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Psicofarmacologia Texto 02 TEMA 1 - INTRODUÇÃO AOS PSICODÉLICOS TEMA 2 – VOCABULÁRIO PSICODÉLICO TEMA 3 – SET E SETTING E MICRODOSE TEMA 4 – FARMACOLOGIA BÁSICA DA PSILOCIBINA, DO LSD E DO MDMA TEMA 5 – TERAPIAS PSICODÉLICAS Conversa inicial Nesta etapa, iremos abordar o que se convencionou chamar de Renascimento ou Revolução Psicodélica. Desde os anos 2000 tem havido uma crescente relevância biomédica do tema. A última década vem colocando os psicodélicos no centro da psiquiatria do século XXI, com participação expressiva de pesquisadores brasileiros (Leite, 2021). O termo psicodélico é um neologismo da década de 1950, derivado do grego, e significa a “manifestação da alma”. Sua definição tem variações e é objeto de disputa. Os psicodélicos clássicos contemplam o LSD (dietilamida do ácido lisérgico), a mescalina (peiote), a psilocibina (princípio ativo dos cogumelos mágicos) e o DMT (presente na ayahuasca) (Rodrigues, 2019). Sidarta Ribeira chama atenção no prefácio do livro Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira (2021), do jornalista Marcelo leite, acerca da urgência em educar os brasileiros quanto aos efeitos terapêuticos da ligação de pequenas moléculas parecidas com a serotonina, com enormes proteínas acopladas às membranas neuronais. Essa ligação bioquímica altera a conformação estrutural de enormes moléculas, ativando enzimas dentro das células, desencadeando a síntese de pequenas moléculas mensageiras em direção ao núcleo celular. Essas informações chegam até os genes de cada neurônio e provocam alguma mudança, que pode ser gigantesca (Leite, 2021). Muito tem se falado a respeito da plasticidade neuronal, que consiste na capacidade que os neurônios possuem de formar novas conexões – mais contatos sinápticos – a cada momento, e de sua maleabilidade. Aos psicodélicos tem sido dada essa capacidade intensa da modificação das conexões neuronais e das alterações biológicas, que ocasionam mudanças nas emoções, percepções e em formas de raciocinar (Leite, 2021). Os mecanismos de ação utilizados por parte dos psicodélicos são ainda misteriosos, apesar de serem pesquisados há muitas décadas. No campo da psicologia, houve uma combinação da espiritualidade com os psicodélicos de diferentes maneiras, na busca não apenas por uma "mudança de paradigma" no universo acadêmico, como também por uma "revolução da consciência" mundial. Não à toa que novas propostas surgiram, como a psicologia transpessoal de Abraham Maslow e Stanislav Grof, que incluíam as experiências espirituais e o seu desenvolvimento na história humana; a fundação do Instituto Esalen, na Califórnia; o “Projeto de Psilocibina”, de Timothy Leary e Richard Alpert; a psicologia gestáltica, de Fritz Pérolas e Laura Posner (Oró et al., 2020), e a afirmação de Charles Tart sobre “o preconceito de que nosso estado ordinário de consciência é algo natural e o único modo de lidar corretamente com a realidade é um grande obstáculo à compreensão da natureza da mente e dos estados de consciência” (Almeida; Lotufo Neto, 2003, p. 23-24). No entanto, a Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971, condenou os psicodélicos internacionalmente, incluindo-os na sua Lista 1 (de alto potencial de abuso e sem nenhum uso medicinal). Com isso, as pesquisas com DMT, psilocibina, mescalina e LSD começaram a desaparecer (Oró et al., 2020). No Brasil, o uso religioso de ayahuasca é permitido desde 1987, o que possibilita a pesquisa científica. Em 2017, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) confirmaram os efeitos antidepressivos da ayahuasca. Em 2018, os Estudos Unidos atribuíram o status de terapia inovadora à psilocibina para o tratamento da depressão. E o MDMA deve se tornar o primeiro psicodélico a ser prescrito associado à psicoterapia (Leary; Metzner; Alpert, 2022). Dessa forma, os objetivos desta etapa contemplam as terapias psicodélicas, termos como bad trips, set e setting e microdose serão