relatos ocorridos antes da Guerra e ao longo dos séculos. (TRI- BUNAL MILITAR INTERNACIONAL DE NUREMBERG, 1947) Figura 1 – Julgamento de Nuremberg. À frente, de cima para baixo: Hermann Göring, Rudolf Heß, Joachim von Ribbentrop, Wilhelm Keitel. Atrás, de cima para baixo: Karl Dönitz, Erich Raeder, Baldur von Schirach, Fritz Sauckel. Fonte: Work of the United States Government - Esta mídia está disponível no acervo do National Archives and Records Administration, catalo- gada sob o identificador ARC (National Archives Identifier) 540128. (Domínio público) EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 18 Como primeiro esforço em prol da ética em pesquisa com seres humanos, ainda que sem força legal na maioria dos países à época, foi criado o Código de Nurem- berg (1947). Confira a seguir, os seus dez princípios básicos. Infográfico 3. Os dez princípios do Código de Nuremberg (1947) 1. O consentimento voluntário do ser humano é absolutamente essencial. Isso significa que a pessoa envolvida deve ser legal- mente capacitada para dar o seu consentimento; tal pessoa deve exercer o seu direito livre de escolha, sem intervenção de qualquer desses elementos: força, fraude, mentira, coação, astúcia ou outra forma de restrição ou coerção posterior; e deve ter conhecimento e compreen- são suficientes do assunto em questão para tomar sua decisão. Esse último aspecto requer que sejam explicadas à pessoa natureza, duração e pro- pósito do experimento; os métodos que o conduzirão; as inconveniências e riscos esperados; os eventuais efeitos que o experimento possa ter sobre a saúde do participante. O dever e a responsabilidade de garantir a qua- lidade do consentimento recaem sobre o pesquisador que inicia, dirige ou gerencia o experimento. São deveres e responsabilidades que não 2. O experimento deve ser tal que produza resultados vantajo- sos para a sociedade, os quais não possam ser buscados por outros métodos de estudo, e não devem ser feitos casuística e 4. O experimento deve ser conduzido de maneira a evitar todo 6. O grau de risco aceitável deve ser limitado pela importância humanitária do problema que o pesquisador se propõe 3. O experimento deve ser baseado em resultados de experi- mentação animal e no conhecimento da evolução da doença ou outros problemas em estudo, e os resultados conhecidos 5. Nenhum experimento deve ser conduzido quando existirem razões para acreditar numa possível morte ou invalidez perma- nente; exceto, talvez, no caso de o próprio médico pesquisador EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 19 Como forma de induzir um compromisso oficial dos países, alguns anos mais tarde, mais precisamente em 1964, na cidade de Helsinque, é produzida a Declaração de Helsinque, por iniciativa da Associação Médica Mundial (WMA), trazendo elemen- tos muito similares ao Código de Nuremberg. Ainda que, novamente, este docu- mento também não apresentasse nenhuma validade legal, sendo basicamente uma orientação à comunidade médica internacional, desta vez surtiu um importante efeito sobre os países, influenciando fortemente a legislação nacional e regional acerca do tema. O documento passou por sete revisões, sendo a última durante a 64ª Assembleia da WMA, em Fortaleza, em outubro de 2013. Mas se você, prezado profissional estudante, acreditou que os crimes e escândalos relacionados à pesquisa envolvendo seres humanos foram exclusividade dos na- zistas ou que o Código de Nuremberg e a Declaração de Helsinque tenham sido Você pode conferir a versão completa da última atualização da Declara- ção de Helsinque, da WMA, com tradução para o português pela Asso- ciação Médica Brasileira no link: https://arquivos.amb.org.br/_downlo-ads/491535001395167888_DoHBrazilianPortugueseVersionRev.pdf 7. Devem ser tomados cuidados especiais para proteger o par- ticipante do experimento de qualquer possibilidade, mesmo 8. O experimento deve ser conduzido apenas por pessoas cien- tificamente qualificadas. Deve ser exigido o maior grau possível de cuidado e habilidade, em todos os estágios, daqueles que 9. Durante o curso do experimento, o participante deve ter plena liberdade de se retirar, caso ele sinta que há possibilidade de Fonte: (TRIBUNAL MILITAR INTERNACIONAL DE NUREMBERG, 1947) 10. Durante o curso do experimento, o pesquisador deve estar preparado para suspender os procedimentos em qualquer estágio, se ele tiver razoáveis motivos para acreditar que a con- tinuação do experimento causará provável dano, invalidez ou morte para EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 20 suficientes para a predominância da ética em pesquisa na segunda metade do século XX, infelizmente você errou. Diversas outras experiências antiéticas continu- aram a ocorrer, inclusive no ocidente. Um dos casos mais emblemáticos foi o estudo de Tuskegee, pequena cidade no condado de Macon, estado do Alabama, Estados Unidos, conduzida por órgãos oficiais do governo norte-americano. Neste estudo, centenas de participantes negros e pobres foram acompanhados, sem o seu co- nhecimento, com diagnóstico de sífilis, mantendo-os sem tratamento mesmo após estabelecimento de terapêutica efetiva para a condição. O estudo só foi encerrado em 1972, após 40 anos de seguimento, quando o escândalo se tornou público, com consequente repercussão social e forte pressão política. Conheça mais sobre o caso Tuskegee no vídeo a seguir: Se violações éticas são tão susceptíveis de ocorrer, como proteger os sujeitos de pesquisa desses riscos? As pesquisas científicas envolvendo seres humanos deve- riam ser banidas? O banimento de estudos envolvendo seres humanos seria catastrófico para o de- senvolvimento científico e social. A alternativa encontrada, de modo a garantir a re- alização de estudos conforme os preceitos éticos, foi a criação de sistemas de revisão ética que, no caso do Brasil, foi levada a cabo pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP ou COEP), apresentado mais detalhadamente a seguir. 