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Eduardo Meditsch Anderson Baltar Jaine Araújo Giovanna Franco Raphaela Ferro (organizadores) Este livro é resultado de reflexões empreendi- das na disciplina que abordou a Formação Profissional do Jornalista no PPGJor da UFSC e também das discussões do II Simpósio Cata- rinense de Ensino de Jornalismo, realizado em novembro de 2024 na instituição. Nos 12 capí- tulos, encontramos conversas aprofundadas sobre experiências pedagógicas, diversidade, inclusão, práticas profissionais e sobretudo o convite ao diálogo, para que seja possível pensar de forma conjunta em um Jornalismo capaz de atuar como emancipador e em prol da democracia. A obra, em sua totalidade, convida leitores e leitoras a pensarem o Jornalismo e seu ensino numa pers- pectiva contra-hegemônica e esperançosa. Eduardo Meditsch Anderson Baltar Jaine Araújo Giovanna Franco Raphaela Ferro (organizadores) Florianópolis 2025 Copyright © Eduardo Meditsch, Anderson Baltar, Jaine Araújo, Giovanna Franco e Raphaela Ferro (organizadores), 2025 EDIÇÃO Nelson Rolim de Moura CONSELHO EDITORIAL Dilvo Ristoff, Eduardo Meditsch, Jali Meirinho, Jéferson Silveira Dantas, Nilson Cesar Fraga, Pablo Ornelas Rosa e Waldir José Rampinelli REVISÃO Ediane Barbosa Oliveira, organizadores e Estúdio Insular CAPA Lauriano Benazzi PLANEJAMENTO GRÁFICO Ayrton Cruz Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Tuxped Serviços Editoriais (São Paulo, SP) Meditsch, Eduardo (org.) et al. Pedagogia do Jornalismo e Práticas Emancipatórias / Organizadores: Eduardo Meditsch, Anderson Baltar, Jaine Araújo, Giovanna Franco e Raphaela Ferro; Prefácio de Carlos Locatelli. – 1. ed. – Florianópolis, SC : Editora Insular, 2025. 213 p. E-book: 4,5 Mb; PDF. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-524-0533-7. 1. Jornalismo. 2. Paulo Freire. 3. Pedagogia do Jornalismo. 4. Práticas Emancipatórias. I. Título. II. Assunto. III. Organizadores. CDD 070.4 25-30281458 CDU 070 M491p ÍNDICE PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO 1. Jornalismo. 2. Jornalismo (imprensa). Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário Pedro Anizio Gomes CRB-8 8846 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA MEDITSCH, Eduardo (org.) et al. Pedagogia do Jornalismo e Práticas Emancipatórias. 1. ed. Floria- nópolis, SC: Editora Insular, 2025. E-book (PDF; 4,5 Mb). ISBN 978-85-524-0533-7. EDITORA INSULAR (48) 3334-2729 editora@insular.com.br twitter.com/EditoraInsular www.insular.com.br facebook.com/EditoraInsular INSULAR LIVROS Rua Antonio Carlos Ferreira, 537 Bairro Agronômica Florianópolis/SC – CEP 88025-210 (48) 3334-2729 insularlivros@gmail.com “Assim como jornalista, você evidentemente tem a sensibilidade da existência, não?” Paulo Freire S U M Á R I O 9 | PREÂMBULO | Romper as bolhas requer pesquisa, diálogo e ação Eduardo Meditsch 12 | PREFÁCIO | Valores para “esperançar” o ensino de Jornalismo Prof. Dr. Carlos Locatelli 14 | APRESENTAÇÃO Jaine Araújo, Giovanna Franco, Raphaela Ferro, Anderson Baltar e Eduardo Meditsch PARTE 1 | DESAFIOS AO ENSINO AO ESTÁGIO E À EXTENSÃO 19 | CAPÍTULO 1 | Preparação para a Docência de Jornalismo e Comunicação: percepções de estudantes de pós-graduação stricto sensu Janaíne Kronbauer 38 | CAPÍTULO 2 | A curricularização da extensão no curso de jornalismo da ufsc e os desafios para além do currículo Melina de la Barrera Ayres 51 | CAPÍTULO 3 | O papel da extensão curricularizada na formação de jornalistas: desafios e oportunidades Maiara Maduro 69 | CAPÍTULO 4 | Estágio em Jornalismo sem núcleos consistentes de pesquisa e supervisão da relação com mercado profissional Roseméri Laurindo 86 | CAPÍTULO 5 | Diagnóstico da Inclusão de Tecnologias Emergentes no currículo da Graduação em Jornalismo na UFSC Giovanna Pavan Franco PARTE 2 | INCLUSÃO E DIVERSIDADE NO ENSINO DE JORNALISMO 105 | Capítulo 6 | Série Minuto Estácio Inclusão: deficiência visual, barreiras atitudinais e desafios metodológicos no ensino superior Regina Zandomênico 123 | CAPÍTULO 7 | Educação das relações étnico-raciais na formação de jornalistas na região norte Jaine Araújo 140 | CAPÍTULO 8 | Ensino Laboratorial de Radiojornalismo: um olhar a partir da perspectiva de gênero Raphaela Xavier de Oliveira Ferro PARTE 3 | DA PEDAGOGIA EMANCIPATÓRIA À PRÁTICA JORNALÍSTICA 156 | CAPÍTULO 9 | Jornalismo, compartilhamento de imediaticidades e o pensamento de Paulo Freire Dennis de Oliveira 169 | CAPÍTULO 10 | Paulo Freire e o compromisso do jornalista com a sociedade Jorge Kanehide Ijuim 175 | CAPÍTULO 11 | Saberes descolonizados no projeto jornalístico Notícia Preta Ediane Barbosa Oliveira 192 | CAPÍTULO 12 | Um olhar freiriano sobre a cobertura radiofônica de Carnaval Anderson Luiz Condor Baltar 9 Vivemos um momento histórico dos mais desafiadores em quase um século de relativa estabilidade na chamada civilização ocidental e em sua periferia (da qual o Brasil e a América Latina fazem parte). Um momento caracterizado pelo envenenamento e consequente erosão das referências epistemológicas que, desde o Iluminismo, erigiram e sustenta- ram a ciência, a educação, a democracia e o bom jornalismo. Todas essas bases da construção de uma realidade socialmente compartilhada (ainda que cheia de contradições) agora vemos ruir, arrastando instituições, res- peito mútuo, direitos humanos e a possibilidade de uma convivência social e internacional pacífica. Se este e-book por algum motivo viralizasse nas redes sociais hoje (quem dera!), rapidamente circulariam mensagens para negar e insultar as suas teses, com esta reação atingindo um número tão grande ou maior de leitores e formando a opinião de uma parcela considerável de pessoas. É o que acontece, já há tempo, com os livros de Paulo Freire, contestados sem serem lidos. Esta é a tragédia do nosso tempo, que temos visto crescer desde o sur- gimento das redes sociais na internet, que nos assombrou durante a pande- mia de covid, que levou a extrema direita neofascista ao poder aqui (onde segue nos ameaçando) e em outros países cuja democracia parecia inque- brantável. As contranarrativas da desinformação conseguem convencer multidões sobre maldades atribuídas aos governos que pretendem derrotar e meter medo sobre falsas perseguições e ameaças, ou até sobre o perigo de vacinar crianças contra doenças como o sarampo e a paralisia infantil. E parece não haver imprensa, nem universidade, nem produção cultu- ral, nem escola capazes de fazer frente a seus avanços, pois não conseguem romper as bolhas onde proliferam. As poucas exceções só confirmam a regra. P R E  M B U L O Romper as bolhas requer pesquisa, diálogo e ação Eduardo Meditsch 10 A mais alarmante questão é que também vemos tudo isso de dentro de uma bolha. Nossa bolha é formada por uma minoria de privilegiados por uma formação cultural de qualidade, obtida ou em casa ou em boas escolas e universidades, ou ainda na militância política e social. Mas sequer conse- gue abranger todos estes privilegiados, pois uma grande parcela deles prefere renegar a formação que recebeu para abraçar mentiras (e às vezes até acredi- tar nelas!) e manifestar ódio à cultura, à ciência e à diferença, em nome ora de valores religiosos recauchutados como marketing político, ora de interesses de supremacia de classe, raça e gênero, estes raramente confessados. Essa situação, daqui para a frente – dizem os especialistas – só vai piorar, enquanto a maneira das pessoas se informarem e se comunicarem forem dirigidas por algoritmos de plataformas tecnológicas orientados apenas para o lucro e para a dominação, sem responsabilidade social e sem o controle de uma regulamentação eficaz que limite o seu poder. E o que se pode fazer diante deste poder avassalador? “Vamos sorrir: sorriam!” A frase atribuída a Eunice Paiva que encan- tou o público do filme Ainda Estou Aqui (principalmente o da nossa bolha, é bom lembrar) nos mostra(UFSC, 2020, p. 1). O artigo 3o da Resolução afirma: Para os propósitos desta resolução normativa, a extensão é a ati- vidade que se integra à matriz curricular e à organização da pes- quisa, constituindo-se em processo interdisciplinar, político-edu- cacional, cultural, científico e tecnológico que promove a interação 42 transformadora entre a UFSC e os outros setores da sociedade, por meio da produção e da aplicação do conhecimento, em articulação permanente com o ensino e a pesquisa. Parágrafo único – São consideradas atividades de extensão as ações que envolvam diretamente as comunidades externas com as institui- ções de ensino superior e que estejam vinculadas à formação do es- tudante, nos termos desta resolução normativa e conforme critérios estabelecidos nos PPCs dos cursos de graduação (UFSC, 2020, p. 1). O artigo 6o, desse mesmo documento, estabelece: Os PPCs deverão definir as atividades de extensão que serão reco- nhecidas para fins de creditação curricular, dentro das seguintes unidades curriculares: I – como disciplina da matriz curricular, que dedicará toda ou parte da carga horária de um período letivo à realização de atividades de extensão previstas em um ou mais programas de extensão; II – como atividade de extensão na forma de unidade curricular, constituída de ações de extensão em projetos, cursos e eventos, con- forme definição do artigo 3o da Resolução no 88/CUn/2016; III – como composição dos itens I e II. [...] (UFSC, 2020, p. 3). Assim, coube a cada curso de graduação definir o modo como incor- poraria a extensão em seu Projeto Pedagógico. Na UFSC, o prazo para essas adequações nos PPCs foi estabelecido até 19 de novembro de 2022. A proposta de curricularização do Curso de Jornalismo foi submetida nesse período e está em andamento. Contudo, ainda aguarda aprovação defini- tiva das instâncias superiores. A Curricularização no JORUFSC No curso de Graduação em Jornalismo da UFSC, a extensão sempre teve um papel relevante. Criado em 1979, desde os primórdios há uma longa trajetória de projetos de extensão ofertados e, inclusive, de participa- ção no Projeto Rondon, citado acima. Destaco a seguir alguns dos tantos 43 projetos que marcam os 45 anos do curso que, embora não façam parte da grade curricular, integram o Projeto Pedagógico do Curso como atividades complementares. O Universidade Aberta, conhecido também como Unaberta, tinha como coordenadores o professor Eduardo Meditsch e a professora Valci Zuculoto. Criado em 1991, funcionou até 2006, iniciando como um pro- grama de rádio diário, chegou a ser transmitido em rádios comerciais de Florianópolis. Posteriormente, ganhou uma versão televisiva, coordenada pelo professor Áureo Moraes. No início dos anos 2000, migrou para o for- mato on-line, alcançando três milhões de acessos. Além da produção jor- nalística, a equipe do Unaberta assumiu parte da comunicação institucio- nal da UFSC, desenvolvendo campanhas para o vestibular. Em seu auge, chegou a ter 30 bolsistas. Outro projeto de destaque é a Rádio Ponto UFSC, coordenada atual- mente pela professora Valci Zuculoto. Criada em 1999, a webemissora com- pletou 25 anos em 2024, oferecendo uma programação informativa, educa- tiva, esportiva e cultural. A rádio é reconhecida pela sua cobertura jornalís- tica das eleições municipais e nacionais, realizada em parceria com outras rádios universitárias, cursos de Jornalismo e entidades profissionais, como a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Entre as ações recentes, destaca- se a cobertura especial durante o período da pandemia. O Repórter UFSC no combate ao coronavírus, foi produzido inteiramente de forma remota. O site Cotidiano UFSC, criado em 2006 pela professora Maria José Bal- dessar e atualmente coordenado pela professora Stefanie Carlan, tem como objetivo a experimentação de novos formatos jornalísticos na produção de conteúdo voltados tanto para a comunidade universitária quanto para a comunidade em geral. O TJ UFSC, telejornal diário criado em 2012 pelos professores Antônio Brasil e Cárlida Emerim, cobriu durante onze anos os principais fatos da Universidade e da cidade. Com edições ao vivo pelo Youtube e Facebook, o projeto buscava explorar formas inovadoras de produção e exibição de telejornalismo. Entre os projetos mais recentes, destaca-se o Jornalismo e Ação Comu- nitária (JAC), criado em 2020 com o intuito de contribuir com o enfrenta- mento à pandemia de Covid-19, quando produziu material jornalístico vol- tado para comunidades vulnerabilizadas. Coordenado pelas professoras Isa- bel Colucci e Melina Ayres, o projeto parte da compreensão da comunicação 44 como um direito humano e como uma ferramenta de empoderamento social. Atualmente, seu foco está na criação de produtos comunicativos e jornalísticos em parceria com comunidades, promovendo a transformação social. Em 2024, o documentário Vem cá meu boi: a Costa da Lagoa e seu boi de mamão, produzido pela equipe do JAC junto às crianças do terceiro e quarto ano da Escola Básica Municipal da Costa da Lagoa, uma comuni- dade tradicional de Florianópolis, integrou a programação da 23a Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis. A curricularização da extensão no curso de Jornalismo foi estruturada a partir da expertise dos projetos de extensão e das disciplinas já existentes. Antes mesmo da regulamentação do MEC, a grade curricular do curso já contava com diversas disciplinas com forte vínculo com a extensão, como as de rádio, redação, vídeo e telejornalismo. Para consolidar a política de curricularização da extensão, foi criado o Programa Jornalismo e Sociedade, que reforça o caráter social da profissão e seu papel como um serviço de interesse público, promovendo o acesso democrático à informação. O programa funciona como um guarda-chuva que vincula as disciplinas, ações e projetos de pesquisa e extensão, fortale- cendo a integração entre ensino, pesquisa e extensão. A partir deste programa incorpora-se a matriz curricular do curso à extensão universitária, respondendo a mais de 10% de sua carga horá- ria. Atualmente, o Bacharelado em Jornalismo da UFSC possui uma carga horária de três mil horas (3.600 h/a) em acordo com a Resolu- ção CNE/CES no 2/2007 do MEC, com Projeto Pedagógico de Curso implementado a partir de 2016-1, com uma pequena reforma na grade curricular em 2020. Partindo da concepção da extensão como elemento intrínseco ao pro- cesso de ensino-aprendizagem, o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) con- sidera dois campos de ações de extensão: a) A curricularização da extensão: 360 horas/aula cursadas integral- mente em disciplinas que fazem parte da grade curricular obriga- tória – equivalente a 10% de curricularização de extensão incorpo- radas no currículo; b) As atividades acadêmico-científico-culturais: atividades acadêmicas somando 108 horas/aula, regidas por regulamento próprio, sendo a mais atual a Resolução no 01/CNE/CES/2013, de 27 de setembro de 2013. 45 Assim, o PPC do Curso de Jornalismo, diferencia as atividades de ensino, das acadêmico-científico-culturais3 e daquelas voltadas à curricula- rização da extensão. Visando facilitar o processo de mensuração e controle de créditos, o Colegiado do Curso decidiu concentrar a implementação da curricularização em três disciplinas, a saber: JOR6430 – Jornalismo e Comunicação Organizacional (108 horas/aula), JOR6626 – Jornal-Labora- tório (108 horas/aula) e JOR6628 – Jornalismo Comunitário (144 horas/ aula), totalizando 360 horas/aula. Destaca-se que a disciplina de Jornal-Laboratório já compunha a grade Curricular do curso antes da determinação do MEC, e os conteúdos de Comunicação Organizacional constavam no currículo de 2015 (imple- mentado em 2016) em outras duas disciplinas (JOR6304 – Jornalismo em Assessoria e JOR6404 – Laboratório em Assessoria), que foram unificadas na criação desta, no currículo de 2020. A única disciplina nova, criada para atender à curricularização, é JornalismoComunitário, incorporada à grade curricular obrigatória no segundo semestre de 2018. A disciplina Jornalismo e Comunicação Organizacional é ofertada na quarta fase e tem como objetivos: Estudar conceitos e teorias, propor e aplicar estratégias e ferramentas de assessoria de comunicação e assessoria de imprensa, adequando- as a contextos específicos, em ambiente laboratorial. Analisar criti- camente estratégias e produtos de comunicação adotados por orga- nizações contemporâneas (Plano de ensino da disciplina, 2024, s.p.). A cada semestre, os estudantes atendem demandas de avaliação e implementação de ações de comunicação organizacional de órgãos da Uni- versidade, do terceiro setor, setor cultural, organizações públicas e priva- das, empresas, etc. A disciplina se vincula ao Projeto de extensão Comu- nica Lab – Laboratório de Assessoria de Comunicação. A disciplina Jornal-Laboratório é ofertada na sexta fase do curso, e tem como objetivo “proporcionar ao aluno a experiência prática de produção de jornal, passando por todas as etapas da pauta à publicação” (Plano de Ensino 3 Atividades complementares do currículo que inclusive podem ser realizadas em outros cursos e ins- tituições. Respondendo à Resolução no 01/CNE/CES/2013, de 27 de setembro de 2013, as Atividades Acadêmico-Científico-Culturais (540 horas/aula) estão compostas por: Atividades didáticas (432 ho- ras/aula): disciplinas optativas (internas ou externas); e Atividades acadêmicas (108 h/a) como: Proje- tos, Cursos e Eventos registrados no Sistema Integrado de Gerenciamento de Projetos de Pesquisa e de Extensão (Sigpex). 46 da disciplina, 2024). A cada semestre os estudantes produzem notícias, reportagens, infografias e materiais multimídia, focados em pautas vincula- das a demandas sociais e comunitárias. Essa experiência permite a produção das edições impressas do Jornal Zero, que contam com uma tiragem de dois mil exemplares distribuídos gratuitamente pela UFSC e região. Por sua vez, Jornalismo Comunitário, ofertada na sexta fase, foi criada especificamente para atender à curricularização da extensão. Esta é a dis- ciplina com maior carga horária da grade curricular (144 horas/aula) e a única que propõe atividades externas, com aulas desenvolvidas fora do campus universitário. Seu objetivo é que os estudantes “estudem e produ- zam produtos comunicacionais junto a comunidades em contextos vulne- ráveis/tradicionais/periféricos, tendo em vista a comunicação e o jorna- lismo como ferramentas emancipatórias” (Plano de Ensino, 2024). A cada semestre, a disciplina atende a uma comunidade da Grande Florianópolis, desenvolvendo, junto a ela, ferramentas e canais de comunicação que sejam úteis para seu contexto. A disciplina está vinculada ao Projeto de Extensão Jornalismo e Ação Comunitária (JAC). No Curso de Jornalismo da UFSC, curricularizar a extensão trouxe diversos ganhos à proposta pedagógica. Entre eles, destacam-se: primeiro, a possibilidade de que os mais de 300 estudantes com matrículas ativas coloquem em prática o conhecimento adquirido ao longo do curso, uma vez que as três disciplinas são ofertadas a partir da quarta fase. Segundo, o incentivo para que os graduandos vivam no corpo e no espaço, o que aprendem em sala de aula. Conforme argumento junto à Fontinha no artigo “Disciplinas laboratoriais: aprendizado de que passa pelo corpo”: “A vivência do corpo (sua interação com o ambiente) é fundamental para a prática jornalística em si. O corpo é o instrumento que guiará as ações, os comportamentos, as relações, e os modos de (re)presentar o mundo” (Ayres; Fontinha, 2020, p. 152). Se a proposta das disciplinas laboratoriais estimula que a aquisi- ção do conhecimento passe pelo corpo do estudante, colocando o que é aprendido em prática; em disciplinas vinculadas à extensão esse corpo é levado ao mundo, entrando em contato com o Outro. Ao relacionar-se diretamente com a sociedade – seja atendendo os “clientes”, na disciplina de Comunicação Organizacional; apurando, produzindo e distribuindo o Jornal Zero, em Jornal-Laboratório; e/ou criando produtos comunicativos/ jornalísticos junto às comunidades periféricas da Grande Florianópolis, 47 na disciplina Jornalismo Comunitário – os alunos e alunas interagem com públicos diversos, circulam pela cidade, conhecem diferentes realidades. Nesse processo, precisam estabelecer vínculos, buscar soluções criativas para as mais variadas situações e, na grande maioria dos casos, ser inventi- vos para produzir sem muitos recursos. Nas reflexões éticas e críticas desse fazer jornalístico, os estudantes ganham experiência e fortalecem a forma- ção acadêmica a partir de uma perspectiva cidadã, preparando-se para a atuação profissional. Terceiro, a curricularização da extensão possibilita que os professo- res articulem e fortaleçam suas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Os docentes que hoje oferecem as três disciplinas vinculadas à curricu- larização desenvolvem pesquisas e coordenam projetos de extensão nes- sas áreas, contando com a participação ativa dos estudantes. Além disso, essas disciplinas recebem estagiários de docência do Programa de Pós- Graduação em Jornalismo e de outros programas da Universidade, pro- movendo uma interlocução enriquecedora entre os ensinos de graduação e pós-graduação. Refletindo sobre a curricularização (ou o que os documentos não registram...) A curricularização da extensão e sua integração à grade curricular obrigatória dos cursos de graduação trazem ganhos significativos à forma- ção dos estudantes e podem contribuir para que a universidade se integre, de fato, à sociedade. As políticas de curricularização dos cursos são recen- tes, muitas ainda estão em processo de implementação, como é o caso no Jornalismo da UFSC. No entanto, já é possível evidenciar que essa integra- ção, por si só, não garante que a extensão cumpra plenamente seu papel. Há ainda um longo caminho a ser percorrido. Para que a extensão universitária se fortaleça, são necessários inves- timentos e planejamento. A curricularização está sendo incorporada aos PPCs, mas para isso não chegaram maiores ou novos recursos. Para que a extensão funcione conforme dispõe a Política Nacional de Exten- são Universitária (2015), citada anteriormente, é imprescindível investir em infraestrutura, tecnologia e em condições e meios para chegar até as pessoas. Ministrar aulas ou atividades e oferecer serviços fora do câmpus, 48 envolvendo não apenas os estudantes, mas também os membros da comunidade, demanda mais do que deslocamento: exige a construção de vínculos, a disponibilidade de materiais e equipamentos, além da garan- tia de segurança para todos os participantes. O planejamento e a exe- cução dessas aulas demandam um nível de organização e detalhamento maior do que as aulas convencionais dentro do ambiente universitário. Para tanto, se faz necessário, inclusive, refletir sobre o perfil do profes- sor: assim como nem todo docente tem perfil de pesquisador, nem todo docente tem perfil extensionista. Além disso, para que as atividades de extensão funcionem no âmbito de uma disciplina, é essencial compreender que o tempo acadêmico – estruturado em semestres de aproximadamente 18 semanas – nem sempre coincide com o tempo da comunidade/grupo/instituição parceira, o que exige flexibilidade e uma série de adequações. A despeito dessas limitações, é fundamental fomentar propostas que extrapolem os muros da universi- dade, permitindo que os estudantes circulem por outros ambientes e que a universidade esteja, de fato, NA sociedade, COM as pessoas. Se faz necessário, ainda, discutir as ações em campo, para afastá-las de fato do assistencialismo. Não são incomuns os relatos, em diversos cur- sos, de como a universidade vai aos territórios presumindo que sabe o que é bom para as pessoas. No texto “Desobediência epistêmica, pensamento independente e liberdade colonial”, o professor argentino Walter Mignolo afirma:“o primeiro mundo tem conhecimento, o terceiro mundo tem cul- tura; os nativos americanos têm sabedoria, os anglo-americanos têm ciên- cia” (2021, p. 25). Se fizermos uma autocrítica, refletindo sobre as diversas ações extensionistas realizadas pelas universidades Brasil afora, é possível perceber que, muitas vezes, a universidade assume esse lugar de “primeiro mundo” nos encontros com a sociedade, relegando as comunidades ao papel de “terceiro mundo”. Infelizmente, ainda hoje, e por inúmeras razões que não cabe aqui mencionar, a universidade frequentemente se coloca num lugar “encastelado”, distante e superior, que visa validar sua impor- tância. Em algumas ocasiões, assume uma postura colonizadora, desvalo- rizando os saberes oriundos da vivência e da experiência, em outras, adota uma postura extrativista, apropriando-se dos conhecimentos e histórias das comunidades sem dar-lhes um retorno efetivo. Por fim, vale esclarecer que as questões aqui levantadas são o iní- cio de uma reflexão, no mínimo, necessária. Não há a intenção de julgar 49 ou atribuir responsabilidades individuais, mas provocar a que pensemos no papel da universidade e da extensão em um momento crucial de sua existência. Esse “alerta” já estava presente no texto da Política Nacional de Extensão Universitária, resultante do Fórum de Pró-reitores das Institui- ções de Educação Superior Brasileira, há mais de dez anos: Sem a interação dialógica, permitida pelas atividades extensionistas, a Universidade corre o risco de ficar isolada, ensimesmada, desco- lada dos problemas sociais mais prementes e incapaz de oferecer à sociedade e aos governos o conhecimento, as inovações tecnológicas e os profissionais que o desenvolvimento requer (2015, p. 23). Referências AYRES, Melina de la Barrera; FONTINHA, Cristiane Miranda. Disciplinas labora- toriais: aprendizado que passa pelo corpo. In: MEDITSCH, Eduardo; BEZERRA, Juliana Freire; KRONBAUER, Janaíne. Pedagogia do Jornalismo: Desafios, expe- riências e inovações. Florianópolis: Insultar, 2020, p. 148-159. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 2 fev. 2025. BRASIL. Lei no 5.540, de 28 de novembro de 1968. Fixa normas de organiza- ção e funcionamento do ensino superior e sua articulação com a escola média, e dá outras providências. Disponível em: https://www2.camara.leg.br/legin/fed/ lei/1960-1969/lei-5540-28-novembro-1968-359201-publicacaooriginal-1-pl. html. Acesso em: 29 nov. 2024. BRASIL. Lei no 010172, de 9 de janeiro de 2001. Plano Nacional de Educação. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/L10172.pdf. Acesso em: 10 fev. 2025. FORPROEX. Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públi- cas Brasileiras. Política Nacional de Extensão Universitária, Manaus, maio de 2012. Florianópolis: Imprensa Universitária, 2015. Disponível em: https:// proex.ufsc.br/files/2016/04/Pol%C3%ADtica-Nacional-de-Extens%C3%A3o- Universit%C3%A1ria-e-book.pdf. Acesso em: 29 nov. 2024. JORNALISMO UFSC. Projeto Pedagógico de Curso. 2015. Disponível: https:// arquivos.ufsc.br/f/a691df9c74/. Acesso em: 29 nov. 2024. JORNALISMO UFSC. Projeto Pedagógico de Curso. Atualização 2021. Disponí- vel: https://arquivos.ufsc.br/f/b9065806044549faba29/. Acesso em: 29 nov. 2024. 50 MIGNOLO, Walter. Desobediência epistêmica, pensamento independente e liber- dade colonial. In: Revista X, v. 16, n. 1, 2021, p. 24-53. Disponível em: https:// revistas.ufpr.br/revistax/article/view/78142. Acesso em: 29 nov. 2024. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Resolução 01/CNE/CES/2013. Disponível em: http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=14242- rces001-13&category_slug=setembro-2013-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 20 fev. 2025. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Resolução no 2, de 18 de junho 2007. Dis- ponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view= download&alias=16872-res-cne-ces-002-18062007&category_slug=janeiro- 2015-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 29 nov. 2024. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Resolução no 01/CNE/CES, de 27 de setem- bro de 2013. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de graduação em Jornalismo. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=14242-rces001-13&category_slug=setembro- 2013-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 15 fev. 2025. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Resolução no 7, de dezembro de 2018. Diretri- zes para a Extensão na Educação Superior Brasileira. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=104251- rces007-18&category_slug=dezembro-2018-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 15 fev. 2025. BRASIL. PROJETO RONDON. Disponível em: https://www.gov.br/defesa/pt-br/ assuntos/projeto-rondon. Acesso em: 15 fev. 2025. UFSC. Resolução Normativa no 88/2016/CUn, de 25 de outubro de 2016. Disponível em: https://proex.ufsc.br/files/2016/11/Resolu%C3%A7%C3%A3o Normativa_88_Extens%C3%A3o.pdf. Acesso em: 16 fev. 2025. UFSC. Resolução Normativa no 01/2020/CGRAD/CEx, de 3 de março de 2020. Disponível em: https://curricularizacaodaextensao.ufsc.br/files/2020/03/ RESOLU%C3%87%C3%83O-CURRICULARIZA%C3%87%C3%83O-DA- EXTENS%C3%83O-2-1.pdf. Acesso em: 16 fev. 2025. 51 C A P Í T U L O 3 O papel da extensão curricularizada na formação de jornalistas: desafios e oportunidades Maiara Maduro1 Introdução A presença da extensão nos currículos dos Cursos de Jornalismo espa- lhados pelo Brasil deixou de ser novidade. Desde 2018, a legislação exige que ao menos 10% da carga horária total dos cursos seja destinada a práti- cas extensionistas, obrigatoriedade que passou a valer, na prática, a partir de 2022. Apesar disso, o monitoramento, a análise constante e os desafios impostos pela implementação seguem fomentando debates. As discussões ocorrem em diferentes espaços, dos bate-papos de corredor às reuniões de colegiado, além de momentos mais estruturados, como eventos acadêmi- cos. A falta de normas detalhadas sobre a distribuição da carga horária, os tipos de atividades permitidas e outras questões mantêm a extensão como tema vivo nas instituições de ensino. Minha jornada docente iniciou em 2019, justamente no ano seguinte à resolução que determina a quantidade mínima de horas para as ati- vidades de extensão na graduação. À época, os debates já apontavam o caráter extensionista do jornalismo como parte da essência da profissão. Essa ideia me transporta para cerca de 12 anos atrás, quando eu estava no último ano do Curso de Jornalismo. Uma das disciplinas que mais marcou minha trajetória acadêmica foi a de Jornalismo Comunitário. Lembro que eu e algumas colegas visitamos uma comunidade onde rea- lizamos oficinas para que os próprios moradores pudessem produzir um informativo do bairro. A experiência foi transformadora, revelando, 1 Doutora em Planejamento e Governança Pública (UTFPR), mestre em Comunicação (UFPR) e jorna- lista (IELUSC). Atua como docente no curso de Jornalismo da Faculdade IELUSC e exerce as funções de coordenadora das áreas de Ciências Sociais Aplicadas e Humanas, coordenadora da REVI Digital, editora da revista Redes. E-mail: maiara.carvalho@ielusc.br mailto:maiara.carvalho@ielusc.br 52 na prática, o poder do Jornalismo como ferramenta de transformação social – uma vocação que a extensão universitária busca consolidar na formação acadêmica. Essa disciplina perdura na grade curricular do Curso de Jornalismo da Faculdade IELUSC, em Joinville/SC, há muitos anos. Não me surpreende ouvir de uma acadêmica, em 2024, que uma das atividades de que mais gostou na graduação foi realizada justamente nesse componente discipli- nar. Nas palavras da estudante, práticas como essa (de se fazer presente em diversas comunidades) mostram o quanto o Jornalismo pode ser um instrumento para “fazer o bem para os outros”. Embora o intuito de “ajudar” não tenha relação diretacom o objetivo principal da extensão atualmente, ele faz parte da formalização de práti- cas extensionistas das universidades brasileiras desde seu início, datado a partir da metade do século XX (Mayorga, 2021). As primeiras iniciativas tiveram um caráter predominantemente assistencialista, focado na presta- ção de serviços para grupos em situação desfavorável, sem necessariamente estabelecer um diálogo mais amplo com a sociedade. De acordo com Mayorga (2021), nesse contexto inicial, a extensão se manifestou principalmente por meio de serviços e cursos, formatos que permaneceram relevantes, mas que, naquele momento, não foram inseri- dos em uma proposta mais estruturada de transformação social. Embora a preocupação com a desigualdade e a busca pelas mudanças já existissem, a atuação universitária priorizava um modelo em que a instituição com- partilhasse soluções com a sociedade, sem necessariamente promover uma interação dialógica. Mayorga (2021) traz uma importante contextualização histórico- evolutiva, detalhando as outras perspectivas que cresceram ao longo do tempo, destacando as circunstâncias que fizeram com que a extensão saísse do assistencialismo e partisse para um lugar de promoção da cidadania e garantia dos direitos. Segundo a autora, a demanda por uma universidade comprometida com a sociedade e com os processos da democracia existia naquele contexto e também na atualidade. Essa concepção proporciona reflexões sobre o papel da extensão na universidade. Castro (2017) aborda o fato de que, no ensino superior público, a extensão oscila entre a prestação de serviços e iniciativas volta- das para a sociedade, funcionando como um elo entre a universidade e a população. O desenvolvimento institucional buscou atender às demandas 53 sociais, muitas vezes com uma visão assistencialista, estabelecendo um intercâmbio de saberes acadêmicos e populares, ainda que com predomi- nância de conhecimento universitário. No entanto, há uma perspectiva que defende a extensão como um espaço de transformação mútua, capaz de democratizar o conhecimento por meio da troca de saberes e da participa- ção ativa da comunidade. Dessa forma, no seu processo evolutivo, ao lado de outros importantes fatores – como Lei de Cotas, criação de novas universidades, programas de bolsas de estudo – a extensão universitária atuou no processo de democra- tização da própria universidade. Quando a extensão universitária se posiciona no sentido de reco- nhecer que existem saberes, histórias, práticas, proposições pre- ciosas que são de autoria de outros sujeitos e setores da sociedade que não estão centralizadas nas instituições de educação superior, ela acolhe a ideia de que as universidades e outros atores, autores e autoras de saberes sobre e para a sociedade brasileira podem, em uma relação dialógica, construir, em conjunto, um mundo melhor (Mayorga, 2021, p. 20). Observa-se então que, embora atualmente as práticas extensionistas cumpram a legislação – o que chamamos de curricularização da extensão –, o seu caráter formativo e produtor de conhecimento fez com que esse movimento de valorização iniciasse bem antes nos debates do Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras, como explicou Claudia Mayorga (2021). A obrigatoriedade de que 10% da carga horária total dos cursos de graduação sejam dedicados a práticas extensionistas decorre da Resolução no 7, de 18 de dezembro de 2018 (Brasil, 2018). Essa resolução estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior brasileira e regulamenta a Meta 12.7 da Lei no 13.005/2014, que institui o Plano Nacional de Educa- ção (PNE) 2014-2024 (Brasil, 2014). O prazo inicial para a implantação era dezembro de 2021, mas, por conta da pandemia da Covid-19, foi estendido por um ano. Dessa forma, este capítulo propõe três movimentos dialógicos. O pri- meiro apresenta um relato de experiência sobre o processo de implementa- ção da curricularização da extensão nos cursos de graduação da Faculdade 54 IELUSC, localizada em Joinville, Santa Catarina, com destaque para o curso de Jornalismo. O segundo destaca projetos e ações desenvolvidos em disciplinas do curso, como produções jornalísticas, oficinas e eventos. Já o terceiro movimento busca problematizar os desafios da implantação e manutenção da curricularização da extensão, especialmente no contexto de cursos noturnos, em que a maioria dos acadêmicos concilia os estu- dos com atividades profissionais. Além disso, a abertura e participação da comunidade, embora desejada, nem sempre se concretiza como parte ativa do processo. Soma-se a isso a necessidade de legitimar práticas jornalísti- cas como atividades extensionistas, o que exige uma constante negociação entre as diretrizes institucionais, as demandas sociais e as especificidades da formação em Jornalismo. Linha do tempo: movimentos de implantação e regulamentação das diretrizes A trajetória de implantação e regulamentação da curricularização da extensão na Faculdade IELUSC reflete o compromisso da instituição com a formação acadêmica articulada às demandas sociais. Antes de descrever a sucessão de marcos e ações implementadas, é importante destacar que a Faculdade IELUSC é uma instituição comunitária com 10 cursos de gra- duação. Assim, o processo de implantação da curricularização da extensão foi conduzido de forma integrada, envolvendo todas as graduações. O movimento de implantação teve início logo após a publicação das Diretrizes para Extensão na Educação Superior Brasileira (Brasil, 2018). A partir do novo organograma institucional, que incluiu a criação da Coor- denação de Ação Comunitária e Responsabilidade Social e Ambiental, Coordenação de Iniciação Científica e Coordenações de Área, foram dados os primeiros passos para a elaboração da política institucional e do fluxo- grama para a curricularização da extensão. Em 2020, foi lançado o Guia da Extensão, documento que consolidou as diretrizes e formalizou a estrutura organizacional do processo. 55 Figura 1: Fluxograma da curricularização da extensão Fonte: Guia de Extensão da Faculdade IELUSC, 2020. Ao centro do processo está a comunidade externa localizada em posi- ção de credora do conhecimento desenvolvido no âmbito acadêmico. Observa-se que se trata de um fluxograma circular e não hierárquico, uma vez que o binômio docentes/estudantes forma o núcleo realizador das ati- vidades previstas nos currículos, sob a liderança da tripla coordenação: Ação Comunitária e Responsabilidade Social e Ambiental; Coordenações de Área; e Coordenações de Curso. Interessa observar que os deveres dos estudantes no fluxograma con- sistem em participar do planejamento, execução e avaliação das práticas extensionistas curricularizadas. O docente, de acordo com o documento norteador institucional, tem como papel: avaliar o caráter extensionista do componente curricular; prever a realização da atividade no Plano de Ensino e Aprendizagem (PEA) e no Plano de Aula, mencionando-a nos objetivos específicos; preencher formulário específico incluindo evidências das atividades, bem como a avaliação dos seus resultados junto ao público/ comunidade atendida. Em 2020, os cursos de Enfermagem e Publicidade e Propaganda foram os primeiros a adequar suas grades curriculares, incorporando os 10% da carga horária destinados à extensão. Nos dois anos seguin- tes, todos os cursos passaram por estudos para a adaptação às diretrizes, 56 culminando na adequação integral em 2022. O I Seminário de Exten- são, realizado em 2022, consolidou-se como espaço de apresentação e avaliação das ações extensionistas, ganhando periodicidade bienal com a segunda edição em 2024. A partir dos debates e análises do II Seminário de Extensão, foram identificadas necessidades de ajustes na organização da carga horária desti- nada à extensão. Entre 2022 e 2024, as propostas foram discutidas em reu- niões de colegiado, Núcleos DocentesEstruturantes (NDE) e na Câmara de Ensino Superior. O resultado desse processo foi a aprovação de uma nova proposta de distribuição da carga horária para a maioria dos cursos, implementada em 2025. Curricularização da extensão no curso de Jornalismo No curso de Jornalismo, a matriz curricular estabelecida em 2021 apre- sentava uma proposta de fragmentação da carga horária de extensão em 22 disciplinas, distribuídas ao longo de todas as fases do curso. A menor carga horária era de quatro horas, na disciplina Realidade Regional (1a fase), e a maior, de 80 horas, na disciplina Jornalismo Comunitário (6a fase). A partir de 2025, a carga horária está concentrada em seis disciplinas, a partir da 4a fase, com a menor carga horária de 40 horas e a maior de 80 horas. As atividades terão início nas disciplinas Marketing e Produ- ção de Conteúdo e Observatório de Mídia, ambas com 40 horas. Na 5ª fase, Narrativas Sonoras III contará com 80 horas, seguida por Jornalismo Comunitário, com 80 horas, e Comunicação Integrada, com 40 horas, na 6ª fase. O ciclo se encerra na 7a fase com Projeto Jornalístico Multimídia, que prevê 80 horas. Essa reorganização busca fortalecer a integração entre teoria e prática, consolidando a extensão como parte essencial da formação acadêmica. A concentração da carga horária em menos disciplinas permite o desenvol- vimento de projetos de maior duração e impacto, além de facilitar o acom- panhamento contínuo das ações e a avaliação dos resultados. As mudanças refletem o compromisso da instituição com a formação cidadã e a produ- ção de conhecimento orientado para a transformação social. 57 Experiências em movimento Antes mesmo da implementação da curricularização da extensão, o Curso de Jornalismo da Faculdade IELUSC já desenvolvia práticas que apro- ximavam a formação acadêmica da comunidade. Um exemplo relevante é a Revista Eletrônica do Bom Jesus/Ielusc (Revi), programa de extensão que nas- ceu junto com os cursos de Comunicação, em 1998. Pioneira na produção de conteúdo exclusivamente digital em Joinville, a Revi oferece aos estudantes a oportunidade de experimentar a profissão na prática, publicando textos sobre cultura, cotidiano e questões sociais da cidade e da região. Mais do que um canal de divulgação, o projeto se consolidou como um ensaio para o mer- cado de trabalho, formando gerações de jornalistas que carregam na traje- tória acadêmica o orgulho de terem dado os primeiros passos na Revi. Além disso, o portal se tornou um veículo importante para divulgar os resultados das ações de extensão realizadas pelos estudantes, integrando ainda mais o curso com as demandas e realidades da comunidade. As produções veicula- das são reflexos diretos de projetos extensionistas que atendem a grupos da cidade, criando um espaço de diálogo entre a academia e a sociedade local. Outro relevante exemplo é o Jornal do Paraíso. Um jornal comunitário produzido entre 2007 e 2017 pelo curso de Jornalismo, em parceria com o Conselho Comunitário do Jardim Paraíso e o Projeto Missão Criança. Sur- giu como resposta à imagem negativa do bairro, frequentemente retratado pela mídia local como um dos mais violentos da cidade, o que gerava este- reótipos e afetava a comunidade. Para mudar essa percepção, líderes comu- nitários buscaram apoio acadêmico com o objetivo de criar um meio de comunicação que representasse a visão dos próprios moradores. Com edi- ções mensais e tiragem de três mil exemplares, o jornal foi pioneiro entre os veículos comunitários da cidade. Durante sua existência, manteve uma relação transformadora entre a instituição de ensino e o bairro, envolvendo docentes, bolsistas e estudantes em um projeto de impacto social. Nesta seção, serão apresentadas experiências de disciplinas que envolvem extensão, com foco em projetos de produção de conteúdo em vídeo e áudio, permitindo aos estudantes aplicar seus conhecimentos em materiais informati- vos e educativos voltados às demandas da sociedade. Também serão abordados eventos realizados dentro e fora da instituição, que promovem debates e apro- ximam a academia do público externo, além de oficinas práticas que atendem a diferentes grupos e incentivam o protagonismo comunitário. 58 Produções jornalísticas O webdocumentário Vivemos Aqui2 foi produzido na disciplina de Pro- jeto Experimental, em 20223. Trata-se de um trabalho multimídia composto por site, textos, infográficos, imagens e quatro vídeos. O webdoc retrata a história de uma família indígena da etnia Deni que se mudou de Manaus (AM) para Joinville (SC) em meio à pandemia de Covid-19, e suas dificul- dades na luta por moradia. O trabalho foi desenvolvido por Kevin Eduardo da Silva e Pedro Novais, com a colaboração de Noah Rosa (Publicidade e Propaganda) e Lucas Leoni (Sistemas para Internet) e teve orientação da docente Kérley Winques. A produção foi vencedora do Prêmio ACI/Ocesc de Jornalismo na categoria Jornalismo Universitário, em 2023. Um dos objetivos do jornalismo é lançar luz sobre temas que necessi- tam de visibilidade e de debate público. É por isso que o jornalismo é um agente de transformação social. O webdocumentário Vivemos Aqui faz isso. Toca em feridas que precisam ser tocadas. A luta por moradia é uma realidade dura enfrentada por muitos brasileiros e comunidades indígenas. Que este trabalho siga inspirando e provo- cando reflexões. Estamos felizes e orgulhosos – Kerley Winques4. Figura 2: Famílias Deni com os acadêmicos durante as gravações 2 Conheça o projeto: https://www.vivemosaqui.com.br/#/. 3 Esta disciplina fazia parte da grade curricular encerrada em 2024. Em Projeto Experimental, os alunos elaboravam, individualmente ou em duplas, uma produção jornalística com caráter extensionista. 