explorados, assim como o potencial terapêutico de algumas substâncias psicodélicas. Vale ressaltar que esta etapa visa informar sobre as pesquisas que vêm sendo realizadas com os psicodélicos e de maneira alguma pretende estimular o uso dessas substâncias. TEMA 1 - INTRODUÇÃO AOS PSICODÉLICOS O termo psicodélico surgiu em 1957 pelo psiquiatra britânico Humphry Osmond em uma troca de cartas com o escritor Aldous Huxley. Trata-se de um neologismo, com a união de psique (mente, espírito, alma, self, psiquismo) e delos (manifestação, revelação, visão). A psicodelia carrega a ideia de manifestação da mente, revelação do espírito, e o psicodélico é o que torna essa revelação possível. Torna visível a alma, o self ou o psiquismo. Alude a experiências de transformação por redução de controle egoico e expansão da consciência (Rodrigues, 2019). A palavra droga deve ser questionada ao se referir aos psicodélicos, uma vez que pode evocar um significado de violência e sofrimento, o que não condiz com o seu potencial de cura (Leary; Metzner; Alpert, 2022). O termo enteógenos foi cunhado em 1979, para se distanciar do uso recreacional, e significa união com o divino a partir do seu uso (Oró et al. 2020). Porém, dependendo do material pesquisado, os psicodélicos podem estar associados ao uso abusivo de drogas. O abuso significa o uso nocivo de alguma substância psicoativa, seja pela forma de uso, quantidade ou efeitos causados pela droga. O abuso ocorre por decisão da pessoa, e não por prescrição médica. O uso abusivo não está somente atrelado a substâncias proibidas (como LSD, cocaína e ecstasy), podendo estar relacionado a medicamentos, como benzodiazepínicos e analgésicos, e substâncias lícitas, como álcool e tabaco (Elisabetsky, 2021). Outro termo que foi amplamente relacionado aos psicodélicos até meados do século XX é o psicomimético, associado aos efeitos de induzir uma psicose temporária e reversível, como as alucinações (Oró et al., 2020). Estudiosos dos psicodélicos acreditam que a associação com a palavra alucinação não se mostra precisa, visto que em um episódio alucinatório a pessoa não consegue distinguir a visão imaginada da realidade material, o que não tem sido observado com os psicodélicos. Para uma maior precisão tem sido dada preferência ao uso da expressão “alterações visuais” (Leary; Metzner; Alpert, 2022). As experiências de estados alterados de consciência podem ser alcançadas com o som do tambor, com meditação e técnicas de respiração. Nesta etapa, estamos abordando os potenciais efeitos clínicos dos transes induzidos por psicodélicos. Sejam eles de origem natural, tais como cogumelos mágicos, iboga, ayahuasca e mescalina, ou de substâncias semissintéticas, como o LSD, ou de sintéticas, como o MDMA e a quetamina (Rodrigues, 2019). Os psicodélicos naturais são de uso milenar em rituais religiosos e de cura. Nesse sentido, é importante respeitar a sabedoria dos povos indígenas, que desenvolveram essas tecnologias terapêuticas por meio do uso dessas substâncias. Os psicodélicos não podem ser pensados somente pelos seus efeitos farmacológicos, mas também de interações sociais (Leary; Metzner; Alpert, 2022). Apesar desses usos milenares, foi a partir das pesquisas científicas com o LSD nas décadas de 1950 e 1960 que cientistas e psicoterapeutas norte-americanos e europeus passaram a dar mais atenção aos potenciais terapêuticos dos psicodélicos (Rodrigues, 2019). Cabe destacar que os psicodélicos são uma classe farmacológica de psicotrópicos, o que significa que são substâncias que se dirigem (tropismo) à psique (psiquismo como função cerebral) (Rodrigues, 2019). Ao contrário da maioria dos fármacos psiquiátricos, os psicodélicos não se destinam ao uso crônico. Em vez disso, a psilocibina e o MDMA, que aumentam os níveis de serotonina, noradrenalina e dopamina, demonstramum grande potencial terapêutico na terapia assistida com administração em poucas ocasiões. Essa técnica é conceitualmente diferente dos atuais tratamentos