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1 2 “Neste trabalho julgamentos e diferenciações entre “o bem ou o mal”, assim como ideias de “certo ou errado”, “inclusão ou rejeição”, “melhor ou pior”, ou ainda a diferença entre “vida e morte”, deixaram de ter separação. A separação não existe quando se apropria de uma consciência maior, em uma dimensão espiritual. Esta consciência maior é uma consciência criativa que cria tudo e está sempre em movimento”. Bert Hellinger 3 1. O QUE SÃO CONSTELAÇÕES FAMILIARES? As constelações são um serviço à vida, nos permitem descobrir a dimensão oculta que direciona nossas decisões, emoções e destinos. Graças a estas tomadas de consciência, somos capazes de reorientar nosso dia-a-dia para mais vida, mais saúde, mais amor. Permitem uma abertura da consciência que, por sua vez, cura a nossa vida. Ajuda-nos a estarmos mais vivos, na força e na responsabilidade do adulto, a estarmos centrados, no respeito e na gratidão. E, com, isso, nossas vidas começam a mudar. É uma ferramenta baseada na representação de outros, sem saber nada sobre eles, a partir de um centramento interno, apenas impulsionados por um lento e silencioso movimento, permite uma cura profunda, frequentemente rápida, de qualquer sofrimento de nossa vida. Quanto ao processo em si: o cliente escolhe, dentre os participantes de um grupo, representantes para os membros de sua família que são importantes: pai, mãe, irmãos, etc. Então, concentrado e a partir de seu sentimento interno coloca-os, uns em relação aos outros. Os representantes que foram escolhidos colocam-se à disposição. Isso é um serviço para o cliente. Tão logo os representantes estejam na constelação, sentem como as pessoas que representam. A partir daí vem à luz cada passo para um solução, quando existe uma solução. É importante que todos saibam, inclusive o cliente, que se trata de um processo vivo, no qual se exige dele um passo de crescimento. Por isso, depende também de que ele seja suficientemente forte e corajoso para expor-se a isso. 2. INFLUÊNCIAS E EVOLUÇÃO DO TRABALHO DE BERT HELLINGER Inicialmente, a própria pessoa de Bert Hellinger nos fascina. É possível verificar sua força e sabedoria além de uma profunda sensibilidade para as dinâmicas e leis de relacionamentos, bem como para seus os efeitos. Bert Hellinger nasceu na Alemanha em 1925. Com 20 anos se preparava para ser padre. Como padre ele foi viver entre os Zulus na África do Sul, lá permanecendo durante 16 anos, atuando também como diretor de escola. Nesta época vê-se diante dos costumes e dos rituais do povo Zulu. Estudou pedagogia e teologia. A partir de sua experiência com a Terapia Primal (Terapia baseada na respiração e no corpo), ficou claro para Bert Hellinger que os vínculos familiares não se constroem apenas pelas vivências marcantes da criança com as pessoas de suas relações imediatas. Carregamos em nosso sentimento vivências de outras pessoas e, quando são revelados os destinos dessas 4 pessoas, às vezes totalmente desconhecidas para nós, esses nossos sentimentos deixam de valer como expressão de algo que pessoalmente vivenciamos. Após um tempo, Bert entra em contato com a Análise Transacional da Gestalt, com a Terapia Sistêmica e Constelações Familiares de Ruth McClendon e Leslie Kadis, passando também pela Programação Neurolinguística, Terapia Provocativa (de Frank Farelly) e Terapia do Abraço (de Irena Precop). Hoje Hellinger se diz filósofo e recebe influência dos trabalhos de Martin Heidegger. Ele qualifica seu trabalho como fenomenológico e como um caminho de crescimento da alma. E embora tenha efeitos terapêuticos, ele não utiliza mais a constelação como terapia, no sentido próprio da palavra. 2.1. Evolução do processo: A constelação O termo original desta abordagem é “Familienaufstellung”, cujo sentido literal seria “colocar a família na posição”. Portanto, constelar consiste em posicionar as pessoas em lugares específicos nos espaços. No início Hellinger apenas constelava de duas formas: Uma era a constelação de sua família de origem (irmãos, pais, avós, etc.) e a segunda de sua família atual (cônjuge, filhos, netos). Os participantes dos grupos sentavam-se ao seu lado e escolhiam representantes para os membros de sua família. O próprio cliente posicionava os representantes no espaço, e Hellinger fazia as intervenções necessárias, reposicionando algum representante e sempre perguntando como cada um se sentia. Depois se encerrava a constelação e o cliente seguia com esta imagem final. Porém, com o passar do tempo, Hellinger observou que os representantes possuíam movimentos corporais e que, quando eles seguiam estes movimentos algo se revelava, eram informações do sistema da pessoa que estava constelando. A esses movimentos ele chamou de movimentos da alma. Nesse instante, a postura do constelador começou a mudar, não havia tanta interferência nos movimentos dos representantes. Apenas se observava junto ao cliente a próxima informação a ser revelada até surgir uma possível solução. A partir do encontro com Sophie Hellinger, sua atual esposa, as constelações mudaram totalmente o formato. Sophie trouxe uma visão mais espiritual às constelações, desenvolvendo trabalhos de percepção energética, como o trabalho que ela desenvolve chamado Cosmic Power e as novas constelações espirituais ou mediais. Nesta nova constelação, o facilitador se torna um observador junto com o cliente, em total sintonia com a força que atua nos campos da constelação. Criou-se a Hellinger Sciencia, como a Ciência dos Relacionamentos e também a 5 Hellinger Schule (Escola Hellinger). Hoje a Hellinger Sciencia e a Hellinger Schule está espalhada em diversos países, tendo sua sede na Alemanha. 