4 JORNALISTAS da Faculdade Ielusc vencem Prêmio ACI/Ocesc de Jornalismo Universitário. Revi, Joinville, 8 mar. 2023. Disponível em: https://revidigital.ielusc.br/index.php/2023/03/08/jornalistas-da- faculdade-ielusc-vencem-premio-aci-ocesc-de-jornalismo-universitario/. Acesso em: 21 mar. 2025. https://www.vivemosaqui.com.br/#/ https://revidigital.ielusc.br/index.php/2023/03/08/jornalistas-da-faculdade-ielusc-vencem-premio-aci-ocesc-de-jornalismo-universitario/ https://revidigital.ielusc.br/index.php/2023/03/08/jornalistas-da-faculdade-ielusc-vencem-premio-aci-ocesc-de-jornalismo-universitario/ 59 Na disciplina de Produção Audiovisual II, em 2024, uma atividade extensionista trabalhou diretamente com o Coletivo Lixo Zero Joinville e teve como objetivo atuar no processo de transmissão de conhecimento referente ao ciclo da reciclagem por meio de uma websérie publicada no Instagram do curso de Jornalismo, da Revi Digital e do Coletivo Lixo Zero. A proposta da atividade, que recebeu o nome de EcoCiclo5, partiu de uma demanda iden- tificada por mim, docente da disciplina, e pela possibilidade de colaborar com o grupo que atua de forma voluntária na cidade. Dessa forma, foram necessárias algumas etapas: (a) reunião da professora com uma represen- tante do coletivo para definir a pauta e formas de veiculação; (b) divisão da turma em quatro grupos e cada equipe ficou responsável por uma etapa do ciclo da reciclagem (separação dos resíduos em casa, destino do resíduo orgâ- nico, trabalho das cooperativas de reciclagem, empresa que compra material reciclado); (c) agendamento e gravação das fontes indicadas pelo coletivo; (d) edição, publicação e divulgação do material produzido. A produção desses conteúdos não apenas possibilitou a aplicação prá- tica dos conhecimentos dos alunos, mas também fortaleceu a parceria com a comunidade, gerando um conteúdo relevante que contribui para a cons- cientização sobre a importância da reciclagem na cidade. Oficinas e prestação de serviços Na disciplina de Jornalismo Comunitário, ministrada pela professora Marília Crispi de Moraes, normalmente, a turma é dividida em equipes e cada uma delas escolhe uma Organização Não Governamental, associação sem fins lucrativosou instituição de ensino pública para realização de uma oficina de jornalismo comunitário ou educomunicação. Em 2021, um dos grupos desenvolveu a oficina “Pensando Fake News” no Centro Integrado João de Paula. Foram atendidos 19 idosos com o obje- tivo de preveni-los contra golpes e a disseminação de notícias falsas através do celular. O projeto, desenvolvido em duas tardes, foi dividido em etapas: (a) as alunas apresentaram três notícias verdadeiras e três falsas. Os idosos foram convidados a identificar quais eram as verdadeiras e depois analisa- ram, juntos, as características das fake news; (b) depois as alunas escreveram 5 DIGITAL, Revi. EcoCiclo. Joinville, 21 out. 2024. Instagram: @revidigital.ielusc. Disponível em: https:// www.instagram.com/reel/DBZ2xyQMaMq/. Acesso em: 21 mar. 2025. https://www.instagram.com/reel/DBZ2xyQMaMq/ https://www.instagram.com/reel/DBZ2xyQMaMq/ 60 em papel kraft (em letras bem grandes) as características que haviam sido identificadas nas notícias falsas. Assim, montaram um checklist que, jun- tamente com a cartilha impressa, distribuída aos idosos, serviu de ferra- menta para averiguar a veracidade de outras notícias. A avaliação foi feita, principalmente, por meio de relato oral dos ido- sos logo após a finalização do checklist. Embora dois participantes tives- sem uma postura mais negacionista, todos participaram, comentaram suas experiências e lembraram de fake news de que foram vítimas. Figura 3: Fotos das oficinas Fotos: Acervo Ielusc. Em 2022, um dos grupos realizou a oficina “Jornalismo no Mundo Digital” com alunos do 3o ano do ensino médio da Escola de Educação Básica Professora Juracy Maria Brosig (bairro Paranaguamirim) com o objetivo de ajudá-los a compreender as diversas formas de fazer jornalismo (em áudio, vídeo, texto) para os meios digitais e a importância da infor- mação de qualidade. A intenção foi fazer os estudantes se sentirem pro- tagonistas do fazer jornalístico (desde a escolha da pauta até a execução). O tema escolhido foi as dificuldades dos estudantes do ensino médio no período noturno. O resultado final foi publicado na Revi6. Em 2023, um dos grupos realizou uma oficina de podcast para alu- nos do ensino médio do CEDUP (Curso Profissionalizante em Marketing). Após conversa introdutória sobre tipos de podcast, técnicas de entrevista, 6 Estudantes de escola de Joinville enfrentam desafios no período noturno. Revi, Joinville, 11 nov. 2022. Disponível em: https://revidigital.ielusc.br/index.php/2022/11/11/estudantes-de-escola-de-joinville- enfrentam-desafios-no-periodo-noturno/. Acesso em: 21 mar. 2024. https://revidigital.ielusc.br/index.php/2022/11/11/estudantes-de-escola-de-joinville-enfrentam-desafios-no-periodo-noturno/ https://revidigital.ielusc.br/index.php/2022/11/11/estudantes-de-escola-de-joinville-enfrentam-desafios-no-periodo-noturno/ 61 aplicativos de gravação e edição de áudio, os estudantes (em equipes) pro- duziram seus próprios podcasts. Ao todo, 21 jovens participaram da oficina, divididos em seis grupos. Na avaliação, todos os estudantes aprovaram a atividade com nota máxima. Em 2024, duas acadêmicas realizaram uma atividade na cidade de São Bento do Sul, onde uma delas reside. A oficina envolveu os participantes do projeto social Salve Rua e levou aos jovens da pista de skate de Serra Alta uma vivência prática sobre cobertura esportiva. A atividade reuniu 11 crianças e adolescentes, com idades entre 5 e 15 anos, para uma expe- riência que combinou teoria e prática sobre captação de imagens, fotogra- fia, técnicas de entrevista e gravação com câmera. A abordagem interativa aliou diálogos sobre o jornalismo esportivo a exercícios práticos, nos quais os participantes se dividiram em funções para simular a cobertura de um evento, utilizando câmeras, microfones e aplicativos acessíveis. A ação teve como objetivo incentivar os participantes a produzirem conteúdos sobre o universo do skate, esporte que move o projeto Salve Rua desde sua criação, em 2014. Com atendimento gratuito e 100% voluntário, o projeto acolhe cerca de 30 jovens e busca afastar crianças e adolescentes de situações de vulnerabilidade, promovendo a atividade física e desco- brindo talentos locais. A oficina aproximou os jovens do Jornalismo, ao mesmo tempo em que fortaleceu o propósito do projeto de usar o esporte como ferramenta de transformação social. Seguindo essa mesma linha metodológica, em que cada estudante ou grupo define uma entidade com a qual irá trabalhar, a disciplina de Comu- nicação Organizacional propôs a criação de Planos de Comunicação Inte- grada (PCI) para entidades ou pequenos negócios. A atividade foi estru- turada em etapas, contemplando desde a análise situacional até a entrega do planejamento final, com definição de objetivos, estratégias, execução de pelo menos uma ação prevista e mensuração de resultados. Além da aplica- ção prática dos conceitos, a experiência reforça a importância do trabalho em equipe, da organização e do relacionamento com os clientes – desafios que fazem parte da atuação profissional. A aproximação com organizações da comunidade também evidenciou o papel da extensão na formação aca- dêmica, ao fornecer vivências que ampliam a compreensão sobre as neces- sidades de comunicação das entidades locais e fortalecem o compromisso social da graduação em Jornalismo. 62 Eventos Em maio de 2024, uma proposta interdisciplinar das disciplinas de Realidade Regional, ministrada pela professora Valdete Daufemback; Antropologia, ministrada pela professora Bárbara de Jesus; e Psicologia e Comunicação, de responsabilidade do professor Nasser Haidar Barbosa, culminou na realização de uma live em forma de coletiva de imprensa sobre o enfrentamento à violência contra a mulher. O evento aconteceu no Centro de Direitos Humanos Maria da Graça Braz e contou com a presença de três mulheres que lutam pelo fim da vio- lência contra a mulher em Joinville: Ana Lúcia Martins, vereadora; Ana Paula Chaves, advogada; e Larissa Stephanie Pereira, professora. A atividade envolveu mapeamento da violência contra a mulher em Joinville; estudo teórico e pesquisa sobre o tema; busca de fontes para o debate; criação de grupos de trabalho (repórteres; produção; cerimonial; divulgação); filmagem, transmissão ao vivo e participação da coletiva; edi- ção e disponibilização do material. Figura 4: Coletiva de imprensa transmitida ao vivo Foto: Acervo Ielusc. 63 Em junho de 2023, um evento chamado Intercâmbio Cultural envolveu seis disciplinas dos cursos de Jornalismo e Psicologia. Os docentes envolvi- dos na atividade extensionista (Marília Moraes, Mariana Datria Schlutz, Nas- ser Barbosa, Patrícia Villar, Jonas Daniel Pôrto e Valdete Daufemback), junto dos respectivos discentes organizaram o evento, realizado na sede da Asso- ciação de Moradores da Entrada dos Espinheiros em uma tarde de sábado. O Intercâmbio Cultural consistiu em uma partilha gastronômica e de vivências entre professores, estudantes, lideranças do bairro Comasa e famílias de imigrantes haitianas e venezuelanas. Na programação, pratos típicos, música, brincadeiras e sessão de fotografias. Figura 5: Intercâmbio cultural Desafios e oportunidades Os movimentos dialógicos apresentados até aqui traçam o caminho percorrido pela extensão universitária e nos convidam à reflexão, com o objetivo de fomentar o debate sobre a qualificação dos processos de manutenção e execução das práticas extensionistas. Embora a seção ante- rior tenha destacado algumas práticas bem-sucedidas de uma instituição, 64 há inúmeras outras que acontecem com frequência quase natural. Isso ocorre porque, como mencionado anteriormente, a extensão já estava presente nos currículos dos cursos de Jornalismo, mesmo antes da obrigatoriedade. Além disso, o primeiro ponto de discussão reside em um consenso entre pesquisadores, docentes e profissionais envolvidos em atividades extensionistas: o Jornalismo carrega, em sua essência,a prática extensio- nista, pois todo conteúdo jornalístico deve ser produzido para e pela socie- dade. Esse debate foi, inclusive, um dos temas do II Simpósio Catarinense de Ensino de Jornalismo, realizado pela Universidade Federal de Santa Catarina, em 2024, e que deu origem a este livro. Meneses, Souza e Teske (2018, p. 17), ao analisar a contribuição da extensão para a formação integral do discente sob o ponto de vista da valo- rização de identidades locais, traça a relação entre a prática extensionista e as comunidades. Os autores são categóricos em afirmar que a “extensão é um dos processos mais importantes na formação do jornalista para criar vínculos com as comunidades”. Dessa forma, a extensão contribui para construir laços de pertencimento e reconhecimento na comunidade, tor- nando-se um importante instrumento de ensino para os docentes, de for- mação para os alunos e de visibilidade e cidadania para as comunidades. Apesar desse entendimento, é fundamental problematizar sua aplicação no contexto contemporâneo. Embora a prática jornalística tenha a sociedade como público-alvo, a extensão exige que o processo seja dialógico, isto é, deve haver uma troca mútua de saberes e experiências, em vez de apenas um fluxo de conteúdo acadêmico para o público. Conforme Oliveira (2023), essa reflexão pode começar a partir de como os cursos de Jornalismo estão respondendo à curricularização da extensão, repensando o sentido da for- mação jornalística. Baseando-se na crítica de Paulo Freire (1979), que aler- tava para a redução da extensão universitária a um processo unidirecional de transmissão de conhecimento, é necessário garantir que o saber popular seja reconhecido e que haja diálogo com os sujeitos das ações de extensão. Portanto, a extensão não deve se limitar a levar conhecimento acadê- mico para comunidades específicas, mas deve ser um processo de intercâm- bio, permitindo o aprendizado mútuo e a troca de saberes. Aplicando essa perspectiva ao jornalismo, surgem novas questões, especialmente sobre a necessidade de reposicionar as práticas jornalísticas, revisando a linguagem e as estruturas tradicionais (Saback, 2024). Isso implica ajustar as rotinas do jornalismo para atender às expectativas das atividades extensionistas. 65 Além dessas reflexões teóricas, existem desafios práticos que merecem atenção especial: (a) mensuração do impacto; (b) relacionamento com a comunidade/local atendido; (c) engajamento dos acadêmicos. A mensuração do impacto é um dos principais obstáculos, uma vez que os resultados das atividades extensionistas em Jornalismo são frequen- temente qualitativos. Isso exige metodologias robustas para demonstrar o valor social dessas ações. Adicionalmente, há o desafio de engajar órgãos públicos e entidades do terceiro setor, que já participam de outras inicia- tivas extensionistas, o que pode limitar seu interesse ou disponibilidade para novas parcerias. Esse cenário é agravado pela falta de conscientização da comunidade externa sobre o potencial das atividades extensionistas no jornalismo, o que exige um esforço contínuo de sensibilização. Interessa observar que o entrave é compartilhado com outras instituições como mostram Meneses, Souza e Teske (2018, p. 24): “Sob outro aspecto, a difi- culdade de garantir que a comunidade tenha algum nível de participação, nos três níveis de implantação dos projetos – no planejamento, na efetiva execução e na avaliação, é outro desafio apresentado”. Outro ponto crucial é o engajamento dos acadêmicos em atividades fora do horário regular de aula. Como muitos estudantes de jornalismo têm atividades profissionais durante o dia, a dedicação às atividades exten- sionistas pode ser dificultada. Portanto, é necessário buscar estratégias que conciliem a agenda dos alunos com as demandas das atividades propostas. Contudo, desafios e reflexões não limitam o poder da extensão no curso de Jornalismo, tornando as perspectivas promissoras, especialmente quando se reconhece a crescente importância do papel da universidade na transformação social. Ao integrar os saberes acadêmicos e populares, a extensão pode não apenas inovar as práticas comunicacionais, mas tam- bém contribuir para o desenvolvimento de soluções criativas e eficazes para os desafios da comunidade. Considerações finais As experiências relatadas ao longo deste capítulo permitem uma reflexão final sobre o papel da extensão na formação acadêmica e na inte- gração entre universidade e sociedade. Embora os desafios estejam pre- sentes no processo de execução das atividades extensionistas, fica evidente 66 que os princípios da extensão – defendidos por autores já mencionados e por docentes e pesquisadores da área –, como o caráter dialógico entre academia e sociedade, a troca de saberes entre comunidade acadêmica e comunidade externa e a aplicação prática do conhecimento teórico para atender demandas sociais, são atendidos ou, ao menos, buscados com empenho por quem atua na linha de frente. Quando estudantes vão até comunidades em situação de vulnerabilidade social para ouvir suas histórias de vida, compreender necessidades e relatar essas vivências por meio de um produto jornalístico, o caráter extensionista da ação ganha protagonismo. Mesmo que o impacto gerado não resulte em mudanças imediatas, o simples ato de amplificar a voz e se colocar como mediador da realidade reforça o papel do ensino superior como ponte na geração de conhecimento e na valorização dos saberes populares. Além disso, ao conhecer outras culturas, costumes e modos de vida, o acadêmico amplia sua percepção de mundo, compreendendo que o Jornalismo que aprende na sala de aula e ensina na comunidade é o mesmo que o transforma em cida- dão mais sensível e comprometido com o coletivo. A partir da análise da curricularização da extensão, conclui-se que essa proposta representa um marco significativo na integração entre universidade e sociedade. Ao inserir as práticas extensionistas de maneira estruturada no currículo, cria-se um ambiente mais dinâmico e inclusivo, no qual o apren- dizado vai além dos limites da sala de aula. O curso de Jornalismo tem se destacado por adotar práticas extensionistas de longa data, com o objetivo de formar profissionais mais comprometidos com as necessidades da comuni- dade e com a construção de uma sociedade mais justa e informada. A experiência com disciplinas como Jornalismo Comunitário, que envolvem diretamente a comunidade na produção de conteúdo e em ações concretas, ilustra o potencial transformador da extensão no ensino supe- rior. Essas práticas não apenas enriquecem o processo de aprendizagem, mas também aproximam o jornalismo das realidades locais e das deman- das sociais. A curricularização, ao sistematizar essas atividades, fortalece o compromisso da universidade com a sociedade, tornando o estudante não só um profissional capacitado, mas um agente de transformação social. Contudo, o processo de implementação e consolidação da curricula- rização da extensão no Curso de Jornalismo apresenta desafios que exi- gem constante reflexão e aprimoramento. A escuta ativa da comunidade, o estabelecimento de parcerias e o desenvolvimento de ações que realmente 67 atendam às demandas locais são etapas fundamentais para garantir o sucesso das práticas extensionistas. Além disso, é necessário que haja maior conscientização e engajamento tanto dos docentes quanto dos estudantes para que essas práticas se consolidem como parte integrante da formação acadêmica. A contínua aproximação entre a universidade e a sociedade, por meio de ações extensionistas, potencializa o impacto do ensino e da pesquisa na resolução de problemas reais, reafirmando o papel social da universidade. Referências BRASIL. Lei no 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação e dá outras providências. Brasília, DF. 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Prevista nas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do Jorna- lismo, a exigência apresenta limitações, conforme manifestaram os coor- denadores de cursos do país, em encontros virtuais organizados pela Asso- ciação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej), em 2024. Dentre algumas situações positivas e negativas relatadas (questões sobre ensino, pesquisa, extensão, estruturais, de pessoal, recursos, de princípios, econômicas, tec- nológicas, sociais e culturais diferenciadas nas experiências do Norte, Sul, Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste), evidenciou-se a necessidade de meca- nismos que assegurem acesso e qualidade nos estágios obrigatórios. Não existem núcleos dedicados a ensinar e pesquisar constantemente e com profundidade este importante meio para formação profissional superior. Há décadas os campos universitário e profissional debatem o assunto. No entanto, as discussões vão e voltam sob paradigmas que merecem apro- fundamento. Sem base permanente de dados para estudos específicos, os coordenadores correm em busca de soluções para remendo de seus proble- mas, desprovidos de parâmetros inovadores. Recaem sobre eles as deman- das dos estudantes que, conforme pesquisa de Cruber (2024) – apresen- tada no II Simpósio Catarinense de Ensino de Jornalismo na UFSC, em novembro de 2024 – enfrentam sofrimento ético em ambientes nos quais estagiam. Já assinalavam Sardinha, Moralis e Silva (2013, p. 160): “O está- gio é um momento de grande experiência para o aluno, mas é também um 1 Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), jornalista pela Universidade Fe- deral de Santa Catarina (UFSC). Diretora regional Sul da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej), integrante do Conselho Fiscal da Intercom e da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (UFSC). Professora aposentada pela Universidade Regional de Blumenau (FURB). E-mail: rlaurindo@furb.br 70 momento de dúvidas e conflitos que devem ser compartilhados com profis- sionais”. Um estudo comparativo entre áreas distintas poderia demonstrar os óbices de toda profissão que tem o estágio como oportunidade de aplica- ção dos ensinamentos acadêmicos, identificando diferenças, similaridades, padrões e tendências. As universidades e seus respectivos cursos fazem parte do contexto das crises profissionais, embora alguns docentes prefiram colocar-se à parte, reforçando o coro de críticas ao jornalismo, sem, muitas vezes, refletir sobre soluções plausíveis. Na trincheira do saber/fazer, os coordenadores são convocados a oferecer respostas efetivas e acabam assumindo indivi- dualmente responsabilidades de teor coletivo. O estágio voltou a ser obrigatório nas DCNs homologadas pelo Minis- tério da Educação em 2013. Antes disso, passou por várias etapas, já tendo sido obrigatório, depois facultativo e posteriormente proibido, conforme regulações sucessivas. Isso no que diz respeito a inserções curriculares, pois, independentemente, os não obrigatórios são regulados pela Lei do Estágio (no 11.788/2008, artigo 1o, § 2o). Mesmo antes de 2013, docentes da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) publicavam artigo com um balanço sobre o estágio na instituição, implementado desde o primeiro semestre letivo de 2010, pois a Unemat promulgou resolução própria com base na lei geral dos estágios e no relatório tornado público em 2009 pela Comissão de Especialistas em Jornalismo instituída pelo MEC, mais tarde homologado como DCNs. Considerações bastante atuais: Como proposta, o estágio em Jornalismo é consenso enquanto possibilidade. Ao converter-se em uma ação programada, pactuada e executada, nota-se que os pactos para operacionalizar o estágio acabam fragilizados pela ausência de fundamentos pedagógicos, ca- pazes de legitimá-los no conjunto das preocupações sobre o ensino e a formação (Sardinha; Moralis; Silva, 2013, p. 151-152). Dez anos depois da obrigatoriedadecurricular nas DCNs, os estágios nas cidades do interior do Brasil e nas capitais assumem contornos distin- tos, mas em comum reafirmam o tensionamento entre ambientes profissio- nais e acadêmicos. Reside aí o antigo nó à espera de novos paradigmas, sem o que as discussões ignoram causas complexas e desafiadoras da atualidade. 71 O pano de fundo inclui concepções sobre ensino partilhadas entre empresas, sindicatos e universidades e restrições quanto à dimensão do estágio como espaço para legitimar e fortalecer tanto o campo profissional como o do ensino e pesquisa (campo de conhecimento) (Sardinha; Moralis; Silva, 2013, p. 152). Na região paranaense de Cascavel, por exemplo, há grande oferta de vagas para estagiários, mas os professores reclamam da depreciação das práticas jornalísticas por empresas que exigem de seus colaboradores per- formances instagramáveis em detrimento de apurações, entrevistas e repor- tagens. Enquanto isso, professores quebram a cabeça para incluir inovações no currículo, sem desprezo da profissão. Por racionalidade administrativa, a Universidade Regional de Blume- nau (FURB), depois de dez anos de DCNs consolidadas, assume o risco, em 2025, de alargar algumas disciplinas em turmas conjuntas com Publicidade e Propaganda, como “Produção de conteúdo para redes sociais”. De que modo os professores vão garantir o caráter epistêmico de ambas as áreas no desempenho dos estudantes nos estágios, só o tempo dirá. Lembrando que a profissão publicitária é tão ou mais desregulamentada que a jornalística. Décadas atrás a proibição do estágio se justificava pelo receio de exploração de mão de obra nas empresas e pela falta de laboratórios e consequentes práticas jornalísticas nos cursos. Nos dias de hoje, porém, a produção nas universidades é pujante como se pode comprovar em even- tos como Expocom, da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares de Comunicação (Intercom). O que sobressai na atualidade é o interesse dos estudantes pelo estágio como vivência profissional – pavor de muitos jovens, especialmente da geração Z, mais vulnerável às relações interpes- soais – e remuneração. O ideal de estágio é um estorvo para sistemas massificados de ensino e ambientes de trabalho autoritários e mercenários, ambos refratários ao contraditório. Mas enriquece perspectivas transparentes e democráticas baseadas em processos participativos entre docentes, discentes e jornalistas no campo de trabalho. Se a formação profissional pretende uma totalidade, deve envolver “conhecimento, aspectos afetivo-emocionais, habilidades, atitudes e valores” (Sardinha; Moralis; Silva, 2013, p. 158), situando a prática do estágio como polissêmica, para descobertas de dinâmicas sociais, não confundindo a preparação para a profissão com mera busca de emprego. 72 Não obstante, é inegável que o estágio também possa servir de passaporte para o trabalho, ancorado em experiências de sucesso de egressos. Trata-se de um movimento complementar e muitas vezes contradi- tório entre universidade e mercado profissional. Se a formação não deve simplesmente conformar-se a demandas do mercado, as quais, sob pretexto das especialidades, competência e rigor técnico, acabam por condicionar socialmente algumas ações, por outro lado, não pode, também, desconsi- derar tais exigências, uma vez que a universidade tem responsabilidade de preparar profissionais justamente para inserção no amplo sistema social de trabalho. O estágio deveria tornar-se em potente núcleo de conhecimento entre instituições formadoras e mercado de trabalho, problematizando todo contexto para o qual as instituições de ensino superior preparam cida- dãos profissionais. Salários baixos antes, durante e depois da formação superior são des- motivadores, segundo a coordenadora do curso de Jornalismo do Insti- tuto Superior e Centro Educacional Bom Jesus/Ielusc de Joinville, Marí- lia Moraes, na luta pelo cumprimento do estágio obrigatório. Ela lembra que cedo os jovens trabalham com salários que comparam de imediato aos valores das mensalidades universitárias, em instituições pagas onde a angústia para dar conta das prestações passa a ser um sofrimento também dos coordenadores empenhados em fechar turmas. É o que acontece igual- mente na Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Contudo, a coordenadora Bibiana de Paula Friderichs, da UPF, reforça os ganhos obti- dos para a formação superior em Jornalismo com as DCNs, os quais “não se pode perder” e acredita que o constante tensionamento quanto à apro- ximação das tendências do mercado desafia mais a se pensar em “como” ensinar do que em “o que” ensinar. A exploração de estagiários não é um fenômeno atual nem exclusivi- dade das empresas brasileiras, como se vê na tese de doutorado de Valverde (2006) ao trazer situações de outros países. Na Europa muitas empresas contratam alunos dos últimos anos dos cursos de Jornalismo, pagando abaixo do piso ou, muitas vezes, até de graça. Os estudantes, como ocorre por aqui, muitas vezes aceitam estagiar nessas condições, sob o pretexto que estão aprendendo a prática, além da ilusão criada de uma possível contratação assim que terminarem o curso (Valverde, 2006, p. 117). 73 A vice-chefe do Departamento de Jornalismo da Unicentro, no Paraná, Elisa Roseira levanta a questão do estado de ânimo e vulnerabi- lidade dos universitários da geração pós-pandemia, acentuando indica- dores de evasão e pedidos de acompanhamento pedagógico. Conclama urgência por intervenções formativas para o corpo docente, perante a falta de interesse estudantil por diversas disciplinas. Permanentemente, a instituição recebe propostas de estágio home office, sobre as quais não há diretrizes. Nesse contexto, Fábio Luiz Witzki, coordenador na Universi- dade Tuiuti do Paraná, defende que é fundamental a ampla divulgação do leque de opções no campo de trabalho jornalístico, cada vez mais dinâ- mico e diversificado. Nuances da problemática se repetem seja em instituições privadas ou públicas, municipais, estaduais ou federais, como na Universidade Fede- ral de Santa Catarina, onde a ex-coordenadora de curso, Valentina Nunes, observa mudanças no perfil dos estudantes que, mesmo sem pagarem mensalidades, procuram sustentação financeira para se manter na capital catarinense. Na UFSC, tem se repetido a demora de muitos alunos na integralização da carga horária. Alguns preferem desde cedo contar com salários que lhes pareçam oportunos em setores de marketing e asses- sorias. Casos de estágios não obrigatórios acabam sendo convalidados como curriculares obrigatórios. Nesta linha, a Universidade Federal de Tocantins (UFT) procura refazer os termos de compromisso quando há a possibilidade de convalidação. Antes de vigorar o obrigatório, no segundo semestre de 2014, a UFSC contava com 81 estágios em andamento (Silva, 2015), com a imensa maioria atuando em empresas e instituições públicas, sob predomínio de assesso- ria de imprensa e jornalismo online. Pesquisa monográfica de Silva (2015) traz dados completos, desde as intenções estudantis até os valores pagos aos estagiários, passando por tipo de atividade que realizavam, em análises que merecem ser atualizadas comparativamente. “O que se revelou ser o ‘Calcanhar de Aquiles’ dos estágios dos estudantes de Jornalismo da UFSC é a orientação docente, peça-chave na efetivação do papel pedagógico do estágio” (Silva, 2015, p. 112). Os professores queixaram-se do predomínio burocrático nas ações de coordenação, funções que poderiam ser estendi- das a servidores técnicos, cabendo aos docentes um contato mais estreito com os locais de trabalho. Para muitos alunos, tratava-se de uma ocupação profissional sem o teor pedagógico que o estágio ensejaria. 74 Um cenário mais confiante de inserção profissional por meio da for- mação está por ser desenhado. Sem ele é sempre frágil qualquer regulação, por isso algumas instituições olham para as DCNs conforme o nome diz: diretrizesque implicam flexibilidade. As diferentes gerações demandam permanentes estudos, sobretudo pela velocidade das transformações da sociedade tecnomidiatizada. É fundamental para o ensino de Jornalismo a compreensão e criação de estratégias, por exemplo, quanto a estudantes que só consomem informação pelas redes sociais. Como presidente do Núcleo Docente Estruturante do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Sergipe (UFS), Michele da Silva Tavares preocupa-se com o desinteresse dos alunos pelos conteúdos jornalísticos e com o fato de que a maior parte das vagas para estágio é em assessorias, numa discrepância entre o que estudam e onde precisam atuar. Como motivá-los a valorizar produções de credibilidade é o questionamento do coordenador Basílio Sator, da Uni- versidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele acrescenta ainda que as inclusões positivas vividas hoje nas instituições de ensino superior carecem de políticas correspondentes, para contemplar a diversidade atual de alunos que estudam e trabalham na escala 6x1, em shoppings, como motoristas de aplicativo, entre outros, ao lado daqueles que, por sua vez, viajam uma vez por ano para Europa. Com certeza o estágio terá valor dife- rente para cada segmento. Além disso, grupos de neurodivergentes exigem capacitação docente, entre outros suportes. Francesco Flávio da Silva, coordenador de Jornalismo da Unochapecó, traz a realidade de instituições que procuram, nos coordenadores, um tipo de gestor que administre outras graduações que não apenas o Jornalismo. Na instituição, com Metodologia de Aprendizado Baseado em Experiência, percorre-se um caminho que vem dando certo, porém Francesco percebe que da propalada crise entre mercado e academia há que se observar o que entidades como a Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e TV (Acaert) vêm sinalizando como perfis de seus consumidores. Considera importantíssimas as ações conjuntas entre instituições que lidam nas várias frentes do Jornalismo. Ayoub Hanna Ayoub, da Universidade Estadual de Londrina, defende que as experiências que dão certo precisam ser mais divulgadas. Entende que o “mercado destruído”, a não exigência do diploma e o descrédito da imprensa nos últimos anos, são pilares da situação atual. Contudo, observa que iniciativas como política de cotas mudaram o cenário universitário, 75 com a entrada de pessoas que valorizam as condições recebidas para ingres- sarem. Todavia, na sua opinião, não deveria existir estágio obrigatório e argumenta que o assunto deva ser discutido com entidades sindicais. Vinte anos atrás, o XXXII Congresso de Jornalistas aprovou um Pro- grama Nacional de Projetos de Estágio Acadêmico em Jornalismo (Fenaj, 2006). Depois das DCNs de 2013, a Fenaj e o então Fórum Nacional de Professores de Jornalismo (atual Abej) redigiram uma proposta conjunta com orientações gerais para regulamentos de estágio curricular supervisio- nado em Jornalismo (Fenaj, 2015). No Paraná, o sindicato dos jornalistas chegou a incluir cláusulas em relação ao estágio em convenções coletivas, na tentativa de impedir exces- sos que desemboquem na exploração de mão de obra. Uma das medidas é a fiscalização compartilhada. Quase todas as empresas “não possuem um projeto de desenvolvimento de estágios, portanto é preciso elaborar, em conjunto com todos os setores envolvidos, um que atenda todos os pre- ceitos pedagógicos.” (Valverde, 2006, p. 180). Para tornaram-se efetivas, as normas necessitam de ações comuns entre universidade, empresas e sindi- catos, articuladas em algum núcleo permanente. Torna-se claro que enfrentar os desafios simplesmente proibindo o estágio soa como saída fácil diante de tamanha complexidade, como lavar- -se as mãos, tapar o sol com a peneira. Além do mais, ir-se-ia na contramão da aspiração das atuais gerações e das urgentes dinâmicas profissionais. A negação provoca mais insatisfação nos jovens interessados em estudar Jor- nalismo, além de virar as costas para os desafios inter-relacionais de onde, quiçá, possam surgir inovações. Também já houve vigência no passado do formato facultativo, flexi- bilidade que por um lado pode aprofundar o fosso entre instituições com maior ou menor condições, recursos e rigor. Uma profissão que se pretende regulamentada exige parâmetros nacionais, sem os quais se engrossa o cal- deirão que alimenta justamente os movimentos contra a regulamentação do Jornalismo em suas várias frentes. Atualmente, os cursos de Jornalismo têm a possibilidade de criar sua própria regulamentação para o estágio, uma vez que as orien- tações das diretrizes nesse aspecto são bastante genéricas. Desse modo, cada curso terá que encontrar um ponto de equilíbrio en- tre seguir as Diretrizes Curriculares à risca e ajustá-las à realidade 76 socioeconômica e cultural do seu entorno, da instituição e da região onde está inserido (Carvalho; Mota, 2024, p.3). Para que o ensino superior busque correspondência ao melhor das práticas profissionais e fortaleça as lutas pelo restabelecimento da obrigato- riedade do diploma – sem o qual a formação em Jornalismo enfraquece –, valeria esforço para serem criadas normas similares a outras profissões que possuem conselhos (contadores, psicólogos, professores, engenheiros, enfermeiros, fisioterapeutas, advogados, agrônomos etc.). A realização de pesquisas comparativas poderia ajudar para que as lutas não fiquem reféns de discursos e bandeiras que não equivalem a práticas possíveis. Agendas regionais de trabalho No centro das decisões nacionais, a Universidade de Brasília (UnB) também registra o desejo dos alunos por estágios desde o primeiro semes- tre de estudos. A capital federal oportuniza estágios bem remunerados, mas em consequência ocasiona corrida precoce pelo trabalho e distan- ciamento de atividades de iniciação científica, entre outras vivências de maior dedicação ao ambiente universitário. A Universidade Federal de Goiás (UFG), por sua vez, tenta regular a sanha pelo trabalho ao liberar o estágio obrigatório apenas dentro da instituição, para garantir maior controle, com a exigência de jornalistas formados na supervisão. Mesmo assim, não deixa de receber reclamações por suposto uso de mão de obra indevida. A experiência na UFG deve resultar, em 2025, em livreto com um manual de estágio obrigatório, referência a ser compartilhada para maiores reflexões. O quadro de desertos de notícias no Brasil tão bem mapeado pelo atlas. jor.br valeria como balizador para projetos de formação em Jornalismo aliados a demandas nacionais, com protocolos inovadores entre empresas e universidades, visando ao preenchimento das lacunas. No Centro-Oeste, a redução de iniciativas jornalísticas aumenta os esforços de institui- ções como a Unemat, onde os estudantes querem estágio como forma de remuneração. Encaram desafio redobrado de convalidação, já que muitas empresas não possuem profissionais diplomados. O coordenador Gibran Luis Lachowski exalta urgência das campanhas em defesa do diploma, 77 do campo de profissionalização com atuação ampla e dos cursos de Jorna- lismo como ativos na agenda cultural e social das respectivas regiões. A pressão pelos estágios fez parte de reivindicações estudantis históri- cas. Mas se no passado apoiavam-se na necessidade de práticas na aca- demia, similares ao que seria feito tão somente em ambientes de traba- lho, na atualidade, de ampla realização de produtos laboratoriais nas uni- versidades em semelhança com o mercado, o que vem à tona é a ânsia de conhecimento pelo mundo do trabalho, pela vivência extra campus, busca de recursos financeiros e atração que o ethos empreendedor no campo da Comunicação vem impulsionando, incentivador de habilidades comunica- tivas que monetizam. Estamos diante de uma realidade a ser pensada em paralelo à proble- mática dos desertos de notícias e aos compromissos regionais que a for- mação superior enseja. Boa parte dos estudantes caça os ambientes onde querque os caminhos da resistência passam pela coragem e a luta, mas também pela alegria. Paulo Freire ensinou que “espe- rançar” não pode ser esperar por um futuro melhor, mas começar a fazê-lo aqui e agora, onde e na situação em que se esteja. E a história demonstra que não há poder que não balance quando os que estão a ele submetidos passam a atuar unidos e organizados pela sua superação. Nessa perspectiva, uma pedagogia e um jornalismo emancipatórios podem ser instrumentos de semeadura de consciências críticas e militan- tes, indispensáveis para construir uma sociedade solidária, plural, demo- crática, inclusiva e livre de todas as formas de opressão. Consciências que neste momento não podem se acomodar diante da crise e da brutalidade que ameaça a todas e todos, e até a vida no planeta. O e-book que está na sua tela traz trabalhos apresentados e reflexões suscitadas por eles no II Simpósio Catarinense de Ensino de Jornalismo, realizado na UFSC em novembro de 2024. O evento foi realizado no âmbito da disciplina “Formação Profissional”, ministrada no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo por mim. A disciplina, o evento e este livro, no conjunto, dão continuidade a um projeto maior de ensino, pesquisa e divulgação científica, iniciado em 2016 com a criação das disciplinas “Pedagogia do Jornalismo” e “Paulo Freire 11 e o Jornalismo” no PPGJor da UFSC, que resultaram nos livros O Ensino de Jornalismo sob as Novas Diretrizes, de 2018 (impresso) e Pedagogia do Jornalismo: desafios, experiências e inovações, de 2020 (impresso e e-book). Em 2021 e 2022, a experiência foi levada ao PPG da Faculdade de Comu- nicação da Universidade de Brasília (UnB), com o oferecimento, como professor visitante, das disciplinas “Pedagogia da Comunicação e Poder” e “Paulo Freire e a Comunicação”, que também resultaram em livros: os e-books Comunicação e Pedagogia Emancipatória, publicados em 2023 (dois volumes), todos pela Editora Insular de Florianópolis, em cujo site (insular.com.br), podem ser livremente acessados. Neste ponto do percurso, no balanço do muito que aprendi nas trocas de aprendizagem com alunas, alunos e colegas, o que me preocupa e me motiva a continuar pesquisando, depois de aposentado, é a aterradora sen- sação de que fomos confinados – pelos algoritmos, pela segmentação das audiências e pela nova economia da atenção – numa bolha que só consegue conversar consigo mesma. Falando a pares e a semelhantes, numa lingua- gem e numa lógica que só pares e semelhantes acompanham, deixamos de fazer sentido para a maioria da sociedade. A facilitação de diálogo com os públicos que a tecnologia trouxe ainda não foi aproveitada, a não ser para fins mercadológicos bem tacanhos. A abertura para comentários às notícias e vídeos nunca foi levada a sério ou trabalhada para um verdadeiro diálogo, como o que nos ensina Paulo Freire. Um diálogo que partiria necessariamente da pesquisa do universo vocabular e do universo simbólico de cada público, do esforço sincero de ouvir as pessoas e compreendê-las, antes de falar para elas na ilusão de que nos compreendem. Se isso é dramático para a ciência, a cultura e suas instituições, impacta- das e atacadas pelo terraplanismo e o negacionismo crescente, é ainda mais fatal para o jornalismo de qualidade, que há décadas vem perdendo público sem esboçar qualquer reação capaz de reverter essa queda. Daí a necessidade de repensarmos tudo o que fazemos, a começar pelo ensino da profissão. Este e-book procura colaborar, ainda que modestamente, nesta dire- ção, trazendo estudos que, no conjunto, adotam uma postura crítica e ino- vadora em muitos aspectos do ensino e da prática do jornalismo. Florianópolis, abril de 2025. 12 P R E F Á C I O Valores para “esperançar” o ensino de Jornalismo Prof. Dr. Carlos Locatelli Coordenador do PPGJor da UFSC Que o jornalismo passa por intensa pressão nesta nova ecologia comu- nicacional sequer é novidade, mas premissa de qualquer análise. São pressões oriundas de muitas frentes: das inovações técnicas, do mercado, da política, das novas sociabilidades etc. Em síntese, o jornalismo contem- porâneo certamente parece pouco com o jornalismo do final do século XX. Especialmente o jornalismo de referência, aquele referenciado pelo com- promisso com a democracia. Se o jornalismo mudou há que se perguntar no que se transformou, tanto do ponto de vista técnico quanto dos valores que socialmente o con- duziram à condição de instituição moderna. Refletir sobre e responder essa questão é essencial para quem pretende fazer um jornalismo socialmente responsável. Mas também é essencial para quem ensina jornalismo. Afinal, como vemos e agimos diante de todas essas mudanças? O que problematizamos e ensinamos na graduação e na pós-graduação? O ambiente é hostil para quem se propõe a fazer jornalismo. E também é para quem se propõe a ensiná-lo. Está difícil atrair e reter jovens interessados na formação de uma pro- fissão desregulamentada, ofertar conteúdos e práticas compatíveis com a velocidade das mudanças, concorrer com a proposta algorítmica da produ- ção de conteúdo, enfrentar a ignorância ética e política do mercado. Neste ambiente, o Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC se mantém firme desde 2007 na proposta de refletir, discutir, pes- quisar e ensinar jornalismo sob uma perspectiva crítica, inclusiva, eman- cipatória, verdadeiramente comprometida com valores democráticos. As transformações nos afetam, é fato, mas são esses valores que nos permitem navegar em águas tão incertas. 13 Este livro é a concretude desta convicção. Ele nasce das leituras e dis- cussões em sala de aula, na disciplina Formação Profissional, ministrada pelo professor Eduardo Meditsch; se transforma em pesquisa e produção acadêmica na forma de artigos produzidos pelos alunos, e é compartilhado como extensão no II Simpósio Catarinense de Ensino de Jornalismo, rea- lizado na UFSC em novembro de 2024, que reuniu os autores dos textos, professores de diversas universidades, representantes sindicais e jornalis- tas. Por fim, torna-se um e-book, compartilhando gratuitamente o conheci- mento gerado, cumprindo todas as funções de ensino, pesquisa e extensão que se espera da universidade pública. Seu conteúdo trata de questões candentes: Os desafios ao ensino, ao estágio e à extensão; como tratar a inclusão e a diversidade no ensino e como transmutar o conceito de pedagogia emancipatória à prática jorna- lística. O enquadramento da obra, como se percebe na apresentação dos organizadores, “aponta na perspectiva da Educação que liberta, assim como na de um Jornalismo que contribui para a emancipação”. Paulo Freire é onipresente, nos orgulha e dá esperança. O professor Eduardo Meditsch tem muitos méritos em sua carreira acadêmica. Isso está formalmente reconhecido por diversas instituições. Mas talvez seu maior mérito e legado seja a ponte que ergueu entre a edu- cação e o jornalismo, entre a pedagogia de Paulo Freire, o jornalismo e o ensino do jornalismo. Conforme suas próprias palavras no prefácio desta obra, essa relação nos oferece “caminhos de resistência, que passam pela coragem, a luta e a alegria”. Este livro organizado por Eduardo, Jaine Araújo, Giovanna Franco, Raphaela Ferro e Anderson Baltar, com textos de doze autores e discutido por outros tantos participantes dessa jornada é mais um belo ladrilho deste caminho. É mais um “esperançar”. Florianópolis, abril de 2025. 