1.4. A ÉTICA EM PESQUISA NO BRASIL Constatada a insuficiência do Código de Nuremberg e da Declaração de Helsinque isoladamente para garantir a ética em estudos envolvendo seres humanos, os países passaram a legislar sobre a atividade científica em seu território, cada qual forma- tando um sistema de revisão ética com suas particularidades. No caso do Brasil, as bases legais dessa iniciativa remontam à Constituição Federal de 1988, conhecida como a Constituição Cidadã, devido aos importantes avanços nos direitos sociais. A partir da Constituição e posteriormente com as Leis Orgânicas do Sistema Único de Saúde (SUS) (8.080 e 8.142 de 1990), o Conselho Nacional de Saúde (CNS) – órgão com representatividade paritária entre sociedade civil, gestores e trabalhadores da saúde – passa a ser responsável pela assessoria, fiscalização e monitoramento das políticas públicas no âmbito do SUS, incluindo as atividades de pesquisa (OSTOS, 2011). Por determinação do CNS, no final da década de 80, as instituições credenciadas Você pode conhecer o Caso Tuskegee na integra acessando o endereço: https://www.ufrgs.br/bioetica/tueke2.htm EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 21 com atividade científica passam a ser cobradas quanto a existência de Comitês de Ética em Pesquisa (CEP). Apesar disso, poucas instituições seguem essa diretriz de imediato, sendo mais amplamente obedecida somente após a Resolução CNS nº 196 de 1996. Esta resolução define Comitê de Ética em Pesquisa como (CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE, 1996): “colegiados interdisciplinares e independentes, com ‘munus público’, de caráter consultivo, deliberativo e educativo, criados para defender os interesses dos sujeitos da pesquisa em sua integridade e dignidade e para contribuir no de- senvolvimento da pesquisa dentro de padrões éticos.” PARA REFLETIR O que os princípios da bioética – beneficência, não-maleficência, justiça e autonomia – têm a ver com a ética em pesquisa? Percebe-se que o objetivo dos CEPs vai muito além da simples análise e aprovação de projetos de pesquisa, de vez que possui papel fundamental no fortalecimento da cultura da ética e da pro- teção da segurança dos sujeitos de pesquisa. Para tanto, deve apre- sentar caráter multi e transdisciplinar, com composição de, no mínimo, 7 membros, incluindo a “participação de profissionais da área de saúde, das ciências exatas, sociais e humanas, incluindo, por exemplo, juristas, teólogos, sociólogos, filósofos, bioeticistas e, pelo menos, um membro da sociedade representando os usuários da instituição”. (CON- SELHO NACIONAL DE SAÚDE, 1996) Os membros são eleitos por seus pares a cada 3 anos, sendo que metade deve apresentar ex- periência em pesquisa. Para registro, coordenação e orientação dos CEPs, criou-se Comitê Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), instância colegiada vincu- lada diretamente ao CNS/Ministério da Saúde. Além do apoio aos CEPs, é a atribuição do CONEP a análise dos projetos de pesquisa em áreas temáticas especiais, como por exemplo, genética humana, reprodução humana, populações indígenas, pesquisas coordena- das do exterior ou com participação estrangeira e pesquisas que envolvam remessa de material biológico para o exterior, ou mesmo para outros temas os quais o CEP, por meio de justificativa, julga merecedores de análise pelo CONEP. A integração entre CONEP e os mais de 800 CEPs ativos no país atualmente é denominado de Sistema CEP/CONEP. No Brasil, todo e qualquer estudo envolvendo seres humanos deve ser apreciado e aprovado por um CEP antes de seu início. O início EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 22 Infográfico 4. Exceções de estudos envolvendo seres humanos que não serão avaliados pelo sistema CEP/CONEP da execução de um estudo científico sem prévia autorização é con- siderado uma infração ética grave e por si só justifica a reprovação de seu protocolo de pesquisa. A definição de pesquisa envolvendo seres humanos, segundo a Resolução CNS nº 196/1996 é bastan- te ampla: Pesquisa envolvendo seres humanos – pesquisa que, individual ou cole- tivamente, envolva o ser humano, de forma direta ou indireta, em sua to- talidade ou partes dele, incluindo o manejo de informações ou materiais. Dessa forma, os CEPs não se ocupam somente das análises e orien- tações para pesquisas da área da Saúde, mas se estendem também para as Ciências Humanas e Sociais. Com o objetivo de evidenciar algumas particularidades das pesquisas nesses outros campos, es- senciais para a adequada avaliação ética de seus protocolos, o CNS publicou a Resolução nº 510 de 2016 de modo a complementar a Resolução nº 196/1996, que, no entanto, continua vigente. Dentre suas novidades, a nova resolução explicita em seu Art. 1º as exce- Ações cujos projetos de pesquisa envolvendo seres humanos não serão avaliados pelo sistema CEP/CONEP. Art. 1º. Parágrafo único. Não serão registradas nem avaliadas pelo sistema CEP/CONEP: I – pesquisa de opinião pública com participantes não identificados; II – pesquisa que utilize informações