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AULA 3 COMPLIANCE DIGITAL E GOVERNANÇA CORPORATIVA Profª Daiane Medino da Silva 2 TEMA 1 – DECRETO n. 8.771/2016: REGULAMENTAÇÃO DO MARCO CIVIL DA INTERNET Anteriormente, falamos sobre os aspectos gerais do compliance digital e a Lei n. 12.965/16, o Marco Civil da Internet (MCI). Nesta aula, veremos o Decreto n. 8771/2016, que regulamenta o MCI, trazendo aspectos práticos para garantir um programa efetivo de compliance digital. O Decreto n. 8.771, que regulamenta o Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2016), foi editado em 11 de maio de 2016. Seu art. 1º, trata de hipóteses admitidas de discriminação de pacotes de dados na internet e de degradação de tráfego, indicando procedimentos para guarda e proteção de dados por provedores de conexão e de aplicações, apontando medidas de transparência na requisição de dados cadastrais pela administração pública e estabelecendo parâmetros para fiscalização e apuração de infrações à Lei n. 12.965/2016. (Brasil, 2016) De acordo com a análise literal da norma, o Decreto n. 8.771 ocupa-se basicamente de três assuntos, os quais são separados em capítulos: • neutralidade da rede (capítulo II); • proteção aos registros, aos dados pessoais e às comunicações privadas (capítulo III); • fiscalização e da transparência (capítulo IV). O art. 2 do decreto indica os destinatários da norma, conforme segue: a) destina-se: aos responsáveis pela transmissão, pela comutação ou pelo roteamento e aos provedores de conexão e de aplicações de internet, definida nos termos do inciso I do caput do art. 5º da Lei n. 12.965, de 2014; b) não destina-se, ou seja, não é aplicável: I. aos serviços de telecomunicações que não se destinem ao provimento de conexão de internet; II. aos serviços especializados, entendidos como serviços otimizados por sua qualidade assegurada de serviço, de velocidade ou de segurança, ainda que utilizem protocolos lógicos TCP/IP ou equivalentes, desde que: a) não configurem substituto à internet em seu caráter público e irrestrito; b) sejam destinados a grupos específicos de usuários com controle estrito de admissão. 3 Conforme indica Teixeira (2020) dentre os pontos do decreto que merecem destaque, está a questão do spam (envio de mensagens eletrônicas não solicitadas), cujo art. 5º, parágrafo 1º, inciso I, prevê a necessidade de requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada de serviços quanto ao tratamento de questões de segurança de redes, tais como restrição ao envio de mensagens em massa (spam) e controle de ataques de negação de serviço. O autor ainda aponta que, em relação aos requisitos técnicos, caberá à Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) a fiscalização e apuração de infrações no cumprimento dos requisitos técnicos fixados, conforme estabelece o Decreto n. 8.771 em seus arts. 6º e 5º, parágrafo 2º. Destarte, nos termos da norma em comento, cabe ao Comitê Gestor da Internet estabelecer diretrizes para o bom funcionamento da internet no Brasil, e compete à Anatel fixar os parâmetros regulatórios do setor, atuando na regulação, na fiscalização e na apuração de infrações, de acordo com o art. 17 do decreto. Quanto às relações de consumo, o art. 18 do decreto indica que caberá à Secretária Nacional do Consumidor a fiscalização e apuração de infrações. Já no que tange às infrações à ordem econômica, conforme preconiza o art. 19 do Decreto n. 8.771, a apuração de infrações fica a cargo do Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, nos termos da Lei n. 12.529/2011. Portanto, percebam que há vários entes para fiscalizar o bom cumprimento da lei e seus princípios, sendo de extrema importância “estar de acordo” com as leis, normas e regulamentos, estabelecendo planejamento estratégico, treinamentos e critérios de fiscalização interna para manter o compliance digital/programa de integridade efetivo. Dessa forma, conforme indica Guimarães (2020), o Decreto institui um microssistema de fiscalização e transparência (art. 17 a 21), determinando atribuições à Agencia Nacional de Telecomunicações, à Secretaria Nacional do Consumidor do Ministério da Justiça e ao Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, no âmbito de suas competências legais, para garantir a efetividade aos direitos introduzidos com o MCI, devendo “zelar pelo cumprimento da legislação brasileira, inclusive quanto à aplicação das sanções cabíveis, mesmo que as atividades sejam realizadas por pessoa jurídica sediada no exterior, nos termos do art. 11 da Lei n. 12.965, de 2014”. De acordo com o Decreto, as entidades citadas acima devem atuar de forma colaborativa, a