14 A P R E S E N T A Ç Ã O Jaine Araújo Giovanna Pavan Franco Raphaela Xavier de Oliveira Ferro Anderson Luiz Condor Baltar Eduardo Meditsch Os doze capítulos deste e-book foram escritos pelas respectivas autoras e autores a partir de apresentações realizadas e reflexões suscitadas pelo II Simpósio Catarinense de Ensino de Jornalismo, realizado na Uni- versidade Federal de Santa Catarina em novembro de 2024. O evento foi organizado pelo professor, alunas e alunos da disciplina “Formação Pro-atuar sem aval das instituições de ensino, tornando as relações aca- dêmicas muitas vezes sem a empatia social desejável na trajetória forma- tiva. Nesse sentido, indicações desde as normativas nacionais, com mais clareza quanto à elaboração de contratos, perfil profissiográfico, realidade nacional, dimensões empresariais/organizacionais e rastreamento do rigor profissional, colaborariam para melhores parcerias e resultados. Os coordenadores de curso, de estágio e professores em geral ficam à mercê da falta de balizas, de mecanismos regulatórios mais avança- dos, bastante limitados à lei geral de estágio não obrigatório, no mais da vezes ditada por áreas priorizadas na respectiva instituição. Cursos como Administração costumam dominar resoluções para o âmbito das Ciências Sociais Aplicadas, em virtude da predominância quantitativa em quase todas IES brasileiras. O interesse do estágio pelos jovens é tamanho que, em todo o país, registram-se casos de estudantes que cancelam disciplinas para fazerem valer seus contratos precoces de trabalho. Um cenário de distorções forma- tivas difíceis de serem mensuradas, dada a falta de pesquisas permanentes a respeito. A problemática do estágio em Jornalismo merece um núcleo constante de estudos, assim como grupos de trabalho e de investigação sobre tantos assuntos convergentes nas instituições e entidades brasileiras. Dentre os relatos e comunicações científicas apresentados nos even- tos das entidades que contemplam a área, poucos reportam e praticamente nenhum estudo sistemático acompanha o campo de estágio. À exceção, 78 Aline Rios discorre sobre regulamentos de estágio em 12 instituições bra- sileiras e conclui que “é preciso ampliar o intercâmbio de experiências e buscar soluções conjuntas, reconhecendo que é difícil pensar em uma regulamentação única em um país como o Brasil, marcado por tantas desi- gualdades sociais.” (Rios, 2020, p. 13-14). Neves e Loose (2017, p. 242) lembram que “a experiência com estágios não obrigatórios demonstra menos rigidez no acompanhamento das IES nas atividades desenvolvidas pelos acadêmicos” e que: é unânime entre os coordenadores tanto a afirmação de que não há supervisão aos estágios curriculares não obrigatórios pelos cursos, quanto é forte o ‘imaginário’ de que esta ocorra da parte do agente concedente do estágio. Muitas vezes, a supervisão não significa mais que a assinatura de uma lista de frequência ou mera conferência do plano de atividades do estagiário (Ramos, 2014, p. 4 apud Neves; Loose, 2017, p. 242). Os autores observaram experiências da Uninter, primeira instituição brasileira a graduar jornalistas na modalidade a distância. Acompanha- ram 61 alunos entre 2016 e 2017, matriculados em estágio supervisionado, sendo que quase a metade cumpriu as atividades em projetos da própria instituição e boa parte usou intervalos e fins de semana para dar conta, pois conjugou tais obrigações com trabalhos fixos de 40 horas. O estudo mostra agravante com EAD pois, no caso, “a fiscalização de qual atribuição o estagiário estará, de fato, executando fica ainda mais difí- cil – já que o professor da disciplina desconhece as características do local e o funcionamento das atividades jornalísticas de lá” (Neves; Loose, 2017, p. 248). Os pesquisadores, concluem: As atuais condições para estágio verificadas no estudo de caso realizado, que estão longe das premissas de processo de aprendiza- gem, aproximação da escola com mercado de trabalho e vivência da realidade de uma redação, serão inviáveis com o novo modelo incentivado pelo Ministério da Educação. Além da falta de super- visão de alguém da área, muitos estudantes não terão, de fato, uma aproximação com o mercado da comunicação – seja pela estrutura das cidades onde os cursos de EaD são ofertados, seja pela redução 79 de pessoal cada vez maior das empresas da área (Neves; Loose, 2017, p. 248-249). Ou seja, para a modalidade EAD o estágio revelou-se de acompanha- mento mais difícil ainda, sendo que a não obrigatoriedade facilitaria esse mercado de ensino. Preocupados com cenários de precarização, Agnez e Valente (2020) apresentaram pesquisa do Sindicato dos Jornalistas Profis- sionais do Distrito Federal (SJPDF) feita em 2019 com estagiários. A enti- dade também inclui em convenção uma cláusula relacionada ao estágio e mostrou no levantamento uma realidade que não corresponde às normas: Diferentemente do proposto pelas DCNs e das recomendações das entidades da área (Fenaj, 2015), que indicam que a experiência de estágio deve se concentrar nos últimos semestres de curso, a maior parte dos entrevistados informou que a primeira experiência de está- gio ocorreu na primeira metade do curso: no segundo período (26%), terceiro (22%) e quarto (25%). Um contingente menor entrou na ati- vidade no primeiro período (13%), quinto (8%); sexto (4%) e sétimo (1%) e oitavo (1%). Isso contraria a própria convenção coletiva, cuja versão mais recente determina que o estágio ocorra somente a partir do 5o semestre ou terceiro ano de curso (Agnez; Valente, 2020, p. 14). Números ilustrativos de situação que se repete em universidades de todo o país. Enfim, as consequências trazem um retrato preocupante, con- forme os dados do SJPDF. Neste cenário, o estágio torna-se uma alternativa nas estratégias de enxugamento dos locais de trabalho. O levantamento mostrou essa prática como frequente e iniciando nos primeiros semestres, indicando a juvenilização da iniciação profissional. Os valores das bolsas, em alto percentual abaixo de um salário-mínimo, indicam o “bom negócio” do ponto de vista gerencial na “troca” de profissio- nais por estudantes. Os altos percentuais de alunos relatando realizar atividades semelhantes a de jornalistas formados confirma a atitu- de de desvirtuar o estágio como substituição de força-de-trabalho como forma de redução da folha de pagamentos dos locais de traba- lho (Agnez; Valente, 2020, p. 18). 80 Na pesquisa, conduzida pelo sindicato, são registradas intenções estu- dantis: Entre as motivações para ingressar no estágio, com a opção de marcar mais de um item, 87% mencionaram o aprendizado, 80% a inserção no mercado de trabalho, 70% o ganho financeiro, 30% a necessidade de pagar a faculdade e 26% a obrigação de cumprir ho- ras obrigatórias do curso (Agnez; Valente, 2020, p. 15). Diante das perspectivas profissionais cada vez mais abrangentes do que os modelos padronizados de negócios jornalísticos, tornam-se pouco efetivas orientações como as da Fenaj e Abej, inspiradas na imprensa tra- dicional, sem problematizar um amplo campo onde a profissão é exercida no vasto território nacional. Por fim, em tempos de desinformação, seria importante interpelar instâncias de compromisso com os cidadãos e deten- toras de informações absolutamente públicas, a exemplo das prefeituras e demais esferas públicas, trazendo-as para o debate. A falta de profissio- nalização para a garantia de transparência das ações locais e aplicação de recursos financeiros é gritante nos 5.569 municípios que tiveram seus pre- feitos empossados em primeiro de janeiro de 2025. Estas instâncias deve- riam ser obrigadas a profissionalizar os serviços de informação pública aos cidadãos, com mecanismos objetivos, como o jornalismo preconiza, sobre- tudo onde se pode efetivamente realizar o corpo-a-corpo, com a vivência nos municípios. Marques de Melo (2014) sempre ensinou que o curso de Jornalismo serve para formação de agentes da cidadania, pensamento que reforça o envolvimento ativo dos setores públicos no conjunto de organis- mos fundamentais para o trabalho jornalístico. Se averiguássemos quantitativamente as especialidades profissionais para as quais há concurso de nível superior nos municípios, entender-se-ia novas facetas sobre a ocorrência dos desertos de notícia. A maioria esma- gadora das administrações municipais brasileiras não contrata jornalistas, além de se situarem em localidades sem portais noticiosos.Se contabili- zarmos ainda as demais estruturas públicas que teriam obrigação de pres- tar informações de suas decisões, como Câmaras de Vereadores, órgãos do judiciário, empresas privadas de interesse público, de serviços de água, esgoto, eletricidade, comunicações, saúde, educação, ficaremos surpresos com a ausência de profissionais que possam apurar em cada órgão como 81 o dinheiro público é aplicado e, mais, dar conta de tantos serviços indis- pensáveis, mas desconhecidos da população. O que é pior, muitas vezes ao invés de jornalistas, haverá “especialistas” em marketing contratados para maquiar a veracidade dos dados e fazer propaganda eleitoral camuflada de divulgação de interesse público, descuidando dos serviços que preci- sam chegar aos cidadãos em setores como Educação, Saúde, Cultura, entre outros. Esse é um problema que envolve debate sobre a essência do Jorna- lismo, assessorias, redes sociais, implicações éticas, interesses públicos, a ser enfrentada a partir de ensino, pesquisa e extensão nas universidades. O estágio é um bom lugar para complementar a discussão. É absurdo que não haja jornalistas em muitos espaços públicos e que tais lugares não sejam ambientes de excelência para realização de estágios. O mundo do trabalho jornalístico deveria mesmo ser conteúdo obri- gatório no ensino, seja pela via do estágio ou outros mecanismos. Aliás, como se acolhe e problematiza os jovens que chegam nos cursos atraídos, em grande parte, pelas grandes mídias? Uma conjuntura sabida e pesqui- sada por Silva (2021) que levantou a predileção dos estagiários por grandes organizações midiáticas. Realidade essa que espelha um imaginário em circulação no cam- po do jornalismo da impossibilidade de se fazer jornalismo fora dos grandes meios de comunicação, a ponto de se acreditar que o “ver- dadeiro jornalismo”, o jornalismo profissional só está nesses lugares. Esse pensamento, conforme Fígaro (2014), colabora para a constru- ção de preconceitos em torno dos jornalismos praticados fora des- ses espaços, dos jornalismos às margens das corporações de mídia (Silva, 2021, p.7). A falta de olhar mais abrangente se expressa em documentos como da própria FENAJ e FNPJ quando oferecem como norma mais destacada a cota para estagiários por local de trabalho. Ora, a orientação de 1 a 5 jornalistas para autorização de um estagiário, 6 a 10 para dois, 11 a 15 para três e 16 a 26 para quatro, tem como base numérica os médios e grandes negócios. Em desalinho com a grande realidade brasileira. Valeria muito mais uma campanha mobilizadora para que pequenos negócios contra- tem ao menos um ou dois jornalistas que possam ter ao seu lado um ou dois aprendizes, do que desprezar situações que não são as dominantes. 82 Contribuiria, desse modo, com o aumento da profissionalização e a regula- mentação do Jornalismo. Ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná e professor da Universidade Federal do Paraná, Mário Messagi Júnior, há dez anos, em encontro realizado na USP (Fórum, 2014), chamava a aten- ção sobre estágios para além das empresas com finalidade de lucros. Men- cionava o processo educativo de condução dos estudantes para jornais de bairro, rádios comunitárias, enfim, meios precários nos quais o estudante pode ser mais preparado do que os coletivos comunicadores. Acentuou o papel social das universidades em dar suporte a tais atividades e dos pró- prios alunos como cidadãos e agentes políticos, principalmente em áreas de baixa viabilidade econômica, onde é impensável serem exigidos pagamen- tos altos. Instigou os acadêmicos a abrirem portas nesse sentido, caminhos em que não se preconiza faturamento e sim dispositivos fundamentais para a diversidade de vozes na sociedade. Em resposta à proposição, o professor Eduardo Meditsch, pela Comissão de Especialistas que elaborou as DCNs, à época, resumiu sua visão de que todo estágio necessita de acompanha- mento de um profissional, pois do contrário não se caracterizaria como estágio, devendo, em casos assim, ser enquadrado como extensão ou outros projetos curriculares. Entretanto, ressalta-se com Meditsch (2004, p. 36): “O cliente que o ensino do jornalismo deve atender não é a indústria do jornalismo, mas a sociedade democrática como um todo”. Na verdade, existe uma corrida atrás dos prejuízos do enxugamento dos ambientes de trabalho, porém sem alternativas criativas para sugerir outra realidade. Reis, Faccin e Ferreira (2017, p. 235) questionam, por exemplo, se iniciativas empreendedoras de estudantes ou de profissionais nas plataformas digitais, com caráter mais informal, como canais no YouTube ou blogs, que se configurem como experiências jornalís- ticas, não podem ser também locais propícios para a realização do estágio supervisionado. Em razão disso, Bernardo e Leão (2017) criticam a omissão das diretrizes em relação à regulamentação do estágio que não é aprofundada no texto das DCNs (Silva, 2021, p. 7). Em defesa dos trabalhadores, a Fenaj sempre foi cautelosa, com receio das práticas tecnicistas nos ambientes de trabalho desinteressados em 83 reflexão sobre suas ações, além das lutas sindicais contra a substituição de mão de obra. Mas a proteção da categoria, nos dias que correm, pre- cisa atentar para a continuidade de suas bases. É cada vez mais reduzido o número de jovens sindicalizados. Se olharmos para profissões consolidadas que exigem ensino supe- rior, o estágio ganha um capítulo importantíssimo, seja na Saúde (Medi- cina, Enfermagem, Fisioterapia, Odontologia, Psicologia), Engenharias, Licenciaturas, Administração e Negócios (Administração, Contábeis, Economia), e outras ciências humanas e sociais aplicadas (Serviço Social, Direito etc.). Refletindo sobre o quadro nacional, percebe-se que, no Jor- nalismo, a polêmica dificulta o diálogo entre a esfera de trabalhadores e dos empresários, devido a contornos político ideológicos de articulações históricas do campo. O Jornalismo parece encarcerado aos valores capi- talistas da sociedade do século passado, não conseguindo expressar suas dimensões universais, como poderíamos aprender olhando para o lado, em profissões tão ou mais complexas. Atualíssima reflexão de Marques de Melo, quando refutava as proibi- ções antes das DCNs: Embora propiciem razoável base cultural e em alguns casos estimu- lem a prática jornalística nos laboratórios didáticos, falta aos cursos de comunicação vontade política para negociar programas de coo- peração com as empresas. A proibição do estágio tem sido fator de estímulo à formação de jornalistas despreparados para enfrentar o primeiro emprego. A situação agrava-se com a velocidade com que as novas tecnologias de comunicação são absorvidas pelo mercado (Marques de Melo, 2003, p. 176). Para quaisquer normativas é fundamental o diálogo entre aqueles que vivenciam experiências diversas. E, como apontaram Sardinha, Moralis e Silva (2013, p. 153) é “no terreno pedagógico, proporcionado pelo estágio, que encontros, consensos e dissensos precisam se espraiar e perspectivas se con- frontarem”, para que o estágio também possa ser um mecanismo que evita cris- talização do ensino e seu isolamento em relação ao dinâmico campo profissio- nal. Um espaço de interlocução para negociações, inclusive de formulação de projetos pedagógicos. Tarefa bastante difícil entre esferas polarizadas. A quem caberia a responsabilidade do primeiro passo para romper barreiras? 84 Referências AGNEZ, Luciane; VALENTE, Jonas. O Estágio em Jornalismo no Distrito Federal; percepção dos estudantes e principais demandas. Comunicação Científica apresen- tada no 19o Encontro Nacional de Professores de Jornalismo, 2020. Disponível em: https://repositorio.abejor.org.br/wp-content/uploads/2023/10/307-1226-1- PB.pdf. Acesso em: 7 jan. 2025. BERNARDO, Cristiane Hengler Corrêa; LEÃO, Inara Barbosa. 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Para Maria Elizabeth Almeida (2005), empregamos processos e usamos artefatos tecnológicos de forma tão natural que nem percebemos que eles estão tão presentes no cotidiano, visto que já estão incorporados aos nossos hábitos diários. Extremamente ligado a esta realidade está o ensino universitário, que também é impactado por este contexto e, constantemente, enfrenta defasa- gem entre essa formação e as práticas na sociedade. No caso específico do Jornalismo, as novas tecnologias, como a Inteli- gência Artificial (IA), estão remodelando rapidamente as práticas e os para- digmas dos veículos de comunicação e a disseminação de seus conteúdos. E esse é um grande paradoxo na educação para a formação de jornalistas, pois os currículos são desenvolvidos e aprovados através de processos que envolvem múltiplas etapas de revisão e aprovação, o que pode inibir a agi- lidade necessária para integrar tecnologias emergentes, como algoritmos de IA, aprendizadode máquina (machine learning) e análise de grandes dados (big data), que são importantes e, cada vez mais, utilizados no meio do jor- nalismo. Essa defasagem curricular não só compromete a relevância educa- cional, mas também limita a preparação dos estudantes para as exigências do mercado de trabalho moderno e do seguimento no meio acadêmico. 1 Bacharela em Comunicação Social com habilitação em jornalismo pelo Centro Universitário Estácio de Sá em Santa Catarina. Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. No mestrado, desenvolve pesquisa sobre Jornalismo e Inteligência Artificial. E-mail: giovanna.pavan@hotmail.com 87 No entanto, acredita-se ser importante que haja uma inclusão de tec- nologias emergentes nos currículos do Curso de Jornalismo. Cabe ressaltar que este ensino precisa considerar que essas ferramentas funcionem como um apoio ao trabalho jornalístico, oportunizando o emprego da criativi- dade, da sensibilidade e do toque humano, que é de extrema importância nessa prática profissional. Assim, a perspectiva ideal é que o ensino de jor- nalismo dentro da universidade deva permitir o uso da tecnologia com o “tato humano” como um caminho importante para a excelência na entrega do trabalho para a sociedade. Os cursos de graduação em jornalismo precisam dessas atualizações, principalmente tecnológicas, para formar profissionais mais atualizados e completos. Como explica Eduardo Meditsch (2014, p. 6), “o objetivo prin- cipal do curso de graduação não é formar acadêmicos – tarefa da pós-gra- duação –, mas sim profissionais. No entanto, o conhecimento acadêmico é imprescindível nesta formação profissional”. Para o pesquisador e pro- fessor, o jornalista, como profissional, precisa de uma cultura geral ampla dentro dos poucos anos de formação da graduação para que possa se utili- zar desta cultura nas suas práticas, qualificando e diferenciando sua ativi- dade no mercado de trabalho e na sociedade. Ao analisar, mesmo que de forma superficial, as práticas de organiza- ção e proposição de currículos para os cursos de jornalismo, é possível perceber que é muito difícil atualizar esses planos pedagógicos de forma a acompanhar as tecnologias emergentes. Do ponto de vista dos estudiosos da Educação, como Suely Scherer e Gláucia Brito (2020), “é importante que a comunidade científica investi- gue e discuta continuamente os processos de ensino e de aprendizagem”, assim como as possibilidades de integrar a cultura digital ao currículo, aos modos de pensar, agir e produzir conhecimento em cada espaço escolar. No entanto, esse ainda é um obstáculo. Este desafio, comum em muitas instituições acadêmicas, pode ser abordado por meio de estratégias flexíveis e criativas que integrem novas tecnologias na educação jornalística, aproveitando os espaços existentes dentro do currículo sem necessidade de modificações fre- quentes e muito formais. Na perspectiva de se ter um caso de estudo para melhor exemplificar as ideias aqui propostas, toma-se como exemplo o curso de graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) que, 88 sem a possibilidade de revisar o currículo anualmente, incluiu, na versão mais recente, de 2020, algumas propostas de uso de tecnologias, mas, mesmo assim, nem sempre consegue acompanhar as rápidas mudanças tecnológicas. Diante do contexto exposto, é preciso questionar: como as novas tec- nologias estão sendo integradas e ensinadas dentro do Curso de Jorna- lismo da UFSC? O problema de pesquisa foi constituída por essa questão que surgiu dos campos teórico e prático, observada, mesmo que de forma empírica, em algumas instituições de ensino e nas práticas dos veículos de comunicação, de forma geral. Para responder essa pergunta foram utilizadas duas técnicas de pes- quisa: a bibliográfica-documental e o questionário. A primeira foi neces- sária para a coleta e seleção de artigos, livros e conteúdos já produzidos, debatidos e publicados sobre o assunto. A segunda foi realizada com o obje- tivo de ouvir alunos e professores do Curso de Graduação em Jornalismo da UFSC para compreender as realidades quanto ao ensino e emprego das novas tecnologias no currículo e o impacto da Universidade no ensino das mesmas durante a graduação. O objetivo deste capítulo, então, é apresentar um diagnóstico do que foi apurado nas entrevistas com alunos e professores, assim como pontuar como o assunto está sendo tratado de maneira bibliográfica. Acredita-se que, em 2025, com a UFSC reavaliando o currículo do curso de Jornalismo, com discussões conduzidas pelo Núcleo Docente Estruturante (NDE), o diagnóstico aqui proposto possa colaborar para que sejam revisados os conteúdos tecnológicos, considerando as demandas contemporâneas e as sugestões oriundas da pesquisa. Percurso metodológico Para pensar sobre a implementação das novas tecnologias nos currícu- los, foi necessário ter um olhar sobre os currículos dos cursos de Jornalismo. Em um primeiro momento, a perspectiva da pesquisa era fazer um comparativo dos currículos dos cursos de Jornalismo ofertados nas três principais universidades federais do Sul do país: Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). 89 Tendo em vista o capítulo em específico, optou-se por analisar o currí- culo de apenas uma dessas universidades, sendo escolhido para a análise o Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). A escolha deve-se a quatro razões: 1. Proximidade da pesquisadora com o curso – atualmente é mes- tranda no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC; 2. A relação com a pesquisa desenvolvida no Mestrado em Jorna- lismo na UFSC, por parte da pesquisadora; 3. O acesso aos dados e aos professores da UFSC de forma mais eficaz e efetiva no período da produção; e 4. Pelo fato de a universidade ter sido pioneira na criação de um cur- rículo específico para Jornalismo, desvinculado da Comunicação Social. A Universidade Federal de Santa Catarina foi criada em dezembro de 1960 por meio da Lei Federal no 3.849/1960. O curso de graduação em Jornalismo da universidade foi criado em 1979 e por mais de dez anos foi a única opção em nível superior na área de Comunicação em Santa Catarina. Em 2000, a graduação se tornou o primeiro curso específico em Jornalismo no Brasil, deixando de ser uma habilitação de Comunicação Social. A graduação em jornalismo da UFSC contava, em 2024, com 300 alunos, conforme Melina de la Barrera Ayres, então subcoordenadora do curso, e um corpo docente com 24 professores efetivos, 3 professores subs- titutos e 2 professores voluntários. Buscando entender o ponto de vista dos alunos e professores que hoje integram a graduação em Jornalismo da UFSC sobre o tema, foram realiza- das entrevistas com os mesmos. Foi utilizado o modelo de perguntas com respostas por survey. Foi enviado um questionário para os professores da graduação e, separadamente, um questionário para os alunos. Tecnologias emergentes em 2024 Antes de aprofundar em um diagnóstico sobre a percepção de alunos e professores sobre o ensino e uso de tecnologias emergentes na graduação de Jornalismo da UFSC, é preciso deixar claro que o foco desta pesquisa está nas inovações em vigência no mercado durante a produção deste estudo, 90 principalmente aquelas cuja base está no uso de Inteligência Artificial (IA), que auxiliam o jornalista profissional. Porém, é preciso considerar que há diversas outras tecnologias emergentes para além da IA que também são de extrema importância no contexto atual, tais como as sinalizadas pela Fun- dação Escola de Comércio Álvares Penteado (2024): a Computação Quân- tica, a Internet das Coisas (IoT), a Realidade Aumentada (AR), a Realidade Virtual (VR), a Impressão 3D Avançada, entre outras, mas que não serão tratadas neste estudo. Embora não seja possível abordar todas astecnolo- gias emergentes, as mais relevantes e impactantes devem ser discutidas na academia, com ênfase na necessidade de uma abordagem jornalística que combine competência tecnológica com ética e sensibilidade humana. Em relação à importância da IA no jornalismo, esta está ligada a uma utilização multifacetada. Conforme estudiosos do assunto, o campo da inteligência artificial não apenas tenta compreender “como pensamos”, mas também criar entidades capazes de emular essa complexidade. Para os autores Stuart Russell e Peter Norvig (2014, p. 24), “atualmente, a IA abrange uma enorme variedade de subcampos, do geral (aprendizagem e percepção) até tarefas específicas” como criação e revisão de textos simples. Para falar sobre tecnologias no jornalismo, a pesquisadora teve tam- bém como base o guia “O mínimo que um jornalista precisa saber sobre Inteligência Artificial para começar 2024”, lançado em dezembro de 2023, pelo site Farol Jornalismo, que é uma iniciativa de pesquisa e produção de novas formas de fazer jornalismo. O “espaço de reflexão”, como dito no site, é escrito e organizado por três jornalistas: Marcela Donini, Moreno Osório e Lívia Vieira, esta última egressa do PPGJOR/ UFSC. Assim, partindo do guia do Farol Jornalismo, as ferramentas, que têm como base a tecnologia da Inteligência Artificial, que foram levantadas são: • Check by Meedan: permite às redações coletar e analisar conteúdo dos assinantes pagos para identificar tendências; • ChatGPT: provavelmente a IA mais conhecida e utilizada dos últi- mos tempos, é uma ferramenta que facilita a interação através de diálogos e auxilia em tarefas como tradução de textos e criação de conteúdo; • DALL-E 2: cria imagens e artes realistas a partir de uma descrição detalhada do que está sendo solicitado; • Chartfy.it: permite transformar dados brutos em gráficos, instanta- neamente, no navegador da Web; 91 • Echobox: pensado para editoras e veículos de comunicação, auxilia na automação e otimização de conteúdos e gestão de redes sociais; • Google Discover: mostra às pessoas conteúdo relacionado aos inte- resses delas com base em suas atividades na web e em aplicativos; • Beautiful.ai: cria e estiliza apresentações, pessoais e profissionais; • Colibri.ai: automatiza a anotação de tópicos importantes em reu- niões, cria resumos das conversas e ajuda o time na construção e andamento de reuniões; • Speechtext.ai: transcreve áudios e vídeos em textos; • Google Trends: com base nas pesquisas dos usuários, essa ferra- menta mostra as principais tendências do momento; • Dataminr: são informações em tempo real dos primeiros sinais de eventos, riscos e ameaças naturais a partir de dados públicos. Essas tecnologias promovem diversos usos práticos na redação, como a produção de resumos, de manchetes e de páginas alternativas para a rea- lização de testes A/B (técnica que compara duas versões de um mesmo conteúdo para determinar qual delas é mais eficaz, ajudando a otimizar as taxas de conversão e a definir qual variável gera os melhores resultados), a produção de gráficos e imagens, de traduções, a produção de áudio e vídeo, a customização/otimização de conteúdo para diferentes canais de distri- buição e a conversão de texto em áudio. Contudo, é importante ressaltar que, apesar da capacidade da IA de realizar essas funções, a supervisão e a intervenção humana são importan- tes para garantir que os resultados estejam alinhados aos padrões éticos e estéticos do jornalismo. Além disso, é preciso relembrar que para os professores conseguirem ensinar com a qualidade esperada sobre as tecnologias emergentes, as uni- versidades precisam promover infraestrutura de trabalho e treinamento para os docentes. Por isso, este texto reflete sobre como, no contexto do Jornalismo, as tecnologias emergentes de IA não são apenas ferramentas auxiliares, mas componentes essenciais na definição do futuro da profissão, exigindo uma compreensão equilibrada e crítica por parte dos jornalistas, tanto no mer- cado de trabalho, como na academia. 92 Coleta de dados Em um primeiro momento, foi avaliado o currículo do Curso de Jor- nalismo da UFSC, disponível no site institucional, que teve sua última atua- lização em 2020. Nele, aparecem 37 disciplinas separadas em: obrigatórias, estágio curricular e trabalho de conclusão de curso. Destas, foram mapea- das 16 disciplinas que podem inserir tecnologias emergentes no ensino, ou que já as usam, sendo elas: 1. Áudio e Radiojornalismo (1a fase); 2. Fotografia e Fotojornalismo (1a fase); 3. Linguagem e Texto Jornalístico (1a fase); 4. Vídeo e Telejornalismo (2a fase); 5. Laboratório de Fotojornalismo (2a fase); 6. Laboratório de Áudio e Jornalismo (2a fase); 7. Linguagem e Texto Jornalístico II (2a fase); 8. Produção Gráfica em Jornalismo (2a fase); 9. Linguagem e Texto Jornalístico III (3a fase); 10. Laboratório de Produção Gráfica (3a fase); 11. Jornalismo e Cibercultura (3a fase); 12. Web Design em Jornalismo (4a fase); 12. Linguagem e Texto Jornalístico IV (4a fase); 13. Edição (5a fase); 14. Jornalismo On-line e Narrativas Digitais (5a fase); 15. Linguagem e Texto Jornalístico V (5a fase). As entrevistas, realizadas com professores e alunos do Curso de Jorna- lismo da UFSC, tiveram o intuito de diagnosticar as percepções acerca da integração de tecnologias emergentes no processo formativo. A coleta de dados ocorreu por meio de questionários semiestruturados, enviados a docentes e estudantes, permitindo a análise comparativa das opi- niões. As entrevistas foram realizadas em dezembro de 2024 com uma amostra aleatória de professores da graduação, com perguntas sobre o nível de fami- liaridade com novas tecnologias, desafios na incorporação em sala de aula e percepções acerca da relevância dessas ferramentas para a profissão e também com uma amostra de alunos, predominantemente cursando a 4a fase, com questões voltadas à incidência de contato com tecnologias emergentes nas dis- ciplinas, avaliação do currículo atual e preparo para o mercado de trabalho. 93 O questionário para professores será incluído abaixo. Para as res- postas abertas, foram selecionadas três que representam as opiniões da maioria: 1. Você é professor da UFSC? • Todos os professores lecionam na UFSC. 2. Qual é o seu nível de familiaridade com as novas tecnologias apli- cadas ao jornalismo? (ex.: ChatGPT, plugins de IA) • 75% dos professores dizem ter conhecimento médio; • 25% dos professores dizem ter pouco conhecimento; • Nenhuma resposta sinalizou alto conhecimento ou nenhum conhecimento. 3. Você vê tecnologias, como IA no processo produtivo do jorna- lismo, como uma oportunidade para a profissão do jornalista? • 75% dos professores entendem como uma oportunidade; • 25% dos professores não entendem como uma oportunidade. 4. Todo semestre você tenta integrar novas tecnologias em suas aulas? • 25% dos professores integram; • 25% dos professores não integram; • 50% dos professores dizem que, “sempre que possível e conforme a disciplina”, integram. 5. Quais desafios específicos você enfrenta ao incorporar tecnologias emergentes, como inteligência artificial e big data, em suas aulas? • Professor 1: “Me preocupo com a adesão irrefletida a soluções de mega corporações”. • Professor 2: “Oferta de softwares pela instituição”. 6. Você sente que tem acesso suficiente a recursos e treinamentos para utilizar novas tecnologias de forma eficaz em sala de aula? • 75% dos professores responderam que não possuem recursos sufi- cientes para inclusão de tecnologias eficazmente; • 25% dos professores responderam que possuem. 94 7. Você acha importante que os professores tenham uma capacitação contínua sobre novas tecnologias? • Professor 1: “Sim. Especialmente em relação ao seu uso crítico”. • Professor 2: “Sim, muito”. • Professor 3: “Com certeza”. 8. Que tipo de tecnologias atual você acha mais útil para o jornalista contemporâneo e por quê? • Professor 1: “Saber programar”. • Professor2: “IA generativa, pois pode colaborar em apurações de grandes reportagens”. • Professor 3: “Softwares como IA”. 9. Qual é a relevância das novas tecnologias para o futuro do jorna- lismo, na sua opinião? • Professor 1: “Extrema”. • Professor 2: “Fundamental saber utilizar as mesmas, mas tendo consciência das práticas onde podem ser utilizadas”. • Professor 3: “Inevitável”. 10. Como você acha que o currículo de jornalismo poderia ser adap- tado para melhor incorporar novas tecnologias sem mudanças curriculares anuais? • Professor 1: “Acredito que refletir criticamente sobre as novas tecno- logias deve perpassar de forma transdisciplinar várias disciplinas”. • Professor 2: “Poderia ser inserida disciplina de novas tecnologias como apoio ao jornalismo”. • Professor 3: “Poderia ser pensado algo para cada matéria”. 11. Em sua experiência, que estratégias têm sido mais eficazes para integrar novas tecnologias sem alterar formalmente o currículo? • Professor 1: “Atualização de práticas. Foco no uso e não na ferramenta”. • Professor 2: “Usar em aula, quando adequado ao contexto da dis- ciplina”. • Professor 3: “Da forma habitual, tal qual quando houve a substitui- ção do equipamento fotográfico convencional (filme fotográfico) para as câmaras digitais”. 95 12. Você concorda que webinars, seminários, palestras, aulas tempo- rárias e laboratórios são o suficiente para ensinar, semestralmente, sobre novas tecnologias? Caso não, quais seriam as melhores opções? • Professor 1: “Acredito que a depender do planejamento, sim. Espe- cialmente laboratórios”. • Professor 2: “Sim, acredito que serão suficientes”. 13. Quais sugestões você daria para melhorar a integração de novas tecnologias no curso de graduação em jornalismo? • Professor 1: “Buscar conhecê-las e debater e experimentá-las com os alunos”. • Professor 2: “Inserção de uma disciplina específica no currículo”. • Professor 3: “Oferta de softwares pela instituição”. Em paralelo, foram enviadas as seguintes perguntas para alunos da 3a a 8a fase, com as respostas, em grande maioria, vindas de alunos da 4a fase. Para as respostas abertas, foram selecionadas cinco, que representam a maioria: 1. Qual é o seu período atual no curso de jornalismo? • 50% dos alunos estão na 4a fase. • 14% dos alunos estão na 5a fase. • 14% dos alunos estão na 8a fase. • 14% dos alunos estão na 3a fase. • 8% dos alunos estão na 6a fase. 2. Você já está inserido no mercado de trabalho? • 79% dos alunos já estão no mercado de trabalho; • 21% dos alunos ainda não estão no mercado de trabalho. 3. Você sente que o currículo atual do curso oferece conhecimento suficiente sobre novas tecnologias aplicadas ao jornalismo? • 79% dos alunos entendem que são dadas as bases necessárias, mas não o suficiente; • 21% dos alunos entendem que sim. 96 4. Quantas vezes durante sua graduação você teve contato com tec- nologias emergentes como inteligência artificial, análise de big data, realidade aumentada ou outras? • 78% dos alunos têm pouco contato; • 22% dos alunos têm médio contato; • Nenhuma resposta sinalizou muito contato ou nenhum contato. 5. Você tem algum conhecimento com tecnologias voltadas para o jornalismo? (ex.: IA, plugins, big data...) • 78% dos alunos têm pouco conhecimento; • 22% dos alunos têm médio conhecimento; • Nenhuma resposta sinalizou muito conhecimento ou nenhum conhecimento. 6. Você acredita que falta ensinar as novas tecnologias na graduação? • 86% dos alunos acreditam que falta ensino; • 14% dos alunos acreditam que não falta ensino. 7. Você acredita que a falta de ensino de novas tecnologias afeta sua preparação para o mercado de trabalho? Por quê? • Aluno 1: “Sim, pois hoje em dia grande parte do mercado de tra- balho exige experiência com mídias sociais, SEO, análise de dados e os estudantes chegam sem saber o que fazer”. • Aluno 2: “Um pouco pela questão do IA, que pode nos beneficiar, mas tirando isso gosto muito do currículo”. • Aluno 3: “Sim, positivamente. Pois o que sei sobre novas tecnolo- gias se torna um diferencial”. • Aluno 4: “Sim, pois me sinto despreparada para lidar com as novas tecnologias, especialmente Inteligência Artificial”. • Aluno 5: “Sim. Porque as novas tecnologias já fazem parte do dia a dia da nossa profissão”. 8. Quão preparado você se sente para utilizar tecnologias jornalísti- cas modernas no ambiente de trabalho? • 78% dos alunos se sentem pouco preparados; • 14% dos alunos se sentem muito preparados; • 8% dos alunos não se sentem nada preparados. 97 9. Você acha que webinars, seminários, palestras, aulas temporárias e laboratórios seriam o suficiente para você adquirir conhecimento sobre novas tecnologias? • 50% dos alunos acham que seriam boas estratégias; • 25% dos alunos não acham boas estratégias; • 25% dos alunos acham que seriam boas, desde que oferecidas em todos os semestres. 10. Qual é a sua opinião sobre a integração de disciplinas optativas sobre tecnologias emergentes no currículo de Jornalismo? • Aluno 1: “Acho essencial, principalmente para aprimorar a quali- dade do curso e a capacidade dos alunos de adentrarem o mercado de trabalho”. • Aluno 2: “Extremamente importante, porém deve ser feito por um profissional que realmente entenda e atue/tenha atuado na área”. • Aluno 3: Essencial. “Deveria ter alguma obrigatória”. • Aluno 4: “Importantes, deveriam entrar nas práticas”. • Aluno 5: “Uma ideia promissora importante para a formação”. 11. Como você avalia a importância de aprender sobre novas tecnolo- gias que vêm surgindo para o campo do Jornalismo? • Aluno 1: “Acho essencial também pois o futuro é mais tecnológico do que o agora e é necessário evoluir junto do mercado de trabalho”. • Aluno 2: “De extrema importância para o preparo de bons novos profissionais”. • Aluno 3: “Acho que é importante, mas não central para o campo”. • Aluno 4: “É importante, principalmente para auxiliar na produção e distribuição dos produtos jornalísticos”. • Aluno 5: “O aprendizado de novas tecnologias no campo do jorna- lismo se mostra importante ou quase indispensável no atual con- texto da área, considerando a constante implementação de novas tecnologias na atividade jornalística ao longo da história, incluindo algumas que atualmente integram o currículo do curso (foto, tele- jornalismo, rádio etc.).” 12. Quais tecnologias específicas você gostaria que fossem mais abor- dadas durante sua graduação? 98 • Aluno 1: “Uso de IAs para ajudar em produção jornalísticas”. • Aluno 2: “Abordagem e manipulação de IAs e LLMs. Manipulação de big data”. • Aluno 3: “Raspagem de dados e outras tecnologias para análises de grandes bancos de dados”. • Aluno 4: “Inteligência artificial e produção gráfica (animações, diagramação de maneira mais aprofundada)”. • Aluno 5: “Inteligência Artificial e Algoritmo”. 13. Você busca aprender sobre novas tecnologias por conta própria? Quais recursos você utiliza? • Aluno 1: “Sim, ChatGPT”. • Aluno 2: “Cursos gratuitos disponibilizados por instituições com relação ao jornalismo (Abraji, por exemplo) e videoaulas do You- Tube para coisas mais específicas”. • Aluno 3: “Na medida do possível, tento aprender sobre o uso de IA”. • Aluno 4: “Sim, cursos online”. • Aluno 5: “Não busco aprender por conta própria”. 14. Se você pudesse mudar algo no currículo atual para melhor prepa- rar os alunos para o mercado de trabalho tecnológico, o que seria? • Aluno 1: “Matérias práticas do uso da tecnologia de dados e inte- ligência artificial”. • Aluno 2: “Ampliar as aulas de uso de ferramentas digitais como pageview, SEO, análise de dados etc.”. • Aluno 3: “Reestruturação das competências de web design, jorna- lismo on-line e talvez jornalismo e inovação. Disciplinas optativas são uma opção também de aprofundamento para quem deseja”. • Aluno 4: “Diminuir a quantidade de disciplinas obrigatórias para que o aluno tivesse mais tempo para fazer cursos/ especialização/ disciplinas optativas”. • Aluno 5: “Incluiria noplano de ensino de Jornalismo On-line uma diretriz sobre atualização e inovação constantes, com mais partici- pação dos alunos na troca de ferramentas”. 99 Desafios enfrentados para o ensino de tecnologias Como já sinalizado anteriormente, há uma necessidade de atualização curricular constante por conta das tecnologias emergentes. No entanto, não é possível que ocorra tão regularmente essa mudança considerando os processos acadêmicos e os desafios logísticos e financeiros associados à revisão frequente dos programas de estudo. Além disso, há pouca ênfase e apoio nas universidades em geral para a atualização do corpo docente sobre as tecnologias emergentes, tornando mais difícil que esses professo- res possam transmitir o conhecimento específico sobre essas ferramentas aplicadas ao jornalismo. De acordo com Maria Elizabeth Almeida (2005), a utilização de tec- nologias na sala de aula impulsiona a abertura desses espaços ao mundo e ao contexto: “Tecnologias e conhecimentos integram-se para produzir novos conhecimentos que permitam compreender as problemáticas atuais e desenvolver projetos, em busca de alternativas para a transformação do cotidiano e a construção da cidadania” (Almeida, 2005, p. 31). Por isso, entender como os alunos estão percebendo o andamento da sua graduação neste assunto, assim como de que forma os professores estão sendo atualizados, é importante por isso. Para pensar o currículo para a inclusão dessas tecnologias, as estratégias precisam ser adapta- tivas, integrativas e capazes de oferecer aos estudantes uma formação que seja ao mesmo tempo atualizada e enraizada nos fundamentos éti- cos, técnicos e práticos do Jornalismo. Como, também, “constituir-se de processos de formação continuada de professores e gestores para a integração de novas tecnologias ao currículo”, como fala Suely Scherer e Gláucia Brito (2020). Nesse sentido, conforme apurado nas entrevistas, os desafios que alu- nos e professores da UFSC enfrentam em relação ao aprendizado e ensino de tecnologias emergentes relacionadas à IA são grandes. Sobre o conhecimento dos professores, em suas respostas foi enten- dido que: 1. O nível de conhecimento sobre as novas tecnologias é predomi- nantemente médio; 2. A tecnologia é vista como uma oportunidade importante para o futuro da profissão do jornalista; 3. Há tentativas de integrar tecnologias emergentes em disciplinas; 100 4. A falta de investimento em equipamentos tecnológicos e softwares adequados são causas importantes para a dificuldade de implanta- ção de tecnologias emergentes; 5. Há pouco incentivo à formação continuada bem como a recursos e treinamentos para utilizar novas tecnologias em sala de aula. 6. Do ponto de vista dos alunos, as respostas apontam para mais desafios: 7. Há uma grande inserção dos estudantes no mercado profissional de trabalho; 8. Há pouco contato com tecnologias emergentes como IA, gerando certa insegurança em relação ao uso destas no mercado de trabalho; 9. Não identificam de maneira clara, no currículo atual (2020), o ensino de tecnologias emergentes. Em relação às respostas dos alunos, se observa que, por entrarem muito precocemente no mercado de trabalho, criam uma expectativa de que a universidade e o curso devam ofertar conhecimentos específicos exigidos no seu atual mercado profissional. Cabe ressaltar que este não é o papel de um curso de graduação universitário, que tem como objetivo primordial formar um profissional com as bases da profissão, que serão aprimoradas pelo indivíduo ao longo da própria trajetória. O que compete ao ensino de tecnologias emergentes é buscar a qualificação mais competente e eficaz possível na produção de conteúdo jornalístico. Algumas respostas apon- tam claramente para esta afirmação: Hoje em dia grande parte do mercado exige experiência com isso e os estudantes chegam sem saber o que fazer; Muitas vezes as empresas questionam sobre o conhecimento de nar- rativas digitais e SEOs e normalmente é difícil conseguir responder esses questionamentos pela falta de conhecimento. Corroborando com essa perspectiva, há também respostas sinali- zando que a maioria não busca, por conta própria, aprender sobre tec- nologias emergentes, fora da sala de aula ou daquilo que é apresentado pelo professor. Assim, enquanto os educadores veem a tecnologia como uma aliada ao futuro do Jornalismo, os estudantes expressam uma necessidade mais urgente de reformulação curricular que aborde o ensino de tecnologias emergentes. 