de acesso público, nos termos da Lei nº 12.527, de 18 de novembro de 2011; III – pesquisa que utilize informações de domínio público; IV – pesquisa censitária; V – pesquisa com bancos de dados, cujas informações são EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 23 agregadas, sem possibilidade de identificação individual; VI – pesquisa realizada exclusivamente com textos científicos para revisão da literatura científica; VII – pesquisa que objetivao aprofundamento teórico de situa- ções que emergem espontânea e contingencialmente na prática profis- sional, desde que não revelem dados que possam identificar o sujeito; VIII – atividade realizada com o intuito exclusivamente de edu- cação, ensino ou treinamento sem finalidade de pesquisa científica, de alunos de graduação, de curso técnico, ou de profissionais em especialização; § 1º Não se enquadram no inciso antecedente [isto é, inciso VIII] os Traba- lhos de Conclusão de Curso, monografias e similares, devendo-se, nestes casos, apresentar o protocolo de pesquisa ao sistema CEP/CONEP; § 2º Caso, durante o planejamento ou a execução da atividade de educa- ção, ensino ou treinamento surja a intenção de incorporação dos resulta- Perceba que o fato de se tratar de um Trabalho de Conclusão de Curso não exime o pesquisador da obrigatoriedade de apresen- tar seu projeto para a apreciação ética. No entanto, no âmbito deste curso de especialização, você será convidado a construir um projeto de intervenção que dialogue com a necessidade do seu território. Desde que você garanta o sigilo e privacidade das informações relacionadas aos sujeitos de pesquisa, essa situa- ção se enquadra no inciso VII (CONSELHO NACIONAL DE SAÚDE, 2016; art. 1º, parágrafo único), conforme apresentado no infográ- fico anterior. Portanto, fique tranquilo, você não precisará apresentar o seu projeto a um Comitê de Ética em Pesquisa dessa vez, porém, quando quiser mergulhar no mundo da produção científica, não tenha medo! As submissões dos projetos de pesquisa hoje estão centralizadas em uma plataforma eletrônica nacional, a Plataforma Brasil (https://plataformabrasil.saude.gov.br/), que direciona o seu projeto automatica- mente para o CEP da sua instituição ou para o CEP de referência regional da sua localidade. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 24 1.5. OUTROS CUIDADOS ÉTICOS NA PESQUISA CIENTÍFICA Alguns cuidados precisam ser tomados ao redigir um projeto de pesquisa ou mesmo os seus resultados posteriormente. As ideias do pesquisador devem ser sempre ori- ginais e todos os elementos extraídos de outras pesquisas ou trabalhos devem ser adequadamente referenciados, seja por citação direta ou citação indireta. A apre- sentação de elementos de terceiros sem o devido referenciamento pode ser con- siderada plágio, previsto como crime no Código Penal brasileiro (Art. 184 do Código Penal - Decreto Lei 2.848/40), podendo resultar em multa e até reclusão. Mesmo as ideias do próprio autor já publicadas em outros materiais devem ser adequada- mente referenciadas, de modo a se evitar a situação de autoplágio. Por fim, os elementos que embasam e justificam, assim como os relatos e resulta- dos apresentados devem ser absolutamente fieis à realidade. Outro crime previsto pelo Código Penal é o de falsidade ideológica (Art. 299 do Código Penal – Decreto Lei 2.848/40), definido como o ato de “omitir, em documento público ou particular, de- claração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante”. Cuide bem da sua escrita e sempre compartilhe suas dúvidas com seu facilitador. A escrita científica será mais bem detalhada na última unidade deste módulo. 1.6. A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA PARA A MEDICINA DE FAMÍLIA E CO- MUNIDADE E PARA A ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE É bem estabelecida a evidência científica sobre o impacto positivo do fortalecimen- to da Atenção Primária à Saúde nos resultados dos Sistemas de Saúde, seja em termos de efetividade, eficiência, satisfação ou equidade na aplicação dos recursos (STARFIELD; SHI; MACINKO, 2005). O mesmo não se pode dizer da Medicina de Família e Comunidade. Na maioria dos países desenvolvidos com fortes Sistemas Nacionais de Saúde, a decisão pelo investimento da especialização dos médicos atuantes na APS foi anterior ao acúmulo de informações sobre seus resultados. Acesse a Plataforma Brasil (https://plataformabrasil.saude.gov. br/) e conheça mais sobre a Ética em Pesquisa no Brasil. Lá está reunida toda a legislação nacional vigente relacionada à pesqui- sa científica, bem como manuais e orientações de como produ- zir um projeto e seus anexos, como por exemplo, o Termo de Con- sentimento Livre e Esclarecido ou a justificativa de seu pedido de dispensa, essencial para a aprovação do estudo. Saiba mais EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 25 Dessa forma, diante da escassez de evidências que possam induzir políticas públi- cas de recursos humanos na APS, sobretudo nos países em desenvolvimento, de- pende-se grandemente de pesquisas que ainda não foram conduzidas ou finaliza- das. (JANTSCH, 2020) Mesmo para a APS, há campos ainda pouco explorados e com muito potencial de crescimento. Multimorbidade, modelos de remuneração e cuidado de populações vulneráveis são somente alguns exemplos de mundos nos quais nosso conhecimento científico atual mal toca a superfície. Assim, produção científica nas áreas da APS e da Medicina de Família e Comunida- de têm enorme importância, tendo em vista