fim de levar em consideração as diretrizes estratégicas definidas pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil. 4 No capítulo II do Decreto n. 8.771, quanto à neutralidade da rede, o art. 10 indica que as ofertas comerciais e os modelos de cobrança de acesso à internet devem preservar uma internet única, de natureza aberta, plural e diversa, compreendida como um meio para a promoção do desenvolvimento humano, econômico, social e cultural, contribuindo para a construção de uma sociedade inclusiva e não discriminatória. (Brasil, 2016) Assim, resta claro na norma que não poderá haver cobranças diferenciadas de acordo com o tipo de destinação que se dá com o acesso à internet, ou seja, não poderá cobrar diferentemente os acessos para vídeos, troca de mensagens, compras etc. O capítulo III do Decreto n. 8.771 menciona a proteção aos registros, dados e comunicações, apontando em seu art. 11, parágrafo 2º, que se considera dados cadastrais do usuário: a filiação, a qualificação pessoal (nome, prenome, estado civil e profissão) e o endereço. Como bem pontua Teixeira (2020), ao requerer aos provedores os dados cadastrais dos usuários, as autoridades administrativas deverão apresentar o fundamento legal e a motivação para o pedido de acesso aos dados. O provedor não está obrigado a fornecer dados cadastrais quando não os coletar dos internautas (Decreto n. 8.771/2016, art. 11, caput e parágrafo 1º). Conforme o parágrafo 2º do art. 13 do Decreto, os provedores de conexão e de aplicações de internet devem reter a menor quantidade possível de dados pessoais, comunicações privadas e registros de conexão e de aplicações de internet, devendo ser excluídos tão logo atingida a finalidade de seu uso ou se encerrado o prazo determinado por obrigação legal. Finalizando a análise do decreto, importante destacar o seu art. 16, que dispõe sobre as informações dos padrões de segurança adotados pelos provedores de aplicação e provedores de conexão devem ser divulgadas de forma clara e acessível a qualquer interessado, preferencialmente por meio de seus sítios na internet, respeitando o direito de confidencialidade quanto aos segredos empresariais. TEMA 2 – LGPD: ASPECTOS GERAIS Atualmente, não há como falar em compliance digital sem falar em segurança e proteção de dados e privacidade, ou seja, sem citar a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Pode-se definir o compliance digital como o conjunto 5 de protocolos e práticas de segurança com que uma organização, pública ou privada, busca proteger dados e demais informações sigilosas de ataques ou de uso criminoso. Teixeira (2020) indica que a discussão acerca da necessidade de haver uma tutela jurídica para os dados e a privacidade das pessoas iniciou na década de 1970 na Europa, que culminou implicando na Diretiva n. 95/46/CE, que por sua vez foi substituída pelo Regulamento n. 2016/679166 (GDPR – General Data Protection Regulation; em português, Regulamento Geral de Proteção de Dados), o qual entrou em vigor em 2018. Essa norma europeia datada de 2016 passou a ter forte influência na aprovação de normas de proteção de dados pelo mundo, especialmente no Brasil. Sendo assim, a partir de 14 de agosto de 2018, foi incorporadaao ordenamento jurídico brasileiro a Lei n. 13.709/2018 – Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). No Brasil, as discussões sobre proteção da privacidade se desenvolveram, sobretudo, após a promulgação da Constituição Federal de 1988 e a edição do Código Civil de 2002, mas foram intensificadas com a chegada da internet ao país, na década de 1990, e as formas de captação de dados, formação e comercialização de mailing list e o envio de mensagens não solicitadas. Conforme Teixeira (2020), o regramento jurídico da proteção de dados no Brasil já estava previsto em outras normas jurídicas, como a Constituição Federal, entretanto, previsto sob a roupagem da tutela à privacidade (CF, art. 5º, X), e o sigilo da correspondência, da comunicação e dos dados (CF, art. 5º, XII). Embora sendo um tratamento mais superficial, os direitos estão previstos no Marco Civil da Internet (Lei n. 12.965/2014), tendo essa própria lei, em seu art. 3º, inciso. III, expressado que a proteção de dados é um princípio legal, mas “na forma da lei”. Ou seja, o próprio Marco Civil da Internet reconhece a necessidade de uma lei específica para proteção de dados. Apenas para a LGPD, há uma norma específica, ainda que anteriormente já existissem dispositivos legais que abordassem o tema de proteção de dados, tais como o Código de Defesa do Consumidor, o Marco Civil da Internet, a Lei do Cadastro Positivo, o Código Civil e a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente, dentre outros. Ou seja, a LGPD unificou importantes conceitos, obrigações, direitos e consequências pelo descumprimento de proteção de dados. Como vimos no capítulo anterior, não podemos afirmar que o Decreto n. 8.771/2016 (que regulamenta o Marco Civil da Internet) trate de dados cadastrais sob o aspecto do regime jurídico de proteção de dados, pois é voltado para atuação dos provedores. 