3. COMPREENSÃO SISTÊMICA – O SISTEMA FAMILIAR “Quanto maior nossa consciência do todo, mais a nossa ação beneficia este todo”. Peter Senge “A meta do sistema familiar é transmitir a vida. Toda a energia do campo do sistema familiar é dirigida a transmissão e manutenção da vida. Toda desordem se tem que ir compensando para que a energia do sistema esteja totalmente dedicada à vida”. Brigitte C. Ribes. A terapia e o desenvolvimento pessoal se manifestam em diferentes níveis, que podemos pensar em termos de ego e de alma. No plano do ego, todos temos nossas histórias: "Meu marido me enganou" - "Tenho um filho problemático" - "Minha mãe é responsável pelo suicídio do meu pai". Temos o hábito de enxergar de um lado as vítimas e do outro os agressores. As vítimas são inocentes, enquanto os agressores são responsáveis pelo sofrimento que causaram, consequentemente eles devem ser censurados e punidos. Nossas histórias são as ideias que formamos sobre o que se passou. As constelações familiares buscam com amor, e sem qualquer julgamento, aquilo que realmente aconteceu. Tentam trazer à tona a estrutura do campo de energia familiar, que levou os membros de uma família a se tornarem agressores ou vítimas, a ficarem com problemas mentais ou doentes, e levar a cura a essa estrutura. As perguntas se tornam sistêmicas: "O que se passou na minha família ou na do meu marido que o levou a me trair? O que se passa entre mim e meu marido, ou em nosso campo de energia, para que meu filho seja tão problemático? O que se passou na família do meu pai que possa explicar por que ele se suicidou?" 3.1. Quem pertence ao Sistema? - O filho e seus irmãos (inclusive natimortos, abortos, meio-irmão). - Os pais e seus irmãos (inclusive mortos, natimortos, abortos, meio-irmão, nascidos fora do casamento). - Os avós e às vezes seus irmãos. - Eventualmente um ou outro dos bisavós. 6 - Pessoas sem laço parentesco que tenham cedido lugar a outros no grupo familiar, como: parceiros anteriores dos pais ou dos avós;todos cuja desgraça ou morte tenha resultado em vantagem para outras pessoas do grupo familiar (exemplo: Guerras, Homicídios, Engano, Roubos, etc.) 3.2 Prática do Olhar Sistêmico A filosofia das constelações deve ser levada à vida diária, para que possamos estar totalmente em sintonia com a consciência espiritual e o amor do espírito. Para isso podemos começar a praticar ao nosso redor o olhar sistêmico. - Com os que dão raiva, diga: “Em ti me encontro, deixo contigo sua responsabilidade e honro teu destino, é tão necessário como eu”. - Com os que dão medo: Sinta teus pais e os pais destas pessoas, honra à quem estão seguindo e a quem você está seguindo. Diga: “Sou como você”. Assim somos lembrados e amados pelo sistema. - Com os que dão pena: Honra o seu destino, seu sistema e seu caminho de purificação. Honra o antepassado que está seguindo. Toma o sofrimento em teu coração e se faça pequeno diante deles. - Com os excluídos e marginalizados: “Os incluo em meu coração, honro teu destino, honro o excluído que segue”. 4. FENOMENOLOGIA Hellinger baseia as constelações na fenomenologia, uma corrente filosófica cuja premissa é que a experiência deve ser descrita simplesmente como ocorre, sem analisá-la ou interpretá-la com crenças ou juízos prévios; quer dizer, mediante a observação pura do fenômeno, livre de intenções, a partir de um vazio interno (ou um centramento) do observador. Na fenomenologia, as coisas são vistas tal como são. Durante a constelação nos encontramos com um fenômeno muito particular: os representantes encontram acesso a um conhecimento que em princípio só pode ser conhecido pelas pessoas diretamente interessadas. Em outras palavras: os representantes percebem 7 sentimentos e relações das pessoas que estão representando. Este fenômeno ocorre em todas as constelações. Hellinger qualifica a constelação como "fenomenológica". O que ele quer dizer com isso? “Na fenomenologia, procuro perceber o essencial dentre a grande variedade dos fenômenos, na medida em que me exponho totalmente a eles, com minha máxima abertura. Coloco-me à disposição em um contexto maior sem compreendê-lo. Coloco- me a ele sem a intenção de ajudar e sem a intenção de provar nada. E enquanto mantenho esta postura, algo, como um relâmpago, sai à luz e surge então, a compreensão daquilo que estava além do fenômeno em si. O constelador permite ser guiado por um movimento do espírito em todo o caminho e a cada passo. Este movimento nos guia para saber com quem podemos trabalhar, até onde podemos ir e quando precisamos parar” Bert Hellinger Hellinger explica: "A serenidade e a lucidez diante dos acontecimentos tornam- se possíveis pelo fato de 'aceitar o mundo como ele é', sem intenção de fazê-lo mudar. Não pretendo atingir um conhecimento superior e não espero realizar nada mais do que aquilo que as forças internas, já funcionando dentro do sistema, realizariam sozinhas. Quando testemunho um acontecimento terrível, esse é também um aspecto do mundo, e eu aceito isso. Quando vejo algo de bom, eu também aceito isso. Dou a essa postura o nome de 'humildade': é o fato de aceitar o mundo tal como ele é. Só essa aceitação torna possível a percepção. Sem ela, os desejos, os medos, os julgamentos (as construções do meu espírito), interferem na minha percepção." Essa postura está na origem dos movimentos de onde decorre a harmonia. 4.1. Postura Fenomenológica As constelações familiares são resultado da atitude fenomenológica. Vista a partir da filosofia, significa que alguém se retrai e que está sem intenção, sem medo e sem amor, no sentido de que queira ajudar alguém de qualquer maneira. O acontecimento em si, fica fora do facilitador, acontece algo fora dele, portanto nessa atitude ele não interfere. Portanto não existe um método. Para Bert o conhecimento pode chegar através do caminho fenomenológico, que ele descreve nas seguintes etapas: - O primeiro passo deste caminho é: eu esqueço tudo o que já foi dito antes sobre o problema. Seja lá o que é ou foi dito, eu esqueço. 