que seus conhecimentos e aprendiza- dos potenciais podem representar um salto de qualidade e de custo-efetividade das ações em saúde, especialmente nos países de baixa e média renda, como o nosso. Com o objetivo de fomentar e apoiar as iniciativas de pesquisa voltadas para esses campos, alguns materiais técnicos foram produzidos ao redor do mundo. Dentre eles, se destacam os livros publicados pela Associação Mundial de Médicos de Família (WONCA) apresentados a seguir. Figura 2. Livros de apoio para a pesquisa em APS no mundo Fonte: (WONCA, 2016, 2019) EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 26 1.7. DESENHOS DE ESTUDO Ciente das potencialidades e perigos da pesquisa, você, caro profissional estudan- te, está preparado para revisar os principais tipos de desenho de estudo. Este tema é muito importante não somente para quem irá conduzir novas pesquisas, mas também para os leitores de artigos científicos, que são a maioria dos profissionais de saúde. Estudar tipos de desenho de estudo nos ajudará a entender qual desenho é mais adequado para qual pergunta de estudo e quais são possíveis de serem usados, dadas as condições de aplicação e contingências do contexto. Não há um desenho de estudo melhor do que o outro: todos têm sua importância, benefícios de uso e limitações a serem consideradas. Apresentaremos daqui em diante os principais desenhos de estudo utilizados em pesquisas médicas e em saúde pública, as razões de utilizar cada um deles, ou seja, o propósito, as vantagens e as desvantagens. Além disso, apresentaremos junto a cada desenho de estudo, um pequeno resumo de um artigo publicado utilizando aquele tipo de desenho no cenário da Atenção Primária à Saúde, reportando seus objetivos, a metodologia aplicada e os resultados. Antes de começarmos, contudo, a abordar os desenhos de estudo, cabe revisar alguns conceitos importantes em Epidemiologia. 1.7.1. CONCEITOS IMPORTANTES EM EPIDEMIOLOGIA População – é um grupo de indivíduos que têm, pelo menos, uma característica em comum. A população de um estudo pode ser composta, por exemplo, por todas as pessoas nascidas em uma cidade em um determinado ano, como o estudo de coorte que acompanhou todos os nascidos no ano de 1983 na cidade de Pelotas, RS. Por outro lado, a população de um estudo pode ser composta por um grupo específico de pessoas, como a população representada pelas gestantes de um mu- nicípio do interior do Brasil, que foram avaliadas quanto à prevalência de autome- dicação e o seu perfil. Frequentemente, os estudos trabalham com amostras, que é um subconjunto representativo da população de interesse na comunidade.Variável – é uma característica dos dados sob observação em um estudo que pode ser medida. Em um estudo hipotético de prevalência de diabetes mellitus entre todos os adultos com mais de 20 anos de determinado bairro, idade (medida em anos com- pletos), cor da pele (medido em cinco categorias conforme classificação do IBGE) e diabetes mellitus (presença ou ausência), foram algumas das variáveis utilizadas. Desfecho (variável dependente) – é a variável avaliada durante um estudo para do- cumentar o resultado ou impacto de uma dada exposição ou intervenção (variável independente). É a variável central no estudo, a qual tentamos compreender tanto sua ocorrência quanto sua variação. A exposição (variável independente) é a variável que é analisada sob a ótica da influência que tem sobre o desfecho. Também pode ser entendida como um grupo exposto a determinada condição de saúde ou agente que seja determinante de um status de saúde ou doença (desfecho). Em um estudo EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 27 de coorte que avaliou a incidência de morte em pessoas com Covid conforme a faixa etária (maior ou igual a 60 anos e menor que 60 anos), morte é o desfecho, enquan- to faixa etária é a exposição. Nossa hipótese é de que idosos (exposição) têm uma maior probabilidade de morte por Covid que não idosos (controle). Prevalência – é o número de casos ou eventos de uma determinada doença/con- dição de saúde em uma determinada população em um dado momento. Geralmen- te apresentada como uma razão entre o número de casos e a população em risco de ter a doença/condição de saúde. Como exemplo, estudo de prevalência iden- tificou 157 casos de hipertensos entre todos os 1.495 adultos de um bairro que tiveram sua pressão arterial aferida em um intervalo de uma semana em seus domicílios. A prevalência de hipertensão nessa população foi de 9,16 casos de hipertensão / 1.000 adultos em risco para hipertensão. Incidência – é o número de novos casos ou eventos de uma determinada doença/ condição de saúde em uma determinada população durante um determinado período. Como exemplo, estudo que buscava averiguar o número de casos novos de HIV (casos incidentes) ao longo de três anos em uma cidade de 3.000 habitan- tes, teve 33 casos novos no primeiro ano do estudo, 57 no segundo e 40 no tercei- ro ano. A taxa de incidência cumulativa (risco relativo) foi de 12 casos / 3.000 habi- tantes (número de pessoas sem a doença no início do período) ao final do estudo, que daria uma proporção de 4,3%. Outra forma comum de apresentar incidência é a taxa de incidência (casos/pessoas-ano). 