101 Considerações finais Para José Almeida Valente (2005, p. 14), existem dois aspectos que devem ser observados na implantação de novas tecnologias na educação: “Primeiro, o domínio do técnico e do pedagógico não deve acontecer de modo estanque, um separado do outro” É preciso que os conhecimentos técnicos e pedagógicos cresçam juntos, simultaneamente, um demandando novas ideias do outro. Além disso, há um segundo aspecto para o autor, que diz respeito à especificidade de cada tecnologia com relação às aplicações pedagógicas. “O educador deve conhecer o que cada uma dessas facilidades tecnológicas tem a oferecer e como pode ser explorada em diferentes situações educa- cionais” (Valente, 2005, p. 14). Pensando nisso, este diagnóstico sobre a inclusão de tecnologias emergentes no currículo de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) ressalta um ponto importante no ensino superior: a necessidade de adaptar os métodos educacionais às rápidas transformações tecnológicas que definem e remodelam profissões contemporâneas. Este estudo, ao avaliar a implementação de tecnologias no contexto acadêmico e prático do jornalismo, ilustra os desafios e questionamentos feitos e enfren- tados por professores e alunos. Como sinaliza Meditsch, em seu texto sobre as diretrizes curriculares, “o projeto pedagógico precisa ser focado nos conteúdos acadêmicos que são imprescindíveis a um bacharel em jornalismo” (Meditsch, 2014). Fica evidente que, apesar da percepção de que as tecnologias emer- gentes, como a inteligência artificial, são fundamentais para a formação atual e futura dos jornalistas, existe uma distância significativa entre a estrutura curricular atual e as exigências práticas do mercado. Essa lacuna se reflete não apenas na preparação dos estudantes, que se veem parcialmente preparados para enfrentar o ambiente de trabalho tecno- logicamente avançado, mas também na capacitação dos professores, que enfrentam limitações de recursos e suporte institucional para atualizar e aplicar novas metodologias de ensino. Para abordar eficazmente esses desafios sem necessidade de alterações curriculares frequentes, professores e a UFSC poderiam considerar estra- tégias alternativas e flexíveis como a realização de workshops, seminários, cursos e certificações, palestras com especialistas, aulas temporárias sobre 102 um assunto específico, e a criação de novos espaços de laboratório não obri- gatórios. Essas atividades poderiam ser incorporadas semestralmente para garantir que o conteúdo permaneça atualizado com as últimas tendências e inovações tecnológicas, mantendo o currículo dinâmico e adaptativo. Embora o foco deste diagnóstico não seja apresentar estratégias espe- cíficas, observa-se que iniciativas como a ampliação dos espaços de capa- citação e a oferta de atividades complementares podem ser caminhos a serem explorados para mitigar as lacunas apontadas. Tais iniciativas já foram mencionadas nas respostas, e acima enfatizadas, mas carecem de uma implementação que contemple as necessidades tanto dos professores quanto dos alunos. Para Suely Scherer e Gláucia Brito (2020), ao integrar novas tecno- logias no dia a dia dos estudantes, elas se tornam parte constituinte das práticas pedagógicas e dos ambientes de aprendizagem, de modo que não são compreendidas somente como recursos, equipamentos, máquinas, mas também como espaços digitais de aprendizagem. Para isso, conforme MariaElizabeth Almeida e José Manuel Moran (2005), o fundamental é que o professor possa observar e dialogar com seu aluno para compreender suas dúvidas, inquietações, expectativas e neces- sidades, e, ao propor atividades, de modo que desperte no aluno a curiosi- dade e o desejo pelo aprender. Ao considerar os pontos levantados, a UFSC poderia não apenas melhorar a qualidade e relevância de seu Curso de Jornalismo, mas tam- bém posicionar-se ainda melhor entre as instituições líderes na educação de novas gerações de jornalistas, capazes de utilizar as mais diversas fer- ramentas e moldar o futuro da mídia com competência, ética e inovação. Assim, o compromisso com a excelência educacional e a inovação se rea- firmaria como um imperativo para manter a integridade e a relevância do jornalismo na era digital. Referências ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de; MORAN, José Manuel. Tecnologia, Currículo e Projetos. In: ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de; MORAN, José Manuel (Org.). Integração das tecnologias na educação: salto para o futuro. Brasília: Ministério da Educação, 2005, p. 10-11. 103 ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de. Prática e formação de professores na integração de mídias. In: ALMEIDA, Maria Elizabeth Bianconcini de; MORAN, José Manuel (Org.). Integração das tecnologias na educação. Brasília: Ministério da Educação/SEED/TV Escola/Salto para o Futuro, 2005, cap. 1. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/1sf.pdf. BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Jornalismo. Relatório da Comissão de Especialistas instituída pelo Ministério da Educação. Portaria no 203/2009, 12 de fevereiro de 2009. Brasília, 2009. Disponível em: http://portal. mec.gov.br/dmdocuments/documento_final_cursos_jornalismo.pdf. Acesso em: 25 mar. 2025. BRASIL. Lei no 3.849, de 18 de dezembro de 1960. 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Alguns deles são rotineiros, como aprender a se localizar em um novo espaço físico, mas boa parte dos percalços está relacionada a iniciativas que dependem de terceiros. A legislação brasileira garante uma série de direitos relacionados às pessoas com deficiência. Entre eles, há o Decreto Presidencial no 6.949, de 25 de agosto de 2009, que promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e reconhece a importância do acesso à educação, informação e comunicação. Há também a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, de 6 de julho de 2015, conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência. De acordo com essa Lei, a educação superior deve ser viabilizada em igualdade de oportu- nidades e condições com as demais pessoas. De acordo com dados da mais recente Pesquisa Nacional de Saúde, coordenada pelo Ministério da Saúde em parceria com o Instituto Brasi- leiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 7 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência visual. A pesquisa coletou dados entre 2013 e 2019 em todo o país (PNS, 2019). Teixeira et al. (2022) apontam que, em 2018, 2.537 estudantes cegos estavam no ensino superior, sendo que 62,2% em instituições de ensino privadas. Mais da metade deles é do sexo mascu- lino (55%) e está na faixa etária de até 30 anos de idade (62,9%). 1 Doutora pelo Programa de Pós-graduação em Engenharia e Gestão do Conhecimento/Mídia da Uni- versidade Federal de Santa Catarina. Mestre na área de Mídia e Conhecimento e graduada em Jornalis- mo pela mesma instituição. Docente e coordenadora dos cursos de Jornalismo e Publicidade do Centro Universitário Estácio Santa Catarina. E-mail: rezandomenico@gmail.com. 106 A docência por 22 anos no curso de Jornalismo do Centro Universi- tário Estácio Santa Catarina desta pesquisadora trouxe desafios e apren- dizados. Um dos momentos mais marcantes é a convivência com alunos cegos ou de baixa visão. O presente artigo é um relato de experiência viven- ciado por esta pesquisadora, junto ao acadêmico cego Gustavo de Simas, no desenvolvimento de duas iniciativas. No início do primeiro semestre de 2024, a proposta inicial era a criação de uma metodologia ativa para dinamizar a aquisição de conhecimento do acadêmico, além de garantir a interação dele com o restante da turma. Entretanto, a pesquisadora iden- tificou, por meio de observação direta participante, na turma de 30 alunos em que o aluno estava matriculado, que era imprescindível criar iniciativas que minimizassem as barreiras atitudinais antes da aplicação da metodo- logia. Um dos pontos de atenção diagnosticados, por meio da observação direta e posterior consulta informal, foi o desconhecimento da turma sobre a maneira mais adequada de interagir com cegos ou pessoas de baixa visão. A educação inclusiva não se resume apenas à presença de alunos com alguma característica especial dentro da sala de aula. O processo de inclusão do ambiente educacional envolve atitudes e estratégias que devem acontecer dentro e fora da sala de aula com a participação de todos que frequentam o ambiente (Diversa, 2023). Iniciativas como pisos táteis e identificação de locais e números de salas em braile facilitam o trânsito de estudantes cegos ou de baixa visão pelas instalações da instituição. Entretanto, as barreiras ati- tudinais também merecem atenção. Muitas dessas barreiras existem por des- conhecimento. Sendo assim, é importantedesenvolver ações que promovam esclarecimentos sobre maneiras adequadas de interação com esse público. Rodrigues et al. (2022) salientam que a acessibilidade atitudinal tem papel imprescindível porque viabiliza a ruptura da exclusão dentro da inclusão. Os autores pontuam que qualquer outra iniciativa de acessibilidade continuará sendo um obstáculo quando a barreira atitudinal não for derrubada. O envolvimento da comunidade acadêmica nas ações de acolhimento e, principalmente, evitando barreiras atitudinais, na interpretação de Silva e Pimentel (2022), é considerado fundamental para o desenvolvimento acadêmico do universitário cego ou de baixa visão. As autoras enfatizam, entretanto, que a comunidade acadêmica ainda não compreendeu a rele- vância dessa responsabilidade por desconhecimento sobre a deficiência e “desinteresse pela diferença, pela diversidade e pelas possibilidades de exis- tência deste Outro na universidade” (Silva e Pimentel, 2022). 107 No Centro Universitário Estácio de Santa Catarina, para otimizar as ações de aquisição de conhecimento por parte dos estudantes cegos ou com baixa visão, existe o Núcleo de Apoio e Atendimento Psicopedagógico (NAAP). O Núcleo é coordenado pela psicóloga Lorena Paratella, mestre em Ciências da Saúde e especialista em Neuropsicologia Clínica e Institucional. A chegada do primeiro aluno cego ao curso, Josué Leandro da Rosa Coelho, foi em 2004, quando ainda não existia o NAAP, mas havia monitores para auxiliá-lo. Em 2017, o curso recebeu o acadêmico Martin Backes de Por- chetto, com baixa visão, que vivenciou a implantação do NAAP durante a graduação. Cinco anos depois, o acadêmico cego Gustavo de Simas, morador do município de Tijucas, na Grande Florianópolis, iniciou a graduação em 2022 já contando com o apoio do Núcleo desde o dia da matrícula. O convívio com os três jovens, como docente e coordenadora do curso de Jornalismo, proporcionou à pesquisadora vários conhecimentos tácitos, aqueles que, na interpretação de Mascitelli (2003), são adquiridos de maneira inconsciente, pelas experiências que se vivencia e as atividades que se aprende fazendo. A criação e compartilhamento desse conhecimento, de acordo com Figueiredo (2005), acontece por meio das interações que as pessoas fazem no dia a dia. Entretanto, a pesquisadora considerou que era preciso dar visibili- dade a esse conhecimento de outra forma, para que atingisse mais envolvidos, a princípio, no ambiente acadêmico em que Gustavo Simas estava inserido. As iniciativas descritas na sequência foram desenvolvidas em 2023 pela autora deste relato, como atividades do projeto Bolsa Pesquisa Produtividade da Estácio Santa Catarina. O trabalho teve como base a observação direta e participante subsidiada por pesquisa qualitativa. A observação direta, afirmam França et al. (2022), viabiliza ao pesquisador “uma variedade de situações ou fenômenos que não são obtidos por meio de perguntas” (França, 2022, p. 106), realidade comprovada por esta pesquisadora ao longo das atividades. Série Minuto Estácio Inclusão No trabalho conjunto desta pesquisadora com a coordenação do NAAP, foi possível chegar a algumas conclusões relacionadas às ações que devem ser tomadas para dinamizar as relações com acadêmicos cegos ou de baixa visão. Uma das conclusões é resultante da observação direta desta pesquisadora. Na tentativa de auxiliar o acadêmico cego, por exemplo, 108 colegas cometiam ações que devem ser evitadas. Observou-se, inclusive, que esses equívocos aconteciam por total desconhecimento da maneira correta de como deveria ser feita a ação. Entre os erros comuns identificados estavam: a. o ato de puxar o cego pela mão na tentativa de guiá-lo até a sala de aula; b. considerar que a pessoa com deficiência visual sempre identificará apenas pela voz a pessoa que interage com ela; c. ao encerrar uma conversa, não avisar que está saindo de perto. A certeza de que as ações de acolhimento ao acadêmico cego devem acontecer também em espaços e horários fora da sala de aula motivou o início de um projeto. Esta pesquisadora iniciou a roteirização e produção de pequenos vídeos com o objetivo de instruir e incentivar atitudes para facilitar o dia a dia do acadêmico cego e que podem beneficiar qualquer pessoa com baixa visão. A série de vídeos, denominada de Minuto Estácio Inclusão, é narrada e apresentada por esta pesquisadora. O curso de Jorna- lismo já produzia, como estratégia de comunicação interna para a institui- ção, o Minuto Estácio, realizado por acadêmicos e veiculado pelo whatsapp e outras redes sociais. Sendo assim, a pesquisadora decidiu manter o nome, já conhecido da comunidade acadêmica, e acrescentar a palavra inclusão para diferenciar a série de vídeos. As gravações e edições do Minuto Estácio Inclusão foram feitas nas dependências do Centro Universitário Estácio de Santa Catarina, no cam- pus localizado no município de São José, na Grande Florianópolis (SC). A equipe de apoio é formada por funcionários da própria instituição: o cinegrafista Wilson Francisco Ricardo e o editor de imagem Márcio Goe- bel. Os roteiros tiveram a consultoria do acadêmico cego Gustavo Simas, que também participou das situações simuladas nos vídeos. As gravações contaram com a participação voluntária de outros acadêmicos do curso de Jornalismo na simulação dos erros e, em seguida, da ação correta que deveria ser tomada. Todos os envolvidos ganharam horas de atividade complementar. Os assuntos abordados em cada vídeo foram definidos a partir de sugestões do próprio Gustavo e dos colegas de turma dele. O primeiro vídeo, por exemplo, explicitou a melhor maneira de guiar uma pessoa cega ou com baixa visão. Na turma em que o aluno cego estava inserido, 109 os cerca de 30 colegas tinham dúvida sobre se deveriam puxá-lo pela mão ou dar o braço para que ele se apoiasse e fosse orientado. Por meio de simulações, o vídeo mostrou que o ideal é oferecer o braço para que a pessoa cega ou de baixa visão o segure e tenha um apoio direcional ao caminhar. No segundo e terceiro vídeos, os temas são os casos dos que não se apresentam ou não avisam quando saem de perto das pessoas cegas ou com baixa visão quando interagem com elas. A quarta edição do Minuto Estácio Inclusão abordou os pisos táteis e a quinta edição sinalizou os cuidados na hora de enviar mensagens de texto, principalmente com uso de emojis. Na edição dos vídeos, também houve a preocupação em legen- dar o texto dos offs, denominação dada à narração coberta com imagens gravadas. Após a edição final, os vídeos passaram pela conferência de Gustavo de Simas para que ele indicasse se o conteúdo estava de acordo com o objetivo proposto. O acadêmico avaliou como positiva a oportu- nidade de participar da discussão das pautas e das simulações do Minuto Estácio Inclusão. Tem um lema que usamos bastante: “nada para nós, sem nós”. Se você vai fazer uma ação para pessoas com deficiência e não ouve a pessoa com deficiência ou ela não participa, o sentido é zero. No Mi- nuto Estácio Inclusão a gente discutiu a pauta, propôs situações. Eu vi uma grande oportunidade de mostrar para as pessoas. Eu confesso que em nenhum lugar que eu tinha passado tinha acontecido esses episódios como foi o caso do Minuto Estácio Inclusão. É lógico que muitas pessoas não sabem, não conhecem. É a chance de a gente des- cobrir se as pessoas não sabem ou não estão abertas para conviver com a pessoa com deficiência (Simas, 2025). Na sequência, serão apresentados prints de tela que ilustram algumas situações apresentadas nas edições do Minuto Estácio Inclusão. 110 Figura 1: Edições com conteúdo legendado Apresentação feita pela professora Regina Zandomênico (Foto: acervo da autora) Figura 2: Simulação de interação entre acadêmicos Ação incorreta na condução de pessoa cega ou com baixa visão (Foto: acervo da autora) 111 Figura 3: Simulação de uso do piso tátil por Gustavo de Simas Acadêmicos abrem caminhopara uso do piso tátil (Foto: acervo da autora) Os vídeos estão disponibilizados no Youtube no canal Jornalismo Está- cio SC, e podem ser visualizados pelo público de modo geral. Além da dis- ponibilização dos vídeos no YouTube, o material ganhou outras frentes de divulgação dentro da instituição em eventos e na sala de espera da secre- taria do campus. Nessas situações, houve casos de acadêmicos de outros cursos que tinham parentes ou conhecidos de pessoas cegas ou de baixa visão que pediram autorização para compartilhar o material externamente. Além disso, os vídeos foram compartilhados em grupos de whatsapp for- mados por docentes, alunos e funcionários administrativos da instituição. A pesquisadora também desenvolve ações pontuais disponibilizando os vídeos para o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Conde), vinculado à Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de São José, município da Grande Florianópolis. O presidente do Conselho, Josué Leandro da Rosa Filho, foi o primeiro aluno cego do Curso de Jornalismo da Estácio em Santa Catarina. O Conselho desenvolve um programa de acessibilidade atitu- dinal que realiza palestras em repartições públicas e empresas privadas2. 2 Os vídeos da Série Minuto Estácio Inclusão podem ser visualizados por meio dos links a seguir: Vídeo 1 – Apresenta a maneira correta de orientar a caminhada de pessoas cegas ou de baixa visão: https:// www.youtube.com/watch?v=76smSDwsTFI&list=UULFFEsLBwwEZ1kBpTXw0VUpqw&index=13. Vídeo 2 – Sinaliza sobre a importância da identificação do emissor da mensagem em todas as interações com pessoas cegas ou de baixa visão: https://www.youtube.com/watch?v=YFKQETEpPCA. https://www.youtube.com/watch?v=76smSDwsTFI&list=UULFFEsLBwwEZ1kBpTXw0VUpqw&index=13 https://www.youtube.com/watch?v=76smSDwsTFI&list=UULFFEsLBwwEZ1kBpTXw0VUpqw&index=13 https://www.youtube.com/watch?v=YFKQETEpPCA 112 A escolha desta mídia como estratégia de esclarecimento sobre erros relacionados às barreiras atitudinais foi motivada por uma série de fato- res, além da familiaridade da pesquisadora com produções audiovisuais. O primeiro ponto de atenção foi o público-alvo que, a princípio, era formado por universitários pertencentes à geração Z, que reúne pessoas que nas- ceram entre os anos de 1997 a 2010. Uma pesquisa do Youtube em parce- ria com a empresa de pesquisas Smith Geiger constatou que cerca de 65% dessa geração prefere se comunicar por meio de vídeos, seja como criador ou consumidor de conteúdos (Youtube, 2023). Nesse panorama, inclusive, Paradella et al. (2020) consideram a produção de vídeos na área da edu- cação um método sofisticado de ilustração e com mais chances de gerar empatia em relação ao conteúdo abordado. O tempo médio de cada vídeo é de 1 minuto e 30 segundos. A defini- ção da duração levou em conta que a visualização deveria ser rápida porque os acadêmicos receberiam os vídeos pelo whatsapp. O acadêmico Gustavo de Simas afirma que, após a exibição dos vídeos, melhorou a interação com os colegas não só do curso de Jornalismo, mas também com acadêmicos de outras graduações. Além disso, o universitário acredita que a inicia- tiva “ajuda a filtrar quem tem interesse em interagir com pessoas que têm algum tipo de deficiência visual ou não” (Simas, 2025). A acadêmica Ste- phany Luiz de Oliveira, integrante da turma de Gustavo, relatou que, com o Minuto Estácio Inclusão, além de aprender uma série de interações corretas, passou a se sentir mais segura quando precisa explicar para outra pessoa sobre os temas abordados nos vídeos. Implantadas as ações para minimizar barreiras atitudinais, por meio dos vídeos do Minuto Estácio Inclusão, houve a preocupação com uma segunda etapa. A pesquisadora dedicou-se ao desenvolvimento de uma metodologia que viabilizasse a acadêmicos cegos ou de baixa visão partici- pações igualitárias com o restante da turma em uma mesma ação. Vídeo 3 – Alerta que, durante uma interação presencial, é necessário comunicar às pessoas cegas ou de baixa visão quando o emissor sair de perto delas: https://www.youtube.com/watch?v=eORdesbfEms. Vídeo 4 – Salienta que as pessoas precisam de atenção para não ficarem posicionadas em cima de pisos táteis e obstruir a passagem de pessoas cegas ou de baixa visão: https://www.youtube.com/ watch?v=FRC2jn5F3FY Vídeo 5 – Orienta sobre uso de emojis e figuras nas mensagens de texto que serão lidas por leitores de tela e direcionadas a pessoas de baixa visão ou cegas: https://www.youtube.com/watch?v=2IkAYMDySzw. https://www.youtube.com/watch?v=eORdesbfEms https://www.youtube.com/watch?v=FRC2jn5F3FY https://www.youtube.com/watch?v=FRC2jn5F3FY https://www.youtube.com/watch?v=2IkAYMDySzw 113 Podcast Táx Ligado No ambiente acadêmico, há vários suportes para os alunos cegos e de baixa visão adquirirem conhecimentos. Entre as alternativas, estão os tex- tos em braile; os softwares de leitura de tela, como o NVDA e os audioli- vros. Entretanto, há um ponto de atenção relacionado ao isolamento que esses suportes podem criar para o usuário em relação aos colegas de sala. Ao acessar um software de leitura de tela, por exemplo, o cego usa um fone de ouvido para não atrapalhar o restante da turma. Por outro lado, o uso do fone impede que ele ouça alguma explicação ou comentário extra do professor, interações ou perguntas dos colegas. O convívio com os acadêmicos Josué (cego), Martin (baixa visão) e Gustavo (cego) em sala de aula, como docente, foi fundamental para compreender que a aquisição do conhecimento por pessoas cegas ou de baixa visão também tem particularidades. Nos dias de prova, Martin, por exemplo, se sentia mais confortável respondendo por escrito às questões das provas. Para isso, usava um software de leitura de tela. Os professores colocavam as questões em um pendrive e ele fazia o acesso pelo notebook próprio. Gustavo prefere a presença de um leitor, alguém para ler o enun- ciado das questões e as alternativas. Josué alternava entre as duas opções. Antes de pensar na metodologia, a pesquisadora considerou perti- nente realizar um levantamento bibliográfico para subsidiar algumas ques- tões, como o contexto da acessibilidade e da inclusão dos deficientes visuais na vida escolar, em especial, a graduação. Entre os artigos encontrados está “Acessibilidade no Brasil: uma visão histórica” (Lima et al., 2005) que, embora tenha 20 anos, é relevante porque aborda a legislação brasileira acerca do tema antes da Constituição de 1988. Já o artigo “Definição de cegueira e baixa visão” (Conde, 2018), trouxe subsídios sobre a classifica- ção da deficiência visual. Nesse contexto, também foi relevante, a leitura da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, promulgada em seis de julho de 2015. O terceiro artigo da Lei incentiva a criação de metodolo- gias e estratégias para viabilizar a participação da pessoa com deficiência. Sendo assim, deixa claro a obrigação legal das instituições de ensino. Durante esse trabalho, a pesquisadora também colheu informa- ções sobre a Fundação Dorina Nowill para Cegos, fundada em 1946. A instituição já produziu quase 3 mil obras em áudio e outros 900 títulos digitais. A Fundação Dorina é um bom exemplo de que a preocupação 114 com a acessibilidade dos cegos e das pessoas com baixa visão não é algo recente. Além disso, a instituição, que começou no século passado com as transcrições para o braile, acompanhou a evolução e hoje usa outros recursos tecnológicos. A pesquisadora também buscou dados relaciona- dos ao número de deficientes visuais no Brasil e a quantos estão no ensino superior. De acordo com o último censo do IBGE (2020), existem no Brasil 582 mil pessoas cegas e 6 milhões com baixa visão. A pesquisa bibliográfica identificou a relevância da didática adotada pelos docentes estar em harmonia com a incapacidade visual do aluno e, ao mesmo tempo, envolver todos os demais estudantes. Sendo assim, era imprescindível que a metodologiafissional”, ministrada no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC. Os textos foram aqui divididos em três seções temáticas. A primeira delas, “Desafios ao Ensino, ao Estágio e à Extensão”, é aberta pela reflexão sobre “Preparação para a docência de jornalismo e comunicação: percepções de estudantes de pós-graduação stricto sensu”, da professora doutora Janaíne Kronbauer, da Universidade Estadual de Ponta Grossa, que investiga, analisa e problematiza a formação para a futura ati- vidade docente de estudantes vinculados a Programas de Pós-Graduação em Jornalismo e Comunicação no Brasil. A autora discute tópicos como grau de confiança e conhecimento pedagógico das pós-graduandas e pós- graduandos para atuarem na docência, e o desafio enfrentado pelos PPGs para conciliar os esforços de formação para o ensino e a pesquisa. Os dois capítulos seguintes refletem sobre a curricularização no ensino de jornalismo. “A curricularização da extensão no curso de jornalismo UFSC e os desafios para além do currículo”, da professora doutora Melina de la Barrera Ayres, explora a integração da extensão universitária nas disci- plinas do Curso de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina, destacando a evolução histórica e a importância da extensão como um elo transformador entre a universidade e a sociedade, detalhando como essa integração foi regulamentada e implementada ao longo do tempo. O terceiro capítulo, intitulado “O papel da extensão curricularizada na formação de jornalistas: desafios e oportunidades”, de autoria da professora 15 doutora Maiara Maduro, discute a intrincada relação da natureza do jor- nalismo com a extensão. A autora versa sobre a temática a partir das expe- riências vividas por estudantes de Jornalismo do Instituto Superior Bom Jesus (Ielusc), localizado na cidade de Joinville (SC), onde leciona. O quarto capítulo traz um levantamento abrangente do histórico e do funcionamento atual do estágio obrigatório no ensino de jornalismo. Em “Estágio em Jornalismo sem núcleos consistentes de pesquisa e supervisão da relação com mercado profissional”, a professora doutora Roseméri Lau- rindo, diretora da Associação Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej), revisa a bibliografia sobre o tema e recolhe depoimentos, visões e angústias de muitos coordenadores de curso sobre esta questão, de várias partes do Brasil, mas especialmente da Região Sul. Por fim, o capítulo 5, de autoria da mestranda Giovanna Pavan Franco, apresenta um “Diagnóstico da inclusão de tecnologias emergentes no currí- culo da graduação de jornalismo na UFSC”. A autora investiga como as novas tecnologias estão sendo integradas e ensinadas nesta universidade. Por meio de questionários aplicados a professores e alunos, busca compreender de que maneira a formação jornalística acompanha as transformações tecnológicas e quais desafios e oportunidades se apresentam nesse processo. A segunda parte do livro, “Inclusão e Diversidade no Ensino de Jor- nalismo”, é aberta pelo capítulo 6, “Série Minuto Estácio Inclusão: defi- ciência visual, barreiras atitudinais e desafios metodológicos no ensino superior”, da professora doutora Regina Zandomênico. O texto mostra os desafios enfrentados por estudantes com deficiência visual no ensino superior, relatando experiências e práticas desenvolvidas para superar esses obstáculos na Universidade Estácio de Sá em Florianópolis, como a criação de vídeos educacionais e metodologias ativas que facilitam a inclusão desses estudantes. O capítulo 7, “Educação das relações étnico-raciais na formação de jornalistas na região Norte”, da doutoranda Jaine Araújo, mapeia a presença da educação para as relações étnico-raciais nos currículos dos cursos de Jornalismo das universidades federais do Norte do Brasil. Para isso, analisa as versões mais recentes dos projetos pedagógicos dos cursos e os ementá- rios das graduações, além de aplicar questionários a professores destas ins- tituições de ensino superior. O texto busca compreender como as questões de raça são enfocadas nas atividades de ensino, pesquisa e extensão e quais desafios e avanços podem ser observados nesse contexto. 16 O capítulo 8, “Ensino laboratorial de radiojornalismo: um olhar a par- tir da perspectiva de gênero”, da também doutoranda Raphaela Xavier de Oliveira Ferro, aborda como os laboratórios de radiojornalismo nas uni- versidades brasileiras podem reforçar normas de gênero dominantes ao ignorar a diversidade de vozes e perspectivas, especialmente em relação ao timbre e à credibilidade associados às vozes masculinas, propondo uma reflexão crítica sobre o ensino laboratorial, destacando a necessidade de incluir a perspectiva de gênero como uma categoria de análise relevante para desafiar e enriquecer as práticas pedagógicas e editoriais existentes. A terceira parte do livro, “Da Pedagogia Emancipatória à Prática Jor- nalística”, é aberta pelo texto do professor doutor Dennis de Oliveira, da Universidade de São Paulo. No capítulo “Jornalismo, compartilhamento de imediaticidades e o pensamento de Paulo Freire”, o professor Dennis reforça a importância do debate sobre o papel do jornalismo, assim como a reflexão a respeito dos procedimentos de apuração no cotidiano da prática jornalística, considerando a sociedade como uma totalidade complexa que se mobiliza a partir de conflitos e contradições. É nesta perspectiva que propõe a constituição de um novo jornalismo, que denomina de “jorna- lismo emancipatório”. No décimo capítulo, “Paulo Freire e o compromisso do jornalista com a sociedade”, o professor doutor Jorge Kanehide Ijuim, do PPGJor-UFSC, se inspira nas ideias do Patrono da Educação Brasileira para instigar jor- nalistas a desenvolverem uma “consciência ética-epistemológica”. O autor defende que essa consciência tem implicações no modo como nós, jorna- listas, pensamos e lemos a pauta, que fontes elegemos e o que perguntamos a elas. Isso tudo tem consequências no tipo de conhecimento produzido nas notícias e reportagens. Em “Saberes descolonizados no projeto jornalístico Notícia Preta”, o capítulo seguinte, a doutoranda Ediane Barbosa Oliveira parte de referên- cias decoloniais com o objetivo de ampliar o olhar para a ainda incipiente presença das discussões com temática racial no âmbito das pesquisas em Comunicação e Jornalismo. A autora compartilha sua própria experiência na academia e, a partir de contribuições de Paulo Freire, bell hooks e Grada Kilomba, realiza uma análise de conteúdos do projeto Notícia Preta, para propor o desafio de novos e mais olhares pedagógicos para o jornalismo. E, fechando o livro, no capítulo 12, “Um olhar freiriano sobre a cober- tura radiofônica de Carnaval”, o doutorando Anderson Luiz Condor Baltar 17 reflete sobre o potencial da cobertura de rádio a respeito dos desfiles de carnaval do Rio de Janeiro, reconhecendo nela características pedagógicas. Para tanto, o autor estabelece o diálogo entre a prática profissional e os conceitos de Paulo Freire e Mario Kaplún, compreendendo o espetáculo carnavalesco a partir de uma narrativa que envolve questões sociais da atu- alidade de forma aprofundada. O conjunto dos textos reunidos neste e-book aponta na perspectiva da Educação que liberta, assim como na de um Jornalismo que contribui para a emancipação, porque acreditamos, como os demais autores, na possibi- lidade de seres humanos livres de opressão, assim como de comunidades e sociedades livres e solidárias, ainda que estejamos cotidianamente subme- tidos a um sistema que se reinventa para a manutenção de pessoas e povos subjugados, subalternos e marginalizados. Florianópolis, abril de 2025. Desafios ao Ensino ao Estágio e à Extensão P A R T E 1 19 C A P Í T U L O 1 Preparação para a Docência de Jornalismo e Comunicação: percepções de estudantes de pós-graduação stricto sensu janaíne Kronbauer1 Introdução O número de programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil cres-a ser criada proporcionasse a interação dos alunos cegos e de baixa visão com o restante da turma que também participaria das mesmas iniciativas. O objetivo era que o conhecimento fosse adquirido de forma participativa e não apenas como ouvintes de aulas expositivas ou da audição de textos acadêmicos lidos por narradores ou softwares de leitura de tela. Embora essas alternativas viabilizem acesso ao mesmo conteúdo que o restante dos colegas, a apresentação de seminários em grupo não traz a mesma oportunidade. Como exemplo, estão o uso de recursos imagéticos, como palavras-chave ou fotografias exibidas em Power Point durante as apresentações. Selau et al. (2016) afirmam que, muitas vezes, docentes desenvolvem estratégias pedagógicas diferenciadas para estudantes cegos, mas que não os inserem no grupo. Na análise dos autores, “a didática adotada pelo docente deve estar em harmonia com a incapacidade visual do aluno e, ao mesmo tempo, envolver todos os demais estudantes.” (Sela et al., 2016). O desenvolvimento de uma metodologia ativa é importante não só para o acadêmico deficiente visual, mas também para professores e colegas de sala de aula que terão a oportunidade de interagir dentro de um novo contexto. O resultado de uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Podcasters influenciou a pesquisadora a definir qual estratégia poderia ser proposta. De acordo com a PodPesquisa Produtor 2020/2021, o uso de podcasts como estratégia de ensino e educação ficou em segundo lugar na questão relacionada ao conteúdo produzido pelos entrevistados. A pesquisa teve 626 respostas válidas de produtores de podcasts de 24 estados brasileiros (ABPOD, 2023). Questões como maior engajamento e criatividade também foram apontadas por Pereira e Santos Neto (2020) nos resultados do emprego de podcasts como estratégia de aprendizagem no ensino superior. 115 A pesquisadora propôs a criação de um podcast para abordar conteúdos de Teoria da Comunicação, disciplina na qual o acadêmico cego Gustavo de Simas e a turma dele estavam matriculados durante o desenvolvimento das iniciativas. A equipe formada por Gustavo e pelas colegas Êmily da Luz Ribeiro e Stephany de Oliveira ficou responsável pela gravação do podcast e o denomi- nou de Táx Ligado? O grupo escolheu o nome porque a expressão é uma gíria, com sotaque regional, que significa questionar se o interlocutor está ciente de determinado assunto. Como tema, os acadêmicos decidiram abordar como as redes sociais tiraram o público do papel de receptor passivo e o transformaram em ativo. A pesquisadora foi a professora convidada para participar da grava- ção do podcast, o que oportunizou uma observação direta da iniciativa. Os preparativos para a gravação antecederam a aula expositiva e o acesso a textos sobre o tema. As acadêmicas Emily e Stephany leram os tex- tos e Gustavo ouviu o conteúdo disponibilizado em áudio, gravado no estú- dio de rádio da instituição. Antes da gravação, os acadêmicos se reuniram para discutir a estrutura do podcast e os questionamentos que seriam reali- zados. A gravação foi realizada no dia 11 de dezembro de 2023, no estúdio de rádio da instituição, com apoio do técnico de áudio Márcio Goebel. Os três integrantes do grupo e a pesquisadora convidada, sentados em uma mesa redonda, interagiram em um ambiente igualitário. Os textos estudados pelos acadêmicos ajudaram a subsidiar as perguntas e interações que também incluíram exemplos pessoais para ilustrar de maneira prática a teoria estudada. O questionamento que gerou maior interatividade foi o que abordou como as redes sociais influenciaram a prática jornalística diante da interatividade do público. A ideia inicial da equipe era produzir o podcast com 15 minutos de duração, mas durante a gravação os acadêmicos decidiram extrapolar o tempo, motivados pela intensa interação do grupo. A versão final ficou com 31 minutos e foi disponibilizada no mesmo dia da gravação no canal Jornalismo Estácio SC no Youtube. O acadêmico Gustavo de Simas avaliou a experiência como muito didática: “É algo fácil, todo mundo já está bem acostumado, ambientado a acompanhar. Facilita bastante, torna inclusivo e é uma experiência dife- rente.” A conclusão do grupo foi que o podcast Tax Ligado foi capaz de promover a inclusão do acadêmico cego de maneira igualitária em relação às duas colegas em todas as etapas de aquisição do conhecimento. A partir desta experiência, o grupo considerou a possibilidade de usar o podcast como alternativa de estudo para outras disciplinas teóricas. 116 O podcast Táx Ligado e a série de vídeos Minuto Estácio Inclusão ainda motivaram o acadêmico a produzir, como atividade extracurricular, a repor- tagem “Os desafios de cegos e pessoas com baixa de visão no ensino supe- rior”. No trabalho, foram entrevistados universitários cegos e de baixa visão da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e do Centro Universitário Estácio Santa Catarina. Também foram ouvidos profissionais da área da Educação e Psicologia, que destacaram a relevância de derrubar as barreiras atitudinais. A reportagem está disponível no canal do curso de Jornalismo da Estácio em SC. Imagem na ponta dos dedos Neste primeiro semestre de 2025, uma das disciplinas cursadas pelo aluno Gustavo de Simas, é Teoria e Prática Documental. Nos dias em que há exibição de documentários ou grandes reportagens em sala de aula, para posterior discussão, é rotina que esta pesquisadora, docente da disciplina, faça audiodescrição dos vídeos para o acadêmico. Entre- tanto, considerou-se que apenas audiodescrição não seria suficiente para explicar o conteúdo da disciplina, relacionado a movimentos de câmera e tipos de enquadramento de imagens. Sendo assim, esta pesquisadora decidiu criar molduras em papelão, em diversos tamanhos que, utilizadas diante de um boneco de 15 cm de altura, representassem enquadramen- tos comuns em produções audiovisuais. Na dinâmica de rotina desta disciplina, os acadêmicos ouvem a expli- cação sobre o nome técnico do enquadramento e o visualizam em um monitor acoplado à câmera manuseada pelo cinegrafista Wilson Ricardo. No dia da aula, o acadêmico cego também ouviu a explicação e, ao apalpar a moldura em torno do boneco, teve um novo subsídio para compreender o conteúdo. Assim, quando foi abordado o “plano americano”, por exemplo, todos os acadêmicos ouviram a explicação que é um tipo de enquadra- mento em que uma pessoa é enquadrada da cintura para cima. Os alunos que não têm problema de visão viram a imagem no monitor e Gustavo de Simas pode sentir o conceito apalpando a moldura que enquadrou o boneco entre a cintura e a cabeça. A criação desta estratégia também serviu de reforço para o restante dos colegas. Após visualizarem o monitor, foram atraídos pela metodologia criada para o acadêmico cego. 117 Na etapa em que foram abordados movimentos de câmera, o acadê- mico cego operou o equipamento de filmagem ouvindo a explicação do conceito, as instruções da professora e do cinegrafista, além da audiodes- crição do que estava sendo filmado. Cabe salientar que o objetivo era opor- tunizar, por meio da operação do equipamento, além do conhecimento da nomenclatura dos movimentos de câmera, subsídios para criá-los. Figura 4: Uso de molduras para demonstrar enquadramentos de imagem Acadêmico cego apalpa moldura segurada pela docente (Foto: acervo da autora) 118 Figura 5: Gustavo de Simas opera câmera filmadora Docente e cinegrafista orientam acadêmico no estúdio de TV (Foto: acervo da autora) 119 Ao final da aula, o acadêmico cego relatou que conseguiu compreender todo o conteúdo e enfatizou que a metodologia promoveu a inclusão dele na dinâmica da aula. Esta pesquisadora e o cinegrafista observaram que a meto- dologia também impactou o restante dos acadêmicos. Sendo assim, moldu- ras criadas em papelão ajudaram a oportunizar conhecimento e inclusão.Conclusão O desenvolvimento da série de vídeos Minuto Estácio Inclusão, o pod- cast Táx Ligado, a metodologia das molduras em papelão e o manuseio da câmera pelo acadêmico cego subsidiam o entendimento de que inclusão não é apenas garantir a matrícula de pessoas com necessidades especiais em uma instituição de ensino. A verdadeira inclusão é um processo amplo que também inclui a qualidade das interações que serão mantidas com colegas de sala, professores e funcionários da instituição de ensino. O primeiro passo é identificar as barreiras atitudinais e buscar alternati- vas para minimizá-las. Essas barreiras podem existir por desconhecimento ou preconceito, mas independente da causa, é imprescindível que sejam der- rubadas. Os recursos que envolveram as produções de vídeos Minuto Estácio Inclusão foram uma ferramenta de esclarecimento relevante. O uso de vídeos apresentou-se como uma metodologia potente porque repassou mensagens por meio de recursos variados, indo além da oralidade de uma explanação. Além da possibilidade de usar uma linguagem coloquial, o uso das recons- tituições mostrando erros e indicando opções de acertos repassou a mensa- gem de maneira didática. Outro acerto identificado foi o uso de legendas. O público-alvo do projeto Minuto Estácio, em um primeiro momento, era apenas a turma em que o acadêmico cego estava inserido. Entretanto, observou-se que a série de vídeos despertou interesse em outros universi- tários da instituição e tornou-se também uma ferramenta para qualquer pessoa que, em algum momento da vida, terá interações com os deficientes visuais. Sendo assim, disponibilizar os vídeos para compartilhamento no whatsapp e depois postá-los no canal que o curso mantém no Youtube foi uma decisão pertinente. A pesquisadora identificou ser imprescindível criar iniciativas que faci- litem ou indiquem a maneira mais adequada para interagir com colegas de baixa ou total perda de visão. Conclui-se que a produção dos vídeos Minuto 120 Estácio Inclusão, além de orientarem sobre dinâmicas de relação, também podem ser subsídios para o desenvolvimento e criação de metodologias ativas para dinamizar a aquisição do conhecimento por acadêmicos cegos ou com baixa visão. Por se tratar de acadêmicos do curso de Jornalismo, a produção do podcast Táx Ligado foi uma alternativa familiar para os envolvidos. Pode-se também destacar a vantagem de o arquivo de áudio ser ouvido a qualquer momento. O podcast, como metodologia ativa de ensino, atingiu o objetivo de proporcionar ao acadêmico cego uma verdadeira inclusão. As edições do Minuto Estácio Inclusão e o podcast Táx Ligado foram apresentados ao colegiado do curso de Jornalismo, no final de 2023. Em setembro de 2024, as duas iniciativas foram apresentadas dentro da pro- posta metodológica de ensino para alunos cegos ou de baixa visão no Semi- nário Nacional de Pesquisa da Estácio e também houve a apresentação no Seminário de Extensão, Pesquisa e Internacionalização, em outubro do mesmo ano. A metodologia utilizada nas aulas de Teoria e Prática Docu- mental foi divulgada, em meados de março deste ano, para os docentes dos cursos de Jornalismo e Publicidade da instituição. Por fim, cabe salientar a avaliação do acadêmico Gustavo de Simas relacionada à responsabilidade das instituições de ensino superior em rela- ção aos acadêmicos com algum tipo de necessidade especial: A universidade precisa ter uma política para receber o aluno com deficiência visual ou qualquer outra. Não é chegar e “vamos ver no que vai dar”. Ela precisa estar esperando, estar estruturada. Depende da universidade, depende de todo mundo, para a questão funcionar, para que o acadêmico com alguma deficiência tenha uma vida mais tranquila e com menos obstáculos atitudinais no ensino superior (Simas, 2025). A criação da série de vídeos Minuto Estácio Inclusão, do podcast Táx Ligado e a metodologia da aula de Teoria e Prática Documental atingiram os objetivos propostos. Também deixaram o alerta de que as barreiras ati- tudinais nas instituições de ensino influenciam na trajetória acadêmica e, por consequência, na aquisição do conhecimento. Além disso, enfatizaram a responsabilidade da comunidade acadêmica dentro deste contexto. 121 Referências ABPOD. PodPesquisa Produtor 2020/2021. Disponível em: https://abpod.org/wp- content/uploads/2020/12/Podpesquisa-Produtor-2020-2021_Abpod-Resultados. pdf. Acesso em: 30 nov. 2023. BRASIL. Decreto Presidencial no 6.949. Disponível em: https://www.planalto.gov. br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm. Acesso em: 10 mai. 2023. BRASIL. Lei de Inclusão à Pessoa com Deficiência. Disponível em: http://www.pla- nalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm. Acesso em: 10 mai. 2023. DIVERSA. Educação Inclusiva. Instituto Rodrigo Mendes. Disponível em https:// diversa.org.br/. Acesso em: 30 jan. 2023. IBC. O IBC e a educação de cegos no Brasil. Disponível em: http://antigo.ibc.gov. br/a-criacao-do-ibc. Acesso em: 20 jan. 2023. FIGUEIREDO, Saulo Porfírio. Gestão do Conhecimento. Estratégias Com- petitivas para a criação e Mobilização do Conhecimento na Empresa. 