8 - O segundo é que me exponho a uma situação do cliente sem nenhuma intenção. A intenção de ajudá-lo, por exemplo, me impediria de perceber realmente. - O terceiro é: permanecer sem medo. Não sentimos medo do que se revela e nem do que as outras pessoas dirão. Aqui temos uma força extra. A partir desta postura, que também pode ser chamado de caminho da purificação, é possível que algo se revele, então este conhecimento é receptivo ao invés de ativo. Meditação: Imaginar alguém por quem gostaríamos de fazer algo, alguém que nos preocupamos, por ex. Expomo-nos a essa pessoa a uma certa distância, uma ampla distância, sem nenhuma intenção, sem preocupações, sem lamentá-la, sem medo, sem receio daquilo que talvez possa acontecer. Permanecemos nesta postura. Vemos o que se modifica nesta pessoa e em nós. O modo como entramos em sintonia com algo maior, para além de nossas preocupações. Em seguida, olhamos para além desta pessoa, para seu destino, para bem longe. Centrado, presente. Dizemos SIM e após um tempo Por Favor. Texto complementar: O método fenomenológico, por Jakob Robert Schneider Com que realidade lidamos nas constelações? Até que ponto uma constelação é verdadeira? Sem pretender aqui entrar em discussões epistemológicas, gostaria de esclarecer alguns conceitos fundamentais sobre realidade, verdade e método de conhecimento, que estão na base das constelações familiares. Como “realidade”, entendemos tanto o mundo dos fenômenos, portanto dos fatos, quanto nossa interpretação desses fenômenos. A realidade se “mostra” a nós através de nossa percepção, por meio da qual nos relacionamos com ela. De acordo com o ponto de vista, a realidade, isto é, o que atua, pode deparar-se conosco de formas muito diversas. Nas constelações observamos os representantes, seus movimentos, palavras, emoções e seus efeitos sobre a constelação, o cliente, o grupo, o terapeuta. Não observamos a família em si mesma, pois ela só comparece na pessoa do cliente e, mesmo nele, num contexto anímico muito complexo. O método da constelação parte do pressuposto de que o mundo existe independentemente da consciência e que as informações que nos proporciona não são arbitrárias ou apenas “subjetivamente construídas”, embora nos sejam acessíveis através de nossa experiência, e apesar de sabermos o quanto a observação condiciona o observado. Podemos descrever a descoberta da verdade como um processo no qual tanto o observador 9 quanto a realidade observada aportam elementos separados, que se unem no processo da percepção. Na percepção confluem o acontecimento – do qual não podemos dispor – e o entendimento que constrói o significado. Então como podemos entender a relação que as constelações têm com a realidade? Seguramente, não no sentido de que as constelações simplesmente reproduziram os acontecimentos e as relações na história de uma família como num filme documentário. Não se trata de uma concordância entre realidade objetiva, a nossa língua e o nosso conhecimento. Algo se condensa em imagens e palavras, permitindo que a realidade, que antes estava oculta, apresente-se à nossa experiência. O próprio Bert Hellinger, apoiando-se em Heidegger, evoca o antigo conceito grego da verdade, a alétheia ou o “não-oculto”. Através das constelações vem à luz algo da realidade de um sistema de relações ou de um acontecimento. Algo se mostra “espontaneamente”, mas apenas de uma forma que podemos perceber, dentro dos condicionamentos de nossa consciência. O método fenomenológico é aquele que nos permite perceber uma realidade complexa. A fenomenologia consiste, de modo geral, em perceber e descrever a realidade em suas manifestações. Num sentido filosófico mais apurado,a fenomenologia se refere a uma forma de experiência na qual a realidade, através de sua manifestação, dá-se a conhecer em sua estrutura, em sua essência mais profunda. Para proceder fenomenologicamente nas constelações, não nos basta apenas contemplar os fenômenos. É preciso que uma estrutura mais profunda dos fenômenos seja percebida pelos observadores e faça sentido para eles, de modo que os fenômenos também sejam entendidos em linguagem das imagens. O que assim se mostra nas constelações, só se pode ser comprovado por sua concordância com as informações sobre a família em questão, por seus efeitos sobre o cliente e sua família e por permitir que outras pessoas vejam, num relance, o que estava oculto. Não podemos deixar de olhar para os fenômenos, embora saibamos como essa visão é sujeita a fantasias, interpretações erradas, falsas conclusões, meras associações, construções e erros. No trabalho com as constelações, o terapeuta precisa ser extremamente reservado em sua percepção, no que toca aos seus próprios condicionamentos, à sua interpretação e ao seu modo de agir, para que possa vir à luz uma realidade significativa para o cliente. Isso requer dele constante treino, ânimo intrépido, liberdade com respeito a ideias e preconceitos e isenção de intenções diante daquilo que se mostra como uma realidade. 10 Texto Complementar: Fenomenologia, por Bert Hellinger A fenomenologia é um método filosófico. Para mim a fenomenologia significa: Eu me exponho a um contexto mais amplo sem compreendê-lo. Eu me exponho a esse contexto sem a intenção de ajudar e também sem a intenção de provar nada. Eu me exponho sem medo do que poderá vir à luz. Tampouco tenho medo de que algo assustador venha à tona. Eu me exponho à tudo assim como se apresenta. Diante de uma constelação, eu olho para todos, também para os ausentes. Tenho todos na minha frente. E, então, exposto a esse quadro, de repente reconheço o que está por trás do fenômeno. Por exemplo: De repente, posso ver numa constelação, que uma criança foi assassinada. É algo que não é visível. Aparece subitamente através das observações dos fenômenos. E vem à luz. Essa é uma abordagem fenomenológica. Ela não está ligada a nenhuma escola e tampouco pode constituir uma escola, pois não se trata de adotar algo de outra pessoa. Aprende-se aqui apenas a se ajustar aos fenômenos e a se expor a eles, interiormente, livre de intenções e medo. Então cada um de nós vai viver a experiência de uma súbita iluminação. Normalmente os esclarecimentos vêm depois da experiência. Vou dar um exemplo do que é a fenomenologia. Antigamente, eu fazia, em meus cursos, exercícios em grupos de seis pessoas. Cinco participantes se sentavam em semicírculo e o sexto se sentava de frente para os outros. Os cinco tinham de contemplar o sexto com a atenção voltada para o