medicamentosos autônomos (Schenberg, 2021). Uma administração mais espaçada pode reduzir os efeitos adversos, incluindo os sintomas de retirada, que aumentam com o uso prolongado de psicofármacos. A administração de psicodélicos sob supervisão médica e/ou psicológica pode reduzir o risco de abuso de substâncias. O risco de dependência é muito baixo ou nulo para substâncias psicodélicas, sobretudo quando administrado em poucas ocasiões com supervisão de profissionais da saúde (Schenberg, 2021). Ainda não há previsão legal no Brasil de quando será possível aplicar as substâncias psicodélicas no contexto psicoterapêutico. Embora existam várias pesquisas em andamento com retornos promissores, atribuindo baixo risco dos psicodélicos à saúde (Schenberg, 2021). TEMA 2 – VOCABULÁRIO PSICODÉLICO A literatura científica da psicodelia traz alguns termos que se diferem. Por exemplo, nos Estados Unidos, nomeiam certos aspectos do efeito psicodélico como experiências místicas. Já os britânicos preferem nomear como dissolução do ego. Esse conceito reconecta a neurociência com Sigmund Freud (Leite, 2021). Robin Carhart-Harris chefiou um estudo piloto com psilocibina para depressão, investigando as imagens do cérebro de pessoas sob efeito da substância no Imperial College. Esse pesquisador está convencido de que o ego freudiano existe e que ele pode estar localizado no cérebro. Os psicodélicos apresentam grande afinidade com receptores para serotonina 5-HT2A (Leite, 2021). Psilocibina atua como um lubrificante, um relaxante das redes de comando e controle cerebral que estariam rígidas e com ideias fixas na ruminação típica da depressão, de transtornos obsessivo-compulsivos (TOC) ou na dependência química (Leite, 2021). As imagens de ressonância magnética de pessoas sob efeito da substância psilocibina evidenciam uma diminuição do fluxo sanguíneo em áreas de controle cerebral, que diminui sua comunicação com o hipocampo, responsável pela memória biográfica. A dissolução do ego envolveria, no estado alterado de consciência, o acesso aos conteúdos que normalmente estão inacessíveis na vigília. Nesse sentido, Robin resgata Freud: Freud falou da descoberta da mente inconsciente e sua diferenciação do ego como um tipo de golpe narcísico, a percepção de que não somos realmente senhores de nossa própria casa, de que há forças inconscientes em nós que estão influenciando nosso comportamento e nosso pensamento. Para mim, também é um golpe narcísico que o nosso senso de self, de ser alguém, de que existimos absolutamente, seja realmente um tipo de ilusão, um produto da atividade cerebral. O que somos é produto da atividade cerebral. (Leite, 2021, p. 225) A dissolução do ego apresenta uma conexão com o pensamento mágico, sobrenatural, fantasioso. Na experiência psicodélica podem aparecer alterações visuais, mas o que emerge não são conteúdos arbitrários, mas algo que já estava na mente, mesmo que inconsciente ou reprimido (Leite, 2021). Os primeiros estudiosos dos psicodélicos acreditavam que essas substâncias produziam psicose, uma perda da realidade. No entanto, a experiência subjetiva desses efeitos evidencia que o psiconauta (usuário) dificilmente perde a noção de que está tendo alterações de visões. Independentemente de visões ou não, essas experiências costumam estar associadas a sentimentos de união com a natureza, humanidade e, até mesmo, divindades. Essas experiências despertam sentimentos que auxiliam a pessoa a reavaliar e se reconciliar com a sua biografia. Isso significa que poderia ser um caminho contrário da ruminação, da dependência e das ideias fixas (Leite, 2021). 