6 Destarte, nos moldes do art. 2 da LGPD, a disciplina da proteção de dados pessoais tem como fundamentos: • respeito à privacidade; • autodeterminação informativa; • liberdade de expressão, de informação, de comunicação e de opinião; inviolabilidade da intimidade, da honra e da imagem; • desenvolvimento econômico e tecnológico e a inovação; • livre-iniciativa, livre concorrência e defesa do consumidor; • direitos humanos, livre desenvolvimento da personalidade, dignidade e exercício da cidadania pelas pessoas naturais. Interessante pontuar que a LGPD foi inicialmente aprovada prevendo um período de 18 meses para entrada em vigor. Contudo, com a aprovação da Medida Provisória n. 869/2018, tal prazo foi majorado para 24 meses, restando início (entrada em vigor) em agosto de 2020. De acordo com Blum e Moraes (2020), o objetivo da LGPD é regular o tratamento de dados pessoais por pessoas ou entidades do setor privado ou público, inclusive nos meios digitais, de consumidores, empregados, independentemente do país da sede ou no qual os dados estejam localizados com o propósito principal de proteger a liberdade, a privacidade e o livre desenvolvimento da pessoa natural. A nova lei aplica-se sempre que o tratamento for realizado no território nacional, tenha por objetivo a oferta, o fornecimento de bens ou a prestação de serviços, ou o tratamento de dados de indivíduos localizados no território nacional, ou os dados pessoais tenham sido coletados no território nacional. Em uma sociedade cada vez mais globalizada, informatizada, movida à tecnologia, os fundamentos da LGPD merecem extrema atenção, principalmente no que toca à proteção, à privacidade, à liberdade de expressão e à inviolabilidade da intimidade, honra e imagem, visto que tal norma protege todo e qualquer dado que identifica, ou a partir do qual possa ser identificada, uma pessoa natural. Os dados pessoais são as informações relacionadas ao titular dos dados, usualmente a pessoa natural identificada ou identificável pelo dado, podendo incluir nome, endereço, e-mail, idade, estado civil e situação patrimonial, obtidos em qualquer tipo de suporte (papel, eletrônico, informático, som e imagem etc.). Conforme art. 5, inciso II, a lei regulamentou a proteção dos chamados dados sensíveis: II - dado pessoal sensível: dado pessoal sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou a organização de caráter religioso, filosófico ou político, dado referente à saúde ou à 7 vida sexual, dado genético ou biométrico, quando vinculado a uma pessoa natural. (Brasil, 2018) De outro lado, a própria lei exclui o tratamento de dados pessoais em seu art. 4, ou seja, não é abrangido aquele tratamento realizado por pessoa física para fins exclusivamente particulares e não econômicos, ou para fins exclusivamente jornalísticos e artísticos ou acadêmico, ou ainda realizados para fins exclusivamente ligados à segurança pública, ou proveniente de território estrangeiro nos moldes do inciso IV do mesmo dispositivo legal. A LGPD considera a figura do agente de tratamento como sendo o controlador e operador, nos moldes do art. 5, inciso IX. O controlador pode ser pessoa natural ou jurídica, de direito público ou privado, com a competência para tomar as decisões referentes ao tratamento de dados pessoais, ao passo que o operador (pessoa natural ou jurídica) age em nome do controlador. Os titulares dos dados pessoais devem expressar seu consentimento (manifestação livre, informada e inequívoca pela qual o titular concorda com o tratamento de seus dados pessoais para uma finalidade determinada), expresso de forma clara e objetiva, e têm direito de obter do controlador, de acordo com o art. 18 da LGPD: • confirmação de tratamento; • acesso aos dados no prazo de até 15 dias do requerimento; • correção de dados incompletos, inexatos ou desatualizados; • anonimização, bloqueio ou eliminação de dados desnecessários, excessivos ou não tratados em desconformidade com o disposto na Lei; • portabilidade dos dados; • eliminação dos dados; • informações das entidades públicas e privadas com as quais o controlador realizou uso compartilhado de dados; • informações sobre a possibilidade de não fornecer o consentimento e as consequências