todo, contemplando-o com amor, assim como ele era, até que conseguissem captar algo sobre ele. Nesse momento, cada um deles aprendia algo essencial sobre essa pessoa, e lhe comunicava isso. Dessa forma a pessoa que fora contemplada também se transformava diante dos próprios olhos. Isso quer dizer que a percepção não é somente receptiva. Ela cria um campo de energia que tem um efeito externo. Nesse exercício podem-se reconhecer algumas leis da fenomenologia. A primeira é que preciso amar as pessoas cuja verdade quero conhecer. Aceitá-las seja qual for o destino delas, sua família e seus problemas. A segunda é a necessidade de um certo distanciamento. Quem se precipita neste trabalho – e muitos dos que querem ajudar se precipitam – não consegue perceber nada. A grande intimidade que decorre desse tipo de percepção só é possível à distância. Ela não é possível quando se está próximo. Ela não tem intenção pessoal e só leva em conta o que existe e o que surte efeito. Nada mais. Quando estou diante de alguém que não conheço, é mais fácil olhar essa pessoa com amor. Amar não significa que eu queira alguma coisa dele, mas que eu o aceito tal como ele é. Sem julgamentos. Quem olha assim as árvores, acha toda árvore bonita, seja como ela for. Não 11 existe outra possibilidade. Isso acontece também com os seres humanos. Isso é amor: o reconhecimento do que é belo e bom tal como é. Com essa atitude nos ligamos a forças de percepção totalmente diferentes, com forças que causam um efeito. Como as forças de crescimento, por exemplo. Se a partir desse tipo de percepção chego a uma solução para um cliente, o efeito é imediato. Vê- se como os semblantes se iluminam. Às vezes não sei se captei a coisa certa. Então eu faço uma experiência. Se não ocorrer mudanças na fisionomia, tudo o que eu disse foi em vão, mesma que pareça ter sentido. Assim que o semblante ilumina, sei que acertei o alvo. Algo se pôs em movimento. Eu estava em harmonia com as forças positivas naquela pessoa. Ela entra em contato com essas forças e eu não tenho mais nada a fazer. Nós concebemos uma coisa somente em oposição a outra. Nossa consciência é totalmente dialética. Mas, na dialética, também aquela de Hegel, a antítese acaba, pelo menos em parte, com a tese, na medida em que revela sua deficiência. No pensamento estruturado dialeticamente, o perigo é que, ao se conhecer a estrutura, existe desde o início, o receio de que o pensamento demonstrado se revele relativo. Pensar na possibilidade de que o oposto possa ser verdadeiro diminui a viabilidade da tese. Se eu interpretar o amor como o contrário do ódio e der a ambos o mesmo peso no mundo, então o amor fica relativizado pelo ódio. Para poder ver claramente um deles, somos obrigados a separar um do outro. Na fenomenologia é diferente. Não se trata de um pensamento dialético. Vejo os opostos como uma unidade, o bom e o mau ou movimentos políticos opostos. Com isso chego a uma afirmação que não permite contradição. Quando eu procedo fenomenologicamente e me exponho a uma realidade como ela é, renuncio à liberdade de pensar ou querer qualquer coisa. Eu me submeto à realidade tal como ela se apresenta. Na medida que eu me submeto, passo a ter liberdade de ação. A nossa liberdade é limitada. Posso escolher entre vários caminhos diferentes, mas para onde eles me levam, isso é predeterminado. Por exemplo, posso infringir uma ordem básica, mas não tenho poder sobre as consequências. Elas são predeterminadas. Liberdade significa aqui reconhecer que não posso esquivar-me das consequências do meu comportamento. Se faço isso, tenho a capacidade de agir. Sem dúvida posso pensar no que quiser. Mas, depois de ter jogado com todas as possibilidades, quanta energia me resta para poder agir? Se, pelo contrário, procedo fenomenologicamente e, de repente, vejo e identifico o essencial, tenho força e espaço para agir. Dentro desse espaço eu me sinto livre. 12 5. OS LIMITES DA CONSCIÊNCIA DENTRO DAS CONSTELAÇÕES: PESSOAL, FAMILIAR E ESPIRITUAL Cada um de nós se movimenta dentro de um determinado campo de informação. O primeiro campo é o da nossa família. A consciência nos diz o que temos que fazer para pertencer a este campo, se fizermos isso, temos consciência boa, tranquila, ou seja, teremos certeza que faremos parte. Porém, se me comporto de uma forma que pode colocar em risco este pertencer, sinto a consciência pesada e essa consciência nos força a mudar nosso comportamento de forma que possamos pertencer ao campo novamente. A natureza do nosso campo familiar é determinada pela história da nossa família: sua religião, suas crenças, país de origem, etc. Essa natureza é moldada por acontecimentos marcantes, como a história dos relacionamentos dos pais e dos avós, morte de uma criança muito nova, aborto, parto prematuro, adoção, suicídio, guerra, exílio forçado, troca de religião, incesto, antepassado agressor ou vítima, traição, ou mesmo a confiança. As ações generosas e altruístas de nossos pais e de nossosantepassados são saudáveis para nós, enquanto suas más ações modificam o campo familiar, obrigando as gerações posteriores a uma compensação. Para Hellinger, a consciência é o órgão de equilíbrio sistêmico que nos avisa sobre se o “movimento” (conduta, atitude, opinião) que estamos fazendo nos afasta ou não de nosso sistema, neste caso familiar. É como um sensor que nos sinaliza quando o direito de pertencer a um grupo corre perigo. Portanto, nesse contexto, a boa consciência significa apenas: “Posso estar seguro de que ainda pertenço ao meu grupo.” E a má consciência significa: “Receio não fazer mais parte do grupo. Assim, a consciência pouco tem a ver com leis e verdades universais, mas é relativa e varia de um grupo para outro”. Bert Hellinger aponta três campos espirituais de consciência: Consciência Pessoal, Consciência Coletiva e Consciência Espiritual. Cada qual com seu alcance, funcionamento e ordens. A Consciência Pessoal é regida pela dinâmica “culpa e inocência” permeando conceitos de moralidade, baseado no “certo e errado”, a qual está diretamente ligada a valores