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As/os autoras/es das propostas ressaltaram que a grade curricu- lar dos cursos de Jornalismo precisava considerar essa realidade e abordá- la, pois as/os jornalistas e o espaço midiático são, respectivamente, atores e arena pública relevantes para essa luta (Propostas [...], 2009). Porém, as Diretrizes aprovadas não trataram diretamente da questão, falando apenas em considerar as raízes étnicas e a pluralidade da sociedade brasileira, sem tratar especificamente das questões de raça e racismo. Dezesseis anos depois, a presente pesquisa busca mapear a educação para as relações étnico-raciais (ERER) em currículos de cursos superiores de Jornalismo de universidades federais do Norte do Brasil2. Para isso, ana- lisamos a versão mais recente dos projetos pedagógicos de curso (PPCs) e os respectivos ementários das graduações da área nas universidades fede- rais dos estados que compõem a região: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. 1 Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJOR) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Jornalista formada pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e mestra em Le- tras: Linguagem e Identidade pela mesma instituição. E-mail: jaine.ppgjor@gmail.com. 2 Este estudo se relaciona indiretamente à pesquisa de doutorado da autora, em desenvolvimento, sobre as trajetórias de jornalistas negras que atuam na região Norte do Brasil. Uma versão anterior deste texto foi publicada nos anais do 24o Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEJor), realizado em Curitiba em 2025. mailto:jaine.ppgjor@gmail.com 124 O estudo dialoga também com a Lei no 10.639 de 2003 (Brasil, 2003), que prevê o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas de ensino fundamental e médio de todo o país, tendo sido alterada pela Lei no 11.645 de 2008 (Brasil, 2008), que acrescenta a obrigatoriedade do ensino de história e cultura indígenas. Partimos da necessidade de pensar a questão da diversidade étnico- racial no jornalismo brasileiro compreendendo o enfrentamento ao racismo como uma tarefa complexa que não pode ser executada somente com o necessário e urgente aumento da presença de jornalistas negras/os nas redações. Esse debate tem um contorno epistemológico que faz necessário refletir sobre a formação das/os jornalistas, uma vez que tornar o conheci- mento produzido pelo jornalismo mais diverso não deve ser responsabili- dade somente de profissionais negras/os ou pertencentes a minorias. Em termos metodológicos, fazemos uma pesquisa bibliográfica sobre a educação para as relações étnico-raciais na formação de jornalistas (Neckel e Campos, 2016; Felix, 2022); e discutimos as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Jornalismo (Brasil, 2013), as Leis nos 10.639/2003 e 11.645/2009, e o Parecer no 3/2004 do Conselho Nacional de Educação (Brasil, 2004). Na análise de conteúdo (Bardin, 2016 [1977]), tomamos como corpus os projetos pedagógicos e os ementários dos cur- sos de graduação estudados; além das respostas de docentes de cursos de Jornalismo das universidades federais da região Norte a um questionário sobre o ensino das relações étnico-raciais no âmbito desses cursos. Relações étnico-raciais no ensino de jornalismo Aprovado em março de 2004, o Parecer no 3/2004 do Conselho Nacio- nal de Educação (Brasil, 2004) regulamenta a legislação referente à edu- cação das relações étnico-raciais, estendendo-a às universidades. O docu- mento classifica o ensino das temáticas pertencentes ao tópico como polí- tica de reparação histórica. Por seu turno, as Diretrizes Curriculares Nacio- nais para os cursos de Jornalismo (Brasil, 2013) apontam que os currículos desses cursos de graduação devem incluir no eixo de formação humanís- tica conteúdos que capacitem a/o jornalista para o exercício de sua função intelectual, além de orientarem para o conhecimento das raízes étnicas, da cultura popular e da arte brasileira. 125 Porém, na compreensão de Carla Felix, tanto o Parecer (Brasil, 2004) quanto as Diretrizes (Brasil, 2013) permitem que os tópicos das relações étnico-raciais sejam conduzidos nos cursos de jornalismo de maneira “fluida”: “Na prática, significa que podem incluir questões relacionadas ao tema nas ementas de diferentes disciplinas ou reconhecer como optativas para o curso disciplinas oferecidas por outros Departamentos de Ensino” (Felix, 2022, p. 2). Na visão da autora, decorre disso a possível não correspondência entre o conteúdo de uma disciplina ministrada em outro departamento e o que se espera da educação para as relações étnico-raciais voltada especificamente para a formação de jornalistas. Há também a contradição existente em tor- nar obrigatório via legislação federal o ensino de tal temática, mas permitir que ele seja implementado em disciplinas optativas (Felix, 2022), o que, em termos práticos, significa que o acesso a tais discussões perde o caráter obrigatório. É o que Ângelo Neckel e Deivison Campos (2016) observaram ao estudar como as 22 graduações de Jornalismo do Rio Grande do Sul abordavam as relações étnico-raciais em seus currículos: ... a maioria dos egressos não cursa disciplinas específicas de His- tória e Cultura afro-brasileira e indígena pelo fato de todas elas se- rem ofertadas como eletivas. O resultado dessa ausência ocasiona a exclusão de representações específicas sobre as visões de mundo dos dois grupos no currículo e na vida discente, comprometendo as reflexões dos futuros profissionais (Neckel; Campos, 2016, p. 138). A oferta e o acesso a disciplinas que tratem especificamente de ques- tões étnico-raciais dependem da trajetória acadêmica trilhada pelas/os estudantes e da sensibilidade de professoras/es para o tema, quando se trata de currículos que preveem disciplinas eletivas voltadas à educação das rela- ções étnico-raciais. Felix (2022) questiona em que medida essa abordagem centrada no/a professor/a, em sua responsabilidade quase exclusivamente individual de dar ao tema o espaço necessário, é suficiente para a forma- ção adequada de jornalistas que, partindo de uma compreensão ampla das relações étnico-raciais, sejam capazes de promover práticas antirracistas em seus trabalhos. Por sua vez, o Parecer no 3/2004 do CNE assinala a necessidade de haver professores capazes de “lidar com as tensas relações produzidas pelo 126 racismo e discriminações, sensíveis e capazes de conduzir a reeducação das relações entre diferentes grupos étnico-raciais” (2004, p. 2). O documento é categórico: Para obter êxito, a escola e seus professores não podem improvisar. Têm que desfazer mentalidade racista e discriminadora secular, su- perando o etnocentrismo europeu, reestruturando relações étnico- raciais e sociais, desalienando processospedagógicos. Isto não pode ficar reduzido a palavras e a raciocínios desvinculados da experiên- cia de ser inferiorizados vivida pelos negros, tampouco das baixas classificações que lhe são atribuídas nas escalas de desigualdades so- ciais, econômicas, educativas e políticas (Brasil, 2004, p. 6). Assim, é fundamental que as/os professoras/es dos cursos superiores, entre os quais focamos os de Jornalismo, tenham formação contínua, enga- jada e adequada para tratar das temáticas referentes à história e cultura afro-brasileira e indígena e de fato promover inclusão e problematização quanto ao tópico em sala de aula. O racismo, enquanto sistema de dominação (Collins, 2019), se mani- festa de diferentes formas nas dinâmicas de sala de aula. Ora pela produção e disseminação de representações que reiteram estereótipos, ora pelo silen- ciamento de acontecimentos históricos, socioeconômicos, culturais rela- cionados às minorias raciais (Santomé, 1995). Há, portanto, uma dimen- são inconsciente de reprodução desse sistema de dominação, não menos nociva à formação das/os alunas/os. Nessa dinâmica, o currículo se insere como um produtor de sujeitos particulares (Silva, 1995), o que nos leva a refletir sobre que tipos de sujeitas/os os currículos dos cursos de Jorna- lismo das instituições estudadas têm produzido quando se trata das rela- ções étnico-raciais. Para lidar com as diferentes manifestações do racismo, a transversali- dade da educação das relações étnico-raciais em várias disciplinas e projetos de pesquisa e extensão pode servir como antídoto. A abordagem da temática não deve ser reduzida a algumas lições ou unidades didáticas isoladas, nem ser feita a partir de uma perspectiva de distanciamento que apresenta tal pro- blemática como impermeável à ação humana (Santomé, 1995). No entanto, há inúmeros desafios quando se trata de enfrentar um sistema de dominação secular e tão maleável quanto o racismo, inclusive 127 no campo individual. Nesse sentido, Neckel e Campos (2016) e Felix (2022) pontuam que a criação de disciplinas obrigatórias que priorizem o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nos cursos de graduação em Jornalismo brasileiros deve ser uma estratégia prioritária. Pensando na dimensão curricular, nos propusemos a analisar os projetos pedagógicos dos cursos de sete universidades federais da região Norte. Projetos pedagógicos, ementas e bibliografias Para estudar os projetos pedagógicos dos cursos de graduação em jornalismo das universidades federais da região Norte do Brasil, levanta- mos no site do Ministério da Educação a lista de universidades federais da região e investigamos dentre elas, via sites institucionais, quais tinham cursos de graduação nessa área3. As instituições identificadas e seus respectivos anos de publicação do projeto pedagógico mais recente são os seguintes: Universidade Federal do Acre (Ufac/2013), Universidade Federal do Amazonas (Ufam/2022), Universidade Federal do Amapá (Unifap/2015), Universidade Federal de Rondônia (Unir/2023), Universidade Federal de Roraima (UFRR/20154), Universidade Federal do Pará (UFPA/2020) e Universidade Federal do Tocantins (UFT/2022). Após a identificação das universidades federais da região Norte que ofertam graduação em Jornalismo, fizemos o levantamento dos respectivos projetos pedagógicos de curso e ementários. Para a análise desses docu- mentos, com vistas ao objetivo geral da pesquisa ora delineada, fizemos uma leitura flutuante do material, a partir de buscas com as palavras-chave “raça”, “racismo”, “étnico-raciais”, “negro”, “afro-brasileiro/a”, “negritude” e “branquitude”. 3 Dentre as instituições, desconsideramos a Universidade Federal do Sul e Sudoeste do Pará (Unifesspa) em razão de não termos tido confirmação sobre a data de publicação do PPC e do ementário do curso, bem como por não termos tido nenhuma resposta de docente vinculado à instituição ao questionário aplicado. 4 A Universidade Federal de Roraima aprovou um novo Projeto Pedagógico para o curso de Jornalismo em janeiro de 2025, momento em que este texto estava sendo finalizado. O novo PPC diz que “optou-se por manter a maior parte da matriz curricular do PPC aprovado em 2015, devido a última versão do Projeto Pedagógico ainda estar em fase de formação das primeiras turmas. Logo, um PPC totalmen- te reformulado poderia interromper a proposta pedagógica, formativa e curricular implementada em 2015, que em 2024 ainda se encontra atualizada pelas diretrizes nacionais que foram publicadas em 2013 (que permanecem vigentes)” (Universidade Federal de Roraima, 2025). Em razão disso, optamos por manter neste capítulo a análise dos documentos de 2015. 128 Fizemos uma análise do conteúdo (Bardin, 2016 [1977]), a partir da elaboração de uma tabela na qual registramos a presença ou a ausência de cada um desses descritores nos PPCs e nas ementas de disciplinas. Com base nessa sistematização, alguns pontos se destacam. O primeiro deles é que os termos “étnico-raciais” e “afro-brasileira” são mencionados em quase todos os PPCs, pois, à exceção do PPC da UFPA, todos fazem men- ção à Resolução no 1, de 17 de junho de 2004 do Conselho Nacional de Educação, que, a partir do já citado Parecer no 3/2004 do CNE, institui diretrizes curriculares para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, inclusive nas institui- ções de ensino superior. Isso revela o conhecimento dos corpos docentes dos cursos quanto à existência da lei, aproximando-a, nos PPCs, de outros tópicos também amparados legalmente, a exemplo da educação em direitos humanos e da educação ambiental, citadas nos PPCs da Ufam, da Unifap e da UFT. Já nos ementários, termos como “cultura étnico-racial” e “questão étnico-racial” são mencionados nas disciplinas obrigatórias “Comunicação e Cultura” e “Ética” (Ufac), e “Mídia e Direitos Humanos” (Ufam). O segundo ponto destacado é que o termo “raça” está presente somente no PPC da Unir, quando o documento trata das temáticas curriculares obri- gatórias e cita a Lei no 11.340/2006, sobre combate à violência doméstica contra as mulheres. O projeto pedagógico em questão apresenta trechos da referida lei, em que há o incentivo à promoção de estudos e pesquisas com perspectiva de raça e gênero e à presença de conteúdos nos currículos escolares de todos os níveis de ensino que tratem dos direitos humanos, da equidade de gênero e raça ou etnia, bem como versem sobre a violência doméstica e familiar contra a mulher. Nos ementários, o termo “raça” é mencionado nas disciplinas optati- vas “Fundamentos de análise do discurso” (Unifap): “Discurso e sociedade: comunidade discursiva e identidade, raça, gênero/sexualidade e ideolo- gia”; “Estudos Avançados em Televisualidades” (Unir): “Televisualidades e interseccionalidades de gênero, raça e classe”; e “Comunicação e Colonia- lidades” (UFPA): “Raça, etnia, gênero e classe”. Já nas bibliografias das dis- ciplinas, a palavra “raça” é citada somente em uma disciplina obrigatória: “Introdução à antropologia”: capítulo “Raça e História” do livro Antropo- logia Estrutural, de Claude Lévi-Strauss. Também há disciplinas optativas que apresentam o termo em suas respectivas bibliografias complementares: 129 “Representações Sociais e Mídia” (UFT): livro Olhares negros: raça e repre- sentação, de bell hooks; e “Mulher, Mídia e Sociedade”: livro Mulheres, raça e classe, de Angela Davis. O terceiro aspecto que se destaca na leitura é que o descritor “racismo” não se faz presente em nenhum PPC. É possível identificá-lo somente no ementário da Unir: 1) na bibliografia complementar da disciplina obriga- tória “Comunicação e diferenças”, quando menciona a dissertação de mes- trado Racismo anunciado: o negro e a publicidade no Brasil (1985-2005), de Carlos Martins; 2) na ementa da disciplina optativa “Estratégias Comuni- cacionais do Rap”, quando apresenta o tópico “Rap em combate à xenofobiae ao racismo” e em dois objetivos específicos da mesma disciplina, que são: “Refletir sobre o papel do movimento hip-hop como meio contra hegemô- nico e de combate ao racismo” e “Utilizar a música rap como ferramenta de análise sobre temas como globalização, censura, violência, identidade de gênero, racismo, regionalidades, feminismo e preservação linguística”; e 3) na bibliografia complementar da disciplina optativa “Crítica de Mídia”, ao listar o livro Vozes negras em comunicação: mídia, racismos e resistências, organizado por Laura Corrêa. Os termos “branquitude” e “negritude” não foram identificados em nenhum documento. O quarto aspecto que se sobressai é que o termo “negro” aparece somente em dois PPCs. O da Unir apresenta o descritor ao tratar das temá- ticas curriculares obrigatórias. Na passagem, o documento cita o Código de ética dos jornalistas brasileiros, que determina como dever do jornalista “defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garan- tias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias”; e “combater a prática de perseguição ou discriminação por motivos sociais, econômicos, políti- cos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza”. O termo “negro” está presente na ementa das seguintes disciplinas obrigatórias: 1) “Comunicação e política” (Unifap): “Estudar representa- ções discursivas e simbólicas assim como identidade e emancipação nas dimensões da cultura e da cidadania e os reflexos sobre a marginalização e discriminação de grupos sociais como mulheres, negros e gays, o genocí- dio indígena e as violências urbanas”; e 2) “Estudos de Temas Amazônicos II” (UFPA): “Amazônia, colonialidades, estereótipos e diáspora. Povos for- madores e diversidade cultural: índios, negros e imigrantes. Visualidade, 130 mitos, imaginários e narrativas. Manifestações tradicionais e culturais. Midiatização e Amazônia.” O descritor “negro” também é mencionado na ementa da disciplina optativa “Comunicação e Saberes Alternativos na Amazônia” (UFPA): “Os saberes e a comunicação dos indígenas, qui- lombolas, das mulheres, das mulheres negras, dos negros, da comunidade LGBTI+ e outros grupos sociais excluídos.” A palavra também se faz presente nas bibliografias complementares das disciplinas obrigatórias “Comunicação e diferenças” (Unir), que lista a dis- sertação de mestrado Racismo anunciado: o negro e a publicidade no Brasil (1985-2005), de Carlos Martins; “Introdução à antropologia” (UFRR), que menciona o livro Negros da terra, de John Monteiro; e “Estudos de Temas Amazônicos II” (UFPA), que inclui a obra A questão étnica: índios, negros, brancos e caboclos, de Angélica Maués. Por fim, nas bibliografias complementares de disciplinas optativas, o termo “negro” é mais recorrente, aparecendo nas seguintes matérias: 1) “Representações Sociais e Mídia” (UFT): livro Olhares negros: raça e repre- sentação, de bell hooks; 2) “Pensamento Descolonial Aplicado à Comuni- cação” (Unir): livro O Atlântico negro: modernidade e dupla consciência, de Paul Gilroy; 3) “Mulher, Mídia e Sociedade” (Unir): livro Quem tem medo do feminismo negro?, de Djamila Ribeiro; e “Comunicação e Colonialida- des” (UFPA): artigo Decolonialidade e perspectiva negra, de Joaze Bernar- dino-Costa e Ramon Grosfoguel. Percepções de docentes O terceiro momento metodológico da presente pesquisa centrou-se na aplicação de um questionário5 a docentes dos cursos de Jornalismo 5 Aplicado via Google Forms, o questionário ficou aberto a respostas entre os dias 12 de dezembro de 2024 e 21 de janeiro de 2025, tendo sido divulgado em listas de pesquisas da Compós e da Intercom, e enviado às coordenações dos cursos de Jornalismo de todas as instituições federais listadas neste artigo. O período de aplicação do questionário, que compreendeu o recesso de fim e início de ano, provavelmente limitou o número de respostas alcançadas. O questionário foi composto pelas seguintes perguntas: Informe o nome da instituição com a qual tem vínculo? O curso de graduação em que você atua é de Comunicação Social/Jornalismo ou Jornalismo? Jornalismo. Comunicação Social/Jornalismo. Quais disciplinas você ministrou nos últimos dois anos no curso indicado na pergunta anterior? Nas disciplinas ministradas por você nos últimos dois anos em curso de “Comunicação Social – Jornalismo” ou “Jornalismo”, você discutiu temas relativos às relações étnico-raciais (por exemplo: 131 das instituições federais do Norte do Brasil. Coletamos respostas de 13 pessoas assim distribuídas: Quadro 1 – Respondentes do questionário Instituição Quantidade de respondentes Universidade Federal de Roraima (UFRR) 9 Universidade Federal do Acre (Ufac) 2 Universidade Federal de Rondônia (Unir) 1 Universidade Federal de Tocantins (UFT) 1 Fonte: A autora (2025). A seguir, faremos uma apresentação das respostas a partir das cate- gorias “modos de abordagem da educação para as relações étnico-raciais (ERER)”, “as relações étnico-raciais na pesquisa e na extensão” e “desafios para a implementação do ensino das relações étnico-raciais nos cursos de Jornalismo das universidades federais do Norte do Brasil”. A maioria das/os respondentes (92,3%) afirmou que sim quando per- guntada se discutiu temas relativos às relações étnico-raciais nas discipli- nas que ministrou nos últimos dois anos. De modo geral, observa-se que a abordagem se deu tanto em disciplinas teóricas quanto em disciplinas práticas. Os modos de abordagem podem ser classificados em alguns eixos, entre os quais o principal parece ser a análise de materiais jornalísticos racismo, raça, identidades raciais, autodeclaração racial, ações afirmativas de equidade racial, bran- quitude etc.)? Sim. Não. Em caso de resposta positiva à pergunta 4, de que maneira você discutiu as relações étnico-raciais? Por gentileza, especifique a(s) disciplina(s), a(s) temática(s) e o(s) modo(s) como a(s) temática(s) foi/foram abordada(s) em cada uma delas? O curso de Comunicação Social/Jornalismo ou Jornalismo em que você atua discute as relações étnico- raciais em atividades de pesquisa ou extensão? Sim, somente em atividade(s) de pesquisa. Sim, somente em atividade(s) de extensão. Sim, discute em atividade(s) de pesquisa e em atividade(s) de extensão. Não discute nem em atividade(s) de pesquisa nem em atividade(s) de extensão. Em caso de resposta positiva à pergunta 6, em quais projetos e de que maneira isso é feito? Considerando sua experiência na educação, quais os principais desafios para a implementação da Lei no 10.639/2003 no ensino de Jornalismo? Você tem interesse em receber os resultados desta pesquisa quando publicados? Sim – indique seu e-mail: Não. 132 e/ou midiáticos. Para explicar a utilização dessa estratégia de ensino-apren- dizagem, as/os docentes que responderam às perguntas do questionário recorrem à centralidade de conceitos como representação e estereotipa- gem, além de chamarem atenção para a necessidade de refletir sobre acon- tecimentos recentes que dialogam com a problemática das relações raciais, como nos exemplos que seguem: [...] em todas as disciplinas discuto casos específicos que tenham repercutido na mídia na semana anterior, buscando especialmente aqueles que discutam diferentes questões relacionadas a minorias (racismo, misoginia, capacitismo etc.) (Respondente 1). Realização de análises críticas de matérias jornalísticas que tratam de temas raciais, com foco em como a mídia cobre questões relacio- nadas ao racismo e às identidades raciais (Respondente 7). Representação da diversidade étnico-racial na mídia: analisamos como diferentes grupos étnicos e raciais são representados em di- versos tipos de mídia (televisão, cinema, publicidade entre outras), discutindo a construção de estereótipos, a invisibilização de deter- minadas identidades e a importânciade representações mais justas e equitativas (Respondente 12). A reflexão sobre estratégias representacionais é uma chave importante para a inserção do ensino das relações étnico-raciais nos cursos de jorna- lismo, pois, como explica Stuart Hall (2016), representar é produzir sentido pela linguagem e é também uma questão de poder e de conflito, pois os sentidos não são fixos, mas estão constantemente em disputa. Assim, é fun- damental que jornalistas em formação tenham consciência das origens e modos de funcionamento de representações preconceituosas e, consequen- temente, entendam as implicações que a reprodução dessas representações pelo jornalismo têm para a conformação de imaginários, bem como para a construção da realidade social. Nas respostas ao questionário, o estudo das representações de pessoas negras também é aproximado do de outras minorias, a exemplo de mulhe- res, pessoas com deficiência e populações amazônicas (Respondente 1). Por outro lado, somente um/a respondente faz menção ao imbricamento 133 das questões raciais com outras dimensões identitárias, citando especifica- mente gênero, classe social e orientação sexual: “Exploramos como a inter- seccionalidade influencia as experiências e as representações de diferentes grupos sociais” (Respondente 12). O segundo eixo de abordagem observável nas respostas das/os docen- tes é a ênfase na prática laboratorial do alunado, o que pode ser percebido nos relatos a seguir: Nas disciplinas de Redação e Jornal Laboratório há pautas e repor- tagens sugeridas e desenvolvidas pelos alunos sobre relações étnico- raciais (Respondente 3). [Sobre a disciplina Redação Jornalística I] Produção de textos jorna- lísticos que abordassem pautas de equidade racial, incentivando a prática ética e responsável; [sobre a disciplina Projeto Experimental em Jornalismo] Desenvolvimento de projetos jornalísticos com foco em pautas étnico-raciais, como reportagens especiais sobre comu- nidades negras e a influência da cultura afro-brasileira na região; Orientação para a inclusão de perspectivas raciais em todas as etapas da produção jornalística, desde a apuração até a edição; Reflexões críticas sobre como o jornalismo experimental pode contribuir para a desconstrução de estereótipos e para o fortalecimento de narrati- vas inclusivas (Respondente 7). [Sobre a disciplina Mídia, Cultura e Identidades] Produção de con- teúdo: Os alunos foram convidados a produzir diferentes tipos de conteúdo, como vídeos, podcasts e artigos, para expressar suas pró- prias reflexões sobre as temáticas abordadas e compartilhar seus co- nhecimentos com os colegas (Respondente 12). A partir das respostas, nota-se haver esforço no sentido de inserir as questões étnico-raciais na prática laboratorial dos cursos de jornalismo, algo enriquecedor para os processos de ensino-aprendizagem. Como uma problemática das mais relevantes para a formação social brasileira, as rela- ções raciais certamente perpassam a atuação profissional desses jornalistas em formação. Dilemas éticos relacionados a temas raciais, coberturas sensí- veis e até mesmo pautas factuais sobre os mais diversos assuntos devem ser 134 objeto de reflexão e resultar em um tratamento que não ignore o racismo e seus efeitos nas vidas de pessoas negras, brancas e indígenas e nos mais variados processos vividos institucional e socialmente. Algumas respostas das/os professoras/es apontam também para a inclusão da discussão das relações étnico-raciais a partir de demandas do próprio corpo discente. Isso se dá, segundo as respostas, por meio da suges- tão de pautas e da produção de materiais que tangenciam temas ligados a essa área (Respondente 3), da deliberação de grupos da turma em um telejornal laboratório (Respondente 10) e da presença de alunas/os indí- genas no curso (Respondente 11), o que fortalece a compreensão de que o ambiente de ensino-aprendizagem é constituído na relação entre alunas/os e professoras/os. Não há pólo passivo, mas um processo de interação entre as partes, pautada na apresentação de demandas que articulam as vivências de sujeitas/os que, juntas/os, constroem a sala de aula. Revela ainda a trans- formação silenciosa gerada pela política de ações afirmativas para ingresso de pessoas negras e indígenas nas universidades públicas brasileiras. O terceiro e último modo de abordagem das relações étnico-raciais mencionado por professoras/es que responderam ao questionário é o con- tato direto com os grupos minorizados: Na disciplina de Comunicação Comunitária propõe-se o desenvol- vimento de uma formação com jovens indígenas (Respondente 3). [Na disciplina de] Jornalismo Comunitário: [discutiram as relações étnico-raciais por meio da] presença de representantes de grupos acêntricos e experiências de campo (indígenas, religiões de matriz afro e imigrantes transnacionais) (Respondente 8). Ao serem questionadas/os se o curso no qual atuam discute as rela- ções étnico-raciais em atividades de pesquisa e/ou extensão, 69,2% das/ os docentes responderam que “sim, em atividade(s) de pesquisa e em atividade(s) de extensão”; 15,4% disseram que o curso “não discute nem em atividade(s) de pesquisa nem em atividade(s) de extensão”; 7,7% afir- maram que “sim, somente em atividade(s) de pesquisa”; e o mesmo percen- tual disse que “sim, somente em atividade(s) de extensão”. Ao explicarem como essa abordagem se dá, as/os docentes falaram de projetos de extensão pautados, por exemplo, em: rodas de conversa 135 com palestrantes que abordam o racismo (Respondente 2); produção de conteúdo inclusivo, antirracista e contra xenofobia (Respondente 8); e etnocomunicação indígena e jornalismo alternativo ou comunitário (Respondente 11). Já os projetos de pesquisa estão organizados a partir de eixos como: análise da representatividade racial nos meios de comu- nicação e as narrativas jornalísticas que abordam temas como racismo, equidade racial e branquitude (Respondente 7); e estudos sobre comu- nicadores indígenas, com produção de TCC e dissertações protagoniza- dos por indígenas, e reflexões sobre suas ações em redes de comunicação (Respondente 8). Como principais desafios para a implementação da Lei nº 10.639/2003 no ensino de jornalismo, as/os docentes apontaram aspectos diversos, mas convergentes, entre os quais se destacam: baixa representatividade negra e/ou indígena nos corpos docente e discente (Respondentes 1, 3, 7 e 12); não inclusão da temática nos projetos pedagógicos dos cursos (Respondentes 3, 5, 6, 7, 12 e 13); falta de formação docente continuada e preparo das/os docentes para lidarem com as relações étnico-raciais (Respondentes 3, 7, 8 e 12); não comprometimento e/ou incentivo por parte da gestão das instituições quanto à aplicação da lei (Responden- tes 2, 10 e 11); e indisponibilidade de materiais didáticos que abordem a questão no ensino de Jornalismo e leve em conta as especificidades da região Norte (Respondentes 5, 7 e 12). À guisa de conclusão: o que os resultados demonstram Assim como nas instituições do Rio Grande do Sul estudadas por Neckel e Campos (2016), a educação para as relações étnico-raciais se apresenta de maneira tímida nos currículos e ementários dos cursos de Jor- nalismo de instituições federais da região Norte. Os preâmbulos dos PPCs evidenciam que, de modo geral, há conhecimento sobre a existência das leis e resolução que orientam o ensino de história e cultura africana e afro- brasileira, bem como indígena, em todas as etapas da educação formal. Os documentos dos cursos aproximam a educação das relações étnico-raciais de outros tópicos, tais como direitos humanos e educação ambiental, mas isso não é necessariamente traduzido nas normativas locais que regem as disciplinas, pelo que se pode perceber dos documentos analisados. 136 Menções aos termos “raça”, “étnico-raciais”, “negro” e “afro-brasileiro/a” são mais frequentes nas ementas e listas de bibliografias de disciplinas optativas. Em menor intensidade,se fazem presentes nas listas de biblio- grafias complementares de disciplinas obrigatórias. A aparição do termo “racismo” em poucas ocorrências e a não menção aos termos “negritude” e “branquitude” são indicativos que merecem destaque, por ser fundamental nomear os processos e fenômenos sociais para que eles sejam compreendi- dos e enfrentados socialmente. Ao refletirmos sobre o currículo enquanto produtor de sujeitos parti- culares, em diálogo com Tomaz Tadeu da Silva (1995), podemos concluir que os currículos dos cursos de Jornalismo analisados parecem não tradu- zir a urgência de formar jornalistas conscientes e críticos quanto às relações étnico-raciais. Ao mesmo tempo, o caráter relacional do currículo fica apa- rente em pelo menos duas dimensões. A primeira são as relações de poder envolvidas nos modos como determinadas temáticas são silenciadas ou tra- tadas de maneira acessória; a segunda, o fato de que a composição do alu- nado por pessoas pertencentes a grupos minorizados racialmente é realçada, nas respostas das/os professoras/es ao questionário, como catalisadora de processos de mudança quanto aos temas e a seus modos de abordagem. No caso do curso de Jornalismo, é possível educar para as relações étnico-raciais de variadas formas, por exemplo: problematizar questões éticas em coberturas que envolvem territórios periféricos e notadamente negros; analisar textos de autoria de colunistas e jornalistas negras nas dis- ciplinas de redação; fomentar o consumo de materiais audiovisuais jorna- lísticos produzidos por e sobre pessoas negras e indígenas; discutir questões estruturais da profissão de jornalistas no Brasil e no mundo, considerando marcadores como raça, gênero, território; promover o contato do alunado com os movimentos sociais negros locais e, a partir desses encontros, pro- vocar a realização de atividades laboratoriais, como entrevistas, produções textuais de gêneros jornalísticos etc. O contato com grupos marginalizados é outra estratégia importante para o enfrentamento ao racismo, pois, se bem planejado e conduzido, pode possibilitar ao alunado exercitar suas habilidades técnicas (fazer entrevistas e produzir matérias nos mais diversos formatos – o que inclui as etapas de apuração, redação e edição) e aprofundar seu conhecimento teórico, social e cultural sobre diferentes contextos e grupos sociais que compõem a reali- dade brasileira. Assim, o processo de formação estará concomitantemente 137 aperfeiçoando as dimensões técnica, ética e de responsabilidade social que é devida àquelas/es que buscam realizar este ofício. Trata-se também de uma oportunidade para a quebra de estereótipos e noções preconceituosas e limitantes sobre diferentes povos, territórios e culturas. Pelas respostas de docentes sobre os desafios do ensino das relações étnico-raciais nos cursos de Jornalismo do Norte, o diagnóstico que se tem é de uma carência de investimento, que inclui: 1) a vontade política das ges- tões das instituições na direção de implementar políticas de ações afirmati- vas para ingresso de docentes negras/os e indígenas – além de continuar as políticas de ações afirmativas para ingresso e permanência de estudantes –, e garantir bolsas para projetos de pesquisa e extensão que promovam a igualdade racial; 2) a reestruturação de projetos pedagógicos que incluam a temática de maneira transversal e efetiva, principalmente em disciplinas obrigatórias; 3) a formação continuada para o corpo docente focada nas relações raciais; 4) e a elaboração de materiais didáticos que reconheçam as particularidades das formações raciais do Norte do Brasil. Os desafios são muitos, motivo pelo qual “Temos, pois, pedagogias de combate ao racismo e a discriminações por criar” (Brasil, 2004). Reconhecemos as limitações da técnica de busca dos descritores uti- lizada neste estudo, como a restrição aos termos exatos ou a seus radicais, o que impossibilita a leitura e compreensão mais ampla dos documentos analisados. Por outro lado, acreditamos ter alcançado o objetivo geral deste capítulo, que foi mapear a educação para as relações étnico-raciais (ERER) em currículos de cursos superiores de Jornalismo do Norte do Brasil. A apli- cação do questionário para verificar as percepções docentes sobre a ERER complementou a análise dos documentos. Apesar da pequena quantidade e baixa diversidade institucional de respondentes, as respostas alcançadas apresentam aspectos relevantes para o debate proposto, podendo ser utili- zadas como ponto de partida para estudos mais aprofundados. Referências BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. 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Entre as atividades a serem desenvolvidas para que se atinja o objetivo desse eixo está a indicação de projetos editoriais referentes a práticas de radiojornalismo. Nesse sentido, é comum que os cursos se orga- nizem para a produção de programas e séries em áudio, radiojornais, trans- missões ao vivo, podcasts, entre outros, em laboratórios específicos da área e, em algumas ocasiões, com a criação de webradios ou vínculo com rádios universitárias das instituições de ensino de que fazem parte. O objetivo, como indica a norma, é a aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento de “habilidades inerentes à profissão a partir da aplicação de informações e valores” (Brasil, 2013, p. 5). Contudo, nem sempre os conhecimentos trabalhados nos laboratórios consideram o ensino a partir de perspectivas diferentes da hegemônica, comumente adotando a ideia de um sujeito universal (homem, branco, cisgênero, heteronormativo, sem deficiência, de classe média etc.) como referencial de aluno e também de ouvinte. Por isso, o que se propõe neste trabalho é a discussão teórica a respeito do ensino laboratorial de radiojornalismo a partir de uma dessas perspectivas normalmente ignoradas, especificamente a de gênero. Entende-se o gênero, como explica Joan Scott (1995, p. 86), tanto como “um elemento constitutivo de relações baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos” quanto como “uma forma primária de dar significado às relações de poder”. Percebe-se também, em consonância com Márcia Veiga 1 Jornalista, mestra em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universi- dade Federal de Goiás (UFG), doutoranda em Jornalismo no Programa de Pós-Graduação em Jornalis- mo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). E-mail: raphaelaferro@gmail.com. mailto:raphaelaferro@gmail.com 141 (2014), a capacidade de sua utilização como categoria de análise em bene- fício da reflexão a respeito dos “modos como as convenções sociais sobre o masculino e o feminino são produzidas, associadas a distintas formas de relações de poder e saber, bem como os modos como estas convenções pro- duzem hierarquias e desigualdades” (Veiga, 2014, p. 319-320). No âmbito da radiofonia, um exemplo dessas convenções sociais está no que se tem estabelecido como padrão para as vozes que seriam ideais para a locução, principalmente no que se refere ao radiojornalismo. Diferentes manuais da área de Comunicação adotam a referência à voz grave, padrão masculino de timbre, como ideal para a locução, associando- -a à credibilidade. O tom é prescrito tanto para locutores quanto para locu- toras, mas as características atreladas socialmente às vozes femininas difi- cultam que estas sejam percebidas como confiáveis. “Se na variação aceita para as mulheres o tom grave remete pejorativamente a uma voz de pessoa má, feia (...) e o agudo é considerado histérico, atingir o médio-grave ideal constitui um desafio que (...) diz a elas que a voz só estaria certa se (...) fosse a de um homem” (Ferro; Gomes; Zuculoto, 2023, p. 109). Muitas vezes, esse cenário se mantém inclusive com o reforço de sua ocorrência nas práticas que são desenvolvidas em laboratórios de radio- jornalismo. Apesar de ainda não documentados ou investigados de forma adequada, é possível registrar relatos de mulheres que passaram pela expe- riência da locução no rádio no período em que cursavam a graduação em Jornalismo e ouviram que não tinham voz para o rádio, tendo recebido a afirmação – ou alguma outra, semelhante – de colegas, supervisores(as) ou mesmo de professores(as). Em pesquisa anterior, já foi possível identificar que outras questões relativas a gênero, principalmente a não atenção à exis- tência delas no cotidiano das atividades, são fatores que desmotivam alunas a permanecerem em projetos laboratoriais (Versiane; Ferro, 2020). Entre ausência e incipiência Ainda assim, há poucas referências na literatura especializada que rela- cionem essas questões às pesquisas e relatos formalizados das experiências de laboratórios de radiojornalismo no Brasil. Em uma primeira investiga- ção nesse sentido, realizada em 2023, verificou-se que essa perspectiva não foi adotada em trabalhos apresentados nos eventos nacionais da Associação 142 Brasileira de Ensino de Jornalismo (Abej) e da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (Alcar), tendo sido utilizados os anais de ambas que estavam disponíveis digitalmente para a pesquisa à época (Zuculoto; Ferro; Zimmermann, 2023). A temática também é ignorada nos artigos do livro Jornalismo-laboratório: rádio (Soster; Tonus, 2014), um dos poucos encontrados com foco na discussão sobre as práticas laboratoriais radiofônicas em cursos de Jornalismo. “Esta constatação, da invisibilidade e da falta da categoria de aná- lise gênero, não parte de um julgamento dicotômico, mas da percepção da ausência da questão no debate sobre o universo analisado” (Zuculoto; Ferro; Zimmermann, 2023, p. 6-7). Trata-se de algo que se mantém quando se amplia a pesquisa para outros bancos de dados. No Portal de Periódi- cos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes)2, a busca pela combinação de palavras “radiojornalismo + labora- tório” apresenta três trabalhos. São eles: “Webrádio UniFOA como espaço de preparação dos acadêmicos para o mercado de trabalho” (Conceição et al., 2011); “Radiojornalismo universitário no contexto do rádio expandido e do jornalismo multiplataforma: práticas de ensino no programa Espaço Experimental da UFPB” (Monteiro; Mendes, 2020); “Rádio Web UFN: prá- ticas e perspectivas de uma web rádio universitária” (Torres, 2020). No mesmo Portal de Periódicos da Capes, a busca pela combinação “laboratório + rádio” indica outros dois trabalhos com alguma abordagem sobre os laboratórios radiofônicos em cursos de Jornalismo no Brasil: “A importância das rádios e TVs universitárias como laboratórios” (Spen- thof, 1998) e “Uma reflexão acerca da formação laboratorial em rádio e a perspectiva das novas DCNs para o curso de Jornalismo” (Pavan; Araújo, 2019). Contudo, mantém-se a percepção de que as discussões sobre essa área não consideram “reflexões sobre diferenças na forma como alunos e alunas experienciam os laboratórios e as atividades propostas” (Zuculoto; Ferro; Zimmermann, 2023, p. 10). Considera-se também a já atestada ausência quase total de trabalhos sobre rádio que contemplam a categoria gênero entre os que estão disponí- veis digitalmente em anais de encontros nacionais da Associação Brasileira de Pesquisadoresem Jornalismo (SBPJor), como indicado em trabalho anterior (Ferro; Zuculoto, 2023). Nas edições do evento entre 2012 e 2022, 2 O Portal de Periódicos da Capes está disponível em: https://www-periodicos-capes-gov-br.ezl.periodi- cos.capes.gov.br/index.php/acervo/buscador.html. Acesso em: 17 jul. 2024. 143 apenas o trabalho “A narração esportiva em laboratórios do curso de Jor- nalismo: registros de experiências de mulheres” (Ferro, 2021) considerou a categoria gênero para a abordagem sobre atividades laboratoriais de radio- jornalismo, no caso, o esportivo. Com acervo mais amplo, o Portal de Livre Acesso à Produção em Ciências da Comunicação (Portcom), repositório da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), também conta com trabalhos sobre laboratórios de radiojornalismo. Por meio de sua fer- ramenta de pesquisa avançada3, é possível buscar pela combinação de pala- vras “laboratório” + “rádio”. Foram identificados, assim, 16 artigos, publica- dos entre 2003 e 2014, em que há as duas palavras, seja no título, no resumo ou entre as palavras-chave. A atenção à perspectiva de gênero no âmbito da realização de projetos laboratoriais é mínima, considerando os textos encontrados. Em um deles (Morales, 2010), é verificado que havia na prática labora- torial uma diferenciação de gênero ao ser destacado um quadro de comen- tário feminino sobre esporte, o Comentário Feminino Onda Esportiva, na sequência da descrição de outro quadro esportivo sem a identificação de gênero, o Onda Esportiva. A questão não é discutida. Destaca-se, nesse cor- pus, uma reflexão da professora Sandra de Deus (2003) sobre a necessidade de pluralidade: A concepção primeira é de que, por ser universitária, esta rádio deve ser laboratório, e por ser pública, deve retratar a pluralidade da sociedade em sua programação. Além da função laboratorial, ela deve ser um canal de extensão da Universidade para a sociedade; [...] oferecendo perspectivas esclarecedoras dos problemas sociais e das contradições políticas e econômicas, além de dar visibilidade para as diferentes formas de expressão artística e, por fim, deve represen- tar a multiplicidade de ideias, gostos e correntes do contexto social. A atividade laboratorial desenvolvida em uma rádio que, além de universitária, é pública, prepara diferenciados profissionais de co- municação para que estejam aptos ao intercâmbio de ideias políticas 3 Apesar de a busca utilizando a combinação laboratório + rádio na ferramenta de pesquisa simples do Portcom gerar mais de mil resultados, eles não correspondem à combinação das palavras, mas à exis- tência de pelo menos uma delas, poluindo a amostra. Por isso, optou-se por considerar, por meio da pesquisa avançada do site, os trabalhos que apresentassem as duas palavras, ou no título, ou no resumo, ou nas palavras-chave. Disponível em: https://www.portcom.intercom.org.br/index.php. Acesso em: 29 jan. 2025. 