negativas; • revogação do consentimento. Percebam que todo e qualquer dado será protegido; até aquele de funcionários e terceirizados deverá ser adequadamente arquivado. Ou seja, a LGPD trata de forma ampla todo e qualquer informação que diga respeito a dados protegidos pela lei. Por tal razão, sua aplicação é igualmente ampla, abrangendo 8 toda e qualquer empresa (pública ou privada) que possa ter acesso a dados pessoais protegidos. Dessa forma, a adequação das empresas à LGPD indica uma revisão estrutural dos dados, ou seja, levantamento e revisão de cláusulas e contratos, termos de consentimento, adequação da política de segurança de dados, treinamentos, levantamento de passivos de dados, adequação de sistemas, política de compliance digital e de segurança de dados, dentre outras exigências. A LGPD disciplina três figuras muitos importantes quanto à proteção de dados pessoais: o controlador, o operador e o encarregado de dados. De acordo com a referida lei, art. 5º, incisos VI e VII, respectivamente, controlador é a “pessoa natural ou jurídica, de direito público ou privado, a quem competem as decisões referentes ao tratamento de dados pessoais” (Brasil, 2018). O operador é a “pessoa natural ou jurídica, de direito público ou privado, que realiza o tratamento de dados pessoais em nome do controlador” (Brasil, 2018). Já conforme dispõe o art. 37, “o controlador e o operador devem manter registro das operações de tratamento de dados pessoais que realizarem, sobretudo quando a base legal for o interesse legítimo” (Brasil, 2018). O art. 38, caput, indica que quanto ao controlador, a Autoridade Nacional de Proteção deDados (ANPD) poderá determinar que ele elabore relatório de impacto à proteção de dados pessoais (RIPD), inclusive de dados sensíveis, referente às operações de tratamento de dados, respeitados os segredos comerciais e industriais. Assim, o RIPD é uma das formas do controle de dados que o controlador do tratamento dos dados terá que produzir, inclusive de dados sensíveis, referente às suas operações, mediante solicitação da autoridade nacional. Tal relatório deverá conter, no mínimo, a descrição dos tipos de dados coletados, a metodologia utilizada para a coleta e para a garantia da segurança das informações e a análise do controlador com relação a medidas, salvaguardas e mecanismos de mitigação de risco adotados. Quanto ao encarregado, embora o legislador nacional tenha copiado do GDPR, a figura do Data Protection Officer (DPO; em português, Oficial de Proteção de Dados), optou-se por denominá-lo encarregado pelo tratamento de dados pessoais, ou podemos nos referir simplesmente a encarregado. O encarregado pode ser uma pessoa natural ou jurídica. No primeiro caso, poderá ser normalmente um colaborador interno da empresa; no segundo caso, uma empresa prestadora de serviços. 9 Assim, conforme dispõe o inciso VIII do art. 5º da LGPD, o encarregado é a “pessoa indicada pelo controlador e operador para atuar como canal de comunicação entre o controlador, os titulares dos dados e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD)” (Brasil, 2018). Ademais, conforme depreende-se do art. 52, inciso II, da LGPD, quem não cumprir a Lei restará sujeito às penalidades de advertência com indicação de prazo para a correção: I - multa simples de até 2% (dois por cento) do faturamento do seu último exercício, excluídos os tributos, limitada a R$ 50.000.000,00 (cinquenta milhões de reais) por infração; II - multa diária, observado o limite em milhões indicado na lei; III - publicização da infração; IV - bloqueio; ou V - eliminação dos dados objeto da infração. Pode haver, inclusive, cumulação de penalidades. Assim, é indispensável que as empresas implementem uma nova cultura, com programa de integridade (compliance de dados e digital) com maior responsabilidade sobre o tratamento dos dados. Destarte, o compliance digital é a união entre a conformidade à lei e a tecnologia da informação para a gestão de riscos, de forma que dentro de um programa de compliance, a vertente de compliance digital se estrutura num programa de protocolos, procedimentos e regulamentos que visam adequar as práticas a normas de conduta e segurança internas e externas. TEMA 3 – LGPD: CONFORMIDADE Dando seguimento, a fim de buscar a implantação de um programa de compliance efetivo, passaremos a analisar oito itens essenciais para demonstração de conformidade de uma organização frente à LGPD. De acordo com Marinho (2020), o princípio da responsabilidade é fundamental para o atendimento aos requisitos da LGPD, de forma que as organizações que processam dados pessoais devem não só cumprir, mas também ser capazes