familiares e à educação recebida. É estreita e tem seu alcance limitado. Pois, através de sua diferenciação entre bom e mau, só reconhece para alguns o direito de pertencer, excluindo os demais. Experimentamos a consciência pessoal como boa e má consciência. Sentimo-nos bem quando temos boa consciência e mal quando temos má consciência. Isso significa que ela cuida para que fiquemos conectados com essas pessoas e grupos. Ela assegura nossa sobrevivência. Na Consciência Coletiva, a consciência deixa de ser pessoal e passa a estar ligada ao grupo. Aqui se faz presente um poder de atuação inconsciente, o poder da alma do grupo e 13 apenas sentimos seus efeitos. Este poder cobra qualquer desrespeito para com o grupo, em relação às forças de vínculo, hierarquia e compensação (Ordens do Amor). É mais ampla, defendendo também os interesses daqueles que foram excluídos pela consciência pessoal. Contudo, a consciência coletiva também tem um limite porque abrange somente os membros dos grupos que são governados por ela. É uma consciência poderosa e seus efeitos são mais fortes do que os da consciência pessoal. Está a serviço da sobrevivência do grupo inteiro, mesmo que para isso alguns precisem ser sacrificados. Nesta Consciência, o princípio da ordem é determinante e os membros que chegam por último aos sistemas são escolhidos pelos emaranhados sistêmicos. Assim, o membro familiar posterior que vive agora responde pelos membros anteriores, que já morreram. Na justiça da Consciência Coletiva, quem veio depois, está a serviço das forças do vínculo e pertencimento, independente da vontade e compreensão. Assim, “culpa e inocência” são dois lados da mesma moeda que se encontram a serviço das Ordens do Amor, em suas diferentes instâncias de consciências: pessoal, coletiva e espiritual. No vínculo, a culpa é experimentada como exclusão e distância, e a inocência como conforto e proximidade. Na ordem, a culpa é vivida como transgressão e medo de punição e a inocência como retidão e lealdade. No equilíbrio entre o dar e tomar das relações, a culpa é sentida como obrigação e a inocência como liberdade ou reivindicação. A Consciência Espiritual nos conduz para além dos limites. Supera as limitações das outras duas consciências, limitações estas que surgem através da diferenciação entre bom e mau e da diferenciação entre pertencimento e exclusão. Ela também estrutura a filosofia de Bert sobre a aceitação incondicional do outro e das coisas tal como são, se baseando no amor que tudo une, sem preconceitos, julgamentos ou controle. Aqui, reside o amor do espírito e o movimento do espírito, do qual Bert se refere. Para o amor do espírito não existe mais ou menos pertencimento, nenhum direito maior ou menor de pertencer, para ele, nada vai mais além do existir presente. O amor do espírito se mantém em movimento criador, presente em tudo. Percebemos nossa sintonia com este amor quando entramos em contato com o assentir à vida como é e a todos como são. O movimento do espírito é diferente do movimento da Consciência Pessoal, na qual culpa e inocência se encontram presentes. Nossa sintonia com a Consciência Espiritual é reconhecida quando nos encontramos na calma, centrados; e sentida quando estamos em paz. Ela gera leveza. Seguir esta consciência exige grande esforço espiritual, pois ela nos afasta da obediência aos ditames da nossa família, religião, cultura e identidade pessoal. 14 6. LEALDADE SISTÊMICA E DINÂMICAS OCULTAS: OS EMARANHADOS SISTÊMICOS Nossas vidas estão determinadas pelo sistema familiar e pelos outros sistemas a que pertencemos. Uma observação sistêmica a qual não podemos ignorar é a seguinte: os menores (que vieram depois, descendentes) têm que terminar o que seus maiores (que vieram antes, antepassados) não terminaram. Se um enfrentamento não chegou à reconciliação, se não se agradeceu um favor, se não se terminou de chorar um morto, um descendente terá que viver este mesmo conflito, até que se resolva. Nosso destino está marcado por várias fidelidades a ancestrais que não acabaram algo. E seus conflitos serão nossos conflitos, mesmo que neguemos a assumi-los. Emaranhamento Sistêmico significa que alguém na família retoma e revive inconscientemente o destino de um familiar que viveu antes dele. Se, por exemplo, numa família, uma criança foi entregue para adoção, mesmo numa geração anterior, então um membro posterior desta família se comporta como se ele mesmo tivesse sido entregue. Sem conhecer este emaranhamento ele não pode se livrar dele. A solução segue o caminho contrário: a pessoa que foi entregue para adoção entra novamente em jogo. É colocada, por exemplo, na Constelação Familiar. Quando essa pessoa volta a fazer parte do sistema familiar e é honrada, ela olha com afeto para os descentes e estes estão liberados do emaranhamento. Durante uma constelação aparecem as desordens dos campos que o cliente está vinculado. Diante dele e do constelador irão se manifestar as dinâmicas ocultas que governam a vida do cliente como membro de distintos sistemas. E começa a se manifestar um movimento de reconciliação entre os ancestrais, que vai até onde a atitude interna do cliente o permita. E, por sua vez, este movimento de reconciliação libera o cliente de sua intrincação. Guiador pelo constelador, o cliente irá fazendo, internamente, afirmações curadoras, reconhecendo, sem medo, o que existe (dinâmicas sistêmicas como “sigo você na morte”, “pago por você”, etc.) e tomando decisões conscientes (me despeço de você, deixo a culpa com você, honro você, etc) que irão atuar sobre o desenvolvimento da constelação, pois o movimento do espírito mostra o caminho ao cliente, mas não o obriga a tomá-lo se ele não se decide por isso. Quando acaba a constelação, o constelador se retira e se esquece, deixando o cliente com toda sua força e sua nova autonomia, totalmente aberto à vida e à sua nova consciência. Lembrando que pertencem à consciência coletiva, os filhos, os pais, os avós, os irmãos dos pais e aqueles que foram substituídos por outras pessoas que se tornaram membros da família, por exemplo, parceiros anteriores (maridos/mulheres) ou noivos (as) dos pais. Se qualquer um destes membros do grupo foi tratado injustamente, existirá neste grupo uma necessidade irresistível de compensação. 