1.7.2. ESTUDOS EXPERIMENTAIS VERSUS OBSERVACIONAIS Uma das várias formas em que podemos categorizar os desenhos de estudo ba- seia-se na aplicação de uma intervenção junto a pacientes e/ou população. Estudos que realizam tal tipo de aplicação – considere como intervenção um medicamen- to, uma nova forma de organizar o serviço de saúde, uma nova vacina, um progra- ma de transferência de renda (por exemplo, bolsa família) – recebem o nome de estudos experimentais (ou de intervenção). Aqueles que não lançam mão de aplicar uma intervenção e que buscam observar um fenômeno junto a pacientes ou popu- lações – diagnóstico de hipertensão, percepções sobre o itinerário terapêutico dos pacientes hipertensos, cobertura vacinal, internações por condições sensíveis aos cuidados ambulatoriais em uma população coberta pelo Programa Mais Médicos para o Brasil – são chamados de observacionais. Caso o estudo compare popula- ções que receberam uma intervenção com outra que não a recebeu, se o estudo for feito posteriormente à aplicação desta intervenção, então ele também deverá ser chamado de observacional. Em resumo: Estudos experimentais – compreendem estudos em que os sujeitos do estudo são submetidos a um experimento. No caso, um experimento refere-se à manipulação de uma determinada exposição (exemplo: treinamento para dar uma determinada aula para um grupo de professores; uso de um medicamento de um grupo de indivíduos com diabetes mellitus) pelos investigadores (pessoas que conduzem a pesquisa). EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 28 Estudos observacionais – estudos onde não ocorre qualquer experimento. O in- vestigador simplesmente observa ou mede, sem realizar qualquer intervenção. Podem ser realizados por meio da obtenção de dados secundários (dados coleta- dos de fontes já disponíveis, levantados em pesquisas anteriores) ou através da re- alização de inquéritos (dados primários). Além disso, estudos observacionais ainda podem ser classificados como analíticos ou meramente descritivos. Um estudo ob- servacional descritivo limita-se a descrever a ocorrência de um desfecho para ajudar a descrever um fenômeno e sua magnitude, como por exemplo “determinar preva- lência de diabetes mellitus da população de adultos de uma equipe de saúde”. Se for feita qualquer análise para avaliar, neste mesmo estudo, a associação de uma exposição (ex: gênero) com o desfecho (diabetes mellitus), já deixa de ser um estudo descritivo puro e passa a ser chamado então de estudo observacional analítico. Este procura avaliar possíveis associações entre exposição e desfecho. Exemplo: estudo de coorte para avaliar associação entre tabagismo (exposição) e infarto agudo do miocárdio (desfecho). 1.7.3. PESQUISAS QUANTITATIVAS Estudos seccionais ou transversais A definição de estudos seccionais vem da definição de corte no tempo que o estudo é feito. Um inquérito realizado em uma população ao longo de alguns meses, pode gerar uma imagem dos eventos estudados nesta população. O censo brasileiro re- alizado a cada início de década e estudos epidemiológicos feitos pelo IBGE, como a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domi- cílios (PNAD) são exemplos de estudos seccionais realizados no Brasil. Também podem ser chamados de estudos de prevalência, pois incluem como su- jeitos do estudo todas as pessoas da população em um determinado momento ou uma amostra representativa desta população, selecionadas independentemente do status da exposição ou do desfecho. Como se trata de um desenho de estudo que faz um recorte de uma população em um único momento no tempo, exposi- ções e desfechos são medidos concomitantemente. Propósito A vocação dos estudos seccionais é primeiramente estimar e/ou medir a prevalên- cia de eventos na população, sejam doenças, exposições, determinantes de saúde, complicações, uso de medicamentos etc. Estudos seccionais são adequados quando queremos explorar um fenômeno populacional, ou seja, se quisermos saber quantos cadastrados na nossa unidade de saúde são tabagistas, este seria o desenho mais adequado. A partir destes desenhos de estudo também é possível medir associa- ção entre exposição e desfecho, levando em consideração as limitações quanto à inferência causal. Alguns exemplos de aplicação deste tipo de desenho podem nos ajudar a enten- EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 29 der melhor para que situações pode ser aplicado: 1) rastrear grupos populacionais para tratamento de doenças importantes ou cuidado de grupos específicos, como por exemplo, portadores de HIV, gestantes, lactentes; 2) coletar informações de saúde sobre as famílias e seus membros, como quanto acesso à saneamento básico, segurança nutricional, preferências alimentares e comportamentos de busca de saúde; 3) descobrir as crenças e costumes locais, como a amamentação e o planejamen- to familiar; 4) compreender a aceitação de novas intervenções, como para Covid-19, incluin- do lavagem das mãos, distanciamento físico, uso de máscaras faciais e aceita- ção de vacinas; 5) avaliar a efetividade dos serviços de saúde, como atendimento pré-natal, cober- tura de imunização e utilização de ambulatórios;6) avaliar necessidades de saúde da população, como a realização de diagnóstico de demanda ao longo de 30 dias em um centro de saúde; 7) analisar tendências de saúde da população, como estudos anuais de prevalên- cia de diabetes mellitus no Brasil. A seguir apresentamos algumas vantagens e desvantagens dos estudos seccionais. Vantagens Desvantagens Estudos mais rápidos e baratos de serem realizados do que ensaios clínicos ou estudo de coorte. Pode superestimar condições de longa du- ração e baixa letalidade e subestimar con- dições de curta duração e alta letalidade. Exemplo: pacientes sobreviventes de um infarto agudo do miocárdio (IAM) podem ser superestimados, enquanto pessoas já mor- tas por IAM podem ser subestimadas, pois não poderão mais responder ao inquérito. Úteis para investigação de ex- posições que são características individuais fixas que não mudam com o tempo. Exemplo: ano de nascimento, cor da pele, grupo sanguíneo. Inadequado para estudos analíticos de doenças raras. Haveria necessidade de in- vestigar uma população muito grande para obter um número pequeno de casos e fazer algum estudo analítico. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 30 Um número grande de condições de saúde pode ser investigado ao mesmo tempo. Pouco úteis para doenças com curta du- ração. Estudo transversal, a depender de como são coletados os dados, pode não identificar uma doença que teve início há uma semana e hoje não está mais presente. Útil como estudo inicial para le- vantamento de hipóteses causais. Como exposição e desfecho são analisados ao mesmo tempo, dificulta a avaliação das possíveis associações causais. Transversal- mente, podemos encontrar uma associação entre obesidade e uso de adoçante, mas não será possível afirmar se pessoas que ficam obesas passam a usar mais adoçan- te ou se pessoas que usam adoçantes se tornam obesas. Pesquisas de prevalência repeti- das, com amostra de séries tem- porais, podem mostrar tendências. Condições de saúde com variação sazonal podem ser interpretados erroneamente a depender do período e do tempo de reali- zação da pesquisa. Um estudo transversal realizado no verão avaliando pessoas asmá- ticas em um centro de saúde pode encon- trar uma prevalência menor do que se fosse feito no inverno. Úteis para estudar doenças de baixa letalidade ou que tenham duração suficiente para serem identificadas, ou seja, doenças crônicas de evolução lenta. Exemplo de estudo Seccional realizado na APS No artigo Epidemiology of multimorbidity and implications for health care, research, and medical education: a cross-sectional study de Karen Barnett et al., publicado em 2012 no The Lancet os autores pretendiam medir a prevalência de pacientes com Multimorbida- de (presença de duas ou mais condições crônicas de saúde em um mesmo indivíduo) que eram atendidos pelos serviços de atenção primária na Escócia. Para tanto, os pesquisadores fizeram uma extração de dados de prontuário eletrônico de pacientes no mês de março de 2007 (seccional) em 314 clínicas de atenção pri- mária na Escócia. Quarenta morbidades foram consideradas e EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 31 dados de 1.751.841 pessoas foram analisados. Nesta população, 42,2% (95% CI 42,1–42,3) de todos os pacientes tinham uma mor- bidade crônica ou mais e 23,2% (23,08–23,21) foram considerados como Multimórbidos, pois tinham mais de duas condições crôni- cas. Além disso, identificaram alguns fatores que estavam corre- lacionados com maior chance de o paciente ter Multimorbidade. Pessoas com mais anos de vida e que viviam em áreas de maior privação social tinham maior probabilidade de serem Multimórbi- das. Desta forma, os pesquisadores puderam determinar qual a magnitude do problema nesta região (quantas pessoas têm Mul- timorbidade) e agora possuem argumentos para informar gesto- res e tomadores de decisão sobre a necessidade de priorizar re- cursos para esta população. Karen Barnett, Stewart W Mercer, Michael Norbury, Graham Watt, Sally Wyke, Bruce Guthrie, Epidemiology of multimorbidity and implications for health care, re- search, and medical education: a cross-sectional study, The Lancet, Volume 380, Issue 9836, 7–13 July 2012, Pages 37-43; https://doi.org/10.1016/S0140-6736(12) 60240-2. Estudos de coorte Também chamados de estudos de incidência ou de seguimento, são baseados em observações ao longo do tempo de pessoas que estão livres do desfecho no início do estudo (não têm a doença/condição de saúde) e que são classificadas em dois ou mais grupos de indivíduos (coortes do estudo) de acordo com a exposição a uma causa potencial do desfecho em investigação. Ao longo do tempo, o aparecimento do des- fecho (evento de saúde/doença/condição de saúde) vai sendo medido (incidência) e pode ser comparado entre as diferentes coortes do estudo. Como os dados são co- letados em diferentes pontos do tempo, é considerado um estudo longitudinal. Como exemplo, em um estudo para avaliar a associação de obesidade e surgimento de diabetes mellitus, foram pesados todos os pacientes atendidos ao longo de uma semana em um centro de saúde que não tinham diabetes (livres do desfecho). Os in- divíduos foram classificados em obesos (IMC maior ou igual a 30) e não obesos (IMC abaixo de 30). Ao longo de 5 anos foram acompanhados (exame laboratorial anual) e foram medidas as incidências de diabetes (desfecho) no grupo de obesos (exposto) e de não obesos (controle), buscando observar se houve diferença entre os grupos. Al- ternativamente, o mesmo estudo poderia ter sido realizado com a definição, no início do estudo, de três coortes: obesos (IMC maior igual a 30); sobrepeso (IMC entre 26 e 30) e sem sobrepeso ou obesidade (IMC abaixo de 26), com a exposição deixando de ser dicotômica. Da mesma forma, as incidências de diabetes mellitus seriam compa- radas entre os grupos. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 32 Estudos de coorte podem ser prospectivos, quando o estudo é desenhado ante- riormente à coleta de dados ou retrospectivos (coorte histórica), quando os dados foram coletados previamente ao início do estudo atual. Propósito Os estudos de coorte são feitos com o objetivo de determinar a incidência de um des- fecho (doenças/eventos de saúde/condições de saúde/morte) e/ou de comparar as incidências entre as diferentes coortes ao longo de um determinado tempo. São estudos adequados para a avaliação de relações de causalidade entre exposição e desfecho, sendo capazes de determinar o risco relativo individual de determinada exposição para o desenvolvimento de um desfecho. Como exemplo, estudos de coorte que compara- ram tabagistas com não tabagistas que chegaram à conclusão de que fumantes têm cerca de 15 vezes mais risco de desenvolver câncer de pulmão que não fumantes. Estudos de coorte também podem servir de base para a realização de estudos de caso- -controle aninhados a uma coorte. As coortes permitem que os casos incidentes de de- terminada condição sejam utilizados como casos de um estudo caso-controle. Os con- troles também serão obtidos de dentro da mesma coorte. Pode ser útil quando determinar o status de exposição pode ser muito caro, como no caso do uso de testes bioquímicos ou genéticos. Testar somente parte dos controles se torna bem mais factível. A seguir apresentamos algumas vantagens e desvantagens dos estudos de coorte. Vantagens Desvantagens Estudo observacional é mais propício para investigação de causalidade. Como costumam ser mais demorados, pois podem exigir um longo tempo de observação para detecção de um nú- mero considerável de casos incidentes, costumam ser mais caros e deman- dam mais tempo dos investigadores. Se mostra mais útil em situações que os casos incidentes (desfechos)são mais frequentes. Especificamente no caso de doenças raras, a necessidade de um estudo com tempo muito prolongado para detecção de casos incidentes em nú- mero suficiente para posterior análise, pode torná-lo inviável. É útil para casos em que o desfecho ocorre brevemente após a exposição. Como exemplo, coorte em que é ava- liada a associação entre uso de deter- minado medicamento no período ges- tacional e surgimento de má-formação congênita no recém-nascido. Nos casos em que a exposição pode levar muitos anos para desenvolver o desfecho, estudos podem exigir tem- po muito longo de seguimento. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 33 Coortes de base populacional podem avaliar um número grande de diferentes exposições (fatores de risco) e desfechos. Trata-se de estudo conceitualmente simples. Exemplo de estudo de coorte na APS No artigo Primary care experience and remission of type 2 diabetes: a population-based prospective cohort study, publicado em 2021 na Family Practice, Dambha-Miller et al. pretendiam avaliar a associa- ção entre experiência na atenção primária à saúde (APS) e remis- são de diabetes mellitus tipo 2 em pacientes acompanhados ao longo de cinco anos em 49 clínicas de atenção primária na Ingla- terra. A experiência na atenção primária foi aferida por meio da res- posta a um questionário previamente validado aplicado no primei- ro ano após o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 2, com perguntas sobre experiências com médicos e enfermeiros da atenção primá- ria, focadas nos aspectos relacionais. A remissão do diabetes melli- tus foi definida como Hemoglobina glicadaemergency department presentation and hospital admission with pneumonia: a case-control study of preschool-aged children. NPJ Prim Care Respir Med. 2015;25:14113. Pu- blished 2015 Feb 5. doi:10.1038/npjpcrm.2014.113 EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 36 Ensaios clínico explanatórios e pragmáticos Os ensaios clínicos, sejam eles explanatórios ou pragmáticos, são estudos de inter- venção. Os mais conhecidos, e que serão abordados primeiramente, são os ensaios clínicos explanatórios, também conhecidos como ensaios clínicos randomizados. Os ensaios clínicos randomizados (ECR) caracterizam-se por ser um experimento em que os indivíduos do estudo são aleatoriamente expostos a diferentes intervenções com o objetivo de comparar a incidência do desfecho (evento em saúde, doença, morte). As intervenções podem ser por exemplo: (1) o uso de um medicamento versus placebo para tratamento de uma doença; (2) o uso de uma vacina versus placebo para prevenção de uma doença ou; (3) o uso de um checklist durante cirurgia a ser feito pela equipe cirúrgica versus cuidado cirúrgico padrão para avaliar complicações infecciosas. A aleatoriedade (randomização) da escolha da intervenção permite que todos os indivíduos tenham a mesma chance de serem alocados a determinada ex- posição e que as possíveis diferenças na incidência do desfecho sejam, salvo acaso, resultantes do efeito de determinada intervenção. Os ECRs podem ser classificados, quanto ao cegamento, em triplo-cego (quando in- divíduos que recebem a intervenção, indivíduos que aplicam a intervenção e indiví- duos que fazem as análises dos dados não sabem quem recebeu que tipo de inter- venção), duplo-cego (quando indivíduos que recebem a intervenção e indivíduos que aplicam a intervenção não sabem quem recebeu que tipo de intervenção), simples (quando indivíduos que recebem a intervenção não sabem quem recebeu que tipo de intervenção) ou aberto (quando não há cegamento). Nos estudos sobre medicamentos, outra classificação comumente empregada está relacionada às fases dos ensaios clínicos, importante para aprovação de novos me- dicamentos por agências reguladoras. Um estudo de fase 2 só pode ser autorizado após passar por um estudo de fase 1, bem como um estudo de fase 3 só pode ser autorizado após passar por um estudo de fase 2. 