de demonstrar o seu cumprimento com os requisitos dessas ordenações. Ou seja, dever ser e parecer ser. Os oito itens essenciais que devem existir para garantir a demonstração de conformidade de uma organização com as exigências da LGPD são: 1. Estabelecer uma estrutura de prestação de contas e governança; 2. Escopo e planejamento do projeto; 3. Realizar um inventário de dados e uma auditoria de fluxo de dados; 4. Realizar uma análise detalhada de brechas; 10 5. Desenvolver políticas, procedimentos e processos operacionais; 6. Proteger os dados pessoais por meio de medidas processuais e técnicas; 7. Comunicações; 8. Monitorar e auditar a conformidade. Para se estabelecer uma estrutura de prestação de contas e governança, a conformidade com a LGPD exige o suporte da alta gestão, sendo essencial que a diretoria entenda as implicações da lei (tanto positivas quanto negativas) para garantir os recursos necessários a fim de alcançar e manter a conformidade. Dessa forma, é necessário: • apresentar à alta gestão os riscos e oportunidades da LGPD; • obter suporte de gerenciamento para um projeto de conformidade com a LGPD; • atribuir a responsabilidade pela LGPD a uma pessoa da diretoria; • incorporar o risco de proteção de dados na estrutura de gerenciamento de riscos corporativos e controles internos. Quanto ao escopo e planejamento do projeto, depois de obter suporte de nível superior, será preciso descobrir quais áreas de sua organização se enquadram no escopo da LGPD e considerar quais processos existentes podem ser afetados, auxiliando em seus esforços de conformidade. Para isso, é preciso: • nomear e capacitar um gerente de projeto e indicar/nomear um encarregado de dados ou oficial de proteção de dados (DPO), se necessário; • identificar quais entidades estarão no escopo: unidades de negócio, filiais, terceirizados, localidades etc.; • identificar padrões ou sistemas de gerenciamento que possam fornecer uma estrutura para conformidade. Por exemplo: a ISO 27001 demonstra atendimento às melhores práticas de gerenciamento de segurança da informação e proteção de dados; • avaliar o princípio da proteção de dados incorporado e, por padrão, em relação a processos e sistemas atuais ou novos; • considerar as implicações de regras e leis anteriores à LGPD no seu planejamento. É impossível cumprir os requisitos de processamento de dados da LGPD se você não entender completamente quais dados processa e como você os 11 processa. Para isso, é necessário realizar um inventário de dados e uma auditoria de fluxo de dados, em que é necessário: • avaliar as categorias de dados mantidos, a origem e a base legal para o processamento. Mapear os fluxos de dados de, para, através e da própria organização; • usar o mapa de dados para identificar os riscos em suas atividades de processamento de dados, indicando se uma análise de impacto na proteção de dados (DPIA) é necessária; • criar a documentação do art. 30 — o registro de atividades de processamento de dados pessoais —, com base na auditoria do fluxo de dados e da análise do inventário. Em seguida, deve-se realizar uma análise detalhada de brechas. A partir de uma abordagem sensata da conformidade, é preciso estabelecer o que você ainda não faz — avaliar seus fluxos de trabalho, processos e procedimentos atuais — para identificar as lacunas que precisa preencher: • auditar sua posição de conformidade atual em relação aos requisitos da LGPD; • identificar as lacunas de conformidade que podem ser eliminadas com recursos próprios; • identificar as lacunas de conformidade que só podem ser eliminadas com auxílio de recursos externos. Por meio de uma avaliação de suas práticas de gerenciamento de privacidade e processamento de dados, é possível obter um relatório resumido das suas lacunas de conformidade com recomendações de correção, a fim de desenvolver políticas, procedimentos e processos operacionais. Assim, deve-se: • garantir que as políticas de proteção de dados, segurança de informação, código de conduta/ética e os avisos de privacidade estejam alinhados à LGPD; • sempre que precisar de consentimento, assegurar que atenda aos requisitos da LGPD; • revisar os contratos de funcionários, clientes e fornecedores, atualizando- os, se necessário; • planejar como reconhecer e lidar com as solicitações de acesso de sujeitos dos dados, fornecendo respostas no prazo estipulado; 12 • ter um processo para determinar se é necessária a análise de impacto de privacidade; • analisar se os mecanismos para transferências externas de dados são compatíveis com a proteção interna. A LGPD exige que as organizações implementem “medidas técnicas e organizacionais