15 Isso significa que, a injustiça cometida em gerações anteriores será representada e sofrida posteriormente por alguém da família para que a ordem seja restaurada no grupo. A consciência do grupo atende à lei de que quem pertenceu uma vez ao sistema tem o mesmo direito de pertencimento dos outros. Essa injustiça é expiada através do emaranhamento sem que as pessoas afetadas saibam disto. 7. ESTADO DE PRESENÇA. ESTAR A SERVIÇODA VIDA. “Presença é o sentido personificado da consciência. Presença está sempre aqui, receptivo ao que é. É natural e universal. Antes da percepção, análise, comparação ou julgamento ocorrerem, a Presença já aceitou tudo exatamente como é, sem argumento, manipulação ou resistência. A Presença não pode ser percebida diretamente, mas há um sentido impessoal de ser você mesmo que está sempre lá. É o que está lá quando a pessoa simplesmente relaxa entrando em seu estado natural, não fazendo nenhum esforço para concentrar a atenção ou excluir objetos internos ou externos”. Thomas Bryson Quanto mais a pessoa está presente e vive com abertura e receptividade, mais se tem um compromisso primário com a vida, ao invés de viver apenas em resposta às projeções e interpretações. Presença é a chave para libertar-se da limitação ao pensamento conceitual apenas e ao retorno ao estado de possibilidade e nos oferece a força necessária para enfrentar as coisas difíceis que têm limitado o nosso acesso à paz e à liberdade aqui e agora. Presença é um recurso essencial para o cliente – intelectual, emocional, espiritual e fisicamente. O fato do constelador estar presente naturalmente tende a chamar a Presença e a estabilidade inerentes no outro. No processo, o cliente é inconscientemente lembrado do seu ser mais profundo e mais rico em recursos. Ele revela a possibilidade de que ele não tem que ficar no mesmo padrão herdado, mas que pode incorporar a sua própria maneira natural de ser, personificar força e segurança e dar o seu presente mais profundo para o mundo. Quando o constelador está presente, o cliente sente-se visto e recebido. A presença autêntica oferece um refúgio de segurança e de respeito nesse lugar do mero ser, antes de qualquer ação, aconselhamento ou intervenção. É importante o constelador saber trazer clientes de volta à Presença e fora de seus transes familiares. Devemos estar sempre conscientes de que os clientes podem ter vivenciados traumas graves. E que seus padrões sistêmicos, que muitas vezes se confundem com as experiências pessoais também podem ser desencadeados pelas intervenções. É importante trabalhar com todos os clientes com cuidado e lentamente ao explorar temas difíceis e sensíveis, 16 a fim de evitar a “retraumatizar” os clientes. Como resultado, eles têm mais recursos disponíveis para lidar com as questões que anteriormente eram esmagadoras para eles ou seus antepassados. Engajar a vida com Presença é dizer SIM à vida como ela é, incluindo a aceitação de que a morte é um parceiro natural da vida. A Presença aceita todo movimento de vida, sem argumento de que deveria ser diferente. Isto não é uma atitude passiva para a vida, mas sim uma atitude realista. A conexão com a vida se tornou cada vez mais prioritária, até que Hellinger entendeu que, quem movia os representantes e produzia a cura, era o movimento do espírito e não a técnica do constelador. O elemento essencial da constelação, passa a ser, a sintonia do constelador, cujo papel é centrar-se e conectar o grupo, os representantes e os demandantes de uma constelação. Centrar a todos (levar a um estado de presença), aproximá-los do assentimento incondicional a tudo e a todos, é a primeira tarefa do constelador. Sobre a representação: a constelação não é psicodrama, nem é emocional. Trata-se de deixar-se levar por algo que impulsione nosso corpo independentemente de nossas emoções ou de nosso diálogo interno. Os participantes se recolhem internamente, desenvolvem um estado de Presença, como para estar num estado de meditação e, a partir desse momento, apenas se deixam guiar por algo que impulsione seus corpos sem que saibam motivo. Quanto mais lento for seu movimento, mais curador será. A partir de um centramento e um assentimento a tudo como é, sem intenção de ajudar, o grupo de participantes se coloca à disposição da cura da pessoa que constela, deixando-se agir pelo campo, em completo silêncio e sem saber o que representam, na maioria das vezes. Os representantes, na medida em que se entregarem sem colocar nada de sua parte, totalmente recolhidos e em silêncio, receberão, em troca, cura. Não se sabe de que maneira, mas irão se sentir diferentes, com mais força e maior consciência. O constelador não é o curador; ele apenas se coloca a serviço do cliente, do seu destino, do seu sistema familiar e da energia, permitindo que outras forças (movimento do espírito, forças de cura, ressonância, etc.) trabalhem fazendo emergir uma nova realidade da sua própria vida. Esse movimento de cura respeita o livre arbítrio da pessoa e não irá além do quanto ela se rende ao amor, à aceitação e ao respeito. 