144 e sociais, abertos à pluralidade e que tenham compreensão para exe- cutar um serviço voltado ao interesse educativo e cultural da socie- dade (Deus, 2003, p. 12). Nesse sentido, entende-se que, no contexto dos laboratórios de rádio nas universidades e nas emissoras universitárias, deve também ser consi- derada a pluralidade no ensino e nas abordagens específicas relativas às diferenças sociais que os estudantes encontram. Faz-se necessário seguir ampliando o corpus de pesquisa para que seja possível alcançar uma per- cepção mais panorâmica da produção acadêmica a respeito dos laborató- rios e como estão presentes questões relativas a gênero nesse material – por exemplo, expandindo para publicações vinculadas à Intercom nos anos seguintes a 2014, mas também em outras bases. Percepções das diferenças Identificada a incipiência de registros de experiências laboratoriais de ensino de radiojornalismo que considerem o gênero, no sentido aqui apre- sentado, como uma categoria de análise relevante, a partir de quais parâ- metros refletir sobre as diferenças de acesso às atividades práticas no ensino superior? Não é possível sugerir que a ausência de literatura a respeito indi- que de forma diretamente proporcional que as questões sociais relativas às mulheres, principalmente, mas também a outros indivíduos que se diferen- ciam do sujeito universal hegemônico (Moraes; Veiga, 2019), não afetem o cotidiano prático dos laboratórios de rádio de cursos de Jornalismo. Percebe- se, na verdade, o reflexo do silenciamento histórico das vivências femininas na área específica analisada, como já indicam Juliana Gobbi Betti e Valci Zuculoto (2024) sobre a pesquisa científica relativa ao rádio. A percepção das diferenças, inclusive, gera, entre outras ações, experimentações que se direcionam exclusivamente para as estudan- tes mulheres, com o objetivo de garantir a participação feminina no âmbito do laboratório e incentivar a autonomia nas tomadas de decisão e no passo a passo da prática profissional. Nesse sentido, um exemplo que pode ser citado é o projeto Donas do Placar, desenvolvido no âmbito do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2019, para cobertura da Copa do Mundo de Futebol Feminino 145 pela webemissora Rádio Ponto UFSC (Nascimento; Chaves, 2020). Asso- ciou-se à criação da proposta, que envolveu exclusivamente mulheres, o “descontentamento de discentes e docentes com a presença restrita das alu- nas nas coberturas esportivas realizadas pelo curso” (Nascimento; Chaves, 2020, p. 516). As autoras consideraram que a iniciativa teve sucesso. O projeto explicitou a necessidade do engajamento articulado de do- centes e discentes e a necessidade de escuta atenta para as demandas. Além de criticar e denunciar situações de sistemáticas exclusões, cabe aos profissionais de ensino, junto aos alunos, refletir e produzir rupturas no processo educativo, trabalhando para produzir novas oportunidades (Nascimento; Chaves, 2020, p. 525). Para que se produzam rupturas, como afirmam Fernanda Nascimento e Leslie Chaves (2020), é preciso garantir que os ambientes de aprendizado sejam seguros e plurais, identificando as desigualdades que se refletem neles e buscando superá-las. Assim como analisamos em ocasião anterior, a reconfiguração das práticas pedagógicas e laboratoriais do ensino de jor- nalismo sonoro pode contribuir não só para o ensino, como também para o meio e o exercício profissional: “para que sejam também ferramentas de transformação de uma realidade profissional ainda excludente” (Zuculoto; Ferro; Zimmermann, 2023, p. 10). Parte-se, assim, para a discussão sobre quais parâmetros adotar nesse sentido. Curiosidade epistemológica A separação de grupos exclusivamente femininos para a realização das atividades laboratoriais é um caminho possível, mas, ao mesmo tempo, mantém a divisão das pessoas a partir de uma perspectiva binária, aquela em que, segundo Joan Scott (1995), o antagonismo masculino-feminino se fixa como única relação possível e como aspecto permanente, e monó- tono, da condição humana. Além disso, pode possibilitar que se crie um nicho mais do que efetivamente promover a inclusão e a naturalização da presença feminina em todos os espaços, inclusive nos que são ainda mais resistentes, como o radiojornalismo esportivo. Para bell hooks (2017), referenciando Paulo Freire (2021), destaca-se a importância de se criar 146 estratégias para consciência e engajamento críticos em uma sala de aula em que professores(as) e alunos(as) são participantes ativos. Nesse sentido, na sequência, busca-se associar alguns elementos das obras desses dois autores – Paulo Freire e bell hooks – para refletir sobre como o ensino laboratorial de radiojornalismo pode ser mais inclusivo, pas- sando a perceber e dar conta das questões sociais que o afetam. O primeiro passo é fugir da perspectiva de uma “educação bancária”, da qual é comum que os laboratórios já escapem pelo menos em ideário, mas ampliando essapercepção para a atenção às pessoas envolvidas no processo de ensino. “Na visão ‘bancária’ da educação, o ‘saber’ é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber. Doação que se funda numa das manifes- tações instrumentais da ideologia da opressão” (Freire, 1987, p. 38). Entende-se que é também por meio desse formato mecânico de ensino que a perspectiva universal do conhecimento e da história se perpetuam como verdade, independentemente de sua característica identitária de ela- boração, isto é, masculina, branca, heteronormativa e ocidental. Um ensino que reproduz como verdade os saberes produzidos a partir de um para- digma moderno, colonial, positivista, de um sistema-mundo capitalista, masculinista, racista, heterossexista, ocidentalista e de uma epistemologia colonialista, como afirmam Fabiana Moraes e Márcia Veiga (2019), consi- derando também elaborações de Ramón Grosfoguel (2012). O privilégio epistêmico dos homens ocidentais sobre o conhecimen- to produzido por outros corpos políticos e geopolíticas do conheci- mento tem gerado não somente injustiça cognitiva, senão que tem sido um dos mecanismos usados para privilegiar projetos imperiais/ coloniais/patriarcais no mundo. A inferiorização dos conhecimen- tos produzidos por homens e mulheres de todo o planeta (incluindo as mulheres ocidentais) tem dotado os homens ocidentais do privi- légio epistêmico de definir o que é verdade, o que é a realidade e o que é melhor para os demais. Essa legitimidade e esse monopólio do conhecimento dos homens ocidentais têm gerado estruturas e instituições que produzem o racismo/sexismo epistêmico, desquali- ficando outros conhecimentos e outras vozes críticas frente aos pro- jetos imperiais/coloniais/patriarcais que regem o sistema-mundo (Grosfoguel, 2016, p. 25). 147 Compreende-se, como afirma o autor (Grosfoguel, 2016, p. 28), que “as estruturas fundacionais do conhecimento das universidades ocidentaliza- das são epistemicamente racistas e sexistas ao mesmo tempo”. Toma-se essa realidade como ponto de partida para a proposição de um olhar específico, que se apoia em Paulo Freire e bell hooks, para a contraposição à percepção de como esse cenário epistêmico se apresenta nas práticas laboratoriais de radiojornalismo no contexto das universidades brasileiras. Uma proposta que considera o processo de ensinar como um exercício da percepção crí- tica a respeito das razões de ser dos conteúdos e de suas relações com outros objetos, como indica Freire (2015) a respeito da importância de aguçar em estudantes o que ele denomina por “curiosidade epistemológica”, que alia a leitura crítica do mundo à leitura crítica da palavra. Freire (1996) contrapõe sua ideia de “curiosidade epistemológica” à percepção da perpetuação das práticas de ensino “bancário”. “É a força cria- dora do aprender de que fazem parte a comparação, a repetição, a consta- tação, a dúvida rebelde, a curiosidade não facilmente satisfeita, que supera os efeitos negativos do falso ensinar” (Freire, 1996, p. 25). Faz-se necessário que os e as estudantes tenham espaço para questionar os padrões profissio- nais estabelecidos e reforçados pela bibliografia sobre a prática, possibili- tando que a experimentação possível nas atividades laboratoriais não esteja subordinada à normalização de condutas e conhecimentos apoiados em um privilégio epistêmico limitador. Nesse sentido, é possível se ancorar nos relatos elaborados por hooks (2017) sobre a docência, a partir do contato que a autora teve com a obra freireana. Quando entrei na faculdade, o pensamento de Freire me deu o apoio de que eu precisava para desafiar o sistema da “educação bancária”, a abordagem baseada na noção de que tudo o que os alunos precisam fazer é consumir a informação dada por um professor e ser capazes de memorizá-la e armazená-la. Desde o começo, foi a insistência de Freire na educação como prática da liberdade que me encorajou a criar estratégias para o que ele chamava de “conscientização” em sala de aula. Traduzindo esse termo como consciência e engajamento crí- ticos, entrei nas salas de aula convicta de que tanto eu quanto todos os alunos tínhamos de ser participantes ativos, não consumidores passivos. A educação como prática da liberdade era continuamente solapada por professores ativamente hostis à noção de participação 148 dos alunos. A obra de Freire afirmava que a educação só pode ser libertadora quando todos tomam posse do conhecimento como se este fosse uma plantação em que todos temos de trabalhar. Essa noção de trabalho coletivo também é afirmada pela filosofia do bu- dismo engajado de Thich Nhat Hanh, focada na prática associada à contemplação. Sua filosofia é semelhante à insistência de Freire na “práxis” – agir e refletir sobre o mundo a fim de modificá-lo (hooks, 2017, p. 26). A prática laboratorial já carrega em si o engajamento e a percepção de alunos e alunas como sujeitos ativos, participantes no processo de ensino, como característica almejada. Para além de ter essa característica efetiva- mente presente nas rotinas dos laboratórios de radiojornalismo, sugere-se que elas passem também a incentivar a reflexão sobre o mundo e sobre as realidades sociais que estudantes vivenciam de formas diferentes, a partir de experiências de identidade que os integram. É importante o ensino para a mudança de paradigma, como analisa hooks (2017), com o questiona- mento dos modos de conhecer assim como dos hábitos de ser, o que alcança também aqueles hábitos considerados usuais para a profissão que se ensina, como é o jornalismo, especificamente radiofônico, aqui sob análise. Como avalia Márcia Veiga (2014, p. 102), “também a mídia e o jorna- lismo estão constituídos por gênero e produzem relações de gênero e de poder que resultam em saberes acerca disso”. Sabendo-se que o próprio ensino superior no Brasil, assim como a área específica da Comunicação, é afetada pela realidade patriarcal da sociedade em que estão inseridos, já não há como ignorar que essa mesma realidade afeta a forma como graduandos e graduandas passam pelos estágios de sua formação acadê- mica, considerando os lugares sociais que ocupam. Os laboratórios tam- bém estão constituídos por gênero: com o uso da justificativa da voz para indicar que mulheres, ou mesmo homens com timbres que não correspon- dem a um padrão cisheteronormativo, não estão aptas ao radiojornalismo como se por natureza; por meio da divisão de funções, com os alunos tendo mais presença frente aos microfones; na seleção temática, com espaços de esporte, tecnologia, entre outros, sendo ocupados ainda majoritariamente pelo domínio masculino. Assim, o conteúdo que se produz nessas redações também reflete a predominância do gênero masculino, mesmo que sem uma demarcação oficial. 149 É possível estabelecer um paralelo das experiências de mulheres em universidades brasileiras, nesse sentido, com a vivência descrita por bell hooks (2019) sobre o período em que foi estudante na Universidade de Stanford (EUA). A autora relata suas impressões a respeito do comporta- mento feminino em sala de aula em comparação com o período em que estudou em uma faculdade em que só havia mulheres. “Na Stanford, os homens comandavam em qualquer sala de aula. Mulheres conversavam menos, tomavam menos iniciativas e frequentemente, quando falavam, era difícil ouvir o que estavam dizendo” (hooks, 2019, p. 33). Realidades seme- lhantes são descritas por alunas que tiveram oportunidade de falar sobre suas experiências em laboratórios, no Brasil, a partir de uma percepção de gênero (Nascimento; Chaves, 2020; Versiane; Ferro, 2020). Se, como descreve hooks (2019), faltavam força e confiança na voz das alunas com quem ela dividia a sala, destaca-se que quando a temá- tica da aula é o rádio e a experiência profissional do radiojornalismo, essas características fazem ainda mais falta. Em pesquisa desenvolvida por Már- cia Veiga (2015) sobre o ensino superior de jornalismo,ceu 288% entre 1996 e 2021, passando de 608 para 4.691 cursos. Os dados são da última edição do relatório Brasil: Mestres e Doutores 2024, produ- zido pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE)2. Entre 2009 e 2021, também houve um aumento no coeficiente de mestres e douto- res empregados em todas as regiões do país. A área de Educação é a que mais emprega esses profissionais, absorvendo 37,8% dos mestres e 72% dos doutores, ainda que esses percentuais tenham caído em comparação com 20103. O mesmo estudo revelou uma prevalência feminina na conclusão de cursos de mestrado (desde 1997) e doutorado (desde 2003). No entanto, a remuneração das mulheres ainda é inferior à dos homens. Como demonstram os dados, a formação e o aprimoramento dos qua- dros de pesquisadores de nível superior têm sido uma prioridade do Minis- tério da Educação no Brasil4. Na grande área de Ciências Sociais Aplica- das, que engloba os cursos de pós-graduação em Jornalismo e Comu- nicação, existem atualmente 63 programas, todos filiados à Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós). 1 Doutora em Jornalismo pela UFSC e mestra em Comunicação e Informação pela UFRGS. Atualmente é professora colaboradora no curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e realiza estágio de pós-doutorado júnior no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas da UFSC, com bolsa FAPESC-CNPq. Contato: ksjanaine@gmail.com. 2 Organização social supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 3 Em 5,4 e 2,1 pontos respectivamente entre mestres e doutores. 4 Ação realizada com ênfase das agências de fomento vinculadas ao órgão, notadamente a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). mailto:ksjanaine@gmail.com 20 A formação stricto sensu tende a ser imprescindível, especialmente nas ins- tituições de ensino superior (IES) públicas federais e estaduais, para que se possa atuar no ensino, na pesquisa e também na extensão universitária. Três documentos legais orientam as atividades de pós-graduação lato e stricto sensu no Brasil: a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Parecer no 977 da Comissão de Ensino Superior (C.E.Su) e a Resolução no 7, da Câmara de Educação Superior (CES). Embora esses documentos estabeleçam normas sobre a estruturação da pós-graduação no país, não fazem referência à necessidade de forma- ção didático-pedagógica para que seus estudantes possam atuar como docentes no ensino superior. Ainda que disponham de sólida formação em suas áreas, com graus de mestrado e/ou doutorado (em muitos casos, até pós-doutorado), os potenciais docentes do ensino superior, na maior parte das vezes, não recebem, a priori, capacitação quanto à especificidade de prá- ticas pedagógicas de ensino-aprendizagem voltadas a esse nível de ensino (Kronbauer, 2020, p. 42). Essa lacuna surte efeitos práticos e delineia a problematização central deste estudo: a graduação em um curso de bacharelado, associada à pos- terior integralização da formação stricto sensu, garante suficiente preparo para a atuação docente em cursos de nível superior em Jornalismo e, mais amplamente, na grande área de Comunicação Social?5. Com esse questionamento no horizonte e dando continuidade a estudo anterior realizado em 20206, o objetivo geral deste trabalho é inves- tigar, analisar e problematizar a formação para a futura atividade docente de estudantes vinculados a Programas de Pós-Graduação stricto sensu em Jornalismo e Comunicação no Brasil. O interesse no tema decorre tanto de questões de inserção profissional (visto que a docência é a principal área de atuação desses profissionais) quanto de fatores de ordem formativa (uma vez que, para atuar com o desenvolvimento e a aquisição de habilidades 5 A insuficiente preparação para o exercício docente no ensino superior afeta todas as áreas do conheci- mento. Aqui, contudo, para tratar das especificidades do campo de estudos ao qual nos vinculamos, o artigo volta-se para o campo do Jornalismo e da Comunicação Social. 6 Em Pedagogia do Jornalismo: desafios, experiências e inovações discutiu-se a formação de professores de cursos de graduação em jornalismo no capítulo “Lacunas na formação de professores de Jornalismo” (Kronbauer, 2020). 21 e competências por parte de futuros profissionais, é essencial investir pré- via e continuamente na formação daqueles que atuarão como docentes). Ao longo deste estudo, serão exploradas as percepções de estudantes de pós-graduação a respeito de sua preparação para atuar na docência no ensino superior. Para isso, a proposta é, além de delinear um breve pano- rama sobre as práticas de ensino e aprendizagem, identificar de que modo pós-graduandos da área percebem essa preparação e as competências necessárias para atuarem como professores. O capítulo está estruturado em quatro seções. Na primeira, é introdu- zida uma reflexão sobre a formação para a atuação no ensino superior. Em seguida, apresenta-se a metodologia utilizada e os dados obtidos por meio de um survey on-line. Na terceira seção, os dados coletados são sintetizados a partir do método da análise de conteúdo. Por fim, na quarta seção, são discutidas as principais contribuições do estudo e suas perspectivas futuras. Conhecimento e preparo para o exercício docente Ao tratar dos tipos de conhecimento vinculados ao curso de jorna- lismo, Eduardo Meditsch (2017) aponta para três abordagens (conforme o Quadro 1). É exatamente a última delas que interessa à discussão aqui pro- posta, pois aborda a dimensão pedagógica inerente às atividades de ensino no âmbito do Jornalismo. Quadro 1: Tipos de conhecimento no curso de Jornalismo TIPO DE CONHECIMENTO ETAPA DO CONHECIMENTO MÉTODO UTILIZADO OBJETO PRODUTO AÇÃO Do Jornalismo Criação de novo conhecimento Jornalístico Fatos da atualidade Cobertura jornalística Prática Sobre o Jornalismo Criação de novo conhecimento Científico Jornalismo como fenômeno Teoria do Jornalismo Pesquisa Para o Jornalismo Conhecer o conhecimento existente Pedagógico Teoria e prática do Jornalismo (mais Teoria da Comunicação, Ciências Humanas etc.) Profissional para a práxis Ensino-aprendizagem Fonte: Meditsch (2017). Localizar o espaço em que o ensino de jornalismo se encontra (e aqui tomamos a liberdade de inserir, de modo mais ampliado, também a Comu- nicação) permite compreender que os tipos de conhecimento acionados 22 por essa atividade têm nuances diversas. Para investir no processo de ensino-aprendizagem, é imperativo reconhecer a centralidade de “conhe- cer o conhecimento existente”, ou seja, investir na formação de docentes e na sua constante atualização, bem como nas melhores formas de ser/estar/ agir do ponto de vista de metodologias e didáticas de ensino. Da educação básica à pós-graduação, lecionar é uma tarefa que demanda formação didático-pedagógica. Estar à frente de classes de estudantes, em sala de aula ou laboratórios, ministrando disciplinas, desenvolvendo pesqui- sas e realizando atividades de extensão é uma dinâmica que, apesar de pare- cer relativamente simples, requer dedicação e atualização constantes. Para ensinar, o professor necessita acionar a sua base de conheci- mentos a fim de fazer escolhas e desenvolver ações visando a promo- ver a aprendizagem de seus alunos. Logo, ensinar é um processo que requer escolhas adequadamente fundamentadas. Trata-se do traba- lho especializado que especifica a docência (Cruz, 2017, p. 677). Cursos de magistério e licenciatura são recursos básicos para a formação de quem aspira atuar como docente, especialmente na educação básica. No ensino superior, a legislação que trata da formação de seus professores não avança em profundidade nem concede orientações precisas sobre como essa formação deva ocorrer7. Apesar disso, Salvador e Sordi (2024,em sua observa- ção em sala de aula, não à toa, a autora se deparou com um professor de curso de Jornalismo que pedia aos alunos homens para que fizessem “voz de homem” ao lerem seus textos em voz alta em sala de aula. Como ela ana- lisa, essa ação, entre outras, “não significa que o professor tenha agido com má intenção, mas denota uma clara alusão aos valores que vigem na hetero- normatividade como parte do léxico que inconscientemente introjetamos pela cultura sobre o que é ou não normal” (Veiga, 2015, p. 164). Quando a disciplina em questão exige o desempenho em áudio, esses valores, assim como convenções hegemônicas de gênero em intersecção com de raça e classe, por exemplo, têm influência direta no aprendizado e na execução prática de atividades profissionais. Entretanto, muitas vezes, como identificou Márcia Veiga (2015), essas questões e diferenças não são evidenciadas na percepção de professores, professoras, alunos e alunas, o que demonstra a urgência de se discutir e refletir sobre as práticas de ensino de Jornalismo, considerando suas espe- cificidades. “Ensinar exige rigorosidade metódica”, anuncia o primeiro ensinamento de Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire (1996), a par- tir do qual o autor enfatiza que educadores e educadoras não podem “negar-se o dever de, na sua prática docente, reforçar a capacidade crí- tica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão” (Freire, 1996, p. 26). 150 Devem, considerando o contexto, começar por si mesmos. A obra é um bom roteiro para iniciar uma reflexão sobre a prática, com seus 27 ensina- mentos, assim como os 32 ensinamentos de Ensinando Pensamento Crítico, de bell hooks (2020), que dialoga diretamente com o brasileiro. Em ambos, e não só nesses livros especificamente, mas na obra com- pleta de Freire e hooks, há uma atenção à prática educativa, e educadora, como exercício para o desenvolvimento da autonomia, do pensamento crítico, fruto de uma pedagogia engajada para uma práxis revolucionária. Como afirma Eduardo Meditsch (2022, p. 42), “a hegemonia histórica das Ciências Sociais em nosso campo teórico, por não ter a mesma vocação para a prática que a Educação tem, fez com que este parentesco entre Jor- nalismo e Pedagogia fosse minimizado e esquecido”, tendo reduzido, assim, seu potencial de transformação da realidade. Já passa da hora desse paren- tesco ser efetivamente retomado. Meditsch (2004, p. 36-37) sugere que tal- vez o “ensinar a aprender” que Paulo Freire propõe, e que oferece ponto de partida para bell hooks, “a partir do diálogo e da pergunta, ofereça a coerência entre o método e o conteúdo que garanta a competência neces- sária à pedagogia do jornalismo para cumprir” os objetivos em atender à sociedade democrática como um todo, e para todos e todas. Considerações finais Observar as pesquisas e experiências já desenvolvidas e publicadas a respeito de laboratórios de ensino de radiojornalismo nas universidades brasileiras pode gerar a falsa impressão de que não há questões de gênero, entre outras, considerando também as interseccionalidades (Akotirene, 2019), evidenciadas em suas rotinas. Essa ausência, ou mesmo incipiência, é fruto também da pouca percepção de docentes a respeito do quanto a temática afeta o processo de ensino, tendo efeito direto na prática profissio- nal, perpetuando normalidades forçadas. Mesmo quando há a percepção de professores e professoras, é comum que inexista um plano pedagógico que lide com as diferenças e as tenha previsto nas práticas pedagógicas, como evidencia (mesmo que não fale especificamente sobre os laborató- rios), Márcia Veiga (2015), quando aborda o ensino superior de Jornalismo. Há, conforme analisa a autora, uma tendência ao reforço de “um para- digma simplificador para a leitura da realidade e menos afeito a promover 151 um olhar e, consequentemente, uma narrativa complexificadora” (Veiga, 2015, p. 264). Simplificação que está não só no objeto do ensino ou na lei- tura de mundo pouco crítica, mas também nas vivências e experiências pessoais, que afetam os espaços que diferentes estudantes se sentem per- mitidos a ocupar, na leitura de si mesmo. Ensinar para o pensamento crí- tico, no âmbito aqui analisado, de laboratórios acadêmicos, se relaciona ao entendimento de que as formas em que são elaborados os produtos jorna- lísticos em áudio foram estabelecidas no contexto epistêmico hegemônico e precisam ser revistas. Trata-se de uma transformação importante para que o Jornalismo não continue partindo do homem branco cisheteronormativo como perspec- tiva central com validade unilateral de verdade, tanto no que concerne ao conteúdo quanto em relação a quem o elabora e a partir de que referên- cias o elabora. É preciso ter curiosidade epistemológica para entender sob quais influências se construiu e legitimou padrões, como o da credibili- dade da voz grave, por exemplo, para, como indica hooks (2017, p. 105), “não endossar as hierarquias opressivas convencionais”, enfocando não só as regras que afastam mulheres de acessarem efetivamente os direitos que lhes deveriam ser garantidos, assim como pessoas atravessadas por raça, classe, deficiência, entre outras identidades. Nesse sentido, entende-se que esse alerta para que exista maior reflexão crítica sobre como questões de gênero perpassam as experiências labora- toriais nos cursos de Jornalismo, especificamente as relacionadas ao rádio e ao áudio, é um primeiro passo para uma agenda de pesquisa que precisa ser ampliada. É preciso fundamentar de forma detalhada a reaproximação de Jornalismo e Pedagogia a partir de cada ensinamento descrito por Paulo Freire e bell hooks, mas também por tantos outros que já têm pavimentado esse caminho como Eduardo Meditsch, Dennis de Oliveira, Márcia Veiga, entre outros. Além disso, para investigações futuras, será importante também empe- nhar investigações in loco em/com laboratórios de rádio de universidades de todo o país, identificando e listando as práticas, a partir de entrevistas, obser- vação participante, análise documental e do próprio relato de participantes e integrantes de projetos. Busca-se, assim, a longo prazo, e ainda mais ideia do que planejamento, que seja possível a elaboração e proposição de práti- cas inclusivas, pensando o gênero e as interseccionalidades, em elaboração teórico-metodológica. Um caminho ainda aberto a ser trilhado em coletivo, 152 por sujeitos, assim identificados desde o início, que se interessam por uma perspectiva de ensino e de jornalismo que sejam emancipatórios. Referências AKOTIRENE, Carla. Interseccionalidade. São Paulo: Pólen Editorial, 2019. BETTI, Juliana Gobbi; ZUCULOTO, Valci. A história (das mulheres) do rádio no Brasil – uma proposta de revisão do relato histórico. In: MUSSE, Christina Ferraz; MAGNOLO, Talita Sousa; ZUCULOTO, Valci (Org.) História e memória da mídia em tempos de violências, lutas e resistências. São Paulo: Alcar, 2024. BRASIL. Ministério da Educação. Resolução no 1, de 27 de setembro de 2013. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Jor- nalismo, bacharelado, e dá outras providências. Brasília, DF: Ministério da Edu- cação, 2013. Disponível em: https://normativasconselhos.mec.gov.br/normativa/ pdf/CNE_RES_CNECESN12013.pdf. Acesso em: 17 jul. 2024. 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Da Pedagogia Emancipatória à Prática Jornalística P A R T E 3 156 C A P Í T U L O 9 Jornalismo, compartilhamento de imediaticidades e o pensamento de Paulo Freire Dennis de Oliveira1 Jornalismo como ação cultural do capitalismo O Jornalismo é uma prática social que busca relatar e interpretar os fatos relevantes da sociedade, funcionando como um elo entre os aconte- cimentos e o público. Otto Groth (2011) ressalta que o Jornalismo é uma ação cultural que impacta o entendimento coletivo da realidade. O surgimento do jornalismo como prática social está intimamente ligado à emergência da sociedade moderna. Há conexões nítidas entre a aventura da modernidade (a destruição criadora, o princípio de “tudo que é sólido desmancha no ar”), do empreendedorismo burguês (o investi- mento no sentido de transformar a situação presente em um algo lucrativo no futuro) e o espírito desvelador do jornalista (a busca pela verdade, o desvelamento do que está oculto, a disseminação da novidade). Por esta razão, o Jornalismo é uma atividade que se impregna do liberalismo bur- guês capitalista para além da sua instrumentalização por parte da indústria cultural (Marcondes Filho, 2001; Thompson, 1995). Neste sentido, reduzir o estudo do Jornalismo a sua instrumentaliza- ção ideológica por parte dos seus controladores é entender apenas parte do problema. Há uma dimensão epistêmica singular do Jornalismo que é preciso ser refletida para se discutir não só os seus limites dentro de uma sociedade capitalista, mas as suas potencialidades e possibilidades em um projeto de transformação social e, por que não dizer, em uma sociedade 1 Professor titular do Departamento de Jornalismo e Editoração da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). É bacharel, mestre e doutor em Comunicação pela mesma ins- tituição. É coordenador do CELACC (Centro de Estudos Latino-Americanos de Cultura e Comuni- cação), vice-líder do Alterjor(Grupo de Pesquisa de Jornalismo Alternativo e Popular) e membro do Neinb (Núcleo de Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro), todos da Universidade de São Paulo. E-mail: dennisol@usp.br. mailto:dennisol@usp.br 157 de outro tipo que não se limite a uma perspectiva meramente publicista e instrumental. Há uma leitura, presente em vários autores, de que a apropriação mercan- til do Jornalismo foi a responsável pelo seu desvio de rota (Habermas, 2014; Marcondes Filho, 2001). Embora as argumentações desta natureza tenham alguns fundamentos, o grande problema é que ela parte do pressuposto da existência de um “jornalismo puro”, fora dos processos históricos, como se houvesse uma “essencialidade jornalística”. Outro problema que se observa em boa parte dos Estudos de Jornalismo é diluí-lo dentro de um campo amplo dos “Estudos de Comunicação”, ou ainda de “Estudos de Mídia”. Tais perspec- tivas têm a importância de contextualizar o Jornalismo em uma dimensão teórica mais ampla, mas caem em dois riscos problemáticos. O primeiro é que, ao diluir o Jornalismo como uma modalidade de comunicação, restringe a comunicação social aos dispositivos midiáticos massivos que têm um momento histórico específico de institucionalização. Antes de tal institucionalização, houve formas de comunicação humana, inclusive que extrapolam o circuito meramente pessoal. Mesmo teorias que levem em consideração isto acabam por caírem em uma discussão sobre características intrínsecas aos processos comunicativos, limitando o Jor- nalismo a este circuito produção-circulação-recepção. O que vai distinguir teorias funcionalistas e críticas nesta perspectiva é a contextualização social ou não deste processo, mas várias singularidades do Jornalismo como ativi- dade social continuam relegadas a segundo plano. O segundo risco é quando se limita a diluir o Jornalismo aos Estudos de Mídia, subsumindo as características singulares do Jornalismo como processo às gramaticalidades dos dispositivos tecnológicos mobilizados para a prática comunicacional. Tais reflexões cometem o equívoco de limi- tar o Jornalismo meramente a dispositivos tecnológicos analógicos, consi- derando que os digitais – pelas suas características próprias de produção, circulação e consumo – significariam a “morte do jornalismo”. O maior problema destas apreensões teóricas é desconsiderar alguns aspectos próprios da prática jornalística que considero fundamentais no sentido de entender a natureza singular da atividade. A primeira delas é que o Jornalismo tem fundamentos metodológicos e de codificação próprios que definem a sua atividade. Os fundamentos metodológicos do jornalismo se baseiam na busca da singularidade do fato acontecido e sua articulação com dimensões mais amplas que possibilitem 158 a compreensão da história sendo construída nas suas imediaticidades (Genro Filho, 1985). Por isto, a captação jornalística é essencialmente empírica, de registro de relatos, busca de dados verificáveis e sintetização das informações coletadas para compartilhamento imediato. Já os sistemas de codificação jornalística têm como objetivo a dissemi- nação mais ampla possível, ou o que Genro Filho (1985) afirma de “pro- fanação” do conhecimento da realidade instituindo uma estética narrativa própria que gera efeitos de veracidade e confiabilidade, ao mesmo tempo que possibilita a síntese do universo de informações captadas e de com- preensão mais ampla possível. Observe-se que nesta curta reflexão, vários elementos constituintes do processo jornalístico abrem possibilidades de discussão. Em relação aos fundamentos metodológicos: quais são os critérios seletivos dos fatos que merecem ser noticiados, quais fontes devem ser buscadas como testemu- nhos ou relatoras destes fatos, qual é a construção dos mecanismos de sin- tetização dos dados coletados. Já em relação aos mecanismos de codifica- ção, quais são os elementos que norteiam a estética narrativa do jornalismo e a qual perspectiva que se sinaliza para este público ao qual tal narrativa se direciona. O pano de fundo para estes processos jornalísticos é a Ética. Por Ética, entendo não um conjunto de procedimentos normativos ou códigos deon- tológicos, mas uma sinalização de um devir, um olhar crítico sobre a rea- lidade e quais caminhos se sinalizam. Neste sentido, o Jornalismo não é e nunca será uma atividade neutra ou imparcial, como se fosse possível neutralidade ou imparcialidade em qualquer ação humana. Se considerarmos que o Jornalismo é produto das transformações dos arranjos institucionais do século XVII, com a ascensão da burguesia ao poder e a constituição da chamada democracia liberal (Thompson, 1995), é fato que esta atividade, desde os seus primórdios, atuou no sentido de transformar a sociedade e seus sujeitos por meio do fomento da esfera pública política. A disseminação de informações impacta no sentido de provocar ações dos sujeitos que promovem cenários distintos do que havia antes. Não é à toa que a primeira fase do Jornalismo foi de ser um “libelo” em defesa de causas – políticas ou estéticas –, potencializando os debates políticos na esfera pública (Marcondes Filho, 2001). Mesmo com o processo de mercantilização do jornalismo, ocorrido entre os séculos XIX e XX, há que se considerar que o objetivo de transformar 159 o cidadão em consumidor, conforme afirma Habermas (2014), é também um processo de constituição de um sujeito particular, um homo consumens, que vai estabelecer os parâmetros para os critérios de seleção nos funda- mentos metodológicos e também nos padrões estéticos dos sistemas de codificação. A partir destas considerações iniciais, observo que é possível não só esta- belecer uma linha de reflexão crítica do Jornalismo como atividade social, como também apontar possibilidades de constituição de um “novo Jorna- lismo” ou o que já chamei em outras obras de Jornalismo Emancipatório. Jornalismo como forma de compreensão da realidade Otto Groth foi um dos primeiros teóricos do Jornalismo e é ampla- mente reconhecido por ter desenvolvido a ideia de uma “Ciência do Jor- nalismo”. Ele propôs que o Jornalismo não era apenas uma prática, mas sim uma disciplina científica com características próprias. Sua obra mais importante, Die Zeitung: Ein System der Zeitungskunde (Groth, 2011), esta- beleceu fundamentos teóricos para o estudo do Jornalismo. Groth identificou quatro funções fundamentais do Jornalismo, que se tornaram princípios estruturantes da comunicação de massa: 1. Atualidade (Aktualität) – O Jornalismo deve fornecer informa- ções sobre acontecimentos recentes e relevantes para a sociedade. A rapidez na divulgação das notícias é essencial. 2. Universalidade (Universalität) – O Jornalismo deve cobrir uma ampla variedade de temas, desde política e economia até cultura e esportes. Isso diferencia o Jornalismo de outras formas de comuni- cação mais especializadas. 3. Periodicidade (Periodicität) – As informações jornalísticas pre- cisam ser transmitidas de forma regular e contínua. Isso cria um ciclo de notícias previsível para os consumidores. 4. Publicação (Publizität) – O jornalismo deve atingir um público amplo e diverso. As informações não podem ser privadas ou res- tritas, mas sim acessíveis a toda a sociedade. Adelmo Genro Filho (1985) parte destas considerações de Groth des- tacando que o pensamento do teórico alemão indica que o Jornalismo 160 é uma ação cultural típica do capitalismo. E foi justamente o não aprofunda- mento deste contexto sócio-histórico em que tal ação cultural se desenvolve que motiva Genro Filho a estabelecer um ajuste de contas com a teoria de Groth para apresentar a hipótese de que o “Jornalismo é uma forma de apro- priação do conhecimento da realidade distinta da Ciência e da Arte”. Esta distinção ocorre porque enquanto a Ciência possibilita o conhe- cimento da realidade pela universalidade (a Ciência sempre aspira a uma universalidade dos seus postulados, aindaque estes sempre sejam contes- táveis e relativos a determinados períodos históricos) e a Arte, pela parti- cularidade das suas formas de expressão e manifestação, que reforçam a dimensão de autonomia da representação em relação ao seu referente (em função de uma presença mais ativa – por isto, é autoral – do autor da obra na constituição estética da representação), o Jornalismo se caracteriza pela realidade conhecida pela singularidade dos fatos. Para poder entender melhor esta distinção, parto de um fenômeno muito comum nos cenários das grandes cidades brasileiras que são as crianças que vivem nas ruas. Na Figura 1, a representação de um artigo científico, publicado em um periódico, que faz um estudo sobre o “extermínio de meninos de rua” utili- zando, segundo o resumo, referências interdisciplinares: Figura 1 – Artigo publicado na revista São Paulo em Perspectiva Fonte: https://doi.org/10.1590/S0102-88392004000100004. Acesso em: 20 mar. 2025. 161 Na Figura 2, a reprodução de uma poesia de Sergio Vaz sobre o mesmo tema: Figura 2 – Poesia de Sergio Vaz Fonte: Reprodução da página pessoal do poeta. E, finalmente, na Figura 3, a reprodução de uma matéria publicada no portal G1 sobre assunto semelhante: 162 Figura 3 – Reprodução de página do portal G1 de 11/11/2024 Fonte: Portal G1 São Paulo. Enquanto, na primeira figura, há a apresentação de uma reflexão conceitual e científica sobre a existência e os motivos do extermínio de meninos de rua por meio da mobilização de conceitos de várias discipli- nas científicas (Ciência); na segunda, há a presença do poeta na represen- tação estética do fenômeno (Arte) e, na terceira figura, uma matéria que traz um fato singular: o aumento de crianças e adolescentes em situação de rua em São Paulo. O Jornalismo cria, assim, uma conexão do público com o fato inse- rido em uma dimensão espaço-tempo justamente por estar vinculado à singularidade. Note-se que o discurso científico do primeiro exemplo, embora possa partir de fenômenos singulares (por exemplo, o aumento do assassinato de crianças e adolescentes em determinado local e em determinado espaço de tempo), aspira a uma compreensão universal e abstrata por meio dos conceitos teóricos. Já no segundo exemplo, há um deslocamento da compreensão do fenômeno para uma percepção estética autoral que transcende a percepção imediata e mergulha nas particulari- dades (lágrimas e sorrisos, drops na caixinha etc.), extraindo novos sig- nificados. Finalmente, no terceiro exemplo, o que mobiliza é a atualidade (aumentou nos últimos dez anos) e o impacto do problema que leva a um alerta e a um convite para se pensar em uma ação política (no sentido de agir na pólis, na esfera pública). 163 O fato, na sua singularidade, representa, segundo Adelmo Genro Filho (1985), a ponta da pirâmide jornalística (que aqui não está invertida). Esta ponta da singularidade, que cutuca e provoca ao não se alargar para per- mitir uma compreensão e contextualização mais ampla dos fatos, transfor- mará tais fatos em fenômenos isolados e que ocorrem per si, como se não fossem produtos de intervenção humana coletiva. Esta é a razão de ser do sensacionalismo, em que os fatos são eventos sensacionais e se legitimam meramente pela sensação (o cutucar da ponta da pirâmide) e não por um convite para uma reflexão mais ampla. Ao ler o título da reportagem e a linha fina – “Quantidade de crian- ças e adolescentes em situação de rua cresceu 12 vezes na cidade de SP nos últimos dez anos” – temos o fato registrado que impacta, mas surge a pergunta: por que isso ocorre, quais motivos que levaram a isso? Sem uma indicação de respostas para tal, a compreensão que fica é que o fenômeno do aumento de crianças de rua é algo que ocorre indepen- dente de qualquer intervenção humana, como obra divina etc. Em suma, pelos critérios de seleção jornalísticos, a tendência é todo fato ter uma dimensão “sensacional” (porque saiu do percurso natural dos acontecimentos). O velho ditado jornalístico – “se um cachorro morde um homem não é notícia, mas se um homem morde um cachorro, é notícia” – expressa isso. Assim, a grande questão para o jornalismo é: como extrapolar esta dimensão sensacional intrínseca aos fatos de maior repercussão e possibilitar uma compreensão e contextualização mais ampla. É aí que entra o alargamento da base da pirâmide por meio da busca dos elementos da Ciência (por exemplo, opinião de especialis- tas), da Arte (com o recurso a narrativas estéticas de imagens ou a busca de uma compreensão do fenômeno por meio da narrativa densa dos ambientes, como é feito nas reportagens do new journalism) ou ainda pela conexão com outros fatos singulares como é comumente feito nas reportagens de contextualização. E é justamente nestas formas de ampliação da base da pirâmide que mais se encontram os aspectos ideológicos e o devir da narrativa jornalís- tica. Se observarmos a ampliação da base da pirâmide da reportagem sobre o aumento das crianças de rua em São Paulo, verifica-se que: • Os dados (expostos em vários gráficos) foram obtidos pelo Obser- vatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situa- ção de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais; 164 • Avaliações do problema foram feitas por integrantes de organiza- ções que atuam com meninos de rua, como o Projeto Meninos e Meninas de Rua; • O sujeito interpelado é a Prefeitura Municipal de São Paulo, no sentido de ser questionada quanto ao fato dos programas de aten- dimento serem escassos ou não (aqui entra a regra dos “dois lados”, a Prefeitura é ouvida e apresenta sua versão); • Outros dados derivados disto são apresentados, como violência, situação familiar, trabalho precário de crianças na rua, vulnerabili- dade social, entre outros. A fonte escolhida para fornecer os dados passa pelo critério de legi- timidade social (é o observatório de uma universidade: aqui o discurso científico empresta sua credibilidade e sua força de verdade para susten- tar a veracidade da notícia). Depois, as fontes ouvidas estabelecem um campo de contraponto existente neste fenômeno – crianças e adolescentes nas ruas, vulnerabilizadas por falta de atendimento. E, neste contraponto, entram as fontes entrevistadas: Organizações não-governamentais (ONGs) e a prefeitura municipal. O que se pode questionar é se este é o único ou, pelo menos, o principal contraponto. Apenas uma suposta precariedade no atendimento por parte da prefeitura é responsável pelo aumento do número de crianças e adolescentes de rua ou haveria outras questões? O circuito das fontes e o silenciamento de vozes A análise sucinta que fiz no tópico anterior serve para desvendarmos onde se localiza o principal núcleo ideológico do processo de conhecimento jornalístico – é na forma em que se amplia (ou não) a singularidade do fato. A não ampliação da singularidade do fato leva, segundo Genro Filho (1985), ao sensacionalismo porque o fato singular se isola do contexto e se legitima por si próprio, pela sua condição sensacional, de se destacar do curso “normal” ou esperado dos acontecimentos. A apropriação do conhe- cimento do fato singular, isolado da contextualização sócio-histórica, leva a uma “fetichização” do fato, dando a impressão de que ele surge por um desígnio divino, sem qualquer possibilidade de intervenção humana, ou ainda por um julgamento moral dos atores envolvidos, como ocorre, 165 por exemplo, em notícias da área policial. Mas, nestas situações, a ideologia está explícita. Mais complexo é extrair o núcleo ideológico do fato singular ampliado e contextualizado e, portanto, fora de uma abordagem sensacionalista. No exemplo dado no tópico anterior, o que se viu foi uma seleção de fontes e uma angulação do problema que constroem um único contra- ponto: a eficiência ou não dos serviços de atendimento do órgão público. Se tal abordagem permite um olhar crítico sobre um órgão público (aten- dimento social da prefeitura), desconectao fenômeno de um contexto mais amplo, como questões econômicas, políticas, modelos de sociabilidade, entre outros. Por exemplo, existem ou não conexões entre este aumento do número de crianças em situação de rua com o aumento do desemprego? Para tal abordagem, seria necessário ampliar as fontes fora de uma perspec- tiva tradicional de captação em pautas como essa – o denunciante (movi- mento dos meninos de rua) e o denunciado (a prefeitura), o chamado “dois lados”. Mais que isso, a compreensão do fenômeno necessitaria ir além da sua institucionalização, que é evidente na captação feita nesta reportagem (ONG e prefeitura, embora estejam em lados contraditórios, são dimensões institucionais que tratam do problema). Aqui entram as contribuições de Paulo Freire para a potencialização de um jornalismo emancipador a partir da concepção teórica de Adelmo Genro Filho. Em artigo publicado na revista Novos Olhares, apresentei a ideia de que o conceito de “cultura do silêncio” de Paulo Freire dialoga com as teorias decoloniais latino-americanas e, portanto, não só estabelece uma práxis de poder no sentido universal, como também uma legitimação da subalternidade dos povos latino-americanos (Oliveira, 2020). Isto porque, se o Jornalismo é uma ação cultural do capitalismo que conecta os cidadãos e cidadãs à cotidianidade, possibilitando o fazimento da história a cada momento, na definição de Genro Filho (1985); o laço que estabelece essa conexão é uma racionalidade eurocêntrica, uma vez que o arranjo institucional da Modernidade que a sustenta foi instituído a partir de uma universalidade eurocêntrica (Dussel, 2005; Mignolo, 2017; Quijano, 2005). O conceito de cultura do silêncio de Paulo Freire refere-se ao fato de que, nas interações sociais, o subalterno não fala ante a uma voz legitimada pela autoridade. Para Freire, isto ocorre por uma herança da colonização, na qual o colonizado ouve e o colonizador fala. Ao não falar, os fenômenos 166 que circundam e fazem parte da vivência desse subalternizado são fetichiza- dos, aparecem como algo que está além da produção humana. Por isto que a educação bancária centrada no silenciamento de vozes dos educandos inter- dita a constituição do pensamento crítico. A educação dialógica é, assim, não meramente uma ferramenta pedagógica, mas uma postura e uma práxis polí- tica de uma educação para a liberdade (Freire, 1979; 1981; 1987). Uma ampliação do fato singular para uma contextualização que o retire do encapsulamento do sensacionalismo tanto pode ser feita a partir da conexão com uma universalidade eurocêntrica ou para um campo de crítica a esta universalidade. Desta forma, os critérios de seleção com os quais outros fatos singulares ou elementos universalizantes científicos se conectam, para contextualizar, sinalizam para o tipo de Jornalismo que se pretende realizar. Isto significa uma reflexão sobre a legitimidade de fontes escolhidas para o testemunho, análise e discussão dos fatos noticiados (há uma evi- dente tendência de se preferir fontes oficiais ou oficiosas em detrimento de pessoas fora dos circuitos de legitimação social); métodos de captação jornalística (formas de abordagem, perguntas formuladas) e critérios de seleção e hierarquização das informações obtidas. Um jornalismo feito na perspectiva da “educação bancária” freiriana, no silenciamento de determi- nadas vozes, constitui um cenário em que há um palco para os que falam e decidem o que é importante e um grande plenário de pessoas colocadas na mera condição de espectadores que participam apenas em momentos formalizados de forma plebiscitária (como em eleições). Algumas experiências de Jornalismo Comunitário procuram romper com este círculo fechado procurando amplificar outras vozes, mas frequen- temente caem em um discurso panfletário e denunciativo ao se submete- rem a objetivos pontuais e de curto prazo. Considerações finais O que eu pretendo afirmar aqui é que não basta romper com o isola- mento da singularidade para automaticamente se constituir um Jornalismo Emancipatório, mas importa a direção em que se rompe. E isto está direta- mente ligado aos critérios de seleção de fontes, na definição de quais vozes são legitimadas ou não, e em quais os conflitos ou contradições sociais 167 tal fato se insere. Tais escolhas têm um caráter político e a sua realização insere-se como uma práxis jornalística que parte de uma visão crítica do ordenamento social latino-americano, em particular do arcabouço que norteia as instituições públicas e privadas e, por tabela, da própria configu- ração da esfera pública. Em outras palavras, a população, com toda a sua diversidade, não é um corpo mensurável por dados e interpretada por um seleto grupo de especialistas que definem a agenda, mas uma totalidade complexa eivada de contradições internas que se move historicamente a partir dos conflitos sociais. Paulo Freire afirmava sempre que a Educação não muda o mundo, mas sim transforma as pessoas e elas sim atuam para mudar o mundo. O Jor- nalismo também tem um papel importante na mudança das pessoas para que estas atuem coletivamente na transformação da realidade. Em uma sociedade marcada por sociabilidades midiatizadas, debater este papel do Jornalismo é fundamental. Referências DUSSEL, Enrique. Europa, modernidade e Eurocentrismo. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. FREIRE, Paulo. Ação cultural para liberdade e outros escritos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981. FREIRE. Paulo. Conscientização. Teoria e prática da libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez, 1979. FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide. Porto Alegre: Ortiz, 1985. GROTH, Otto. O poder cultural desconhecido: fundamentos da ciência dos jor- nais. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2011. HABERMAS, Jürgen. A mudança estrutural da esfera pública. São Paulo: Unesp, 2014. MARCONDES FILHO, Ciro. A saga dos cães perdidos. São Paulo: Hacker, 2001. MIGNOLO, Walter. Colonialidade: o lado mais escuro da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 32, n. 94, p. 1-18, 2017. Disponível em: https:// www.scielo.br/j/rbcsoc/a/nKwQNPrx5Zr3yrMjh7tCZVk/abstract/?lang=pt. Acesso em: 26 mar. 2025. https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/nKwQNPrx5Zr3yrMjh7tCZVk/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rbcsoc/a/nKwQNPrx5Zr3yrMjh7tCZVk/abstract/?lang=pt 168 OLIVEIRA, Dennis de. Jornalismo e emancipação: uma prática jornalística baseada em Paulo Freire. Curitiba: Appris, 2017. OLIVEIRA, Dennis de. Paulo Freire e uma prática jornalística emancipatória- decolonial. Olhares, v. 8, n. 2, 2020, p. 122-132. Disponível em: https://repositorio. usp.br/directbitstream/aa32257e-238c-4bb5-bb9e-4d82a61865b7/003003329.pdf. Acesso em: 26 mar. 2025. QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Em A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas, Buenos Aires: CLACSO, 2005, p. 117-142. THOMPSON, John B. A mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1995. https://repositorio.usp.br/directbitstream/aa32257e-238c-4bb5-bb9e-4d82a61865b7/003003329.pdf https://repositorio.usp.br/directbitstream/aa32257e-238c-4bb5-bb9e-4d82a61865b7/003003329.pdf 169 C A P Í T U L O 1 0 Paulo Freire e o compromisso do jornalista com a sociedade Jorge Kanehide Ijuim1 Da visão romântica à consciência crítica Desde a minha graduação, nos finais da década de 1970, nos era apre- sentada a ideia da responsabilidade social do Jornalismo como algo ine- rente à profissão. Esta visão romântica – e até ingênua – era disseminada na literatura do campo, provavelmente, pela contribuição da imprensa nas grandes conquistas pelo mundo, como a 1o Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América, que garante a liberdade de expressão e de imprensa;ou pelo valioso empenho da imprensa abolicionista brasileira no século XIX. Da visão ingênua à consciência crítica há uma distância. Não se trata de “virar uma chave”, mas envolve experiência e reflexão. Foi no curso de especialização que frequentei na Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero que conheci José Marques de Melo – que dispensa apresentações. Foi este mestre que me desafiou a mergulhar no mundo de Paulo Freire. A importância do ato de ler (Freire, 1989). Um desafio e tanto para um neófito como eu aos 24 anos. O pequeno e precioso texto me ensinou a aprender para poder ensinar. Em 1981, na então Fundação Educacional de Bauru, iniciei minha vida acadêmica no ensino da Comunicação e do Jornalismo. Paulo Freire já estava impregnado em minha mente. Hoje, fazendo um balanço, arrisco a registrar que, dos 36 anos de ensino em Comunicação/Jornalismo, pelo menos durante metade desse tempo atuei em disciplinas que envolvem redação jornalística. Ação e reflexão. Esta não é uma frase pronta para ser 1 Professor do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC. Doutor em Ciências da Comuni- cação/Jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da USP, coordena o Grupo de Estudos sobre Jornalismo e Direitos Humanos. 170 garganteada gratuitamente. É preciso compreendê-la, elevar a consciência para levá-la à sala de aula. Pensar a pauta, que informações buscar, quem entrevistar, o que e como redigir, com que finalidade. É preciso pensar para poder agir, esta ação precisa ser avaliada, refletida. Portanto, sempre entendi que as disciplinas ditas “práticas” exigem reflexão. Nunca imaginei trabalhar redação jornalística sem envolver a discussão sobre ética, interesse público, responsabilidade social. E é justa- mente esta a questão em que centralizo minhas atenções neste texto. Compromissos e responsabilidades O profissional de Jornalismo serve a quem? A um patrão? A um seg- mento? Ou à sociedade? A essas intrigantes perguntas encontrei pistas valiosas no texto “O compromisso do profissional com a sociedade”, na ver- são que disponho, publicado no livro Educação e mudança (Freire, 1983). Produzido inicialmente para a área de Pedagogia, vislumbrei a hipótese de adequação a várias outras áreas, como a do Jornalismo. A cada momento em que provocava um debate em sala de aula, mais me convencia de sua pertinência à nossa profissão. Tanto que, mais tarde, esta peça magnífica me inspirou a escrever um artigo estabelecendo uma relação vívida com o Jornalismo. Em A Responsabilidade social do jornalista e o pensamento de Paulo Freire (Ijuim, 2009), expressei minha compreensão sobre a seriedade necessária para o compromisso do jornalista. Quem pode assumir este compromisso [com a sociedade]? Indaga Paulo Freire, ao que assevera: “a primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometido está em ser capaz de agir e refletir [...] É preciso que seja capaz de, estando no mundo, saber-se nele” (Freire, 1983, p. 16, grifos meus). Esta capacidade não cai do céu ou não dá em árvore, não pode ser colhida, mas implica em vivências, na experiência da rua, dos espaços públicos. Como assinalou Freire, “implica na consciência do ser de não apenas estar no mundo, mas estar com o mundo” (Freire, 1979, p. 65). Esta aptidão para estar no e com o mundo – porque existir ultrapassa viver, é mais do que estar no mundo – suscita a possibilidade de, pela reflexão, ter consciência de si e, por um olhar crítico diante do mundo, ter cons- ciência da realidade concreta. Assim, supõe a ação para a transformação. Esta transformação baseia-se justamente em uma das máximas marxistas 171 [devir], que sugere a transformação daquilo que é naquilo que deve ser. É o ser da práxis que é capaz de transformar, como salienta o autor: É exatamente esta capacidade de atuar, operar, de transformar a realidade de acordo com finalidades propostas pelo homem,a qual está associada sua capacidade de refletir, que o faz um ser da práxis (Freire, 1983, p. 17). Estar no e com o mundo pela práxis nos exorta ao “engajamento com a realidade, de cujas águas os homens verdadeiramente comprometidos ficam molhados, ensopados” (Freire, 1983, p. 19). Para o pensador, o ver- dadeiro compromisso é a solidariedade, na situação concreta. Daí minha persistência na experiência do jornalista na rua, nos espaços públicos. Não preciso ser, necessariamente, injustiçado para perceber as injustiças; não preciso, necessariamente, passar fome para perceber que há insegurança alimentar; não preciso, necessariamente, ser pobre para perceber as desi- gualdades sociais do país. Solidariedade, humanização, empatia para reali- zar seu trabalho de maneira responsável e humanizada, e contribuir para a humanização dos outros, do mundo. Humanização? Solidariedade com quem? Palavras, mensagens, dis- cursos não são neutros – notícias e reportagens produzidas pelo Jorna- lismo não são neutras. O pensamento positivista influenciou sobremaneira os modelos jornalísticos estruturados no século XIX e, com isso, incor- porou os princípios consagrados de neutralidade, imparcialidade, objetivi- dade – hoje rediscutidos, relativizados. Como posso estar isento diante de situações de racismo, machismo, misoginia, xenofobia? Como posso agir com neutralidade diante de violações à dignidade humana? Os cânones do Jornalismo apontavam que engajar-se numa causa con- fundia-se com o ativismo. Ora, o engajamento na realidade – pela práxis – como destacou Paulo Freire, reforça a necessidade de ser radical – ir à raiz – em não se omitir diante das mazelas e injustiças sociais. Tal engajamento supõe solidariedade às subjetividades, como às populações minorizadas e vulnerabilizadas, aos grupos sociais perseguidos, discriminados, ou o res- peito às regionalidades. Se denunciar as violações aos Direitos Humanos, se defender o direito à dignidade humana for ativismo, particularmente, devo admitir que sou e continuarei sendo um ativista. 172 Especialização e especialismos Freire nos alertou que não cabe reduzir o profissional a um simples objeto da técnica, a um autômato manipulável, pois Quanto mais me capacito como profissional, quanto mais sistematizo minhas experiências, quanto mais me utilizo do patrimônio cultural, que é patrimônio de todos a ao qual todos devem servir, mais aumenta minha responsabilidade com os homens (Freire, 1983, p. 20). Para o autor, “profissional” é atributo de ser humano e, por isso, este não pode, quando exerce um quefazer atributivo, negar o sentido profundo do quefazer substantivo original. Ou seja, não cabe a inversão de valores de servir mais aos meios que ao fim. Um jornalista que, como dizemos no dia a dia das salas de redação, “engata o piloto automático”, privilegia as téc- nicas e negligencia seu compromisso com a sociedade, simplifica e reduz sua profissão. Ao cair no especialismo, omite-se de sua responsabilidade de transformação. Infelizmente, temos observado em Santa Catarina um Jornalismo pobre e de cunho conservador, com versões únicas – muito baseadas em fontes oficiais –, com pouco ou nenhum espaço para o contraditório; notí- cias episódicas ou pontuais, focadas muito mais em consequências do que nas causas. Certa vez, escrevi um trabalho (Ijuim, 2016) em que sustentei que, em nosso estado, “ordem e progresso” era o principal critério de noticiabili- dade. Naquela oportunidade, apontei que grande número de pautas eram guiadas por um enfoque econômico. Preocupava-me, naquele momento, a ênfase do noticiário ao crescimento do agronegócio, especialmente a expansão das áreas destinadas ao plantio da soja, produto majoritariamente de exportação, com prejuízos a outras culturas. O tom de comemoração, nas manchetes e chamadas de TV, denotavam que “ordem e progresso” – um dos princípios positivistas – era o que importava para o bem do estado. Crescimento, desenvolvimentismo. Assim também observei nas cobertu- ras de “agendamento”, como a temporada de verão,período de captura da tainha, festas e eventos culturais como Oktoberfest o Festival de Dança de Joinville: tudo era guiado pelo mote da economia, num claro privilégio aos interesses de elites política e econômica. A cultura, o social, as vidas 173 vividas em cada uma dessas situações sempre ficam em segundo plano. Este parece-me um exemplo claro de “especialismo”, em que a responsabili- dade de transformação, o compromisso, ficam esmaecidos. Vislumbro alguns contrapontos a esta postura. O compromisso com a sociedade deve perpassar qualquer pauta, qualquer editoria. Não posso tra- tar de economia ou política somente por números ou ações pontuais, mas devo pensar em antecedentes, contextos e possíveis reflexos. Não posso tratar de educação ou saúde de maneira episódica sem interfaces políticas e econômicas. Não posso tratar de economia se não vinculada à questão ambiental... Em todas as situações, não devo esquecer do direito à digni- dade humana. Em qualquer desses casos, não podemos nos ater ao sin- gular, mas perceber os nexos com o particular e o universal, para lembrar Adelmo Genro Filho (2012). De outra mão, engajamento. Para engajar-se na realidade, para soli- darizar-se com o outro, há que se promover diálogos com os setores orga- nizados da sociedade, com os movimentos sociais, com associações e sin- dicatos. Empenhar-se numa “relação dialógica”, como sempre incentivou Freire. Há que se sondar e perceber a vida nos espaços públicos, na rua. Por fim, acrescento nossa reflexão mais recente, mais uma vez forte- mente influenciada pelo patrono da educação brasileira. Iniciei este texto mencionando a importância da passagem de uma consciência ingênua para uma consciência crítica. Exatamente esta ideia-chave de Freire me auxilia a ousar estruturar uma linha de raciocínio oportuna à atividade jornalística. A necessidade do desenvolvimento de uma “consciência ética- epistemológica”. Se o jornalismo é um pensar/fazer para a produção de conhecimento (notícia, reportagem), o que e como produzimos essas notícias, respei- tando a dignidade humana, é uma questão ética. Ética enquanto visão de mundo que determina nossas escolhas para esses fazeres, assim como o que queremos conhecer e como conhecemos (epistemologia). Portanto, esta consciência ética-epistemológica estipula o que visualizamos como pauta e como a lemos, assim como quais são as fontes, que perguntas fazemos a elas, quais conhecimentos produzimos em nossas notícias. Esta linha de raciocínio merece amadurecimento, lapidação. É uma pista que, com a ins- piração e ajuda de Paulo Freire, estou disposto a perseguir. 174 Referências FREIRE, Paulo. Ação cultural e conscientização. In: Ação cultural para a liber- dade. 4. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. FREIRE, Paulo. O compromisso do profissional com a sociedade. In: Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. São Paulo: Autores Associados, Cor- tez, 1989. GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. Florianópolis: Editora Insular, 2012. IJUIM, Jorge Kanehide. A Responsabilidade social do jornalista e o pensamento de Paulo Freire. Revista Em Questão. Porto Alegre, v. 15, n. 2, jul.-dez. 2009, p. 31-43. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/ 10060. Acesso em: 14 mar 2025. IJUIM, Jorge Kanehide. Modernidade e modelos jornalísticos: Ordem e Pro- gresso como critério de noticiabilidade. In: XVII CONGRESSO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NA REGIÃO SUL, 17., Curitiba. Anais eletrônicos [...], São Paulo: Intercom, 2016, p. 1-15. Disponível em: https://portalintercom.org.br/ anais/sul2016/resumos/R50-1917-1.pdf. Acesso em: 14 mar. 2025. https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/10060 https://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/view/10060 https://portalintercom.org.br/anais/sul2016/resumos/R50-1917-1.pdf https://portalintercom.org.br/anais/sul2016/resumos/R50-1917-1.pdf 175 C A P Í T U L O 1 1 Saberes descolonizados no projeto jornalístico Notícia Preta Ediane Barbosa Oliveira1 Introdução A produção de conhecimento sobre questões raciais no Brasil tem crescido na última década. Como toda produção intelectual que tensiona e reflete sobre as diferentes desigualdades, o campo de estudos que pro- põe um olhar antirracista, assim como a história da formação das socie- dades, também é marcado por silenciamentos e apagamentos. Ao traçar uma linha do tempo sobre o campo étnico-racial como categoria teórica nas diferentes áreas do conhecimento, percebe-se que a categoria-conceito raça nunca esteve totalmente fora dos estudos, pois, ainda que intrínseca, encontra-se no cânone do conhecimento dito como universal, o qual é majoritariamente branco, masculino, heteronormativo e ocidental. Se há uma universalidade daquilo que é entendido como norma, a categoria raça sempre esteve presente na produção de saberes, porém pelo viés da bran- quitude e de forma universalista (Schucman, 2014). Aprendemos com Paulo Freire (1987) que a experiência profissional é um elemento importante na formação do indivíduo e na construção da consciência humana. Algumas das motivações das reflexões apresentadas neste artigo nascem da minha experiência vivida como jornalista negra. Ao ingressar no campo do trabalho desde a finalização da graduação em Jor- nalismo, em meados de 2009, percebia-me como minoria nos espaços de atuação, desde o trabalho que desenvolvi por quase dez anos em sindicatos, ou atuando como repórter de cultura na redação do jornal, na produção e apresentação de programa radiofônico, em coberturas políticas na câmara 1 Jornalista, mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e doutoran- da em Jornalismo pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGJOR/UFSC). É uma das pesquisadoras da Cátedra Antonieta de Barros: educação para a igualdade racial e combate ao racismo, da UFSC. E-mail: ediane.jornalismo@gmail.com. mailto:ediane.jornalismo@gmail.com 176 de vereadores, como assessora de imprensa de clube de futebol ou na cria- ção de uma cooperativa de comunicação – empreendimento que iniciei com alguns colegas com o objetivo de implementar o próprio negócio. Não apenas a falta de representação era um tema presente em minhas reflexões, como também a ausência de representatividade na abordagem de pautas que interseccionavam questões raciais. O ingresso em 2021 no doutorado, no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, mesmo que uma década após a entrada no campo profissional, me trouxe outras percepções sobre ser e estar nestes espaços, através das experiências vividas e os apren- dizados coletivos que a sala de aula me permitiu. Ao passo que as discipli- nas eram experienciadas, me deparava com breves passadas de conteúdos que versavam sobre a conexão da prática jornalística com a temática racial. No decorrer destes últimos anos, me perguntava em sala de aula e em reflexões com colegas e professores se nosso campo entendia realmente o racismo como estruturante das desigualdades sociais e como isso estava se dando no ensino e nas práticas jornalísticas atuais. A pesquisa Perfil Racial da Imprensa Brasileira (2021) aponta alguns dados que corroboram com estas reflexões: com um amplo projeto que se debruçou a conhecer o perfil da imprensa no país, os pesquisadores demonstraram que o número de jor- nalistas negros nas redações é quase três vezes menor do que de jornalistas brancos, ou seja, apenas 20% dos jornalistas brasileiros são negros. Em minha caminhada como doutoranda, acompanhei apresentações de projetos de dissertações e teses em disciplinas de metodologia com os colegas, aulas sobre as teorias do jornalismo, algumas disciplinas trans- versais (interdisciplinares) e outras diversas vivências no corpo coletivo acadêmico. Algumas destas experiências rendiam discussõese debates sobre como tem se dado a construção do pensamento sobre raça e racismo dentro do nosso campo, e também como poderíamos exercer uma prática antirracista no jornalismo. Foi aí que comecei a compreender mais sobre o que a autora Patricia Hill Collins2 (2016) ensina com o conceito outsi- der within (em uma livre tradução: estrangeira de dentro) ao falar como pessoas negras não se sentem profundamente pertencentes a determinados espaços, e como isso acarreta uma dinâmica complexa em suas experiên- cias pessoais, sociais e políticas. Como, por exemplo, frequentar ambientes 2 Socióloga referência nos temas: raça, classe e gênero. 177 considerados hegemônicos, mas não se sentir totalmente pertencentes àqueles ambientes. De acordo com a autora, a conexão entre teoria, expe- riência e vivência pode proporcionar a essas pessoas racializadas um olhar um pouco diferenciado da maioria, pois possibilita compreender ações e comportamentos de ambos os grupos, o que as coloca em uma posição mais adequada para avaliar a sociedade e propor novos projetos políticos a partir de um ponto de vista e de uma posição formada por esta dupla visão. A autora bell hooks (1995) também oferece boas compreensões sobre o conhecimento a partir da experiência, compreendendo o âmbito pessoal e político como potência para se constituir em ponto de partida para a cone- xão entre politização e transformação da consciência3. Ao mesmo tempo que pessoas de grupos minoritários se encontram à margem, por outro lado também estão ocupando espaços centrais. Estas experiências e estes desloca- mentos podem proporcionar um ponto de vista crítico e abrangente, em que moldam a consciência e constroem conhecimentos que articulam diferentes formas de pensar e agir em realidades sociais distintas, desenvolvendo, por- tanto, práticas emancipatórias de resistência em um mundo marcado por violências de classe, gênero, raça, sexualidade, território etc. A lei de ação afirmativa nas universidades brasileiras, que reserva vagas para estudantes de grupos minoritários, estabelece que as universidades federais e instituições de ensino técnico de nível médio federais reservem vagas para negros, indígenas, pessoas com deficiência, estudantes de esco- las públicas e quilombolas4. Esta política pública, de acordo com Figueiredo (2020, p. 10), demarca uma participação mais ativa destes estudantes que, em certa medida, altera e amplifica as agendas de investigação e pesquisa, uma vez que a maioria destes estudantes elege temas próximos, relaciona- dos ao próprio cotidiano. Esta ação de reparação (a lei de ação afirmativa), dentro dos espaços de ensino, também conecta a uma maior diversidade racial no perfil de gradu- andos e pós-graduandos em geral nas últimas duas décadas. Pode-se obser- var que um dos avanços simbólicos desta transformação, iniciada em 2012, 3 Gloria Jean Watkins é o nome da autora e educadora conhecida como bell hooks. De acordo com ela, a escolha do pseudônimo grafado em minúscula é um posicionamento político da recusa egóica intelectual. A autora negra e estadunidense publicou mais de 30 livros e ensaios com foco em questões raciais, na defesa de uma educação que seja antirracista, antissexista, anti-imperialista e que discuta as diferenças de classe. 4 A Lei no 12.711 ou Lei de cotas garante que 50% das vagas em Universidades e Institutos Federais sejam ocupadas por alunos da rede pública de ensino. Dessas, a metade (ou 25% do total) é destinada a quem tem uma renda inferior a 1,5 salários mínimos, e aí são separadas as cotas raciais e para pessoas com deficiência (PCD). 178 mas com a lei sancionada apenas em 2016, já tem mudado consideravel- mente o corpo coletivo dentro das universidades. Ainda que não executada pela maioria dos cursos de pós-graduação em diferentes universidades do país até hoje, percebe-se que a maior presença de estudantes racializados na pós-graduação também possibilitou mais diversidade epistêmica na esco- lha de temas, abordagens e visibilidade de produções de autores/as negros/ as nas pesquisas acadêmicas. É o que mostra o levantamento de Artes e Mena-Chalco (2017), na análise do crescimento dos estudos sobre rela- ções raciais, considerando como fonte de dados os trabalhos de mestrado e doutorado defendidos nas instituições brasileiras e registradas no banco de teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) no período de 25 anos (1987-2011). Na lista das dez áreas que se destacaram com maior visibilidade de dissertações e teses, a primeira colocada nos dois níveis é a área da Educação. Áreas como Antro- pologia, Sociologia e História vêm a seguir. E nós, como campo da Comunicação/Jornalismo, onde estamos? Ao serem analisadas primeiramente as dissertações de mestrado e listadas as dez áreas com maior participação de trabalhos na temática de relações raciais, a Comunicação sequer aparece. Já para teses de doutorado regis- tradas na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) da Capes, a Comunicação aparece na última colocação, alcançando a 10ª posição. A pesquisa também destacou a intersecção entre raça e gênero, e concluiu que são as mulheres quem mais pesquisam a temática de relações nas áreas de ciências humanas. Mesmo que os dados não atualizem as pes- quisas da última década, a partir de alguns resultados consegue-se ter o panorama da produção de conhecimento sobre questões étnico-raciais na pós-graduação, com a conclusão de que até 2011, o campo da Comunica- ção pouco pesquisava as relações raciais. No ensino do Jornalismo, as discussões sobre questões raciais têm acontecido, ainda que lentamente, em algumas disciplinas e grupos de pesquisa que interseccionam o conhecimento da área com Direitos Huma- nos, Pedagogia, Sociologia etc. Algumas iniciativas em congressos da área de Comunicação e Jornalismo já são realizadas em forma de grupos de trabalho (GTs) e fóruns, como é o caso do eixo temático Jornalismo, gênero e questões étnicas, no Encontro Nacional de Pesquisadores em Jor- nalismo (SBPJor). Na Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) há o Grupo de Pesquisa Estéticas, Políticas 179 do Corpo e Gêneros5, iniciado em 2020, e o Grupo de Pesquisa Comunicação Antirracista e Pensamento Afrodiaspórico, iniciado em 2021. A Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação (Compós) também aprovou a criação do Grupo de Trabalho Comunicação, Raça e Interseccionalidades, em 2022, e a União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil) teve a criação do GT Estudos Críticos sobre gênero, raça e identidade. Destaca-se também o Dossiê Raça, Mídia e Comunicação Antirracista (2021)6 que representou um importante marco científico na articulação do campo da Comunicação com emergentes pesquisas étnico-raciais. No campo profissional, há também importantes iniciativas, como o Núcleo de Jornalistas Afro-brasileiros, ligado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Porto Alegre desde 2001. O coletivo foi criado para atender demandas do Comitê Afro-brasileiro no Fórum Social Mundial depois que jornalistas do Brasil e de várias partes do mundo enfrentaram barreiras para veicular reportagens e dar visibilidade a suas ações antes e durante o Fórum. O núcleo vem contribuindo, com discussões práticas através de documentos, palestras e formações, para um jornalismo mais comprome- tido com a pauta racial. Portais de notícias com foco na abordagem antirra- cista também passaram a se formar e crescer na última década, como Alma Preta Jornalismo, Portal Geledés, Blogueiras Negras, a Rede de Jornalistas Pretos Pela Diversidade na Comunicação e o coletivo Notícia Preta (NP) – este último utilizado aqui como exemplo prático de mídia pedagógica no antirracismo. Através da Disciplina de Formação Profissional, ministrada pelo pro- fessor Eduardo Meditsch, no primeiro semestre de 2024,no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJor) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dentre muitas discussões feitas, as contribuições da vasta obra do pensador Paulo Freire se fizeram presentes em reflexões, leituras e trocas sobre Pedagogia e Jornalismo. Seu pensamento crítico, libertá- rio e muito à frente do seu tempo – inspirando mundialmente diversas áreas do conhecimento até os dias atuais – pode também ser visto como um pensamento que contribui consideravelmente para práticas educativas 5 A partir de 2022, o grupo passou a se chamar Estéticas, Políticas dos corpos e Interseccionalidade, incor- porando a categoria teórico-metodológica da interseccionalidade como importante para se pensar nas relações entre raça, gênero, sexualidade, geração etc. 6 A edição foi organizada por Deivison Campos (ULBRA), Gabriela Almeida (ESPM-SP) e Jorge Cardoso Filho (UFRB/UFBA). 180 antirracistas, a partir de sua abordagem humanista, subversiva e emancipa- tória para a consciência coletiva. Na área do Jornalismo, as contribuições de Paulo Freire também foram e são muito importantes, pois conectam consciência, trocas, resistência, autonomia, liberdade e outras importantes formas de transformação de práticas dominantes. E foi pensando nesta contribuição intelectual e huma- nística que alguns questionamentos foram refletidos para a elaboração do presente artigo. Busca-se, portanto, fazer um diálogo sobre como o Jornalismo pode ser um importante meio de combate à desigualdade racial ao ancorar-se na decolonialidade do pensamento de Paulo Freire e também das autoras bell hooks e Grada Kilomba7. Através de uma perspectiva decolonial encontrada na obra destes autores, a discussão trata sobre produção de conhecimento e saberes insurgentes para o exercício social do jornalismo. Como exemplo, destaca-se uma possibilidade de referência empírica: o portal jornalistico antirracista Notícia Preta (NP), fundado em 2018 pela jornalista Thais Ber- nardes8 e formado por profissionais, estudantes e comunicadores negros. No elo entre educação e comunicação, a iniciativa propõe um projeto jorna- lístico a partir da produção de conteúdos de interesse público com foco na conscientização racial. O coletivo também realiza a Escola de Comunicação Antirracista, com atuação em formações e ações pedagógicas que buscam tornar os espaços jornalísticos mais inclusivos – iniciativa que se conecta a uma prática decolonial de educação, comunicação e justiça social. Saberes insubmissos da decolonialidade Não foi por acaso a escolha de buscar traçar um diálogo – ainda que breve – entre os saberes de bell hooks e Grada Kilomba aos de Paulo Freire no presente artigo. Isto porque os três carregam uma perspectiva decolo- nial em suas obras, especialmente por criticarem a hegemonia tradicio- nal e dominante da produção do conhecimento; pela luta em defesa da Educação como forma de consciência e elaboração crítica da realidade 7 Grada Kilomba é uma escritora, psicóloga, teórica e artista interdisciplinar portuguesa com uma obra intelectual que tem como foco questões raciais e pós-colonialistas. Sua crítica aborda como, sistemati- camente, grupos minoritários são invisibilizados naquilo que é conhecido como “conhecimento”. 8 Jornalista, formada em Comunicação pelo Institut français de Presse-Université Panthéon-Assas, em Paris e em jornalismo pelo Institut Pratique de Journalisme (IPJ), também na França. 181 e também pela defesa do afeto e da solidariedade como mecanismos pode- rosos de emancipação. A decolonialidade, em termos conceituais e epistemológicos, já foi desenvolvida por pesquisadores como Aníbal Quijano (2000), Catherine Walsh (2007), Edgard Lander (2005), Enrique Dussel (2000), Nelson Mal- donado-Torres (2017), Aimé Césaire (2006), Frantz Fanon (1965), María Lugones (2007), entre outros. Autores que oferecem uma perspectiva crí- tica sobre a produção de conhecimento hegemônica, a qual dificilmente reconhece ou valida o lugar de conhecimento de pessoas racializadas ou subalternizadas, sendo elas acadêmicas ou não. Ainda nesta perspectiva, Quijano (2005) discute o eurocentrismo, o qual se encontra assentado na ideia de que o sujeito do conhecimento é o homem branco europeu ou estadunidense. De acordo com o autor, pessoas de grupos mais vulneráveis socialmente, em larga medida, ocupam o lugar de “objeto” da pesquisa, dentro do formato padrão de produção acadêmica. É neste sentido que os ensinamentos dos três autores desta pesquisa destacam a denúncia do colonialismo nas práticas de transmissão e recebi- mento do conhecimento nas relações sociais, mas mais do que isto: também apontam caminhos para que a partir de uma troca solidária, uma escuta ativa e um aprendizado mútuo, se estabeleçam possibilidades de trans- formação social entre alunos e professores e/ou diferentes grupos sociais. Como autores críticos do sistema dominante, Freire, hooks e Kilomba vão se encontrar na crítica à neutralidade epistêmica e a hierarquização dos saberes, propondo assim uma elaboração da consciência do pensamento através de uma relação de aprendizagem que respeite e leve em considera- ção as diferentes trocas humanas. bell hooks (1995) destaca que indivíduos de grupos subalternizados que têm ocupado espaços acadêmicos buscam recorrer a processos alternativos de validação do conhecimento dentro de sua própria comunidade, de onde também têm aprendido alternativas de análise da realidade que confrontam o conhecimento hegemônico na academia, pois nem sempre se sentem reco- nhecidos dentro dos espaços de poder. A autora, que dialoga com Freire em suas obras, já declarou que o patrono da educação brasileira é uma grande referência em sua intelectualidade e que, ainda que Freire não tratasse de forma específica sobre gênero e raça em suas reflexões, sua ampla visão de contexto social e seu engajamento com a transformação da consciência já apontava, de forma intrínseca, caminhos de reflexões sobre as questões raciais. 182 Sobre o alinhamento de hooks com Freire: na obra freireana Pedagogia do Oprimido, os processos de dominação existentes no sistema da educa- ção e na manutenção hierárquica social são considerados um sistema desi- gual para os grupos mais vulneráveis e menos privilegiados. Freire (1985) não apenas problematiza, mas compreende a importância da consciência e emancipação destes grupos para uma sociedade mais igualitária, apresen- tando uma pedagogia do diálogo crítico, em uma troca entre os sujeitos, a qual gera transformações sociais. Ainda em diálogo com o pensamento de Paulo Freire, hooks propõe a construção de uma educação humanista, antirracista, antissexista e antihomofóbica. É evidente que um dos muitos usos da teoria no ambiente acadêmico é a produção de uma hierarquia de classes intelectuais onde as úni- cas obras consideradas realmente teorias são as altamente abstratas, escritas em jargão, difíceis de ler e com referências obscuras (hooks, 1995, p. 89). Grada Kilomba (2019) também dialoga com esta pedagogia crítica quando questiona sobre o lugar do conhecimento dentro e fora da uni- versidade e o quanto pode ser excludente para a experiência de pessoas racializadas ou subalternizadas quando não pensada em uma perspectiva humana e interseccional, levando em conta as realidades sociais coleti- vas. A partir de exemplos sobre os processos de colonização, ela dialoga sobre a lógica do sistema que elenca, de forma colonizadora, quem possui conhecimento e quem é legitimado a falar. Em sua obra, a partir de uma perspectiva decolonial, a autora descreve como sistematicamente as estru- turas dominantes podem causar traumas psíquicos e sociais nas gerações de países colonizados. Dois questionamentos são primordiais no pensamento de Grada: “Quem pode falar?” e “Sobre o que é que se pode falar?”. A autora usa essas duas perguntas como ponto inicial em sua palestra-performance intitulada Descolonizando o conhecimento para explicar, demaneira teórica, prática e artística, categorias como: raça, gênero e cognição. E aponta que a desco- lonização passa pela iniciativa da criação de espaços seguros para as vozes de diferentes grupos sociais. Cabe também destacar que a autora se tor- nou mais conhecida através do livro Memórias da plantação: episódios do racismo cotidiano (2008), obra que aborda relatos de racismo sofrido por 183 pessoas racializadas na Europa. Ainda nesta mesma perspectiva, bell hooks defende a ideia de descolonização do pensamento através de uma pedago- gia engajada, libertária e posicionada contra o sistema hegemônico, e traz uma contribuição significativa sobre a conexão entre teoria, experiência e vivência como base para o conhecimento que se fundamenta na criativi- dade e na prática, constituindo-se como um conjunto epistemológico em que a subjetividade também é levada em conta como narrativa válida de conhecimento. Portanto, a conexão entre os pensamentos de Freire, hooks e Kilomba se encontram na decolonialidade encontrada em uma pedagogia crítica que insurge como um dos principais arcabouços teóricos antirracistas, através de suas visões sobre as populações menos privilegiadas socialmente e sobre os sistemas de dominação. O antirracismo na agenda de lutas no Brasil A luta contra o racismo no Brasil é histórica e muito significativa para a agenda de lutas sociais e políticas. Não apenas nas resistências de líderes quilombolas desde o período da escravidão, como nas últimas cinco déca- das, no nascimento do Movimento Negro Unificado (MNU). Fundado a partir de entidades negras na cidade de São Paulo, em junho de 1978, o movimento que inicialmente se intitulava Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial (MUCDR), articulou-se como uma representação de ativismo político, cultural e social de fundamental expressão no combate ao racismo e em defesa dos direitos das comunidades negras, reverberando em uma efervescência do associativismo negro de Norte a Sul do país. Pereira (2010), em pesquisa sobre a constituição do movimento negro con- temporâneo no Brasil (1970-1995), identifica que já na primeira metade da década de 1970 iniciava-se uma rede de organizações e lideranças em diferentes estados do país. Pode-se dizer, portanto, que as redes com militantes antigos foram se estabelecendo ao longo da década de 1970, a ponto de, em 1978, o ato público de São Paulo ter contado com a presença, por exemplo, de Abdias do Nascimento e Lélia Gonzalez, entre vários outros ati- vistas (Pereira, 2010, p. 165). 184 O ato público que Pereira (2010) descreve em sua tese tornou-se muito conhecido e com grande valor simbólico para a história do movimento negro brasileiro. Trata-se da indignação de várias organizações negras frente à tortura e assassinato que o feirante Robson Silveira da Luz sofreu, acusado de roubar frutas em seu local de trabalho. Ainda em 1978, qua- tro garotos jogadores de vôlei foram discriminados pelo Clube Regatas do Tietê e o operário Nilton Lourenço foi morto pela Polícia Militar no bairro da Lapa, em São Paulo. Esses acontecimentos causaram uma comoção e manifestação muito forte por parte das comunidades negras e foram pri- mordiais no nascimento do MNU. O ato público, portanto, foi uma mani- festação histórica e reuniu milhares de pessoas na escadaria do Teatro Municipal de São Paulo naquele mesmo ano. Como resultado das pautas e mobilizações históricas do MNU, pode- se citar a possibilidade de demarcação dos territórios quilombolas, inscrita na Constituição de 1988; a Lei no 10.639, que prevê o ensino da história afro-brasileira nas escolas; a busca pelas políticas de ações afirmativas, reparatórias e de reconhecimento. Disso resultou o crescimento – ainda que insuficiente – da quantidade de pessoas negras nas universidades e o fortalecimento da consciência racial dos jovens, conquistas que ganharam mais força ao longo das últimas décadas. O protagonismo feminino negro também faz parte da luta antirracista no Brasil. Historicamente, as mulheres negras não se sentiam contempla- das dentro do movimento feminista, assim como também não encontra- vam a atenção que a pauta de gênero deveria estar recebendo no âmago do movimento negro. Com isso, a luta das mulheres negras na denúncia contra a desigualdade racial e de gênero vem se destacando não somente na organização de mulheres negras, dos movimentos africanistas, ou do feminismo negro, mas também nas pluralidades de suas ações políticas nos movimentos negros e classistas, e também como um movimento autô- nomo e independente. É a partir daí que nasce o MMN, mais conhecido como Movimento de Mulheres Negras, trazendo os recortes raciais, gênero, classe e sexualidade nas mobilizações de direitos humanos. No final da década de 1980, foi criado o Geledés – Instituto da Mulher Negra, com a finalidade de organizar mulheres negras de forma política na luta contra as opressões de gênero e raça e na valorização das pautas antir- racistas. Não apenas no sentido de denúncia quanto ao racismo e demais opressões que atingem a vida das mulheres negras, mas o movimento 185 de mulheres negras, ao longo das últimas décadas também inscreveu sua luta e atuação política de forma propositiva para a sociedade civil e seto- res do poder público. Uma dessas ações pode ser destacada a partir das organizações das marchas de mulheres negras. Destaca-se a Marcha das Mulheres Negras Contra o Racismo, Violência e Pelo Bem Viver, realizada em 2015, em Brasília. Foram mais de 50 mil mulheres das cinco regiões do Brasil reivindicando suas lutas, com ocupação na Esplanada dos Minis- térios. Nilma Bentes, uma das idealizadoras da Marcha e integrante da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), em entrevista à Agência Brasil, relembra que a iniciativa foi sendo fomentada em conversas entre diferentes organizações, desde 2011, durante o Fórum Afro XXI. O encontro celebrava o Ano Internacional dos Afrodescenden- tes, declarado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2009. A história mais recente da luta antirracista aponta um marco – especial- mente para a agenda jornalística na atenção dada ao tema. Casos emblemá- ticos de genocídio negro (como o da execução da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 no Rio de Janeiro; de Ágatha Felix, assassinada aos oito anos por um policial em 2019, no Complexo do Alemão/RJ; de Evaldo Rosa, morto após o carro em que andava com familiares ser atingido por mais de 80 tiros, disparados por militares, no RJ, em 2019; de João Alberto Freitas, morto na véspera do Dia da Consciência Negra, em 2020, após ser espancado e asfixiado por seguranças no estacionamento de uma unidade do Carrefour, em Porto Alegre/RS) tiveram bastante notoriedade na cobertura jornalística. Os altos índices de genocídio da população negra na última década se relacio- nam com o conceito necropolítica, cunhado pelo filósofo camaronês Achille Mbembe (2014), na contextualização da morte em massa de pessoas majori- tariamente negras em países que passaram por processos de colonização. De acordo com ele, o conceito explica que a morte de determinados grupos não é mera coincidência, mas faz parte de um projeto político dominante, em que a morte negra, por exemplo, é mais aceitável. Os episódios citados acima insurgiram movimentos antirracistas que denunciaram a violência e as desigualdades raciais, como no caso de George Floyd, homem negro norte-americano asfixiado até a morte por um policial, em 2020. A reação ao crime fortaleceu uma onda de movi- mentos mundiais de luta por igualdade racial, como o movimento Black Lives Matter – iniciado em 2012. Com inspiração nesta ação política coletiva, no contexto brasileiro surgiu o movimento Vidas Negras Importam, 186 que, dentre diversas pautas antirracistas, denunciou a cobertura e a aborda- gem jornalística de veículos de grande expressão nacional frente ao genocí- dio negro. Este movimento no contextop. 