apropriadas” para garantir que os dados pessoais sejam processadosapropriadamente, de forma a proteger os dados pessoais por meio de medidas processuais e técnicas, sendo necessário: • ter uma política de segurança da informação em vigor, compartilhada e assimilada pelos colaboradores da organização; • ter uma política de privacidade em vigor, compartilhada e assimilada pelos colaboradores da organização; • praticar controles técnicos básicos, como os especificados por estruturas estabelecidas, como o Cyber Essentials; • implementar criptografia e/ou anonimizacão e/ou pseudonimização nos casos especificados por lei, quando apropriado; • garantir que políticas e procedimentos sejam implementados para detectar, relatar, investigar e responder a violações de dados pessoais. Manter sua conformidade com a LGPD depende muito de uma equipe entender corretamente o que deve fazer e “por quê”, de forma que todos os envolvidos no processamento de dados devem ser adequadamente capacitados e treinados para seguir processos e procedimentos definido, garantindo assim boas comunicações. Para tanto, é necessário: • estabelecer comunicações internas eficazes com as partes interessadas e a equipe é essencial, uma vez que a conformidade com a LGPD é um projeto de mudança de negócios; • proporcionar que os funcionários entendam a importância da proteção de dados e sejam treinados nos princípios básicos de LGPD e nos procedimentos que estão sendo implementados para garantir a conformidade. Por fim, a conformidade com a LGPD é um projeto dinâmico — realizando uma jornada em vez de buscar um destino. Deve-se executar auditorias internas periódicas e atualizar seus processos de proteção de dados, incluindo a verificação de seus registros de atividades de processamento (logs), mecanismos 13 de consentimento, testes de controles de segurança de informações e a realização de Análises de Impacto na Privacidade (PIAs). Nesse sentido, é preciso: • agendar auditorias regulares de atividades de processamento de dados e controles de segurança; • manter registros do processamento de dados pessoais atualizados; • empreender DPIAs e PIAs quando necessário (é um equívoco achar que todos os processos exigem). Ainda de acordo Marinho (2020), durante a coleta de dados, é possível que haja exposição de informações privadas que podem ser copiadas ou fotografadas. Casos comuns ocorrem durante uma campanha de novos clientes para cartões de crédito, normalmente realizada em portas de supermercados ou shoppings. Durante a coleta de dados, especialmente se for realizada em papel, a guarda de fichas cadastrais preenchidas deverá ter sua atenção redobrada, uma vez que a simples exposição de dados de titulares será considerada vazamento. Outro exemplo comum ocorre quando vamos a um hospital ou clínica e prestamos as informações necessárias para sermos atendidos. No momento em que a atendente clica no botão para impressão, ela se levanta e deixa nossos dados expostos na tela do PC. Em ambas as ocasiões, é necessário criar um “alerta” para quem está procedendo a coleta, a fim de que não se distraia no processo e eventualmente exponha de forma descuidada os dados. No papel, pode ser uma tarja vermelha, indicando que aquele documento deve ser armazenado com cuidado; no meio eletrônico, pode surgir um aviso, solicitando que se bloqueie a tela antes de se levantar para buscar a ficha impressa. Eventualmente, a empresa possui um processo de coleta que demandará uma atenção específica durante o atendimento ao titular dos dados. O importante é saber que existem momentos em que o funcionário está concentrado na atividade e pode não perceber que está expondo informações de quem está atendendo. É preciso criar um “lembrete” para esse momento, a fim de minimizar o risco de uma penalidade. Note que esse alerta pode estar direcionado para a coleta ou para o pedido de consentimento, dependendo da situação. O importante é que essa ação minimiza riscos e, em conjunto com treinamento e capacitação, reduz as vulnerabilidades comuns nesses momentos. 