1. Estudos de fase 1: também chamados de estudos de segurança. Envolve um pequeno número de indivíduos (ex: 10 a 80), geralmente saudáveis, que são ex- postos à intervenção, geralmente por curto espaço de tempo, para avaliar efeitos adversos. Não costumam ser randomizados. 2. Estudos de fase 2: número maior de indivíduos (100 a 300), visando avaliações preliminares de eficácia e determinação de dosagem adequada. 3. Estudos de fase 3: ECRs de larga escala (1.000-3.000) para avaliar efetividade e segurança na população alvo da intervenção. Quando aprovados, podem ser li- berados para comercialização. 4. Monitoramento após aprovação do medicamento (estudos de fase 4): estudos de seguimento com o grupo que continua fazendo uso do medicamento que passou em estudos de fase 3. São monitorados efeitos adversos que podem demorar mais tempo para se desenvolverem. Não são mais ECRs. EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 37 Como os ensaios clínicos envolvem intervenção em um grupo e noutro não, essa escolha, ainda que aleatória, deve atender alguns preceitos éticos: (1) não há razão forte para acreditar que um dos braços da intervenção seja melhor que o outro; (2) os participantes do estudo devem ser informados sobre as consequências do estudo e podem optar por sair a qualquer momento sem qualquer prejuízo e; (3) o estudo deve ser interrompido sempre que houver evidência convincente de que um braço da intervenção seja mais eficaz ou tenha mais efeitos adversos. Os ensaios clínicos pragmáticos diferem dos explanatórios por serem realizados sob condições menos rígidas, mais próximas àquelas encontradas na prática clínica. Geral- mente têm critérios de inclusão mais amplos, recrutam pacientes de vários locais dife- rentes - condizente com a realidade, costumam ser abertos e costumam analisar des- fechos importantes, sobretudo para formuladores de políticas de saúde e para os pacientes - exemplo: morte, status funcional, qualidade vida e custos do tratamento. Outros dois tipos de estudos experimentais são os ensaios de campo e os ensaios comunitários. Propósito Os ECR têm como objetivo testar o efeito de uma dada intervenção sobre uma deter- minada doença/evento ou condição de saúde (desfecho). Esses ensaios clínicos ex- planatórios costumam ser aplicados sob condições ideais e costumam avaliar eficácia. Os ensaios clínicos pragmáticos também visam testar o efeito de determinada in- tervenção sobre algum desfecho em saúde, no entanto são desenhados em con- dições mais próximas à vida real, que por vezes sacrificam sua validade interna em troca de maior capacidade de generalização. Desta forma, quando as evidências encontradas em ensaios pragmáticos forem traduzidas para a prática (translação de conhecimento), é mais provável que se alcancem resultados parecidos aos en- contrados no estudo. Em outras palavras, a validade externa destes estudos é muito maior do que aquela proveniente de ensaios explanatórios clássicos. A seguir apre- sentamos algumas vantagens e desvantagens dos ensaios clínicos: Vantagens Desvantagens Melhor desenho para avaliar relação causa-efeito entre exposição e desfe- cho, teoricamente não influenciados por variáveis de confusão - principalmente os ECRs. Estudos mais caros. Estudos que avaliam eficácia, com boa validade interna, mas nem sem- pre generalizáveis (validade externa). EIXO TRANSVERSAL | MÓDULO 33 Metodologia do Trabalho de Conclusão de Curso 38 Podem ser eticamente inaceitáveis, o que limita sua realização em algumas situações Maior risco de perdas de seguimento, o que pode inviabilizar suas conclusões Exemplo de ensaio clínico explanatório (ECR) No artigo Effects of a simple home-based exercise program on fall prevention in older adults: A 12-month primary care setting, rando- mized controlled trial, publicado em 2017 no periódico Geriatrics Gerontology International, Boongird et al. pretendiam investigar os efeitos de um “programa de exercícios no domicílio” sobre quedas, função física, medo de queda e qualidade de vida em ambiente de atenção primária. 439 idosos (65 anos ou mais) de uma clínica de atenção primária da Tailândia, com disfunção do equilíbrio mode- rado, foram randomizados para intervenção com exercício (219) ou receberam “educação de prevenção de quedas” - controle (220), entre agosto de 2013 e março de 2015. Após 12 meses de segui- mento houve redução no medo de queda, medido pela “Thai fall efficacy scale” (24,7 versus 27,0, p=0,003); não houve redução da incidência de quedas (0,75 - IC95% 0,55-1,04) e não houve diferen- ça na função física e na qualidade de vida entre os grupos. Os autores concluíram que o “programa de exercícios no domicílio” teve impacto positivo no medo de queda e que novos estudos, talvez com maior tempo de seguimento, possam demonstrar os impactos do progra- ma sobre o risco de quedas. Boongird, C., Keesukphan, P., Phiphadthakusolkul, S., Rattanasiri, S., & Thakkins- tian, A. (2017). Effects of a simple home-based exercise program on fall preven- tion in older adults: A 12-month primary care setting, randomized controlled trial. Geriatrics & Gerontology International, 17(11), 2157–2163. doi:10.1111/ggi.13052 Quasi-experimento Quasi-experimento são estudos experimentais que não utilizam randomização para a alocação do grupo exposição. Costumam ser utilizados em situações em que a realização de um ensaio clínico randomizado não pode ocorrer, seja por motivos éticos ou práticos. Dois tipos de estudos quasi-experimentais