2.1 Bad trips Denomina-se “viagens ruins”, “experiência desafiadora”, “crise induzida por psicodélicos” ou “bad trips” quando a experiência pode ser profundamente perturbadora. Surtos psicóticos podem ocorrer induzidos pelos psicodélicos, contudo, há consenso que isso acontece com pessoas que têm propensão para tal. As orientações envolvem que pessoas que já tiveram transtornos psicóticos não usem essas substâncias, sendo um dos critérios de exclusão para participação em pesquisas clínicas (Leite, 2021). Há vários materiais disponíveis para se realizar uma viagem segura com o uso de psicodélicos. Uma das recomendações recorrentes é não usar a substância desacompanhada, sobretudo em uma primeira experiência. É importante ter uma pessoa sóbria por perto ou um psicoterapeuta, caso a pessoa tenha uma experiência difícil, em termos físicos ou emocionais (Leite, 2021). Existe uma Associação Psicodélica do Brasil (APB) que atua no campo da política de drogas, somando forças com os movimentos antiproibicionistas e visando a redução de riscos e danos no Brasil. A APB é composta por usuários, ativistas, pesquisadores, psicólogos e médicos. Ela contempla trabalhos educativos, oferecendo cursos, palestras e ação em festas com práticas de cuidado e apoio para pessoas durante uma viagem ruim. Por exemplo, o uso de reagentes para identificar a presença ou não da substância (APB, 2023). No entanto, para reduzir riscos de uma bad trips, deve-se fazer leituras prévias de guias disponíveis e conversas com terapeutas sobre as experiências, como a sensação de abandonar o corpo, memórias afetivamente carregadas podem emergir à consciência, o sentimento de união com o universo, distorções de tempo e espaço, dentre outras. Ter em mente o que pode acontecer diminui o risco de entrar em pânico (Leite, 2021). Outras orientações que se aplicam são quanto à importância de confiar no fornecedor, evitar uso quando deprimido ou ansioso, não dirigir sob efeito das substâncias. A Global Drug Survey (GDS) tem aplicativos de controle pessoal de consumo para uso no celular, tanto para drogas quanto para álcool (Leite, 2021). As doses podem ser fracionadas, para serem ingeridas aos poucos, conforme observação dos efeitos (Leary; Metzner; Alpert, 2022). TEMA 3 – SET E SETTING E MICRODOSE Em 1950, algumas pessoas da área médica começaram a reconsiderar a metodologia aplicada a psicoterapias que se utilizavam do LSD. Joyce Martin, psicanalista freudiana, foi pioneira no uso do LSD na psicoterapia em 1954. Ela desenvolveu um método controverso, encorajando o paciente a regressar a seu estado infantil, oferecendo uma presença amorosa e ativa. Com o apoio de Pauline McCririck, ela desenvolveu um sistema chamado de “terapia fusional”, na qual ela se deitava ao lado de seus pacientes e os abraçava, dando conforto como uma boa mãe (Dubus, 2023). Margot Cutner foi uma psicanalista Jungiana. Uma das técnicas que ela desenvolveu envolvia encontrar a posição do corpo mais confortável para o paciente. Em 1955, ela começou a participar de pesquisas com LSD, não sendo adepta ao uso repetitivo da substância, como uma tentativa de quebrar a resistência psíquica do paciente. Foi uma pessoa sensível para a necessidade de contato (toque) de pessoas sob efeito do LSD (Dubus, 2023). Betty Eisner passou por duas sessões como cobaia e havia vivenciado experiências terríveis pela ausência do apoio adequado, uma vez que na segunda sessão foi deixada sozinha. Eisner defendia que os pacientes sempre fossem acompanhados durante toda a sessão e que as doses começassem baixas e fossem aumentando gradativamente. Ela foi a primeira a versar sobre a importância de músicas durante as sessões. Também defendia a presença de dois terapeutas, um homem e uma mulher, de forma que os pacientes pudessem projetar nesse par seus sentimentos em relação ao que estava sendo experienciado (Dubus, 2023). Essas mulheres tiveram um importante impacto para o entendimento das principais mudanças e transformações trazidas para a terapia assistida com LSD,evidenciando a importância dos corpos e das emoções de seus pacientes. Elas romperam com métodos tradicionais, contribuindo com a construção dos conceitos de “set” e “setting” dos psicodélicos (Dubus, 2023). Set e setting são termos que surgiram após décadas de práticas terapêuticas com psicodélicos, que designam respectivamente a