14 TEMA 4 – ISO 27000: SISTEMA DE GERENCIAMENTO DE SEGURANÇA DA INFORMAÇÃO A Organização Internacional para Padronização (ISO) é uma rede global fundada em 1947, formada atualmente por 165 organismos de normas nacionais e que publicou mais de 23 mil normas até julho de 2020. A ISO 9000 e a ISO 14000, que são respectivamente as certificações internacionais de gestão da qualidade e gestão ambiental para empresas, bem como as ISOs 37001 e 19600, (auditoria e gestão de compliance), já são de conhecimento comum de marcas/empresas que desejam se adequar às normas e práticas internacionais. Há ainda outras certificações internacionais que se aplicam à gestão de programa de compliance que tratam da segurança da informação em empresas. A primeira norma ISO que tratou sobre segurança de informação é a ISO 17799-2000, posteriormente renomeada para ISO 27002, que fornece as diretrizes para práticas de gestão de segurança da informação. A família de padrões ISO/IEC 27000, também conhecida como série ISO 27000, é uma série de práticas recomendadas para ajudar as organizações a melhorar a segurança da informação. Publicada pela ISO (International Organization for Standardization) e IEC (International Electrotechnical Commission), a série explica como implementar as melhores práticas de segurança da informação. A entidade faz isso definindo os requisitos do ISMS (Information Security Management System, ou Sistema de Gerenciamento de Segurança da Informação – SGSI). Um SGSI é uma abordagem sistemática de gestão de risco, contendo medidas que abordam os três pilares da segurança da informação: pessoas, processos e tecnologia. Atualmente, a família ISO 27000 é um conjunto de certificações, com aproximadamente 50 normas, que variam de temas mais técnicos como cybersecurity, segurança em redes até temas normais às organizações, tais como gestão de risco, incidentes, fornecedores e governança. Nessa família, a ISO 27011 aborda a gestão da segurança da informação para empresas de telecomunicações. Já a ISO 27018 explica como as organizações devem proteger informações confidenciais na nuvem. Por outro lado, a ISO 27015 é dedicada a negócios do ramo de serviços financeiros. Existem outras ISOs focadas em tópicos específicos da tecnologia da informação, como controles para cloud computing (ISO 27017) e segurança de redes (ISO 27033). 15 A ISO IEC 27001:2013 é o único padrão da série em que as organizações podem ser auditadas e certificadas. Isso porque ele contém uma visão geral de tudo o que você deve fazer para alcançar um programa de compliance/conformidade, que é expandida em cada um dos demais padrões. De acordo com Fernando Fonseca (2020), o SGSI, baseado no ciclo PDCA é especificado na ISO 27001, a qual é responsável pela manutenção dos controles e melhorias contínuas de segurança nas empresas. Nesse ciclo, encontra-se os seguintes elementos: • Comunicação com partes interessadas: transmitem suas expectativas e requisitos de segurança da informação que devem ser alcançados. • As estratégias de proteção são desenhadas, os recursos são alocados, o SGSI é estabelecido e a alta gestão da organização demonstra seu comprometimento com o sucesso de sua implantação e manutenção. • Os controles são implementados, os recursos necessários para a sua operação são alocados e o sistema passa a gerenciar a efetividade deles ao longo do tempo. • Os responsáveis pelo SGSI monitoram e fazem uma análise crítica da eficiência dos controles. • Os controles são revistos e, quando necessário, aprimorados para que possam oferecer uma proteção cada vez mais adequada. • As partes interessadas acompanham a eficiência do SGSI e conseguem gerenciar os riscos relacionados à segurança da informação na organização. Pelo fato de a norma ISO 27001 serauditável e certificável, o SGSI é o responsável por garantir que um determinado nível de segurança será mantido ao longo do tempo. Assim, a certificação traz confiabilidade e cria uma boa imagem de credibilidade, com boas práticas para implantação de um compliance digital. Considerando que a ISO 27002 fornece as diretrizes para a prática de gestão de segurança das informações, a fim de identificar a implantação de controles, dividindo em 14 seções (cada um tratando de um domínio de segurança da informação diferente), cada diretriz sugerida se torna obrigatória. Dessa forma, as empresas precisam criar evidências que estão cumprindo regularmente os controles de forma periódica, sendo revisto, nunca ultrapassando um ano, período no qual a certificação precisa ser revalidada. Por tal razão, a gestão e organização do programa de compliance digital e a aplicação das normas 16 da família ISO 27000 exige que as companhias façam análise de riscos de segurança periodicamente, a fim de garantir a sua eficácia e comprometimento. A implantação do programa de integridade exige que a alta administração demonstre comprometimento com a análise de riscos e a definição de objetivos e estratégias, garantindo que todos os recursos necessários não só para a implementação, mas também para a manutenção do sistema estejam disponíveis. A norma exige que toda a informação seja documentada apropriadamente, com identificação, definição e formato, com acompanhamento de desempenho, através da aplicação de indicadores