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As mudanças climáticas e a questão energética

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de petróleo de alta viscosidade. Todas as unidades operam comercialmente, embora os custos da 
eletricidade gerada sejam mais altos do que os das instalações convencionais. 
 
As Mudanças Climáticas e a Questão Energética  
 
 
Revista Multiciência | Campinas | Edição no. 8 | Mudanças Climáticas | Maio 2007  ­ 42 ­ 
 
gaseificação, requer a continuidade dos preços do petróleo em patamares elevados, a 
atribuição de benefícios econômicos associados à redução das emissões de GEE e o 
desenvolvimento das tecnologias ditas “avançadas” em todos os aspectos possíveis (por 
exemplo, aumento da eficiência, redução do investimento inicial, redução dos custos da 
biomassa, etc.). 
As alternativas de armazenamento do dióxido de carbono mais aceitas correspondem à 
opção geológica, com injeção do mesmo em minas desativadas, poços de petróleo (inclusive 
para aumentar a produção de petróleo) ou lençóis salinos. Outra alternativa é a injeção em 
oceanos, a grandes profundidades. Em ambos os casos seria preciso comprimir o CO2 e 
transportá-lo para os locais de armazenamento. Não se conhecem os efeitos a longo prazo, ou 
seja, não se sabe por quanto tempo seria possível armazenar o CO2 e se haveria, por exemplo, 
fragilização das rochas. Uma terceira alternativa, em estágio de desenvolvimento menos 
avançado, é o armazenamento químico, através, por exemplo, da produção de carbonatos de 
magnésio. 
Em função do consumo de energia na captura, transporte e armazenamento de CO2, no 
presente, no caso da geração de eletricidade a partir de carvão mineral, o rendimento térmico 
das centrais cairia substancialmente (por exemplo, de 40% para 30%). Individualmente, todos 
os equipamentos do sistema já foram demonstrados, mas ainda é preciso a demonstração de 
uma unidade completa, em escala industrial. O custo das tecnologias CCS no presente é alto 
(pelo menos 45-65 US$/tCO2), mas poderia ser inferior a 25 US$/tCO2 em 2030. 
 A terceira melhor alternativa de redução das emissões de GEE é a alteração do mix de 
combustíveis, ou seja, a substituição dos combustíveis mais intensivos em carbono por outros 
com menor intensidade. Por exemplo, a substituição de carvão mineral por gás natural, sem 
levar-se em conta os possíveis ganhos de eficiência, possibilitaria a redução das emissões de 
CO2 em aproximadamente 40-50%. Nos casos em que é possível maior eficiência de 
conversão, os ganhos seriam bem mais significativos. Na Figura 4, como ilustração, 
apresenta-se o padrão das emissões de CO2 em função da capacidade de centrais 
termoelétricas a carvão mineral e a gás natural. Em função da menor intensidade de carbono 
do gás natural e da maior eficiência de geração elétrica a partir desse combustível as emissões 
de CO2 seriam duas a três vezes menores por unidade de energia elétrica gerada. 
 
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Fonte: (9) 
Figura 4. Emissões de CO2 por MWh gerado – termoelétricas a carvão mineral e a gás natural. 
 
O estudo da AIE indica que a contribuição das fontes renováveis de energia na geração 
de energia elétrica seria modesta para a redução das emissões de GEE – 8,4% –, inclusive 
considerada a contribuição de grandes hidroelétricas. Ocorre que, mesmo em um horizonte de 
40-50 anos, acredita-se que os custos não devam cair de forma significativa – o que faria com 
que o potencial econômico da alternativa fosse relativamente pequeno em relação a outras 
alternativas –, além de que o potencial de fontes renováveis para geração de eletricidade 
(eólica, solar e geotérmica) é relativamente pequeno e concentrado em algumas regiões do 
mundo. 
O mesmo resultado é observado no que diz respeito ao uso da biomassa, para a 
produção de combustíveis líquidos e de eletricidade. A produção de eletricidade em larga 
escala tem viabilidade econômica quando da utilização de resíduos de processos agrícolas ou 
de processos industriais (por exemplo, com o uso de bagaço de cana e licor negro), mas 
dificilmente é viável quando a biomassa é especificamente plantada para tal finalidade. 
Poucos países, como o Brasil, teriam condições de produzir biomassa a baixo custo (por 
exemplo, 1-1,5 US$/GJ), em função da disponibilidade de terra, das condições climáticas 
favoráveis e do domínio de tecnologias. 
 
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A mesma análise cabe para os combustíveis líquidos produzidos a partir da biomassa. 
A produção de etanol a partir da cana-de-açúcar é economicamente viável nas condições em 
que a produção ocorre no Brasil, mas o mesmo não é verdade para a produção de etanol a 
partir de milho, nos EUA, e muito menos para a produção a partir de cereais na Europa. A 
expectativa a médio a longo prazo é que as tecnologias de produção de etanol (baseadas na 
hidrólise) e de diesel (baseadas na gaseificação) a partir de celulose alcancem o estágio 
comercial. De qualquer forma, a disponibilidade de terras e a pressão sobre a produção e os 
preços de alimentos devem limitar a contribuição dos biocombustíveis. No caso do etanol, 
avalia-se que a médio prazo os seus custos de produção a partir da cana-de-açúcar, da maneira 
como ocorre a produção no Brasil, continuarão a ser os mais baixos em todo o mundo, como é 
mostrado na Figura 5. 
 
Fonte: (10) 
Figura 5. Custos estimados de produção de etanol a partir de diferentes matérias-primas e 
tecnologias – cenário 2015-2020. 
 
Um último comentário deve ser feito a respeito da contribuição potencial da energia 
nuclear que, exclusivamente do ponto de vista das emissões de GEE, é uma alternativa 
“limpa”. No estudo da AIE (4), a parcela da geração nuclear no cenário “Referência”, em 
2050, seria 6,7%, mas superaria 22% no cenário “TechPlus”. 
 
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No relatório é feito o esclarecimento de que no presente a tecnologia nuclear de 
geração elétrica está em um estágio que é chamado “Geração III”, que foi desenvolvida nos 
anos 1990, e que inclui o conceito de segurança intrínseca. A tecnologia associada à “Geração 
IV” ainda está em desenvolvimento e é essa a tecnologia considerada pela AIE. No presente, 
as restrições à energia nuclear incluem (i) alto custo, (ii) resistência da sociedade, face à 
percepção de riscos devido a potenciais acidentes nucleares e à disposição de resíduos 
radioativos e (iii) potencial proliferação de armas nucleares. Acredita-se que a tecnologia de 
“Geração IV” possa reduzir ou até mesmo eliminar esses riscos. 
 
Considerações Finais 
O relatório da AIE, cujos resultados parciais foram apresentados ao longo deste texto, 
evidencia que a redução das emissões de GEE associadas ao uso de energia será um desafio 
fantástico. Apenas com um amplo conjunto de ações, que incluem a diversificação de fontes 
de energia, o desenvolvimento tecnológico e, sobretudo, um enorme esforço para o aumento 
da eficiência no uso da energia, seria possível estabilizar, ou mesmo reduzir, as emissões de 
GEE em relação ao verificado no início deste século. 
Embora com várias ressalvas, o estudo da AIE indica que a energia nuclear pode 
contribuir de forma significativa para a redução das emissões de GEE. Tal conclusão pode 
gerar certo desalento, em função das restrições que são feitas por muitos à energia nuclear. 
Por outro lado, a contribuição das fontes renováveis de energia tende a ser limitada em 
relação ao que acreditam alguns setores da sociedade, conclusão que

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