condição mental do psiconauta e o contexto físico, social e cultural nos quais a experiência acontece (Leite, 2021). Em conjunto, desempenham aspectos extrafarmacológicos nos efeitos provocados pelas substâncias. Set pode se referir aos cuidados em termos de anamnese, como critérios de exclusão para o uso dessas substâncias, como tendências psicóticas. Assim como não usar as substâncias quando estiver com muita ansiedade, fazendo uso de medicações psiquiátricas ou sem clareza quanto ao objetivo da experiência (Leite, 2021). Setting se refere à importância de a experiência acontecer em um local seguro e tranquilo, podendo ser na natureza, com pessoas de confiança que possam auxiliar em casos de necessidade. Em tratamento, a pessoa irá receber orientações e preparo psicoterapêutico sobre o que poderá enfrentar sob efeito da substância. Em geral, o ambiente onde ocorre a sessão apresenta móveis confortáveis, luz indireta, música ambiente ou em fones de ouvido, podendo usar venda para os olhos. Tem sido preconizado uma dupla de terapeutas, masculino e feminino, que permanece o tempo todo com o paciente, podendo dar apoio em momentos difíceis. O conteúdo que emerge precisa ser integrado em outras sessões de psicoterapia (Leite, 2021). Cabe ressaltar que essas terapias com o uso de substâncias são pontuais, são poucas vezes utilizadas, diferentemente dos tratamentos com fármacos psiquiátricos, que precisam ser utilizados diariamente (Leite, 2021). No Brasil, esse tipo de tratamento é realizado somente no contexto de pesquisa científica, que tem ocorrido no Instituto Phaneros. Caso sejam aprovados o uso de psicodélicos como psilocibina, MDMA e LSD para o tratamento da saúde mental, é possível que o atendimento terapêutico seja retomado nesse estilo. 3.1 Microdose Nos últimos anos tem sido usado entre jovens da tecnologia da informação e do mercado financeiro no Vale do Silício e em Wall Street, o LSD e a psilocibina. A prática envolve o uso de quantidades mínimas a cada 3 dias, por um período de 8 a 10 semanas. O uso de 6 a 12 µg de ácido, sendo que a dose recreativa é mais de 100 µg. São raros os estudos científicos que envolvem o uso de microdose. Existe um guia, um protocolo de James Fadiman, que aborda os supostos benefícios da microdosagem em termos de criatividade, foco e relacionamentos afetivos. Há vários entusiastas em fóruns em redes sociais que trocam experiências desses usos (Leite, 2021). No entanto, a microdosagem pode ser uma resposta do pensamento mercadológico enraizado que manteria, se vigente, uma escala multimilionária de produção e distribuição de "microdoses" de substâncias. TEMA 4 – FARMACOLOGIA BÁSICA DA PSILOCIBINA, DO LSD E DO MDMA A psilocibina corresponde ao principal alcaloide dos cogumelos mágicos, conhecido também como Teonanacatl (carne dos deuses) entre os mexicanos que os utilizavam em rituais sagrados. Ela está presente em várias espécies, sendo uma das mais comuns a Psilocybe cubensis (Rodrigues, 2019). A psilocibina e a psilocina apresentam estrutura muito semelhante à serotonina. No organismo, a psilocibina (pró-fármaco) é metabolizada e origina a psilocina, principal responsável pelos efeitos psicodélicos. A psilocina se liga com alta afinidade aos receptores 5-HT2A, agindo como agonista. Pode ser encontrada no cérebro de 15 a 30 minutos após a ingestão e com duração de até 6 horas (Rodrigues, 2019). A psilocibina representa em torno de 1% do peso dos cogumelos Psilocybe cubensis. A dose letal em humanos é 6 gramas, bem distante da sua dose terapêutica (6 mg), conferindo baixa toxicidade. Usuários podem se envenenar por engano, consumindo algum cogumelo venenoso, mas isso é raro. No aspecto psicológico, a psilocibina é similar ao LSD, embora menos intensa e com menos reações de pânico e paranoia. Ela provoca um estado alterado de consciência assinalado pela estimulação do afeto e uma maior introspecção. Altera a forma que a pessoa enfrenta a dor e a apatia, diminuindo a ansiedade e o limiar de dor. Pesquisas evidenciam seus efeitos antidepressivos (Rodrigues, 2019). A psilocibina e psilocina pertencem à Lista F2 de substâncias psicotrópicas de uso proscrito no Brasil. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não tem previsão de autorização para o seu uso em tratamento de saúde, apesar da existência de vários ensaios cínicos ao redor do mundo que avaliam o seu potencial terapêutico (Anvisa, 2021). A psilocibina tem sido pesquisada para o tratamento de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), depressão, ansiedade, anorexia, síndromes do espectro autista, dependência de nicotina e álcool (Leite, 2021). Tem sido utilizada em pessoas com câncer e sem possibilidades terapêuticas, a fim de aumentarem a aceitação da morte, conferindo uma maior qualidade de vida. Um estudo clínico de fase II, publicado na revista New England Journal of Medicine, evidenciou que a psilocibina tem ao menos a mesma eficácia e a segurança que o antidepressivo escitalopram da classe dos Inibidores Seletivos da Recaptação de Serotonina (ISRS) (Schenberg, 2021). 4.1 Dietilamida do Ácido Lisérgico (LSD) O LSD foi sintetizado em 1938 por Albert Hofmann. Em 1943, Hofmann ingeriu acidentalmente esse composto, descobrindo a sua psicoatividade. Esse composto foi testado para diferentes condições durante a década de 1950, sendo a mais conhecida a relacionada ao alcoolismo (Schenberg, 2021). O LSD atua em receptores serotoninérgicos e dopaminérgicos. Ele é fisiologicamente bem tolerado. Apresenta notáveis efeitos duradouros mesmo em quantidades minúsculas (Schenberg, 2021). A dose mínima perceptível em humanos é por volta de 25µg, enquanto uma dose plena fica por volta de 100 a 200µg. Uma dose moderada, de 75 a 150µg, altera de modo significativo o estado de consciência, pela hiperestimulação do afeto (vivida como euforia), pelo aumento da capacidade de introspecção e intensificação de processos oníricos, provocando mudanças perceptuais tais como ilusões, pseudoalucinações, sinestesias e alterações do pensamento e das coordenadas espaço-temporais, mudanças na imagem corporal e nas funções do ego. (Rodrigues, 2019, p. 36) Os efeitos psicológicos agudos podem durar em torno de 6 a 10 horas. Não há registro de morte por overdose ou danos fisiológicos associados ao seu uso. Fora de setting controlado, é comum episódios de ideação paranoide e depressão. As bad trips ou experiências desafiadoras são identificadas como ataques de pânico e de ansiedade, assim como sensação de estar sendo perseguido. Na psicoterapia pode ser percebida como uma manifestação intensificada de elementos inconscientes, essenciais para compreensão de certas sintomatologias (Rodrigues, 2019). 4.2 MDMA É uma substância sintética pertencente à classe das anfetaminas, 3,4-metilenodioximetanfetamina, também conhecida como ecstasy, que são comprimidos que supostamente contêm MDMA. Esses comprimidos são muito utilizados em festas eletrônicas devido a seus efeitos estimulantes de longa duração. Os efeitos causados pelo uso são euforia, perda da inibição, aumento da resistência física e sensação de onda de energia com alterações de percepção sensorial (Elisabetsky, 2021). O MDMA aumenta os níveis de serotonina, noradrenalina e dopamina e tem um alto potencial terapêutico de ação rápida associado à psicoterapia (Schenberg, 2021). Alguns psicólogos passaram a usar o MDMA em suas práticas clínicas entre os anos de 1970 ao início de 1980. No entanto, com o aumento do uso recreativodo ecstasy, a Agência Antidrogas dos Estados Unidos classificou esse composto em 1985 como da Lista I. Dessa forma, o uso terapêutico desse composto passou à clandestinidade (Rodrigues, 2019). A pesquisa com MDMA ressurgiu em grande parte pela insistência da Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (Maps), sem fins lucrativos. A Maps apoia pesquisas sobre terapias com psicodélicos em vários países. Há publicações sobre os efeitos promissores da psicoterapia com MDMA no transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Este estudo internacional está na Fase 3, testando a segurança e a eficácia do MDMA. A Fase 4 é quando o medicamento está disponível ao mercado farmacêutico e segue sendo monitorado pela farmacovigilância. TEMA 5 – TERAPIAS PSICODÉLICAS No início do estudo científico com os psicodélicos, havia o modelo psicomimético, que consistia em desencadear psicose química reversível. Esse modelo era uma concepção popular entre os psiquiatras, mas essa ideia não se sustentou. Muitas pessoas que relataram terem experimentado momentos difíceis ao longo dos efeitos da administração de psicodélicos (bad trips) afirmam que essas experiências foram essenciais para a autocompreensão e o autocuidado (Rodrigues, 2019). A intenção do uso de substâncias como LSD ou a mescalina era em função de acessar de forma mais rápida a associação livre e os sonhos como uma maneira de alcançar conteúdos do inconsciente para poder analisar. Existem duas abordagens principais: a psicolítica e a psicodélica. O modelo psicolítico consistia em fornecer doses relativamente baixas da substância. Essa foi a abordagem que predominou na Europa na década de 1960, com cerca de 18 centros realizando esse tipo de terapia e reproduções na América Latina (Oró et al., 2020). Esses estudos clínicos não tinham os mesmos controles de pesquisa atuais, mas indicavam o potencial psicoterapêutico dessas substâncias, sobretudo quando usados em ambientes clínicos cuidadosos. O modelo psicolítico se diferenciava de uma nova visão emergente, que começou a se fortalecer na década de 1960, na qual os estados alterados de consciência eram percebidos como portas de entrada para o universo espiritual. Tratava-se de um instrumento para uma revolução da Consciência Ocidental (Oró et al., 2020). Esse modelo foi chamado de psicodélico, na qual se experimentavam estados místicos provocados pela administração de altas doses de psicodélicos. Alguns pesquisadores exploravam as duas linhas em situações diversas. Contudo, são linhas distintas de abordagem da mente, da terapêutica e da ciência (Rodrigues, 2019). O termo psicolítico significa soltar a mente (lysis, dissolução), como relaxar as defesas egoicas, reduzir mecanismos de inibição de afetos e memórias inconscientes. Esse modelo se utilizava de abordagens diversas, como a psicanálise, a psicologia analítica, a reichiana, dentre outras (Rodrigues, 2019). No Canadá, Humphry Osmond e Abram Hoffer seguiram o modelo psicodélico. Osmond observou que alguns pacientes alcoolistas só conseguiram abandonar o vício após alcançarem um terrível fundo do poço. A experiência intensa de horrores costuma ser seguida por um renascimento. Os psicodélicos foram sendo compreendidos como capazes de provocar experiências de morte e de nascimento, de sofrimento e de transcendência, como rituais ancestrais de purificação de corpo e alma. Esse tipo de terapia se tornou mais popular na América do Norte (Rodrigues, 2019). Na prática São muitas as terapias que prometem melhora na condição de saúde mental das pessoas. Alguns profissionais usam erroneamente o título de psicanalistas quando se utilizam de métodos que não são psicanalíticos. A prescrição, recomendação ou o uso de substâncias psicoativas durante as sessões não é um método psicanalítico. Quando Freud ainda trabalhava como médico neurologista, antes de elaborar o método psicanalítico, ele e seus outros colegas médicos buscavam encontrar alguma substância que pudesse ser usada como anestésico durante as cirurgias e, dentre as diversas substâncias experimentadas, Freud e seus colegas médicos acreditaram que a cocaína poderia ter essa finalidade terapêutica. Freud chegou a acreditar que com a cocaína poderia se fazer uma “cura mágica”. No entanto, os médicos não demoraram em perceber os efeitos iatrogênicos da cocaína. Isso fez com que eles parassem com o uso experimental. Esse “Freud psicofarmacologista” aconteceu no período pré-psicanalítico e foi completamente abandonado