que possibilitem analisar a eficiência do sistema, a fim de garantir uma melhoria contínua para corrigir não conformidades. TEMA 5 – SEGURANÇA DA INFORMAÇÃO A segurança da informação é uma palavra de ordem atualmente. No entanto, entender a importância do assunto não torna mais fácil a tarefa de colocá- la em prática no momento da implantação de um programa de compliance digital. A segurança da informação é um tema que ganhou corpo nos últimos anos, obtendo espaço nas mídias e tornando-se commodity, em empresas dos mais variados portes e segmentos. Sobretudo por considerar que os transtornos gerados por incidentes são variados, acarretando desde danos à imagem do negócio, vazamento de informações críticas e perdas financeiras substanciais. Por isso, é importante identificar os riscos aos quais os ativos de informação estão expostos (armazenamento e a troca de dados em meio digital). De acordo com Brosso e Moretzsohn (2020), são propriedades básicas da segurança da informação: confidencialidade, integridade, disponibilidade e autenticidade (CIDA), que garantem que a informação não seja disponibilizada ou revelada a indivíduos, entidades ou processos não autorizados. Dessas propriedades, destacam-se integridade, confidencialidade e disponibilidade. A integridade relaciona-se com a fiel característica da informação, sendo considerado risco à integridade quando uma mensagem é transferida com distorções, fatos falsos ou parciais. Somente pessoas autorizadas devem acessar determinado conteúdo, a fim de que a confidencialidade seja garantida. Dessa forma, como exemplo, se hackers forem capazes de invadir um sistema e roubar dados restritos, a confidencialidade está comprometida, ou ainda, se colaboradores tiverem acesso 17 a informações sigilosas internas da companhia, como folhas de salários e dados pessoais de outros funcionários. Uma informação deve ser acessada quando necessária para que sua disponibilidade seja garantida, visto que as informações devem ser rápidas e precisas, para garantir ainda que a fiscalização ocorra de forma célere. Tendo em vista, ainda, a crescente necessidade de garantir a segurança da informação de forma a comprovar a sua eficácia, as empresas têm buscado cada vez mais implantar um programa de integridade de compliance digital robusto, valendo-se inclusive das normas estabelecidas na ISO 27002. Como visto no tema anterior, a ISO 27002 fornece as diretrizes para a prática de gestão de segurança das informações, a fim de identificar a implantação de controles, dividindo em 14 seções. Portanto, devem ser focados nas boas práticas para a gestão da segurança da informação, garantindo assim um Sistema de Gestão de Segurança da Informação (SGSI) voltado à manutenção dos processos de segurança, bem como aos objetivos estratégicos da organização. Algumas atuações complementam a gestão de um programa de compliance digital efetiva, aliado a boas práticas para fortalecer a empresa, dentre elas testes periódicos de atualização constante, formas de proteção de dados, treinamentos com todos os usuários dos sistemas, atuação com boas práticas e governança corporativa para políticas de segurança da informação. É necessário inclusive a realização de levantamentos dos ativos das informações, backups periódicos, controles de acesso, manejo de senhas, segurança de redes Wi-Fi, dentre outros atos. FINALIZANDO A proteção das informações, garantindo a confidencialidade, integridade, disponibilidade e autenticidade, é cada vez mais necessária em todas as organizações empresariais, a fim de garantir a confiança de clientes, fornecedores e demais parceiros. Destarte, atualmente, o compliance digital aliado à LGPD e à segurança da informação deve ser considerado como base essencial nos negócios, a fim de garantir o sucesso e a sobrevivência das organizações. 18 REFERÊNCIAS BLUM, R. P. F.; MORAES, H. F. M. Manual de Compliance. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020. BRASIL. Decreto n. 8.420 de 18 de março de 2015. Disponível em: . Acesso em: 2 jul. 2021. BRASIL. Lei n. 12.846, de 1º de agosto de 2013. Disponível em: . Acesso em: 2 jul. 2021. MARINHO, F. Os 10 mandamentos da LGPD: como implementar a Lei Geral de Proteção de Dados em 14 passos. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2020. TEIXEIRA, T. Direito digital e processo eletrônico. 5. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2020. TEMA 1 – DECRETO n. 8.771/2016: REGULAMENTAÇÃO DO MARCO CIVIL DA INTERNET TEMA 2 – LGPD: ASPECTOS GERAIS TEMA 3 – LGPD: CONFORMIDADE TEMA 4 – ISO 27000: SISTEMA DE GERENCIAMENTO DE SEGURANÇA DA INFORMAÇÃO TEMA 5 – SEGURANÇA DA INFORMAÇÃO FINALIZANDO REFERÊNCIAS