8) afirmam que “embora não seja a formação voltada para a docência no ensino superior, é sabido que o curso de licenciatura em muito contribui para o exercício do magistério superior”. Ainda de acordo com Cruz (2017, p. 679), [...] a formação específica para o ensino, processo constitutivo da docência, não encontra lugar nesse percurso. O professor do ensino superior é catedrático, especialista de uma área e pesquisador, sem, necessariamente, contar com processo formativo específico para ser docente (Cruz, 2017, p. 679). No campo da Educação, a busca pela chamada profissionalidade docente vincula-se ao conhecimento e uso de um “conjunto de comportamentos, 7 Um dos motivos talvez seja o próprio fato de a pessoa que almeja ser professora já ter sido estudante por um longo período de tempo, o que a habilitaria, por meio da observação e repetição daquilo que seus professores fizeram, a também atuar como docente. 23 conhecimentos, destrezas, atitudes e valores que constituem a especificidade de ser professor” (Gimeno-Sacristán, 1995, p. 65). Isso significa que há pro- cedimentos e atitudes docentes voltadas para um aprendizado mais eficiente por parte dos estudantes que, após a graduação, atuarão profissionalmente no mercado de trabalho. A busca pela melhor preparação para o exercício docente, segundo a teoria da educação, deve privilegiar o pleno desenvolvimento de quem pre- tende dedicar-se a esta função. Nesse sentido, investir em ações formativas e emancipatórias junto a potenciais docentes é uma premissa básica. Para Cunha (2006, p. 17), é preciso ir além do que a educação tradicional propõe e avançar em “conhecimentos acadêmicos e competências técnicas e sociais que configurem um saber fazer que extrapole os processos de reprodução”. Esses conhecimentos vinculam-se a três dimensões acionadas pelos pro- fessores em seu exercício docente: o conhecimento do conteúdo da matéria ensinada, o conhecimento pedagógico da matéria e o conhecimento curri- cular (Cruz, 2017). A prática em sala de aula, elemento central dessa profissionalidade, igualmente permite ao docente o contato direto com as turmas, trocas com outros colegas professores, além de aprendizagens cotidianas que se mani- festam nas interações intra e extraclasse. Salvador e Sordi (2024, p. 9), aler- tam, no entanto, que é necessário “ter o cuidado para ir além da prática ou esbarra-se na instrumentalização, no tecnicismo que não permite enxergar os elementos fundantes dos processos de ensinar e aprender”. No caso do Jornalismo e da Comunicação, dada sua natureza eminen- temente dinâmica e prática, avançar em rotinas e estratégias pedagógicas pode parecer um desafio. No entanto, Partindo da compreensão de que a formação pedagógica do docen- te é um elemento fundante para a qualidade do ensino superior, é indispensável, não apenas, identificar o processo formativo (inicial e continuado), mas compreender como o docente concebe a forma- ção, a prática docente e a prática pedagógica que caracteriza o seu exercício profissional (Salvador; Sordi, 2024, p. 2). A adesão ao debate sobre a profissionalidade docente no ensino superior ainda é reduzida. Como apontam Salvador e Sordi (2024, p. 6, grifo nosso), “não é incomum que os docentes Iniciantes/Ingressantes 24 e Veteranos não tragam consigo os saberes pedagógicos para o exercício da docência no ensino superior”. Dessa forma, as próprias IES costumam assumir a responsabilidade de qualificar suas e seus professores por meio de formações regulares ou ações pontuais8. Em se tratando da grande maioria dos Programas de Pós-Graduação em Jornalismo e Comunicação, a necessidade de formação e/ou preparação para atuar na docência é quase totalmente ignorada. Em levantamento anterior, realizado no Brasil em 2020, observou-se que apenas três PPGs ofereciam disciplinas voltadas a esse tema. No entanto, esses programas poderiam ser espaços privilegiados para tratar dessa demanda, inclusive propondo inova- ções nos modos de ser e agir docentes no contexto da sala de aula. [...] nenhum desses programas de pós-graduação tem uma linha de pesquisa de ensino e pesquisa de Jornalismo ou de Comunicação. Então, os nossos programas de pós são muito similares e não aten- dem demandas que são específicas. Uma das maiores demandas da área de Comunicação é formar docentes, mas nenhum programa de pós forma (Gehlen; Reino; Bueno, 2017, p. 630). A falta de atenção à formação para a docência nos programas de pós- graduação evidencia que o processo de ensino-aprendizagem para o ensino superior é tomado como algo senão dispensável, passível de resolução mediante a própria prática em sala de aula. Essa realidade contrasta com o entendimento de que o exercício do ensino se vincula, de modo efetivo, a “uma variada e complexa articulação de saberes passíveis de diversas for- malizações teórico-científicas, científico-didáticas e pedagógicas” (Cruz, 2017, p. 674). Como será discutido a seguir, a tônica na qual os programas de pós- graduação em Jornalismo e Comunicação têm investido é outra, com foco específico na pesquisa acadêmico-científica. Este interesse, ainda que basi- lar para a própria estrutura do sistema de pesquisa, reitera a observação de que há lacunas na formação de professores na área (Kronbauer, 2020)9. 8 Na Universidade Federal de Santa Catarina, por exemplo, há o Programa de Formação Continuada (PROFOR), vinculado à Pró-Reitoria de Desenvolvimento e Gestão de Pessoas. Por meio dele, a cada semestre, servidores técnico-administrativos e professores têm a oportunidade de participar dos even- tos de capacitação (presenciais ou on-line) pré-programados. 9 Outro desafio que se coloca à formação para a docência é a compreensão de que investir nela é uma demanda constante, inerente ao exercício profissional. 25 Passos metodológicos e dados levantados As escolhas metodológicas aplicadas para este estudo buscaram res- ponder a uma questão central relacionada às percepções de estudantes de pós-graduação stricto sensu sobre sua preparação para atuar como profes- sores no ensino superior. Para isso, seguindo experiência semelhante rea- lizada em 2020 com outro público-alvo (docentes de cursos de graduação em Jornalismo e Comunicação), foi disponibilizado um questionário on- line entre os dias 1o e 31 de dezembro de 2024. O instrumento continha quinze (15) perguntas sobre o tema, sendo dez (10) delas fechadas e outras cinco (5) abertas. O convite para participar do survey foi feito por meio de mensagem padrão enviada às listas de discussão dos grupos da Associação Brasileira de Professores de Jornalismo (ABEJ) e da Associação Brasileira de Pes- quisadores em Jornalismo (SBPJor). Com perfil exploratório e amostragem não probabilística, o formulário permaneceu disponível por 30 dias. A par- tir das informações coletadas, foi utilizada a Análise de Conteúdo (Bardin, 2012) como método de exame dos dados. Em relação ao perfil de respondentes, com base nas três primeiras perguntas, 82 estudantes de pós-graduação vinculadas(os) a 28 diferentes programas de todas as cinco regiões do país responderam ao formulário10. Desses, mais de 97% das pessoas (80 estudantes) indicaram ter vínculo com um programa acadêmico, enquanto apenas duas estavam matriculadas em programas com perfil profissional. Estudantes de doutorado totalizaram 51 participantes, enquanto 31 estavam cursando o mestrado. A maior parte dos respondentes (51, ou 62,2% do total) pretende atuar profissionalmente no ensino superior após a conclusão de sua formação. No entanto, outras atividades também foram mencionadas, como atuação em pesquisa (13), mercado (9) e serviço público (2). Outras opções como “onde puder conseguir trabalho”, “empreendedorismo jornalístico” e “não sei”, igualmente foram referidas pelo menos uma vez. 10 As respostas partiram de estudantes de Tocantins, Pará, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal, Bahia, Ceará, Pernambuco, São Paulo, Rio de Janeiro,brasileiro ficou ainda mais conhe- cido no ano de 2020. Notícia Preta e a Escola de Comunicação Antirracista A iniciativa de mídia negra, nascida em 2018 pela jornalista Thais Ber- nardes, intitulada como Notícia Preta (NP) se apresenta como um cole- tivo de jornalismo colaborativo que tem como objetivo contribuir na pauta antirracista, através de um portal de notícias e uma escola de formação em comunicação antirracista, direcionada para estudantes, jornalistas, comu- nicadores e demais interessados em comunicação popular. Através da análise de conteúdo (Bardin, 2002) do portal NP, foram escolhidas notícias e matérias publicadas no ano de 2025 com o objetivo de encontrar elementos que interseccionassem a perspectiva racial dentro destes conteúdos, ou seja, se havia ou não o foco educativo antirracista na escolha de fontes, abordagens, temáticas e desenvolvimentos destes con- teúdos jornalísticos. Após, foi feita uma análise dos conteúdos ministrados na Escola de Comunicação Antirracista, realizada pelo NP. A análise con- sistiu em traçar elementos (tanto nos conteúdos de notícias do site como no conteúdo de formação da escola) de conexão com a decolonialidade presente nos três autores. A equipe do NP é formada por 23 pessoas – todas negras – de sete estados diferentes do Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Não apenas profis- sionais da área do Jornalismo fazem parte do coletivo, mas também outros profissionais de outros segmentos, como Pedagogia, História, Direito, Publicidade e Contabilidade. Escolhido para ser lançado em uma data histórica no ano de 2018, o coletivo escolheu estrear o portal de notícias NP no dia 20 de novembro daquele mesmo ano. A data significativa celebra o Dia Nacional de Zumbi dos Palmares9, conhecido como o Dia da Consciência Negra. A data, 9 Zumbi dos Palmares foi um líder quilombola brasileiro, o último dos líderes do Quilombo dos Palma- res, o maior dos quilombos do período colonial. Sua luta foi incessante para defender o Quilombo dos Palmares contra os soldados portugueses. 187 instituída como oficial no calendário brasileiro pela Lei no 12.519/201110, marca a resistência do líder quilombola Zumbi dos Palmares e dos africa- nos escravizados contra a escravidão e o racismo no Brasil. Através de pesquisas de relatórios de acessos no site, em apenas quatro meses de existência, o NP já somava mais de 40 mil seguidores em suas redes sociais, contando com uma média de dois mil acessos no site diariamente. Quanto às editorias, os conteúdos abordam cultura, educação, política, eco- nomia, meio ambiente, direitos humanos e sociedade – todos com o pano de fundo da abordagem racial, contando com fontes de especialistas que dialo- gam sobre o assunto numa perspectiva antirracista. Um dos tantos exemplos pode ser visto na notícia publicada no dia 29 de janeiro de 2025 sobre a taxa de genocídio de pessoas trans no Brasil. Com o título: “78% das pessoas trans assassinadas no Brasil entre 2017 e 2024 eram negras, diz dossiê”11, a notí- cia na editoria de Direitos Humanos não fala genericamente sobre a questão trans, mas também intersecciona a pauta racial como central, direcionando o tema na perspectiva do entendimento sobre a população negra trans. Outro exemplo pode ser visto na notícia: “Chacina de Unaí: auditor do trabalho diz que crime envolveu racismo”12, publicada em 29 de janeiro de 2025. O texto, ainda que não escrito pela equipe do NP, mas com autoria da Agência Brasil, foi escolhido por estar de acordo com a linha editorial do veículo por inter- secionar a pauta racial em uma notícia. Isto porque a notícia poderia apenas falar sobre o homicídio, mas não destacar que, neste caso, de acordo com as fontes entrevistadas, há a questão do racismo também. Sobre a autoria das notícias, cabe destacar que nem todas são de auto- ria da equipe do coletivo devido à falta de financiamento para pagamento de profissionais que consigam produzir em tempo hábil. Portanto, há notí- cias de cunho autoral, mas também de outros veículos que tenham alinha- mento com o posicionamento editorial. Em 2019, após um crescimento significativo do portal, o coletivo NP criou uma campanha de financiamento coletivo13 visando metas, como: 10 A Lei no 12.519/2011 instituiu oficialmente no calendário brasileiro o dia 20 de novembro como o Dia da Consciência Negra e também o dia para homenagear Zumbi dos Palmares, já que a data remete ao dia de sua morte. Em 2023, a Lei no 14.759/2023 transformou o Dia da Consciência Negra em feriado nacional. 11 Disponível em: https://noticiapreta.com.br/78-das-pesssoas-trans-assassinadas-no-brasil-entre-2017- e-2024-eram-negras-diz-dossie/. Acesso em: 31 jan. 2025. 12 Disponível em: https://noticiapreta.com.br/chacina-de-unai-auditor-do-trabalho-diz-que-crime-en- volveu-racismo/. Acesso em: 3 fev. 2025. 13 Disponível em: https://benfeitoria.com/projeto/noticiapreta. Acesso em: 20 jan. 2025. 188 compra de computadores, câmeras e programas de edição de vídeo para uma maior profissionalização do gerenciamento de produção do trabalho; melhoria do site e pagamento de profissional de design para investimento na parte gráfica do site. A campanha, apesar de ter sido criada e receber apoio dos públicos, foi encerrada sem conseguir concluir suas metas por não ter alcançado o valor inicial requerido. A Escola de Comunicação Antirracista é um dos grandes braços da NP. A proposta pedagógica atua com formações e capacitações para pro- fissionais (chefia e funcionários) em empreendimentos de comunicação e jornalismo, na criação de planos e ações que unam comunicação e educa- ção e tornem os espaços mais democráticos e com equidade social. Não apenas para empresas de comunicação, mas para estudantes, jornalistas em atuação ou comunicadores populares, a proposta pedagógica consiste em gerar impacto antirracista através da educação de uma comunicação mais alinhada com conteúdos que envolvam a reflexão sobre a desigualdade racial. De acordo com os fundadores, o objetivo é combater o racismo e promover a educação e a inclusão de pessoas negras e periféricas. Os cur- sos de formação online são gratuitos em áreas como Comunicação, Jor- nalismo e Assessoria de Imprensa, abrangendo temas como Comunicação Antirracista, História da Imprensa Negra no Brasil, Semiótica Antirracista, Marketing Digital e Comunicação Institucional. Uma parceria com o Senac também foi formada para oferecer estes cursos profissionalizantes. Um exemplo é o curso de “Comunicação Antirracista”, destinado a profissionais que desejam praticar uma comunicação antirracista em diferentes frentes. Serão apresentados os conceitos de comunicação, de racismo e an- tirracismo além de práticas de comunicação antirracista e princípios éticos da comunicação. Ao final do curso os participantes ainda se- rão capazes de pensar e desenvolver iniciativas de comunicação e responsabilidade social, além de descobrir os caminhos para cons- truir uma Comunicação Antirracista. Com o objetivo de introduzir aos cursistas os conceitos básicos da comunicação antirracista com apresentação de linguagens e ferramentas antirracistas, serão apre- sentados ainda exemplos de comunicação antirracistas nas diferen- tes áreas da comunicação e práticas a serem evitadas pelas empresas, profissionais, pesquisadores e estudantes (NP, 2023). 189 A análise de conteúdo, no que diz respeito às notícias, se deteve em escolher cinco matérias publicadas no ano de 2025 no site NP. Em editorias diferentes, como: educação (uma notícia), direitos humanos (duas notícias), economia (uma notícia) e política (uma notícia). A leitura das mesmas se debruçou em buscar elementos que direcionassem as notícias sobre: a) informações de inte- resse público em que houvesse a perspectiva racial, e, b) se esta perspectiva aponta elementos educativos antirracistas, como a conscientização. Sobre o primeiro ponto: a análiseMinas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. 26 Fonte: Survey para estudantes de cursos de pós-graduação stricto sensu em Comunicação e Jornalismo no Brasil (2024). A quinta pergunta indagou: “Ao longo de seus estudos, você passou por alguma formação para atuar como docente no ensino superior?”. A grande maioria respondeu positivamente, com 64 respostas. Outras 14 pes- soas optaram pela alternativa “não”. Três respondentes relataram ter parti- cipado de alguma atividade (estágio docente obrigatório ou não, formação em magistério, disciplina voltada ao exercício docente em PPG da área de educação), o que potencialmente as preparou para a docência, elevando o número de participantes com alguma forma de preparo para a função. Houve ainda uma pessoa, com mestrado em Letras, que afirmou não ter tido formação para trabalhar como docente. Fonte: Survey para estudantes de cursos de pós-graduação stricto sensu em Comunicação e Jornalismo no Brasil (2024). 27 Quanto ao tipo de formação recebida, objeto da sexta pergunta, 53 (64,6%) dos 82 respondentes realizaram estágio docente. Quatro cursaram disciplina voltada ao ensino superior e 10 mencionaram outros tipos de formação, como cursos de extensão ou formação anterior em licenciatura ou magistério. Fonte: Survey para estudantes de cursos de pós-graduação stricto sensu em Comunicação e Jornalismo no Brasil (2024). A sétima pergunta abordou o grau de confiança para atuar como docente, em uma escala de 1 a 5. Os índices 3 (32,9%), 5 (30,5%) e 4 (25,6%) foram os mais expressivos. O resultado revela que parcela significativa dos participan- tes se sente confiante para atuar como docente. As menores escalas, com os índices 1 e 2, foram a opção de quatro e cinco pessoas respectivamente. Fonte: Survey para estudantes de cursos de pós-graduação stricto sensu em Comunicação e Jornalismo no Brasil (2024). 28 Com base nos índices obtidos na pergunta 7, observa-se que um grande grupo dos pós-graduandos se considera bem (25) ou relativamente bem (21) preparado para atuar na docência no ensino superior. O grupo mais numeroso, composto por 27 pessoas, optou pela alternativa 3, o que revela um grau moderado de (in)segurança quanto ao desempenho da atividade. Vale destacar que esse número está bem próximo ao de participantes que expressaram maior confiança, aqueles que escolheram o índice 5 da escala. Esse dado pode ser relacionado à pergunta subsequente, que abordava a formação adquirida nos PPGs. Do total de participantes, 20 (24,4%) res- ponderam negativamente à questão, enquanto outros 32 (39%) optaram pela alternativa “Em parte”. Isso significa que a formação oferecida pelos programas é considerada insuficiente por 52 das 82 pessoas que responde- ram ao questionário. Completa o percentual o grupo de 30 (36,6%) respon- dentes que afirmou que a formação foi adequada. Fonte: Survey para estudantes de cursos de pós-graduação stricto sensu em Comunicação e Jornalismo no Brasil (2024). Na nona pergunta (aberta), os participantes puderam comentar suas respostas à questão anterior. Durante a análise dos comentários, destacou- -se a necessidade de maior atenção dos PPGs às disciplinas voltadas à “pre- paração para a docência”, como exemplificam os depoimentos abaixo: [...] não há durante todo o curso uma disciplina que ofereça in- formações sobre como planejar uma aula ou curso. Não se discute 29 metodologia para dar aula, os programas se comportam como se fosse possível ser exclusivamente um pesquisador (Participante 16). Acredito que é preciso mais discussão sobre o ensinar. É preciso dis- ponibilizar ao menos uma disciplina de didática voltada ao campo de estudo do programa. Sou jornalista e como tive estagiários, tenho uma certa ideia de como ensinar. Mas acredito que a confiança de ensinar seria melhor com pelo menos uma disciplina para ajudar no ensino de jornalismo (Participante 34). Também emergiram dos comentários observações positivas sobre as interações entre pós-graduandos e seus orientadores, bem como com gru- pos de pesquisa ou no ambiente da sala de aula. Meu orientador, em conversas informais, contribuiu muito mais do que a disciplina na educação e qualquer atividade do meu PPG, nes- se quesito (Participante 24). [...] Não acho que a minha confiança para atuar como docente no ensino superior venha da minha formação, ou pelo menos não julgo que haja uma relação tão direta com ela, mas sim com a experiência vivida em sala de aula mesmo, uma vez que nem a graduação e nem a pós me deram muitas ferramentas para atuar como professora. Não me sinto tão confiante, mas com as experiências que já tive em sala, aprendi algumas coisas na prática e sempre senti muita falta de ter conhecimento pedagógico. Por conta disso, recentemente iniciei uma especialização em educação básica (Participante 28). Na décima pergunta, ao serem questionados sobre suas experiências docentes, as pessoas que responderam optaram pelas alternativas “Estágio docente”, com 52 menções, “Monitoria” e “Cursos de Extensão”, com 21 menções cada, “Aulas particulares, com 12, e a indicação “Não se aplica”, em 11 casos. Esses foram os pontos mais destacados pelos participantes, motivo pelo qual merecem atenção especial11. 11 Como a pergunta permitia a marcação em mais de uma alternativa e também aceitava a inserção de outras opções, uma série de outras 28 alternativas foi apontada apenas uma vez, indicando particularidades de cada participante. Optamos por ilustrar aqui apenas as opções que tiveram maior adesão, pois, apesar de reconhe- cer o valor das especificidades, buscamos uma caracterização que englobe o maior número de respondentes. 30 Na 11a pergunta, os pós-graduandos indicaram as principais competên- cias que consideram essenciais para o exercício da docência. Cinco elementos se destacaram de forma especial: atributos didáticos (39 referências), conheci- mento (teórico e prático) (31), atualização constante (16), empatia (8) e escuta (7)12. A nuvem de palavras abaixo ilustra a predominância desses termos. Fonte: Survey para estudantes de cursos de pós-graduação stricto sensu em Comunicação e Jornalismo no Brasil (2024). Na sequência, a 12a pergunta perguntava sobre a suficiência das metodo- logias trabalhadas nos PPGs. O gráfico revela um equilíbrio entre as alternati- vas “Não” (com 35 marcações, ou 42,7%) e “Parcialmente” (com 33, ou 40,2%). A opção “Sim” foi a menos escolhida, com apenas 14 respostas (17,1%). Fonte: Survey para estudantes de cursos de pós-graduação stricto sensu em Comunicação e Jornalismo no Brasil (2024). 12 Por ter sido uma pergunta aberta, cada participante adotou denominações variadas para cada competên- cia citada. A maior unidade semântica alcançada no levantamento se refere às categorias recém citadas. 31 Nos comentários à pergunta, na seção da questão 13, muitos pós- graduandos apontaram para um hiato nos PPGs quanto à preparação de discentes para a potencial futura atividade letiva. Entre as respostas, desta- caram-se a não oferta de disciplinas voltadas à didática ou metodologias de ensino e a não capacitação para a docência para além do estágio. Também foi mencionado que as metodologias trabalhadas nos PPGs são focadas na pesquisa, e não no ensino. O depoimento a seguir resume a questão: “Não temos preparo nenhum de didática e afins. O que aprendemos é obser- vando nossos próprios professores” (Participante 15). Um ponto esclarecedor, que ajuda a entender a razão pela qual a for- mação para o ensino em cursos de pós-graduação em Jornalismo e Comu- nicação no Brasil não é priorizada, foi referido pela(o) Participante 24. Em seu comentário, essa pessoa destacou que as políticas de avaliação dos programas de pós-graduação adotadas pela Capes contribuem para essa deficiência nos currículos dos cursos. Acredito que o próprio processo de avaliação da Capes dos cur- sos faz com que isso aconteça, já que para receber mais bolsas de estudo, os programasprecisam melhorar as suas pesquisas e colo- cações em índices internacionais. Assim, a avaliação do ensino da docência acaba sendo deixada de lado, apesar de se ter previsões de alguns componentes, que não tem tanto peso, como a quantida- de de produção de artigos em revistas internacionais (Participante 24, grifo nosso). Avançando para a penúltima pergunta do survey, foi questionado: “Na sua opinião, o que seria necessário para melhorar a preparação de pós- graduandos para atuar como docentes no ensino superior?”. A compilação das respostas à pergunta aberta permitiu organizar o Quadro 2: Como se observa, um elevado número de respondentes (36) indicou a oferta de uma disciplina específica (não necessariamente obrigatória) vol- tada à didática, metodologias de ensino ou design instrucional como alter- nativas para suprir a lacuna da não atenção com a formação para o exer- cício docente. Outras opções levantadas foram a oferta de mais aulas ou a criação de espaços destinados a discussões sobre didática e prática docente (25), e o aumento da carga horária para estágios de docência, monitorias e outras práticas de ensino (13). 32 Quadro 2: Grupos semânticos extraídos das respostas à questão 14 RESPOSTAS TOTAL Disciplina (não necessariamente obrigatória) de metodologias de ensino, didática e/ou design instrucional 36 Mais aulas e/ou espaços de discussão sobre didática e prática docente 25 Mais carga horária de estágio, monitorias e/ou práticas de ensino 13 Maior integração entre pós e graduação 5 Maior interação entre academia e mercado 3 Divulgação de processos seletivos docentes e orientações/oficinas para concursos públicos 3 Forma atual é suficiente 2 Fonte: Elaborado pela autora (2025). Cinco pessoas apontaram a importância de realizar ações integradas entre os cursos de pós-graduação e de graduação. Outra perspectiva, men- cionada por três respondentes, tratou da necessidade de preparação, dentro dos PPGs, para concursos públicos, além da divulgação de processos sele- tivos docentes. Duas pessoas afirmaram considerar suficiente a atual forma de preparação para atuar na docência no ensino superior. Foram ainda registradas manifestações individuais que extrapolaram ou não estavam diretamente conectadas ao foco da pergunta, que visava identifi- car melhorias para a futura atuação de pós-graduandos como docentes em sala de aula13. Por esse motivo, essas respostas foram desconsideradas na análise. A 15a pergunta (aberta), a última do questionário, procurou identificar os planos dos participantes após a conclusão de sua formação. As respostas estão reunidas no Quadro 3: Quadro 3: Grupos semânticos extraídos das respostas à questão 15 RESPOSTAS TOTAL Docência (ensino superior) 38 Doutorado 20 Pós-doutorado 13 Concurso público ou seguir no serviço público federal 14 Pesquisa/investigação 10 Emprego no mercado corporativo/profissional 8 Docência no ensino básico 3 Não sei 2 Fazer outra graduação 1 Fonte: Elaborado pela autora (2025). 13 Nessas manifestações, tratou-se de melhorias nos valores de bolsas, na infraestrutura laboratorial e de estúdios, e aperfeiçoamento das formas de avaliação de professores do PPGs. 33 Esse último questionamento também era aberto, e na sistematização das respostas, nove opções de atividades foram apontadas. A busca por inserção na docência no ensino superior foi a mais mencionada, o que já era esperado, com quase metade do total de respondentes (38) manifes- tando esse anseio. A continuidade em atividades acadêmico-científicas apareceu em seguida, com 20 pessoas interessadas em cursar doutorado e 13 em estágio de pós-doutorado. Participantes que já são servidores públicos e pretendem retornar ao trabalho, além daqueles que desejam aprovação em concurso público, tota- lizaram 14 respostas. Houve também a manifestação de 10 pessoas inte- ressadas em seguir com pesquisas e investigações acadêmico-científicas de forma independente ou paralela a outras atividades profissionais. A opção pelo retorno ao mercado profissional e/ou corporativo foi escolhida por 8 pessoas, enquanto 3 mencionaram a intenção de lecionar no ensino básico. Duas pessoas afirmaram não saber o que fazer após a conclusão de sua for- mação e, por fim, uma indicou interesse em cursar outra graduação. Análise dos dados O objetivo prioritário de 51 respondentes é a inserção docente no ensino superior. Ao todo, 64 dos 82 respondentes já passaram por algum tipo de formação para atuar nesse campo, sendo o estágio docente o instru- mento mais recorrente, utilizado por 53 pós-graduandos. Outros tipos de formação, como cursos de magistério e de extensão, foram acessados por dez pessoas. Grande parte dos estudantes sente-se confiante para atuar na docência. Em uma escala de 1 a 5, a soma dos índices alcançados nas alternativas 4 e 5 superou 55% das respostas. Na mesma escala, 32,9% dos respondentes se sentem relativamente confiantes, escolhendo o índice 3. Apesar do ele- vado índice de confiança expresso pela maior parte dos respondentes, há um contraste significativo entre esse dado e a percepção dos acadêmicos quanto à formação adquirida em seus respectivos cursos de pós-graduação. Do total de 82 respondentes, 52 pessoas a consideram insuficiente ou sufi- ciente apenas em parte. Diante desse cenário, e buscando aprofundar sua compreensão, a per- gunta 9 (aberta) evidenciou que a inexistência de disciplinas e/ou formação 34 preparatória em metodologias e didática de ensino é uma deficiência sentida pelos estudantes. O estágio docente, que costuma ser um espaço usual para o exercício da docência durante a pós-graduação, também apresenta limi- tações por atender parcialmente às expectativas dos pós-graduandos, que raramente participam do planejamento das atividades e/ou recebem pouco ou nenhum retorno dos professores titulares das disciplinas quanto a seu desempenho. Esses dados estão em consonância com o indicativo de que atributos didáticos, conhecimento, atualização constante, escuta e empa- tia são considerados expoentes das principais competências necessárias ao exercício docente de qualidade por parte dos respondentes. Além disso, destacou-se a questão da pós-graduação, em muitos casos, ser voltada exclusivamente para a formação de pesquisadores, dissociada da formação de professores. Esse aspecto – já apontado pelo professor Lucídio Bianchetti em nosso estudo anterior sobre o tema (Kronbauer, 2020) – está relacionado às ações dos PPGs para obter boas classificações nos parâmetros de avaliação da Capes, que influenciam na concessão de bolsas de pesquisa e financiamento de projetos. A questão é complexa e, certamente, é um dos fatores que interfere nas escolhas estratégicas dos Programas, sendo também perceptível aos estu- dantes de pós-graduação. Um indicativo importante seria investigar, em um eventual estudo futuro junto aos próprios PPGs, quais políticas orien- tam suas ações para além da perspectiva da formação de pesquisadores, bem como qual o espaço que discussões sobre capacitação para a docência estão delineadas, ou não, em seus horizontes. Como sugestões para equacionar o problema da deficiente preparação para o exercício docente junto aos PPGs, as pessoas que responderam ao questionário sugeriram a oferta de disciplina (não necessariamente obri- gatória) dedicada a metodologias de ensino e à construção de espaços de interlocução para abordar questões didáticas e da prática docente. Também foi destacada a importância da manutenção (e até o aumento) da carga horária dedicada a estágios de docência. As respostas dessa última questão evidenciam que a formação na pós- graduação é uma prioridade para quem busca inserção no ambiente docente, sendo este o objetivo de um grupo expressivo dos respondentes14. Devido 14 Como vários dos respondentes eram estudantes de mestrado (31), o número de pessoas que pretende seguir para o doutorado, dando sequência à formação acadêmica, foi alto. No caso de quem fazdou- torado, optar pelo estágio de pós-doc pode ser uma alternativa consorciada de qualificação e inserção acadêmica num cenário de baixa oferta de empregos via concursos. 35 às atuais condições de empregabilidade e à baixa oferta de vagas em con- cursos docentes (em Instituições de Ensino Superior públicas ou privadas), outras alternativas de atuação também estão no horizonte de quem faz pós- graduação em Jornalismo e/ou Comunicação no país. O serviço público, e a estabilidade por ele proporcionada, é o foco de muitos respondentes, assim como a possibilidade de retornar ao mercado profissional e/ou corporativo. Nas respostas, foram poucos os casos em que apenas uma opção foi manifestada. A maioria dos respondentes apontou de duas a três alternati- vas como opções para sua empregabilidade futura. Aspectos que chamam a atenção, embora representem percentuais baixos, foram as indicações de respondentes que não sabem o que fazer após terminar os estudos de pós- graduação e aqueles que buscam por uma segunda formação superior. Considerações finais Neste artigo, buscou-se investigar, analisar e problematizar a formação para a futura atividade docente de estudantes vinculados a Programas de Pós-Graduação stricto sensu em Jornalismo e Comunicação no Brasil. Para isso, além de contextualizar o cenário da pós-graduação no país, foram analisadas as percepções de estudantes desses cursos em relação à realidade por eles vivenciada em relação ao tema. Com a tabulação, cotejo e análise das informações levantadas a partir do survey, uma série de questões foi apresentada. A primeira delas indica que hoje a pós-graduação no Brasil prioriza as atividades de pesquisa, mui- tas vezes em detrimento da preparação para o exercício docente dos estu- dantes de cursos stricto sensu – sendo que a própria investigação sobre as políticas adotadas pelos PPGs pode vir a se tornar objeto de estudo futuro para se avançar na compreensão desse cenário. Em relação à confiança para atuar na docência, boa parte dos hoje pós-graduandos na área respondeu afirmativamente. No entanto, mesmo aqueles que se sentem confiantes indicaram a necessidade de um maior investimento nessa preparação. Esse apontamento sugere que, com con- fiança ou não, os futuros docentes entram em sala de aula para ensinar, o que resulta em maior ou menor eficácia. O problema desse cenário é a falta de compreensão sobre os sentidos e os motivos que levam à adoção de determinadas práticas didático-pedagógicas por parte de professores. 36 Ao desconhecer os métodos e técnicas de ensino disponíveis no campo da educação, futuros professores podem acabar reproduzindo modelos tradicionais de ensino, sem considerar o protagonismo dos agentes envol- vidos (docentes e discentes) nessa complexa equação. Aprender a ser professor(a) por meio da prática é possível, especialmente no ensino supe- rior. No entanto, quando se disponibiliza o acesso aos recursos adequados, os resultados alcançados também tendem a ser melhores. A realização deste estudo revelou que a formação para a atuação docente no ensino superior segue sendo uma adversidade no que tange àquilo que os PPGs em Jornalismo e Comunicação hoje oferecem. Embora a demanda por essa formação esteja clara, é compreensível que os programas se con- centrem mais intensamente na pesquisa. O desafio central reside em buscar mecanismos que conciliem ambas as perspectivas, seja por meio de espaços informais de troca e diálogo sobre práticas de ensino-aprendizagem, seja por meio de disciplinas ou linhas de pesquisa dedicadas à questão. Abdicar da busca pela melhor preparação para o exercício docente ou simplesmente ignorá-la, além de desprezar todo um corpo de conheci- mentos acumulados (e em constante evolução) junto ao campo da Educa- ção, representa preterir a própria atividade docente. Isso pode resultar em insegurança e instabilidade, inclusive de ordem emocional, para futuros professores ao se encontrarem frente a turmas de estudantes. Mais do que isso, a qualidade do ensino e da aprendizagem são colocados sob suspeita, já que a pós-graduação é um espaço privilegiado de reflexão e ação para o desenvolvimento das melhores e mais significativas práticas educativas. Referências BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Almedina Brasil, 2012. 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Esse contexto permite entender a aplicação da curricularização da extensão e refletir sobre ela. Por esta razão, inicio este artigo com um breve percurso histórico, no qual compartilho informações e dados extraídos da Política Nacional de Exten- são Universitária, elaborada peloFórum de Pró-reitores das Instituições de Educação Superior Brasileiras em 2012 e publicada em 2015. Em seguida, apresento a extensão e a proposta de curricularização no Jornalismo da UFSC e, por fim, concluo com algumas reflexões. As atividades extensionistas remontam à criação do ensino superior, no início do século XX. Ao longo deste período, diversas iniciativas contribuíram para o fortalecimento e a consolidação da extensão como atividade essencial à Universidade. Destaco aqui algumas delas. De acordo com a Política Nacio- nal de Extensão (2015), as primeiras ações extensionistas ocorreram em 1911, quando a antiga Universidade de São Paulo ofereceu uma série de cursos e conferências voltadas para a comunidade. Décadas mais tarde, entre o final de 1950 e início de 1960, estudantes universitários da União Nacional dos Estu- dantes (UNE) promoveram movimentos culturais e políticos com um forte compromisso social. Embora essas iniciativas não tivessem uma ligação direta com a extensão, foram centrais para a formação das lideranças no país. 1 Professora do Departamento de Jornalismo da UFSC, foi uma das docentes responsáveis pela elabora- ção da proposta de Curricularização da Extensão no Curso de Jornalismo. Bacharel em Comunicação Social – Jornalismo (Universidad Católica del Uruguay), Mestra em Jornalismo (UFSC), Doutora Inter- disciplinar em Ciências Humanas (UFSC). Email: melina.ayres@gmail.com. mailto:melina.ayres@gmail.com 39 Segundo a Política Nacional de Extensão Universitária (2015), durante a Ditadura Militar, três iniciativas tiveram um papel significativo na conso- lidação da extensão: a promulgação da Lei Básica da Reforma Universitária (Lei no 5.540/1968) que, em seu artigo 20, estabelece que “[...] as universi- dades e as instituições de ensino superior estenderão à comunidade, sob a forma de cursos e serviços especiais, as atividades de ensino e os resultados da pesquisa que lhes são inerentes” (Brasil, 1968, s.p.), instituindo formal- mente a Extensão Universitária. A criação do Centro Rural de Treinamento e Ação Comunitária – CRUTAC (1966) e o Projeto Rondon (1967), lan- çado em 1967 e, à época, subordinado ao Ministério do Interior. A respeito destes projetos, o Fórum Nacional de Pró-reitores avaliou: A despeito de sua subordinação à política de segurança nacional e de seu caráter cooptativo, esses dois projetos tiveram o mérito de pro- piciar ao universitário brasileiro experiências importantes junto às comunidades rurais, descortinando-lhes novos horizontes e possi- bilitando-lhe espaços para contribuir para a melhoria das condições de vida da população do meio rural (2015, p. 12). Vale salientar que o Projeto Rondon segue em vigência até os dias atuais, vinculado agora ao Ministério da Defesa. Conforme destaca em seu site, desde a criação, realizou 97 operações, com 26.630 participantes, vinculados a 2.631 Instituições de Ensino Superior (públicas e privadas) e alcançou com suas ações 1.392 municípios2. Outro fato importante relacionado à extensão ocorreu na década de 1970, quando os Ministérios da Educação e Cultura (MEC) e do Interior criaram a Comissão Mista CRUTAC/MEC – Campus Avançado/MINTER, com o objetivo de institucionalizar e fortalecer a Extensão Universitária. Entre as ações da Comissão está a elaboração do Plano de Trabalho de Extensão Universitária. Sobre esta ação, a Política Nacional de Extensão Universitária destaca: ... sob a influência das ideias de Paulo Freire, a Extensão foi defi- nida como ação institucional voltada para o atendimento das or- ganizações e populações, com sentido de retroalimentação e troca 2 Site do Projeto Rondon. Disponível em: https://www.gov.br/defesa/pt-br/assuntos/projeto-rondon. Acesso em: fev. 2025. 40 de saberes acadêmico e popular. Nessa perspectiva, as camadas po- pulares deixaram de ser o objeto para se tornarem o sujeito da ação extensionista (2015, p. 13). O documento salienta ainda que as ações vinculadas ao Plano de Tra- balho de Extensão Universitária coincidiram com o início do processo de “abertura lenta e gradual” do Regime Militar. “No seio da luta pela rede- mocratização e reconstrução das instituições políticas e sociais, foi reela- borada a concepção de Universidade Pública, redefinidas as práticas de Ensino, Pesquisa e Extensão e questionada a visão assistencialista das ações extensionistas” (Brasil, 2015, p. 14). Em 1987, outro marco para o fortalecimento da extensão nas universi- dades públicas foi a realização do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Exten- são das Universidades Públicas Brasileiras (FORPROEX), atualmente Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras. No I Encontro Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Uni- versidades Públicas Brasileiras, foi convencionado um novo conceito: A Extensão Universitária é o processo educativo, cultural e científico que articula o Ensino e a Pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre Universidade e Sociedade. A Exten- são é uma via de mão-dupla, com trânsito assegurado à comunidade acadêmica, que encontrará, na sociedade, a oportunidade de elabo- ração da práxis de um conhecimento acadêmico (1987, apud, Brasil, 2015, p. 15). A Constituição Cidadã, em congruência com o estabelecido pelo Fórum de Pró-Reitores, em seu Artigo 207, reafirma a “indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” (Brasil, 1988). Algumas décadas à frente, nos anos 2000, de acordo com a Política Nacional de Extensão Universitária, A Extensão Universitária tornou-se o instrumento por excelência de inter-relação da Universidade com a sociedade, de oxigenação da própria Universidade, de democratização do conhecimento acadê- mico, assim como de (re)produção desse conhecimento por meio da troca de saberes com as comunidades (2015, p. 17). 41 Em consonância com o fortalecimento da extensão universitária, o Plano Nacional de Educação (PNE), para o decênio 2001-2010, instituído pela Lei no 010172/2001, estabelece a responsabilidade das Universidades no Ensino, Pesquisa e Extensão. Na Meta 23, determina que “no mínimo, 10% do total de créditos exigidos para a graduação no ensino superior no País será reservado para a atuação dos estudantes em ações extensionistas” (Brasil, 2001, s.p.). A curricularização da extensão, ou creditação curricular da extensão foi regulamentada pela Resolução no 7 MEC/CNE/CES de dezembro de 2018, e estabeleceu o prazo de três anos para a sua implementação. Embora a extensão universitária, conforme mencionado, já fizesse parte do cerne e da rotina das universidades, suas ações e projetos nem sempre estavam diretamente vinculados aos conteúdos curriculares dos diferentes cursos. Com esta medida tornou-se obrigatória a incorporação da extensão aos Projetos Pedagógicos dos Cursos (PPCs), garantindo sua integração à grade curricular obrigatória dos e das estudantes. Na UFSC, o Conselho Universitário (CUn) aprovou, em 2016, a Reso- lução Normativa no 88, que dispõe as normas que regulamentam as ações de extensão da instituição. O documento define, no Artigo 3º, que ações de extensão incluem: programa de extensão (que é um conjunto articulado de projetos), projeto de extensão (ações de caráter educativo, social, cultural, científico ou tecnológico, com objetivo específico e prazo determinado), curso de extensão, evento de extensão e prestação de serviço. Ainda em 2016, iniciaram-se as discussões sobre a curricularização da extensão. Em 2018 institui-se a Comissão Mista de Curricularização, res- ponsável por promover a incorporação da extensão nos currículos de todos os cursos de graduação da instituição. Esse processo foi regulamentado pela Resolução Normativa no 01/2020/CGRAD/CEx, de 3 de março de 2020, que determina, em seu artigo 2o, que: “no mínimo, 10% (dez por cento) da carga horária total dos cursos de graduação deverão fazer parte da matriz curricu- lar e do histórico curricular estudantil”