8. O SIM - ASSENTIR COMO MOVIMENTO DE SOLUÇÃO “Rejeitar algo só serve para que esse algo cresça. Temer algo é atrair esse algo. 17 Somente o assentimento (reconhecer e dizer SIM), nos libera das cargas e permite que se inicie a mudança”. Brigitte C. Ribes Bert Hellinger com as constelações familiares traz um conceito curador que é o “assentir”. O “assentir” pode-se traduzir em: “concordo que ele/isso seja exatamente como é”. Assentir a algo ou a alguém significa estar em “sintonia com”, e é uma experiência pessoal. A esta pessoa (ou situação) assentimos, independentemente se nos agrada, se nos dá algo ou nos tira, seja qual for sua exigência. Isso ou esta pessoa que eu assinto está a partir daí dentro de mim, faz parte do que eu sou. O assentimento exterior é consequência de um reconhecimento e um amor que previamente experimentei dentro de mim. Graças a este assentimento tanto eu quanto o outro nos enriquecemos e nos tornamos mais plenos. Assentimento quer dizer também, aceito o outro tal como é, sem restrições ou julgamentos. O que antes parecia estranho e ameaçador se transforma em uma parte minha que faltava. E isso acontece, sem o outro saber, a vibração do assentimento alcança a todos. E como o assentimento produz este efeito? De onde vem esta força transformadora? Da sintonia com a fonte criadora, que move e pensa tudo como é, olhando a todos da mesma forma. Nossa vida é energia, é movimento e mudança. Se fluímos com esse movimento, vamos para mais vida. Se nos opomos a ele, a mudança não chega, a estamos bloqueando. Contudo, uma forte influência sistêmica nos leva a imitar o que já existe. O sentimento de culpa nos impede de sermos autênticos: como vou me atrever a abandonar a tradição? Além do mais, nossa mente tem medo de mudanças: agarra-se ao conhecido e quer repeti-lo várias vezes. Estamos continuamente freando a corrente viva da vida com nossos medos, ilusões, frustações. Custa-nos reconhecer que a vida está nos falando através de provas, problemas, conflitos ou acidentes. Cada dificuldade é necessária para que dela germine algo novo. Mas, para que dê frutos, temos que aceitar vivê-la. Para que nossos problemas nos falem, primeiro temos que aceita-los. Aceitar todos os limites que configuram nosso destino. Somente, então, a vida voltará a seguir seu fluxo. No problema, está a solução, está a vida. Para o trabalho com as constelações, Bert fala de alguns pressupostos para a sintonia fina com o Assentir. O primeiro pressuposto para alcançar essa compreensão é a ausência de intenção. Quem mantém intenções impõe à realidade algo de seu; talvez pretenda alterá-la a partir de uma imagem preconcebida ou influenciar e convencer outras pessoas de acordo com ela. Procedendo assim, procede como se estivesse numa posição superior face à realidade; como se ela fosse um objeto para a sua subjetividade e não fosse ele, ao invés, o objeto da realidade. 18 Aqui fica evidente o tipo de renúncia exigido de nós para abdicarmos de nossas intenções, inclusive das boas intenções. Além do mais, o próprio bom senso exige essa renúncia, pois a experiência nos mostra que frequentemente sai errado o que fazemoscom boa intenção ou até mesmo com a melhor das intenções. A ausência de intenção e de medo permite a sintonia com a realidade como ela é, inclusive com seu lado atemorizante, avassalador e terrível. Dessa maneira, o constelador fica em sintonia com a felicidade e a infelicidade, a inocência e a culpa, a saúde e a doença, a vida e a morte. Justamente por meio dessa sintonia ele adquire a compreensão e a força para encarar o mal e, às vezes, em sintonia com essa realidade, para revertê-lo. O segundo pressuposto para essa compreensão é o destemor. Quem teme o que a realidade traz à luz coloca uma viseira nos olhos. E quem receia o que outros vão pensar ou fazer quando diz o que percebeu fecha-se a um novo conhecimento. Aquele que, como constelador, teme defrontar-se com a realidade de um cliente — por exemplo, a de que lhe resta pouco tempo de vida — transmite-lhe medo, dando-lhe a ver que o constelador não está à altura dessa realidade. O fundamento do trabalho em constelações familiares é "aceitar as coisas como elas são"; este é, aliás, o título de um dos livros de Hellinger. O papel do constelador é colocar-se a serviço do campo de energia. A história familiar ajuda a clarear a posição dos representantes, nós a utilizamos como fonte de informações factuais. Evitamos todo julgamento e qualquer interpretação. 9. O CAMPO, por Rupert Sheldrake Os campos são regiões de influência não materiais. O campo de gravitação da Terra, por exemplo, estende-se à nossa volta. Não nos é visível, mas nem por isso é menos real. Dá o seu peso às coisas e provoca a sua queda. Mantém-nos em contato com a Terra neste preciso momento; sem ele, flutuaríamos. A Lua gira em redor da Terra por causa da curvatura do campo de gravitação da Terra; a Terra e todos os planetas giram em redor do Sol por causa da curvatura do campo do Sol. De fato, o campo de gravitação permeia todo o universo, curvando toda a matéria. Também há campos eletromagnéticos, muito diferentes, pela sua natureza, da gravitação. Apresentam muitos aspectos e fazem parte integrante da organização de todos os sistemas materiais — dos átomos às galáxias. São essenciais à operação de toda a nossa maquinaria elétrica. E, à nossa volta, há, no campo, inúmeros padrões de atividade vibratórios 19 que escapam aos nossos sentidos; podemos, todavia, distingui-los por meio de receptores de rádio ou de TV. Tudo isto nos parece evidente. Vivemos, permanentemente, nestes campos, quer saibamos, quer não, como os físicos os modelizam matematicamente. Não duvidamos de que possuem uma realidade física, sejam quais forem as modelizações que deles fizermos, ou o nome com que os designamos. A natureza dos campos é inevitavelmente misteriosa. Segundo a física moderna, estas entidades são mais fundamentais do que a matéria. Os campos não podem explicar-se em termos de matéria; pelo contrário, a matéria é explicada em termos de energia nos campos. A física só pode explicar a natureza dos diferentes tipos de campos em relação a um eventual campo unificado mais fundamental — o campo cósmico original, por exemplo. Mas este é inexplicável — a menos que se suponha criado por Deus. Mas então é Deus que é inexplicável. Um campo é a condição à qual um sistema vivo deve a sua organização típica e as suas atividades específicas. Estas atividades são específicas no sentido em que determinam o carácter das formações a que dão origem. Os fatores de campo possuem, eles mesmos, uma ordem definida. A natureza específica dos campos significa que cada espécie de organismo possui o seu campo morfogenético próprio, o que não impede que campos de espécies aparentadas possam ser semelhantes. O organismo encerra, além disso, campos secundários que se integram no campo global do organismo — uma espécie de hierarquia de campos encaixados em campos. E o que são, exatamente os campos morfogenéticos? Como é que funcionam? Apesar do emprego difundido deste conceito em biologia, não existe resposta precisa para estas perguntas. De fato, a natureza destes campos continua a ser tão misteriosa como a própria morfogénese. Porém, podemos dizer que representam uma espécie de memória coletiva da espécie. Cada membro é moldado por estes campos de espécie e contribui, por sua vez, para moldá-lo, influenciando os membros futuros da espécie. Como poderia funcionar este tipo de memória? Dependeria de uma espécie de ressonância mórfica que ocorre com base na semelhança. Quanto mais um organismo for semelhante a organismos anteriores, maior será a sua influência sobre ele por meio da ressonância mórfica. E quanto mais organismos semelhantes houver, maior será a sua influência cumulativa. Como todos os membros passados da espécie contribuem para formar estes campos, a sua influência é cumulativa: aumenta proporcionalmente ao número total dos membros da espécie. Se os campos morfogenéticos são responsáveis pela organização e forma de sistemas materiais, eles devem ter estruturas características. E de onde vêm estes campos-estruturas? Derivam dos campos morfogenéticos associados a sistemas similares anteriores: os campos 20 morfogenéticos de todos os sistemas passados tornam-se presentes para qualquer sistema similar subsequente; as estruturas de sistemas passados afetam sistemas similares subsequentes por uma influencia cumulativa que age tanto através do espaço quanto do tempo. Enquanto os campos morfogenéticos influenciam a forma, os campos comportamentais influenciam o comportamento. Os campos organizadores de grupos sociais, como bando de aves, cardume de peixes e colônias de cupins, são chamados de campos sociais. Todos eles são campos mórficos. Todo campo mórfico tem uma memória inerente dada pela ressonância mórfica. Campos morfogenéticos, os campos organizadores da morfogênese, são um tipo da categoria mais ampla de campos mórficos, como uma espécie dentro de um gênero. 10. CAMPOS ESPIRITUAIS, por Bert Hellinger O campo espiritual da família pode ser comparado aos campos morfogenéticos dos quais nos fala Rupert Sheldrake. Ele fez uma observação importante em relação aos campos morfogenéticos: não são capazes de se modificar entre si mesmos. Nos campos morfogenéticos algo se repete constantemente. Vemos isso também quando olhamos para o campo familiar. Existem algumas confusões sobre os termos campo e alma. Os primeiros que se dedicaram a estudar os campos foram filósofos alemães no início do século passado. Já haviam sido feitas observações relativas aos campos espirituais. Eles usaram a palavra “alma”. Falavam de uma alma generalizada e também da alma do mundo. Mas a palavra “alma” não era aceita pela ciência. Por isso, preferiam falar em “campo”. De qualquer forma, podemos observar que um campo espiritual segue determinadas ordens que se encontram em movimento e que deseja alcançar algo com esses movimentos. Porém, poderá realizar tal empreendimento só se tiver consciência. Um campo não pode ter consciência, por isso, aqui o termo alma é mais adequado. Portanto me refiro frequentemente a uma grande alma. Essa alma familiar encontra-se presa nesse campo, isto é, nesse campo tudo se repete. Os destinos da família são repetidos. Quando uma pessoa se encontra emaranhada no destino de um membro familiar anterior, comportando-se de modo correspondente, então alguém de uma próxima geração se encontrará emanharado com ele. E isso não soluciona nada. Sheldrake observou que algo de fora precisa vir ao encontro dessa alma, algo maior. Ele denominou spirit. Darei alguns exemplos. Os psicanalistas são um campo. Dentro desse campo todos se comportam da mesma forma. Precisam se comportar de modo semelhante. Os 21 advogados, as pessoas que ocupam cargos de liderança também estão ligadas a um campo, quando falam e tomam posturas semelhantes; este é outro exemplo. Quando um delesfaz uso de outro método, ameaça o campo. Por isso, às vezes é excluído do campo. O campo tem ainda outro efeito: determina o que podemos perceber. Proíbe-nos de perceber ou pensar determinadas coisas. Quando os membros se permitem pensar sobre algo de forma diferente, de repente se sentem desconfortáveis ou até mesmo com medo e sentirão a consciência pesada. A própria constelação familiar não está livre de se tornar um campo, e aqui só existe uma saída: mantermo-nos constantemente abertos para o novo, com os olhos de uma criança que descobre algo novo todo dia. Nesse campo todos estão em ressonância entre si. Ninguém e nada pode escapar-lhe. Até mesmo o passado e os mortos continuam nele, presentes, atuantes. Por isso, todas as tentativas de excluir uma pessoa ou de livrar-se dela são fadadas ao fracasso. Pelo contrário, o que foi excluído, desprezado ou exterminado ganha mais poder nesse campo com as tentativas de eliminá-lo. Quanto mais se tenta eliminá-lo, tanto mais fortemente atua. O campo fica perturbado e em desordem até que também o reprimido seja reconhecido e receba o lugar que lhe cabe. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS E SUGESTÕES DE LEITURA CERBONI, David R. Fenomenologia. Petrópolis: Vozes, 2006 HELLINGER, Bert. As Ordens do Amor. São Paulo: Cultrix, 2001 HELLINGER, Bert. A Simetria Oculta do Amor. São Paulo: Cultrix, 1998 HELLINGER, Bert. O Amor do Espírito. Goiânia: Atman, 2008 HELLINGER, Bert. Felicidad que Permanece. Barcelona: Rigden Institut Gestalt, 2006 HELLINGER, Bert. Um Lugar para os Excluídos. Goiânia: Atman, 2006 HERMOSILLO, Rosa Doring. Constelaciones Familiares y Abrazo de Constención. México: Gudiño Cícero S.A., 2007 MANNÉ, Joy. As Constelações Familiares em sua Vida Diária. São Paulo: Cultrix, 2008 RUPERT, Franz. Simbiose e Autonomia nos Relacionamentos. São Paulo: Cultrix, 2010 SHELDRAKE, Rupert. A Presença do Passado. Lisboa: Instituo Piaget, 1988 www.hellinger.com http://www.hellinger.com/ 22 www.alinecharanam.blogspot.com http://www.alinecharanam.blogspot.com/