depois por todos os psicanalistas. O artigo escrito por Decio Gurfinkel conta um pouco desta história: “O episódio de Freud com a cocaína: o médico e o monstro” (Disponível em: . Acesso em: 2 jun. 2023). É importante saber que existem várias terapias que podem ser usadas para o tratamento de sofrimentos e transtornos mentais, mas cada uma tem seu método de tratamento. O método da psicanálise é a associação livre, análise e interpretação das manifestações do inconsciente. Quando um psicanalista se utiliza de outros métodos de tratamento além desse, ele está descaracterizando o método, e por isso não pode se apresentar como psicanalista. Algumas terapias que não fazem parte do método psicanalítico: prescrição de remédios e outras substâncias psicoativas, rezas, conselhos, adivinhações, https://www.scielo.br/j/rlpf/a/BxsvwKrNPXjzxKvpwgJcmHw/?format=pdf&lang=pt bênçãos, práticas integrativas e complementares. Essas outras terapias são métodos considerados válidos, mas não caracterizam o método psicanalítico. O uso de substâncias deve ser cuidadoso, especialmente quando a pessoa faz uso de psicofármacos, como os antidepressivos ISRS e os Inibidores da Monoaminoxidase (IMAOS). Como vários psicodélicos são seratoninérgicos, aumenta-se a chance de desenvolver a síndrome serotoninérgica. Nesse sentido, as substâncias psicodélicas não podem ser pensadas como opção para todas as pessoas, há necessidade de ser planejada e administrada por um profissional habilitado para essa prescrição, fazer uma anamnese e excluir riscos, por exemplo, episódios de psicose. Na prática, é possível encontrar pessoas que fazem uso de várias substâncias psicodélicas com certa regularidade, como o chá da ayahuasca (DMT), os cogumelos mágicos e o LSD. Esses usos podem ser variados, como o consumo do chá da ayahuasca em um contexto religioso (Barquinha, União Vegetal e Santo Daime), em que há segurança e pessoas preparadas para lidarem com as situações que surgirem. Nesse contexto, há uma anamnese antes de a pessoa consumir a bebida. O consumo dessa substância pode ocorrer com os povos indígenas, que são os que descobriram os efeitos considerados sagrados da ayahuasca. Entretanto, o acesso da ayahuasca ocorre também pela internet, e pessoas podem consumir em suas próprias casas, mantendo a bebida em suas geladeiras. Importante ter em mente que não se trata da mesma substância, uma vez que não estamos pensando apenas a farmacologia contida no chá, mas a forma em que esse consumo ocorre (set e setting). Deve-se ter cuidado na escolha de fornecedores, saber de onde está vindo a substância, qual a sua procedência. No caso dos cogumelos, há lojas específicas que produzem e vendem, assim como podem ser adquiridos pela internet. Cabe destacar que a legislação brasileira deixa uma brecha acerca dos cogumelos, estando proibida a extração ou a síntese da psilocibina e psilocina, mas não o cogumelo. Ter uma noção de como o universo psicodélico funciona pode contribuir com a prática clínica, com orientações e sem julgamentos. FINALIZANDO É importante destacar quando se avalia os potenciais efeitos terapêuticos dos psicodélicos, os conceitos de set e setting. Em conjunto, desempenham aspectos extrafarmacológicos nos efeitos provocados pelassubstâncias. O set está relacionado à personalidade, ao preparo e às expectativas em relação à experiencia. O setting é o contexto físico, social e cultural em que essa experiência ocorre. Ainda não temos uma data definida de quando alguns psicodélicos ganharão o status de fármaco, o mais próximo disso acontecer é o MDMA. É muito provável, que após ser aprovado, será administrado sob supervisão. Isso ocorre com a quetamina e com a escetamina. Enquanto isso, pesquisas seguem sendo realizadas em várias partes do mundo. Por aqui, no Brasil, o uso do chá de ayahuasca não é visto de forma terapêutica pelo modelo biomédico, ou seja, não precisa de prescrição para ter acesso. Pesquisadores brasileiros já comprovaram o seu efeito antidepressivo.